summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/33581-h
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:59:48 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:59:48 -0700
commitd0531b5dc7093ee7affbb97ebf5b5dcff2218861 (patch)
tree87ba0e0332a99d7519093e7e96a5f28e6c8d7402 /33581-h
initial commit of ebook 33581HEADmain
Diffstat (limited to '33581-h')
-rw-r--r--33581-h/33581-h.htm8212
1 files changed, 8212 insertions, 0 deletions
diff --git a/33581-h/33581-h.htm b/33581-h/33581-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..cbe114a
--- /dev/null
+++ b/33581-h/33581-h.htm
@@ -0,0 +1,8212 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>Vinte Annos de Vida Litteraria, por Alberto Pimentel</title>
+ <meta name="Author" content="Alberto Pimentel">
+ <meta name="Edition" content="Porto. Parceria Antonio Maria Pereira, 1908.">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ text-decoration: none;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;}
+ h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;}
+ h2 {text-align: center; margin-top: 3em;}
+ #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;}
+ #corpo p.ni {text-indent: 0;}
+ #corpo p.centrado {margin: 0; text-indent: 0; text-align: center;}
+ #corpo p.assin {margin: 0; text-align: right; margin-right: 2em;}
+ #corpo blockquote p {text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; }
+ blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;}
+ a {text-decoration: none;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.7em;
+ color: gray;
+ margin-left: 2em;
+ margin-right: 2em;
+ }
+ .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;}
+ .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;}
+ .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em;
+ margin-left: 10%; margin-right: 10%;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Vinte Annos de Vida Litteraria
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.</p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não foram assinalados.</p>
+
+<p>No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como <span class="errata" title="no original: aqui">aqui</span>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1908<br>
+
+Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+
+<small>LIVRARIA EDITORA</small><br>
+
+<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br>
+
+LISBOA</p>
+
+
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.5em;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA&mdash;10.º VOLUME</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="font-size: 1.8em;">VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.2em; border-top: solid 1px #000; border-bottom: solid 1px #000;">COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">Vinte Annos de Vida Litteraria</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(2.ª edição, revista pelo auctor)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1908<br>
+
+Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+
+<small>LIVRARIA EDITORA</small><br>
+
+<i>Rua Augusta, 44 a 54</i><br>
+
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p>Composto e impresso na typographia<br>
+
+<small>DA</small><br>
+
+Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+
+<small><i>Rua Augusta, 44 a 54.</i></small><br>
+
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+
+<h1>A QUEM LER</h1>
+
+<h3>Prologo da 1.ª edição</h3>
+
+<p>Publiquei o livro <em>Atravez do passado</em>, receoso de que
+não agradasse por ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro
+Chagas, escrevendo na <em>Illustracão Portugueza</em>
+um artigo muito amavel para mim, a respeito d'aquelle
+livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores
+reunirem as memorias jornalisticas e litterarias do seu
+tempo, como subsidio indirecto para a historia completa
+da sociedade a que pertencem. Este ponto de
+vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras
+deram-me estimulo, confesso-o francamente, para
+colleccionar um segundo livro de memorias.</p>
+
+<p>De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos,
+eu obedeço gostosamente a uma natural inclinação
+do meu espirito para a reconstrucção do passado,
+que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo as
+cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou.
+Não sei se até certo ponto entrará n'isto o egoismo de,
+pelo que me respeita, reviver pela memoria os dias que
+já vão longe.</p>
+
+<p>Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de
+vida litteraria sem preoccupações de nenhuma especie,
+nem mesmo chronologicas. Quanto ás pessoas de que
+falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua hierarchia<span class="pn">{6}</span>
+politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que
+me iam lembrando, e as recordações que me acudiam
+ao bico da penna.</p>
+
+<p>Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas
+paginas que não versam assumptos exclusivamente
+litterarios. Mas foi pelo braço da litteratura que
+eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude
+conhecer mais de perto certos homens.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Lisboa, 42 de novembro de 1889.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin">A<small>LBERTO</small> P<small>IMENTEL</small>.</p>
+
+
+<p><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h2>Prologo da 2.ª edição</h2>
+
+<p>Este livro deve certamente a boa fortuna de uma
+segunda edição ao facto de contêr aspectos biographicos
+de alguns homens notaveis, com os quaes eu convivi
+na minha mocidade. Esses homens marcaram uma
+época da vida historica do paiz e, como sempre acontece,
+a morte deu-lhes maior prestigio. De modo que
+o livro não envelheceu por causa d'elles, e só d'elles
+recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição.</p>
+
+<p>Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo
+mais agradavel de escrever a historia, ainda
+quando esse processo caia em mãos tão incompetentes
+como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero,
+que não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente
+os biographados.</p>
+
+<p>Por mim julgo os outros: releio com prazer algum
+trecho de Plutarcho, e custa-me a digerir meio capitulo
+de Tito Livio.</p>
+
+<p>Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me
+não aborreci de mim mesmo revendo agora este livro,
+que ia ser reimpresso. Não é que o repute perfeito,
+porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque
+a sua revisão me reconduziu a uma época em que
+os homens e os factos constituiram um vasto edificio
+de que só restam cinzas e ruinas.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma,
+communicativa e cordeal. Não se tinham ainda desencadeado<span class="pn">{8}</span>
+grandes borrascas de odios pessoaes, que nos
+agitassem como n'esta hora. As amizades eram perduraveis,
+e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos
+de braços abertos, acarinhados, protegidos. E
+cada qual plantava os seus ideaes sem incommodar o
+vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia aquillo
+que nós desejariamos ter.</p>
+
+<p>A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi
+a de uma sociedade remota, que me não propuz descrever,
+mas que resulta de um conjunto de biographias
+n'elle agrupadas.</p>
+
+<p>E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me
+expulso do passado pela distancia e do presente pela
+estranheza.</p>
+
+<p>Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro.
+E se elle fôr o <em>crescendo</em> logico do dia de hoje, eu não
+sinto pena de o não viver&mdash;e descançarei serenamente
+da fadiga do caminho. <em>Fatigatus ex itinere sedebat.</em></p>
+
+<p>Lisboa, 27 de abril de 1908.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin"><em>O auctor</em></p>
+
+<p><span class="pn">{9}</span></p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<h3>El-rei D. Luiz</h3>
+
+<p>Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo
+menos um pouco arriscado: póde parecer adulação. Mas
+escrever de um rei que já não existe, e contar lealmente
+os altos favores pessoaes que d'elle se receberam,
+é mais do que gratidão&mdash;é justiça.</p>
+
+<p>Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca
+o disse em publico durante a sua vida, para afastar de
+mim a suspeita de lisonjeiro, mas não perdia occasião
+de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da minha
+bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram.
+Para estes escrevo.</p>
+
+<p>O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D.
+Luiz I foi o rei, o principe, o astro da côrte. O que
+n'elle sempre me captivou, desde o primeiro dia em
+que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado
+e complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector
+dos que rudemente luctavam pela existencia.</p>
+
+<p>O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das<span class="pn">{10}</span>
+paixões politicas, que em torno d'elle se debatiam. O
+homem era sempre o mesmo para todos: bom, compassivo,
+affectuoso.</p>
+
+<p>Chegava a causar assombro que um principe, tão
+preoccupado de negocios e até de distracções, pudesse
+seguir tão attentamente o fio de tantissimas pretensões
+particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia
+o segredo.</p>
+
+<p>No conjunto das massas populares havia centenas
+de biographias que el-rei D. Luiz conhecia pagina a
+pagina, e que acompanhava dia a dia.</p>
+
+<p>A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão
+de si mesma quando, na turbamulta de uma
+festa ou de um espectaculo publico, o rei divisasse, perdidas
+humildemente na multidão, as phisionomias de
+muitas pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.</p>
+
+<p>Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi
+furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito
+do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que
+por toda a parte o perseguiam.</p>
+
+<p>De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel
+de todos os principes da sua familia: fixava facilmente
+as phisionomias e as datas, de modo que não
+perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez
+houvesse falado.</p>
+
+<p>Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da
+côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente
+em que sempre procurei collocar-me, e o seu
+olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel,
+correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso,
+mas quasi subtil.</p>
+
+<p>Posto isto, que me nasce da abundancia do coração,
+eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873
+tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.</p>
+
+<p>Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação
+burocratica que ainda assim vi com alegria cair do<span class="pn">{11}</span>
+céu, tinha eu publicado recentemente um livro, <em>A Porta
+do Paraiso</em>, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.</p>
+
+<p>Os regeneradores estavam no poder, e o governador
+civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára,
+dera-me uma carta de apresentação para o ministro
+do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.</p>
+
+<p>Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me
+immediatamente com a bonomia familiar que
+elle tinha para com toda a gente.</p>
+
+<p>Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens
+politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos
+de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem
+obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição
+aos Cabraes, do <em>Espectro</em>, e na sua palavra, ás
+vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade
+verdadeiramente captivante.</p>
+
+<p>Terminou perguntando-me o que eu queria.</p>
+
+<p>Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado
+a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro
+que acabava de dar a lume. Acrescentei que era
+eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario
+do meu livro, e que de modo algum ousaria
+offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de
+uma novella baseada em factos do reinado do senhor
+D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia
+prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz,
+teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria
+naturalmente de todo e qualquer escripto que
+dissesse respeito a uma pessoa da familia real.</p>
+
+<p>Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito;
+que no dia seguinte, uma quinta feira, havia
+despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da
+tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na
+sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.</p>
+
+<p>No dia seguinte, á hora indicada, partimos do <span class="typo" title="no original: Terreiro Paço">Terreiro do Paço</span> para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez<span class="pn">{12}</span>
+minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo
+tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma
+das salas interiores.</p>
+
+<p>Quando ali entrei, com a timidez de um homem que
+arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei,
+encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto,
+com as mãos mettidas nos bolsos de um <em>veston</em>,
+conversava com o ministro do reino.</p>
+
+<p>Sampaio apresentou-me em termos excessivamente
+amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas,
+que augmentaram ainda mais a minha confusão.</p>
+
+<p>Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei
+falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me
+que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a
+que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio
+fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando
+um relampago da sua felicissima memoria, recordou
+que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou
+muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me
+se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com
+grande segurança de critica, os seus romances, acceitando
+a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente
+no romance a escola ingleza.</p>
+
+<p>E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a
+luva da mão direita&mdash;o que Sampaio me advertira&mdash;el-rei,
+certamente por ter reconhecido que eu fumava,
+abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.</p>
+
+<p>Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei,
+sorrindo, observou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.</p>
+
+<p>Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.</p>
+
+<p>Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord
+Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar
+na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao
+offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.</p>
+
+<p>Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos<span class="pn">{13}</span>
+falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído,
+não o accendi. Nem me era facil saber como havia de
+accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio
+não fumava; só o rei estava fumando.</p>
+
+<p>Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o
+charuto, offereceu-me lume.</p>
+
+<p>Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu
+fumo desde os quinze annos desesperadamente&mdash;mas
+cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu
+fumo para incommodar-me.</p>
+
+<p>O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que
+eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi
+o charuto, que de mais a mais era fortissimo.</p>
+
+<p>A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o
+apagar a breve trecho, propositadamente. Mas
+el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado,
+tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava
+no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que
+chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes
+Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco
+abruptamente com estas palavras de el-rei:</p>
+
+<p>&mdash;Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o
+sem acanhamento.</p>
+
+<p>Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento
+o facto de eu ter deixado apagar o charuto.</p>
+
+<p>Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida,
+Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello,
+e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na
+carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que
+elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para
+fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema
+homoepathico:&mdash;<em>similia similibus curantur</em>.</p>
+
+<p>As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram
+d'esse dia.</p>
+
+<p>Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer
+a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.</p>
+
+<p>El-rei dizia-me invariavelmente:<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>&mdash;Procure-me sempre que precisar de mim.</p>
+
+<p>De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto,
+el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro.
+Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao
+fumo para o afastar.</p>
+
+<p>Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do
+bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos,
+amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas
+vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado
+melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da
+camara dos pares; creavam-se logares de redactores.
+Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas,
+fervilhavam em torno de Fontes. Desejando
+um d'esses logares, mas não dispondo de influencia
+que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido,
+lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.</p>
+
+<p>Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois
+era recebido por sua magestade, que me ouviu
+com a amavel benevolencia que sempre me dispensou.
+E, tendo-me ouvido, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo
+empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito
+justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes
+trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos
+annos um trabalho d'esses.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a
+Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez
+esta pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?</p>
+
+<p>Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente
+do meu pedido com a maior pressa e solicitude.
+Desde essa hora julguei-me despachado.</p>
+
+<p>&mdash;O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª</p>
+
+<p>&mdash;Diga lá.</p>
+
+<p>&mdash;O meu empenho... fui eu só.</p>
+
+<p>Contei então a Fontes tudo quanto se passára.<span class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>E Fontes limitou-se a dizer-me:</p>
+
+<p>&mdash;El-rei tem o maior empenho no seu despacho.</p>
+
+<p>Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei.
+Sua magestade, apenas me viu, perguntou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão?</p>
+
+<p>&mdash;Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer
+a inexcedivel diligencia de vossa magestade. Acabo de
+falar com o presidente do conselho.</p>
+
+<p>&mdash;Eu falei-lhe hontem mesmo.</p>
+
+<p>Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.</p>
+
+<p>Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações
+para a camara dos pares. O meu nome nunca foi
+lembrado pelos jornaes. A politica interveio n'este negocio,
+como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a
+minha pretensão triumphou, graças á protecção do rei.</p>
+
+<p>Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer,
+el-rei dignou-se abraçar-me dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance
+um pouco. Era justo. Era justo.</p>
+
+<p>Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não
+tinha os seus enxutos.</p>
+
+<p>Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações,
+não direi de amizade, mas de franqueza.</p>
+
+<p>Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta
+minha sobre assumptos que não eram pessoaes.</p>
+
+<p>Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa
+carta. Ha quem conheça a carta, e possa contar a historia
+um dia, querendo.</p>
+
+<p>A ultima vez que me demorei conversando com el-rei
+foi para lhe fazer o pedido de alguns brindes da
+familia real para um bazar de Setubal. El rei disse-me
+logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito
+o meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel,
+e que o principe real estava estudando as suas
+lições, motivo por que transmittiria <span class="errata" title="no original: á e ao rainha principe">á rainha e ao principe</span>
+aquella solicitação.</p>
+
+<p>N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír<span class="pn">{16}</span>
+da noite recebia eu n'aquella cidade um telegramma do
+sr. D. Pedro Arcos participando-me que tanto a rainha
+como o principe mandariam brindes para o bazar.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu
+coração uma saudade indelevel pelo homem bom, pelo
+desvelado protector, que tanto me ajudou a desbravar
+o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados
+além da campa, o rei de Portugal deve repousar no
+seio de Deus n'uma eternidade bem aventurada. Quanto
+á minha gratidão, será eterna, porque eu ensinarei a
+meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a
+tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo
+de el-rei D. Luiz I.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{17}</span></p>
+
+
+<h2>II</h2>
+
+<h3>Meu pae</h3>
+
+<p>Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista
+quanto é sincera e aguda. Não sei, não quero
+saber o que se tem passado fóra de mim proprio: tenho
+vivido apenas das minhas recordações dolorosas,
+concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o
+drama intimo do meu luto e da minha tristeza.</p>
+
+<p>E depois os leitores têem de certo para mim esse
+doce sentimento de condolencia que resulta de uma
+convivencia longa e leal. Somos bons amigos ha vinte
+annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto
+adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado
+as suas opiniões: desculpar-me-hão, portanto,
+este desafogo de uma saudade irremediavel, tão
+sagrada e tão justa&mdash;a saudade de um filho que deplora
+a morte de seu pae.</p>
+
+<p>Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios
+do leitor um ligeiro sorriso, fique esse sorriso á conta
+de compensação da magua que lhe posso causar hoje<span class="pn">{18}</span>
+obrigando-o a lêr as palavras que certamente me acudirão
+orvalhadas de lagrimas.</p>
+
+<p>Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante
+dos olhos todos os lances da minha vida desde a primeira
+infancia tão descuidosa e alegre, e no meio d'esse
+enxame de recordações entrevejo, a contrastar com ellas,
+o semblante demudado e quasi cadaverico do meu
+querido octogenario, que ainda ha oito dias contemplei
+semi-morto no seu leito de agonia.</p>
+
+<p>Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não
+houvesse entregado ao cultivo das bellas-lettras, mas
+unicamente aos aridos cuidados da sua profissão de
+medico; elle, que devia ter com a morte essa fria familiaridade
+que a faz encarar tranquillamente como o
+desfecho forçado de todos os actos phisiologicos, acharia
+comtudo no fundo do seu coração de pae um terno
+perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que
+o levaria a encher de flores a sepultura do filho.</p>
+
+<p>Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria
+a mesma delicadeza de sentimento, a mesma suavidade
+de lagrimas, e continuar a ver n'elle não aquillo
+a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta,
+a bella alma antiga, capaz de entender todos os
+carinhos e de comprehender todas as dedicações.</p>
+
+<p>Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi
+extincta, que trouxeram do lar paterno a noção austera
+do dever e a impressão profunda dos bons exemplos
+caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens,
+hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da
+sua vida em plena atmosphera de tradições sagradas
+e inviolaveis, e que professavam pelo passado um culto
+quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes
+velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos
+de avós fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas
+não passavam sem commemoração domestica:
+eram outras tantas festas de familia, muito intimas e
+muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes<span class="pn">{19}</span>
+da Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados
+com devoção tradicional. E sentar-se á mesa, d'esses
+dias memorandos, rodeados de todos os filhos e de
+todos os parentes, era para os homens de uma geração
+quasi extincta um doce prazer patriarchal, puro e simples,
+o goso perenne da felicidade pela familia.</p>
+
+<p>Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros
+homens, dilatando a sua esphera de acção, tornaram-se
+cosmopolitas, entraram n'uma vida mundana, que os
+leva para longe do berço das suas tradições de familia,
+lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições,
+de preoccupações e trabalhos. Esta corrente moderna,
+esta evolução do espirito humano, assombra os velhos
+de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os
+assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as
+suas arvores e os seus casaes, era o eixo obrigado de
+todos os movimentos psichologicos, o centro em torno
+do qual girava e se consumia toda a sua actividade.
+Ver aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era
+como viver ainda em espirito para elles e no meio d'elles,
+prolongar pela propria existencia a d'aquelles entes
+queridos que tinham constituido a familia, e haviam
+desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se
+no Douro, n'uma quinta dos seus maiores, contemplando
+as arvores que elles tinham mandado plantar,
+colhendo os fructos dos pomares que elles haviam
+disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo
+á sua clinica portuense, tratando dedicadamente
+os seus doentes que conhecia ha longos annos, e que
+iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes de
+<em>partido</em>. Tinha extremos de paciencia para os escutar,
+para os attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia
+da sciencia que exercia, quando os não podia salvar.
+Havia no Passeio da Cordoaria um major reformado
+que era um verdadeiro <em>doente de scisma</em>, o protagonista
+bondoso de uma comedia molieresca, que se
+repetia todos os dias.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel.</p>
+
+<p>O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão
+querido voltarete, dava-se pressa em acudir á chamada.</p>
+
+<p>&mdash;Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta.
+Palavra de honra que não vae. Somos amigos antigos:
+póde acreditar-me. Coma a sua asinha de frango, tome
+a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e
+durma.</p>
+
+<p>No dia seguinte a mesma scena.</p>
+
+<p>Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos
+juntos uma tarde, e elle pediu-me que o ficasse esperando
+no Jardim da Cordoaria.</p>
+
+<p>&mdash;Vae ver o major? perguntei-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Vou.</p>
+
+<p>&mdash;Mas elle mandou-o chamar?</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou
+eu que vou de motu proprio: o pobre major não dura
+oito dias, mas, felizmente para elle, já não scisma na
+sua doença.</p>
+
+<p>Quando eu estive no Porto a semana passada, todas
+as velhas e lazaras dos recolhimentos das Fontainhas,
+de que meu pae fôra por largos annos clinico, mandavam
+saber d'elle.</p>
+
+<p>Achei commovente este testemunho de gratidão, mas
+não era difficil encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as
+carinhosamente.</p>
+
+<p>Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos.</p>
+
+<p>&mdash;De que se queixa? perguntava o medico a uma
+nonagenaria.</p>
+
+<p>&mdash;Dôres... Afflicções... Eu sei lá!...</p>
+
+<p>&mdash;Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho
+isso mesmo.</p>
+
+<p>&mdash;Tem?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença.
+Pois, minha boa doentinha, tome um chásinho de
+erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao estomago.<span class="pn">{21}</span>
+Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades
+não ha outro remedio: a velhice não se cura. Deitar
+grandes remendos n'um predio velho é perder tempo
+e trabalho. Vamos assim amparando as nossas ruinas
+com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e
+hei de achal-a mais socegada.</p>
+
+<p>É incalculavel o numero de autopsias que meu pae
+fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos
+eramos pequenos, embirravamos muito de que meu
+pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico:
+já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.</p>
+
+<p>Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente
+á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos
+no seu bom appetite.</p>
+
+<p>Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar
+menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que
+tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.</p>
+
+<p>Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu
+creança; cuido que havia sido atacado de ictericia
+negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe
+conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que
+teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou
+o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam,
+disse a minha mãe:</p>
+
+<p>&mdash;Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma
+torrada.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus! Isso não!</p>
+
+<p>&mdash;Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.</p>
+
+<p>Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar,
+contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do
+leito.</p>
+
+<p>&mdash;Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o
+doente sabe sempre mais.</p>
+
+<p>Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era
+quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas;
+uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu<span class="pn">{22}</span>
+diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos,
+em 1825, quando entrou na Escola Medica.</p>
+
+<p>Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se
+a morte com heroica serenidade. Era o declinar
+de um bom. Como eu, sem grande esforço, o pudesse
+voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo da
+sua lethargia:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é quasi um cadaver.</p>
+
+<p>Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me
+logo em seguida palavras de carinhosa ternura, que eu
+não pude agradecer suffocado pelas lagrimas.</p>
+
+<p>Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos
+ultimos dias um corpo devorado por dôres lancinantes,
+que elle indicava levando a mão ao peito. E, na sua
+dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz
+entrecortada e difficil:</p>
+
+<p>&mdash;Rezem.</p>
+
+<p>Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente,
+do corpo que se esphacelava.</p>
+
+<p>Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse
+querido octogenario que, sem ambições nem invejas,
+parecia não ter biographia. Mas o leitor comprehende
+que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de
+penna. O sacrificio tem sido superior ás minhas forças.
+Mas o coração, posto que dilacerado, não me permittia
+que, escrevendo de tantos homens a cuja memoria devo
+a homenagem da minha saudade, deixasse de falar
+d'aquelle cujo sangue corre nas minhas veias, o mais
+dedicado, e tambem o mais amado, de todos elles.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>Junho de 1889.</small></p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{23}</span></p>
+
+
+<h2>III</h2>
+
+<h3>Alexandre Herculano</h3>
+
+<p>Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais
+notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me
+com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista
+deixei memoria no livro que se intitula <em>O capote
+do sr. Braz</em>. Quando o eminente escriptor morreu, tentei
+traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então
+publiquei, <em>O Porto por fóra e por dentro</em>.</p>
+
+<p>Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade
+de Herculano um outro aspecto, que aliás
+tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica.
+Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento
+agora á biographia do grande historiador, poderá
+conter elementos não de todo inuteis para quem houver
+de escrever um dia, definitivamente, a monographia
+completa da sua brilhante existencia.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano padecera as contrariedades da
+guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram
+ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro
+a Portugal.<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser
+um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo,
+se não fossem naturalmente subjugados por uma
+organisação de poeta, com todas as qualidades e os
+defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam
+exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos
+da corôa, quando não têem, como Herculano teve,
+a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada
+passo os contraria e azéda.</p>
+
+<p>Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante
+a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido
+elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes
+caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás
+conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento
+e ás intrigas de gabinete.</p>
+
+<p>Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados
+de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor
+de <em>D. Branca</em>, do <em>Camões</em>, de <em>João Minino</em>; o sr.
+Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos
+os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze,
+os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: <em>e apenas
+eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde
+prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica</em>.»</p>
+
+<p><em>A Voz do propheta</em>, um dos seus mais notaveis escriptos
+politicos, não é senão um grito lancinante de
+poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de
+um poeta da <em>Carta</em>, deixem-me dizer assim; de um coração
+delicado que via ligada á memoria da <em>Carta</em> a recordação
+dos seus melhores dias de soffrimento, de
+lucta e de esperança.</p>
+
+<p>«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella
+polar da esperança nos dias, tão longos, da fome,
+da nudez, das tempestades, do desalento. <em>Vivia
+depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi
+dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas
+que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as
+gerações novas.</em><span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto
+de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam
+assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo
+a <em>Carta</em>, d'esses homens que accentuavam agora
+em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado
+a separal-os na emigração, collocava-se no ponto
+de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta
+uma causa pelo estimulo sincero da sua propria
+convicção e da sua propria fé n'essa causa.</p>
+
+<p>Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente,
+façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato
+eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem
+não <em>fazia sombra</em> a ninguem como politico.</p>
+
+<p>Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter
+para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso.
+E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no
+parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão
+o deputado.</p>
+
+<p>Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico
+amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para
+o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como
+politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por
+aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se
+em pleno parlamento, logo que ali entrou,
+de que não fizera um pedido, de que não escrevera
+uma carta para obter o diploma de deputado.</p>
+
+<p>Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus
+companheiros de emigração, poria o fito em escalar o
+parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para
+<em>chegar</em>. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso,
+Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett
+chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.</p>
+
+<p>Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que
+principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano
+usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta
+ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p><em>O sr. Alexandre Herculano</em>&mdash;Sr. presidente, erguendo-me
+para dar a minha opinião sobre as graves questões
+que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado
+até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo
+que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas
+cadeiras, para obter a qual <em>ninguem ousará dizer que
+eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra</em>;
+n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se
+lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em
+instrumento de martyrio, se não as queremos tornar
+recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo
+o resto da vida.</p>
+
+<p>«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos
+do coração, e as convicções do entendimento, que me
+cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no
+qual ha um homem a quem devo grandes obrigações,
+e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços
+eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella
+não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que
+hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a
+boa e leal amisade. (<em>Grande attenção</em>).</p>
+
+<p>«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de
+Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos
+srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que
+o governo tem deixado peiorar a situação das nossas
+relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade
+do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de
+administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só
+curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem
+e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de
+um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o
+sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar
+como devo: visto que os meus constituintes me
+mandaram para este logar.</p>
+
+<p>«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio
+actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque
+se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece)<span class="pn">{27}</span>
+sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido
+tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.</p>
+
+<p>«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque
+sobre os homens da minha crença politica se lançaram
+crueis accusações de falta de patriotismo; porque
+eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes
+que advogam a causa da revolução permanente,
+asselladas com o ferrete de lista ingleza.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Muitas passagens d'este discurso foram vivamente
+applaudidas.</p>
+
+<p>Citaremos as seguintes:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal
+á França; nem o partido cartista o quiz vender á
+Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente,
+ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (<em>Vivissimos
+apoiados</em>).</p>
+
+<p>«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria
+como um só homem, e esmagaria os infames
+que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem
+os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas
+que cobrem as cinzas dos nossos paes! (<em>Muitos
+apoiados</em>).</p>
+
+<p>«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos
+valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de
+nós cahir moribundo pela independencia nacional!</p>
+
+<p>«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em
+ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram
+nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas;
+juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos
+olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes
+desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem
+uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca
+imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse
+os seus companheiros d'armas. Como é possivel que<span class="pn">{28}</span>
+hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos?
+Penhor do procedimento presente seja o procedimento
+passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não
+tivesse por bandeira&mdash;<em>independencia e liberdade</em>?» (Vozes:
+<em>Muito bem, muito bem</em>).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Este discurso de estreia revela o homem de lettras
+<em>depaysé</em> no parlamento. É um academico que fala, encadernando
+em bons periodos litterarios uma alma delicada
+de poeta, que sinceramente presta culto á terra
+em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros.
+Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali
+o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar
+em todos os debates da politica apaixonada, em todos
+os incidentes facciosos e obstruccionistas, o <em>rabula</em>, o
+furão da politica.</p>
+
+<p>Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia
+bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se
+para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o
+a Lamartine, um grande escriptor, tambem
+poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a
+linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o
+tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis
+da organisação de um homem de lettras que tinha,
+sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.</p>
+
+<p>Foi pois o ministro do reino que se levantou para
+responder por parte do governo.</p>
+
+<p>Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e
+ao caracter de Herculano.</p>
+
+<p>«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os
+parabens ao nobre deputado, que acaba de falar, pelo
+seu primeiro discurso n'esta camara, que nos promette
+a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur
+de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras
+sobre o ministerio a que eu pertenço. Eu sou o
+amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e tenho de
+o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa<span class="pn">{29}</span>
+de que me devia alguns obsequios: o nobre deputado
+nenhuns me deve, e pelo contrario se em algum de nós
+ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de que as suas
+palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia
+na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima
+para mim, a maior em que me tenho visto
+até agora.»</p>
+
+<p>Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se,
+como suppomos, viu em Alexandre Herculano o homem
+que, longe de manejar as armas politicas nos combates
+de todos os dias, só uma vez por outra havia de
+tomar a palavra em assumptos que mais ou menos pudessem
+lisonjear as tendencias do seu espirito.</p>
+
+<p>Assim aconteceu; a raposa vira bem.</p>
+
+<p>Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como
+membro da commissão de instrucção publica, pronunciou
+algumas palavras sobre o projecto da jubilação dos
+professores.</p>
+
+<p>Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:</p>
+
+<p>«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição
+de Evora, ou fazia cousa similhante está aposentado;
+e creio que não ha muita justiça em um tal accumular.
+(Uma voz&mdash;E o que tocava os folles do orgam na Patriarchal!)
+É por isto, sr. presidente, que eu requeiro
+que se approve o parecer da commissão de instrucção
+publica, sobre o direito d'accumulações dos professores,
+e que as commissões respectivas dêem o seu parecer
+sobre as outras classes, para que a essas a quem
+a mesma accumulação competir, se torne extensiva a
+disposição d'esta lei.»</p>
+
+<p>Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava
+a falar sobre o mesmo assumpto, e dizia:</p>
+
+<p>«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação
+aos professores, é porque estes professores
+durante 20, 25, 30 annos de serviço accumularam na
+mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, o<span class="pn">{30}</span>
+professor de instrucção primaria, converteu um bocado
+de pedra ou um bocado de pau n'um homem; um serrenho
+que desce das montanhas, e vem para a escola
+primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu
+tenho conhecido alguns, que realmente distam mais de
+uma creatura humana do que de uma alimaria: isto é
+verdade, e o professor de instrucção primaria converte
+este ente n'um homem, e em um cidadão productivo
+para a sua patria, o que por certo não seria, se não
+fosse o cuidado do professor de instrucção primaria.
+Estes homens passam ás escolas superiores, e vão ser
+magistrados, e vão ser militares, vão ser fabricantes e
+artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes,
+tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza
+nacional, que como todos sabem (porque todos
+aqui sabem o que é economia politica) consiste em capitaes
+accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho.
+Esses capitaes são os que os professores accumulam
+nas mãos do Estado, porque elles são a origem primordial
+d'elles.»</p>
+
+<p>Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou
+para a mesa, por parte da commissão de instrucção
+publica, uma substituição ou antes nova redacção
+do projecto de lei, que restituia os professores da academia
+do Porto aos seus respectivos logares, de que
+haviam sido demittidos em consequencia dos acontecimentos
+politicos posteriores ao dia 9 de setembro de
+1836.</p>
+
+<p>Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto
+de lei relativo aos abusos de liberdade de imprensa.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano tomou a mão para falar.</p>
+
+<p>É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:</p>
+
+<p>«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres
+classes&mdash;abusos contra a religião, e a moralidade publica&mdash;abusos
+contra a honra dos cidadãos&mdash;e abusos
+contra a segurança do Estado.&mdash;Entendo que qualquer
+d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra<span class="pn">{31}</span>
+elles devem ser tambem gravissimas: eu não tinha
+duvida nenhuma em votar, que o homem que calumnia
+um empregado, ou um particular por via da imprensa,
+soffresse até um degredo perpetuo para a Africa;
+e porque? Porque é um assassino do espirito, da
+alma, assim como o homem que ataca com um punhal
+na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo
+entre estes dois assassinos; não sei se diga, que detesto
+mais o assassino da alma, aquelle que me rouba
+todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. presidente,
+que eu desejava todo o rigor da lei; mas não
+queria nenhuns embaraços para o exercicio d'uma garantia,
+que pela constituição têem todos os cidadãos;
+porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser legista,
+mas entendo, que uma lei que regula não destroe,
+e eu vejo destruido este direito para todos os que
+não tiverem os meios de fazer este deposito, ou dar
+esta fiança».</p>
+
+<p>Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento
+do estado, Herculano occupou-se da verba destinada á
+conservação dos monumentos nacionaes.</p>
+
+<p>«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de
+fazer só com oito contos, quando para o convento de
+Mafra vejo que são precisos treze; isto é, só para este
+edificio; propondo-se agora oito contos para os reparos
+de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha
+de o sr. ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo
+parece-me mais conveniente que se espere pela
+presença do sr. ministro para vermos o que elle diz a
+este respeito.»</p>
+
+<p>Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão,
+conformou-se com as explicações dadas pela commissão.</p>
+
+<p>«Não queria eu decerto que estes monumentos se
+concluissem com o que nós lhe vamos dar; queria que
+se reparassem, que se evitasse a sua ruina, mesmo
+porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam<span class="pn">{32}</span>
+capazes de os acabar. Contento-me pois com isto, e
+muito mais com esta ultima declaração da commissão;
+porque ha muitos monumentos que não estão incluidos
+no numero d'estes que se chamam monumentos historicos,
+e posso citar o castello da Feira que se está arruinando
+e deitando abaixo, e pouco a pouco se vae
+apossando d'elle um sujeito que é dono das terras visinhas
+ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação
+esse primor d'arte. Muitos outros ha que têem a
+mesma sorte.»</p>
+
+<p>Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso,
+que não mira a fins politicos, que expõe parcimoniosamente
+a sua opinião, até com certa hesitação algumas
+vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos;
+e através do orador parlamentar, que o é sobreposse,
+descobrimos perfeitamente o gosto, a predilecção,
+a tendencia do homem de lettras, que faz a apologia
+do professor de instrucção primaria, o primeiro
+cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos
+historicos, que são a genuina expressão da arte nacional
+na serie dos tempos.</p>
+
+<p>Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados
+a celebre questão da propriedade litteraria, em
+que Almeida Garrett tão activa parte tomou, sendo sua
+a iniciativa do projecto.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.</p>
+
+<p>Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob
+o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos
+crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado
+ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras,
+impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos
+depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre
+carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns
+periodos significativos, referentes á discussão de 1841.
+Diz Herculano a Garrett:</p>
+
+<p>«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse<span class="pn">{33}</span>
+seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou
+agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer
+responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me.
+<em>Dez annos não passam debalde para a intelligencia
+humana, e eu não me envergonho de corrigir e
+mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho
+de raciocinar e aprender.</em>»</p>
+
+<p>Estamos persuadidos de que o debate parlamentar
+ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre
+Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto.
+Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo
+faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos
+de que o sistema nervoso de um homem de
+lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos
+da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica.
+Herculano, o irritado contradictor da propriedade
+litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que
+fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio
+testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.</p>
+
+<p>Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas.
+São o claro-escuro das suas concepções geniaes.</p>
+
+<p>Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára
+cada vez mais avesso ás promptas soluções dos
+negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta,
+Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra
+a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia
+que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia
+nos acommetteu e pungiu.</p>
+
+<p>Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo
+circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral
+de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano
+saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco
+de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente
+se notabilisára no parlamento como <em>apagador</em> encartado.
+A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano
+não quizera ir á camara de braço dado com um
+<em>apagador</em> satirisado. Não acceitamos esta versão. É<span class="pn">{34}</span>
+certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a
+razão adduzida na sua <em>Carta aos eleitores de Cintra</em>,
+agora reimpressa no <small>II</small> volume dos Opusculos, é pouco
+menos de futil.</p>
+
+<p>Essa razão era&mdash;<em>que nenhum circulo eleitoral deve
+escolher para seu representante individuo que lhe não
+pertença</em>.</p>
+
+<p>Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto
+o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar
+para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica,
+onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado
+e constrangido.</p>
+
+<p>O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores,
+do que entre politicos interesseiros que punham a
+sua candidatura a ministros.</p>
+
+<p>Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido
+o parecer da primeira commissão de verificação de
+poderes acceitando a renuncia do logar de deputado,
+para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito pelo
+circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.</p>
+
+<p>O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer
+da commissão:</p>
+
+<p>«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo
+sr. deputado Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente
+no caso da lei, convida-o a acceitar o logar
+de deputado.»</p>
+
+<p>Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano,
+tendo expendido pela imprensa as razões da sua renuncia,
+não julgaria logico mudar da opinião, mas que a
+camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se
+achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.</p>
+
+<p>Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse
+que se o sr. Pegádo tinha em mente fazer o elogio de
+Alexandre Herculano, a camara estava de accordo com
+as suas palavras, <em>porque o sr. Alexandre Herculano faz<span class="pn">{35}</span>
+uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria</em>;
+mas a questão era outra, havia uma lei a cumprir e
+uma vontade a respeitar.</p>
+
+<p>A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se
+a materia discutida, e o parecer foi approvado.</p>
+
+<p>Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes
+com agreste voluptuosidade o sentimento da resistencia
+obstinada ás correntes sociaes que em sentido contrario
+ás suas tendencias os solicitam.</p>
+
+<p>Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle
+cristallisára no seu aborrecimento pelo mundo politico,
+pelo scenario avariado do parlamento, onde se reconhecêra
+inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.</p>
+
+<p>El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador,
+quiz fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria
+do que dar-lhe um premio politico: nomeou-o par do
+reino. Transcrevemos o diploma official da nomeação,
+que foi publicado no <em>Diario do Governo</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><em>Ministerio dos negocios do reino</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo
+da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da
+nação portugueza. Eu El-rei vos envio muito saudar.
+Tomando em consideração os vossos merecimentos e
+qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado,
+nomear-vos par do reino, o que me pareceu participar-vos
+para vossa intelligencia e effeitos devidos.
+Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de
+1861.&mdash;Rei.&mdash;<em>Marquez de Loulé.</em>&mdash;Para Alexandre
+Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia
+Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque
+essa mercê tinha resaibos de iguaria politica, para apreciar<span class="pn">{36}</span>
+a qual o seu paladar estava desde muito tempo
+embotado.</p>
+
+<p>Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar,
+como elle dizia, o pedestal dos homens politicos.
+Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. A sua prosa tinha
+por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons
+duros de mau humor para com a sociedade.</p>
+
+<p>Recusou a mercê regia.</p>
+
+<p>Temos fortes razões para crêr que o requerimento
+em que renunciou o pariato fomos nós arrancal-o pela
+primeira vez ao archivo do ministerio do reino.</p>
+
+<p>Diz assim:</p>
+
+<p class="assin">«Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do
+poder moderador, Houve por bem honrar-me com a nomeação
+de membro da Camara dos Dignos Pares do
+Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio
+esta demonstração de confianca d'um Soberano, que a
+historia póde qualificar como a mais nobre e pura intelligencia
+que tem resplandecido no throno portuguez,
+e que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem
+do que ao respeito como magistrado supremo.</p>
+
+<p>Mas as condições da humanidade alcançam reis e
+subditos: reis e subditos estão sujeitos a fazer apreciações
+inexactas ou incompletas. Podem illudir-se ás
+vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas inspirações
+da justiça e é possivel que em relação a mim
+se désse uma circumstancia d'essas.</p>
+
+<p>Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia
+com voz sobradamente intelligivel é que o meu
+concurso nas deliberações da camara dos Dignos Pares
+do Reino seria inutil, quando não inconveniente. Dispense-me
+v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e
+invencivel persuasão, razões tristes para mim, e porventura
+demasiado longas e tediosas para v. ex.ª</p>
+
+<p>Não creio que faltem em Portugal homens de saber<span class="pn">{37}</span>
+e virtude que tenham esperança e fé. São esses que
+pódem, sem a temeridade de Ora, erguer a mão para
+amparar a arca santa das instituições. É provavel que
+saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram
+tambem honrados com a confiança da corôa.</p>
+
+<p>Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da
+camara dos Dignos Pares do Reino á presença de Sua
+Magestade El-Rei, que, acceitando-a benignamente,
+ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da
+sua inexgotavel indulgencia para comigo.</p>
+
+<p>Deus Guarde a v. ex.ª&mdash;Lisboa, 18 de maio de
+1861.&mdash;Ill.<sup>mo</sup> e ex.<sup>mo</sup> sr. Marquez de Loulé, ministro
+e secretario d'estado dos negocios do reino.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin"><em>A. Herculano.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem,
+que nos conste, não fôra integralmente publicado no
+<em>Diario do Governo</em>, posto que a elle se alluda em outro
+diploma official.</p>
+
+<p>«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano
+de Carvalho, socio effectivo da Academia Real
+das Sciencias, Hei por bem acceitar a renuncia por elle
+feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do
+Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de
+maio proximo findo. O Ministro e Secretario de Estado
+dos Negocios do Reino assim o tenha entendido e faça
+executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de
+1861.&mdash;Rei.&mdash;<em>Marquez de Loulé</em>.»</p>
+
+<p>Do mesmo modo não foi publicada a portaria que
+acompanhou a remessa do decreto real.</p>
+
+<p>«Para Alexandre Herculano de Carvalho:</p>
+
+<p>«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado
+dos Negocios do Reino, remetter a Alexandre Herculano
+de Carvalho, socio effectivo da Academia Real
+das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia
+authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo<span class="pn">{38}</span>
+qual Houve por bem acceitar a renuncia por elle feita
+nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da Dignidade
+de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta
+Regia de 17 de maio proximo findo, o que na data de
+hoje se participa á Camara dos Dignos Pares do Reino.
+Paço das Necessidades, em 8 de junho de 1861.&mdash;<em>Marquez de Loulé</em>.»</p>
+
+<p>O unico documento que encontramos estampado no
+<em>Diario do Governo</em> é o seguinte aviso da presidencia do
+conselho de ministros á camara dos pares:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><em>Ministerio do Reino</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Direcção geral da administração politica&mdash;1.ª repartição&mdash;Livro
+15 n.º 143==Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup> Sr.&mdash;Tenho
+a honra de participar a V. Ex.ª para conhecimento
+da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade
+El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado
+pelo conselheiro d'estado effectivo João de Souza Pinto
+Magalhães, e pelo socio effectivo da Academia Real das
+Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por
+bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a
+renuncia, por elles feita nas Reaes Mãos do Mesmo
+Augusto Senhor, da dignidade de pares do Reino a que
+haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio
+proximo findo.</p>
+
+<p>«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios
+do Reino, em 8 de junho de 1861.&mdash;Ill.<sup>mo</sup> e
+Ex.<sup>mo</sup> Sr. Presidente da camara dos Dignos Pares do
+Reino.&mdash;<em>Marquez de Loulé.</em>»</p>
+
+<p>As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos
+a circumscrever este capitulo, a que poderiamos dar
+comtudo bem mais amplas proporções.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{39}</span></p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<h3>José Gomes Monteiro</h3>
+
+<p>Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava
+toda a mais Grecia, foi guiada pela legislação de Licurgo
+ao respeito da velhice. Facto verdadeiramente
+extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas
+eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos
+inuteis, os velhos, tão inuteis para o serviço da republica
+como as creanças votadas á morte, eram considerados
+em face da lei dignos do respeito e da estima
+dos seus concidadãos.</p>
+
+<p>Desde o momento em que um paiz entra no caminho
+do progresso social e na conquista de um ideal de
+perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma veneração
+tão carinhosa como delicada. Realmente, offender
+um velho é apedrejar uma arvore carregada de fructos.
+As republicas, como todas as sociedades, precisam alimentar-se
+da experiencia dos velhos e do ardor dos
+mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina,
+e a do sol que se levanta, deslisa toda a existencia da<span class="pn">{40}</span>
+familia e da nação. Estas duas correntes, em vez de se
+contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes identificam-se de
+tal modo na harmonia de um grande progresso intellectual,
+que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram
+n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal.
+Ditosos os paizes onde este facto se dá! Em França,
+por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, absorvera
+em si a alma da mocidade, que transparecia
+nos seus livros cheia do perfume da primavera, e do
+colorido <em>chatoyant</em> de tudo quanto é novo e vigoroso;
+Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na
+voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia,
+que seduz as imaginações juvenis, arrastando-as
+para o mundo das auroras, para as conquistas da luz.
+Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não
+será possivel marcar limites aos progressos de um
+paiz, mas será facil aventar que elle tomará a deanteira
+a todos os outros para guial-os na marcha das suas aspirações
+sociaes.</p>
+
+<p>Em Portugal&mdash;digamos cruamente a verdade&mdash;a
+mocidade habituou-se a caminhar atirando por cima
+dos hombros, como Deucalião, pedras contra o passado.
+A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor
+magestoso de um occaso. Os velhos foram uns
+nescios, dizem os novos. Garrett, Herculano, Castilho,
+José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo sem ter
+provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas
+vezes, a mocidade, enfurecida como um iconoclasta,
+arremetteu contra elles, procurando abalar ás mãos
+ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico descia
+a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que
+recordar estes factos, tanto mais que parece ter havido
+n'essa enorme irreverencia o só proposito de derrubar
+por derrubar. Pois o que nos tem dado em troca a
+geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor
+e dissolvente domina a sociedade em que vivemos.
+Tentativas de reconstrucção sérias e proveitosas, poucas.<span class="pn">{41}</span>
+Por cada mil alavancas que revolvem os alicerces
+do passado, uma só procura alinhar o blocus faceado
+na esquadria do novo edificio.</p>
+
+<p>Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei
+jámais cumplice da irreverencia dos meus contemporaneos.
+Tirarei respeitosamente o meu chapeu para
+saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma.
+E quando ella assignala a sua passagem com um
+rastro de luz, eu não tenho duvida em confessar publicamente,
+agora e sempre, que dirijo a minha rota
+pelo esteiro do seu leme.</p>
+
+<p>Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever;
+escrevendo de José Gomes Monteiro, colloco-me
+justamente dentro das circumstancias especiaes em que
+me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre,
+amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo
+de mais de dez annos, talvez.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2
+de março de 1807.</p>
+
+<p>Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra
+nas faculdades de leis e canones, mas, chegando
+ao quarto anno do curso, saiu de Portugal para Inglaterra,
+talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito,
+que se sentia asphixiado na atmosphera classica
+da Universidade, onde tudo se prendia ainda ao passado
+pelos élos oxidados da tradição scientifica, e onde
+começava a fermentar a discordia politica, que veio a
+motivar a emigração de 1828.</p>
+
+<p>Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer
+residencia em Hamburgo, onde fez parte da
+firma commercial Santos &amp; Monteiro, cujos revezes absorveram
+ao cabo de algum tempo todas as esperanças<span class="pn">{42}</span>
+de vida prospera. Este desastre amargurára o coração
+do homem; mas o litterato tirára enorme proveito da
+residencia em paizes onde a cultura litteraria captivava
+os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves complicações
+da vida positiva os enleavam. No estrangeiro
+travára relações de estreita amizade com Almeida Garrett
+e com todos os emigrados que, depois da victoria
+do partido avançado, foram os primeiros homens de
+Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto conhecimento
+dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava
+com notavel facilidade, penetrando com o seu
+espirito profundamente analitico na estructura intima
+do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma imprevista
+luz para a verdadeira interpretação dos textos; no estrangeiro,
+onde o suave doer da nostalgia divinisa as
+memorias da patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo
+dos classicos portuguezes e foi então que, encontrando
+na livraria da Universidade de Gottingen um
+exemplar da primeira edição dos <em>Autos</em> de Gil Vicente,
+pôde preparar, auxiliado por José Victorino Barreto
+Feio, a edição critica das obras do fundador do theatro
+portuguez.</p>
+
+<p>Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido
+valor, não obstante quaesquer ligeiros senões que possam
+apontar-se-lhe, e haver sido realisado em edade
+incompativel com a madureza de espirito que requerem
+os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr.
+Theophilo Braga, escrevendo de José Gomes Monteiro
+no 5.º volume da <em>Revista Comtemporanea</em>,<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup> dizia a este
+respeito: «O trabalho d'este livro pertence-lhe todo; a
+profundidade da sua critica avalia-se pela introducção
+com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante
+creança e é talvez por esta circumstancia, que o
+auctor hoje não lhe quer dar o alcance, que esse estudo
+na realidade tem.» Como quer que fosse, era incontestavel<span class="pn">{43}</span>
+o valor das investigações biographicas a respeito
+de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados,
+<em>o que tudo com menos fundamento ha sido por
+alguns attribuido a Barreto Feio</em>, escreveu Innocencio
+Francisco da Silva.<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup> Os irmãos Castilhos reproduziram
+na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da
+edição de Hamburgo por <em>convencidos de que a respeito
+da vida e obras do nosso poeta não poderiamos dizer
+mais nem melhor</em>. Gomes Monteiro acceitava a responsabilidade
+d'aquelle trabalho, e era o primeiro a reconhecer-lhe
+as imperfeições, postoque ligeiras, algumas
+das quaes estavam corrigidas á penna no exemplar da
+sua livraria. Mas lancem-se essas pequenas incorrecções
+á conta da mocidade do auctor, como o sr. Theophilo
+Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação,
+com que José Gomes Monteiro luctava fóra de
+Portugal.</p>
+
+<p>Se considerarmos, porém, a edição critica das obras
+de Gil Vicente, <span class="errata" title="no original: e a das de Camões">e das obras de Camões</span>, na sua influencia
+sobre a renascença litteraria de Portugal, qualquer d'esses
+trabalhos tem um grandissimo valor, porque em
+verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre
+o proprio espirito de Gomes Monteiro, mas tambem
+sobre a collectividade illustrada do nosso paiz. E,
+a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez
+o sr. Theophilo Braga, no seu artigo da <em>Revista Contemporanea</em>:
+«Desde que proferiu este <em>surge et ambula</em>,
+a Allemanha, a Inglaterra, a França, estudaram para
+de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes
+Monteiro dando-lhe parte de um drama <em>Um auto
+de Gil Vicente</em>, com o qual havia, por uma notavel coincidencia,
+dar vida ao theatro portuguez, apresentando-lhe
+o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que
+não sabia a parte que tinha no que acabava de escrever,
+nem a quem pertencia a paternidade. A renascença<span class="pn">{44}</span>
+em Portugal deve-se a tres homens: Garrett, Alexandre
+Herculano e José Gomes Monteiro.»</p>
+
+<p>Pela observação profunda dos textos durante a elaboração
+das edições criticas de Gil Vicente e Camões,
+pelas simultaneas investigações biographicas que era
+obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno dos
+processos analiticos, que estavam aliás nas condições
+phisiologicas do seu temperamento e no caracter germanico
+que pela sua longa residencia em Hamburgo
+assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de reunir
+subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria
+de Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo,
+realisaria, pela consubstanciação com o trabalho de
+Herculano, depois de concluido, a historia completa da
+nossa nacionalidade.</p>
+
+<p>Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade&mdash;o
+Porto&mdash;Gomes Monteiro dedicou a maior parte
+do tempo á investigação e preparação dos materiaes
+necessarios para a historia litteraria. A morosidade
+com que na Allemanha se educára a trabalhar pela
+applicação do criterio historico, a natural indolencia do
+seu temperamento, e largas interrupções devidas a
+melindres de saude fizeram, porém, que a obra proseguisse
+lentamente, e os seus manuscriptos ficassem
+por sua morte desatados apenas em memorias preciosas,
+sem a unidade logica e chronologica de um corpo
+de historia.</p>
+
+<p>Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha
+pequenas amostras publicadas, e a origem da publicação
+deve procurar-se sempre nas instancias de amigos
+e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi
+assim que em 1849 appareceu em opusculo a <em>Carta
+ao ill.<sup>mo</sup> sr. Thomaz Norton sobre a situação da ilha de
+Venus, e em defeza de Camões contra uma arguição,
+que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. Alexandre
+de Humbold</em>.</p>
+
+<p>N'este trabalho, em que os elementos da these são<span class="pn">{45}</span>
+procurados com notavel paciencia e lucidissima intuição,
+José Gomes Monteiro sustentou que a ilha dos
+Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam,
+nem a de Anchediva, como escrevera Faria e
+Sousa, nem <em>fingimento que o poeta fez</em>, como dissera
+Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de Moçambique.
+José Gomes Monteiro baseou em grande
+parte a sua argumentação na concordancia das descripções
+do episodio com as particularidades do clima,
+<span class="errata" title="no original: da fama">da fauna</span>, da flora, da situação geographica da ilha de
+Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup>
+mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um
+espirito sério, predisposto para tarefas d'esta natureza,
+foi respeitosamente recebido por todo o paiz.</p>
+
+<p>A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na
+firme resolução de trabalhar na realisação da historia
+litteraria de Portugal. Com effeito, como a carta a Thomaz
+Norton revelava, elle poderia ter sido para a litteratura
+portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola,
+<span class="errata" title="no original: Henri">Hipp.</span> Taine para a ingleza, Emilio Burnouf para
+a grega, etc. Mas, depois, o gravame dos annos foi
+crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos litterarios
+fizeram descair em aborrecimento. Era preciso,
+como já dissemos, que a amizade o reptasse com
+dedicado empenho, para que emittisse a sua opinião
+sobre importantes assumptos de historia litteraria. De
+uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação
+do artigo que a <em>Revista Peninsular</em><sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> inseriu ácerca da
+antiga trova do <em>Figueiral Figueiredo</em>, que José Gomes
+Monteiro suppunha filiada na lenda gallega de <em>Val-Doncel</em>.<span class="pn">{46}</span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes
+Monteiro em nota á pag. 17:</p>
+
+<p>«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um
+dos mais famosos monumentos d'esta litteratura cavalheiresca,
+e que tão distincto logar deverá ter na historia
+litteraria do nosso paiz,&mdash;o <em>Amadis de Gaula</em>&mdash;é
+de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos
+elementos historicos de que se compõe. Impenetravel
+até hoje á investigação de grandes criticos, tem
+sido considerado como uma <em>singular excepção</em> ao systema
+de <em>decomposição historica</em>. Eu mostrarei comtudo,
+em um trabalho que tenciono publicar brevemente, que
+o seu maravilhoso, os seus personagens, os seus episodios,
+tudo ali é urdido no grande tear da historia&mdash;da
+historia do seculo <small>XII</small>, o mais rico em aventuras e
+feitos d'armas da cavallaria real, de quantos contém os
+annaes da edade-media. Ali, dissolvendo as tabulas do
+<em>Amadis</em> em factos historicos, darei a mais completa
+theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos
+trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de
+<em>Endriago</em>, a mais bella concepção de todos os romances
+de cavallaria, ficará sendo um exemplo inapreciavel
+de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades
+primitivas da litteratura.»</p>
+
+<p>Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho,
+que deixou inedito, pela applicação do mesmo
+processo que tinha seguido a respeito da ilha de Venus&mdash;o
+confronto do romance com a historia. Só por
+um pacientissimo labor poderia encontrar no grande
+oceano da historia universal justamente a época cujos
+factos capitaes correspondessem aos episodios do
+romance. Procurou e achou. <em>Dissolvendo as fabulas do
+«<small>AMADIS</small>» em factos historicos</em>, como elle proprio escreveu,
+pôde localisar a acção do romance no tempo de<span class="pn">{47}</span>
+Ricardo <em>Coração de Leão</em>, enxergando no disfarce da
+allusão, motivado pelas exigencias da época, uma perfeita
+concordancia historica, e logrou chegar á conclusão
+de que Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa
+famosa novella do ciclo cavalheiresco.</p>
+
+<p>Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era
+uma edição critica da <em>Menina e moça</em> de Bernardim Ribeiro,
+da qual seriam expungidas as intercalações apocriphas
+que andam no livro. Calcule-se o dispendio de
+paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria
+ao douto bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente,
+um estudo biographico sobre Bernardim Ribeiro
+e um glossario dos vocabulos antigos completariam a
+edição critica da <em>Menina e moça</em>.</p>
+
+<p>A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro
+laboriosamente investigada, alcançando extrair das
+proprias composições do poeta illações luminosas e não
+esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que
+por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance
+<em>Um conflicto na côrte</em>, baseando-me nos documentos que
+espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam
+a intervenção do poeta na dramatica paixão do
+marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho.
+Foi nas eclogas <em>Aleixo</em> e <em>Andrés</em> que José Gomes Monteiro
+encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou
+ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas
+allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera
+á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que
+já fiz no segundo volume do romance. A minha divida
+para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha,
+que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.</p>
+
+<p>Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos,
+enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de
+um extenso artigo a respeito da <em>Arte de monteria</em>, de
+D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre
+varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos<span class="pn">{48}</span>
+os que podiam servir á elaboração de uma interessante
+monographia da cidade do Porto.</p>
+
+<p>Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica,
+temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro,
+para completarmos a pequena lista das suas obras
+impressas.</p>
+
+<p>Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha
+de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro
+em volume a traducção de algumas baladas dos poetas
+mais populares da Allemanha, sob o titulo de <em>Eccos da
+lyra teutonica</em>.</p>
+
+<p>Este livro está completamente fóra do grande programma
+dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos
+habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha,
+enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente
+conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente
+um poeta, mostrava que os processos de
+metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos
+relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia
+da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo
+assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de
+investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso
+paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo
+a exactidão dos textos, como quem perfeitamente
+conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia
+obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada
+por todos quantos saibam allemão, porque em muitas
+das poesias a traducção vem a par do original.</p>
+
+<p>Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice
+de Castilho&mdash;desaffrontando-a de accusações que
+lhe foram feitas&mdash;com a publicação do livro <em>Os criticos
+do Fausto do sr. visconde de Castilho</em>. Estava já a esse
+tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma
+resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para
+escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que
+Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a
+dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,<span class="pn">{49}</span>
+sempre que na redacção do <em>Primeiro de Janeiro</em>
+recebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido
+n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa
+do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade
+ao azedume com que os criticos de Castilho
+cairam sobre a traducção do <em>Fausto</em>, lavrava um protesto
+energico em nome da velhice desconsiderada, e
+desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as
+maguas intimas que as ingratidões de que a vida das
+lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse
+livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação
+da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe
+de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares,
+e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a
+velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram
+Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice
+empraza a mocidade irreflectida a comparecer no
+tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante
+do que o d'um mancebo insultando um ancião
+benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio
+moral de que todo o homem honesto affasta a
+vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo&mdash;a
+tão pequena distancia da sepultura. Alexandre
+Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do
+fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação
+a José Gomes Monteiro a proposito da publicação
+dos <em>Criticos do Fausto</em>. Essa carta, era breve,
+mas profundamente energica. <em>Nunca as mãos lhe doiam</em>,
+dizia o auctor da <em>Historia de Portugal</em> áquelle que muitas
+pessoas denominavam o <em>Alexandre Herculano do
+Porto</em>.</p>
+
+<p>Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma
+ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle,
+nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações,
+parecia esperar serenamente a noite misteriosa
+da morte...</p>
+
+<p>Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,<span class="pn">{50}</span>
+das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio
+Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos
+sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos <em>Lusiadas</em>,
+que foi publicada n'aquella cidade por occasião do
+terceiro centenario da morte do grande epico. A este
+nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve
+ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua
+preciosa <em>camoneana</em>, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José
+Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor
+honrando a memoria do maior poeta que tem
+tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio
+de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a
+noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta
+para receber o douto bibliophilo.</p>
+
+<p>A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia
+na traquillidade dos mortos.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio,
+a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia
+ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar.
+Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções
+litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era
+socio correspondente da Academia Real das Sciencias de
+Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O
+seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio,
+e todavia, outros muitos que ajudára a crear com
+o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção
+passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho,
+sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe
+a habitual serenidade de animo.</p>
+
+<p>Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio
+da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades
+de mortos, onde os livros falam como os tumulos.
+A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso<span class="pn">{51}</span>
+productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando
+dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão;
+mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem
+atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no
+ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio,
+são sempre uma companhia, uma guarda, uma
+força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles.
+Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar,
+mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu
+que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me?
+Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre
+elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia
+escutar, na concentração placida dos cegos, o que
+Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio
+eterno dos livros.</p>
+
+<p>A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole
+immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho,
+os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava
+os seus volumes em linha de batalha. A um
+lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro
+lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras
+coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa
+combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos
+dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores
+a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava
+as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu
+Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de
+luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus
+codigos religiosos e austeros.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes
+Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos
+lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.</p>
+
+<p>Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito
+dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se
+n'isto com as flores, que pertencem principalmente a
+quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe
+de ser aspirado pelos estranhos.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> Pag. 236.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> <em>Diccionario bibliographico portuguez</em>, vol. 4.º, pag. 363.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> O sr. conde de Ficalho contradictou na <em>Flora dos Lusiadas</em>,
+em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes
+Monteiro, mas honra-o dizendo que a sua <em>carta</em> contém, na parte
+exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> Vol. 2.º, pag. 401.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{52}</span></p>
+
+
+<h2>V</h2>
+
+<h3>No parlamento</h3>
+
+<p>Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados,
+eleito por um circulo do districto de Vizeu.</p>
+
+<p>A minha eleição não pesou na balança dos destinos
+politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os
+fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação,
+a minha eleição apresentára tres aspectos completamente
+novos:</p>
+
+<p>1.º&mdash;O circulo conhecia-me.</p>
+
+<p>2.º&mdash;Eu conhecia o circulo.</p>
+
+<p>3.º&mdash;Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento,
+derramar-se o sangue de ninguem&mdash;nem mesmo de
+um carneiro.</p>
+
+<p>A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente
+possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que
+me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno,
+deixou de me eleger dois annos depois com
+igual facilidade.</p>
+
+<p>A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.</p>
+
+<p>O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico<span class="pn">{53}</span>
+dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato
+progressista. E os fundos, por este facto, tambem
+não subiram nem desceram. A substituição de deputado
+por deputado operou-se, com grande proveito do partido
+regenerador, sem agitar a politica da Europa.</p>
+
+<p>N'um livro de memorias, que abrange vinte annos
+da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em
+que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não
+valeria chronica.</p>
+
+<p>Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal
+era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem
+deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas,
+que indirectamente me tinham levado lá.</p>
+
+<p>Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de
+minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas
+bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso
+para me fazer visconde. O projecto passou, graças á
+minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso
+avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados
+n'um jornal, que não perdi o meu tempo.</p>
+
+<p>No mez de outubro proximo findo, concorreram á
+bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:</p>
+
+<p><em>Leitura diurna</em>: leitores, 1:092; volumes impressos,
+2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros,
+6.</p>
+
+<p><em>Leitura nocturna</em>: leitores, 1:494; volumes <span class="typo" title="no original: impresgos">impressos</span>,
+2:482; manuscriptos, 31.</p>
+
+<p>O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao
+dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente
+inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam
+de ler.</p>
+
+<p>Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura,
+campeões experimentados e insignes. A minha
+humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa.
+Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas
+quando careci de justificar o meu voto.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>Da pequena bagagem que deixei depositada no <em>Diario
+dos sessões</em> escolherei um unico discurso, não só para
+comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto
+era de geito a tentar as predilecções de um
+homem que, até dentro da politica, estima os assumptos
+historicos.</p>
+
+<p>Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento
+do marquez de Pombal.</p>
+
+<p>Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:</p>
+
+<p>«<em>O sr. Alberto Pimentel</em>:&mdash;Cumprindo as disposições
+do regimento, começo por ler a minha proposta.</p>
+
+<p>(<em>Leu</em>).</p>
+
+<p>A camara tem ouvido benevolamente considerações,
+se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto
+contradictorias, e espero que ella me dispensará igual
+benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam,
+sobre este assumpto, as minhas opiniões.</p>
+
+<p>Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um
+grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de
+Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella
+falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda
+muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica,
+para qualquer demonstração de applauso nacional em
+honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.</p>
+
+<p>A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda
+que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas
+que partem do coração ardente da gente moça, ainda
+que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos
+em que palpita exuberantemente a seiva da
+idade juvenil, não devo esquecer que os academicos
+são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre
+flores e não fructos.</p>
+
+<p>Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno
+tão extraordioario na natureza como na sociedade.
+Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos
+apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.<span class="pn">{55}</span>
+A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos
+tel-a.</p>
+
+<p>Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam
+depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se
+desapparecem rapidamente na sua balada phantastica,
+caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar,
+vergados ao peso das suas proprias responsabilidades,
+como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho
+da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e
+uma glorificação.</p>
+
+<p>E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades
+politicas do marquez de Pombal não estão
+ainda perfeitamente liquidadas.</p>
+
+<p>Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica,
+sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro
+Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.</p>
+
+<p>Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro
+Chagas a respeito de um dos actos mais importantes
+da vida do marquez de Pombal.</p>
+
+<p>Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos
+conspiradores contra D. José I.</p>
+
+<p>A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades,
+ambas contemporaneas, para provar a minha
+asserção de que as responsabilidades politicas do
+marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas
+ainda.</p>
+
+<p>Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:</p>
+
+<p>«<em>Nos dominios severos da historia ainda não passou
+em julgado</em> nem a sentença que condemnou a perpetua
+infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu
+lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa
+e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a
+sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos
+recordar que as duas filhas do marquez de Alorna,
+uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes
+longo e triste captiveiro, attenuado unicamente<span class="pn">{56}</span>
+pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe
+as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e
+desvelos a educação maternal.»</p>
+
+<p>Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos,
+cuja perda todos lastimamos, e eu mais que
+ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro
+Chagas, que sinto não ver presente, e que tão
+enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica
+de nacional.</p>
+
+<p>«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou,
+pelo menos, que não deviam ser condemnados, <em>pois que
+havia falta absoluta de provas</em>, alguns dos desgraçados
+de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas <em>não sabemos</em>
+se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho.
+<em>Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa
+historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam,
+trouxe a lume todos os documentos que podessem
+lançar luz n'este drama tenebroso.</em>»</p>
+
+<p>Depois da citação d'estes periodos, arrancados á <em>Historia
+de Portugal</em>, do sr. Pinheiro Chagas, e que por
+isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença
+para referir um facto, que é um traço anecdotico
+da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.</p>
+
+<p>Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa
+de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e
+franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de
+dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as
+condições de bem-estar.</p>
+
+<p>Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado
+com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia
+ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma
+bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu
+amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios
+que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a
+retirar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Por que? perguntou-lhe Figueiredo.<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>&mdash;Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel
+necessidade de dizer mal d'elles, e de si.</p>
+
+<p>A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello
+póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles
+que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos
+são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou
+citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre
+amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seus <em>Portuguezes illustres</em>.
+Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:</p>
+
+<p>«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira
+de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista
+Pelle, <em>clamam alto contra o marquez de Pombal</em>.»</p>
+
+<p>Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella
+explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando
+n'este momento com relação ao marquez de
+Pombal.</p>
+
+<p>Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade
+academica, o governo viu por ventura, e principalmente,
+no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e
+propoz uma estatua em sua honra.</p>
+
+<p>É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas
+devem ser para os legisladores, por isso que são
+frias, austeras como elles.</p>
+
+<p>Para os grandes artistas, para os grandes pintores,
+para os grandes poetas, para os grandes oradores e
+para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser
+as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações
+publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os
+arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos,
+n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das
+praças, como ha pouco teve Camões.</p>
+
+<p>José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais
+vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que
+remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que
+na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em
+frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>Camões é muito maior nos <em>Lusiadas</em> do que na estatua
+do Loreto.</p>
+
+<p>Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente
+pombalina que partia da iniciativa particular, academica
+ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez
+de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.</p>
+
+<p>O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas
+de concorrer apenas com uma simples esmola para
+a celebração do centenario. O governo, sr. presidente,
+não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura,
+e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte
+pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro,
+visto que a palavra, por infelicidade minha, me
+chegou tão tarde.</p>
+
+<p>Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia
+bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua,
+porque d'esse metal existiam umas antigas peças
+de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas
+em peças raiadas.</p>
+
+<p>Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado
+nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco
+que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000
+réis, justamente n'uma época em que se está pedindo
+ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos
+alimenticios de primeira necessidade.</p>
+
+<p>Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação
+da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de
+100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de
+Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi
+as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar
+de attender, visto que somos chegados á parte menos
+attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a
+fazer.</p>
+
+<p>Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me
+comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer
+levantar estatuas, as pague.<span class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto?
+Isto a proposito de estatuas, de monumentos.</p>
+
+<p>Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão,
+n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D.
+Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D.
+Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto,
+mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.</p>
+
+<p>Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que
+tinha igualmente uma grande veneração por aquelle
+monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento,
+sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que
+a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.</p>
+
+<p>E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um
+monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa
+particular.</p>
+
+<p>Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro
+a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos,
+que já se vae tornando demasiadamente extensa.</p>
+
+<p>Quer v. ex.ª saber o que acontece?</p>
+
+<p>Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será
+facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista.
+Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...</p>
+
+<p><em>Vozes</em>:&mdash;Ouçam, ouçam.</p>
+
+<p><em>O Orador</em>:&mdash;Em 1885 teremos o setimo centenario
+de Affonso Henriques.</p>
+
+<p>Este vale bem uma festa nacional, creio eu.</p>
+
+<p>Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da
+Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição
+em Portugal.</p>
+
+<p>Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney,
+e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador
+litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal,
+que o encarregou de negociações em Roma para
+a abolição da companhia de Jesus.</p>
+
+<p>Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello
+e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem
+aliás não era affeiçoado.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio
+Vieira.</p>
+
+<p>Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso
+de Albuquerque.</p>
+
+<p>Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da
+Gama.</p>
+
+<p>Em 1928 teremos o centenario de Brotero.</p>
+
+<p>Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares
+Pereira.</p>
+
+<p>Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.</p>
+
+<p>Em 1954 teremos o centenario de Garrett.</p>
+
+<p>Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D.
+Henrique.</p>
+
+<p>Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes,
+o celebre inventor do <em>Nonio</em>.</p>
+
+<p>Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D.
+Fernando. (<em>Vozes</em>:&mdash;Muito bem).</p>
+
+<p>E assim por diante.</p>
+
+<p>Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara,
+e mesmo porque da continuação d'esta lista espero
+que algum dia se encarregarão os meus netos ou
+os seus filhos...</p>
+
+<p>Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do
+24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas
+pela memoria da administração do marquez de Pombal,
+tambem o 24 de julho é uma festa que entristece
+profundamente muitas familias portuguezas.</p>
+
+<p>Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D.
+Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa
+do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem
+notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu
+já a sancção official, porque está traduzida n'uma
+fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve
+uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.</p>
+
+<p>Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá
+ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de
+que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que<span class="pn">{61}</span>
+alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto
+do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido,
+por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações
+de desagrado.</p>
+
+<p>Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo
+entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se
+indifferente, mas faça-se a festa com ordem e
+com moderação.</p>
+
+<p>Estes creio eu que são os votos de toda a camara.</p>
+
+<p>Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha.
+Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta,
+a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador
+dos estudos, protector das industrias e restaurador
+de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas
+um acto de deferencia do governo para com as letras,
+as industrias e a capital.</p>
+
+<p>O marquez de Pombal vive ainda na universidade
+de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e
+em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes
+da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que
+a justiça se vá fazendo lentamente.</p>
+
+<p>Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu,
+D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio
+em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não
+quiz resar um <em>requiem</em>; hoje é a academia que lhe quer
+fazer um triumpho, embora contestado ainda...</p>
+
+<p>Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o
+mais.</p>
+
+<p>Disse.»</p>
+
+<p>A minha passagem por S. Bento não vale chronica
+de maior folego.</p>
+
+<p>Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o
+capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens.
+Mas dos homens com quem lá convivi e tratei
+mais intimamente conservo gratas recordações, e essas
+quero-as deixar archivadas n'este livro.</p>
+
+<p>P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito<span class="pn">{62}</span>
+por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta
+vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas
+que differença! Os homens são quasi todos os mesmos
+de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes
+politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos
+que expludiam como bombas de dinamite, e na
+tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições,
+pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos
+de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro
+para dizer que houve vias de facto, e pateada.
+Que differença! que differença!</p>
+
+<p>Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo
+é... o parlamento.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{63}</span></p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<h3>Antonio Rodrigues Sampaio</h3>
+
+<p>O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta
+phrase que todos têem repetido: «É um homem que
+faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam
+servir para tudo, é uma glorificação.</p>
+
+<p>São <span class="errata" title="no original: a rodos">a rodo</span> os jornalistas e os politicos; em nenhum
+tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de
+fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o
+formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar
+para o poder carregados, como as formigas,
+com o peculio do seu trabalho ou das suas honras
+vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta
+conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais
+egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar
+que Antonio Rodrigues Sampaio <em>faz falta</em>.</p>
+
+<p>E assim é.</p>
+
+<p>Faz falta, porque era um homem superior, tinha o
+seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem
+pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não<span class="pn">{64}</span>
+acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e
+quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda
+a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia
+ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que
+não tivesse chegado mais cedo.</p>
+
+<p>Tendo um passado politico, foi ministro depois de o
+ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder
+pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira
+vez que foi ministro (1870) não passou do patamar
+da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias,
+em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava
+a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a
+quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de
+ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por
+guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha,
+poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na
+cabeça e sair.</p>
+
+<p>Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se
+no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia
+luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os
+nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos
+com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais
+gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua
+coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes.
+O ministerio empregava todos os meios ao seu
+alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista.
+Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial
+no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e,
+durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente,
+apparecia em toda a parte, até dentro das
+pastas dos ministros!</p>
+
+<p>Os revolucionarios de hoje seguem um caminho
+muito mais commodo: mediante uma estampilha de
+dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.</p>
+
+<p>Depois da perseguição, da caça ao jornalista por
+parte do governo, vieram as tentativas de suborno.
+Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a<span class="pn">{65}</span>
+provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello.
+Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E,
+quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio
+chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio
+Palmella todas as vantagens que este lhe propunha.
+D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça
+de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos
+Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:</p>
+
+<p><em>Faz falta.</em></p>
+
+<p>Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando
+de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições
+irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o
+com a serena philosophia do seu bom humor habitual,
+por que o bom humor era n'elle uma philosophia.</p>
+
+<p>O marquez de Caraccioli chamava a isto <em>gaieté philosophique</em>,
+alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem,
+diz elle, que contente com a sua sorte e com o
+seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma
+maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle
+os pesares como tentações, e só procura os objectos
+consoladores. É por um tal sistema de felicidade
+que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos,
+e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica
+a esse contentamento da alma, que se não altera
+nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os <em>espinhos
+do poder</em>! repetia muitas vezes Sampaio, <em>isso é
+apenas uma metaphora</em>. E tinha razão, porque elle exercia
+o cargo de ministro de estado com a mesma alegria
+philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que
+exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado,
+apreciava sobremodo o poder andar de trem.
+Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos
+da lenda, por se ver obrigado a passar do trem
+para o <em>americano</em>. Dizia-o muitas vezes, rindo.</p>
+
+<p>Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam
+rindo tambem. <em>J'ai ri, me voilà désarmé.</em> Rindo,
+sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem<span class="pn">{66}</span>
+ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens
+haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava
+a comprehender como esse velho placido e alegre,
+cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de
+um momento para o outro no ardente articulista da
+<em>Revolução de Setembro</em>, semeando ás vezes resentimentos
+pessoaes que poderia ter evitado.</p>
+
+<p>De uma vez certo titular <em>vieille roche</em> foi pedir-lhe
+um favor politico.</p>
+
+<p>&mdash;Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por
+aqui a pedir favores de chapeu na mão.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.</p>
+
+<p>Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia
+procurou Sampaio para se oppôr ao despacho
+de um governador civil.</p>
+
+<p>Sampaio respondeu-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos;
+consinta ao menos que o ministro do reino governe
+n'um.</p>
+
+<p>Eu, que acabava de passar tormentosamente pela
+vida administrativa, combati algumas disposições do
+codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado <em>Viagens
+á roda do codigo admistrativo</em>.</p>
+
+<p>Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus
+apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães,
+Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca
+buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:</p>
+
+<p>&mdash;Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo,
+mas eu não me zangarei com elle por causa do
+circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como
+d'antes.</p>
+
+<p>A minha eleição foi causa indirecta da transferencia
+de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito,
+Sampaio mandou-me chamar pelo seu <em>correio</em>.</p>
+
+<p>Fui immediatamente saber o que elle queria.<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>&mdash;Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente
+Sampaio.</p>
+
+<p>&mdash;Por que? perguntei eu muito intrigado.</p>
+
+<p>&mdash;Por que, meu caro amigo, as influencias locaes,
+que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado
+meu.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que
+trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o
+ministro F. e combine com elle o remedio.</p>
+
+<p>Assim fiz; assim se fez.</p>
+
+<p>Deve notar-se que Sampaio era então presidente do
+conselho de ministros.</p>
+
+<p>Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações,
+e a todas as injurias.</p>
+
+<p>Pouco antes de morrer andava em discussão accesa
+com Eduardo Tavares, que redigia então as <em>Instituições</em>.</p>
+
+<p>Certo dia as <em>Instituições</em> chamaram a Sampaio <em>pedaço
+d'asno</em>, com todas as lettras.</p>
+
+<p>No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio
+tambem responderia a isto ou se deixaria de responder.
+Eu apostei que responderia. No dia seguinte
+corri a ler a <em>Revolução de Setembro</em>. O artigo de Sampaio
+principiava assim: «O homem das <em>Instituições</em> chamava-nos
+hontem <em>pedaço do seu todo</em>.»</p>
+
+<p>Soberbo!</p>
+
+<p>Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se
+forte na velhice. <em>L'homme gai ne vieillit point, et paroit
+toujours se bien porter</em>, observa o marquez de Caraccioli.
+Os artigos da <em>Revolução</em> punham bem em evidencia esta
+verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo.
+E os seus profundos conhecimentos de latinidade
+traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte
+das vezes, citações que elle aproveitava habilmente
+para acerar a mordacidade com que sabia rir da má
+situação em que deixava os adversarios politicos, ou
+em que elles proprios se collocavam.<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito
+medico, <em>malgré lui</em>. Mas nas suas mãos a dictadura foi
+uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar
+os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo
+armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se
+em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador
+Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia
+como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou
+para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo
+deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem
+receia a dictadura de um homem bom.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse:
+«É preciso defender a monarchia.»</p>
+
+<p>Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo,
+deve ser recebida como um evangelho.</p>
+
+<p>Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o
+cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre
+deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como
+o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa
+vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras,
+tanto mais apertadas quanto mais o espirito
+lucta para desembaraçar-se e partir.</p>
+
+<p>Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario
+da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada
+do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava <em>à outrance</em>
+o ministerio de 1846, porque entendia que esse
+ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava
+a idéa de liberdade que na Europa progressiva
+servira de base á reconstrucção monarchica.</p>
+
+<p>Se depois do estabelecimento do regimen constitutional
+a monarchia se desprestigiasse prematuramente,
+seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida
+antes de amadurecer. Como adversario valoroso<span class="pn">{69}</span>
+do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas
+raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas
+em derredor do throno constitucional.</p>
+
+<p>Depois da organisação regular dos partidos politicos,
+Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes
+atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque
+perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria
+as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na
+anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo,
+ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia
+que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação
+e de estimulo na gerencia dos negocios publicos,
+e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.</p>
+
+<p>Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas,
+em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi
+sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os
+monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de
+conservar. Elle nunca o ultrapassou.</p>
+
+<p>Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo
+do conflicto pela inversão violenta dos principios
+estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos
+sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela
+irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do
+estado concede a todos e a cada um.</p>
+
+<p>Sampaio viveu muito; viu muito.</p>
+
+<p>Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora
+morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da
+febre: «É preciso defender a monarchia.»</p>
+
+<p>E é.</p>
+
+<p>Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente
+demarcados: monarchicos a um lado, inimigos
+da monarchia a outro lado.</p>
+
+<p>Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são
+de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso.
+Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos
+costumes politicos, procuremos fazer uma administração<span class="pn">{70}</span>
+rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á
+porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos
+as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos
+os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem
+a sua cooperação, e veremos depois quem
+triumpha.</p>
+
+<p>Mas para que o consigamos é preciso não adormecer:
+<em>é preciso defender a monarchia</em>.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<h3>A livraria de Sampaio</h3>
+
+<p>Não ha nada que me entristeça tanto como assistir
+ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre
+esses espectaculos que me são dolorosos, e que se
+repetem em Lisboa quasi todos os dias.</p>
+
+<p>São ordinariamente duas as causas que determinam
+este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer
+d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam
+os livros, não para os revender com lucro, mas
+para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem
+a um leilão de livros com a indifferença profissional
+com que um medico assiste a uma operação cirurgica,
+e um enfermeiro á agonia de um moribundo.
+Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando
+na giria do negocio o que se vae passando
+em torno d'elles, mas acompanhando sempre,
+com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e
+os movimentos do leiloeiro. E para um lado: <em>Comprou
+bem</em>; para outro lado: <em>Comprou mal</em>; ou, para um espectador<span class="pn">{72}</span>
+que lhe diz:&mdash;<em>Quem comprou bem foi o senhor</em>,&mdash;como
+se um livreiro pudesse comprar mal algum dia:
+<em>Acredite que não ganho senão a encadernação.</em></p>
+
+<p>Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi
+por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo
+fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco
+vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas
+pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a
+possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia
+muitos annos; fez porventura um grande, um enorme
+sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a,
+adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava
+o seu thesouro com orgulho: <em>Veja lá isto! Que
+me diz a isto?</em>&mdash;uma edição muito bem conservada,
+uma verdadeira preciosidade!</p>
+
+<p>Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este
+mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram
+de uma vez um manuscripto de Mallebranche.
+Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser
+n'essa occasião ministro da instrucção publica em França,
+o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente.
+Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto
+foi apenas emprestado, disse o intermediario;
+o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu
+Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha
+paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos
+d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão,
+e vão ficando com os livros dos outros.</p>
+
+<p><em>Livre preté, livre perdu</em>, diz um proverbio francez.
+Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por
+isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar
+Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de
+Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É
+como se me pedisse emprestada minha mulher!»</p>
+
+<p>Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente,
+dia a dia, e a que o proprio constructor não
+chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja<span class="pn">{73}</span>
+uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca,
+que se deixa sempre incompleta no momento em que
+a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se
+é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado,
+não consegue, á força de canceiras e dispendios,
+reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam.
+Ha sempre um thesouro encanado que elle não
+póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é
+tão precipitado, tão febril o movimento litterario de
+nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda
+quando elle se não perdesse de vista um momento.</p>
+
+<p>Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora
+a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo
+sempre vivo, com uma fé sempre nova, e
+muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado
+pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e
+que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a
+sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os
+seus livros, a atirar&mdash;elle mesmo!&mdash;esses volumes, tão
+amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias
+dos livreiros&mdash;os gatos pingados da bibliographia&mdash;que
+fazem todos os funeraes das livrarias com
+a mesma indifferenca com que os outros arrancam os
+cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar
+na voragem do cemiterio.</p>
+
+<p>«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das
+grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»</p>
+
+<p>Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros;
+não consentem que ninguem lhes toque, muitos não
+querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou
+para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e
+dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho:
+portanto, faço-a guardar por um eunuco.»</p>
+
+<p>Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus
+livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos,
+a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria
+vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que<span class="pn">{74}</span>
+se espalham de graça, com uma publicidade profana, e
+esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico
+de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros,
+que caem famintamente sobre elles, que os
+devoram com o olhar, que os disputam na praça, como
+se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece
+ao publico, e se vende a quem mais der.</p>
+
+<p>Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que
+alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas
+ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote
+d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel,
+como o da festa da Bona Dea na Roma antiga.
+Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade
+o santuario, desacata-o, profana-o, commette um
+sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se
+Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma
+crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que
+não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho
+da sua phantasia.</p>
+
+<p>Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do
+seu dono, a profanação é ainda maior&mdash;talvez!</p>
+
+<p>Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio
+Rodrigues de Sampaio.</p>
+
+<p>Este homem que a posteridade não poderá esquecer,
+comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu
+paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias
+vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do
+conselho de ministros.</p>
+
+<p>Á porta da sua casa&mdash;aquella mesma casa&mdash;ordinariamente
+fechada, batêra muita gente, timidamente,
+respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor.
+Todo o pretendente era introduzido por um criado na
+saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse,
+com o seu grande ar de bonomia, o velho
+Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de
+baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau,
+e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.<span class="pn">{75}</span></p>
+
+<p>Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena
+porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali
+sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus
+intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o
+guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se
+guloso por bolos finos.</p>
+
+<p>Pois desde que o leilão começára, a porta da rua
+estava aberta de par em par, escancarada, franca para
+todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando
+uns com os outros, rindo, não encontrando criado
+algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar
+nenhum o correio do ministro do reino, que por
+tantos annos fez estação n'aquelle portal&mdash;ninguem,
+nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos
+habitaram n'aquella casa.</p>
+
+<p>A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas,
+arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o
+candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano,
+entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos
+que esperavam o principio do leilão. Á porta
+do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a
+que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a
+ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto,
+emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros
+que primeiro haviam de ser postos em praça.</p>
+
+<p>N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que
+estava, para assim dizer, impregnado da individualidade
+de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel
+devastação; parecia que o vento ardente do deserto
+passára por ali resequindo o coração de quantos
+haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte
+que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos
+dos quaes estavam amontoados no chão...</p>
+
+<p>Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia
+o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que
+passasse por diante de si um livro bom; por isso,
+quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam<span class="pn">{76}</span>
+sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em
+pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo&mdash;ao
+menos.</p>
+
+<p>Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos
+seus livros.</p>
+
+<p>No leilão, vendeu-se um exemplar dos <em>Sophismas
+parlamentares</em>, de Bentham, edição de 1840, prefaciada
+por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio
+de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no
+ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha
+traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente
+que Sampaio estava lendo com interesse e que,
+desejando marcar um pensamento original, não queria
+retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do
+que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido
+signal indicativo para facilitar a busca.</p>
+
+<p>Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por
+Sampaio.</p>
+
+<p>No prefacio de Regnault estão marginados todos os que
+se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo:
+«Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a
+sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.»
+«Antigamente, as communas tinham um simples
+direito de petição para obter a reparação dos
+aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»</p>
+
+<p>No texto, estão sublinhados, além de outros, estes
+pensamentos de Bentham:</p>
+
+<p>«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na
+mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo,
+mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações,
+posto se chame velha á geração que precede outra,
+não se póde sustentar que tenha mais experiencia
+do que a que lhe succede.</p>
+
+<p>«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as
+gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro
+como o de chamar velho a uma creança de berço.</p>
+
+<p>«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados<span class="pn">{77}</span>
+velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos?
+Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»</p>
+
+<p>«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra
+a ninguem. Não se encontra no caminho com os
+ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem,
+dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça
+e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito
+pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o
+seu odio pelos vivos.»</p>
+
+<p>«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram
+de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua
+benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»</p>
+
+<p>Ainda mais alguns aphorismos:</p>
+
+<p>«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato;
+um procedimento insensato produz crueis desastres;
+d'esses desastres vem o mais util ensinamento.</p>
+
+<p>«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não
+ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso
+que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»</p>
+
+<p>«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania
+é absurda; toda a lei que a si mesma se declara
+irrevogavel, é perigosa.»</p>
+
+<p>«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não
+póde durar mais do que essas circumstancias.»</p>
+
+<p>«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim.
+Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae
+resistindo, e Blackstone vos adorará.»</p>
+
+<p>De quantos livros se venderam no leilão Sampaio,
+um dos mais annotados era com certeza a <em>Histoire des
+origines du gouvernement representatif en Europe</em>, de
+Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra,
+sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas,
+que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são
+tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que
+chegam a tracejar toda a pagina.</p>
+
+<p>Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo,
+é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira
+por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de
+dar e de fazer executar a lei na sociedade.</p>
+
+<p>«Ha duas grandes theorias de soberania.</p>
+
+<p>«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem
+sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha,
+ou principaes do povo. Outra sustenta que a
+soberania de direito não póde existir na terra, e não
+póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força
+terrestre que conheça e queira inalteravelmente a
+verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania
+de direito, que devem regular a soberania de facto.</p>
+
+<p>«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto,
+seja qual fôr a fórma de governo. A segunda
+combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não
+reconhece em caso algum a sua legitimidade.</p>
+
+<p>«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente
+nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se
+n'uma certa medida, porque não ha nada que
+seja completamente destituido de verdade nem inteiramente
+isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra
+que predomina em cada fórma de governo, e que póde
+ser considerada como seu principio.</p>
+
+<p>«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade
+radical de todo o poder absoluto, quaesquer
+que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo
+representativo.»</p>
+
+<p>O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas
+por Sampaio é altamente curioso como elemento
+critico para a caracterisação historica do annotador.</p>
+
+<p>Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos
+apenas lançar no papel as impressões que nos
+deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam
+expostas com a sinceridade que sempre tivemos para
+com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para
+comnosco.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<h3>Saraiva de Carvalho<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup></h3>
+
+<p>O scenario era triste.</p>
+
+<p>A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma
+chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia
+cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro,
+nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos
+cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos
+Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de
+agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava
+crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas
+revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e
+concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os
+seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho,
+que se desfaziam e renovavam a cada momento.</p>
+
+<p>Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo
+duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas<span class="pn">{80}</span>
+pela chuva, sem brilho e sem consistencia.
+Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes
+de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente,
+n'uma oscillação solemne, através de um silencio
+lugubre.</p>
+
+<p>Nada mais triste do que o enterro de um homem
+novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito
+nas luctas do talento.</p>
+
+<p>A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com
+effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta
+por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir
+e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se
+revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias
+deixam após si uma extensa chronica, cheia de
+opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas.
+Recordal-as, é desviar por momentos a attenção
+para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir
+do facto material do aniquilamento para o mundo
+pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir
+épocas passadas, em resuscitar homens que já
+não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os
+actores de acontecimentos importantes na politica, na
+litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no
+commercio ou nos salões elegantes da sociedade.</p>
+
+<p>Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o
+espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de
+sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos
+da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido
+por assalto uma victima desprevenida e tranquilla.
+Depois, os que morrem novos deixam uma pequena
+biographia, por maior que haja sido o seu talento e o
+seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções
+se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado
+bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De
+modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua
+devastação prematura...<span class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e
+tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta
+isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos
+que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o
+dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava
+apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram
+a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios,
+porque os dois primeiros foram mais uma contingencia
+da politica do que uma conquista por direito.</p>
+
+<p>Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno
+periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em
+que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos
+encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.</p>
+
+<p>Então, era Saraiva, como todos os homens da sua
+idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente.
+Vinha do <em>Gremio Litterario</em>, onde mostrára as
+suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis.
+Mas a intelligencia, por mais brilhante que
+seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito.
+É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações
+da atmosphera social, que elle se robustece
+e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva
+de Carvalho comprehendeu que precisava justificar
+no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára.
+1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade.
+E como fosse tambem um homem brioso,
+deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu
+paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro
+por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira
+não fizera emergir nos conselhos da corôa um
+homem completamente inutil.</p>
+
+<p>Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de
+Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia
+ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar.
+Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios<span class="pn">{82}</span>
+premiaram os seus esforços honrados e justos
+levando-o de novo ao poder em 1870.</p>
+
+<p>A politica portugueza estava então n'um periodo agitado,
+que tornava ephemera a vida dos ministerios, e
+as origens revolucionarias do movimento popular de
+1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor
+e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente
+para tornar friamente reflexiva a cabeça de um
+homem novo.</p>
+
+<p>Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa,
+Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo
+todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava,
+e a sua idade mal sabia reprimir.</p>
+
+<p>Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio
+d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação,
+cheio d'esse ardor indomavel que não raro se
+confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando
+mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns
+em que o foi muito, os seus proprios adversarios
+reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem
+combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha
+já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho
+as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um
+adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do
+mais glorioso dos direitos&mdash;aquelle que o talento confere.</p>
+
+<p>Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe
+todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito
+dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão
+para colhel-o.</p>
+
+<p>E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo
+havia chegado agora, definitivamente. Voltando
+ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da
+pasta das obras publicas com uma attenção intelligente
+e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo
+do meu ponto de vista politico, não posso concordar<span class="pn">{83}</span>
+com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de
+reconhecer que o seu espirito havia passado por uma
+transformação fructuosa e largamente promettedora.
+Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias
+da sua posição official, e modificou-se notavelmente,
+sobretudo no discurso que como ministro proferira
+na camara dos pares.</p>
+
+<p>Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera
+por um só acto ou por uma só phrase, até
+nas questões mais apaixonadas que se travaram no
+parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára
+a formar-se, de que seria um dos homens de
+estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores
+do nosso paiz.</p>
+
+<p>N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou.
+Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa,
+contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade
+todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda,
+em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos
+de ter outro. Sempre que a obra de um homem
+não está concluida, a sua perda equivale a duas:
+é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará.
+Faz portanto falta ao presente e ao futuro.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Emquanto alguns oradores discursavam junto ao
+jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente
+coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes
+do que a imponencia d'aquella grande manifestação
+funebre feita por todos os partidos politicos militantes,
+eu pensava, um pouco <em>bercé</em> pela chuva que principiava
+a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu
+n'um rithmo monotono.</p>
+
+<p>No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma<span class="pn">{84}</span>
+illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia
+achar vocabulo mais expressivo do que o <em>bercer</em> francez,
+visto que este verbo significa não só o acto material
+de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas
+esperanças.</p>
+
+<p>Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu,
+bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes
+sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.</p>
+
+<p>Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos
+do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas
+luctas politicas da imprensa e do parlamento.</p>
+
+<p>Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se
+elles a si proprios. Se se trata de um correligionario,
+exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse
+novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata
+de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de
+adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o
+deixar amolgado.</p>
+
+<p>Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento
+conhecem este defeito da politica portugueza,
+e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o
+mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente
+os ovos de paschoa com que na primeira hora o
+receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram
+vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel
+como <em>cretino</em> ou tão gentil como <em>marinelo</em>.</p>
+
+<p>Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo
+de intensidade, e o sujeito apparece chrismado em <em>tolo</em>
+com todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para
+que se veja bem de longe.</p>
+
+<p>Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes
+a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára
+na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu
+estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os
+contrarios, como um valentão de feira.</p>
+
+<p>E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador
+de pau, já umas vezes por outras descarrega o<span class="pn">{85}</span>
+fueiro sobre os seus proprios amigos&mdash;por engano, é
+claro.</p>
+
+<p>Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes
+podem fazer-se rapidamente por meio de um <em>cliché</em>
+inalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores
+é quasi um luxo.</p>
+
+<p>Referindo-se a um orador governamental, dizem as
+folhas opposicionistas no dia seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<em>É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F.
+teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento.
+A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia
+satisfeito de vêr que estava agradando ao governo
+que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não
+pagar.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo
+que está apreciando um orador da opposição:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«<em>A comedia foi bem representada. Como truão, o orador
+é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre
+a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou
+pelas costas de um collega o copo de agua. No fim
+de contas, para que? Para ver se o governo se intimida,
+e lhe atira com uma posta gorda.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias,
+uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se
+de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou
+um homem do governo.</p>
+
+<p>A mutação de scena é completa, n'este caso.</p>
+
+<p>Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o
+morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio.
+Cada um empunha reverentemente uma tocha para
+allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias
+empunhava a penna para lhe denegrir a reputação.
+E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua
+benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum<span class="pn">{86}</span>
+dos que ali estão&mdash;que lhe fizeram a mesma coisa com
+tinta de escrever e lama das ruas.</p>
+
+<p>Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da
+berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:</p>
+
+<p>&mdash;Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario
+dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma
+que lhe désse!</p>
+
+<p>E a respeito de um opposicionista morto:</p>
+
+<p>&mdash;Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou
+um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro
+hoje em dia...</p>
+
+<p>Dizia com graça um homem politico importante, que
+se achou de uma vez ás portas da morte:</p>
+
+<p>&mdash;Estive tão mal, que já os periodicos começavam
+a dizer bem de mim!</p>
+
+<p>O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia
+calcular...</p>
+
+<p>No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada.
+Os ministros saem do poder insultados e empenhados.
+Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no
+dia em que são obrigados a pagar a renda das casas.
+Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados
+com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas
+já não podem desentalar-se mais. As repartições de
+fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro
+quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a
+maior parte das familias do paiz ficava arruinada de
+um dia para o outro.</p>
+
+<p>São rarissimas em Portugal as pessoas que podem
+adormecer sem que uma espada de Damocles impenda
+sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este
+paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita
+mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece
+fazer maior gosto de passar por deshonesto aos
+olhos de si mesmo.</p>
+
+<p>Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar
+por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas,
+um dos seus homens mais importantes e populares.
+Era o Sampaio da <em>Revolução</em>. Ninguem mais apedrejado
+do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios.
+Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se
+uma enorme manifestação de respeito.</p>
+
+<p>O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho,
+um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva
+foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes
+amesquinhado na sua importancia, que era grande.</p>
+
+<p>Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o
+vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa,
+centenas de pessoas de todas as parcialidades
+politicas.</p>
+
+<p>Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos
+preciosos para qualquer dos dois partidos. Era
+talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto
+solemne&mdash;o de entrar n'uma nova vida politica,
+de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater
+os principios, não é preciso combater os homens.
+Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a
+Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos
+a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.</p>
+
+<p>Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer
+uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora
+um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto
+por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.</p>
+
+<p>Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece
+que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição
+fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o
+mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante
+de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem
+perante um tumulo regenerador.</p>
+
+<p>Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso
+poderia levantar-se em honra dos dois mortos
+illustres.<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<p>&mdash;Opporiamos programma a programma, tradição a
+tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos
+oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas
+disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam
+como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os
+projecteis vibrados do campo regenerador achariam
+um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de
+Carvalho.</p>
+
+<p>Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor
+ou vencido, porque a calumnia não existiria.</p>
+
+<p>N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria
+direitos: morto por morto, tumulo por tumulo,
+as condições eram iguaes.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar
+no deserto!</p>
+
+<p>Dezembro de 1882.<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup>
+Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter
+ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup>
+Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade
+politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos
+tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de
+Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido
+e... visto!&mdash;N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{89}</span></p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+
+
+<h3>Fontes Pereira de Mello</h3>
+
+<p>A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens
+notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade
+do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro
+soou a nossos ouvidos desde a infancia.</p>
+
+<p>Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das
+lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal
+Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu
+o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de
+S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho
+nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o
+desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp,
+o successor do duque de Loulé na chefatura do
+partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio
+ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes
+Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado
+estadista, cujo nome, ainda antes da consagração
+da morte, era já uma gloria nacional.</p>
+
+<p>É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,<span class="pn">{90}</span>
+para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar
+desde já que, depois do marquez de Pombal, não
+tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes
+Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel
+predecessor.</p>
+
+<p>Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo
+produz um estadista como o marquez de Pombal e
+como Fontes Pereira de Mello.</p>
+
+<p>Não são certamente dois reformadores da mesma
+indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.</p>
+
+<p>O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico,
+a industria nacional, animou o commercio portuguez,
+e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.</p>
+
+<p>Passára um seculo, e as circumstancias mudaram,
+como era natural que acontecese.</p>
+
+<p>Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente,
+por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto
+não menos perigoso e devastador havia abalado
+a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.</p>
+
+<p>Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira
+de Mello appareceu na scena politica com o movimento
+chamado da <em>regeneração</em>, palavra que é ainda hoje
+a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira
+de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado
+e sempre querido.</p>
+
+<p>A industria e o commercio nacional estavam atrophiados;
+o credito abalado pelas consequencias da guerra
+civil; as finanças desorganisadas; os empregados do
+estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que
+devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra
+viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande
+incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio
+atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas
+que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar
+a administração publica na grande complexidade
+dos seus elementos componentes.<span class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>Pois bem, essa ardua missão coube a um homem
+novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.</p>
+
+<p>O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens
+na guerra e para a guerra, mostrou que tambem
+sabia conhecel-os na paz e para a paz.</p>
+
+<p>Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das
+nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira
+de Mello a individualidade poderosa de um estadista
+eminente.</p>
+
+<p>O marechal adivinhára que esse moço elegante, de
+maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava
+o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a
+obra que elle havia começado pela guerra.</p>
+
+<p>E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio
+da regeneração, creando até expressamente
+para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Um velho, que trabalhou para dar á sociedade
+portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega
+a sua obra nas mãos de um homem novo para que a
+consolide e complete.</p>
+
+<p>Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um
+vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima
+hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.</p>
+
+<p>Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe
+a existencia, trabalhou para enriquecer a
+patria, para desenvolver todas as forças vitaes da
+nação, para fomentar todos os elementos de riqueza
+publica, e esse homem, que não fez senão amontoar
+capital para os outros, esse homem que enriqueceu o
+commercio e a industria da sua terra, esse homem por
+cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado
+cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com
+o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao
+cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas<span class="pn">{92}</span>
+com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.</p>
+
+<p>Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram
+a apotheose official dos altos funccionarios publicos;
+foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram
+a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro
+do meio da mais profunda commoção que póde ferir
+o coração de um paiz.</p>
+
+<p>A espontaneidade do sentimento nacional é a mais
+invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira
+de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas,
+essa grandiosa deificação que não se recommenda,
+que não se aconselha, que não se ensina, mas
+que rebenta do coração de todas as classes sociaes,
+como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que
+explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento
+ingenuo e sincero.</p>
+
+<p>Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo
+memorando, que ficará para sempre gravado na memoria
+infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão
+grandioso elle foi.</p>
+
+<p>Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade
+portugueza pelos elevados cargos que o seu
+merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos
+os dias com as classes inferiores, não era um homem
+que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas
+da capital.</p>
+
+<p>Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que
+nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes
+procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de
+Mello, o povo conservava por elle um grande culto
+de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle
+homem trabalhava para a nação, não para si, e,
+quando soube que o illustre estadista morrera, ficou
+gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por<span class="pn">{93}</span>
+onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração
+enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes
+Pereira de Mello repousa para todo o sempre.</p>
+
+<p>E o povo não se enganou pensando que esse preclaro
+estadista trabalhára para o povo.</p>
+
+<p>Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro
+é para o povo que trabalham.</p>
+
+<p>Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira
+de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não
+enganava, tambem não se enganava o estadista, porque
+o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo,
+os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira
+e da cultura.</p>
+
+<p>Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica
+a semear para colher, a demolir o passado para
+construir o futuro.</p>
+
+<p>Elle bem sabia que, mortal como todos os outros
+homens, não teria tempo de ver completamente sazonada
+a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.</p>
+
+<p>Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si,
+trabalhava para os outros.</p>
+
+<p>E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho
+a sua propria saude.</p>
+
+<p><em>Parar é morrer.</em> Eis o lemma glorioso da sua vida
+politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira
+de estadista.</p>
+
+<p>Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza
+o movimento que n'este momento historico a
+vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes
+operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do
+progresso. Os povos são como as machinas: o que é
+preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram
+velocidade. Depois trabalham por si mesmos.</p>
+
+<p>Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio
+dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello
+não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que<span class="pn">{94}</span>
+tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam
+ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram
+de mil boccas, eram articulados por mil gargantas
+differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas,
+saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma
+palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro
+do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára
+em Portugal.</p>
+
+<p>Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver
+de um morto illustre.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui
+recebido em sua casa.</p>
+
+<p>Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica.
+Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me
+palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava
+de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.&mdash;Mas
+gosta certamente de ver jogar bem o bilhar,
+replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e
+vale a pena ir vel-o.</p>
+
+<p>Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me
+que fosse fazer uma partida de voltarete com
+o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M.
+Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com
+a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me
+aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.</p>
+
+<p>Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do
+preço.</p>
+
+<p>&mdash;Não sendo caro não diverte, disse o visconde
+de N.</p>
+
+<p>&mdash;Como quizerem, respondeu o capitão de mar e
+guerra M.<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>Eu vi-me obrigado a obtemperar:</p>
+
+<p>&mdash;Estou ás ordens de v. ex.<sup>as</sup></p>
+
+<p>Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a
+cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse
+cartas.</p>
+
+<p>Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que
+sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas&mdash;um
+acaso que eu reputaria feliz em qualquer
+outra occasião.</p>
+
+<p>A preoccupação da situação embaraçosa em que me
+achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte.
+Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as
+minhas deviam orçar por quarenta mil réis.</p>
+
+<p>Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri
+as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de
+um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe
+o embaraço em que me encontrava, e que tivera
+por origem uma confissão ingenua.</p>
+
+<p>&mdash;Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p>
+
+<p>Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi
+hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.</p>
+
+<p>Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando
+eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade
+attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço.
+Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa
+do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas
+horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram,
+levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis.
+Nunca esta cifra me esqueceu.</p>
+
+<p>Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao
+largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando,
+como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,<span class="pn">{96}</span>
+o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão
+ingenua de que jogava o voltarete...</p>
+
+<p>Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens,
+dois <em>fadistas</em> parados. A calçada estava deserta. Um
+d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar
+entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para
+mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que
+naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda
+chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a
+carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e
+pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse
+tomar logar na almofada.&mdash;Aqui dentro, aqui
+dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de
+homem. Agradeci, e subi para a almofada..</p>
+
+<p>E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado
+o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de
+torturas que essa foi!</p>
+
+<p>No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci
+á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje
+não sei quem fosse.</p>
+
+<p>Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se
+muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos,
+pedia-me que reeditasse a historia, a que achava
+graça.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento
+para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever
+de amizade.</p>
+
+<p>Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a
+luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Tem muito empenho n'isto?</p>
+
+<p>&mdash;Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir
+um amigo sincero.<span class="pn">{97}</span></p>
+
+<p>Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me
+o papel, disse-me:</p>
+
+<p>&mdash;V. é um homem novo na politica. Permitta-me
+um conselho: Estes favores são uma desgraça para a
+pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com
+a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo
+d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin">Janeiro de 1887.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup>
+Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.&mdash;N<small>OTA DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{98}</span></p>
+
+
+
+<h2>X</h2>
+
+<h3>Antonio Augusto de Aguiar</h3>
+
+<p>Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada
+tristeza, outras vezes com vaga tristeza&mdash;que
+é talvez o estado mais doloroso da alma&mdash;desejado a
+morte?</p>
+
+<p>Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas
+amarguras ou porque sejam realmente grandes,
+todos nós temos mais ou menos pensado, com uma
+certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema
+em que o corpo ha de adormecer para sempre e a
+alma ha de partir para um mundo desconhecido, que,
+por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto
+bem mais tranquillo do que este...</p>
+
+<p>Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz
+que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez
+sequer.</p>
+
+<p>A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido
+de nós para os outros, e que os outros dizem sempre
+que nós possuimos e elles não.</p>
+
+<p>Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se<span class="pn">{99}</span>
+na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás
+vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento
+a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de
+a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez
+deleitosa...</p>
+
+<p>Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora
+é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste
+das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta
+e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para
+os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol,
+ambicionado e querido.</p>
+
+<p>Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado
+a morte, quando ella passa perto de nós para ir
+fazer uma victima, quando sentimos o frémito das
+suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o,
+quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos
+horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação
+e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera
+de misterio e silencio...</p>
+
+<p>Por que não hei de eu dizer francamente que no combate
+da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada
+manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me
+tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade
+dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de
+comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade
+é tambem que ainda esta semana, segunda feira,
+eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso
+que se chama a Morte, e cuja obra de devastação
+parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.</p>
+
+<p>Estavamos, não sei quantos&mdash;poucos eram&mdash;no
+club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade
+paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão,
+antes do peccado, se o voltarete já então houvesse
+sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro,
+com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança
+tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,<span class="pn">{100}</span>
+com uma grande timidez de execução. O sol, alegre
+e bom, entrava docemente pelas janellas, como
+poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo
+azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som
+aspero do choque das bolas, ou de uma contada do
+taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos
+aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito
+longe de Lisboa&mdash;essa grande cidade ruidosa,
+que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada
+por um bello rio portentoso, mas de que nós,
+aqui na Ericeira, apenas <span class="errata" title="no original: conservamos">conservavamos</span> uma vaga recordação...</p>
+
+<p>Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que
+tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro
+da villa, com o boné em uma das mãos, a mala
+de couro na outra.</p>
+
+<p>O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram
+para o carteiro.</p>
+
+<p>É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o
+interesse que se póde ter em receber uma carta ou
+um jornal ainda que só esperemos banalidades.</p>
+
+<p>Era o correio que chegava. Iamos receber noticias
+de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos
+a vaga recordação de ser construida de marmore
+e de granito e banhada por um bello rio magestoso.</p>
+
+<p>O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa
+de leitura: mólhadas de jornaes&mdash;progressistas, regeneradores,
+republicanos&mdash;e algumas cartas, poucas,
+sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma
+verdadeira alluvião.</p>
+
+<p>E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo
+para um lado e para o outro:</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª hoje não tem nada.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui estão os seus jornaes.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª tem só uma carta.</p>
+
+<p>&mdash;Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª<span class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala
+uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:</p>
+
+<p>&mdash;Morreu o Aguiar!</p>
+
+<p>&mdash;Quem? O que?!</p>
+
+<p>&mdash;Morreu o Aguiar!</p>
+
+<p>&mdash;O Antonio Augusto?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...</p>
+
+<p>E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente
+o jornal, procurando os pormenores, lendo e
+dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;De repente... de uma <em>angina pectoris</em>... ainda
+ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado
+no <em>restaurant Rosa Araujo</em> com o Luciano Cordeiro e
+com outro.</p>
+
+<p>Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento
+de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos
+fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse
+de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os
+jornaes o referiam.</p>
+
+<p>Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima
+vez que lhe falára, da boa disposição em que elle
+estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas
+quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o
+tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel
+aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia
+os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle
+mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença
+de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres
+horas, na madrugada de sabbado para domingo.</p>
+
+<p>Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas
+do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes
+passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor
+era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases
+soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão
+geral:</p>
+
+<p>&mdash;Um homem serio...<span class="pn">{102}</span></p>
+
+<p>&mdash;Um homem de talento...</p>
+
+<p>&mdash;Um homem de saber...</p>
+
+<p>&mdash;Um bom caracter...</p>
+
+<p>&mdash;Um homem digno...</p>
+
+<p>Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso <span class="errata" title="no original: elle fóra">elle fôra</span>, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia,
+e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem
+serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber,
+d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!</p>
+
+<p>Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes
+lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem
+aggredir os vivos para terem que humilhar-se
+deante dos mortos.</p>
+
+<p>Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado
+dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César
+o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição
+politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma
+consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas
+qualidades a que eu achava que tornava maior as outras
+era a serenidade com que elle recebia todos os
+golpes, por mais envenenados e injustos que fossem.
+Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento,
+no momento de se commentar no corredor da camara
+dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica,
+se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia
+accendendo tranquillamente o seu charuto:</p>
+
+<p>&mdash;Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.</p>
+
+<p>Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito
+e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz
+inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.</p>
+
+<p>Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes
+que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita
+do que os outros. Cada homem representa uma
+somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se
+esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos<span class="pn">{103}</span>
+sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens
+que recuam para avançar e homens que preferem
+ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem
+sem recuar.</p>
+
+<p>Eu gosto mais d'estes ultimos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin">1887.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{104}</span></p>
+
+
+<h2>XI</h2>
+
+<h3>Mendes Leal</h3>
+
+<p>Dois escriptores da geração que nos precedeu não
+estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás
+vezes começa para outros escriptores no proprio dia
+dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes
+Leal.</p>
+
+<p>Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade
+litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição,
+a qualquer philarmonica ou club de operarios
+em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido
+que não appareça logo um gremio de classe, musical
+ou dançante, a adoptar-lhe o nome.</p>
+
+<p>E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci
+pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que
+até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes
+d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão
+rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão
+elegantemente colorida.</p>
+
+<p>Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as
+suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas<span class="pn">{105}</span>
+foi o romance historico <em>Ráusso por homizio</em>, publicado
+em 1842 na <em>Revista universal Lisbonense</em>. Com razão
+dizia a <em>Revista</em> referindo-se a este romance: «Damol-o
+sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de
+seu auctor:&mdash;que seria sacrilegio tocar, nem de leve,
+nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito&mdash;¡quem no acreditaria!&mdash;¡de vinte annos!»</p>
+
+<p>Assombroso, em verdade.</p>
+
+<p>Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas
+meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião
+de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a
+fidalga grandeza do seu coração.</p>
+
+<p>Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria,
+e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes
+póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas
+aptidões como Mendes Leal.</p>
+
+<p>Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam
+pelas cumiadas da epopea: hajam vista o <em>Pavilhão negro</em>,
+<em>Ave Cesar</em>, <em>Napoleão no Kremlin</em>.</p>
+
+<p>Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel
+continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu
+para o theatro&mdash;e foi muito&mdash;póde ter defeitos,
+mas affirma riqueza de imaginação, talento de <em>savoir
+faire</em>, opulencia de linguagem. Percorram toda essa
+vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde
+os <em>Dois renegados</em> até aos <em>Primeiros amores de Bocage</em>,
+e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol,
+engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás
+exigencias de cada genero e de cada época.</p>
+
+<p>Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade
+tão accentuada como dramaturgo, não deslisou
+comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem
+de lettras.</p>
+
+<p>Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com
+notavel seriedade de espirito.</p>
+
+<p>Como orador politico, deixou discursos parlamentares
+que podem servir de modelo aos que, dentro e<span class="pn">{106}</span>
+fóra da camara, presam a lingua portugueza através
+dos arrebatamentos da paixão partidaria.</p>
+
+<p>Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado
+a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios
+politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de
+salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão
+embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de
+occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar
+mais do que elle.</p>
+
+<p>Estive durante alguns annos em relação epistolar
+com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou
+á sua benevolencia de mestre as minhas palidas
+estreias litterarias. Castilho tinha uma grande
+consideração por Mendes Leal&mdash;a quem, na dedicatoria
+do primeiro livro das <em>Georgicas</em>, divinamente traduzidas,
+chamou&mdash;<em>caro Leal, gloria da terra lusa</em>.</p>
+
+<p>Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro,
+em missão diplomatica. Só em 1882, vindo
+elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o
+frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos
+largamente, e era encantadora a simplicidade
+bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de
+muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.</p>
+
+<p>Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades
+do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos
+os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e
+grande numero de pessoas que mais lustravam em
+pompas de <em>high life</em>.</p>
+
+<p>A ultima vez que me demorei conversando largo
+tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo
+anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.</p>
+
+<p>O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de
+Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal
+encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as
+classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem
+ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se
+ao meu braço. Assim fomos conversando até<span class="pn">{107}</span>
+ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.</p>
+
+<p>Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado
+ao prelo, n'uma brochura intitulada <em>Hommage aux lettres
+latines</em>, as suas ultimas composições poeticas. Ahi
+se póde ver com que primor elle manejava a lingua
+franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia
+envelhecendo e pendendo á terra.</p>
+
+<p>A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata
+com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu
+para impulsionar os progressos litterarios do
+seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é
+caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que
+a opinião publica passa por uma evolução demorada
+tanto para apreciar como para depreciar um escriptor
+fallecido&mdash;especialmente para aprecial-o. Quanto tempo
+não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria
+de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve
+que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.</p>
+
+<p>No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma
+honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou
+a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome.
+Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que
+elle cantou em 1857 na poesia <em>Mare magnum</em>. A descripção
+das <em>furnas</em>, tão bellas e tão agrestes, é de mão
+de mestre:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Não vos lembraes?&mdash;Além do manso pego,<br>
+O mar, que vem do largo, e que não cessa,<br>
+Da vaga arquea a cuspide irritada,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E, com impeto cego,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Á insensata escalada<br>
+Dos immoveis penhascos se arremessa.</p>
+
+<p>Quem ha de commetter a louca empresa<br>
+De tentar a passagem tortuosa<br>
+Que alguma convulsão da natureza<br>
+Abriu sobre a voragem tenebrosa?<span class="pn">{108}</span><br>
+Do rolo immenso a curva ameaçadora<br>
+Investe, galga, apruma-se, desaba;<br>
+E quando o turbilhão que o ar devora,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Trovejando rebenta,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Parece que á tormenta<br>
+A terra não resiste e o mundo acaba.</p>
+
+<p>Pelas rugas da penha sacudida,&mdash;<br>
+De niveos flocos inda guarnecida,&mdash;<br>
+Depois que o mar bramindo atraz volvêra,<br>
+Um veio d'agua, rapido e sombrio,<br>
+Deslisa; qual em rude face austera<br>
+De um triste ancião, que a idade encanecêra,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O pranto corre em fio.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas
+contra as <em>furnas</em> da Ericeira, recordará eternamente
+a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel
+trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente
+o nome de Mendes Leal.</p>
+
+<p>O oceano vingará a ingratidão dos homens.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{109}</span></p>
+
+
+
+<h2>XII</h2>
+
+<h3>Gonçalves Crespo</h3>
+
+<p>Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo,
+deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações
+em fóra, até o encontrar nos primeiros annos
+da sua vida, e da minha.</p>
+
+<p>Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual
+eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e
+toda a philosophia que se encerram n'este pensamento
+de Garrett:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Saudade, gosto amargo de infelizes,<br>
+Delicioso pungir de acerbo espinho.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo,
+toda a observação psichologica que essa bella antithese
+contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis
+decassiliabos que já não esquecerão mais em
+lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel
+quando chama á saudade <em>um mal de que se gosta, e um
+bem que se padece</em>; comprehendi o rei D. Duarte quando<span class="pn">{110}</span>
+no <em>Leal conselheiro</em> escreveu da saudade com uns
+finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão
+d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo
+despedaça e mitiga o coração...</p>
+
+<p>Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho
+percorrido em poucos annos. A saudade fizera
+reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as
+cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos
+a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas
+esperanças, remocei com as minhas illusões de outro
+tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era
+completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser
+o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se,
+o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente
+percorrera, e pareceu-me atravessar um
+deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e
+silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da
+morte&mdash;esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões
+que me fascinaram e pessoas que eu amei.</p>
+
+<p>Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda
+enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.</p>
+
+<p>Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo
+providencial.</p>
+
+<p>Assim é que os poetas a definem; assim é que eu
+a sinto agora&mdash;melhor por certo do que nunca.</p>
+
+<p>Em verdade, as circumstancias em que me encontro,
+para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes.
+Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas
+as nossas relações vinham de longe, eram antigas na
+proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando
+eramos apenas duas creanças.</p>
+
+<p>Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante,
+rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar
+de moços.</p>
+
+<p>Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas
+mais ou menos habituaes, que eu já historiei<span class="pn">{111}</span>
+largamente no livro <em>Atravez do passado</em>&mdash;o meu primeiro
+livro de saudades.</p>
+
+<p>Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com
+o criado da casa: o Angelo, um gallego.</p>
+
+<p>Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha
+a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se
+n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto
+como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada
+o primor da sua <em>toilette</em>, quasi sempre irreprehensivel.</p>
+
+<p>Coisa notavel! Crespo não era então para nós um
+poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado;
+Alfredo Leão lia chronicas e romances<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>; mas
+Gonçalves Crespo <em>flanava</em> a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento
+poetico com a publicação das <em>Miniaturas</em>.</p>
+
+<p>Houve um periodo em que me separei de Gonçalves
+Crespo;&mdash;quando foi para Coimbra. Mas em quasi
+todas as ferias elle passava no Porto em direcção a
+Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos.
+Crespo frequentava o <em>Café Portuense</em>, na Praça
+Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu
+o via, sempre me perguntava pelo Angelo&mdash;recordando
+as nossas façanhas anti-ibericas.</p>
+
+<p>Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação
+que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves
+Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me
+dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel
+era para mim. A amizade cegava-o.</p>
+
+<p>Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira
+pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci
+então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão
+fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos
+<em>Homens e letras</em>, e tão falado ainda na tradição academica.
+Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar<span class="pn">{112}</span>
+a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle
+chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente
+está em Lisboa.</p>
+
+<p>Crespo dera-me <em>rendez-vous</em> para a noite, na livraria
+do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que
+era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem
+ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura,
+porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves
+Crespo viera passar o serão comigo no <em>Hotel dos
+caminhos de ferro</em>, onde eu estava hospedado.</p>
+
+<p>Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com
+o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da
+phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra
+da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas
+as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril
+de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro
+das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia;
+de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua
+voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava
+todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava
+com a voz como com o espirito. Via-se o que elle
+dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como
+poeta.</p>
+
+<p>Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de
+costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão
+notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me
+afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse
+genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as
+largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade
+nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle
+effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava
+como o aço ao capricho da sua inspiração, e no
+soneto <em>Animal bravio</em>, offerecido a mademoiselle Eugenia
+Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica
+do seu espirito:<span class="pn">{113}</span></p>
+
+<blockquote>
+<p>Preferiras um ramo caprichoso<br>
+De escolha rara e de um concerto fino,<br>
+Onde visses o cacto purpurino<br>
+E os nevados jasmins do Tormentoso.</p>
+
+<p>Em vez do ramo exotico e oloroso,<br>
+Casto recreio d'esse olhar divino,<br>
+Acceita, Eugenia, este animal felino,<br>
+Que o meu braço subjuga vigoroso.</p>
+
+<p>Tive artes de o amansar: eil-o sereno!<br>
+Acode a minha voz, e ao meu aceno<br>
+Como um jaguar a voz de um saltimbanco...</p>
+
+<p>Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!<br>
+E á doce Eugenia, do sorriso honesto,<br>
+A fimbria oscule do vestido branco!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção
+publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo
+dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que
+conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello
+soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos
+<em>Nocturnos</em>:</p>
+
+<blockquote>
+<p style="margin-left: 6em;">ODOR DI FEMINA</p>
+
+<p>Era austero e sisudo; não havia<br>
+Frade mais exemplar n'esse convento;<br>
+No seu cavado rosto macilento<br>
+Um poema de lagrimas se lia.</p>
+
+<p>Uma vez que na extensa livraria<br>
+Folheava o triste um livro pardacento,<br>
+Viram-n'o desmaiar, cair do assento,<br>
+Convulso e torvo sobre a lagea fria.</p>
+
+<p>De que morrera o venerando frade?<br>
+Em vão busco as origens da verdade,<br>
+Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.</p>
+
+<p>Consta que um bibliophilo comprára<br>
+O livro estranho e que, ao abril-o, achára<br>
+Uns dourados cabellos de mulher.<span class="pn">{114}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo
+escrevendo a minha biographia para o <em>Diario de Portugal</em><sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup>.
+A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades
+para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me,
+por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente
+me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade
+com que elle acompanhara todos os pormenores
+da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado
+tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse
+de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente
+agradavel e consoladora. Crespo era um homem
+de talento superior e de caracter honestissimo;
+a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão
+de alguns e das injurias de poucos.</p>
+
+<p>Este homem, este amigo querido com o qual eu me
+encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o
+ainda a meu lado na politica e na camara electiva.
+O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade,
+porque eu teria um profundo desgosto em separar-me
+de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião,
+grave ou insignificante.</p>
+
+<p>O destino, porém, esse mesmo destino que parecia
+querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços
+de amizade, acabara por ser enganador e perfido.</p>
+
+<p>Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde
+deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos
+na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera
+como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves
+Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço!
+elle, que tinha finalmente chegado a uma situação,
+que lhe permittia viver inteiramente tranquillo
+na decencia modesta que soube conservar em todos os
+actos da sua vida.<span class="pn">{115}</span></p>
+
+<p>A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu
+apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar
+depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma
+familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle
+pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios
+de fortuna, considerações politica e honras litterarias,
+gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte,
+depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da
+Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de
+transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o
+cobardemente aos trinta e sete annos de edade,
+enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada
+senhora que Portugal possue, e de todos quantos
+amavam e estimavam o notavel poeta das <em>Miniaturas</em>
+e dos <em>Nocturnos</em>.</p>
+
+<p>Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse
+da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de
+outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve
+baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das
+agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores
+dos <em>Contos para os nossos filhos</em>, colleccionados e
+traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem
+a Deus pela saude de um dos traductores d'esse
+livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus
+filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa
+do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto
+senão o triste desafogo de escrever com lagrimas
+estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe
+o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero
+do luto da minha alma.</p>
+
+<p class="assin">1883.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> A<small>TRAVEZ DO PASSADO</small>: <em>Na morte de um condiscipulo.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o
+que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.&mdash;N<small>OTA
+DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{116}</span></p>
+
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<h3>Antonio Maria Pereira</h3>
+
+<p>Quando eu fazia parte da redacção do <em>Jornal do Porto</em>,
+onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo
+de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas
+vezes com o trabalho de rever as provas das edições
+que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho,
+vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um
+dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu
+orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira,
+propondo-lhe a acquisição de um romance original.</p>
+
+<p>Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu
+vivamente.</p>
+
+<p>Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me
+parecia, por excepcional, irrealisavel.</p>
+
+<p>Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se
+não viessem ordinariamente na idade em que o coração
+é forte e a imaginação exaltada?!</p>
+
+<p>O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha<span class="pn">{117}</span>
+proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia.
+Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha
+vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava
+concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.</p>
+
+<p>Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se
+fazia dos editores em geral.</p>
+
+<p>Balzac, nas <em>Illusões perdidas</em>, tinha deixado a ethopea
+do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas
+de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de
+Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de
+poesias por lhe achar <em>pouco peso</em>. O poeta respondêra
+que voltaria com os seus versos copiados em papelão.
+O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não
+pareciam resolvidos a substituil-os.</p>
+
+<p>Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira
+como applicada áquella época: «<em>Les lettres ménent
+à tout, à condition de les quitter.</em>»</p>
+
+<p>Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se.
+Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto,
+o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar
+publico.</p>
+
+<p>Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio
+de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos
+novos.</p>
+
+<p>O que os estreantes queriam era sequer ao menos
+encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos,
+ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é
+uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois
+forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o
+terem sido.</p>
+
+<p>Eu havia ido refugiar-me no <em>Jornal do Porto</em>, onde a
+vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta
+uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas
+a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio.
+Tornava-se necessario recorrer de quando em quando,
+financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,<span class="pn">{118}</span>
+ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade
+de materias a que a concorrencia as obriga,
+têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes
+enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no
+meio d'este conflicto de interesses similares, o livro,
+como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade
+de circulação, que a revolução dos jornaes acabe,
+tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes.
+Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos
+novos jornaes que se publicam cada anno, apenas
+50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta
+bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando
+ha dez annos a esta parte.</p>
+
+<p>O que não deixa de ser curioso é que, justamente
+no momento em que o mercado mais falta ao livro, o
+publico exige, como está acontecendo, que o trabalho
+tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.</p>
+
+<p>De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado
+pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar
+pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto,
+cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor.
+Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras,
+sempre dispendiosas, das impressões de luxo.</p>
+
+<p>Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a
+<em>toilette</em> dos livros, passaste á historia, és uma recordadação
+apenas, nada mais!</p>
+
+<p>A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o
+encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade
+de encontrar um editor accessivel, mas tambem
+a refulgencia de uma aurora polar que deixava
+cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão
+doirado irradiando de estipendio certo.</p>
+
+<p>Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do
+romance. Chamar-se-ia <em>O testamento de sangue</em>. O <em>Jornal
+do Porto</em> e o ensino livre absorviam-me o dia; foi
+pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,<span class="pn">{119}</span>
+que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle
+romance.</p>
+
+<p>O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com
+que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um
+editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando
+com Cruz Coutinho e com os meus collegas
+de redacção, alludisse ao <em>Testamento de sangue</em>.</p>
+
+<p>Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando
+no <em>Jornal do Porto</em> se deu o que eu chamarei uma
+crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados <em>Os dramas
+de Paris</em>, de Ponson du Terrail, arranjados sobre
+uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se
+em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção
+<span class="errata" title="no original: ao folhetim">do folhetim</span> com um romance que não fosse tão longo
+que prejudicasse a sequencia dos <em>Dramas de Paris</em>, nem
+tão breve que deixasse de preencher um compasso de
+espera.</p>
+
+<p>&mdash;Se o teu romance não estivesse destinado para
+Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.</p>
+
+<p>Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com
+uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam
+que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem
+estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois
+publicar <em>O testamento de sangue</em> no <em>Jornal do Porto</em>, e
+escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro
+logar que não tomaria resolução alguma sem ter
+previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira;
+em segundo logar, que estando apenas traçados os
+primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim,
+de escrever os outros dia a dia, o que certamente
+obstava a um tal ou qual acuro que eu queria
+dar á novella.</p>
+
+<p>Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr.
+Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado,
+comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter
+sido publicado em folhetim.</p>
+
+<p>Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,<span class="pn">{120}</span>
+na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer
+que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era
+gentilissima de amabilidade.</p>
+
+<p>Comecei então a escrever precipitadamente o romance,
+a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim
+diario&mdash;encargo que eu acumulava com a minha
+collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações
+quotidianas.</p>
+
+<p>Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto
+de forças. Morava eu então no predio n.º 456
+da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta
+do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se
+eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de
+todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.</p>
+
+<p>No livro <em>Nervosos, lymphaticos e sanguineos</em> deixei
+consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho
+com que eu tão irmanado estava&mdash;pelo destino. Arranco-a,
+para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre
+da Conceição, com quem eu sustentava polemica
+epistolar no <em>Jornal do Porto</em>.</p>
+
+<p>«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos
+litterarios para reivindicar, não estou disposto
+a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem,
+me pertence,&mdash;o amor ao trabalho. Os meus
+amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então
+contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã,
+vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as
+casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com
+que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro
+com os seus quatro braços alvejantes. A essa
+hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea
+na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos
+trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»</p>
+
+<p>Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de
+trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no
+mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o,
+para sair em volume. O pequeno prologo que o<span class="pn">{121}</span>
+precede é de todo o ponto exacto quando explica a
+pressa com que o <em>Testamento de sangue</em> fôra escripto.</p>
+
+<p>No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois
+livros novos, <em>A Porta do Paraiso</em> e <em>Entre o caffe e o
+Cognac</em>. Tive então occasião de conhecer pessoalmente
+o sr. Antonio Maria Pereira.</p>
+
+<p>Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta
+n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço
+pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho
+e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar
+alargando-a, tinha uma só porta e a <em>montre</em>.
+Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros
+e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha,
+estava um homem que, ouvindo perguntar
+pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era
+elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que
+trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o
+antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa.
+Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em
+que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era
+o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos
+do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.</p>
+
+<p>Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão
+cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este
+<span class="errata" title="no original: editr">editor</span> era insinuante; e as suas maneiras distinctas.
+Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente
+argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A
+face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia
+os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido
+de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.</p>
+
+<p>Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me
+sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado,
+quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições
+tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.<span class="pn">{122}</span>
+Era seu filho, o actual editor<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup>. Tempo antes, seguindo
+o exemplo paterno, havia começado a trabalhar,
+emprehendendo a publicação de uma <em>Encyclopedia litteraria</em>,
+para a qual tivera a amabilidade de solicitar a
+minha collaboração.</p>
+
+<p>Escrevi ahi uns versos, <em>Virgens loiras</em>, cuja inspiração
+me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres
+annos pesam sobre elles, e as <em>Virgens</em>, que devem estar
+decrepitas&mdash;como os versos.</p>
+
+<p>Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel
+convivencia.</p>
+
+<p>Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos
+Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde
+por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar
+d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.</p>
+
+<p>Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso
+apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro,
+tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou
+costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos
+habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o
+meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na
+rua Augusta.</p>
+
+<p>Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira,
+onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono
+da casa e o bibliographo Innocencio.</p>
+
+<p>Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa
+n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente
+até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.</p>
+
+<p>O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois
+de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair
+o espirito na conversação de um pequeno grupo
+de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa<span class="pn">{123}</span>
+hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio,
+elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e
+apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.</p>
+
+<p>Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que
+eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes
+serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup>&mdash;graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade
+de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta
+da gloria&mdash;editando-lhes os primeiros livros.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas
+do exhaustivo trabalho quotidiano&mdash;a que elle chamava <em>a vinagreira</em>.&mdash;N<small>OTA
+DA 2.ª EDIÇÃO</small>.
+
+<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco,
+Pinheiro Chagas, etc.&mdash;N<small>OTA
+DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<h3>Innocencio Francisco da Silva</h3>
+
+<p>Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas
+provas de estima pessoal e de consideração litteraria.</p>
+
+<p>Foi elle que me propoz socio correspondente da
+Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente,
+penhorando-me sobremodo.</p>
+
+<p>Mantive com Innocencio as melhores relações de
+amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias
+da sua attribulada existencia.</p>
+
+<p>Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio
+não recebeu nunca do estado os beneficios a que,
+pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel
+direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo
+entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo
+civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos
+bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe
+faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente
+com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe
+foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser<span class="pn">{125}</span>
+um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho,
+que capitulavam desdenhosamente de <em>rol de roupa suja
+de livros velhos</em>. Que revoltante injustiça! De mais a
+mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos
+livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer
+todos os seus caprichos de bibliophilo.</p>
+
+<p>Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom
+por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias,
+falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco
+ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente.
+Tinha a consciencia de merecer mais do
+que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se
+contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade
+se poderia dizer que fôra um <em>vencido da vida</em>.
+Viveu atormentadamente; e assim morreu.</p>
+
+<p>Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera,
+que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do
+coração, que excellente caracter de portuguez antigo!</p>
+
+<p>Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente
+infantis. Passava rapidamente da indignação
+á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima
+em facilidades de linguagem.</p>
+
+<p>Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala.
+Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas
+havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de
+bondade antiga.</p>
+
+<p>A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida
+quintilha de Sá de Miranda:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Homem d'um só parecer,<br>
+D'um só rosto, uma só fé,<br>
+D'antes quebrar que torcer,<br>
+Elle tudo póde ser,<br>
+Mas de côrte homem não é.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo,
+receberia a impressão de ter deante de si um<span class="pn">{126}</span>
+velho militar rabujento,&mdash;um major revoltado contra
+a sua reforma e a decadencia do exercito.</p>
+
+<p>Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão
+patriarchal, de&mdash;digamol-o assim&mdash;bom humor tarimbeiro,
+ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque
+a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.</p>
+
+<p>Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra
+que, depois da <em>Bibliotheca Lusitana</em> do abbade Barbosa,
+saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou
+com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente
+conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados
+posteriormente á publicação da <em>Bibliotheca
+Lusitana</em>.</p>
+
+<p>Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação,
+de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios
+pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem
+succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras
+representa o <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em> até
+o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado
+para a continuação dos restantes volumes do <em>Supplemento</em>!</p>
+
+<p>De mais a mais, a natureza da especialidade em que
+labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa
+interminavel, porque um diccionario bibliographico não
+se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação
+ininterrupta.</p>
+
+<p>Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que,
+ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada:
+<em>Emfim!</em></p>
+
+<p>O seu <em>emfim!</em> devia ser a morte.</p>
+
+<p>Todos os dias, de toda a parte&mdash;graças á actividade
+febril dos prelos nos ultimos vinte annos&mdash;recebia novos
+livros, que se iam empilhando em camadas alterosas
+á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse
+lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a<span class="pn">{127}</span>
+um novo supplemento, que decerto já não esperaria
+concluir.</p>
+
+<p>Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia
+do <em>Diccionario Bibliographico Portuguez</em>, como
+subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem
+defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não
+tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em
+relação ao seu tempo, é pouco.</p>
+
+<p>Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não
+era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a
+sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava
+uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui
+obsequiado por elle com a copia de algumas poesias
+ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram
+para architectar sobre ellas o conto&mdash;<em>Como as borboletas se queimam</em>&mdash;inserto no livro <small>PORTUGAL DE CABELLEIRA</small> (1875).</p>
+
+<p>Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas
+em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse
+encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado
+conta nas <em>Mil e uma historias</em> o caso interessante
+de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se
+um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro,
+que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do
+Pote das Almas.</p>
+
+<p>D'esta vez Innocencio ficou codilhado.</p>
+
+<p>A este ou outros desastres alludia elle certamente
+quando, escrevendo o artigo <em>Bibliophilos e biblomaniacos</em>,
+na <em>Encyclopedia litteraria</em>, publicada pelo sr. Antonio
+Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:</p>
+
+<p>«Na classe dos bibliomaniacos <em>improductivos</em>, que capricham
+em accumular livros sobre livros, um conhecemos
+sobre todos digno de menção especial. Fareja
+este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos,
+as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que
+lhe escapem os leilões e a classica <em>feira da ladra</em>, na
+diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias<span class="pn">{128}</span>
+da republica litteraria gosa de algum apreço por
+merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade
+dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias,
+arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos
+em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo
+lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido
+reunir copiosissima somma de volumes, e não sem
+grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente
+acanhado, e de uma mesquinhez que toca as
+raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel
+aos vendedores que o têem por um caustico
+volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber
+parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por
+suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo
+de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a
+uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos
+em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»</p>
+
+<p>Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle
+era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo,
+auctor de um vasto repositorio bibliographico
+que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o
+desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar
+precioso, destinado a tornar-se improductivo para
+toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.</p>
+
+<p>Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um
+idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da
+rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as
+portas para os amigos que queriam estudar. E os que
+não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do <em>Diccionario</em>, com a riqueza dos
+thesouros acumulados por Innocencio.</p>
+
+<p>O predio em que habitava&mdash;e que tem hoje uma
+lapide commemorativa&mdash;estava completamente cheio de
+livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia
+habitavam, os peores compartimentos do predio,
+unicos disponiveis.<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu
+conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos
+relações de amizade cordealissima. Innocencio
+falava sempre, fumando muito, e habitualmente
+maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar
+para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse.
+Em sua casa havia differentes caixas atulhadas
+de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.</p>
+
+<p>Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira
+para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua,
+que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar,
+não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.</p>
+
+<p>Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!</p>
+
+<p>Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa
+e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer.
+E&mdash;circumstancia que n'este momento me está lembrando
+com viva saudade&mdash;foi com o seu collar de
+academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda
+em honra do principe de Galles.</p>
+
+<p>Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. <em>Innocencio.</em>» Mas a sua lettra
+estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando
+lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade.
+Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.</p>
+
+<p>Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma,
+sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia
+dizer, pela primeira vez, «<em>Emfim!</em>»</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<h3>Tres actrizes</h3>
+
+<p>Vi no theatro de S. João do Porto representar a
+Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou
+sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio
+profana&mdash;a de ter visto passar no palco de um theatro
+um cherubim de azas brancas e cabello loiro.</p>
+
+<p>Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica
+de actriz, a sua historia vulgar no amor&mdash;como as outras.
+Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a
+era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.</p>
+
+<p>Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á
+beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem
+testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito
+casto e muito leve...</p>
+
+<p>Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta.
+E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante
+que a esperava e um <em>coupé</em> que a conduzia para um
+leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam
+a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.</p>
+
+<p>Vi-a representar no Porto a <em>Cora</em> e recitar a <em>Stella
+matutina</em>, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente
+a sua estreia ruidosa com a <em>Visão dos tempos</em>.<span class="pn">{131}</span></p>
+
+<p>Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste
+harmonia, os versos do poeta:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Eu sou a filha d'Eva<br>
+Gerada em outro amor!<br>
+Caíndo a dôr me eleva...<br>
+Senhor, Senhor, Senhor!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma
+lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula
+modulação musical d'aquella garganta divina, e que se
+n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa
+mulher, destinada a</p>
+
+<blockquote>
+<p>... servir de falla<br>
+Á dôr que emmudeceu</p>
+</blockquote>
+
+<p class="ni">seria personificada na formosura etherea e biblica de
+Manuela Rey.</p>
+
+<p>A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza,
+vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a
+<em>Joanna a doida</em>, a <em>Mulher que deita cartas</em>, a <em>Medea</em>.</p>
+
+<p>Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar
+Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no
+esplendor de um occaso magestoso&mdash;como o sol. Via-se,
+atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os
+cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára
+no seu corpo de marmore. A expressão tragica
+dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural
+do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga,
+onde as grandes paixões humanas, para expludirem
+theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse
+vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada
+a cinzel n'um bloco de Paros.</p>
+
+<p>Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a
+da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no
+theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863,
+em honra de Emilia das Neves e Sousa.</p>
+
+<p>Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte<span class="pn">{132}</span>
+na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante
+favorecido das musas que não afinasse a lira
+para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente
+da difficuldade que a minha familia teve em obter um
+camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes,
+empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos
+atroadores sempre que o himno da <em>linda Emilia</em>,
+como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.</p>
+
+<p>A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José
+Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera
+a musica outro academico, João Baptista Pires.</p>
+
+<p>Ahi vae a lettra do himno:</p>
+
+<blockquote>
+<p>O robusto leão da victoria<br>
+De teus pés lambe a terra em redor;<br>
+Tua vida é um archivo de gloria,<br>
+O teu nome um augusto esplendor.</p>
+
+<p>Para ti nunca findam as palmas,<br>
+Nem os bravos que fazem tremer;<br>
+E do ouro de lei d'estas almas<br>
+Só tu podes um throno fazer.</p>
+
+<p>Nós que vemos os lumes ardentes<br>
+Onde Deus escondel-os nos quiz,<br>
+Vimos hoje dizer-te frementes:<br>
+«És sublime, és sublime, ó actriz!»</p>
+
+<p>Arde o peito em delirio o mais puro,<br>
+Cada olhar ao teu nome reluz;<br>
+Has de ser immortal no futuro,<br>
+Que este fogo é baptismo de luz.</p>
+
+<p style="margin-left: 6em;">Côro</p>
+
+<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br>
+É pequena a corda dos reis;<br>
+Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br>
+A corôa dos nobres laureis.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores,
+postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados<span class="pn">{133}</span>
+dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda
+outro dia as chammas alastraram as suas linguas de
+fogo.</p>
+
+<p>Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella,
+tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações
+convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas
+com applausos de amigos e <em>bouquets</em> que se vão
+buscar ao palco para tornar a atiral-os.</p>
+
+<p>N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas
+e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia
+das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente
+commovida.</p>
+
+<p>Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá
+meia duzia de versos para um album ou para uma
+festa theatral.</p>
+
+<p>Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os
+melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em
+honra da <em>linda Emilia</em> dois e tres epinicios cada um e,
+não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os
+no album da grande actriz.</p>
+
+<p>Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o
+himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos,
+e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz
+de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.</p>
+
+<p>Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito.
+Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em
+Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido,
+melancolico e concentrado como sempre. Tive
+vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe:
+«Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se
+eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido
+decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes
+ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.</p>
+
+<p>Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram
+trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de
+Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas
+novos.<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>Darei uma pequena amostra:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!<br>
+Póde um peito conter oceanos de luz!<br>
+Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,<br>
+Como o braço de Deus, cria mundos a flux...</p>
+
+<p>Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos<br>
+Um phantasma de fogo e acorda pensativo!<br>
+Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,<br>
+E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...</p>
+
+<p>E então é tanto o ardor a incendiar a mente,<br>
+Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;<br>
+Um descobre um Principio, um outro um Continente,<br>
+O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India.
+Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras
+na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental.
+Ultimamente regressou á metropole.<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p>
+
+<p>Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem
+estar já pulverisados no seio da terra.</p>
+
+<p>Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir
+a quadra final que elle compôz:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Curvamo-nos tambem... É Deus que passa<br>
+Occulto nos monarchas do proscenio!<br>
+É o seu braço de luz que, em fogo, traça<br>
+N'aquellas sombras o caminho ao genio.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano
+de valor, que disse:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,<br>
+Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sente, mas não traduz;<br>
+Mulher ou anjo, realidade ou sonho,<br>
+Teu genio admiro, como admiro o Etna!<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O mar... a noite... a luz!...<span class="pn">{135}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Emilia das Neves já estava então longe da sua florida
+mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural
+belleza.</p>
+
+<p>Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor
+quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863 <em>mulher ou
+anjo</em>.</p>
+
+<p>Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima
+peça, <em>O meia azul</em>, n'uma decadencia pungitiva.
+A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas
+enfermidades.</p>
+
+<p>O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um
+esforço supremo de declamação e caracterisação.</p>
+
+<p>E então passava nos meus ouvidos este verso de
+Ernesto Pinto de Almeida:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Mulher ou anjo, realidade ou sonho...</p>
+</blockquote>
+
+<p>O que restava do sonho era apenas a realidade...</p>
+
+<p>Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima,
+ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista
+e supersticioso.</p>
+
+<p>Este dissera a Emilia das Neves:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Agora que aos teus pés, mais uma vez,<br>
+As rosas vem cobrir a tua estrada,<br>
+Acceita esta homenagem não comprada,<br>
+Mas filha do caracter portuguez!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande,
+mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se
+de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam
+em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem
+dirigindo a uma verdadeira realeza.</p>
+
+<p>Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia <em>Judith</em>. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais
+tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes
+da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava
+Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli
+com barbas de guerreiro.<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros,
+o do Baquet teria ardido n'aquella noite.</p>
+
+<p>Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi
+acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de
+«marche aux flambeaus», que se improvisou com mais
+enthusiasmo do que archotes.</p>
+
+<p>Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um
+dos <em>hoteis</em> da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante
+a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o
+das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam
+quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam
+estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e
+pela Calçada da Madeira abaixo.</p>
+
+<p>Emilia das Neves, abafada n'uma <em>capeline</em> branca,
+recebia da janella do <em>hotel</em> as saudações, alvejando como
+uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso
+pouco importa.</p>
+
+<p>Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no
+couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo
+acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.</p>
+
+<p>Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do
+himno:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Para a fronte onde o genio rebenta<br>
+É pequena a corôa dos reis;<br>
+Ha no mundo uma só que lhe assenta:<br>
+A corôa dos nobres laureis.</p>
+</blockquote>
+
+<p>E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava
+muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo
+certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio
+auctor e aos ouvintes de boa fé.</p>
+
+<p>E eu era então um d'elles.</p>
+
+<p>Isto foi em 1863.</p>
+
+<p>Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da <em>bella Emilia</em>,
+o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram
+a grande tragica portugueza em versos de toda
+a especie; e até do theatro onde ella representou e
+elles a cantaram.<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<p>O tempo é um demolidor terrivel?</p>
+
+<p>Gertrudes... Gertrudes não sei de que&mdash;toda a
+gente dizia apenas a <em>Gertrudes</em>&mdash;pertencia a essa raça
+privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia
+das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.</p>
+
+<p>Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo
+branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia
+pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.</p>
+
+<p>E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de <em>grande
+dame</em>, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e
+na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos
+mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela
+morte.</p>
+
+<p>Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel
+mordacidade de que dou noticia em mulher.
+Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi
+sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos
+bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava
+quasi todas as noites um curso de psichologia theatral.
+Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos,
+que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma
+tesourava os anteparos de papelão, que armavam
+á credulidade ingenua do publico.</p>
+
+<p>Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.</p>
+
+<p>Acabára de realisar-se em Paris a <em>première</em> de <em>Mr.
+Alphonse</em> de Dumas Filho, e Santos, então á frente da
+empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a
+peça em tres dias.</p>
+
+<p>Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres
+as noites, e foi justamente á noite que, passeando e
+fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que
+se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.</p>
+
+<p>D. Maria pôde finalmente dar a peça&mdash;por tal signal
+que em beneficio de Brazão.<span class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea,
+encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos
+os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos.
+Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me
+esse facto, que redundava em proveito meu,
+e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a
+Gertrudes dizer em scena:</p>
+
+<p>&mdash;Vai-te d'aqui, meu estupor.</p>
+
+<p>Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante,
+o publico riu longamente, mas eu, fulminado,
+desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos
+a Gertrudes.</p>
+
+<p>Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava
+ainda em scena.</p>
+
+<p>Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu
+encontro.</p>
+
+<p>Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas
+que com ella tinham estado em scena, disse-me:</p>
+
+<p>&mdash;Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas
+o caso é que agradou.</p>
+
+<p>Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente;
+que eu podia ser accusado, com apparente
+razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau
+gosto, o original de Dumas.</p>
+
+<p>E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante,
+tomando um tom sentencioso, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou?
+D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe
+o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.</p>
+
+<p>E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.</p>
+
+<p>Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos
+no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que
+parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de
+um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente
+morta.»</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup> Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente
+ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.&mdash;N<small>OTA
+DA 2.ª EDIÇÃO</small>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{139}</span></p>
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<h3>Actores celebres</h3>
+
+<p>Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já
+alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria
+da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno
+<em>chalet</em> alcandorado pittorescamente sobre a praia dos
+Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por
+piedosa convenção, o ar do mar.</p>
+
+<p>Marcolino era um actor comico de subido merecimento,
+muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o
+do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci,
+e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;<br>
+mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;<br>
+golfão de riso e dôr, que ora serena,<br>
+ora referve e escuma em sanha rude.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar
+residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento
+litterario e artistico do que pelas magras sopas
+que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.<span class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um
+<em>oiteiro</em> no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes
+de hoje não sabem o que era um <em>oiteiro</em>. Pois
+deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios,
+que a tradição da extincta Arcadia conservou
+ainda por muito tempo. O <em>oiteiro</em> era o festival com
+que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento.
+Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo,
+as freiras diziam das janellas para o pateo os motes
+que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador
+de <em>oiteiros</em>. No meu tempo, as coisas tinham
+mudado já. Havia recepção na <em>grade</em> da abbadessa. O
+feminino superior do convento sentava-se, dentro da
+grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada
+recentemente eleita. Fóra da <em>grade</em> havia um piano,
+um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar
+a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se.
+O mote era ainda obrigado, mas não constituia
+o unico elemento essencial da festa, como n'outros
+tempos.</p>
+
+<p>Foi n'esse <em>oiteiro</em> que eu ouvi Marcolino recitar, não
+uma poesia comica, como se poderia esperar do genero
+que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas
+uma poesia lirica, <em>A borboleta</em>, de Thomaz Ribeiro, que
+elle disse com um notavel primor de interpretação.</p>
+
+<p>Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Eu conheço-a! oh, se a conheço!<br>
+sempre volitando anciosa,<br>
+esbelta, fugaz, airosa,<br>
+esquiva, amante, esquecida,<br>
+eterno enygma na vida!...<br>
+Eu conheço-a! ah, se a conheço!<br>
+Estimo-a; estimal-a é grato;<br>
+quero entendel-a... endoideço!</p>
+</blockquote>
+
+<p>As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas)
+ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,<span class="pn">{141}</span>
+tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio
+que foi a ultima da sua vida.</p>
+
+<p>Eram duas horas da noite quando saimos da <em>grade</em>,
+e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso
+n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Tenho esta noite glosado<br>
+Versos a esmo, a granel.<br>
+Consenti, minhas senhoras,<br>
+Que eu d'esta feita termine<br>
+E que a vossos pés se incline<br>
+Vosso servo: Pimentel.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço.
+Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite!
+Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se
+de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural
+de um antigo conde do Minho; morreu pouco
+depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns
+olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu.
+Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do <em>oiteiro</em> de S. Bento, porque tambem lá esteve:
+o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com
+grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um
+soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança
+em Africa.</p>
+
+<p>Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos <em>Pitorra</em>,
+como dizia toda a gente, sem embargo de elle
+ser, pelo seu altissimo valor artistico, o <em>grande Santos</em>.</p>
+
+<p>A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos
+era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos
+no Porto, eu frequentava os espectaculos e os
+ensaios, o palco e o <em>foyer</em>, e escrevi por essa occasião,
+julho de 1873, uns versos, que se intitulavam <em>Lirios</em>,
+e que Emilia Adelaide recitára.</p>
+
+<p>Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia
+de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei,
+n'aquella occasião, um desastre irremediavel.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia;
+mas, a breve trecho, encontrei a explicação do
+facto. A memoria da actriz prejudicára os versos;
+comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar
+todas as faltas da actriz.</p>
+
+<p>Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas
+relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade
+de um jantar que tivemos os tres no <em>Hotel Francfort</em>,
+onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente
+conversado, assistiu tambem a actriz Amelia
+Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um
+banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam
+á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e
+Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este
+festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por
+vezes as mãos dos convivas.</p>
+
+<p>Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor
+Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que
+elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o
+Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão
+com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do
+sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel
+da saudade...</p>
+
+<p>N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja
+de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos
+meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro
+de D. Maria em 16 de maio de 1874.</p>
+
+<p>Paro um momento a lel-os:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Foi aqui&mdash;a historia o conta...<br>
+Que entre flôres, palmas, himnos,<br>
+Dos talentos peregrinos<br>
+Brilhou a constellação.<br>
+Era um loureiral a scena,<br>
+O theatro escola e templo,<br>
+Cada talento um exemplo,<br>
+Cada palavra&mdash;lição.<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>Formoso e esplendido quadro!<br>
+As bellas frontes rasgadas<br>
+Resplandeciam banhadas<br>
+Em misterioso fulgor...<br>
+Grupo onde tudo era grande<br>
+Merecia moldura d'ouro,<br>
+Se tantas cordas de louro<br>
+Não o cingissem melhor.</p>
+
+<p>Foi o tempo devastando<br>
+As maravilhas da tela.<br>
+Onde a loira Manuela?<br>
+Onde Epiphanio, o pharol?<br>
+Onde Sargedas, a graça?<br>
+Onde Tasso e a sua gloria?<br>
+Mais quatro nomes na historia,<br>
+Mas não é posto inda o sol.</p>
+
+<p>Não é. O quadro tem vida.<br>
+Move-se, agita-se, fala<br>
+Remurmuram n'esta sala<br>
+Os eccos da sua voz...<br>
+Supponde muitas palmeiras<br>
+Rasgando do céu as brumas...<br>
+Quando o vento prostra algumas,<br>
+As outras não ficam sós.</p>
+
+<p>Dos velhos heroes da scena<br>
+Descem hoje sobre o espolio,<br>
+No theatro-Capitolio,<br>
+Flôres d'antiga ovação.<br>
+É que um talento robusto,<br>
+Honrando um nobre legado,<br>
+Resuscita hoje o passado,<br>
+Renova as flôres d'então.</p>
+
+<p>E a sua voz, que domina<br>
+Da ovação a anciedade,<br>
+É a voz da posteridade,<br>
+Que da scena aos velhos reis<br>
+Diz como um brado da historia:<br>
+«La vos honrei o legado;<br>
+«Se vos prostrou o passado,<br>
+«Não sois mortos. Reviveis...»<span class="pn">{144}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E de todos estes versos, a que unicamente a saudade
+de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição,
+ha um em que a minha attenção particularmente se
+detém:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Mas não é posto inda o sol.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro.
+O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse
+tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias
+dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia
+das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice
+aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe
+a gloria. E n'esse venerando cemiterio,
+onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens,
+Santos sacrificava em honra de tantos mortos
+illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle
+proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do
+velho theatro normal.</p>
+
+<p>Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo
+interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.</p>
+
+<p><em>Não era posto ainda o sol</em>, porque elle era a luz crepuscular;
+não estava inteiramente deserto o templo,
+porque Santos o povoava ainda.</p>
+
+<p>Mas não havia outro laço vivo a prender o passado
+ao presente senão elle.</p>
+
+<p>Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.</p>
+
+<p>Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada
+que ia render-se.</p>
+
+<p>Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito.
+Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para
+dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao
+soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára
+que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira
+da eternidade...<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira:
+appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro
+de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a
+terceira no theatro da Trindade.</p>
+
+<p>Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a
+alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era
+uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a
+de Luiz XVI&mdash;que tantas vezes reproduzira&mdash;passando
+através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos
+cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.</p>
+
+<p>Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina,
+porque os actores morrem no dia em que são obrigados
+a abandonar o theatro.</p>
+
+<p>A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice.
+Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a
+revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como
+um <em>sans-culotte</em> implacavel, arrastava-o para o <em>Temple</em>,
+as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco,
+a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte.
+N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz
+do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma
+vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo
+Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: <em>Ah! a natureza
+humana não tem força para mais!</em></p>
+
+<p>O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença
+era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos
+do <em>Temple</em>: era a sua familia que entrava para
+trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida
+incomportavel! que devia durar cinco mezes,
+sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão
+n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.</p>
+
+<p>A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz
+commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza
+de infortunio!</p>
+
+<p>Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença
+havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a
+sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto<span class="pn">{146}</span>
+fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa
+por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.</p>
+
+<p>Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando
+de uma familia orphanada, o theatro portuguez
+soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.</p>
+
+<p>Era o Delphim que pranteava a morte do rei...</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Do theatro antigo conheci muito bem tres actores:
+o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.</p>
+
+<p>Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer <em>partidas</em>:
+algumas conta elle proprio nas suas <em>Memorias</em>.
+Como actor comico, mereceu a celebridade que teve.
+Quando cantava com Taborda o <em>duetto</em> de <em>Moysés</em>, ou
+representava os <em>Dois candidatos</em> e <em>Para as eleições</em>, era
+da gente rebentar a rir.</p>
+
+<p>Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto,
+estava doente, triste, muito velho. A troça indigena
+mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um
+pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente
+um defeito de escola, mas, em compensação, todos os
+artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar.
+Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha,
+para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.</p>
+
+<p>No trato particular, um perfeito cavalheiro.</p>
+
+<p>Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces,
+dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se
+a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente
+o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que
+pretendia então um logar na alfandega.</p>
+
+<p>Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como
+em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio
+do <em>Adamastor</em>, de Camões, e o <em>Firmamento</em>, de
+Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma <em>reprise</em> do
+<em>Marquez de lá Seiglière</em>, que foi o seu cavallo de batalha.<span class="pn">{147}</span></p>
+
+<p>Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange
+de actores antigos capazes de investirem com a tragedia
+e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os
+defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos
+tres, de que tenho falado, o mais <em>poseur</em>: toda a gente
+se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa
+com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio
+ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a
+até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo
+botas.</p>
+
+<p>Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros
+actores notaveis</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O
+celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni:
+«Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca:
+é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer,
+com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão
+um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»</p>
+
+<p>A sua dicção, um pouco <em>saccadée</em>, era cristallina, sonora.
+Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor
+do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse
+estar melhor em scena.</p>
+
+<p>Vi o Sargedas no <em>Gaiato de Lisboa</em>, no theatro de
+S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho,
+fazia o <em>Gaiato</em> como se estivesse ainda em idade
+de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice,
+só os consegue o talento.</p>
+
+<p>Antonio Pedro é um morto de outro dia.</p>
+
+<p>Fóra do theatro, a sua <em>gaucherie</em> passava em proverbio.
+No theatro era um grande actor por intuição,
+tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia,
+simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua
+assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo
+palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam<span class="pn">{148}</span>
+a ignorancia manifesta em questões de arte
+dramatica.</p>
+
+<p>Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma
+modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou
+assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle
+proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua
+organisação artistica.</p>
+
+<p class="centrado">*</p>
+
+<p>Com o Tasso convivi durante uma <em>tournée</em>, no Porto;
+com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico
+assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição
+d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer
+diabrura tipographica.</p>
+
+<p>Já isso vai ha tanto tempo!
+
+<hr style="width: 30%">
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<h2>XVII</h2>
+
+<h3>Pintores</h3>
+
+<p>No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra
+como vogal da commissão de exames de instrucção
+secundaria.</p>
+
+<p>Coimbra, a <em>terra de encantos</em>, só então me pareceu
+tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante
+um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim,
+a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco
+agradavel.</p>
+
+<p>Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes
+verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego,
+manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem,
+toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por
+entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.</p>
+
+<p>Uma delicia!</p>
+
+<p>De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames,
+arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas
+de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na
+Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.</p>
+
+<p>A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores<span class="pn">{150}</span>
+do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos
+uns aos outros nos passeios de todas as
+tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem
+estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar
+sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte
+do juri de desenho.</p>
+
+<p>Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima,
+e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um
+extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o
+rodeava.</p>
+
+<p>Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas
+d'aquella clara paizagem, lucida e placida como
+uma vista de stereoscopo.</p>
+
+<p>Pois que o pintor Christino tinha a configuração de
+um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos
+observando, podiamos distinguir, até grande
+distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto,
+que destacavam á prôa do barco.</p>
+
+<p>Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem
+do poente que a sua cabeça descoberta, e mal
+guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se.
+Christino reunia mentalmente á belleza do panorama
+as tradições romanticas, as memorias lendarias
+d'aquella margem. D'esse lado ficava a <em>Fonte
+dos amores</em> emboscada saudosamente na sombra de
+corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a
+elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima,
+á distancia de dois kilometros da cidade, a <em>Lapa
+dos esteios</em>, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado
+sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava
+os tempos semi-pagãos em que o poeta da
+<em>Primavera</em> e os seus amigos ali foram, em plena mocidade,
+celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio
+que traz as flores e os canticos, os perfumes e
+os amores.</p>
+
+<p>Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas,
+tinha uma alma de artista, era uma organisação<span class="pn">{151}</span>
+delicada como a de Raphael, que se devorava
+nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente
+do que elle poderia sentir toda a poesia
+d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que
+as recordações e as arvores povoam.</p>
+
+<p>Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se
+uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do
+Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. <em>Ó dolce
+voluttá</em>! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas!
+Que doces horas aquellas que o Christino passou
+no Mondego sonhando sobre as aguas!</p>
+
+<p>Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou
+abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse
+ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada.
+É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto
+a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios
+ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida.
+Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma
+longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece
+ao cabo de algumas horas de concentração.</p>
+
+<p>Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes
+tornei a avistar-me com o pintor Christino.</p>
+
+<p>Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra
+morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha
+empallidecido primeiro que a dos olhos...</p>
+
+<p>Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles
+sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente
+devoradores!...</p>
+
+<p>Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista
+notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda
+de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só.
+Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas,
+olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado,
+era comtudo facil e agradavel.</p>
+
+<p>Amador da natureza, ia procural-a no panorama que
+d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que<span class="pn">{152}</span>
+os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.</p>
+
+<p>Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por
+S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo.
+Os olhos conservavam o seu brilho agareno.
+Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por
+vinte e quatro horas.</p>
+
+<p>No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação
+havia morrido repentinamente.</p>
+
+<p>E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara,
+o panorama oriental da cidade parecia provocar,
+na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.</p>
+
+<p>Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que,
+sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito
+dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...</p>
+
+<p>Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente
+nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos
+branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era
+aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo,
+parecia vender saude.</p>
+
+<p>Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos,
+n'uma <em>soirée</em> litteraria que o visconde de Castilho (Julio)
+déra na sua casa da rua de S. João da Matta em
+honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.</p>
+
+<p>Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem
+augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o
+porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria,
+e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de
+convicção dava-me estimulo.</p>
+
+<p>Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar
+na rua um homem que se mostra desanimado por
+ser obrigado a trabalhar...</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{153}</span></p>
+
+<h2>XVIII</h2>
+
+<h3>Um grupo de academicos</h3>
+
+<p>Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet&mdash;<em>Trente ans de Paris</em>&mdash;lembrei-me muito de Teixeira
+de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de
+Villemessant.</p>
+
+<p>O livro (collecção Guillaume &amp; C.<sup>ie</sup>) é illustrado, e
+até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto,
+nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.</p>
+
+<p>Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia.
+Encontrei-me varias vezes com elle nas <em>soirées</em> politicas
+de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes
+em sua casa, graças á benevolencia com que desde
+o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem
+de mundo, um <em>gentleman</em>, espirituoso, algum
+tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas
+escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que
+mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.</p>
+
+<p>Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer
+parte da redacção do <em>Jornal da Noite</em>. Eu precisava<span class="pn">{154}</span>
+trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre
+me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança
+de que o <em>gentleman</em> das salas havia de continuar
+a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal.
+Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era,
+pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por
+vezes brusco, um homem muito differente, tomando
+sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de
+dono de jornal.</p>
+
+<p>Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem
+razão para queixar-me.</p>
+
+<p>Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o
+dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira
+de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu
+jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.</p>
+
+<p>As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu,
+rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente
+os homens com quem, no trato familiar
+de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.</p>
+
+<p>Foi o que aconteceu comigo.</p>
+
+<p>Depois que sai da redacção do <em>Jornal da Noite</em> vivemos
+deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o
+com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me
+gentilissimamente. E algumas vezes, na minha
+presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores,
+como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant
+para os outros, voltava-se para mim sorrindo
+e continuando a conversar placidamente.</p>
+
+<p>Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que
+foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre
+um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a
+dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.</p>
+
+<p>Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer,
+mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido
+para uma publicação do editor Chardron e que,
+não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio
+d'aquelle editor.<span class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior
+valia. Pena é conservar-se inedito.</p>
+
+<p>Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada,
+mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições
+da experiencia.</p>
+
+<p>Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle
+me deu:</p>
+
+<p>&mdash;Se receber um livro mau, cale-se; se receber um
+livro bom, elogie-o.</p>
+
+<p>Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando
+o não sigo, arrependo-me.</p>
+
+<p>Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos.
+Passou metade da sua vida a estudar e outra
+metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava
+ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que
+elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto
+e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo,
+Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que
+fôra bibliothecario durante muitos annos.</p>
+
+<p>É frequentissimo compulsar um livro qualquer da
+Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta
+que diz: «<em>Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho
+para preencher a falta do exemplar da livraria.</em>»</p>
+
+<p>Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para
+mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da
+Academia.</p>
+
+<p>Eu, que desde alguns annos converso mais os livros
+que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a
+passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento,
+que ás vezes parece mais morto que
+vivo.</p>
+
+<p>Não conheci nunca, no trato particular que tive com
+Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam.
+Queixava-se, é certo, mas não se queixava
+mais nem menos do que todos quantos julgavam ter
+razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade
+de homens do mesmo officio sem razões de<span class="pn">{156}</span>
+queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo
+officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma
+profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou
+não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos,
+que têem serralho.</p>
+
+<p>O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho
+foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber.
+Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos,
+por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente
+de uma posição obscura, e litterariamente do
+lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com
+um livro de versos, o <em>Diwan</em>. Mas á força de trabalho
+e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu
+com as mais intrincadas questões de philologia,
+de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo,
+por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie
+do mundo litterario, como professor e academico,
+certamente teria que combater e que soffrer, porque
+ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...</p>
+
+<p>Apesar de robusto&mdash;Soromenho era um homem forte,
+com uma phisionomia algum tanto arabe&mdash;morreu relativamente
+novo.</p>
+
+<p>A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria
+no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador
+de não sei que disciplina de instrucção secundaria;
+eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos
+toda uma tarde. Soromenho contára-me casos,
+coisas da Academia e das litteratices lisbonenses.
+Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua
+bella figura de homem forte destacava-se como a de
+um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo,
+e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira.
+Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor
+com as rosas.</p>
+
+<p>Lembro-me de que á despedida elle me dissera:<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&mdash;Olhe lá. Voce diz no <em>Guia do viajante no Porto</em>
+que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro&mdash;como
+os mexilhões.</p>
+
+<p>Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.</p>
+
+<p>Antonio da Silva Tullio era um homem muito original,
+sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado
+que não se sabia bem o que elle queria dizer ou
+fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo
+uma obra litteraria que pudesse dar na vista á
+posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e
+em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua
+mocidade, <em>A Semana</em>, por exemplo. O que lhe conheço
+de melhor são as monographias sobre D. Catharina de
+Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os <em>Estudinhos de
+lingua patria</em>, publicados no <em>Archivo Pittoresco</em>. De resto
+não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego.
+Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo,
+era um homem de vastos conhecimentos litterarios.</p>
+
+<p>Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde
+ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo
+vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que
+lhe escapára por falta de catalogação.</p>
+
+<p>Quando eu escrevi o <em>Livro das lagrimas</em> para a casa
+Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca
+havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.</p>
+
+<p>Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me
+logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam
+do assumpto.</p>
+
+<p>E no dia seguinte mandou-me para casa não menos
+de outros quinze livros.</p>
+
+<p>Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás
+vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo
+sempre distraido, respondia affirmativamente.
+Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá
+se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não
+tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava
+accordo de si, satisfatoriamente.<span class="pn">{158}</span></p>
+
+<p>Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano,
+e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador,
+mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe,
+não só porque elle o perdia com os outros, mas porque
+tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a
+Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica.
+E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar.
+Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.</p>
+
+<p>Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um
+estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava
+muito estas qualidades nos outros, especialmente em
+Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo,
+teve uma grande admiração. <em>A Semana</em>, jornal que
+Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente
+Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo
+passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo,
+o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias,
+e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas
+admiradores do eminente romancista.</p>
+
+<p>Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se
+no <em>Hotel Universal</em>. Jantei ali com elle e,
+quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da
+noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo <em>por
+mestre</em>.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{159}</span></p>
+
+<h2>XIX</h2>
+
+<h3>Conselheiro Viale</h3>
+
+<p>Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me
+ao Porto uma carta dos srs. Lucas &amp; Filho, proprietarios
+da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever
+um romance historico.<sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup></p>
+
+<p>Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o
+romance <em>Annel mysterioso</em> começou a ser publicado em
+fasciculos.</p>
+
+<p>Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs.
+Lucas &amp; Filho me instigou a escrever outro romance,
+para seguir-se immediatamente ao <em>Annel mysterioso</em>.</p>
+
+<p>Aquelles editores davam como razão d'esta proposta
+o facto de ser recebido com agrado o meu romance que
+estavam publicando.</p>
+
+<p>Confesso francamente que me encontrei n'uma situação
+embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil
+agradar na repetição, e de que a empresa editora
+poderia ser prejudicada pela aventura de querer que
+eu succedesse a mim proprio. <em>Non bis in idem</em>, diz o
+proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto
+que lograsse despertar maior interesse do que o <em>Annel
+mysterioso</em>,<span class="pn">{160}</span> e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me
+haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda
+explorada a lenda piedosa que se havia formado em
+torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que
+esse assumpto valeria por sua mesma popularidade.
+Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em
+meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação
+do <em>Annel mysterioso</em>, seguiu-se immediatamente a
+da <em>Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V</em>.
+E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que
+deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu
+pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,<sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup> com tipographia
+na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho
+de que é inteiramente exacta a minha narrativa.</p>
+
+<p>Comecei a escrever a <em>Porta do Paraiso</em> no Porto. A
+meio do romance, caiu-me em casa um despacho para
+a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim
+tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos
+da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando.
+Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui
+os ultimos capitulos.</p>
+
+<p>Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como
+um Creso na rasão de 600 réis por dia...</p>
+
+<p>Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.</p>
+
+<p>Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa
+que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe
+apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional.
+Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas
+que logo põem em evidencia um homem, ainda que
+elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha
+provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico
+notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um
+actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio,
+laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca
+Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio.
+Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça
+de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma
+lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco
+alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade,
+destacava as suas palavras n'um tom gravemente
+conceituoso, que o habito do professorado explicava. E
+na sua maneira de pronunciar havia um <em>tic</em> original,
+que fazia retinir algumas sillabas.</p>
+
+<p>Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado
+das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho
+academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos
+arraiaes litterarios, era «<em>Place aux jeunes</em>», ainda que
+para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os
+velhos.</p>
+
+<p>Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça
+pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado.
+A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que
+sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se
+com razão de que a multidão dos novos passasse sob
+a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o,
+ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo
+por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.</p>
+
+<p>Falou-me da <em>Porta do Paraiso</em>, disse-me que o livro
+lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V
+é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor;
+e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez
+á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito
+um opusculo, que eu alias só conhecia por uma
+transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o
+d'alli a dias: <em>Apontamentos para uma biographia de S.
+M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima
+memoria</em>, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.</p>
+
+<p>Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos
+evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando<span class="pn">{162}</span>
+a firmeza convicta de um crente. Viale viveu
+sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e
+acatava profundamente a auctoridade da igreja romana;
+homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como
+Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da <em>Illiada</em> ou uma ode de Pindaro.</p>
+
+<p>Collaborou no <em>Jornal da Sociedade Catholica</em>, redigiu
+o <em>Catholico</em>, traduziu o primeiro canto da <em>Odissea</em>,
+o sexto da <em>Illiada</em>, os cinco primeiros cantos do <em>Inferno
+de Dante</em>, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou
+em oitava rima a historia de Portugal, propagando
+pelas escolas de instrucção primaria as tradições
+gloriosas do passado.</p>
+
+<p>A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da
+sua alma; traça com uma linha geographica os limites
+da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição
+grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo,
+foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.</p>
+
+<p>Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze
+annos publicou um poema heroico, <em>David triumphante</em>,
+entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima.
+Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que
+parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla,
+invadida pelos turcos, salvando sobraçado o
+ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou
+cantando o amor, como todos, adejando por sobre
+os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se
+na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em
+Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II,
+preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente
+á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas
+na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem
+na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo
+da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma.
+Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do
+passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção<span class="pn">{163}</span>
+era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se
+tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu
+atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem
+que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem
+fazel-o vacillar um momento.</p>
+
+<p>Eu tenho aqui, deante de mim, as <em>Tentativas Dantescas</em>
+do conselheiro Viale, a sua traducção do <em>Inferno</em>
+prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro
+V.</p>
+
+<p>As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de
+seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada,
+constituem a mais amavel das dedicatorias.</p>
+
+<p>Eu era por esse tempo professor de historia de seu
+filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente,
+nas lettras patrias, a tradição erudita do pae.
+O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo,
+as mais subidas provas de consideração em que eu não
+deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae
+através dos repetidos favores com que o academico, o
+professor, o hellenista confundiam a minha humildade
+de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official
+dos meritos de seu filho, não dependia de mim a
+sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale
+me pedia, de um modo captivante, que ensinasse
+áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo
+quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse
+ministrar.</p>
+
+<p>Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns
+annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro
+Viale.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Maio de 1889.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup> Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo
+Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião
+de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.&mdash;<em>Nota da
+2.ª edição.</em></p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram
+com a tipographia, que ainda subsiste.&mdash;<em>Nota da 2.ª edição.</em></p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{164}</span></p>
+
+<h2>XX</h2>
+
+<h3>Eduardo Coelho</h3>
+
+<p>Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...</p>
+
+<p>A noite estava clara, levemente fria. Principiava a
+sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que,
+á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes,
+de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As
+confeitarias resplendiam num grande espelhamento
+de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam
+o <em>Jornal da Noite</em>, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos,
+era a unica folha que saía depois de posto o
+sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado
+e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade
+alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se
+um formigueiro de espectadores, dobrando
+a esquina do largo das Duas Egrejas, onde
+hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores de <em>cautelas</em>
+rouquejavam o pregão da <em>taluda</em>, o 4897, perseguindo
+a gente.</p>
+
+<p>Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,<span class="pn">{165}</span>
+diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade,
+mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem
+de recordações esfumadas, de memorias fugitivas
+d'aquella noite de festa.</p>
+
+<p>Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas,
+eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi
+tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente
+isenta de difficuldades, por certo.</p>
+
+<p>Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo
+Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a
+amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de
+encontrarmo-nos <em>definitivamente</em>, fosse eu á redacção
+do <em>Diario de Noticias</em>, ás nove horas da noite.</p>
+
+<p>Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as
+ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no
+Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua
+dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do <em>Diario
+de Noticias</em> é de recente data.</p>
+
+<p>Complica-se com o encruzamento de varias travessas
+a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que,
+comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente
+no Bairro Alto, assim como tambem não são
+capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do
+Bairro d'Alfama.</p>
+
+<p>Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo,
+o caminho do <em>Diario de Noticias</em>, e não me ficou
+barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei
+heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta
+sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada
+topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração,
+sabe Deus com que trabalho!</p>
+
+<p>Finalmente, entrei na redacção do <em>Diario de Noticias</em>
+quarenta minutos depois da hora aprazada.</p>
+
+<p>Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira
+vez, embora tivesse estado com elle em communicação
+epistolar, a causa da minha demora.</p>
+
+<p>Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,<span class="pn">{166}</span>
+riu da minha aventura e, ficando silencioso um
+momento, acabou por dizer-me:</p>
+
+<p>&mdash;Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter.
+Você é um homem capaz de luctar, de soffrer
+para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do
+<em>Diario de Noticias</em>, mas ganhou o ficar habilitado a tornar
+cá com os olhos tapados.</p>
+
+<p>Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção,
+captivou-me com aquella sincera bonomia que era a
+feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos
+amigos.</p>
+
+<p>Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro
+ou quarto acto de uma comedia, que já não sei
+como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo,
+Eduardo Coelho despediu-se. <em>Ia fazer a meia
+noite, com a sua familia</em>, disse-me. Eu não sabia o que
+era <em>fazer a meia noite</em>. Coelho riu-se.</p>
+
+<p>&mdash;É o que lá, para as nossas provincias, se chama
+a consoada, a ceia do Natal.</p>
+
+<p>Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo
+Coelho, proprietario e redactor principal do <em>Diario de
+Noticias</em>.</p>
+
+<p>Em maio de 1889 chegava eu á <em>gare</em> de Campanhã,
+no Porto, em virtude de um acontecimento de familia,
+que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi
+dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo
+o <em>Jornal da manhã</em>:</p>
+
+<p>&mdash;Morreu o Eduardo Coelho.</p>
+
+<p>&mdash;De repente?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, de repente.</p>
+
+<p>&mdash;Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada
+constava...</p>
+
+<p>Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador
+e alegre, que foi, deve dizer-se, <em>uma das forças
+do seu tempo</em>.</p>
+
+<p>Depois de haver sido um dos <em>vencidos da vida</em> (não
+no sentido pantagruelico que esta denominação está<span class="pn">{167}</span>
+tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle
+conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que
+o salvasse.</p>
+
+<p>Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores
+porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha
+ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho
+teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser
+pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente:
+lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.</p>
+
+<p>Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir.
+Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a
+sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que
+elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento,
+já não poderá desgarrar-se.</p>
+
+<p>Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances
+e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo
+o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato
+no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole
+noticiosa e popular do <em>Diario de Noticias</em>.</p>
+
+<p>Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do
+circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e
+se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte
+por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se
+em liberdade n'um volume independente, que era uma
+especie de gazeta feita... á gazeta.</p>
+
+<p>Mas os moldes do <em>Diario de Noticias</em> nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que
+ensombrasse a noticia, a <em>blague</em> phantasista nunca se
+permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio&mdash;este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.</p>
+
+<p>Dizer o que se passava, com uma grande investigação
+de pormenores, mas sem refolhos de linguagem
+que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor,
+eis o proposito inicial do <em>Diario de Noticias</em>.</p>
+
+<p>Contar as occorrencias como qualquer pessoa que
+chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira
+impressão, e sem retoques de litteratice, n'um<span class="pn">{168}</span>
+tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro
+andar como para a velhinha do quinto, eis o que
+o <em>Diario de Noticias</em> se propoz conseguir, e realisou.</p>
+
+<p>Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam
+ás vezes a epiderme do <em>Diario de Noticias</em>:
+queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em
+estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade
+que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do
+<em>Martinho</em>. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente,
+e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso,
+ia construindo predios na rua dos Cardaes ao
+passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas
+com peor orientação, viviam em casa de renda, com
+difficuldade em pagal-a.</p>
+
+<p>Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito,
+conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com
+o <em>Diario de Noticias</em>, que, se o lermos com attenção,
+é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante
+nudez da sua verdade anatomica.</p>
+
+<p>Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os
+litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro
+de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos
+mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo
+das nossas predilecções pessoaes ou politicas;
+mas o <em>Diario de Noticias</em> diz-nos o que ha a dizer
+com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos,
+faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para
+lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e
+não é um concorrente perigoso para as novas empresas
+jornalisticas, porque os dez réis que elle custa
+cristalisaram no orçamento domestico da população
+lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não
+entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor,
+que hajamos de fazer com os outros jornaes que
+se vendem avulso.</p>
+
+<p>A velhinha da mansarda já tem como certo que, além
+do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um<span class="pn">{169}</span>
+vintem por dia: dez réis para o seu <em>Diario de Noticias</em>,
+dez réis para o carapau do seu gato.</p>
+
+<p>Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou
+chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem
+preliminarmente o <em>Diario de Noticias</em>, encostados ás
+esquinas das ruas.</p>
+
+<p>Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma
+extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha
+para amealhar, com os olhos postos no seu ideal
+gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato
+das <em>maltas</em>, para alimentação, renda de casa e despesas
+miudas, entra a verba effectiva do <em>Diario de Noticias</em>,
+cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta,
+para o grupo todo.</p>
+
+<p>É isto ou não é isto?</p>
+
+<p>Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou
+n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros,
+mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia
+não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do <em>Diario de Noticias</em>.</p>
+
+<p>No proprio dia em que elle se enterrava, o <em>Diario
+de Noticias</em> appareceu carregado de annuncios: era a
+affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde
+e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente
+n'uma instituição lisbonense.</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{170}</span></p>
+
+<h2>XXI</h2>
+
+<h3>Marquez de Thomar</h3>
+
+<p>Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar
+n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse
+mais o biberon do que a politica.</p>
+
+<p>Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me
+sofregamente para ella e, segundo o testemunho
+de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á
+politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.</p>
+
+<p>Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas
+de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico,
+haveriam notado a coincidencia do meu nascimento
+com um dos periodos mais agitados da politica
+portugueza.</p>
+
+<p>Teriam gritado: predestinação! E diriam, <em>una voce</em>,
+que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...)
+nascera sob a influencia da grande lucta travada entre
+os amigos e os adversarios do conde de Thomar&mdash;lucta
+feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima
+cartada.</p>
+
+<p>Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a <em>Maria da Fonte</em>, o conde de Thomar fugira para Hespanha,<span class="pn">{171}</span>
+mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o
+de novo ao poder.</p>
+
+<p>1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda
+republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos
+poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista
+de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época
+do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação
+da republica em França e quando estava germinando
+a <em>regeneração</em>, foi que me estreei n'este mundo,
+envolto nas faxas infantis.</p>
+
+<p>Mas como o acaso&mdash;essa bussola misteriosa que nortea
+os destinos humanos&mdash;não quiz que eu viesse a
+ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de
+mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo
+notavel.</p>
+
+<p>No que a meu respeito têem dito em bem e em mal,
+nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao
+facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter
+sido annunciado pelo himno da <em>Maria da Fonte</em>.</p>
+
+<p>Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente
+morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção
+para a época da sua decadencia politica. Eu entrei
+n'este mundo durante os <em>cem dias</em>, posso dizel-o assim,
+de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve
+tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera
+restauração.</p>
+
+<p>O que é certo é que vim encontrar o mundo politico
+portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei
+se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente
+seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se
+pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem...
+E assim foi que correu a minha primeira infancia
+derivando por entre dois nomes, de que se falava
+muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar,
+que tinha caído definitivamente em 1851, e o
+marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o <em>Espectro</em> e a <em>Maria da
+Fonte</em>, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas
+populares do Minho contra a familia dos Cabraes.</p>
+
+<p>Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época
+nem sequer poupava a esposa do ministro caido:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Luizinha, agora, agora...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer
+pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse
+tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este
+modo completar as fugitivas e incertas impressões que,
+para assim dizer, trouxera do berço.</p>
+
+<p>Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque
+é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto
+na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo
+caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços
+d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva
+e insinuante.</p>
+
+<p>Vi o Sampaio da <em>Revolução</em>... de guardanapo ao
+pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e
+comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o
+terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor
+do <em>Espectro</em>, o ardente pamphletario de 1846,
+vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais
+tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em
+politica.</p>
+
+<p>Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia,
+ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de
+triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o
+seu uniforme de general, deitado no modesto leito que
+os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado
+um pallido clarão indeciso.</p>
+
+<p>Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo
+vigor de homem forte para a sua cadeira de par do
+reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi<span class="pn">{173}</span>
+as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam,
+sem excepção dos antigos patuléas <em>enragés</em>.</p>
+
+<p>É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões,
+saciado as impaciencias, envelhecido os homens.</p>
+
+<p>Chegára a <em>paz geral</em>, que o meu excellente amigo
+D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup> havia
+prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado
+armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado
+com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio
+Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á
+sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio
+Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez
+de Thomar.</p>
+
+<p>Em que abismo de recordações não mergulharia o
+espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz
+depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam
+da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos
+do combate, que o ardor póde ser eterno, e que
+as suas proprias paixões hão de queimar durante toda
+a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam
+intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das
+noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos
+de outr'ora, que se desfizeram em fumo!</p>
+
+<p>Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio
+sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez
+de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino,
+meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles
+diziam...</p>
+
+<p>Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a
+onda revolucionaria da <em>Maria da Fonte</em> tinha rolado
+para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações
+no papel do que nos homens.</p>
+
+<p>Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar,
+por dentro e por fóra, a natureza humana.<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p>De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio
+deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem
+mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia
+em determinadas aptidões; mas a energia de caracter
+tinha sido igual em todos tres.</p>
+
+<p>Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á
+mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram
+precisas duas revoluções para o derrubar, porque
+á primeira resistiu elle.</p>
+
+<p>Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a
+penna, combatera-o implacavelmente com o <em>Espectro</em>,
+amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio.
+Homem para homem; coragem por coragem.</p>
+
+<p>Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os
+embates, que procuravam lançal-o por terra na sua
+gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar
+todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades,
+chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.</p>
+
+<p>Todos esses tres homens foram dominadores por
+sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos
+tres eram corações generosos, almas de bom timbre,
+expansivas e affectuosas.</p>
+
+<p>Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos
+podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão
+lá do alto a sombra que projectaram na terra,
+e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos
+parece enorme. Porque, descontadas no homem politico
+as suas paixões, as suas furias de momento, o que a
+seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa
+pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos
+a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos
+vendo através da historia...</p>
+
+<p>Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito
+de Costa Cabral, algumas notas discordantes.</p>
+
+<p>Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria,
+mas a primeira condição para apreciar um homem politico
+deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial<span class="pn">{175}</span>
+das circumstancias em que se encontrou. É preciso
+reconstruir toda uma época para julgar com segurança
+um homem politico. E as circumstancias em
+que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas
+por que tem passado o governo constitucional
+n'este paiz.</p>
+
+<p>Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario
+e conservador. Esta accusação póde ser
+fulminada contra a maior parte dos homens politicos
+de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é
+tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar
+é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira
+de Mello.</p>
+
+<p>Pois bem, os homens de estado têem que obedecer
+ás correntes caprichosas da opinião&mdash;tão caprichosas
+como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente
+lançada na circulação, explica bem todas
+as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.</p>
+
+<p>Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral
+de renegado.</p>
+
+<p>Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde
+ser feita igual accusação!</p>
+
+<p>Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é,
+essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas
+vezes á vontade dos homens, subjugando-a.</p>
+
+<p>Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha
+principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica,
+nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de
+Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico.
+Em politica tem-se visto tal paiz, como a França
+por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano.
+E cada individuo muda dentro de si mesmo
+centenas de vezes.</p>
+
+<p>Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo
+da maior solidariedade politica que depois de 1834 se
+tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se<span class="pn">{176}</span>
+dos mais dedicados amigos. Quem não era por
+elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica,
+praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A
+união faz a força.</p>
+
+<p>O sr. Oliveira Martins accusa-o, no <em>Portugal Contemporaneo</em>,
+de ter governado sem um principio moral.
+Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas,
+e procurae os principios moraes de todos os governos...
+Haveis de ficar ricos com o achado!...</p>
+
+<p>Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver
+a viação publica, como o fez Fontes Pereira de
+Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes
+operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.</p>
+
+<p>Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Setembro de 1889.
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> Esbocei saudosamente o seu perfil no livro <em>Figuras humanas.&mdash;Nota da 2.ª edição</em>.
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{177}</span></p>
+
+
+<h2>XXII</h2>
+
+<h3>Alexandre da Conceição</h3>
+
+<p>Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na
+Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na
+imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas
+novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias
+d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição
+ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros,
+que haviam quasi abandonado as musas a esse
+tempo.</p>
+
+<p>Principiou militando nas fileiras do romantismo, que
+era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu
+em volume as suas poesias sob o titulo de <em>Alvoradas</em>.
+E dez annos depois fez segunda edição augmentada com
+novas composições.</p>
+
+<p>Como poeta, se não podia medir-se com a estatura
+genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto.
+Dou como <em>specimen</em> aquella das suas poesias que
+teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro <em>Alvoradas</em>,<span class="pn">{178}</span>
+póde ajuizar, pelo <em>specimen</em>, do valor de Alexandre
+da Conceição como poeta:</p>
+
+<blockquote>
+<p style="margin-left: 6em;">PERGAMINHOS</p>
+
+<p>Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;<br>
+Eu tenho mais orgulho do que pensas<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E rio-me tambem;<br>
+É debalde que tentas humilhar-me,<br>
+Porque eu ouso pensar&mdash;vê tu que insania!<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Que tambem sou alguem.</p>
+
+<p>Alguem que veio ao mundo sem familia,<br>
+Um producto do acaso, um paria, um misero,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um engeitado emfim,<br>
+Um sêr sem protecção das leis canonicas,<br>
+Filho sem pae no assento do baptismo,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas um sêr, inda assim.</p>
+
+<p>Levantou-me da estrada do infortunio<br>
+Um homem que entendeu que um filho espurio<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tem jus a protecção,<br>
+Um homem que entendeu que é vil e infame<br>
+Atirar para o lodo dos hospicios<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma alma em embryão.</p>
+
+<p>Este homem deu-me a força do seu braço,<br>
+Legou-me em vida o seu honrado nome...<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vestiu quem era nu,<br>
+Depois, quando me viu robusto e forte,<br>
+Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Trabalha agora tu.»</p>
+
+<p>Luctei, passei curvado sobre os livros<br>
+A mais florida quadra dos meus dias<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sereno a trabalhar;<br>
+Estudei, progredi, illuminei-me<br>
+E um dia para entrar em novas luctas,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pude emfim descançar.</p>
+
+<p>É que eu vi as premissas da victoria,<br>
+O applauso espontaneo dos estranhos<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Incitar-me a seguir,<br>
+É que eu via deante dos meus passos<br>
+Rasgar-se ampla, infinita, luminosa<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A estrada do porvir.<span class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>Se alguma cousa sou a mim o devo,<br>
+Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ao amor de meus paes,<br>
+Á força de vontade, á intelligencia,<br>
+Á sociedade pouco, ás leis bem menos...<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E a ti não devo mais.</p>
+
+<p>E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?<br>
+E és tu que vens fallar-me nas riquezas<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Que o destino te deu?<br>
+Eu não troco os meus louros de poeta,<br>
+As conquistas do estudo e o meu futuro<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por tudo quanto é teu.</p>
+
+<p>És louca!... Sabes lá que orgulho é este<br>
+Do homem que a si só deve o que vale<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E que espera valer?<br>
+Ha lá brazões illustres que equilibrem<br>
+Estes louros viçosos d'um triumpho<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Que soubemos mercer?</p>
+
+<p>És louca! Sabes lá como eu sou rico,<br>
+Rico de muita honra e muita esp'rança<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E muito coração?<br>
+És louca! Mostra a escravos as riquezas,<br>
+Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sou bastante christão.</p>
+
+<p>E quem te disse a ti que eu te invejava<br>
+Esse ouro, que é teu unico prestigio<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E o nome a teus avós?<br>
+Orgulhosa!... pois julgas decidido<br>
+Qual seja, n'esta lucta de vaidades,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O mais nobre de nós?</p>
+
+<p>Pois julgas que ser nobre é mero acaso,<br>
+Uma questão de berço ou de destino,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma questão de paes?<br>
+Não vês que se a nobreza fosse heranca,<br>
+Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Seriamos eguaes?</p>
+
+<p>E não somos, bem vês, porque a nobreza<br>
+Não se lega, conquista-a a intelligencia,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O talento, as acções;<span class="pn">{180}</span><br>
+Ora eu, se me permittes a vaidade,<br>
+Colloco um pouco abaixo dos meus louros<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Todos os teus brazões.</p>
+
+<p>Devolvo-te portanto os teus insultos<br>
+E a suspeita de te adorar os risos,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Que nunca mendiguei;<br>
+Se és bella e tens orgulhos de rainha,<br>
+Mulher, entende bem, eu sou poeta,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tenho orgulhos de rei.</p>
+
+<p>Que é esta a nossa força; n'estes tempos<br>
+Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para nos insultar,<br>
+É modestia a orçar pela baixeza<br>
+Não fazermos sentir aos maus e aos futeis<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quem devem respeitar.</p>
+
+<p>Não me compares, pois, a horda ignara<br>
+Que te adora os sorrisos pelo ouro...<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Eu tenho coração,<br>
+Tenho por pergaminhos o trabalho,<br>
+Por thesouros a minha intelligencia<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E a honra por brazão.</p>
+
+<p>Nós, os homens que andamos procurando<br>
+Á luz do coração por este mundo<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os caminhos do bem,<br>
+Como trazemos alto o pensamento<br>
+E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Bem vês, como ninguem.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Em 1867 publicou o poemeto <em>Abençoada esmola</em>, que
+considero inferior á maior parte das composições incluidas
+nas <em>Alvoradas</em>.</p>
+
+<p>A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de
+o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo,
+sente-se ainda na <em>Abençoada esmola</em> a destreza
+de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado
+a prosaicas occupações.</p>
+
+<p>E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar
+poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar.
+Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito<span class="pn">{181}</span>
+discutimos n'uma serie de cartas publicadas no <em>Jornal
+do Porto</em> desde dezembro de 1871 a março de 1872.</p>
+
+<p>A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos
+do que eramos antes. Uma das minhas primicias
+litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da
+Conceição n'um folhetim do <em>Nacional</em>. Quando a questão
+rompeu no <em>Jornal do Porto</em>, tudo fazia suppôr que
+viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa
+fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante
+com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição,
+sem embargo das nossas frequentes divergencias de
+opinião, especialmente em politica.</p>
+
+<p>Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido
+em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas
+vezes veio á imprensa, com nobre independencia,
+affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia
+de situação que lhe atasse os braços. O seu
+caracter era resoluto na expansão das suas convicções.</p>
+
+<p>Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera
+peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito
+do <em>Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia
+no tempo dos Cabraes</em>.</p>
+
+<p>Na <em>dedicatoria</em> declarava Camillo o intento que o demovera
+a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me
+um dia se um velho escriptor de antigas novellas
+poderia escrever, segundo os processos novos,
+um romance com todos os <em>tics</em> do estylo realista. Respondi
+temerariamente que sim.»</p>
+
+<p>O <em>Euzebio Macario</em> foi a justificação d'esta affirmativa,
+d'este compromisso espontaneamente tomado.</p>
+
+<p>Camillo, o inexcedivel romantico do <em>Amor de perdição</em>, provou o seu pulso de escriptor realista no <em>Euzebio Macario</em> e, depois, na <em>Corja</em>. Evidenciou, com uma
+superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura,
+não havia para elle barreiras que lhe tolhessem
+o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.<span class="pn">{182}</span></p>
+
+<p>Alexandre da Conceição que principiara, como todos
+os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira
+em philosophia para o positivismo, e em litteratura para
+o realismo.<sup><a href="#nota16" name="m_nota16">[16]</a></sup> Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se
+talvez mais papista do que o papa da sua nova escola.
+Não viu deante de si o homem eminente que se chamava
+Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no
+<em>Euzebio Macario</em> a pretensão <em>de lançar o ridiculo sobre
+a escola realista</em>.</p>
+
+<p>D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se
+transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo
+tinham uma natural explicação no facto de ser reptado
+violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham
+do afôgo com que elle abraçava os processos
+litterarios da escola realista.</p>
+
+<p>O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De
+parte a parte não houve trepidação que esfriasse o
+ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista
+insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os
+excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo,
+aguentou-se rijamente no combate.</p>
+
+<p>Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal
+têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque
+Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios
+do seu contendor.</p>
+
+<p>Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885,
+no <em>Café Marrare</em>, n'uma calmosa manhã, em que ali
+entrámos.</p>
+
+<p>O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade
+publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o,
+divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que<span class="pn">{183}</span>
+nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa
+cruel peleja.</p>
+
+<p>... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que
+resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a
+Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado
+contra as trevas, arremessou a sua alma para
+as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam.
+Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade
+da morte, não é mais do que o envolucro decomposto
+d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella
+alma ardente, mas fidalga.</p>
+
+<p>E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças
+ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem
+pão.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota16" name="nota16">[16]</a></sup> Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais
+tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de <em>Notas, ensaios
+de critica e de litteratura.</em>&mdash;<em>Nota da 2.ª edição.</em></p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{184}</span></p>
+
+<h2>XXIII</h2>
+
+<h3>Julio Cesar Machado</h3>
+
+<p>No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos
+espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra
+flôr, que no campo chamam <em>bons dias</em>, quando a tarde
+principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...</p>
+
+<p>A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris,
+que desperta voltada para o oriente, e que sempre
+vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor
+sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo
+diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida
+por uma dolorosa noticia...</p>
+
+<p>A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos
+cachos de glicinia que, nas estradas monotonas,
+espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das
+quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar
+por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria
+sem lhe dar um momento de attenção em passando...</p>
+
+<p>A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes<span class="pn">{185}</span>
+com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes
+paragens, parece cantar na festiva expansão do seu
+perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem
+florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe,
+para occultar a sua commoção, como tambem ás
+vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera,
+que nos braços verdes a vae levantando ao alto das
+grandes ruinas...</p>
+
+<p>A modestia, a violeta timida que não faz alarde da
+sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas
+e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar,
+no seu seio egoista, o cadaver do homem que
+melhor a personificou no mundo...</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço
+sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo
+mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar
+disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos
+seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente,
+n'um drama de sangue, que só de recordal-o
+sente a gente o coração confranger-se?!</p>
+
+<p>Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se
+de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto
+por si mesma, como por que elles proprios exageravam
+o peso da vida.</p>
+
+<p>Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a
+scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a
+não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que
+uma lagrima&mdash;apenas!</p>
+
+<p>«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle
+(o livro <em>Scenas da minha terra</em>); tel-as-ha trazido alguma
+nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro
+ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos,
+essas lagrimas...»</p>
+
+<p>«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo
+pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua<span class="pn">{186}</span>
+terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente
+pelo facto de os levar; eu, ao contrario,
+cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá.
+Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos
+que assim se temem d'elle.»<sup><a href="#nota17" name="m_nota17">[17]</a></sup></p>
+
+<p>«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma
+ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar
+para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»<sup><a href="#nota18" name="m_nota18">[18]</a></sup></p>
+
+<p>«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes,
+politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que
+sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar,
+a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar
+da anecdota!»<sup><a href="#nota19" name="m_nota19">[19]</a></sup></p>
+
+<p>Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de
+1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio
+Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente
+ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça,
+porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu
+o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar
+a catastrophe final.</p>
+
+<p>O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira
+a uma allucinação de momento, e desde esse dia
+toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se,
+como um talude do qual, em se despegando um
+punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas
+horas.</p>
+
+<p>Todos nós nos lembramos do Julio passeando com
+o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção
+e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.</p>
+
+<p>Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho,
+desempenado e de feições miudas, valia mais
+para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor
+ao seu livro mais querido, <em>Os contos ao luar</em>.<span class="pn">{187}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ó Julio, o teu prologo dos <em>Contos</em> leio-o ás vezes
+para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E
+depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro
+<em>Contos ao luar</em>!» Bonito, como eram então as coisas
+bonitas!</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor
+do que o livro... respondia-me elle uma vez.</p>
+
+<p>E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...</p>
+
+<p>Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o
+pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se
+nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente.
+D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar
+pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o
+reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas
+nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado
+a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha
+afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora
+as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.</p>
+
+<p>Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o
+allucinou, que o perdeu;&mdash;basta por si mesmo a explicar
+a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou
+entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.</p>
+
+<p>Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que
+nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora
+em que tentavamos uma empresa arriscada.</p>
+
+<p>Foi no livro <em>Manhãs e noites</em> que elle saudou com excessivo
+favor os meus primeiros trabalhos litterarios,
+as <em>Peregrinações na aldea</em> e o romancesito <em>Idyllios á
+beira d'agua</em>. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia
+em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado
+algumas cartas.</p>
+
+<p>Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa,
+onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente
+o meu destino.</p>
+
+<p>Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no
+Porto: <em>Photographias de Lisboa</em>.<span class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>Reproduzo uma pagina d'esse livro:</p>
+
+<p>«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa
+do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado
+e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes,
+flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho
+em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo
+homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta.
+É que as mulheres, por naturalmente timidas,
+facilmente se confundiriam no cahotico <em>atelier</em> do
+Julio.</p>
+
+<p>«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor
+no <em>ménage</em>, é um valioso album em que a par
+dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado
+pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine,
+Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin,
+Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães,
+Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.</p>
+
+<p>«A proposito dos escriptores francezes do album,
+falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura
+franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos
+da França para os femininos. Provavelmente foi
+o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de
+Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de
+Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado
+livro <em>Physiologie du ridicule</em>. É effectivamente raro este
+livro, cuja primeira edição data de 1833.</p>
+
+<p>«&mdash;Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo
+a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera.
+Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado
+do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou
+o nosso Camillo.</p>
+
+<p>«E tirando para fóra um livro:</p>
+
+<p>«&mdash;Ora se você póde reputar felicidade instantanea
+o encontrar a <em>Physiologia do ridiculo</em>, alegre-se que vae
+vêl-a.<span class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:</p>
+
+<p>«&mdash;E lel-a.</p>
+
+<p>«O Julio havia escripto:</p>
+
+<p>«<em>Ao seu amigo Alberto Pimentel&mdash;lembrança de Lisboa
+em outubro de 1873.</em></p>
+
+<p class="assin"><em>Julio Cesar Machado</em>.»</p>
+
+<p>«E entregando-me o livro:</p>
+
+<p>«&mdash;E tel-a.</p>
+
+<p>«Era impossivel recusar; acceitei.»</p>
+
+<p>Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade
+tornaram-se familiares, intimas, o <em>tu</em> veio consolidal-as
+como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem
+desde a infancia.</p>
+
+<p>Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa
+estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos
+no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia;
+eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma
+bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse
+de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar,
+sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação
+que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o
+Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados,
+saboreando a sua modesta <em>villegiature</em>.</p>
+
+<p>Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!</em></p>
+
+<p>É o seu livro que mais fala da Durruivos.</p>
+
+<p>Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços
+como para receber as minhas palavras, e depois, com
+a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos
+da Durruivos.</p>
+
+<p>O Julito agitou no ar o seu chapeu.</p>
+
+<p>E o comboio partiu.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota17" name="nota17">[17]</a></sup> e <sup><a href="#m_nota18" name="nota18">[18]</a></sup> Do livro <em>Recordações de Paris e Londres</em>.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota19" name="nota19">[19]</a></sup> Do livro, o seu ultimo livro, <em>Mil e uma historias</em>.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 30%">
+
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{190}</span></p>
+
+<h2>XXIV</h2>
+
+<h3>João de Andrade Corvo</h3>
+
+<p>Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da
+minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar
+Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto
+querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro
+pantheon dos meus auctores predilectos.</p>
+
+<p>Ainda foi outro dia!...</p>
+
+<p>De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com
+algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar
+todos os seus volumes, incluindo os dois da <em>Vida em
+Lisboa</em>, que vão sendo muito raros no mercado.</p>
+
+<p>É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem,
+em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona
+a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila,
+como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a
+distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa
+<em>grande confusion</em> tumultuaria em que Voltaire dá o braço
+a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do
+padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes
+meias com Augusto Comte.</p>
+
+<p>Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente<span class="pn">{191}</span>
+<em>cancan</em> dos espiritos, que volteiam em torno da minha
+banca de trabalho, uns graves como espectros, outros
+folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente
+scepticos, aquelles crendo fervorosamente como
+apostolos.</p>
+
+<p>Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe
+uma especie de culto privativo&mdash;o culto da saudade&mdash;e
+dei-lhe um logar reservado n'um só lote da
+minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros,
+folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de
+antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as
+paginas, que ligeiramente passavam por deante dos
+meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.</p>
+
+<p>Hoje alargo as dimensões do compartimento em
+que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem
+ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr.
+Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque
+diversamente orientados, sempre se comprehenderam
+e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se
+continuarão conversando um com o outro no mesmo
+lote da minha estante.</p>
+
+<p>Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes
+tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal
+do <em>Economista</em> apreciei eu dois volumes dos seus <em>Contos
+em viagem</em>, e não sei se foi n'essa occasião, ou em
+qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo
+como romancista historico, declarei francamente antepôr
+o seu <em>Um anno na côrte</em> á tão preconisada <em>Mocidade
+de D. João V</em>, de Rebello da Silva.</p>
+
+<p>Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não
+reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades
+de estilista; mas como romancista historico acho que
+o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo
+da época, e na fidelidade dos caracteres.</p>
+
+<p>A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance.
+Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista
+e academico.<span class="pn">{192}</span></p>
+
+<p>Em todas estas espheras de acção firmou creditos
+inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca
+lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia.
+Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente
+tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto
+á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino,
+que prefere a etimologica, a achasse má; mas é
+tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava
+a sonica, a achasse boa.</p>
+
+<p>Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não
+com bilhete de <em>ida e volta</em>, como quem vae passar dois
+dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros
+que fazem a sua Jornada de Misericordia em
+Misericordia.</p>
+
+<p>Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade,
+mas por divertimento. A sua grande distracção
+era estudar, saber.</p>
+
+<p>E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu
+Julio Cesar Machado no <em>Claudio</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com
+que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores,
+referiu-se a muitas obras, metteu trechos de
+todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão,
+dois em grego. O <em>Martinho</em> exultou. O homem
+novo ia matar tudo.</p>
+
+<p>«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha
+não só mais talento que elle, mas outra qualidade de
+merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se
+com isso, como toda a gente se incommoda de
+ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes
+mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu
+trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta
+e o sentimento de um artista.</p>
+
+<p>«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade
+Corvo, <em>O Astrologo</em>.</p>
+
+<p>«&mdash;Ah! O Corvo é um homem superior, um homem<span class="pn">{193}</span>
+justamente respeitado pela valia dos seus meritos...
+Vou-me a elle.</p>
+
+<p>«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se
+um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo
+foi o ultimo a dar por isso.</p>
+
+<p>«De mais a mais, exactamente por essa occasião,
+João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros,
+lente da escola polytechnica, socio da academia
+real das sciencias, auctor do <em>Anno na côrte</em>, do <em>Alliciador</em>,
+do <em>Astrologo</em>, de <em>D. Maria Telles</em>, de <em>D. Gil</em>, de
+<em>Nem tudo que luz é oiro</em>, de grande numero de artigos
+publicados dos <em>Annaes das sciencias e lettras</em>, na <em>Epocha</em>,
+etc., estava todo entregue a uma curiosidade.</p>
+
+<p>«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas
+de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade
+Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica
+teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo
+d'elles.</p>
+
+<p>«&mdash;Não és capaz!</p>
+
+<p>«&mdash;Ora! Elle é lá capaz d'isso!</p>
+
+<p>«&mdash;Sou capaz até de estudar o curso completo.</p>
+
+<p>«Os dois olharam para elle, sorrindo.</p>
+
+<p>«&mdash;Vou matricular-me ámanhã.</p>
+
+<p>«Matriculou-se no dia immediato.</p>
+
+<p>«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia
+elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida,
+sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer
+dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um
+dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto
+no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia
+o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente,
+<em>á estudante</em>, trepava aquella calçada do Garcia
+e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo
+accelerado de um filho familias que estivesse exposto
+mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão
+de frequencia colhida com austeridade nos registros
+sisudos do livro de ponto.<span class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia
+do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que
+só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda
+não parou nem se fartou um instante.</p>
+
+<p>«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente
+da sciencia na politica, da politica na litteratura.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente
+as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros,
+e em que os debates parlamentares eram irritantes
+e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes,
+entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na
+Academia Real das Sciencias.</p>
+
+<p>Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que
+era conhecido pela designação de&mdash;<em>Gabinete do sr.
+Corvo.</em></p>
+
+<p>O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não
+podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter
+devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario.
+Como todo o bom gastronomo, gostava de variar.
+Por isso, ao mesmo tempo que redigia os <em>Estudos
+sobre as provincias ultramarinas</em>, escrevia os <em>Contos em
+viagem</em>. Só depois de regalado o paladar é que fazia
+despachos e discursos.</p>
+
+<p>Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse,
+lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar
+litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos
+uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para
+doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a
+Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem.
+Refiro-me á parte que lhe coube&mdash;estudos economicos
+e higienicos sobre os arrozaes&mdash;no relatorio
+official apresentado ao ministerio do reino, em 1860,
+por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida.
+Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do
+sr. Corvo occupa 200 paginas <em>in-folio</em>, foi desde logo<span class="pn">{195}</span>
+tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue
+um exemplar.</p>
+
+<p>Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos
+dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha
+o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida
+ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem
+outras tantas engrenagens do mecanismo social.
+Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito
+posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.</p>
+
+<p>Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e
+sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder
+duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que
+já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.</p>
+
+<p>Havia uma sessão em que se esperava a apresentação
+de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo
+sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia,
+tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem
+era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O
+continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o
+redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu
+gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão,
+disse-me com uma grande seriedade:</p>
+
+<p>&mdash;Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta,
+e que isso prende com o artigo 37.º do regimento.
+Ora eu não sei qual é a disposição respectiva.
+Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do
+regimento dispõe.</p>
+
+<p>Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.</p>
+
+<p>&mdash;É que eu não sei de cór&mdash;respondi&mdash;o que dispõe
+o artigo 37.º</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu, replicou o sr. Corvo.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso vamos vêr.</p>
+
+<p>E abri o <em>Regimento</em>, que estava sobre a banca do
+presidente.</p>
+
+<p>Li o artigo 37.º<span class="pn">{196}</span></p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que
+eu não queria era ter o trabalho de ler isso.</p>
+
+<p>E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me
+para o vão da janella:</p>
+
+<p>&mdash;Então como vamos de litteratura?</p>
+
+<p>Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas
+vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem
+a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que
+se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico
+ou n'um facto litterario.</p>
+
+<p>E todavia elle era um homem de tão superior estofa
+que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura
+na politica, a que dava menos apreço, assignalou
+indelevelmente a sua passagem por ella&mdash;como
+n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o
+progresso material das colonias.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p class="centrado">FIM</p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn">{197}</span></p>
+
+<h2>ERRATAS</h2>
+
+<p>Mencionamos como mais importantes as seguintes:</p>
+
+<p>Pag. 15, lin. 35&mdash;transmittiria a e ao rainha principe, leia-se:
+transmittiria á rainha e ao principe.</p>
+
+<p>Pag. 43, lin. 19&mdash;e das de Canities, leia-se: e das obras de
+Canities.</p>
+
+<p>Pag. 45, lin. 10&mdash;da fama, leia-se: da fauna.</p>
+
+<p>Pag. 45, lin. 20&mdash;Henri, leia se: Hipp.</p>
+
+<p>Pag. 63. lin. 5&mdash;a rodos, leia se: a rodo.</p>
+
+<p>Pag. 100, lin. 25&mdash;conservamos, leia-se: conservavamos.</p>
+
+<p>Pag. 102, lin. 10&mdash;elle fóra, leia-se: elle fôra.</p>
+
+<p>Pag. 119, lin. 14&mdash;ao folhetim, leia-se: do folhetim.</p>
+
+<p>Pag. 121, lin. 26&mdash;editr, leia se: editor.</p>
+
+<p><span class="pn">{198}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA ***
+
+***** This file should be named 33581-h.htm or 33581-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/3/5/8/33581/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>