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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:59:48 -0700 |
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diff --git a/33581-h/33581-h.htm b/33581-h/33581-h.htm new file mode 100644 index 0000000..cbe114a --- /dev/null +++ b/33581-h/33581-h.htm @@ -0,0 +1,8212 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Vinte Annos de Vida Litteraria, por Alberto Pimentel</title> + <meta name="Author" content="Alberto Pimentel"> + <meta name="Edition" content="Porto. Parceria Antonio Maria Pereira, 1908."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-top: 3em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {margin: 0; text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo p.assin {margin: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; } + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Vinte Annos de Vida Litteraria + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> + +<p>No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como <span class="errata" title="no original: aqui">aqui</span>.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>1908<br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> + +<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br> + +LISBOA</p> + + +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—10.º VOLUME</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 1.8em;">VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>1908<br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> + +<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br> + +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> + +<div style="text-align: center;"> +<p>Composto e impresso na typographia<br> + +<small>DA</small><br> + +Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small><i>Rua Augusta, 44 a 54.</i></small><br> + +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<div id="corpo"> + +<h1>A QUEM LER</h1> + +<h3>Prologo da 1.ª edição</h3> + +<p>Publiquei o livro <em>Atravez do passado</em>, receoso de que +não agradasse por ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro +Chagas, escrevendo na <em>Illustracão Portugueza</em> +um artigo muito amavel para mim, a respeito d'aquelle +livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores +reunirem as memorias jornalisticas e litterarias do seu +tempo, como subsidio indirecto para a historia completa +da sociedade a que pertencem. Este ponto de +vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras +deram-me estimulo, confesso-o francamente, para +colleccionar um segundo livro de memorias.</p> + +<p>De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, +eu obedeço gostosamente a uma natural inclinação +do meu espirito para a reconstrucção do passado, +que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo as +cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. +Não sei se até certo ponto entrará n'isto o egoismo de, +pelo que me respeita, reviver pela memoria os dias que +já vão longe.</p> + +<p>Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de +vida litteraria sem preoccupações de nenhuma especie, +nem mesmo chronologicas. Quanto ás pessoas de que +falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua hierarchia<span class="pn">{6}</span> +politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que +me iam lembrando, e as recordações que me acudiam +ao bico da penna.</p> + +<p>Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas +paginas que não versam assumptos exclusivamente +litterarios. Mas foi pelo braço da litteratura que +eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude +conhecer mais de perto certos homens.</p> + +<p> </p> + +<p>Lisboa, 42 de novembro de 1889.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">A<small>LBERTO</small> P<small>IMENTEL</small>.</p> + + +<p><span class="pn">{7}</span></p> + +<h2>Prologo da 2.ª edição</h2> + +<p>Este livro deve certamente a boa fortuna de uma +segunda edição ao facto de contêr aspectos biographicos +de alguns homens notaveis, com os quaes eu convivi +na minha mocidade. Esses homens marcaram uma +época da vida historica do paiz e, como sempre acontece, +a morte deu-lhes maior prestigio. De modo que +o livro não envelheceu por causa d'elles, e só d'elles +recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição.</p> + +<p>Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo +mais agradavel de escrever a historia, ainda +quando esse processo caia em mãos tão incompetentes +como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, +que não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente +os biographados.</p> + +<p>Por mim julgo os outros: releio com prazer algum +trecho de Plutarcho, e custa-me a digerir meio capitulo +de Tito Livio.</p> + +<p>Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me +não aborreci de mim mesmo revendo agora este livro, +que ia ser reimpresso. Não é que o repute perfeito, +porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque +a sua revisão me reconduziu a uma época em que +os homens e os factos constituiram um vasto edificio +de que só restam cinzas e ruinas.</p> + +<p>N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, +communicativa e cordeal. Não se tinham ainda desencadeado<span class="pn">{8}</span> +grandes borrascas de odios pessoaes, que nos +agitassem como n'esta hora. As amizades eram perduraveis, +e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos +de braços abertos, acarinhados, protegidos. E +cada qual plantava os seus ideaes sem incommodar o +vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia aquillo +que nós desejariamos ter.</p> + +<p>A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi +a de uma sociedade remota, que me não propuz descrever, +mas que resulta de um conjunto de biographias +n'elle agrupadas.</p> + +<p>E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me +expulso do passado pela distancia e do presente pela +estranheza.</p> + +<p>Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. +E se elle fôr o <em>crescendo</em> logico do dia de hoje, eu não +sinto pena de o não viver—e descançarei serenamente +da fadiga do caminho. <em>Fatigatus ex itinere sedebat.</em></p> + +<p>Lisboa, 27 de abril de 1908.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><em>O auctor</em></p> + +<p><span class="pn">{9}</span></p> + +<h2>I</h2> + +<h3>El-rei D. Luiz</h3> + +<p>Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo +menos um pouco arriscado: póde parecer adulação. Mas +escrever de um rei que já não existe, e contar lealmente +os altos favores pessoaes que d'elle se receberam, +é mais do que gratidão—é justiça.</p> + +<p>Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca +o disse em publico durante a sua vida, para afastar de +mim a suspeita de lisonjeiro, mas não perdia occasião +de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da minha +bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. +Para estes escrevo.</p> + +<p>O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. +Luiz I foi o rei, o principe, o astro da côrte. O que +n'elle sempre me captivou, desde o primeiro dia em +que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado +e complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector +dos que rudemente luctavam pela existencia.</p> + +<p>O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das<span class="pn">{10}</span> +paixões politicas, que em torno d'elle se debatiam. O +homem era sempre o mesmo para todos: bom, compassivo, +affectuoso.</p> + +<p>Chegava a causar assombro que um principe, tão +preoccupado de negocios e até de distracções, pudesse +seguir tão attentamente o fio de tantissimas pretensões +particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia +o segredo.</p> + +<p>No conjunto das massas populares havia centenas +de biographias que el-rei D. Luiz conhecia pagina a +pagina, e que acompanhava dia a dia.</p> + +<p>A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão +de si mesma quando, na turbamulta de uma +festa ou de um espectaculo publico, o rei divisasse, perdidas +humildemente na multidão, as phisionomias de +muitas pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.</p> + +<p>Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi +furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito +do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que +por toda a parte o perseguiam.</p> + +<p>De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel +de todos os principes da sua familia: fixava facilmente +as phisionomias e as datas, de modo que não +perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez +houvesse falado.</p> + +<p>Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da +côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente +em que sempre procurei collocar-me, e o seu +olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, +correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, +mas quasi subtil.</p> + +<p>Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, +eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873 +tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.</p> + +<p>Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação +burocratica que ainda assim vi com alegria cair do<span class="pn">{11}</span> +céu, tinha eu publicado recentemente um livro, <em>A Porta +do Paraiso</em>, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.</p> + +<p>Os regeneradores estavam no poder, e o governador +civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára, +dera-me uma carta de apresentação para o ministro +do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.</p> + +<p>Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me +immediatamente com a bonomia familiar que +elle tinha para com toda a gente.</p> + +<p>Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens +politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos +de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem +obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição +aos Cabraes, do <em>Espectro</em>, e na sua palavra, ás +vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade +verdadeiramente captivante.</p> + +<p>Terminou perguntando-me o que eu queria.</p> + +<p>Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado +a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro +que acabava de dar a lume. Acrescentei que era +eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario +do meu livro, e que de modo algum ousaria +offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de +uma novella baseada em factos do reinado do senhor +D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia +prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, +teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria +naturalmente de todo e qualquer escripto que +dissesse respeito a uma pessoa da familia real.</p> + +<p>Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; +que no dia seguinte, uma quinta feira, havia +despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da +tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na +sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.</p> + +<p>No dia seguinte, á hora indicada, partimos do <span class="typo" title="no original: Terreiro Paço">Terreiro do Paço</span> para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez<span class="pn">{12}</span> +minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo +tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma +das salas interiores.</p> + +<p>Quando ali entrei, com a timidez de um homem que +arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei, +encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto, +com as mãos mettidas nos bolsos de um <em>veston</em>, +conversava com o ministro do reino.</p> + +<p>Sampaio apresentou-me em termos excessivamente +amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas, +que augmentaram ainda mais a minha confusão.</p> + +<p>Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei +falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me +que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a +que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio +fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando +um relampago da sua felicissima memoria, recordou +que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou +muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me +se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com +grande segurança de critica, os seus romances, acceitando +a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente +no romance a escola ingleza.</p> + +<p>E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a +luva da mão direita—o que Sampaio me advertira—el-rei, +certamente por ter reconhecido que eu fumava, +abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.</p> + +<p>Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, +sorrindo, observou-me:</p> + +<p>—Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.</p> + +<p>Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.</p> + +<p>Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord +Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar +na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao +offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.</p> + +<p>Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos<span class="pn">{13}</span> +falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído, +não o accendi. Nem me era facil saber como havia de +accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio +não fumava; só o rei estava fumando.</p> + +<p>Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o +charuto, offereceu-me lume.</p> + +<p>Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu +fumo desde os quinze annos desesperadamente—mas +cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu +fumo para incommodar-me.</p> + +<p>O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que +eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi +o charuto, que de mais a mais era fortissimo.</p> + +<p>A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o +apagar a breve trecho, propositadamente. Mas +el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado, +tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava +no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que +chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes +Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco +abruptamente com estas palavras de el-rei:</p> + +<p>—Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o +sem acanhamento.</p> + +<p>Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento +o facto de eu ter deixado apagar o charuto.</p> + +<p>Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, +Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello, +e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na +carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que +elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para +fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema +homoepathico:—<em>similia similibus curantur</em>.</p> + +<p>As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram +d'esse dia.</p> + +<p>Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer +a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.</p> + +<p>El-rei dizia-me invariavelmente:<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>—Procure-me sempre que precisar de mim.</p> + +<p>De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, +el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. +Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao +fumo para o afastar.</p> + +<p>Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do +bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos, +amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas +vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado +melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da +camara dos pares; creavam-se logares de redactores. +Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas, +fervilhavam em torno de Fontes. Desejando +um d'esses logares, mas não dispondo de influencia +que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido, +lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.</p> + +<p>Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois +era recebido por sua magestade, que me ouviu +com a amavel benevolencia que sempre me dispensou. +E, tendo-me ouvido, disse:</p> + +<p>—Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo +empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito +justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes +trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos +annos um trabalho d'esses.</p> + +<p>No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a +Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez +esta pergunta:</p> + +<p>—Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?</p> + +<p>Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente +do meu pedido com a maior pressa e solicitude. +Desde essa hora julguei-me despachado.</p> + +<p>—O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª</p> + +<p>—Diga lá.</p> + +<p>—O meu empenho... fui eu só.</p> + +<p>Contei então a Fontes tudo quanto se passára.<span class="pn">{15}</span></p> + +<p>E Fontes limitou-se a dizer-me:</p> + +<p>—El-rei tem o maior empenho no seu despacho.</p> + +<p>Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. +Sua magestade, apenas me viu, perguntou-me:</p> + +<p>—Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão?</p> + +<p>—Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer +a inexcedivel diligencia de vossa magestade. Acabo de +falar com o presidente do conselho.</p> + +<p>—Eu falei-lhe hontem mesmo.</p> + +<p>Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.</p> + +<p>Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações +para a camara dos pares. O meu nome nunca foi +lembrado pelos jornaes. A politica interveio n'este negocio, +como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a +minha pretensão triumphou, graças á protecção do rei.</p> + +<p>Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, +el-rei dignou-se abraçar-me dizendo:</p> + +<p>—Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance +um pouco. Era justo. Era justo.</p> + +<p>Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não +tinha os seus enxutos.</p> + +<p>Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, +não direi de amizade, mas de franqueza.</p> + +<p>Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta +minha sobre assumptos que não eram pessoaes.</p> + +<p>Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa +carta. Ha quem conheça a carta, e possa contar a historia +um dia, querendo.</p> + +<p>A ultima vez que me demorei conversando com el-rei +foi para lhe fazer o pedido de alguns brindes da +familia real para um bazar de Setubal. El rei disse-me +logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito +o meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, +e que o principe real estava estudando as suas +lições, motivo por que transmittiria <span class="errata" title="no original: á e ao rainha principe">á rainha e ao principe</span> +aquella solicitação.</p> + +<p>N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír<span class="pn">{16}</span> +da noite recebia eu n'aquella cidade um telegramma do +sr. D. Pedro Arcos participando-me que tanto a rainha +como o principe mandariam brindes para o bazar.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu +coração uma saudade indelevel pelo homem bom, pelo +desvelado protector, que tanto me ajudou a desbravar +o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados +além da campa, o rei de Portugal deve repousar no +seio de Deus n'uma eternidade bem aventurada. Quanto +á minha gratidão, será eterna, porque eu ensinarei a +meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a +tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo +de el-rei D. Luiz I.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{17}</span></p> + + +<h2>II</h2> + +<h3>Meu pae</h3> + +<p>Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista +quanto é sincera e aguda. Não sei, não quero +saber o que se tem passado fóra de mim proprio: tenho +vivido apenas das minhas recordações dolorosas, +concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o +drama intimo do meu luto e da minha tristeza.</p> + +<p>E depois os leitores têem de certo para mim esse +doce sentimento de condolencia que resulta de uma +convivencia longa e leal. Somos bons amigos ha vinte +annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto +adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado +as suas opiniões: desculpar-me-hão, portanto, +este desafogo de uma saudade irremediavel, tão +sagrada e tão justa—a saudade de um filho que deplora +a morte de seu pae.</p> + +<p>Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios +do leitor um ligeiro sorriso, fique esse sorriso á conta +de compensação da magua que lhe posso causar hoje<span class="pn">{18}</span> +obrigando-o a lêr as palavras que certamente me acudirão +orvalhadas de lagrimas.</p> + +<p>Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante +dos olhos todos os lances da minha vida desde a primeira +infancia tão descuidosa e alegre, e no meio d'esse +enxame de recordações entrevejo, a contrastar com ellas, +o semblante demudado e quasi cadaverico do meu +querido octogenario, que ainda ha oito dias contemplei +semi-morto no seu leito de agonia.</p> + +<p>Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não +houvesse entregado ao cultivo das bellas-lettras, mas +unicamente aos aridos cuidados da sua profissão de +medico; elle, que devia ter com a morte essa fria familiaridade +que a faz encarar tranquillamente como o +desfecho forçado de todos os actos phisiologicos, acharia +comtudo no fundo do seu coração de pae um terno +perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que +o levaria a encher de flores a sepultura do filho.</p> + +<p>Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria +a mesma delicadeza de sentimento, a mesma suavidade +de lagrimas, e continuar a ver n'elle não aquillo +a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, +a bella alma antiga, capaz de entender todos os +carinhos e de comprehender todas as dedicações.</p> + +<p>Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi +extincta, que trouxeram do lar paterno a noção austera +do dever e a impressão profunda dos bons exemplos +caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, +hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da +sua vida em plena atmosphera de tradições sagradas +e inviolaveis, e que professavam pelo passado um culto +quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes +velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos +de avós fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas +não passavam sem commemoração domestica: +eram outras tantas festas de familia, muito intimas e +muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes<span class="pn">{19}</span> +da Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados +com devoção tradicional. E sentar-se á mesa, d'esses +dias memorandos, rodeados de todos os filhos e de +todos os parentes, era para os homens de uma geração +quasi extincta um doce prazer patriarchal, puro e simples, +o goso perenne da felicidade pela familia.</p> + +<p>Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros +homens, dilatando a sua esphera de acção, tornaram-se +cosmopolitas, entraram n'uma vida mundana, que os +leva para longe do berço das suas tradições de familia, +lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, +de preoccupações e trabalhos. Esta corrente moderna, +esta evolução do espirito humano, assombra os velhos +de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os +assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as +suas arvores e os seus casaes, era o eixo obrigado de +todos os movimentos psichologicos, o centro em torno +do qual girava e se consumia toda a sua actividade. +Ver aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era +como viver ainda em espirito para elles e no meio d'elles, +prolongar pela propria existencia a d'aquelles entes +queridos que tinham constituido a familia, e haviam +desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se +no Douro, n'uma quinta dos seus maiores, contemplando +as arvores que elles tinham mandado plantar, +colhendo os fructos dos pomares que elles haviam +disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo +á sua clinica portuense, tratando dedicadamente +os seus doentes que conhecia ha longos annos, e que +iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes de +<em>partido</em>. Tinha extremos de paciencia para os escutar, +para os attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia +da sciencia que exercia, quando os não podia salvar. +Havia no Passeio da Cordoaria um major reformado +que era um verdadeiro <em>doente de scisma</em>, o protagonista +bondoso de uma comedia molieresca, que se +repetia todos os dias.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>—Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel.</p> + +<p>O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão +querido voltarete, dava-se pressa em acudir á chamada.</p> + +<p>—Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. +Palavra de honra que não vae. Somos amigos antigos: +póde acreditar-me. Coma a sua asinha de frango, tome +a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e +durma.</p> + +<p>No dia seguinte a mesma scena.</p> + +<p>Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos +juntos uma tarde, e elle pediu-me que o ficasse esperando +no Jardim da Cordoaria.</p> + +<p>—Vae ver o major? perguntei-lhe.</p> + +<p>—Vou.</p> + +<p>—Mas elle mandou-o chamar?</p> + +<p>—Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou +eu que vou de motu proprio: o pobre major não dura +oito dias, mas, felizmente para elle, já não scisma na +sua doença.</p> + +<p>Quando eu estive no Porto a semana passada, todas +as velhas e lazaras dos recolhimentos das Fontainhas, +de que meu pae fôra por largos annos clinico, mandavam +saber d'elle.</p> + +<p>Achei commovente este testemunho de gratidão, mas +não era difficil encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as +carinhosamente.</p> + +<p>Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos.</p> + +<p>—De que se queixa? perguntava o medico a uma +nonagenaria.</p> + +<p>—Dôres... Afflicções... Eu sei lá!...</p> + +<p>—Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho +isso mesmo.</p> + +<p>—Tem?!</p> + +<p>—Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. +Pois, minha boa doentinha, tome um chásinho de +erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao estomago.<span class="pn">{21}</span> +Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades +não ha outro remedio: a velhice não se cura. Deitar +grandes remendos n'um predio velho é perder tempo +e trabalho. Vamos assim amparando as nossas ruinas +com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e +hei de achal-a mais socegada.</p> + +<p>É incalculavel o numero de autopsias que meu pae +fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos +eramos pequenos, embirravamos muito de que meu +pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: +já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.</p> + +<p>Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente +á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos +no seu bom appetite.</p> + +<p>Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar +menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que +tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.</p> + +<p>Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu +creança; cuido que havia sido atacado de ictericia +negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe +conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que +teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou +o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam, +disse a minha mãe:</p> + +<p>—Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma +torrada.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus! Isso não!</p> + +<p>—Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.</p> + +<p>Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, +contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do +leito.</p> + +<p>—Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o +doente sabe sempre mais.</p> + +<p>Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era +quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas; +uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu<span class="pn">{22}</span> +diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos, +em 1825, quando entrou na Escola Medica.</p> + +<p>Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se +a morte com heroica serenidade. Era o declinar +de um bom. Como eu, sem grande esforço, o pudesse +voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo da +sua lethargia:</p> + +<p>—Isto é quasi um cadaver.</p> + +<p>Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me +logo em seguida palavras de carinhosa ternura, que eu +não pude agradecer suffocado pelas lagrimas.</p> + +<p>Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos +ultimos dias um corpo devorado por dôres lancinantes, +que elle indicava levando a mão ao peito. E, na sua +dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz +entrecortada e difficil:</p> + +<p>—Rezem.</p> + +<p>Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, +do corpo que se esphacelava.</p> + +<p>Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse +querido octogenario que, sem ambições nem invejas, +parecia não ter biographia. Mas o leitor comprehende +que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de +penna. O sacrificio tem sido superior ás minhas forças. +Mas o coração, posto que dilacerado, não me permittia +que, escrevendo de tantos homens a cuja memoria devo +a homenagem da minha saudade, deixasse de falar +d'aquelle cujo sangue corre nas minhas veias, o mais +dedicado, e tambem o mais amado, de todos elles.</p> + +<p> </p> + +<p><small>Junho de 1889.</small></p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{23}</span></p> + + +<h2>III</h2> + +<h3>Alexandre Herculano</h3> + +<p>Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais +notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me +com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista +deixei memoria no livro que se intitula <em>O capote +do sr. Braz</em>. Quando o eminente escriptor morreu, tentei +traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então +publiquei, <em>O Porto por fóra e por dentro</em>.</p> + +<p>Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade +de Herculano um outro aspecto, que aliás +tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica. +Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento +agora á biographia do grande historiador, poderá +conter elementos não de todo inuteis para quem houver +de escrever um dia, definitivamente, a monographia +completa da sua brilhante existencia.</p> + +<p>Alexandre Herculano padecera as contrariedades da +guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram +ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro +a Portugal.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser +um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo, +se não fossem naturalmente subjugados por uma +organisação de poeta, com todas as qualidades e os +defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam +exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos +da corôa, quando não têem, como Herculano teve, +a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada +passo os contraria e azéda.</p> + +<p>Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante +a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido +elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes +caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás +conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento +e ás intrigas de gabinete.</p> + +<p>Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados +de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor +de <em>D. Branca</em>, do <em>Camões</em>, de <em>João Minino</em>; o sr. +Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos +os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, +os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: <em>e apenas +eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde +prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica</em>.»</p> + +<p><em>A Voz do propheta</em>, um dos seus mais notaveis escriptos +politicos, não é senão um grito lancinante de +poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de +um poeta da <em>Carta</em>, deixem-me dizer assim; de um coração +delicado que via ligada á memoria da <em>Carta</em> a recordação +dos seus melhores dias de soffrimento, de +lucta e de esperança.</p> + +<p>«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella +polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, +da nudez, das tempestades, do desalento. <em>Vivia +depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi +dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas +que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as +gerações novas.</em><span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto +de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam +assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo +a <em>Carta</em>, d'esses homens que accentuavam agora +em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado +a separal-os na emigração, collocava-se no ponto +de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta +uma causa pelo estimulo sincero da sua propria +convicção e da sua propria fé n'essa causa.</p> + +<p>Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, +façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato +eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem +não <em>fazia sombra</em> a ninguem como politico.</p> + +<p>Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter +para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso. +E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no +parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão +o deputado.</p> + +<p>Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico +amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para +o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como +politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por +aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se +em pleno parlamento, logo que ali entrou, +de que não fizera um pedido, de que não escrevera +uma carta para obter o diploma de deputado.</p> + +<p>Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus +companheiros de emigração, poria o fito em escalar o +parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para +<em>chegar</em>. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso, +Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett +chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.</p> + +<p>Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que +principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano +usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta +ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.<span class="pn">{26}</span></p> + +<p><em>O sr. Alexandre Herculano</em>—Sr. presidente, erguendo-me +para dar a minha opinião sobre as graves questões +que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado +até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo +que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas +cadeiras, para obter a qual <em>ninguem ousará dizer que +eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra</em>; +n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se +lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em +instrumento de martyrio, se não as queremos tornar +recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo +o resto da vida.</p> + +<p>«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos +do coração, e as convicções do entendimento, que me +cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no +qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, +e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços +eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella +não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que +hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a +boa e leal amisade. (<em>Grande attenção</em>).</p> + +<p>«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de +Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos +srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que +o governo tem deixado peiorar a situação das nossas +relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade +do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de +administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só +curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem +e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de +um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o +sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar +como devo: visto que os meus constituintes me +mandaram para este logar.</p> + +<p>«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio +actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque +se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece)<span class="pn">{27}</span> +sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido +tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.</p> + +<p>«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque +sobre os homens da minha crença politica se lançaram +crueis accusações de falta de patriotismo; porque +eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes +que advogam a causa da revolução permanente, +asselladas com o ferrete de lista ingleza.»</p> + +<p> </p> + +<p>Muitas passagens d'este discurso foram vivamente +applaudidas.</p> + +<p>Citaremos as seguintes:</p> + +<p> </p> + +<p>«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal +á França; nem o partido cartista o quiz vender á +Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente, +ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (<em>Vivissimos +apoiados</em>).</p> + +<p>«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria +como um só homem, e esmagaria os infames +que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem +os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas +que cobrem as cinzas dos nossos paes! (<em>Muitos +apoiados</em>).</p> + +<p>«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos +valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de +nós cahir moribundo pela independencia nacional!</p> + +<p>«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em +ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram +nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas; +juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos +olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes +desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem +uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca +imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse +os seus companheiros d'armas. Como é possivel que<span class="pn">{28}</span> +hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos? +Penhor do procedimento presente seja o procedimento +passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não +tivesse por bandeira—<em>independencia e liberdade</em>?» (Vozes: +<em>Muito bem, muito bem</em>).</p> + +<p> </p> + +<p>Este discurso de estreia revela o homem de lettras +<em>depaysé</em> no parlamento. É um academico que fala, encadernando +em bons periodos litterarios uma alma delicada +de poeta, que sinceramente presta culto á terra +em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. +Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali +o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar +em todos os debates da politica apaixonada, em todos +os incidentes facciosos e obstruccionistas, o <em>rabula</em>, o +furão da politica.</p> + +<p>Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia +bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se +para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o +a Lamartine, um grande escriptor, tambem +poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a +linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o +tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis +da organisação de um homem de lettras que tinha, +sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.</p> + +<p>Foi pois o ministro do reino que se levantou para +responder por parte do governo.</p> + +<p>Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e +ao caracter de Herculano.</p> + +<p>«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os +parabens ao nobre deputado, que acaba de falar, pelo +seu primeiro discurso n'esta camara, que nos promette +a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur +de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras +sobre o ministerio a que eu pertenço. Eu sou o +amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e tenho de +o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa<span class="pn">{29}</span> +de que me devia alguns obsequios: o nobre deputado +nenhuns me deve, e pelo contrario se em algum de nós +ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de que as suas +palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia +na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima +para mim, a maior em que me tenho visto +até agora.»</p> + +<p>Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, +como suppomos, viu em Alexandre Herculano o homem +que, longe de manejar as armas politicas nos combates +de todos os dias, só uma vez por outra havia de +tomar a palavra em assumptos que mais ou menos pudessem +lisonjear as tendencias do seu espirito.</p> + +<p>Assim aconteceu; a raposa vira bem.</p> + +<p>Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como +membro da commissão de instrucção publica, pronunciou +algumas palavras sobre o projecto da jubilação dos +professores.</p> + +<p>Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:</p> + +<p>«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição +de Evora, ou fazia cousa similhante está aposentado; +e creio que não ha muita justiça em um tal accumular. +(Uma voz—E o que tocava os folles do orgam na Patriarchal!) +É por isto, sr. presidente, que eu requeiro +que se approve o parecer da commissão de instrucção +publica, sobre o direito d'accumulações dos professores, +e que as commissões respectivas dêem o seu parecer +sobre as outras classes, para que a essas a quem +a mesma accumulação competir, se torne extensiva a +disposição d'esta lei.»</p> + +<p>Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava +a falar sobre o mesmo assumpto, e dizia:</p> + +<p>«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação +aos professores, é porque estes professores +durante 20, 25, 30 annos de serviço accumularam na +mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, o<span class="pn">{30}</span> +professor de instrucção primaria, converteu um bocado +de pedra ou um bocado de pau n'um homem; um serrenho +que desce das montanhas, e vem para a escola +primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu +tenho conhecido alguns, que realmente distam mais de +uma creatura humana do que de uma alimaria: isto é +verdade, e o professor de instrucção primaria converte +este ente n'um homem, e em um cidadão productivo +para a sua patria, o que por certo não seria, se não +fosse o cuidado do professor de instrucção primaria. +Estes homens passam ás escolas superiores, e vão ser +magistrados, e vão ser militares, vão ser fabricantes e +artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, +tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza +nacional, que como todos sabem (porque todos +aqui sabem o que é economia politica) consiste em capitaes +accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. +Esses capitaes são os que os professores accumulam +nas mãos do Estado, porque elles são a origem primordial +d'elles.»</p> + +<p>Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou +para a mesa, por parte da commissão de instrucção +publica, uma substituição ou antes nova redacção +do projecto de lei, que restituia os professores da academia +do Porto aos seus respectivos logares, de que +haviam sido demittidos em consequencia dos acontecimentos +politicos posteriores ao dia 9 de setembro de +1836.</p> + +<p>Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto +de lei relativo aos abusos de liberdade de imprensa.</p> + +<p>Alexandre Herculano tomou a mão para falar.</p> + +<p>É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:</p> + +<p>«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres +classes—abusos contra a religião, e a moralidade publica—abusos +contra a honra dos cidadãos—e abusos +contra a segurança do Estado.—Entendo que qualquer +d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra<span class="pn">{31}</span> +elles devem ser tambem gravissimas: eu não tinha +duvida nenhuma em votar, que o homem que calumnia +um empregado, ou um particular por via da imprensa, +soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; +e porque? Porque é um assassino do espirito, da +alma, assim como o homem que ataca com um punhal +na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo +entre estes dois assassinos; não sei se diga, que detesto +mais o assassino da alma, aquelle que me rouba +todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. presidente, +que eu desejava todo o rigor da lei; mas não +queria nenhuns embaraços para o exercicio d'uma garantia, +que pela constituição têem todos os cidadãos; +porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser legista, +mas entendo, que uma lei que regula não destroe, +e eu vejo destruido este direito para todos os que +não tiverem os meios de fazer este deposito, ou dar +esta fiança».</p> + +<p>Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento +do estado, Herculano occupou-se da verba destinada á +conservação dos monumentos nacionaes.</p> + +<p>«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de +fazer só com oito contos, quando para o convento de +Mafra vejo que são precisos treze; isto é, só para este +edificio; propondo-se agora oito contos para os reparos +de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha +de o sr. ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo +parece-me mais conveniente que se espere pela +presença do sr. ministro para vermos o que elle diz a +este respeito.»</p> + +<p>Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, +conformou-se com as explicações dadas pela commissão.</p> + +<p>«Não queria eu decerto que estes monumentos se +concluissem com o que nós lhe vamos dar; queria que +se reparassem, que se evitasse a sua ruina, mesmo +porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam<span class="pn">{32}</span> +capazes de os acabar. Contento-me pois com isto, e +muito mais com esta ultima declaração da commissão; +porque ha muitos monumentos que não estão incluidos +no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, +e posso citar o castello da Feira que se está arruinando +e deitando abaixo, e pouco a pouco se vae +apossando d'elle um sujeito que é dono das terras visinhas +ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação +esse primor d'arte. Muitos outros ha que têem a +mesma sorte.»</p> + +<p>Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, +que não mira a fins politicos, que expõe parcimoniosamente +a sua opinião, até com certa hesitação algumas +vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; +e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, +descobrimos perfeitamente o gosto, a predilecção, +a tendencia do homem de lettras, que faz a apologia +do professor de instrucção primaria, o primeiro +cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos +historicos, que são a genuina expressão da arte nacional +na serie dos tempos.</p> + +<p>Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados +a celebre questão da propriedade litteraria, em +que Almeida Garrett tão activa parte tomou, sendo sua +a iniciativa do projecto.</p> + +<p>Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.</p> + +<p>Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob +o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos +crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado +ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, +impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos +depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre +carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns +periodos significativos, referentes á discussão de 1841. +Diz Herculano a Garrett:</p> + +<p>«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse<span class="pn">{33}</span> +seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou +agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer +responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me. +<em>Dez annos não passam debalde para a intelligencia +humana, e eu não me envergonho de corrigir e +mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho +de raciocinar e aprender.</em>»</p> + +<p>Estamos persuadidos de que o debate parlamentar +ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre +Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto. +Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo +faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos +de que o sistema nervoso de um homem de +lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos +da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. +Herculano, o irritado contradictor da propriedade +litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que +fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio +testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.</p> + +<p>Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. +São o claro-escuro das suas concepções geniaes.</p> + +<p>Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára +cada vez mais avesso ás promptas soluções dos +negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta, +Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra +a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia +que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia +nos acommetteu e pungiu.</p> + +<p>Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo +circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral +de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano +saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco +de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente +se notabilisára no parlamento como <em>apagador</em> encartado. +A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano +não quizera ir á camara de braço dado com um +<em>apagador</em> satirisado. Não acceitamos esta versão. É<span class="pn">{34}</span> +certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a +razão adduzida na sua <em>Carta aos eleitores de Cintra</em>, +agora reimpressa no <small>II</small> volume dos Opusculos, é pouco +menos de futil.</p> + +<p>Essa razão era—<em>que nenhum circulo eleitoral deve +escolher para seu representante individuo que lhe não +pertença</em>.</p> + +<p>Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto +o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar +para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica, +onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado +e constrangido.</p> + +<p>O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, +do que entre politicos interesseiros que punham a +sua candidatura a ministros.</p> + +<p>Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido +o parecer da primeira commissão de verificação de +poderes acceitando a renuncia do logar de deputado, +para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito pelo +circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.</p> + +<p>O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer +da commissão:</p> + +<p>«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo +sr. deputado Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente +no caso da lei, convida-o a acceitar o logar +de deputado.»</p> + +<p>Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, +tendo expendido pela imprensa as razões da sua renuncia, +não julgaria logico mudar da opinião, mas que a +camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se +achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.</p> + +<p>Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse +que se o sr. Pegádo tinha em mente fazer o elogio de +Alexandre Herculano, a camara estava de accordo com +as suas palavras, <em>porque o sr. Alexandre Herculano faz<span class="pn">{35}</span> +uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria</em>; +mas a questão era outra, havia uma lei a cumprir e +uma vontade a respeitar.</p> + +<p>A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se +a materia discutida, e o parecer foi approvado.</p> + +<p>Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes +com agreste voluptuosidade o sentimento da resistencia +obstinada ás correntes sociaes que em sentido contrario +ás suas tendencias os solicitam.</p> + +<p>Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle +cristallisára no seu aborrecimento pelo mundo politico, +pelo scenario avariado do parlamento, onde se reconhecêra +inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.</p> + +<p>El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, +quiz fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria +do que dar-lhe um premio politico: nomeou-o par do +reino. Transcrevemos o diploma official da nomeação, +que foi publicado no <em>Diario do Governo</em>:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ministerio dos negocios do reino</em></p> + +<p> </p> + +<p>«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo +da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da +nação portugueza. Eu El-rei vos envio muito saudar. +Tomando em consideração os vossos merecimentos e +qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, +nomear-vos par do reino, o que me pareceu participar-vos +para vossa intelligencia e effeitos devidos. +Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de +1861.—Rei.—<em>Marquez de Loulé.</em>—Para Alexandre +Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia +Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza.»</p> + +<p> </p> + +<p>Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque +essa mercê tinha resaibos de iguaria politica, para apreciar<span class="pn">{36}</span> +a qual o seu paladar estava desde muito tempo +embotado.</p> + +<p>Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, +como elle dizia, o pedestal dos homens politicos. +Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. A sua prosa tinha +por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons +duros de mau humor para com a sociedade.</p> + +<p>Recusou a mercê regia.</p> + +<p>Temos fortes razões para crêr que o requerimento +em que renunciou o pariato fomos nós arrancal-o pela +primeira vez ao archivo do ministerio do reino.</p> + +<p>Diz assim:</p> + +<p class="assin">«Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.</p> + +<p> </p> + +<p>«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do +poder moderador, Houve por bem honrar-me com a nomeação +de membro da Camara dos Dignos Pares do +Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio +esta demonstração de confianca d'um Soberano, que a +historia póde qualificar como a mais nobre e pura intelligencia +que tem resplandecido no throno portuguez, +e que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem +do que ao respeito como magistrado supremo.</p> + +<p>Mas as condições da humanidade alcançam reis e +subditos: reis e subditos estão sujeitos a fazer apreciações +inexactas ou incompletas. Podem illudir-se ás +vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas inspirações +da justiça e é possivel que em relação a mim +se désse uma circumstancia d'essas.</p> + +<p>Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia +com voz sobradamente intelligivel é que o meu +concurso nas deliberações da camara dos Dignos Pares +do Reino seria inutil, quando não inconveniente. Dispense-me +v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e +invencivel persuasão, razões tristes para mim, e porventura +demasiado longas e tediosas para v. ex.ª</p> + +<p>Não creio que faltem em Portugal homens de saber<span class="pn">{37}</span> +e virtude que tenham esperança e fé. São esses que +pódem, sem a temeridade de Ora, erguer a mão para +amparar a arca santa das instituições. É provavel que +saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram +tambem honrados com a confiança da corôa.</p> + +<p>Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da +camara dos Dignos Pares do Reino á presença de Sua +Magestade El-Rei, que, acceitando-a benignamente, +ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da +sua inexgotavel indulgencia para comigo.</p> + +<p>Deus Guarde a v. ex.ª—Lisboa, 18 de maio de +1861.—Ill.<sup>mo</sup> e ex.<sup>mo</sup> sr. Marquez de Loulé, ministro +e secretario d'estado dos negocios do reino.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><em>A. Herculano.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, +que nos conste, não fôra integralmente publicado no +<em>Diario do Governo</em>, posto que a elle se alluda em outro +diploma official.</p> + +<p>«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano +de Carvalho, socio effectivo da Academia Real +das Sciencias, Hei por bem acceitar a renuncia por elle +feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do +Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de +maio proximo findo. O Ministro e Secretario de Estado +dos Negocios do Reino assim o tenha entendido e faça +executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de +1861.—Rei.—<em>Marquez de Loulé</em>.»</p> + +<p>Do mesmo modo não foi publicada a portaria que +acompanhou a remessa do decreto real.</p> + +<p>«Para Alexandre Herculano de Carvalho:</p> + +<p>«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado +dos Negocios do Reino, remetter a Alexandre Herculano +de Carvalho, socio effectivo da Academia Real +das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia +authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo<span class="pn">{38}</span> +qual Houve por bem acceitar a renuncia por elle feita +nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da Dignidade +de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta +Regia de 17 de maio proximo findo, o que na data de +hoje se participa á Camara dos Dignos Pares do Reino. +Paço das Necessidades, em 8 de junho de 1861.—<em>Marquez de Loulé</em>.»</p> + +<p>O unico documento que encontramos estampado no +<em>Diario do Governo</em> é o seguinte aviso da presidencia do +conselho de ministros á camara dos pares:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ministerio do Reino</em></p> + +<p> </p> + +<p>«Direcção geral da administração politica—1.ª repartição—Livro +15 n.º 143==Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.—Tenho +a honra de participar a V. Ex.ª para conhecimento +da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade +El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado +pelo conselheiro d'estado effectivo João de Souza Pinto +Magalhães, e pelo socio effectivo da Academia Real das +Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por +bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a +renuncia, por elles feita nas Reaes Mãos do Mesmo +Augusto Senhor, da dignidade de pares do Reino a que +haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio +proximo findo.</p> + +<p>«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios +do Reino, em 8 de junho de 1861.—Ill.<sup>mo</sup> e +Ex.<sup>mo</sup> Sr. Presidente da camara dos Dignos Pares do +Reino.—<em>Marquez de Loulé.</em>»</p> + +<p>As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos +a circumscrever este capitulo, a que poderiamos dar +comtudo bem mais amplas proporções.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{39}</span></p> + +<h2>IV</h2> + +<h3>José Gomes Monteiro</h3> + +<p>Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava +toda a mais Grecia, foi guiada pela legislação de Licurgo +ao respeito da velhice. Facto verdadeiramente +extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas +eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos +inuteis, os velhos, tão inuteis para o serviço da republica +como as creanças votadas á morte, eram considerados +em face da lei dignos do respeito e da estima +dos seus concidadãos.</p> + +<p>Desde o momento em que um paiz entra no caminho +do progresso social e na conquista de um ideal de +perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma veneração +tão carinhosa como delicada. Realmente, offender +um velho é apedrejar uma arvore carregada de fructos. +As republicas, como todas as sociedades, precisam alimentar-se +da experiencia dos velhos e do ardor dos +mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, +e a do sol que se levanta, deslisa toda a existencia da<span class="pn">{40}</span> +familia e da nação. Estas duas correntes, em vez de se +contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes identificam-se de +tal modo na harmonia de um grande progresso intellectual, +que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram +n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. +Ditosos os paizes onde este facto se dá! Em França, +por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, absorvera +em si a alma da mocidade, que transparecia +nos seus livros cheia do perfume da primavera, e do +colorido <em>chatoyant</em> de tudo quanto é novo e vigoroso; +Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na +voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, +que seduz as imaginações juvenis, arrastando-as +para o mundo das auroras, para as conquistas da luz. +Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não +será possivel marcar limites aos progressos de um +paiz, mas será facil aventar que elle tomará a deanteira +a todos os outros para guial-os na marcha das suas aspirações +sociaes.</p> + +<p>Em Portugal—digamos cruamente a verdade—a +mocidade habituou-se a caminhar atirando por cima +dos hombros, como Deucalião, pedras contra o passado. +A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor +magestoso de um occaso. Os velhos foram uns +nescios, dizem os novos. Garrett, Herculano, Castilho, +José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo sem ter +provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas +vezes, a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, +arremetteu contra elles, procurando abalar ás mãos +ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico descia +a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que +recordar estes factos, tanto mais que parece ter havido +n'essa enorme irreverencia o só proposito de derrubar +por derrubar. Pois o que nos tem dado em troca a +geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor +e dissolvente domina a sociedade em que vivemos. +Tentativas de reconstrucção sérias e proveitosas, poucas.<span class="pn">{41}</span> +Por cada mil alavancas que revolvem os alicerces +do passado, uma só procura alinhar o blocus faceado +na esquadria do novo edificio.</p> + +<p>Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei +jámais cumplice da irreverencia dos meus contemporaneos. +Tirarei respeitosamente o meu chapeu para +saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. +E quando ella assignala a sua passagem com um +rastro de luz, eu não tenho duvida em confessar publicamente, +agora e sempre, que dirijo a minha rota +pelo esteiro do seu leme.</p> + +<p>Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; +escrevendo de José Gomes Monteiro, colloco-me +justamente dentro das circumstancias especiaes em que +me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre, +amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo +de mais de dez annos, talvez.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 +de março de 1807.</p> + +<p>Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra +nas faculdades de leis e canones, mas, chegando +ao quarto anno do curso, saiu de Portugal para Inglaterra, +talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito, +que se sentia asphixiado na atmosphera classica +da Universidade, onde tudo se prendia ainda ao passado +pelos élos oxidados da tradição scientifica, e onde +começava a fermentar a discordia politica, que veio a +motivar a emigração de 1828.</p> + +<p>Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer +residencia em Hamburgo, onde fez parte da +firma commercial Santos & Monteiro, cujos revezes absorveram +ao cabo de algum tempo todas as esperanças<span class="pn">{42}</span> +de vida prospera. Este desastre amargurára o coração +do homem; mas o litterato tirára enorme proveito da +residencia em paizes onde a cultura litteraria captivava +os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves complicações +da vida positiva os enleavam. No estrangeiro +travára relações de estreita amizade com Almeida Garrett +e com todos os emigrados que, depois da victoria +do partido avançado, foram os primeiros homens de +Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto conhecimento +dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava +com notavel facilidade, penetrando com o seu +espirito profundamente analitico na estructura intima +do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma imprevista +luz para a verdadeira interpretação dos textos; no estrangeiro, +onde o suave doer da nostalgia divinisa as +memorias da patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo +dos classicos portuguezes e foi então que, encontrando +na livraria da Universidade de Gottingen um +exemplar da primeira edição dos <em>Autos</em> de Gil Vicente, +pôde preparar, auxiliado por José Victorino Barreto +Feio, a edição critica das obras do fundador do theatro +portuguez.</p> + +<p>Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido +valor, não obstante quaesquer ligeiros senões que possam +apontar-se-lhe, e haver sido realisado em edade +incompativel com a madureza de espirito que requerem +os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. +Theophilo Braga, escrevendo de José Gomes Monteiro +no 5.º volume da <em>Revista Comtemporanea</em>,<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup> dizia a este +respeito: «O trabalho d'este livro pertence-lhe todo; a +profundidade da sua critica avalia-se pela introducção +com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante +creança e é talvez por esta circumstancia, que o +auctor hoje não lhe quer dar o alcance, que esse estudo +na realidade tem.» Como quer que fosse, era incontestavel<span class="pn">{43}</span> +o valor das investigações biographicas a respeito +de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, +<em>o que tudo com menos fundamento ha sido por +alguns attribuido a Barreto Feio</em>, escreveu Innocencio +Francisco da Silva.<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup> Os irmãos Castilhos reproduziram +na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da +edição de Hamburgo por <em>convencidos de que a respeito +da vida e obras do nosso poeta não poderiamos dizer +mais nem melhor</em>. Gomes Monteiro acceitava a responsabilidade +d'aquelle trabalho, e era o primeiro a reconhecer-lhe +as imperfeições, postoque ligeiras, algumas +das quaes estavam corrigidas á penna no exemplar da +sua livraria. Mas lancem-se essas pequenas incorrecções +á conta da mocidade do auctor, como o sr. Theophilo +Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, +com que José Gomes Monteiro luctava fóra de +Portugal.</p> + +<p>Se considerarmos, porém, a edição critica das obras +de Gil Vicente, <span class="errata" title="no original: e a das de Camões">e das obras de Camões</span>, na sua influencia +sobre a renascença litteraria de Portugal, qualquer d'esses +trabalhos tem um grandissimo valor, porque em +verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre +o proprio espirito de Gomes Monteiro, mas tambem +sobre a collectividade illustrada do nosso paiz. E, +a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez +o sr. Theophilo Braga, no seu artigo da <em>Revista Contemporanea</em>: +«Desde que proferiu este <em>surge et ambula</em>, +a Allemanha, a Inglaterra, a França, estudaram para +de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes +Monteiro dando-lhe parte de um drama <em>Um auto +de Gil Vicente</em>, com o qual havia, por uma notavel coincidencia, +dar vida ao theatro portuguez, apresentando-lhe +o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que +não sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, +nem a quem pertencia a paternidade. A renascença<span class="pn">{44}</span> +em Portugal deve-se a tres homens: Garrett, Alexandre +Herculano e José Gomes Monteiro.»</p> + +<p>Pela observação profunda dos textos durante a elaboração +das edições criticas de Gil Vicente e Camões, +pelas simultaneas investigações biographicas que era +obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno dos +processos analiticos, que estavam aliás nas condições +phisiologicas do seu temperamento e no caracter germanico +que pela sua longa residencia em Hamburgo +assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de reunir +subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria +de Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, +realisaria, pela consubstanciação com o trabalho de +Herculano, depois de concluido, a historia completa da +nossa nacionalidade.</p> + +<p>Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade—o +Porto—Gomes Monteiro dedicou a maior parte +do tempo á investigação e preparação dos materiaes +necessarios para a historia litteraria. A morosidade +com que na Allemanha se educára a trabalhar pela +applicação do criterio historico, a natural indolencia do +seu temperamento, e largas interrupções devidas a +melindres de saude fizeram, porém, que a obra proseguisse +lentamente, e os seus manuscriptos ficassem +por sua morte desatados apenas em memorias preciosas, +sem a unidade logica e chronologica de um corpo +de historia.</p> + +<p>Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha +pequenas amostras publicadas, e a origem da publicação +deve procurar-se sempre nas instancias de amigos +e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi +assim que em 1849 appareceu em opusculo a <em>Carta +ao ill.<sup>mo</sup> sr. Thomaz Norton sobre a situação da ilha de +Venus, e em defeza de Camões contra uma arguição, +que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. Alexandre +de Humbold</em>.</p> + +<p>N'este trabalho, em que os elementos da these são<span class="pn">{45}</span> +procurados com notavel paciencia e lucidissima intuição, +José Gomes Monteiro sustentou que a ilha dos +Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, +nem a de Anchediva, como escrevera Faria e +Sousa, nem <em>fingimento que o poeta fez</em>, como dissera +Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de Moçambique. +José Gomes Monteiro baseou em grande +parte a sua argumentação na concordancia das descripções +do episodio com as particularidades do clima, +<span class="errata" title="no original: da fama">da fauna</span>, da flora, da situação geographica da ilha de +Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup> +mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um +espirito sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, +foi respeitosamente recebido por todo o paiz.</p> + +<p>A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na +firme resolução de trabalhar na realisação da historia +litteraria de Portugal. Com effeito, como a carta a Thomaz +Norton revelava, elle poderia ter sido para a litteratura +portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, +<span class="errata" title="no original: Henri">Hipp.</span> Taine para a ingleza, Emilio Burnouf para +a grega, etc. Mas, depois, o gravame dos annos foi +crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos litterarios +fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, +como já dissemos, que a amizade o reptasse com +dedicado empenho, para que emittisse a sua opinião +sobre importantes assumptos de historia litteraria. De +uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação +do artigo que a <em>Revista Peninsular</em><sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> inseriu ácerca da +antiga trova do <em>Figueiral Figueiredo</em>, que José Gomes +Monteiro suppunha filiada na lenda gallega de <em>Val-Doncel</em>.<span class="pn">{46}</span></p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes +Monteiro em nota á pag. 17:</p> + +<p>«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um +dos mais famosos monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, +e que tão distincto logar deverá ter na historia +litteraria do nosso paiz,—o <em>Amadis de Gaula</em>—é +de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos +elementos historicos de que se compõe. Impenetravel +até hoje á investigação de grandes criticos, tem +sido considerado como uma <em>singular excepção</em> ao systema +de <em>decomposição historica</em>. Eu mostrarei comtudo, +em um trabalho que tenciono publicar brevemente, que +o seu maravilhoso, os seus personagens, os seus episodios, +tudo ali é urdido no grande tear da historia—da +historia do seculo <small>XII</small>, o mais rico em aventuras e +feitos d'armas da cavallaria real, de quantos contém os +annaes da edade-media. Ali, dissolvendo as tabulas do +<em>Amadis</em> em factos historicos, darei a mais completa +theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos +trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de +<em>Endriago</em>, a mais bella concepção de todos os romances +de cavallaria, ficará sendo um exemplo inapreciavel +de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades +primitivas da litteratura.»</p> + +<p>Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, +que deixou inedito, pela applicação do mesmo +processo que tinha seguido a respeito da ilha de Venus—o +confronto do romance com a historia. Só por +um pacientissimo labor poderia encontrar no grande +oceano da historia universal justamente a época cujos +factos capitaes correspondessem aos episodios do +romance. Procurou e achou. <em>Dissolvendo as fabulas do +«<small>AMADIS</small>» em factos historicos</em>, como elle proprio escreveu, +pôde localisar a acção do romance no tempo de<span class="pn">{47}</span> +Ricardo <em>Coração de Leão</em>, enxergando no disfarce da +allusão, motivado pelas exigencias da época, uma perfeita +concordancia historica, e logrou chegar á conclusão +de que Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa +famosa novella do ciclo cavalheiresco.</p> + +<p>Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era +uma edição critica da <em>Menina e moça</em> de Bernardim Ribeiro, +da qual seriam expungidas as intercalações apocriphas +que andam no livro. Calcule-se o dispendio de +paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria +ao douto bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, +um estudo biographico sobre Bernardim Ribeiro +e um glossario dos vocabulos antigos completariam a +edição critica da <em>Menina e moça</em>.</p> + +<p>A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro +laboriosamente investigada, alcançando extrair das +proprias composições do poeta illações luminosas e não +esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que +por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance +<em>Um conflicto na côrte</em>, baseando-me nos documentos que +espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam +a intervenção do poeta na dramatica paixão do +marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. +Foi nas eclogas <em>Aleixo</em> e <em>Andrés</em> que José Gomes Monteiro +encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou +ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas +allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera +á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que +já fiz no segundo volume do romance. A minha divida +para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, +que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.</p> + +<p>Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, +enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de +um extenso artigo a respeito da <em>Arte de monteria</em>, de +D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre +varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos<span class="pn">{48}</span> +os que podiam servir á elaboração de uma interessante +monographia da cidade do Porto.</p> + +<p>Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, +temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, +para completarmos a pequena lista das suas obras +impressas.</p> + +<p>Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha +de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro +em volume a traducção de algumas baladas dos poetas +mais populares da Allemanha, sob o titulo de <em>Eccos da +lyra teutonica</em>.</p> + +<p>Este livro está completamente fóra do grande programma +dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos +habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, +enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente +conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente +um poeta, mostrava que os processos de +metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos +relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia +da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo +assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de +investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso +paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo +a exactidão dos textos, como quem perfeitamente +conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia +obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada +por todos quantos saibam allemão, porque em muitas +das poesias a traducção vem a par do original.</p> + +<p>Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice +de Castilho—desaffrontando-a de accusações que +lhe foram feitas—com a publicação do livro <em>Os criticos +do Fausto do sr. visconde de Castilho</em>. Estava já a esse +tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma +resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para +escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que +Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a +dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,<span class="pn">{49}</span> +sempre que na redacção do <em>Primeiro de Janeiro</em> +recebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido +n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa +do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade +ao azedume com que os criticos de Castilho +cairam sobre a traducção do <em>Fausto</em>, lavrava um protesto +energico em nome da velhice desconsiderada, e +desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as +maguas intimas que as ingratidões de que a vida das +lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse +livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação +da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe +de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, +e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a +velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram +Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice +empraza a mocidade irreflectida a comparecer no +tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante +do que o d'um mancebo insultando um ancião +benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio +moral de que todo o homem honesto affasta a +vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a +tão pequena distancia da sepultura. Alexandre +Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do +fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação +a José Gomes Monteiro a proposito da publicação +dos <em>Criticos do Fausto</em>. Essa carta, era breve, +mas profundamente energica. <em>Nunca as mãos lhe doiam</em>, +dizia o auctor da <em>Historia de Portugal</em> áquelle que muitas +pessoas denominavam o <em>Alexandre Herculano do +Porto</em>.</p> + +<p>Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma +ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, +nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, +parecia esperar serenamente a noite misteriosa +da morte...</p> + +<p>Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,<span class="pn">{50}</span> +das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio +Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos +sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos <em>Lusiadas</em>, +que foi publicada n'aquella cidade por occasião do +terceiro centenario da morte do grande epico. A este +nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve +ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua +preciosa <em>camoneana</em>, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José +Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor +honrando a memoria do maior poeta que tem +tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio +de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a +noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta +para receber o douto bibliophilo.</p> + +<p>A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia +na traquillidade dos mortos.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, +a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia +ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. +Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções +litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era +socio correspondente da Academia Real das Sciencias de +Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O +seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, +e todavia, outros muitos que ajudára a crear com +o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção +passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, +sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe +a habitual serenidade de animo.</p> + +<p>Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio +da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades +de mortos, onde os livros falam como os tumulos. +A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso<span class="pn">{51}</span> +productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando +dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; +mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem +atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no +ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, +são sempre uma companhia, uma guarda, uma +força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. +Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, +mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu +que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? +Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre +elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia +escutar, na concentração placida dos cegos, o que +Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio +eterno dos livros.</p> + +<p>A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole +immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, +os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava +os seus volumes em linha de batalha. A um +lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro +lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras +coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa +combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos +dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores +a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava +as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu +Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de +luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus +codigos religiosos e austeros.</p> + +<p>—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes +Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos +lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.</p> + +<p>Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito +dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se +n'isto com as flores, que pertencem principalmente a +quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe +de ser aspirado pelos estranhos.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Pag. 236.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> <em>Diccionario bibliographico portuguez</em>, vol. 4.º, pag. 363.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> O sr. conde de Ficalho contradictou na <em>Flora dos Lusiadas</em>, +em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes +Monteiro, mas honra-o dizendo que a sua <em>carta</em> contém, na parte +exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> Vol. 2.º, pag. 401.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{52}</span></p> + + +<h2>V</h2> + +<h3>No parlamento</h3> + +<p>Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, +eleito por um circulo do districto de Vizeu.</p> + +<p>A minha eleição não pesou na balança dos destinos +politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os +fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação, +a minha eleição apresentára tres aspectos completamente +novos:</p> + +<p>1.º—O circulo conhecia-me.</p> + +<p>2.º—Eu conhecia o circulo.</p> + +<p>3.º—Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, +derramar-se o sangue de ninguem—nem mesmo de +um carneiro.</p> + +<p>A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente +possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que +me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno, +deixou de me eleger dois annos depois com +igual facilidade.</p> + +<p>A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.</p> + +<p>O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico<span class="pn">{53}</span> +dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato +progressista. E os fundos, por este facto, tambem +não subiram nem desceram. A substituição de deputado +por deputado operou-se, com grande proveito do partido +regenerador, sem agitar a politica da Europa.</p> + +<p>N'um livro de memorias, que abrange vinte annos +da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em +que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não +valeria chronica.</p> + +<p>Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal +era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem +deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, +que indirectamente me tinham levado lá.</p> + +<p>Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de +minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas +bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso +para me fazer visconde. O projecto passou, graças á +minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso +avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados +n'um jornal, que não perdi o meu tempo.</p> + +<p>No mez de outubro proximo findo, concorreram á +bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:</p> + +<p><em>Leitura diurna</em>: leitores, 1:092; volumes impressos, +2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, +6.</p> + +<p><em>Leitura nocturna</em>: leitores, 1:494; volumes <span class="typo" title="no original: impresgos">impressos</span>, +2:482; manuscriptos, 31.</p> + +<p>O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao +dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente +inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam +de ler.</p> + +<p>Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, +campeões experimentados e insignes. A minha +humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. +Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas +quando careci de justificar o meu voto.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>Da pequena bagagem que deixei depositada no <em>Diario +dos sessões</em> escolherei um unico discurso, não só para +comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto +era de geito a tentar as predilecções de um +homem que, até dentro da politica, estima os assumptos +historicos.</p> + +<p>Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento +do marquez de Pombal.</p> + +<p>Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:</p> + +<p>«<em>O sr. Alberto Pimentel</em>:—Cumprindo as disposições +do regimento, começo por ler a minha proposta.</p> + +<p>(<em>Leu</em>).</p> + +<p>A camara tem ouvido benevolamente considerações, +se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto +contradictorias, e espero que ella me dispensará igual +benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, +sobre este assumpto, as minhas opiniões.</p> + +<p>Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um +grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de +Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella +falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda +muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica, +para qualquer demonstração de applauso nacional em +honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.</p> + +<p>A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda +que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas +que partem do coração ardente da gente moça, ainda +que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos +em que palpita exuberantemente a seiva da +idade juvenil, não devo esquecer que os academicos +são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre +flores e não fructos.</p> + +<p>Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno +tão extraordioario na natureza como na sociedade. +Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos +apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.<span class="pn">{55}</span> +A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos +tel-a.</p> + +<p>Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam +depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se +desapparecem rapidamente na sua balada phantastica, +caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, +vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, +como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho +da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e +uma glorificação.</p> + +<p>E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades +politicas do marquez de Pombal não estão +ainda perfeitamente liquidadas.</p> + +<p>Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, +sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro +Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.</p> + +<p>Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro +Chagas a respeito de um dos actos mais importantes +da vida do marquez de Pombal.</p> + +<p>Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos +conspiradores contra D. José I.</p> + +<p>A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, +ambas contemporaneas, para provar a minha +asserção de que as responsabilidades politicas do +marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas +ainda.</p> + +<p>Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:</p> + +<p>«<em>Nos dominios severos da historia ainda não passou +em julgado</em> nem a sentença que condemnou a perpetua +infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu +lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa +e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a +sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos +recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, +uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes +longo e triste captiveiro, attenuado unicamente<span class="pn">{56}</span> +pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe +as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e +desvelos a educação maternal.»</p> + +<p>Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, +cuja perda todos lastimamos, e eu mais que +ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro +Chagas, que sinto não ver presente, e que tão +enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica +de nacional.</p> + +<p>«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, +pelo menos, que não deviam ser condemnados, <em>pois que +havia falta absoluta de provas</em>, alguns dos desgraçados +de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas <em>não sabemos</em> +se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. +<em>Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa +historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, +trouxe a lume todos os documentos que podessem +lançar luz n'este drama tenebroso.</em>»</p> + +<p>Depois da citação d'estes periodos, arrancados á <em>Historia +de Portugal</em>, do sr. Pinheiro Chagas, e que por +isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença +para referir um facto, que é um traço anecdotico +da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.</p> + +<p>Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa +de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e +franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de +dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as +condições de bem-estar.</p> + +<p>Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado +com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia +ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma +bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu +amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios +que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a +retirar-se.</p> + +<p>—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel +necessidade de dizer mal d'elles, e de si.</p> + +<p>A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello +póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles +que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos +são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou +citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre +amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seus <em>Portuguezes illustres</em>. +Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:</p> + +<p>«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira +de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista +Pelle, <em>clamam alto contra o marquez de Pombal</em>.»</p> + +<p>Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella +explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando +n'este momento com relação ao marquez de +Pombal.</p> + +<p>Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade +academica, o governo viu por ventura, e principalmente, +no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e +propoz uma estatua em sua honra.</p> + +<p>É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas +devem ser para os legisladores, por isso que são +frias, austeras como elles.</p> + +<p>Para os grandes artistas, para os grandes pintores, +para os grandes poetas, para os grandes oradores e +para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser +as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações +publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os +arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, +n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das +praças, como ha pouco teve Camões.</p> + +<p>José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais +vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que +remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que +na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em +frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>Camões é muito maior nos <em>Lusiadas</em> do que na estatua +do Loreto.</p> + +<p>Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente +pombalina que partia da iniciativa particular, academica +ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez +de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.</p> + +<p>O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas +de concorrer apenas com uma simples esmola para +a celebração do centenario. O governo, sr. presidente, +não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, +e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte +pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro, +visto que a palavra, por infelicidade minha, me +chegou tão tarde.</p> + +<p>Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia +bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua, +porque d'esse metal existiam umas antigas peças +de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas +em peças raiadas.</p> + +<p>Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado +nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco +que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000 +réis, justamente n'uma época em que se está pedindo +ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos +alimenticios de primeira necessidade.</p> + +<p>Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação +da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de +100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de +Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi +as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar +de attender, visto que somos chegados á parte menos +attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a +fazer.</p> + +<p>Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me +comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer +levantar estatuas, as pague.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p>Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? +Isto a proposito de estatuas, de monumentos.</p> + +<p>Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, +n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D. +Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D. +Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, +mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.</p> + +<p>Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que +tinha igualmente uma grande veneração por aquelle +monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento, +sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que +a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.</p> + +<p>E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um +monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa +particular.</p> + +<p>Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro +a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos, +que já se vae tornando demasiadamente extensa.</p> + +<p>Quer v. ex.ª saber o que acontece?</p> + +<p>Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será +facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista. +Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...</p> + +<p><em>Vozes</em>:—Ouçam, ouçam.</p> + +<p><em>O Orador</em>:—Em 1885 teremos o setimo centenario +de Affonso Henriques.</p> + +<p>Este vale bem uma festa nacional, creio eu.</p> + +<p>Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da +Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição +em Portugal.</p> + +<p>Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, +e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador +litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal, +que o encarregou de negociações em Roma para +a abolição da companhia de Jesus.</p> + +<p>Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello +e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem +aliás não era affeiçoado.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio +Vieira.</p> + +<p>Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso +de Albuquerque.</p> + +<p>Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da +Gama.</p> + +<p>Em 1928 teremos o centenario de Brotero.</p> + +<p>Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares +Pereira.</p> + +<p>Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.</p> + +<p>Em 1954 teremos o centenario de Garrett.</p> + +<p>Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. +Henrique.</p> + +<p>Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, +o celebre inventor do <em>Nonio</em>.</p> + +<p>Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. +Fernando. (<em>Vozes</em>:—Muito bem).</p> + +<p>E assim por diante.</p> + +<p>Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, +e mesmo porque da continuação d'esta lista espero +que algum dia se encarregarão os meus netos ou +os seus filhos...</p> + +<p>Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do +24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas +pela memoria da administração do marquez de Pombal, +tambem o 24 de julho é uma festa que entristece +profundamente muitas familias portuguezas.</p> + +<p>Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. +Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa +do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem +notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu +já a sancção official, porque está traduzida n'uma +fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve +uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.</p> + +<p>Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá +ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de +que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que<span class="pn">{61}</span> +alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto +do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, +por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações +de desagrado.</p> + +<p>Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo +entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se +indifferente, mas faça-se a festa com ordem e +com moderação.</p> + +<p>Estes creio eu que são os votos de toda a camara.</p> + +<p>Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. +Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, +a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador +dos estudos, protector das industrias e restaurador +de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas +um acto de deferencia do governo para com as letras, +as industrias e a capital.</p> + +<p>O marquez de Pombal vive ainda na universidade +de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e +em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes +da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que +a justiça se vá fazendo lentamente.</p> + +<p>Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, +D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio +em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não +quiz resar um <em>requiem</em>; hoje é a academia que lhe quer +fazer um triumpho, embora contestado ainda...</p> + +<p>Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o +mais.</p> + +<p>Disse.»</p> + +<p>A minha passagem por S. Bento não vale chronica +de maior folego.</p> + +<p>Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o +capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens. +Mas dos homens com quem lá convivi e tratei +mais intimamente conservo gratas recordações, e essas +quero-as deixar archivadas n'este livro.</p> + +<p>P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito<span class="pn">{62}</span> +por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta +vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas +que differença! Os homens são quasi todos os mesmos +de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes +politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos +que expludiam como bombas de dinamite, e na +tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, +pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos +de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro +para dizer que houve vias de facto, e pateada. +Que differença! que differença!</p> + +<p>Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo +é... o parlamento.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{63}</span></p> + +<h2>VI</h2> + +<h3>Antonio Rodrigues Sampaio</h3> + +<p>O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta +phrase que todos têem repetido: «É um homem que +faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam +servir para tudo, é uma glorificação.</p> + +<p>São <span class="errata" title="no original: a rodos">a rodo</span> os jornalistas e os politicos; em nenhum +tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de +fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o +formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar +para o poder carregados, como as formigas, +com o peculio do seu trabalho ou das suas honras +vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta +conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais +egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar +que Antonio Rodrigues Sampaio <em>faz falta</em>.</p> + +<p>E assim é.</p> + +<p>Faz falta, porque era um homem superior, tinha o +seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem +pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não<span class="pn">{64}</span> +acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e +quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda +a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia +ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que +não tivesse chegado mais cedo.</p> + +<p>Tendo um passado politico, foi ministro depois de o +ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder +pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira +vez que foi ministro (1870) não passou do patamar +da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, +em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava +a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a +quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de +ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por +guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, +poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na +cabeça e sair.</p> + +<p>Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se +no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia +luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os +nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos +com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais +gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua +coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. +O ministerio empregava todos os meios ao seu +alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. +Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial +no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, +durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, +apparecia em toda a parte, até dentro das +pastas dos ministros!</p> + +<p>Os revolucionarios de hoje seguem um caminho +muito mais commodo: mediante uma estampilha de +dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.</p> + +<p>Depois da perseguição, da caça ao jornalista por +parte do governo, vieram as tentativas de suborno. +Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a<span class="pn">{65}</span> +provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. +Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, +quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio +chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio +Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. +D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça +de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos +Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:</p> + +<p><em>Faz falta.</em></p> + +<p>Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando +de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições +irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o +com a serena philosophia do seu bom humor habitual, +por que o bom humor era n'elle uma philosophia.</p> + +<p>O marquez de Caraccioli chamava a isto <em>gaieté philosophique</em>, +alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, +diz elle, que contente com a sua sorte e com o +seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma +maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle +os pesares como tentações, e só procura os objectos +consoladores. É por um tal sistema de felicidade +que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, +e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica +a esse contentamento da alma, que se não altera +nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os <em>espinhos +do poder</em>! repetia muitas vezes Sampaio, <em>isso é +apenas uma metaphora</em>. E tinha razão, porque elle exercia +o cargo de ministro de estado com a mesma alegria +philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que +exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, +apreciava sobremodo o poder andar de trem. +Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos +da lenda, por se ver obrigado a passar do trem +para o <em>americano</em>. Dizia-o muitas vezes, rindo.</p> + +<p>Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam +rindo tambem. <em>J'ai ri, me voilà désarmé.</em> Rindo, +sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem<span class="pn">{66}</span> +ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens +haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava +a comprehender como esse velho placido e alegre, +cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de +um momento para o outro no ardente articulista da +<em>Revolução de Setembro</em>, semeando ás vezes resentimentos +pessoaes que poderia ter evitado.</p> + +<p>De uma vez certo titular <em>vieille roche</em> foi pedir-lhe +um favor politico.</p> + +<p>—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por +aqui a pedir favores de chapeu na mão.</p> + +<p>—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.</p> + +<p>Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia +procurou Sampaio para se oppôr ao despacho +de um governador civil.</p> + +<p>Sampaio respondeu-lhe:</p> + +<p>—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; +consinta ao menos que o ministro do reino governe +n'um.</p> + +<p>Eu, que acabava de passar tormentosamente pela +vida administrativa, combati algumas disposições do +codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado <em>Viagens +á roda do codigo admistrativo</em>.</p> + +<p>Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus +apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, +Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca +buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:</p> + +<p>—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, +mas eu não me zangarei com elle por causa do +circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como +d'antes.</p> + +<p>A minha eleição foi causa indirecta da transferencia +de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, +Sampaio mandou-me chamar pelo seu <em>correio</em>.</p> + +<p>Fui immediatamente saber o que elle queria.<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente +Sampaio.</p> + +<p>—Por que? perguntei eu muito intrigado.</p> + +<p>—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, +que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado +meu.</p> + +<p>—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.</p> + +<p>—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que +trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o +ministro F. e combine com elle o remedio.</p> + +<p>Assim fiz; assim se fez.</p> + +<p>Deve notar-se que Sampaio era então presidente do +conselho de ministros.</p> + +<p>Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, +e a todas as injurias.</p> + +<p>Pouco antes de morrer andava em discussão accesa +com Eduardo Tavares, que redigia então as <em>Instituições</em>.</p> + +<p>Certo dia as <em>Instituições</em> chamaram a Sampaio <em>pedaço +d'asno</em>, com todas as lettras.</p> + +<p>No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio +tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. +Eu apostei que responderia. No dia seguinte +corri a ler a <em>Revolução de Setembro</em>. O artigo de Sampaio +principiava assim: «O homem das <em>Instituições</em> chamava-nos +hontem <em>pedaço do seu todo</em>.»</p> + +<p>Soberbo!</p> + +<p>Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se +forte na velhice. <em>L'homme gai ne vieillit point, et paroit +toujours se bien porter</em>, observa o marquez de Caraccioli. +Os artigos da <em>Revolução</em> punham bem em evidencia esta +verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. +E os seus profundos conhecimentos de latinidade +traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte +das vezes, citações que elle aproveitava habilmente +para acerar a mordacidade com que sabia rir da má +situação em que deixava os adversarios politicos, ou +em que elles proprios se collocavam.<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito +medico, <em>malgré lui</em>. Mas nas suas mãos a dictadura foi +uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar +os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo +armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se +em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador +Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia +como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou +para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo +deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem +receia a dictadura de um homem bom.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: +«É preciso defender a monarchia.»</p> + +<p>Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, +deve ser recebida como um evangelho.</p> + +<p>Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o +cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre +deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como +o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa +vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, +tanto mais apertadas quanto mais o espirito +lucta para desembaraçar-se e partir.</p> + +<p>Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario +da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada +do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava <em>à outrance</em> +o ministerio de 1846, porque entendia que esse +ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava +a idéa de liberdade que na Europa progressiva +servira de base á reconstrucção monarchica.</p> + +<p>Se depois do estabelecimento do regimen constitutional +a monarchia se desprestigiasse prematuramente, +seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida +antes de amadurecer. Como adversario valoroso<span class="pn">{69}</span> +do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas +raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas +em derredor do throno constitucional.</p> + +<p>Depois da organisação regular dos partidos politicos, +Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes +atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque +perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria +as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na +anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, +ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia +que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação +e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, +e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.</p> + +<p>Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, +em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi +sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os +monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de +conservar. Elle nunca o ultrapassou.</p> + +<p>Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo +do conflicto pela inversão violenta dos principios +estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos +sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela +irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do +estado concede a todos e a cada um.</p> + +<p>Sampaio viveu muito; viu muito.</p> + +<p>Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora +morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da +febre: «É preciso defender a monarchia.»</p> + +<p>E é.</p> + +<p>Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente +demarcados: monarchicos a um lado, inimigos +da monarchia a outro lado.</p> + +<p>Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são +de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. +Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos +costumes politicos, procuremos fazer uma administração<span class="pn">{70}</span> +rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á +porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos +as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos +os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem +a sua cooperação, e veremos depois quem +triumpha.</p> + +<p>Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: +<em>é preciso defender a monarchia</em>.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{71}</span></p> + +<h2>VII</h2> + +<h3>A livraria de Sampaio</h3> + +<p>Não ha nada que me entristeça tanto como assistir +ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre +esses espectaculos que me são dolorosos, e que se +repetem em Lisboa quasi todos os dias.</p> + +<p>São ordinariamente duas as causas que determinam +este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer +d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam +os livros, não para os revender com lucro, mas +para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem +a um leilão de livros com a indifferença profissional +com que um medico assiste a uma operação cirurgica, +e um enfermeiro á agonia de um moribundo. +Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando +na giria do negocio o que se vae passando +em torno d'elles, mas acompanhando sempre, +com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e +os movimentos do leiloeiro. E para um lado: <em>Comprou +bem</em>; para outro lado: <em>Comprou mal</em>; ou, para um espectador<span class="pn">{72}</span> +que lhe diz:—<em>Quem comprou bem foi o senhor</em>,—como +se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: +<em>Acredite que não ganho senão a encadernação.</em></p> + +<p>Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi +por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo +fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco +vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas +pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a +possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia +muitos annos; fez porventura um grande, um enorme +sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, +adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava +o seu thesouro com orgulho: <em>Veja lá isto! Que +me diz a isto?</em>—uma edição muito bem conservada, +uma verdadeira preciosidade!</p> + +<p>Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este +mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram +de uma vez um manuscripto de Mallebranche. +Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser +n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, +o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. +Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto +foi apenas emprestado, disse o intermediario; +o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu +Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha +paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos +d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, +e vão ficando com os livros dos outros.</p> + +<p><em>Livre preté, livre perdu</em>, diz um proverbio francez. +Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por +isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar +Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de +Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É +como se me pedisse emprestada minha mulher!»</p> + +<p>Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, +dia a dia, e a que o proprio constructor não +chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja<span class="pn">{73}</span> +uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, +que se deixa sempre incompleta no momento em que +a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se +é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, +não consegue, á força de canceiras e dispendios, +reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. +Ha sempre um thesouro encanado que elle não +póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é +tão precipitado, tão febril o movimento litterario de +nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda +quando elle se não perdesse de vista um momento.</p> + +<p>Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora +a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo +sempre vivo, com uma fé sempre nova, e +muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado +pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e +que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a +sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os +seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão +amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias +dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que +fazem todos os funeraes das livrarias com +a mesma indifferenca com que os outros arrancam os +cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar +na voragem do cemiterio.</p> + +<p>«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das +grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»</p> + +<p>Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; +não consentem que ninguem lhes toque, muitos não +querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou +para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e +dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: +portanto, faço-a guardar por um eunuco.»</p> + +<p>Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus +livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, +a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria +vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que<span class="pn">{74}</span> +se espalham de graça, com uma publicidade profana, e +esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico +de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, +que caem famintamente sobre elles, que os +devoram com o olhar, que os disputam na praça, como +se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece +ao publico, e se vende a quem mais der.</p> + +<p>Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que +alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas +ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote +d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, +como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. +Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade +o santuario, desacata-o, profana-o, commette um +sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se +Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma +crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que +não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho +da sua phantasia.</p> + +<p>Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do +seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!</p> + +<p>Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio +Rodrigues de Sampaio.</p> + +<p>Este homem que a posteridade não poderá esquecer, +comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu +paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias +vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do +conselho de ministros.</p> + +<p>Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente +fechada, batêra muita gente, timidamente, +respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. +Todo o pretendente era introduzido por um criado na +saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, +com o seu grande ar de bonomia, o velho +Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de +baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, +e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.<span class="pn">{75}</span></p> + +<p>Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena +porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali +sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus +intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o +guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se +guloso por bolos finos.</p> + +<p>Pois desde que o leilão começára, a porta da rua +estava aberta de par em par, escancarada, franca para +todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando +uns com os outros, rindo, não encontrando criado +algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar +nenhum o correio do ministro do reino, que por +tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, +nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos +habitaram n'aquella casa.</p> + +<p>A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, +arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o +candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, +entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos +que esperavam o principio do leilão. Á porta +do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a +que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a +ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, +emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros +que primeiro haviam de ser postos em praça.</p> + +<p>N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que +estava, para assim dizer, impregnado da individualidade +de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel +devastação; parecia que o vento ardente do deserto +passára por ali resequindo o coração de quantos +haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte +que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos +dos quaes estavam amontoados no chão...</p> + +<p>Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia +o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que +passasse por diante de si um livro bom; por isso, +quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam<span class="pn">{76}</span> +sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em +pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao +menos.</p> + +<p>Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos +seus livros.</p> + +<p>No leilão, vendeu-se um exemplar dos <em>Sophismas +parlamentares</em>, de Bentham, edição de 1840, prefaciada +por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio +de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no +ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha +traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente +que Sampaio estava lendo com interesse e que, +desejando marcar um pensamento original, não queria +retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do +que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido +signal indicativo para facilitar a busca.</p> + +<p>Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por +Sampaio.</p> + +<p>No prefacio de Regnault estão marginados todos os que +se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: +«Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a +sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» +«Antigamente, as communas tinham um simples +direito de petição para obter a reparação dos +aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»</p> + +<p>No texto, estão sublinhados, além de outros, estes +pensamentos de Bentham:</p> + +<p>«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na +mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, +mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, +posto se chame velha á geração que precede outra, +não se póde sustentar que tenha mais experiencia +do que a que lhe succede.</p> + +<p>«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as +gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro +como o de chamar velho a uma creança de berço.</p> + +<p>«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados<span class="pn">{77}</span> +velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? +Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»</p> + +<p>«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra +a ninguem. Não se encontra no caminho com os +ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, +dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça +e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito +pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o +seu odio pelos vivos.»</p> + +<p>«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram +de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua +benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»</p> + +<p>Ainda mais alguns aphorismos:</p> + +<p>«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; +um procedimento insensato produz crueis desastres; +d'esses desastres vem o mais util ensinamento.</p> + +<p>«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não +ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso +que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»</p> + +<p>«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania +é absurda; toda a lei que a si mesma se declara +irrevogavel, é perigosa.»</p> + +<p>«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não +póde durar mais do que essas circumstancias.»</p> + +<p>«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. +Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae +resistindo, e Blackstone vos adorará.»</p> + +<p>De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, +um dos mais annotados era com certeza a <em>Histoire des +origines du gouvernement representatif en Europe</em>, de +Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, +sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, +que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são +tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que +chegam a tracejar toda a pagina.</p> + +<p>Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, +é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira +por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de +dar e de fazer executar a lei na sociedade.</p> + +<p>«Ha duas grandes theorias de soberania.</p> + +<p>«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem +sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, +ou principaes do povo. Outra sustenta que a +soberania de direito não póde existir na terra, e não +póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força +terrestre que conheça e queira inalteravelmente a +verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania +de direito, que devem regular a soberania de facto.</p> + +<p>«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, +seja qual fôr a fórma de governo. A segunda +combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não +reconhece em caso algum a sua legitimidade.</p> + +<p>«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente +nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se +n'uma certa medida, porque não ha nada que +seja completamente destituido de verdade nem inteiramente +isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra +que predomina em cada fórma de governo, e que póde +ser considerada como seu principio.</p> + +<p>«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade +radical de todo o poder absoluto, quaesquer +que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo +representativo.»</p> + +<p>O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas +por Sampaio é altamente curioso como elemento +critico para a caracterisação historica do annotador.</p> + +<p>Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos +apenas lançar no papel as impressões que nos +deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam +expostas com a sinceridade que sempre tivemos para +com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para +comnosco.</p> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>VIII</h2> + +<h3>Saraiva de Carvalho<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup></h3> + +<p>O scenario era triste.</p> + +<p>A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma +chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia +cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, +nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos +cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos +Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de +agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava +crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas +revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e +concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os +seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, +que se desfaziam e renovavam a cada momento.</p> + +<p>Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo +duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas<span class="pn">{80}</span> +pela chuva, sem brilho e sem consistencia. +Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes +de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, +n'uma oscillação solemne, através de um silencio +lugubre.</p> + +<p>Nada mais triste do que o enterro de um homem +novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito +nas luctas do talento.</p> + +<p>A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com +effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta +por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir +e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se +revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias +deixam após si uma extensa chronica, cheia de +opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. +Recordal-as, é desviar por momentos a attenção +para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir +do facto material do aniquilamento para o mundo +pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir +épocas passadas, em resuscitar homens que já +não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os +actores de acontecimentos importantes na politica, na +litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no +commercio ou nos salões elegantes da sociedade.</p> + +<p>Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o +espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de +sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos +da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido +por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. +Depois, os que morrem novos deixam uma pequena +biographia, por maior que haja sido o seu talento e o +seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções +se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado +bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De +modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua +devastação prematura...<span class="pn">{81}</span></p> + +<p>Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e +tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta +isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos +que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o +dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava +apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram +a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, +porque os dois primeiros foram mais uma contingencia +da politica do que uma conquista por direito.</p> + +<p>Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno +periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em +que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos +encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.</p> + +<p>Então, era Saraiva, como todos os homens da sua +idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. +Vinha do <em>Gremio Litterario</em>, onde mostrára as +suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. +Mas a intelligencia, por mais brilhante que +seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. +É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações +da atmosphera social, que elle se robustece +e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva +de Carvalho comprehendeu que precisava justificar +no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. +1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. +E como fosse tambem um homem brioso, +deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu +paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro +por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira +não fizera emergir nos conselhos da corôa um +homem completamente inutil.</p> + +<p>Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de +Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia +ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. +Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios<span class="pn">{82}</span> +premiaram os seus esforços honrados e justos +levando-o de novo ao poder em 1870.</p> + +<p>A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, +que tornava ephemera a vida dos ministerios, e +as origens revolucionarias do movimento popular de +1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor +e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente +para tornar friamente reflexiva a cabeça de um +homem novo.</p> + +<p>Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, +Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo +todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, +e a sua idade mal sabia reprimir.</p> + +<p>Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio +d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, +cheio d'esse ardor indomavel que não raro se +confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando +mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns +em que o foi muito, os seus proprios adversarios +reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem +combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha +já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho +as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um +adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do +mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.</p> + +<p>Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe +todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito +dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão +para colhel-o.</p> + +<p>E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo +havia chegado agora, definitivamente. Voltando +ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da +pasta das obras publicas com uma attenção intelligente +e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo +do meu ponto de vista politico, não posso concordar<span class="pn">{83}</span> +com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de +reconhecer que o seu espirito havia passado por uma +transformação fructuosa e largamente promettedora. +Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias +da sua posição official, e modificou-se notavelmente, +sobretudo no discurso que como ministro proferira +na camara dos pares.</p> + +<p>Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera +por um só acto ou por uma só phrase, até +nas questões mais apaixonadas que se travaram no +parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára +a formar-se, de que seria um dos homens de +estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores +do nosso paiz.</p> + +<p>N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. +Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa, +contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade +todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, +em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos +de ter outro. Sempre que a obra de um homem +não está concluida, a sua perda equivale a duas: +é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. +Faz portanto falta ao presente e ao futuro.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Emquanto alguns oradores discursavam junto ao +jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente +coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes +do que a imponencia d'aquella grande manifestação +funebre feita por todos os partidos politicos militantes, +eu pensava, um pouco <em>bercé</em> pela chuva que principiava +a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu +n'um rithmo monotono.</p> + +<p>No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma<span class="pn">{84}</span> +illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia +achar vocabulo mais expressivo do que o <em>bercer</em> francez, +visto que este verbo significa não só o acto material +de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas +esperanças.</p> + +<p>Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, +bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes +sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.</p> + +<p>Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos +do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas +luctas politicas da imprensa e do parlamento.</p> + +<p>Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se +elles a si proprios. Se se trata de um correligionario, +exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse +novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata +de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de +adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o +deixar amolgado.</p> + +<p>Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento +conhecem este defeito da politica portugueza, +e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o +mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente +os ovos de paschoa com que na primeira hora o +receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram +vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel +como <em>cretino</em> ou tão gentil como <em>marinelo</em>.</p> + +<p>Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo +de intensidade, e o sujeito apparece chrismado em <em>tolo</em> +com todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para +que se veja bem de longe.</p> + +<p>Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes +a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára +na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu +estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os +contrarios, como um valentão de feira.</p> + +<p>E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador +de pau, já umas vezes por outras descarrega o<span class="pn">{85}</span> +fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é +claro.</p> + +<p>Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes +podem fazer-se rapidamente por meio de um <em>cliché</em> +inalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores +é quasi um luxo.</p> + +<p>Referindo-se a um orador governamental, dizem as +folhas opposicionistas no dia seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. +teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. +A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia +satisfeito de vêr que estava agradando ao governo +que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não +pagar.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo +que está apreciando um orador da opposição:</p> + +<p> </p> + +<p>«<em>A comedia foi bem representada. Como truão, o orador +é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre +a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou +pelas costas de um collega o copo de agua. No fim +de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, +e lhe atira com uma posta gorda.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, +uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se +de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou +um homem do governo.</p> + +<p>A mutação de scena é completa, n'este caso.</p> + +<p>Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o +morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. +Cada um empunha reverentemente uma tocha para +allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias +empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. +E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua +benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum<span class="pn">{86}</span> +dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com +tinta de escrever e lama das ruas.</p> + +<p>Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da +berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:</p> + +<p>—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario +dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma +que lhe désse!</p> + +<p>E a respeito de um opposicionista morto:</p> + +<p>—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou +um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro +hoje em dia...</p> + +<p>Dizia com graça um homem politico importante, que +se achou de uma vez ás portas da morte:</p> + +<p>—Estive tão mal, que já os periodicos começavam +a dizer bem de mim!</p> + +<p>O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia +calcular...</p> + +<p>No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. +Os ministros saem do poder insultados e empenhados. +Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no +dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. +Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados +com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas +já não podem desentalar-se mais. As repartições de +fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro +quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a +maior parte das familias do paiz ficava arruinada de +um dia para o outro.</p> + +<p>São rarissimas em Portugal as pessoas que podem +adormecer sem que uma espada de Damocles impenda +sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este +paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita +mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece +fazer maior gosto de passar por deshonesto aos +olhos de si mesmo.</p> + +<p>Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar +por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, +um dos seus homens mais importantes e populares. +Era o Sampaio da <em>Revolução</em>. Ninguem mais apedrejado +do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. +Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se +uma enorme manifestação de respeito.</p> + +<p>O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, +um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva +foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes +amesquinhado na sua importancia, que era grande.</p> + +<p>Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o +vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa, +centenas de pessoas de todas as parcialidades +politicas.</p> + +<p>Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos +preciosos para qualquer dos dois partidos. Era +talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto +solemne—o de entrar n'uma nova vida politica, +de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater +os principios, não é preciso combater os homens. +Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a +Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos +a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.</p> + +<p>Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer +uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora +um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto +por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.</p> + +<p>Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece +que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição +fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o +mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante +de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem +perante um tumulo regenerador.</p> + +<p>Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso +poderia levantar-se em honra dos dois mortos +illustres.<span class="pn">{88}</span></p> + +<p>—Opporiamos programma a programma, tradição a +tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos +oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas +disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam +como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os +projecteis vibrados do campo regenerador achariam +um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de +Carvalho.</p> + +<p>Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor +ou vencido, porque a calumnia não existiria.</p> + +<p>N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria +direitos: morto por morto, tumulo por tumulo, +as condições eram iguaes.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar +no deserto!</p> + +<p>Dezembro de 1882.<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup> +Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter +ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup> +Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade +politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos +tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de +Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido +e... visto!—N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{89}</span></p> + +<h2>IX</h2> + + + +<h3>Fontes Pereira de Mello</h3> + +<p>A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens +notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade +do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro +soou a nossos ouvidos desde a infancia.</p> + +<p>Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das +lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal +Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu +o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de +S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho +nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o +desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp, +o successor do duque de Loulé na chefatura do +partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio +ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes +Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado +estadista, cujo nome, ainda antes da consagração +da morte, era já uma gloria nacional.</p> + +<p>É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,<span class="pn">{90}</span> +para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar +desde já que, depois do marquez de Pombal, não +tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes +Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel +predecessor.</p> + +<p>Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo +produz um estadista como o marquez de Pombal e +como Fontes Pereira de Mello.</p> + +<p>Não são certamente dois reformadores da mesma +indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.</p> + +<p>O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, +a industria nacional, animou o commercio portuguez, +e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.</p> + +<p>Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, +como era natural que acontecese.</p> + +<p>Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, +por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto +não menos perigoso e devastador havia abalado +a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.</p> + +<p>Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira +de Mello appareceu na scena politica com o movimento +chamado da <em>regeneração</em>, palavra que é ainda hoje +a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira +de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado +e sempre querido.</p> + +<p>A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; +o credito abalado pelas consequencias da guerra +civil; as finanças desorganisadas; os empregados do +estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que +devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra +viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande +incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio +atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas +que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar +a administração publica na grande complexidade +dos seus elementos componentes.<span class="pn">{91}</span></p> + +<p>Pois bem, essa ardua missão coube a um homem +novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.</p> + +<p>O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens +na guerra e para a guerra, mostrou que tambem +sabia conhecel-os na paz e para a paz.</p> + +<p>Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das +nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira +de Mello a individualidade poderosa de um estadista +eminente.</p> + +<p>O marechal adivinhára que esse moço elegante, de +maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava +o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a +obra que elle havia começado pela guerra.</p> + +<p>E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio +da regeneração, creando até expressamente +para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:</p> + +<p>—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade +portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega +a sua obra nas mãos de um homem novo para que a +consolide e complete.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um +vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima +hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.</p> + +<p>Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe +a existencia, trabalhou para enriquecer a +patria, para desenvolver todas as forças vitaes da +nação, para fomentar todos os elementos de riqueza +publica, e esse homem, que não fez senão amontoar +capital para os outros, esse homem que enriqueceu o +commercio e a industria da sua terra, esse homem por +cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado +cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com +o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao +cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas<span class="pn">{92}</span> +com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.</p> + +<p>Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram +a apotheose official dos altos funccionarios publicos; +foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram +a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro +do meio da mais profunda commoção que póde ferir +o coração de um paiz.</p> + +<p>A espontaneidade do sentimento nacional é a mais +invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira +de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, +essa grandiosa deificação que não se recommenda, +que não se aconselha, que não se ensina, mas +que rebenta do coração de todas as classes sociaes, +como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que +explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento +ingenuo e sincero.</p> + +<p>Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo +memorando, que ficará para sempre gravado na memoria +infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão +grandioso elle foi.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade +portugueza pelos elevados cargos que o seu +merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos +os dias com as classes inferiores, não era um homem +que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas +da capital.</p> + +<p>Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que +nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes +procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de +Mello, o povo conservava por elle um grande culto +de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle +homem trabalhava para a nação, não para si, e, +quando soube que o illustre estadista morrera, ficou +gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por<span class="pn">{93}</span> +onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração +enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes +Pereira de Mello repousa para todo o sempre.</p> + +<p>E o povo não se enganou pensando que esse preclaro +estadista trabalhára para o povo.</p> + +<p>Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro +é para o povo que trabalham.</p> + +<p>Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira +de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não +enganava, tambem não se enganava o estadista, porque +o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, +os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira +e da cultura.</p> + +<p>Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica +a semear para colher, a demolir o passado para +construir o futuro.</p> + +<p>Elle bem sabia que, mortal como todos os outros +homens, não teria tempo de ver completamente sazonada +a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.</p> + +<p>Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, +trabalhava para os outros.</p> + +<p>E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho +a sua propria saude.</p> + +<p><em>Parar é morrer.</em> Eis o lemma glorioso da sua vida +politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira +de estadista.</p> + +<p>Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza +o movimento que n'este momento historico a +vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes +operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do +progresso. Os povos são como as machinas: o que é +preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram +velocidade. Depois trabalham por si mesmos.</p> + +<p>Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio +dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello +não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que<span class="pn">{94}</span> +tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam +ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram +de mil boccas, eram articulados por mil gargantas +differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, +saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma +palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro +do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára +em Portugal.</p> + +<p>Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver +de um morto illustre.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui +recebido em sua casa.</p> + +<p>Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. +Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me +palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava +de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas +gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, +replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e +vale a pena ir vel-o.</p> + +<p>Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me +que fosse fazer uma partida de voltarete com +o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. +Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com +a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me +aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.</p> + +<p>Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do +preço.</p> + +<p>—Não sendo caro não diverte, disse o visconde +de N.</p> + +<p>—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e +guerra M.<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>Eu vi-me obrigado a obtemperar:</p> + +<p>—Estou ás ordens de v. ex.<sup>as</sup></p> + +<p>Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a +cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse +cartas.</p> + +<p>Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que +sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um +acaso que eu reputaria feliz em qualquer +outra occasião.</p> + +<p>A preoccupação da situação embaraçosa em que me +achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. +Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as +minhas deviam orçar por quarenta mil réis.</p> + +<p>Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri +as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de +um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe +o embaraço em que me encontrava, e que tivera +por origem uma confissão ingenua.</p> + +<p>—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p> + +<p>Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi +hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.</p> + +<p>Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando +eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade +attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. +Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa +do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas +horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, +levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. +Nunca esta cifra me esqueceu.</p> + +<p>Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao +largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, +como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,<span class="pn">{96}</span> +o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão +ingenua de que jogava o voltarete...</p> + +<p>Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, +dois <em>fadistas</em> parados. A calçada estava deserta. Um +d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar +entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para +mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que +naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda +chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a +carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e +pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse +tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui +dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de +homem. Agradeci, e subi para a almofada..</p> + +<p>E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado +o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de +torturas que essa foi!</p> + +<p>No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci +á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje +não sei quem fosse.</p> + +<p>Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se +muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, +pedia-me que reeditasse a historia, a que achava +graça.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento +para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever +de amizade.</p> + +<p>Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a +luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:</p> + +<p>—Tem muito empenho n'isto?</p> + +<p>—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir +um amigo sincero.<span class="pn">{97}</span></p> + +<p>Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me +o papel, disse-me:</p> + +<p>—V. é um homem novo na politica. Permitta-me +um conselho: Estes favores são uma desgraça para a +pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com +a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo +d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">Janeiro de 1887.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup> +Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{98}</span></p> + + + +<h2>X</h2> + +<h3>Antonio Augusto de Aguiar</h3> + +<p>Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada +tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que +é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a +morte?</p> + +<p>Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas +amarguras ou porque sejam realmente grandes, +todos nós temos mais ou menos pensado, com uma +certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema +em que o corpo ha de adormecer para sempre e a +alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, +por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto +bem mais tranquillo do que este...</p> + +<p>Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz +que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez +sequer.</p> + +<p>A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido +de nós para os outros, e que os outros dizem sempre +que nós possuimos e elles não.</p> + +<p>Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se<span class="pn">{99}</span> +na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás +vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento +a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de +a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez +deleitosa...</p> + +<p>Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora +é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste +das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta +e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para +os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, +ambicionado e querido.</p> + +<p>Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado +a morte, quando ella passa perto de nós para ir +fazer uma victima, quando sentimos o frémito das +suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, +quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos +horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação +e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera +de misterio e silencio...</p> + +<p>Por que não hei de eu dizer francamente que no combate +da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada +manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me +tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade +dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de +comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade +é tambem que ainda esta semana, segunda feira, +eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso +que se chama a Morte, e cuja obra de devastação +parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.</p> + +<p>Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no +club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade +paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, +antes do peccado, se o voltarete já então houvesse +sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, +com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança +tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,<span class="pn">{100}</span> +com uma grande timidez de execução. O sol, alegre +e bom, entrava docemente pelas janellas, como +poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo +azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som +aspero do choque das bolas, ou de uma contada do +taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos +aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito +longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, +que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada +por um bello rio portentoso, mas de que nós, +aqui na Ericeira, apenas <span class="errata" title="no original: conservamos">conservavamos</span> uma vaga recordação...</p> + +<p>Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que +tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro +da villa, com o boné em uma das mãos, a mala +de couro na outra.</p> + +<p>O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram +para o carteiro.</p> + +<p>É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o +interesse que se póde ter em receber uma carta ou +um jornal ainda que só esperemos banalidades.</p> + +<p>Era o correio que chegava. Iamos receber noticias +de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos +a vaga recordação de ser construida de marmore +e de granito e banhada por um bello rio magestoso.</p> + +<p>O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa +de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, +republicanos—e algumas cartas, poucas, +sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma +verdadeira alluvião.</p> + +<p>E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo +para um lado e para o outro:</p> + +<p>—V. ex.ª hoje não tem nada.</p> + +<p>—Aqui estão os seus jornaes.</p> + +<p>—V. ex.ª tem só uma carta.</p> + +<p>—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª<span class="pn">{101}</span></p> + +<p>Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala +uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:</p> + +<p>—Morreu o Aguiar!</p> + +<p>—Quem? O que?!</p> + +<p>—Morreu o Aguiar!</p> + +<p>—O Antonio Augusto?!</p> + +<p>—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...</p> + +<p>E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente +o jornal, procurando os pormenores, lendo e +dizendo:</p> + +<p>—De repente... de uma <em>angina pectoris</em>... ainda +ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado +no <em>restaurant Rosa Araujo</em> com o Luciano Cordeiro e +com outro.</p> + +<p>Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento +de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos +fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse +de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os +jornaes o referiam.</p> + +<p>Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima +vez que lhe falára, da boa disposição em que elle +estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas +quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o +tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel +aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia +os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle +mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença +de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres +horas, na madrugada de sabbado para domingo.</p> + +<p>Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas +do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes +passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor +era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases +soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão +geral:</p> + +<p>—Um homem serio...<span class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Um homem de talento...</p> + +<p>—Um homem de saber...</p> + +<p>—Um bom caracter...</p> + +<p>—Um homem digno...</p> + +<p>Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso <span class="errata" title="no original: elle fóra">elle fôra</span>, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, +e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem +serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, +d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!</p> + +<p>Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes +lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem +aggredir os vivos para terem que humilhar-se +deante dos mortos.</p> + +<p>Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado +dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César +o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição +politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma +consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas +qualidades a que eu achava que tornava maior as outras +era a serenidade com que elle recebia todos os +golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. +Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, +no momento de se commentar no corredor da camara +dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, +se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia +accendendo tranquillamente o seu charuto:</p> + +<p>—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.</p> + +<p>Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito +e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz +inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.</p> + +<p>Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes +que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita +do que os outros. Cada homem representa uma +somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se +esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos<span class="pn">{103}</span> +sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens +que recuam para avançar e homens que preferem +ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem +sem recuar.</p> + +<p>Eu gosto mais d'estes ultimos.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin">1887.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{104}</span></p> + + +<h2>XI</h2> + +<h3>Mendes Leal</h3> + +<p>Dois escriptores da geração que nos precedeu não +estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás +vezes começa para outros escriptores no proprio dia +dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes +Leal.</p> + +<p>Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade +litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, +a qualquer philarmonica ou club de operarios +em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido +que não appareça logo um gremio de classe, musical +ou dançante, a adoptar-lhe o nome.</p> + +<p>E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci +pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que +até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes +d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão +rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão +elegantemente colorida.</p> + +<p>Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as +suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas<span class="pn">{105}</span> +foi o romance historico <em>Ráusso por homizio</em>, publicado +em 1842 na <em>Revista universal Lisbonense</em>. Com razão +dizia a <em>Revista</em> referindo-se a este romance: «Damol-o +sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de +seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, +nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»</p> + +<p>Assombroso, em verdade.</p> + +<p>Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas +meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião +de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a +fidalga grandeza do seu coração.</p> + +<p>Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, +e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes +póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas +aptidões como Mendes Leal.</p> + +<p>Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam +pelas cumiadas da epopea: hajam vista o <em>Pavilhão negro</em>, +<em>Ave Cesar</em>, <em>Napoleão no Kremlin</em>.</p> + +<p>Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel +continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu +para o theatro—e foi muito—póde ter defeitos, +mas affirma riqueza de imaginação, talento de <em>savoir +faire</em>, opulencia de linguagem. Percorram toda essa +vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde +os <em>Dois renegados</em> até aos <em>Primeiros amores de Bocage</em>, +e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, +engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás +exigencias de cada genero e de cada época.</p> + +<p>Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade +tão accentuada como dramaturgo, não deslisou +comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem +de lettras.</p> + +<p>Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com +notavel seriedade de espirito.</p> + +<p>Como orador politico, deixou discursos parlamentares +que podem servir de modelo aos que, dentro e<span class="pn">{106}</span> +fóra da camara, presam a lingua portugueza através +dos arrebatamentos da paixão partidaria.</p> + +<p>Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado +a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios +politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de +salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão +embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de +occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar +mais do que elle.</p> + +<p>Estive durante alguns annos em relação epistolar +com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou +á sua benevolencia de mestre as minhas palidas +estreias litterarias. Castilho tinha uma grande +consideração por Mendes Leal—a quem, na dedicatoria +do primeiro livro das <em>Georgicas</em>, divinamente traduzidas, +chamou—<em>caro Leal, gloria da terra lusa</em>.</p> + +<p>Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, +em missão diplomatica. Só em 1882, vindo +elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o +frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos +largamente, e era encantadora a simplicidade +bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de +muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.</p> + +<p>Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades +do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos +os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e +grande numero de pessoas que mais lustravam em +pompas de <em>high life</em>.</p> + +<p>A ultima vez que me demorei conversando largo +tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo +anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.</p> + +<p>O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de +Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal +encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as +classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem +ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se +ao meu braço. Assim fomos conversando até<span class="pn">{107}</span> +ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.</p> + +<p>Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado +ao prelo, n'uma brochura intitulada <em>Hommage aux lettres +latines</em>, as suas ultimas composições poeticas. Ahi +se póde ver com que primor elle manejava a lingua +franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia +envelhecendo e pendendo á terra.</p> + +<p>A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata +com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu +para impulsionar os progressos litterarios do +seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é +caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que +a opinião publica passa por uma evolução demorada +tanto para apreciar como para depreciar um escriptor +fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo +não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria +de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve +que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.</p> + +<p>No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma +honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou +a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. +Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que +elle cantou em 1857 na poesia <em>Mare magnum</em>. A descripção +das <em>furnas</em>, tão bellas e tão agrestes, é de mão +de mestre:</p> + +<blockquote> +<p>Não vos lembraes?—Além do manso pego,<br> +O mar, que vem do largo, e que não cessa,<br> +Da vaga arquea a cuspide irritada,<br> + E, com impeto cego,<br> + Á insensata escalada<br> +Dos immoveis penhascos se arremessa.</p> + +<p>Quem ha de commetter a louca empresa<br> +De tentar a passagem tortuosa<br> +Que alguma convulsão da natureza<br> +Abriu sobre a voragem tenebrosa?<span class="pn">{108}</span><br> +Do rolo immenso a curva ameaçadora<br> +Investe, galga, apruma-se, desaba;<br> +E quando o turbilhão que o ar devora,<br> + Trovejando rebenta,<br> + Parece que á tormenta<br> +A terra não resiste e o mundo acaba.</p> + +<p>Pelas rugas da penha sacudida,—<br> +De niveos flocos inda guarnecida,—<br> +Depois que o mar bramindo atraz volvêra,<br> +Um veio d'agua, rapido e sombrio,<br> +Deslisa; qual em rude face austera<br> +De um triste ancião, que a idade encanecêra,<br> + O pranto corre em fio.</p> +</blockquote> + +<p>Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas +contra as <em>furnas</em> da Ericeira, recordará eternamente +a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel +trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente +o nome de Mendes Leal.</p> + +<p>O oceano vingará a ingratidão dos homens.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{109}</span></p> + + + +<h2>XII</h2> + +<h3>Gonçalves Crespo</h3> + +<p>Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, +deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações +em fóra, até o encontrar nos primeiros annos +da sua vida, e da minha.</p> + +<p>Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual +eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e +toda a philosophia que se encerram n'este pensamento +de Garrett:</p> + +<blockquote> +<p>Saudade, gosto amargo de infelizes,<br> +Delicioso pungir de acerbo espinho.</p> +</blockquote> + +<p>Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, +toda a observação psichologica que essa bella antithese +contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis +decassiliabos que já não esquecerão mais em +lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel +quando chama á saudade <em>um mal de que se gosta, e um +bem que se padece</em>; comprehendi o rei D. Duarte quando<span class="pn">{110}</span> +no <em>Leal conselheiro</em> escreveu da saudade com uns +finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão +d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo +despedaça e mitiga o coração...</p> + +<p>Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho +percorrido em poucos annos. A saudade fizera +reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as +cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos +a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas +esperanças, remocei com as minhas illusões de outro +tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era +completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser +o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, +o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente +percorrera, e pareceu-me atravessar um +deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e +silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da +morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões +que me fascinaram e pessoas que eu amei.</p> + +<p>Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda +enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.</p> + +<p>Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo +providencial.</p> + +<p>Assim é que os poetas a definem; assim é que eu +a sinto agora—melhor por certo do que nunca.</p> + +<p>Em verdade, as circumstancias em que me encontro, +para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. +Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas +as nossas relações vinham de longe, eram antigas na +proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando +eramos apenas duas creanças.</p> + +<p>Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, +rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar +de moços.</p> + +<p>Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas +mais ou menos habituaes, que eu já historiei<span class="pn">{111}</span> +largamente no livro <em>Atravez do passado</em>—o meu primeiro +livro de saudades.</p> + +<p>Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com +o criado da casa: o Angelo, um gallego.</p> + +<p>Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha +a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se +n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto +como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada +o primor da sua <em>toilette</em>, quasi sempre irreprehensivel.</p> + +<p>Coisa notavel! Crespo não era então para nós um +poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; +Alfredo Leão lia chronicas e romances<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>; mas +Gonçalves Crespo <em>flanava</em> a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento +poetico com a publicação das <em>Miniaturas</em>.</p> + +<p>Houve um periodo em que me separei de Gonçalves +Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi +todas as ferias elle passava no Porto em direcção a +Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. +Crespo frequentava o <em>Café Portuense</em>, na Praça +Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu +o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando +as nossas façanhas anti-ibericas.</p> + +<p>Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação +que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves +Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me +dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel +era para mim. A amizade cegava-o.</p> + +<p>Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira +pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci +então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão +fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos +<em>Homens e letras</em>, e tão falado ainda na tradição academica. +Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar<span class="pn">{112}</span> +a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle +chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente +está em Lisboa.</p> + +<p>Crespo dera-me <em>rendez-vous</em> para a noite, na livraria +do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que +era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem +ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, +porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves +Crespo viera passar o serão comigo no <em>Hotel dos +caminhos de ferro</em>, onde eu estava hospedado.</p> + +<p>Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com +o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da +phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra +da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas +as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril +de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro +das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; +de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua +voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava +todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava +com a voz como com o espirito. Via-se o que elle +dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como +poeta.</p> + +<p>Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de +costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão +notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me +afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse +genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as +largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade +nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle +effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava +como o aço ao capricho da sua inspiração, e no +soneto <em>Animal bravio</em>, offerecido a mademoiselle Eugenia +Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica +do seu espirito:<span class="pn">{113}</span></p> + +<blockquote> +<p>Preferiras um ramo caprichoso<br> +De escolha rara e de um concerto fino,<br> +Onde visses o cacto purpurino<br> +E os nevados jasmins do Tormentoso.</p> + +<p>Em vez do ramo exotico e oloroso,<br> +Casto recreio d'esse olhar divino,<br> +Acceita, Eugenia, este animal felino,<br> +Que o meu braço subjuga vigoroso.</p> + +<p>Tive artes de o amansar: eil-o sereno!<br> +Acode a minha voz, e ao meu aceno<br> +Como um jaguar a voz de um saltimbanco...</p> + +<p>Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!<br> +E á doce Eugenia, do sorriso honesto,<br> +A fimbria oscule do vestido branco!</p> +</blockquote> + +<p>Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção +publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo +dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que +conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello +soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos +<em>Nocturnos</em>:</p> + +<blockquote> +<p style="margin-left: 6em;">ODOR DI FEMINA</p> + +<p>Era austero e sisudo; não havia<br> +Frade mais exemplar n'esse convento;<br> +No seu cavado rosto macilento<br> +Um poema de lagrimas se lia.</p> + +<p>Uma vez que na extensa livraria<br> +Folheava o triste um livro pardacento,<br> +Viram-n'o desmaiar, cair do assento,<br> +Convulso e torvo sobre a lagea fria.</p> + +<p>De que morrera o venerando frade?<br> +Em vão busco as origens da verdade,<br> +Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.</p> + +<p>Consta que um bibliophilo comprára<br> +O livro estranho e que, ao abril-o, achára<br> +Uns dourados cabellos de mulher.<span class="pn">{114}</span></p> +</blockquote> + +<p>Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo +escrevendo a minha biographia para o <em>Diario de Portugal</em><sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup>. +A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades +para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, +por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente +me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade +com que elle acompanhara todos os pormenores +da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado +tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse +de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente +agradavel e consoladora. Crespo era um homem +de talento superior e de caracter honestissimo; +a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão +de alguns e das injurias de poucos.</p> + +<p>Este homem, este amigo querido com o qual eu me +encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o +ainda a meu lado na politica e na camara electiva. +O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, +porque eu teria um profundo desgosto em separar-me +de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, +grave ou insignificante.</p> + +<p>O destino, porém, esse mesmo destino que parecia +querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços +de amizade, acabara por ser enganador e perfido.</p> + +<p>Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde +deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos +na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera +como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves +Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! +elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, +que lhe permittia viver inteiramente tranquillo +na decencia modesta que soube conservar em todos os +actos da sua vida.<span class="pn">{115}</span></p> + +<p>A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu +apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar +depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma +familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle +pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios +de fortuna, considerações politica e honras litterarias, +gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, +depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da +Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de +transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o +cobardemente aos trinta e sete annos de edade, +enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada +senhora que Portugal possue, e de todos quantos +amavam e estimavam o notavel poeta das <em>Miniaturas</em> +e dos <em>Nocturnos</em>.</p> + +<p>Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse +da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de +outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve +baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das +agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores +dos <em>Contos para os nossos filhos</em>, colleccionados e +traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem +a Deus pela saude de um dos traductores d'esse +livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus +filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa +do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto +senão o triste desafogo de escrever com lagrimas +estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe +o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero +do luto da minha alma.</p> + +<p class="assin">1883.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> A<small>TRAVEZ DO PASSADO</small>: <em>Na morte de um condiscipulo.</em></p> + +<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o +que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{116}</span></p> + + +<h2>XIII</h2> + +<h3>Antonio Maria Pereira</h3> + +<p>Quando eu fazia parte da redacção do <em>Jornal do Porto</em>, +onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo +de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas +vezes com o trabalho de rever as provas das edições +que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, +vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um +dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu +orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, +propondo-lhe a acquisição de um romance original.</p> + +<p>Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu +vivamente.</p> + +<p>Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me +parecia, por excepcional, irrealisavel.</p> + +<p>Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se +não viessem ordinariamente na idade em que o coração +é forte e a imaginação exaltada?!</p> + +<p>O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha<span class="pn">{117}</span> +proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. +Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha +vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava +concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.</p> + +<p>Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se +fazia dos editores em geral.</p> + +<p>Balzac, nas <em>Illusões perdidas</em>, tinha deixado a ethopea +do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas +de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de +Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de +poesias por lhe achar <em>pouco peso</em>. O poeta respondêra +que voltaria com os seus versos copiados em papelão. +O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não +pareciam resolvidos a substituil-os.</p> + +<p>Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira +como applicada áquella época: «<em>Les lettres ménent +à tout, à condition de les quitter.</em>»</p> + +<p>Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. +Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, +o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar +publico.</p> + +<p>Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio +de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos +novos.</p> + +<p>O que os estreantes queriam era sequer ao menos +encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, +ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é +uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois +forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o +terem sido.</p> + +<p>Eu havia ido refugiar-me no <em>Jornal do Porto</em>, onde a +vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta +uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas +a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. +Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, +financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,<span class="pn">{118}</span> +ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade +de materias a que a concorrencia as obriga, +têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes +enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no +meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, +como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade +de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, +tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. +Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos +novos jornaes que se publicam cada anno, apenas +50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta +bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando +ha dez annos a esta parte.</p> + +<p>O que não deixa de ser curioso é que, justamente +no momento em que o mercado mais falta ao livro, o +publico exige, como está acontecendo, que o trabalho +tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.</p> + +<p>De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado +pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar +pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, +cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. +Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, +sempre dispendiosas, das impressões de luxo.</p> + +<p>Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a +<em>toilette</em> dos livros, passaste á historia, és uma recordadação +apenas, nada mais!</p> + +<p>A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o +encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade +de encontrar um editor accessivel, mas tambem +a refulgencia de uma aurora polar que deixava +cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão +doirado irradiando de estipendio certo.</p> + +<p>Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do +romance. Chamar-se-ia <em>O testamento de sangue</em>. O <em>Jornal +do Porto</em> e o ensino livre absorviam-me o dia; foi +pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,<span class="pn">{119}</span> +que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle +romance.</p> + +<p>O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com +que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um +editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando +com Cruz Coutinho e com os meus collegas +de redacção, alludisse ao <em>Testamento de sangue</em>.</p> + +<p>Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando +no <em>Jornal do Porto</em> se deu o que eu chamarei uma +crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados <em>Os dramas +de Paris</em>, de Ponson du Terrail, arranjados sobre +uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se +em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção +<span class="errata" title="no original: ao folhetim">do folhetim</span> com um romance que não fosse tão longo +que prejudicasse a sequencia dos <em>Dramas de Paris</em>, nem +tão breve que deixasse de preencher um compasso de +espera.</p> + +<p>—Se o teu romance não estivesse destinado para +Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.</p> + +<p>Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com +uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam +que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem +estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois +publicar <em>O testamento de sangue</em> no <em>Jornal do Porto</em>, e +escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro +logar que não tomaria resolução alguma sem ter +previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; +em segundo logar, que estando apenas traçados os +primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, +de escrever os outros dia a dia, o que certamente +obstava a um tal ou qual acuro que eu queria +dar á novella.</p> + +<p>Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. +Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, +comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter +sido publicado em folhetim.</p> + +<p>Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,<span class="pn">{120}</span> +na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer +que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era +gentilissima de amabilidade.</p> + +<p>Comecei então a escrever precipitadamente o romance, +a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim +diario—encargo que eu acumulava com a minha +collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações +quotidianas.</p> + +<p>Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto +de forças. Morava eu então no predio n.º 456 +da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta +do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se +eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de +todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.</p> + +<p>No livro <em>Nervosos, lymphaticos e sanguineos</em> deixei +consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho +com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, +para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre +da Conceição, com quem eu sustentava polemica +epistolar no <em>Jornal do Porto</em>.</p> + +<p>«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos +litterarios para reivindicar, não estou disposto +a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, +me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus +amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então +contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, +vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as +casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com +que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro +com os seus quatro braços alvejantes. A essa +hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea +na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos +trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»</p> + +<p>Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de +trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no +mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, +para sair em volume. O pequeno prologo que o<span class="pn">{121}</span> +precede é de todo o ponto exacto quando explica a +pressa com que o <em>Testamento de sangue</em> fôra escripto.</p> + +<p>No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois +livros novos, <em>A Porta do Paraiso</em> e <em>Entre o caffe e o +Cognac</em>. Tive então occasião de conhecer pessoalmente +o sr. Antonio Maria Pereira.</p> + +<p>Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta +n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço +pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho +e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar +alargando-a, tinha uma só porta e a <em>montre</em>. +Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros +e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, +estava um homem que, ouvindo perguntar +pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era +elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que +trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o +antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. +Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em +que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era +o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos +do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.</p> + +<p>Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão +cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este +<span class="errata" title="no original: editr">editor</span> era insinuante; e as suas maneiras distinctas. +Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente +argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A +face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia +os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido +de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.</p> + +<p>Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me +sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, +quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições +tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.<span class="pn">{122}</span> +Era seu filho, o actual editor<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup>. Tempo antes, seguindo +o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, +emprehendendo a publicação de uma <em>Encyclopedia litteraria</em>, +para a qual tivera a amabilidade de solicitar a +minha collaboração.</p> + +<p>Escrevi ahi uns versos, <em>Virgens loiras</em>, cuja inspiração +me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres +annos pesam sobre elles, e as <em>Virgens</em>, que devem estar +decrepitas—como os versos.</p> + +<p>Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel +convivencia.</p> + +<p>Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos +Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde +por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar +d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.</p> + +<p>Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso +apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, +tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou +costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos +habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o +meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na +rua Augusta.</p> + +<p>Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, +onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono +da casa e o bibliographo Innocencio.</p> + +<p>Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa +n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente +até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.</p> + +<p>O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois +de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair +o espirito na conversação de um pequeno grupo +de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa<span class="pn">{123}</span> +hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, +elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e +apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.</p> + +<p>Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que +eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes +serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup>—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade +de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta +da gloria—editando-lhes os primeiros livros.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas +do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamava <em>a vinagreira</em>.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>. + +<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, +Pinheiro Chagas, etc.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{124}</span></p> + +<h2>XIV</h2> + +<h3>Innocencio Francisco da Silva</h3> + +<p>Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas +provas de estima pessoal e de consideração litteraria.</p> + +<p>Foi elle que me propoz socio correspondente da +Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, +penhorando-me sobremodo.</p> + +<p>Mantive com Innocencio as melhores relações de +amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias +da sua attribulada existencia.</p> + +<p>Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio +não recebeu nunca do estado os beneficios a que, +pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel +direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo +entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo +civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos +bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe +faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente +com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe +foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser<span class="pn">{125}</span> +um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, +que capitulavam desdenhosamente de <em>rol de roupa suja +de livros velhos</em>. Que revoltante injustiça! De mais a +mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos +livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer +todos os seus caprichos de bibliophilo.</p> + +<p>Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom +por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, +falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco +ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. +Tinha a consciencia de merecer mais do +que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se +contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade +se poderia dizer que fôra um <em>vencido da vida</em>. +Viveu atormentadamente; e assim morreu.</p> + +<p>Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, +que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do +coração, que excellente caracter de portuguez antigo!</p> + +<p>Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente +infantis. Passava rapidamente da indignação +á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima +em facilidades de linguagem.</p> + +<p>Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. +Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas +havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de +bondade antiga.</p> + +<p>A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida +quintilha de Sá de Miranda:</p> + +<blockquote> +<p>Homem d'um só parecer,<br> +D'um só rosto, uma só fé,<br> +D'antes quebrar que torcer,<br> +Elle tudo póde ser,<br> +Mas de côrte homem não é.</p> +</blockquote> + +<p>Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, +receberia a impressão de ter deante de si um<span class="pn">{126}</span> +velho militar rabujento,—um major revoltado contra +a sua reforma e a decadencia do exercito.</p> + +<p>Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão +patriarchal, de—digamol-o assim—bom humor tarimbeiro, +ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque +a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.</p> + +<p>Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra +que, depois da <em>Bibliotheca Lusitana</em> do abbade Barbosa, +saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou +com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente +conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados +posteriormente á publicação da <em>Bibliotheca +Lusitana</em>.</p> + +<p>Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, +de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios +pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem +succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras +representa o <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em> até +o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado +para a continuação dos restantes volumes do <em>Supplemento</em>!</p> + +<p>De mais a mais, a natureza da especialidade em que +labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa +interminavel, porque um diccionario bibliographico não +se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação +ininterrupta.</p> + +<p>Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, +ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada: +<em>Emfim!</em></p> + +<p>O seu <em>emfim!</em> devia ser a morte.</p> + +<p>Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade +febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos +livros, que se iam empilhando em camadas alterosas +á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse +lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a<span class="pn">{127}</span> +um novo supplemento, que decerto já não esperaria +concluir.</p> + +<p>Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia +do <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em>, como +subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem +defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não +tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em +relação ao seu tempo, é pouco.</p> + +<p>Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não +era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a +sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava +uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui +obsequiado por elle com a copia de algumas poesias +ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram +para architectar sobre ellas o conto—<em>Como as borboletas se queimam</em>—inserto no livro <small>PORTUGAL DE CABELLEIRA</small> (1875).</p> + +<p>Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas +em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse +encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado +conta nas <em>Mil e uma historias</em> o caso interessante +de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se +um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, +que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do +Pote das Almas.</p> + +<p>D'esta vez Innocencio ficou codilhado.</p> + +<p>A este ou outros desastres alludia elle certamente +quando, escrevendo o artigo <em>Bibliophilos e biblomaniacos</em>, +na <em>Encyclopedia litteraria</em>, publicada pelo sr. Antonio +Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:</p> + +<p>«Na classe dos bibliomaniacos <em>improductivos</em>, que capricham +em accumular livros sobre livros, um conhecemos +sobre todos digno de menção especial. Fareja +este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, +as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que +lhe escapem os leilões e a classica <em>feira da ladra</em>, na +diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias<span class="pn">{128}</span> +da republica litteraria gosa de algum apreço por +merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade +dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, +arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos +em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo +lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido +reunir copiosissima somma de volumes, e não sem +grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente +acanhado, e de uma mesquinhez que toca as +raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel +aos vendedores que o têem por um caustico +volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber +parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por +suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo +de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a +uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos +em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»</p> + +<p>Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle +era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, +auctor de um vasto repositorio bibliographico +que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o +desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar +precioso, destinado a tornar-se improductivo para +toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.</p> + +<p>Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um +idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da +rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as +portas para os amigos que queriam estudar. E os que +não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do <em>Diccionario</em>, com a riqueza dos +thesouros acumulados por Innocencio.</p> + +<p>O predio em que habitava—e que tem hoje uma +lapide commemorativa—estava completamente cheio de +livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia +habitavam, os peores compartimentos do predio, +unicos disponiveis.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu +conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos +relações de amizade cordealissima. Innocencio +falava sempre, fumando muito, e habitualmente +maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar +para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. +Em sua casa havia differentes caixas atulhadas +de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.</p> + +<p>Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira +para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, +que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, +não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.</p> + +<p>Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!</p> + +<p>Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa +e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. +E—circumstancia que n'este momento me está lembrando +com viva saudade—foi com o seu collar de +academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda +em honra do principe de Galles.</p> + +<p>Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. <em>Innocencio.</em>» Mas a sua lettra +estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando +lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. +Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.</p> + +<p>Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, +sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia +dizer, pela primeira vez, «<em>Emfim!</em>»</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{130}</span></p> + +<h2>XV</h2> + +<h3>Tres actrizes</h3> + +<p>Vi no theatro de S. João do Porto representar a +Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou +sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio +profana—a de ter visto passar no palco de um theatro +um cherubim de azas brancas e cabello loiro.</p> + +<p>Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica +de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. +Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a +era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.</p> + +<p>Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á +beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem +testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito +casto e muito leve...</p> + +<p>Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. +E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante +que a esperava e um <em>coupé</em> que a conduzia para um +leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam +a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.</p> + +<p>Vi-a representar no Porto a <em>Cora</em> e recitar a <em>Stella +matutina</em>, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente +a sua estreia ruidosa com a <em>Visão dos tempos</em>.<span class="pn">{131}</span></p> + +<p>Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste +harmonia, os versos do poeta:</p> + +<blockquote> +<p>Eu sou a filha d'Eva<br> +Gerada em outro amor!<br> +Caíndo a dôr me eleva...<br> +Senhor, Senhor, Senhor!</p> +</blockquote> + +<p>Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma +lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula +modulação musical d'aquella garganta divina, e que se +n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa +mulher, destinada a</p> + +<blockquote> +<p>... servir de falla<br> +Á dôr que emmudeceu</p> +</blockquote> + +<p class="ni">seria personificada na formosura etherea e biblica de +Manuela Rey.</p> + +<p>A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, +vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a +<em>Joanna a doida</em>, a <em>Mulher que deita cartas</em>, a <em>Medea</em>.</p> + +<p>Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar +Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no +esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, +atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os +cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára +no seu corpo de marmore. A expressão tragica +dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural +do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, +onde as grandes paixões humanas, para expludirem +theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse +vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada +a cinzel n'um bloco de Paros.</p> + +<p>Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a +da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no +theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, +em honra de Emilia das Neves e Sousa.</p> + +<p>Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte<span class="pn">{132}</span> +na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante +favorecido das musas que não afinasse a lira +para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente +da difficuldade que a minha familia teve em obter um +camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, +empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos +atroadores sempre que o himno da <em>linda Emilia</em>, +como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.</p> + +<p>A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José +Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera +a musica outro academico, João Baptista Pires.</p> + +<p>Ahi vae a lettra do himno:</p> + +<blockquote> +<p>O robusto leão da victoria<br> +De teus pés lambe a terra em redor;<br> +Tua vida é um archivo de gloria,<br> +O teu nome um augusto esplendor.</p> + +<p>Para ti nunca findam as palmas,<br> +Nem os bravos que fazem tremer;<br> +E do ouro de lei d'estas almas<br> +Só tu podes um throno fazer.</p> + +<p>Nós que vemos os lumes ardentes<br> +Onde Deus escondel-os nos quiz,<br> +Vimos hoje dizer-te frementes:<br> +«És sublime, és sublime, ó actriz!»</p> + +<p>Arde o peito em delirio o mais puro,<br> +Cada olhar ao teu nome reluz;<br> +Has de ser immortal no futuro,<br> +Que este fogo é baptismo de luz.</p> + +<p style="margin-left: 6em;">Côro</p> + +<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br> +É pequena a corda dos reis;<br> +Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br> +A corôa dos nobres laureis.</p> +</blockquote> + +<p>Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, +postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados<span class="pn">{133}</span> +dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda +outro dia as chammas alastraram as suas linguas de +fogo.</p> + +<p>Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, +tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações +convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas +com applausos de amigos e <em>bouquets</em> que se vão +buscar ao palco para tornar a atiral-os.</p> + +<p>N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas +e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia +das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente +commovida.</p> + +<p>Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá +meia duzia de versos para um album ou para uma +festa theatral.</p> + +<p>Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os +melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em +honra da <em>linda Emilia</em> dois e tres epinicios cada um e, +não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os +no album da grande actriz.</p> + +<p>Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o +himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, +e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz +de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.</p> + +<p>Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. +Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em +Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, +melancolico e concentrado como sempre. Tive +vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: +«Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se +eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido +decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes +ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.</p> + +<p>Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram +trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de +Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas +novos.<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>Darei uma pequena amostra:</p> + +<blockquote> +<p>Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!<br> +Póde um peito conter oceanos de luz!<br> +Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,<br> +Como o braço de Deus, cria mundos a flux...</p> + +<p>Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos<br> +Um phantasma de fogo e acorda pensativo!<br> +Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,<br> +E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...</p> + +<p>E então é tanto o ardor a incendiar a mente,<br> +Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;<br> +Um descobre um Principio, um outro um Continente,<br> +O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...</p> +</blockquote> + +<p>Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. +Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras +na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. +Ultimamente regressou á metropole.<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p> + +<p>Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem +estar já pulverisados no seio da terra.</p> + +<p>Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir +a quadra final que elle compôz:</p> + +<blockquote> +<p>Curvamo-nos tambem... É Deus que passa<br> +Occulto nos monarchas do proscenio!<br> +É o seu braço de luz que, em fogo, traça<br> +N'aquellas sombras o caminho ao genio.</p> +</blockquote> + +<p>Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano +de valor, que disse:</p> + +<blockquote> +<p>Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,<br> +Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,<br> + Sente, mas não traduz;<br> +Mulher ou anjo, realidade ou sonho,<br> +Teu genio admiro, como admiro o Etna!<br> + O mar... a noite... a luz!...<span class="pn">{135}</span></p> +</blockquote> + +<p>Emilia das Neves já estava então longe da sua florida +mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural +belleza.</p> + +<p>Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor +quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863 <em>mulher ou +anjo</em>.</p> + +<p>Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima +peça, <em>O meia azul</em>, n'uma decadencia pungitiva. +A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas +enfermidades.</p> + +<p>O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um +esforço supremo de declamação e caracterisação.</p> + +<p>E então passava nos meus ouvidos este verso de +Ernesto Pinto de Almeida:</p> + +<blockquote> +<p>Mulher ou anjo, realidade ou sonho...</p> +</blockquote> + +<p>O que restava do sonho era apenas a realidade...</p> + +<p>Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, +ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista +e supersticioso.</p> + +<p>Este dissera a Emilia das Neves:</p> + +<blockquote> +<p>Agora que aos teus pés, mais uma vez,<br> +As rosas vem cobrir a tua estrada,<br> +Acceita esta homenagem não comprada,<br> +Mas filha do caracter portuguez!</p> +</blockquote> + +<p>Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, +mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se +de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam +em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem +dirigindo a uma verdadeira realeza.</p> + +<p>Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia <em>Judith</em>. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais +tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes +da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava +Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli +com barbas de guerreiro.<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, +o do Baquet teria ardido n'aquella noite.</p> + +<p>Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi +acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de +«marche aux flambeaus», que se improvisou com mais +enthusiasmo do que archotes.</p> + +<p>Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um +dos <em>hoteis</em> da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante +a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o +das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam +quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam +estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e +pela Calçada da Madeira abaixo.</p> + +<p>Emilia das Neves, abafada n'uma <em>capeline</em> branca, +recebia da janella do <em>hotel</em> as saudações, alvejando como +uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso +pouco importa.</p> + +<p>Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no +couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo +acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.</p> + +<p>Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do +himno:</p> + +<blockquote> +<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br> +É pequena a corôa dos reis;<br> +Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br> +A corôa dos nobres laureis.</p> +</blockquote> + +<p>E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava +muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo +certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio +auctor e aos ouvintes de boa fé.</p> + +<p>E eu era então um d'elles.</p> + +<p>Isto foi em 1863.</p> + +<p>Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da <em>bella Emilia</em>, +o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram +a grande tragica portugueza em versos de toda +a especie; e até do theatro onde ella representou e +elles a cantaram.<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>O tempo é um demolidor terrivel?</p> + +<p>Gertrudes... Gertrudes não sei de que—toda a +gente dizia apenas a <em>Gertrudes</em>—pertencia a essa raça +privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia +das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.</p> + +<p>Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo +branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia +pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.</p> + +<p>E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de <em>grande +dame</em>, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e +na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos +mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela +morte.</p> + +<p>Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel +mordacidade de que dou noticia em mulher. +Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi +sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos +bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava +quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. +Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, +que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma +tesourava os anteparos de papelão, que armavam +á credulidade ingenua do publico.</p> + +<p>Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.</p> + +<p>Acabára de realisar-se em Paris a <em>première</em> de <em>Mr. +Alphonse</em> de Dumas Filho, e Santos, então á frente da +empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a +peça em tres dias.</p> + +<p>Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres +as noites, e foi justamente á noite que, passeando e +fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que +se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.</p> + +<p>D. Maria pôde finalmente dar a peça—por tal signal +que em beneficio de Brazão.<span class="pn">{138}</span></p> + +<p>Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, +encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos +os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. +Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me +esse facto, que redundava em proveito meu, +e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a +Gertrudes dizer em scena:</p> + +<p>—Vai-te d'aqui, meu estupor.</p> + +<p>Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, +o publico riu longamente, mas eu, fulminado, +desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos +a Gertrudes.</p> + +<p>Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava +ainda em scena.</p> + +<p>Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu +encontro.</p> + +<p>Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas +que com ella tinham estado em scena, disse-me:</p> + +<p>—Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas +o caso é que agradou.</p> + +<p>Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; +que eu podia ser accusado, com apparente +razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau +gosto, o original de Dumas.</p> + +<p>E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, +tomando um tom sentencioso, disse:</p> + +<p>—Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? +D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe +o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.</p> + +<p>E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.</p> + +<p>Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos +no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que +parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de +um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente +morta.»</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup> Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente +ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—N<small>OTA +DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{139}</span></p> + +<h2>XVI</h2> + +<h3>Actores celebres</h3> + +<p>Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já +alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria +da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno +<em>chalet</em> alcandorado pittorescamente sobre a praia dos +Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por +piedosa convenção, o ar do mar.</p> + +<p>Marcolino era um actor comico de subido merecimento, +muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o +do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, +e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:</p> + +<blockquote> +<p>Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;<br> +mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;<br> +golfão de riso e dôr, que ora serena,<br> +ora referve e escuma em sanha rude.</p> +</blockquote> + +<p>Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar +residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento +litterario e artistico do que pelas magras sopas +que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.<span class="pn">{140}</span></p> + +<p>Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um +<em>oiteiro</em> no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes +de hoje não sabem o que era um <em>oiteiro</em>. Pois +deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, +que a tradição da extincta Arcadia conservou +ainda por muito tempo. O <em>oiteiro</em> era o festival com +que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. +Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, +as freiras diziam das janellas para o pateo os motes +que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador +de <em>oiteiros</em>. No meu tempo, as coisas tinham +mudado já. Havia recepção na <em>grade</em> da abbadessa. O +feminino superior do convento sentava-se, dentro da +grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada +recentemente eleita. Fóra da <em>grade</em> havia um piano, +um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar +a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. +O mote era ainda obrigado, mas não constituia +o unico elemento essencial da festa, como n'outros +tempos.</p> + +<p>Foi n'esse <em>oiteiro</em> que eu ouvi Marcolino recitar, não +uma poesia comica, como se poderia esperar do genero +que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas +uma poesia lirica, <em>A borboleta</em>, de Thomaz Ribeiro, que +elle disse com um notavel primor de interpretação.</p> + +<p>Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:</p> + +<blockquote> +<p>Eu conheço-a! oh, se a conheço!<br> +sempre volitando anciosa,<br> +esbelta, fugaz, airosa,<br> +esquiva, amante, esquecida,<br> +eterno enygma na vida!...<br> +Eu conheço-a! ah, se a conheço!<br> +Estimo-a; estimal-a é grato;<br> +quero entendel-a... endoideço!</p> +</blockquote> + +<p>As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) +ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,<span class="pn">{141}</span> +tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio +que foi a ultima da sua vida.</p> + +<p>Eram duas horas da noite quando saimos da <em>grade</em>, +e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso +n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:</p> + +<blockquote> +<p>Tenho esta noite glosado<br> +Versos a esmo, a granel.<br> +Consenti, minhas senhoras,<br> +Que eu d'esta feita termine<br> +E que a vossos pés se incline<br> +Vosso servo: Pimentel.</p> +</blockquote> + +<p>Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. +Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! +Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se +de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural +de um antigo conde do Minho; morreu pouco +depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns +olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. +Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do <em>oiteiro</em> de S. Bento, porque tambem lá esteve: +o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com +grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um +soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança +em Africa.</p> + +<p>Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos <em>Pitorra</em>, +como dizia toda a gente, sem embargo de elle +ser, pelo seu altissimo valor artistico, o <em>grande Santos</em>.</p> + +<p>A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos +era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos +no Porto, eu frequentava os espectaculos e os +ensaios, o palco e o <em>foyer</em>, e escrevi por essa occasião, +julho de 1873, uns versos, que se intitulavam <em>Lirios</em>, +e que Emilia Adelaide recitára.</p> + +<p>Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia +de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, +n'aquella occasião, um desastre irremediavel.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; +mas, a breve trecho, encontrei a explicação do +facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; +comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar +todas as faltas da actriz.</p> + +<p>Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas +relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade +de um jantar que tivemos os tres no <em>Hotel Francfort</em>, +onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente +conversado, assistiu tambem a actriz Amelia +Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um +banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam +á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e +Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este +festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por +vezes as mãos dos convivas.</p> + +<p>Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor +Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que +elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o +Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão +com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do +sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel +da saudade...</p> + +<p>N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja +de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos +meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro +de D. Maria em 16 de maio de 1874.</p> + +<p>Paro um momento a lel-os:</p> + +<blockquote> +<p>Foi aqui—a historia o conta...<br> +Que entre flôres, palmas, himnos,<br> +Dos talentos peregrinos<br> +Brilhou a constellação.<br> +Era um loureiral a scena,<br> +O theatro escola e templo,<br> +Cada talento um exemplo,<br> +Cada palavra—lição.<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>Formoso e esplendido quadro!<br> +As bellas frontes rasgadas<br> +Resplandeciam banhadas<br> +Em misterioso fulgor...<br> +Grupo onde tudo era grande<br> +Merecia moldura d'ouro,<br> +Se tantas cordas de louro<br> +Não o cingissem melhor.</p> + +<p>Foi o tempo devastando<br> +As maravilhas da tela.<br> +Onde a loira Manuela?<br> +Onde Epiphanio, o pharol?<br> +Onde Sargedas, a graça?<br> +Onde Tasso e a sua gloria?<br> +Mais quatro nomes na historia,<br> +Mas não é posto inda o sol.</p> + +<p>Não é. O quadro tem vida.<br> +Move-se, agita-se, fala<br> +Remurmuram n'esta sala<br> +Os eccos da sua voz...<br> +Supponde muitas palmeiras<br> +Rasgando do céu as brumas...<br> +Quando o vento prostra algumas,<br> +As outras não ficam sós.</p> + +<p>Dos velhos heroes da scena<br> +Descem hoje sobre o espolio,<br> +No theatro-Capitolio,<br> +Flôres d'antiga ovação.<br> +É que um talento robusto,<br> +Honrando um nobre legado,<br> +Resuscita hoje o passado,<br> +Renova as flôres d'então.</p> + +<p>E a sua voz, que domina<br> +Da ovação a anciedade,<br> +É a voz da posteridade,<br> +Que da scena aos velhos reis<br> +Diz como um brado da historia:<br> +«La vos honrei o legado;<br> +«Se vos prostrou o passado,<br> +«Não sois mortos. Reviveis...»<span class="pn">{144}</span></p> +</blockquote> + +<p>E de todos estes versos, a que unicamente a saudade +de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, +ha um em que a minha attenção particularmente se +detém:</p> + +<blockquote> +<p>Mas não é posto inda o sol.</p> +</blockquote> + +<p>Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. +O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse +tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias +dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia +das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice +aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe +a gloria. E n'esse venerando cemiterio, +onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, +Santos sacrificava em honra de tantos mortos +illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle +proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do +velho theatro normal.</p> + +<p>Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo +interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.</p> + +<p><em>Não era posto ainda o sol</em>, porque elle era a luz crepuscular; +não estava inteiramente deserto o templo, +porque Santos o povoava ainda.</p> + +<p>Mas não havia outro laço vivo a prender o passado +ao presente senão elle.</p> + +<p>Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.</p> + +<p>Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada +que ia render-se.</p> + +<p>Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. +Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para +dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao +soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára +que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira +da eternidade...<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: +appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro +de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a +terceira no theatro da Trindade.</p> + +<p>Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a +alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era +uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a +de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando +através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos +cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.</p> + +<p>Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, +porque os actores morrem no dia em que são obrigados +a abandonar o theatro.</p> + +<p>A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. +Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a +revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como +um <em>sans-culotte</em> implacavel, arrastava-o para o <em>Temple</em>, +as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, +a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. +N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz +do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma +vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo +Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: <em>Ah! a natureza +humana não tem força para mais!</em></p> + +<p>O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença +era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos +do <em>Temple</em>: era a sua familia que entrava para +trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida +incomportavel! que devia durar cinco mezes, +sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão +n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.</p> + +<p>A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz +commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza +de infortunio!</p> + +<p>Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença +havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a +sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto<span class="pn">{146}</span> +fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa +por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.</p> + +<p>Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando +de uma familia orphanada, o theatro portuguez +soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.</p> + +<p>Era o Delphim que pranteava a morte do rei...</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: +o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.</p> + +<p>Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer <em>partidas</em>: +algumas conta elle proprio nas suas <em>Memorias</em>. +Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. +Quando cantava com Taborda o <em>duetto</em> de <em>Moysés</em>, ou +representava os <em>Dois candidatos</em> e <em>Para as eleições</em>, era +da gente rebentar a rir.</p> + +<p>Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, +estava doente, triste, muito velho. A troça indigena +mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um +pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente +um defeito de escola, mas, em compensação, todos os +artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. +Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, +para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.</p> + +<p>No trato particular, um perfeito cavalheiro.</p> + +<p>Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, +dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se +a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente +o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que +pretendia então um logar na alfandega.</p> + +<p>Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como +em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio +do <em>Adamastor</em>, de Camões, e o <em>Firmamento</em>, de +Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma <em>reprise</em> do +<em>Marquez de lá Seiglière</em>, que foi o seu cavallo de batalha.<span class="pn">{147}</span></p> + +<p>Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange +de actores antigos capazes de investirem com a tragedia +e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os +defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos +tres, de que tenho falado, o mais <em>poseur</em>: toda a gente +se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa +com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio +ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a +até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo +botas.</p> + +<p>Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros +actores notaveis</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O +celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: +«Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: +é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, +com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão +um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»</p> + +<p>A sua dicção, um pouco <em>saccadée</em>, era cristallina, sonora. +Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor +do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse +estar melhor em scena.</p> + +<p>Vi o Sargedas no <em>Gaiato de Lisboa</em>, no theatro de +S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, +fazia o <em>Gaiato</em> como se estivesse ainda em idade +de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, +só os consegue o talento.</p> + +<p>Antonio Pedro é um morto de outro dia.</p> + +<p>Fóra do theatro, a sua <em>gaucherie</em> passava em proverbio. +No theatro era um grande actor por intuição, +tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, +simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua +assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo +palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam<span class="pn">{148}</span> +a ignorancia manifesta em questões de arte +dramatica.</p> + +<p>Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma +modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou +assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle +proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua +organisação artistica.</p> + +<p class="centrado">*</p> + +<p>Com o Tasso convivi durante uma <em>tournée</em>, no Porto; +com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico +assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição +d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer +diabrura tipographica.</p> + +<p>Já isso vai ha tanto tempo! + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{149}</span></p> + +<h2>XVII</h2> + +<h3>Pintores</h3> + +<p>No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra +como vogal da commissão de exames de instrucção +secundaria.</p> + +<p>Coimbra, a <em>terra de encantos</em>, só então me pareceu +tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante +um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, +a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco +agradavel.</p> + +<p>Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes +verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, +manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, +toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por +entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.</p> + +<p>Uma delicia!</p> + +<p>De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, +arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas +de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na +Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.</p> + +<p>A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores<span class="pn">{150}</span> +do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos +uns aos outros nos passeios de todas as +tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem +estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar +sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte +do juri de desenho.</p> + +<p>Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, +e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um +extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o +rodeava.</p> + +<p>Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas +d'aquella clara paizagem, lucida e placida como +uma vista de stereoscopo.</p> + +<p>Pois que o pintor Christino tinha a configuração de +um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos +observando, podiamos distinguir, até grande +distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, +que destacavam á prôa do barco.</p> + +<p>Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem +do poente que a sua cabeça descoberta, e mal +guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. +Christino reunia mentalmente á belleza do panorama +as tradições romanticas, as memorias lendarias +d'aquella margem. D'esse lado ficava a <em>Fonte +dos amores</em> emboscada saudosamente na sombra de +corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a +elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, +á distancia de dois kilometros da cidade, a <em>Lapa +dos esteios</em>, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado +sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava +os tempos semi-pagãos em que o poeta da +<em>Primavera</em> e os seus amigos ali foram, em plena mocidade, +celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio +que traz as flores e os canticos, os perfumes e +os amores.</p> + +<p>Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, +tinha uma alma de artista, era uma organisação<span class="pn">{151}</span> +delicada como a de Raphael, que se devorava +nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente +do que elle poderia sentir toda a poesia +d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que +as recordações e as arvores povoam.</p> + +<p>Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se +uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do +Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. <em>Ó dolce +voluttá</em>! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! +Que doces horas aquellas que o Christino passou +no Mondego sonhando sobre as aguas!</p> + +<p>Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou +abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse +ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. +É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto +a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios +ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. +Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma +longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece +ao cabo de algumas horas de concentração.</p> + +<p>Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes +tornei a avistar-me com o pintor Christino.</p> + +<p>Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra +morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha +empallidecido primeiro que a dos olhos...</p> + +<p>Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles +sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente +devoradores!...</p> + +<p>Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista +notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda +de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. +Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, +olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, +era comtudo facil e agradavel.</p> + +<p>Amador da natureza, ia procural-a no panorama que +d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que<span class="pn">{152}</span> +os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.</p> + +<p>Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por +S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. +Os olhos conservavam o seu brilho agareno. +Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por +vinte e quatro horas.</p> + +<p>No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação +havia morrido repentinamente.</p> + +<p>E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, +o panorama oriental da cidade parecia provocar, +na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.</p> + +<p>Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, +sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito +dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...</p> + +<p>Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente +nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos +branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era +aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, +parecia vender saude.</p> + +<p>Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, +n'uma <em>soirée</em> litteraria que o visconde de Castilho (Julio) +déra na sua casa da rua de S. João da Matta em +honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.</p> + +<p>Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem +augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o +porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, +e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de +convicção dava-me estimulo.</p> + +<p>Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar +na rua um homem que se mostra desanimado por +ser obrigado a trabalhar...</p> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{153}</span></p> + +<h2>XVIII</h2> + +<h3>Um grupo de academicos</h3> + +<p>Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—<em>Trente ans de Paris</em>—lembrei-me muito de Teixeira +de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de +Villemessant.</p> + +<p>O livro (collecção Guillaume & C.<sup>ie</sup>) é illustrado, e +até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, +nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.</p> + +<p>Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. +Encontrei-me varias vezes com elle nas <em>soirées</em> politicas +de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes +em sua casa, graças á benevolencia com que desde +o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem +de mundo, um <em>gentleman</em>, espirituoso, algum +tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas +escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que +mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.</p> + +<p>Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer +parte da redacção do <em>Jornal da Noite</em>. Eu precisava<span class="pn">{154}</span> +trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre +me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança +de que o <em>gentleman</em> das salas havia de continuar +a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. +Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, +pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por +vezes brusco, um homem muito differente, tomando +sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de +dono de jornal.</p> + +<p>Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem +razão para queixar-me.</p> + +<p>Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o +dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira +de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu +jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.</p> + +<p>As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, +rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente +os homens com quem, no trato familiar +de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.</p> + +<p>Foi o que aconteceu comigo.</p> + +<p>Depois que sai da redacção do <em>Jornal da Noite</em> vivemos +deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o +com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me +gentilissimamente. E algumas vezes, na minha +presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, +como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant +para os outros, voltava-se para mim sorrindo +e continuando a conversar placidamente.</p> + +<p>Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que +foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre +um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a +dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.</p> + +<p>Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, +mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido +para uma publicação do editor Chardron e que, +não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio +d'aquelle editor.<span class="pn">{155}</span></p> + +<p>Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior +valia. Pena é conservar-se inedito.</p> + +<p>Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, +mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições +da experiencia.</p> + +<p>Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle +me deu:</p> + +<p>—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um +livro bom, elogie-o.</p> + +<p>Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando +o não sigo, arrependo-me.</p> + +<p>Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. +Passou metade da sua vida a estudar e outra +metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava +ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que +elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto +e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, +Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que +fôra bibliothecario durante muitos annos.</p> + +<p>É frequentissimo compulsar um livro qualquer da +Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta +que diz: «<em>Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho +para preencher a falta do exemplar da livraria.</em>»</p> + +<p>Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para +mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da +Academia.</p> + +<p>Eu, que desde alguns annos converso mais os livros +que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a +passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, +que ás vezes parece mais morto que +vivo.</p> + +<p>Não conheci nunca, no trato particular que tive com +Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. +Queixava-se, é certo, mas não se queixava +mais nem menos do que todos quantos julgavam ter +razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade +de homens do mesmo officio sem razões de<span class="pn">{156}</span> +queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo +officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma +profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou +não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, +que têem serralho.</p> + +<p>O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho +foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. +Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, +por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente +de uma posição obscura, e litterariamente do +lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com +um livro de versos, o <em>Diwan</em>. Mas á força de trabalho +e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu +com as mais intrincadas questões de philologia, +de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, +por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie +do mundo litterario, como professor e academico, +certamente teria que combater e que soffrer, porque +ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...</p> + +<p>Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, +com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente +novo.</p> + +<p>A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria +no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador +de não sei que disciplina de instrucção secundaria; +eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos +toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, +coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. +Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua +bella figura de homem forte destacava-se como a de +um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, +e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. +Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor +com as rosas.</p> + +<p>Lembro-me de que á despedida elle me dissera:<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>—Olhe lá. Voce diz no <em>Guia do viajante no Porto</em> +que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como +os mexilhões.</p> + +<p>Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.</p> + +<p>Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, +sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado +que não se sabia bem o que elle queria dizer ou +fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo +uma obra litteraria que pudesse dar na vista á +posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e +em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua +mocidade, <em>A Semana</em>, por exemplo. O que lhe conheço +de melhor são as monographias sobre D. Catharina de +Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os <em>Estudinhos de +lingua patria</em>, publicados no <em>Archivo Pittoresco</em>. De resto +não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. +Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, +era um homem de vastos conhecimentos litterarios.</p> + +<p>Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde +ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo +vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que +lhe escapára por falta de catalogação.</p> + +<p>Quando eu escrevi o <em>Livro das lagrimas</em> para a casa +Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca +havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.</p> + +<p>Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me +logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam +do assumpto.</p> + +<p>E no dia seguinte mandou-me para casa não menos +de outros quinze livros.</p> + +<p>Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás +vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo +sempre distraido, respondia affirmativamente. +Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá +se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não +tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava +accordo de si, satisfatoriamente.<span class="pn">{158}</span></p> + +<p>Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, +e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, +mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, +não só porque elle o perdia com os outros, mas porque +tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a +Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. +E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. +Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.</p> + +<p>Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um +estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava +muito estas qualidades nos outros, especialmente em +Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, +teve uma grande admiração. <em>A Semana</em>, jornal que +Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente +Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo +passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, +o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, +e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas +admiradores do eminente romancista.</p> + +<p>Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se +no <em>Hotel Universal</em>. Jantei ali com elle e, +quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da +noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo <em>por +mestre</em>.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{159}</span></p> + +<h2>XIX</h2> + +<h3>Conselheiro Viale</h3> + +<p>Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me +ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios +da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever +um romance historico.<sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup></p> + +<p>Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o +romance <em>Annel mysterioso</em> começou a ser publicado em +fasciculos.</p> + +<p>Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. +Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, +para seguir-se immediatamente ao <em>Annel mysterioso</em>.</p> + +<p>Aquelles editores davam como razão d'esta proposta +o facto de ser recebido com agrado o meu romance que +estavam publicando.</p> + +<p>Confesso francamente que me encontrei n'uma situação +embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil +agradar na repetição, e de que a empresa editora +poderia ser prejudicada pela aventura de querer que +eu succedesse a mim proprio. <em>Non bis in idem</em>, diz o +proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto +que lograsse despertar maior interesse do que o <em>Annel +mysterioso</em>,<span class="pn">{160}</span> e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me +haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda +explorada a lenda piedosa que se havia formado em +torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que +esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. +Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em +meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação +do <em>Annel mysterioso</em>, seguiu-se immediatamente a +da <em>Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V</em>. +E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que +deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu +pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,<sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup> com tipographia +na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho +de que é inteiramente exacta a minha narrativa.</p> + +<p>Comecei a escrever a <em>Porta do Paraiso</em> no Porto. A +meio do romance, caiu-me em casa um despacho para +a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim +tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos +da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. +Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui +os ultimos capitulos.</p> + +<p>Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como +um Creso na rasão de 600 réis por dia...</p> + +<p>Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.</p> + +<p>Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa +que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe +apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. +Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas +que logo põem em evidencia um homem, ainda que +elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha +provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico +notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um +actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, +laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca +Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. +Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça +de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma +lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco +alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, +destacava as suas palavras n'um tom gravemente +conceituoso, que o habito do professorado explicava. E +na sua maneira de pronunciar havia um <em>tic</em> original, +que fazia retinir algumas sillabas.</p> + +<p>Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado +das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho +academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos +arraiaes litterarios, era «<em>Place aux jeunes</em>», ainda que +para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os +velhos.</p> + +<p>Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça +pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. +A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que +sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se +com razão de que a multidão dos novos passasse sob +a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, +ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo +por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.</p> + +<p>Falou-me da <em>Porta do Paraiso</em>, disse-me que o livro +lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V +é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; +e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez +á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito +um opusculo, que eu alias só conhecia por uma +transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o +d'alli a dias: <em>Apontamentos para uma biographia de S. +M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima +memoria</em>, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.</p> + +<p>Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos +evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando<span class="pn">{162}</span> +a firmeza convicta de um crente. Viale viveu +sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e +acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; +homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como +Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da <em>Illiada</em> ou uma ode de Pindaro.</p> + +<p>Collaborou no <em>Jornal da Sociedade Catholica</em>, redigiu +o <em>Catholico</em>, traduziu o primeiro canto da <em>Odissea</em>, +o sexto da <em>Illiada</em>, os cinco primeiros cantos do <em>Inferno +de Dante</em>, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou +em oitava rima a historia de Portugal, propagando +pelas escolas de instrucção primaria as tradições +gloriosas do passado.</p> + +<p>A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da +sua alma; traça com uma linha geographica os limites +da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição +grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, +foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.</p> + +<p>Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze +annos publicou um poema heroico, <em>David triumphante</em>, +entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. +Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que +parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, +invadida pelos turcos, salvando sobraçado o +ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou +cantando o amor, como todos, adejando por sobre +os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se +na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em +Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, +preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente +á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas +na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem +na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo +da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. +Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do +passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção<span class="pn">{163}</span> +era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se +tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu +atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem +que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem +fazel-o vacillar um momento.</p> + +<p>Eu tenho aqui, deante de mim, as <em>Tentativas Dantescas</em> +do conselheiro Viale, a sua traducção do <em>Inferno</em> +prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro +V.</p> + +<p>As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de +seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, +constituem a mais amavel das dedicatorias.</p> + +<p>Eu era por esse tempo professor de historia de seu +filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, +nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. +O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, +as mais subidas provas de consideração em que eu não +deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae +através dos repetidos favores com que o academico, o +professor, o hellenista confundiam a minha humildade +de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official +dos meritos de seu filho, não dependia de mim a +sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale +me pedia, de um modo captivante, que ensinasse +áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo +quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse +ministrar.</p> + +<p>Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns +annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro +Viale.</p> + +<p> </p> + +<p>Maio de 1889.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup> Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo +Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião +de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—<em>Nota da +2.ª edição.</em></p> + +<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram +com a tipographia, que ainda subsiste.—<em>Nota da 2.ª edição.</em></p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{164}</span></p> + +<h2>XX</h2> + +<h3>Eduardo Coelho</h3> + +<p>Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...</p> + +<p>A noite estava clara, levemente fria. Principiava a +sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, +á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, +de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As +confeitarias resplendiam num grande espelhamento +de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam +o <em>Jornal da Noite</em>, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, +era a unica folha que saía depois de posto o +sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado +e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade +alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se +um formigueiro de espectadores, dobrando +a esquina do largo das Duas Egrejas, onde +hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores de <em>cautelas</em> +rouquejavam o pregão da <em>taluda</em>, o 4897, perseguindo +a gente.</p> + +<p>Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,<span class="pn">{165}</span> +diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, +mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem +de recordações esfumadas, de memorias fugitivas +d'aquella noite de festa.</p> + +<p>Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, +eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi +tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente +isenta de difficuldades, por certo.</p> + +<p>Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo +Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a +amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de +encontrarmo-nos <em>definitivamente</em>, fosse eu á redacção +do <em>Diario de Noticias</em>, ás nove horas da noite.</p> + +<p>Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as +ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no +Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua +dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do <em>Diario +de Noticias</em> é de recente data.</p> + +<p>Complica-se com o encruzamento de varias travessas +a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, +comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente +no Bairro Alto, assim como tambem não são +capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do +Bairro d'Alfama.</p> + +<p>Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, +o caminho do <em>Diario de Noticias</em>, e não me ficou +barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei +heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta +sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada +topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, +sabe Deus com que trabalho!</p> + +<p>Finalmente, entrei na redacção do <em>Diario de Noticias</em> +quarenta minutos depois da hora aprazada.</p> + +<p>Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira +vez, embora tivesse estado com elle em communicação +epistolar, a causa da minha demora.</p> + +<p>Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,<span class="pn">{166}</span> +riu da minha aventura e, ficando silencioso um +momento, acabou por dizer-me:</p> + +<p>—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. +Você é um homem capaz de luctar, de soffrer +para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do +<em>Diario de Noticias</em>, mas ganhou o ficar habilitado a tornar +cá com os olhos tapados.</p> + +<p>Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, +captivou-me com aquella sincera bonomia que era a +feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos +amigos.</p> + +<p>Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro +ou quarto acto de uma comedia, que já não sei +como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, +Eduardo Coelho despediu-se. <em>Ia fazer a meia +noite, com a sua familia</em>, disse-me. Eu não sabia o que +era <em>fazer a meia noite</em>. Coelho riu-se.</p> + +<p>—É o que lá, para as nossas provincias, se chama +a consoada, a ceia do Natal.</p> + +<p>Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo +Coelho, proprietario e redactor principal do <em>Diario de +Noticias</em>.</p> + +<p>Em maio de 1889 chegava eu á <em>gare</em> de Campanhã, +no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, +que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi +dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo +o <em>Jornal da manhã</em>:</p> + +<p>—Morreu o Eduardo Coelho.</p> + +<p>—De repente?</p> + +<p>—Sim, de repente.</p> + +<p>—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada +constava...</p> + +<p>Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador +e alegre, que foi, deve dizer-se, <em>uma das forças +do seu tempo</em>.</p> + +<p>Depois de haver sido um dos <em>vencidos da vida</em> (não +no sentido pantagruelico que esta denominação está<span class="pn">{167}</span> +tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle +conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que +o salvasse.</p> + +<p>Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores +porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha +ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho +teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser +pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: +lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.</p> + +<p>Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. +Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a +sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que +elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, +já não poderá desgarrar-se.</p> + +<p>Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances +e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo +o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato +no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole +noticiosa e popular do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do +circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e +se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte +por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se +em liberdade n'um volume independente, que era uma +especie de gazeta feita... á gazeta.</p> + +<p>Mas os moldes do <em>Diario de Noticias</em> nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que +ensombrasse a noticia, a <em>blague</em> phantasista nunca se +permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.</p> + +<p>Dizer o que se passava, com uma grande investigação +de pormenores, mas sem refolhos de linguagem +que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, +eis o proposito inicial do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>Contar as occorrencias como qualquer pessoa que +chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira +impressão, e sem retoques de litteratice, n'um<span class="pn">{168}</span> +tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro +andar como para a velhinha do quinto, eis o que +o <em>Diario de Noticias</em> se propoz conseguir, e realisou.</p> + +<p>Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam +ás vezes a epiderme do <em>Diario de Noticias</em>: +queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em +estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade +que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do +<em>Martinho</em>. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, +e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, +ia construindo predios na rua dos Cardaes ao +passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas +com peor orientação, viviam em casa de renda, com +difficuldade em pagal-a.</p> + +<p>Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, +conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com +o <em>Diario de Noticias</em>, que, se o lermos com attenção, +é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante +nudez da sua verdade anatomica.</p> + +<p>Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os +litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro +de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos +mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo +das nossas predilecções pessoaes ou politicas; +mas o <em>Diario de Noticias</em> diz-nos o que ha a dizer +com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, +faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para +lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e +não é um concorrente perigoso para as novas empresas +jornalisticas, porque os dez réis que elle custa +cristalisaram no orçamento domestico da população +lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não +entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, +que hajamos de fazer com os outros jornaes que +se vendem avulso.</p> + +<p>A velhinha da mansarda já tem como certo que, além +do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um<span class="pn">{169}</span> +vintem por dia: dez réis para o seu <em>Diario de Noticias</em>, +dez réis para o carapau do seu gato.</p> + +<p>Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou +chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem +preliminarmente o <em>Diario de Noticias</em>, encostados ás +esquinas das ruas.</p> + +<p>Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma +extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha +para amealhar, com os olhos postos no seu ideal +gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato +das <em>maltas</em>, para alimentação, renda de casa e despesas +miudas, entra a verba effectiva do <em>Diario de Noticias</em>, +cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, +para o grupo todo.</p> + +<p>É isto ou não é isto?</p> + +<p>Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou +n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, +mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia +não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do <em>Diario de Noticias</em>.</p> + +<p>No proprio dia em que elle se enterrava, o <em>Diario +de Noticias</em> appareceu carregado de annuncios: era a +affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde +e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente +n'uma instituição lisbonense.</p> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{170}</span></p> + +<h2>XXI</h2> + +<h3>Marquez de Thomar</h3> + +<p>Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar +n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse +mais o biberon do que a politica.</p> + +<p>Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me +sofregamente para ella e, segundo o testemunho +de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á +politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.</p> + +<p>Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas +de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, +haveriam notado a coincidencia do meu nascimento +com um dos periodos mais agitados da politica +portugueza.</p> + +<p>Teriam gritado: predestinação! E diriam, <em>una voce</em>, +que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) +nascera sob a influencia da grande lucta travada entre +os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta +feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima +cartada.</p> + +<p>Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a <em>Maria da Fonte</em>, o conde de Thomar fugira para Hespanha,<span class="pn">{171}</span> +mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o +de novo ao poder.</p> + +<p>1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda +republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos +poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista +de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época +do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação +da republica em França e quando estava germinando +a <em>regeneração</em>, foi que me estreei n'este mundo, +envolto nas faxas infantis.</p> + +<p>Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea +os destinos humanos—não quiz que eu viesse a +ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de +mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo +notavel.</p> + +<p>No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, +nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao +facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter +sido annunciado pelo himno da <em>Maria da Fonte</em>.</p> + +<p>Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente +morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção +para a época da sua decadencia politica. Eu entrei +n'este mundo durante os <em>cem dias</em>, posso dizel-o assim, +de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve +tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera +restauração.</p> + +<p>O que é certo é que vim encontrar o mundo politico +portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei +se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente +seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se +pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... +E assim foi que correu a minha primeira infancia +derivando por entre dois nomes, de que se falava +muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, +que tinha caído definitivamente em 1851, e o +marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o <em>Espectro</em> e a <em>Maria da +Fonte</em>, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas +populares do Minho contra a familia dos Cabraes.</p> + +<p>Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época +nem sequer poupava a esposa do ministro caido:</p> + +<blockquote> +<p>Luizinha, agora, agora...</p> +</blockquote> + +<p>Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer +pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse +tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este +modo completar as fugitivas e incertas impressões que, +para assim dizer, trouxera do berço.</p> + +<p>Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque +é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto +na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo +caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços +d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva +e insinuante.</p> + +<p>Vi o Sampaio da <em>Revolução</em>... de guardanapo ao +pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e +comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o +terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor +do <em>Espectro</em>, o ardente pamphletario de 1846, +vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais +tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em +politica.</p> + +<p>Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, +ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de +triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o +seu uniforme de general, deitado no modesto leito que +os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado +um pallido clarão indeciso.</p> + +<p>Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo +vigor de homem forte para a sua cadeira de par do +reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi<span class="pn">{173}</span> +as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, +sem excepção dos antigos patuléas <em>enragés</em>.</p> + +<p>É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, +saciado as impaciencias, envelhecido os homens.</p> + +<p>Chegára a <em>paz geral</em>, que o meu excellente amigo +D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup> havia +prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado +armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado +com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio +Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á +sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio +Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez +de Thomar.</p> + +<p>Em que abismo de recordações não mergulharia o +espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz +depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam +da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos +do combate, que o ardor póde ser eterno, e que +as suas proprias paixões hão de queimar durante toda +a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam +intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das +noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos +de outr'ora, que se desfizeram em fumo!</p> + +<p>Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio +sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez +de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, +meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles +diziam...</p> + +<p>Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a +onda revolucionaria da <em>Maria da Fonte</em> tinha rolado +para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações +no papel do que nos homens.</p> + +<p>Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, +por dentro e por fóra, a natureza humana.<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio +deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem +mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia +em determinadas aptidões; mas a energia de caracter +tinha sido igual em todos tres.</p> + +<p>Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á +mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram +precisas duas revoluções para o derrubar, porque +á primeira resistiu elle.</p> + +<p>Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a +penna, combatera-o implacavelmente com o <em>Espectro</em>, +amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. +Homem para homem; coragem por coragem.</p> + +<p>Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os +embates, que procuravam lançal-o por terra na sua +gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar +todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, +chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.</p> + +<p>Todos esses tres homens foram dominadores por +sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos +tres eram corações generosos, almas de bom timbre, +expansivas e affectuosas.</p> + +<p>Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos +podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão +lá do alto a sombra que projectaram na terra, +e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos +parece enorme. Porque, descontadas no homem politico +as suas paixões, as suas furias de momento, o que a +seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa +pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos +a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos +vendo através da historia...</p> + +<p>Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito +de Costa Cabral, algumas notas discordantes.</p> + +<p>Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, +mas a primeira condição para apreciar um homem politico +deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial<span class="pn">{175}</span> +das circumstancias em que se encontrou. É preciso +reconstruir toda uma época para julgar com segurança +um homem politico. E as circumstancias em +que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas +por que tem passado o governo constitucional +n'este paiz.</p> + +<p>Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario +e conservador. Esta accusação póde ser +fulminada contra a maior parte dos homens politicos +de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é +tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar +é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira +de Mello.</p> + +<p>Pois bem, os homens de estado têem que obedecer +ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas +como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente +lançada na circulação, explica bem todas +as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.</p> + +<p>Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral +de renegado.</p> + +<p>Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde +ser feita igual accusação!</p> + +<p>Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, +essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas +vezes á vontade dos homens, subjugando-a.</p> + +<p>Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha +principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, +nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de +Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. +Em politica tem-se visto tal paiz, como a França +por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. +E cada individuo muda dentro de si mesmo +centenas de vezes.</p> + +<p>Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo +da maior solidariedade politica que depois de 1834 se +tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se<span class="pn">{176}</span> +dos mais dedicados amigos. Quem não era por +elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, +praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A +união faz a força.</p> + +<p>O sr. Oliveira Martins accusa-o, no <em>Portugal Contemporaneo</em>, +de ter governado sem um principio moral. +Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, +e procurae os principios moraes de todos os governos... +Haveis de ficar ricos com o achado!...</p> + +<p>Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver +a viação publica, como o fez Fontes Pereira de +Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes +operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.</p> + +<p>Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.</p> + +<p> </p> + +<p>Setembro de 1889. + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> Esbocei saudosamente o seu perfil no livro <em>Figuras humanas.—Nota da 2.ª edição</em>. +</div> + +<hr style="width: 30%"> + +<p> <span class="pn">{177}</span></p> + + +<h2>XXII</h2> + +<h3>Alexandre da Conceição</h3> + +<p>Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na +Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na +imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas +novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias +d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição +ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, +que haviam quasi abandonado as musas a esse +tempo.</p> + +<p>Principiou militando nas fileiras do romantismo, que +era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu +em volume as suas poesias sob o titulo de <em>Alvoradas</em>. +E dez annos depois fez segunda edição augmentada com +novas composições.</p> + +<p>Como poeta, se não podia medir-se com a estatura +genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. +Dou como <em>specimen</em> aquella das suas poesias que +teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro <em>Alvoradas</em>,<span class="pn">{178}</span> +póde ajuizar, pelo <em>specimen</em>, do valor de Alexandre +da Conceição como poeta:</p> + +<blockquote> +<p style="margin-left: 6em;">PERGAMINHOS</p> + +<p>Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;<br> +Eu tenho mais orgulho do que pensas<br> + E rio-me tambem;<br> +É debalde que tentas humilhar-me,<br> +Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!<br> + Que tambem sou alguem.</p> + +<p>Alguem que veio ao mundo sem familia,<br> +Um producto do acaso, um paria, um misero,<br> + Um engeitado emfim,<br> +Um sêr sem protecção das leis canonicas,<br> +Filho sem pae no assento do baptismo,<br> + Mas um sêr, inda assim.</p> + +<p>Levantou-me da estrada do infortunio<br> +Um homem que entendeu que um filho espurio<br> + Tem jus a protecção,<br> +Um homem que entendeu que é vil e infame<br> +Atirar para o lodo dos hospicios<br> + Uma alma em embryão.</p> + +<p>Este homem deu-me a força do seu braço,<br> +Legou-me em vida o seu honrado nome...<br> + Vestiu quem era nu,<br> +Depois, quando me viu robusto e forte,<br> +Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,<br> + Trabalha agora tu.»</p> + +<p>Luctei, passei curvado sobre os livros<br> +A mais florida quadra dos meus dias<br> + Sereno a trabalhar;<br> +Estudei, progredi, illuminei-me<br> +E um dia para entrar em novas luctas,<br> + Pude emfim descançar.</p> + +<p>É que eu vi as premissas da victoria,<br> +O applauso espontaneo dos estranhos<br> + Incitar-me a seguir,<br> +É que eu via deante dos meus passos<br> +Rasgar-se ampla, infinita, luminosa<br> + A estrada do porvir.<span class="pn">{179}</span></p> + +<p>Se alguma cousa sou a mim o devo,<br> +Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,<br> + Ao amor de meus paes,<br> +Á força de vontade, á intelligencia,<br> +Á sociedade pouco, ás leis bem menos...<br> + E a ti não devo mais.</p> + +<p>E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?<br> +E és tu que vens fallar-me nas riquezas<br> + Que o destino te deu?<br> +Eu não troco os meus louros de poeta,<br> +As conquistas do estudo e o meu futuro<br> + Por tudo quanto é teu.</p> + +<p>És louca!... Sabes lá que orgulho é este<br> +Do homem que a si só deve o que vale<br> + E que espera valer?<br> +Ha lá brazões illustres que equilibrem<br> +Estes louros viçosos d'um triumpho<br> + Que soubemos mercer?</p> + +<p>És louca! Sabes lá como eu sou rico,<br> +Rico de muita honra e muita esp'rança<br> + E muito coração?<br> +És louca! Mostra a escravos as riquezas,<br> +Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,<br> + Sou bastante christão.</p> + +<p>E quem te disse a ti que eu te invejava<br> +Esse ouro, que é teu unico prestigio<br> + E o nome a teus avós?<br> +Orgulhosa!... pois julgas decidido<br> +Qual seja, n'esta lucta de vaidades,<br> + O mais nobre de nós?</p> + +<p>Pois julgas que ser nobre é mero acaso,<br> +Uma questão de berço ou de destino,<br> + Uma questão de paes?<br> +Não vês que se a nobreza fosse heranca,<br> +Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,<br> + Seriamos eguaes?</p> + +<p>E não somos, bem vês, porque a nobreza<br> +Não se lega, conquista-a a intelligencia,<br> + O talento, as acções;<span class="pn">{180}</span><br> +Ora eu, se me permittes a vaidade,<br> +Colloco um pouco abaixo dos meus louros<br> + Todos os teus brazões.</p> + +<p>Devolvo-te portanto os teus insultos<br> +E a suspeita de te adorar os risos,<br> + Que nunca mendiguei;<br> +Se és bella e tens orgulhos de rainha,<br> +Mulher, entende bem, eu sou poeta,<br> + Tenho orgulhos de rei.</p> + +<p>Que é esta a nossa força; n'estes tempos<br> +Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro<br> + Para nos insultar,<br> +É modestia a orçar pela baixeza<br> +Não fazermos sentir aos maus e aos futeis<br> + Quem devem respeitar.</p> + +<p>Não me compares, pois, a horda ignara<br> +Que te adora os sorrisos pelo ouro...<br> + Eu tenho coração,<br> +Tenho por pergaminhos o trabalho,<br> +Por thesouros a minha intelligencia<br> + E a honra por brazão.</p> + +<p>Nós, os homens que andamos procurando<br> +Á luz do coração por este mundo<br> + Os caminhos do bem,<br> +Como trazemos alto o pensamento<br> +E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,<br> + Bem vês, como ninguem.</p> +</blockquote> + +<p>Em 1867 publicou o poemeto <em>Abençoada esmola</em>, que +considero inferior á maior parte das composições incluidas +nas <em>Alvoradas</em>.</p> + +<p>A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de +o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, +sente-se ainda na <em>Abençoada esmola</em> a destreza +de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado +a prosaicas occupações.</p> + +<p>E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar +poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. +Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito<span class="pn">{181}</span> +discutimos n'uma serie de cartas publicadas no <em>Jornal +do Porto</em> desde dezembro de 1871 a março de 1872.</p> + +<p>A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos +do que eramos antes. Uma das minhas primicias +litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da +Conceição n'um folhetim do <em>Nacional</em>. Quando a questão +rompeu no <em>Jornal do Porto</em>, tudo fazia suppôr que +viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa +fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante +com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, +sem embargo das nossas frequentes divergencias de +opinião, especialmente em politica.</p> + +<p>Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido +em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas +vezes veio á imprensa, com nobre independencia, +affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia +de situação que lhe atasse os braços. O seu +caracter era resoluto na expansão das suas convicções.</p> + +<p>Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera +peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito +do <em>Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia +no tempo dos Cabraes</em>.</p> + +<p>Na <em>dedicatoria</em> declarava Camillo o intento que o demovera +a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me +um dia se um velho escriptor de antigas novellas +poderia escrever, segundo os processos novos, +um romance com todos os <em>tics</em> do estylo realista. Respondi +temerariamente que sim.»</p> + +<p>O <em>Euzebio Macario</em> foi a justificação d'esta affirmativa, +d'este compromisso espontaneamente tomado.</p> + +<p>Camillo, o inexcedivel romantico do <em>Amor de perdição</em>, provou o seu pulso de escriptor realista no <em>Euzebio Macario</em> e, depois, na <em>Corja</em>. Evidenciou, com uma +superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, +não havia para elle barreiras que lhe tolhessem +o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.<span class="pn">{182}</span></p> + +<p>Alexandre da Conceição que principiara, como todos +os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira +em philosophia para o positivismo, e em litteratura para +o realismo.<sup><a href="#nota16" name="m_nota16">[16]</a></sup> Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se +talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. +Não viu deante de si o homem eminente que se chamava +Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no +<em>Euzebio Macario</em> a pretensão <em>de lançar o ridiculo sobre +a escola realista</em>.</p> + +<p>D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se +transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo +tinham uma natural explicação no facto de ser reptado +violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham +do afôgo com que elle abraçava os processos +litterarios da escola realista.</p> + +<p>O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De +parte a parte não houve trepidação que esfriasse o +ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista +insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os +excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, +aguentou-se rijamente no combate.</p> + +<p>Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal +têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque +Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios +do seu contendor.</p> + +<p>Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, +no <em>Café Marrare</em>, n'uma calmosa manhã, em que ali +entrámos.</p> + +<p>O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade +publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, +divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que<span class="pn">{183}</span> +nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa +cruel peleja.</p> + +<p>... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que +resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a +Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado +contra as trevas, arremessou a sua alma para +as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. +Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade +da morte, não é mais do que o envolucro decomposto +d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella +alma ardente, mas fidalga.</p> + +<p>E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças +ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem +pão.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota16" name="nota16">[16]</a></sup> Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais +tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de <em>Notas, ensaios +de critica e de litteratura.</em>—<em>Nota da 2.ª edição.</em></p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{184}</span></p> + +<h2>XXIII</h2> + +<h3>Julio Cesar Machado</h3> + +<p>No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos +espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra +flôr, que no campo chamam <em>bons dias</em>, quando a tarde +principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...</p> + +<p>A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, +que desperta voltada para o oriente, e que sempre +vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor +sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo +diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida +por uma dolorosa noticia...</p> + +<p>A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos +cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, +espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das +quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar +por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria +sem lhe dar um momento de attenção em passando...</p> + +<p>A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes<span class="pn">{185}</span> +com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes +paragens, parece cantar na festiva expansão do seu +perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem +florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, +para occultar a sua commoção, como tambem ás +vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, +que nos braços verdes a vae levantando ao alto das +grandes ruinas...</p> + +<p>A modestia, a violeta timida que não faz alarde da +sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas +e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, +no seu seio egoista, o cadaver do homem que +melhor a personificou no mundo...</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço +sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo +mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar +disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos +seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, +n'um drama de sangue, que só de recordal-o +sente a gente o coração confranger-se?!</p> + +<p>Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se +de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto +por si mesma, como por que elles proprios exageravam +o peso da vida.</p> + +<p>Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a +scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a +não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que +uma lagrima—apenas!</p> + +<p>«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle +(o livro <em>Scenas da minha terra</em>); tel-as-ha trazido alguma +nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro +ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, +essas lagrimas...»</p> + +<p>«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo +pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua<span class="pn">{186}</span> +terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente +pelo facto de os levar; eu, ao contrario, +cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. +Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos +que assim se temem d'elle.»<sup><a href="#nota17" name="m_nota17">[17]</a></sup></p> + +<p>«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma +ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar +para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»<sup><a href="#nota18" name="m_nota18">[18]</a></sup></p> + +<p>«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, +politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que +sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, +a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar +da anecdota!»<sup><a href="#nota19" name="m_nota19">[19]</a></sup></p> + +<p>Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de +1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio +Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente +ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, +porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu +o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar +a catastrophe final.</p> + +<p>O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira +a uma allucinação de momento, e desde esse dia +toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, +como um talude do qual, em se despegando um +punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas +horas.</p> + +<p>Todos nós nos lembramos do Julio passeando com +o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção +e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.</p> + +<p>Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, +desempenado e de feições miudas, valia mais +para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor +ao seu livro mais querido, <em>Os contos ao luar</em>.<span class="pn">{187}</span></p> + +<p>—Ó Julio, o teu prologo dos <em>Contos</em> leio-o ás vezes +para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E +depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro +<em>Contos ao luar</em>!» Bonito, como eram então as coisas +bonitas!</p> + +<p>—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor +do que o livro... respondia-me elle uma vez.</p> + +<p>E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...</p> + +<p>Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o +pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se +nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. +D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar +pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o +reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas +nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado +a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha +afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora +as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.</p> + +<p>Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o +allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar +a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou +entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.</p> + +<p>Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que +nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora +em que tentavamos uma empresa arriscada.</p> + +<p>Foi no livro <em>Manhãs e noites</em> que elle saudou com excessivo +favor os meus primeiros trabalhos litterarios, +as <em>Peregrinações na aldea</em> e o romancesito <em>Idyllios á +beira d'agua</em>. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia +em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado +algumas cartas.</p> + +<p>Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, +onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente +o meu destino.</p> + +<p>Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no +Porto: <em>Photographias de Lisboa</em>.<span class="pn">{188}</span></p> + +<p>Reproduzo uma pagina d'esse livro:</p> + +<p>«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa +do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado +e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, +flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho +em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo +homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. +É que as mulheres, por naturalmente timidas, +facilmente se confundiriam no cahotico <em>atelier</em> do +Julio.</p> + +<p>«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor +no <em>ménage</em>, é um valioso album em que a par +dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado +pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, +Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, +Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, +Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.</p> + +<p>«A proposito dos escriptores francezes do album, +falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura +franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos +da França para os femininos. Provavelmente foi +o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de +Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de +Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado +livro <em>Physiologie du ridicule</em>. É effectivamente raro este +livro, cuja primeira edição data de 1833.</p> + +<p>«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo +a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. +Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado +do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou +o nosso Camillo.</p> + +<p>«E tirando para fóra um livro:</p> + +<p>«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea +o encontrar a <em>Physiologia do ridiculo</em>, alegre-se que vae +vêl-a.<span class="pn">{189}</span></p> + +<p>«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:</p> + +<p>«—E lel-a.</p> + +<p>«O Julio havia escripto:</p> + +<p>«<em>Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa +em outubro de 1873.</em></p> + +<p class="assin"><em>Julio Cesar Machado</em>.»</p> + +<p>«E entregando-me o livro:</p> + +<p>«—E tel-a.</p> + +<p>«Era impossivel recusar; acceitei.»</p> + +<p>Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade +tornaram-se familiares, intimas, o <em>tu</em> veio consolidal-as +como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem +desde a infancia.</p> + +<p>Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa +estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos +no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; +eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma +bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse +de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, +sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação +que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o +Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, +saboreando a sua modesta <em>villegiature</em>.</p> + +<p>Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:</p> + +<p>—<em>Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!</em></p> + +<p>É o seu livro que mais fala da Durruivos.</p> + +<p>Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços +como para receber as minhas palavras, e depois, com +a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos +da Durruivos.</p> + +<p>O Julito agitou no ar o seu chapeu.</p> + +<p>E o comboio partiu.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota17" name="nota17">[17]</a></sup> e <sup><a href="#m_nota18" name="nota18">[18]</a></sup> Do livro <em>Recordações de Paris e Londres</em>.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota19" name="nota19">[19]</a></sup> Do livro, o seu ultimo livro, <em>Mil e uma historias</em>.</p> +</div> + +<hr style="width: 30%"> + + +<p> <span class="pn">{190}</span></p> + +<h2>XXIV</h2> + +<h3>João de Andrade Corvo</h3> + +<p>Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da +minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar +Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto +querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro +pantheon dos meus auctores predilectos.</p> + +<p>Ainda foi outro dia!...</p> + +<p>De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com +algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar +todos os seus volumes, incluindo os dois da <em>Vida em +Lisboa</em>, que vão sendo muito raros no mercado.</p> + +<p>É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, +em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona +a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, +como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a +distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa +<em>grande confusion</em> tumultuaria em que Voltaire dá o braço +a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do +padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes +meias com Augusto Comte.</p> + +<p>Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente<span class="pn">{191}</span> +<em>cancan</em> dos espiritos, que volteiam em torno da minha +banca de trabalho, uns graves como espectros, outros +folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente +scepticos, aquelles crendo fervorosamente como +apostolos.</p> + +<p>Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe +uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e +dei-lhe um logar reservado n'um só lote da +minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, +folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de +antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as +paginas, que ligeiramente passavam por deante dos +meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.</p> + +<p>Hoje alargo as dimensões do compartimento em +que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem +ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. +Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque +diversamente orientados, sempre se comprehenderam +e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se +continuarão conversando um com o outro no mesmo +lote da minha estante.</p> + +<p>Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes +tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal +do <em>Economista</em> apreciei eu dois volumes dos seus <em>Contos +em viagem</em>, e não sei se foi n'essa occasião, ou em +qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo +como romancista historico, declarei francamente antepôr +o seu <em>Um anno na côrte</em> á tão preconisada <em>Mocidade +de D. João V</em>, de Rebello da Silva.</p> + +<p>Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não +reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades +de estilista; mas como romancista historico acho que +o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo +da época, e na fidelidade dos caracteres.</p> + +<p>A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. +Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista +e academico.<span class="pn">{192}</span></p> + +<p>Em todas estas espheras de acção firmou creditos +inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca +lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. +Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente +tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto +á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, +que prefere a etimologica, a achasse má; mas é +tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava +a sonica, a achasse boa.</p> + +<p>Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não +com bilhete de <em>ida e volta</em>, como quem vae passar dois +dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros +que fazem a sua Jornada de Misericordia em +Misericordia.</p> + +<p>Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, +mas por divertimento. A sua grande distracção +era estudar, saber.</p> + +<p>E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu +Julio Cesar Machado no <em>Claudio</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com +que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, +referiu-se a muitas obras, metteu trechos de +todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, +dois em grego. O <em>Martinho</em> exultou. O homem +novo ia matar tudo.</p> + +<p>«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha +não só mais talento que elle, mas outra qualidade de +merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se +com isso, como toda a gente se incommoda de +ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes +mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu +trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta +e o sentimento de um artista.</p> + +<p>«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade +Corvo, <em>O Astrologo</em>.</p> + +<p>«—Ah! O Corvo é um homem superior, um homem<span class="pn">{193}</span> +justamente respeitado pela valia dos seus meritos... +Vou-me a elle.</p> + +<p>«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se +um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo +foi o ultimo a dar por isso.</p> + +<p>«De mais a mais, exactamente por essa occasião, +João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros, +lente da escola polytechnica, socio da academia +real das sciencias, auctor do <em>Anno na côrte</em>, do <em>Alliciador</em>, +do <em>Astrologo</em>, de <em>D. Maria Telles</em>, de <em>D. Gil</em>, de +<em>Nem tudo que luz é oiro</em>, de grande numero de artigos +publicados dos <em>Annaes das sciencias e lettras</em>, na <em>Epocha</em>, +etc., estava todo entregue a uma curiosidade.</p> + +<p>«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas +de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade +Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica +teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo +d'elles.</p> + +<p>«—Não és capaz!</p> + +<p>«—Ora! Elle é lá capaz d'isso!</p> + +<p>«—Sou capaz até de estudar o curso completo.</p> + +<p>«Os dois olharam para elle, sorrindo.</p> + +<p>«—Vou matricular-me ámanhã.</p> + +<p>«Matriculou-se no dia immediato.</p> + +<p>«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia +elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida, +sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer +dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um +dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto +no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia +o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente, +<em>á estudante</em>, trepava aquella calçada do Garcia +e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo +accelerado de um filho familias que estivesse exposto +mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão +de frequencia colhida com austeridade nos registros +sisudos do livro de ponto.<span class="pn">{194}</span></p> + +<p>«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia +do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que +só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda +não parou nem se fartou um instante.</p> + +<p>«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente +da sciencia na politica, da politica na litteratura.»</p> + +<p> </p> + +<p>N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente +as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros, +e em que os debates parlamentares eram irritantes +e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, +entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na +Academia Real das Sciencias.</p> + +<p>Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que +era conhecido pela designação de—<em>Gabinete do sr. +Corvo.</em></p> + +<p>O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não +podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter +devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario. +Como todo o bom gastronomo, gostava de variar. +Por isso, ao mesmo tempo que redigia os <em>Estudos +sobre as provincias ultramarinas</em>, escrevia os <em>Contos em +viagem</em>. Só depois de regalado o paladar é que fazia +despachos e discursos.</p> + +<p>Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, +lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar +litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos +uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para +doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a +Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem. +Refiro-me á parte que lhe coube—estudos economicos +e higienicos sobre os arrozaes—no relatorio +official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, +por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida. +Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do +sr. Corvo occupa 200 paginas <em>in-folio</em>, foi desde logo<span class="pn">{195}</span> +tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue +um exemplar.</p> + +<p>Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos +dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha +o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida +ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem +outras tantas engrenagens do mecanismo social. +Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito +posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.</p> + +<p>Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e +sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder +duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que +já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.</p> + +<p>Havia uma sessão em que se esperava a apresentação +de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo +sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia, +tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem +era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O +continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o +redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu +gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, +disse-me com uma grande seriedade:</p> + +<p>—Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, +e que isso prende com o artigo 37.º do regimento. +Ora eu não sei qual é a disposição respectiva. +Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do +regimento dispõe.</p> + +<p>Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.</p> + +<p>—É que eu não sei de cór—respondi—o que dispõe +o artigo 37.º</p> + +<p>—Nem eu, replicou o sr. Corvo.</p> + +<p>—N'esse caso vamos vêr.</p> + +<p>E abri o <em>Regimento</em>, que estava sobre a banca do +presidente.</p> + +<p>Li o artigo 37.º<span class="pn">{196}</span></p> + +<p>—Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que +eu não queria era ter o trabalho de ler isso.</p> + +<p>E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me +para o vão da janella:</p> + +<p>—Então como vamos de litteratura?</p> + +<p>Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas +vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem +a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que +se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico +ou n'um facto litterario.</p> + +<p>E todavia elle era um homem de tão superior estofa +que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura +na politica, a que dava menos apreço, assignalou +indelevelmente a sua passagem por ella—como +n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o +progresso material das colonias.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p class="centrado">FIM</p> + +<p> <span class="pn">{197}</span></p> + +<h2>ERRATAS</h2> + +<p>Mencionamos como mais importantes as seguintes:</p> + +<p>Pag. 15, lin. 35—transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: +transmittiria á rainha e ao principe.</p> + +<p>Pag. 43, lin. 19—e das de Canities, leia-se: e das obras de +Canities.</p> + +<p>Pag. 45, lin. 10—da fama, leia-se: da fauna.</p> + +<p>Pag. 45, lin. 20—Henri, leia se: Hipp.</p> + +<p>Pag. 63. lin. 5—a rodos, leia se: a rodo.</p> + +<p>Pag. 100, lin. 25—conservamos, leia-se: conservavamos.</p> + +<p>Pag. 102, lin. 10—elle fóra, leia-se: elle fôra.</p> + +<p>Pag. 119, lin. 14—ao folhetim, leia-se: do folhetim.</p> + +<p>Pag. 121, lin. 26—editr, leia se: editor.</p> + +<p><span class="pn">{198}</span></p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA *** + +***** This file should be named 33581-h.htm or 33581-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33581/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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