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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/33581-8.txt b/33581-8.txt new file mode 100644 index 0000000..0e805fb --- /dev/null +++ b/33581-8.txt @@ -0,0 +1,6827 @@ +Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Vinte Annos de Vida Litteraria + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + + + + + Notas de transcrição: + + O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso + em 1908. + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a + leitura do texto, e que por isso não foram assinalados. + + No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali + apresentados. + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + ALBERTO PIMENTEL + + Vinte Annos de Vida Litteraria + + (2.ª edição, revista pelo auctor) + + + + + 1908 + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + LIVRARIA EDITORA + _Rua Augusta, 44 a 54_ + LISBOA + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA--10.º VOLUME + + VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA + + + + + COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA + + ALBERTO PIMENTEL + + Vinte Annos de Vida Litteraria + + (2.ª edição, revista pelo auctor) + + + + + 1908 + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + LIVRARIA EDITORA + _Rua Augusta, 44 a 54_ + LISBOA + + + + * * * * * + + + Composto e impresso na typographia + DA + Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA + _Rua Augusta, 44 a 54._ + LISBOA + + + * * * * * + + + + +A QUEM LER + +Prologo da 1.ª edição + + +Publiquei o livro _Atravez do passado_, receoso de que não agradasse por +ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na +_Illustracão Portugueza_ um artigo muito amavel para mim, a respeito +d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem +as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio +indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este +ponto de vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras +deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo +livro de memorias. + +De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeço +gostosamente a uma natural inclinação do meu espirito para a +reconstrucção do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo +as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. Não sei se até +certo ponto entrará n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver +pela memoria os dias que já vão longe. + +Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de vida litteraria sem +preoccupações de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto ás +pessoas de que falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua +hierarchia politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam +lembrando, e as recordações que me acudiam ao bico da penna. + +Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que +não versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo braço da +litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude +conhecer mais de perto certos homens. + +Lisboa, 42 de novembro de 1889. + + + ALBERTO PIMENTEL. + + + + +Prologo da 2.ª edição + + +Este livro deve certamente a boa fortuna de uma segunda edição ao facto +de contêr aspectos biographicos de alguns homens notaveis, com os quaes +eu convivi na minha mocidade. Esses homens marcaram uma época da vida +historica do paiz e, como sempre acontece, a morte deu-lhes maior +prestigio. De modo que o livro não envelheceu por causa d'elles, e só +d'elles recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição. + +Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo mais agradavel de +escrever a historia, ainda quando esse processo caia em mãos tão +incompetentes como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, que +não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente os biographados. + +Por mim julgo os outros: releio com prazer algum trecho de Plutarcho, e +custa-me a digerir meio capitulo de Tito Livio. + +Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me não aborreci de mim +mesmo revendo agora este livro, que ia ser reimpresso. Não é que o +repute perfeito, porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque +a sua revisão me reconduziu a uma época em que os homens e os factos +constituiram um vasto edificio de que só restam cinzas e ruinas. + +N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, communicativa e +cordeal. Não se tinham ainda desencadeado grandes borrascas de odios +pessoaes, que nos agitassem como n'esta hora. As amizades eram +perduraveis, e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos de +braços abertos, acarinhados, protegidos. E cada qual plantava os seus +ideaes sem incommodar o vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia +aquillo que nós desejariamos ter. + +A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi a de uma sociedade +remota, que me não propuz descrever, mas que resulta de um conjunto de +biographias n'elle agrupadas. + +E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me expulso do passado pela +distancia e do presente pela estranheza. + +Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. E se elle fôr o +_crescendo_ logico do dia de hoje, eu não sinto pena de o não viver--e +descançarei serenamente da fadiga do caminho. _Fatigatus ex itinere +sedebat._ + +Lisboa, 27 de abril de 1908. + + _O auctor_ + + * * * * * + + + + +I + +El-rei D. Luiz + + +Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo menos um pouco +arriscado: póde parecer adulação. Mas escrever de um rei que já não +existe, e contar lealmente os altos favores pessoaes que d'elle se +receberam, é mais do que gratidão--é justiça. + +Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca o disse em publico +durante a sua vida, para afastar de mim a suspeita de lisonjeiro, mas +não perdia occasião de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da +minha bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. Para estes escrevo. + +O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. Luiz I foi o rei, o +principe, o astro da côrte. O que n'elle sempre me captivou, desde o +primeiro dia em que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado e +complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector dos que rudemente +luctavam pela existencia. + +O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das paixões politicas, que +em torno d'elle se debatiam. O homem era sempre o mesmo para todos: bom, +compassivo, affectuoso. + +Chegava a causar assombro que um principe, tão preoccupado de negocios e +até de distracções, pudesse seguir tão attentamente o fio de tantissimas +pretensões particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia o +segredo. + +No conjunto das massas populares havia centenas de biographias que +el-rei D. Luiz conhecia pagina a pagina, e que acompanhava dia a dia. + +A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão de si mesma +quando, na turbamulta de uma festa ou de um espectaculo publico, o rei +divisasse, perdidas humildemente na multidão, as phisionomias de muitas +pessoas que occultamente havia protegido e felicitado. + +Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas +agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as +lisonjas cortezãs que por toda a parte o perseguiam. + +De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os +principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas, +de modo que não perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez +houvesse falado. + +Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da côrte, el-rei D. Luiz +me avistou na posição pouco evidente em que sempre procurei collocar-me, +e o seu olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, +correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil. + +Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, eu direi em singelas +palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei +D. Luiz I. + +Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação burocratica que +ainda assim vi com alegria cair do céu, tinha eu publicado +recentemente um livro, _A Porta do Paraiso_, chronica do reinado de +el-rei D. Pedro V. + +Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento +de Freitas Soares, que se me affeiçoára, dera-me uma carta de +apresentação para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio. + +Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me +immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente. + +Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de +pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo. +Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da +perseguição aos Cabraes, do _Espectro_, e na sua palavra, ás vezes +demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante. + +Terminou perguntando-me o que eu queria. + +Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe +offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei +que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do +meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se não se +tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do +senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia prender, +como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua +magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer +escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real. + +Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia +seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Paço; que estivesse eu, á +uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua +carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho. + +No dia seguinte, á hora indicada, partimos do Terreiro do Paço para a +Ajuda, na mesma carruagem, e dez minutos depois de chegarmos ao +Paço, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para +uma das salas interiores. + +Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros +passos nos tapetes da côrte, el-rei, encostado ao vão de uma janella, e +fumando charuto, com as mãos mettidas nos bolsos de um _veston_, +conversava com o ministro do reino. + +Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei +disse-me palavras tão obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha +confusão. + +Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no +livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que já o tinha lido. Referiu-se +a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle +proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um +relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado +Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras, +perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande +segurança de critica, os seus romances, acceitando a minha opinião de +que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza. + +E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mão direita--o +que Sampaio me advertira--el-rei, certamente por ter reconhecido que eu +fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto. + +Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me: + +--Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito. + +Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento. + +Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou +uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que +resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel. + +Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos falando de +escriptores portuenses, fingi-me distraído, não o accendi. Nem me era +facil saber como havia de accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, +Sampaio não fumava; só o rei estava fumando. + +Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o charuto, offereceu-me lume. + +Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze +annos desesperadamente--mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás +vezes o seu fumo para incommodar-me. + +O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o +lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era +fortissimo. + +A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve +trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se +havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava +no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que chegára o presidente do +conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou +um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei: + +--Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o sem acanhamento. + +Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de +eu ter deixado apagar o charuto. + +Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, Sampaio apresentou-me +a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez +entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle +ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para fumar um cigarro, a +fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:--_similia similibus +curantur_. + +As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia. + +Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer a el-rei um +exemplar dos livros que ia publicando. + +El-rei dizia-me invariavelmente: + +--Procure-me sempre que precisar de mim. + +De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu +expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando +charuto, soprava ao fumo para o afastar. + +Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do bem-estar da minha +familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de +amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado +melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da camara dos pares; +creavam-se logares de redactores. Mas as pretensões, e algumas d'ellas +fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um +d'esses logares, mas não dispondo de influencia que pudesse dar-me +probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de +el-rei. + +Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois era recebido por +sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me +dispensou. E, tendo-me ouvido, disse: + +--Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir +até onde pudermos. É muito justo que lhe dêem alguma folga aos seus +incessantes trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos annos +um trabalho d'esses. + +No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de +Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta: + +--Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei? + +Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido +com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado. + +--O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª + +--Diga lá. + +--O meu empenho... fui eu só. + +Contei então a Fontes tudo quanto se passára. + +E Fontes limitou-se a dizer-me: + +--El-rei tem o maior empenho no seu despacho. + +Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. Sua magestade, apenas +me viu, perguntou-me: + +--Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão? + +--Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer a inexcedivel diligencia +de vossa magestade. Acabo de falar com o presidente do conselho. + +--Eu falei-lhe hontem mesmo. + +Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto. + +Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações para a camara dos +pares. O meu nome nunca foi lembrado pelos jornaes. A politica interveio +n'este negocio, como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a minha +pretensão triumphou, graças á protecção do rei. + +Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, el-rei dignou-se +abraçar-me dizendo: + +--Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance um pouco. Era justo. +Era justo. + +Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não tinha os seus enxutos. + +Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, não direi de +amizade, mas de franqueza. + +Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta minha sobre assumptos +que não eram pessoaes. + +Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa carta. Ha quem conheça +a carta, e possa contar a historia um dia, querendo. + +A ultima vez que me demorei conversando com el-rei foi para lhe fazer o +pedido de alguns brindes da familia real para um bazar de Setubal. El +rei disse-me logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito o +meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, e que o principe +real estava estudando as suas lições, motivo por que transmittiria á +rainha e ao principe aquella solicitação. + +N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír da noite recebia eu +n'aquella cidade um telegramma do sr. D. Pedro Arcos participando-me que +tanto a rainha como o principe mandariam brindes para o bazar. + +......................................................................... + +El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu coração uma saudade +indelevel pelo homem bom, pelo desvelado protector, que tanto me ajudou +a desbravar o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados além da +campa, o rei de Portugal deve repousar no seio de Deus n'uma eternidade +bem aventurada. Quanto á minha gratidão, será eterna, porque eu +ensinarei a meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a +tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo de el-rei D. +Luiz I. + + * * * * * + + + + +II + +Meu pae + + +Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista quanto é sincera +e aguda. Não sei, não quero saber o que se tem passado fóra de mim +proprio: tenho vivido apenas das minhas recordações dolorosas, +concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o drama intimo do +meu luto e da minha tristeza. + +E depois os leitores têem de certo para mim esse doce sentimento de +condolencia que resulta de uma convivencia longa e leal. Somos bons +amigos ha vinte annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto +adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado as suas +opiniões: desculpar-me-hão, portanto, este desafogo de uma saudade +irremediavel, tão sagrada e tão justa--a saudade de um filho que deplora +a morte de seu pae. + +Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios do leitor um ligeiro +sorriso, fique esse sorriso á conta de compensação da magua que lhe +posso causar hoje obrigando-o a lêr as palavras que certamente me +acudirão orvalhadas de lagrimas. + +Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante dos olhos todos os +lances da minha vida desde a primeira infancia tão descuidosa e alegre, +e no meio d'esse enxame de recordações entrevejo, a contrastar com +ellas, o semblante demudado e quasi cadaverico do meu querido +octogenario, que ainda ha oito dias contemplei semi-morto no seu leito +de agonia. + +Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não houvesse entregado ao +cultivo das bellas-lettras, mas unicamente aos aridos cuidados da sua +profissão de medico; elle, que devia ter com a morte essa fria +familiaridade que a faz encarar tranquillamente como o desfecho forçado +de todos os actos phisiologicos, acharia comtudo no fundo do seu coração +de pae um terno perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que o +levaria a encher de flores a sepultura do filho. + +Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria a mesma delicadeza +de sentimento, a mesma suavidade de lagrimas, e continuar a ver n'elle +não aquillo a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, a +bella alma antiga, capaz de entender todos os carinhos e de comprehender +todas as dedicações. + +Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi extincta, que +trouxeram do lar paterno a noção austera do dever e a impressão profunda +dos bons exemplos caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, +hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da sua vida em plena +atmosphera de tradições sagradas e inviolaveis, e que professavam pelo +passado um culto quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes +velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos de avós +fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas não passavam sem +commemoração domestica: eram outras tantas festas de familia, muito +intimas e muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes da +Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados com devoção tradicional. +E sentar-se á mesa, d'esses dias memorandos, rodeados de todos os filhos +e de todos os parentes, era para os homens de uma geração quasi extincta +um doce prazer patriarchal, puro e simples, o goso perenne da felicidade +pela familia. + +Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros homens, dilatando a +sua esphera de acção, tornaram-se cosmopolitas, entraram n'uma vida +mundana, que os leva para longe do berço das suas tradições de familia, +lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, de preoccupações e +trabalhos. Esta corrente moderna, esta evolução do espirito humano, +assombra os velhos de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os +assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as suas arvores e os +seus casaes, era o eixo obrigado de todos os movimentos psichologicos, o +centro em torno do qual girava e se consumia toda a sua actividade. Ver +aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era como viver ainda em +espirito para elles e no meio d'elles, prolongar pela propria existencia +a d'aquelles entes queridos que tinham constituido a familia, e haviam +desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se no Douro, n'uma +quinta dos seus maiores, contemplando as arvores que elles tinham +mandado plantar, colhendo os fructos dos pomares que elles haviam +disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo á sua +clinica portuense, tratando dedicadamente os seus doentes que conhecia +ha longos annos, e que iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes +de _partido_. Tinha extremos de paciencia para os escutar, para os +attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia da sciencia que +exercia, quando os não podia salvar. Havia no Passeio da Cordoaria um +major reformado que era um verdadeiro _doente de scisma_, o protagonista +bondoso de uma comedia molieresca, que se repetia todos os dias. + +--Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel. + +O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão querido voltarete, +dava-se pressa em acudir á chamada. + +--Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. Palavra de honra que não +vae. Somos amigos antigos: póde acreditar-me. Coma a sua asinha de +frango, tome a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e durma. + +No dia seguinte a mesma scena. + +Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos juntos uma tarde, e +elle pediu-me que o ficasse esperando no Jardim da Cordoaria. + +--Vae ver o major? perguntei-lhe. + +--Vou. + +--Mas elle mandou-o chamar? + +--Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou eu que vou de motu +proprio: o pobre major não dura oito dias, mas, felizmente para elle, já +não scisma na sua doença. + +Quando eu estive no Porto a semana passada, todas as velhas e lazaras +dos recolhimentos das Fontainhas, de que meu pae fôra por largos annos +clinico, mandavam saber d'elle. + +Achei commovente este testemunho de gratidão, mas não era difficil +encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as carinhosamente. + +Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos. + +--De que se queixa? perguntava o medico a uma nonagenaria. + +--Dôres... Afflicções... Eu sei lá!... + +--Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho isso mesmo. + +--Tem?! + +--Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. Pois, minha boa +doentinha, tome um chásinho de erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao +estomago. Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades não ha +outro remedio: a velhice não se cura. Deitar grandes remendos n'um +predio velho é perder tempo e trabalho. Vamos assim amparando as nossas +ruinas com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e hei de +achal-a mais socegada. + +É incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico +forense. Quando eu e meus irmãos eramos pequenos, embirravamos muito de +que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: já sabiamos +que tinha estado retalhando um cadaver. + +Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente á galhofa, e +dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite. + +Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou +inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do +dipheterismo. + +Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creança; cuido que +havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicações. Os +collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que +teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que +elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha mãe: + +--Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma torrada. + +--Pelo amor de Deus! Isso não! + +--Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada. + +Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, contrariando-o. +D'ahi a oito dias levantava-se do leito. + +--Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais. + +Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre +manifesto nas suas apreciações medicas; uma pontinha de scepticismo +fazia-o desdenhar do seu diploma, que principiára a conquistar aos +17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica. + +Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se a morte com +heroica serenidade. Era o declinar de um bom. Como eu, sem grande +esforço, o pudesse voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo +da sua lethargia: + +--Isto é quasi um cadaver. + +Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me logo em seguida +palavras de carinhosa ternura, que eu não pude agradecer suffocado pelas +lagrimas. + +Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos ultimos dias um corpo +devorado por dôres lancinantes, que elle indicava levando a mão ao +peito. E, na sua dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz +entrecortada e difficil: + +--Rezem. + +Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, do corpo que se +esphacelava. + +Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse querido octogenario que, +sem ambições nem invejas, parecia não ter biographia. Mas o leitor +comprehende que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de penna. O +sacrificio tem sido superior ás minhas forças. Mas o coração, posto que +dilacerado, não me permittia que, escrevendo de tantos homens a cuja +memoria devo a homenagem da minha saudade, deixasse de falar d'aquelle +cujo sangue corre nas minhas veias, o mais dedicado, e tambem o mais +amado, de todos elles. + + +Junho de 1889. + + * * * * * + + + + +III + +Alexandre Herculano + + +Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador +portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e +d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula _O capote do +sr. Braz_. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu +perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, _O Porto por fóra +e por dentro_. + +Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de +Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua +ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que +acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter +elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia, +definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia. + +Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára +na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com +D. Pedro a Portugal. + +Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros +homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente +subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os +defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no +forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como +Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada +passo os contraria e azéda. + +Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida +politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta +cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás +conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de +gabinete. + +Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia +poetas: militava comnosco o auctor de _D. Branca_, do _Camões_, de _João +Minino_; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os +ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do +Mindello, não tiveram um cantor: _e apenas eu, o mais obscuro de todos, +salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza +poetica_.» + +_A Voz do propheta_, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não +é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a +colera sublime de um poeta da _Carta_, deixem-me dizer assim; de um +coração delicado que via ligada á memoria da _Carta_ a recordação dos +seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança. + +«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança +nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. +_Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi +dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será +provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas._ + +Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista +exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder, +fazendo a revolução ou defendendo a _Carta_, d'esses homens que +accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham +principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista +desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo +sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa. + +Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa +justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas +que aquelle homem não _fazia sombra_ a ninguem como politico. + +Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um +teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou +em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado. + +Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão, +escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que +nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por +aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em +pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de +que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado. + +Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de +emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O +caso era entrar, para _chegar_. Mas ao passo que Garrett comprehendia +isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a +ministro, e Herculano abandonou a vida politica. + +Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de +maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na +discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho. + +_O sr. Alexandre Herculano_--Sr. presidente, erguendo-me para dar a +minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta +camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito +passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para +obter a qual _ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma +carta, ou uma palavra_; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, +sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento +de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos +acompanhe por todo o resto da vida. + +«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as +convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar +o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais +que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta +camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o +sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e +leal amisade. (_Grande attenção_). + +«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e +ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não +satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas +relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro +ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o +bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem +e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio? +Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o +haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram +para este logar. + +«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem +sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao +que parece) sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha +havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo. + +«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da +minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de +patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos +jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o +ferrete de lista ingleza.» + + +Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas. + +Citaremos as seguintes: + + +«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o +partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio +passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. +(_Vivissimos apoiados_). + +«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem, +e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que +chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem +as cinzas dos nossos paes! (_Muitos apoiados_). + +«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes +d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela +independencia nacional! + +«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se +homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites +longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos +olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de +esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem +que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus +companheiros d'armas. Como é possivel que hoje irmãos reneguem da +confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o +procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não +tivesse por bandeira--_independencia e liberdade_?» (Vozes: _Muito bem, +muito bem_). + + +Este discurso de estreia revela o homem de lettras _depaysé_ no +parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos +litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á +terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz +suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista +que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos +os incidentes facciosos e obstruccionistas, o _rabula_, o furão da +politica. + +Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano, +sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras. +Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da +politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da +amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e +impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um +feitio ás vezes aspero, um coração de ouro. + +Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do +governo. + +Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de +Herculano. + +«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre +deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara, +que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur +de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras sobre o ministerio a +que eu pertenço. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e +tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa de +que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo +contrario se em algum de nós ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de +que as suas palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia +na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima para mim, a +maior em que me tenho visto até agora.» + +Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, como suppomos, viu em +Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos +combates de todos os dias, só uma vez por outra havia de tomar a palavra +em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu +espirito. + +Assim aconteceu; a raposa vira bem. + +Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commissão +de instrucção publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da +jubilação dos professores. + +Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso: + +«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição de Evora, ou fazia +cousa similhante está aposentado; e creio que não ha muita justiça em um +tal accumular. (Uma voz--E o que tocava os folles do orgam na +Patriarchal!) É por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve +o parecer da commissão de instrucção publica, sobre o direito +d'accumulações dos professores, e que as commissões respectivas dêem o +seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma +accumulação competir, se torne extensiva a disposição d'esta lei.» + +Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o +mesmo assumpto, e dizia: + +«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação aos +professores, é porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de +serviço accumularam na mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, +o professor de instrucção primaria, converteu um bocado de pedra ou +um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem +para a escola primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu tenho +conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do +que de uma alimaria: isto é verdade, e o professor de instrucção +primaria converte este ente n'um homem, e em um cidadão productivo para +a sua patria, o que por certo não seria, se não fosse o cuidado do +professor de instrucção primaria. Estes homens passam ás escolas +superiores, e vão ser magistrados, e vão ser militares, vão ser +fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, +tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que +como todos sabem (porque todos aqui sabem o que é economia politica) +consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. +Esses capitaes são os que os professores accumulam nas mãos do Estado, +porque elles são a origem primordial d'elles.» + +Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por +parte da commissão de instrucção publica, uma substituição ou antes nova +redacção do projecto de lei, que restituia os professores da academia do +Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em +consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de +setembro de 1836. + +Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos +abusos de liberdade de imprensa. + +Alexandre Herculano tomou a mão para falar. + +É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso: + +«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes--abusos +contra a religião, e a moralidade publica--abusos contra a honra dos +cidadãos--e abusos contra a segurança do Estado.--Entendo que qualquer +d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra elles devem ser +tambem gravissimas: eu não tinha duvida nenhuma em votar, que o homem +que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa, +soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque é um +assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um +punhal na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo entre estes +dois assassinos; não sei se diga, que detesto mais o assassino da alma, +aquelle que me rouba todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. +presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas não queria nenhuns +embaraços para o exercicio d'uma garantia, que pela constituição têem +todos os cidadãos; porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser +legista, mas entendo, que uma lei que regula não destroe, e eu vejo +destruido este direito para todos os que não tiverem os meios de fazer +este deposito, ou dar esta fiança». + +Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento do estado, +Herculano occupou-se da verba destinada á conservação dos monumentos +nacionaes. + +«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer só com oito +contos, quando para o convento de Mafra vejo que são precisos treze; +isto é, só para este edificio; propondo-se agora oito contos para os +reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr. +ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais +conveniente que se espere pela presença do sr. ministro para vermos o +que elle diz a este respeito.» + +Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, conformou-se com as +explicações dadas pela commissão. + +«Não queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que nós +lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina, +mesmo porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam capazes +de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima +declaração da commissão; porque ha muitos monumentos que não estão +incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso +citar o castello da Feira que se está arruinando e deitando abaixo, e +pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que é dono das terras +visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação esse primor +d'arte. Muitos outros ha que têem a mesma sorte.» + +Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que não mira a fins +politicos, que expõe parcimoniosamente a sua opinião, até com certa +hesitação algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; +e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, descobrimos +perfeitamente o gosto, a predilecção, a tendencia do homem de lettras, +que faz a apologia do professor de instrucção primaria, o primeiro +cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que são a +genuina expressão da arte nacional na serie dos tempos. + +Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questão +da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett tão activa parte +tomou, sendo sua a iniciativa do projecto. + +Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações. + +Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal, +veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não +tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, +impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que +Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha +n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de +1841. Diz Herculano a Garrett: + +«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse seguir as +ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de +mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa +provir-me. _Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e +eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não +me envergonho de raciocinar e aprender._» + +Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade +litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre +esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo +faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o +sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os +proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. +Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria, +reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor, +reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros. + +Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro +das suas concepções geniaes. + +Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais +avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas +sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a +vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir +por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu. + +Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra. +Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados. +Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de +Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no +parlamento como _apagador_ encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se +que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um _apagador_ +satirisado. Não acceitamos esta versão. É certo que elle renunciou o +logar de deputado, e que a razão adduzida na sua _Carta aos eleitores de +Cintra_, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de +futil. + +Essa razão era--_que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu +representante individuo que lhe não pertença_. + +Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que +Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento +por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo, +contrariado e constrangido. + +O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre +politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros. + +Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da +primeira commissão de verificação de poderes acceitando a renuncia do +logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito +pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara. + +O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer da commissão: + +«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado +Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente no caso da lei, +convida-o a acceitar o logar de deputado.» + +Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela +imprensa as razões da sua renuncia, não julgaria logico mudar da +opinião, mas que a camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se +achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento. + +Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegádo +tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de +accordo com as suas palavras, _porque o sr. Alexandre Herculano faz +uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria_; mas a questão era +outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar. + +A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e +o parecer foi approvado. + +Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes com agreste +voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada ás correntes +sociaes que em sentido contrario ás suas tendencias os solicitam. + +Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisára no seu +aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento, +onde se reconhecêra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio. + +El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, quiz +fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria do que dar-lhe um premio +politico: nomeou-o par do reino. Transcrevemos o diploma official da +nomeação, que foi publicado no _Diario do Governo_: + + +_Ministerio dos negocios do reino_ + + +«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das +Sciencias, antigo deputado da nação portugueza. Eu El-rei vos envio +muito saudar. Tomando em consideração os vossos merecimentos e +qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos +par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e +effeitos devidos. Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de +1861.--Rei.--_Marquez de Loulé._--Para Alexandre Herculano de Carvalho, +socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação +portugueza.» + + +Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa mercê tinha +resaibos de iguaria politica, para apreciar a qual o seu paladar +estava desde muito tempo embotado. + +Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia, +o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. +A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons +duros de mau humor para com a sociedade. + +Recusou a mercê regia. + +Temos fortes razões para crêr que o requerimento em que renunciou o +pariato fomos nós arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio +do reino. + +Diz assim: + + «Illmo. e Exmo. Sr. + + +«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do poder moderador, Houve +por bem honrar-me com a nomeação de membro da Camara dos Dignos Pares do +Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio esta demonstração +de confianca d'um Soberano, que a historia póde qualificar como a mais +nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e +que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem do que ao respeito +como magistrado supremo. + +Mas as condições da humanidade alcançam reis e subditos: reis e subditos +estão sujeitos a fazer apreciações inexactas ou incompletas. Podem +illudir-se ás vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas +inspirações da justiça e é possivel que em relação a mim se désse uma +circumstancia d'essas. + +Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz +sobradamente intelligivel é que o meu concurso nas deliberações da +camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando não inconveniente. +Dispense-me v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e invencivel +persuasão, razões tristes para mim, e porventura demasiado longas e +tediosas para v. ex.ª + +Não creio que faltem em Portugal homens de saber e virtude que +tenham esperança e fé. São esses que pódem, sem a temeridade de Ora, +erguer a mão para amparar a arca santa das instituições. É provavel que +saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram tambem honrados com +a confiança da corôa. + +Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da camara dos Dignos Pares +do Reino á presença de Sua Magestade El-Rei, que, acceitando-a +benignamente, ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da sua +inexgotavel indulgencia para comigo. + +Deus Guarde a v. ex.ª--Lisboa, 18 de maio de 1861.--Illmo. e exmo. sr. +Marquez de Loulé, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino. + + + _A. Herculano._» + + +O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, que nos conste, não fôra +integralmente publicado no _Diario do Governo_, posto que a elle se +alluda em outro diploma official. + +«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano de Carvalho, socio +effectivo da Academia Real das Sciencias, Hei por bem acceitar a +renuncia por elle feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do +Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo. O +Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino assim o tenha +entendido e faça executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de +1861.--Rei.--_Marquez de Loulé_.» + +Do mesmo modo não foi publicada a portaria que acompanhou a remessa do +decreto real. + +«Para Alexandre Herculano de Carvalho: + +«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado dos Negocios do +Reino, remetter a Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da +Academia Real das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia +authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo qual Houve por +bem acceitar a renuncia por elle feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto +Senhor, da Dignidade de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta Regia +de 17 de maio proximo findo, o que na data de hoje se participa á Camara +dos Dignos Pares do Reino. Paço das Necessidades, em 8 de junho de +1861.--_Marquez de Loulé_.» + +O unico documento que encontramos estampado no _Diario do Governo_ é o +seguinte aviso da presidencia do conselho de ministros á camara dos pares: + + +_Ministerio do Reino_ + + +«Direcção geral da administração politica--1.ª repartição--Livro 15 n.º +143==Illmo. e Exmo. Sr.--Tenho a honra de participar a V. Ex.ª para +conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade +El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado +effectivo João de Souza Pinto Magalhães, e pelo socio effectivo da +Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por +bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles +feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do +Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo +findo. + +«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8 +de junho de 1861.--Illmo. e Exmo. Sr. Presidente da camara dos Dignos +Pares do Reino.--_Marquez de Loulé._» + +As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este +capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas proporções. + + * * * * * + + + + +IV + +José Gomes Monteiro + + +Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia, +foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto +verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas +eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão +inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte, +eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus +concidadãos. + +Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na +conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma +veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é +apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as +sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor +dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol +que se levanta, deslisa toda a existencia da familia e da nação. +Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes +identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso +intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram +n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este +facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, +absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros +cheia do perfume da primavera, e do colorido _chatoyant_ de tudo quanto +é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na +voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as +imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as +conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não +será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil +aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na +marcha das suas aspirações sociaes. + +Em Portugal--digamos cruamente a verdade--a mocidade habituou-se a +caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalião, pedras contra o +passado. A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor +magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos. +Garrett, Herculano, Castilho, José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo +sem ter provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas vezes, +a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles, +procurando abalar ás mãos ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico +descia a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que recordar +estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme +irreverencia o só proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem +dado em troca a geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor e +dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de +reconstrucção sérias e proveitosas, poucas. Por cada mil alavancas +que revolvem os alicerces do passado, uma só procura alinhar o blocus +faceado na esquadria do novo edificio. + +Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei jámais cumplice da +irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu +chapeu para saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. E +quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu não tenho +duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha +rota pelo esteiro do seu leme. + +Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de +José Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias +especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre, +amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos, +talvez. + + * * * * * + +José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de março de 1807. + +Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de +leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal +para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito, +que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde +tudo se prendia ainda ao passado pelos élos oxidados da tradição +scientifica, e onde começava a fermentar a discordia politica, que veio +a motivar a emigração de 1828. + +Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em +Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos +revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanças de +vida prospera. Este desastre amargurára o coração do homem; mas o +litterato tirára enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura +litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves +complicações da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travára +relações de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os +emigrados que, depois da victoria do partido avançado, foram os +primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto +conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com +notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente +analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma +imprevista luz para a verdadeira interpretação dos textos; no +estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da +patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e +foi então que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um +exemplar da primeira edição dos _Autos_ de Gil Vicente, pôde preparar, +auxiliado por José Victorino Barreto Feio, a edição critica das obras do +fundador do theatro portuguez. + +Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, não obstante +quaesquer ligeiros senões que possam apontar-se-lhe, e haver sido +realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem +os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga, +escrevendo de José Gomes Monteiro no 5.º volume da _Revista +Comtemporanea_,[1] dizia a este respeito: «O trabalho d'este +livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela +introducção com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante +creança e é talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje não lhe +quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem.» Como quer que +fosse, era incontestavel o valor das investigações biographicas a +respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, _o +que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto +Feio_, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmãos +Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da +edição de Hamburgo por _convencidos de que a respeito da vida e obras do +nosso poeta não poderiamos dizer mais nem melhor_. Gomes Monteiro +acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a +reconhecer-lhe as imperfeições, postoque ligeiras, algumas das quaes +estavam corrigidas á penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se +essas pequenas incorrecções á conta da mocidade do auctor, como o sr. +Theophilo Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, com +que José Gomes Monteiro luctava fóra de Portugal. + +Se considerarmos, porém, a edição critica das obras de Gil Vicente, e +das obras de Camões, na sua influencia sobre a renascença litteraria de +Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em +verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre o proprio espirito +de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso +paiz. E, a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez o sr. +Theophilo Braga, no seu artigo da _Revista Contemporanea_: «Desde que +proferiu este _surge et ambula_, a Allemanha, a Inglaterra, a França, +estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes +Monteiro dando-lhe parte de um drama _Um auto de Gil Vicente_, com o +qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez, +apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que não +sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia +a paternidade. A renascença em Portugal deve-se a tres homens: +Garrett, Alexandre Herculano e José Gomes Monteiro.» + +Pela observação profunda dos textos durante a elaboração das edições +criticas de Gil Vicente e Camões, pelas simultaneas investigações +biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno +dos processos analiticos, que estavam aliás nas condições phisiologicas +do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa +residencia em Hamburgo assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de +reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de +Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela +consubstanciação com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a +historia completa da nossa nacionalidade. + +Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade--o Porto--Gomes +Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos +materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que +na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio +historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas +interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra +proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte +desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e +chronologica de um corpo de historia. + +Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras +publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas +instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi +assim que em 1849 appareceu em opusculo a _Carta ao illmo. sr. Thomaz +Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra +uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. +Alexandre de Humbold_. + +N'este trabalho, em que os elementos da these são procurados com +notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou +que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, +nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem _fingimento que o +poeta fez_, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de +Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua +argumentação na concordancia das descripções do episodio com as +particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica +da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3] +mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito +sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente +recebido por todo o paiz. + +A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de +trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito, +como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a +litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine +para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame +dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos +litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já +dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que +emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia +litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do +artigo que a _Revista Peninsular_[4] inseriu ácerca da antiga +trova do _Figueiral Figueiredo_, que José Gomes Monteiro suppunha +filiada na lenda gallega de _Val-Doncel_. + + * * * * * + +Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17: + +«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos +monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar +deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,--o _Amadis de Gaula_--é +de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos +historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de +grandes criticos, tem sido considerado como uma _singular excepção_ ao +systema de _decomposição historica_. Eu mostrarei comtudo, em um +trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os +seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da +historia--da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos +d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media. +Ali, dissolvendo as tabulas do _Amadis_ em factos historicos, darei a +mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos +trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de _Endriago_, a mais +bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um +exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades +primitivas da litteratura.» + +Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou +inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito +da ilha de Venus--o confronto do romance com a historia. Só por um +pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia +universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos +episodios do romance. Procurou e achou. _Dissolvendo as fabulas do +«AMADIS» em factos historicos_, como elle proprio escreveu, pôde +localisar a acção do romance no tempo de Ricardo _Coração de Leão_, +enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época, +uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que +Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo +cavalheiresco. + +Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da +_Menina e moça_ de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as +intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de +paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto +bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre +Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a +edição critica da _Menina e moça_. + +A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente +investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta +illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me +dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance _Um +conflicto na côrte_, baseando-me nos documentos que espontaneamente me +facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica +paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas +eclogas _Aleixo_ e _Andrés_ que José Gomes Monteiro encontrou a prova +d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição +ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida +dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do +romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, +que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a. + +Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as +suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da _Arte de +monteria_, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre +varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos os que podiam +servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto. + +Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder +na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das +suas obras impressas. + +Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em +1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas +dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de _Eccos da lyra +teutonica_. + +Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos +predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida +na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente +conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava +que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em +muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, +á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos +seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao +nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a +exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das +palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser +confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das +poesias a traducção vem a par do original. + +Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de +Castilho--desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas--com a +publicação do livro _Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho_. +Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma +resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever +rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu +vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio +o explicava, sempre que na redacção do _Primeiro de Janeiro_ recebia +um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal +hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com +auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a +traducção do _Fausto_, lavrava um protesto energico em nome da velhice +desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as +maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada +tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, +resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe +de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o +respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois +Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a +velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da +Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo +insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um +parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com +horror.» A sua alma precisava d'este desafogo--a tão pequena distancia +da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, +do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José +Gomes Monteiro a proposito da publicação dos _Criticos do Fausto_. Essa +carta, era breve, mas profundamente energica. _Nunca as mãos lhe doiam_, +dizia o auctor da _Historia de Portugal_ áquelle que muitas pessoas +denominavam o _Alexandre Herculano do Porto_. + +Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas +fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo +unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite +misteriosa da morte... + +Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces, das mais gratas +recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os +seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos +_Lusiadas_, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro +centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de +José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela +sua preciosa _camoneana_, pondo diante de si as suas excellentes notas +sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar +a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem +tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu +espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi +abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo. + +A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade +dos mortos. + + * * * * * + +Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens +importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra +um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções +litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio +correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de +varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se +como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o +seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por +diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja +viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo. + +Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta +livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os +livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o +descanso productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando +dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, +amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no +trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu +silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho +Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não +tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes +me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui +estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver +depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos +cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio +eterno dos livros. + +A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade +tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A +renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a +Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia +italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes +do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos +seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus +cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como +o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz +os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e +austeros. + +--Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria +lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle +livro. + +Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a +avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem +principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de +ser aspirado pelos estranhos. + + [1] Pag. 236. + + [2] _Diccionario bibliographico portuguez_, vol. 4.º, pag. 363. + + [3] O sr. conde de Ficalho contradictou na _Flora dos Lusiadas_, em + 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, + mas honra-o dizendo que a sua _carta_ contém, na parte + exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas. + + [4] Vol. 2.º, pag. 401. + + * * * * * + + + + +V + +No parlamento + + +Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo +do districto de Vizeu. + +A minha eleição não pesou na balança dos destinos politicos de Portugal, +e muito menos da Europa. Os fundos não subiram nem desceram. Mas, em +compensação, a minha eleição apresentára tres aspectos completamente novos: + +1.º--O circulo conhecia-me. + +2.º--Eu conhecia o circulo. + +3.º--Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o +sangue de ninguem--nem mesmo de um carneiro. + +A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada +d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia +desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade. + +A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda. + +O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico dando de mão +beijada o circulo de Sinfães a um candidato progressista. E os fundos, +por este facto, tambem não subiram nem desceram. A substituição de +deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido +regenerador, sem agitar a politica da Europa. + +N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me +obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a +coisa não valeria chronica. + +Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente +a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço +ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá. + +Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, +estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que +aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, +graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar +por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi +o meu tempo. + +No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de +Lisboa 2:586 leitores, assim divididos: + +_Leitura diurna_: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; +manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6. + +_Leitura nocturna_: leitores, 1:494; volumes impressos, 2:482; +manuscriptos, 31. + +O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, +o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz +gostam ou precisam de ler. + +Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões +experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não +se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando +careci de justificar o meu voto. + +Da pequena bagagem que deixei depositada no _Diario dos sessões_ +escolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, +mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um +homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos. + +Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal. + +Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras: + +«_O sr. Alberto Pimentel_:--Cumprindo as disposições do regimento, +começo por ler a minha proposta. + +(_Leu_). + +A camara tem ouvido benevolamente considerações, se não diametralmente +oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me +dispensará igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, +sobre este assumpto, as minhas opiniões. + +Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um grande enthusiasmo +pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e só em nome +d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo +cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstração de +applauso nacional em honra de Sebastião José de Carvalho e Mello. + +A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma +profunda estima por todas as iniciativas que partem do coração ardente +da gente moça, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os +pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, não +devo esquecer que os academicos são moços e que as idéas da mocidade são +quasi sempre flores e não fructos. + +Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno tão extraordioario +na natureza como na sociedade. Nós, os legisladores, temos obrigação de +ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade. A +reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos tel-a. + +Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas +vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada +phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, +vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes +pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que é, ao mesmo +tempo, uma cruz é uma glorificação. + +E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não estão ainda perfeitamente liquidadas. + +Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, sempre +inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente +a causa do centenario. + +Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a +respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal. + +Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores +contra D. José I. + +A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas +contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas +ainda. + +Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos: + +«_Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgado_ nem a +sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que +depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e +esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe +de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de +Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e +triste captiveiro, attenuado unicamente pela consolação de viverem +com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os +carinhos e desvelos a educação maternal.» + +Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda +todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria +opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão +enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional. + +«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não +deviam ser condemnados, _pois que havia falta absoluta de provas_, +alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas _não +sabemos_ se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. _Pesa ainda um +grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos +escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos +que podessem lançar luz n'este drama tenebroso._» + +Depois da citação d'estes periodos, arrancados á _Historia de Portugal_, +do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á +camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da +vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito. + +Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que +lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia +offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as +condições de bem-estar. + +Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação +de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. +Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e +disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, +mas que era obrigado a retirar-se. + +--Por que? perguntou-lhe Figueiredo. + +--Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de +dizer mal d'elles, e de si. + +A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma +cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, +esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á +camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro +Chagas, nos seus _Portuguezes illustres_. Cito a obra, para tornar mais +veridica a citação: + +«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o +supplicio atroz de João Baptista Pelle, _clamam alto contra o marquez de +Pombal_.» + +Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, +eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao +marquez de Pombal. + +Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o +governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o +reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra. + +É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para +os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles. + +Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes +poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu +que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações +publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de +triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a +monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões. + +José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos +seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta +casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente +d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra. + +Camões é muito maior nos _Lusiadas_ do que na estatua do Loreto. + +Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente pombalina que partia da +iniciativa particular, academica ou não academica, para se erguer uma +estatua ao marquez de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto. + +O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas +com uma simples esmola para a celebração do centenario. O governo, sr. +presidente, não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e +eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre +deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade +minha, me chegou tão tarde. + +Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia bronze inutilsado em +quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas +antigas peças de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas em +peças raiadas. + +Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por +isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, não gastará +menos de 6:000$000 réis, justamente n'uma época em que se está pedindo +ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de +primeira necessidade. + +Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação da estatua, na +Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros, é forçoso que a estatua do +marquez de Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi as +mesmas, circumstancia a que não devemos deixar de attender, visto que +somos chegados á parte menos attraente d'esta discussão, o capitulo das +despesas a fazer. + +Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito +exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague. + +Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de +estatuas, de monumentos. + +Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, n'aquella cidade, +tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois +quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, +mandou erigir-lhe á sua custa um monumento. + +Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma +grande veneração por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo +monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a +auxiliasse na realisação do seu emprehendimento. + +E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a +um medico illustre, por iniciativa particular. + +Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro a esta paixão pelos +centenarios e pelos monumentos, que já se vae tornando demasiadamente +extensa. + +Quer v. ex.ª saber o que acontece? + +Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será facil organisar um +kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção +da camara... + +_Vozes_:--Ouçam, ouçam. + +_O Orador_:--Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques. + +Este vale bem uma festa nacional, creio eu. + +Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da Cunha, uma das +victimas mais illustres da inquisição em Portugal. + +Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e é justo celebrar-se +o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do +marquez de Pombal, que o encarregou de negociações em Roma para a +abolição da companhia de Jesus. + +Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que +coadjuvou as reformas de Pombal, a quem aliás não era affeiçoado. + +Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira. + +Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque. + +Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama. + +Em 1928 teremos o centenario de Brotero. + +Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira. + +Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro. + +Em 1954 teremos o centenario de Garrett. + +Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique. + +Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor +do _Nonio_. + +Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando. +(_Vozes_:--Muito bem). + +E assim por diante. + +Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da +continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus +netos ou os seus filhos... + +Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse +que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do +marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece +profundamente muitas familias portuguezas. + +Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma +excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, +cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já +a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu +não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe +repugna. + +Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto +muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e +accesas é que alguns dos conferentes, que se têem occupado do +assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o +ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado. + +Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se +dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a +festa com ordem e com moderação. + +Estes creio eu que são os votos de toda a camara. + +Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se +não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de +Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador +de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de +deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital. + +O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas +da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos +arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a +justiça se vá fazendo lentamente. + +Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, +que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia +lhe não quiz resar um _requiem_; hoje é a academia que lhe quer fazer um +triumpho, embora contestado ainda... + +Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais. + +Disse.» + +A minha passagem por S. Bento não vale chronica de maior folego. + +Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. Não tenho +pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem lá convivi +e tratei mais intimamente conservo gratas recordações, e essas quero-as +deixar archivadas n'este livro. + +P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito por um circulo +do districto do Porto. Tambem d'esta vez não tive que sacrificar +carneiros para voltar. Mas que differença! Os homens são quasi todos os +mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos têem +peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de +dinamite, e na tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, +pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mãos e pés. É a +melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e +pateada. Que differença! que differença! + +Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo é... o parlamento. + + * * * * * + + + + +VI + +Antonio Rodrigues Sampaio + + +O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem +repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que +todos julgam servir para tudo, e uma glorificação. + +São a rodo os jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos +como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os +dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o +poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das +suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta +conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais +vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaio _faz +falta_. + +E assim é. + +Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e +na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou +ninguem, não acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e +quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava +lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, +estranhavam que não tivesse chegado mais cedo. + +Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz +isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela +porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do +patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe +dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria +galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a +occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por +guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o +que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair. + +Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela +dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um +valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se +os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de +toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer +ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu +alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam +açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o +esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão +perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das +pastas dos ministros! + +Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: +mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas +victimas. + +Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, +vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. +Appellou-se para a provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em +duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de +Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, +recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. +D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos +sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua +glorificação: + +_Faz falta._ + +Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as +vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o +mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, +por que o bom humor era n'elle uma philosophia. + +O marquez de Caraccioli chamava a isto _gaieté philosophique_, alegria +philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a +sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma +maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como +tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema +de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos +soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse +contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas +inquietações.» Os _espinhos do poder_! repetia muitas vezes Sampaio, +_isso é apenas uma metaphora_. E tinha razão, porque elle exercia o +cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma +honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. +Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. +Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por +se ver obrigado a passar do trem para o _americano_. Dizia-o muitas +vezes, rindo. + +Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem. +_J'ai ri, me voilà désarmé._ Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia +tratar de perto sem ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos +homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a +comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de +serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente +articulista da _Revolução de Setembro_, semeando ás vezes resentimentos +pessoaes que poderia ter evitado. + +De uma vez certo titular _vieille roche_ foi pedir-lhe um favor politico. + +--Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de +chapeu na mão. + +--Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio. + +Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio +para se oppôr ao despacho de um governador civil. + +Sampaio respondeu-lhe: + +--Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos +que o ministro do reino governe n'um. + +Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, +combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro +intitulado _Viagens á roda do codigo admistrativo_. + +Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha +candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse +respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa +tranquillidade: + +--Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me +zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos +amigos como d'antes. + +A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. +Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu +_correio_. + +Fui immediatamente saber o que elle queria. + +--Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio. + +--Por que? perguntei eu muito intrigado. + +--Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, +mandaram de casa mudada um afilhado meu. + +--Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso. + +--Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que +está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio. + +Assim fiz; assim se fez. + +Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros. + +Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as +injurias. + +Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, +que redigia então as _Instituições_. + +Certo dia as _Instituições_ chamaram a Sampaio _pedaço d'asno_, com +todas as lettras. + +No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia +a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia +seguinte corri a ler a _Revolução de Setembro_. O artigo de Sampaio +principiava assim: «O homem das _Instituições_ chamava-nos hontem +_pedaço do seu todo_.» + +Soberbo! + +Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice. +_L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter_, +observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da _Revolução_ punham bem em +evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria +combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe +á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle +aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má +situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles +proprios se collocavam. + +Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, _malgré +lui_. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente +inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para +o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, +e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no +Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui +estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. +Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom. + + * * * * * + +No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a +monarchia.» + +Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como +um evangelho. + +Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho +nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de +vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve +enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas +quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir. + +Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A +monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio +guerreava _à outrance_ o ministerio de 1846, porque entendia que esse +ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de +liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção +monarchica. + +Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se +desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de +governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso do +antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que +tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional. + +Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre +um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses +partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as +fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção +dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente +percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de +estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e +aperfeicoamento para o regimen estabelecido. + +Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da +monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um +aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de +conservar. Elle nunca o ultrapassou. + +Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela +inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação +desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do +reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do +estado concede a todos e a cada um. + +Sampaio viveu muito; viu muito. + +Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa +idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.» + +E é. + +Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: +monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado. + +Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira +responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, +purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma +administração rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia +pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas +industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos +offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha. + +Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: _é preciso defender a +monarchia_. + + * * * * * + + + + +VII + +A livraria de Sampaio + + +Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma +livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são +dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias. + +São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: +a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a +todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas +para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um +leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico +assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um +moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na +giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas +acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros +e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: _Comprou bem_; para outro +lado: _Comprou mal_; ou, para um espectador que lhe diz:--_Quem +comprou bem foi o senhor_,--como se um livreiro pudesse comprar mal +algum dia: _Acredite que não ganho senão a encadernação._ + +Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos +talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a +podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu +preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, +corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez +porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas +finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, +mostrava o seu thesouro com orgulho: _Veja lá isto! Que me diz a +isto?_--uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade! + +Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto +para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de +Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser +n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do +manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a +restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o +intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu +Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em +Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com +a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros. + +_Livre preté, livre perdu_, diz um proverbio francez. Os proverbios são +filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius +respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um +manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me +pedisse emprestada minha mulher!» + +Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a +que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito +longa que seja uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, +que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa +bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o +bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e +dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o +antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, +que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o +movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o +ainda quando elle se não perdesse de vista um momento. + +Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma +perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé +sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, +desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro +despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se +obrigado a vender os seus livros, a atirar--elle mesmo!--esses volumes, +tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos +livreiros--os gatos pingados da bibliographia--que fazem todos os +funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros +arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na +voragem do cemiterio. + +«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da +vida? Vendei os vossos livros.» + +Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem +que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal +Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a +razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a +guardar por um eunuco.» + +Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia +de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da +sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, +que se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses +proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de +vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente +sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como +se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se +vende a quem mais der. + +Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo +sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o +sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, +como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios +ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette +um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, +offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á +cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um +capricho da sua phantasia. + +Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a +profanação é ainda maior--talvez! + +Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de +Sampaio. + +Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse +nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, +fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente +do conselho de ministros. + +Á porta da sua casa--aquella mesma casa--ordinariamente fechada, batêra +muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um +favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi +esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de +bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de +baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, +ordinariamente, não se fazia esperar muito. + +Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á +esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á +noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o +guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos. + +Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em +par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á +vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum +que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do +ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle +portal--ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos +habitaram n'aquella casa. + +A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das +antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde +estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de +bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do +escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros +abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava +um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que +primeiro haviam de ser postos em praça. + +N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim +dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo +um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto +passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido +Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as +alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão... + +Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. +Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; +por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam +sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam +curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo--ao menos. + +Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros. + +No leilão, vendeu-se um exemplar dos _Sophismas parlamentares_, de +Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para +offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no +ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, +rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com +interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria +retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; +deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca. + +Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio. + +No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao +poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a +iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a +realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de +petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma +petição perpetua.» + +No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham: + +«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é +velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre +duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se +póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede. + +«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é +cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço. + +«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados velhos? É a +sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.» + +«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se +encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente +de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e +benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos +fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.» + +«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os +espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a +tinta de imprimir.» + +Ainda mais alguns aphorismos: + +«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento +insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util +ensinamento. + +«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se +deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a +sabedoria dos velhos.» + +«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a +lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.» + +«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que +essas circumstancias.» + +«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone +vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.» + +De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados +era com certeza a _Histoire des origines du gouvernement representatif +en Europe_, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, +sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude +entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em +certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina. + +Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania: + +«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria +de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e +attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade. + +«Ha duas grandes theorias de soberania. + +«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, +qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra +sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não +póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que +conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas +fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto. + +«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a +fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as +fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade. + +«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos +diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque +não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem +inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina +em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio. + +«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de +todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o +principio do governo representativo.» + +O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é +altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica +do annotador. + +Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no +papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas +ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o +illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco. + + * * * * * + + + + +VIII + +Saraiva de Carvalho[5] + + +O scenario era triste. + +A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se +caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus +de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros +das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do +portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da +explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas +e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. +Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de +orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento. + +Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, +cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas pela chuva, sem brilho e sem +consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de +Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, +através de um silencio lugubre. + +Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando +esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento. + +A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito +cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a +sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se +revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após +si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de +cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a +attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto +material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se +compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não +existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de +acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, +nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade. + +Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse +mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter +invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, +surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, +os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja +sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as +attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante +longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos +para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da +sua devastação prematura... + +Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, +foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na +politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de +homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu +periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de +estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres +ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da +politica do que uma conquista por direito. + +Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que +tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da +fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo +poder em 1869. + +Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um +preleccionador, um inexperiente. Vinha do _Gremio Litterario_, onde +mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então +incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, +precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, +nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle +se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva +de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição +honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e +uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se +dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais +alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da +Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem +completamente inutil. + +Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua +energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: +não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios +premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder +em 1870. + +A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava +ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do +movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de +ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para +tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo. + +Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho +conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia +politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir. + +Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que +chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que +não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais +vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os +seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de +ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já +conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de +cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do +mais sagrado e do mais glorioso dos direitos--aquelle que o talento +confere. + +Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a +evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua +experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para +colhel-o. + +E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado +agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos +assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e +com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista +politico, não posso concordar com alguns dos seus actos; mas não +posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma +transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, +comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e +modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro +proferira na camara dos pares. + +Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto +ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram +no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a +formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais +estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz. + +N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios +protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia +cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade, +porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de +um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um +trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta +ao presente e ao futuro. + + * * * * * + +Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de +Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos +eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre +feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um pouco +_bercé_ pela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a +copa do meu chapeu n'um rithmo monotono. + +No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma illusão, talvez; e, +sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que +o _bercer_ francez, visto que este verbo significa não só o acto +material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças. + +Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos +politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto +solemne. + +Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a +insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do +parlamento. + +Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si +proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao +sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, +porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de +adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado. + +Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este +defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle. +Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os +ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce +rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão +amavel como _cretino_ ou tão gentil como _marinelo_. + +Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o +sujeito apparece chrismado em _tolo_ com todas as lettras, sendo +maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe. + +Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da +colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, +empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego +sobre os contrarios, como um valentão de feira. + +E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas +vezes por outras descarrega o fueiro sobre os seus proprios +amigos--por engano, é claro. + +Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se +rapidamente por meio de um _cliché_ inalteravel; estão sempre feitos, e +o terem redactores é quasi um luxo. + +Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas +no dia seguinte: + + +«_É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de +despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela +sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao +governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar._» + + +Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando +um orador da opposição: + + +«_A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. +Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão +varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No +fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira +com uma posta gorda._» + + +No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um +tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da +opposição ou um homem do governo. + +A mutação de scena é completa, n'este caso. + +Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze +tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente +uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias +empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, +manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo +espirito de nenhum dos que ali estão--que lhe fizeram a mesma coisa +com tinta de escrever e lama das ruas. + +Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a +respeito de um ministerial fallecido: + +--Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o +governo não teve coisa nenhuma que lhe désse! + +E a respeito de um opposicionista morto: + +--Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe +pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia... + +Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás +portas da morte: + +--Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim! + +O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular... + +No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do +poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de +colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens +mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma +gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As +repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro +quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das +familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro. + +São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma +espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna +n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os +portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por +deshonesto aos olhos de si mesmo. + +Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. +Parece-me que ia dizendo isto... + +O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens +mais importantes e populares. Era o Sampaio da _Revolução_. Ninguem mais +apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse +homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de +respeito. + +O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus +mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na +imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande. + +Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir, +concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas +as parcialidades politicas. + +Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para +qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles +fazer um pacto solemne--o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo +respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é +preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e +dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que +é de Deus, isto é, um cadaver. + +Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda, +qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão +de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as +circumstancias em que nos achamos. + +Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia +quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro +da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante +de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo +regenerador. + +Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se +em honra dos dois mortos illustres. + +--Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a +doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a +injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam +como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do +campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva +de Carvalho. + +Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido, +porque a calumnia não existiria. + +N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto +por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes. + +......................................................................... + +Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto! + +Dezembro de 1882.[6] + + [5] Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter + ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores + relações de amizade. + + [6] Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade + politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos + tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. + O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... + visto!--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + + IX + + + Fontes Pereira de Mello + +A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que +primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome +primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia. + +Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas, +vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo +nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S. +Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á +ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo +José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido +progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno, +e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o +priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte, +era já uma gloria nacional. + +É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda, para fazer +historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez +de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes +Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor. + +Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista +como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello. + +Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são, +indiscutivelmente, dois grandes reformadores. + +O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional, +animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa. + +Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que +acontecese. + +Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda +convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador +havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil. + +Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu +na scena politica com o movimento chamado da _regeneração_, palavra que +é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de +Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido. + +A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito +abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas; +os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que +devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a +revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração +que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as +cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a +administração publica na grande complexidade dos seus elementos +componentes. + +Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco +mais de trinta annos, o desempenhal-a. + +O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a +guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz. + +Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas +politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade +poderosa de um estadista eminente. + +O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a +que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de +completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra. + +E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, +creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, +pareceu dizer-lhe: + +--Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a +que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para +que a consolide e complete. + +Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e +desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e +cumpril-o. + +Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a +existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas +as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza +publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os +outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua +terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do +Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que +recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura +dos principes, mas apenas com a bandeira portugueza por cobertura do +seu feretro. + +Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official +dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do +que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro +do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz. + +A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação +dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa +deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se +recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do +coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de +um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento +ingenuo e sincero. + +Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que +ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão +imponente, tão grandioso elle foi. + +Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza +pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não +vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o +povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital. + +Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. +Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, +que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de +Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, +o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para +si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de +surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, +respeitoso e triste, nas ruas por onde o feretro havia de passar, +affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de +Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre. + +E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára +para o povo. + +Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que +trabalham. + +Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais +confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava +o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do +campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e +da cultura. + +Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para +colher, a demolir o passado para construir o futuro. + +Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo +de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e +cultivára. + +Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os +outros. + +E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude. + +_Parar é morrer._ Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a +divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista. + +Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que +n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho +ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do +progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é +imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham +por si mesmos. + +Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o +cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos +sacerdotes que tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. +Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil +boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas +as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, +eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que +ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal. + +Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre. + + * * * * * + +Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa. + +Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de +casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me +se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o +voltarete.--Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou +Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o. + +Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse +fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de +mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a +minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois +parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se. + +Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço. + +--Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N. + +--Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M. + +Eu vi-me obrigado a obtemperar: + +--Estou ás ordens de v. exas. + +Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha +de roda, duas talhas o que désse cartas. + +Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, +vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro +libras incompletas--um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra +occasião. + +A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado +desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia +immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis. + +Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma +grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente +para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por +origem uma confissão ingenua. + +--Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7] + +Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem +eu sei ao certo quanto é. + +Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do +jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman +attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do +meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando +os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. +Nunca esta cifra me esqueceu. + +Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei +pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a +eloquencia é de prata, o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito +aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete... + +Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois _fadistas_ +parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu +havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para +mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de +casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, +vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á +pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na +almofada.--Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma +voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada.. + +E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, +e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi! + +No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia +dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse. + +Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás +vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a +historia, a que achava graça. + + * * * * * + +De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. +Fil-o muito contrariado, por dever de amizade. + +Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o +requerimento, e perguntou-me: + +--Tem muito empenho n'isto? + +--Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero. + +Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me: + +--V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores +são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com +a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de +que se está infelicitando irremediavelmente. + + + Janeiro de 1887. + + [7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje + fallecido.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +X + +Antonio Augusto de Aguiar + + +Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras +vezes com vaga tristeza--que é talvez o estado mais doloroso da +alma--desejado a morte? + +Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque +sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma +certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de +adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, +que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais +tranquillo do que este... + +Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não +tenha desejado a morte uma vez sequer. + +A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os +outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não. + +Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se na terra. +Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que +se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de +a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa... + +Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que +fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha +da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os +quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido. + +Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella +passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito +das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o +seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu +caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a +sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio... + +Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, +n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa +da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade +dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos +somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda +feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se +chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais +quanto mais rapida é. + +Estavamos, não sei quantos--poucos eram--no club da Ericeira. Jogava-se +o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae +Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, +e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma +senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a +musica, com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, +entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada +atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som +aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. +De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, +longe, muito longe de Lisboa--essa grande cidade ruidosa, que dizem ser +feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, +mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga +recordação... + +Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a +funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das +mãos, a mala de couro na outra. + +O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro. + +É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde +ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades. + +Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa +longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser +construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso. + +O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas +de jornaes--progressistas, regeneradores, republicanos--e algumas +cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma +verdadeira alluvião. + +E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o +outro: + +--V. ex.ª hoje não tem nada. + +--Aqui estão os seus jornaes. + +--V. ex.ª tem só uma carta. + +--Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª + +Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia +profundamente dolorosa e inesperada: + +--Morreu o Aguiar! + +--Quem? O que?! + +--Morreu o Aguiar! + +--O Antonio Augusto?! + +--Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo... + +E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, +procurando os pormenores, lendo e dizendo: + +--De repente... de uma _angina pectoris_... ainda ante-hontem saiu... +bem disposto... tinha jantado no _restaurant Rosa Araujo_ com o Luciano +Cordeiro e com outro. + +Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta +surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se +Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes +o referiam. + +Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, +da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. +Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha +visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de +valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram +d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar +fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado +para domingo. + +Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da +morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo +pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, +resumiam, no primeiro momento, a impressão geral: + +--Um homem serio... + +--Um homem de talento... + +--Um homem de saber... + +--Um bom caracter... + +--Um homem digno... + +Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia +quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao +encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de +saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?! + +Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, +porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que +humilhar-se deante dos mortos. + +Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a +Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua +posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e +o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que +tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os +golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias +antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor +da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se +deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo +tranquillamente o seu charuto: + +--Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica. + +Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua +consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem +manchas e sem remorsos. + +Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. +Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem +representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece +do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos sabem mais ou menos +quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que +preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar. + +Eu gosto mais d'estes ultimos. + + + 1887. + + * * * * * + + + + +XI + +Mendes Leal + + +Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a +celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no +proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal. + +Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não +se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club +de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que +não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a +adoptar-lhe o nome. + +E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, +foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. +Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão +rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida. + +Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias +litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas foi o romance historico +_Ráusso por homizio_, publicado em 1842 na _Revista universal +Lisbonense_. Com razão dizia a _Revista_ referindo-se a este romance: +«Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu +auctor:--que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á +sua patria offerece um tal espirito--¡quem no acreditaria!--¡de vinte +annos!» + +Assombroso, em verdade. + +Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o +particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do +seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração. + +Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem +attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si +tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal. + +Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da +epopea: hajam vista o _Pavilhão negro_, _Ave Cesar_, _Napoleão no Kremlin_. + +Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra +de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro--e foi muito--póde ter +defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento de _savoir faire_, +opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções +dramaticas, que vae desde os _Dois renegados_ até aos _Primeiros amores +de Bocage_, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, +engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero +e de cada época. + +Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão +accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons +creditos de homem de lettras. + +Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de +espirito. + +Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de +modelo aos que, dentro e fóra da camara, presam a lingua portugueza +através dos arrebatamentos da paixão partidaria. + +Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos +negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios +diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma +tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e +distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle. + +Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio +que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas +palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por +Mendes Leal--a quem, na dedicatoria do primeiro livro das _Georgicas_, +divinamente traduzidas, chamou--_caro Leal, gloria da terra lusa_. + +Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão +diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer +pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, +conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu +trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu +dedicado amigo. + +Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do +mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em +Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de +_high life_. + +A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi +em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho. + +O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao +cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de +pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira +homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. +Assim fomos conversando até ao cemiterio occidental no meio da +multidão immensa. + +Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura +intitulada _Hommage aux lettres latines_, as suas ultimas composições +poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua +franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e +pendendo á terra. + +A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem +superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os +progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da +Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião +publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para +depreciar um escriptor fallecido--especialmente para aprecial-o. Quanto +tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão +Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por +uma apotheóse nacional. + +No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque +modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua +com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle +cantou em 1857 na poesia _Mare magnum_. A descripção das _furnas_, tão +bellas e tão agrestes, é de mão de mestre: + + Não vos lembraes?--Além do manso pego, + O mar, que vem do largo, e que não cessa, + Da vaga arquea a cuspide irritada, + E, com impeto cego, + Á insensata escalada + Dos immoveis penhascos se arremessa. + + Quem ha de commetter a louca empresa + De tentar a passagem tortuosa + Que alguma convulsão da natureza + Abriu sobre a voragem tenebrosa? + Do rolo immenso a curva ameaçadora + Investe, galga, apruma-se, desaba; + E quando o turbilhão que o ar devora, + Trovejando rebenta, + Parece que á tormenta + A terra não resiste e o mundo acaba. + + Pelas rugas da penha sacudida,-- + De niveos flocos inda guarnecida,-- + Depois que o mar bramindo atraz volvêra, + Um veio d'agua, rapido e sombrio, + Deslisa; qual em rude face austera + De um triste ancião, que a idade encanecêra, + O pranto corre em fio. + +Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as _furnas_ +da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis +felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e +simultaneamente o nome de Mendes Leal. + +O oceano vingará a ingratidão dos homens. + + * * * * * + + + + +XII + +Gonçalves Crespo + + +Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor +da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos +primeiros annos da sua vida, e da minha. + +Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor +que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este +pensamento de Garrett: + + Saudade, gosto amargo de infelizes, + Delicioso pungir de acerbo espinho. + +Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação +psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett +n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em +lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á +saudade _um mal de que se gosta, e um bem que se padece_; comprehendi o +rei D. Duarte quando no _Leal conselheiro_ escreveu da saudade com +uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse +agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração... + +Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos +annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas +as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já +extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as +minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado +era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha +sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi +pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um +deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde +tudo jazia sepultado na mudez da morte--esperanças deliciosas e amigos +queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei. + +Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro +a triste consolação de a recordar. + +Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial. + +Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora--melhor +por certo do que nunca. + +Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de +Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e +merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na +proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas +creanças. + +Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos +amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços. + +Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos +habituaes, que eu já historiei largamente no livro _Atravez do +passado_--o meu primeiro livro de saudades. + +Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o +Angelo, um gallego. + +Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e +aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava +d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada +o primor da sua _toilette_, quasi sempre irreprehensivel. + +Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. +Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e +romances[8]; mas Gonçalves Crespo _flanava_ a pretexto de +estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento +poetico com a publicação das _Miniaturas_. + +Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;--quando foi para +Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção +a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo +frequentava o _Café Portuense_, na Praça Nova, e continuava a ser um +elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo +Angelo--recordando as nossas façanhas anti-ibericas. + +Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, +ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. +O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel +era para mim. A amizade cegava-o. + +Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali +foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de +Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos _Homens e +letras_, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava +adoentado, e não me pôde mostrar a cidade, mas encarregou d'essa +missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente +está em Lisboa. + +Crespo dera-me _rendez-vous_ para a noite, na livraria do Melchiades. +Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela +academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de +litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves +Crespo viera passar o serão comigo no _Hotel dos caminhos de ferro_, +onde eu estava hospedado. + +Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle +sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como +Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as +bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma +inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a +sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz +contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres +harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. +Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como +poeta. + +Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros +sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, +tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me +afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se +allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se +sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle +effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao +capricho da sua inspiração, e no soneto _Animal bravio_, offerecido a +mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão +artistica do seu espirito: + + Preferiras um ramo caprichoso + De escolha rara e de um concerto fino, + Onde visses o cacto purpurino + E os nevados jasmins do Tormentoso. + + Em vez do ramo exotico e oloroso, + Casto recreio d'esse olhar divino, + Acceita, Eugenia, este animal felino, + Que o meu braço subjuga vigoroso. + + Tive artes de o amansar: eil-o sereno! + Acode a minha voz, e ao meu aceno + Como um jaguar a voz de um saltimbanco... + + Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto! + E á doce Eugenia, do sorriso honesto, + A fimbria oscule do vestido branco! + +Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo +estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de +visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello +soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos _Nocturnos_: + + ODOR DI FEMINA + + Era austero e sisudo; não havia + Frade mais exemplar n'esse convento; + No seu cavado rosto macilento + Um poema de lagrimas se lia. + + Uma vez que na extensa livraria + Folheava o triste um livro pardacento, + Viram-n'o desmaiar, cair do assento, + Convulso e torvo sobre a lagea fria. + + De que morrera o venerando frade? + Em vão busco as origens da verdade, + Ninguem m'a disse, explique-a quem puder. + + Consta que um bibliophilo comprára + O livro estranho e que, ao abril-o, achára + Uns dourados cabellos de mulher. + +Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha +biographia para o _Diario de Portugal_[9]. A sua antiga +amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a +desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que +principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que +elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu +espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o +interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel +e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter +honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de +alguns e das injurias de poucos. + +Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na +adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica +e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, +porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo +por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante. + +O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada +vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e +perfido. + +Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em +commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão +depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves +Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha +finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente +tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da +sua vida. + +A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em +enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a +Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna +d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de +fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e +admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que +entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo +de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o +cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o +sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de +todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das _Miniaturas_ e dos +_Nocturnos_. + +Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do +coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto +Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel +das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos +_Contos para os nossos filhos_, colleccionados e traduzidos por +Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos +traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus +filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo +de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever +com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe +o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma. + + 1883. + + [8] ATRAVEZ DO PASSADO: _Na morte de um condiscipulo._ + + [9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás + duplica o valor d'esta especie bibliographica.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XIII + +Antonio Maria Pereira + + +Quando eu fazia parte da redacção do _Jornal do Porto_, onde recebia +apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario +estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das +edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu +estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a +escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria +Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original. + +Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente. + +Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que +qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel. + +Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem +ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?! + +O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha proposta, mas +dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu +prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. +Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse. + +Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores +em geral. + +Balzac, nas _Illusões perdidas_, tinha deixado a ethopea do editor. Era +uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do +escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias +por lhe achar _pouco peso_. O poeta respondêra que voltaria com os seus +versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os +editores não pareciam resolvidos a substituil-os. + +Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada +áquella época: «_Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter._» + +Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia +com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, +mendigára um logar publico. + +Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por +dia, ás ambições litterarias dos novos. + +O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na +imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse +Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois +forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido. + +Eu havia ido refugiar-me no _Jornal do Porto_, onde a vinda de Ramalho +Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu +fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. +Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a +uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram +difficeis, e hoje, ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e +a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o +livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, +atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses +similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua +liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo +morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta +a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, +apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para +prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte. + +O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o +mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que +o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante. + +De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra +redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o +que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o +consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre +dispendiosas, das impressões de luxo. + +Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, +em que tambem era singela a _toilette_ dos livros, passaste á historia, +és uma recordadação apenas, nada mais! + +A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa +pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, +mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a +minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de +estipendio certo. + +Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia +_O testamento de sangue_. O _Jornal do Porto_ e o ensino livre +absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de +labutação litteraria, que eu tracei os primeiros capitulos +d'aquelle romance. + +O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no +mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de +uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de +redacção, alludisse ao _Testamento de sangue_. + +Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no _Jornal do Porto_ +se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo +publicados _Os dramas de Paris_, de Ponson du Terrail, arranjados sobre +uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de +modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não +fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos _Dramas de Paris_, nem +tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera. + +--Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir +para o jornal, dissera alguem. + +Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me +deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. +Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois +publicar _O testamento de sangue_ no _Jornal do Porto_, e escrever outro +romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria +resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria +Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros +capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os +outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu +queria dar á novella. + +Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o +romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume +depois de ter sido publicado em folhetim. + +Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me, na volta do +correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me +aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade. + +Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer +ao pesado encargo de um folhetim diario--encargo que eu acumulava com a +minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações +quotidianas. + +Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. +Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella +avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se +eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. +Nem elle, nem eu paravamos nunca. + +No livro _Nervosos, lymphaticos e sanguineos_ deixei consignada, a pag. +86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava--pelo +destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre +da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no _Jornal do +Porto_. + +«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para +reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa +que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos +conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda +quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem +fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um +moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro +braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas +nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores +que estão despertos, é o moinho e sou eu.» + +Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. +Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em +folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o +precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o +_Testamento de sangue_ fôra escripto. + +No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, _A Porta +do Paraiso_ e _Entre o caffe e o Cognac_. Tive então occasião de +conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira. + +Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas +horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, +que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar +alargando-a, tinha uma só porta e a _montre_. Sobre o balcão havia uma +grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de +pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. +Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta +escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello +preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em +frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de +bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da +casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos +do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho. + +Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A +phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas +maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons +luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena +e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava +confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, +fumava charuto. + +Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um +d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras +haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições +tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira. Era seu filho, o +actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia +começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma _Encyclopedia +litteraria_, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha +collaboração. + +Escrevi ahi uns versos, _Virgens loiras_, cuja inspiração me parece hoje +bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as _Virgens_, +que devem estar decrepitas--como os versos. + +Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio +Maria Pereira relações de agradavel convivencia. + +Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio +do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e +assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em +Lisboa. + +Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me +realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras +que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes +era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a +loja do sr. Pereira, na rua Augusta. + +Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando +menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio. + +Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões +litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás +vezes até ás onze. + +O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu +estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um +pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a +essa hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle +fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas +fugidas á sua labutação quotidiana. + +Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse +illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras +portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje +fallecidos[11]--graças talvez, e não pareça isto desacerto, +á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da +gloria--editando-lhes os primeiros livros. + + [10] Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do + exhaustivo trabalho quotidiano--a que elle chamava _a + vinagreira_.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + [11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, + Pinheiro Chagas, etc.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XIV + +Innocencio Francisco da Silva + + +Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima +pessoal e de consideração litteraria. + +Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das +Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo. + +Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre +nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia. + +Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca +do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, +tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a +funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os +seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de +lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente +com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, +simplesmente pelo facto de não ser um estilista. Alguns +amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de _rol de +roupa suja de livros velhos_. Que revoltante injustiça! De mais a mais, +Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de +meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de +bibliophilo. + +Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e +irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. +Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado +dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o +seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. +D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um _vencido da +vida_. Viveu atormentadamente; e assim morreu. + +Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o +seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de +portuguez antigo! + +Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente +infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era +adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes +liberrima em facilidades de linguagem. + +Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar +nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e +doce fundo de bondade antiga. + +A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá +de Miranda: + + Homem d'um só parecer, + D'um só rosto, uma só fé, + D'antes quebrar que torcer, + Elle tudo póde ser, + Mas de côrte homem não é. + +Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a +impressão de ter deante de si um velho militar rabujento,--um major +revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito. + +Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, +de--digamol-o assim--bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de +ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias +de linguagem em que ás vezes caía. + +Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da +_Bibliotheca Lusitana_ do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. +Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas +escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente +conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á +publicação da _Bibliotheca Lusitana_. + +Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas +mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas +improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou +vencedoras representa o _Diccionario Bibliographico Portuguez_ até o +ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos +restantes volumes do _Supplemento_! + +De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe +consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um +diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma +aspera applicação ininterrupta. + +Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa +viagem, avistam a terra desejada: _Emfim!_ + +O seu _emfim!_ devia ser a morte. + +Todos os dias, de toda a parte--graças á actividade febril dos prelos +nos ultimos vinte annos--recebia novos livros, que se iam empilhando em +camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse +lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a um novo supplemento, +que decerto já não esperaria concluir. + +Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do _Diccionario +Bibliographico Portuguez_, como subsidio para os nossos trabalhos +litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não +tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu +tempo, é pouco. + +Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um +Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus +manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui +obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel +Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o +conto--_Como as borboletas se queimam_--inserto no livro PORTUGAL DE +CABELLEIRA (1875). + +Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. +Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio +Cesar Machado conta nas _Mil e uma historias_ o caso interessante de +Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o +fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel +Rodrigues, do Pote das Almas. + +D'esta vez Innocencio ficou codilhado. + +A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o +artigo _Bibliophilos e biblomaniacos_, na _Encyclopedia litteraria_, +publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel +azedume: + +«Na classe dos bibliomaniacos _improductivos_, que capricham em +accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção +especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as +lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os +leilões e a classica _feira da ladra_, na diligencia de prover-se de +tudo o que nas diversas provincias da republica litteraria gosa de +algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos +livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, +prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de +qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido +reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com +quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca +as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos +vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima +creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje +por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e +tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que +appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de +ephemera duração!...» + +Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas +horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto +repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e +desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar +precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com +excepção, talvez, do seu feliz possuidor. + +Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um +fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery +abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E +os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a +publicação do _Diccionario_, com a riqueza dos thesouros acumulados por +Innocencio. + +O predio em que habitava--e que tem hoje uma lapide +commemorativa--estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. +Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos +do predio, unicos disponiveis. + +Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. +Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade +cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente +maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem +mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas +atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava +trabalhando. + +Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. +Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer +terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com +dores atrocissimas. + +Que attribulada existencia, e que tormentosa morte! + +Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. +Despedaçava o coração vel-o soffrer. E--circumstancia que n'este momento +me está lembrando com viva saudade--foi com o seu collar de academico +que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de +Galles. + +Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. +_Innocencio._» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A +morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril +individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio. + +Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de +canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «_Emfim!_» + + * * * * * + + + + +XV + +Tres actrizes + + +Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e +parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão +meio sagrada, meio profana--a de ter visto passar no palco de um theatro +um cherubim de azas brancas e cabello loiro. + +Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua +historia vulgar no amor--como as outras. Mas vel-a era o mesmo que +divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana. + +Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze +branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os +lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e +muito leve... + +Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o +espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um _coupé_ que a +conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam +a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma. + +Vi-a representar no Porto a _Cora_ e recitar a _Stella matutina_, de +Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa +com a _Visão dos tempos_. + +Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do +poeta: + + Eu sou a filha d'Eva + Gerada em outro amor! + Caíndo a dôr me eleva... + Senhor, Senhor, Senhor! + +Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, +vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta +divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa +mulher, destinada a + + ... servir de falla + Á dôr que emmudeceu + +seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey. + +A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto +todo o seu velho repertorio, a _Joanna a doida_, a _Mulher que deita +cartas_, a _Medea_. + +Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e +Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso +magestoso--como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe +pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára +no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza +dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para +a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem +theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um +manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros. + +Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os +estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de +fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa. + +Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte na festa senão +como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não +afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da +difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda +ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, +vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da _linda Emilia_, como +ainda então se dizia, era executado pela orchestra. + +A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta +que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista +Pires. + +Ahi vae a lettra do himno: + + O robusto leão da victoria + De teus pés lambe a terra em redor; + Tua vida é um archivo de gloria, + O teu nome um augusto esplendor. + + Para ti nunca findam as palmas, + Nem os bravos que fazem tremer; + E do ouro de lei d'estas almas + Só tu podes um throno fazer. + + Nós que vemos os lumes ardentes + Onde Deus escondel-os nos quiz, + Vimos hoje dizer-te frementes: + «És sublime, és sublime, ó actriz!» + + Arde o peito em delirio o mais puro, + Cada olhar ao teu nome reluz; + Has de ser immortal no futuro, + Que este fogo é baptismo de luz. + + Côro + + Para a fronte onde o genio rebenta + É pequena a corda dos reis; + Ha no mundo uma só que lhe assenta: + A corôa dos nobres laureis. + +Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé +sobre as cadeiras ou pendurados dos camarotes de terceira ordem, +por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo. + +Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, +bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem +aos nossos artistas com applausos de amigos e _bouquets_ que se vão +buscar ao palco para tornar a atiral-os. + +N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia +caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da +scena, estava profundamente commovida. + +Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos +para um album ou para uma festa theatral. + +Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da +Academia do Porto compuzeram em honra da _linda Emilia_ dois e tres +epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, +reproduziram-n'os no album da grande actriz. + +Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns +alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram +recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina. + +Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava +primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta +do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive +vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite +de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle +haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de +estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram. + +Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por +Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre +favorito dos poetas novos. + +Darei uma pequena amostra: + + Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita! + Póde um peito conter oceanos de luz! + Ha um quê no coração, que, se um dia palpita, + Como o braço de Deus, cria mundos a flux... + + Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos + Um phantasma de fogo e acorda pensativo! + Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos, + E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo... + + E então é tanto o ardor a incendiar a mente, + Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões; + Um descobre um Principio, um outro um Continente, + O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!... + +Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos +professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na +Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12] + +Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados +no seio da terra. + +Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle +compôz: + + Curvamo-nos tambem... É Deus que passa + Occulto nos monarchas do proscenio! + É o seu braço de luz que, em fogo, traça + N'aquellas sombras o caminho ao genio. + +Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse: + + Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo, + Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas, + Sente, mas não traduz; + Mulher ou anjo, realidade ou sonho, + Teu genio admiro, como admiro o Etna! + O mar... a noite... a luz!... + +Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que +devia ter sido gloriosa de esculptural belleza. + +Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam +chamar-lhe em 1863 _mulher ou anjo_. + +Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça, _O meia +azul_, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a +velhice: duas enfermidades. + +O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de +declamação e caracterisação. + +E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida: + + Mulher ou anjo, realidade ou sonho... + +O que restava do sonho era apenas a realidade... + +Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das +Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso. + +Este dissera a Emilia das Neves: + + Agora que aos teus pés, mais uma vez, + As rosas vem cobrir a tua estrada, + Acceita esta homenagem não comprada, + Mas filha do caracter portuguez! + +Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio +dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos +poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se +estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza. + +Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia _Judith_. +Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me +nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella +degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas +de guerreiro. + +Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria +ardido n'aquella noite. + +Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela +estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou +com mais enthusiasmo do que archotes. + +Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos _hoteis_ da +Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio +como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações +estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas +pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo. + +Emilia das Neves, abafada n'uma _capeline_ branca, recebia da janella do +_hotel_ as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de +Macpherson; para o caso pouco importa. + +Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, +assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom +dinheiro. + +Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno: + + Para a fronte onde o genio rebenta + É pequena a corôa dos reis; + Ha no mundo uma só que lhe assenta: + A corôa dos nobres laureis. + +E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro +verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida +ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé. + +E eu era então um d'elles. + +Isto foi em 1863. + +Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da _bella Emilia_, o alvo d'aquella +ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em +versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles +a cantaram. + +O tempo é um demolidor terrivel? + +Gertrudes... Gertrudes não sei de que--toda a gente dizia apenas a +_Gertrudes_--pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e +bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema +planetario. + +Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as +segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação +sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz. + +E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de _grande dame_, o seu +bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na +scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada +pela morte. + +Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de +que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e +dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos +bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as +noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou +menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma +tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do +publico. + +Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez +passar no theatro de D. Maria. + +Acabára de realisar-se em Paris a _première_ de _Mr. Alphonse_ de Dumas +Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me +de traduzir a peça em tres dias. + +Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi +justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um +amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe. + +D. Maria pôde finalmente dar a peça--por tal signal que em beneficio de +Brazão. + +Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma +porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os +bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me +esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando +inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena: + +--Vai-te d'aqui, meu estupor. + +Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu +longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por +todos os cantos a Gertrudes. + +Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena. + +Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro. + +Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella +tinham estado em scena, disse-me: + +--Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou. + +Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia +ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e +com mau gosto, o original de Dumas. + +E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um +tom sentencioso, disse: + +--Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a +gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao +publico. + +E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem. + +Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E +aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das +Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos +depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.» + + [12] Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente + ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.--NOTA DA 2.ª EDIÇÃO. + + * * * * * + + + + +XVI + +Actores celebres + + +Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela +terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. +Vivia n'um pequeno _chalet_ alcandorado pittorescamente sobre a praia +dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa +convenção, o ar do mar. + +Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em +Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto +que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro: + + Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena; + mãe de sabios, de heroes, crime e virtude; + golfão de riso e dôr, que ora serena, + ora referve e escuma em sanha rude. + +Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em +Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que +pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho. + +Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um _oiteiro_ no convento +de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um +_oiteiro_. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus +litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por +muito tempo. O _oiteiro_ era o festival com que se celebrava a eleição +da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro +tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os +poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de _oiteiros_. No meu +tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na _grade_ da +abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, +em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra +da _grade_ havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso +para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O +mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial +da festa, como n'outros tempos. + +Foi n'esse _oiteiro_ que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia +comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente +cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, _A borboleta_, de Thomaz +Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação. + +Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda: + + Eu conheço-a! oh, se a conheço! + sempre volitando anciosa, + esbelta, fugaz, airosa, + esquiva, amante, esquecida, + eterno enygma na vida!... + Eu conheço-a! ah, se a conheço! + Estimo-a; estimal-a é grato; + quero entendel-a... endoideço! + +As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas +coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, +e nós, os homens, tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: +creio que foi a ultima da sua vida. + +Eram duas horas da noite quando saimos da _grade_, e eu lembro-me ainda +de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as +ultimas rimas: + + Tenho esta noite glosado + Versos a esmo, a granel. + Consenti, minhas senhoras, + Que eu d'esta feita termine + E que a vossos pés se incline + Vosso servo: Pimentel. + +Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que +felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas +pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era +filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra +era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de +vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde +lembrar-se do _oiteiro_ de S. Bento, porque tambem lá esteve: o +escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da +assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter +mettido uma lança em Africa. + +Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos _Pitorra_, como dizia toda a +gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o +_grande Santos_. + +A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos +empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os +espectaculos e os ensaios, o palco e o _foyer_, e escrevi por essa +occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam _Lirios_, e que +Emilia Adelaide recitára. + +Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, +dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre +irremediavel. + +Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve +trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára +os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar +todas as faltas da actriz. + +Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. +Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no _Hotel +Francfort_, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente +conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a +Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. +Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi +outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então +louca, mordia por vezes as mãos dos convivas. + +Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno +livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da +morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com +que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o +peito amante pelo abutre implacavel da saudade... + +N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os +epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu +beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874. + +Paro um momento a lel-os: + + Foi aqui--a historia o conta... + Que entre flôres, palmas, himnos, + Dos talentos peregrinos + Brilhou a constellação. + Era um loureiral a scena, + O theatro escola e templo, + Cada talento um exemplo, + Cada palavra--lição. + + Formoso e esplendido quadro! + As bellas frontes rasgadas + Resplandeciam banhadas + Em misterioso fulgor... + Grupo onde tudo era grande + Merecia moldura d'ouro, + Se tantas cordas de louro + Não o cingissem melhor. + + Foi o tempo devastando + As maravilhas da tela. + Onde a loira Manuela? + Onde Epiphanio, o pharol? + Onde Sargedas, a graça? + Onde Tasso e a sua gloria? + Mais quatro nomes na historia, + Mas não é posto inda o sol. + + Não é. O quadro tem vida. + Move-se, agita-se, fala + Remurmuram n'esta sala + Os eccos da sua voz... + Supponde muitas palmeiras + Rasgando do céu as brumas... + Quando o vento prostra algumas, + As outras não ficam sós. + + Dos velhos heroes da scena + Descem hoje sobre o espolio, + No theatro-Capitolio, + Flôres d'antiga ovação. + É que um talento robusto, + Honrando um nobre legado, + Resuscita hoje o passado, + Renova as flôres d'então. + + E a sua voz, que domina + Da ovação a anciedade, + É a voz da posteridade, + Que da scena aos velhos reis + Diz como um brado da historia: + «La vos honrei o legado; + «Se vos prostrou o passado, + «Não sois mortos. Reviveis...» + +E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos +Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção +particularmente se detém: + + Mas não é posto inda o sol. + +Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. +Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as +urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das +Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não +contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando +cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, +Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote +solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as +palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do +velho theatro normal. + +Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de +victoria e a uma noite de decadencia. + +_Não era posto ainda o sol_, porque elle era a luz crepuscular; não +estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda. + +Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle. + +Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; +Taborda principiava a retirar-se. + +Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se. + +Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente +como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, +similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que +elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade... + +Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego +no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do +Principe Real, a terceira no theatro da Trindade. + +Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob +as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza +condemnada como a de Luiz XVI--que tantas vezes reproduzira--passando +através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas +insultada já pelos estragos da doença. + +Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores +morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro. + +A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, +ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, +como um _sans-culotte_ implacavel, arrastava-o para o _Temple_, as +quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os +dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, +ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez +repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na +bocca de Luiz XVI: _Ah! a natureza humana não tem força para mais!_ + +O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O +condemnado sentira levantar os ferrolhos do _Temple_: era a sua familia +que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. +Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços +do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o +derradeiro. + +A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. +Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio! + +Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de +cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma +familia coberta de luto fôra regando de lagrimas, religiosamente, a +via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura. + +Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia +orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma +viuvez amarissima. + +Era o Delphim que pranteava a morte do rei... + +......................................................................... + +Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o +Theodorico, e o Rosa pae. + +Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer _partidas_: algumas +conta elle proprio nas suas _Memorias_. Como actor comico, mereceu a +celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o _duetto_ de _Moysés_, +ou representava os _Dois candidatos_ e _Para as eleições_, era da gente +rebentar a rir. + +Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, +triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação +emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um +defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, +incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito +correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido. + +No trato particular, um perfeito cavalheiro. + +Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o +seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se +a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia +então um logar na alfandega. + +Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. +No Porto, ouvi-o recitar o episodio do _Adamastor_, de Camões, e o +_Firmamento_, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma _reprise_ do +_Marquez de lá Seiglière_, que foi o seu cavallo de batalha. + +Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos +capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como +Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, +de que tenho falado, o mais _poseur_: toda a gente se lembra ainda de o +ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o +sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até +fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas. + +Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis + + * * * * * + +Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann +dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar +uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual +justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir +uma casaca: é o Tasso.» + +A sua dicção, um pouco _saccadée_, era cristallina, sonora. Ainda não +ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei +a ver quem soubesse estar melhor em scena. + +Vi o Sargedas no _Gaiato de Lisboa_, no theatro de S. João, do Porto. +Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o _Gaiato_ como se +estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham +da velhice, só os consegue o talento. + +Antonio Pedro é um morto de outro dia. + +Fóra do theatro, a sua _gaucherie_ passava em proverbio. No theatro era +um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas +difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua +assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que +estudavam mais do que elle e lhe censuravam a ignorancia manifesta +em questões de arte dramatica. + +Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, +aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita +por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua +organisação artistica. + + * * * * * + +Com o Tasso convivi durante uma _tournée_, no Porto; com Sargedas nunca +tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei +na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer +diabrura tipographica. + +Já isso vai ha tanto tempo! + + * * * * * + + + + +XVII + +Pintores + + +No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da +commissão de exames de instrucção secundaria. + +Coimbra, a _terra de encantos_, só então me pareceu tel-os, porque da +primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de +incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco +agradavel. + +Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas +galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a +paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os +sinceiraes e as suaves quebradas dos montes. + +Uma delicia! + +De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por +vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no +Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego. + +A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores do Porto, de +Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de +todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem +estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era +o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho. + +Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na +prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo +da natureza que o rodeava. + +Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara +paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo. + +Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e +magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, +até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que +destacavam á prôa do barco. + +Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua +cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. +Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as +tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse +lado ficava a _Fonte dos amores_ emboscada saudosamente na sombra de +corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos +mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois +kilometros da cidade, a _Lapa dos esteios_, «retiro selvatico sem +aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, +recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da _Primavera_ e os seus +amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a +festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os +amores. + +Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma +alma de artista, era uma organisação delicada como a de Raphael, +que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais +profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região +encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam. + +Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de +Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma +gondoleira. _Ó dolce voluttá_! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos +artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego +sonhando sobre as aguas! + +Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto +da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa +e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a +gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que +desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente +se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se +envelhece ao cabo de algumas horas de concentração. + +Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com +o pintor Christino. + +Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer +que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos... + +Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão +a miude repetidos, e tão docemente devoradores!... + +Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. +Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara +passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces +morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era +comtudo facil e agradavel. + +Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se +descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo +artistico de que os pintores que copiam do natural precisam +impregnar-se. + +Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de +Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o +seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por +vinte e quatro horas. + +No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido +repentinamente. + +E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama +oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta +de um pintor. + +Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a +natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um +ephemero!... + +Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem +com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia +era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia +vender saude. + +Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma _soirée_ litteraria +que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da +Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio. + +Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de +intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um +trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom +de convicção dava-me estimulo. + +Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que +se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar... + + * * * * * + + + + +XVIII + +Um grupo de academicos + + +Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet--_Trente ans de +Paris_--lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o +capitulo que fala de Villemessant. + +O livro (collecção Guillaume & Cie. ) é illustrado, e até o retrato de +Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de +Vasconcellos. + +Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me +varias vezes com elle nas _soirées_ politicas de Fontes Pereira de +Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que +desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, +um _gentleman_, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu +respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que +mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia. + +Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção +do _Jornal da Noite_. Eu precisava trabalhar: acceitei. A +benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a +esperança de que o _gentleman_ das salas havia de continuar a ser +affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da +redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco +Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, +tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de +jornal. + +Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me. + +Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal +desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para +o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador. + +As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira +de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato +familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas. + +Foi o que aconteceu comigo. + +Depois que sai da redacção do _Jornal da Noite_ vivemos deliciosamente. +Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o +visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha +presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia +soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se +para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente. + +Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e +assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para +os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo. + +Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno +artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e +que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio +d'aquelle editor. + +Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é +conservar-se inedito. + +Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido +espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia. + +Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu: + +--Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o. + +Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me. + +Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da +sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, +estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá +tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem +embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á +Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos. + +É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e +encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «_Adquirido pelo +bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da +livraria._» + +Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto +Soromenho se dedicára pela causa da Academia. + +Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da +Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca +d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo. + +Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a +irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, +mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter +razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do +mesmo officio sem razões de queixa. Peor do que uma sociedade de +homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma +profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente +verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao +imperador de Marrocos, que têem serralho. + +O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente +desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os +assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de +uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no +mundo das lettras com um livro de versos, o _Diwan_. Mas á força de +trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu +com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de +epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de +naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e +academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem +vence os outros sem ficar vencido de si proprio... + +Apesar de robusto--Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia +algum tanto arabe--morreu relativamente novo. + +A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle +tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de +instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. +Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da +Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, +levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se +como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a +roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não +sou forte; entendo-me melhor com as rosas. + +Lembro-me de que á despedida elle me dissera: + +--Olhe lá. Voce diz no _Guia do viajante no Porto_ que eu nasci aqui. É +engano. Sou de Aveiro--como os mexilhões. + +Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos. + +Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, +gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle +queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou +comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. +Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos +periodicos litterarios da sua mocidade, _A Semana_, por exemplo. O que +lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança +e a Casa dos Bicos, bem como os _Estudinhos de lingua patria_, +publicados no _Archivo Pittoresco_. De resto não consolidou o seu nome +litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e +methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios. + +Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto +teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca +muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação. + +Quando eu escrevi o _Livro das lagrimas_ para a casa Mattos Moreira, +quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo +Antonio de Lisboa. + +Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, +mais de quinze livros que tratavam do assumpto. + +E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros. + +Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente +qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia +affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se +esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando +já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente. + +Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em +colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. +O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque +tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho +Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo +para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades. + +Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com +pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, +especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, +teve uma grande admiração. _A Semana_, jornal que Silva Tullio dirigira +de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado +litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual +de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e +Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente +romancista. + +Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no _Hotel +Universal_. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou +Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da +noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo _por mestre_. + + * * * * * + + + + +XIX + +Conselheiro Viale + + +Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos +srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, +convidando-me para escrever um romance historico.[13] + +Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance _Annel +mysterioso_ começou a ser publicado em fasciculos. + +Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me +instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao +_Annel mysterioso_. + +Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser +recebido com agrado o meu romance que estavam publicando. + +Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa +lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a +empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu +succedesse a mim proprio. _Non bis in idem_, diz o proloquio. Escogitei +então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse +do que o _Annel mysterioso_, e ao cabo de dois ou tres dias +pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda +explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de +D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma +popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu +favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do _Annel mysterioso_, +seguiu-se immediatamente a da _Porta do Paraiso, chronica do reinado de +D. Pedro V_. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou +lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas +ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e +esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa. + +Comecei a escrever a _Porta do Paraiso_ no Porto. A meio do romance, +caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de +Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos +da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim +definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos. + +Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de +600 réis por dia... + +Perdão! Não era isto o que eu queria dizer. + +Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o +conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na +Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, +d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, +fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, +conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje +um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, +o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia. + +Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando +eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua +cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar +a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com +extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente +conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de +pronunciar havia um _tic_ original, que fazia retinir algumas sillabas. + +Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse +espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de +guerra, dos arraiaes litterarios, era «_Place aux jeunes_», ainda que +para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos. + +Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. +O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á +jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, +magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua +janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu +apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos +não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o. + +Falou-me da _Porta do Paraiso_, disse-me que o livro lhe avivára +recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que +de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar +portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um +opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me +esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: _Apontamentos para uma +biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima +memoria_, Lisboa, 1859, sem nome de auctor. + +Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo +ás primeiras palavras, denunciando a firmeza convicta de um crente. +Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava +profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava +o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, a +adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um +trecho da _Illiada_ ou uma ode de Pindaro. + +Collaborou no _Jornal da Sociedade Catholica_, redigiu o _Catholico_, +traduziu o primeiro canto da _Odissea_, o sexto da _Illiada_, os cinco +primeiros cantos do _Inferno de Dante_, o episodio do conde Hugolino, e +bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas +escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado. + +A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com +uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. +Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do +catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa. + +Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema +heroico, _David triumphante_, entrou no mundo das lettras pela porta da +oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que +parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida +pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação +greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre +os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, +abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com +Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu +mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na +resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do +catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado +deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do +passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção era de tal +modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de +sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem +que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar +um momento. + +Eu tenho aqui, deante de mim, as _Tentativas Dantescas_ do conselheiro +Viale, a sua traducção do _Inferno_ prefaciada por uma notabilissima +carta de elrei D. Pedro V. + +As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, +na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das +dedicatorias. + +Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, +um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição +erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, +as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de +enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com +que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade +de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de +seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia +que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que +devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu +peculio historico lhe pudesse ministrar. + +Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais +tornei a avistar-me com o conselheiro Viale. + + +Maio de 1889. + + [13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo + Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter + declinado o convite que elles lhe dirigiram.--_Nota da 2.ª edição._ + + [14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a + tipographia, que ainda subsiste.--_Nota da 2.ª edição._ + + * * * * * + + + + +XX + +Eduardo Coelho + + +Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem... + +A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um +tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de +repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da +missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de +guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o _Jornal da Noite_, +que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía +depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e +a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os +theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de +espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje +está a ourivesaria Leitão. Vendedores de _cautelas_ rouquejavam o pregão +da _taluda_, o 4897, perseguindo a gente. + +Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e, diga-se +francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia +o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias +fugitivas d'aquella noite de festa. + +Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia +aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão +africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo. + +Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem +o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim +de encontrarmo-nos _definitivamente_, fosse eu á redacção do _Diario de +Noticias_, ás nove horas da noite. + +Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o +auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda +da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do _Diario de +Noticias_ é de recente data. + +Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia +d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se +orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de +sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama. + +Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do _Diario +de Noticias_, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. +Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. +Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a +cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho! + +Finalmente, entrei na redacção do _Diario de Noticias_ quarenta minutos +depois da hora aprazada. + +Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse +estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora. + +Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto, riu da +minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me: + +--Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem +capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á +procura do _Diario de Noticias_, mas ganhou o ficar habilitado a tornar +cá com os olhos tapados. + +Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com +aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter +affectuoso: ficamos amigos. + +Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de +uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar +o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. _Ia fazer a meia noite, com a +sua familia_, disse-me. Eu não sabia o que era _fazer a meia noite_. +Coelho riu-se. + +--É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do +Natal. + +Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e +redactor principal do _Diario de Noticias_. + +Em maio de 1889 chegava eu á _gare_ de Campanhã, no Porto, em virtude de +um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente +preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o +_Jornal da manhã_: + +--Morreu o Eduardo Coelho. + +--De repente? + +--Sim, de repente. + +--Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava... + +Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que +foi, deve dizer-se, _uma das forças do seu tempo_. + +Depois de haver sido um dos _vencidos da vida_ (não no sentido +pantagruelico que esta denominação está tendo hoje, mas no sentido +economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma +idéa que o salvasse. + +Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma +idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo +Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente +proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis +para noticias e annuncios. + +Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho +affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre +a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já +não poderá desgarrar-se. + +Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, +folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão +exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a +indole noticiosa e popular do _Diario de Noticias_. + +Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius +que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o +tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, +espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie +de gazeta feita... á gazeta. + +Mas os moldes do _Diario de Noticias_ nunca foram alterados, o artigo +litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a _blague_ +phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do +annuncio--este Mathias Lopes da imprensa quotidiana. + +Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas +sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse +do leitor, eis o proposito inicial do _Diario de Noticias_. + +Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as +poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de +litteratice, n'um tom que tanto pudesse servir para o visconde do +primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o _Diario de +Noticias_ se propoz conseguir, e realisou. + +Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a +epiderme do _Diario de Noticias_: queriam-n'o mais enlitteratado, mais +pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que +fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do _Martinho_. Seguia o +seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho +honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo +que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, +viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a. + +Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que +Lisboa inteira se cousubstanciasse com o _Diario de Noticias_, que, se o +lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na +flagrante nudez da sua verdade anatomica. + +Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á +porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes +podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das +nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o _Diario de Noticias_ +diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, +informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, +consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente +perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que +elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, +converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o +gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se +vendem avulso. + +A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á +sua alimentação, ha de gastar um vintem por dia: dez réis para o +seu _Diario de Noticias_, dez réis para o carapau do seu gato. + +Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, +todos os moços de fretes lêem preliminarmente o _Diario de Noticias_, +encostados ás esquinas das ruas. + +Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia +dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos +postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato +das _maltas_, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a +verba effectiva do _Diario de Noticias_, cuja leitura se faz, as mais +das vezes, em voz alta, para o grupo todo. + +É isto ou não é isto? + +Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto +indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua +gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do _Diario de +Noticias_. + +No proprio dia em que elle se enterrava, o _Diario de Noticias_ +appareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que +elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido +definitivamente n'uma instituição lisbonense. + + * * * * * + + + + +XXI + +Marquez de Thomar + + +Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e +comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a +politica. + +Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para +ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão +indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes. + +Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao +traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia +do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza. + +Teriam gritado: predestinação! E diriam, _una voce_, que o illustre +estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da +grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de +Thomar--lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada. + +Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a _Maria da Fonte_, o conde +de Thomar fugira para Hespanha, mas o resultado das eleições de +1848 chamára-o de novo ao poder. + +1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica +franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso +de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da +época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da +republica em França e quando estava germinando a _regeneração_, foi que +me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis. + +Mas como o acaso--essa bussola misteriosa que nortea os destinos +humanos--não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a +descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel. + +No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi +ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo +depois de ter sido annunciado pelo himno da _Maria da Fonte_. + +Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de +Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. +Eu entrei n'este mundo durante os _cem dias_, posso dizel-o assim, de +Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de +Hespanha, alguns dias de ephemera restauração. + +O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda +saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou +patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, +se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi +que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de +que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que +tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha +triumphado com a regeneração. + +Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, +recordava-se o _Espectro_ e a _Maria da Fonte_, acudiam ainda á memoria +de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos +Cabraes. + +Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a +esposa do ministro caido: + + Luizinha, agora, agora... + +Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos +dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e +pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para +assim dizer, trouxera do berço. + +Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o +vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. +Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa +phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante. + +Vi o Sampaio da _Revolução_... de guardanapo ao pescoço, tomando +pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos +de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor +do _Espectro_, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais +pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este +paiz têem mexido em politica. + +Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com +elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi +morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os +cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão +indeciso. + +Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem +forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle +todos os braços, e ouvi as saudações respeitosas que todos os +homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas _enragés_. + +É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as +impaciencias, envelhecido os homens. + +Chegára a _paz geral_, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, +hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de +1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se +congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma +magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que +agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de +Thomar. + +Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles +homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! +Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do +combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão +de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles +chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites +mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que +se desfizeram em fumo! + +Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas +cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de +par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles +diziam... + +Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da +_Maria da Fonte_ tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando +maiores recordações no papel do que nos homens. + +Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro +e por fóra, a natureza humana. + +De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma +estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens +divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido +igual em todos tres. + +Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens +que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, +porque á primeira resistiu elle. + +Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o +implacavelmente com o _Espectro_, amargurára-lhe as horas de triumpho, +os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem. + +Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que +procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da +corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, +chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar. + +Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres +brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas +de bom timbre, expansivas e affectuosas. + +Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e +communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram +na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece +enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas +furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar +parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, +continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo +através da historia... + +Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, +algumas notas discordantes. + +Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira +condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o +exame detido e imparcial das circumstancias em que se encontrou. É +preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem +politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das +mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz. + +Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e +conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos +homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é +tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, +dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello. + +Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas +da opinião--tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra +opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as +eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica. + +Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado. + +Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação! + +Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma +força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, +subjugando-a. + +Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, +nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema +astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em +politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser +alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de +si mesmo centenas de vezes. + +Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior +solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. +Por isso mesmo chegou a rodear-se dos mais dedicados amigos. Quem +não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, +praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força. + +O sr. Oliveira Martins accusa-o, no _Portugal Contemporaneo_, de ter +governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as +vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os +governos... Haveis de ficar ricos com o achado!... + +Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação +publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no +seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado +no poder. + +Foi, a meu ver, o seu grande erro politico. + + +Setembro de 1889. + + [15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro _Figuras + humanas.--Nota da 2.ª edição_. + + * * * * * + + + + +XXII + +Alexandre da Conceição + + +Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia +Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia +litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José +Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao +Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado +as musas a esse tempo. + +Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente +dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o +titulo de _Alvoradas_. E dez annos depois fez segunda edição augmentada +com novas composições. + +Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme +Braga, era comtudo muito distincto. Dou como _specimen_ aquella das suas +poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro +_Alvoradas_, póde ajuizar, pelo _specimen_, do valor de Alexandre +da Conceição como poeta: + + PERGAMINHOS + + Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos; + Eu tenho mais orgulho do que pensas + E rio-me tambem; + É debalde que tentas humilhar-me, + Porque eu ouso pensar--vê tu que insania! + Que tambem sou alguem. + + Alguem que veio ao mundo sem familia, + Um producto do acaso, um paria, um misero, + Um engeitado emfim, + Um sêr sem protecção das leis canonicas, + Filho sem pae no assento do baptismo, + Mas um sêr, inda assim. + + Levantou-me da estrada do infortunio + Um homem que entendeu que um filho espurio + Tem jus a protecção, + Um homem que entendeu que é vil e infame + Atirar para o lodo dos hospicios + Uma alma em embryão. + + Este homem deu-me a força do seu braço, + Legou-me em vida o seu honrado nome... + Vestiu quem era nu, + Depois, quando me viu robusto e forte, + Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta, + Trabalha agora tu.» + + Luctei, passei curvado sobre os livros + A mais florida quadra dos meus dias + Sereno a trabalhar; + Estudei, progredi, illuminei-me + E um dia para entrar em novas luctas, + Pude emfim descançar. + + É que eu vi as premissas da victoria, + O applauso espontaneo dos estranhos + Incitar-me a seguir, + É que eu via deante dos meus passos + Rasgar-se ampla, infinita, luminosa + A estrada do porvir. + + Se alguma cousa sou a mim o devo, + Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo, + Ao amor de meus paes, + Á força de vontade, á intelligencia, + Á sociedade pouco, ás leis bem menos... + E a ti não devo mais. + + E és tu que vens fallar-me em pergaminhos? + E és tu que vens fallar-me nas riquezas + Que o destino te deu? + Eu não troco os meus louros de poeta, + As conquistas do estudo e o meu futuro + Por tudo quanto é teu. + + És louca!... Sabes lá que orgulho é este + Do homem que a si só deve o que vale + E que espera valer? + Ha lá brazões illustres que equilibrem + Estes louros viçosos d'um triumpho + Que soubemos mercer? + + És louca! Sabes lá como eu sou rico, + Rico de muita honra e muita esp'rança + E muito coração? + És louca! Mostra a escravos as riquezas, + Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro, + Sou bastante christão. + + E quem te disse a ti que eu te invejava + Esse ouro, que é teu unico prestigio + E o nome a teus avós? + Orgulhosa!... pois julgas decidido + Qual seja, n'esta lucta de vaidades, + O mais nobre de nós? + + Pois julgas que ser nobre é mero acaso, + Uma questão de berço ou de destino, + Uma questão de paes? + Não vês que se a nobreza fosse heranca, + Tendo eu e tu por paes Adão e Eva, + Seriamos eguaes? + + E não somos, bem vês, porque a nobreza + Não se lega, conquista-a a intelligencia, + O talento, as acções; + Ora eu, se me permittes a vaidade, + Colloco um pouco abaixo dos meus louros + Todos os teus brazões. + + Devolvo-te portanto os teus insultos + E a suspeita de te adorar os risos, + Que nunca mendiguei; + Se és bella e tens orgulhos de rainha, + Mulher, entende bem, eu sou poeta, + Tenho orgulhos de rei. + + Que é esta a nossa força; n'estes tempos + Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro + Para nos insultar, + É modestia a orçar pela baixeza + Não fazermos sentir aos maus e aos futeis + Quem devem respeitar. + + Não me compares, pois, a horda ignara + Que te adora os sorrisos pelo ouro... + Eu tenho coração, + Tenho por pergaminhos o trabalho, + Por thesouros a minha intelligencia + E a honra por brazão. + + Nós, os homens que andamos procurando + Á luz do coração por este mundo + Os caminhos do bem, + Como trazemos alto o pensamento + E a fronte erguida ao céo, temos orgulho, + Bem vês, como ninguem. + +Em 1867 publicou o poemeto _Abençoada esmola_, que considero inferior á +maior parte das composições incluidas nas _Alvoradas_. + +A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito +prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na _Abençoada +esmola_ a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado +a prosaicas occupações. + +E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na +mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para +illudir-se. A este respeito discutimos n'uma serie de cartas +publicadas no _Jornal do Porto_ desde dezembro de 1871 a março de 1872. + +A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos +antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada +por Alexandre da Conceição n'um folhetim do _Nacional_. Quando a questão +rompeu no _Jornal do Porto_, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, +mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo +favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da +Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, +especialmente em politica. + +Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que +militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com +nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia +conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era +resoluto na expansão das suas convicções. + +Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com +Camillo Castello Branco, a proposito do _Euzebio Macario, historia +natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes_. + +Na _dedicatoria_ declarava Camillo o intento que o demovera a escrever +essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor +de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um +romance com todos os _tics_ do estylo realista. Respondi temerariamente +que sim.» + +O _Euzebio Macario_ foi a justificação d'esta affirmativa, d'este +compromisso espontaneamente tomado. + +Camillo, o inexcedivel romantico do _Amor de perdição_, provou o seu +pulso de escriptor realista no _Euzebio Macario_ e, depois, na _Corja_. +Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da +litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, +processos que lhe desnervassem o braço. + +Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu +tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e +em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, +fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu +deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. +Cuidou ver apenas no _Euzebio Macario_ a pretensão _de lançar o ridiculo +sobre a escola realista_. + +D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões +pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto +de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do +afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista. + +O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve +trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um +polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos +que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no +combate. + +Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado +triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo +da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios +do seu contendor. + +Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no _Café Marrare_, +n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos. + +O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, +commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente +capacitado de que nenhum dos dois guardou duradouro resentimento +d'essa cruel peleja. + +... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, +irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos +olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as +alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da +Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o +envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella +alma ardente, mas fidalga. + +E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, +sem pae e creio que... sem pão. + + [16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde + (1882) compilados no livro a que deu o titulo de _Notas, ensaios de + critica e de litteratura._--_Nota da 2.ª edição._ + + * * * * * + + + + +XXIII + +Julio Cesar Machado + + +No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, +pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam _bons dias_, +quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo... + +A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta +voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se +n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo +diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma +dolorosa noticia... + +A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia +que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos +muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por +elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento +de attenção em passando... + +A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes com a sua +sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na +festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, +bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para +occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre +com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto +das grandes ruinas... + +A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que +é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que +não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que +melhor a personificou no mundo... + +......................................................................... + +Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a +rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não +estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus +pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de +sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?! + +Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se +suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes +pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o +peso da vida. + +Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e +presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de +uma nuvem mais que uma lagrima--apenas! + +«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro _Scenas da +minha terra_); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de +luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus +sorrisos, essas lagrimas...» + +«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de +se proporem a sair da sua terra, e até cuidam que o barco se ha de +perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que +por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, +pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17] + +«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem +entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é +morrer!»[18] + +«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; +deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á +sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante +o altar da anecdota!»[19] + +Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos +depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava +tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes +de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o +tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final. + +O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação +de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou +a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de +terra, nada fica de pé dentro de poucas horas. + +Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito +ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a +quem sorria escutando-a. + +Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de +feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com +louvor ao seu livro mais querido, _Os contos ao luar_. + +--Ó Julio, o teu prologo dos _Contos_ leio-o ás vezes para me sentir tão +moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei +ao meu livro _Contos ao luar_!» Bonito, como eram então as coisas bonitas! + +--Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... +respondia-me elle uma vez. + +E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos... + +Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio +levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, +que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar +pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não +tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois +de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha +afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o +outro amigo que o reprehendera. + +Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o +perdeu;--basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de +1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado. + +Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo +aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada. + +Foi no livro _Manhãs e noites_ que elle saudou com excessivo favor os +meus primeiros trabalhos litterarios, as _Peregrinações na aldea_ e o +romancesito _Idyllios á beira d'agua_. Não me conhecia pessoalmente, +elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado +algumas cartas. + +Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, +recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino. + +Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um +livro que me haviam comprado no Porto: _Photographias de Lisboa_. + +Reproduzo uma pagina d'esse livro: + +«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o +escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, +retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um +labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu +explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por +naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico _atelier_ +do Julio. + +«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no _ménage_, é +um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das +maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela +photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, +Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca +Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas. + +«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez +que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos +talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o +Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de +Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o +seu nomeado livro _Physiologie du ridicule_. É effectivamente raro este +livro, cuja primeira edição data de 1833. + +«--Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, +encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil +encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a +desencantou o nosso Camillo. + +«E tirando para fóra um livro: + +«--Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a +_Physiologia do ridiculo_, alegre-se que vae vêl-a. + +«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou: + +«--E lel-a. + +«O Julio havia escripto: + +«_Ao seu amigo Alberto Pimentel--lembrança de Lisboa em outubro de 1873._ + +_Julio Cesar Machado_.» + +«E entregando-me o livro: + +«--E tel-a. + +«Era impossivel recusar; acceitei.» + +Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, +intimas, o _tu_ veio consolidal-as como entre dois bons amigos de +collegio, que se conhecessem desde a infancia. + +Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas +alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na +Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. +Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve +saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho +apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral +ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, +saboreando a sua modesta _villegiature_. + +Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe: + +--_Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!_ + +É o seu livro que mais fala da Durruivos. + +Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as +minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos +campos, dos arvoredos da Durruivos. + +O Julito agitou no ar o seu chapeu. + +E o comboio partiu. + + [17] e [18] Do livro _Recordações de Paris e Londres_. + + [19] Do livro, o seu ultimo livro, _Mil e uma historias_. + + * * * * * + + + + +XXIV + +João de Andrade Corvo + + +Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta +bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio +litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no +futuro pantheon dos meus auctores predilectos. + +Ainda foi outro dia!... + +De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de +trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os +dois da _Vida em Lisboa_, que vão sendo muito raros no mercado. + +É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente +me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, +dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a +distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa _grande +confusion_ tumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em +que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que +Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte. + +Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente _cancan_ dos +espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves +como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo +desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos. + +Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de +culto privativo--o culto da saudade--e dei-lhe um logar reservado n'um +só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, +folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e +muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente +passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo. + +Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era +inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, +as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque +diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e +estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro +no mesmo lote da minha estante. + +Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu +respeito. No folhetim semanal do _Economista_ apreciei eu dois volumes +dos seus _Contos em viagem_, e não sei se foi n'essa occasião, ou em +qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista +historico, declarei francamente antepôr o seu _Um anno na côrte_ á tão +preconisada _Mocidade de D. João V_, de Rebello da Silva. + +Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da +Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico +acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da +época, e na fidelidade dos caracteres. + +A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi +dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico. + +Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem +eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter +orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem +a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. +Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse +má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a +sonica, a achasse boa. + +Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete de _ida e +volta_, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como +esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em +Misericordia. + +Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por +divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber. + +E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado +no _Claudio_: + + +«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os +leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, +metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em +allemão, dois em grego. O _Martinho_ exultou. O homem novo ia matar tudo. + +«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento +que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de +estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a +ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a +sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um +poeta e o sentimento de um artista. + +«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo, _O Astrologo_. + +«--Ah! O Corvo é um homem superior, um homem justamente respeitado +pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle. + +«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado +a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso. + +«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo, +tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da +academia real das sciencias, auctor do _Anno na côrte_, do _Alliciador_, +do _Astrologo_, de _D. Maria Telles_, de _D. Gil_, de _Nem tudo que luz +é oiro_, de grande numero de artigos publicados dos _Annaes das +sciencias e lettras_, na _Epocha_, etc., estava todo entregue a uma +curiosidade. + +«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr. +Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas +de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser +discipulo d'elles. + +«--Não és capaz! + +«--Ora! Elle é lá capaz d'isso! + +«--Sou capaz até de estudar o curso completo. + +«Os dois olharam para elle, sorrindo. + +«--Vou matricular-me ámanhã. + +«Matriculou-se no dia immediato. + +«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a +maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se +diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos +melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos +seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, +modestamente, _á estudante_, trepava aquella calçada do Garcia e +mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um +filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe +exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos +registros sisudos do livro de ponto. + +«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do +estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que +n'elle ainda não parou nem se fartou um instante. + +«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na +politica, da politica na litteratura.» + + +N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da +marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares +eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, +entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das +Sciencias. + +Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela +designação de--_Gabinete do sr. Corvo._ + +O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na +secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da +sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de +variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia os _Estudos sobre as +provincias ultramarinas_, escrevia os _Contos em viagem_. Só depois de +regalado o paladar é que fazia despachos e discursos. + +Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o +espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que +deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, +para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo +um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe +coube--estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes--no relatorio +official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel +José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que +a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginas _in-folio_, foi desde +logo tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um +exemplar. + +Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios +immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por +todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não +obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social. +Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir +uma anecdota authentica e graciosissima. + +Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que +sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir +aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas +occasiões. + +Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de +alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da +presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o +redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e +levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui +immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, +disse-me com uma grande seriedade: + +--Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende +com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição +respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do +regimento dispõe. + +Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem. + +--É que eu não sei de cór--respondi--o que dispõe o artigo 37.º + +--Nem eu, replicou o sr. Corvo. + +--N'esse caso vamos vêr. + +E abri o _Regimento_, que estava sobre a banca do presidente. + +Li o artigo 37.º + +--Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu não queria era ter o +trabalho de ler isso. + +E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vão da janella: + +--Então como vamos de litteratura? + +Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei +durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar +relativamente a tudo o que se não traduzisse para o seu espirito n'um +facto scientifico ou n'um facto litterario. + +E todavia elle era um homem de tão superior estofa que ainda quando +extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos +apreço, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella--como n'estes +dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das +colonias. + + +FIM + + + + +ERRATAS + + +Mencionamos como mais importantes as seguintes: + +Pag. 15, lin. 35--transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: +transmittiria á rainha e ao principe. + +Pag. 43, lin. 19--e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities. + +Pag. 45, lin. 10--da fama, leia-se: da fauna. + +Pag. 45, lin. 20--Henri, leia se: Hipp. + +Pag. 63. lin. 5--a rodos, leia se: a rodo. + +Pag. 100, lin. 25--conservamos, leia-se: conservavamos. + +Pag. 102, lin. 10--elle fóra, leia-se: elle fôra. + +Pag. 119, lin. 14--ao folhetim, leia-se: do folhetim. + +Pag. 121, lin. 26--editr, leia se: editor. + + + + + + +End of Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + +***** This file should be named 33581-8.txt or 33581-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33581/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/33581-8.zip b/33581-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..79b0ca8 --- /dev/null +++ b/33581-8.zip diff --git a/33581-h.zip b/33581-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..337152f --- /dev/null +++ b/33581-h.zip diff --git a/33581-h/33581-h.htm b/33581-h/33581-h.htm new file mode 100644 index 0000000..cbe114a --- /dev/null +++ b/33581-h/33581-h.htm @@ -0,0 +1,8212 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Vinte Annos de Vida Litteraria, por Alberto Pimentel</title> + <meta name="Author" content="Alberto Pimentel"> + <meta name="Edition" content="Porto. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Vinte Annos de Vida Litteraria + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> + +<p>No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como <span class="errata" title="no original: aqui">aqui</span>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>1908<br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> + +<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br> + +LISBOA</p> + + +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—10.º VOLUME</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>1908<br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> + +<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br> + +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> + +<div style="text-align: center;"> +<p>Composto e impresso na typographia<br> + +<small>DA</small><br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small><i>Rua Augusta, 44 a 54.</i></small><br> + +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<div id="corpo"> + +<h1>A QUEM LER</h1> + +<h3>Prologo da 1.ª edição</h3> + +<p>Publiquei o livro <em>Atravez do passado</em>, receoso de que +não agradasse por ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro +Chagas, escrevendo na <em>Illustracão Portugueza</em> +um artigo muito amavel para mim, a respeito d'aquelle +livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores +reunirem as memorias jornalisticas e litterarias do seu +tempo, como subsidio indirecto para a historia completa +da sociedade a que pertencem. Este ponto de +vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras +deram-me estimulo, confesso-o francamente, para +colleccionar um segundo livro de memorias.</p> + +<p>De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, +eu obedeço gostosamente a uma natural inclinação +do meu espirito para a reconstrucção do passado, +que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo as +cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. +Não sei se até certo ponto entrará n'isto o egoismo de, +pelo que me respeita, reviver pela memoria os dias que +já vão longe.</p> + +<p>Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de +vida litteraria sem preoccupações de nenhuma especie, +nem mesmo chronologicas. Quanto ás pessoas de que +falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua hierarchia<span class="pn">{6}</span> +politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que +me iam lembrando, e as recordações que me acudiam +ao bico da penna.</p> + +<p>Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas +paginas que não versam assumptos exclusivamente +litterarios. Mas foi pelo braço da litteratura que +eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude +conhecer mais de perto certos homens.</p> + +<p> </p> + +<p>Lisboa, 42 de novembro de 1889.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">A<small>LBERTO</small> P<small>IMENTEL</small>.</p> + + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<h2>Prologo da 2.ª edição</h2> + +<p>Este livro deve certamente a boa fortuna de uma +segunda edição ao facto de contêr aspectos biographicos +de alguns homens notaveis, com os quaes eu convivi +na minha mocidade. Esses homens marcaram uma +época da vida historica do paiz e, como sempre acontece, +a morte deu-lhes maior prestigio. De modo que +o livro não envelheceu por causa d'elles, e só d'elles +recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição.</p> + +<p>Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo +mais agradavel de escrever a historia, ainda +quando esse processo caia em mãos tão incompetentes +como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, +que não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente +os biographados.</p> + +<p>Por mim julgo os outros: releio com prazer algum +trecho de Plutarcho, e custa-me a digerir meio capitulo +de Tito Livio.</p> + +<p>Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me +não aborreci de mim mesmo revendo agora este livro, +que ia ser reimpresso. Não é que o repute perfeito, +porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque +a sua revisão me reconduziu a uma época em que +os homens e os factos constituiram um vasto edificio +de que só restam cinzas e ruinas.</p> + +<p>N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, +communicativa e cordeal. Não se tinham ainda desencadeado<span class="pn">{8}</span> +grandes borrascas de odios pessoaes, que nos +agitassem como n'esta hora. As amizades eram perduraveis, +e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos +de braços abertos, acarinhados, protegidos. E +cada qual plantava os seus ideaes sem incommodar o +vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia aquillo +que nós desejariamos ter.</p> + +<p>A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi +a de uma sociedade remota, que me não propuz descrever, +mas que resulta de um conjunto de biographias +n'elle agrupadas.</p> + +<p>E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me +expulso do passado pela distancia e do presente pela +estranheza.</p> + +<p>Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. +E se elle fôr o <em>crescendo</em> logico do dia de hoje, eu não +sinto pena de o não viver—e descançarei serenamente +da fadiga do caminho. <em>Fatigatus ex itinere sedebat.</em></p> + +<p>Lisboa, 27 de abril de 1908.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><em>O auctor</em></p> + +<p><span class="pn">{9}</span></p> + +<h2>I</h2> + +<h3>El-rei D. Luiz</h3> + +<p>Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo +menos um pouco arriscado: póde parecer adulação. Mas +escrever de um rei que já não existe, e contar lealmente +os altos favores pessoaes que d'elle se receberam, +é mais do que gratidão—é justiça.</p> + +<p>Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca +o disse em publico durante a sua vida, para afastar de +mim a suspeita de lisonjeiro, mas não perdia occasião +de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da minha +bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. +Para estes escrevo.</p> + +<p>O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. +Luiz I foi o rei, o principe, o astro da côrte. O que +n'elle sempre me captivou, desde o primeiro dia em +que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado +e complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector +dos que rudemente luctavam pela existencia.</p> + +<p>O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das<span class="pn">{10}</span> +paixões politicas, que em torno d'elle se debatiam. O +homem era sempre o mesmo para todos: bom, compassivo, +affectuoso.</p> + +<p>Chegava a causar assombro que um principe, tão +preoccupado de negocios e até de distracções, pudesse +seguir tão attentamente o fio de tantissimas pretensões +particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia +o segredo.</p> + +<p>No conjunto das massas populares havia centenas +de biographias que el-rei D. Luiz conhecia pagina a +pagina, e que acompanhava dia a dia.</p> + +<p>A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão +de si mesma quando, na turbamulta de uma +festa ou de um espectaculo publico, o rei divisasse, perdidas +humildemente na multidão, as phisionomias de +muitas pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.</p> + +<p>Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi +furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito +do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que +por toda a parte o perseguiam.</p> + +<p>De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel +de todos os principes da sua familia: fixava facilmente +as phisionomias e as datas, de modo que não +perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez +houvesse falado.</p> + +<p>Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da +côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente +em que sempre procurei collocar-me, e o seu +olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, +correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, +mas quasi subtil.</p> + +<p>Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, +eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873 +tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.</p> + +<p>Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação +burocratica que ainda assim vi com alegria cair do<span class="pn">{11}</span> +céu, tinha eu publicado recentemente um livro, <em>A Porta +do Paraiso</em>, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.</p> + +<p>Os regeneradores estavam no poder, e o governador +civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára, +dera-me uma carta de apresentação para o ministro +do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.</p> + +<p>Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me +immediatamente com a bonomia familiar que +elle tinha para com toda a gente.</p> + +<p>Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens +politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos +de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem +obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição +aos Cabraes, do <em>Espectro</em>, e na sua palavra, ás +vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade +verdadeiramente captivante.</p> + +<p>Terminou perguntando-me o que eu queria.</p> + +<p>Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado +a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro +que acabava de dar a lume. Acrescentei que era +eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario +do meu livro, e que de modo algum ousaria +offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de +uma novella baseada em factos do reinado do senhor +D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia +prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, +teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria +naturalmente de todo e qualquer escripto que +dissesse respeito a uma pessoa da familia real.</p> + +<p>Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; +que no dia seguinte, uma quinta feira, havia +despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da +tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na +sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.</p> + +<p>No dia seguinte, á hora indicada, partimos do <span class="typo" title="no original: Terreiro Paço">Terreiro do Paço</span> para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez<span class="pn">{12}</span> +minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo +tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma +das salas interiores.</p> + +<p>Quando ali entrei, com a timidez de um homem que +arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei, +encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto, +com as mãos mettidas nos bolsos de um <em>veston</em>, +conversava com o ministro do reino.</p> + +<p>Sampaio apresentou-me em termos excessivamente +amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas, +que augmentaram ainda mais a minha confusão.</p> + +<p>Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei +falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me +que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a +que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio +fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando +um relampago da sua felicissima memoria, recordou +que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou +muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me +se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com +grande segurança de critica, os seus romances, acceitando +a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente +no romance a escola ingleza.</p> + +<p>E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a +luva da mão direita—o que Sampaio me advertira—el-rei, +certamente por ter reconhecido que eu fumava, +abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.</p> + +<p>Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, +sorrindo, observou-me:</p> + +<p>—Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.</p> + +<p>Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.</p> + +<p>Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord +Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar +na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao +offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.</p> + +<p>Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos<span class="pn">{13}</span> +falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído, +não o accendi. Nem me era facil saber como havia de +accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio +não fumava; só o rei estava fumando.</p> + +<p>Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o +charuto, offereceu-me lume.</p> + +<p>Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu +fumo desde os quinze annos desesperadamente—mas +cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu +fumo para incommodar-me.</p> + +<p>O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que +eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi +o charuto, que de mais a mais era fortissimo.</p> + +<p>A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o +apagar a breve trecho, propositadamente. Mas +el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado, +tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava +no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que +chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes +Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco +abruptamente com estas palavras de el-rei:</p> + +<p>—Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o +sem acanhamento.</p> + +<p>Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento +o facto de eu ter deixado apagar o charuto.</p> + +<p>Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, +Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello, +e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na +carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que +elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para +fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema +homoepathico:—<em>similia similibus curantur</em>.</p> + +<p>As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram +d'esse dia.</p> + +<p>Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer +a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.</p> + +<p>El-rei dizia-me invariavelmente:<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>—Procure-me sempre que precisar de mim.</p> + +<p>De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, +el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. +Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao +fumo para o afastar.</p> + +<p>Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do +bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos, +amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas +vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado +melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da +camara dos pares; creavam-se logares de redactores. +Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas, +fervilhavam em torno de Fontes. Desejando +um d'esses logares, mas não dispondo de influencia +que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido, +lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.</p> + +<p>Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois +era recebido por sua magestade, que me ouviu +com a amavel benevolencia que sempre me dispensou. +E, tendo-me ouvido, disse:</p> + +<p>—Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo +empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito +justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes +trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos +annos um trabalho d'esses.</p> + +<p>No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a +Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez +esta pergunta:</p> + +<p>—Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?</p> + +<p>Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente +do meu pedido com a maior pressa e solicitude. +Desde essa hora julguei-me despachado.</p> + +<p>—O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª</p> + +<p>—Diga lá.</p> + +<p>—O meu empenho... fui eu só.</p> + +<p>Contei então a Fontes tudo quanto se passára.<span class="pn">{15}</span></p> + +<p>E Fontes limitou-se a dizer-me:</p> + +<p>—El-rei tem o maior empenho no seu despacho.</p> + +<p>Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. +Sua magestade, apenas me viu, perguntou-me:</p> + +<p>—Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão?</p> + +<p>—Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer +a inexcedivel diligencia de vossa magestade. Acabo de +falar com o presidente do conselho.</p> + +<p>—Eu falei-lhe hontem mesmo.</p> + +<p>Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.</p> + +<p>Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações +para a camara dos pares. O meu nome nunca foi +lembrado pelos jornaes. A politica interveio n'este negocio, +como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a +minha pretensão triumphou, graças á protecção do rei.</p> + +<p>Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, +el-rei dignou-se abraçar-me dizendo:</p> + +<p>—Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance +um pouco. Era justo. Era justo.</p> + +<p>Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não +tinha os seus enxutos.</p> + +<p>Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, +não direi de amizade, mas de franqueza.</p> + +<p>Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta +minha sobre assumptos que não eram pessoaes.</p> + +<p>Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa +carta. Ha quem conheça a carta, e possa contar a historia +um dia, querendo.</p> + +<p>A ultima vez que me demorei conversando com el-rei +foi para lhe fazer o pedido de alguns brindes da +familia real para um bazar de Setubal. El rei disse-me +logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito +o meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, +e que o principe real estava estudando as suas +lições, motivo por que transmittiria <span class="errata" title="no original: á e ao rainha principe">á rainha e ao principe</span> +aquella solicitação.</p> + +<p>N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír<span class="pn">{16}</span> +da noite recebia eu n'aquella cidade um telegramma do +sr. D. Pedro Arcos participando-me que tanto a rainha +como o principe mandariam brindes para o bazar.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu +coração uma saudade indelevel pelo homem bom, pelo +desvelado protector, que tanto me ajudou a desbravar +o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados +além da campa, o rei de Portugal deve repousar no +seio de Deus n'uma eternidade bem aventurada. Quanto +á minha gratidão, será eterna, porque eu ensinarei a +meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a +tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo +de el-rei D. Luiz I.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{17}</span></p> + + +<h2>II</h2> + +<h3>Meu pae</h3> + +<p>Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista +quanto é sincera e aguda. Não sei, não quero +saber o que se tem passado fóra de mim proprio: tenho +vivido apenas das minhas recordações dolorosas, +concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o +drama intimo do meu luto e da minha tristeza.</p> + +<p>E depois os leitores têem de certo para mim esse +doce sentimento de condolencia que resulta de uma +convivencia longa e leal. Somos bons amigos ha vinte +annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto +adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado +as suas opiniões: desculpar-me-hão, portanto, +este desafogo de uma saudade irremediavel, tão +sagrada e tão justa—a saudade de um filho que deplora +a morte de seu pae.</p> + +<p>Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios +do leitor um ligeiro sorriso, fique esse sorriso á conta +de compensação da magua que lhe posso causar hoje<span class="pn">{18}</span> +obrigando-o a lêr as palavras que certamente me acudirão +orvalhadas de lagrimas.</p> + +<p>Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante +dos olhos todos os lances da minha vida desde a primeira +infancia tão descuidosa e alegre, e no meio d'esse +enxame de recordações entrevejo, a contrastar com ellas, +o semblante demudado e quasi cadaverico do meu +querido octogenario, que ainda ha oito dias contemplei +semi-morto no seu leito de agonia.</p> + +<p>Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não +houvesse entregado ao cultivo das bellas-lettras, mas +unicamente aos aridos cuidados da sua profissão de +medico; elle, que devia ter com a morte essa fria familiaridade +que a faz encarar tranquillamente como o +desfecho forçado de todos os actos phisiologicos, acharia +comtudo no fundo do seu coração de pae um terno +perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que +o levaria a encher de flores a sepultura do filho.</p> + +<p>Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria +a mesma delicadeza de sentimento, a mesma suavidade +de lagrimas, e continuar a ver n'elle não aquillo +a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, +a bella alma antiga, capaz de entender todos os +carinhos e de comprehender todas as dedicações.</p> + +<p>Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi +extincta, que trouxeram do lar paterno a noção austera +do dever e a impressão profunda dos bons exemplos +caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, +hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da +sua vida em plena atmosphera de tradições sagradas +e inviolaveis, e que professavam pelo passado um culto +quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes +velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos +de avós fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas +não passavam sem commemoração domestica: +eram outras tantas festas de familia, muito intimas e +muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes<span class="pn">{19}</span> +da Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados +com devoção tradicional. E sentar-se á mesa, d'esses +dias memorandos, rodeados de todos os filhos e de +todos os parentes, era para os homens de uma geração +quasi extincta um doce prazer patriarchal, puro e simples, +o goso perenne da felicidade pela familia.</p> + +<p>Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros +homens, dilatando a sua esphera de acção, tornaram-se +cosmopolitas, entraram n'uma vida mundana, que os +leva para longe do berço das suas tradições de familia, +lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, +de preoccupações e trabalhos. Esta corrente moderna, +esta evolução do espirito humano, assombra os velhos +de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os +assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as +suas arvores e os seus casaes, era o eixo obrigado de +todos os movimentos psichologicos, o centro em torno +do qual girava e se consumia toda a sua actividade. +Ver aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era +como viver ainda em espirito para elles e no meio d'elles, +prolongar pela propria existencia a d'aquelles entes +queridos que tinham constituido a familia, e haviam +desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se +no Douro, n'uma quinta dos seus maiores, contemplando +as arvores que elles tinham mandado plantar, +colhendo os fructos dos pomares que elles haviam +disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo +á sua clinica portuense, tratando dedicadamente +os seus doentes que conhecia ha longos annos, e que +iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes de +<em>partido</em>. Tinha extremos de paciencia para os escutar, +para os attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia +da sciencia que exercia, quando os não podia salvar. +Havia no Passeio da Cordoaria um major reformado +que era um verdadeiro <em>doente de scisma</em>, o protagonista +bondoso de uma comedia molieresca, que se +repetia todos os dias.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>—Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel.</p> + +<p>O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão +querido voltarete, dava-se pressa em acudir á chamada.</p> + +<p>—Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. +Palavra de honra que não vae. Somos amigos antigos: +póde acreditar-me. Coma a sua asinha de frango, tome +a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e +durma.</p> + +<p>No dia seguinte a mesma scena.</p> + +<p>Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos +juntos uma tarde, e elle pediu-me que o ficasse esperando +no Jardim da Cordoaria.</p> + +<p>—Vae ver o major? perguntei-lhe.</p> + +<p>—Vou.</p> + +<p>—Mas elle mandou-o chamar?</p> + +<p>—Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou +eu que vou de motu proprio: o pobre major não dura +oito dias, mas, felizmente para elle, já não scisma na +sua doença.</p> + +<p>Quando eu estive no Porto a semana passada, todas +as velhas e lazaras dos recolhimentos das Fontainhas, +de que meu pae fôra por largos annos clinico, mandavam +saber d'elle.</p> + +<p>Achei commovente este testemunho de gratidão, mas +não era difficil encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as +carinhosamente.</p> + +<p>Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos.</p> + +<p>—De que se queixa? perguntava o medico a uma +nonagenaria.</p> + +<p>—Dôres... Afflicções... Eu sei lá!...</p> + +<p>—Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho +isso mesmo.</p> + +<p>—Tem?!</p> + +<p>—Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. +Pois, minha boa doentinha, tome um chásinho de +erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao estomago.<span class="pn">{21}</span> +Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades +não ha outro remedio: a velhice não se cura. Deitar +grandes remendos n'um predio velho é perder tempo +e trabalho. Vamos assim amparando as nossas ruinas +com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e +hei de achal-a mais socegada.</p> + +<p>É incalculavel o numero de autopsias que meu pae +fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos +eramos pequenos, embirravamos muito de que meu +pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: +já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.</p> + +<p>Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente +á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos +no seu bom appetite.</p> + +<p>Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar +menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que +tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.</p> + +<p>Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu +creança; cuido que havia sido atacado de ictericia +negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe +conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que +teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou +o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam, +disse a minha mãe:</p> + +<p>—Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma +torrada.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! Isso não!</p> + +<p>—Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.</p> + +<p>Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, +contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do +leito.</p> + +<p>—Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o +doente sabe sempre mais.</p> + +<p>Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era +quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas; +uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu<span class="pn">{22}</span> +diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos, +em 1825, quando entrou na Escola Medica.</p> + +<p>Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se +a morte com heroica serenidade. Era o declinar +de um bom. Como eu, sem grande esforço, o pudesse +voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo da +sua lethargia:</p> + +<p>—Isto é quasi um cadaver.</p> + +<p>Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me +logo em seguida palavras de carinhosa ternura, que eu +não pude agradecer suffocado pelas lagrimas.</p> + +<p>Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos +ultimos dias um corpo devorado por dôres lancinantes, +que elle indicava levando a mão ao peito. E, na sua +dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz +entrecortada e difficil:</p> + +<p>—Rezem.</p> + +<p>Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, +do corpo que se esphacelava.</p> + +<p>Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse +querido octogenario que, sem ambições nem invejas, +parecia não ter biographia. Mas o leitor comprehende +que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de +penna. O sacrificio tem sido superior ás minhas forças. +Mas o coração, posto que dilacerado, não me permittia +que, escrevendo de tantos homens a cuja memoria devo +a homenagem da minha saudade, deixasse de falar +d'aquelle cujo sangue corre nas minhas veias, o mais +dedicado, e tambem o mais amado, de todos elles.</p> + +<p> </p> + +<p><small>Junho de 1889.</small></p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{23}</span></p> + + +<h2>III</h2> + +<h3>Alexandre Herculano</h3> + +<p>Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais +notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me +com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista +deixei memoria no livro que se intitula <em>O capote +do sr. Braz</em>. Quando o eminente escriptor morreu, tentei +traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então +publiquei, <em>O Porto por fóra e por dentro</em>.</p> + +<p>Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade +de Herculano um outro aspecto, que aliás +tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica. +Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento +agora á biographia do grande historiador, poderá +conter elementos não de todo inuteis para quem houver +de escrever um dia, definitivamente, a monographia +completa da sua brilhante existencia.</p> + +<p>Alexandre Herculano padecera as contrariedades da +guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram +ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro +a Portugal.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser +um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo, +se não fossem naturalmente subjugados por uma +organisação de poeta, com todas as qualidades e os +defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam +exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos +da corôa, quando não têem, como Herculano teve, +a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada +passo os contraria e azéda.</p> + +<p>Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante +a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido +elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes +caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás +conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento +e ás intrigas de gabinete.</p> + +<p>Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados +de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor +de <em>D. Branca</em>, do <em>Camões</em>, de <em>João Minino</em>; o sr. +Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos +os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, +os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: <em>e apenas +eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde +prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica</em>.»</p> + +<p><em>A Voz do propheta</em>, um dos seus mais notaveis escriptos +politicos, não é senão um grito lancinante de +poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de +um poeta da <em>Carta</em>, deixem-me dizer assim; de um coração +delicado que via ligada á memoria da <em>Carta</em> a recordação +dos seus melhores dias de soffrimento, de +lucta e de esperança.</p> + +<p>«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella +polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, +da nudez, das tempestades, do desalento. <em>Vivia +depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi +dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas +que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as +gerações novas.</em><span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto +de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam +assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo +a <em>Carta</em>, d'esses homens que accentuavam agora +em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado +a separal-os na emigração, collocava-se no ponto +de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta +uma causa pelo estimulo sincero da sua propria +convicção e da sua propria fé n'essa causa.</p> + +<p>Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, +façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato +eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem +não <em>fazia sombra</em> a ninguem como politico.</p> + +<p>Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter +para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso. +E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no +parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão +o deputado.</p> + +<p>Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico +amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para +o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como +politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por +aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se +em pleno parlamento, logo que ali entrou, +de que não fizera um pedido, de que não escrevera +uma carta para obter o diploma de deputado.</p> + +<p>Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus +companheiros de emigração, poria o fito em escalar o +parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para +<em>chegar</em>. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso, +Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett +chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.</p> + +<p>Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que +principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano +usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta +ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.<span class="pn">{26}</span></p> + +<p><em>O sr. Alexandre Herculano</em>—Sr. presidente, erguendo-me +para dar a minha opinião sobre as graves questões +que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado +até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo +que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas +cadeiras, para obter a qual <em>ninguem ousará dizer que +eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra</em>; +n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se +lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em +instrumento de martyrio, se não as queremos tornar +recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo +o resto da vida.</p> + +<p>«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos +do coração, e as convicções do entendimento, que me +cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no +qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, +e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços +eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella +não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que +hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a +boa e leal amisade. (<em>Grande attenção</em>).</p> + +<p>«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de +Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos +srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que +o governo tem deixado peiorar a situação das nossas +relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade +do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de +administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só +curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem +e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de +um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o +sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar +como devo: visto que os meus constituintes me +mandaram para este logar.</p> + +<p>«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio +actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque +se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece)<span class="pn">{27}</span> +sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido +tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.</p> + +<p>«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque +sobre os homens da minha crença politica se lançaram +crueis accusações de falta de patriotismo; porque +eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes +que advogam a causa da revolução permanente, +asselladas com o ferrete de lista ingleza.»</p> + +<p> </p> + +<p>Muitas passagens d'este discurso foram vivamente +applaudidas.</p> + +<p>Citaremos as seguintes:</p> + +<p> </p> + +<p>«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal +á França; nem o partido cartista o quiz vender á +Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente, +ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (<em>Vivissimos +apoiados</em>).</p> + +<p>«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria +como um só homem, e esmagaria os infames +que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem +os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas +que cobrem as cinzas dos nossos paes! (<em>Muitos +apoiados</em>).</p> + +<p>«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos +valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de +nós cahir moribundo pela independencia nacional!</p> + +<p>«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em +ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram +nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas; +juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos +olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes +desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem +uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca +imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse +os seus companheiros d'armas. Como é possivel que<span class="pn">{28}</span> +hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos? +Penhor do procedimento presente seja o procedimento +passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não +tivesse por bandeira—<em>independencia e liberdade</em>?» (Vozes: +<em>Muito bem, muito bem</em>).</p> + +<p> </p> + +<p>Este discurso de estreia revela o homem de lettras +<em>depaysé</em> no parlamento. É um academico que fala, encadernando +em bons periodos litterarios uma alma delicada +de poeta, que sinceramente presta culto á terra +em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. +Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali +o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar +em todos os debates da politica apaixonada, em todos +os incidentes facciosos e obstruccionistas, o <em>rabula</em>, o +furão da politica.</p> + +<p>Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia +bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se +para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o +a Lamartine, um grande escriptor, tambem +poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a +linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o +tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis +da organisação de um homem de lettras que tinha, +sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.</p> + +<p>Foi pois o ministro do reino que se levantou para +responder por parte do governo.</p> + +<p>Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e +ao caracter de Herculano.</p> + +<p>«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os +parabens ao nobre deputado, que acaba de falar, pelo +seu primeiro discurso n'esta camara, que nos promette +a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur +de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras +sobre o ministerio a que eu pertenço. Eu sou o +amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e tenho de +o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa<span class="pn">{29}</span> +de que me devia alguns obsequios: o nobre deputado +nenhuns me deve, e pelo contrario se em algum de nós +ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de que as suas +palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia +na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima +para mim, a maior em que me tenho visto +até agora.»</p> + +<p>Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, +como suppomos, viu em Alexandre Herculano o homem +que, longe de manejar as armas politicas nos combates +de todos os dias, só uma vez por outra havia de +tomar a palavra em assumptos que mais ou menos pudessem +lisonjear as tendencias do seu espirito.</p> + +<p>Assim aconteceu; a raposa vira bem.</p> + +<p>Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como +membro da commissão de instrucção publica, pronunciou +algumas palavras sobre o projecto da jubilação dos +professores.</p> + +<p>Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:</p> + +<p>«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição +de Evora, ou fazia cousa similhante está aposentado; +e creio que não ha muita justiça em um tal accumular. +(Uma voz—E o que tocava os folles do orgam na Patriarchal!) +É por isto, sr. presidente, que eu requeiro +que se approve o parecer da commissão de instrucção +publica, sobre o direito d'accumulações dos professores, +e que as commissões respectivas dêem o seu parecer +sobre as outras classes, para que a essas a quem +a mesma accumulação competir, se torne extensiva a +disposição d'esta lei.»</p> + +<p>Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava +a falar sobre o mesmo assumpto, e dizia:</p> + +<p>«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação +aos professores, é porque estes professores +durante 20, 25, 30 annos de serviço accumularam na +mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, o<span class="pn">{30}</span> +professor de instrucção primaria, converteu um bocado +de pedra ou um bocado de pau n'um homem; um serrenho +que desce das montanhas, e vem para a escola +primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu +tenho conhecido alguns, que realmente distam mais de +uma creatura humana do que de uma alimaria: isto é +verdade, e o professor de instrucção primaria converte +este ente n'um homem, e em um cidadão productivo +para a sua patria, o que por certo não seria, se não +fosse o cuidado do professor de instrucção primaria. +Estes homens passam ás escolas superiores, e vão ser +magistrados, e vão ser militares, vão ser fabricantes e +artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, +tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza +nacional, que como todos sabem (porque todos +aqui sabem o que é economia politica) consiste em capitaes +accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. +Esses capitaes são os que os professores accumulam +nas mãos do Estado, porque elles são a origem primordial +d'elles.»</p> + +<p>Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou +para a mesa, por parte da commissão de instrucção +publica, uma substituição ou antes nova redacção +do projecto de lei, que restituia os professores da academia +do Porto aos seus respectivos logares, de que +haviam sido demittidos em consequencia dos acontecimentos +politicos posteriores ao dia 9 de setembro de +1836.</p> + +<p>Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto +de lei relativo aos abusos de liberdade de imprensa.</p> + +<p>Alexandre Herculano tomou a mão para falar.</p> + +<p>É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:</p> + +<p>«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres +classes—abusos contra a religião, e a moralidade publica—abusos +contra a honra dos cidadãos—e abusos +contra a segurança do Estado.—Entendo que qualquer +d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra<span class="pn">{31}</span> +elles devem ser tambem gravissimas: eu não tinha +duvida nenhuma em votar, que o homem que calumnia +um empregado, ou um particular por via da imprensa, +soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; +e porque? Porque é um assassino do espirito, da +alma, assim como o homem que ataca com um punhal +na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo +entre estes dois assassinos; não sei se diga, que detesto +mais o assassino da alma, aquelle que me rouba +todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. presidente, +que eu desejava todo o rigor da lei; mas não +queria nenhuns embaraços para o exercicio d'uma garantia, +que pela constituição têem todos os cidadãos; +porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser legista, +mas entendo, que uma lei que regula não destroe, +e eu vejo destruido este direito para todos os que +não tiverem os meios de fazer este deposito, ou dar +esta fiança».</p> + +<p>Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento +do estado, Herculano occupou-se da verba destinada á +conservação dos monumentos nacionaes.</p> + +<p>«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de +fazer só com oito contos, quando para o convento de +Mafra vejo que são precisos treze; isto é, só para este +edificio; propondo-se agora oito contos para os reparos +de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha +de o sr. ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo +parece-me mais conveniente que se espere pela +presença do sr. ministro para vermos o que elle diz a +este respeito.»</p> + +<p>Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, +conformou-se com as explicações dadas pela commissão.</p> + +<p>«Não queria eu decerto que estes monumentos se +concluissem com o que nós lhe vamos dar; queria que +se reparassem, que se evitasse a sua ruina, mesmo +porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam<span class="pn">{32}</span> +capazes de os acabar. Contento-me pois com isto, e +muito mais com esta ultima declaração da commissão; +porque ha muitos monumentos que não estão incluidos +no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, +e posso citar o castello da Feira que se está arruinando +e deitando abaixo, e pouco a pouco se vae +apossando d'elle um sujeito que é dono das terras visinhas +ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação +esse primor d'arte. Muitos outros ha que têem a +mesma sorte.»</p> + +<p>Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, +que não mira a fins politicos, que expõe parcimoniosamente +a sua opinião, até com certa hesitação algumas +vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; +e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, +descobrimos perfeitamente o gosto, a predilecção, +a tendencia do homem de lettras, que faz a apologia +do professor de instrucção primaria, o primeiro +cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos +historicos, que são a genuina expressão da arte nacional +na serie dos tempos.</p> + +<p>Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados +a celebre questão da propriedade litteraria, em +que Almeida Garrett tão activa parte tomou, sendo sua +a iniciativa do projecto.</p> + +<p>Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.</p> + +<p>Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob +o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos +crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado +ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, +impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos +depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre +carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns +periodos significativos, referentes á discussão de 1841. +Diz Herculano a Garrett:</p> + +<p>«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse<span class="pn">{33}</span> +seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou +agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer +responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me. +<em>Dez annos não passam debalde para a intelligencia +humana, e eu não me envergonho de corrigir e +mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho +de raciocinar e aprender.</em>»</p> + +<p>Estamos persuadidos de que o debate parlamentar +ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre +Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto. +Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo +faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos +de que o sistema nervoso de um homem de +lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos +da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. +Herculano, o irritado contradictor da propriedade +litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que +fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio +testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.</p> + +<p>Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. +São o claro-escuro das suas concepções geniaes.</p> + +<p>Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára +cada vez mais avesso ás promptas soluções dos +negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta, +Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra +a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia +que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia +nos acommetteu e pungiu.</p> + +<p>Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo +circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral +de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano +saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco +de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente +se notabilisára no parlamento como <em>apagador</em> encartado. +A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano +não quizera ir á camara de braço dado com um +<em>apagador</em> satirisado. Não acceitamos esta versão. É<span class="pn">{34}</span> +certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a +razão adduzida na sua <em>Carta aos eleitores de Cintra</em>, +agora reimpressa no <small>II</small> volume dos Opusculos, é pouco +menos de futil.</p> + +<p>Essa razão era—<em>que nenhum circulo eleitoral deve +escolher para seu representante individuo que lhe não +pertença</em>.</p> + +<p>Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto +o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar +para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica, +onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado +e constrangido.</p> + +<p>O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, +do que entre politicos interesseiros que punham a +sua candidatura a ministros.</p> + +<p>Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido +o parecer da primeira commissão de verificação de +poderes acceitando a renuncia do logar de deputado, +para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito pelo +circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.</p> + +<p>O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer +da commissão:</p> + +<p>«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo +sr. deputado Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente +no caso da lei, convida-o a acceitar o logar +de deputado.»</p> + +<p>Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, +tendo expendido pela imprensa as razões da sua renuncia, +não julgaria logico mudar da opinião, mas que a +camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se +achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.</p> + +<p>Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse +que se o sr. Pegádo tinha em mente fazer o elogio de +Alexandre Herculano, a camara estava de accordo com +as suas palavras, <em>porque o sr. Alexandre Herculano faz<span class="pn">{35}</span> +uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria</em>; +mas a questão era outra, havia uma lei a cumprir e +uma vontade a respeitar.</p> + +<p>A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se +a materia discutida, e o parecer foi approvado.</p> + +<p>Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes +com agreste voluptuosidade o sentimento da resistencia +obstinada ás correntes sociaes que em sentido contrario +ás suas tendencias os solicitam.</p> + +<p>Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle +cristallisára no seu aborrecimento pelo mundo politico, +pelo scenario avariado do parlamento, onde se reconhecêra +inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.</p> + +<p>El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, +quiz fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria +do que dar-lhe um premio politico: nomeou-o par do +reino. Transcrevemos o diploma official da nomeação, +que foi publicado no <em>Diario do Governo</em>:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ministerio dos negocios do reino</em></p> + +<p> </p> + +<p>«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo +da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da +nação portugueza. Eu El-rei vos envio muito saudar. +Tomando em consideração os vossos merecimentos e +qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, +nomear-vos par do reino, o que me pareceu participar-vos +para vossa intelligencia e effeitos devidos. +Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de +1861.—Rei.—<em>Marquez de Loulé.</em>—Para Alexandre +Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia +Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza.»</p> + +<p> </p> + +<p>Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque +essa mercê tinha resaibos de iguaria politica, para apreciar<span class="pn">{36}</span> +a qual o seu paladar estava desde muito tempo +embotado.</p> + +<p>Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, +como elle dizia, o pedestal dos homens politicos. +Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. A sua prosa tinha +por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons +duros de mau humor para com a sociedade.</p> + +<p>Recusou a mercê regia.</p> + +<p>Temos fortes razões para crêr que o requerimento +em que renunciou o pariato fomos nós arrancal-o pela +primeira vez ao archivo do ministerio do reino.</p> + +<p>Diz assim:</p> + +<p class="assin">«Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.</p> + +<p> </p> + +<p>«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do +poder moderador, Houve por bem honrar-me com a nomeação +de membro da Camara dos Dignos Pares do +Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio +esta demonstração de confianca d'um Soberano, que a +historia póde qualificar como a mais nobre e pura intelligencia +que tem resplandecido no throno portuguez, +e que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem +do que ao respeito como magistrado supremo.</p> + +<p>Mas as condições da humanidade alcançam reis e +subditos: reis e subditos estão sujeitos a fazer apreciações +inexactas ou incompletas. Podem illudir-se ás +vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas inspirações +da justiça e é possivel que em relação a mim +se désse uma circumstancia d'essas.</p> + +<p>Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia +com voz sobradamente intelligivel é que o meu +concurso nas deliberações da camara dos Dignos Pares +do Reino seria inutil, quando não inconveniente. Dispense-me +v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e +invencivel persuasão, razões tristes para mim, e porventura +demasiado longas e tediosas para v. ex.ª</p> + +<p>Não creio que faltem em Portugal homens de saber<span class="pn">{37}</span> +e virtude que tenham esperança e fé. São esses que +pódem, sem a temeridade de Ora, erguer a mão para +amparar a arca santa das instituições. É provavel que +saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram +tambem honrados com a confiança da corôa.</p> + +<p>Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da +camara dos Dignos Pares do Reino á presença de Sua +Magestade El-Rei, que, acceitando-a benignamente, +ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da +sua inexgotavel indulgencia para comigo.</p> + +<p>Deus Guarde a v. ex.ª—Lisboa, 18 de maio de +1861.—Ill.<sup>mo</sup> e ex.<sup>mo</sup> sr. Marquez de Loulé, ministro +e secretario d'estado dos negocios do reino.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><em>A. Herculano.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, +que nos conste, não fôra integralmente publicado no +<em>Diario do Governo</em>, posto que a elle se alluda em outro +diploma official.</p> + +<p>«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano +de Carvalho, socio effectivo da Academia Real +das Sciencias, Hei por bem acceitar a renuncia por elle +feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do +Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de +maio proximo findo. O Ministro e Secretario de Estado +dos Negocios do Reino assim o tenha entendido e faça +executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de +1861.—Rei.—<em>Marquez de Loulé</em>.»</p> + +<p>Do mesmo modo não foi publicada a portaria que +acompanhou a remessa do decreto real.</p> + +<p>«Para Alexandre Herculano de Carvalho:</p> + +<p>«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado +dos Negocios do Reino, remetter a Alexandre Herculano +de Carvalho, socio effectivo da Academia Real +das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia +authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo<span class="pn">{38}</span> +qual Houve por bem acceitar a renuncia por elle feita +nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da Dignidade +de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta +Regia de 17 de maio proximo findo, o que na data de +hoje se participa á Camara dos Dignos Pares do Reino. +Paço das Necessidades, em 8 de junho de 1861.—<em>Marquez de Loulé</em>.»</p> + +<p>O unico documento que encontramos estampado no +<em>Diario do Governo</em> é o seguinte aviso da presidencia do +conselho de ministros á camara dos pares:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ministerio do Reino</em></p> + +<p> </p> + +<p>«Direcção geral da administração politica—1.ª repartição—Livro +15 n.º 143==Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.—Tenho +a honra de participar a V. Ex.ª para conhecimento +da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade +El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado +pelo conselheiro d'estado effectivo João de Souza Pinto +Magalhães, e pelo socio effectivo da Academia Real das +Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por +bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a +renuncia, por elles feita nas Reaes Mãos do Mesmo +Augusto Senhor, da dignidade de pares do Reino a que +haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio +proximo findo.</p> + +<p>«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios +do Reino, em 8 de junho de 1861.—Ill.<sup>mo</sup> e +Ex.<sup>mo</sup> Sr. Presidente da camara dos Dignos Pares do +Reino.—<em>Marquez de Loulé.</em>»</p> + +<p>As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos +a circumscrever este capitulo, a que poderiamos dar +comtudo bem mais amplas proporções.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{39}</span></p> + +<h2>IV</h2> + +<h3>José Gomes Monteiro</h3> + +<p>Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava +toda a mais Grecia, foi guiada pela legislação de Licurgo +ao respeito da velhice. Facto verdadeiramente +extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas +eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos +inuteis, os velhos, tão inuteis para o serviço da republica +como as creanças votadas á morte, eram considerados +em face da lei dignos do respeito e da estima +dos seus concidadãos.</p> + +<p>Desde o momento em que um paiz entra no caminho +do progresso social e na conquista de um ideal de +perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma veneração +tão carinhosa como delicada. Realmente, offender +um velho é apedrejar uma arvore carregada de fructos. +As republicas, como todas as sociedades, precisam alimentar-se +da experiencia dos velhos e do ardor dos +mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, +e a do sol que se levanta, deslisa toda a existencia da<span class="pn">{40}</span> +familia e da nação. Estas duas correntes, em vez de se +contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes identificam-se de +tal modo na harmonia de um grande progresso intellectual, +que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram +n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. +Ditosos os paizes onde este facto se dá! Em França, +por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, absorvera +em si a alma da mocidade, que transparecia +nos seus livros cheia do perfume da primavera, e do +colorido <em>chatoyant</em> de tudo quanto é novo e vigoroso; +Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na +voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, +que seduz as imaginações juvenis, arrastando-as +para o mundo das auroras, para as conquistas da luz. +Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não +será possivel marcar limites aos progressos de um +paiz, mas será facil aventar que elle tomará a deanteira +a todos os outros para guial-os na marcha das suas aspirações +sociaes.</p> + +<p>Em Portugal—digamos cruamente a verdade—a +mocidade habituou-se a caminhar atirando por cima +dos hombros, como Deucalião, pedras contra o passado. +A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor +magestoso de um occaso. Os velhos foram uns +nescios, dizem os novos. Garrett, Herculano, Castilho, +José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo sem ter +provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas +vezes, a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, +arremetteu contra elles, procurando abalar ás mãos +ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico descia +a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que +recordar estes factos, tanto mais que parece ter havido +n'essa enorme irreverencia o só proposito de derrubar +por derrubar. Pois o que nos tem dado em troca a +geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor +e dissolvente domina a sociedade em que vivemos. +Tentativas de reconstrucção sérias e proveitosas, poucas.<span class="pn">{41}</span> +Por cada mil alavancas que revolvem os alicerces +do passado, uma só procura alinhar o blocus faceado +na esquadria do novo edificio.</p> + +<p>Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei +jámais cumplice da irreverencia dos meus contemporaneos. +Tirarei respeitosamente o meu chapeu para +saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. +E quando ella assignala a sua passagem com um +rastro de luz, eu não tenho duvida em confessar publicamente, +agora e sempre, que dirijo a minha rota +pelo esteiro do seu leme.</p> + +<p>Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; +escrevendo de José Gomes Monteiro, colloco-me +justamente dentro das circumstancias especiaes em que +me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre, +amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo +de mais de dez annos, talvez.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 +de março de 1807.</p> + +<p>Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra +nas faculdades de leis e canones, mas, chegando +ao quarto anno do curso, saiu de Portugal para Inglaterra, +talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito, +que se sentia asphixiado na atmosphera classica +da Universidade, onde tudo se prendia ainda ao passado +pelos élos oxidados da tradição scientifica, e onde +começava a fermentar a discordia politica, que veio a +motivar a emigração de 1828.</p> + +<p>Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer +residencia em Hamburgo, onde fez parte da +firma commercial Santos & Monteiro, cujos revezes absorveram +ao cabo de algum tempo todas as esperanças<span class="pn">{42}</span> +de vida prospera. Este desastre amargurára o coração +do homem; mas o litterato tirára enorme proveito da +residencia em paizes onde a cultura litteraria captivava +os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves complicações +da vida positiva os enleavam. No estrangeiro +travára relações de estreita amizade com Almeida Garrett +e com todos os emigrados que, depois da victoria +do partido avançado, foram os primeiros homens de +Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto conhecimento +dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava +com notavel facilidade, penetrando com o seu +espirito profundamente analitico na estructura intima +do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma imprevista +luz para a verdadeira interpretação dos textos; no estrangeiro, +onde o suave doer da nostalgia divinisa as +memorias da patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo +dos classicos portuguezes e foi então que, encontrando +na livraria da Universidade de Gottingen um +exemplar da primeira edição dos <em>Autos</em> de Gil Vicente, +pôde preparar, auxiliado por José Victorino Barreto +Feio, a edição critica das obras do fundador do theatro +portuguez.</p> + +<p>Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido +valor, não obstante quaesquer ligeiros senões que possam +apontar-se-lhe, e haver sido realisado em edade +incompativel com a madureza de espirito que requerem +os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. +Theophilo Braga, escrevendo de José Gomes Monteiro +no 5.º volume da <em>Revista Comtemporanea</em>,<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup> dizia a este +respeito: «O trabalho d'este livro pertence-lhe todo; a +profundidade da sua critica avalia-se pela introducção +com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante +creança e é talvez por esta circumstancia, que o +auctor hoje não lhe quer dar o alcance, que esse estudo +na realidade tem.» Como quer que fosse, era incontestavel<span class="pn">{43}</span> +o valor das investigações biographicas a respeito +de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, +<em>o que tudo com menos fundamento ha sido por +alguns attribuido a Barreto Feio</em>, escreveu Innocencio +Francisco da Silva.<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup> Os irmãos Castilhos reproduziram +na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da +edição de Hamburgo por <em>convencidos de que a respeito +da vida e obras do nosso poeta não poderiamos dizer +mais nem melhor</em>. Gomes Monteiro acceitava a responsabilidade +d'aquelle trabalho, e era o primeiro a reconhecer-lhe +as imperfeições, postoque ligeiras, algumas +das quaes estavam corrigidas á penna no exemplar da +sua livraria. Mas lancem-se essas pequenas incorrecções +á conta da mocidade do auctor, como o sr. Theophilo +Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, +com que José Gomes Monteiro luctava fóra de +Portugal.</p> + +<p>Se considerarmos, porém, a edição critica das obras +de Gil Vicente, <span class="errata" title="no original: e a das de Camões">e das obras de Camões</span>, na sua influencia +sobre a renascença litteraria de Portugal, qualquer d'esses +trabalhos tem um grandissimo valor, porque em +verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre +o proprio espirito de Gomes Monteiro, mas tambem +sobre a collectividade illustrada do nosso paiz. E, +a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez +o sr. Theophilo Braga, no seu artigo da <em>Revista Contemporanea</em>: +«Desde que proferiu este <em>surge et ambula</em>, +a Allemanha, a Inglaterra, a França, estudaram para +de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes +Monteiro dando-lhe parte de um drama <em>Um auto +de Gil Vicente</em>, com o qual havia, por uma notavel coincidencia, +dar vida ao theatro portuguez, apresentando-lhe +o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que +não sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, +nem a quem pertencia a paternidade. A renascença<span class="pn">{44}</span> +em Portugal deve-se a tres homens: Garrett, Alexandre +Herculano e José Gomes Monteiro.»</p> + +<p>Pela observação profunda dos textos durante a elaboração +das edições criticas de Gil Vicente e Camões, +pelas simultaneas investigações biographicas que era +obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno dos +processos analiticos, que estavam aliás nas condições +phisiologicas do seu temperamento e no caracter germanico +que pela sua longa residencia em Hamburgo +assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de reunir +subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria +de Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, +realisaria, pela consubstanciação com o trabalho de +Herculano, depois de concluido, a historia completa da +nossa nacionalidade.</p> + +<p>Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade—o +Porto—Gomes Monteiro dedicou a maior parte +do tempo á investigação e preparação dos materiaes +necessarios para a historia litteraria. A morosidade +com que na Allemanha se educára a trabalhar pela +applicação do criterio historico, a natural indolencia do +seu temperamento, e largas interrupções devidas a +melindres de saude fizeram, porém, que a obra proseguisse +lentamente, e os seus manuscriptos ficassem +por sua morte desatados apenas em memorias preciosas, +sem a unidade logica e chronologica de um corpo +de historia.</p> + +<p>Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha +pequenas amostras publicadas, e a origem da publicação +deve procurar-se sempre nas instancias de amigos +e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi +assim que em 1849 appareceu em opusculo a <em>Carta +ao ill.<sup>mo</sup> sr. Thomaz Norton sobre a situação da ilha de +Venus, e em defeza de Camões contra uma arguição, +que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. Alexandre +de Humbold</em>.</p> + +<p>N'este trabalho, em que os elementos da these são<span class="pn">{45}</span> +procurados com notavel paciencia e lucidissima intuição, +José Gomes Monteiro sustentou que a ilha dos +Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, +nem a de Anchediva, como escrevera Faria e +Sousa, nem <em>fingimento que o poeta fez</em>, como dissera +Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de Moçambique. +José Gomes Monteiro baseou em grande +parte a sua argumentação na concordancia das descripções +do episodio com as particularidades do clima, +<span class="errata" title="no original: da fama">da fauna</span>, da flora, da situação geographica da ilha de +Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup> +mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um +espirito sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, +foi respeitosamente recebido por todo o paiz.</p> + +<p>A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na +firme resolução de trabalhar na realisação da historia +litteraria de Portugal. Com effeito, como a carta a Thomaz +Norton revelava, elle poderia ter sido para a litteratura +portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, +<span class="errata" title="no original: Henri">Hipp.</span> Taine para a ingleza, Emilio Burnouf para +a grega, etc. Mas, depois, o gravame dos annos foi +crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos litterarios +fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, +como já dissemos, que a amizade o reptasse com +dedicado empenho, para que emittisse a sua opinião +sobre importantes assumptos de historia litteraria. De +uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação +do artigo que a <em>Revista Peninsular</em><sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> inseriu ácerca da +antiga trova do <em>Figueiral Figueiredo</em>, que José Gomes +Monteiro suppunha filiada na lenda gallega de <em>Val-Doncel</em>.<span class="pn">{46}</span></p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes +Monteiro em nota á pag. 17:</p> + +<p>«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um +dos mais famosos monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, +e que tão distincto logar deverá ter na historia +litteraria do nosso paiz,—o <em>Amadis de Gaula</em>—é +de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos +elementos historicos de que se compõe. Impenetravel +até hoje á investigação de grandes criticos, tem +sido considerado como uma <em>singular excepção</em> ao systema +de <em>decomposição historica</em>. Eu mostrarei comtudo, +em um trabalho que tenciono publicar brevemente, que +o seu maravilhoso, os seus personagens, os seus episodios, +tudo ali é urdido no grande tear da historia—da +historia do seculo <small>XII</small>, o mais rico em aventuras e +feitos d'armas da cavallaria real, de quantos contém os +annaes da edade-media. Ali, dissolvendo as tabulas do +<em>Amadis</em> em factos historicos, darei a mais completa +theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos +trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de +<em>Endriago</em>, a mais bella concepção de todos os romances +de cavallaria, ficará sendo um exemplo inapreciavel +de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades +primitivas da litteratura.»</p> + +<p>Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, +que deixou inedito, pela applicação do mesmo +processo que tinha seguido a respeito da ilha de Venus—o +confronto do romance com a historia. Só por +um pacientissimo labor poderia encontrar no grande +oceano da historia universal justamente a época cujos +factos capitaes correspondessem aos episodios do +romance. Procurou e achou. <em>Dissolvendo as fabulas do +«<small>AMADIS</small>» em factos historicos</em>, como elle proprio escreveu, +pôde localisar a acção do romance no tempo de<span class="pn">{47}</span> +Ricardo <em>Coração de Leão</em>, enxergando no disfarce da +allusão, motivado pelas exigencias da época, uma perfeita +concordancia historica, e logrou chegar á conclusão +de que Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa +famosa novella do ciclo cavalheiresco.</p> + +<p>Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era +uma edição critica da <em>Menina e moça</em> de Bernardim Ribeiro, +da qual seriam expungidas as intercalações apocriphas +que andam no livro. Calcule-se o dispendio de +paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria +ao douto bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, +um estudo biographico sobre Bernardim Ribeiro +e um glossario dos vocabulos antigos completariam a +edição critica da <em>Menina e moça</em>.</p> + +<p>A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro +laboriosamente investigada, alcançando extrair das +proprias composições do poeta illações luminosas e não +esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que +por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance +<em>Um conflicto na côrte</em>, baseando-me nos documentos que +espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam +a intervenção do poeta na dramatica paixão do +marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. +Foi nas eclogas <em>Aleixo</em> e <em>Andrés</em> que José Gomes Monteiro +encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou +ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas +allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera +á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que +já fiz no segundo volume do romance. A minha divida +para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, +que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.</p> + +<p>Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, +enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de +um extenso artigo a respeito da <em>Arte de monteria</em>, de +D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre +varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos<span class="pn">{48}</span> +os que podiam servir á elaboração de uma interessante +monographia da cidade do Porto.</p> + +<p>Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, +temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, +para completarmos a pequena lista das suas obras +impressas.</p> + +<p>Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha +de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro +em volume a traducção de algumas baladas dos poetas +mais populares da Allemanha, sob o titulo de <em>Eccos da +lyra teutonica</em>.</p> + +<p>Este livro está completamente fóra do grande programma +dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos +habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, +enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente +conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente +um poeta, mostrava que os processos de +metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos +relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia +da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo +assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de +investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso +paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo +a exactidão dos textos, como quem perfeitamente +conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia +obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada +por todos quantos saibam allemão, porque em muitas +das poesias a traducção vem a par do original.</p> + +<p>Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice +de Castilho—desaffrontando-a de accusações que +lhe foram feitas—com a publicação do livro <em>Os criticos +do Fausto do sr. visconde de Castilho</em>. Estava já a esse +tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma +resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para +escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que +Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a +dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,<span class="pn">{49}</span> +sempre que na redacção do <em>Primeiro de Janeiro</em> +recebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido +n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa +do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade +ao azedume com que os criticos de Castilho +cairam sobre a traducção do <em>Fausto</em>, lavrava um protesto +energico em nome da velhice desconsiderada, e +desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as +maguas intimas que as ingratidões de que a vida das +lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse +livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação +da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe +de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, +e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a +velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram +Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice +empraza a mocidade irreflectida a comparecer no +tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante +do que o d'um mancebo insultando um ancião +benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio +moral de que todo o homem honesto affasta a +vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a +tão pequena distancia da sepultura. Alexandre +Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do +fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação +a José Gomes Monteiro a proposito da publicação +dos <em>Criticos do Fausto</em>. Essa carta, era breve, +mas profundamente energica. <em>Nunca as mãos lhe doiam</em>, +dizia o auctor da <em>Historia de Portugal</em> áquelle que muitas +pessoas denominavam o <em>Alexandre Herculano do +Porto</em>.</p> + +<p>Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma +ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, +nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, +parecia esperar serenamente a noite misteriosa +da morte...</p> + +<p>Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,<span class="pn">{50}</span> +das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio +Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos +sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos <em>Lusiadas</em>, +que foi publicada n'aquella cidade por occasião do +terceiro centenario da morte do grande epico. A este +nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve +ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua +preciosa <em>camoneana</em>, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José +Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor +honrando a memoria do maior poeta que tem +tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio +de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a +noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta +para receber o douto bibliophilo.</p> + +<p>A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia +na traquillidade dos mortos.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, +a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia +ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. +Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções +litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era +socio correspondente da Academia Real das Sciencias de +Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O +seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, +e todavia, outros muitos que ajudára a crear com +o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção +passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, +sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe +a habitual serenidade de animo.</p> + +<p>Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio +da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades +de mortos, onde os livros falam como os tumulos. +A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso<span class="pn">{51}</span> +productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando +dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; +mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem +atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no +ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, +são sempre uma companhia, uma guarda, uma +força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. +Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, +mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu +que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? +Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre +elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia +escutar, na concentração placida dos cegos, o que +Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio +eterno dos livros.</p> + +<p>A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole +immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, +os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava +os seus volumes em linha de batalha. A um +lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro +lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras +coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa +combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos +dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores +a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava +as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu +Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de +luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus +codigos religiosos e austeros.</p> + +<p>—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes +Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos +lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.</p> + +<p>Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito +dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se +n'isto com as flores, que pertencem principalmente a +quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe +de ser aspirado pelos estranhos.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Pag. 236.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> <em>Diccionario bibliographico portuguez</em>, vol. 4.º, pag. 363.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> O sr. conde de Ficalho contradictou na <em>Flora dos Lusiadas</em>, +em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes +Monteiro, mas honra-o dizendo que a sua <em>carta</em> contém, na parte +exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> Vol. 2.º, pag. 401.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{52}</span></p> + + +<h2>V</h2> + +<h3>No parlamento</h3> + +<p>Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, +eleito por um circulo do districto de Vizeu.</p> + +<p>A minha eleição não pesou na balança dos destinos +politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os +fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação, +a minha eleição apresentára tres aspectos completamente +novos:</p> + +<p>1.º—O circulo conhecia-me.</p> + +<p>2.º—Eu conhecia o circulo.</p> + +<p>3.º—Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, +derramar-se o sangue de ninguem—nem mesmo de +um carneiro.</p> + +<p>A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente +possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que +me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno, +deixou de me eleger dois annos depois com +igual facilidade.</p> + +<p>A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.</p> + +<p>O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico<span class="pn">{53}</span> +dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato +progressista. E os fundos, por este facto, tambem +não subiram nem desceram. A substituição de deputado +por deputado operou-se, com grande proveito do partido +regenerador, sem agitar a politica da Europa.</p> + +<p>N'um livro de memorias, que abrange vinte annos +da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em +que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não +valeria chronica.</p> + +<p>Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal +era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem +deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, +que indirectamente me tinham levado lá.</p> + +<p>Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de +minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas +bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso +para me fazer visconde. O projecto passou, graças á +minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso +avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados +n'um jornal, que não perdi o meu tempo.</p> + +<p>No mez de outubro proximo findo, concorreram á +bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:</p> + +<p><em>Leitura diurna</em>: leitores, 1:092; volumes impressos, +2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, +6.</p> + +<p><em>Leitura nocturna</em>: leitores, 1:494; volumes <span class="typo" title="no original: impresgos">impressos</span>, +2:482; manuscriptos, 31.</p> + +<p>O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao +dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente +inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam +de ler.</p> + +<p>Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, +campeões experimentados e insignes. A minha +humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. +Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas +quando careci de justificar o meu voto.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>Da pequena bagagem que deixei depositada no <em>Diario +dos sessões</em> escolherei um unico discurso, não só para +comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto +era de geito a tentar as predilecções de um +homem que, até dentro da politica, estima os assumptos +historicos.</p> + +<p>Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento +do marquez de Pombal.</p> + +<p>Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:</p> + +<p>«<em>O sr. Alberto Pimentel</em>:—Cumprindo as disposições +do regimento, começo por ler a minha proposta.</p> + +<p>(<em>Leu</em>).</p> + +<p>A camara tem ouvido benevolamente considerações, +se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto +contradictorias, e espero que ella me dispensará igual +benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, +sobre este assumpto, as minhas opiniões.</p> + +<p>Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um +grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de +Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella +falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda +muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica, +para qualquer demonstração de applauso nacional em +honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.</p> + +<p>A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda +que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas +que partem do coração ardente da gente moça, ainda +que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos +em que palpita exuberantemente a seiva da +idade juvenil, não devo esquecer que os academicos +são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre +flores e não fructos.</p> + +<p>Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno +tão extraordioario na natureza como na sociedade. +Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos +apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.<span class="pn">{55}</span> +A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos +tel-a.</p> + +<p>Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam +depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se +desapparecem rapidamente na sua balada phantastica, +caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, +vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, +como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho +da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e +uma glorificação.</p> + +<p>E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não estão +ainda perfeitamente liquidadas.</p> + +<p>Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, +sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro +Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.</p> + +<p>Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro +Chagas a respeito de um dos actos mais importantes +da vida do marquez de Pombal.</p> + +<p>Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos +conspiradores contra D. José I.</p> + +<p>A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, +ambas contemporaneas, para provar a minha +asserção de que as responsabilidades politicas do +marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas +ainda.</p> + +<p>Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:</p> + +<p>«<em>Nos dominios severos da historia ainda não passou +em julgado</em> nem a sentença que condemnou a perpetua +infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu +lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa +e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a +sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos +recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, +uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes +longo e triste captiveiro, attenuado unicamente<span class="pn">{56}</span> +pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe +as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e +desvelos a educação maternal.»</p> + +<p>Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, +cuja perda todos lastimamos, e eu mais que +ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro +Chagas, que sinto não ver presente, e que tão +enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica +de nacional.</p> + +<p>«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, +pelo menos, que não deviam ser condemnados, <em>pois que +havia falta absoluta de provas</em>, alguns dos desgraçados +de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas <em>não sabemos</em> +se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. +<em>Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa +historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, +trouxe a lume todos os documentos que podessem +lançar luz n'este drama tenebroso.</em>»</p> + +<p>Depois da citação d'estes periodos, arrancados á <em>Historia +de Portugal</em>, do sr. Pinheiro Chagas, e que por +isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença +para referir um facto, que é um traço anecdotico +da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.</p> + +<p>Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa +de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e +franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de +dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as +condições de bem-estar.</p> + +<p>Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado +com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia +ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma +bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu +amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios +que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a +retirar-se.</p> + +<p>—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel +necessidade de dizer mal d'elles, e de si.</p> + +<p>A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello +póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles +que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos +são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou +citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre +amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seus <em>Portuguezes illustres</em>. +Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:</p> + +<p>«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira +de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista +Pelle, <em>clamam alto contra o marquez de Pombal</em>.»</p> + +<p>Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella +explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando +n'este momento com relação ao marquez de +Pombal.</p> + +<p>Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade +academica, o governo viu por ventura, e principalmente, +no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e +propoz uma estatua em sua honra.</p> + +<p>É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas +devem ser para os legisladores, por isso que são +frias, austeras como elles.</p> + +<p>Para os grandes artistas, para os grandes pintores, +para os grandes poetas, para os grandes oradores e +para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser +as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações +publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os +arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, +n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das +praças, como ha pouco teve Camões.</p> + +<p>José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais +vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que +remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que +na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em +frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>Camões é muito maior nos <em>Lusiadas</em> do que na estatua +do Loreto.</p> + +<p>Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente +pombalina que partia da iniciativa particular, academica +ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez +de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.</p> + +<p>O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas +de concorrer apenas com uma simples esmola para +a celebração do centenario. O governo, sr. presidente, +não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, +e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte +pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro, +visto que a palavra, por infelicidade minha, me +chegou tão tarde.</p> + +<p>Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia +bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua, +porque d'esse metal existiam umas antigas peças +de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas +em peças raiadas.</p> + +<p>Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado +nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco +que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000 +réis, justamente n'uma época em que se está pedindo +ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos +alimenticios de primeira necessidade.</p> + +<p>Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação +da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de +100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de +Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi +as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar +de attender, visto que somos chegados á parte menos +attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a +fazer.</p> + +<p>Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me +comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer +levantar estatuas, as pague.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p>Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? +Isto a proposito de estatuas, de monumentos.</p> + +<p>Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, +n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D. +Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D. +Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, +mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.</p> + +<p>Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que +tinha igualmente uma grande veneração por aquelle +monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento, +sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que +a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.</p> + +<p>E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um +monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa +particular.</p> + +<p>Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro +a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos, +que já se vae tornando demasiadamente extensa.</p> + +<p>Quer v. ex.ª saber o que acontece?</p> + +<p>Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será +facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista. +Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...</p> + +<p><em>Vozes</em>:—Ouçam, ouçam.</p> + +<p><em>O Orador</em>:—Em 1885 teremos o setimo centenario +de Affonso Henriques.</p> + +<p>Este vale bem uma festa nacional, creio eu.</p> + +<p>Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da +Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição +em Portugal.</p> + +<p>Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, +e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador +litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal, +que o encarregou de negociações em Roma para +a abolição da companhia de Jesus.</p> + +<p>Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello +e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem +aliás não era affeiçoado.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio +Vieira.</p> + +<p>Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso +de Albuquerque.</p> + +<p>Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da +Gama.</p> + +<p>Em 1928 teremos o centenario de Brotero.</p> + +<p>Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares +Pereira.</p> + +<p>Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.</p> + +<p>Em 1954 teremos o centenario de Garrett.</p> + +<p>Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. +Henrique.</p> + +<p>Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, +o celebre inventor do <em>Nonio</em>.</p> + +<p>Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. +Fernando. (<em>Vozes</em>:—Muito bem).</p> + +<p>E assim por diante.</p> + +<p>Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, +e mesmo porque da continuação d'esta lista espero +que algum dia se encarregarão os meus netos ou +os seus filhos...</p> + +<p>Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do +24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas +pela memoria da administração do marquez de Pombal, +tambem o 24 de julho é uma festa que entristece +profundamente muitas familias portuguezas.</p> + +<p>Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. +Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa +do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem +notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu +já a sancção official, porque está traduzida n'uma +fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve +uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.</p> + +<p>Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá +ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de +que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que<span class="pn">{61}</span> +alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto +do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, +por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações +de desagrado.</p> + +<p>Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo +entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se +indifferente, mas faça-se a festa com ordem e +com moderação.</p> + +<p>Estes creio eu que são os votos de toda a camara.</p> + +<p>Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. +Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, +a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador +dos estudos, protector das industrias e restaurador +de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas +um acto de deferencia do governo para com as letras, +as industrias e a capital.</p> + +<p>O marquez de Pombal vive ainda na universidade +de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e +em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes +da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que +a justiça se vá fazendo lentamente.</p> + +<p>Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, +D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio +em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não +quiz resar um <em>requiem</em>; hoje é a academia que lhe quer +fazer um triumpho, embora contestado ainda...</p> + +<p>Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o +mais.</p> + +<p>Disse.»</p> + +<p>A minha passagem por S. Bento não vale chronica +de maior folego.</p> + +<p>Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o +capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens. +Mas dos homens com quem lá convivi e tratei +mais intimamente conservo gratas recordações, e essas +quero-as deixar archivadas n'este livro.</p> + +<p>P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito<span class="pn">{62}</span> +por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta +vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas +que differença! Os homens são quasi todos os mesmos +de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes +politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos +que expludiam como bombas de dinamite, e na +tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, +pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos +de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro +para dizer que houve vias de facto, e pateada. +Que differença! que differença!</p> + +<p>Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo +é... o parlamento.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{63}</span></p> + +<h2>VI</h2> + +<h3>Antonio Rodrigues Sampaio</h3> + +<p>O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta +phrase que todos têem repetido: «É um homem que +faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam +servir para tudo, é uma glorificação.</p> + +<p>São <span class="errata" title="no original: a rodos">a rodo</span> os jornalistas e os politicos; em nenhum +tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de +fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o +formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar +para o poder carregados, como as formigas, +com o peculio do seu trabalho ou das suas honras +vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta +conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais +egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar +que Antonio Rodrigues Sampaio <em>faz falta</em>.</p> + +<p>E assim é.</p> + +<p>Faz falta, porque era um homem superior, tinha o +seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem +pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não<span class="pn">{64}</span> +acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e +quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda +a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia +ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que +não tivesse chegado mais cedo.</p> + +<p>Tendo um passado politico, foi ministro depois de o +ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder +pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira +vez que foi ministro (1870) não passou do patamar +da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, +em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava +a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a +quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de +ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por +guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, +poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na +cabeça e sair.</p> + +<p>Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se +no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia +luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os +nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos +com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais +gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua +coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. +O ministerio empregava todos os meios ao seu +alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. +Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial +no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, +durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, +apparecia em toda a parte, até dentro das +pastas dos ministros!</p> + +<p>Os revolucionarios de hoje seguem um caminho +muito mais commodo: mediante uma estampilha de +dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.</p> + +<p>Depois da perseguição, da caça ao jornalista por +parte do governo, vieram as tentativas de suborno. +Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a<span class="pn">{65}</span> +provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. +Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, +quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio +chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio +Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. +D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça +de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos +Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:</p> + +<p><em>Faz falta.</em></p> + +<p>Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando +de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições +irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o +com a serena philosophia do seu bom humor habitual, +por que o bom humor era n'elle uma philosophia.</p> + +<p>O marquez de Caraccioli chamava a isto <em>gaieté philosophique</em>, +alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, +diz elle, que contente com a sua sorte e com o +seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma +maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle +os pesares como tentações, e só procura os objectos +consoladores. É por um tal sistema de felicidade +que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, +e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica +a esse contentamento da alma, que se não altera +nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os <em>espinhos +do poder</em>! repetia muitas vezes Sampaio, <em>isso é +apenas uma metaphora</em>. E tinha razão, porque elle exercia +o cargo de ministro de estado com a mesma alegria +philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que +exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, +apreciava sobremodo o poder andar de trem. +Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos +da lenda, por se ver obrigado a passar do trem +para o <em>americano</em>. Dizia-o muitas vezes, rindo.</p> + +<p>Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam +rindo tambem. <em>J'ai ri, me voilà désarmé.</em> Rindo, +sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem<span class="pn">{66}</span> +ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens +haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava +a comprehender como esse velho placido e alegre, +cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de +um momento para o outro no ardente articulista da +<em>Revolução de Setembro</em>, semeando ás vezes resentimentos +pessoaes que poderia ter evitado.</p> + +<p>De uma vez certo titular <em>vieille roche</em> foi pedir-lhe +um favor politico.</p> + +<p>—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por +aqui a pedir favores de chapeu na mão.</p> + +<p>—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.</p> + +<p>Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia +procurou Sampaio para se oppôr ao despacho +de um governador civil.</p> + +<p>Sampaio respondeu-lhe:</p> + +<p>—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; +consinta ao menos que o ministro do reino governe +n'um.</p> + +<p>Eu, que acabava de passar tormentosamente pela +vida administrativa, combati algumas disposições do +codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado <em>Viagens +á roda do codigo admistrativo</em>.</p> + +<p>Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus +apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, +Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca +buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:</p> + +<p>—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, +mas eu não me zangarei com elle por causa do +circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como +d'antes.</p> + +<p>A minha eleição foi causa indirecta da transferencia +de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, +Sampaio mandou-me chamar pelo seu <em>correio</em>.</p> + +<p>Fui immediatamente saber o que elle queria.<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente +Sampaio.</p> + +<p>—Por que? perguntei eu muito intrigado.</p> + +<p>—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, +que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado +meu.</p> + +<p>—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.</p> + +<p>—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que +trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o +ministro F. e combine com elle o remedio.</p> + +<p>Assim fiz; assim se fez.</p> + +<p>Deve notar-se que Sampaio era então presidente do +conselho de ministros.</p> + +<p>Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, +e a todas as injurias.</p> + +<p>Pouco antes de morrer andava em discussão accesa +com Eduardo Tavares, que redigia então as <em>Instituições</em>.</p> + +<p>Certo dia as <em>Instituições</em> chamaram a Sampaio <em>pedaço +d'asno</em>, com todas as lettras.</p> + +<p>No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio +tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. +Eu apostei que responderia. No dia seguinte +corri a ler a <em>Revolução de Setembro</em>. O artigo de Sampaio +principiava assim: «O homem das <em>Instituições</em> chamava-nos +hontem <em>pedaço do seu todo</em>.»</p> + +<p>Soberbo!</p> + +<p>Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se +forte na velhice. <em>L'homme gai ne vieillit point, et paroit +toujours se bien porter</em>, observa o marquez de Caraccioli. +Os artigos da <em>Revolução</em> punham bem em evidencia esta +verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. +E os seus profundos conhecimentos de latinidade +traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte +das vezes, citações que elle aproveitava habilmente +para acerar a mordacidade com que sabia rir da má +situação em que deixava os adversarios politicos, ou +em que elles proprios se collocavam.<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito +medico, <em>malgré lui</em>. Mas nas suas mãos a dictadura foi +uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar +os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo +armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se +em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador +Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia +como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou +para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo +deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem +receia a dictadura de um homem bom.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: +«É preciso defender a monarchia.»</p> + +<p>Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, +deve ser recebida como um evangelho.</p> + +<p>Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o +cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre +deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como +o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa +vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, +tanto mais apertadas quanto mais o espirito +lucta para desembaraçar-se e partir.</p> + +<p>Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario +da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada +do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava <em>à outrance</em> +o ministerio de 1846, porque entendia que esse +ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava +a idéa de liberdade que na Europa progressiva +servira de base á reconstrucção monarchica.</p> + +<p>Se depois do estabelecimento do regimen constitutional +a monarchia se desprestigiasse prematuramente, +seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida +antes de amadurecer. Como adversario valoroso<span class="pn">{69}</span> +do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas +raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas +em derredor do throno constitucional.</p> + +<p>Depois da organisação regular dos partidos politicos, +Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes +atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque +perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria +as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na +anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, +ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia +que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação +e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, +e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.</p> + +<p>Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, +em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi +sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os +monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de +conservar. Elle nunca o ultrapassou.</p> + +<p>Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo +do conflicto pela inversão violenta dos principios +estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos +sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela +irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do +estado concede a todos e a cada um.</p> + +<p>Sampaio viveu muito; viu muito.</p> + +<p>Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora +morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da +febre: «É preciso defender a monarchia.»</p> + +<p>E é.</p> + +<p>Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente +demarcados: monarchicos a um lado, inimigos +da monarchia a outro lado.</p> + +<p>Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são +de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. +Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos +costumes politicos, procuremos fazer uma administração<span class="pn">{70}</span> +rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á +porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos +as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos +os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem +a sua cooperação, e veremos depois quem +triumpha.</p> + +<p>Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: +<em>é preciso defender a monarchia</em>.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{71}</span></p> + +<h2>VII</h2> + +<h3>A livraria de Sampaio</h3> + +<p>Não ha nada que me entristeça tanto como assistir +ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre +esses espectaculos que me são dolorosos, e que se +repetem em Lisboa quasi todos os dias.</p> + +<p>São ordinariamente duas as causas que determinam +este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer +d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam +os livros, não para os revender com lucro, mas +para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem +a um leilão de livros com a indifferença profissional +com que um medico assiste a uma operação cirurgica, +e um enfermeiro á agonia de um moribundo. +Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando +na giria do negocio o que se vae passando +em torno d'elles, mas acompanhando sempre, +com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e +os movimentos do leiloeiro. E para um lado: <em>Comprou +bem</em>; para outro lado: <em>Comprou mal</em>; ou, para um espectador<span class="pn">{72}</span> +que lhe diz:—<em>Quem comprou bem foi o senhor</em>,—como +se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: +<em>Acredite que não ganho senão a encadernação.</em></p> + +<p>Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi +por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo +fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco +vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas +pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a +possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia +muitos annos; fez porventura um grande, um enorme +sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, +adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava +o seu thesouro com orgulho: <em>Veja lá isto! Que +me diz a isto?</em>—uma edição muito bem conservada, +uma verdadeira preciosidade!</p> + +<p>Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este +mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram +de uma vez um manuscripto de Mallebranche. +Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser +n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, +o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. +Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto +foi apenas emprestado, disse o intermediario; +o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu +Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha +paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos +d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, +e vão ficando com os livros dos outros.</p> + +<p><em>Livre preté, livre perdu</em>, diz um proverbio francez. +Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por +isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar +Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de +Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É +como se me pedisse emprestada minha mulher!»</p> + +<p>Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, +dia a dia, e a que o proprio constructor não +chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja<span class="pn">{73}</span> +uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, +que se deixa sempre incompleta no momento em que +a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se +é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, +não consegue, á força de canceiras e dispendios, +reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. +Ha sempre um thesouro encanado que elle não +póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é +tão precipitado, tão febril o movimento litterario de +nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda +quando elle se não perdesse de vista um momento.</p> + +<p>Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora +a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo +sempre vivo, com uma fé sempre nova, e +muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado +pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e +que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a +sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os +seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão +amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias +dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que +fazem todos os funeraes das livrarias com +a mesma indifferenca com que os outros arrancam os +cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar +na voragem do cemiterio.</p> + +<p>«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das +grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»</p> + +<p>Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; +não consentem que ninguem lhes toque, muitos não +querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou +para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e +dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: +portanto, faço-a guardar por um eunuco.»</p> + +<p>Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus +livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, +a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria +vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que<span class="pn">{74}</span> +se espalham de graça, com uma publicidade profana, e +esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico +de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, +que caem famintamente sobre elles, que os +devoram com o olhar, que os disputam na praça, como +se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece +ao publico, e se vende a quem mais der.</p> + +<p>Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que +alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas +ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote +d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, +como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. +Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade +o santuario, desacata-o, profana-o, commette um +sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se +Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma +crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que +não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho +da sua phantasia.</p> + +<p>Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do +seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!</p> + +<p>Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio +Rodrigues de Sampaio.</p> + +<p>Este homem que a posteridade não poderá esquecer, +comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu +paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias +vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do +conselho de ministros.</p> + +<p>Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente +fechada, batêra muita gente, timidamente, +respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. +Todo o pretendente era introduzido por um criado na +saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, +com o seu grande ar de bonomia, o velho +Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de +baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, +e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.<span class="pn">{75}</span></p> + +<p>Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena +porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali +sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus +intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o +guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se +guloso por bolos finos.</p> + +<p>Pois desde que o leilão começára, a porta da rua +estava aberta de par em par, escancarada, franca para +todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando +uns com os outros, rindo, não encontrando criado +algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar +nenhum o correio do ministro do reino, que por +tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, +nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos +habitaram n'aquella casa.</p> + +<p>A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, +arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o +candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, +entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos +que esperavam o principio do leilão. Á porta +do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a +que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a +ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, +emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros +que primeiro haviam de ser postos em praça.</p> + +<p>N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que +estava, para assim dizer, impregnado da individualidade +de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel +devastação; parecia que o vento ardente do deserto +passára por ali resequindo o coração de quantos +haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte +que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos +dos quaes estavam amontoados no chão...</p> + +<p>Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia +o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que +passasse por diante de si um livro bom; por isso, +quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam<span class="pn">{76}</span> +sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em +pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao +menos.</p> + +<p>Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos +seus livros.</p> + +<p>No leilão, vendeu-se um exemplar dos <em>Sophismas +parlamentares</em>, de Bentham, edição de 1840, prefaciada +por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio +de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no +ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha +traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente +que Sampaio estava lendo com interesse e que, +desejando marcar um pensamento original, não queria +retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do +que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido +signal indicativo para facilitar a busca.</p> + +<p>Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por +Sampaio.</p> + +<p>No prefacio de Regnault estão marginados todos os que +se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: +«Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a +sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» +«Antigamente, as communas tinham um simples +direito de petição para obter a reparação dos +aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»</p> + +<p>No texto, estão sublinhados, além de outros, estes +pensamentos de Bentham:</p> + +<p>«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na +mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, +mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, +posto se chame velha á geração que precede outra, +não se póde sustentar que tenha mais experiencia +do que a que lhe succede.</p> + +<p>«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as +gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro +como o de chamar velho a uma creança de berço.</p> + +<p>«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados<span class="pn">{77}</span> +velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? +Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»</p> + +<p>«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra +a ninguem. Não se encontra no caminho com os +ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, +dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça +e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito +pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o +seu odio pelos vivos.»</p> + +<p>«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram +de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua +benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»</p> + +<p>Ainda mais alguns aphorismos:</p> + +<p>«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; +um procedimento insensato produz crueis desastres; +d'esses desastres vem o mais util ensinamento.</p> + +<p>«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não +ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso +que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»</p> + +<p>«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania +é absurda; toda a lei que a si mesma se declara +irrevogavel, é perigosa.»</p> + +<p>«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não +póde durar mais do que essas circumstancias.»</p> + +<p>«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. +Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae +resistindo, e Blackstone vos adorará.»</p> + +<p>De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, +um dos mais annotados era com certeza a <em>Histoire des +origines du gouvernement representatif en Europe</em>, de +Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, +sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, +que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são +tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que +chegam a tracejar toda a pagina.</p> + +<p>Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, +é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira +por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de +dar e de fazer executar a lei na sociedade.</p> + +<p>«Ha duas grandes theorias de soberania.</p> + +<p>«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem +sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, +ou principaes do povo. Outra sustenta que a +soberania de direito não póde existir na terra, e não +póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força +terrestre que conheça e queira inalteravelmente a +verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania +de direito, que devem regular a soberania de facto.</p> + +<p>«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, +seja qual fôr a fórma de governo. A segunda +combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não +reconhece em caso algum a sua legitimidade.</p> + +<p>«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente +nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se +n'uma certa medida, porque não ha nada que +seja completamente destituido de verdade nem inteiramente +isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra +que predomina em cada fórma de governo, e que póde +ser considerada como seu principio.</p> + +<p>«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade +radical de todo o poder absoluto, quaesquer +que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo +representativo.»</p> + +<p>O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas +por Sampaio é altamente curioso como elemento +critico para a caracterisação historica do annotador.</p> + +<p>Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos +apenas lançar no papel as impressões que nos +deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam +expostas com a sinceridade que sempre tivemos para +com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para +comnosco.</p> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>VIII</h2> + +<h3>Saraiva de Carvalho<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup></h3> + +<p>O scenario era triste.</p> + +<p>A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma +chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia +cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, +nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos +cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos +Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de +agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava +crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas +revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e +concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os +seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, +que se desfaziam e renovavam a cada momento.</p> + +<p>Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo +duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas<span class="pn">{80}</span> +pela chuva, sem brilho e sem consistencia. +Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes +de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, +n'uma oscillação solemne, através de um silencio +lugubre.</p> + +<p>Nada mais triste do que o enterro de um homem +novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito +nas luctas do talento.</p> + +<p>A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com +effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta +por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir +e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se +revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias +deixam após si uma extensa chronica, cheia de +opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. +Recordal-as, é desviar por momentos a attenção +para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir +do facto material do aniquilamento para o mundo +pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir +épocas passadas, em resuscitar homens que já +não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os +actores de acontecimentos importantes na politica, na +litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no +commercio ou nos salões elegantes da sociedade.</p> + +<p>Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o +espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de +sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos +da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido +por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. +Depois, os que morrem novos deixam uma pequena +biographia, por maior que haja sido o seu talento e o +seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções +se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado +bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De +modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua +devastação prematura...<span class="pn">{81}</span></p> + +<p>Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e +tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta +isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos +que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o +dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava +apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram +a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, +porque os dois primeiros foram mais uma contingencia +da politica do que uma conquista por direito.</p> + +<p>Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno +periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em +que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos +encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.</p> + +<p>Então, era Saraiva, como todos os homens da sua +idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. +Vinha do <em>Gremio Litterario</em>, onde mostrára as +suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. +Mas a intelligencia, por mais brilhante que +seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. +É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações +da atmosphera social, que elle se robustece +e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva +de Carvalho comprehendeu que precisava justificar +no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. +1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. +E como fosse tambem um homem brioso, +deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu +paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro +por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira +não fizera emergir nos conselhos da corôa um +homem completamente inutil.</p> + +<p>Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de +Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia +ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. +Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios<span class="pn">{82}</span> +premiaram os seus esforços honrados e justos +levando-o de novo ao poder em 1870.</p> + +<p>A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, +que tornava ephemera a vida dos ministerios, e +as origens revolucionarias do movimento popular de +1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor +e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente +para tornar friamente reflexiva a cabeça de um +homem novo.</p> + +<p>Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, +Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo +todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, +e a sua idade mal sabia reprimir.</p> + +<p>Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio +d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, +cheio d'esse ardor indomavel que não raro se +confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando +mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns +em que o foi muito, os seus proprios adversarios +reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem +combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha +já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho +as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um +adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do +mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.</p> + +<p>Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe +todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito +dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão +para colhel-o.</p> + +<p>E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo +havia chegado agora, definitivamente. Voltando +ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da +pasta das obras publicas com uma attenção intelligente +e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo +do meu ponto de vista politico, não posso concordar<span class="pn">{83}</span> +com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de +reconhecer que o seu espirito havia passado por uma +transformação fructuosa e largamente promettedora. +Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias +da sua posição official, e modificou-se notavelmente, +sobretudo no discurso que como ministro proferira +na camara dos pares.</p> + +<p>Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera +por um só acto ou por uma só phrase, até +nas questões mais apaixonadas que se travaram no +parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára +a formar-se, de que seria um dos homens de +estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores +do nosso paiz.</p> + +<p>N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. +Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa, +contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade +todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, +em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos +de ter outro. Sempre que a obra de um homem +não está concluida, a sua perda equivale a duas: +é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. +Faz portanto falta ao presente e ao futuro.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Emquanto alguns oradores discursavam junto ao +jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente +coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes +do que a imponencia d'aquella grande manifestação +funebre feita por todos os partidos politicos militantes, +eu pensava, um pouco <em>bercé</em> pela chuva que principiava +a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu +n'um rithmo monotono.</p> + +<p>No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma<span class="pn">{84}</span> +illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia +achar vocabulo mais expressivo do que o <em>bercer</em> francez, +visto que este verbo significa não só o acto material +de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas +esperanças.</p> + +<p>Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, +bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes +sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.</p> + +<p>Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos +do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas +luctas politicas da imprensa e do parlamento.</p> + +<p>Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se +elles a si proprios. Se se trata de um correligionario, +exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse +novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata +de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de +adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o +deixar amolgado.</p> + +<p>Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento +conhecem este defeito da politica portugueza, +e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o +mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente +os ovos de paschoa com que na primeira hora o +receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram +vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel +como <em>cretino</em> ou tão gentil como <em>marinelo</em>.</p> + +<p>Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo +de intensidade, e o sujeito apparece chrismado em <em>tolo</em> +com todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para +que se veja bem de longe.</p> + +<p>Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes +a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára +na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu +estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os +contrarios, como um valentão de feira.</p> + +<p>E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador +de pau, já umas vezes por outras descarrega o<span class="pn">{85}</span> +fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é +claro.</p> + +<p>Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes +podem fazer-se rapidamente por meio de um <em>cliché</em> +inalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores +é quasi um luxo.</p> + +<p>Referindo-se a um orador governamental, dizem as +folhas opposicionistas no dia seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. +teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. +A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia +satisfeito de vêr que estava agradando ao governo +que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não +pagar.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo +que está apreciando um orador da opposição:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>A comedia foi bem representada. Como truão, o orador +é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre +a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou +pelas costas de um collega o copo de agua. No fim +de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, +e lhe atira com uma posta gorda.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, +uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se +de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou +um homem do governo.</p> + +<p>A mutação de scena é completa, n'este caso.</p> + +<p>Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o +morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. +Cada um empunha reverentemente uma tocha para +allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias +empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. +E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua +benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum<span class="pn">{86}</span> +dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com +tinta de escrever e lama das ruas.</p> + +<p>Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da +berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:</p> + +<p>—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario +dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma +que lhe désse!</p> + +<p>E a respeito de um opposicionista morto:</p> + +<p>—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou +um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro +hoje em dia...</p> + +<p>Dizia com graça um homem politico importante, que +se achou de uma vez ás portas da morte:</p> + +<p>—Estive tão mal, que já os periodicos começavam +a dizer bem de mim!</p> + +<p>O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia +calcular...</p> + +<p>No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. +Os ministros saem do poder insultados e empenhados. +Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no +dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. +Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados +com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas +já não podem desentalar-se mais. As repartições de +fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro +quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a +maior parte das familias do paiz ficava arruinada de +um dia para o outro.</p> + +<p>São rarissimas em Portugal as pessoas que podem +adormecer sem que uma espada de Damocles impenda +sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este +paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita +mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece +fazer maior gosto de passar por deshonesto aos +olhos de si mesmo.</p> + +<p>Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar +por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, +um dos seus homens mais importantes e populares. +Era o Sampaio da <em>Revolução</em>. Ninguem mais apedrejado +do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. +Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se +uma enorme manifestação de respeito.</p> + +<p>O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, +um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva +foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes +amesquinhado na sua importancia, que era grande.</p> + +<p>Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o +vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa, +centenas de pessoas de todas as parcialidades +politicas.</p> + +<p>Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos +preciosos para qualquer dos dois partidos. Era +talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto +solemne—o de entrar n'uma nova vida politica, +de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater +os principios, não é preciso combater os homens. +Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a +Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos +a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.</p> + +<p>Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer +uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora +um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto +por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.</p> + +<p>Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece +que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição +fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o +mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante +de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem +perante um tumulo regenerador.</p> + +<p>Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso +poderia levantar-se em honra dos dois mortos +illustres.<span class="pn">{88}</span></p> + +<p>—Opporiamos programma a programma, tradição a +tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos +oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas +disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam +como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os +projecteis vibrados do campo regenerador achariam +um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de +Carvalho.</p> + +<p>Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor +ou vencido, porque a calumnia não existiria.</p> + +<p>N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria +direitos: morto por morto, tumulo por tumulo, +as condições eram iguaes.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar +no deserto!</p> + +<p>Dezembro de 1882.<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup> +Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter +ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup> +Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade +politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos +tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de +Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido +e... visto!—N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{89}</span></p> + +<h2>IX</h2> + + + +<h3>Fontes Pereira de Mello</h3> + +<p>A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens +notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade +do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro +soou a nossos ouvidos desde a infancia.</p> + +<p>Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das +lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal +Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu +o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de +S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho +nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o +desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp, +o successor do duque de Loulé na chefatura do +partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio +ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes +Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado +estadista, cujo nome, ainda antes da consagração +da morte, era já uma gloria nacional.</p> + +<p>É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,<span class="pn">{90}</span> +para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar +desde já que, depois do marquez de Pombal, não +tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes +Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel +predecessor.</p> + +<p>Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo +produz um estadista como o marquez de Pombal e +como Fontes Pereira de Mello.</p> + +<p>Não são certamente dois reformadores da mesma +indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.</p> + +<p>O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, +a industria nacional, animou o commercio portuguez, +e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.</p> + +<p>Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, +como era natural que acontecese.</p> + +<p>Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, +por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto +não menos perigoso e devastador havia abalado +a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.</p> + +<p>Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira +de Mello appareceu na scena politica com o movimento +chamado da <em>regeneração</em>, palavra que é ainda hoje +a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira +de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado +e sempre querido.</p> + +<p>A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; +o credito abalado pelas consequencias da guerra +civil; as finanças desorganisadas; os empregados do +estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que +devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra +viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande +incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio +atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas +que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar +a administração publica na grande complexidade +dos seus elementos componentes.<span class="pn">{91}</span></p> + +<p>Pois bem, essa ardua missão coube a um homem +novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.</p> + +<p>O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens +na guerra e para a guerra, mostrou que tambem +sabia conhecel-os na paz e para a paz.</p> + +<p>Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das +nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira +de Mello a individualidade poderosa de um estadista +eminente.</p> + +<p>O marechal adivinhára que esse moço elegante, de +maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava +o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a +obra que elle havia começado pela guerra.</p> + +<p>E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio +da regeneração, creando até expressamente +para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:</p> + +<p>—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade +portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega +a sua obra nas mãos de um homem novo para que a +consolide e complete.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um +vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima +hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.</p> + +<p>Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe +a existencia, trabalhou para enriquecer a +patria, para desenvolver todas as forças vitaes da +nação, para fomentar todos os elementos de riqueza +publica, e esse homem, que não fez senão amontoar +capital para os outros, esse homem que enriqueceu o +commercio e a industria da sua terra, esse homem por +cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado +cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com +o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao +cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas<span class="pn">{92}</span> +com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.</p> + +<p>Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram +a apotheose official dos altos funccionarios publicos; +foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram +a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro +do meio da mais profunda commoção que póde ferir +o coração de um paiz.</p> + +<p>A espontaneidade do sentimento nacional é a mais +invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira +de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, +essa grandiosa deificação que não se recommenda, +que não se aconselha, que não se ensina, mas +que rebenta do coração de todas as classes sociaes, +como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que +explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento +ingenuo e sincero.</p> + +<p>Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo +memorando, que ficará para sempre gravado na memoria +infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão +grandioso elle foi.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade +portugueza pelos elevados cargos que o seu +merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos +os dias com as classes inferiores, não era um homem +que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas +da capital.</p> + +<p>Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que +nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes +procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de +Mello, o povo conservava por elle um grande culto +de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle +homem trabalhava para a nação, não para si, e, +quando soube que o illustre estadista morrera, ficou +gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por<span class="pn">{93}</span> +onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração +enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes +Pereira de Mello repousa para todo o sempre.</p> + +<p>E o povo não se enganou pensando que esse preclaro +estadista trabalhára para o povo.</p> + +<p>Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro +é para o povo que trabalham.</p> + +<p>Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira +de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não +enganava, tambem não se enganava o estadista, porque +o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, +os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira +e da cultura.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica +a semear para colher, a demolir o passado para +construir o futuro.</p> + +<p>Elle bem sabia que, mortal como todos os outros +homens, não teria tempo de ver completamente sazonada +a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.</p> + +<p>Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, +trabalhava para os outros.</p> + +<p>E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho +a sua propria saude.</p> + +<p><em>Parar é morrer.</em> Eis o lemma glorioso da sua vida +politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira +de estadista.</p> + +<p>Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza +o movimento que n'este momento historico a +vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes +operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do +progresso. Os povos são como as machinas: o que é +preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram +velocidade. Depois trabalham por si mesmos.</p> + +<p>Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio +dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello +não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que<span class="pn">{94}</span> +tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam +ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram +de mil boccas, eram articulados por mil gargantas +differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, +saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma +palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro +do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára +em Portugal.</p> + +<p>Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver +de um morto illustre.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui +recebido em sua casa.</p> + +<p>Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. +Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me +palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava +de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas +gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, +replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e +vale a pena ir vel-o.</p> + +<p>Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me +que fosse fazer uma partida de voltarete com +o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. +Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com +a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me +aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.</p> + +<p>Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do +preço.</p> + +<p>—Não sendo caro não diverte, disse o visconde +de N.</p> + +<p>—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e +guerra M.<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>Eu vi-me obrigado a obtemperar:</p> + +<p>—Estou ás ordens de v. ex.<sup>as</sup></p> + +<p>Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a +cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse +cartas.</p> + +<p>Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que +sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um +acaso que eu reputaria feliz em qualquer +outra occasião.</p> + +<p>A preoccupação da situação embaraçosa em que me +achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. +Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as +minhas deviam orçar por quarenta mil réis.</p> + +<p>Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri +as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de +um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe +o embaraço em que me encontrava, e que tivera +por origem uma confissão ingenua.</p> + +<p>—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p> + +<p>Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi +hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.</p> + +<p>Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando +eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade +attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. +Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa +do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas +horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, +levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. +Nunca esta cifra me esqueceu.</p> + +<p>Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao +largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, +como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,<span class="pn">{96}</span> +o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão +ingenua de que jogava o voltarete...</p> + +<p>Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, +dois <em>fadistas</em> parados. A calçada estava deserta. Um +d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar +entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para +mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que +naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda +chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a +carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e +pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse +tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui +dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de +homem. Agradeci, e subi para a almofada..</p> + +<p>E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado +o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de +torturas que essa foi!</p> + +<p>No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci +á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje +não sei quem fosse.</p> + +<p>Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se +muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, +pedia-me que reeditasse a historia, a que achava +graça.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento +para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever +de amizade.</p> + +<p>Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a +luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:</p> + +<p>—Tem muito empenho n'isto?</p> + +<p>—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir +um amigo sincero.<span class="pn">{97}</span></p> + +<p>Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me +o papel, disse-me:</p> + +<p>—V. é um homem novo na politica. Permitta-me +um conselho: Estes favores são uma desgraça para a +pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com +a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo +d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">Janeiro de 1887.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup> +Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{98}</span></p> + + + +<h2>X</h2> + +<h3>Antonio Augusto de Aguiar</h3> + +<p>Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada +tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que +é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a +morte?</p> + +<p>Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas +amarguras ou porque sejam realmente grandes, +todos nós temos mais ou menos pensado, com uma +certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema +em que o corpo ha de adormecer para sempre e a +alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, +por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto +bem mais tranquillo do que este...</p> + +<p>Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz +que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez +sequer.</p> + +<p>A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido +de nós para os outros, e que os outros dizem sempre +que nós possuimos e elles não.</p> + +<p>Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se<span class="pn">{99}</span> +na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás +vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento +a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de +a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez +deleitosa...</p> + +<p>Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora +é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste +das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta +e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para +os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, +ambicionado e querido.</p> + +<p>Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado +a morte, quando ella passa perto de nós para ir +fazer uma victima, quando sentimos o frémito das +suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, +quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos +horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação +e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera +de misterio e silencio...</p> + +<p>Por que não hei de eu dizer francamente que no combate +da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada +manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me +tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade +dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de +comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade +é tambem que ainda esta semana, segunda feira, +eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso +que se chama a Morte, e cuja obra de devastação +parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.</p> + +<p>Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no +club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade +paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, +antes do peccado, se o voltarete já então houvesse +sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, +com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança +tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,<span class="pn">{100}</span> +com uma grande timidez de execução. O sol, alegre +e bom, entrava docemente pelas janellas, como +poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo +azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som +aspero do choque das bolas, ou de uma contada do +taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos +aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito +longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, +que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada +por um bello rio portentoso, mas de que nós, +aqui na Ericeira, apenas <span class="errata" title="no original: conservamos">conservavamos</span> uma vaga recordação...</p> + +<p>Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que +tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro +da villa, com o boné em uma das mãos, a mala +de couro na outra.</p> + +<p>O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram +para o carteiro.</p> + +<p>É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o +interesse que se póde ter em receber uma carta ou +um jornal ainda que só esperemos banalidades.</p> + +<p>Era o correio que chegava. Iamos receber noticias +de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos +a vaga recordação de ser construida de marmore +e de granito e banhada por um bello rio magestoso.</p> + +<p>O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa +de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, +republicanos—e algumas cartas, poucas, +sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma +verdadeira alluvião.</p> + +<p>E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo +para um lado e para o outro:</p> + +<p>—V. ex.ª hoje não tem nada.</p> + +<p>—Aqui estão os seus jornaes.</p> + +<p>—V. ex.ª tem só uma carta.</p> + +<p>—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª<span class="pn">{101}</span></p> + +<p>Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala +uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:</p> + +<p>—Morreu o Aguiar!</p> + +<p>—Quem? O que?!</p> + +<p>—Morreu o Aguiar!</p> + +<p>—O Antonio Augusto?!</p> + +<p>—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...</p> + +<p>E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente +o jornal, procurando os pormenores, lendo e +dizendo:</p> + +<p>—De repente... de uma <em>angina pectoris</em>... ainda +ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado +no <em>restaurant Rosa Araujo</em> com o Luciano Cordeiro e +com outro.</p> + +<p>Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento +de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos +fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse +de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os +jornaes o referiam.</p> + +<p>Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima +vez que lhe falára, da boa disposição em que elle +estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas +quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o +tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel +aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia +os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle +mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença +de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres +horas, na madrugada de sabbado para domingo.</p> + +<p>Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas +do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes +passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor +era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases +soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão +geral:</p> + +<p>—Um homem serio...<span class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Um homem de talento...</p> + +<p>—Um homem de saber...</p> + +<p>—Um bom caracter...</p> + +<p>—Um homem digno...</p> + +<p>Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso <span class="errata" title="no original: elle fóra">elle fôra</span>, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, +e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem +serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, +d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!</p> + +<p>Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes +lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem +aggredir os vivos para terem que humilhar-se +deante dos mortos.</p> + +<p>Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado +dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César +o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição +politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma +consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas +qualidades a que eu achava que tornava maior as outras +era a serenidade com que elle recebia todos os +golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. +Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, +no momento de se commentar no corredor da camara +dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, +se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia +accendendo tranquillamente o seu charuto:</p> + +<p>—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.</p> + +<p>Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito +e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz +inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.</p> + +<p>Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes +que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita +do que os outros. Cada homem representa uma +somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se +esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos<span class="pn">{103}</span> +sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens +que recuam para avançar e homens que preferem +ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem +sem recuar.</p> + +<p>Eu gosto mais d'estes ultimos.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">1887.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{104}</span></p> + + +<h2>XI</h2> + +<h3>Mendes Leal</h3> + +<p>Dois escriptores da geração que nos precedeu não +estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás +vezes começa para outros escriptores no proprio dia +dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes +Leal.</p> + +<p>Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade +litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, +a qualquer philarmonica ou club de operarios +em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido +que não appareça logo um gremio de classe, musical +ou dançante, a adoptar-lhe o nome.</p> + +<p>E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci +pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que +até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes +d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão +rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão +elegantemente colorida.</p> + +<p>Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as +suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas<span class="pn">{105}</span> +foi o romance historico <em>Ráusso por homizio</em>, publicado +em 1842 na <em>Revista universal Lisbonense</em>. Com razão +dizia a <em>Revista</em> referindo-se a este romance: «Damol-o +sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de +seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, +nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»</p> + +<p>Assombroso, em verdade.</p> + +<p>Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas +meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião +de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a +fidalga grandeza do seu coração.</p> + +<p>Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, +e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes +póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas +aptidões como Mendes Leal.</p> + +<p>Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam +pelas cumiadas da epopea: hajam vista o <em>Pavilhão negro</em>, +<em>Ave Cesar</em>, <em>Napoleão no Kremlin</em>.</p> + +<p>Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel +continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu +para o theatro—e foi muito—póde ter defeitos, +mas affirma riqueza de imaginação, talento de <em>savoir +faire</em>, opulencia de linguagem. Percorram toda essa +vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde +os <em>Dois renegados</em> até aos <em>Primeiros amores de Bocage</em>, +e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, +engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás +exigencias de cada genero e de cada época.</p> + +<p>Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade +tão accentuada como dramaturgo, não deslisou +comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem +de lettras.</p> + +<p>Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com +notavel seriedade de espirito.</p> + +<p>Como orador politico, deixou discursos parlamentares +que podem servir de modelo aos que, dentro e<span class="pn">{106}</span> +fóra da camara, presam a lingua portugueza através +dos arrebatamentos da paixão partidaria.</p> + +<p>Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado +a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios +politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de +salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão +embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de +occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar +mais do que elle.</p> + +<p>Estive durante alguns annos em relação epistolar +com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou +á sua benevolencia de mestre as minhas palidas +estreias litterarias. Castilho tinha uma grande +consideração por Mendes Leal—a quem, na dedicatoria +do primeiro livro das <em>Georgicas</em>, divinamente traduzidas, +chamou—<em>caro Leal, gloria da terra lusa</em>.</p> + +<p>Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, +em missão diplomatica. Só em 1882, vindo +elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o +frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos +largamente, e era encantadora a simplicidade +bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de +muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.</p> + +<p>Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades +do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos +os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e +grande numero de pessoas que mais lustravam em +pompas de <em>high life</em>.</p> + +<p>A ultima vez que me demorei conversando largo +tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo +anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.</p> + +<p>O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de +Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal +encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as +classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem +ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se +ao meu braço. Assim fomos conversando até<span class="pn">{107}</span> +ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.</p> + +<p>Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado +ao prelo, n'uma brochura intitulada <em>Hommage aux lettres +latines</em>, as suas ultimas composições poeticas. Ahi +se póde ver com que primor elle manejava a lingua +franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia +envelhecendo e pendendo á terra.</p> + +<p>A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata +com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu +para impulsionar os progressos litterarios do +seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é +caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que +a opinião publica passa por uma evolução demorada +tanto para apreciar como para depreciar um escriptor +fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo +não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria +de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve +que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.</p> + +<p>No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma +honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou +a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. +Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que +elle cantou em 1857 na poesia <em>Mare magnum</em>. A descripção +das <em>furnas</em>, tão bellas e tão agrestes, é de mão +de mestre:</p> + +<blockquote> +<p>Não vos lembraes?—Além do manso pego,<br> +O mar, que vem do largo, e que não cessa,<br> +Da vaga arquea a cuspide irritada,<br> + E, com impeto cego,<br> + Á insensata escalada<br> +Dos immoveis penhascos se arremessa.</p> + +<p>Quem ha de commetter a louca empresa<br> +De tentar a passagem tortuosa<br> +Que alguma convulsão da natureza<br> +Abriu sobre a voragem tenebrosa?<span class="pn">{108}</span><br> +Do rolo immenso a curva ameaçadora<br> +Investe, galga, apruma-se, desaba;<br> +E quando o turbilhão que o ar devora,<br> + Trovejando rebenta,<br> + Parece que á tormenta<br> +A terra não resiste e o mundo acaba.</p> + +<p>Pelas rugas da penha sacudida,—<br> +De niveos flocos inda guarnecida,—<br> +Depois que o mar bramindo atraz volvêra,<br> +Um veio d'agua, rapido e sombrio,<br> +Deslisa; qual em rude face austera<br> +De um triste ancião, que a idade encanecêra,<br> + O pranto corre em fio.</p> +</blockquote> + +<p>Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas +contra as <em>furnas</em> da Ericeira, recordará eternamente +a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel +trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente +o nome de Mendes Leal.</p> + +<p>O oceano vingará a ingratidão dos homens.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{109}</span></p> + + + +<h2>XII</h2> + +<h3>Gonçalves Crespo</h3> + +<p>Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, +deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações +em fóra, até o encontrar nos primeiros annos +da sua vida, e da minha.</p> + +<p>Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual +eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e +toda a philosophia que se encerram n'este pensamento +de Garrett:</p> + +<blockquote> +<p>Saudade, gosto amargo de infelizes,<br> +Delicioso pungir de acerbo espinho.</p> +</blockquote> + +<p>Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, +toda a observação psichologica que essa bella antithese +contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis +decassiliabos que já não esquecerão mais em +lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel +quando chama á saudade <em>um mal de que se gosta, e um +bem que se padece</em>; comprehendi o rei D. Duarte quando<span class="pn">{110}</span> +no <em>Leal conselheiro</em> escreveu da saudade com uns +finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão +d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo +despedaça e mitiga o coração...</p> + +<p>Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho +percorrido em poucos annos. A saudade fizera +reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as +cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos +a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas +esperanças, remocei com as minhas illusões de outro +tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era +completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser +o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, +o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente +percorrera, e pareceu-me atravessar um +deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e +silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da +morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões +que me fascinaram e pessoas que eu amei.</p> + +<p>Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda +enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.</p> + +<p>Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo +providencial.</p> + +<p>Assim é que os poetas a definem; assim é que eu +a sinto agora—melhor por certo do que nunca.</p> + +<p>Em verdade, as circumstancias em que me encontro, +para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. +Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas +as nossas relações vinham de longe, eram antigas na +proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando +eramos apenas duas creanças.</p> + +<p>Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, +rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar +de moços.</p> + +<p>Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas +mais ou menos habituaes, que eu já historiei<span class="pn">{111}</span> +largamente no livro <em>Atravez do passado</em>—o meu primeiro +livro de saudades.</p> + +<p>Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com +o criado da casa: o Angelo, um gallego.</p> + +<p>Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha +a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se +n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto +como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada +o primor da sua <em>toilette</em>, quasi sempre irreprehensivel.</p> + +<p>Coisa notavel! Crespo não era então para nós um +poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; +Alfredo Leão lia chronicas e romances<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>; mas +Gonçalves Crespo <em>flanava</em> a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento +poetico com a publicação das <em>Miniaturas</em>.</p> + +<p>Houve um periodo em que me separei de Gonçalves +Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi +todas as ferias elle passava no Porto em direcção a +Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. +Crespo frequentava o <em>Café Portuense</em>, na Praça +Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu +o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando +as nossas façanhas anti-ibericas.</p> + +<p>Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação +que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves +Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me +dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel +era para mim. A amizade cegava-o.</p> + +<p>Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira +pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci +então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão +fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos +<em>Homens e letras</em>, e tão falado ainda na tradição academica. +Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar<span class="pn">{112}</span> +a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle +chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente +está em Lisboa.</p> + +<p>Crespo dera-me <em>rendez-vous</em> para a noite, na livraria +do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que +era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem +ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, +porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves +Crespo viera passar o serão comigo no <em>Hotel dos +caminhos de ferro</em>, onde eu estava hospedado.</p> + +<p>Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com +o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da +phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra +da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas +as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril +de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro +das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; +de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua +voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava +todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava +com a voz como com o espirito. Via-se o que elle +dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como +poeta.</p> + +<p>Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de +costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão +notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me +afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse +genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as +largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade +nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle +effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava +como o aço ao capricho da sua inspiração, e no +soneto <em>Animal bravio</em>, offerecido a mademoiselle Eugenia +Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica +do seu espirito:<span class="pn">{113}</span></p> + +<blockquote> +<p>Preferiras um ramo caprichoso<br> +De escolha rara e de um concerto fino,<br> +Onde visses o cacto purpurino<br> +E os nevados jasmins do Tormentoso.</p> + +<p>Em vez do ramo exotico e oloroso,<br> +Casto recreio d'esse olhar divino,<br> +Acceita, Eugenia, este animal felino,<br> +Que o meu braço subjuga vigoroso.</p> + +<p>Tive artes de o amansar: eil-o sereno!<br> +Acode a minha voz, e ao meu aceno<br> +Como um jaguar a voz de um saltimbanco...</p> + +<p>Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!<br> +E á doce Eugenia, do sorriso honesto,<br> +A fimbria oscule do vestido branco!</p> +</blockquote> + +<p>Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção +publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo +dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que +conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello +soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos +<em>Nocturnos</em>:</p> + +<blockquote> +<p style="margin-left: 6em;">ODOR DI FEMINA</p> + +<p>Era austero e sisudo; não havia<br> +Frade mais exemplar n'esse convento;<br> +No seu cavado rosto macilento<br> +Um poema de lagrimas se lia.</p> + +<p>Uma vez que na extensa livraria<br> +Folheava o triste um livro pardacento,<br> +Viram-n'o desmaiar, cair do assento,<br> +Convulso e torvo sobre a lagea fria.</p> + +<p>De que morrera o venerando frade?<br> +Em vão busco as origens da verdade,<br> +Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.</p> + +<p>Consta que um bibliophilo comprára<br> +O livro estranho e que, ao abril-o, achára<br> +Uns dourados cabellos de mulher.<span class="pn">{114}</span></p> +</blockquote> + +<p>Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo +escrevendo a minha biographia para o <em>Diario de Portugal</em><sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup>. +A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades +para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, +por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente +me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade +com que elle acompanhara todos os pormenores +da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado +tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse +de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente +agradavel e consoladora. Crespo era um homem +de talento superior e de caracter honestissimo; +a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão +de alguns e das injurias de poucos.</p> + +<p>Este homem, este amigo querido com o qual eu me +encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o +ainda a meu lado na politica e na camara electiva. +O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, +porque eu teria um profundo desgosto em separar-me +de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, +grave ou insignificante.</p> + +<p>O destino, porém, esse mesmo destino que parecia +querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços +de amizade, acabara por ser enganador e perfido.</p> + +<p>Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde +deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos +na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera +como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves +Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! +elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, +que lhe permittia viver inteiramente tranquillo +na decencia modesta que soube conservar em todos os +actos da sua vida.<span class="pn">{115}</span></p> + +<p>A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu +apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar +depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma +familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle +pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios +de fortuna, considerações politica e honras litterarias, +gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, +depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da +Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de +transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o +cobardemente aos trinta e sete annos de edade, +enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada +senhora que Portugal possue, e de todos quantos +amavam e estimavam o notavel poeta das <em>Miniaturas</em> +e dos <em>Nocturnos</em>.</p> + +<p>Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse +da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de +outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve +baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das +agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores +dos <em>Contos para os nossos filhos</em>, colleccionados e +traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem +a Deus pela saude de um dos traductores d'esse +livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus +filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa +do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto +senão o triste desafogo de escrever com lagrimas +estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe +o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero +do luto da minha alma.</p> + +<p class="assin">1883.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> A<small>TRAVEZ DO PASSADO</small>: <em>Na morte de um condiscipulo.</em></p> + +<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o +que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{116}</span></p> + + +<h2>XIII</h2> + +<h3>Antonio Maria Pereira</h3> + +<p>Quando eu fazia parte da redacção do <em>Jornal do Porto</em>, +onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo +de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas +vezes com o trabalho de rever as provas das edições +que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, +vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um +dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu +orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, +propondo-lhe a acquisição de um romance original.</p> + +<p>Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu +vivamente.</p> + +<p>Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me +parecia, por excepcional, irrealisavel.</p> + +<p>Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se +não viessem ordinariamente na idade em que o coração +é forte e a imaginação exaltada?!</p> + +<p>O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha<span class="pn">{117}</span> +proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. +Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha +vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava +concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.</p> + +<p>Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se +fazia dos editores em geral.</p> + +<p>Balzac, nas <em>Illusões perdidas</em>, tinha deixado a ethopea +do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas +de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de +Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de +poesias por lhe achar <em>pouco peso</em>. O poeta respondêra +que voltaria com os seus versos copiados em papelão. +O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não +pareciam resolvidos a substituil-os.</p> + +<p>Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira +como applicada áquella época: «<em>Les lettres ménent +à tout, à condition de les quitter.</em>»</p> + +<p>Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. +Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, +o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar +publico.</p> + +<p>Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio +de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos +novos.</p> + +<p>O que os estreantes queriam era sequer ao menos +encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, +ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é +uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois +forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o +terem sido.</p> + +<p>Eu havia ido refugiar-me no <em>Jornal do Porto</em>, onde a +vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta +uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas +a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. +Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, +financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,<span class="pn">{118}</span> +ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade +de materias a que a concorrencia as obriga, +têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes +enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no +meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, +como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade +de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, +tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. +Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos +novos jornaes que se publicam cada anno, apenas +50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta +bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando +ha dez annos a esta parte.</p> + +<p>O que não deixa de ser curioso é que, justamente +no momento em que o mercado mais falta ao livro, o +publico exige, como está acontecendo, que o trabalho +tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.</p> + +<p>De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado +pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar +pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, +cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. +Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, +sempre dispendiosas, das impressões de luxo.</p> + +<p>Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a +<em>toilette</em> dos livros, passaste á historia, és uma recordadação +apenas, nada mais!</p> + +<p>A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o +encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade +de encontrar um editor accessivel, mas tambem +a refulgencia de uma aurora polar que deixava +cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão +doirado irradiando de estipendio certo.</p> + +<p>Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do +romance. Chamar-se-ia <em>O testamento de sangue</em>. O <em>Jornal +do Porto</em> e o ensino livre absorviam-me o dia; foi +pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,<span class="pn">{119}</span> +que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle +romance.</p> + +<p>O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com +que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um +editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando +com Cruz Coutinho e com os meus collegas +de redacção, alludisse ao <em>Testamento de sangue</em>.</p> + +<p>Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando +no <em>Jornal do Porto</em> se deu o que eu chamarei uma +crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados <em>Os dramas +de Paris</em>, de Ponson du Terrail, arranjados sobre +uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se +em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção +<span class="errata" title="no original: ao folhetim">do folhetim</span> com um romance que não fosse tão longo +que prejudicasse a sequencia dos <em>Dramas de Paris</em>, nem +tão breve que deixasse de preencher um compasso de +espera.</p> + +<p>—Se o teu romance não estivesse destinado para +Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.</p> + +<p>Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com +uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam +que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem +estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois +publicar <em>O testamento de sangue</em> no <em>Jornal do Porto</em>, e +escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro +logar que não tomaria resolução alguma sem ter +previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; +em segundo logar, que estando apenas traçados os +primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, +de escrever os outros dia a dia, o que certamente +obstava a um tal ou qual acuro que eu queria +dar á novella.</p> + +<p>Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. +Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, +comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter +sido publicado em folhetim.</p> + +<p>Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,<span class="pn">{120}</span> +na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer +que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era +gentilissima de amabilidade.</p> + +<p>Comecei então a escrever precipitadamente o romance, +a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim +diario—encargo que eu acumulava com a minha +collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações +quotidianas.</p> + +<p>Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto +de forças. Morava eu então no predio n.º 456 +da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta +do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se +eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de +todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.</p> + +<p>No livro <em>Nervosos, lymphaticos e sanguineos</em> deixei +consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho +com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, +para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre +da Conceição, com quem eu sustentava polemica +epistolar no <em>Jornal do Porto</em>.</p> + +<p>«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos +litterarios para reivindicar, não estou disposto +a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, +me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus +amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então +contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, +vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as +casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com +que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro +com os seus quatro braços alvejantes. A essa +hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea +na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos +trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»</p> + +<p>Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de +trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no +mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, +para sair em volume. O pequeno prologo que o<span class="pn">{121}</span> +precede é de todo o ponto exacto quando explica a +pressa com que o <em>Testamento de sangue</em> fôra escripto.</p> + +<p>No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois +livros novos, <em>A Porta do Paraiso</em> e <em>Entre o caffe e o +Cognac</em>. Tive então occasião de conhecer pessoalmente +o sr. Antonio Maria Pereira.</p> + +<p>Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta +n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço +pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho +e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar +alargando-a, tinha uma só porta e a <em>montre</em>. +Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros +e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, +estava um homem que, ouvindo perguntar +pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era +elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que +trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o +antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. +Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em +que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era +o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos +do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.</p> + +<p>Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão +cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este +<span class="errata" title="no original: editr">editor</span> era insinuante; e as suas maneiras distinctas. +Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente +argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A +face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia +os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido +de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.</p> + +<p>Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me +sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, +quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições +tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.<span class="pn">{122}</span> +Era seu filho, o actual editor<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup>. Tempo antes, seguindo +o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, +emprehendendo a publicação de uma <em>Encyclopedia litteraria</em>, +para a qual tivera a amabilidade de solicitar a +minha collaboração.</p> + +<p>Escrevi ahi uns versos, <em>Virgens loiras</em>, cuja inspiração +me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres +annos pesam sobre elles, e as <em>Virgens</em>, que devem estar +decrepitas—como os versos.</p> + +<p>Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel +convivencia.</p> + +<p>Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos +Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde +por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar +d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.</p> + +<p>Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso +apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, +tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou +costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos +habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o +meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na +rua Augusta.</p> + +<p>Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, +onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono +da casa e o bibliographo Innocencio.</p> + +<p>Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa +n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente +até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.</p> + +<p>O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois +de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair +o espirito na conversação de um pequeno grupo +de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa<span class="pn">{123}</span> +hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, +elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e +apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.</p> + +<p>Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que +eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes +serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup>—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade +de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta +da gloria—editando-lhes os primeiros livros.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas +do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamava <em>a vinagreira</em>.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>. + +<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, +Pinheiro Chagas, etc.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{124}</span></p> + +<h2>XIV</h2> + +<h3>Innocencio Francisco da Silva</h3> + +<p>Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas +provas de estima pessoal e de consideração litteraria.</p> + +<p>Foi elle que me propoz socio correspondente da +Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, +penhorando-me sobremodo.</p> + +<p>Mantive com Innocencio as melhores relações de +amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias +da sua attribulada existencia.</p> + +<p>Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio +não recebeu nunca do estado os beneficios a que, +pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel +direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo +entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo +civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos +bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe +faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente +com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe +foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser<span class="pn">{125}</span> +um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, +que capitulavam desdenhosamente de <em>rol de roupa suja +de livros velhos</em>. Que revoltante injustiça! De mais a +mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos +livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer +todos os seus caprichos de bibliophilo.</p> + +<p>Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom +por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, +falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco +ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. +Tinha a consciencia de merecer mais do +que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se +contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade +se poderia dizer que fôra um <em>vencido da vida</em>. +Viveu atormentadamente; e assim morreu.</p> + +<p>Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, +que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do +coração, que excellente caracter de portuguez antigo!</p> + +<p>Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente +infantis. Passava rapidamente da indignação +á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima +em facilidades de linguagem.</p> + +<p>Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. +Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas +havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de +bondade antiga.</p> + +<p>A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida +quintilha de Sá de Miranda:</p> + +<blockquote> +<p>Homem d'um só parecer,<br> +D'um só rosto, uma só fé,<br> +D'antes quebrar que torcer,<br> +Elle tudo póde ser,<br> +Mas de côrte homem não é.</p> +</blockquote> + +<p>Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, +receberia a impressão de ter deante de si um<span class="pn">{126}</span> +velho militar rabujento,—um major revoltado contra +a sua reforma e a decadencia do exercito.</p> + +<p>Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão +patriarchal, de—digamol-o assim—bom humor tarimbeiro, +ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque +a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.</p> + +<p>Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra +que, depois da <em>Bibliotheca Lusitana</em> do abbade Barbosa, +saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou +com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente +conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados +posteriormente á publicação da <em>Bibliotheca +Lusitana</em>.</p> + +<p>Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, +de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios +pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem +succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras +representa o <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em> até +o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado +para a continuação dos restantes volumes do <em>Supplemento</em>!</p> + +<p>De mais a mais, a natureza da especialidade em que +labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa +interminavel, porque um diccionario bibliographico não +se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação +ininterrupta.</p> + +<p>Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, +ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada: +<em>Emfim!</em></p> + +<p>O seu <em>emfim!</em> devia ser a morte.</p> + +<p>Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade +febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos +livros, que se iam empilhando em camadas alterosas +á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse +lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a<span class="pn">{127}</span> +um novo supplemento, que decerto já não esperaria +concluir.</p> + +<p>Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia +do <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em>, como +subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem +defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não +tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em +relação ao seu tempo, é pouco.</p> + +<p>Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não +era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a +sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava +uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui +obsequiado por elle com a copia de algumas poesias +ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram +para architectar sobre ellas o conto—<em>Como as borboletas se queimam</em>—inserto no livro <small>PORTUGAL DE CABELLEIRA</small> (1875).</p> + +<p>Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas +em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse +encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado +conta nas <em>Mil e uma historias</em> o caso interessante +de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se +um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, +que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do +Pote das Almas.</p> + +<p>D'esta vez Innocencio ficou codilhado.</p> + +<p>A este ou outros desastres alludia elle certamente +quando, escrevendo o artigo <em>Bibliophilos e biblomaniacos</em>, +na <em>Encyclopedia litteraria</em>, publicada pelo sr. Antonio +Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:</p> + +<p>«Na classe dos bibliomaniacos <em>improductivos</em>, que capricham +em accumular livros sobre livros, um conhecemos +sobre todos digno de menção especial. Fareja +este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, +as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que +lhe escapem os leilões e a classica <em>feira da ladra</em>, na +diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias<span class="pn">{128}</span> +da republica litteraria gosa de algum apreço por +merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade +dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, +arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos +em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo +lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido +reunir copiosissima somma de volumes, e não sem +grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente +acanhado, e de uma mesquinhez que toca as +raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel +aos vendedores que o têem por um caustico +volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber +parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por +suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo +de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a +uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos +em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»</p> + +<p>Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle +era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, +auctor de um vasto repositorio bibliographico +que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o +desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar +precioso, destinado a tornar-se improductivo para +toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.</p> + +<p>Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um +idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da +rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as +portas para os amigos que queriam estudar. E os que +não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do <em>Diccionario</em>, com a riqueza dos +thesouros acumulados por Innocencio.</p> + +<p>O predio em que habitava—e que tem hoje uma +lapide commemorativa—estava completamente cheio de +livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia +habitavam, os peores compartimentos do predio, +unicos disponiveis.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu +conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos +relações de amizade cordealissima. Innocencio +falava sempre, fumando muito, e habitualmente +maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar +para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. +Em sua casa havia differentes caixas atulhadas +de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.</p> + +<p>Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira +para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, +que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, +não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.</p> + +<p>Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!</p> + +<p>Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa +e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. +E—circumstancia que n'este momento me está lembrando +com viva saudade—foi com o seu collar de +academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda +em honra do principe de Galles.</p> + +<p>Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. <em>Innocencio.</em>» Mas a sua lettra +estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando +lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. +Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.</p> + +<p>Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, +sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia +dizer, pela primeira vez, «<em>Emfim!</em>»</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{130}</span></p> + +<h2>XV</h2> + +<h3>Tres actrizes</h3> + +<p>Vi no theatro de S. João do Porto representar a +Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou +sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio +profana—a de ter visto passar no palco de um theatro +um cherubim de azas brancas e cabello loiro.</p> + +<p>Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica +de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. +Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a +era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.</p> + +<p>Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á +beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem +testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito +casto e muito leve...</p> + +<p>Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. +E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante +que a esperava e um <em>coupé</em> que a conduzia para um +leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam +a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.</p> + +<p>Vi-a representar no Porto a <em>Cora</em> e recitar a <em>Stella +matutina</em>, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente +a sua estreia ruidosa com a <em>Visão dos tempos</em>.<span class="pn">{131}</span></p> + +<p>Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste +harmonia, os versos do poeta:</p> + +<blockquote> +<p>Eu sou a filha d'Eva<br> +Gerada em outro amor!<br> +Caíndo a dôr me eleva...<br> +Senhor, Senhor, Senhor!</p> +</blockquote> + +<p>Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma +lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula +modulação musical d'aquella garganta divina, e que se +n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa +mulher, destinada a</p> + +<blockquote> +<p>... servir de falla<br> +Á dôr que emmudeceu</p> +</blockquote> + +<p class="ni">seria personificada na formosura etherea e biblica de +Manuela Rey.</p> + +<p>A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, +vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a +<em>Joanna a doida</em>, a <em>Mulher que deita cartas</em>, a <em>Medea</em>.</p> + +<p>Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar +Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no +esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, +atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os +cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára +no seu corpo de marmore. A expressão tragica +dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural +do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, +onde as grandes paixões humanas, para expludirem +theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse +vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada +a cinzel n'um bloco de Paros.</p> + +<p>Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a +da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no +theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, +em honra de Emilia das Neves e Sousa.</p> + +<p>Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte<span class="pn">{132}</span> +na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante +favorecido das musas que não afinasse a lira +para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente +da difficuldade que a minha familia teve em obter um +camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, +empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos +atroadores sempre que o himno da <em>linda Emilia</em>, +como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.</p> + +<p>A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José +Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera +a musica outro academico, João Baptista Pires.</p> + +<p>Ahi vae a lettra do himno:</p> + +<blockquote> +<p>O robusto leão da victoria<br> +De teus pés lambe a terra em redor;<br> +Tua vida é um archivo de gloria,<br> +O teu nome um augusto esplendor.</p> + +<p>Para ti nunca findam as palmas,<br> +Nem os bravos que fazem tremer;<br> +E do ouro de lei d'estas almas<br> +Só tu podes um throno fazer.</p> + +<p>Nós que vemos os lumes ardentes<br> +Onde Deus escondel-os nos quiz,<br> +Vimos hoje dizer-te frementes:<br> +«És sublime, és sublime, ó actriz!»</p> + +<p>Arde o peito em delirio o mais puro,<br> +Cada olhar ao teu nome reluz;<br> +Has de ser immortal no futuro,<br> +Que este fogo é baptismo de luz.</p> + +<p style="margin-left: 6em;">Côro</p> + +<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br> +É pequena a corda dos reis;<br> +Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br> +A corôa dos nobres laureis.</p> +</blockquote> + +<p>Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, +postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados<span class="pn">{133}</span> +dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda +outro dia as chammas alastraram as suas linguas de +fogo.</p> + +<p>Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, +tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações +convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas +com applausos de amigos e <em>bouquets</em> que se vão +buscar ao palco para tornar a atiral-os.</p> + +<p>N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas +e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia +das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente +commovida.</p> + +<p>Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá +meia duzia de versos para um album ou para uma +festa theatral.</p> + +<p>Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os +melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em +honra da <em>linda Emilia</em> dois e tres epinicios cada um e, +não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os +no album da grande actriz.</p> + +<p>Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o +himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, +e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz +de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.</p> + +<p>Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. +Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em +Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, +melancolico e concentrado como sempre. Tive +vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: +«Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se +eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido +decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes +ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.</p> + +<p>Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram +trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de +Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas +novos.<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>Darei uma pequena amostra:</p> + +<blockquote> +<p>Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!<br> +Póde um peito conter oceanos de luz!<br> +Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,<br> +Como o braço de Deus, cria mundos a flux...</p> + +<p>Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos<br> +Um phantasma de fogo e acorda pensativo!<br> +Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,<br> +E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...</p> + +<p>E então é tanto o ardor a incendiar a mente,<br> +Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;<br> +Um descobre um Principio, um outro um Continente,<br> +O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...</p> +</blockquote> + +<p>Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. +Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras +na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. +Ultimamente regressou á metropole.<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p> + +<p>Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem +estar já pulverisados no seio da terra.</p> + +<p>Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir +a quadra final que elle compôz:</p> + +<blockquote> +<p>Curvamo-nos tambem... É Deus que passa<br> +Occulto nos monarchas do proscenio!<br> +É o seu braço de luz que, em fogo, traça<br> +N'aquellas sombras o caminho ao genio.</p> +</blockquote> + +<p>Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano +de valor, que disse:</p> + +<blockquote> +<p>Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,<br> +Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,<br> + Sente, mas não traduz;<br> +Mulher ou anjo, realidade ou sonho,<br> +Teu genio admiro, como admiro o Etna!<br> + O mar... a noite... a luz!...<span class="pn">{135}</span></p> +</blockquote> + +<p>Emilia das Neves já estava então longe da sua florida +mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural +belleza.</p> + +<p>Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor +quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863 <em>mulher ou +anjo</em>.</p> + +<p>Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima +peça, <em>O meia azul</em>, n'uma decadencia pungitiva. +A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas +enfermidades.</p> + +<p>O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um +esforço supremo de declamação e caracterisação.</p> + +<p>E então passava nos meus ouvidos este verso de +Ernesto Pinto de Almeida:</p> + +<blockquote> +<p>Mulher ou anjo, realidade ou sonho...</p> +</blockquote> + +<p>O que restava do sonho era apenas a realidade...</p> + +<p>Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, +ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista +e supersticioso.</p> + +<p>Este dissera a Emilia das Neves:</p> + +<blockquote> +<p>Agora que aos teus pés, mais uma vez,<br> +As rosas vem cobrir a tua estrada,<br> +Acceita esta homenagem não comprada,<br> +Mas filha do caracter portuguez!</p> +</blockquote> + +<p>Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, +mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se +de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam +em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem +dirigindo a uma verdadeira realeza.</p> + +<p>Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia <em>Judith</em>. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais +tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes +da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava +Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli +com barbas de guerreiro.<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, +o do Baquet teria ardido n'aquella noite.</p> + +<p>Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi +acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de +«marche aux flambeaus», que se improvisou com mais +enthusiasmo do que archotes.</p> + +<p>Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um +dos <em>hoteis</em> da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante +a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o +das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam +quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam +estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e +pela Calçada da Madeira abaixo.</p> + +<p>Emilia das Neves, abafada n'uma <em>capeline</em> branca, +recebia da janella do <em>hotel</em> as saudações, alvejando como +uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso +pouco importa.</p> + +<p>Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no +couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo +acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.</p> + +<p>Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do +himno:</p> + +<blockquote> +<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br> +É pequena a corôa dos reis;<br> +Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br> +A corôa dos nobres laureis.</p> +</blockquote> + +<p>E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava +muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo +certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio +auctor e aos ouvintes de boa fé.</p> + +<p>E eu era então um d'elles.</p> + +<p>Isto foi em 1863.</p> + +<p>Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da <em>bella Emilia</em>, +o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram +a grande tragica portugueza em versos de toda +a especie; e até do theatro onde ella representou e +elles a cantaram.<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>O tempo é um demolidor terrivel?</p> + +<p>Gertrudes... Gertrudes não sei de que—toda a +gente dizia apenas a <em>Gertrudes</em>—pertencia a essa raça +privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia +das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.</p> + +<p>Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo +branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia +pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.</p> + +<p>E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de <em>grande +dame</em>, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e +na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos +mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela +morte.</p> + +<p>Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel +mordacidade de que dou noticia em mulher. +Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi +sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos +bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava +quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. +Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, +que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma +tesourava os anteparos de papelão, que armavam +á credulidade ingenua do publico.</p> + +<p>Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.</p> + +<p>Acabára de realisar-se em Paris a <em>première</em> de <em>Mr. +Alphonse</em> de Dumas Filho, e Santos, então á frente da +empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a +peça em tres dias.</p> + +<p>Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres +as noites, e foi justamente á noite que, passeando e +fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que +se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.</p> + +<p>D. Maria pôde finalmente dar a peça—por tal signal +que em beneficio de Brazão.<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, +encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos +os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. +Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me +esse facto, que redundava em proveito meu, +e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a +Gertrudes dizer em scena:</p> + +<p>—Vai-te d'aqui, meu estupor.</p> + +<p>Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, +o publico riu longamente, mas eu, fulminado, +desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos +a Gertrudes.</p> + +<p>Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava +ainda em scena.</p> + +<p>Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu +encontro.</p> + +<p>Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas +que com ella tinham estado em scena, disse-me:</p> + +<p>—Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas +o caso é que agradou.</p> + +<p>Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; +que eu podia ser accusado, com apparente +razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau +gosto, o original de Dumas.</p> + +<p>E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, +tomando um tom sentencioso, disse:</p> + +<p>—Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? +D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe +o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.</p> + +<p>E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.</p> + +<p>Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos +no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que +parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de +um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente +morta.»</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup> Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente +ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{139}</span></p> + +<h2>XVI</h2> + +<h3>Actores celebres</h3> + +<p>Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já +alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria +da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno +<em>chalet</em> alcandorado pittorescamente sobre a praia dos +Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por +piedosa convenção, o ar do mar.</p> + +<p>Marcolino era um actor comico de subido merecimento, +muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o +do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, +e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:</p> + +<blockquote> +<p>Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;<br> +mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;<br> +golfão de riso e dôr, que ora serena,<br> +ora referve e escuma em sanha rude.</p> +</blockquote> + +<p>Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar +residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento +litterario e artistico do que pelas magras sopas +que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.<span class="pn">{140}</span></p> + +<p>Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um +<em>oiteiro</em> no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes +de hoje não sabem o que era um <em>oiteiro</em>. Pois +deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, +que a tradição da extincta Arcadia conservou +ainda por muito tempo. O <em>oiteiro</em> era o festival com +que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. +Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, +as freiras diziam das janellas para o pateo os motes +que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador +de <em>oiteiros</em>. No meu tempo, as coisas tinham +mudado já. Havia recepção na <em>grade</em> da abbadessa. O +feminino superior do convento sentava-se, dentro da +grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada +recentemente eleita. Fóra da <em>grade</em> havia um piano, +um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar +a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. +O mote era ainda obrigado, mas não constituia +o unico elemento essencial da festa, como n'outros +tempos.</p> + +<p>Foi n'esse <em>oiteiro</em> que eu ouvi Marcolino recitar, não +uma poesia comica, como se poderia esperar do genero +que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas +uma poesia lirica, <em>A borboleta</em>, de Thomaz Ribeiro, que +elle disse com um notavel primor de interpretação.</p> + +<p>Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:</p> + +<blockquote> +<p>Eu conheço-a! oh, se a conheço!<br> +sempre volitando anciosa,<br> +esbelta, fugaz, airosa,<br> +esquiva, amante, esquecida,<br> +eterno enygma na vida!...<br> +Eu conheço-a! ah, se a conheço!<br> +Estimo-a; estimal-a é grato;<br> +quero entendel-a... endoideço!</p> +</blockquote> + +<p>As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) +ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,<span class="pn">{141}</span> +tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio +que foi a ultima da sua vida.</p> + +<p>Eram duas horas da noite quando saimos da <em>grade</em>, +e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso +n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:</p> + +<blockquote> +<p>Tenho esta noite glosado<br> +Versos a esmo, a granel.<br> +Consenti, minhas senhoras,<br> +Que eu d'esta feita termine<br> +E que a vossos pés se incline<br> +Vosso servo: Pimentel.</p> +</blockquote> + +<p>Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. +Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! +Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se +de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural +de um antigo conde do Minho; morreu pouco +depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns +olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. +Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do <em>oiteiro</em> de S. Bento, porque tambem lá esteve: +o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com +grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um +soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança +em Africa.</p> + +<p>Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos <em>Pitorra</em>, +como dizia toda a gente, sem embargo de elle +ser, pelo seu altissimo valor artistico, o <em>grande Santos</em>.</p> + +<p>A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos +era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos +no Porto, eu frequentava os espectaculos e os +ensaios, o palco e o <em>foyer</em>, e escrevi por essa occasião, +julho de 1873, uns versos, que se intitulavam <em>Lirios</em>, +e que Emilia Adelaide recitára.</p> + +<p>Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia +de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, +n'aquella occasião, um desastre irremediavel.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; +mas, a breve trecho, encontrei a explicação do +facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; +comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar +todas as faltas da actriz.</p> + +<p>Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas +relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade +de um jantar que tivemos os tres no <em>Hotel Francfort</em>, +onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente +conversado, assistiu tambem a actriz Amelia +Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um +banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam +á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e +Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este +festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por +vezes as mãos dos convivas.</p> + +<p>Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor +Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que +elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o +Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão +com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do +sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel +da saudade...</p> + +<p>N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja +de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos +meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro +de D. Maria em 16 de maio de 1874.</p> + +<p>Paro um momento a lel-os:</p> + +<blockquote> +<p>Foi aqui—a historia o conta...<br> +Que entre flôres, palmas, himnos,<br> +Dos talentos peregrinos<br> +Brilhou a constellação.<br> +Era um loureiral a scena,<br> +O theatro escola e templo,<br> +Cada talento um exemplo,<br> +Cada palavra—lição.<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>Formoso e esplendido quadro!<br> +As bellas frontes rasgadas<br> +Resplandeciam banhadas<br> +Em misterioso fulgor...<br> +Grupo onde tudo era grande<br> +Merecia moldura d'ouro,<br> +Se tantas cordas de louro<br> +Não o cingissem melhor.</p> + +<p>Foi o tempo devastando<br> +As maravilhas da tela.<br> +Onde a loira Manuela?<br> +Onde Epiphanio, o pharol?<br> +Onde Sargedas, a graça?<br> +Onde Tasso e a sua gloria?<br> +Mais quatro nomes na historia,<br> +Mas não é posto inda o sol.</p> + +<p>Não é. O quadro tem vida.<br> +Move-se, agita-se, fala<br> +Remurmuram n'esta sala<br> +Os eccos da sua voz...<br> +Supponde muitas palmeiras<br> +Rasgando do céu as brumas...<br> +Quando o vento prostra algumas,<br> +As outras não ficam sós.</p> + +<p>Dos velhos heroes da scena<br> +Descem hoje sobre o espolio,<br> +No theatro-Capitolio,<br> +Flôres d'antiga ovação.<br> +É que um talento robusto,<br> +Honrando um nobre legado,<br> +Resuscita hoje o passado,<br> +Renova as flôres d'então.</p> + +<p>E a sua voz, que domina<br> +Da ovação a anciedade,<br> +É a voz da posteridade,<br> +Que da scena aos velhos reis<br> +Diz como um brado da historia:<br> +«La vos honrei o legado;<br> +«Se vos prostrou o passado,<br> +«Não sois mortos. Reviveis...»<span class="pn">{144}</span></p> +</blockquote> + +<p>E de todos estes versos, a que unicamente a saudade +de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, +ha um em que a minha attenção particularmente se +detém:</p> + +<blockquote> +<p>Mas não é posto inda o sol.</p> +</blockquote> + +<p>Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. +O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse +tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias +dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia +das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice +aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe +a gloria. E n'esse venerando cemiterio, +onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, +Santos sacrificava em honra de tantos mortos +illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle +proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do +velho theatro normal.</p> + +<p>Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo +interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.</p> + +<p><em>Não era posto ainda o sol</em>, porque elle era a luz crepuscular; +não estava inteiramente deserto o templo, +porque Santos o povoava ainda.</p> + +<p>Mas não havia outro laço vivo a prender o passado +ao presente senão elle.</p> + +<p>Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.</p> + +<p>Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada +que ia render-se.</p> + +<p>Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. +Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para +dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao +soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára +que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira +da eternidade...<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: +appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro +de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a +terceira no theatro da Trindade.</p> + +<p>Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a +alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era +uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a +de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando +através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos +cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.</p> + +<p>Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, +porque os actores morrem no dia em que são obrigados +a abandonar o theatro.</p> + +<p>A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. +Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a +revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como +um <em>sans-culotte</em> implacavel, arrastava-o para o <em>Temple</em>, +as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, +a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. +N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz +do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma +vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo +Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: <em>Ah! a natureza +humana não tem força para mais!</em></p> + +<p>O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença +era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos +do <em>Temple</em>: era a sua familia que entrava para +trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida +incomportavel! que devia durar cinco mezes, +sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão +n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.</p> + +<p>A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz +commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza +de infortunio!</p> + +<p>Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença +havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a +sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto<span class="pn">{146}</span> +fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa +por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.</p> + +<p>Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando +de uma familia orphanada, o theatro portuguez +soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.</p> + +<p>Era o Delphim que pranteava a morte do rei...</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: +o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.</p> + +<p>Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer <em>partidas</em>: +algumas conta elle proprio nas suas <em>Memorias</em>. +Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. +Quando cantava com Taborda o <em>duetto</em> de <em>Moysés</em>, ou +representava os <em>Dois candidatos</em> e <em>Para as eleições</em>, era +da gente rebentar a rir.</p> + +<p>Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, +estava doente, triste, muito velho. A troça indigena +mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um +pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente +um defeito de escola, mas, em compensação, todos os +artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. +Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, +para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.</p> + +<p>No trato particular, um perfeito cavalheiro.</p> + +<p>Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, +dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se +a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente +o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que +pretendia então um logar na alfandega.</p> + +<p>Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como +em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio +do <em>Adamastor</em>, de Camões, e o <em>Firmamento</em>, de +Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma <em>reprise</em> do +<em>Marquez de lá Seiglière</em>, que foi o seu cavallo de batalha.<span class="pn">{147}</span></p> + +<p>Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange +de actores antigos capazes de investirem com a tragedia +e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os +defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos +tres, de que tenho falado, o mais <em>poseur</em>: toda a gente +se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa +com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio +ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a +até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo +botas.</p> + +<p>Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros +actores notaveis</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O +celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: +«Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: +é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, +com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão +um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»</p> + +<p>A sua dicção, um pouco <em>saccadée</em>, era cristallina, sonora. +Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor +do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse +estar melhor em scena.</p> + +<p>Vi o Sargedas no <em>Gaiato de Lisboa</em>, no theatro de +S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, +fazia o <em>Gaiato</em> como se estivesse ainda em idade +de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, +só os consegue o talento.</p> + +<p>Antonio Pedro é um morto de outro dia.</p> + +<p>Fóra do theatro, a sua <em>gaucherie</em> passava em proverbio. +No theatro era um grande actor por intuição, +tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, +simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua +assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo +palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam<span class="pn">{148}</span> +a ignorancia manifesta em questões de arte +dramatica.</p> + +<p>Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma +modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou +assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle +proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua +organisação artistica.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Com o Tasso convivi durante uma <em>tournée</em>, no Porto; +com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico +assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição +d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer +diabrura tipographica.</p> + +<p>Já isso vai ha tanto tempo! + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{149}</span></p> + +<h2>XVII</h2> + +<h3>Pintores</h3> + +<p>No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra +como vogal da commissão de exames de instrucção +secundaria.</p> + +<p>Coimbra, a <em>terra de encantos</em>, só então me pareceu +tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante +um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, +a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco +agradavel.</p> + +<p>Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes +verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, +manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, +toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por +entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.</p> + +<p>Uma delicia!</p> + +<p>De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, +arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas +de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na +Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.</p> + +<p>A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores<span class="pn">{150}</span> +do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos +uns aos outros nos passeios de todas as +tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem +estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar +sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte +do juri de desenho.</p> + +<p>Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, +e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um +extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o +rodeava.</p> + +<p>Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas +d'aquella clara paizagem, lucida e placida como +uma vista de stereoscopo.</p> + +<p>Pois que o pintor Christino tinha a configuração de +um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos +observando, podiamos distinguir, até grande +distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, +que destacavam á prôa do barco.</p> + +<p>Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem +do poente que a sua cabeça descoberta, e mal +guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. +Christino reunia mentalmente á belleza do panorama +as tradições romanticas, as memorias lendarias +d'aquella margem. D'esse lado ficava a <em>Fonte +dos amores</em> emboscada saudosamente na sombra de +corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a +elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, +á distancia de dois kilometros da cidade, a <em>Lapa +dos esteios</em>, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado +sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava +os tempos semi-pagãos em que o poeta da +<em>Primavera</em> e os seus amigos ali foram, em plena mocidade, +celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio +que traz as flores e os canticos, os perfumes e +os amores.</p> + +<p>Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, +tinha uma alma de artista, era uma organisação<span class="pn">{151}</span> +delicada como a de Raphael, que se devorava +nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente +do que elle poderia sentir toda a poesia +d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que +as recordações e as arvores povoam.</p> + +<p>Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se +uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do +Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. <em>Ó dolce +voluttá</em>! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! +Que doces horas aquellas que o Christino passou +no Mondego sonhando sobre as aguas!</p> + +<p>Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou +abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse +ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. +É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto +a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios +ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. +Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma +longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece +ao cabo de algumas horas de concentração.</p> + +<p>Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes +tornei a avistar-me com o pintor Christino.</p> + +<p>Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra +morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha +empallidecido primeiro que a dos olhos...</p> + +<p>Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles +sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente +devoradores!...</p> + +<p>Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista +notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda +de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. +Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, +olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, +era comtudo facil e agradavel.</p> + +<p>Amador da natureza, ia procural-a no panorama que +d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que<span class="pn">{152}</span> +os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.</p> + +<p>Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por +S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. +Os olhos conservavam o seu brilho agareno. +Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por +vinte e quatro horas.</p> + +<p>No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação +havia morrido repentinamente.</p> + +<p>E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, +o panorama oriental da cidade parecia provocar, +na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.</p> + +<p>Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, +sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito +dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...</p> + +<p>Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente +nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos +branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era +aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, +parecia vender saude.</p> + +<p>Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, +n'uma <em>soirée</em> litteraria que o visconde de Castilho (Julio) +déra na sua casa da rua de S. João da Matta em +honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.</p> + +<p>Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem +augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o +porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, +e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de +convicção dava-me estimulo.</p> + +<p>Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar +na rua um homem que se mostra desanimado por +ser obrigado a trabalhar...</p> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{153}</span></p> + +<h2>XVIII</h2> + +<h3>Um grupo de academicos</h3> + +<p>Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—<em>Trente ans de Paris</em>—lembrei-me muito de Teixeira +de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de +Villemessant.</p> + +<p>O livro (collecção Guillaume & C.<sup>ie</sup>) é illustrado, e +até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, +nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.</p> + +<p>Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. +Encontrei-me varias vezes com elle nas <em>soirées</em> politicas +de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes +em sua casa, graças á benevolencia com que desde +o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem +de mundo, um <em>gentleman</em>, espirituoso, algum +tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas +escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que +mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.</p> + +<p>Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer +parte da redacção do <em>Jornal da Noite</em>. Eu precisava<span class="pn">{154}</span> +trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre +me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança +de que o <em>gentleman</em> das salas havia de continuar +a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. +Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, +pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por +vezes brusco, um homem muito differente, tomando +sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de +dono de jornal.</p> + +<p>Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem +razão para queixar-me.</p> + +<p>Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o +dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira +de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu +jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.</p> + +<p>As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, +rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente +os homens com quem, no trato familiar +de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.</p> + +<p>Foi o que aconteceu comigo.</p> + +<p>Depois que sai da redacção do <em>Jornal da Noite</em> vivemos +deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o +com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me +gentilissimamente. E algumas vezes, na minha +presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, +como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant +para os outros, voltava-se para mim sorrindo +e continuando a conversar placidamente.</p> + +<p>Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que +foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre +um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a +dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.</p> + +<p>Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, +mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido +para uma publicação do editor Chardron e que, +não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio +d'aquelle editor.<span class="pn">{155}</span></p> + +<p>Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior +valia. Pena é conservar-se inedito.</p> + +<p>Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, +mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições +da experiencia.</p> + +<p>Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle +me deu:</p> + +<p>—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um +livro bom, elogie-o.</p> + +<p>Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando +o não sigo, arrependo-me.</p> + +<p>Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. +Passou metade da sua vida a estudar e outra +metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava +ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que +elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto +e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, +Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que +fôra bibliothecario durante muitos annos.</p> + +<p>É frequentissimo compulsar um livro qualquer da +Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta +que diz: «<em>Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho +para preencher a falta do exemplar da livraria.</em>»</p> + +<p>Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para +mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da +Academia.</p> + +<p>Eu, que desde alguns annos converso mais os livros +que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a +passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, +que ás vezes parece mais morto que +vivo.</p> + +<p>Não conheci nunca, no trato particular que tive com +Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. +Queixava-se, é certo, mas não se queixava +mais nem menos do que todos quantos julgavam ter +razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade +de homens do mesmo officio sem razões de<span class="pn">{156}</span> +queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo +officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma +profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou +não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, +que têem serralho.</p> + +<p>O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho +foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. +Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, +por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente +de uma posição obscura, e litterariamente do +lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com +um livro de versos, o <em>Diwan</em>. Mas á força de trabalho +e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu +com as mais intrincadas questões de philologia, +de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, +por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie +do mundo litterario, como professor e academico, +certamente teria que combater e que soffrer, porque +ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...</p> + +<p>Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, +com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente +novo.</p> + +<p>A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria +no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador +de não sei que disciplina de instrucção secundaria; +eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos +toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, +coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. +Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua +bella figura de homem forte destacava-se como a de +um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, +e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. +Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor +com as rosas.</p> + +<p>Lembro-me de que á despedida elle me dissera:<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>—Olhe lá. Voce diz no <em>Guia do viajante no Porto</em> +que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como +os mexilhões.</p> + +<p>Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.</p> + +<p>Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, +sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado +que não se sabia bem o que elle queria dizer ou +fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo +uma obra litteraria que pudesse dar na vista á +posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e +em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua +mocidade, <em>A Semana</em>, por exemplo. O que lhe conheço +de melhor são as monographias sobre D. Catharina de +Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os <em>Estudinhos de +lingua patria</em>, publicados no <em>Archivo Pittoresco</em>. De resto +não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. +Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, +era um homem de vastos conhecimentos litterarios.</p> + +<p>Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde +ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo +vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que +lhe escapára por falta de catalogação.</p> + +<p>Quando eu escrevi o <em>Livro das lagrimas</em> para a casa +Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca +havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.</p> + +<p>Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me +logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam +do assumpto.</p> + +<p>E no dia seguinte mandou-me para casa não menos +de outros quinze livros.</p> + +<p>Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás +vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo +sempre distraido, respondia affirmativamente. +Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá +se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não +tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava +accordo de si, satisfatoriamente.<span class="pn">{158}</span></p> + +<p>Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, +e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, +mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, +não só porque elle o perdia com os outros, mas porque +tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a +Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. +E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. +Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.</p> + +<p>Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um +estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava +muito estas qualidades nos outros, especialmente em +Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, +teve uma grande admiração. <em>A Semana</em>, jornal que +Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente +Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo +passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, +o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, +e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas +admiradores do eminente romancista.</p> + +<p>Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se +no <em>Hotel Universal</em>. Jantei ali com elle e, +quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da +noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo <em>por +mestre</em>.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{159}</span></p> + +<h2>XIX</h2> + +<h3>Conselheiro Viale</h3> + +<p>Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me +ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios +da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever +um romance historico.<sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup></p> + +<p>Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o +romance <em>Annel mysterioso</em> começou a ser publicado em +fasciculos.</p> + +<p>Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. +Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, +para seguir-se immediatamente ao <em>Annel mysterioso</em>.</p> + +<p>Aquelles editores davam como razão d'esta proposta +o facto de ser recebido com agrado o meu romance que +estavam publicando.</p> + +<p>Confesso francamente que me encontrei n'uma situação +embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil +agradar na repetição, e de que a empresa editora +poderia ser prejudicada pela aventura de querer que +eu succedesse a mim proprio. <em>Non bis in idem</em>, diz o +proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto +que lograsse despertar maior interesse do que o <em>Annel +mysterioso</em>,<span class="pn">{160}</span> e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me +haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda +explorada a lenda piedosa que se havia formado em +torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que +esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. +Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em +meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação +do <em>Annel mysterioso</em>, seguiu-se immediatamente a +da <em>Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V</em>. +E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que +deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu +pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,<sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup> com tipographia +na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho +de que é inteiramente exacta a minha narrativa.</p> + +<p>Comecei a escrever a <em>Porta do Paraiso</em> no Porto. A +meio do romance, caiu-me em casa um despacho para +a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim +tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos +da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. +Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui +os ultimos capitulos.</p> + +<p>Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como +um Creso na rasão de 600 réis por dia...</p> + +<p>Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.</p> + +<p>Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa +que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe +apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. +Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas +que logo põem em evidencia um homem, ainda que +elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha +provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico +notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um +actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, +laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca +Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. +Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça +de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma +lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco +alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, +destacava as suas palavras n'um tom gravemente +conceituoso, que o habito do professorado explicava. E +na sua maneira de pronunciar havia um <em>tic</em> original, +que fazia retinir algumas sillabas.</p> + +<p>Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado +das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho +academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos +arraiaes litterarios, era «<em>Place aux jeunes</em>», ainda que +para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os +velhos.</p> + +<p>Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça +pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. +A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que +sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se +com razão de que a multidão dos novos passasse sob +a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, +ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo +por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.</p> + +<p>Falou-me da <em>Porta do Paraiso</em>, disse-me que o livro +lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V +é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; +e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez +á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito +um opusculo, que eu alias só conhecia por uma +transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o +d'alli a dias: <em>Apontamentos para uma biographia de S. +M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima +memoria</em>, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.</p> + +<p>Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos +evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando<span class="pn">{162}</span> +a firmeza convicta de um crente. Viale viveu +sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e +acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; +homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como +Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da <em>Illiada</em> ou uma ode de Pindaro.</p> + +<p>Collaborou no <em>Jornal da Sociedade Catholica</em>, redigiu +o <em>Catholico</em>, traduziu o primeiro canto da <em>Odissea</em>, +o sexto da <em>Illiada</em>, os cinco primeiros cantos do <em>Inferno +de Dante</em>, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou +em oitava rima a historia de Portugal, propagando +pelas escolas de instrucção primaria as tradições +gloriosas do passado.</p> + +<p>A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da +sua alma; traça com uma linha geographica os limites +da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição +grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, +foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.</p> + +<p>Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze +annos publicou um poema heroico, <em>David triumphante</em>, +entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. +Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que +parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, +invadida pelos turcos, salvando sobraçado o +ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou +cantando o amor, como todos, adejando por sobre +os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se +na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em +Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, +preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente +á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas +na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem +na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo +da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. +Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do +passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção<span class="pn">{163}</span> +era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se +tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu +atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem +que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem +fazel-o vacillar um momento.</p> + +<p>Eu tenho aqui, deante de mim, as <em>Tentativas Dantescas</em> +do conselheiro Viale, a sua traducção do <em>Inferno</em> +prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro +V.</p> + +<p>As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de +seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, +constituem a mais amavel das dedicatorias.</p> + +<p>Eu era por esse tempo professor de historia de seu +filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, +nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. +O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, +as mais subidas provas de consideração em que eu não +deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae +através dos repetidos favores com que o academico, o +professor, o hellenista confundiam a minha humildade +de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official +dos meritos de seu filho, não dependia de mim a +sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale +me pedia, de um modo captivante, que ensinasse +áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo +quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse +ministrar.</p> + +<p>Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns +annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro +Viale.</p> + +<p> </p> + +<p>Maio de 1889.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup> Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo +Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião +de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—<em>Nota da +2.ª edição.</em></p> + +<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram +com a tipographia, que ainda subsiste.—<em>Nota da 2.ª edição.</em></p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{164}</span></p> + +<h2>XX</h2> + +<h3>Eduardo Coelho</h3> + +<p>Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...</p> + +<p>A noite estava clara, levemente fria. Principiava a +sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, +á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, +de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As +confeitarias resplendiam num grande espelhamento +de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam +o <em>Jornal da Noite</em>, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, +era a unica folha que saía depois de posto o +sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado +e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade +alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se +um formigueiro de espectadores, dobrando +a esquina do largo das Duas Egrejas, onde +hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores de <em>cautelas</em> +rouquejavam o pregão da <em>taluda</em>, o 4897, perseguindo +a gente.</p> + +<p>Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,<span class="pn">{165}</span> +diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, +mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem +de recordações esfumadas, de memorias fugitivas +d'aquella noite de festa.</p> + +<p>Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, +eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi +tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente +isenta de difficuldades, por certo.</p> + +<p>Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo +Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a +amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de +encontrarmo-nos <em>definitivamente</em>, fosse eu á redacção +do <em>Diario de Noticias</em>, ás nove horas da noite.</p> + +<p>Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as +ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no +Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua +dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do <em>Diario +de Noticias</em> é de recente data.</p> + +<p>Complica-se com o encruzamento de varias travessas +a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, +comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente +no Bairro Alto, assim como tambem não são +capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do +Bairro d'Alfama.</p> + +<p>Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, +o caminho do <em>Diario de Noticias</em>, e não me ficou +barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei +heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta +sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada +topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, +sabe Deus com que trabalho!</p> + +<p>Finalmente, entrei na redacção do <em>Diario de Noticias</em> +quarenta minutos depois da hora aprazada.</p> + +<p>Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira +vez, embora tivesse estado com elle em communicação +epistolar, a causa da minha demora.</p> + +<p>Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,<span class="pn">{166}</span> +riu da minha aventura e, ficando silencioso um +momento, acabou por dizer-me:</p> + +<p>—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. +Você é um homem capaz de luctar, de soffrer +para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do +<em>Diario de Noticias</em>, mas ganhou o ficar habilitado a tornar +cá com os olhos tapados.</p> + +<p>Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, +captivou-me com aquella sincera bonomia que era a +feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos +amigos.</p> + +<p>Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro +ou quarto acto de uma comedia, que já não sei +como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, +Eduardo Coelho despediu-se. <em>Ia fazer a meia +noite, com a sua familia</em>, disse-me. Eu não sabia o que +era <em>fazer a meia noite</em>. Coelho riu-se.</p> + +<p>—É o que lá, para as nossas provincias, se chama +a consoada, a ceia do Natal.</p> + +<p>Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo +Coelho, proprietario e redactor principal do <em>Diario de +Noticias</em>.</p> + +<p>Em maio de 1889 chegava eu á <em>gare</em> de Campanhã, +no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, +que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi +dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo +o <em>Jornal da manhã</em>:</p> + +<p>—Morreu o Eduardo Coelho.</p> + +<p>—De repente?</p> + +<p>—Sim, de repente.</p> + +<p>—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada +constava...</p> + +<p>Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador +e alegre, que foi, deve dizer-se, <em>uma das forças +do seu tempo</em>.</p> + +<p>Depois de haver sido um dos <em>vencidos da vida</em> (não +no sentido pantagruelico que esta denominação está<span class="pn">{167}</span> +tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle +conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que +o salvasse.</p> + +<p>Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores +porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha +ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho +teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser +pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: +lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.</p> + +<p>Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. +Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a +sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que +elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, +já não poderá desgarrar-se.</p> + +<p>Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances +e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo +o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato +no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole +noticiosa e popular do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do +circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e +se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte +por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se +em liberdade n'um volume independente, que era uma +especie de gazeta feita... á gazeta.</p> + +<p>Mas os moldes do <em>Diario de Noticias</em> nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que +ensombrasse a noticia, a <em>blague</em> phantasista nunca se +permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.</p> + +<p>Dizer o que se passava, com uma grande investigação +de pormenores, mas sem refolhos de linguagem +que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, +eis o proposito inicial do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>Contar as occorrencias como qualquer pessoa que +chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira +impressão, e sem retoques de litteratice, n'um<span class="pn">{168}</span> +tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro +andar como para a velhinha do quinto, eis o que +o <em>Diario de Noticias</em> se propoz conseguir, e realisou.</p> + +<p>Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam +ás vezes a epiderme do <em>Diario de Noticias</em>: +queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em +estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade +que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do +<em>Martinho</em>. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, +e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, +ia construindo predios na rua dos Cardaes ao +passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas +com peor orientação, viviam em casa de renda, com +difficuldade em pagal-a.</p> + +<p>Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, +conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com +o <em>Diario de Noticias</em>, que, se o lermos com attenção, +é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante +nudez da sua verdade anatomica.</p> + +<p>Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os +litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro +de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos +mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo +das nossas predilecções pessoaes ou politicas; +mas o <em>Diario de Noticias</em> diz-nos o que ha a dizer +com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, +faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para +lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e +não é um concorrente perigoso para as novas empresas +jornalisticas, porque os dez réis que elle custa +cristalisaram no orçamento domestico da população +lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não +entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, +que hajamos de fazer com os outros jornaes que +se vendem avulso.</p> + +<p>A velhinha da mansarda já tem como certo que, além +do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um<span class="pn">{169}</span> +vintem por dia: dez réis para o seu <em>Diario de Noticias</em>, +dez réis para o carapau do seu gato.</p> + +<p>Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou +chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem +preliminarmente o <em>Diario de Noticias</em>, encostados ás +esquinas das ruas.</p> + +<p>Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma +extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha +para amealhar, com os olhos postos no seu ideal +gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato +das <em>maltas</em>, para alimentação, renda de casa e despesas +miudas, entra a verba effectiva do <em>Diario de Noticias</em>, +cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, +para o grupo todo.</p> + +<p>É isto ou não é isto?</p> + +<p>Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou +n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, +mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia +não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>No proprio dia em que elle se enterrava, o <em>Diario +de Noticias</em> appareceu carregado de annuncios: era a +affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde +e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente +n'uma instituição lisbonense.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{170}</span></p> + +<h2>XXI</h2> + +<h3>Marquez de Thomar</h3> + +<p>Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar +n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse +mais o biberon do que a politica.</p> + +<p>Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me +sofregamente para ella e, segundo o testemunho +de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á +politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.</p> + +<p>Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas +de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, +haveriam notado a coincidencia do meu nascimento +com um dos periodos mais agitados da politica +portugueza.</p> + +<p>Teriam gritado: predestinação! E diriam, <em>una voce</em>, +que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) +nascera sob a influencia da grande lucta travada entre +os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta +feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima +cartada.</p> + +<p>Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a <em>Maria da Fonte</em>, o conde de Thomar fugira para Hespanha,<span class="pn">{171}</span> +mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o +de novo ao poder.</p> + +<p>1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda +republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos +poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista +de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época +do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação +da republica em França e quando estava germinando +a <em>regeneração</em>, foi que me estreei n'este mundo, +envolto nas faxas infantis.</p> + +<p>Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea +os destinos humanos—não quiz que eu viesse a +ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de +mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo +notavel.</p> + +<p>No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, +nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao +facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter +sido annunciado pelo himno da <em>Maria da Fonte</em>.</p> + +<p>Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente +morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção +para a época da sua decadencia politica. Eu entrei +n'este mundo durante os <em>cem dias</em>, posso dizel-o assim, +de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve +tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera +restauração.</p> + +<p>O que é certo é que vim encontrar o mundo politico +portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei +se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente +seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se +pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... +E assim foi que correu a minha primeira infancia +derivando por entre dois nomes, de que se falava +muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, +que tinha caído definitivamente em 1851, e o +marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o <em>Espectro</em> e a <em>Maria da +Fonte</em>, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas +populares do Minho contra a familia dos Cabraes.</p> + +<p>Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época +nem sequer poupava a esposa do ministro caido:</p> + +<blockquote> +<p>Luizinha, agora, agora...</p> +</blockquote> + +<p>Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer +pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse +tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este +modo completar as fugitivas e incertas impressões que, +para assim dizer, trouxera do berço.</p> + +<p>Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque +é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto +na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo +caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços +d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva +e insinuante.</p> + +<p>Vi o Sampaio da <em>Revolução</em>... de guardanapo ao +pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e +comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o +terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor +do <em>Espectro</em>, o ardente pamphletario de 1846, +vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais +tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em +politica.</p> + +<p>Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, +ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de +triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o +seu uniforme de general, deitado no modesto leito que +os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado +um pallido clarão indeciso.</p> + +<p>Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo +vigor de homem forte para a sua cadeira de par do +reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi<span class="pn">{173}</span> +as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, +sem excepção dos antigos patuléas <em>enragés</em>.</p> + +<p>É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, +saciado as impaciencias, envelhecido os homens.</p> + +<p>Chegára a <em>paz geral</em>, que o meu excellente amigo +D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup> havia +prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado +armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado +com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio +Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á +sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio +Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez +de Thomar.</p> + +<p>Em que abismo de recordações não mergulharia o +espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz +depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam +da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos +do combate, que o ardor póde ser eterno, e que +as suas proprias paixões hão de queimar durante toda +a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam +intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das +noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos +de outr'ora, que se desfizeram em fumo!</p> + +<p>Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio +sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez +de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, +meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles +diziam...</p> + +<p>Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a +onda revolucionaria da <em>Maria da Fonte</em> tinha rolado +para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações +no papel do que nos homens.</p> + +<p>Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, +por dentro e por fóra, a natureza humana.<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio +deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem +mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia +em determinadas aptidões; mas a energia de caracter +tinha sido igual em todos tres.</p> + +<p>Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á +mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram +precisas duas revoluções para o derrubar, porque +á primeira resistiu elle.</p> + +<p>Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a +penna, combatera-o implacavelmente com o <em>Espectro</em>, +amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. +Homem para homem; coragem por coragem.</p> + +<p>Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os +embates, que procuravam lançal-o por terra na sua +gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar +todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, +chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.</p> + +<p>Todos esses tres homens foram dominadores por +sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos +tres eram corações generosos, almas de bom timbre, +expansivas e affectuosas.</p> + +<p>Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos +podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão +lá do alto a sombra que projectaram na terra, +e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos +parece enorme. Porque, descontadas no homem politico +as suas paixões, as suas furias de momento, o que a +seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa +pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos +a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos +vendo através da historia...</p> + +<p>Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito +de Costa Cabral, algumas notas discordantes.</p> + +<p>Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, +mas a primeira condição para apreciar um homem politico +deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial<span class="pn">{175}</span> +das circumstancias em que se encontrou. É preciso +reconstruir toda uma época para julgar com segurança +um homem politico. E as circumstancias em +que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas +por que tem passado o governo constitucional +n'este paiz.</p> + +<p>Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario +e conservador. Esta accusação póde ser +fulminada contra a maior parte dos homens politicos +de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é +tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar +é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira +de Mello.</p> + +<p>Pois bem, os homens de estado têem que obedecer +ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas +como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente +lançada na circulação, explica bem todas +as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.</p> + +<p>Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral +de renegado.</p> + +<p>Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde +ser feita igual accusação!</p> + +<p>Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, +essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas +vezes á vontade dos homens, subjugando-a.</p> + +<p>Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha +principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, +nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de +Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. +Em politica tem-se visto tal paiz, como a França +por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. +E cada individuo muda dentro de si mesmo +centenas de vezes.</p> + +<p>Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo +da maior solidariedade politica que depois de 1834 se +tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se<span class="pn">{176}</span> +dos mais dedicados amigos. Quem não era por +elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, +praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A +união faz a força.</p> + +<p>O sr. Oliveira Martins accusa-o, no <em>Portugal Contemporaneo</em>, +de ter governado sem um principio moral. +Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, +e procurae os principios moraes de todos os governos... +Haveis de ficar ricos com o achado!...</p> + +<p>Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver +a viação publica, como o fez Fontes Pereira de +Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes +operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.</p> + +<p>Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.</p> + +<p> </p> + +<p>Setembro de 1889. + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> Esbocei saudosamente o seu perfil no livro <em>Figuras humanas.—Nota da 2.ª edição</em>. +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{177}</span></p> + + +<h2>XXII</h2> + +<h3>Alexandre da Conceição</h3> + +<p>Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na +Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na +imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas +novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias +d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição +ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, +que haviam quasi abandonado as musas a esse +tempo.</p> + +<p>Principiou militando nas fileiras do romantismo, que +era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu +em volume as suas poesias sob o titulo de <em>Alvoradas</em>. +E dez annos depois fez segunda edição augmentada com +novas composições.</p> + +<p>Como poeta, se não podia medir-se com a estatura +genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. +Dou como <em>specimen</em> aquella das suas poesias que +teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro <em>Alvoradas</em>,<span class="pn">{178}</span> +póde ajuizar, pelo <em>specimen</em>, do valor de Alexandre +da Conceição como poeta:</p> + +<blockquote> +<p style="margin-left: 6em;">PERGAMINHOS</p> + +<p>Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;<br> +Eu tenho mais orgulho do que pensas<br> + E rio-me tambem;<br> +É debalde que tentas humilhar-me,<br> +Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!<br> + Que tambem sou alguem.</p> + +<p>Alguem que veio ao mundo sem familia,<br> +Um producto do acaso, um paria, um misero,<br> + Um engeitado emfim,<br> +Um sêr sem protecção das leis canonicas,<br> +Filho sem pae no assento do baptismo,<br> + Mas um sêr, inda assim.</p> + +<p>Levantou-me da estrada do infortunio<br> +Um homem que entendeu que um filho espurio<br> + Tem jus a protecção,<br> +Um homem que entendeu que é vil e infame<br> +Atirar para o lodo dos hospicios<br> + Uma alma em embryão.</p> + +<p>Este homem deu-me a força do seu braço,<br> +Legou-me em vida o seu honrado nome...<br> + Vestiu quem era nu,<br> +Depois, quando me viu robusto e forte,<br> +Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,<br> + Trabalha agora tu.»</p> + +<p>Luctei, passei curvado sobre os livros<br> +A mais florida quadra dos meus dias<br> + Sereno a trabalhar;<br> +Estudei, progredi, illuminei-me<br> +E um dia para entrar em novas luctas,<br> + Pude emfim descançar.</p> + +<p>É que eu vi as premissas da victoria,<br> +O applauso espontaneo dos estranhos<br> + Incitar-me a seguir,<br> +É que eu via deante dos meus passos<br> +Rasgar-se ampla, infinita, luminosa<br> + A estrada do porvir.<span class="pn">{179}</span></p> + +<p>Se alguma cousa sou a mim o devo,<br> +Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,<br> + Ao amor de meus paes,<br> +Á força de vontade, á intelligencia,<br> +Á sociedade pouco, ás leis bem menos...<br> + E a ti não devo mais.</p> + +<p>E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?<br> +E és tu que vens fallar-me nas riquezas<br> + Que o destino te deu?<br> +Eu não troco os meus louros de poeta,<br> +As conquistas do estudo e o meu futuro<br> + Por tudo quanto é teu.</p> + +<p>És louca!... Sabes lá que orgulho é este<br> +Do homem que a si só deve o que vale<br> + E que espera valer?<br> +Ha lá brazões illustres que equilibrem<br> +Estes louros viçosos d'um triumpho<br> + Que soubemos mercer?</p> + +<p>És louca! Sabes lá como eu sou rico,<br> +Rico de muita honra e muita esp'rança<br> + E muito coração?<br> +És louca! Mostra a escravos as riquezas,<br> +Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,<br> + Sou bastante christão.</p> + +<p>E quem te disse a ti que eu te invejava<br> +Esse ouro, que é teu unico prestigio<br> + E o nome a teus avós?<br> +Orgulhosa!... pois julgas decidido<br> +Qual seja, n'esta lucta de vaidades,<br> + O mais nobre de nós?</p> + +<p>Pois julgas que ser nobre é mero acaso,<br> +Uma questão de berço ou de destino,<br> + Uma questão de paes?<br> +Não vês que se a nobreza fosse heranca,<br> +Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,<br> + Seriamos eguaes?</p> + +<p>E não somos, bem vês, porque a nobreza<br> +Não se lega, conquista-a a intelligencia,<br> + O talento, as acções;<span class="pn">{180}</span><br> +Ora eu, se me permittes a vaidade,<br> +Colloco um pouco abaixo dos meus louros<br> + Todos os teus brazões.</p> + +<p>Devolvo-te portanto os teus insultos<br> +E a suspeita de te adorar os risos,<br> + Que nunca mendiguei;<br> +Se és bella e tens orgulhos de rainha,<br> +Mulher, entende bem, eu sou poeta,<br> + Tenho orgulhos de rei.</p> + +<p>Que é esta a nossa força; n'estes tempos<br> +Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro<br> + Para nos insultar,<br> +É modestia a orçar pela baixeza<br> +Não fazermos sentir aos maus e aos futeis<br> + Quem devem respeitar.</p> + +<p>Não me compares, pois, a horda ignara<br> +Que te adora os sorrisos pelo ouro...<br> + Eu tenho coração,<br> +Tenho por pergaminhos o trabalho,<br> +Por thesouros a minha intelligencia<br> + E a honra por brazão.</p> + +<p>Nós, os homens que andamos procurando<br> +Á luz do coração por este mundo<br> + Os caminhos do bem,<br> +Como trazemos alto o pensamento<br> +E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,<br> + Bem vês, como ninguem.</p> +</blockquote> + +<p>Em 1867 publicou o poemeto <em>Abençoada esmola</em>, que +considero inferior á maior parte das composições incluidas +nas <em>Alvoradas</em>.</p> + +<p>A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de +o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, +sente-se ainda na <em>Abençoada esmola</em> a destreza +de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado +a prosaicas occupações.</p> + +<p>E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar +poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. +Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito<span class="pn">{181}</span> +discutimos n'uma serie de cartas publicadas no <em>Jornal +do Porto</em> desde dezembro de 1871 a março de 1872.</p> + +<p>A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos +do que eramos antes. Uma das minhas primicias +litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da +Conceição n'um folhetim do <em>Nacional</em>. Quando a questão +rompeu no <em>Jornal do Porto</em>, tudo fazia suppôr que +viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa +fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante +com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, +sem embargo das nossas frequentes divergencias de +opinião, especialmente em politica.</p> + +<p>Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido +em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas +vezes veio á imprensa, com nobre independencia, +affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia +de situação que lhe atasse os braços. O seu +caracter era resoluto na expansão das suas convicções.</p> + +<p>Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera +peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito +do <em>Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia +no tempo dos Cabraes</em>.</p> + +<p>Na <em>dedicatoria</em> declarava Camillo o intento que o demovera +a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me +um dia se um velho escriptor de antigas novellas +poderia escrever, segundo os processos novos, +um romance com todos os <em>tics</em> do estylo realista. Respondi +temerariamente que sim.»</p> + +<p>O <em>Euzebio Macario</em> foi a justificação d'esta affirmativa, +d'este compromisso espontaneamente tomado.</p> + +<p>Camillo, o inexcedivel romantico do <em>Amor de perdição</em>, provou o seu pulso de escriptor realista no <em>Euzebio Macario</em> e, depois, na <em>Corja</em>. Evidenciou, com uma +superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, +não havia para elle barreiras que lhe tolhessem +o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.<span class="pn">{182}</span></p> + +<p>Alexandre da Conceição que principiara, como todos +os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira +em philosophia para o positivismo, e em litteratura para +o realismo.<sup><a href="#nota16" name="m_nota16">[16]</a></sup> Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se +talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. +Não viu deante de si o homem eminente que se chamava +Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no +<em>Euzebio Macario</em> a pretensão <em>de lançar o ridiculo sobre +a escola realista</em>.</p> + +<p>D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se +transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo +tinham uma natural explicação no facto de ser reptado +violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham +do afôgo com que elle abraçava os processos +litterarios da escola realista.</p> + +<p>O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De +parte a parte não houve trepidação que esfriasse o +ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista +insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os +excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, +aguentou-se rijamente no combate.</p> + +<p>Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal +têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque +Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios +do seu contendor.</p> + +<p>Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, +no <em>Café Marrare</em>, n'uma calmosa manhã, em que ali +entrámos.</p> + +<p>O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade +publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, +divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que<span class="pn">{183}</span> +nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa +cruel peleja.</p> + +<p>... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que +resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a +Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado +contra as trevas, arremessou a sua alma para +as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. +Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade +da morte, não é mais do que o envolucro decomposto +d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella +alma ardente, mas fidalga.</p> + +<p>E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças +ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem +pão.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota16" name="nota16">[16]</a></sup> Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais +tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de <em>Notas, ensaios +de critica e de litteratura.</em>—<em>Nota da 2.ª edição.</em></p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{184}</span></p> + +<h2>XXIII</h2> + +<h3>Julio Cesar Machado</h3> + +<p>No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos +espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra +flôr, que no campo chamam <em>bons dias</em>, quando a tarde +principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...</p> + +<p>A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, +que desperta voltada para o oriente, e que sempre +vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor +sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo +diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida +por uma dolorosa noticia...</p> + +<p>A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos +cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, +espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das +quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar +por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria +sem lhe dar um momento de attenção em passando...</p> + +<p>A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes<span class="pn">{185}</span> +com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes +paragens, parece cantar na festiva expansão do seu +perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem +florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, +para occultar a sua commoção, como tambem ás +vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, +que nos braços verdes a vae levantando ao alto das +grandes ruinas...</p> + +<p>A modestia, a violeta timida que não faz alarde da +sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas +e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, +no seu seio egoista, o cadaver do homem que +melhor a personificou no mundo...</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço +sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo +mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar +disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos +seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, +n'um drama de sangue, que só de recordal-o +sente a gente o coração confranger-se?!</p> + +<p>Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se +de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto +por si mesma, como por que elles proprios exageravam +o peso da vida.</p> + +<p>Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a +scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a +não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que +uma lagrima—apenas!</p> + +<p>«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle +(o livro <em>Scenas da minha terra</em>); tel-as-ha trazido alguma +nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro +ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, +essas lagrimas...»</p> + +<p>«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo +pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua<span class="pn">{186}</span> +terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente +pelo facto de os levar; eu, ao contrario, +cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. +Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos +que assim se temem d'elle.»<sup><a href="#nota17" name="m_nota17">[17]</a></sup></p> + +<p>«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma +ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar +para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»<sup><a href="#nota18" name="m_nota18">[18]</a></sup></p> + +<p>«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, +politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que +sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, +a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar +da anecdota!»<sup><a href="#nota19" name="m_nota19">[19]</a></sup></p> + +<p>Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de +1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio +Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente +ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, +porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu +o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar +a catastrophe final.</p> + +<p>O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira +a uma allucinação de momento, e desde esse dia +toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, +como um talude do qual, em se despegando um +punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas +horas.</p> + +<p>Todos nós nos lembramos do Julio passeando com +o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção +e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.</p> + +<p>Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, +desempenado e de feições miudas, valia mais +para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor +ao seu livro mais querido, <em>Os contos ao luar</em>.<span class="pn">{187}</span></p> + +<p>—Ó Julio, o teu prologo dos <em>Contos</em> leio-o ás vezes +para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E +depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro +<em>Contos ao luar</em>!» Bonito, como eram então as coisas +bonitas!</p> + +<p>—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor +do que o livro... respondia-me elle uma vez.</p> + +<p>E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...</p> + +<p>Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o +pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se +nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. +D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar +pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o +reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas +nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado +a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha +afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora +as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.</p> + +<p>Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o +allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar +a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou +entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.</p> + +<p>Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que +nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora +em que tentavamos uma empresa arriscada.</p> + +<p>Foi no livro <em>Manhãs e noites</em> que elle saudou com excessivo +favor os meus primeiros trabalhos litterarios, +as <em>Peregrinações na aldea</em> e o romancesito <em>Idyllios á +beira d'agua</em>. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia +em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado +algumas cartas.</p> + +<p>Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, +onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente +o meu destino.</p> + +<p>Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no +Porto: <em>Photographias de Lisboa</em>.<span class="pn">{188}</span></p> + +<p>Reproduzo uma pagina d'esse livro:</p> + +<p>«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa +do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado +e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, +flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho +em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo +homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. +É que as mulheres, por naturalmente timidas, +facilmente se confundiriam no cahotico <em>atelier</em> do +Julio.</p> + +<p>«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor +no <em>ménage</em>, é um valioso album em que a par +dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado +pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, +Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, +Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, +Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.</p> + +<p>«A proposito dos escriptores francezes do album, +falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura +franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos +da França para os femininos. Provavelmente foi +o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de +Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de +Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado +livro <em>Physiologie du ridicule</em>. É effectivamente raro este +livro, cuja primeira edição data de 1833.</p> + +<p>«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo +a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. +Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado +do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou +o nosso Camillo.</p> + +<p>«E tirando para fóra um livro:</p> + +<p>«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea +o encontrar a <em>Physiologia do ridiculo</em>, alegre-se que vae +vêl-a.<span class="pn">{189}</span></p> + +<p>«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:</p> + +<p>«—E lel-a.</p> + +<p>«O Julio havia escripto:</p> + +<p>«<em>Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa +em outubro de 1873.</em></p> + +<p class="assin"><em>Julio Cesar Machado</em>.»</p> + +<p>«E entregando-me o livro:</p> + +<p>«—E tel-a.</p> + +<p>«Era impossivel recusar; acceitei.»</p> + +<p>Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade +tornaram-se familiares, intimas, o <em>tu</em> veio consolidal-as +como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem +desde a infancia.</p> + +<p>Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa +estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos +no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; +eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma +bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse +de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, +sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação +que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o +Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, +saboreando a sua modesta <em>villegiature</em>.</p> + +<p>Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:</p> + +<p>—<em>Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!</em></p> + +<p>É o seu livro que mais fala da Durruivos.</p> + +<p>Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços +como para receber as minhas palavras, e depois, com +a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos +da Durruivos.</p> + +<p>O Julito agitou no ar o seu chapeu.</p> + +<p>E o comboio partiu.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota17" name="nota17">[17]</a></sup> e <sup><a href="#m_nota18" name="nota18">[18]</a></sup> Do livro <em>Recordações de Paris e Londres</em>.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota19" name="nota19">[19]</a></sup> Do livro, o seu ultimo livro, <em>Mil e uma historias</em>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{190}</span></p> + +<h2>XXIV</h2> + +<h3>João de Andrade Corvo</h3> + +<p>Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da +minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar +Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto +querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro +pantheon dos meus auctores predilectos.</p> + +<p>Ainda foi outro dia!...</p> + +<p>De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com +algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar +todos os seus volumes, incluindo os dois da <em>Vida em +Lisboa</em>, que vão sendo muito raros no mercado.</p> + +<p>É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, +em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona +a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, +como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a +distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa +<em>grande confusion</em> tumultuaria em que Voltaire dá o braço +a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do +padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes +meias com Augusto Comte.</p> + +<p>Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente<span class="pn">{191}</span> +<em>cancan</em> dos espiritos, que volteiam em torno da minha +banca de trabalho, uns graves como espectros, outros +folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente +scepticos, aquelles crendo fervorosamente como +apostolos.</p> + +<p>Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe +uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e +dei-lhe um logar reservado n'um só lote da +minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, +folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de +antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as +paginas, que ligeiramente passavam por deante dos +meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.</p> + +<p>Hoje alargo as dimensões do compartimento em +que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem +ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. +Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque +diversamente orientados, sempre se comprehenderam +e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se +continuarão conversando um com o outro no mesmo +lote da minha estante.</p> + +<p>Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes +tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal +do <em>Economista</em> apreciei eu dois volumes dos seus <em>Contos +em viagem</em>, e não sei se foi n'essa occasião, ou em +qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo +como romancista historico, declarei francamente antepôr +o seu <em>Um anno na côrte</em> á tão preconisada <em>Mocidade +de D. João V</em>, de Rebello da Silva.</p> + +<p>Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não +reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades +de estilista; mas como romancista historico acho que +o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo +da época, e na fidelidade dos caracteres.</p> + +<p>A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. +Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista +e academico.<span class="pn">{192}</span></p> + +<p>Em todas estas espheras de acção firmou creditos +inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca +lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. +Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente +tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto +á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, +que prefere a etimologica, a achasse má; mas é +tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava +a sonica, a achasse boa.</p> + +<p>Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não +com bilhete de <em>ida e volta</em>, como quem vae passar dois +dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros +que fazem a sua Jornada de Misericordia em +Misericordia.</p> + +<p>Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, +mas por divertimento. A sua grande distracção +era estudar, saber.</p> + +<p>E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu +Julio Cesar Machado no <em>Claudio</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com +que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, +referiu-se a muitas obras, metteu trechos de +todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, +dois em grego. O <em>Martinho</em> exultou. O homem +novo ia matar tudo.</p> + +<p>«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha +não só mais talento que elle, mas outra qualidade de +merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se +com isso, como toda a gente se incommoda de +ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes +mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu +trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta +e o sentimento de um artista.</p> + +<p>«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade +Corvo, <em>O Astrologo</em>.</p> + +<p>«—Ah! O Corvo é um homem superior, um homem<span class="pn">{193}</span> +justamente respeitado pela valia dos seus meritos... +Vou-me a elle.</p> + +<p>«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se +um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo +foi o ultimo a dar por isso.</p> + +<p>«De mais a mais, exactamente por essa occasião, +João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros, +lente da escola polytechnica, socio da academia +real das sciencias, auctor do <em>Anno na côrte</em>, do <em>Alliciador</em>, +do <em>Astrologo</em>, de <em>D. Maria Telles</em>, de <em>D. Gil</em>, de +<em>Nem tudo que luz é oiro</em>, de grande numero de artigos +publicados dos <em>Annaes das sciencias e lettras</em>, na <em>Epocha</em>, +etc., estava todo entregue a uma curiosidade.</p> + +<p>«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas +de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade +Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica +teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo +d'elles.</p> + +<p>«—Não és capaz!</p> + +<p>«—Ora! Elle é lá capaz d'isso!</p> + +<p>«—Sou capaz até de estudar o curso completo.</p> + +<p>«Os dois olharam para elle, sorrindo.</p> + +<p>«—Vou matricular-me ámanhã.</p> + +<p>«Matriculou-se no dia immediato.</p> + +<p>«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia +elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida, +sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer +dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um +dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto +no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia +o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente, +<em>á estudante</em>, trepava aquella calçada do Garcia +e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo +accelerado de um filho familias que estivesse exposto +mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão +de frequencia colhida com austeridade nos registros +sisudos do livro de ponto.<span class="pn">{194}</span></p> + +<p>«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia +do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que +só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda +não parou nem se fartou um instante.</p> + +<p>«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente +da sciencia na politica, da politica na litteratura.»</p> + +<p> </p> + +<p>N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente +as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros, +e em que os debates parlamentares eram irritantes +e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, +entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na +Academia Real das Sciencias.</p> + +<p>Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que +era conhecido pela designação de—<em>Gabinete do sr. +Corvo.</em></p> + +<p>O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não +podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter +devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario. +Como todo o bom gastronomo, gostava de variar. +Por isso, ao mesmo tempo que redigia os <em>Estudos +sobre as provincias ultramarinas</em>, escrevia os <em>Contos em +viagem</em>. Só depois de regalado o paladar é que fazia +despachos e discursos.</p> + +<p>Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, +lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar +litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos +uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para +doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a +Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem. +Refiro-me á parte que lhe coube—estudos economicos +e higienicos sobre os arrozaes—no relatorio +official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, +por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida. +Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do +sr. Corvo occupa 200 paginas <em>in-folio</em>, foi desde logo<span class="pn">{195}</span> +tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue +um exemplar.</p> + +<p>Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos +dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha +o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida +ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem +outras tantas engrenagens do mecanismo social. +Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito +posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.</p> + +<p>Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e +sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder +duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que +já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.</p> + +<p>Havia uma sessão em que se esperava a apresentação +de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo +sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia, +tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem +era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O +continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o +redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu +gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, +disse-me com uma grande seriedade:</p> + +<p>—Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, +e que isso prende com o artigo 37.º do regimento. +Ora eu não sei qual é a disposição respectiva. +Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do +regimento dispõe.</p> + +<p>Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.</p> + +<p>—É que eu não sei de cór—respondi—o que dispõe +o artigo 37.º</p> + +<p>—Nem eu, replicou o sr. Corvo.</p> + +<p>—N'esse caso vamos vêr.</p> + +<p>E abri o <em>Regimento</em>, que estava sobre a banca do +presidente.</p> + +<p>Li o artigo 37.º<span class="pn">{196}</span></p> + +<p>—Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que +eu não queria era ter o trabalho de ler isso.</p> + +<p>E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me +para o vão da janella:</p> + +<p>—Então como vamos de litteratura?</p> + +<p>Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas +vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem +a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que +se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico +ou n'um facto litterario.</p> + +<p>E todavia elle era um homem de tão superior estofa +que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura +na politica, a que dava menos apreço, assignalou +indelevelmente a sua passagem por ella—como +n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o +progresso material das colonias.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p class="centrado">FIM</p> + +<p> <span class="pn">{197}</span></p> + +<h2>ERRATAS</h2> + +<p>Mencionamos como mais importantes as seguintes:</p> + +<p>Pag. 15, lin. 35—transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: +transmittiria á rainha e ao principe.</p> + +<p>Pag. 43, lin. 19—e das de Canities, leia-se: e das obras de +Canities.</p> + +<p>Pag. 45, lin. 10—da fama, leia-se: da fauna.</p> + +<p>Pag. 45, lin. 20—Henri, leia se: Hipp.</p> + +<p>Pag. 63. lin. 5—a rodos, leia se: a rodo.</p> + +<p>Pag. 100, lin. 25—conservamos, leia-se: conservavamos.</p> + +<p>Pag. 102, lin. 10—elle fóra, leia-se: elle fôra.</p> + +<p>Pag. 119, lin. 14—ao folhetim, leia-se: do folhetim.</p> + +<p>Pag. 121, lin. 26—editr, leia se: editor.</p> + +<p><span class="pn">{198}</span></p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + +***** This file should be named 33581-h.htm or 33581-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33581/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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