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path: root/3333-h/3333-h.htm
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Diffstat (limited to '3333-h/3333-h.htm')
-rw-r--r--3333-h/3333-h.htm33659
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+++ b/3333-h/3333-h.htm
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+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1">
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+ <title>The Project Gutenberg eBook of Os Lus&iacute;adas, by Lu&iacute;s de Cam&otilde;es</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Os Lusíadas
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+Author: Luís Vaz de Camões
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+Release Date: February 4, 2007 [EBook #3333]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS ***
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+Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha
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+<br>
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+
+<h2>Lu&iacute;s Vaz de Cam&otilde;es</h2>
+
+
+<h1>Os Lus&iacute;adas</h1>
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+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Primeiro</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+As armas e os bar&otilde;es assinalados,<br>
+
+
+Que da ocidental praia Lusitana,<br>
+
+
+Por mares nunca de antes navegados,<br>
+
+
+Passaram ainda al&eacute;m da Taprobana,<br>
+
+
+Em perigos e guerras esfor&ccedil;ados,<br>
+
+
+Mais do que prometia a for&ccedil;a humana,<br>
+
+
+E entre gente remota edificaram<br>
+
+
+Novo Reino, que tanto sublimaram;<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+E tamb&eacute;m as mem&oacute;rias gloriosas<br>
+
+
+Daqueles Reis, que foram dilatando<br>
+
+
+A F&eacute;, o Imp&eacute;rio, e as terras viciosas<br>
+
+
+De &Aacute;frica e de &Aacute;sia andaram devastando;<br>
+
+
+E aqueles, que por obras valerosas<br>
+
+
+Se v&atilde;o da lei da morte libertando;<br>
+
+
+Cantando espalharei por toda parte,<br>
+
+
+Se a tanto me ajudar o engenho e arte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+Cessem do s&aacute;bio Grego e do Troiano<br>
+
+
+As navega&ccedil;&otilde;es grandes que fizeram;<br>
+
+
+Cale-se de Alexandro e de Trajano<br>
+
+
+A fama das vit&oacute;rias que tiveram;<br>
+
+
+Que eu canto o peito ilustre Lusitano,<br>
+
+
+A quem Neptuno e Marte obedeceram:<br>
+
+
+Cesse tudo o que a Musa ant&iacute;gua canta,<br>
+
+
+Que outro valor mais alto se alevanta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+E v&oacute;s, T&aacute;gides minhas, pois criado<br>
+
+
+Tendes em mim um novo engenho ardente,<br>
+
+
+Se sempre em verso humilde celebrado<br>
+
+
+Foi de mim vosso rio alegremente,<br>
+
+
+Dai-me agora um som alto e sublimado,<br>
+
+
+Um estilo grand&iacute;loquo e corrente,<br>
+
+
+Porque de vossas &aacute;guas, Febo ordene<br>
+
+
+Que n&atilde;o tenham inveja &agrave;s de Hipoerene.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Dai-me uma f&uacute;ria grande e sonorosa,<br>
+
+
+E n&atilde;o de agreste avena ou frauta ruda,<br>
+
+
+Mas de tuba canora e belicosa,<br>
+
+
+Que o peito acende e a cor ao gesto muda;<br>
+
+
+Dai-me igual canto aos feitos da famosa<br>
+
+
+Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;<br>
+
+
+Que se espalhe e se cante no universo,<br>
+
+
+Se t&atilde;o sublime pre&ccedil;o cabe em verso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+E v&oacute;s, &oacute; bem nascida seguran&ccedil;a<br>
+
+
+Da Lusitana ant&iacute;gua liberdade,<br>
+
+
+E n&atilde;o menos cert&iacute;ssima esperan&ccedil;a<br>
+
+
+De aumento da pequena Cristandade;<br>
+
+
+V&oacute;s, &oacute; novo temor da Maura lan&ccedil;a,<br>
+
+
+Maravilha fatal da nossa idade,<br>
+
+
+Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,<br>
+
+
+Para do mundo a Deus dar parte grande;<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+V&oacute;s, tenro e novo ramo florescente<br>
+
+
+De uma &aacute;rvore de Cristo mais amada<br>
+
+
+Que nenhuma nascida no Ocidente,<br>
+
+
+Ces&aacute;rea ou Cristian&iacute;ssima chamada;<br>
+
+
+(Vede-o no vosso escudo, que presente<br>
+
+
+Vos amostra a vit&oacute;ria j&aacute; passada,<br>
+
+
+Na qual vos deu por armas, e deixou<br>
+
+
+As que Ele para si na Cruz tomou)<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+V&oacute;s, poderoso Rei, cujo alto Imp&eacute;rio<br>
+
+
+O Sol, logo em nascendo, v&ecirc; primeiro;<br>
+
+
+V&ecirc;-o tamb&eacute;m no meio do Hemisf&eacute;rio,<br>
+
+
+E quando desce o deixa derradeiro;<br>
+
+
+V&oacute;s, que esperamos jugo e vitup&eacute;rio<br>
+
+
+Do torpe Ismaelita cavaleiro,<br>
+
+
+Do Turco oriental, e do Gentio,<br>
+
+
+Que inda bebe o licor do santo rio;<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+Inclinai por um pouco a majestade,<br>
+
+
+Que nesse tenro gesto vos contemplo,<br>
+
+
+Que j&aacute; se mostra qual na inteira idade,<br>
+
+
+Quando subindo ireis ao eterno templo;<br>
+
+
+Os olhos da real benignidade<br>
+
+
+Ponde no ch&atilde;o: vereis um novo exemplo<br>
+
+
+De amor dos p&aacute;trios feitos valerosos,<br>
+
+
+Em versos divulgado numerosos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+Vereis amor da p&aacute;tria, n&atilde;o movido<br>
+
+
+De pr&eacute;mio vil, mas alto e quase eterno:<br>
+
+
+Que n&atilde;o &eacute; pr&eacute;mio vil ser conhecido<br>
+
+
+Por um preg&atilde;o do ninho meu paterno.<br>
+
+
+Ouvi: vereis o nome engrandecido<br>
+
+
+Daqueles de quem sois senhor superno,<br>
+
+
+E julgareis qual &eacute; mais excelente,<br>
+
+
+Se ser do mundo Rei, se de til gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Ouvi, que n&atilde;o vereis com v&atilde;s fa&ccedil;anhas,<br>
+
+
+Fant&aacute;sticas, fingidas, mentirosas,<br>
+
+
+Louvar os vossos, como nas estranhas<br>
+
+
+Musas, de engrandecer-se desejosas:<br>
+
+
+As verdadeiras vossas s&atilde;o tamanhas,<br>
+
+
+Que excedem as sonhadas, fabulosas;<br>
+
+
+Que excedem Rodamonte, e o v&atilde;o Rugeiro,<br>
+
+
+E Orlando, inda que fora verdadeiro,<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+Por estes vos darei um Nuno fero,<br>
+
+
+Que fez ao Rei o ao Reino tal servi&ccedil;o,<br>
+
+
+Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero<br>
+
+
+A c&iacute;tara para eles s&oacute; cobi&ccedil;o.<br>
+
+
+Pois pelos doze Pares dar-vos quero<br>
+
+
+Os doze de Inglaterra, e o seu Magri&ccedil;o;<br>
+
+
+Dou-vos tamb&eacute;m aquele ilustre Gama,<br>
+
+
+Que para si de Eneias toma a fama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Pois se a troco de Carlos, Rei de Fran&ccedil;a,<br>
+
+
+Ou de C&eacute;sar, quereis igual mem&oacute;ria,<br>
+
+
+Vede o primeiro Afonso, cuja lan&ccedil;a<br>
+
+
+Escura faz qualquer estranha gl&oacute;ria;<br>
+
+
+E aquele que a seu Reino a seguran&ccedil;a<br>
+
+
+Deixou com a grande e pr&oacute;spera vit&oacute;ria;<br>
+
+
+Outro Joane, invicto cavaleiro,<br>
+
+
+O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Nem deixar&atilde;o meus versos esquecidos<br>
+
+
+Aqueles que nos Reinos l&aacute; da Aurora<br>
+
+
+Fizeram, s&oacute; por armas t&atilde;o subidos,<br>
+
+
+Vossa bandeira sempre vencedora:<br>
+
+
+Um Pacheco fort&iacute;ssimo, e os temidos<br>
+
+
+Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;<br>
+
+
+Albuquerque terr&iacute;bil, Castro forte,<br>
+
+
+E outros em quem poder n&atilde;o teve a morte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+E enquanto eu estes canto, e a v&oacute;s n&atilde;o posso,<br>
+
+
+Sublime Rei, que n&atilde;o me atrevo a tanto,<br>
+
+
+Tomai as r&eacute;deas v&oacute;s do Reino vosso:<br>
+
+
+Dareis mat&eacute;ria a nunca ouvido canto.<br>
+
+
+Comecem a sentir o peso grosso<br>
+
+
+(Que pelo mundo todo fa&ccedil;a espanto)<br>
+
+
+De ex&eacute;rcitos e feitos singulares,<br>
+
+
+De &Aacute;frica as terras, e do Oriente os mar&ccedil;os,<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+Em v&oacute;s os olhos tem o Mouro frio,<br>
+
+
+Em quem v&ecirc; seu ex&iacute;cio afigurado;<br>
+
+
+S&oacute; com vos ver o b&aacute;rbaro Gentio<br>
+
+
+Mostra o pesco&ccedil;o ao jugo j&aacute; inclinado;<br>
+
+
+Tethys todo o cer&uacute;leo senhorio<br>
+
+
+Tem para v&oacute;s por dote aparelhado;<br>
+
+
+Que afei&ccedil;oada ao gesto belo e tenro,<br>
+
+
+Deseja de comprar-vos para genro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+Em v&oacute;s se v&ecirc;m da ol&iacute;mpica morada<br>
+
+
+Dos dois av&oacute;s as almas c&aacute; famosas,<br>
+
+
+Uma na paz ang&eacute;lica dourada,<br>
+
+
+Outra pelas batalhas sanguinosas;<br>
+
+
+Em v&oacute;s esperam ver-se renovada<br>
+
+
+Sua mem&oacute;ria e obras valerosas;<br>
+
+
+E l&aacute; vos tem lugar, no fim da idade,<br>
+
+
+No templo da suprema Eternidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+Mas enquanto este tempo passa lento<br>
+
+
+De regerdes os povos, que o desejam,<br>
+
+
+Dai v&oacute;s favor ao novo atrevimento,<br>
+
+
+Para que estes meus versos vossos sejam;<br>
+
+
+E vereis ir cortando o salso argento<br>
+
+
+Os vossos Argonautas, por que vejam<br>
+
+
+Que s&atilde;o vistos de v&oacute;s no mar irado,<br>
+
+
+E costumai-vos j&aacute; a ser invocado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+J&aacute; no largo Oceano navegavam,<br>
+
+
+As inquietas ondas apartando;<br>
+
+
+Os ventos brandamente respiravam,<br>
+
+
+Das naus as velas c&ocirc;ncavas inchando;<br>
+
+
+Da branca escuma os mares se mostravam<br>
+
+
+Cobertos, onde as proas v&atilde;o cortando<br>
+
+
+As mar&iacute;timas &aacute;guas consagradas,<br>
+
+
+Que do gado de Pr&oacute;teo s&atilde;o cortadas<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+Quando os Deuses no Olimpo luminoso,<br>
+
+
+Onde o governo est&aacute; da humana gente,<br>
+
+
+Se ajuntam em conc&iacute;lio glorioso<br>
+
+
+Sobre as cousas futuras do Oriente.<br>
+
+
+Pisando o cristalino C&eacute;u formoso,<br>
+
+
+V&ecirc;m pela Via-L&aacute;ctea juntamente,<br>
+
+
+Convocados da parte do Tonante,<br>
+
+
+Pelo neto gentil do velho Atlante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+Deixam dos sete C&eacute;us o regimento,<br>
+
+
+Que do poder mais alto lhe foi dado,<br>
+
+
+Alto poder, que s&oacute; co'o pensamento<br>
+
+
+Governa o C&eacute;u, a Terra, e o Mar irado.<br>
+
+
+Ali se acharam juntos num momento<br>
+
+
+Os que habitam o Arcturo congelado,<br>
+
+
+E os que o Austro tem, e as partes onde<br>
+
+
+A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+Estava o Padre ali sublime e dino,<br>
+
+
+Que vibra os feros raios de Vulcano,<br>
+
+
+Num assento de estrelas cristalino,<br>
+
+
+Com gesto alto, severo e soberano.<br>
+
+
+Do rosto respirava um ar divino,<br>
+
+
+Que divino tornara um corpo humano;<br>
+
+
+Com uma coroa e ceptro rutilante,<br>
+
+
+De outra pedra mais clara que diamante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+Em luzentes assentos, marchetados<br>
+
+
+De ouro e de perlas, mais abaixo estavam<br>
+
+
+Os outros Deuses todos assentados,<br>
+
+
+Como a raz&atilde;o e a ordem concertavam:<br>
+
+
+Precedem os ant&iacute;guos mais honrados;<br>
+
+
+Mais abaixo os menores se assentavam;<br>
+
+
+Quando J&uacute;piter alto, assim dizendo,<br>
+
+
+C'um tom de voz come&ccedil;a, grave e horrendo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"Eternos moradores do luzente<br>
+
+
+Estel&iacute;fero p&oacute;lo, e claro assento,<br>
+
+
+Se do grande valor da forte gente<br>
+
+
+De Luso n&atilde;o perdeis o pensamento,<br>
+
+
+Deveis de ter sabido claramente,<br>
+
+
+Como &eacute; dos fados grandes certo intento,<br>
+
+
+Que por ela se esque&ccedil;am os humanos<br>
+
+
+De Ass&iacute;rios, Persas, Gregos e Romanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"J&aacute; lhe foi (bem o vistes) concedido<br>
+
+
+C'um poder t&atilde;o singelo e t&atilde;o pequeno,<br>
+
+
+Tomar ao Mouro forte e guarnecido<br>
+
+
+Toda a terra, que rega o Tejo ameno:<br>
+
+
+Pois contra o Castelhano t&atilde;o temido,<br>
+
+
+Sempre alcan&ccedil;ou favor do C&eacute;u sereno.<br>
+
+
+Assim que sempre, enfim, com fama e gl&oacute;ria,<br>
+
+
+Teve os trof&eacute;us pendentes da vit&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"Deixo, Deuses, atr&aacute;s a fama antiga,<br>
+
+
+Que coa gente de R&oacute;mulo alcan&ccedil;aram,<br>
+
+
+Quando com Viriato, na inimiga<br>
+
+
+Guerra romana tanto se afamaram;<br>
+
+
+Tamb&eacute;m deixo a mem&oacute;ria, que os obriga<br>
+
+
+A grande nome, quando alevantaram<br>
+
+
+Um por seu capit&atilde;o, que peregrino<br>
+
+
+Fingiu na cerva esp&iacute;rito divino.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"Agora vedes bem que, cometendo<br>
+
+
+O duvidoso mar num lenho leve,<br>
+
+
+Por vias nunca usadas, n&atilde;o temendo<br>
+
+
+De &Aacute;f rico e Noto a for&ccedil;a, a mais se atreve:<br>
+
+
+Que havendo tanto j&aacute; que as partes vendo<br>
+
+
+Onde o dia &eacute; comprido e onde breve,<br>
+
+
+Inclinam seu prop&oacute;sito e porfia<br>
+
+
+A ver os ber&ccedil;os onde nasce o dia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Prometido lhe est&aacute; do Fado eterno,<br>
+
+
+Cuja alta Lei n&atilde;o pode ser quebrada,<br>
+
+
+Que tenham longos tempos o governo<br>
+
+
+Do mar, que v&ecirc; do Sol a roxa entrada.<br>
+
+
+Nas &aacute;guas t&ecirc;m passado o duro inverno;<br>
+
+
+A gente vem perdida e trabalhada;<br>
+
+
+J&aacute; parece bem feito que lhe seja<br>
+
+
+Mostrada a nova terra, que deseja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"E porque, como vistes, t&ecirc;m passados<br>
+
+
+Na viagem t&atilde;o &aacute;speros perigos,<br>
+
+
+Tantos climas e c&eacute;us experimentados,<br>
+
+
+Tanto furor de ventos inimigos,<br>
+
+
+Que sejam, determino, agasalhados<br>
+
+
+Nesta costa africana, como amigos.<br>
+
+
+E tendo guarnecida a lassa frota,<br>
+
+
+Tornar&atilde;o a seguir sua longa rota."<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+Estas palavras J&uacute;piter dizia,<br>
+
+
+Quando os Deuses por ordem respondendo,<br>
+
+
+Na senten&ccedil;a um do outro diferia,<br>
+
+
+Raz&otilde;es diversas dando e recebendo.<br>
+
+
+O padre Baco ali n&atilde;o consentia<br>
+
+
+No que J&uacute;piter disse, conhecendo<br>
+
+
+Que esquecer&atilde;o seus feitos no Oriente,<br>
+
+
+Se l&aacute; passar a Lusitana gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+Ouvido tinha aos Fados que viria<br>
+
+
+Uma gente fort&iacute;ssima de Espanha<br>
+
+
+Pelo mar alto, a qual sujeitaria<br>
+
+
+Da &iacute;ndia tudo quanto D&oacute;ris banha,<br>
+
+
+E com novas vit&oacute;rias venceria<br>
+
+
+A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.<br>
+
+
+Altamente lhe d&oacute;i perder a gl&oacute;ria,<br>
+
+
+De que Nisa celebra inda a mem&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+V&ecirc; que j&aacute; teve o Indo sojugado,<br>
+
+
+E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,<br>
+
+
+Por vencedor da &Iacute;ndia ser cantado<br>
+
+
+De quantos bebem a &aacute;gua de Parnaso.<br>
+
+
+Teme agora que seja sepultado<br>
+
+
+Seu t&atilde;o c&eacute;lebre nome em negro vaso<br>
+
+
+D'&aacute;gua do esquecimento, se l&aacute; chegam<br>
+
+
+Os fortes Portugueses, que navegam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+Sustentava contra ele V&eacute;nus bela,<br>
+
+
+Afei&ccedil;oada &agrave; gente Lusitana,<br>
+
+
+Por quantas qualidades via nela<br>
+
+
+Da antiga t&atilde;o amada sua Romana;<br>
+
+
+Nos fortes cora&ccedil;&otilde;es, na grande estrela,<br>
+
+
+Que mostraram na terra Tingitana,<br>
+
+
+E na l&iacute;ngua, na qual quando imagina,<br>
+
+
+Com pouca corrup&ccedil;&atilde;o cr&ecirc; que
+&eacute; a Latina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+Estas causas moviam Citereia,<br>
+
+
+E mais, porque das Parcas claro entende<br>
+
+
+Que h&aacute; de ser celebrada a clara Deia,<br>
+
+
+Onde a gente bel&iacute;gera se estende.<br>
+
+
+Assim que, um pela inf&acirc;mia, que arreceia,<br>
+
+
+E o outro pelas honras, que pretende,<br>
+
+
+Debatem, e na porfia permanecem;<br>
+
+
+A qualquer seus amigos favorecem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+Qual Austro fero, ou B&oacute;reas na espessura<br>
+
+
+De silvestre arvoredo abastecida,<br>
+
+
+Rompendo os ramos v&atilde;o da mata escura,<br>
+
+
+Com &iacute;mpeto e braveza desmedida;<br>
+
+
+Brama toda a montanha, o som murmura,<br>
+
+
+Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:<br>
+
+
+Tal andava o tumulto levantado,<br>
+
+
+Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+Mas Marte, que da Deusa sustentava<br>
+
+
+Entre todos as partes em porfia,<br>
+
+
+Ou porque o amor antigo o obrigava,<br>
+
+
+Ou porque a gente forte o merecia,<br>
+
+
+De entre os Deuses em p&eacute; se levantava:<br>
+
+
+Merenc&oacute;rio no gesto parecia;<br>
+
+
+O forte escudo ao colo pendurado<br>
+
+
+Deitando para tr&aacute;s, medonho e irado,<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+A viseira do elmo de diamante<br>
+
+
+Alevantando um pouco, mui seguro,<br>
+
+
+Por dar seu parecer, se p&ocirc;s diante<br>
+
+
+De J&uacute;piter, armado, forte e duro:<br>
+
+
+E dando uma pancada penetrante,<br>
+
+
+Com o conto do bast&atilde;o no s&oacute;lio puro,<br>
+
+
+O C&eacute;u tremeu, e Apolo, de torvado,<br>
+
+
+Um pouco a luz perdeu, como enfiado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+E disse assim: "&Oacute; Padre, a cujo imp&eacute;rio<br>
+
+
+Tudo aquilo obedece, que criaste,<br>
+
+
+Se esta gente, que busca outro hemisf&eacute;rio,<br>
+
+
+Cuja valia, e obras tanto amaste,<br>
+
+
+N&atilde;o queres que pade&ccedil;am vitup&eacute;rio,<br>
+
+
+Como h&aacute; j&aacute; tanto tempo que ordenaste,<br>
+
+
+N&atilde;o on&ccedil;as mais, pois &eacute;s juiz direito,<br>
+
+
+Raz&otilde;es de quem parece que &eacute; suspeito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Que, se aqui a raz&atilde;o se n&atilde;o mostrasse<br>
+
+
+Vencida do temor demasiado,<br>
+
+
+Bem fora que aqui Baco os sustentasse,<br>
+
+
+Pois que de Luso vem, seu t&atilde;o privado;<br>
+
+
+Mas esta ten&ccedil;&atilde;o sua agora passe,<br>
+
+
+Porque enfim vem de est&acirc;mago danado;<br>
+
+
+Que nunca tirar&aacute; alheia inveja<br>
+
+
+O bem, que outrem merece, e o C&eacute;u deseja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"E tu, Padre de grande fortaleza,<br>
+
+
+Da determina&ccedil;&atilde;o, que tens tomada,<br>
+
+
+N&atilde;o tornes por detr&aacute;s, pois &eacute; fraqueza<br>
+
+
+Desistir-se da cousa come&ccedil;ada.<br>
+
+
+Merc&uacute;rio, pois excede em ligeireza<br>
+
+
+Ao vento leve, e &agrave; seta bem talhada,<br>
+
+
+Lhe v&aacute; mostrar a terra, onde se informe<br>
+
+
+Da &iacute;ndia, e onde a gente se reforme."<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+Como isto disse, o Padre poderoso,<br>
+
+
+A cabe&ccedil;a inclinando, consentiu<br>
+
+
+No que disse Mavorte valeroso,<br>
+
+
+E n&eacute;ctar sobre todos esparziu.<br>
+
+
+Pelo caminho L&aacute;cteo glorioso<br>
+
+
+Logo cada um dos Deuses se partiu,<br>
+
+
+Fazendo seus reais acatamentos,<br>
+
+
+Para os determinados aposentos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+Enquanto isto se passa na formosa<br>
+
+
+Casa et&eacute;rea do Olimpo onipotente,<br>
+
+
+Cortava o mar a gente belicosa,<br>
+
+
+J&aacute; l&aacute; da banda do Austro e do Oriente,<br>
+
+
+Entre a costa Eti&oacute;pica e a famosa<br>
+
+
+Ilha de S&atilde;o Louren&ccedil;o; e o Sol ardente<br>
+
+
+Queimava ent&atilde;o os Deuses, que Tifeu<br>
+
+
+Com o temor grande em peixes converteu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+T&atilde;o brandamente os ventos os levavam,<br>
+
+
+Como quem o c&eacute;u tinha por amigo:<br>
+
+
+Sereno o ar, e os tempos se mostravam<br>
+
+
+Sem nuvens, sem receio de perigo.<br>
+
+
+O promont&oacute;rio Prasso j&aacute; passavam,<br>
+
+
+Na costa de Eti&oacute;pia, nome antigo,<br>
+
+
+Quando o mar descobrindo lhe mostrava<br>
+
+
+Novas ilhas, que em torno cerca e lava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+Vasco da Gama, o forte capit&atilde;o,<br>
+
+
+Que a tamanhas empresas se oferece,<br>
+
+
+De soberbo e de altivo cora&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+A quem Fortuna sempre favorece,<br>
+
+
+Para se aqui deter n&atilde;o v&ecirc; raz&atilde;o,<br>
+
+
+Que inabitada a terra lhe parece:<br>
+
+
+Por diante passar determinava;<br>
+
+
+Mas n&atilde;o lhe sucedeu como cuidava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+Eis aparecem logo em companhia<br>
+
+
+Uns pequenos bat&eacute;is, que v&ecirc;m daquela<br>
+
+
+Que mais chegada &agrave; terra parecia,<br>
+
+
+Cortando o longo mar com larga vela.<br>
+
+
+A gente se alvoro&ccedil;a, e de alegria<br>
+
+
+N&atilde;o sabe mais que olhar a causa dela.<br>
+
+
+Que gente ser&aacute; esta, em si diziam,<br>
+
+
+Que costumes, que Lei, que Rei teriam?<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+As embarca&ccedil;&otilde;es eram, na maneira,<br>
+
+
+Mui veloces, estreitas e compridas:<br>
+
+
+As velas, com que, v&ecirc;m, eram de esteira<br>
+
+
+Dumas folhas de palma, bem tecidas;<br>
+
+
+A gente da cor era verdadeira,<br>
+
+
+Que Faeton, nas terras acendidas,<br>
+
+
+Ao mundo deu, de ousado, o n&atilde;o prudente:<br>
+
+
+O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+De panos de algod&atilde;o vinham vestidos,<br>
+
+
+De v&aacute;rias cores, brancos e listrados:<br>
+
+
+Uns trazem derredor de si cingidos,<br>
+
+
+Outros em modo airoso sobra&ccedil;ados:<br>
+
+
+Da cinta para cima v&ecirc;m despidos;<br>
+
+
+Por armas t&ecirc;m adargas o ter&ccedil;ados;<br>
+
+
+Com toucas na cabe&ccedil;a; e navegando,<br>
+
+
+Anafis sonoros v&atilde;o tocando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+Co'os panos e co'os bra&ccedil;os acenavam<br>
+
+
+As gentes Lusitanas, que esperassem;<br>
+
+
+Mas j&aacute; as proas ligeiras se inclinavam<br>
+
+
+Para que junto &agrave;s ilhas amainassem.<br>
+
+
+A gente e marinheiros trabalhavam,<br>
+
+
+Como se aqui os trabalhos se acabassem;<br>
+
+
+Tomam velas; amaina-se a verga alta;<br>
+
+
+Da &acirc;ncora, o mar ferido, em cima salta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+N&atilde;o eram ancorados, quando a gente<br>
+
+
+Estranha pelas cordas j&aacute; subia.<br>
+
+
+No gesto ledos v&ecirc;m, e humanamente<br>
+
+
+O Capit&atilde;o sublime os recebia:<br>
+
+
+As mesas manda p&ocirc;r em continente;<br>
+
+
+Do licor que Lieo prantado havia<br>
+
+
+Enchem vasos de vidro, e do que deitam,<br>
+
+
+Os de Faeton queimados nada enjeitam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+Comendo alegremente perguntavam,<br>
+
+
+Pela Ar&aacute;bica l&iacute;ngua, donde vinham,<br>
+
+
+Quem eram, de que terra, que buscavam,<br>
+
+
+Ou que partes do mar corrido tinham?<br>
+
+
+Os fortes Lusitanos lhe tornavam<br>
+
+
+As discretas respostas, que convinham:<br>
+
+
+"Os Portugueses somos do Ocidente,<br>
+
+
+Imos buscando as terras do Oriente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"Do mar temos corrido e navegado<br>
+
+
+Toda a parte do Ant&aacute;rtico e Calisto,<br>
+
+
+Toda a costa Africana rodeado,<br>
+
+
+Diversos c&eacute;us e terras temos visto;<br>
+
+
+Dum Rei potente somos, t&atilde;o amado,<br>
+
+
+T&atilde;o querido de todos, e benquisto,<br>
+
+
+Que n&atilde;o no largo mar, com leda fronte,<br>
+
+
+Mas no lago entraremos de Aqueronte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"E por mandado seu, buscando andamos<br>
+
+
+A terra Oriental que o Indo rega;<br>
+
+
+Por ele, o mar remoto navegamos,<br>
+
+
+Que s&oacute; dos feios focas se navega.<br>
+
+
+Mas j&aacute; raz&atilde;o parece que saibamos,<br>
+
+
+Se entre v&oacute;s a verdade n&atilde;o se nega,<br>
+
+
+Quem sois, que terra &eacute; esta que habitais,<br>
+
+
+Ou se tendes da &Iacute;ndia alguns sinais?"<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,<br>
+
+
+Estrangeiros na terra, Lei e na&ccedil;&atilde;o;<br>
+
+
+Que os pr&oacute;prios s&atilde;o aqueles, que criou<br>
+
+
+A natura sem Lei e sem raz&atilde;o.<br>
+
+
+N&oacute;s temos a Lei certa, que ensinou<br>
+
+
+O claro descendente de Abra&atilde;o<br>
+
+
+Que agora tem do mundo o senhorio,<br>
+
+
+A m&atilde;e Hebr&eacute;ia teve, e o pai Gentio.<br>
+
+
+Informa&ccedil;&otilde;es. A Ilha de Mo&ccedil;ambique.<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+"Esta ilha pequena, que habitamos,<br>
+
+
+em toda esta terra certa escala<br>
+
+
+De todos os que as ondas navegamos<br>
+
+
+De Qu&iacute;loa, de Momba&ccedil;a e de Sofala;<br>
+
+
+E, por ser necess&aacute;ria, procuramos,<br>
+
+
+Como pr&oacute;prios da terra, de habit&aacute;-la;<br>
+
+
+E por que tudo enfim vos notifique,<br>
+
+
+Chama-se a pequena ilha Mo&ccedil;ambique.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+"E j&aacute; que de t&atilde;o longe navegais,<br>
+
+
+Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,<br>
+
+
+Piloto aqui tereis, por quem sejais<br>
+
+
+Guiados pelas ondas sabiamente.<br>
+
+
+Tamb&eacute;m ser&aacute; bem feito que tenhais<br>
+
+
+Da terra algum refresco, e que o Regente<br>
+
+
+Que esta terra governa, que vos veja,<br>
+
+
+E do mais necess&aacute;rio vos proveja."<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+Isto dizendo, o Mouro se tornou<br>
+
+
+A seus bat&eacute;is com toda a companhia;<br>
+
+
+Do Capit&atilde;o e gente se apartou<br>
+
+
+Com mostras de devida cortesia.<br>
+
+
+Nisto Febo nas &aacute;guas encerrou,<br>
+
+
+Co'o carro de cristal, o claro dia,<br>
+
+
+Dando cargo &agrave; irm&atilde;, que alumiasse<br>
+
+
+O largo mundo, enquanto repousasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+A noite se passou na lassa frota<br>
+
+
+Com estranha alegria, e n&atilde;o cuidada,<br>
+
+
+Por acharem da terra t&atilde;o remota<br>
+
+
+Nova de tanto tempo desejada.<br>
+
+
+Qualquer ent&atilde;o consigo cuida e nota<br>
+
+
+Na gente e na maneira desusada,<br>
+
+
+E como os que na errada Seita creram,<br>
+
+
+Tanto por todo o mundo se estenderam,<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+Da Lua os claros raios rutilavam<br>
+
+
+Pelas arg&ecirc;nteas ondas Neptuninas,<br>
+
+
+As estrelas os C&eacute;us acompanhavam,<br>
+
+
+Qual campo revestido de boninas;<br>
+
+
+Os furiosos ventos repousavam<br>
+
+
+Pelas covas escuras peregrinas;<br>
+
+
+Por&eacute;m da armada a gente vigiava,<br>
+
+
+Como por longo tempo costumava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+Mas assim como a Aurora marchetada<br>
+
+
+Os formosos cabelos espalhou<br>
+
+
+No C&eacute;u sereno, abrindo a roxa entrada<br>
+
+
+Ao claro Hiperi&oacute;nio, que acordou,<br>
+
+
+Come&ccedil;a a embandeirar-se toda a armada,<br>
+
+
+E de toldos alegres se adornou,<br>
+
+
+Por receber com festas e alegria<br>
+
+
+O Regedor das ilhas, que partia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+Partia alegremente navegando,<br>
+
+
+A ver as naus ligeiras Lusitanas,<br>
+
+
+Com refresco da terra, em si cuidando<br>
+
+
+Que s&atilde;o aquelas gentes inumanas,<br>
+
+
+Que, os aposentos c&aacute;spios habitando,<br>
+
+
+A conquistar as terras Asianas<br>
+
+
+Vieram; e por ordem do Destino,<br>
+
+
+O Imp&eacute;rio tomaram a Constantino.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+Recebe o Capit&atilde;o alegremente<br>
+
+
+O Mouro, e toda a sua companhia;<br>
+
+
+D&aacute;-lhe de ricas pe&ccedil;as um presente,<br>
+
+
+Que s&oacute; para este efeito j&aacute; trazia;<br>
+
+
+D&aacute;-lhe conserva doce, e d&aacute;-lhe o ardente<br>
+
+
+N&atilde;o usado licor, que d&aacute; alegria.<br>
+
+
+Tudo o Mouro contente bem recebe;<br>
+
+
+E muito mais contente come e bebe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+Est&aacute; a gente mar&iacute;tima de Luso<br>
+
+
+Subida pela enx&aacute;rcia, de admirada,<br>
+
+
+Notando o estrangeiro modo e uso,<br>
+
+
+E a linguagem t&atilde;o b&aacute;rbara e enleada.<br>
+
+
+Tamb&eacute;m o Mouro astuto est&aacute; confuso,<br>
+
+
+Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;<br>
+
+
+E perguntando tudo, lhe dizia<br>
+
+
+"Se por ventura vinham de Turquia?"<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+E mais lhe diz tamb&eacute;m, que ver deseja<br>
+
+
+Os livros de sua Lei, preceito eu f&eacute;,<br>
+
+
+Para ver se conforme &agrave; sua seja,<br>
+
+
+Ou se s&atilde;o dos de Cristo, como Cr&ecirc;.<br>
+
+
+E porque tudo note e tudo veja,<br>
+
+
+Ao Capit&atilde;o pedia que lhe d&ecirc;<br>
+
+
+Mostra das fortes armas de que usavam,<br>
+
+
+Quando co'os inimigos pelejavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+Responde o valeroso Capit&atilde;o<br>
+
+
+Por um, que a l&iacute;ngua escura bem sabia:<br>
+
+
+"Dar-te-ei, Senhor ilustre, rela&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+De mim, da Lei, das armas que trazia.<br>
+
+
+Nem sou da terra, nem da gera&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Das gentes enojosas de Turquia:<br>
+
+
+Mas sou da forte Europa belicosa,<br>
+
+
+Busco as terras da &iacute;ndia t&atilde;o famosa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+A lei tenho daquele, a cujo imp&eacute;rio<br>
+
+
+Obedece o vis&iacute;bil e &iacute;nvis&iacute;bil<br>
+
+
+Aquele que criou todo o Hemisf&eacute;rio,<br>
+
+
+Tudo o que sente, o todo o insens&iacute;bil;<br>
+
+
+Que padeceu desonra e vitup&eacute;rio,<br>
+
+
+Sofrendo morte injusta e insofr&iacute;bil,<br>
+
+
+E que do C&eacute;u &agrave; Terra, enfim desceu,<br>
+
+
+Por subir os mortais da Terra ao C&eacute;u.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+Deste Deus-Homem, alto e infinito,<br>
+
+
+Os livros, que tu pedes n&atilde;o trazia,<br>
+
+
+Que bem posso escusar trazer escrito<br>
+
+
+Em papel o que na alma andar devia.<br>
+
+
+Se as armas queres ver, como tens dito,<br>
+
+
+Cumprido esse desejo te seria;<br>
+
+
+Como amigo as ver&aacute;s; porque eu me obrigo,<br>
+
+
+Que nunca as queiras ver como inimigo."<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+Isto dizendo, manda os diligentes<br>
+
+
+Ministros amostrar as armaduras:<br>
+
+
+V&ecirc;m arneses, e peitos reluzentes,<br>
+
+
+Malhas finas, e l&acirc;minas seguras,<br>
+
+
+Escudos de pinturas diferentes,<br>
+
+
+Pelouros, espingardas de a&ccedil;o puras,<br>
+
+
+Arcos, e sagit&iacute;feras aljavas,<br>
+
+
+Partazanas agudas, chu&ccedil;as bravas:<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+As bombas v&ecirc;m de fogo, e juntamente<br>
+
+
+As panelas sulf&uacute;reas, t&atilde;o danosas;<br>
+
+
+Por&eacute;m aos de Vulcano n&atilde;o consente<br>
+
+
+Que d&ecirc;em fogo &agrave;s bombardas temerosas;<br>
+
+
+Porque o generoso &acirc;nimo e valente,<br>
+
+
+Entre gentes t&atilde;o poucas e medrosas,<br>
+
+
+N&atilde;o mostra quanto pode, e com raz&atilde;o,<br>
+
+
+Que &eacute; fraqueza entre ovelhas ser le&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+Por&eacute;m disto, que o Mouro aqui notou,<br>
+
+
+E de tudo o que viu com olho atento<br>
+
+
+Um &oacute;dio certo na alma lhe ficou,<br>
+
+
+Uma vontade m&aacute; de pensamento.<br>
+
+
+Nas mostras e no gesto o n&atilde;o mostrou;<br>
+
+
+Mas com risonho e ledo fingimento<br>
+
+
+Trat&aacute;-los brandamente determina,<br>
+
+
+At&eacute; que mostrar possa o que imagina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+Pilotos lhe pedia o Capit&atilde;o,<br>
+
+
+Por quem pudesse &agrave; &Iacute;ndia ser levado;<br>
+
+
+Diz-lhe que o largo pr&eacute;mio levar&atilde;o<br>
+
+
+Do trabalho que nisso for tomado.<br>
+
+
+Promete-lhos o Mouro, com ten&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+De peito venenoso, e t&atilde;o danado,<br>
+
+
+Que a morte, se pudesse, neste dia,<br>
+
+
+Em lugar de pilotos lhe daria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+Tamanho o &oacute;dio foi, e a m&aacute; vontade,<br>
+
+
+Que aos estrangeiros s&uacute;bito tomou,<br>
+
+
+Sabendo ser sequazes da verdade,<br>
+
+
+Que o Filho de David nos ensinou.<br>
+
+
+&oacute; segredos daquela Eternidade,<br>
+
+
+A quem ju&iacute;zo algum nunca alcan&ccedil;ou!<br>
+
+
+Que nunca falte um p&eacute;rfido inimigo<br>
+
+
+Aqueles de quem foste tanto amigo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+Partiu-se Disto enfim coa companhia,<br>
+
+
+Das naus o falso Mouro despedido,<br>
+
+
+Com enganosa e grande cortesia,<br>
+
+
+Com gesto ledo a todos, e fingido.<br>
+
+
+Cortaram os bat&eacute;is a curta via<br>
+
+
+Das &aacute;guas de Neptuno, e recebido<br>
+
+
+Na terra do obsequente ajuntamento<br>
+
+
+Se foi o Mouro ao c&oacute;gnito aposento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+Do claro assento et&oacute;reo o gr&atilde;o Tebano,<br>
+
+
+Que da paternal coxa foi nascido,<br>
+
+
+Olhando o ajuntamento Lusitano<br>
+
+
+Ao Mouro ser molesto e avorrecido,<br>
+
+
+No pensamento cuida um falso engano,<br>
+
+
+Com que seja de todo destru&iacute;do.<br>
+
+
+E enquanto isto s&oacute; na alma imaginava,<br>
+
+
+Consigo estas palavras praticava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+"Est&aacute; do fado j&aacute; determinado,<br>
+
+
+Que tamanhas vit&oacute;rias, t&atilde;o famosas,<br>
+
+
+Hajam os Portugueses alcan&ccedil;ado<br>
+
+
+Das Indianas gentes belicosas.<br>
+
+
+E eu s&oacute;, filho do Padre sublimado,<br>
+
+
+Com tantas qualidades generosas,<br>
+
+
+Hei de sofrer que o fado favore&ccedil;a<br>
+
+
+Outrem, por quem meu nome se escure&ccedil;a?<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+"J&aacute; quiseram os Deuses que tivesse<br>
+
+
+O filho de Filipo nesta parte<br>
+
+
+Tanto poder, que tudo submetesse<br>
+
+
+Debaixo de seu jugo o fero Marte.<br>
+
+
+Mas h&aacute;-se de sofrer que o fado desse<br>
+
+
+A t&atilde;o poucos tamanho esfor&ccedil;o e arte,<br>
+
+
+Que eu co'o gr&atilde;o Maced&oacute;nio, e o Romano,<br>
+
+
+Demos lugar ao nome Lusitano?<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+"N&atilde;o ser&aacute; assim, porque antes que chegado<br>
+
+
+Seja este Capit&atilde;o, astutamente<br>
+
+
+Lhe ser&aacute; tanto engano fabricados<br>
+
+
+Que nunca veja as partes do Oriente.<br>
+
+
+Eu descerei &agrave; Terra, e o indignado<br>
+
+
+Peito revolverei da Maura gente;<br>
+
+
+Porque sempre por via ir&aacute; direita<br>
+
+
+Quem do oportuno tempo se aproveita."<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+Isto dizendo, irado e quase insano,<br>
+
+
+Sobre a terra africana descendeu,<br>
+
+
+Onde vestindo a forma e gesto humano,<br>
+
+
+Para o Prasso sabido se moveu.<br>
+
+
+E por melhor tecer o astuto engano,<br>
+
+
+No gesto natural se converteu<br>
+
+
+Dum Mouro, em Mo&ccedil;ambique conhecido<br>
+
+
+Velho, s&aacute;bio, e co'o Xeque mui valido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas<br>
+
+
+A sua falsidade acomodadas,<br>
+
+
+Lhe diz como eram gentes roubadoras,<br>
+
+
+Estas que ora de novo s&atilde;o chegadas;<br>
+
+
+Que das na&ccedil;&otilde;es na costa moradoras<br>
+
+
+Correndo a fama veio que roubadas<br>
+
+
+Foram por estes homens que passavam,<br>
+
+
+Que com pactos de paz sempre ancoravam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+E sabe mais, lhe diz, como entendido<br>
+
+
+Tenho destes crist&atilde;os sanguinolentos,<br>
+
+
+Que quase todo o mar t&ecirc;m destru&iacute;do<br>
+
+
+Com roubos, com inc&ecirc;ndios violentos;<br>
+
+
+E trazem j&aacute; de longe engano urdido<br>
+
+
+Contra n&oacute;s; e que todos seus intentos<br>
+
+
+S&atilde;o para nos matarem e roubarem,<br>
+
+
+E mulheres e filhos cativarem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"E tamb&eacute;m sei que tem determinado<br>
+
+
+De vir por &aacute;gua a terra muito cedo<br>
+
+
+O Capit&atilde;o dos seus acompanhado,<br>
+
+
+Que da tens&atilde;o danada nasce o medo.<br>
+
+
+Tu deves de ir tamb&eacute;m co'os teus armado<br>
+
+
+Esper&aacute;-lo em cilada, oculto e quedo;<br>
+
+
+Porque, saindo a gente descuidada,<br>
+
+
+Cair&atilde;o facilmente na cilada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"E se inda n&atilde;o ficarem deste jeito<br>
+
+
+Destru&iacute;dos, ou mortos totalmente<br>
+
+
+Eu tenho imaginado no conceito<br>
+
+
+Outra manha e ardil, que te contente:<br>
+
+
+Manda-lhe dar piloto, que de jeito<br>
+
+
+Seja astuto no engano, e t&atilde;o prudente,<br>
+
+
+Que os leve aonde sejam destru&iacute;dos,<br>
+
+
+Desbaratados, mortos, ou perdidos."<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+Tanto que estas palavras acabou,<br>
+
+
+O Mouro, nos tais casos s&aacute;bio e velho,<br>
+
+
+Os bra&ccedil;os pelo colo lhe lan&ccedil;ou,<br>
+
+
+Agradecendo muito o tal conselho;<br>
+
+
+E logo nesse instante concertou<br>
+
+
+Para a guerra o bel&iacute;gero aparelho,<br>
+
+
+Para que ao Portugu&ecirc;s se lhe tornasse<br>
+
+
+Em roxo sangue a &aacute;gua, que buscasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+E busca mais, para o cuidado engano,<br>
+
+
+Mouro, que por piloto &agrave; nau lhe mande,<br>
+
+
+Sagaz, astuto, e s&aacute;bio em todo o dano,<br>
+
+
+De quem fiar-se possa um feito grande.<br>
+
+
+Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,<br>
+
+
+Por tais costas e mares com ele ande,<br>
+
+
+Que, se daqui escapar, que l&aacute; diante<br>
+
+
+V&aacute; cair onde nunca se alevante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+J&aacute; o raio Apol&iacute;neo visitava<br>
+
+
+Os montes Nabat&ecirc;os acendido,<br>
+
+
+Quando o Gama, colos seus determinava<br>
+
+
+De vir por &aacute;gua a terra apercebido.<br>
+
+
+A gente nos bat&eacute;is se concertava,<br>
+
+
+Como se fosse o engano j&aacute; sabido:<br>
+
+
+Mas pode suspeitar-se facilmente,<br>
+
+
+Que o cora&ccedil;&atilde;o pressago nunca mente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+E mais tamb&eacute;m mandado tinha a terra,<br>
+
+
+De antes, pelo piloto necess&aacute;rio,<br>
+
+
+E foi-lhe respondido em som de guerra,<br>
+
+
+Caso do que cuidava mui contr&aacute;rio;<br>
+
+
+Por isto, e porque sabe quanto erra<br>
+
+
+Quem se cr&ecirc; de seu p&eacute;rfido advers&aacute;rio,<br>
+
+
+Apercebido vai como podia,<br>
+
+
+Em tr&ecirc;s bat&eacute;is somente que trazia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+Mas os Mouros que andavam pela praia,<br>
+
+
+Por lhe defender a &aacute;gua desejada,<br>
+
+
+Um de escudo embra&ccedil;ado e de azagaia,<br>
+
+
+Outro de arco encurvado e seta ervada,<br>
+
+
+Esperam que a guerreira gente saia,<br>
+
+
+Outros muitos j&aacute; postos em cilada.<br>
+
+
+E, porque o caso leve se lhe fa&ccedil;a,<br>
+
+
+P&otilde;em uns poucos diante por nega&ccedil;a,<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+Andam pela ribeira alva, arenosa,<br>
+
+
+Os belicosos Mouros acenando<br>
+
+
+Com a adarga e co'a h&aacute;stia perigosa,<br>
+
+
+Os fortes Portugueses incitando.<br>
+
+
+N&atilde;o sofre muito a gente generosa<br>
+
+
+Andar-lhe os c&atilde;es os dentes amostrando.<br>
+
+
+Qualquer em terra salta t&atilde;o ligeiro,<br>
+
+
+Que nenhum dizer pode que &eacute; primeiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+Qual no corro sanguino o ledo amante,<br>
+
+
+Vendo a formosa dama desejada,<br>
+
+
+O touro busca, e pondo-se diante,<br>
+
+
+Salta, corre, sibila, acena, e brada,<br>
+
+
+Mas o animal atroce, nesse instante,<br>
+
+
+Com a fronte corn&iacute;gera inclinada,<br>
+
+
+Bramando duro corre, e os olhos cerra,<br>
+
+
+Derriba, fere e mata, e p&otilde;e por terra:<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+Eis nos bat&eacute;is o fogo se levanta<br>
+
+
+Na furiosa e dura artilharia,<br>
+
+
+A pl&uacute;mbea p&eacute;la mata, o brado espanta,<br>
+
+
+Ferido o ar retumba e assovia:<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o dos Mouros se quebranta,<br>
+
+
+O temor grande o sangue lhe resfria.<br>
+
+
+J&aacute; foge o escondido de medroso,<br>
+
+
+E morre o descoberto aventuroso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+N&atilde;o se contenta a gente Portuguesa,<br>
+
+
+Mas seguindo a vit&oacute;ria estrui e mata;<br>
+
+
+A povoa&ccedil;&atilde;o, sem muro e sem defesa,<br>
+
+
+Esbombardeia, acende e desbarata.<br>
+
+
+Da cavalgada ao Mouro j&aacute; lhe pesa,<br>
+
+
+Que bem cuidou compr&aacute;-la mais barata;<br>
+
+
+J&aacute; blasfema da guerra, e maldizia,<br>
+
+
+O velho inerte, e a m&atilde;e que o filho cria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+Fugindo, a seta o Mouro vai tirando<br>
+
+
+Sem for&ccedil;a, de covarde e de apressado,<br>
+
+
+A pedra, o pau, e o canto arremessando;<br>
+
+
+D&aacute;-lhe armas o furor desatinado.<br>
+
+
+J&aacute; a ilha e todo o mais desemparando,<br>
+
+
+A terra firme foge amedrontado;<br>
+
+
+Passa e corta do mar o estreito bra&ccedil;o,<br>
+
+
+Que a ilha em torno cerca, em pouco espa&ccedil;o<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+Uns v&atilde;o nas almadias carregadas,<br>
+
+
+Um corta o mar a nado diligente,<br>
+
+
+Quem se afoga nas ondas encurvadas,<br>
+
+
+Quem bebe o mar, e o deita juntamente.<br>
+
+
+Arrombam as mi&uacute;das bombardadas<br>
+
+
+Os pangaios subtis da bruta gente:<br>
+
+
+Desta arte o Portugu&ecirc;s enfim castiga<br>
+
+
+A vil mal&iacute;cia, p&eacute;rfida, inimiga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+Tornam vitoriosos para a armada,<br>
+
+
+Co'o despojo da guerra e rica presa,<br>
+
+
+E v&atilde;o a seu prazer fazer aguada,<br>
+
+
+Sem achar resist&ecirc;ncia, nem defesa.<br>
+
+
+Ficava a Maura gente magoada,<br>
+
+
+No &oacute;dio antigo mais que nunca acesa;<br>
+
+
+E vendo sem vingan&ccedil;a tanto dano,<br>
+
+
+Somente estriba no segundo engano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+Pazes cometer manda arrependido<br>
+
+
+O Regedor daquela in&iacute;qua terra,<br>
+
+
+Sem ser dos Lusitanos entendido,<br>
+
+
+Que em figura de paz lhe manda guerra;<br>
+
+
+Porque o piloto falso prometido,<br>
+
+
+Que toda a m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o no peito encerra,<br>
+
+
+Para os guiar &agrave; morte lhe mandava,<br>
+
+
+Como em sinal das pazes que tratava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+O Capit&atilde;o, que j&aacute; lhe ent&atilde;o convinha<br>
+
+
+Tornar a seu caminho acostumado,<br>
+
+
+Que tempo concertado e ventos tinha<br>
+
+
+Para ir buscar o Indo desejado,<br>
+
+
+Recebendo o piloto, que lhe vinha,<br>
+
+
+Foi dele alegremente agasalhado;<br>
+
+
+E respondendo ao mensageiro a tento,<br>
+
+
+As velas manda dar ao largo vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+Desta arte despedida a forte armada,<br>
+
+
+As ondas de Anfitrite dividia,<br>
+
+
+Das filhas de Nereu acompanhada,<br>
+
+
+Fiel, alegre e doce companhia.<br>
+
+
+O Capit&atilde;o, que n&atilde;o ca&iacute;a em nada<br>
+
+
+Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,<br>
+
+
+Dele mui largamente se informava<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia toda, e costas que passava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+Mas o Mouro, instru&iacute;do nos enganos<br>
+
+
+Que o mal&eacute;volo Baco lhe ensinara,<br>
+
+
+De morte ou cativeiro novos danos,<br>
+
+
+Antes que &agrave; &Iacute;ndia chegue, lhe prepara:<br>
+
+
+Dando raz&otilde;es dos portos Indianos,<br>
+
+
+Tamb&eacute;m tudo o que pede lhe declara,<br>
+
+
+Que, havendo por verdade o que dizia,<br>
+
+
+De nada a forte gente se temia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+E diz-lhe mais, com o falso pensamento<br>
+
+
+Com que Sinon os Fr&iacute;gios enganou:<br>
+
+
+Que perto est&aacute; uma ilha, cujo assento<br>
+
+
+Povo antigo crist&atilde;o sempre habitou.<br>
+
+
+O Capit&atilde;o, que a tudo estava a tento,<br>
+
+
+Tanto com estas novas se alegrou,<br>
+
+
+Que com d&aacute;divas grandes lhe rogava,<br>
+
+
+Que o leve &agrave; terra onde esta gente estava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+O mesmo o falso Mouro determina,<br>
+
+
+Que o seguro Crist&atilde;o lhe manda e pede;<br>
+
+
+Que a ilha &eacute; possu&iacute;da da malina<br>
+
+
+Gente que segue o torpe Mahamede.<br>
+
+
+Aqui o engano e morte lhe imagina,<br>
+
+
+Porque em poder e for&ccedil;as muito excede<br>
+
+
+A Mo&ccedil;ambique esta ilha, que se chama<br>
+
+
+Qu&iacute;loa, mui conhecida pela fama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+Para l&aacute; se inclinava a leda frota;<br>
+
+
+Mas a Deusa em Citere celebrada,<br>
+
+
+Vendo como deixava a certa rota<br>
+
+
+Por ir buscar a morte n&atilde;o cuidada,<br>
+
+
+N&atilde;o consente que em terra t&atilde;o remota<br>
+
+
+Se perca a gente dela tanto amada.<br>
+
+
+E com ventos contr&aacute;rios a desvia<br>
+
+
+Donde o piloto falso a leva e guia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+101<br>
+
+
+Mas o malvado Mouro, n&atilde;o podendo<br>
+
+
+Tal determina&ccedil;&atilde;o levar avante,<br>
+
+
+Outra maldade in&iacute;qua cometendo,<br>
+
+
+Ainda em seu prop&oacute;sito constante,<br>
+
+
+Lhe diz que, pois as &aacute;guas discorrendo<br>
+
+
+Os levaram por for&ccedil;a por diante,<br>
+
+
+Que outra ilha tem perto, cuja gente<br>
+
+
+Eram Crist&atilde;os com Mouros juntamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+102<br>
+
+
+Tamb&eacute;m nestas palavras lhe mentia,<br>
+
+
+Como por regimento enfim levava,<br>
+
+
+Que aqui gente de Cristo n&atilde;o havia,<br>
+
+
+Mas a que a Mahamede celebrava.<br>
+
+
+O Capit&atilde;o, que em tudo o Mouro cria,<br>
+
+
+Virando as velas, a ilha demandava;<br>
+
+
+Mas, n&atilde;o querendo a Deusa guardadora,<br>
+
+
+N&atilde;o entra pela barra, e surge fora.<br>
+
+
+<br>
+
+
+103<br>
+
+
+Estava a ilha &agrave; terra t&atilde;o chegada,<br>
+
+
+Que um estreito pequeno a dividia;<br>
+
+
+Uma cidade nela situada,<br>
+
+
+Que na fronte do mar aparecia,<br>
+
+
+De nobres edif&iacute;cios fabricada,<br>
+
+
+Como por fora ao longe descobria,<br>
+
+
+Regida por um Rei de antiga idade:<br>
+
+
+Momba&ccedil;a &eacute; o nome da ilha e da cidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+104<br>
+
+
+E sendo a ela o Capit&atilde;o chegado,<br>
+
+
+Estranhamente ledo, porque espera<br>
+
+
+De poder ver o povo batizado,<br>
+
+
+Como o falso piloto lhe dissera,<br>
+
+
+Eis v&ecirc;m bat&eacute;is da terra com recado<br>
+
+
+Do Rei, que j&aacute; sabia a gente que era:<br>
+
+
+Que Baco muito de antes o avisara,<br>
+
+
+Na forma doutro Mouro, que tomara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+105<br>
+
+
+O recado que trazem &eacute; de amigos,<br>
+
+
+Mas debaixo o veneno vem coberto;<br>
+
+
+Que os pensamentos eram de inimigos,<br>
+
+
+Segundo foi o engano descoberto.<br>
+
+
+&Oacute; grandes e grav&iacute;ssimos perigos!<br>
+
+
+&Oacute; caminho de vida nunca certo:<br>
+
+
+Que aonde a gente p&otilde;e sua esperan&ccedil;a,<br>
+
+
+Tenha a vida t&atilde;o pouca seguran&ccedil;a!<br>
+
+
+<br>
+
+
+106<br>
+
+
+No mar tanta tormenta, e tanto dano,<br>
+
+
+Tantas vezes a morte apercebida!<br>
+
+
+Na terra tanta guerra, tanto engano,<br>
+
+
+Tanta necessidade avorrecida!<br>
+
+
+Onde pode acolher-se um fraco humano,<br>
+
+
+Onde ter&aacute; segura a curta vida,<br>
+
+
+Que n&atilde;o se arme, e se indigne o C&eacute;u sereno<br>
+
+
+Contra um bicho da terra t&atilde;o pequeno?<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Segundo</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+J&aacute; neste tempo o l&uacute;cido Planeta,<br>
+
+
+Que as horas vai do dia distinguindo,<br>
+
+
+Chegava &agrave; desejada e lenta meta,<br>
+
+
+A luz celeste &agrave;s gentes encobrindo,<br>
+
+
+E da casa mar&iacute;tima secreta<br>
+
+
+Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,<br>
+
+
+Quando as infidas gentes se chegaram<br>
+
+
+As naus, que pouco havia que ancoraram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+Dentre eles um, que traz encomendado<br>
+
+
+O mort&iacute;fero engano, assim dizia:<br>
+
+
+"Capit&atilde;o valeroso, que cortado<br>
+
+
+Tens de Neptuno o reino e salsa via,<br>
+
+
+O Rei que manda esta ilha, alvoro&ccedil;ado<br>
+
+
+Da vinda tua, tem tanta alegria,<br>
+
+
+Que n&atilde;o deseja mais que agasalhar-te,<br>
+
+
+Ver-te, e do necess&aacute;rio reformar-te.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+"E porque est&aacute; em extremo desejoso<br>
+
+
+De te ver, como cousa nomeada,<br>
+
+
+Te roga que, de nada receoso,<br>
+
+
+Entres a barra, tu com toda armada:<br>
+
+
+E porque do caminho trabalhoso<br>
+
+
+Trar&aacute;s a gente d&eacute;bil e cansada,<br>
+
+
+Diz que na terra podes reform&aacute;-la,<br>
+
+
+Que a natureza obriga a desej&aacute;-la.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+"E se buscando v&aacute;s mercadoria<br>
+
+
+Que produze o aur&iacute;fero Levante,<br>
+
+
+Canela, cravo, ardente especiaria,<br>
+
+
+Ou droga salut&iacute;fera e prestante;<br>
+
+
+Ou se queres luzente pedraria,<br>
+
+
+O rubi fino, o r&iacute;gido diamante,<br>
+
+
+Daqui levar&aacute;s tudo t&atilde;o sobejo<br>
+
+
+Com que fa&ccedil;as o fim a teu desejo."<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Ao mensageiro o Capit&atilde;o responde<br>
+
+
+As palavras do Rei agradecendo:<br>
+
+
+E diz que, porque o Sol no mar se esconde,<br>
+
+
+N&atilde;o entra para dentro, obedecendo;<br>
+
+
+Por&eacute;m que, como a luz mostrar por onde<br>
+
+
+V&aacute; sem perigo a frota, n&atilde;o temendo,<br>
+
+
+Cumprir&aacute; sem receio seu mandado,<br>
+
+
+Que a mais por tal senhor est&aacute; obrigado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+Pergunta-lhe depois, se est&atilde;o na terra<br>
+
+
+Crist&atilde;os, como o piloto lhe dizia;<br>
+
+
+O mensageiro astuto, que n&atilde;o erra,<br>
+
+
+Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.<br>
+
+
+Desta sorte do peito lhe desterra<br>
+
+
+Toda a suspeita e cauta fantasia;<br>
+
+
+Por onde o Capit&atilde;o seguramente<br>
+
+
+Se fia da infiel e falsa gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+E de alguns que trazia condenados<br>
+
+
+Por culpas e por feitos vergonhosos,<br>
+
+
+Por que pudessem ser aventurados<br>
+
+
+Em casos desta sorte duvidosos,<br>
+
+
+Manda dous mais sagazes, ensaiados,<br>
+
+
+Por que notem dos Mouros enganosos<br>
+
+
+A cidade e poder, e por que vejam<br>
+
+
+Os Crist&atilde;os, que s&oacute; tanto ver desejam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+E por estes ao Rei presentes manda,<br>
+
+
+Por que a boa vontade, que mostrava,<br>
+
+
+Tenha firme, segura, limpa e branda;<br>
+
+
+A qual bem ao contr&aacute;rio em tudo estava.<br>
+
+
+J&aacute; a companhia p&eacute;rfida e nefanda<br>
+
+
+Das naus se despedia e o mar cortava:<br>
+
+
+Foram com gestos ledos e fingidos,<br>
+
+
+Os dous da frota em terra recebidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+E depois que ao Rei apresentaram,<br>
+
+
+Co'o recado, os presentes que traziam,<br>
+
+
+A cidade correram, e notaram<br>
+
+
+Muito menos daquilo que queriam;<br>
+
+
+Que os Mouros cautelosos se guardaras<br>
+
+
+De lhes mostrarem tudo o que pediam:<br>
+
+
+Que onde reina a mal&iacute;cia, est&aacute; o receio,<br>
+
+
+Que a faz imaginar no peito alheio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+Mas aquele que sempre a mocidade<br>
+
+
+Tem no rosto perp&eacute;tua, e foi nascido<br>
+
+
+De duas m&atilde;es, que urdia a falsidade<br>
+
+
+Por ver o navegante destru&iacute;do,<br>
+
+
+Estava numa casa da cidade,<br>
+
+
+Com rosto humano e h&aacute;bito fingido,<br>
+
+
+Mostrando-se Crist&atilde;o, e fabricava<br>
+
+
+Um altar sumptuoso, que adorava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Ali tinha em retrato afigurada<br>
+
+
+Do alto e Santo Esp&iacute;rito a pintura:<br>
+
+
+A c&acirc;ndida pombinha debuxada<br>
+
+
+Sobre a &uacute;nica F&eacute;nix, Virgem pura;<br>
+
+
+A companhia santa est&aacute; pintada<br>
+
+
+Dos doze, t&atilde;o torvados na figura,<br>
+
+
+Como os que, s&oacute; das l&iacute;nguas que ca&iacute;ram,<br>
+
+
+De fogo, v&aacute;rias l&iacute;nguas referiram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+Aqui os dous companheiros conduzidos<br>
+
+
+Onde com este engano Baco estava,<br>
+
+
+P&otilde;em em terra os giolhos, e os sentidos<br>
+
+
+Naquele Deus que o mundo governava.<br>
+
+
+Os cheiros excelentes, produzidos<br>
+
+
+Na Pancaia odor&iacute;fera, queimava<br>
+
+
+O Tioneu, e assim por derradeiro<br>
+
+
+O falso Deus adora o verdadeiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Aqui foram de noite agasalhados,<br>
+
+
+Com todo o bom e honesto tratamento,<br>
+
+
+Os dous Crist&atilde;os, n&atilde;o vendo que enganados<br>
+
+
+Os tinha o falso e santo fingimento.<br>
+
+
+Mas assim como os raios espalhados<br>
+
+
+Do Sol foram no mundo, e num momento<br>
+
+
+Apareceu no r&uacute;bido horizonte<br>
+
+
+Da mo&ccedil;a de Tit&atilde;o a roxa fronte,<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Tornam da terra os Mouros co'o recado<br>
+
+
+Do Rei, para que entrassem, e consigo<br>
+
+
+Os dous que o Capit&atilde;o tinha mandado,<br>
+
+
+A quem se o Rei mostrou sincero amigo;<br>
+
+
+E sendo o Portugu&ecirc;s certificado<br>
+
+
+De n&atilde;o haver receio de perigo,<br>
+
+
+E que gente de Cristo em terra havia,<br>
+
+
+Dentro no salso rio entrar queria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+Dizem-lhe os que mandou, que em terra<br>
+
+
+Sacras aras e sacerdote sinto; viram<br>
+
+
+Que ali se agasalharam o dormiram,<br>
+
+
+Enquanto a luz cobriu o escuro manto;<br>
+
+
+E que no Rei e gentes n&atilde;o sentiram<br>
+
+
+Sen&atilde;o contentamento e gosto tanto,<br>
+
+
+Que n&atilde;o podia certo haver suspeita<br>
+
+
+Numa mostra t&atilde;o clara e t&atilde;o perfeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+Com isto o nobre Gama recebia<br>
+
+
+Alegremente os Mouros que subiam;<br>
+
+
+Que levemente um &acirc;nimo se fia<br>
+
+
+De mostras, que t&atilde;o certas pareciam.<br>
+
+
+A nau da gente p&eacute;rfida se enchia,<br>
+
+
+Deixando a bordo os barcos que traziam.<br>
+
+
+Alegres vinham todos, porque cr&ecirc;m<br>
+
+
+Que a presa desejada certa t&ecirc;m.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+Na terra, cautamente aparelhavam<br>
+
+
+Armas e muni&ccedil;&otilde;es que, como vissem<br>
+
+
+Que no rio os navios ancoravam,<br>
+
+
+Neles ousadamente se subissem;<br>
+
+
+E, nesta trei&ccedil;&atilde;o determinavam<br>
+
+
+Que os de Luso de todo destru&iacute;ssem,<br>
+
+
+E que incautos pagassem deste jeito<br>
+
+
+O mal que em Mo&ccedil;ambique tinham feito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+As &acirc;ncoras tenaces v&atilde;o levando<br>
+
+
+Com a n&aacute;utica grita costumada;<br>
+
+
+Da proa as velas s&oacute;s ao vento dando<br>
+
+
+Inclinam para a barra abalizada.<br>
+
+
+Mas a linda Ericina, que guardando<br>
+
+
+Andava sempre a gente assinalada,<br>
+
+
+Vendo a cilada grande, e t&atilde;o secreta,<br>
+
+
+Voa do C&eacute;u ao mar como uma seta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+Convoca as alvas filhas de Nereu,<br>
+
+
+Com toda a mais cer&uacute;lea companhia,<br>
+
+
+Que, porque no salgado mar nasceu,<br>
+
+
+Das &aacute;guas o poder lhe obedecia.<br>
+
+
+E propondo-lhe a causa a que desceu,<br>
+
+
+Com todas juntamente se partia,<br>
+
+
+Para estorvar que a armada n&atilde;o chegasse<br>
+
+
+Aonde para sempre se acabasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+J&aacute; na &aacute;gua erguendo v&atilde;o, com grande
+pressa,<br>
+
+
+Com as arg&ecirc;nteas caudas branca escuma;<br>
+
+
+Cloto eo'o peito corta e atravessa<br>
+
+
+Com mais furor o mar do que costuma.<br>
+
+
+Salta Nise, Nerine se arremessa<br>
+
+
+Por cima da &aacute;gua crespa, em for&ccedil;a suma.<br>
+
+
+Abrem caminho as ondas encurvadas<br>
+
+
+De temor das Nereidas apressadas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+Nos ombros de um Trit&atilde;o, com gesto aceso,<br>
+
+
+Vai a linda Dione furiosa;<br>
+
+
+N&atilde;o sente quem a leva o doce peso,<br>
+
+
+De soberbo com carga t&atilde;o formosa.<br>
+
+
+J&aacute; chegam perto donde o vento teso<br>
+
+
+Enche as velas da frota belicosa;<br>
+
+
+Repartem-se e rodeiam nesse instante<br>
+
+
+As naus ligeiras, que iam por diante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+P&otilde;e-se a Deusa com outras em direito<br>
+
+
+Da proa capitaina, e ali fechando<br>
+
+
+O caminho da barra, est&atilde;o de jeito,<br>
+
+
+Que em v&atilde;o assopra o vento, a vela inchando.<br>
+
+
+P&otilde;em no madeiro duro o brando peito,<br>
+
+
+Para detr&aacute;s a forte nau for&ccedil;ando;<br>
+
+
+Outras em derredor levando-a estavam,<br>
+
+
+E da barra inimiga a desviavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+Quais para a cova as pr&oacute;vidas formigas,<br>
+
+
+Levando o peso grande acomodado,<br>
+
+
+As for&ccedil;as exercitam, de inimigas<br>
+
+
+Do inimigo inverno congelado;<br>
+
+
+Ali s&atilde;o seus trabalhos e fadigas,<br>
+
+
+Ali mostram vigor nunca esperado:<br>
+
+
+Tais andavam as Ninfas estorvando<br>
+
+
+A gente Portuguesa o fim nefando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+Torna para detr&aacute;s a nau for&ccedil;ada,<br>
+
+
+Apesar dos que leva, que gritando<br>
+
+
+Mareiam velas; ferve a gente irada,<br>
+
+
+O leme a um bordo e a outro atravessando;<br>
+
+
+O mestre astuto em v&atilde;o da popa brada,<br>
+
+
+Vendo como diante amea&ccedil;ando<br>
+
+
+Os estava um mar&iacute;timo penedo,<br>
+
+
+Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+A celeuma medonha se alevanta<br>
+
+
+No rudo marinheiro que trabalha;<br>
+
+
+O grande estrondo a Maura gente espanta,<br>
+
+
+Como se vissem h&oacute;rrida batalha;<br>
+
+
+N&atilde;o sabem a raz&atilde;o de f&uacute;ria tanta,<br>
+
+
+N&atilde;o sabem nesta pressa quem lhe valha;<br>
+
+
+Cuidam que seus enganos s&atilde;o sabidos,<br>
+
+
+E que h&atilde;o de ser por isso aqui punidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+Ei-los subitamente se lan&ccedil;avam<br>
+
+
+A seus bat&eacute;is velozes que traziam;<br>
+
+
+Outros em cima o mar alevantavam,<br>
+
+
+Saltando n'&aacute;gua, a nado se acolhiam;<br>
+
+
+De um bordo e doutro s&uacute;bito saltavam,<br>
+
+
+Que o medo os compelia do que viam;<br>
+
+
+Que antes querem ao mar aventurar-se<br>
+
+
+Que nas m&atilde;os inimigas entregar-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+Assim como em selv&aacute;tica alagoa<br>
+
+
+As r&atilde;s, no tempo antigo L&iacute;cia gente,<br>
+
+
+Se sentem por ventura vir pessoa,<br>
+
+
+Estando fora da &aacute;gua incautamente,<br>
+
+
+Daqui e dali saltando, o charco soa,<br>
+
+
+Por fugir do perigo que se sente,<br>
+
+
+E acolhendo-se ao couto que conhecem,<br>
+
+
+S&oacute;s as cabe&ccedil;as na &aacute;gua lhe aparecem:<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+Assim fogem os Mouros; e o piloto,<br>
+
+
+Que ao perigo grande as naus guiara,<br>
+
+
+Crendo que seu engano estava noto,<br>
+
+
+Tamb&eacute;m foge, saltando na &aacute;gua amara.<br>
+
+
+Mas, por n&atilde;o darem no penedo imoto,<br>
+
+
+Onde percam a vida doce e cara,<br>
+
+
+A &acirc;ncora solta logo a capitaina,<br>
+
+
+Qualquer das outras junto dela amaina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+Vendo o Gama, atentado, a estranheza<br>
+
+
+Dos Mouros, n&atilde;o cuidada, e juntamente<br>
+
+
+O piloto fugir-lhe com presteza,<br>
+
+
+Entende o que ordenava a bruta gente;<br>
+
+
+E vendo, sem contraste e sem braveza<br>
+
+
+Dos ventos, ou das &aacute;guas sem corrente,<br>
+
+
+Que a nau passar avante n&atilde;o podia,<br>
+
+
+Havendo-o por milagre, assim dizia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"&Oacute; caso grande, estranho e n&atilde;o cuidado,<br>
+
+
+&Oacute; milagre clar&iacute;ssimo e evidente,<br>
+
+
+&Oacute; descoberto engano inopinado,<br>
+
+
+&Oacute; p&eacute;rfida, inimiga e falsa gente!<br>
+
+
+Quem poder&aacute; do mal aparelhado<br>
+
+
+Livrar-se sem perigo sabiamente,<br>
+
+
+Se l&aacute; de cima a Guarda soberana<br>
+
+
+N&atilde;o acudir &agrave; fraca for&ccedil;a humana?<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"Bem nos mostra a divina Provid&ecirc;ncia<br>
+
+
+Destes portos a pouca seguran&ccedil;a;<br>
+
+
+Bem claro temos visto na apar&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Que era enganada a nossa confian&ccedil;a.<br>
+
+
+Mas pois saber humano nem prud&ecirc;ncia<br>
+
+
+Enganos t&atilde;o fingidos n&atilde;o alcan&ccedil;a,<br>
+
+
+&Oacute; tu, Guarda Divina, tem cuidado<br>
+
+
+De quem sem ti n&atilde;o pode ser guardado!<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"E se te move tanto a piedade<br>
+
+
+Desta m&iacute;sera gente peregrina,<br>
+
+
+Que s&oacute; por tua alt&iacute;ssima bondade,<br>
+
+
+Da gente a salvas p&eacute;rfida e malina,<br>
+
+
+Nalgum porto seguro de verdade<br>
+
+
+Conduzir-nos j&aacute; agora determina,<br>
+
+
+Ou nos amostra a terra que buscamos,<br>
+
+
+Pois s&oacute; por teu servi&ccedil;o navegamos."<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+Ouviu-lhe essas palavras piedosas<br>
+
+
+A formosa Dione, e comovida,<br>
+
+
+Dentre as Ninfas se vai, que saudosas<br>
+
+
+Ficaram desta s&uacute;bita partida.<br>
+
+
+J&aacute; penetra as Estrelas luminosas,<br>
+
+
+J&aacute; na terceira Esfera recebida<br>
+
+
+Avante passa, e l&aacute; no sexto C&eacute;u,<br>
+
+
+Para onde estava o Padre, se moveu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+E como ia afrontada do caminho,<br>
+
+
+T&atilde;o formosa no gesto se mostrava,<br>
+
+
+Que as Estrelas e o C&eacute;u e o Ar vizinho,<br>
+
+
+E tudo quanto a via namorava.<br>
+
+
+Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,<br>
+
+
+Uns esp&iacute;ritos vivos inspirava,<br>
+
+
+Com que os P&oacute;los gelados acendia,<br>
+
+
+E tornava do Fogo a esfera fria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+E por mais namorar o soberano<br>
+
+
+Padre, de quem foi sempre amada e eri&ccedil;a,<br>
+
+
+Se lhe apresenta assim como ao Troiano,<br>
+
+
+Na selva Idea, j&aacute; se apresentara.<br>
+
+
+Se a vira o ca&ccedil;ador, que o vulto humano<br>
+
+
+Perdeu, vendo Diana na &aacute;gua clara,<br>
+
+
+Nunca os famintos galgos o mataram,<br>
+
+
+Que primeiro desejos o acabaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+Os crespos fios d'ouro se esparziam<br>
+
+
+Pelo colo, que a neve escurecia;<br>
+
+
+Andando, as l&aacute;cteas tetas lhe tremiam,<br>
+
+
+Com quem Amor brincava, e n&atilde;o se via;<br>
+
+
+Da alva petrina flamas lhe sa&iacute;am,<br>
+
+
+Onde o Menino as almas acendia;<br>
+
+
+Pelas lisas colunas lhe trepavam<br>
+
+
+Desejos, que como hera se enrolavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+C'um delgado sendal as partes cobre,<br>
+
+
+De quem vergonha &eacute; natural reparo,<br>
+
+
+Por&eacute;m nem tudo esconde, nem descobre,<br>
+
+
+O v&eacute;u, dos roxos l&iacute;rios pouco avaro;<br>
+
+
+Mas, para que o desejo acenda o dobre,<br>
+
+
+Lhe p&otilde;e diante aquele objeto raro.<br>
+
+
+J&aacute; se sentem no C&eacute;u, por toda a parte,<br>
+
+
+Ci&uacute;mes em Vulcano, amor em Marte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+E mostrando no ang&eacute;lico semblante<br>
+
+
+Co'o riso uma tristeza misturada,<br>
+
+
+Como dama que foi do incauto amante<br>
+
+
+Em brincos amorosos mal tratada,<br>
+
+
+Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,<br>
+
+
+E se torna entre alegre magoada,<br>
+
+
+Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,<br>
+
+
+Mais mimosa que triste ao Padre fala:<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Sempre eu cuidei, &oacute; Padre poderoso,<br>
+
+
+Que, para as cousas que eu do peito amasse,<br>
+
+
+Te achasse brando, af&aacute;bil e amoroso,<br>
+
+
+Posto que a algum contr&aacute;rio lhe pesasse;<br>
+
+
+Mas, pois que contra mim te vejo iroso,<br>
+
+
+Sem que to merecesse, nem te errasse,<br>
+
+
+Fa&ccedil;a-se como Baco determina;<br>
+
+
+Assentarei enfim que fui mofina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Este povo que &eacute; meu, por quem derramo<br>
+
+
+As l&aacute;grimas que em v&atilde;o ca&iacute;das vejo,<br>
+
+
+Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,<br>
+
+
+Sendo tu tanto contra meu desejo!<br>
+
+
+Por ele a ti rogando choro e bramo,<br>
+
+
+E contra minha dita enfim pelejo.<br>
+
+
+Ora pois, porque o amo &eacute; mal tratado,<br>
+
+
+Quero-lhe querer mal, ser&aacute; guardado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Mas moura enfim nas m&atilde;os das brutas gentes,<br>
+
+
+Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,<br>
+
+
+O rosto banha em l&aacute;grimas ardentes,<br>
+
+
+Como co'o orvalho fica a fresca rosa.<br>
+
+
+Calada um pouco, como se entre os dentes<br>
+
+
+Se lhe impedira a fala piedosa,<br>
+
+
+Torna a segui-la; e indo por diante,<br>
+
+
+Lhe atalha o poderoso e gr&atilde;o Tonante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+E destas brandas mostras comovido,<br>
+
+
+Que moveram de um tigre o peito duro,<br>
+
+
+Co'o vulto alegre, qual do C&eacute;u subido,<br>
+
+
+Torna sereno e claro o ar escuro,<br>
+
+
+As l&aacute;grimas lhe alimpa, e acendido<br>
+
+
+Na face a beija, e abra&ccedil;a o colo puro;<br>
+
+
+De modo que dali, se s&oacute; se achara,<br>
+
+
+Outro novo Cupido se gerara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+E co'o seu apertando o rosto amado,<br>
+
+
+Que os solu&ccedil;os e l&aacute;grimas aumenta,<br>
+
+
+Como menino da ama castigado,<br>
+
+
+Que quem no afaga o choro lhe acrescente,<br>
+
+
+Por lhe p&ocirc;r em sossego o peito irado,<br>
+
+
+Muitos casos futuros lhe apresenta.<br>
+
+
+Dos fados as entranhas revolvendo,<br>
+
+
+Desta maneira enfim lhe est&aacute; dizendo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+"Formosa filha minha, n&atilde;o temais<br>
+
+
+Perigo algum nos vossos Lusitanos,<br>
+
+
+Nem que ningu&eacute;m comigo possa mais,<br>
+
+
+Que esses chorosos olhos soberanos;<br>
+
+
+Que eu vos prometo, filha, que vejais<br>
+
+
+Esquecerem-se Gregos e Romanos,<br>
+
+
+Pelos ilustres feitos que esta gente<br>
+
+
+H&aacute;-de fazer nas partes do Oriente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+"Que se o facundo Ulisses escapou<br>
+
+
+De ser na Og&iacute;gia ilha eterno escravo,<br>
+
+
+E se Antenor os seios penetrou<br>
+
+
+Il&iacute;ricos e a fonte de Timavo;<br>
+
+
+E se o piedoso Eneias navegou<br>
+
+
+De Cila e de Car&iacute;bdis o mar bravo,<br>
+
+
+Os vossos, mores cousas atentando,<br>
+
+
+Novos mundos ao mundo ir&atilde;o mostrando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+"Fortalezas, cidades e altos muros,<br>
+
+
+Por eles vereis, filha, edificados;<br>
+
+
+Os Turcos belac&iacute;ssimos e duros,<br>
+
+
+Deles sempre vereis desbaratados.<br>
+
+
+Os Reis da &iacute;ndia, livres e seguros,<br>
+
+
+Vereis ao Rei potente sojugados;<br>
+
+
+E por eles, de tudo enfim senhores,<br>
+
+
+Ser&atilde;o dadas na terra leis melhores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+"Vereis este, que agora pressuroso<br>
+
+
+Por tantos medos o Indo vai buscando,<br>
+
+
+Tremer dele Neptuno, de medroso<br>
+
+
+Sem vento suas &aacute;guas encrespando.<br>
+
+
+&Oacute; caso nunca visto e milagroso,<br>
+
+
+Que trema e ferva o mar, em calma estando!<br>
+
+
+&Oacute; gente forte e de altos pensamentos,<br>
+
+
+Que tamb&eacute;m dela h&atilde;o medo os Elementos!<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+"Vereis a terra, que a &aacute;gua lhe tolhia,<br>
+
+
+Que inda h&aacute;-de ser um porto mui decente,<br>
+
+
+Em que v&atilde;o descansar da longa via<br>
+
+
+As naus que navegarem do Ocidente.<br>
+
+
+Toda esta costa enfim, que agora urdia<br>
+
+
+O mort&iacute;fero engano, obediente<br>
+
+
+Lhe pagar&aacute; tributos, conhecendo<br>
+
+
+N&atilde;o poder resistir ao Luso horrendo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+"E vereis o mar Roxo, t&atilde;o famoso,<br>
+
+
+Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;<br>
+
+
+Vereis de Ormuz o Reino poderoso<br>
+
+
+Duas vezes tomado e sojugado.<br>
+
+
+Ali vereis o Mouro furioso<br>
+
+
+De suas mesmas setas traspassado:<br>
+
+
+Que quem vai contra os vossos, claro veja<br>
+
+
+Que, se resiste, contra si peleja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+"Vereis a inexpugn&aacute;bil Dio forte,<br>
+
+
+Que dous cercos ter&aacute;, dos vossos sendo.<br>
+
+
+Ali se mostrar&aacute; seu pre&ccedil;o e sorte,<br>
+
+
+Feitos de armas grand&iacute;ssimos fazendo.<br>
+
+
+Invejoso vereis o gr&atilde;o Mavorte<br>
+
+
+Do peito Lusitano fero e horrendo:<br>
+
+
+Do Mouro ali ver&atilde;o que a voz extrema<br>
+
+
+Do falso Mahamede ao C&eacute;u blasfema.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"Goa vereis aos Mouros ser tomada,<br>
+
+
+A qual vir&aacute; depois a ser senhora<br>
+
+
+De todo o Oriente, e sublimada<br>
+
+
+Co'os triunfos da gente vencedora.<br>
+
+
+Ali soberba, altiva, e exal&ccedil;ada,<br>
+
+
+Ao Gentio, que os &iacute;dolos adora,<br>
+
+
+Duro freio por&aacute;, e a toda a terra<br>
+
+
+Que cuidar de fazer aos vossos guerra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"Vereis a fortaleza sustentar-se<br>
+
+
+De Cananor, com pouca for&ccedil;a e gente;<br>
+
+
+E vereis Calecu desbaratar-se,<br>
+
+
+Cidade populosa e t&atilde;o potente:<br>
+
+
+E vereis em Cochim assinalar-se<br>
+
+
+Tanto um peito soberbo e insolente,<br>
+
+
+Que c&iacute;tara jamais cantou vit&oacute;ria,<br>
+
+
+Que assim mere&ccedil;a eterno nome e gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"Nunca com Marte instructo e furioso,<br>
+
+
+Se viu ferver Leucate, quando Augusto<br>
+
+
+Nas civis Actias guerras animoso,<br>
+
+
+O Capit&atilde;o venceu Romano injusto,<br>
+
+
+Que dos povos da Aurora, e do famoso<br>
+
+
+Nilo, e do Bactra C&iacute;tico e robusto<br>
+
+
+A vit&oacute;ria trazia, e presa rica,<br>
+
+
+Preso na Eg&iacute;pcia linda e nego pudica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+Como vereis o mar fervendo aceso<br>
+
+
+Colos inc&ecirc;ndios dos vossos pelejando,<br>
+
+
+Levando o Idololatra, e o Mouro preso,<br>
+
+
+De na&ccedil;&otilde;es diferentes triunfando.<br>
+
+
+E sujeita a rica &Aacute;urea Quersoneso,<br>
+
+
+At&eacute; ao long&iacute;nquo China navegando,<br>
+
+
+E as ilhas mais remotas do Oriente,<br>
+
+
+Ser-lhe-&aacute; todo o Oceano obediente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+"De modo, filha minha, que de jeito<br>
+
+
+Amostrar&atilde;o esfor&ccedil;o mais que humano,<br>
+
+
+Que nunca se ver&aacute; t&atilde;o forte peito,<br>
+
+
+Do Gang&eacute;tico mar ao Gaditano,<br>
+
+
+Nem das Boreais ondas ao Estreito,<br>
+
+
+Que mostrou o agravado Lusitano,<br>
+
+
+Posto que em todo o mundo, de afrontados,<br>
+
+
+Ressuscitassem todos os passados."<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+Como isto disse, manda o consagrado<br>
+
+
+Filho de Maia &agrave; Terra, por que tenha<br>
+
+
+Um pac&iacute;fico porto o sossegado,<br>
+
+
+Para onde sem receio a frota venha;<br>
+
+
+F, para que em Momba&ccedil;a, aventurado,<br>
+
+
+O forte Capit&atilde;o se n&atilde;o detenha,<br>
+
+
+Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra<br>
+
+
+A terra, onde quieto repousasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+J&aacute; pelo ar o Cileneu voava;<br>
+
+
+Com as asas nos p&eacute;s &agrave; Terra desce;<br>
+
+
+Sua vara fatal na m&atilde;o levava,<br>
+
+
+Com que os olhos cansados adormece:<br>
+
+
+Com esta, as tristes almas revocava<br>
+
+
+Do Inferno, e o vento lhe obedece.<br>
+
+
+Na cabe&ccedil;a o galero costumado.<br>
+
+
+E desta arte a Melinde foi chegado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+Consigo a Fama leva, por que diga<br>
+
+
+Do Lusitano o pre&ccedil;o grande e raro,<br>
+
+
+Que o nome ilustre a um certo amor obriga<br>
+
+
+E faz, a quem o tem, amado e caro.<br>
+
+
+Desta arte vai fazendo a gente amiga,<br>
+
+
+Co rumor famos&iacute;ssimo, e perclaro.<br>
+
+
+J&aacute; Melinde em desejos arde todo<br>
+
+
+De ver da gente forte o gesto e modo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+Dali para Momba&ccedil;a logo parte,<br>
+
+
+Aonde as naus estavam temerosas,<br>
+
+
+Para que &agrave; gente mande que se aparte<br>
+
+
+Da barra amiga e terras suspeitosas:<br>
+
+
+Porque mui pouco val esfor&ccedil;o e arte,<br>
+
+
+Contra infernais vontades enganosas;<br>
+
+
+Pouco val cora&ccedil;&atilde;o, ast&uacute;cia e siso,<br>
+
+
+Se l&aacute; dos C&eacute;us n&atilde;o vem celeste aviso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+No feio caminho a noite tinha anelado,<br>
+
+
+E, as estrelas no C&eacute;u, coa luz alhea,<br>
+
+
+Tinham o largo Mundo alumiado;<br>
+
+
+E s&oacute; co'o sono a gente se recreia.<br>
+
+
+O Capit&atilde;o ilustre, j&aacute; cansado<br>
+
+
+De vigiar a noite que arreceia,<br>
+
+
+Breve repouso ent&atilde;o aos olhos dava,<br>
+
+
+A outra gente a quartos vigiava;<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+Quando Merc&uacute;rio em sonhos lhe aparece,<br>
+
+
+Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,<br>
+
+
+Da cilada que o Rei malvado tece,<br>
+
+
+Por te trazer ao fim, e extremo dano;<br>
+
+
+Fuge, que o vento, e o C&eacute;u te favorece;<br>
+
+
+Sereno o tempo tens e o Oceano,<br>
+
+
+E outro Rei mais amigo, noutra parte,<br>
+
+
+Onde podes seguro agasalhar-te.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"N&atilde;o tens aqui sen&atilde;o aparelhado<br>
+
+
+O hosp&iacute;cio que o cru Diomedes dava,<br>
+
+
+Fazendo ser manjar acostumado<br>
+
+
+De cavalos a gente que hospedava;<br>
+
+
+As aras de Bus&iacute;ris infamado,<br>
+
+
+Onde os h&oacute;spedes tristes imolava,<br>
+
+
+Ter&aacute;s certas aqui, se muito esperas.<br>
+
+
+Fuge das gentes p&eacute;rfidas e feras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"Vai-te ao longo da costa discorrendo,<br>
+
+
+E outra terra achar&aacute;s de mais verdade,<br>
+
+
+L&aacute; quase junto donde o Sol ardendo<br>
+
+
+Iguala o dia e noite em quantidade;<br>
+
+
+Ali tua frota alegre recebendo<br>
+
+
+Um Rei, com muitas obras de amizade,<br>
+
+
+Gasalhado seguro te daria,<br>
+
+
+E, para a &iacute;ndia, certa e s&aacute;bia guia."<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+Isto Merc&uacute;rio disse, e o sono leva<br>
+
+
+Ao Capit&atilde;o, que com mui grande espanto<br>
+
+
+Acorda, e v&ecirc; ferida a escura treva<br>
+
+
+De uma s&uacute;bita luz e raio santo.<br>
+
+
+E vendo claro quanto lhe releva<br>
+
+
+N&atilde;o se deter na terra in&iacute;qua tanto,<br>
+
+
+Com novo esp&iacute;rito ao mestre seu mandava<br>
+
+
+Que as velas desse ao vento que assopravam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Dai velas, disse, dai ao largo vento,<br>
+
+
+Que o C&eacute;u nos favorece e Deus o manda;<br>
+
+
+Que um mensageiro vi do claro assento<br>
+
+
+Que s&oacute; em favor de nossos passos anda."<br>
+
+
+Alevanta-se nisto o movimento<br>
+
+
+Dos marinheiros, de uma e de outra banda;<br>
+
+
+Levam gritando as &acirc;ncoras acima,<br>
+
+
+Mostrando a ruda for&ccedil;a, que se estima.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+Neste tempo, que as &acirc;ncoras levavam,<br>
+
+
+Na sombra escura os Mouros escondidos<br>
+
+
+Mansamente as amarras lhe cortavam,<br>
+
+
+Por serem, dando &agrave; costa, destru&iacute;dos;<br>
+
+
+Mas com vista de linces vigiavam<br>
+
+
+Os Portugueses, sempre apercebidos.<br>
+
+
+Eles, como acordados os sentiram,<br>
+
+
+Voando, e n&atilde;o remando, lhe fugiram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+Mas j&aacute; as agudas proas apartando<br>
+
+
+Iam as vias h&uacute;midas de argento;<br>
+
+
+Assopra-lhe galerno o vento, e brando,<br>
+
+
+Com suave e seguro movimento.<br>
+
+
+Nos perigos passados v&atilde;o falando,<br>
+
+
+Que mal se perder&atilde;o do pensamento<br>
+
+
+Os casos grandes, donde em tanto aperto<br>
+
+
+A vida em salvo escapa por acerto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+Tinha uma volta dado o Sol ardente<br>
+
+
+E noutro come&ccedil;ava, quando viram<br>
+
+
+Ao longe deus navios, brandamente<br>
+
+
+Co'os ventos navegando, que respiram:<br>
+
+
+Porque haviam de ser da Maura gente,<br>
+
+
+Para eles arribando, as velas viram:<br>
+
+
+Um, de temor do mal que arreceava,<br>
+
+
+Por se salvar a gente &agrave; costa dava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+N&atilde;o &eacute; o outro que fica t&atilde;o manhoso;<br>
+
+
+Mas nas m&atilde;os vai cair do Lusitano,<br>
+
+
+Sem o rigor de Marte furioso,<br>
+
+
+E sem a f&uacute;ria horrenda de Vulcano;<br>
+
+
+Que como fosse d&eacute;bil e medroso<br>
+
+
+Da pouca gente o fraco peito humano,<br>
+
+
+N&atilde;o teve resist&ecirc;ncia; e se a tivera,<br>
+
+
+Mais dano resistindo recebera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+E como o Gama muito desejasse<br>
+
+
+Piloto para a &Iacute;ndia que buscava,<br>
+
+
+Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;<br>
+
+
+Mas n&atilde;o lhe sucedeu como cuidava,<br>
+
+
+Que nenhum deles h&aacute; que lhe ensinasse<br>
+
+
+A que parte dos c&eacute;us a &Iacute;ndia estava;<br>
+
+
+Por&eacute;m dizem-lhe todos, que tem perto<br>
+
+
+Melinde, onde achar&aacute; piloto certo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+Louvam do Rei os Mouros a bondade,<br>
+
+
+Condi&ccedil;&atilde;o liberal, sincero peito,<br>
+
+
+Magnific&ecirc;ncia grande e humanidade,<br>
+
+
+Com partes de grand&iacute;ssimo respeito.<br>
+
+
+O Capit&atilde;o o assela por verdade,<br>
+
+
+Porque j&aacute; lhe dissera, deste jeito,<br>
+
+
+Cileneu em sonhos; e partia<br>
+
+
+Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+Era no tempo alegre, quando entrava<br>
+
+
+No roubador de Europa a luz Febeia,<br>
+
+
+Quando um e outro corno lhe aquentava,<br>
+
+
+E Flora derramava o de Amalteia:<br>
+
+
+A mem&oacute;ria do dia renovava<br>
+
+
+O pressuroso Sol, que o C&eacute;u rodeia,<br>
+
+
+Em que Aquele, a quem tudo est&aacute; sujeito,<br>
+
+
+O selo p&ocirc;s a quanto tinha feito;<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+Quando chegava a frota &agrave;quela parte,<br>
+
+
+Onde o Reino Melinde j&aacute; se via,<br>
+
+
+De toldos adornada, e leda de arte<br>
+
+
+Que bem mostra estimar o santo dia.<br>
+
+
+Treme a bandeira, voa o estandarte,<br>
+
+
+A cor purp&uacute;rea ao longe aparecia;<br>
+
+
+Soam os atambores o pandeiros,<br>
+
+
+E assim entravam ledos e guerreiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+Enche-se toda a praia Melindana<br>
+
+
+Da gente que vem ver a leda armada,<br>
+
+
+Gente mais verdadeira, e mais humana,<br>
+
+
+Que toda a doutra terra atr&aacute;s deixada.<br>
+
+
+Surge diante a frota Lusitana,<br>
+
+
+Pega no fundo a &acirc;ncora pesada;<br>
+
+
+Mandam fora um dos Mouros que tomaram,<br>
+
+
+Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+O Rei, que j&aacute; sabia da nobreza<br>
+
+
+Que tanto os Portugueses engrandece,<br>
+
+
+Tomarem o seu porto tanto preza,<br>
+
+
+Quanto a gente fort&iacute;ssima merece:<br>
+
+
+E com verdadeiro &acirc;nimo e pureza,<br>
+
+
+Que os peitos generosos enobrece,<br>
+
+
+Lhe manda rogar muito que sa&iacute;ssem,<br>
+
+
+Para que de seus reinos se servissem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+S&atilde;o oferecimentos verdadeiros,<br>
+
+
+E palavras sinceras, n&atilde;o dobradas,<br>
+
+
+As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,<br>
+
+
+Que tanto mar e terras tem passadas.<br>
+
+
+Manda-lhe mais lan&iacute;geros carneiros,<br>
+
+
+E galinhas dom&eacute;sticas cevadas,<br>
+
+
+Com as frutas, que ent&atilde;o na terra havia;<br>
+
+
+E a vontade &agrave; d&aacute;diva excedia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+Recebe o Capit&atilde;o alegremente<br>
+
+
+O mensageiro ledo e seu recado;<br>
+
+
+E logo manda ao Rei outro presente,<br>
+
+
+Que de longe trazia aparelhado:<br>
+
+
+Escarlata purp&uacute;rea, cor ardente,<br>
+
+
+O ramoso coral, fino e prezado,<br>
+
+
+Que debaixo das &aacute;guas mole cresce,<br>
+
+
+E como &eacute; fora delas se endurece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+Manda mais um, na pr&aacute;tica elegante,<br>
+
+
+Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,<br>
+
+
+E que de n&atilde;o sair naquele instante<br>
+
+
+De suas naus em terra o desculpasse.<br>
+
+
+Partido assim o embaixador prestante,<br>
+
+
+Como na terra ao Rei se apresentasse,<br>
+
+
+Com estilo que Palas lhe ensinava,<br>
+
+
+Estas palavras tais falando orava:<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro<br>
+
+
+Foi da suma Justi&ccedil;a concedido<br>
+
+
+Refrear o soberbo povo duro,<br>
+
+
+N&atilde;o menos dele amado, que temido:<br>
+
+
+Como porto mui forte e mui seguro,<br>
+
+
+De todo o Oriente conhecido,<br>
+
+
+Te vimos a buscar, para que achemos<br>
+
+
+Em ti o rem&eacute;dio certo que queremos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"N&atilde;o somos roubadores, que passando<br>
+
+
+Pelas fracas cidades descuidadas,<br>
+
+
+A ferro e a fogo as gentes v&atilde;o matando,<br>
+
+
+Por roubar-lhe as fazendas cobi&ccedil;adas;<br>
+
+
+Mas da soberba Europa navegando,<br>
+
+
+Imos buscando as terras apartadas<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia grande e rica, por mandado<br>
+
+
+De um Rei que temos, alto e sublimado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"Que gera&ccedil;&atilde;o t&atilde;o dura h&aacute; hi
+de gente,<br>
+
+
+Que b&aacute;rbaro costume e usan&ccedil;a feia,<br>
+
+
+Que n&atilde;o vedem os portos t&atilde;o somente,<br>
+
+
+Mas inda o hosp&iacute;cio da deserta areia?<br>
+
+
+Que m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o, que peito em
+n&oacute;s se sente,<br>
+
+
+Que de t&atilde;o pouca gente se arreceia?<br>
+
+
+Que com la&ccedil;os armados, t&atilde;o fingidos,<br>
+
+
+Nos ordenassem ver-nos destru&iacute;dos?<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"Mas tu, e quem mui certo confiamos<br>
+
+
+Achar-se mais verdade, &oacute; Rei benigno,<br>
+
+
+E aquela certa ajuda em ti esperamos,<br>
+
+
+Que teve o perdido &Iacute;taco em Alcino,<br>
+
+
+A teu porto seguro navegamos,<br>
+
+
+Conduzidos do int&eacute;rprete divino;<br>
+
+
+Que, pois a ti nos manda, est&aacute; mui claro,<br>
+
+
+Que &eacute;s de peito sincero, humano e raro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"E n&atilde;o cuides, &oacute; Rei, que n&atilde;o
+sa&iacute;sse<br>
+
+
+O nosso Capit&atilde;o esclarecido<br>
+
+
+A ver-te, ou a servir-te, porque visse<br>
+
+
+Ou suspeitasse em ti peito fingido:<br>
+
+
+Mas saber&aacute;s que o fez, porque cumprisse<br>
+
+
+O regimento, em tudo obedecido,<br>
+
+
+De seu Rei, que lhe manda que n&atilde;o saia,<br>
+
+
+Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+"E porque &eacute;, de vassalos o exerc&iacute;cio,<br>
+
+
+Que os membros tem regidos da cabe&ccedil;a,<br>
+
+
+N&atilde;o querer&aacute;s, pois tens de Rei o
+of&iacute;cio,<br>
+
+
+Que ningu&eacute;m a seu Rei desobede&ccedil;a;<br>
+
+
+Mas as merc&ecirc;s e o grande benef&iacute;cio,<br>
+
+
+Que ora acha em ti, promete que conhe&ccedil;a<br>
+
+
+Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,<br>
+
+
+Enquanto os rios para o mar correrem."<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+Assim dizia; e todos juntamente,<br>
+
+
+Uns com outros em pr&aacute;tica falando,<br>
+
+
+Louvavam muito o est&acirc;mago da gente,<br>
+
+
+Que tantos c&eacute;us e mares vai passando.<br>
+
+
+E o Rei ilustre, o peito obediente<br>
+
+
+Dos Portugueses na alma imaginando,<br>
+
+
+Tinha por valor grande e mui subido<br>
+
+
+O do Rei que &eacute; t&atilde;o longe obedecido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+E com risonha vista e ledo aspeito,<br>
+
+
+Responde ao embaixador, que tanto estima:<br>
+
+
+"Toda a suspeita m&aacute; tirai do peito,<br>
+
+
+Nenhum frio temor em v&oacute;s se imprima;<br>
+
+
+Que vosso pre&ccedil;o e obras s&atilde;o de jeito<br>
+
+
+Para vos ter o mundo em muita estima;<br>
+
+
+E quem vos fez molesto tratamento,<br>
+
+
+N&atilde;o pode ter subido pensamento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+"De n&atilde;o sair em terra toda a gente,<br>
+
+
+Por observar a usada premin&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Ainda que me pese estranhamente,<br>
+
+
+Em muito tenho a muita obedi&ecirc;ncia;<br>
+
+
+Mas, se lho o regimento n&atilde;o consente,<br>
+
+
+Nem eu consentirei que a excel&ecirc;ncia<br>
+
+
+De peitos t&atilde;o leais em si desfa&ccedil;a,<br>
+
+
+S&oacute; porque a meu desejo satisfa&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+"Por&eacute;m, como a luz cr&aacute;stina chegada<br>
+
+
+Ao mundo for, em minhas almadias<br>
+
+
+Eu irei visitar a forte armada,<br>
+
+
+Que ver tanto desejo, h&aacute; tantos dias;<br>
+
+
+E se vier do mar desbaratada,<br>
+
+
+Do furioso vento e longas vias,<br>
+
+
+Aqui ter&aacute;, de limpos pensamentos,<br>
+
+
+Piloto, muni&ccedil;&otilde;es e mantimentos."<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+Isto disse; e nas &aacute;guas se escondia<br>
+
+
+O filho de Latona; e o mensageiro<br>
+
+
+Coa embaixada alegre se partia<br>
+
+
+Para a frota, no seu batel ligeiro.<br>
+
+
+Enchem-se os peitos todos de alegria.<br>
+
+
+Por terem o rem&eacute;dio verdadeiro<br>
+
+
+Para acharem a terra que buscavam;<br>
+
+
+E assim ledos a noite festejavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+N&atilde;o faltam ali os raios de artif&iacute;cio,<br>
+
+
+Os tr&ecirc;mulos cometas imitando;<br>
+
+
+Fazem os bombardeiros seu of&iacute;cio,<br>
+
+
+O c&eacute;u, a terra e as ondas atroando.<br>
+
+
+Mostra-se dos Ciclopas o exerc&iacute;cio<br>
+
+
+Nas bombas que de fogo est&atilde;o queimando;<br>
+
+
+Outros com vozes, com que o c&eacute;u feriam,<br>
+
+
+Instrumentos alt&iacute;ssonos tangiam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+Respondem-lhe da terra juntamente,<br>
+
+
+Co'o raio volteando, com zunido;<br>
+
+
+Anda em giros no ar a roda ardente,<br>
+
+
+Estoura o p&oacute; sulf&uacute;reo escondido.<br>
+
+
+A grita se alevanta ao c&eacute;u, da gente;<br>
+
+
+O mar se via em fogos acendido,<br>
+
+
+E n&atilde;o menos a terra; e assim festeja<br>
+
+
+Um ao outro, a maneira de peleja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+Mas j&aacute; o C&eacute;u inquieto revolvendo,<br>
+
+
+As gentes incitava a seu trabalho,<br>
+
+
+E j&aacute; a m&atilde;e de Menon a luz trazendo,<br>
+
+
+Ao sono longo punha certo atalho;<br>
+
+
+Iam-se as sombras lentas desfazendo,<br>
+
+
+Sobre as flores da terra em frio orvalho,<br>
+
+
+Quando o Rei Melindano se embarcava<br>
+
+
+A ver a frota, que no mar estava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+Viam-se em derredor ferver as praias<br>
+
+
+Da gente, que a ver s&oacute; concorre leda;<br>
+
+
+Luzem da fina p&uacute;rpura as cabaias,<br>
+
+
+Lustram os panos da tecida seda;<br>
+
+
+Em lugar das guerreiras azagaias<br>
+
+
+E do arco, que os cornos arremeda<br>
+
+
+Da Lua, trazem ramos de palmeira,<br>
+
+
+Dos que vencem, coroa verdadeira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+Um batel grande e largo, que toldado<br>
+
+
+Vinha de sedas de diversas cores,<br>
+
+
+Traz o Rei de Melinde, acompanhado<br>
+
+
+De nobres e seu Reino e de senhores:<br>
+
+
+Vem de ricos vestidos adornado,<br>
+
+
+Segundo seus costumes e primores;<br>
+
+
+Na cabe&ccedil;a uma fota guarnecida<br>
+
+
+De ouro, e de seda e de algod&atilde;o tecida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+Cabaia de Damasco rico e dino,<br>
+
+
+Da T&iacute;ria cor, entre eles estimada,<br>
+
+
+Um colar ao pesco&ccedil;o, de ouro fino,<br>
+
+
+Onde a mat&eacute;ria da obra &eacute; superada,<br>
+
+
+C'um resplendor reluze adamantino;<br>
+
+
+Na cinta, a rica bem lavrada;<br>
+
+
+Nas alparcas dos p&eacute;s, em fim de tudo,<br>
+
+
+Cobrem ouro e alj&ocirc;far ao veludo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+Com um redondo emparo alto de seda,<br>
+
+
+Numa alta e dourada h&aacute;stia enxerido,<br>
+
+
+Um ministro &agrave; solar quentura veda.<br>
+
+
+Que n&atilde;o ofenda e queime o Rei subido.<br>
+
+
+M&uacute;sica traz na proa, estranha e leda,<br>
+
+
+De &aacute;spero som, horr&iacute;ssono ao ouvido,<br>
+
+
+De trombetas arcadas em redondo,<br>
+
+
+Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+N&atilde;o menos guarnecido o Lusitano<br>
+
+
+Nos seus bat&eacute;is, da frota se partia<br>
+
+
+A receber no mar o Melindano,<br>
+
+
+Com lustrosa e lograda companhia.<br>
+
+
+Vestido o Gama vem ao modo Hispano,<br>
+
+
+Mas Francesa era a roupa que vestia,<br>
+
+
+De cetim da Adri&aacute;tica Veneza<br>
+
+
+Carmesi, cor que a gente tanto preza:<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+De bot&otilde;es douro as mangas v&ecirc;m tomadas,<br>
+
+
+Onde o Sol reluzindo a vista cega;<br>
+
+
+As cal&ccedil;as soldadescas recamadas<br>
+
+
+Do metal, que Fortuna a tantos nega,<br>
+
+
+E com pontas do mesmo delicadas<br>
+
+
+Os golpes do gib&atilde;o ajunta e achega;<br>
+
+
+Ao It&aacute;lico modo a &aacute;urea espada;<br>
+
+
+Pluma na gorra, um pouco declinada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+Nos de sua companhia se mostrava<br>
+
+
+Da tinta, que d&aacute; o m&uacute;rice excelente,<br>
+
+
+A v&aacute;ria cor, que os olhos alegrava,<br>
+
+
+E a maneira do trajo diferente.<br>
+
+
+Tal o formoso esmalte se notava<br>
+
+
+Dos vestidos, olhados juntamente,<br>
+
+
+Qual aparece o arco rutilante<br>
+
+
+Da bela Ninfa, filha de Taumante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+Sonorosas trombetas incitavam<br>
+
+
+Os &acirc;nimos alegres, ressoando;<br>
+
+
+Dos Mouros os bat&eacute;is, o mar coalhavam,<br>
+
+
+Os toldos pelas &aacute;guas arrojando;<br>
+
+
+As bombardas horr&iacute;ssonas bramavam,<br>
+
+
+Com as nuvens de fumo o Sol tomando;<br>
+
+
+Ami&uacute;dam-se os brados acendidos,<br>
+
+
+Tapam com as m&atilde;os os Mouros os ouvidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+101<br>
+
+
+J&aacute; no batel entrou do Capit&atilde;o<br>
+
+
+O Rei, que nos seus bra&ccedil;os o levava;<br>
+
+
+Ele coa cortesia, que a raz&atilde;o<br>
+
+
+(Por ser Rei) requeria, lhe falava.<br>
+
+
+C'umas mostras de espanto e admira&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+O Mouro o gesto e o modo lhe notava,<br>
+
+
+Como quem em mui grande estima tinha<br>
+
+
+Gente que de t&atilde;o longe &agrave; &iacute;ndia vinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+102<br>
+
+
+E com grandes palavras lhe oferece<br>
+
+
+Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,<br>
+
+
+E que, se mantimento lhe falece,<br>
+
+
+Como se pr&oacute;prio fosse, lho pedisse.<br>
+
+
+Diz-lhe mais, que por fama bem conhece<br>
+
+
+A gente Lusitana, sem que a visse;<br>
+
+
+Que j&aacute; ouviu dizer, que noutra terra<br>
+
+
+Com gente de sua Lei tivesse guerra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+103<br>
+
+
+E como por toda &Aacute;frica se soa,<br>
+
+
+Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,<br>
+
+
+Quando nela ganharam a coroa<br>
+
+
+Do Reino, onde as Hesp&eacute;ridas viveram;<br>
+
+
+E com muitas palavras apregoa<br>
+
+
+O menos que os de Luso mereceram,<br>
+
+
+E o mais que pela fama o Rei sabia.<br>
+
+
+Mas desta sorte o Gama respondia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+104<br>
+
+
+"&Oacute; tu, que s&oacute; tiveste piedade,<br>
+
+
+Rei benigno, da gente Lusitana,<br>
+
+
+Que com tanta mis&eacute;ria e adversidade<br>
+
+
+Dos mares experimenta a f&uacute;ria insana;<br>
+
+
+Aquela alta e divina Eternidade,<br>
+
+
+Que o C&eacute;u revolve e rege a gente humana,<br>
+
+
+Pois que de ti tais obras recebemos,<br>
+
+
+Te pague o que n&oacute;s outros n&atilde;o podemos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+105<br>
+
+
+"Tu s&oacute;, de todos quantos queima Apolo,<br>
+
+
+Nos recebes em paz, cio mar profundo;<br>
+
+
+Em ti dos ventos h&oacute;rridos de Eolo<br>
+
+
+Ref&uacute;gio achamos bom, fido e jocundo.<br>
+
+
+Enquanto apascentar o largo P&oacute;lo<br>
+
+
+As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,<br>
+
+
+Onde quer que eu viver, com fama e gl&oacute;ria<br>
+
+
+Viver&atilde;o teus louvores em mem&oacute;ria."<br>
+
+
+<br>
+
+
+106<br>
+
+
+Isto dizendo, os barcos v&atilde;o remando<br>
+
+
+Para a frota, que o Mouro ver deseja;<br>
+
+
+V&atilde;o as naus uma e uma rodeando,<br>
+
+
+Porque de todas tudo note e veja.<br>
+
+
+Mas para o c&eacute;u Vulcano fuzilando,<br>
+
+
+A frota coas bombardas o festeja,<br>
+
+
+E as trombetas canoras lhe tangiam;<br>
+
+
+Co'os anafis os Mouros respondiam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+107<br>
+
+
+Mas depois de ser tudo j&aacute; notado<br>
+
+
+Do generoso Mouro, que pasmava<br>
+
+
+Ouvindo o instrumento inusitado,<br>
+
+
+Que tamanho terror em si mostrava,<br>
+
+
+Mandava estar quieto e ancorado<br>
+
+
+N'&aacute;gua o batel ligeiro que os levava,<br>
+
+
+Por falar de vagar co'o forte Gama,<br>
+
+
+Nas cousas de que tem not&iacute;cia e faina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+108<br>
+
+
+Em pr&aacute;ticas o Mouro diferentes<br>
+
+
+Se deleitava, perguntando agora<br>
+
+
+Pelas guerras famosas e excelentes<br>
+
+
+Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;<br>
+
+
+Agora lhe pergunta pelas gentes<br>
+
+
+De toda a Hesp&eacute;ria &uacute;ltima, onde mora;<br>
+
+
+Agora pelos povos seus vizinhos,<br>
+
+
+Agora pelos &uacute;midos caminhos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+109<br>
+
+
+"Mas antes, valeroso Capit&atilde;o,<br>
+
+
+Nos conta, lhe dizia, diligente,<br>
+
+
+Da terra tua o clima, e regi&atilde;o<br>
+
+
+Do mundo onde morais distintamente;<br>
+
+
+E assim de vossa antiga gera&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+E o princ&iacute;pio do Reino t&atilde;o potente,<br>
+
+
+Co'os sucessos das guerras do come&ccedil;o,<br>
+
+
+Que, sem sab&ecirc;-las, sei que s&atilde;o de pre&ccedil;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+110<br>
+
+
+"E assim tamb&eacute;m nos conta dos rodeios<br>
+
+
+Longos, em que te traz o mar irado,<br>
+
+
+Vendo os costumes b&aacute;rbaros alheios.<br>
+
+
+Que a nossa &Aacute;frica ruda tem criado.<br>
+
+
+Conta: que agora v&ecirc;m co'os &aacute;ureos freios<br>
+
+
+Os cavalos que o carro marchetado<br>
+
+
+Do novo Sol, da fria Aurora trazem,<br>
+
+
+O vento dorme, o mar e as ondas jazem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+111<br>
+
+
+"E n&atilde;o menos co'o tempo se parece<br>
+
+
+O desejo de ouvir-te o que contares;<br>
+
+
+Que quem h&aacute;, que por fama n&atilde;o conhece<br>
+
+
+As obras Portuguesas singulares?<br>
+
+
+N&atilde;o tanto desviado resplandece<br>
+
+
+De n&oacute;s o claro Sol, para julgares<br>
+
+
+Que os Melindanos t&ecirc;m t&atilde;o rudo peito,<br>
+
+
+Que n&atilde;o estimem muito um grande feito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+112<br>
+
+
+"Cometeram soberbos os Gigantes,<br>
+
+
+Com guerra v&atilde;, o Olimpo claro e puro;<br>
+
+
+Tentou Pir&iacute;too e Teseu, de ignorantes,<br>
+
+
+O Reino de Plut&atilde;o horrendo e escuro.<br>
+
+
+Se houve feitos no mundo t&atilde;o possantes,<br>
+
+
+N&atilde;o menos &eacute; trabalho ilustre e duro,<br>
+
+
+Quanto foi cometer Inferno o C&eacute;u,<br>
+
+
+Que outrem cometa a f&uacute;ria de Nereu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+113<br>
+
+
+"Queimou o sagrado templo de Diana,<br>
+
+
+Do subtil Tesif&oacute;nio fabricado,<br>
+
+
+Her&oacute;strato, por ser da gente humana<br>
+
+
+Conhecido no mundo e nomeado:<br>
+
+
+Se tamb&eacute;m com tais obras nos engana<br>
+
+
+O desejo de um nome avantajado,<br>
+
+
+Mais raz&atilde;o h&aacute; que queira eterna gl&oacute;ria<br>
+
+
+Quem faz obras t&atilde;o dignas de mem&oacute;ria."<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Terceiro</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+Agora tu, Cal&iacute;ope, me ensina<br>
+
+
+O que contou ao Rei o ilustre Gama:<br>
+
+
+Inspira imortal canto e voz divina<br>
+
+
+Neste peito mortal, que tanto te ama.<br>
+
+
+Assim o claro inventor da Medicina,<br>
+
+
+De quem Orfeu pariste, &oacute; linda Dama,<br>
+
+
+Nunca por Dafne, Cl&iacute;cie ou Leucotoe,<br>
+
+
+Te negue o amor devido, como soe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+P&otilde;e tu, Ninfa, em efeito meu desejo,<br>
+
+
+Como merece a gente Lusitana;<br>
+
+
+Que veja e saiba o mundo que do Tejo<br>
+
+
+O licor de Aganipe corre e mana.<br>
+
+
+Deixa as flores de Pindo, que j&aacute; vejo<br>
+
+
+Banhar-me Apolo na &aacute;gua soberana;<br>
+
+
+Sen&atilde;o direi que tens algum receio,<br>
+
+
+Que se escure&ccedil;a o teu querido Orfeio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+Prontos estavam todos escutando<br>
+
+
+O que o sublime Gama contaria,<br>
+
+
+Quando, depois de um pouco estar cuidando,<br>
+
+
+Alevantando o rosto, assim dizia:<br>
+
+
+"Mandas-me, &oacute; Rei, que conte declarando<br>
+
+
+De minha gente a gr&atilde;o genealogia:<br>
+
+
+N&atilde;o me mandas contar estranha hist&oacute;ria,<br>
+
+
+Mas mandas-me louvar dos meus a gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+"Que outrem possa louvar esfor&ccedil;o alheio,<br>
+
+
+Cousa &eacute; que se costuma e se deseja;<br>
+
+
+Mas louvar os meus pr&oacute;prios, arreceio<br>
+
+
+Que louvor t&atilde;o suspeito mal me esteja;<br>
+
+
+E para dizer tudo, temo e creio,<br>
+
+
+Que qualquer longo tempo curto seja:<br>
+
+
+Mas, pois o mandas, tudo se te deve,<br>
+
+
+Irei contra o que devo, e serei breve.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+"Al&eacute;m disso, o que a tudo enfim me obriga,<br>
+
+
+&Eacute; n&atilde;o poder mentir no que disser,<br>
+
+
+Porque de feitos tais, por mais que diga,<br>
+
+
+Mais me h&aacute;-de ficar inda por dizer.<br>
+
+
+Mas, porque nisto a ordens leve e siga,<br>
+
+
+Segundo o que desejas de saber,<br>
+
+
+Primeiro tratarei da larga terra,<br>
+
+
+Depois direi da sanguinosa guerra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,<br>
+
+
+Meta setentrional do Sol luzente,<br>
+
+
+E aquela que por f ria se arreceia<br>
+
+
+Tanto, como a do meio por ardente,<br>
+
+
+Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,<br>
+
+
+Pela parte do Areturo, e do Ocidente,<br>
+
+
+Com suas salsas ondas o Oceano,<br>
+
+
+E pela Austral o mar Mediterrano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+"Da parte donde o dia vem nascendo,<br>
+
+
+Com &Aacute;sia se avizinha; mas o rio<br>
+
+
+Que dos montes Rifeios vai correndo,<br>
+
+
+Na alagoa Meotis, curvo o frio,<br>
+
+
+As divide: e o mar que, fero e horrendo,<br>
+
+
+Viu dos Gregos o irado senhorio,<br>
+
+
+Onde agora de Tr&oacute;ia triunfante<br>
+
+
+N&atilde;o v&ecirc; mais que a mem&oacute;ria o navegante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+"L&aacute; onde mais debaixo est&aacute; do P&oacute;lo,<br>
+
+
+Os montes Hiperb&oacute;reos aparecem,<br>
+
+
+E aqueles onde sempre sopra Eolo,<br>
+
+
+E co'o nome, dos sopros se enobrecem.<br>
+
+
+Aqui t&atilde;o pouca for&ccedil;a tem de Apolo<br>
+
+
+Os raios que no mundo resplandecem,<br>
+
+
+Que a neve est&aacute; contido pelos montes,<br>
+
+
+Gelado o mar, geladas sempre as fontes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+"Aqui dos Citas grande quantidade<br>
+
+
+Vivem, que antigamente grande guerra<br>
+
+
+Tiveram, sobre a humana antiguidade,<br>
+
+
+Co'os que tinham ent&atilde;o a Eg&iacute;pcia terra;<br>
+
+
+Mas quem t&atilde;o fora estava da verdade,<br>
+
+
+(J&aacute; que o ju&iacute;zo humano tanto erra)<br>
+
+
+Para que do mais certo se informara,<br>
+
+
+Ao campo Damasceno o perguntara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+"Agora nestas partes se nomeia<br>
+
+
+A L&aacute;pia fria, a inculta Noruega,<br>
+
+
+Escandin&aacute;via Ilha, que se arreia<br>
+
+
+Das vit&oacute;rias que It&aacute;lia n&atilde;o lhe nega.<br>
+
+
+Aqui, enquanto as &aacute;guas n&atilde;o refreia<br>
+
+
+O congelado inverno, se navega<br>
+
+
+Um bra&ccedil;o do Sarm&aacute;tico Oceano<br>
+
+
+Pelo Br&uacute;sio, Su&eacute;cio e frio Dano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+"Entre este mar e o T&aacute;nais vive estranha<br>
+
+
+Gente: Rutenos, Moseos e Liv&oacute;nios,<br>
+
+
+S&aacute;rmatas outro tempo; e na montanha<br>
+
+
+Hirc&iacute;nia os Marcomanos s&atilde;o Pol&oacute;nios.<br>
+
+
+Sujeitos ao Imp&eacute;rio de Alemanha<br>
+
+
+S&atilde;o Saxones, Bo&ecirc;mios e Pan&oacute;nios,<br>
+
+
+E outras v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es, que o Reno frio<br>
+
+
+Lava, e o Dan&uacute;bio, Amasis e Albis rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,<br>
+
+
+Aonde Hele deixou co'o nome a vida,<br>
+
+
+Est&atilde;o os Traces de robusto peito,<br>
+
+
+Do fero Marte p&aacute;tria t&atilde;o querida,<br>
+
+
+Onde, colo Hemo, o R&oacute;dope sujeito<br>
+
+
+Ao Otomano est&aacute;, que submetida<br>
+
+
+Biz&acirc;ncio tem a seu servi&ccedil;o indino:<br>
+
+
+Boa inj&uacute;ria do grande Constantino!<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+"Logo de Maced&oacute;nia est&atilde;o as gentes,<br>
+
+
+A quem lava do Axio a &aacute;gua fria;<br>
+
+
+E v&oacute;s tamb&eacute;m, &oacute; terras excelentes<br>
+
+
+Nos costumes, engenhos e ousadia,<br>
+
+
+Que criastes os peitos eloquentes<br>
+
+
+E os ju&iacute;zos de alta fantasia,<br>
+
+
+Com quem tu, clara Gr&eacute;cia, o C&eacute;u penetras,<br>
+
+
+E n&atilde;o menos por armas, que por letras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+"Logo os D&aacute;lmatas vivem; e no seio,<br>
+
+
+Onde Antenor j&aacute; muros levantou,<br>
+
+
+A soberba Veneza est&aacute; no meio<br>
+
+
+Das &aacute;guas, que t&atilde;o baixa come&ccedil;ou.<br>
+
+
+Da terra um bra&ccedil;o vem ao mar, que cheio<br>
+
+
+De esfor&ccedil;o, na&ccedil;&otilde;es v&aacute;rias
+sujeitou,<br>
+
+
+Bra&ccedil;o forte, de gente sublimada,<br>
+
+
+N&atilde;o menos nos engenhos, que na espada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+"Em torno o cerca o Reino Neptunino,<br>
+
+
+Co'os muros naturais por outra parte;<br>
+
+
+Pelo meio o divide o Apenino,<br>
+
+
+Que t&atilde;o ilustre fez o p&aacute;trio Marte;<br>
+
+
+Mas depois que o Porteiro tem divino,<br>
+
+
+Perdendo o esfor&ccedil;o veio, e b&eacute;lica arte;<br>
+
+
+Pobre est&aacute; j&aacute; de antiga potestade:<br>
+
+
+Tanto Deus se contenta de humildade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+"G&aacute;lia ali se ver&aacute; que nomeada<br>
+
+
+Co'os Ces&aacute;reos triunfos foi no mundo,<br>
+
+
+Que do S&eacute;quana e R&oacute;dano &eacute; regada,<br>
+
+
+E do Giruna frio e Reno fundo.<br>
+
+
+Logo os montes da Ninfa sepultada<br>
+
+
+Pirene se alevantam, que segundo<br>
+
+
+Antiguidades contam, quando arderam,<br>
+
+
+Rios de ouro e de prata ent&atilde;o correram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,<br>
+
+
+Como cabe&ccedil;a ali de Europa toda,<br>
+
+
+Em cujo senhorio o gl&oacute;ria estranha<br>
+
+
+Muitas voltas tem dado a fatal roda;<br>
+
+
+Mas nunca poder&aacute;, com for&ccedil;a ou manha,<br>
+
+
+A fortuna inquieta p&ocirc;r-lhe noda,<br>
+
+
+Que lhe n&atilde;o tire o esfor&ccedil;o e ousadia<br>
+
+
+Dos belicosos peitos que em si cria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+"Com Tingit&acirc;nia entesta, e ali parece<br>
+
+
+Que quer fechar o mar Mediterrano,<br>
+
+
+Onde o sabido Estreito se enobrece<br>
+
+
+Co'o extremo trabalhado Tebano.<br>
+
+
+Com na&ccedil;&otilde;es diferentes se engrandece,<br>
+
+
+Cercadas com as ondas do Oceano;<br>
+
+
+Todas de tal nobreza e tal valor,<br>
+
+
+Que qualquer delas cuida que &eacute; melhor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+"Tem o Tarragon&ecirc;s, que se fez claro<br>
+
+
+Sujeitando Part&eacute;nope inquieta;<br>
+
+
+O Navarro, as Ast&uacute;rias, que reparo<br>
+
+
+J&aacute; foram contra a gente Mahometa;<br>
+
+
+Tem o Galego cauto, e o grande e raro<br>
+
+
+Castelhano, a quem fez o seu Planeta<br>
+
+
+Restituidor de Espanha e senhor dela,<br>
+
+
+B&eacute;tis, Li&atilde;o, Granada, com Castela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+"Eis aqui, quase cume da cabe&ccedil;a<br>
+
+
+De Europa toda, o Reino Lusitano,<br>
+
+
+Onde a terra se acaba e o mar come&ccedil;a,<br>
+
+
+E onde Febo repousa no Oceano.<br>
+
+
+Este quis o C&eacute;u justo que flores&ccedil;a<br>
+
+
+Nas armas contra o torpe Mauritano,<br>
+
+
+Deitando-o de si fora, e l&aacute; na ardente<br>
+
+
+&Aacute;frica estar quieto o n&atilde;o consente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+"Esta &eacute; a ditosa p&aacute;tria minha amada,<br>
+
+
+A qual se o C&eacute;u me d&aacute; que eu sem perigo<br>
+
+
+Torne, com esta empresa j&aacute; acabada,<br>
+
+
+Acabe-se esta luz ali comigo.<br>
+
+
+Esta foi Lusit&acirc;nia, derivada<br>
+
+
+De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo<br>
+
+
+Filhos foram, parece, ou companheiros,<br>
+
+
+E nela ent&atilde;o os &Iacute;ncolas primeiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+"Desta o pastor nasceu, que no seu nome<br>
+
+
+Se v&ecirc; que de homem forte os feitos teve;<br>
+
+
+Cuja fama ningu&eacute;m vir&aacute; que dome,<br>
+
+
+Pois a grande de Roma n&atilde;o se atreve.<br>
+
+
+Esta, o velho que os filhos pr&oacute;prios come<br>
+
+
+Por decreto do C&eacute;u, ligeiro e leve,<br>
+
+
+Veio a fazer no mundo tanta parte,<br>
+
+
+Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,<br>
+
+
+Que fez aos Sarracenos tanta guerra,<br>
+
+
+Que por armas sanguinas, for&ccedil;a e manha,<br>
+
+
+A muitos fez perder a vida o a terra;<br>
+
+
+Voando deste Rei a fama estranha<br>
+
+
+Do Herculano Calpe &agrave; C&aacute;spia serra,<br>
+
+
+Muitos, para na guerra esclarecer-se,<br>
+
+
+Vinham a ele e &agrave; morte oferecer-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"E com um amor intr&iacute;nseco acendidos<br>
+
+
+Da F&eacute;, mais que das honras populares,<br>
+
+
+Eram de v&aacute;rias terras conduzidos,<br>
+
+
+Deixando a p&aacute;tria amada e pr&oacute;prios lares.<br>
+
+
+Depois que em feitos altos e subidos<br>
+
+
+Se mostraram nas armas singulares,<br>
+
+
+Quis o famoso Afonso que obras tais<br>
+
+
+Levassem pr&eacute;mio digno e dons iguais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"Destes Anrique, dizem que segundo<br>
+
+
+Filho de um Rei de Ungria exprimentado,<br>
+
+
+Portugal houve em sorte, que no mundo<br>
+
+
+Ent&atilde;o n&atilde;o era ilustre nem prezado;<br>
+
+
+E, para mais sinal d'amor profundo,<br>
+
+
+Quis o Rei Castelhano, que casado<br>
+
+
+Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;<br>
+
+
+E com ela das terras tornou posse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"Este, depois que contra os descendentes<br>
+
+
+Da escrava Agar vit&oacute;rias grandes teve,<br>
+
+
+Ganhando muitas terras adjacentes,<br>
+
+
+Fazendo o que a seu forte peito deve,<br>
+
+
+Em pr&eacute;mio destes feitos excelentes,<br>
+
+
+Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,<br>
+
+
+Um filho, que ilustrasse o nome ufano<br>
+
+
+Do belicoso Reino Lusitano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"J&aacute; tinha vindo Anrique da conquista<br>
+
+
+Da cidade Hieros&oacute;lima sagrada,<br>
+
+
+E do Jord&atilde;o a areia tinha vista,<br>
+
+
+Que viu de Deus a carne em si lavada;<br>
+
+
+Que n&atilde;o tendo Gotfredo a quem resista,<br>
+
+
+Depois de ter Judeia sojugada,<br>
+
+
+Muitos, que nestas guerras o ajudaram,<br>
+
+
+Para seus senhorios se tornaram;<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Quando chegado ao fim de sua idade,<br>
+
+
+O forte e famoso &Uacute;ngaro estremado,<br>
+
+
+For&ccedil;ado da fatal necessidade,<br>
+
+
+O esp&iacute;rito deu a quem lhe tinha dado,<br>
+
+
+Ficava o filho em tenra mocidade,<br>
+
+
+Em quem o pai deixava seu traslado,<br>
+
+
+Que do mundo os mais fortes igualava;<br>
+
+
+Que de tal pai tal filho se esperava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Mas o velho rumor, n&atilde;o sei se errado,<br>
+
+
+Que em tanta antiguidade n&atilde;o h&aacute; certeza,<br>
+
+
+Conta que a m&atilde;e, tomando todo o estado,<br>
+
+
+Do segundo himeneu n&atilde;o se despreza.<br>
+
+
+O filho &oacute;rf&atilde;o deixava deserdado,<br>
+
+
+Dizendo que nas terras a grandeza<br>
+
+
+Do senhorio todo s&oacute; sua era,<br>
+
+
+Porque, para casar, seu pai lhes dera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Mas o Pr&iacute;ncipe Afonso, que desta arte<br>
+
+
+Se chamava, do av&ocirc; tomando o nome,<br>
+
+
+Vendo-se em suas terras n&atilde;o ter parte,<br>
+
+
+Que a m&atilde;e, com seu marido, as manda e come,<br>
+
+
+Fervendo-lhe no peito o duro Marte,<br>
+
+
+Imagina consigo como as tome.<br>
+
+
+Revolvidas as causas no conceito,<br>
+
+
+Ao prop&oacute;sito firme segue o efeito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"De Guimar&atilde;es o campo se tingia<br>
+
+
+Co'o sangue pr&oacute;prio da intestina guerra,<br>
+
+
+Onde a m&atilde;e, que t&atilde;o pouco o parecia,<br>
+
+
+A seu filho negava o amor e a terra.<br>
+
+
+Com ele posta em campo j&aacute; se via;<br>
+
+
+E n&atilde;o v&ecirc; a soberba o muito que erra<br>
+
+
+Contra Deus, contra o maternal amor;<br>
+
+
+Mas nela o sensual era maior.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"&Oacute; Progne crua! &oacute; m&aacute;gica Medeia!<br>
+
+
+Se em vossos pr&oacute;prios filhos vos vingais<br>
+
+
+Da maldade dos pais, da culpa alheia,<br>
+
+
+Olhai que inda Teresa peca mais:<br>
+
+
+Incontin&ecirc;ncia m&aacute;, cobi&ccedil;a feia,<br>
+
+
+S&atilde;o as causas deste erro principais:<br>
+
+
+Cila, por uma, mata o velho pai,<br>
+
+
+Esta, por ambas, contra o filho vai.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Mas j&aacute; o Pr&iacute;ncipe claro o vencimento<br>
+
+
+Do padrasto e da in&iacute;qua m&atilde;e levava;<br>
+
+
+J&aacute; lhe obedece a terra num momento,<br>
+
+
+Que primeiro contra ele pelejava.<br>
+
+
+Por&eacute;m, vencido de ira o entendimento,<br>
+
+
+A m&atilde;e em ferros &aacute;speros atava;<br>
+
+
+Mas de Deus foi vingada em tempo breve:<br>
+
+
+Tanta venera&ccedil;&atilde;o aos pais se deve!<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,<br>
+
+
+Para vingar a inj&uacute;ria de Teresa,<br>
+
+
+Contra o t&atilde;o raro em gente Lusitano,<br>
+
+
+A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.<br>
+
+
+Em batalha cruel o peito humano,<br>
+
+
+Ajudado da ang&eacute;lica defesa,<br>
+
+
+N&atilde;o s&oacute; contra tal f&uacute;ria se sustenta,<br>
+
+
+Mas o inimigo asp&eacute;rrimo afugenta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"N&atilde;o passa muito tempo, quando o forte<br>
+
+
+Pr&iacute;ncipe em Guimar&atilde;es est&aacute; cercado<br>
+
+
+De infinito poder; que desta sorte<br>
+
+
+Foi refazer-se o inimigo magoado;<br>
+
+
+Mas, com se oferecer &agrave; dura morte<br>
+
+
+O fiel Egas amo, foi livrado;<br>
+
+
+Que de outra arte pudera ser perdido,<br>
+
+
+Segundo estava mal apercebido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"lulas o leal vassalo, conhecendo<br>
+
+
+Que seu senhor n&atilde;o tinha resist&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Se vai ao Castelhano, prometendo<br>
+
+
+Que ele faria dar-lhe obedi&ecirc;ncia.<br>
+
+
+Levanta o inimigo o cerco horrendo,<br>
+
+
+Fiado na promessa e consci&ecirc;ncia<br>
+
+
+De Egas Moniz; mas n&atilde;o consente o peito<br>
+
+
+Do mo&ccedil;o ilustre a outrem ser sujeito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"Chegado tinha o prazo prometido,<br>
+
+
+Em que o Rei Castelhano j&aacute; aguardava<br>
+
+
+Que o Pr&iacute;ncipe, a seu mando sometido,<br>
+
+
+Lhe desse a obedi&ecirc;ncia que esperava.<br>
+
+
+Vendo Egas que ficava fementido,<br>
+
+
+O que dele Castela n&atilde;o cuidava,<br>
+
+
+Determina de dar a doce vida<br>
+
+
+A troco da palavra mal cumprida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"E com seus filhos e mulher se parte<br>
+
+
+A alevantar com eles a fian&ccedil;a,<br>
+
+
+Descal&ccedil;os e despidos, de tal arte,<br>
+
+
+Que mais move a piedade que a vingan&ccedil;a.<br>
+
+
+&mdash;"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te<br>
+
+
+De minha temer&aacute;ria confian&ccedil;a,<br>
+
+
+Dizia, eis aqui venho oferecido<br>
+
+
+A te pagar, coa vida, o prometido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"V&ecirc;s aqui trago as vidas inocentes<br>
+
+
+Dos filhos sem pecado e da consorte;<br>
+
+
+Se a peitos generosos e excelentes,<br>
+
+
+Dos fracos satisfaz a fera morte.<br>
+
+
+V&ecirc;s aqui as m&atilde;os e a l&iacute;ngua
+delinquentes:<br>
+
+
+Nelas s&oacute;s exprimenta toda a sorte<br>
+
+
+De tormentos, de mortes, pelo estilo<br>
+
+
+De C&iacute;nis e do touro de Perilo"!&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Qual diante do algoz o condenado,<br>
+
+
+Que j&aacute; na vida a morte tem bebido,<br>
+
+
+P&otilde;e no cepo a garganta, e j&aacute; entregado<br>
+
+
+Espera pelo golpe t&atilde;o temido:<br>
+
+
+Tal diante do Pr&iacute;ncipe indinado,<br>
+
+
+Egas estava a tudo oferecido.<br>
+
+
+Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,<br>
+
+
+Mais p&ocirc;de, enfim, que a ira a piedade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"&Oacute; gr&atilde;o fidelidade Portuguesa,<br>
+
+
+De vassalo, que a tanto se obrigava!<br>
+
+
+Que mais o Persa fez naquela empresa,<br>
+
+
+Onde rosto e narizes se cortava?<br>
+
+
+Do que ao grande Dario tanto pesa,<br>
+
+
+Que mil vezes dizendo suspirava,<br>
+
+
+Que mais o seu Zopiro s&atilde;o prezara,<br>
+
+
+Que vinte Babil&oacute;nias que tomara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+Mas j&aacute; o Pr&iacute;ncipe Afonso aparelhava<br>
+
+
+O Lusitano ex&eacute;rcito ditoso,<br>
+
+
+Contra o Mouro que as terras habitava<br>
+
+
+D'al&eacute;m do claro Tejo deleitoso;<br>
+
+
+J&aacute; no campo de Ourique se assentava<br>
+
+
+O arraial soberbo e belicoso,<br>
+
+
+Defronte do inimigo Sarraceno,<br>
+
+
+Posto que em for&ccedil;a e gente t&atilde;o pequeno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+"Em nenhuma outra cousa confiado,<br>
+
+
+Sen&atilde;o no sumo Deus, que o C&eacute;u regia,<br>
+
+
+Que t&atilde;o pouco era o povo batizado,<br>
+
+
+Que para um s&oacute; cem Mouros haveria.<br>
+
+
+Julga qualquer ju&iacute;zo sossegado<br>
+
+
+Por mais temeridade que ousadia,<br>
+
+
+Cometer um tamanho ajuntamento,<br>
+
+
+Que para um cavaleiro houvesse cento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+"Cinco Reis Mouros s&atilde;o os inimigos,<br>
+
+
+Dos quais o principal Ismar se chama;<br>
+
+
+Todos exprimentados nos perigos<br>
+
+
+Da guerra, onde se alcan&ccedil;a a ilustre fama.<br>
+
+
+Seguem guerreiras damas seus amigos,<br>
+
+
+Imitando a formosa e forte Dama,<br>
+
+
+De quem tanto os Troianos se ajudaram,<br>
+
+
+E as que o Termodonte j&aacute; gostaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+"A matutina luz serena e fria,<br>
+
+
+As estrelas do P&oacute;lo j&aacute; apartava,<br>
+
+
+Quando na Cruz o Filho de Maria,<br>
+
+
+Amostrando-se a Afonso, o animava.<br>
+
+
+Ele, adorando quem lhe aparecia,<br>
+
+
+Na F&eacute; todo inflamado assim gritava:<br>
+
+
+&mdash;"Aos infi&eacute;is, Senhor, aos infi&eacute;is,<br>
+
+
+E n&atilde;o a mim, que creio o que podeis!"<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+"Com tal milagre os &acirc;nimos da gente<br>
+
+
+Portuguesa inflamados, levantavam<br>
+
+
+Por seu Rei natural este excelente<br>
+
+
+Pr&iacute;ncipe, que do peito tanto amavam;<br>
+
+
+E diante do ex&eacute;rcito potente<br>
+
+
+Dos imigos, gritando o c&eacute;u tocavam,<br>
+
+
+Dizendo em alta voz:&mdash;"Real, real,<br>
+
+
+Por Afonso alto Rei de Portugal."<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+"Qual co'os gritos e vozes incitado,<br>
+
+
+Pela montanha o r&aacute;bido Moloso,<br>
+
+
+Contra o touro remete, que fiado<br>
+
+
+Na for&ccedil;a est&aacute; do corno temeroso:<br>
+
+
+Ora pega na orelha, ora no lado,<br>
+
+
+Latindo mais ligeiro que for&ccedil;oso,<br>
+
+
+At&eacute; que enfim, rompendo-lhe a garganta,<br>
+
+
+Do bravo a for&ccedil;a horrenda se quebranta:<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+"Tal do Rei novo o est&acirc;mago acendido<br>
+
+
+Por Deus e pelo povo juntamente,<br>
+
+
+O B&aacute;rbaro comete apercebido,<br>
+
+
+Co'o animoso ex&eacute;rcito rompente.<br>
+
+
+Levantam nisto os perros o alarido<br>
+
+
+Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,<br>
+
+
+As lan&ccedil;as e arcos tomam, tubas soam,<br>
+
+
+Instrumentos de guerra tudo atroam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+"Bem como quando a flama, que ateada<br>
+
+
+Foi nos &aacute;ridos campos (assoprando<br>
+
+
+O sibilante B&oacute;reas) animada<br>
+
+
+Co'o vento, o seco mato vai queimando;<br>
+
+
+A pastoral companha, que deitada<br>
+
+
+Co'o doce sono estava, despertando<br>
+
+
+Ao estridor do fogo que se ateia,<br>
+
+
+Recolhe o fato, e foge para a aldeia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+"Desta arte o Mouro at&oacute;nito e torvado,<br>
+
+
+Toma sem tento as armas mui depressa;<br>
+
+
+N&atilde;o foge; mas espera confiado,<br>
+
+
+E o ginete bel&iacute;gero arremessa.<br>
+
+
+O Portugu&ecirc;s o encontra denodado,<br>
+
+
+Pelos peitos as lan&ccedil;as lhe atravessa:<br>
+
+
+Uns caem meios mortos, e outros v&atilde;o<br>
+
+
+A ajuda convocando do Alcor&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"Ali se v&ecirc;em encontros temerosos,<br>
+
+
+Para se desfazer uma alta serra,<br>
+
+
+E os animais correndo furiosos<br>
+
+
+Que Neptuno amostrou ferindo a terra.<br>
+
+
+Golpes se d&atilde;o medonhos e for&ccedil;osos;<br>
+
+
+Por toda a parte andava acesa a guerra:<br>
+
+
+Mas o de Luso arn&ecirc;s, coura&ccedil;a e malha<br>
+
+
+Rompe, corta, desfaz, abola e talha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"Cabe&ccedil;as pelo campo v&atilde;o saltando<br>
+
+
+Bra&ccedil;os, pernas, sem dono e sem sentido;<br>
+
+
+E doutros as entranhas palpitando,<br>
+
+
+P&aacute;lida a cor, o gesto amortecido.<br>
+
+
+J&aacute; perde o campo o ex&eacute;rcito nefando;<br>
+
+
+Correm rios de sangue desparzido,<br>
+
+
+Com que tamb&eacute;m do campo a cor se perde,<br>
+
+
+Tornado carmesi de branco e verde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"J&aacute; fica vencedor o Lusitano,<br>
+
+
+Recolhendo os trof&eacute;us e presa rica;<br>
+
+
+Desbaratado e roto o Mauro Hispano,<br>
+
+
+Tr&ecirc;s dias o gr&atilde;o Rei no campo fiei.<br>
+
+
+Aqui pinta no branco escudo ufano,<br>
+
+
+Que agora esta vit&oacute;ria certifica,<br>
+
+
+Cinco escudos azuis esclarecidos,<br>
+
+
+Em sinal destes cinco Reis vencidos,<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+"E nestes cinco escudos pinta os trinta<br>
+
+
+Dinheiros por que Deus fora vendido,<br>
+
+
+Escrevendo a mem&oacute;ria em v&aacute;ria tinta,<br>
+
+
+Daquele de quem foi favorecido.<br>
+
+
+Em cada uni dos cinco, cinco pinta,<br>
+
+
+Porque assim fica o n&uacute;mero cumprido,<br>
+
+
+Contando duas vezes o do meio,<br>
+
+
+Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+"Passado j&aacute; algum tempo que passada<br>
+
+
+Era esta gr&atilde;o vit&oacute;ria, o Rei subido<br>
+
+
+A tomar vai Leiria, que tomada<br>
+
+
+Fora, mui pouco havia, do vencido.<br>
+
+
+Com esta a forte Arronches sojugada<br>
+
+
+Foi juntamente, e o sempre enobrecido<br>
+
+
+Scalabicastro, cujo campo ameno,<br>
+
+
+Tu, claro Tejo, regas t&atilde;o sereno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+"A estas nobres vilas sometidas,<br>
+
+
+Ajunta tamb&eacute;m Mafra, em pouco espa&ccedil;o,<br>
+
+
+E nas serras da Lua conhecidas,<br>
+
+
+Sojuga a fria Sintra o duro bra&ccedil;o;<br>
+
+
+Sintra, onde as Naiades, escondidas<br>
+
+
+Nas fontes, v&atilde;o fugindo ao doce la&ccedil;o,<br>
+
+
+Onde Amor as enreda brandamente,<br>
+
+
+Nas &aacute;guas acendendo fogo ardente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo<br>
+
+
+Facilmente das outras &eacute;s princesa,<br>
+
+
+Que edificada foste do facundo,<br>
+
+
+Por cujo engano foi Dard&acirc;nia acesa;<br>
+
+
+Tu, a quem obedece o mar profundo,<br>
+
+
+Obedeceste &agrave; for&ccedil;a Portuguesa,<br>
+
+
+Ajudada tamb&eacute;m da forte armada,<br>
+
+
+Que das Boreais partes foi mandada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+"L&aacute; do Germ&acirc;nico Albis, e do Rene,<br>
+
+
+E da fria Bretanha conduzidos,<br>
+
+
+A destruir o povo Sarraceno,<br>
+
+
+Muitos com tens&atilde;o santa eram partidos.<br>
+
+
+Entrando a boca j&aacute; do Tejo ameno,<br>
+
+
+Co'o arraial do grande Afonso unidos,<br>
+
+
+Cuja alta fama ent&atilde;o subia aos C&eacute;us,<br>
+
+
+Foi posto cerco tos muros Ulisseus.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+"Cinco vezes a Lua se escondera,<br>
+
+
+E outras tantas mostrara cheio o rosto,<br>
+
+
+Quando a cidade entrada se rendera<br>
+
+
+Ao duro cerco, que lhe estava posto.<br>
+
+
+Foi a batalha t&atilde;o sanguina e fera,<br>
+
+
+Quanto obrigava o firme pressuposto<br>
+
+
+De vencedores &aacute;speros e ousados,<br>
+
+
+E de vencidos j&aacute; desesperados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"Desta arte enfim tomada se rendeu<br>
+
+
+Aquela que, nos tempos j&aacute; passados,<br>
+
+
+A grande for&ccedil;a nunca obedeceu<br>
+
+
+Dos frios povos C&iacute;ticos ousados,<br>
+
+
+Cujo poder a tanto se estendeu<br>
+
+
+Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;<br>
+
+
+E enfim co'o B&eacute;tis tanto alguns puderam<br>
+
+
+Que &agrave; terra de Vand&aacute;lia nome deram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"Que cidade t&atilde;o forte por ventura<br>
+
+
+Haver&aacute; que resista, se Lisboa<br>
+
+
+N&atilde;o p&ocirc;de resistir &agrave; for&ccedil;a
+dura<br>
+
+
+Da gente, cuja fama tanto voa?<br>
+
+
+J&aacute; lhe obedece toda a Estremadura,<br>
+
+
+&Oacute;bidos, Alenquer, por onde soa<br>
+
+
+O tom das frescas &aacute;guas, entre as pedras,<br>
+
+
+Que murmurando lava, e Torres Vedras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"E v&oacute;s tamb&eacute;m, &oacute; terras Transtaganas,<br>
+
+
+Afamadas co'o dom da flava Ceres,<br>
+
+
+Obedeceis &agrave;s for&ccedil;as mais que humanas,<br>
+
+
+Entregando-lhe os muros e os poderes.<br>
+
+
+E tu, lavrador Mouro, que te enganas,<br>
+
+
+Se sustentar a f&eacute;rtil terra queres;<br>
+
+
+Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,<br>
+
+
+E Alc&aacute;cere-do-Sal est&atilde;o rendidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"Eis a nobre Cidade, certo assento<br>
+
+
+Do rebelde Sert&oacute;rio antigamente,<br>
+
+
+Onde ora as &aacute;guas n&iacute;tidas de argento<br>
+
+
+Vem sustentar de longo a terra e a gente,<br>
+
+
+Pelos arcos reais, que cento e cento<br>
+
+
+Nos ares se alevantam nobremente,<br>
+
+
+Obedeceu por meio e ousadia<br>
+
+
+De Giraldo, que medos n&atilde;o temia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+"J&aacute; na cidade Beja vai tomar<br>
+
+
+Vingan&ccedil;a de Trancoso destru&iacute;da<br>
+
+
+Afonso, que n&atilde;o sabe sossegar,<br>
+
+
+Por estender coa fama a curta vida.<br>
+
+
+N&atilde;o se lhe pode muito sustentar<br>
+
+
+A cidade; mas sendo j&aacute; rendida,<br>
+
+
+Em toda a cousa viva a gente irada<br>
+
+
+Provando os fios vai da dura espada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Com estas sojugada foi Palmela,<br>
+
+
+E a piscosa Cezimbra, e juntamente,<br>
+
+
+Sendo ajudado mais de sua estrela,<br>
+
+
+Desbarata um ex&eacute;rcito potente:<br>
+
+
+Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,<br>
+
+
+Que a socorr&ecirc;-la vinha diligente<br>
+
+
+Pela fralda da serra, descuidado<br>
+
+
+Do temeroso encontro inopinado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+"O Rei de Badajoz era alto Mouro,<br>
+
+
+Com quatro mil cavalos furiosos,<br>
+
+
+In&uacute;meros pe&otilde;es, d'armas e de ouro<br>
+
+
+Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.<br>
+
+
+Mas, qual no m&ecirc;s de Maio o bravo touro,<br>
+
+
+Co'os ci&uacute;mes da vaca, arreceosos,<br>
+
+
+Sentindo gente o bruto e cego amante<br>
+
+
+Salteia o descuidado caminhante:<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"Desta arte Afonso s&uacute;bito mostrado<br>
+
+
+Na gente d&aacute;, que passa bem segura,<br>
+
+
+Fere, mata, derriba denodado;<br>
+
+
+Foge o Rei Mouro, e s&oacute; da vida cura.<br>
+
+
+Dum p&acirc;nico terror todo assombrado,<br>
+
+
+S&oacute; de segui-lo o ex&eacute;rcito procura;<br>
+
+
+Sendo estes que fizeram tanto abalo<br>
+
+
+N&atilde;o mais que s&oacute; sessenta de cavalo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Logo segue a vit&oacute;ria sem tardan&ccedil;a<br>
+
+
+O gr&atilde;o Rei incans&aacute;bil, ajuntando<br>
+
+
+Gentes de todo o Reino, cuja usan&ccedil;a<br>
+
+
+Era andar sempre terras conquistando.<br>
+
+
+Cercar vai Badajoz, e logo alcan&ccedil;a<br>
+
+
+O fim de seu desejo, pelejando<br>
+
+
+Com tanto esfor&ccedil;o, e arte, e valentia,<br>
+
+
+Que a fez fazer &agrave;s outras companhia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Mas o alto Deus, que para longe guarda<br>
+
+
+O castigo daquele que o merece,<br>
+
+
+Ou, para que se emende, &agrave;s vezes tarda,<br>
+
+
+Ou por segredos que homem n&atilde;o conhece,<br>
+
+
+Se at&eacute; que sempre o forte Rei resguarda<br>
+
+
+Dos perigos a que ele se oferece;<br>
+
+
+Agora lhe n&atilde;o deixa ter defesa<br>
+
+
+Da maldi&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e que estava presa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Que estando na cidade, que cercara,<br>
+
+
+Cercado nela foi dos Lioneses,<br>
+
+
+Porque a conquista dela lhe tomara,<br>
+
+
+De Li&atilde;o sendo, e n&atilde;o dos Portugueses.<br>
+
+
+A pertin&aacute;cia aqui lhe custa cara,<br>
+
+
+Assim como acontece muitas vezes,<br>
+
+
+Que em ferros quebra as pernas, indo aceso<br>
+
+
+A batalha, onde foi vencido e preso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"&Oacute; famoso Pompeio, n&atilde;o te pene<br>
+
+
+De teus feitos ilustres a ru&iacute;na,<br>
+
+
+Nem ver que a justa N&eacute;mesis ordene<br>
+
+
+Ter teu sogro de ti vit&oacute;ria dina,<br>
+
+
+Posto que o frio F&aacute;sis, ou Siene,<br>
+
+
+Que para nenhum cabo a sombra inclina,<br>
+
+
+O Bootes gelado e a linha ardente,<br>
+
+
+Temessem o teu nome geralmente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"Posto que a rica Ar&aacute;bia e que os ferozes<br>
+
+
+En&iacute;ocos e Colcos, cuja fama<br>
+
+
+O V&eacute;u dourado estende, e os Capadoces,<br>
+
+
+E Judeia, que um Deus adora e ama,<br>
+
+
+E que os moles Sofenos, e os atroces<br>
+
+
+Cil&iacute;cios, com a Arm&eacute;nia, que derrama<br>
+
+
+As &aacute;guas dos dous rios, cuja fonte<br>
+
+
+Est&aacute; noutro mais alto e santo monte;<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+"E posto enfim que desde o mar de Atlante<br>
+
+
+At&eacute; o C&iacute;tico Tauro monte erguido,<br>
+
+
+J&aacute; vencedor te vissem, n&atilde;o te espanto<br>
+
+
+Se o campo Em&aacute;tio s&oacute; te viu vencido,<br>
+
+
+Porque Afonso ver&aacute;s, soberbo e ovante,<br>
+
+
+Tudo render-se ser depois rendido.<br>
+
+
+Assim o quis o conselho alto e celeste,<br>
+
+
+Que ven&ccedil;a o sogro a ti, e o genro a este.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+"Tornado o Rei sublime finalmente,<br>
+
+
+Do divino Ju&iacute;zo castigado,<br>
+
+
+Depois que em Santar&eacute;m soberbamente<br>
+
+
+Em v&atilde;o dos Sarracenos foi cercado,<br>
+
+
+E depois que do m&aacute;rtire Vicente<br>
+
+
+O sant&iacute;ssimo corpo venerado<br>
+
+
+Do Sacro Promont&oacute;rio conhecido<br>
+
+
+A cidade Ulisseia foi trazido;<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+"Porque levasse avante seu desejo,<br>
+
+
+Ao forte filho manda o lasso velho<br>
+
+
+Que &agrave;s terras se passasse d'Alentejo,<br>
+
+
+Com gente e co'o bel&iacute;gero aparelho.<br>
+
+
+Sancho, d'esfor&ccedil;o o d'&acirc;nimo sobejo,<br>
+
+
+Avante passa, e faz correr vermelho<br>
+
+
+O rio que Sevilha vai regando,<br>
+
+
+Co'o sangue Mauro, b&aacute;rbaro e nefando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+"E com esta vit&oacute;ria cobi&ccedil;oso,<br>
+
+
+J&aacute; n&atilde;o descansa o mo&ccedil;o at&eacute;
+que veja<br>
+
+
+Outro estrago como este, temeroso,<br>
+
+
+No B&aacute;rbaro que tem cercado Beja.<br>
+
+
+N&atilde;o tarda muito o Pr&iacute;ncipe ditoso<br>
+
+
+Sem ver o fim daquilo que deseja.<br>
+
+
+Assim estragado o Mouro, na vingan&ccedil;a<br>
+
+
+De tantas perdas p&otilde;e sua esperan&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+"J&aacute; se ajuntam do monte a quem Medusa<br>
+
+
+O corpo fez perder, que teve o C&eacute;u;<br>
+
+
+J&aacute; vem do promont&oacute;rio de Ampelusa<br>
+
+
+E do Tinge, que assento foi de Anteu.<br>
+
+
+O morador de Abila n&atilde;o se escusa,<br>
+
+
+Que tamb&eacute;m com suas armas se moveu,<br>
+
+
+Ao som da Mauritana e ronca tuba,<br>
+
+
+Todo o Reino que foi do nobre Juba.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+"Entrava com toda esta companhia<br>
+
+
+O Miralmomini em Portugal;<br>
+
+
+Treze Reis mouros leva de valia,<br>
+
+
+Entre os quais tem o ceptro imperial;<br>
+
+
+E assim fazendo quanto mal podia,<br>
+
+
+O que em partes podia fazer mal,<br>
+
+
+Dom Sancho vai cercar em Santar&eacute;m;<br>
+
+
+Por&eacute;m n&atilde;o lhe sucede muito bem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+"D&aacute;-lhe combates &aacute;speros, fazendo<br>
+
+
+Ardis de guerra mil o Mouro iroso;<br>
+
+
+N&atilde;o lhe aproveita j&aacute; trabuco horrendo,<br>
+
+
+Mina secreta, ar&iacute;ete for&ccedil;oso:<br>
+
+
+Porque o filho de Afonso n&atilde;o perdendo<br>
+
+
+Nada do esfor&ccedil;o e acordo generoso,<br>
+
+
+Tudo prov&ecirc; com &acirc;nimo e prud&ecirc;ncia;<br>
+
+
+Que em toda a parte h&aacute; esfor&ccedil;o e
+resist&ecirc;ncia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"Mas o velho, a quem tinham j&aacute; obrigado<br>
+
+
+Os trabalhosos anos ao sossego,<br>
+
+
+Estando na cidade, cujo prado<br>
+
+
+Enverdecem as &aacute;guas do Mondego,<br>
+
+
+Sabendo como o filho est&aacute; cercado<br>
+
+
+Em Santar&eacute;m do Mauro povo cego,<br>
+
+
+Se parte diligente da cidade;<br>
+
+
+Que n&atilde;o perde a presteza coa idade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"E coa famosa gente &agrave; guerra usada<br>
+
+
+Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,<br>
+
+
+A Portuguesa f&uacute;ria costumada<br>
+
+
+Em breve os Mouros tem desbaratados.<br>
+
+
+A campina, que toda est&aacute; coalhada<br>
+
+
+De marlotas, capuzes variados,<br>
+
+
+De cavalos, jaezes, presa rica,<br>
+
+
+De seus senhores mortos cheia fica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"Logo todo o restante se partiu<br>
+
+
+De Lusit&acirc;nia, postos em fugida;<br>
+
+
+O Miralmomini s&oacute; n&atilde;o fugiu,<br>
+
+
+Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.<br>
+
+
+A quem lhe esta vit&oacute;ria permitiu<br>
+
+
+D&atilde;o louvores e gra&ccedil;as sem medida:<br>
+
+
+Que em casos t&atilde;o estranhos claramente<br>
+
+
+Mais peleja o favor de Deus que a gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"De tamanhas vit&oacute;rias triunfava<br>
+
+
+O velho Afonso, Pr&iacute;ncipe subido,<br>
+
+
+Quando, quem tudo enfim vencendo andava,<br>
+
+
+Da larga e muita idade foi vencido.<br>
+
+
+A p&aacute;lida doen&ccedil;a lhe tocava<br>
+
+
+Com fria m&atilde;o o corpo enfraquecido;<br>
+
+
+E pagaram seus anos deste jeito<br>
+
+
+A triste Libitina seu direito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+"Os altos promont&oacute;rios o choraram,<br>
+
+
+E dos rios as &aacute;guas saudosas<br>
+
+
+Os semeados campos alagaram<br>
+
+
+Com l&aacute;grimas correndo piedosas.<br>
+
+
+Mas tanto pelo mundo se alargaram<br>
+
+
+Com faina suas obras valerosas,<br>
+
+
+Que sempre no seu Reino chamar&atilde;o<br>
+
+
+"Afonso, Afonso" os ecos, mas em v&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+"Sancho, forte mancebo, que ficara<br>
+
+
+Imitando seu pai na valentia,<br>
+
+
+E que em sua vida j&aacute; se exprimentara,<br>
+
+
+Quando o B&eacute;tis de sangue se tingia,<br>
+
+
+E o b&aacute;rbaro poder desbaratara<br>
+
+
+Do Ismaelita Rei de Andaluzia;<br>
+
+
+E mais quando os que Beja em v&atilde;o cercaram,<br>
+
+
+Os golpes de seu bra&ccedil;o em si provaram;<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+"Depois que foi por Rei alevantado,<br>
+
+
+Havendo poucos anos que reinava,<br>
+
+
+A cidade de Silves tem cercado,<br>
+
+
+Cujos campos o b&aacute;rbaro lavrava.<br>
+
+
+Foi das valentes gentes ajudado<br>
+
+
+Da Germ&acirc;nica armada que passava,<br>
+
+
+De armas fortes e gente apercebida,<br>
+
+
+A recobrar Judeia j&aacute; perdida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+"Passavam a ajudar na santa empresa<br>
+
+
+O roxo Federico, que moveu<br>
+
+
+O poderoso ex&eacute;rcito em defesa<br>
+
+
+Da cidade onde Cristo padeceu,<br>
+
+
+Quando Guido, coa gente em sede acesa,<br>
+
+
+Ao grande Saladino se rendeu,<br>
+
+
+No lugar onde aos Mouros sobejavam<br>
+
+
+As &aacute;guas que os de Guido desejavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+"Mas a formosa armada, que viera<br>
+
+
+Por contraste de vento &agrave;quela parte,<br>
+
+
+Sancho quis ajudar na guerra fera,<br>
+
+
+J&aacute; que em servi&ccedil;o vai do santo Marte.<br>
+
+
+Assim como a seu pai acontecera<br>
+
+
+Quando tomou Lisboa, da mesma arte<br>
+
+
+Do Germano ajudado Silves toma,<br>
+
+
+E o bravo morador destrue e doma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+"E se tantos trof&eacute;us do Mahometa<br>
+
+
+Alevantando vai, tamb&eacute;m do forte<br>
+
+
+Lion&ecirc;s n&atilde;o consente estar quieta<br>
+
+
+A terra, usada aos casos de Mavorte,<br>
+
+
+At&eacute; que na cerviz seu jugo meta<br>
+
+
+Da soberba Tui, que a mesma sorte<br>
+
+
+Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,<br>
+
+
+Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+"Mas entre tantas palmas salteado<br>
+
+
+Da temerosa morte, fica herdeiro<br>
+
+
+Um filho seu, de todos estimado,<br>
+
+
+Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.<br>
+
+
+No tempo deste, aos Mouros foi tomado<br>
+
+
+Alc&aacute;cere-do-Sal por derradeiro;<br>
+
+
+Porque dantes os Mouros o tomaram,<br>
+
+
+Mas agora estru&iacute;dos o pagaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+"Morto depois Afonso, lhe sucede<br>
+
+
+Sancho segundo, manso e descuidado,<br>
+
+
+Que tanto em seus descuidos se desmede,<br>
+
+
+Que de outrem, quem mandava, era mandado.<br>
+
+
+De governar o Reino, que outro pede,<br>
+
+
+Por causa dos privados foi privado,<br>
+
+
+Porque, como por eles se regia,<br>
+
+
+Em todos os seus v&iacute;cios consentia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+"N&atilde;o era Sancho, n&atilde;o, t&atilde;o desonesto<br>
+
+
+Como Nero, que um mo&ccedil;o recebia<br>
+
+
+Por mulher, e depois horrendo incesto<br>
+
+
+Com a m&atilde;e Agripina cometia;<br>
+
+
+Nem t&atilde;o cruel &agrave;s gentes e molesto,<br>
+
+
+Que a cidade queimasse onde vivia,<br>
+
+
+Nem t&atilde;o mau como foi Heliogabalo,<br>
+
+
+Nem como o mole Rei Sardanapalo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+"Nem era o povo seu tiranizado,<br>
+
+
+Como Sic&iacute;lia foi de seus tiranos;<br>
+
+
+Nem tinha como F&aacute;laris achado<br>
+
+
+G&ecirc;nero de tormentos inumanos;<br>
+
+
+Mas o Reino, de altivo e costumado<br>
+
+
+A senhores em tudo soberanos,<br>
+
+
+A Rei n&atilde;o obedece, nem consente,<br>
+
+
+Que n&atilde;o for mais que todos excelente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+"Por esta causa o Reino governou<br>
+
+
+O Conde Bolonh&ecirc;s, depois al&ccedil;ado<br>
+
+
+Por Rei, quando da vida se apartou<br>
+
+
+Seu irm&atilde;o Sancho, sempre ao &oacute;cio dado.<br>
+
+
+Este, que Afonso o bravo, se chamou,<br>
+
+
+Depois de ter o Reino segurado,<br>
+
+
+Em dilat&aacute;-lo cuida, que em terreno<br>
+
+
+N&atilde;o cabe o altivo peito, t&atilde;o pequeno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+"Da terra dos Algarves, que lhe fora<br>
+
+
+Em casamento dada, grande parte<br>
+
+
+Recupera co'o bra&ccedil;o, e deita fora<br>
+
+
+O Mouro, mal querido j&aacute; de Marte.<br>
+
+
+Este de todo fez livre e senhora<br>
+
+
+Lusit&acirc;nia, com for&ccedil;a e b&eacute;lica arte;<br>
+
+
+E acabou de oprimir a na&ccedil;&atilde;o forte,<br>
+
+
+Na terra que aos de Luso coube em sorte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+"Eis depois vem Dinis, que bem parece<br>
+
+
+Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,<br>
+
+
+Com quem a fama grande se escurece<br>
+
+
+Da liberalidade Alexandrina.<br>
+
+
+Com este o Reino pr&oacute;spero florece<br>
+
+
+(Alcan&ccedil;ada j&aacute; a paz &aacute;urea divina)<br>
+
+
+Em constitui&ccedil;&otilde;es, leis e costumes,<br>
+
+
+Na terra j&aacute; tranquila claros lumes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se<br>
+
+
+O valeroso of&iacute;cio de Minerva;<br>
+
+
+E de Helicona as Musas fez passar-se<br>
+
+
+A pisar do Monde-o a f&eacute;rtil erva.<br>
+
+
+Quanto pode de Atenas desejar-se,<br>
+
+
+Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.<br>
+
+
+Aqui as capelas d&aacute; tecidas de ouro,<br>
+
+
+Do b&aacute;caro e do sempre verde louro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+"Nobres vilas de novo edificou<br>
+
+
+Fortalezas, castelos mui seguros,<br>
+
+
+E quase o Reino todo reformou<br>
+
+
+Com edif&iacute;cios grandes, e altos muros.<br>
+
+
+Mas depois que a dura &Aacute;tropos cortou<br>
+
+
+O fio de seus dias j&aacute; maduros,<br>
+
+
+Ficou-lhe o filho pouco obediente,<br>
+
+
+Quarto Afonso, mas forte e excelente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+"Este sempre as soberbas Castelhanas<br>
+
+
+Co'o peito desprezou firme e sereno,<br>
+
+
+Porque n&atilde;o &eacute; das for&ccedil;as Lusitanas,<br>
+
+
+Temer poder maior, por mais pequeno.<br>
+
+
+Mas por&eacute;m, quando as gentes Mauritanas,<br>
+
+
+A possuir o Hesp&eacute;rico terreno<br>
+
+
+Entraram pelas terras de Castela,<br>
+
+
+Foi o soberbo Afonso a socorr&ecirc;-la.<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+"Nunca com Semir&acirc;mis gente tanta<br>
+
+
+Veio os campos id&aacute;spicos enchendo,<br>
+
+
+Nem Atila, que It&aacute;lia toda espanta,<br>
+
+
+Chamando-se de Deus a&ccedil;oute horrendo,<br>
+
+
+G&oacute;tica gente trouxe tanta, quanta<br>
+
+
+Do Sarraceno b&aacute;rbaro estupendo,<br>
+
+
+Co'o poder excessivo de Granada,<br>
+
+
+Foi nos campos Tart&eacute;sios ajuntada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+101<br>
+
+
+"E vendo o Rei sublime Castelhano<br>
+
+
+A for&ccedil;a inexpugn&aacute;bil, grande e forte,<br>
+
+
+Temendo mais o fim do povo hispano,<br>
+
+
+J&aacute; perdido uma vez, que a pr&oacute;pria morte,<br>
+
+
+Pedindo ajuda ao forte Lusitano,<br>
+
+
+Lhe mandava a car&iacute;ssima consorte,<br>
+
+
+Mulher de quem a manda, e filha amada<br>
+
+
+Daquele a cujo Reino foi mandada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+102<br>
+
+
+"Entrava a formos&iacute;ssima Maria<br>
+
+
+Pelos paternais pa&ccedil;os sublimados,<br>
+
+
+Lindo o gesto, mas fora de alegria,<br>
+
+
+E seus olhos em l&aacute;grimas banhados;<br>
+
+
+Os cabelos ang&eacute;licos trazia<br>
+
+
+Pelos eb&uacute;rneos ombros espalhados:<br>
+
+
+Diante do pai ledo, que a agasalha,<br>
+
+
+Estas palavras tais, chorando, espalha:<br>
+
+
+<br>
+
+
+103<br>
+
+
+&mdash;"Quantos povos a terra produziu<br>
+
+
+De &Aacute;frica toda, gente fera e estranha,<br>
+
+
+O gr&atilde;o Rei de Marrocos conduziu<br>
+
+
+Para vir possuir a nobre Espanha:<br>
+
+
+Poder tamanho junto n&atilde;o se viu,<br>
+
+
+Depois que o salso mar a terra banha.<br>
+
+
+Trazem ferocidade, e furor tanto,<br>
+
+
+Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+104<br>
+
+
+&mdash;"Aquele que me deste por marido,<br>
+
+
+Por defender sua terra amedrontada,<br>
+
+
+Co'o pequeno poder, oferecido<br>
+
+
+Ao duro golpe est&aacute; da Maura espada;<br>
+
+
+E se n&atilde;o for contigo socorrido,<br>
+
+
+Ver-me-&aacute;s dele e do Reino ser privada,<br>
+
+
+Vi&uacute;va e triste, e posta em vida escura,<br>
+
+
+Sem marido, sem Reino, e sem ventura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+105<br>
+
+
+"Portanto, &oacute; Rei, de quem com puro medo<br>
+
+
+O corrente Muluca se congela,<br>
+
+
+Rompe toda a tardan&ccedil;a, acude cedo<br>
+
+
+A miseranda gente de Castela.<br>
+
+
+Se esse gesto, que mostras claro e ledo,<br>
+
+
+De pai o verdadeiro amor assela,<br>
+
+
+Acude e corre, pai, que se n&atilde;o corres,<br>
+
+
+Pode ser que n&atilde;o aches quem socorres."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+106<br>
+
+
+"N&atilde;o de outra sorte a t&iacute;mida Maria<br>
+
+
+Falando est&aacute;, que a triste V&eacute;nus, quando<br>
+
+
+A J&uacute;piter, seu pai, favor pedia<br>
+
+
+Para Eneias, seu filho, navegando;<br>
+
+
+Que a tanta piedade o comovia<br>
+
+
+Que, ca&iacute;do das m&atilde;os o raio infando,<br>
+
+
+Tudo o clemente Padre lhe concede,<br>
+
+
+Pesando-lhe do pouco que lhe pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+107<br>
+
+
+"Mas j&aacute; co'os esquadr&otilde;es da gente armada<br>
+
+
+Os Eborenses campos v&atilde;o coalhados:<br>
+
+
+Lustra co'o Sol o arn&ecirc;s, a lan&ccedil;a, a espada;<br>
+
+
+V&atilde;o rinchando os cavalos jaezados.<br>
+
+
+A canora trombeta embandeirada,<br>
+
+
+Os cora&ccedil;&otilde;es &agrave; paz acostumados<br>
+
+
+Vai &agrave;s fulgentes armas incitando,<br>
+
+
+Pelas concavidades retumbando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+108<br>
+
+
+"Entre todos no meio se sublima,<br>
+
+
+Das ins&iacute;gnias Reais acompanhado,<br>
+
+
+O valeroso Afonso, que por cima<br>
+
+
+De todos leva o colo alevantado;<br>
+
+
+E somente co'o gesto esfor&ccedil;a e anima<br>
+
+
+A qualquer cora&ccedil;&atilde;o amedrontado.<br>
+
+
+Assim entra nas terras de Castela<br>
+
+
+Com a filha gentil, Rainha dela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+109<br>
+
+
+"Juntos os dous Afonsos finalmente<br>
+
+
+Nos campos de Tarifa est&atilde;o defronte<br>
+
+
+Da grande multid&atilde;o da cega gente,<br>
+
+
+Para quem s&atilde;o pequenos campo e monte.<br>
+
+
+N&atilde;o h&aacute; peito t&atilde;o alto e t&atilde;o
+potente,<br>
+
+
+Que de desconfian&ccedil;a n&atilde;o se afronte,<br>
+
+
+Enquanto n&atilde;o conhe&ccedil;a e claro veja<br>
+
+
+Que co'o bra&ccedil;o dos seus Cristo peleja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+110<br>
+
+
+"Est&atilde;o de Agar os netos quase rindo<br>
+
+
+Do poder dos Crist&atilde;os fraco e pequeno,<br>
+
+
+As terras como suas repartindo<br>
+
+
+Antem&atilde;o, entre o ex&eacute;rcito Agareno,<br>
+
+
+Que com t&iacute;tulo falso possuindo<br>
+
+
+Est&aacute; o famoso nome Sarraceno.<br>
+
+
+Assim tamb&eacute;m com falsa conta e nua,<br>
+
+
+&Agrave; nobre terra alheia chamam sua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+111<br>
+
+
+"Qual o membrudo e b&aacute;rbaro Gigante,<br>
+
+
+Do rei Saul, com causa, t&atilde;o temido,<br>
+
+
+Vendo o pastor inerme estar diante,<br>
+
+
+S&oacute; de pedras e esfor&ccedil;o apercebido,<br>
+
+
+Com palavras soberbas o arrogante<br>
+
+
+Despreza o fraco mo&ccedil;o mal vestido,<br>
+
+
+Que, rodeando a funda, o desengana<br>
+
+
+Quanto mais pode a F&eacute; que a for&ccedil;a humana:<br>
+
+
+<br>
+
+
+112<br>
+
+
+"Desta arte o Mouro p&eacute;rfido despreza<br>
+
+
+O poder dos Crist&atilde;os, e n&atilde;o entende<br>
+
+
+Que est&aacute; ajudado da Alta Fortaleza,<br>
+
+
+A quem o inferno horr&iacute;fico se rende.<br>
+
+
+Co ela o Castelhano, e com destreza<br>
+
+
+De Marrocos o Rei comete e ofende.<br>
+
+
+O Portugu&ecirc;s, que tudo estima em nada,<br>
+
+
+Se faz temer ao Reino de Granada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+113<br>
+
+
+"Eis as lan&ccedil;as e espadas retiniam<br>
+
+
+Por cima dos arneses: bravo estrago!<br>
+
+
+Chamam (segundo as leis que ali seguiam)<br>
+
+
+Uns Mafamede, e os outros Santiago.<br>
+
+
+Os feridos com grita o C&eacute;u feriam,<br>
+
+
+Fazendo de seu sangue bruto lago,<br>
+
+
+Onde outros meios mortos se afogavam,<br>
+
+
+Quando do ferro as vidas escapavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+114<br>
+
+
+"Com esfor&ccedil;o tamanho estrui e mata<br>
+
+
+O Luso ao Granadil, que, em pouco espa&ccedil;o,<br>
+
+
+Totalmente o poder lhe desbarata,<br>
+
+
+Sem lhe valer defesa ou peito de a&ccedil;o.<br>
+
+
+De alcan&ccedil;ar tal vit&oacute;ria t&atilde;o barata<br>
+
+
+Inda n&atilde;o bem contente o forte bra&ccedil;o,<br>
+
+
+Vai ajudar ao bravo Castelhano,<br>
+
+
+Que pelejando est&aacute; co'o Mauritano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+115<br>
+
+
+"J&aacute; se ia o Sol ardente recolhendo<br>
+
+
+Para a casa de Tethys, e inclinado<br>
+
+
+Para o Ponente, o V&eacute;spero trazendo,<br>
+
+
+Estava o claro dia memorado,<br>
+
+
+Quando o poder do Mauro grande e horrendo<br>
+
+
+Foi pelos fortes Reis desbaratado,<br>
+
+
+Com tanta mortandade, que a mem&oacute;ria<br>
+
+
+Nunca no mundo viu t&atilde;o gr&atilde; vit&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+116<br>
+
+
+"N&atilde;o matou a quarta parte o forte M&aacute;rio<br>
+
+
+Dos que morreram neste vencimento,<br>
+
+
+Quando as &aacute;guas co'o sangue do advers&aacute;rio<br>
+
+
+Fez beber ao ex&eacute;rcito sedento;<br>
+
+
+Nem o Peno asper&iacute;ssimo contr&aacute;rio<br>
+
+
+Do Romano poder, de nascimento,<br>
+
+
+Quando tantos matou da ilustro Roma,<br>
+
+
+Que alqueires tr&ecirc;s de an&eacute;is dos mortos toma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+117<br>
+
+
+"E se tu tantas almas s&oacute; pudeste<br>
+
+
+Mandar ao Reino escuro de Cocito,<br>
+
+
+Quando a santa Cidade desfizeste<br>
+
+
+Do povo pertinaz no antigo rito:<br>
+
+
+Permiss&atilde;o e vingan&ccedil;a foi celeste,<br>
+
+
+E n&atilde;o for&ccedil;a de bra&ccedil;o, &oacute;
+nobre Tito,<br>
+
+
+Que assim dos Vates foi profetizado,<br>
+
+
+E depois por Jesu certificado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+118<br>
+
+
+"Passada esta t&atilde;o pr&oacute;spera vit&oacute;ria,<br>
+
+
+Tornando Afonso &agrave; Lusitana terra,<br>
+
+
+A se lograr da paz com tanta gl&oacute;ria<br>
+
+
+Quanta soube ganhar na dura guerra,<br>
+
+
+O caso triste, e dino da mem&oacute;ria,<br>
+
+
+Que do sepulcro os homens desenterra,<br>
+
+
+Aconteceu da m&iacute;sera e mesquinha<br>
+
+
+Que depois de ser morta foi Rainha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+119<br>
+
+
+"Tu s&oacute;, tu, puro Amor, com for&ccedil;a crua,<br>
+
+
+Que os cora&ccedil;&otilde;es humanos tanto obriga,<br>
+
+
+Deste causa &agrave; molesta morte sua,<br>
+
+
+Como se fora p&eacute;rfida inimiga.<br>
+
+
+Se dizem, fero Amor, que a sede tua<br>
+
+
+Nem com l&aacute;grimas tristes se mitiga,<br>
+
+
+&Eacute; porque queres, &aacute;spero e tirano,<br>
+
+
+Tuas aras banhar em sangue humano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+120<br>
+
+
+"Estavas, linda In&ecirc;s, posta em sossego,<br>
+
+
+De teus anos colhendo doce fruto,<br>
+
+
+Naquele engano da alma, ledo e cego,<br>
+
+
+Que a fortuna n&atilde;o deixa durar muito,<br>
+
+
+Nos saudosos campos do Mondego,<br>
+
+
+De teus fermosos olhos nunca enxuto,<br>
+
+
+Aos montes ensinando e &agrave;s ervinhas<br>
+
+
+O nome que no peito escrito tinhas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+121<br>
+
+
+"Do teu Pr&iacute;ncipe ali te respondiam<br>
+
+
+As lembran&ccedil;as que na alma lhe moravam,<br>
+
+
+Que sempre ante seus olhos te traziam,<br>
+
+
+Quando dos teus fermosos se apartavam:<br>
+
+
+De noite em doces sonhos, que mentiam,<br>
+
+
+De dia em pensamentos, que voavam.<br>
+
+
+E quanto enfim cuidava, e quanto via,<br>
+
+
+Eram tudo mem&oacute;rias de alegria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+122<br>
+
+
+"De outras belas senhoras e Princesas<br>
+
+
+Os desejados t&aacute;lamos enjeita,<br>
+
+
+Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,<br>
+
+
+Quando um gesto suave te sujeita.<br>
+
+
+Vendo estas namoradas estranhezas<br>
+
+
+O velho pai sesudo, que respeita<br>
+
+
+O murmurar do povo, e a fantasia<br>
+
+
+Do filho, que casar-se n&atilde;o queria,<br>
+
+
+<br>
+
+
+123<br>
+
+
+"Tirar In&ecirc;s ao mundo determina,<br>
+
+
+Por lhe tirar o filho que tem preso,<br>
+
+
+Crendo co'o sangue s&oacute; da morte indina<br>
+
+
+Matar do firme amor o fogo aceso.<br>
+
+
+Que furor consentiu que a espada fina,<br>
+
+
+Que p&ocirc;de sustentar o grande peso<br>
+
+
+Do furor Mauro, fosse alevantada<br>
+
+
+Contra uma fraca dama delicada?<br>
+
+
+<br>
+
+
+124<br>
+
+
+"Traziam-na os horr&iacute;ficos algozes<br>
+
+
+Ante o Rei, j&aacute; movido a piedade:<br>
+
+
+Mas o povo, com falsas e ferozes<br>
+
+
+Raz&otilde;es, &agrave; morte crua o persuade.<br>
+
+
+Ela com tristes o piedosas vozes,<br>
+
+
+Sa&iacute;das s&oacute; da m&aacute;goa, e saudade<br>
+
+
+Do seu Pr&iacute;ncipe, e filhos que deixava,<br>
+
+
+Que mais que a pr&oacute;pria morte a magoava,<br>
+
+
+<br>
+
+
+125<br>
+
+
+"Para o C&eacute;u cristalino alevantando<br>
+
+
+Com l&aacute;grimas os olhos piedosos,<br>
+
+
+Os olhos, porque as m&atilde;os lhe estava atando<br>
+
+
+Um dos duros ministros rigorosos;<br>
+
+
+E depois nos meninos atentando,<br>
+
+
+Que t&atilde;o queridos tinha, e t&atilde;o mimosos,<br>
+
+
+Cuja orfandade como m&atilde;e temia,<br>
+
+
+Para o av&ocirc; cruel assim dizia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+126<br>
+
+
+&mdash;"Se j&aacute; nas brutas feras, cuja mente<br>
+
+
+Natura fez cruel de nascimento,<br>
+
+
+E nas aves agrestes, que somente<br>
+
+
+Nas rapinas a&eacute;reas t&ecirc;m o intento,<br>
+
+
+Com pequenas crian&ccedil;as viu a gente<br>
+
+
+Terem t&atilde;o piedoso sentimento,<br>
+
+
+Como coa m&atilde;e de Nino j&aacute; mostraram,<br>
+
+
+E colos irm&atilde;os que Roma edificaram;<br>
+
+
+<br>
+
+
+127<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; tu, que tens de humano o gesto e o peito<br>
+
+
+(Se de humano &eacute; matar uma donzela<br>
+
+
+Fraca e sem for&ccedil;a, s&oacute; por ter sujeito<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o a quem soube venc&ecirc;-la)<br>
+
+
+A estas criancinhas tem respeito,<br>
+
+
+Pois o n&atilde;o tens &agrave; morte escura dela;<br>
+
+
+Mova-te a piedade sua e minha,<br>
+
+
+Pois te n&atilde;o move a culpa que n&atilde;o tinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+128<br>
+
+
+&mdash;"E se, vencendo a Maura resist&ecirc;ncia,<br>
+
+
+A morte sabes dar com fogo e ferro,<br>
+
+
+Sabe tamb&eacute;m dar vicia com clem&ecirc;ncia<br>
+
+
+A quem para perd&ecirc;-la n&atilde;o fez erro.<br>
+
+
+Mas se to assim merece esta inoc&ecirc;ncia,<br>
+
+
+P&otilde;e-me em perp&eacute;tuo e m&iacute;sero desterro,<br>
+
+
+Na C&iacute;tia f ria, ou l&aacute; na L&iacute;bia ardente,<br>
+
+
+Onde em l&aacute;grimas viva eternamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+129<br>
+
+
+"P&otilde;e-me onde se use toda a feridade,<br>
+
+
+Entre le&otilde;es e tigres, e verei<br>
+
+
+Se neles achar posso a piedade<br>
+
+
+Que entre peitos humanos n&atilde;o achei:<br>
+
+
+Ali com o amor intr&iacute;nseco e vontade<br>
+
+
+Naquele por quem morro, criarei<br>
+
+
+Estas rel&iacute;quias suas que aqui viste,<br>
+
+
+Que refrig&eacute;rio sejam da m&atilde;e triste."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+130<br>
+
+
+&mdash;Morte de In&ecirc;s de Castro<br>
+
+
+"Queria perdoar-lhe o Rei benino,<br>
+
+
+Movido das palavras que o magoam;<br>
+
+
+Mas o pertinaz povo, e seu destino<br>
+
+
+(Que desta sorte o quis) lhe n&atilde;o perdoam.<br>
+
+
+Arrancam das espadas de a&ccedil;o fino<br>
+
+
+Os que por bom tal feito ali apregoam.<br>
+
+
+Contra uma dama, &oacute; peitos carniceiros,<br>
+
+
+Feros vos amostrais, e cavaleiros?<br>
+
+
+<br>
+
+
+131<br>
+
+
+"Qual contra a linda mo&ccedil;a Policena,<br>
+
+
+Consola&ccedil;&atilde;o extrema da m&atilde;e velha,<br>
+
+
+Porque a sombra de Aquiles a condena,<br>
+
+
+Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;<br>
+
+
+Mas ela os olhos com que o ar serena<br>
+
+
+(Bem como paciente e mansa ovelha)<br>
+
+
+Na m&iacute;sera m&atilde;e postos, que endoudece,<br>
+
+
+Ao duro sacrif&iacute;cio se oferece:<br>
+
+
+<br>
+
+
+132<br>
+
+
+"Tais contra In&ecirc;s os brutos matadores<br>
+
+
+No colo de alabastro, que sustinha<br>
+
+
+As obras com que Amor matou de amores<br>
+
+
+Aquele que depois a fez Rainha;<br>
+
+
+As espadas banhando, e as brancas flores,<br>
+
+
+Que ela dos olhos seus regadas tinha,<br>
+
+
+Se encarni&ccedil;avam, f&eacute;rvidos e irosos,<br>
+
+
+No futuro castigo n&atilde;o cuidosos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+133<br>
+
+
+"Bem puderas, &oacute; Sol, da vista destes<br>
+
+
+Teus raios apartar aquele dia,<br>
+
+
+Como da seva mesa de Tiestes,<br>
+
+
+Quando os filhos por m&atilde;o de Atreu comia.<br>
+
+
+V&oacute;s, &oacute; c&ocirc;ncavos vales, que pudestes<br>
+
+
+A voz extrema ouvir da boca fria,<br>
+
+
+O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,<br>
+
+
+Por muito grande espa&ccedil;o repetisses!<br>
+
+
+<br>
+
+
+134<br>
+
+
+"Assim como a bonina, que cortada<br>
+
+
+Antes do tempo foi, c&acirc;ndida e bela,<br>
+
+
+Sendo das m&atilde;os lascivas maltratada<br>
+
+
+Da menina que a trouxe na capela,<br>
+
+
+O cheiro traz perdido e a cor murchada:<br>
+
+
+Tal est&aacute; morta a p&aacute;lida donzela,<br>
+
+
+Secas do rosto as rosas, e perdida<br>
+
+
+A branca e viva cor, coa doce vida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+135<br>
+
+
+"As filhas do Mondego a morte escura<br>
+
+
+Longo tempo chorando memoraram,<br>
+
+
+E, por mem&oacute;ria eterna, em fonte pura<br>
+
+
+As l&aacute;grimas choradas transformaram;<br>
+
+
+O nome lhe puseram, que inda dura,<br>
+
+
+Dos amores de In&ecirc;s que ali passaram.<br>
+
+
+Vede que fresca fonte rega as flores,<br>
+
+
+Que l&aacute;grimas s&atilde;o a &aacute;gua, e o nome
+amores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+136<br>
+
+
+"N&atilde;o correu muito tempo que a vingan&ccedil;a<br>
+
+
+N&atilde;o visse Pedro das mortais feridas,<br>
+
+
+Que, em tomando do Reino a governan&ccedil;a,<br>
+
+
+A tomou dos fugidos homicidas.<br>
+
+
+Do outro Pedro cru&iacute;ssimo os alcan&ccedil;a,<br>
+
+
+Que ambos, imigos das humanas vidas,<br>
+
+
+O concerto fizeram, duro e injusto,<br>
+
+
+Que com L&eacute;pido e Ant&oacute;nio fez Augusto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+137<br>
+
+
+"Este, castigador foi rigoroso<br>
+
+
+De latroc&iacute;nios, mortes e adult&eacute;rios:<br>
+
+
+Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,<br>
+
+
+Eram os seus mais certos refrig&eacute;rios.<br>
+
+
+As cidades guardando justi&ccedil;oso<br>
+
+
+De todos os soberbos vitup&eacute;rios,<br>
+
+
+Mais ladr&otilde;es castigando &agrave; morte deu,<br>
+
+
+Que o vagabundo Aleides ou Teseu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+138<br>
+
+
+"Do justo e duro Pedro nasce o brando,<br>
+
+
+(Vede da natureza o desconcerto!)<br>
+
+
+Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,<br>
+
+
+Que todo o Reino p&ocirc;s em muito aperto:<br>
+
+
+Que, vindo o Castelhano devastando<br>
+
+
+As terras sem defesa, esteve perto<br>
+
+
+De destruir-se o Reino totalmente;<br>
+
+
+Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+139<br>
+
+
+"Ou foi castigo claro do pecado<br>
+
+
+De tirar Lianor a seu marido,<br>
+
+
+E casar-se com ela, de enlevado<br>
+
+
+Num falso parecer mal entendido;<br>
+
+
+Ou foi que o cora&ccedil;&atilde;o sujeito e dado<br>
+
+
+Ao v&iacute;cio vil, de quem se viu rendido,<br>
+
+
+Mole se fez e fraco; e bem parece,<br>
+
+
+Que um baixo amor os fortes enfraquece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+140<br>
+
+
+"Do pecado tiveram sempre a pena<br>
+
+
+Muitos, que Deus o quis, e permitiu:<br>
+
+
+Os que foram roubar a bela Helena,<br>
+
+
+E com Apio tamb&eacute;m Tarquilio o viu.<br>
+
+
+Pois por quem David Santo se condena?<br>
+
+
+Ou quem o Tribo ilustre destruiu<br>
+
+
+De Benjamim? Bem claro no-lo ensina<br>
+
+
+Por Sara Fara&oacute;, Siqu&eacute;m por Dina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+141<br>
+
+
+"E pois se os peitos fortes enfraquece<br>
+
+
+Um inconcesso amor desatinado,<br>
+
+
+Bem no filho de Alcmena se parece,<br>
+
+
+Quando em &Ocirc;nfale andava transformado.<br>
+
+
+De Marco Ant&oacute;nio a faina se escurece<br>
+
+
+Com ser tanto a Cleopatra afei&ccedil;oado.<br>
+
+
+Tu tamb&eacute;m, Peno pr&oacute;spero, o sentiste<br>
+
+
+Depois que uma mo&ccedil;a vil na Ap&uacute;lia viste.<br>
+
+
+<br>
+
+
+142<br>
+
+
+"Mas quem pode livrar-se por ventura<br>
+
+
+Dos la&ccedil;os que Amor arma brandamente<br>
+
+
+Entre as rosas e a neve humana pura,<br>
+
+
+O ouro e o alabastro transparente?<br>
+
+
+Quem de uma peregrina formosura,<br>
+
+
+De um vulto de Medusa propriamente,<br>
+
+
+Que o cora&ccedil;&atilde;o converte, que tem preso,<br>
+
+
+Em pedra n&atilde;o, mas em desejo aceso?<br>
+
+
+<br>
+
+
+143<br>
+
+
+"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,<br>
+
+
+Uma suave e ang&eacute;lica excel&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Que em si est&aacute; sempre as almas transformando,<br>
+
+
+Que tivesse contra ela resist&ecirc;ncia?<br>
+
+
+Desculpado por certo est&aacute; Fernando,<br>
+
+
+Para quem tem de amor experi&ecirc;ncia;<br>
+
+
+Mas antes, tendo livre a fantasia,<br>
+
+
+Por muito mais culpado o julgaria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Quarto</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+"Depois de procelosa tempestade,<br>
+
+
+Noturna sombra e sibilante vento,<br>
+
+
+Traz a manh&atilde; serena claridade,<br>
+
+
+Esperan&ccedil;a de porto e salvamento;<br>
+
+
+Aparta o sol a negra escuridade,<br>
+
+
+Removendo o temor do pensamento:<br>
+
+
+Assim no Reino forte aconteceu,<br>
+
+
+Depois que o Rei Fernando faleceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+"Porque, se muito os nossos desejaram<br>
+
+
+Quem os danos e ofensas v&aacute; vingando<br>
+
+
+Naqueles que t&atilde;o bem se aproveitaram<br>
+
+
+Do descuido remisso de Fernando,<br>
+
+
+Depois de pouco tempo o alcan&ccedil;aram,<br>
+
+
+Joane, sempre ilustre, alevantando<br>
+
+
+Por Rei, como de Pedro &uacute;nico herdeiro,<br>
+
+
+(Ainda que bastardo) verdadeiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+"Ser isto ordena&ccedil;&atilde;o dos c&eacute;us divina,<br>
+
+
+Por sinais muito claros se mostrou,<br>
+
+
+Quando em &Eacute;vora a voz de uma menina,<br>
+
+
+Ante tempo falando o nomeou;<br>
+
+
+E como cousa enfim que o C&eacute;u destina,<br>
+
+
+No ber&ccedil;o o corpo e a voz alevantou:<br>
+
+
+&mdash;"Portugal! Portugal!" al&ccedil;ando a m&atilde;o<br>
+
+
+Disse "pelo Rei novo, Dom Jo&atilde;o."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+"Alteradas ent&atilde;o do Reino as gentes<br>
+
+
+Co'o &oacute;dio, que ocupado os peitos tinha,<br>
+
+
+Absolutas cruezas e evidentes<br>
+
+
+Faz do povo o furor por onde vinha;<br>
+
+
+Matando v&atilde;o amigos e parentes<br>
+
+
+Do ad&uacute;ltero Conde e da Rainha,<br>
+
+
+Com quem sua incontin&ecirc;ncia desonesta<br>
+
+
+Mais (depois de vi&uacute;va) manifesta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+"Mas ele enfim, com causa desonrado,<br>
+
+
+Diante dela a ferro frio morre,<br>
+
+
+De outros muitos na morte acompanhado,<br>
+
+
+Que tudo o fogo erguido queima e corre:<br>
+
+
+Quem, como Astian&aacute;s, precipitado,<br>
+
+
+(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,<br>
+
+
+A quem ordens, nem aras, nem respeito;<br>
+
+
+Quem nu por ruas, e em peda&ccedil;os feito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+"Podem-se p&ocirc;r em longo esquecimento<br>
+
+
+As cruezas mortais que Roma viu<br>
+
+
+Feitas do feroz M&aacute;rio e do cruento<br>
+
+
+Sila, quando o contr&aacute;rio lhe fugiu.<br>
+
+
+Por isso Lianor, que o sentimento<br>
+
+
+Do morto Conde ao mundo descobriu,<br>
+
+
+Faz contra Lusit&acirc;nia vir Castela,<br>
+
+
+Dizendo ser sua filha herdeira dela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+"Beatriz era a filha, que casada<br>
+
+
+Co'o Castelhano est&aacute;, que o Reino pede,<br>
+
+
+Por filha de Fernando reputada,<br>
+
+
+Se a corrompida fama lhe concede.<br>
+
+
+Com esta voz Castela alevantada,<br>
+
+
+Dizendo que esta filha ao pai sucede,<br>
+
+
+Suas for&ccedil;as ajunta para as guerras<br>
+
+
+De v&aacute;rias regi&otilde;es e v&aacute;rias terras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+Vem de toda a prov&iacute;ncia que de um Brigo<br>
+
+
+(Se foi) j&aacute; teve o nome derivado;<br>
+
+
+Das terras que Fernando e que Rodrigo<br>
+
+
+Ganharam do tirano e Mauro estado.<br>
+
+
+N&atilde;o estimam das armas o perigo<br>
+
+
+Os que cortando v&atilde;o co'o duro arado<br>
+
+
+Os campos Lioneses, cuja gente<br>
+
+
+C'os Mouros foi nas armas excelente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+"Os V&acirc;ndalos, na antiga valentia<br>
+
+
+Ainda confiados, se ajuntavam<br>
+
+
+Da cabe&ccedil;a de toda Andaluzia,<br>
+
+
+Que do Guadalquibir as &aacute;guas lavam.<br>
+
+
+A nobre Ilha tamb&eacute;m se apercebia,<br>
+
+
+Que antigamente os T&iacute;rios habitavam,<br>
+
+
+Trazendo por ins&iacute;gnias verdadeiras<br>
+
+
+As Herc&uacute;leas colunas nas bandeiras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+"Tamb&eacute;m vem l&aacute; do Reino de Toledo,<br>
+
+
+Cidade nobre e antiga, a quem cercando<br>
+
+
+O Tejo em torno vai suave e ledo<br>
+
+
+Que das serras de Conca vem manando.<br>
+
+
+A v&oacute;s outros tamb&eacute;m n&atilde;o tolhe o medo,<br>
+
+
+&Oacute; s&oacute;rdidos Galegos, duro bando,<br>
+
+
+Que para resistirdes vos armastes,<br>
+
+
+Aqueles, cujos golpes j&aacute; provasses.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+"Tamb&eacute;m movem da guerra as negras f&uacute;rias<br>
+
+
+A gente Biscainha, que carece<br>
+
+
+De polidas raz&otilde;es, e que as inj&uacute;rias<br>
+
+
+Muito mal dos estranhos compadece.<br>
+
+
+A terra de Guip&uacute;scua e das Ast&uacute;rias,<br>
+
+
+Que com minas de ferro se enobrece,<br>
+
+
+Armou dele os soberbos moradores,<br>
+
+
+Para ajudar na guerra a seus senhores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+"Joane, a quem do peito o esfor&ccedil;o cresce,<br>
+
+
+Como a Sans&atilde;o Hebr&eacute;io da guedelha,<br>
+
+
+Posto que tudo pouco lhe parece,<br>
+
+
+Co'os poucos de seu Reino se aparelha;<br>
+
+
+E n&atilde;o porque conselho lhe falece,<br>
+
+
+Co'os principais senhores se aconselha,<br>
+
+
+Mas s&oacute; por ver das gentes as senten&ccedil;as:<br>
+
+
+Que sempre houve entre muitos diferen&ccedil;as.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+"N&atilde;o falta com raz&otilde;es quem desconcerte<br>
+
+
+Da opini&atilde;o de todos, na vontade,<br>
+
+
+Em quem o esfor&ccedil;o antigo se converte<br>
+
+
+Em desusada e m&aacute; deslealdade;<br>
+
+
+Podendo o temor mais, gelado, inerte,<br>
+
+
+Que a pr&oacute;pria e natural fidelidade:<br>
+
+
+Negam o Rei e a p&aacute;tria, e, se conv&eacute;m,<br>
+
+
+Negar&atilde;o (como Pedro) o Deus que t&ecirc;m.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+"Mas nunca foi que este erro se sentisse<br>
+
+
+No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,<br>
+
+
+Posto que em seus irm&atilde;os t&atilde;o claro o visse,<br>
+
+
+Reprovando as vontades inconstantes,<br>
+
+
+Aquelas duvidosas gentes disse,<br>
+
+
+Com palavras mais duras que elegantes,<br>
+
+
+A m&atilde;o na espada, irado, e n&atilde;o facundo,<br>
+
+
+Amea&ccedil;ando a terra, o mar e o mundo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+&mdash;"Como! Da gente ilustre Portuguesa<br>
+
+
+H&aacute;-de haver quem refuse o p&aacute;trio Marte?,<br>
+
+
+Como! Desta prov&iacute;ncia, que princesa<br>
+
+
+Foi das gentes na guerra em toda a parte,<br>
+
+
+H&aacute;-de sair quem negue ter defesa?<br>
+
+
+Quem negue a F&eacute;, o amor, o esfor&ccedil;o e arte<br>
+
+
+De Portugu&ecirc;s, e por nenhum respeito<br>
+
+
+O pr&oacute;prio Reino queira ver sujeito?<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+&mdash;"Como! N&atilde;o seis v&oacute;s inda os
+descendentes<br>
+
+
+Daqueles, que debaixo da bandeira<br>
+
+
+Do grande Henriques, feros e valentes,<br>
+
+
+Vencestes esta gente t&atilde;o guerreira?<br>
+
+
+Quando tantas bandeiras, tantas gentes<br>
+
+
+Puseram em fugida, de maneira<br>
+
+
+Que sete ilustres Condes lhe trouxeram<br>
+
+
+Presos, afora a presa que tiveram?<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+&mdash;"Com quem foram contino sopeados<br>
+
+
+Estes, de quem o estais agora v&oacute;s,<br>
+
+
+Por Dinis e seu filho, sublimados,<br>
+
+
+Sen&atilde;o co'os vossos fortes pais, e av&ocirc;s?<br>
+
+
+Pois se com seus descuidos, ou pecados,<br>
+
+
+Fernando em tal fraqueza assim vos p&ocirc;s,<br>
+
+
+Torne-vos vossas for&ccedil;as o Rei novo:<br>
+
+
+Se &eacute; certo que co'o Rei se muda o povo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+&mdash;"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes<br>
+
+
+Igual ao Rei que agora alevantastes,<br>
+
+
+Desbaratareis tudo o que quiserdes,<br>
+
+
+Quanto mais a quem j&aacute; desbaratasses.<br>
+
+
+E se com isto enfim vos n&atilde;o moverdes<br>
+
+
+Do penetrante medo que tomastes,<br>
+
+
+Atai as m&atilde;os a vosso v&atilde;o receio,<br>
+
+
+Que eu s&oacute; resistirei ao jugo alheio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+&mdash;"Eu s&oacute; com meus vassalos, e com esta<br>
+
+
+(E dizendo isto arranca meia espada)<br>
+
+
+Defenderei da for&ccedil;a dura e infesta<br>
+
+
+A terra nunca de outrem sojugada.<br>
+
+
+Em virtude do Rei, da p&aacute;tria mesta,<br>
+
+
+Da lealdade j&aacute; por v&oacute;s negada,<br>
+
+
+Vencerei (n&atilde;o s&oacute; estes advers&aacute;rios)<br>
+
+
+Mas quantos a meu Rei forem contr&aacute;rios."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+Bem como entre os mancebos recolhidos<br>
+
+
+Em Can&uacute;sio, rel&iacute;quias s&oacute;s de Canas,<br>
+
+
+J&aacute; para se entregar quase movidos<br>
+
+
+A fortuna das for&ccedil;as Africanas,<br>
+
+
+Corn&eacute;lio mo&ccedil;o os faz que, compelidos<br>
+
+
+Da sua espada, jurem que as Romanas<br>
+
+
+Armas n&atilde;o deixar&atilde;o, enquanto a vida<br>
+
+
+Os n&atilde;o deixar, ou nelas for perdida:<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+"Destarte a gente for&ccedil;a e esfor&ccedil;a Nuno,<br>
+
+
+Que, com lhe ouvir as &uacute;ltimas raz&otilde;es,<br>
+
+
+Removem o temor frio, importuno,<br>
+
+
+Que gelados lhe tinha os cora&ccedil;&otilde;es.<br>
+
+
+Nos animais cavalgam de Neptuno,<br>
+
+
+Brandindo e volteando arremess&otilde;es;<br>
+
+
+V&atilde;o correndo e gritando a boca aberta:<br>
+
+
+&mdash;"Viva o famoso Rei que nos liberta!"&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+"Das gentes populares, uns aprovam<br>
+
+
+A guerra com que a p&aacute;tria se sustinha;<br>
+
+
+Uns as armas alimpam e renovam,<br>
+
+
+Que a ferrugem da paz gastadas tinha;<br>
+
+
+Capacetes estofam, peitos provam,<br>
+
+
+Arma-se cada um como convinha;<br>
+
+
+Outros fazem vestidos de mil cores,<br>
+
+
+Com letras e ten&ccedil;&otilde;es de seus amores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+"Com toda esta lustrosa companhia<br>
+
+
+Joane forte sai da fresca Abrantes,<br>
+
+
+Abrantes, que tamb&eacute;m da fonte fria<br>
+
+
+Do Tejo logra as &aacute;guas abundantes.<br>
+
+
+Os primeiros arm&iacute;geros regia<br>
+
+
+Quem para reger era os mui possantes<br>
+
+
+Orientais ex&eacute;rcitos, sem conto,<br>
+
+
+Com que passava Xerxes o Helesponto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro<br>
+
+
+A&ccedil;oute de soberbos Castelhanos<br>
+
+
+Como j&aacute; o fero Huno o foi primeiro<br>
+
+
+Para Franceses, para Italianos.<br>
+
+
+Outro tamb&eacute;m famoso cavaleiro,<br>
+
+
+Que a ala direita tem dos Lusitanos,<br>
+
+
+Apto para mand&aacute;-los, e reg&ecirc;-los,<br>
+
+
+Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"E da outra ala, que a esta corresponde,<br>
+
+
+Ant&atilde;o Vasques de Almada &eacute; capit&atilde;o,<br>
+
+
+Que depois foi de Abranches nobre Conde,<br>
+
+
+Das gentes vai regendo a sestra m&atilde;o.<br>
+
+
+Logo na retaguarda n&atilde;o se esconde<br>
+
+
+Das quinas e castelos o pend&atilde;o,<br>
+
+
+Com Joane, Rei forte em toda parte,<br>
+
+
+Que escurecendo o pre&ccedil;o vai de Alarte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"Estavam pelos muros, temerosas,<br>
+
+
+E de um alegre medo quase frias,<br>
+
+
+Rezando as m&atilde;es, irm&atilde;s, damas e esposas,<br>
+
+
+Prometendo jejuns e romarias.<br>
+
+
+J&aacute; chegam as esquadras belicosas<br>
+
+
+Defronte das amigas companhias,<br>
+
+
+Que com grita grand&iacute;ssima os recebem,<br>
+
+
+E todas grande d&uacute;vida concebem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"Respondem as trombetas mensageiras,<br>
+
+
+P&iacute;faros sibilantes e atambores;<br>
+
+
+Alf&eacute;rezes volteam as bandeiras,<br>
+
+
+Que variadas s&atilde;o de muitas cores.<br>
+
+
+Era no seco tempo, que nas eiras<br>
+
+
+Ceres o fruto deixa aos lavradores,<br>
+
+
+Entra em Astreia o Sol, no m&ecirc;s de Agosto,<br>
+
+
+Baco das uvas tira o doce mosto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Deu sinal a trombeta Castelhana,<br>
+
+
+Horrendo, fero, ingente e temeroso;<br>
+
+
+Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana<br>
+
+
+Atr&aacute;s tornou as ondas de medroso;<br>
+
+
+Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;<br>
+
+
+Correu ao mar o Tejo duvidoso;<br>
+
+
+E as m&atilde;es, que o som terr&iacute;bil escutaram,<br>
+
+
+Aos peitos os filhinhos apertaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Quantos rostos ali se v&ecirc;em sem cor,<br>
+
+
+Que ao cora&ccedil;&atilde;o acode o sangue amigo!<br>
+
+
+Que, nos perigos grandes, o temor<br>
+
+
+&Eacute; maior muitas vezes que o perigo;<br>
+
+
+E se o n&atilde;o &eacute;, parece-o; que o furor<br>
+
+
+De ofender ou vencer o duro amigo<br>
+
+
+Faz n&atilde;o sentir que &eacute; perda grande e rara,<br>
+
+
+Dos membros corporais, da vida cara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Come&ccedil;a-se a travar a incerta guerra;<br>
+
+
+De ambas partes se move a primeira ala;<br>
+
+
+Uns leva a defens&atilde;o da pr&oacute;pria terra,<br>
+
+
+Outros as esperan&ccedil;as de ganh&aacute;-la;<br>
+
+
+Logo o grande Pereira, em quem se encerra<br>
+
+
+Todo o valor, primeiro se assinala:<br>
+
+
+Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia<br>
+
+
+Dos que a tanto desejam, sendo alheia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"J&aacute; pelo espesso ar os estridentes<br>
+
+
+Farp&otilde;es, setas e v&aacute;rios tiros voam;<br>
+
+
+Debaixo dos p&eacute;s duros dos ardentes<br>
+
+
+Cavalos treme a terra, os vales soam;<br>
+
+
+Espeda&ccedil;am-se as lan&ccedil;as; e as frequentes<br>
+
+
+Quedas coas duras armas, tudo atroam;<br>
+
+
+Recrescem os amigos sobre a pouca<br>
+
+
+Gente do fero Nuno, que os apouca.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"Eis ali seus irm&atilde;os contra ele v&atilde;o,<br>
+
+
+(Caso feio e cruel!) mas n&atilde;o se espanta,<br>
+
+
+Que menos &eacute; querer matar o irm&atilde;o,<br>
+
+
+Quem contra o Rei e a P&aacute;tria se alevanta:<br>
+
+
+Destes arrenegados muitos s&atilde;o<br>
+
+
+No primeiro esquadr&atilde;o, que se adianta<br>
+
+
+Contra irm&atilde;os e parentes (caso estranho!)<br>
+
+
+Quais nas guerras civis de J&uacute;lio e Magno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"&Oacute; tu, Sert&oacute;rio, &oacute; nobre Coriolano,<br>
+
+
+Catilina, e v&oacute;s outros dos antigos,<br>
+
+
+Que contra vossas p&aacute;trias, com profano<br>
+
+
+Cora&ccedil;&atilde;o, vos fizestes inimigos,<br>
+
+
+Se l&aacute; no reino escuro de Sumano<br>
+
+
+Receberdes grav&iacute;ssimos castigos,<br>
+
+
+Dizei-lhe que tamb&eacute;m dos Portugueses<br>
+
+
+Alguns tredores houve algumas vezes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,<br>
+
+
+Tantos dos inimigos a eles v&atilde;o!<br>
+
+
+Est&aacute; ali Nuno, qual pelos outeiros<br>
+
+
+De Ceita est&aacute; o fort&iacute;ssimo le&atilde;o,<br>
+
+
+Que cercado se v&ecirc; dos cavaleiros<br>
+
+
+Que os campos v&atilde;o correr de Tetu&atilde;o:<br>
+
+
+Perseguem-no com as lan&ccedil;as, e ele iroso,<br>
+
+
+Torvado um pouco est&aacute;, mas n&atilde;o medroso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"Com torva vista os v&ecirc;, mas a natura<br>
+
+
+Ferina e a ira n&atilde;o lhe compadecem<br>
+
+
+Que as costas d&ecirc;, mas antes na espessura<br>
+
+
+Das lan&ccedil;as se arremessa, que recrescem.<br>
+
+
+Tal est&aacute; o cavaleiro, que a verdura<br>
+
+
+Tinge co'o sangue alheio; ali perecem<br>
+
+
+Alguns dos seus, que o &acirc;nimo valente<br>
+
+
+Perde a virtude contra tanta gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"Sentiu Joane a afronta que passava<br>
+
+
+Nuno, que, como s&aacute;bio capit&atilde;o,<br>
+
+
+Tudo corria e via, e a todos dava,<br>
+
+
+Com presen&ccedil;a e palavras, cora&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+Qual parida leoa, fera e brava,<br>
+
+
+Que os filhos que no ninho s&oacute;s est&atilde;o,<br>
+
+
+Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,<br>
+
+
+O pastor de Mass&iacute;lia lhos furtara;<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"Corre raivosa, e freme, e com bramidos<br>
+
+
+Os montes Sete Irm&atilde;os atroa e abala:<br>
+
+
+Tal Joane, com outros escolhidos<br>
+
+
+Dos seus, correndo acode &agrave; primeira ala:<br>
+
+
+-"&Oacute; fortes companheiros, &oacute; subidos<br>
+
+
+Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,<br>
+
+
+Defendei vossas terras, que a esperan&ccedil;a<br>
+
+
+Da liberdade est&aacute; na vossa lan&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,<br>
+
+
+Que entre as lan&ccedil;as, e setas, e os arneses<br>
+
+
+Dos inimigos corro e vou primeiro:<br>
+
+
+Pelejai, verdadeiros Portugueses!"&mdash;<br>
+
+
+Isto disse o magn&acirc;nimo guerreiro,<br>
+
+
+E, sopesando a lan&ccedil;a quatro vezes,<br>
+
+
+Com for&ccedil;a tira; e, deste &uacute;nico tiro,<br>
+
+
+Muitos lan&ccedil;aram o &uacute;ltimo suspiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Porque eis os seus acesos novamente<br>
+
+
+Duma nobre vergonha e honroso fogo,<br>
+
+
+Sobre qual mais com &acirc;nimo valente<br>
+
+
+Perigos vencer&aacute; do M&aacute;rcio jogo,<br>
+
+
+Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;<br>
+
+
+Rompem malhas primeiro, e peitos logo:<br>
+
+
+Assim recebem junto e d&atilde;o feridas,<br>
+
+
+Como a quem j&aacute; n&atilde;o d&oacute;i perder as vidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"A muitos mandam ver o Est&iacute;gio lago,<br>
+
+
+Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:<br>
+
+
+O Mestre morre ali de Santiago,<br>
+
+
+Que fort&iacute;ssimamente pelejava;<br>
+
+
+Morre tamb&eacute;m, fazendo grande estrago,<br>
+
+
+Outro Mestre cruel de Calatrava;<br>
+
+
+Os Pereiras tamb&eacute;m arrenegados<br>
+
+
+Morrem, arrenegando o C&eacute;u e os fados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Muitos tamb&eacute;m do vulgo vil sem nome<br>
+
+
+V&atilde;o, e tamb&eacute;m dos nobres, ao profundo,<br>
+
+
+Onde o trifauce C&atilde;o perp&eacute;tua fome<br>
+
+
+Tem das almas que passam deste mundo.<br>
+
+
+E porque mais aqui se amanse e dome<br>
+
+
+A soberba do amigo furibundo,<br>
+
+
+A sublime bandeira Castelhana<br>
+
+
+Foi derribada aos p&eacute;s da Lusitana.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+"Aqui a fera batalha se encruece<br>
+
+
+Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;<br>
+
+
+A multid&atilde;o da gente que perece<br>
+
+
+Tem as flores da pr&oacute;pria cor mudadas;<br>
+
+
+J&aacute; as costas d&atilde;o e as vidas; j&aacute; falece<br>
+
+
+O furor e sobejam as lan&ccedil;adas;<br>
+
+
+J&aacute; de Castela o Rei desbaratado<br>
+
+
+Se v&ecirc;, e de seu prop&oacute;sito mudado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+"O campo vai deixando ao vencedor,<br>
+
+
+Contente de lhe n&atilde;o deixar a vida.<br>
+
+
+Seguem-no os que ficaram, e o temor<br>
+
+
+Lhe d&aacute;, n&atilde;o p&eacute;s, mas asas &agrave;
+fugida.<br>
+
+
+Encobrem no profundo peito a dor<br>
+
+
+Da morte, da fazenda despendida,<br>
+
+
+Da m&aacute;goa, da desonra, e triste nojo<br>
+
+
+De ver outrem triunfar de seu despojo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+"Alguns v&atilde;o maldizendo e blasfemando<br>
+
+
+Do primeiro que guerra fez no mundo;<br>
+
+
+Outros a sede dura v&atilde;o culpando<br>
+
+
+Do peito cobi&ccedil;oso e sitibundo,<br>
+
+
+Que, por tomar o alheio, o miserando<br>
+
+
+Povo aventura &agrave;s penas do profundo,<br>
+
+
+Deixando tantas m&atilde;es, tantas esposas<br>
+
+
+Sem filhos, sem maridos, desditosas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+"O vencedor Joane esteve os dias<br>
+
+
+Costumados no campo, em grande gl&oacute;ria;<br>
+
+
+Com ofertas depois, e romarias,<br>
+
+
+As gra&ccedil;as deu a quem lhe deu vit&oacute;ria.<br>
+
+
+Mas Nuno, que n&atilde;o quer por outras vias<br>
+
+
+Entre as gentes deixar de si mem&oacute;ria<br>
+
+
+Sen&atilde;o por armas sempre soberanas,<br>
+
+
+Para as terras se passa Transtaganas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+"Ajuda-o seu destino de maneira<br>
+
+
+Que fez igual o efeito ao pensamento,<br>
+
+
+Porque a terra dos V&acirc;ndalos fronteira<br>
+
+
+Lhe concede o despojo e o vencimento.<br>
+
+
+J&aacute; de Sevilha a B&eacute;tica bandeira<br>
+
+
+E de v&aacute;rios senhores num momento<br>
+
+
+Se lhe derriba aos p&eacute;s, sem ter defesa<br>
+
+
+Obrigados da for&ccedil;a Portuguesa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+"Destas e outras vit&oacute;rias longamente<br>
+
+
+Eram os Castelhanos oprimidos,<br>
+
+
+Quando a paz, desejada j&aacute; da gente,<br>
+
+
+Deram os vencedores aos vencidos,<br>
+
+
+Depois que quis o Padre onipotente<br>
+
+
+Dar os Reis inimigos por maridos<br>
+
+
+As duas ilustr&iacute;ssimas Inglesas,<br>
+
+
+Gentis, formosas, &iacute;nclitas princesas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+"N&atilde;o sofre o peito forte, usado &agrave; guerra,<br>
+
+
+N&atilde;o ter amigo j&aacute; a quem fa&ccedil;a dano;<br>
+
+
+E assim n&atilde;o tendo a quem vencer na terra,<br>
+
+
+Vai cometer as ondas do Oceano.<br>
+
+
+Este &eacute; o primeiro Rei que se desterra<br>
+
+
+Da P&aacute;tria, por fazer que o Africano<br>
+
+
+Conhe&ccedil;a, pelas armas, quanto excede<br>
+
+
+A lei de Cristo &agrave; lei de Mafamede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+"Eis mil nadantes aves pelo argento<br>
+
+
+Da furiosa Tethys inquieta<br>
+
+
+Abrindo as pandas asas v&atilde;o ao vento,<br>
+
+
+Para onde Alcides p&ocirc;s a extrema meta.<br>
+
+
+O monte Abila e o nobre fundamento<br>
+
+
+De Ceita toma, e o torpe Mahometa<br>
+
+
+Deita fora, e segura toda Espanha<br>
+
+
+Da Juliana, m&aacute;, e desleal manha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+"N&atilde;o consentiu a morte tantos anos<br>
+
+
+Que de Her&oacute;i t&atilde;o ditoso se lograsse<br>
+
+
+Portugal, mas os coros soberanos<br>
+
+
+Do C&eacute;u supremo quis que povoasse.<br>
+
+
+Mas para defens&atilde;o dos Lusitanos<br>
+
+
+Deixou, quem o levou quem governasse,<br>
+
+
+E aumentasse a terra mais que dantes,<br>
+
+
+Inclita gera&ccedil;&atilde;o, altos Infantes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"N&atilde;o foi do Rei Duarte t&atilde;o ditoso<br>
+
+
+O tempo que ficou na suma alteza,<br>
+
+
+Que assim vai alternando o tempo iroso<br>
+
+
+O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.<br>
+
+
+Quem viu sempre um estado deleitoso?<br>
+
+
+Ou quem viu em fortuna haver firmeza?<br>
+
+
+Pois inda neste Reino e neste Rei<br>
+
+
+N&atilde;o ousou ela tanto desta lei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"Viu ser cativo o santo irm&atilde;o Fernando,<br>
+
+
+Que a t&atilde;o altas empresas aspirava,<br>
+
+
+Que, por salvar o povo miserando<br>
+
+
+Cercado, ao Sarraceno se entregava.<br>
+
+
+S&oacute; por amor da p&aacute;tria est&aacute; passando<br>
+
+
+A vida de senhora feita escrava,<br>
+
+
+Por n&atilde;o se dar por ele a forte Ceita:<br>
+
+
+Mais o p&uacute;blico bem que o seu respeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"Codro, porque o inimigo n&atilde;o vencesse,<br>
+
+
+Deixou antes vencer da morte a vida;<br>
+
+
+R&eacute;gulo, porque a p&aacute;tria n&atilde;o perdesse,<br>
+
+
+Quis mais a liberdade ver perdida.<br>
+
+
+Este, porque se Espanha n&atilde;o temesse,<br>
+
+
+Ao cativeiro eterno se convida:<br>
+
+
+Codro, nem C&uacute;rcio, ouvido por espanto,<br>
+
+
+Nem os D&eacute;cios leais fizeram tanto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+"Mas Afonso, do Reino &uacute;nico herdeiro,<br>
+
+
+Nome em armas ditoso em nossa Hesp&eacute;ria,<br>
+
+
+Que a soberba do b&aacute;rbaro fronteira<br>
+
+
+Tornou em baixa e hum&iacute;lima mis&eacute;ria,<br>
+
+
+Fora por certo invicto cavaleiro,<br>
+
+
+Se n&atilde;o quisera ir ver a terra Ib&eacute;ria.<br>
+
+
+Mas &Aacute;frica dir&aacute; ser imposs&iacute;bil<br>
+
+
+Poder ningu&eacute;m vencer o Rei terr&iacute;bil.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+"Este p&ocirc;de colher as ma&ccedil;&atilde;s de ouro,<br>
+
+
+Que somente o Tir&iacute;ntio colher p&ocirc;de:<br>
+
+
+Do jugo que lhe p&ocirc;s, o bravo Mouro<br>
+
+
+A cerviz inda agora n&atilde;o sacode.<br>
+
+
+Na fronte a palma leva e o verde louro<br>
+
+
+Das vit&oacute;rias do B&aacute;rbaro, que acode<br>
+
+
+A defender Alc&aacute;cer, forte vila,<br>
+
+
+T&acirc;ngere populoso e a dura Arzila.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+"Por&eacute;m elas enfim por for&ccedil;a entradas,<br>
+
+
+Os muros abaixaram de diamante<br>
+
+
+As Portuguesas for&ccedil;as, costumadas<br>
+
+
+A derribarem quanto acham diante.<br>
+
+
+Maravilhas em armas estremadas,<br>
+
+
+E de escritura dinas elegante,<br>
+
+
+Fizeram cavaleiros nesta empresa,<br>
+
+
+Mais afinando a fama Portuguesa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+"Por&eacute;m depois, tocado de ambi&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+E gl&oacute;ria de mandar, amara e bela,<br>
+
+
+Vai cometer Fernando de Arag&atilde;o,<br>
+
+
+Sobre o potente Reino de Castela.<br>
+
+
+Ajunta-se a inimiga multid&atilde;o<br>
+
+
+Das soberbas e v&aacute;rias gentes dela,<br>
+
+
+Desde C&aacute;dis ao alto Pireneu,<br>
+
+
+Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+"N&atilde;o quis ficar nos Reinos ocioso<br>
+
+
+O mancebo Joane, e logo ordena<br>
+
+
+De ir ajudar o pai ambicioso,<br>
+
+
+Que ent&atilde;o lhe foi ajuda n&atilde;o pequena.<br>
+
+
+Saiu-se enfim do trance perigoso<br>
+
+
+Com fronte n&atilde;o torvada, mas serena,<br>
+
+
+Desbaratado o pai sanguinolento<br>
+
+
+Mas ficou duvidoso o vencimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+"Porque o filho sublime e soberano,<br>
+
+
+Gentil, forte, animoso cavaleiro,<br>
+
+
+Nos contr&aacute;rios fazendo imenso dano,<br>
+
+
+Todo um dia ficou no campo inteiro.<br>
+
+
+Desta arte foi vencido Octaviano,<br>
+
+
+E Ant&oacute;nio vencedor, sem companheiro,<br>
+
+
+Quando daqueles que C&eacute;sar mataram<br>
+
+
+Nos Fil&iacute;picos campos se vingaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"Por&eacute;m depois que a escura noite eterna<br>
+
+
+Afonso aposentou no C&eacute;u sereno,<br>
+
+
+O Pr&iacute;ncipe, que o Reino ent&atilde;o governa,<br>
+
+
+Foi Joane segundo e Rei trezeno.<br>
+
+
+Este, por haver fama sempiterna,<br>
+
+
+Mais do que tentar pode homem terreno<br>
+
+
+Tentou, que foi buscar da roxa Aurora<br>
+
+
+Os t&eacute;rminos, que eu vou buscando agora.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"Manda seus mensageiros, que passaram<br>
+
+
+Espanha, Fran&ccedil;a, It&aacute;lia celebrada,<br>
+
+
+E l&aacute; no ilustre porto se embarcaram<br>
+
+
+Onde j&aacute; foi Part&eacute;nope enterra:<br>
+
+
+N&aacute;poles, onde os Xados se mostraram,<br>
+
+
+Fazendo-a a v&aacute;rias gentes subjugada,<br>
+
+
+Pola ilustrar no fim de tantos anos<br>
+
+
+Co'o senhorio de &iacute;nclitos Hispanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"Pelo mar alto S&iacute;culo navegam;<br>
+
+
+V&atilde;o-se &agrave;s praias de Rodes arenosas;<br>
+
+
+E dali &agrave;s ribeiras altas chegam,<br>
+
+
+Que com morte de Magno s&atilde;o famosas;<br>
+
+
+V&atilde;o a M&ecirc;nfis e &agrave;s terras, que se regam<br>
+
+
+Das enchentes Nil&oacute;ticas undosas;<br>
+
+
+Sobem &agrave; Eti&oacute;pia, sobre Egito,<br>
+
+
+Que de Cristo l&aacute; guarda o santo rito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"Passam tamb&eacute;m as ondas Eritreias,<br>
+
+
+Que o povo de Israel sem nau passou;<br>
+
+
+Ficam-lhe atr&aacute;s as serras Nabateias,<br>
+
+
+Que o filho de Ismael co'o nome ornou.<br>
+
+
+As costas odor&iacute;feras Sabeias,<br>
+
+
+Que a m&atilde;e do belo Ad&oacute;nis tanto honrou,<br>
+
+
+Cercam, com toda a Ar&aacute;bia descoberta<br>
+
+
+Feliz, deixando a P&eacute;trea e a Deserta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+"Entram no estreito P&eacute;rsico, onde dura<br>
+
+
+Da confusa Babel inda a mem&oacute;ria;<br>
+
+
+Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,<br>
+
+
+Que as fontes onde nascem tem por gl&oacute;ria.<br>
+
+
+Dali v&atilde;o em demanda da &aacute;gua pura,<br>
+
+
+Que causa inda ser&aacute; de larga hist&oacute;ria,<br>
+
+
+Do Indo, pelas ondas do Oceano,<br>
+
+
+Onde n&atilde;o se atreveu passar Trajano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Viram gentes inc&oacute;gnitas e estranhas<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia, da Carm&acirc;nia e Gedrosia,<br>
+
+
+Vendo v&aacute;rios costumes, v&aacute;rias manhas,<br>
+
+
+Que cada regi&atilde;o produze e cria.<br>
+
+
+Mas de vias t&atilde;o &aacute;speras, tamanhas,<br>
+
+
+Tornar-se facilmente n&atilde;o podia:<br>
+
+
+L&aacute; morreram enfim, e l&aacute; ficaram,<br>
+
+
+Que &agrave; desejada p&aacute;tria n&atilde;o tornaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+"Parece que guardava o claro C&eacute;u<br>
+
+
+A Manuel, e seus merecimentos,<br>
+
+
+Esta empresa t&atilde;o &aacute;rdua, que o moveu<br>
+
+
+A subidos e ilustres movimentos:<br>
+
+
+Manuel, que a Joane sucedeu<br>
+
+
+No Reino e nos altivos pensamentos,<br>
+
+
+Logo, corno tornou do Reino o cargo,<br>
+
+
+Tomou mais a conquista do mar largo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"O qual, como do nobre pensamento<br>
+
+
+Daquela obriga&ccedil;&atilde;o, que lhe ficara<br>
+
+
+De seus antepassados, (cujo intento<br>
+
+
+Foi sempre acrescentar a terra cara)<br>
+
+
+N&atilde;o deixasse de ser um s&oacute; momento<br>
+
+
+Conquistado: no tempo que a luz clara<br>
+
+
+Foge, e as estrelas n&iacute;tidas, que saem,<br>
+
+
+A repouso convidam quando caem,<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Estando j&aacute; deitado no &aacute;ureo leito,<br>
+
+
+Onde imagina&ccedil;&otilde;es mais certas s&atilde;o?<br>
+
+
+Revolvendo contino no conceito<br>
+
+
+Seu of&iacute;cio e sangue a obriga&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+Os olhos lhe ocupou o sono aceito,<br>
+
+
+Sem lhe desocupar o cora&ccedil;&atilde;o;<br>
+
+
+Porque, tanto que lasso se adormece,<br>
+
+
+Morfeu em v&aacute;rias formas lhe aparece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Aqui se lhe apresenta que subia<br>
+
+
+T&atilde;o alto, que tocava a prima Esfera,<br>
+
+
+Donde diante v&aacute;rios mundos via,<br>
+
+
+Na&ccedil;&otilde;es de muita gente estranha e fera;<br>
+
+
+E l&aacute; bem junto donde nasce o dia,<br>
+
+
+Depois que os olhos longos estendera,<br>
+
+
+Viu de antigos, long&iacute;nquos e altos montes<br>
+
+
+Nascerem duas claras e altas fontes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Aves agrestes, feras e alim&aacute;rias,<br>
+
+
+Pelo monte selv&aacute;tico habitavam;<br>
+
+
+Mil &aacute;rvores silvestres e ervas v&aacute;rias<br>
+
+
+O passo e o tracto &agrave;s gentes atalhavam.<br>
+
+
+Estas duras montanhas, advers&aacute;rias<br>
+
+
+De mais conversa&ccedil;&atilde;o, por si mostravam<br>
+
+
+Que, desque Ad&atilde;o pecou aos nossos anos,<br>
+
+
+N&atilde;o as romperam nunca p&eacute;s humanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"Das &aacute;guas se lhe antolha que sa&iacute;am,<br>
+
+
+Para ele os largos passos inclinando,<br>
+
+
+Dois homens, que mui velhos pareciam,<br>
+
+
+De aspecto, inda que agreste, venerando:<br>
+
+
+Das pontas dos cabelos lhe ca&iacute;am<br>
+
+
+Gotas, que o corpo v&atilde;o banhando;<br>
+
+
+A cor da pele ba&ccedil;a e denegrida,<br>
+
+
+A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"Dambos de dois a fronte coroada<br>
+
+
+Ramos n&atilde;o conhecidos e ervas tinha;<br>
+
+
+Um deles a presen&ccedil;a traz cansada,<br>
+
+
+Como quem de mais longe ali caminha.<br>
+
+
+E assim a &aacute;gua, com &iacute;mpeto alterada,<br>
+
+
+Parecia que doutra parte vinha,<br>
+
+
+Bem como Alfeu de Arc&aacute;dia em Siracusa<br>
+
+
+Vai buscar os abra&ccedil;os de Aretusa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+"Este, que era o mais grave na pessoa,<br>
+
+
+Destarte para o Rei de longe brada:<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; tu, a cujos reinos e coroa<br>
+
+
+Grande parte do mundo est&aacute; guardada,<br>
+
+
+N&oacute;s outros, cuja fama tanto voa,<br>
+
+
+Cuja cerviz bem nunca foi domada,<br>
+
+
+Te avisamos que &eacute; tempo que j&aacute; mandes<br>
+
+
+A receber de n&oacute;s tributos grandes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+&mdash;"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra<br>
+
+
+Celeste tenho o ber&ccedil;o verdadeiro;<br>
+
+
+Estoutro &eacute; o Indo Rei que, nesta serra<br>
+
+
+Que v&ecirc;s, seu nascimento tem primeiro.<br>
+
+
+Custar-te-emos contudo dura guerra;<br>
+
+
+Mas insistindo tu, por derradeiro,<br>
+
+
+Com n&atilde;o vistas vit&oacute;rias, sem receio,<br>
+
+
+A quantas gentes v&ecirc;s, por&aacute;s o freio."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+"N&atilde;o disse mais o rio ilustre e santo,<br>
+
+
+Mas ambos desaparecem num momento.<br>
+
+
+Acorda Emanuel c'um novo espanto<br>
+
+
+E grande altera&ccedil;&atilde;o de pensamento.<br>
+
+
+Estendeu nisto Febo o claro manto<br>
+
+
+Pelo escuro Hemisf&eacute;rio sonolento;<br>
+
+
+Veio a manh&atilde; no c&eacute;u pintando as cores<br>
+
+
+De pudibunda rosa e roxas flores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+"Chama o Rei os senhores a conselho,<br>
+
+
+E prop&otilde;e-lhe as figuras da vis&atilde;o;<br>
+
+
+As palavras lhe diz do santo velho,<br>
+
+
+Que a todos foram grande admira&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+Determinam o n&aacute;utico aparelho,<br>
+
+
+Para que com sublime cora&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+V&aacute; a gente que mandar cortando os mares<br>
+
+
+A buscar novos climas, novos ares.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+"Eu, que bem mal cuidava que em efeito<br>
+
+
+Se pusesse o que o peito me pedia,<br>
+
+
+Que sempre grandes cousas deste jeito<br>
+
+
+Pressago o cora&ccedil;&atilde;o me prometia,<br>
+
+
+N&atilde;o sei por que raz&atilde;o, por que respeito,<br>
+
+
+Ou por que bom sinal que em mi se via,<br>
+
+
+Me p&otilde;e o &iacute;nclito Rei nas m&atilde;os a chave<br>
+
+
+Deste cometimento grande e grave.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+"E com rogo o palavras amorosas,<br>
+
+
+Que &eacute; um mando nos Reis, que a mais obriga,<br>
+
+
+Me disse:&mdash;"As cousas &aacute;rduas e lustrosas<br>
+
+
+Se alcan&ccedil;am com trabalho e com fadiga;<br>
+
+
+Faz as pessoas altas e famosas<br>
+
+
+A vida que se perde e que periga;<br>
+
+
+Que, quando ao medo infame n&atilde;o se rende,<br>
+
+
+Ent&atilde;o, se menos dura, mais se estende.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+&mdash;"Eu vos tenho entre todos escolhido<br>
+
+
+Para uma empresa, qual a v&oacute;s se deve,<br>
+
+
+Trabalho ilustre, duro e esclarecido,<br>
+
+
+O que eu sei que por mi vos ser&aacute; leve."&mdash;<br>
+
+
+N&atilde;o sofri mais, mas logo:&mdash;"&Oacute; Rei subido,<br>
+
+
+Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,<br>
+
+
+&Eacute; t&atilde;o pouco por v&oacute;s, que mais me pena<br>
+
+
+Ser esta vida cousa t&atilde;o pequena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+&mdash;"Imaginai tamanhas aventuras,<br>
+
+
+Quais Euristeu a Alcides inventava,<br>
+
+
+O le&atilde;o Cleoneu, Harpias duras,<br>
+
+
+O porco de Erimanto, a Hidra brava,<br>
+
+
+Descer enfim &agrave;s sombras v&atilde;s e escuras<br>
+
+
+Onde os campos de Dite a Estige lava;<br>
+
+
+Porque a maior perigo, a mor afronta,<br>
+
+
+Por v&oacute;s, &oacute; Rei, o esp&iacute;rito e a carne
+&eacute; pronta."<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"Com merc&ecirc;s sumptuosas me agradece<br>
+
+
+E com raz&otilde;es me louva esta vontade;<br>
+
+
+Que a virtude louvada vive e cresce,<br>
+
+
+E o louvor altos casos persuade.<br>
+
+
+A acompanhar-me logo se oferece,<br>
+
+
+Obrigado d'amor e d'amizade,<br>
+
+
+N&atilde;o menos cobi&ccedil;oso de honra e fama,<br>
+
+
+O caro meu irm&atilde;o Paulo da Gama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,<br>
+
+
+De trabalhos mui grande sofredor;<br>
+
+
+Ambos s&atilde;o de valia e de conselho,<br>
+
+
+De experi&ecirc;ncia em armas e furor.<br>
+
+
+J&aacute; de manceba gente me aparelho,<br>
+
+
+Em que cresce o desejo do valor;<br>
+
+
+Todos de grande esfor&ccedil;o; e assim parece<br>
+
+
+Quem a tamanhas cousas se oferece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"Foram de Emanuel remunerados,<br>
+
+
+Porque com mais amor se apercebessem,<br>
+
+
+E com palavras altas animados<br>
+
+
+Para quantos trabalhos sucedessem.<br>
+
+
+Assim foram os M&iacute;nias ajuntados,<br>
+
+
+Para que o V&eacute;u dourado combatessem,<br>
+
+
+Na fat&iacute;dica Nau, que ousou primeira<br>
+
+
+Tentar o mar Eux&iacute;nio, aventureira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+"E j&aacute; no porto da &iacute;nclita Ulisseia<br>
+
+
+C'um alvoro&ccedil;o nobre, e &eacute; um desejo,<br>
+
+
+(Onde o licor mistura e branca areia<br>
+
+
+Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)<br>
+
+
+As naus prestes est&atilde;o; e n&atilde;o refreia<br>
+
+
+Temor nenhum o juvenil despejo,<br>
+
+
+Porque a gente mar&iacute;tima e a de Marte<br>
+
+
+Est&atilde;o para seguir-me a toda parte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+"Pelas praias vestidos os soldados<br>
+
+
+De v&aacute;rias cores v&ecirc;m e v&aacute;rias artes,<br>
+
+
+E n&atilde;o menos de esfor&ccedil;o aparelhados<br>
+
+
+Para buscar do inundo novas partes.<br>
+
+
+Nas fortes naus os ventos sossegados<br>
+
+
+Ondeam os a&eacute;reos estandartes;<br>
+
+
+Elas prometem, vendo os mares largos,<br>
+
+
+De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+"Depois de aparelhados desta sorte<br>
+
+
+De quanto tal viagem pede e manda,<br>
+
+
+Aparelhamos a alma para a morte,<br>
+
+
+Que sempre aos nautas ante os olhos anda.<br>
+
+
+Para o sumo Poder que a et&eacute;rea corte<br>
+
+
+Sustenta s&oacute; coa vista veneranda,<br>
+
+
+Imploramos favor que nos guiasse,<br>
+
+
+E que nossos come&ccedil;os aspirasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+"Partimo-nos assim do santo templo<br>
+
+
+Que nas praias do mar est&aacute; assentado,<br>
+
+
+Que o nome tem da terra, para exemplo,<br>
+
+
+Donde Deus foi em carne ao mundo dado.<br>
+
+
+Certifico-te, &oacute; Rei, que se contemplo<br>
+
+
+Como fui destas praias apartado,<br>
+
+
+Cheio dentro de d&uacute;vida e receio,<br>
+
+
+Que apenas nos meus olhos ponho o freio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+"A gente da cidade aquele dia,<br>
+
+
+(Uns por amigos, outros por parentes,<br>
+
+
+Outros por ver somente) concorria,<br>
+
+
+Saudosos na vista e descontentes.<br>
+
+
+E n&oacute;s coa virtuosa companhia<br>
+
+
+De mil Religiosos diligentes,<br>
+
+
+Em prociss&atilde;o solene a Deus orando,<br>
+
+
+Para os bat&eacute;is viemos caminhando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+"Em t&atilde;o longo caminho e duvidoso<br>
+
+
+Por perdidos as gentes nos julgavam;<br>
+
+
+As mulheres c'um choro piedoso,<br>
+
+
+Os homens com suspiros que arrancavam;<br>
+
+
+M&atilde;es, esposas, irm&atilde;s, que o temeroso<br>
+
+
+Amor mais desconfia, acrescentavam<br>
+
+
+A desesperar&atilde;o, e frio medo<br>
+
+
+De j&aacute; nos n&atilde;o tornar a ver t&atilde;o cedo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+"Qual vai dizendo:&mdash;"&Oacute; filho, a quem eu tinha<br>
+
+
+S&oacute; para refrig&eacute;rio, e doce amparo<br>
+
+
+Desta cansada j&aacute; velhice minha,<br>
+
+
+Que em choro acabar&aacute;, penoso e amaro,<br>
+
+
+Por que me deixas, m&iacute;sera e mesquinha?<br>
+
+
+Por que de mim te v&aacute;s, &oacute; filho caro,<br>
+
+
+A fazer o fun&eacute;reo enterramento,<br>
+
+
+Onde sejas de peixes mantimento!"&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+"Qual em cabelo:&mdash;"&Oacute; doce e amado esposo,<br>
+
+
+Sem quem n&atilde;o quis Amor que viver possa,<br>
+
+
+Por que is aventurar ao mar iroso<br>
+
+
+Essa vida que &eacute; minha, e n&atilde;o &eacute; vossa?<br>
+
+
+Como por um caminho duvidoso<br>
+
+
+Vos esquece a afei&ccedil;&atilde;o t&atilde;o doce nossa?<br>
+
+
+Nosso amor, nosso v&atilde;o contentamento<br>
+
+
+Quereis que com as velas leve o vento?"&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+"Nestas e outras palavras que diziam<br>
+
+
+De amor e de piedosa humanidade,<br>
+
+
+Os velhos e os meninos os seguiam,<br>
+
+
+Em quem menos esfor&ccedil;o p&otilde;e a idade.<br>
+
+
+Os montes de mais perto respondiam,<br>
+
+
+Quase movidos de alta piedade;<br>
+
+
+A branca areia as l&aacute;grimas banhavam,<br>
+
+
+Que em multid&atilde;o com elas se igualavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+"N&oacute;s outros sem a vista alevantarmos<br>
+
+
+Nem a m&atilde;e, nem a esposa, neste estado,<br>
+
+
+Por nos n&atilde;o magoarmos, ou mudarmos<br>
+
+
+Do prop&oacute;sito firme come&ccedil;ado,<br>
+
+
+Determinei de assim nos embarcarmos<br>
+
+
+Sem o despedimento costumado,<br>
+
+
+Que, posto que &eacute; de amor usan&ccedil;a boa,<br>
+
+
+A quem se aparta, ou fica, mais magoa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+"Mas um velho d'aspeito venerando,<br>
+
+
+Que ficava nas praias, entre a gente,<br>
+
+
+Postos em n&oacute;s os olhos, meneando<br>
+
+
+Tr&ecirc;s vezes a cabe&ccedil;a, descontente,<br>
+
+
+A voz pesada um pouco alevantando,<br>
+
+
+Que n&oacute;s no mar ouvimos claramente,<br>
+
+
+C'um saber s&oacute; de experi&ecirc;ncias feito,<br>
+
+
+Tais palavras tirou do experto peito:<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; gl&oacute;ria de mandar! &Oacute;
+v&atilde;
+cobi&ccedil;a<br>
+
+
+Desta vaidade, a quem chamamos Fama!<br>
+
+
+&Oacute; fraudulento gosto, que se ati&ccedil;a<br>
+
+
+C'uma aura popular, que honra se chama!<br>
+
+
+Que castigo tamanho e que justi&ccedil;a<br>
+
+
+Fazes no peito v&atilde;o que muito te ama!<br>
+
+
+Que mortes, que perigos, que tormentas,<br>
+
+
+Que crueldades neles experimentas!<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+&mdash;"Dura inquieta&ccedil;&atilde;o d'alma e da vida,<br>
+
+
+Fonte de desamparos e adult&eacute;rios,<br>
+
+
+Sagaz consumidora conhecida<br>
+
+
+De fazendas, de reinos e de imp&eacute;rios:<br>
+
+
+Chamam-te ilustre, chamam-te subida,<br>
+
+
+Sendo dina de infames vitup&eacute;rios;<br>
+
+
+Chamam-te Fama e Gl&oacute;ria soberana,<br>
+
+
+Nomes com quem se o povo n&eacute;scio engana!<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+&mdash;"A que novos desastres determinas<br>
+
+
+De levar estes reinos e esta gente?<br>
+
+
+Que perigos, que mortes lhe destinas<br>
+
+
+Debaixo dalgum nome preminente?<br>
+
+
+Que promessas de reinos, e de minas<br>
+
+
+D'ouro, que lhe far&aacute;s t&atilde;o facilmente?<br>
+
+
+Que famas lhe prometer&aacute;s? que hist&oacute;rias?<br>
+
+
+Que triunfos, que palmas, que vit&oacute;rias?<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+&mdash;"Mas &oacute; tu, gera&ccedil;&atilde;o daquele
+insano,<br>
+
+
+Cujo pecado e desobedi&ecirc;ncia,<br>
+
+
+N&atilde;o somente do reino soberano<br>
+
+
+Te p&ocirc;s neste desterro e triste aus&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Mas inda doutro estado mais que humano<br>
+
+
+Da quieta e da simples inoc&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Idade d'ouro, tanto te privou,<br>
+
+
+Que na de ferro e d'armas te deitou:<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+&mdash;"J&aacute; que nesta gostosa vaidade<br>
+
+
+Tanto enlevas a leve fantasia,<br>
+
+
+J&aacute; que &agrave; bruta crueza e feridade<br>
+
+
+Puseste nome esfor&ccedil;o e valentia,<br>
+
+
+J&aacute; que prezas em tanta quantidades<br>
+
+
+O desprezo da vida, que devia<br>
+
+
+De ser sempre estimada, pois que j&aacute;<br>
+
+
+Temeu tanto perd&ecirc;-la quem a d&aacute;:<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+&mdash;"N&atilde;o tens junto contigo o Ismaelita,<br>
+
+
+Com quem sempre ter&aacute;s guerras sobejas?<br>
+
+
+N&atilde;o segue ele do Ar&aacute;bio a lei maldita,<br>
+
+
+Se tu pela de Cristo s&oacute; pelejas?<br>
+
+
+N&atilde;o tem cidades mil, terra infinita,<br>
+
+
+Se terras e riqueza mais desejas?<br>
+
+
+N&atilde;o &eacute; ele por armas esfor&ccedil;ado,<br>
+
+
+Se queres por vit&oacute;rias ser louvado?<br>
+
+
+<br>
+
+
+101<br>
+
+
+&mdash;"Deixas criar &agrave;s portas o inimigo,<br>
+
+
+Por ires buscar outro de t&atilde;o longe,<br>
+
+
+Por quem se despovoe o Reino antigo,<br>
+
+
+Se enfraque&ccedil;a e se v&aacute; deitando a longe?<br>
+
+
+Buscas o incerto e inc&oacute;gnito perigo<br>
+
+
+Por que a fama te exalte e te lisonge,<br>
+
+
+Chamando-te senhor, com larga c&oacute;pia,<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia, P&eacute;rsia, Ar&aacute;bia e de
+Eti&oacute;pia?<br>
+
+
+<br>
+
+
+102<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; maldito o primeiro que no mundo<br>
+
+
+Nas ondas velas p&ocirc;s em seco lenho,<br>
+
+
+Dino da eterna pena do profundo,<br>
+
+
+Se &eacute; justa a justa lei, que sigo e tenho!<br>
+
+
+Nunca ju&iacute;zo algum alto e profundo,<br>
+
+
+Nem c&iacute;tara sonora, ou vivo engenho,<br>
+
+
+Te d&ecirc; por isso fama nem mem&oacute;ria,<br>
+
+
+Mas contigo se acabe o nome e gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+103<br>
+
+
+&mdash;"Trouxe o filho de J&aacute;peto do C&eacute;u<br>
+
+
+O fogo que ajuntou ao peito humano,<br>
+
+
+Fogo que o mundo em armas acendeu<br>
+
+
+Em mortes, em desonras (grande engano).<br>
+
+
+Quanto melhor nos fora, Prometeu,<br>
+
+
+E quanto para o mundo menos dano,<br>
+
+
+Que a tua est&aacute;tua ilustre n&atilde;o tivera<br>
+
+
+Fogo de altos desejos, que a movera!<br>
+
+
+<br>
+
+
+104<br>
+
+
+&mdash;"N&atilde;o cometera o mo&ccedil;o miserando<br>
+
+
+O carro alto do pai, nem o ar vazio<br>
+
+
+O grande Arquiteto co'o filho, dando<br>
+
+
+Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.<br>
+
+
+Nenhum cometimento alto e nefando,<br>
+
+
+Por fogo, ferro, &aacute;gua, calma e frio,<br>
+
+
+Deixa intentado a humana gera&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+M&iacute;sera sorte, estranha
+condi&ccedil;&atilde;o!"&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Quinto</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+"Estas senten&ccedil;as tais o velho honrado<br>
+
+
+Vociferando estava, quando abrimos<br>
+
+
+As asas ao sereno e sossegado<br>
+
+
+Vento, e do porto amado nos partimos.<br>
+
+
+E, como &eacute; j&aacute; no mar costume usado,<br>
+
+
+A vela desfraldando, o c&eacute;u ferimos,<br>
+
+
+Dizendo: "Boa viagem", logo o vento<br>
+
+
+Nos troncos fez o usado movimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+"Entrava neste tempo o eterno lume<br>
+
+
+No animal Nemeio truculento,<br>
+
+
+E o mundo, que com tempo se consume,<br>
+
+
+Na sexta idade andava enfermo e lento:<br>
+
+
+Nela v&ecirc;, como tinha por costume,<br>
+
+
+Cursos do sol quatorze vezes cento,<br>
+
+
+Com mais noventa e sete, em que corria,<br>
+
+
+Quando no mar a armada se estendia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+"J&aacute; a vista pouco e pouco se desterra<br>
+
+
+Daqueles p&aacute;trios montes que ficavam;<br>
+
+
+Ficava o caro Tejo, e a fresca serra<br>
+
+
+De Sintra, e nela os olhos se alongavam.<br>
+
+
+Ficava-nos tamb&eacute;m na amada terra<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o, que as m&aacute;goas l&aacute;
+deixavam;<br>
+
+
+E j&aacute; depois que toda se escondeu,<br>
+
+
+N&atilde;o vimos mais enfim que mar e c&eacute;u.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+"Assim fomos abrindo aqueles mares,<br>
+
+
+Que gera&ccedil;&atilde;o alguma n&atilde;o abriu,<br>
+
+
+As novas ilhas vendo e os novos ares,<br>
+
+
+Que o generoso Henrique descobriu;<br>
+
+
+De Maurit&acirc;nia os montes e lugares,<br>
+
+
+Terra que Anteu num tempo possuiu,<br>
+
+
+Deixando &agrave; m&atilde;o esquerda; que &agrave; direita<br>
+
+
+N&atilde;o h&aacute; certeza doutra, mas suspeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+"Passamos a grande Ilha da Madeira,<br>
+
+
+Que do muito arvoredo assim se chama,<br>
+
+
+Das que n&oacute;s povoamos, a primeira,<br>
+
+
+Mais c&eacute;lebre por nome que por fama:<br>
+
+
+Mas nem por ser do mundo a derradeira<br>
+
+
+Se lhe aventajam quantas V&eacute;nus ama,<br>
+
+
+Antes, sendo esta sua, se esquecera<br>
+
+
+De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+"Deixamos de Mass&iacute;lia a est&eacute;ril costa,<br>
+
+
+Onde seu gado os Azenegues pastam,<br>
+
+
+Gente que as frescas &aacute;guas nunca gosta<br>
+
+
+Nem as ervas do campo bem lhe abastam:<br>
+
+
+A terra a nenhum fruto enfim disposta,<br>
+
+
+Onde as aves no ventre o ferro gastam,<br>
+
+
+Padecendo de tudo extrema in&oacute;pia,<br>
+
+
+Que aparta a Barbaria de Eti&oacute;pia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+"Passamos o limite aonde chega<br>
+
+
+O Sol, que para o Norte os carros guia,<br>
+
+
+Onde jazem os povos a quem nega<br>
+
+
+O filho de Climene a cor do dia.<br>
+
+
+Aqui gentes estranhas lava e rega<br>
+
+
+Do negro Sanag&aacute; a corrente fria,<br>
+
+
+Onde o Cabo Arsin&aacute;rio o nome perde,<br>
+
+
+Chamando-se dos nossos Cabo Verde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+"Passadas tendo j&aacute; as Can&aacute;rias ilhas,<br>
+
+
+Que tiveram por nome Fortunadas,<br>
+
+
+Entramos, navegando, pelas filhas<br>
+
+
+Do velho Hesp&eacute;rio, Hesp&eacute;rides chamadas;<br>
+
+
+Terras por onde novas maravilhas<br>
+
+
+Andaram vendo j&aacute; nossas armadas.<br>
+
+
+Ali tomamos porto com bom vento,<br>
+
+
+Por tomarmos da terra mantimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+"Aquela ilha apartamos, que tomou<br>
+
+
+O nome do guerreiro Santiago,<br>
+
+
+Santo que os Espanh&oacute;is tanto ajudou<br>
+
+
+A fazerem nos Mouros bravo estrago.<br>
+
+
+Daqui, tanto que B&oacute;reas nos ventou,<br>
+
+
+Tornamos a cortar o imenso lago<br>
+
+
+Do salgado Oceano, e assim deixamos<br>
+
+
+A terra onde o refresco doce achamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+"Por aqui rodeando a larga parte<br>
+
+
+De &Aacute;frica, que ficava ao Oriente,<br>
+
+
+A prov&iacute;ncia Jalofo, que reparte<br>
+
+
+Por diversas na&ccedil;&otilde;es a negra gente;<br>
+
+
+A mui grande Mandinga, por cuja arte<br>
+
+
+Logramos o metal rico e luzente,<br>
+
+
+Que do curvo Gambeia as &aacute;guas bebe,<br>
+
+
+As quais o largo Atl&acirc;ntico recebe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+"As D&oacute;rcadas passamos, povoadas<br>
+
+
+Das Irm&atilde;s, que outro tempo ali viviam,<br>
+
+
+Que de vista total sendo privadas,<br>
+
+
+Todas tr&ecirc;s dum s&oacute; olho se serviam.<br>
+
+
+Tu s&oacute;, tu, cujas tran&ccedil;as encrespadas<br>
+
+
+Netuno l&aacute; nas &aacute;guas acendiam,<br>
+
+
+Tornada j&aacute; de todas a mais feia,<br>
+
+
+De b&iacute;voras encheste a ardente areia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+"Sempre enfim para o Austro a aguda proa<br>
+
+
+No grand&iacute;ssimo g&oacute;lf&atilde;o nos metemos,<br>
+
+
+Deixando a serra asp&eacute;rrima Leoa,<br>
+
+
+Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.<br>
+
+
+O grande rio, onde batendo soa<br>
+
+
+O mar nas praias notas que ali temos,<br>
+
+
+Ficou, com a Ilha ilustre que tomou<br>
+
+
+O nome dum que o lado a Deus tocou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+"Ali o mui grande reino est&aacute; de Congo,<br>
+
+
+Por n&oacute;s j&aacute; convertido &agrave; f&eacute;
+de Cristo,<br>
+
+
+Por onde o Zaire passa, claro e longo,<br>
+
+
+Rio pelos antigos nunca visto.<br>
+
+
+Por este largo mar enfim me alongo<br>
+
+
+Do conhecido p&oacute;lo de Calisto,<br>
+
+
+Tendo o t&eacute;rmino ardente j&aacute; passado,<br>
+
+
+Onde o meio do mundo &eacute; limitado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+"J&aacute; descoberto t&iacute;nhamos diante,<br>
+
+
+L&aacute; no novo Hemisf&eacute;rio, nova estrela,<br>
+
+
+N&atilde;o vista de outra gente, que ignorante<br>
+
+
+Alguns tempos esteve incerta dela.<br>
+
+
+Vimos a parte menos rutilante,<br>
+
+
+E, por falta de estrelas, menos bela,<br>
+
+
+Do P&oacute;lo fixo, onde ainda se n&atilde;o sabe<br>
+
+
+Que outra terra comece, ou mar acabe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+"Assim passando aquelas regi&otilde;es<br>
+
+
+Por onde duas vezes passa Apolo,<br>
+
+
+Dois invernos fazendo e dois ver&otilde;es,<br>
+
+
+Enquanto corre dum ao outro P&oacute;lo,<br>
+
+
+Por calmas, por tormentas e opress&otilde;es,<br>
+
+
+Que sempre f az no mar o irado Eolo,<br>
+
+
+Vimos as Ursas, apesar de Juno,<br>
+
+
+Banharem-se nas &aacute;guas de Netuno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+"Contar-te longamente as perigosas<br>
+
+
+Coisas do mar, que os homens n&atilde;o entendem:<br>
+
+
+S&uacute;bitas trovoadas temerosas,<br>
+
+
+Rel&acirc;mpados que o ar em fogo acendem,<br>
+
+
+Negros chuveiros, noites tenebrosas,<br>
+
+
+Bramidos de trov&otilde;es que o mundo fendem,<br>
+
+
+N&atilde;o menos &eacute; trabalho, que grande erro,<br>
+
+
+Ainda que tivesse a voz de ferro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+"Os casos vi que os rudos marinheiros,<br>
+
+
+Que t&ecirc;m por mestra a longa experi&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Contam por certos sempre e verdadeiros,<br>
+
+
+Julgando as cousas s&oacute; pela apar&ecirc;ncia,<br>
+
+
+E que os que t&ecirc;m ju&iacute;zos mais inteiros,<br>
+
+
+Que s&oacute; por puro engenho e por ci&ecirc;ncia,<br>
+
+
+V&ecirc;em do mundo os segredos escondidos,<br>
+
+
+Julgam por falsos, ou mal entendidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+"Vi, claramente visto, o lume vivo<br>
+
+
+Que a mar&iacute;tima gente tem por santo<br>
+
+
+Em tempo de tormenta e vento esquivo,<br>
+
+
+De tempestade escura e triste pranto.<br>
+
+
+N&atilde;o menos foi a todos excessivo<br>
+
+
+Milagre, e coisa certo de alto espanto,<br>
+
+
+Ver as nuvens do mar com largo cano<br>
+
+
+Sorver as altas &aacute;guas do Oceano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+"Eu o vi certamente (e n&atilde;o presumo<br>
+
+
+Que a vista me enganava) levantar-se<br>
+
+
+No ar um vaporzinho e subtil fumo,<br>
+
+
+E, do vento trazido, rodear-se:<br>
+
+
+Daqui levado um cano ao p&oacute;lo sumo<br>
+
+
+Se via, t&atilde;o delgado, que enxergar-se<br>
+
+
+Dos olhos facilmente n&atilde;o podia:<br>
+
+
+Da mat&eacute;ria das nuvens parecia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+"Ia-se pouco e pouco acrescentando<br>
+
+
+E mais que um largo masto se engrossava;<br>
+
+
+Aqui se estreita, aqui se alarga, quando<br>
+
+
+Os golpes grandes de &aacute;gua em si chupava;<br>
+
+
+Estava-se coas ondas ondeando:<br>
+
+
+Em cima dele uma nuvem se espessava,<br>
+
+
+Fazendo-se maior, mais carregada<br>
+
+
+Co'o cargo grande d'&aacute;gua em si tomada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+"Qual roxa sanguessuga se veria<br>
+
+
+Nos bei&ccedil;os da alim&aacute;ria (que imprudente,<br>
+
+
+Bebendo a recolheu na fonte fria)<br>
+
+
+Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;<br>
+
+
+Chupando mais e mais se engrossa e cria,<br>
+
+
+Ali se enche e se alarga grandemente:<br>
+
+
+Tal a grande coluna, enchendo, aumenta<br>
+
+
+A si, e a nuvem negra que sustenta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+"Mas depois que de todo se fartou,<br>
+
+
+O p&oacute; que tem no mar a si recolhe,<br>
+
+
+E pelo c&eacute;u chovendo enfim voou,<br>
+
+
+Porque coa &aacute;gua a jacente &aacute;gua molhe:<br>
+
+
+As ondas torna as ondas que tomou,<br>
+
+
+Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.<br>
+
+
+Vejam agora os s&aacute;bios na escritura,<br>
+
+
+Que segredos s&atilde;o estes de Natura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+"Se os antigos fil&oacute;sofos, que andaram<br>
+
+
+Tantas terras, por ver segredos delas,<br>
+
+
+As maravilhas que eu passei, passaram,<br>
+
+
+A t&atilde;o diversos ventos dando as velas,<br>
+
+
+Que grandes escrituras que deixaram!<br>
+
+
+Que influi&ccedil;&atilde;o de signos e de estrelas!<br>
+
+
+Que estranhezas, que grandes qualidades!<br>
+
+
+E tudo sem mentir, puras verdades.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"Mas j&aacute; o Planeta que no c&eacute;u primeiro<br>
+
+
+Habita, cinco vezes apressada,<br>
+
+
+Agora meio rosto, agora inteiro<br>
+
+
+Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,<br>
+
+
+Quando da et&eacute;rea g&aacute;vea um marinheiro,<br>
+
+
+Pronto coa vista, "Terra! Terra!" brada.<br>
+
+
+Salta no bordo alvoro&ccedil;ada a gente<br>
+
+
+Co'os olhos no horizonte do Oriente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"A maneira de nuvens se come&ccedil;am<br>
+
+
+A descobrir os montes que enxergamos;<br>
+
+
+As &acirc;ncoras pesadas se adere&ccedil;am;<br>
+
+
+As velas, j&aacute; chegados, amainamos.<br>
+
+
+E para que mais certas se conhe&ccedil;am<br>
+
+
+As partes t&atilde;o remotas onde estamos,<br>
+
+
+Pelo novo instrumento do Astrol&aacute;bio,<br>
+
+
+Inven&ccedil;&atilde;o de subtil ju&iacute;zo e
+s&aacute;bio,<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"Desembarcamos logo na espa&ccedil;osa,<br>
+
+
+Parte, por onde a gente se espalhou,<br>
+
+
+De ver eousas estranhas desejosa<br>
+
+
+Da terra que outro povo n&atilde;o pisou;<br>
+
+
+Por&eacute;m eu co'os pilotos na arenosa<br>
+
+
+Praia, por vermos em que parte estou,<br>
+
+
+Me detenho em tomar do Sol a altura<br>
+
+
+E compassar a universal pintura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"Achamos ter de todo j&aacute; passado<br>
+
+
+Do Semicapro peixe a grande meta,<br>
+
+
+Estando entre ele e o c&iacute;rculo gelado<br>
+
+
+Austral, parte do mundo mais secreta.<br>
+
+
+Eis, de meus companheiros rodeado,<br>
+
+
+Vejo um estranho vir de pele preta,<br>
+
+
+Que tomaram por for&ccedil;a, enquanto apanha<br>
+
+
+De mel os doces favos na montanha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Torvado vem na vista, como aquele<br>
+
+
+Que n&atilde;o se vira nunca em tal extremo;<br>
+
+
+Nem ele entende a n&oacute;s, nem n&oacute;s a ele,<br>
+
+
+Selvagem mais que o bruto Polifemo.<br>
+
+
+Come&ccedil;o-lhe a mostrar da rica pelo<br>
+
+
+De Colcos o gentil metal supremo,<br>
+
+
+A prata fina, a quente especiaria:<br>
+
+
+A nada disto o bruto se movia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Mando mostrar-lhe pe&ccedil;as mais somenos:<br>
+
+
+Contas de cristalino transparente,<br>
+
+
+Alguns soantes cascav&eacute;is pequenos,<br>
+
+
+Um barrete vermelho, cor contente.<br>
+
+
+Vi logo, por sinais e por acenos,<br>
+
+
+Que com isto se alegra grandemente.<br>
+
+
+Mando-o soltar com tudo, e assim caminha<br>
+
+
+Para a povoa&ccedil;&atilde;o que perto tinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,<br>
+
+
+Todos nus, e da cor da escura treva,<br>
+
+
+Descendo pelos &aacute;speros outeiros,<br>
+
+
+As pe&ccedil;as v&ecirc;m buscar que estoutro leva:<br>
+
+
+Dom&eacute;sticos j&aacute; tanto e companheiros<br>
+
+
+Se nos mostram, que fazem que se atreva<br>
+
+
+Fern&atilde;o Veloso a ir ver da terra o trato<br>
+
+
+E partir-se com eles pelo mato.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"&Eacute; Veloso no bra&ccedil;o confiado,<br>
+
+
+E de arrogante cr&ecirc; que vai seguro;<br>
+
+
+Mas, sendo um grande espa&ccedil;o j&aacute; passado,<br>
+
+
+Em que algum bom sinal saber procuro,<br>
+
+
+Estando, a vista al&ccedil;ada, co'o cuidado<br>
+
+
+No aventureiro, eis pelo monto duro<br>
+
+
+Aparece, e, segundo ao mar caminha,<br>
+
+
+Mais apressado do que fora, vinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"O batel de Coelho foi depressa<br>
+
+
+Pelo tomar; mas, antes que chegasse,<br>
+
+
+Um Et&iacute;ope ousado se arremessa<br>
+
+
+A ele, por que n&atilde;o se lhe escapasse;<br>
+
+
+Outro e outro lhe saem; v&ecirc;-se em pressa<br>
+
+
+Veloso, sem que algu&eacute;m lhe ali ajudasse;<br>
+
+
+Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,<br>
+
+
+Se mostra um bando negro descoberto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Da espessa nuvem setas e pedradas<br>
+
+
+Chovem sobre n&oacute;s outros sem medida;<br>
+
+
+E n&atilde;o foram ao vento em v&atilde;o deitadas,<br>
+
+
+Que esta perna trouxe eu dali ferida;<br>
+
+
+Mas n&oacute;s, como pessoas magoadas,<br>
+
+
+A resposta lhe demos t&atilde;o tecida,<br>
+
+
+Que, em mais que nos barretes, se suspeita<br>
+
+
+Que a cor vermelha levam desta feita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"E sendo j&aacute;, Veloso em salvamento,<br>
+
+
+Logo nos recolhemos para a armada,<br>
+
+
+Vendo a mal&iacute;cia feia e rudo intento<br>
+
+
+Da gente bestial, bruta e malvada,<br>
+
+
+De quem nenhum melhor conhecimento<br>
+
+
+Pudemos ter da &iacute;ndia desejada<br>
+
+
+Que estarmos ainda muito longe dela;<br>
+
+
+E assim tornei a dar ao vento a vela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"Disse ent&atilde;o a Veloso um companheiro<br>
+
+
+(Come&ccedil;ando-se todos a sorrir)<br>
+
+
+-"&Oacute; l&aacute;, Veloso amigo, aquele outeiro<br>
+
+
+&Eacute; melhor de descer que de subir."<br>
+
+
+&mdash;"Sim, &eacute;, (responde o ousado aventureiro)<br>
+
+
+Mas quando eu para c&aacute; vi tantos vir<br>
+
+
+Daqueles c&atilde;es, depressa um pouco vim,<br>
+
+
+Por me lembrar que est&aacute;veis c&aacute; sem<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"Contou ent&atilde;o que, tanto que passaram<br>
+
+
+Aquele monte, os negros de quem falo,<br>
+
+
+Avante mais passar o n&atilde;o deixaram,<br>
+
+
+Querendo, se n&atilde;o torna, ali mat&aacute;-lo;<br>
+
+
+E tornando-se, logo se emboscaram,<br>
+
+
+Por que, saindo n&oacute;s para tom&aacute;-lo,<br>
+
+
+Nos pudessem mandar ao reino escuro,<br>
+
+
+Por nos roubarem mais a seu seguro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"Por&eacute;m j&aacute; cinco S&oacute;is eram passados<br>
+
+
+Que dali nos part&iacute;ramos, cortando<br>
+
+
+Os mares nunca doutrem navegados,<br>
+
+
+Pr&oacute;speramente os ventos assoprando,<br>
+
+
+Quando uma noite estando descuidados,<br>
+
+
+Na cortadora proa vigiando,<br>
+
+
+Uma nuvem que os ares escurece<br>
+
+
+Sobre nossas cabe&ccedil;as aparece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"T&atilde;o temerosa vinha e carregada,<br>
+
+
+Que p&ocirc;s nos cora&ccedil;&otilde;es um grande medo;<br>
+
+
+Bramindo o negro mar, de longe brada<br>
+
+
+Como se desse em v&atilde;o nalgum rochedo.<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; Potestade, disse, sublimada!<br>
+
+
+Que amea&ccedil;o divino, ou que segredo<br>
+
+
+Este clima e este mar nos apresenta,<br>
+
+
+Que mor cousa parece que tormenta?"&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"N&atilde;o acabava, quando uma figura<br>
+
+
+Se nos mostra no ar, robusta e v&aacute;lida,<br>
+
+
+De disforme e grand&iacute;ssima estatura,<br>
+
+
+O rosto carregado, a barba esqu&aacute;lida,<br>
+
+
+Os olhos encovados, e a postura<br>
+
+
+Medonha e m&aacute;, e a cor terrena e p&aacute;lida,<br>
+
+
+Cheios de terra e crespos os cabelos,<br>
+
+
+A boca negra, os dentes amarelos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"T&atilde;o grande era de membros, que bem posso<br>
+
+
+Certificar-te, que este era o segundo<br>
+
+
+De Rodes estranh&iacute;ssimo Colosso,<br>
+
+
+Que um dos sete milagres foi do mundo:<br>
+
+
+Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,<br>
+
+
+Que pareceu sair do mar profundo:<br>
+
+
+Arrepiam-se as carnes e o cabelo<br>
+
+
+A mi e a todos, s&oacute; de ouvi-lo e v&ecirc;-lo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"E disse:&mdash;"&Oacute; gente ousada, mais que quantas<br>
+
+
+No mundo cometeram grandes cousas,<br>
+
+
+Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,<br>
+
+
+E por trabalhos v&atilde;os nunca repousas,<br>
+
+
+Pois os vedados t&eacute;rminos quebrantas,<br>
+
+
+E navegar meus longos mares ousas,<br>
+
+
+Que eu tanto tempo h&aacute; j&aacute; que guardo e tenho,<br>
+
+
+Nunca arados d'estranho ou pr&oacute;prio lenho:<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+&mdash;"Pois vens ver os segredos escondidos<br>
+
+
+Da natureza e do &uacute;mido elemento,<br>
+
+
+A nenhum grande humano concedidos<br>
+
+
+De nobre ou de imortal merecimento,<br>
+
+
+Ouve os danos de mim, que apercebidos<br>
+
+
+Est&atilde;o a teu sobejo atrevimento,<br>
+
+
+Por todo o largo mar e pela terra,<br>
+
+
+Que ainda h&aacute;s de sojugar com dura guerra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+&mdash;"Sabe que quantas naus esta viagem<br>
+
+
+Que tu fazes, fizerem de atrevidas,<br>
+
+
+Inimiga ter&atilde;o esta paragem<br>
+
+
+Com ventos e tormentas desmedidas.<br>
+
+
+E da primeira armada que passagem<br>
+
+
+Fizer por estas ondas insofridas,<br>
+
+
+Eu farei d'improviso tal castigo,<br>
+
+
+Que seja mor o dano que o perigo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+&mdash;"Aqui espero tomar, se n&atilde;o me engano,<br>
+
+
+De quem me descobriu, suma vingan&ccedil;a.<br>
+
+
+E n&atilde;o se acabar&aacute; s&oacute; nisto o dano<br>
+
+
+Da vossa pertinace confian&ccedil;a;<br>
+
+
+Antes em vossas naus vereis cada ano,<br>
+
+
+Se &eacute; verdade o que meu ju&iacute;zo alcan&ccedil;a,<br>
+
+
+Naufr&aacute;gios, perdi&ccedil;&otilde;es de toda sorte,<br>
+
+
+Que o menor mal de todos seja a morte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+&mdash;"&Eacute; do primeiro Ilustre, que a ventura<br>
+
+
+Com fama alta fizer tocar os C&eacute;us,<br>
+
+
+Serei eterna e nova sepultura,<br>
+
+
+Por ju&iacute;zos inc&oacute;gnitos de Deus.<br>
+
+
+Aqui por&aacute; da Turca armada dura<br>
+
+
+Os soberbos e pr&oacute;speros trof&eacute;us;<br>
+
+
+Comigo de seus danos o amea&ccedil;a<br>
+
+
+A destru&iacute;da Qu&iacute;loa com Momba&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+&mdash;"Outro tamb&eacute;m vir&aacute; de honrada fama,<br>
+
+
+Liberal, cavaleiro, enamorado,<br>
+
+
+E consigo trar&aacute; a formosa dama<br>
+
+
+Que Amor por gr&atilde; merc&ecirc; lhe ter&aacute; dado.<br>
+
+
+Triste ventura e negro fado os chama<br>
+
+
+Neste terreno meu, que duro e irado<br>
+
+
+Os deixar&aacute; dum cru naufr&aacute;gio vivos<br>
+
+
+Para verem trabalhos excessivos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+&mdash;"Ver&atilde;o morrer com fome os filhos caros,<br>
+
+
+Em tanto amor gerados e nascidos;<br>
+
+
+Ver&atilde;o os Cafres &aacute;speros e avaros<br>
+
+
+Tirar &agrave; linda dama seus vestidos;<br>
+
+
+Os cristalinos membros e perclaros<br>
+
+
+A calma, ao frio, ao ar ver&atilde;o despidos,<br>
+
+
+Depois de ter pisada longamente<br>
+
+
+Co'os delicados p&eacute;s a areia ardente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+&mdash;"E ver&atilde;o mais os olhos que escaparem<br>
+
+
+De tanto mal, de tanta desventura,<br>
+
+
+Os dois amantes m&iacute;seros ficarem<br>
+
+
+Na f&eacute;rvida e implac&aacute;vel espessura.<br>
+
+
+Ali, depois que as pedras abrandarem<br>
+
+
+Com l&aacute;grimas de dor, de m&aacute;goa pura,<br>
+
+
+Abra&ccedil;ados as almas soltar&atilde;o<br>
+
+
+Da formosa e mis&eacute;rrima pris&atilde;o."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+"Mais ia por diante o monstro horrendo<br>
+
+
+Dizendo nossos fados, quando al&ccedil;ado<br>
+
+
+Lhe disse eu:&mdash;Quem &eacute;s tu? que esse estupendo<br>
+
+
+Corpo certo me tem maravilhado.&mdash;<br>
+
+
+A boca e os olhos negros retorcendo,<br>
+
+
+E dando um espantoso e grande brado,<br>
+
+
+Me respondeu, com voz pesada e amara,<br>
+
+
+Como quem da pergunta lhe pesara:<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+&mdash;"Eu sou aquele oculto e grande Cabo,<br>
+
+
+A quem chamais v&oacute;s outros Torment&oacute;rio,<br>
+
+
+Que nunca a Ptolomeu, Pomp&oacute;nio, Estrabo,<br>
+
+
+Pl&iacute;nio, e quantos passaram, fui not&oacute;rio.<br>
+
+
+Aqui toda a Africana costa acabo<br>
+
+
+Neste meu nunca visto Promont&oacute;rio,<br>
+
+
+Que para o P&oacute;lo Antarctico se estende,<br>
+
+
+A quem vossa ousadia tanto ofende.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+&mdash;"Fui dos filhos asp&eacute;rrimos da Terra,<br>
+
+
+Qual Enc&eacute;lado, Egeu e o Centimano;<br>
+
+
+Chamei-me Adamastor, e fui na guerra<br>
+
+
+Contra o que vibra os raios de Vulcano;<br>
+
+
+N&atilde;o que pusesse serra sobre serra,<br>
+
+
+Mas conquistando as ondas do Oceano,<br>
+
+
+Fui capit&atilde;o do mar, por onde andava<br>
+
+
+A armada de Netuno, que eu buscava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+&mdash;"Amores da alta esposa de Peleu<br>
+
+
+Me fizeram tomar tamanha empresa.<br>
+
+
+Todas as Deusas desprezei do c&eacute;u,<br>
+
+
+S&oacute; por amar das &aacute;guas a princesa.<br>
+
+
+Um dia a vi coas filhas de Nereu<br>
+
+
+Sair nua na praia, e logo presa<br>
+
+
+A vontade senti de tal maneira<br>
+
+
+Que ainda n&atilde;o sinto coisa que mais queira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+&mdash;"Como fosse imposs&iacute;vel
+alcan&ccedil;&aacute;-la<br>
+
+
+Pela grandeza feia de meu gesto,<br>
+
+
+Determinei por armas de tom&aacute;-la,<br>
+
+
+E a Doris este caso manifesto.<br>
+
+
+De medo a Deusa ent&atilde;o por mim lhe fala;<br>
+
+
+Mas ela, com um formoso riso honesto,<br>
+
+
+Respondeu:&mdash;"Qual ser&aacute; o amor bastante<br>
+
+
+De Ninfa que sustente o dum Gigante?<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+&mdash;"Contudo, por livrarmos o Oceano<br>
+
+
+De tanta guerra, eu buscarei maneira,<br>
+
+
+Com que, com minha honra, escuse o dano."<br>
+
+
+Tal resposta me torna a mensageira.<br>
+
+
+Eu, que cair n&atilde;o pude neste engano,<br>
+
+
+(Que &eacute; grande dos amantes a cegueira)<br>
+
+
+Encheram-me com grandes abondan&ccedil;as<br>
+
+
+O peito de desejos e esperan&ccedil;as.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+&mdash;"J&aacute; n&eacute;scio, j&aacute; da guerra
+desistindo,<br>
+
+
+Uma noite de D&oacute;ris prometida,<br>
+
+
+Me aparece de longe o gesto lindo<br>
+
+
+Da branca T&eacute;tis &uacute;nica despida:<br>
+
+
+Como doido corri de longe, abrindo<br>
+
+
+Os bra&ccedil;os, para aquela que era vida<br>
+
+
+Deste corpo, e come&ccedil;o os olhos belos<br>
+
+
+A lhe beijar, as faces e os cabelos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; que n&atilde;o sei de nojo como o conte!<br>
+
+
+Que, crendo ter nos bra&ccedil;os quem amava,<br>
+
+
+Abra&ccedil;ado me achei com um duro monte<br>
+
+
+De &aacute;spero mato e de espessura brava.<br>
+
+
+Estando com um penedo fronte a fronte,<br>
+
+
+Que eu pelo rosto ang&eacute;lico apertava<br>
+
+
+N&atilde;o fiquei homem n&atilde;o, mas mudo e quedo,<br>
+
+
+E junto dum penedo outro penedo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; Ninfa, a mais formosa do Oceano,<br>
+
+
+J&aacute; que minha presen&ccedil;a n&atilde;o te agrada,<br>
+
+
+Que te custava ter-me neste engano,<br>
+
+
+Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?<br>
+
+
+Daqui me parto irado, e quase insano<br>
+
+
+Da m&aacute;goa e da desonra ali passada,<br>
+
+
+A buscar outro inundo, onde n&atilde;o visse<br>
+
+
+Quem de meu pranto e de meu mal se risse,<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+&mdash;"Eram j&aacute; neste tempo meus irm&atilde;os<br>
+
+
+Vencidos e em mis&eacute;ria extrema postos;<br>
+
+
+E por mais segurar-se os Deuses v&atilde;os,<br>
+
+
+Alguns a v&aacute;rios montes sotopostos:<br>
+
+
+E como contra o C&eacute;u n&atilde;o valem m&atilde;os,<br>
+
+
+Eu, que chorando andava meus desgostos,<br>
+
+
+Comecei a sentir do fado inimigo<br>
+
+
+Por meus atrevimentos o castigo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+&mdash;"Converte-se-me a carne em terra dura,<br>
+
+
+Em penedos os ossos sefizeram,<br>
+
+
+Estes membros que v&ecirc;s e esta figura<br>
+
+
+Por estas longas &aacute;guas se estenderam;<br>
+
+
+Enfim, minha grand&iacute;ssima estatura<br>
+
+
+Neste remoto cabo converteram<br>
+
+
+Os Deuses, e por mais dobradas m&aacute;goas,<br>
+
+
+Me anda T&eacute;tis cercando destas &aacute;guas."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"Assim contava, e com um medonho choro<br>
+
+
+S&uacute;bito diante os olhos se apartou;<br>
+
+
+Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro<br>
+
+
+Bramido muito longe o mar soou.<br>
+
+
+Eu, levantando as m&atilde;os ao santo coro<br>
+
+
+Dos anjos, que t&atilde;o longe nos guiou,<br>
+
+
+A Deus pedi que removesse os duros<br>
+
+
+Casos, que Adamastor contou futuros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"J&aacute; Flegon e Pir&oacute;is vinham tirando<br>
+
+
+Com os outros dois o carro radiante,<br>
+
+
+Quando a terra alta se nos foi mostrando,<br>
+
+
+Em que foi convertido o gr&atilde;o Gigante.<br>
+
+
+Ao longo desta costa, come&ccedil;ando<br>
+
+
+J&aacute; de cortar as ondas do Levante,<br>
+
+
+Por ela abaixo um pouco navegamos,<br>
+
+
+Onde segunda vez terra tomamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"A gente que esta terra possu&iacute;a,<br>
+
+
+Posto que todos Et&iacute;opes eram,<br>
+
+
+Mais humana no trato parecia<br>
+
+
+Que os outros, que t&atilde;o mal nos receberam.<br>
+
+
+Com bailos e com festas de alegria<br>
+
+
+Pela praia arenosa a n&oacute;s vieram,<br>
+
+
+As mulheres consigo e o manso gado<br>
+
+
+Que apascentavam, gordo e bem criado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"As mulheres queimadas v&ecirc;m em cima<br>
+
+
+Dos vagarosos bois, ali sentadas,<br>
+
+
+Animais que eles t&ecirc;m em mais estima<br>
+
+
+Que todo o outro gado das manadas.<br>
+
+
+Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,<br>
+
+
+Na sua l&iacute;ngua cantam concertadas<br>
+
+
+Com o doce som das r&uacute;sticas avenas,<br>
+
+
+Imitando de T&iacute;tiro as Camenas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+"Estes, como na vista prazenteiros<br>
+
+
+Fossem, humanamente nos trataram,<br>
+
+
+Trazendo-nos galinhas e carneiros,<br>
+
+
+A troco doutras pe&ccedil;as, que levaram.<br>
+
+
+Mas como nunca enfim meus companheiros<br>
+
+
+Palavra sua alguma lhe alcan&ccedil;aram<br>
+
+
+Que desse algum sinal do que buscamos,<br>
+
+
+As velas dando, as &acirc;ncoras levamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"J&aacute; aqui t&iacute;nhamos dado um gr&atilde; rodeio<br>
+
+
+A costa negra de &Aacute;frica, e tornava<br>
+
+
+A proa a demandar o ardente meio<br>
+
+
+Do C&eacute;u, e o p&oacute;lo Antarctico ficava:<br>
+
+
+Aquele ilh&eacute;u deixamos, onde veio<br>
+
+
+Outra armada primeira, que buscava<br>
+
+
+O Torment&oacute;rio cabo, e descoberto,<br>
+
+
+Naquele ilh&eacute;u fez seu limite certo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+Daqui fomos cortando muitos dias<br>
+
+
+Entre tormentas tristes e bonan&ccedil;as,<br>
+
+
+No largo mar fazendo novas vias,<br>
+
+
+S&oacute; conduzidos de &aacute;rduas esperan&ccedil;as.<br>
+
+
+Colo mar um tempo andamos em porfias,<br>
+
+
+Que, como tudo nele s&atilde;o mudan&ccedil;as.<br>
+
+
+Corrente nele achamos t&atilde;o possante<br>
+
+
+Que passar n&atilde;o deixava por diante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"Era maior a for&ccedil;a em demasia,<br>
+
+
+Segundo para tr&aacute;s nos obrigava,<br>
+
+
+Do mar, que contra n&oacute;s ali corria,<br>
+
+
+Que por n&oacute;s a do vento que assoprava.<br>
+
+
+Injuriado Noto da porfia<br>
+
+
+Em que colo mar (parece) tanto estava,<br>
+
+
+Os assopros esfor&ccedil;a iradamente,<br>
+
+
+Com que nos fez vencer a gr&atilde;o corrente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Trazia o Sol o dia celebrado,<br>
+
+
+Em que tr&ecirc;s Reis das partes do Oriento<br>
+
+
+Foram buscar um Rei de pouco nado,<br>
+
+
+No qual Rei outros tr&ecirc;s h&aacute; juntamente.<br>
+
+
+Neste dia outro porto foi tomado<br>
+
+
+Por n&oacute;s, da mesma j&aacute; contada gente,<br>
+
+
+Num largo rio, ao qual o no e demos<br>
+
+
+Do dia, em que por ele nos metemos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Desta gente refresco algum tomamos,<br>
+
+
+E do rio fresca &aacute;gua; mas contudo<br>
+
+
+Nenhum sinal aqui da &Iacute;ndia achamos<br>
+
+
+No Povo, com n&oacute;s outros quase mudo.<br>
+
+
+Ora v&ecirc;, Rei, que tamanha terra andamos,<br>
+
+
+Sem sair nunca deste povo rudo,<br>
+
+
+Sem vermos nunca nova nem sinal<br>
+
+
+Da desejada parte Oriental.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Ora imagina agora coitados<br>
+
+
+Andar&iacute;amos todos, perdidos,<br>
+
+
+De fomes, de tormentas quebrantados,<br>
+
+
+Por climas e por mares n&atilde;o sabidos,<br>
+
+
+E do esperar comprido t&atilde;o cansados,<br>
+
+
+Quanto a desesperar j&aacute; compelidos,<br>
+
+
+Por c&eacute;us n&atilde;o naturais, de qualidade<br>
+
+
+Inimiga de nossa humanidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"Corrupto j&aacute; e danado o mantimento,<br>
+
+
+Danoso e mau ao fraco corpo humano,<br>
+
+
+E al&eacute;m disso nenhum contentamento,<br>
+
+
+Que sequer da esperan&ccedil;a fosse engano.<br>
+
+
+Cr&ecirc;s tu que, se este nosso ajuntamento<br>
+
+
+De soldados n&atilde;o fora Lusitano,<br>
+
+
+Que durara ele tanto obediente<br>
+
+
+Por ventura a seu Rei e a seu regente?<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"Cr&ecirc;s tu que j&aacute; n&atilde;o foram levantados<br>
+
+
+Contra seu Capit&atilde;o, se os resistira,<br>
+
+
+Fazendo-se piratas, obrigados<br>
+
+
+De desespera&ccedil;&atilde;o, de fome, de ira?<br>
+
+
+Grandemente, por certo, est&atilde;o provados,<br>
+
+
+Pois que nenhum trabalho grande os tira<br>
+
+
+Daquela Portuguesa alta excel&ecirc;ncia<br>
+
+
+De lealdade firme, e obedi&ecirc;ncia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+"Deixando o porto enfim do doce rio<br>
+
+
+E tornando a cortar a &aacute;gua salgada,<br>
+
+
+Fizemos desta costa algum desvio,<br>
+
+
+Deitando para o pego toda a armada;<br>
+
+
+Porque, ventando Noto manso e frio,<br>
+
+
+N&atilde;o nos apanhasse a &aacute;gua da enseada,<br>
+
+
+Que a costa faz ali daquela banda<br>
+
+
+Donde a rica Sofala o ouro manda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+"Esta passada, logo o leve leme<br>
+
+
+Encomendado ao sacro Nicolau,<br>
+
+
+Para onde o mar na costa brada e geme,<br>
+
+
+A proa inclina duma e doutra nau;<br>
+
+
+Quando indo o cora&ccedil;&atilde;o que espera e teme<br>
+
+
+E que tanto fiou dum fraco pau<br>
+
+
+Do que esperava j&aacute; desesperado,<br>
+
+
+Foi duma novidade alvoro&ccedil;ado<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+"E foi que, estando j&aacute; da costa perto,<br>
+
+
+Onde as praias e vales bem se viam,<br>
+
+
+Num rio, que ali sai ao mar aberto,<br>
+
+
+Bat&eacute;is &agrave; vela entravam e sa&iacute;am.<br>
+
+
+Alegria muito grande foi por certo<br>
+
+
+Acharmos j&aacute; pessoas que sabiam<br>
+
+
+Navegar, porque entre elas esperamos<br>
+
+
+De achar novas algumas, como achamos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+"Et&iacute;opes s&atilde;o todos, mas parece<br>
+
+
+Que com gente melhor comunicavam;<br>
+
+
+Palavra alguma Ar&aacute;bia se conhece<br>
+
+
+Entre a linguagem sua que falavam;<br>
+
+
+E com pano delgado, que se tece<br>
+
+
+De algod&atilde;o, as cabe&ccedil;as apertavam;<br>
+
+
+Com outro, que de tinta azul se tinge,<br>
+
+
+Cada um as vergonhosas partes cinge.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+"Pela Ar&aacute;bica l&iacute;ngua, que mal falam,<br>
+
+
+E que Fern&atilde;o Martins muito bem entende,<br>
+
+
+Dizem que por naus, que em grandeza igualam<br>
+
+
+As nossas, o seu mar se corta e fende;<br>
+
+
+Mas que l&aacute; donde sai o Sol, se abalam<br>
+
+
+Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,<br>
+
+
+E do Sul para o Sol, terra onde havia<br>
+
+
+Gente, assim como n&oacute;s, da cor do dia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+"Muito grandemente aqui nos alegramos<br>
+
+
+Com a gente, e com as novas muito mais:<br>
+
+
+Pelos sinais que neste rio achamos<br>
+
+
+O nome lhe ficou dos Bons Sinais.<br>
+
+
+Um padr&atilde;o nesta terra alevantamos,<br>
+
+
+Que, para assinalar lugares tais,<br>
+
+
+Trazia alguns; o nome tem do belo<br>
+
+
+Guiador de Tobias a Gabelo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,<br>
+
+
+Nojosa cria&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas fundas,<br>
+
+
+Alimpamos as naus, que dos caminhos<br>
+
+
+Longos do mar, v&ecirc;m s&oacute;rdidas e imundas.<br>
+
+
+Dos h&oacute;spedes que t&iacute;nhamos vizinhos,<br>
+
+
+Com mostras apraz&iacute;veis e jocundas,<br>
+
+
+louvemos sempre o usado mantimento,<br>
+
+
+Limpos de todo o falso pensamento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"Mas n&atilde;o foi, da esperan&ccedil;a grande e imensa<br>
+
+
+Que nesta terra houvemos, limpa e pura<br>
+
+
+A alegria; mas logo a recompensa<br>
+
+
+A Ramn&uacute;sia com nova desventura.<br>
+
+
+Assim no c&eacute;u sereno se dispensa:<br>
+
+
+Com esta condi&ccedil;&atilde;o pesada e dura<br>
+
+
+Nascemos: o pesar ter&aacute; firmeza,<br>
+
+
+Mas o bem logo muda a natureza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"E foi que de doen&ccedil;a crua e feia,<br>
+
+
+A mais que eu nunca vi, desampararam<br>
+
+
+Muitos a vida, e em terra estranha e alheia<br>
+
+
+Os ossos para sempre sepultaram.<br>
+
+
+Quem haver&aacute; que, sem o ver, o creia?<br>
+
+
+Que t&atilde;o disformemente ali lhe incharam<br>
+
+
+As gengivas na boca, que crescia<br>
+
+
+A carne, e juntamente apodrecia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"&mdash;Apodrecia com um f&eacute;tido e bruto<br>
+
+
+Cheiro, que o ar vizinho inficionava;<br>
+
+
+N&atilde;o t&iacute;nhamos ali m&eacute;dico astuto,<br>
+
+
+Cirurgi&atilde;o subtil menos se achava;<br>
+
+
+Mas qualquer, neste of&iacute;cio pouco instructo,<br>
+
+
+Pela carne j&aacute; podre assim cortava<br>
+
+
+Como se fora morta, e bem convinha,<br>
+
+
+Pois que morto ficava quem a tinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"Enfim que nesta inc&oacute;gnita espessura<br>
+
+
+Deixamos para sempre os companheiros,<br>
+
+
+Que em tal caminho e em tanta desventura<br>
+
+
+Foram sempre conosco aventureiros.<br>
+
+
+Qu&atilde;o f&aacute;cil &eacute; ao corpo a sepultura!<br>
+
+
+Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros<br>
+
+
+Estranhos, assim mesmo como aos nossos,<br>
+
+
+Receber&atilde;o de todo o Ilustre os ossos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+"Assim que, deste porto nos partirmos<br>
+
+
+Com maior esperan&ccedil;a e maior tristeza,<br>
+
+
+E pela costa abaixo o mar abrirmos<br>
+
+
+Buscando algum sinal de mais firmeza.<br>
+
+
+Na dura Mo&ccedil;ambique enfim surgimos,<br>
+
+
+De cuja falsidade e m&aacute; vileza<br>
+
+
+J&aacute; ser&aacute;s sabedor, e dos enganos<br>
+
+
+Dos povos de Momba&ccedil;a pouco humanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+"At&eacute; que aqui no teu seguro porto,<br>
+
+
+Cuja brandura e doce tratamento<br>
+
+
+Dar&aacute; sa&uacute;de a um vivo, e vida a um morto,<br>
+
+
+Nos trouxe a piedade do alto assento.<br>
+
+
+Aqui repouso, aqui doce conforto,<br>
+
+
+Nova quieta&ccedil;&atilde;o do pensamento<br>
+
+
+Nos deste: e v&ecirc;s aqui, se atento ouviste,<br>
+
+
+Te contei tudo quanto me pediste.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+"Julgas agora, Rei, se houve no mundo<br>
+
+
+Gentes que tais caminhos cometessem?<br>
+
+
+Cr&ecirc;s tu que tanto Eneias e o facundo<br>
+
+
+Ulisses pelo inundo se estendessem?<br>
+
+
+Ousou algum a ver do mar profundo,<br>
+
+
+Por mais versos que dele se escrevessem,<br>
+
+
+Do que eu vi, a poder de esfor&ccedil;o e de arte,<br>
+
+
+E do que ainda hei de ver, a oitava parte?<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+"Esse que bebeu tanto da &aacute;gua A&oacute;nia,<br>
+
+
+Sobre quem tem contenda peregrina,<br>
+
+
+Entre si, Rodes, Smirna e Colof&oacute;nia,<br>
+
+
+Atenas, Ios, Argo e Salamina:<br>
+
+
+Esse outro que esclarece toda Aus&oacute;n&iacute;a,<br>
+
+
+A cuja voz alt&iacute;ssona e divina<br>
+
+
+Ouvindo, o p&aacute;trio M&iacute;ncio se adormece,<br>
+
+
+Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+Cantem, louvem e escrevam sempre extremos<br>
+
+
+Desses seus Semideuses, e encare&ccedil;am,<br>
+
+
+Fingindo Magis Circes, Polifemos,<br>
+
+
+Sirenas que com o canto os adorme&ccedil;am;<br>
+
+
+D&ecirc;em-lhe mais navegar &agrave; vela e remos<br>
+
+
+Os Cicones, e a torra onde se esque&ccedil;am<br>
+
+
+Os companheiros, em gostando o Loto;<br>
+
+
+D&ecirc;em-lhe perder nas &aacute;guas o piloto;<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem<br>
+
+
+Dos odres e Calipsos namoradas;<br>
+
+
+Harpias que o manjar lhe contaminem;<br>
+
+
+Descer &agrave;s sombras nuas j&aacute; passadas:<br>
+
+
+Que por muito e por muito que se afinem<br>
+
+
+Nestas f&aacute;bulas v&atilde;s, t&atilde;o bem sonhadas,<br>
+
+
+A verdade que eu conto nua e pura<br>
+
+
+Vence toda grand&iacute;loqua escritura."<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+Da boca do facundo Capit&atilde;o<br>
+
+
+Pendendo estavam todos embebidos,<br>
+
+
+Quando deu fim &agrave; longa narra&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Dos altos feitos grandes e subidos.<br>
+
+
+Louva o Rei o sublime cora&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Dos Reis em tantas guerras conhecidos;<br>
+
+
+Da gente louva a antiga fortaleza,<br>
+
+
+A lealdade de &acirc;nimo e nobreza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+Vai recontando o povo, que se admira,<br>
+
+
+O caso cada qual que mais notou;<br>
+
+
+Nenhum deles da gente os olhos tira,<br>
+
+
+Que t&atilde;o longos caminhos rodeou.<br>
+
+
+Mas j&aacute; o mancebo D&eacute;lio as r&eacute;deas vira<br>
+
+
+Que o irm&atilde;o de Lamp&eacute;cia mal guiou,<br>
+
+
+Por vir a descansar nos T&eacute;tios bra&ccedil;os;<br>
+
+
+E el-Rei se vai do mar aos nobres pa&ccedil;os.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+Qu&atilde;o doce &eacute; o louvor e a justa gl&oacute;ria<br>
+
+
+Dos pr&oacute;prios feitos, quando s&atilde;o soados!<br>
+
+
+Qualquer nobre trabalha que em mem&oacute;ria<br>
+
+
+Ven&ccedil;a ou iguale os grandes j&aacute; passados.<br>
+
+
+As invejas da ilustre e alheia hist&oacute;ria<br>
+
+
+Fazem mil vezes feitos sublimados.<br>
+
+
+Quem valerosas obras exercita,<br>
+
+
+Louvor alheio muito o esperta e incita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+N&atilde;o tinha em tanto os feitos gloriosos<br>
+
+
+De Aquiles, Alexandro na peleja,<br>
+
+
+Quanto de quem o canta, os numerosos<br>
+
+
+Versos; isso s&oacute; louva, isso deseja.<br>
+
+
+Os trof&eacute;us de Melc&iacute;ades famosos<br>
+
+
+Tem&iacute;stoeles despertam s&oacute; de inveja,<br>
+
+
+E diz que nada tanto o deleitava<br>
+
+
+Como a voz que seus feitos celebrava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+Trabalha por mostrar Vasco da Gama<br>
+
+
+Que essas navega&ccedil;&otilde;es que o mundo canta<br>
+
+
+N&atilde;o merecem tamanha gl&oacute;ria e fama<br>
+
+
+Como a sua, que o c&eacute;u e a terra espanta.<br>
+
+
+Si; mas aquele Her&oacute;i, que estima e ama<br>
+
+
+Com dons, merc&ecirc;s, favores e honra tanta<br>
+
+
+A lira Mantuana, faz que soe<br>
+
+
+Eneias, e a Romana gl&oacute;ria voe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+D&aacute; a terra lusitana Cipi&otilde;es,<br>
+
+
+C&eacute;sares, Alexandros, e d&aacute; Augustos;<br>
+
+
+Mas n&atilde;o lhe d&aacute; contudo aqueles dois<br>
+
+
+Cuja falta os faz duros e robustos.<br>
+
+
+Oct&aacute;vio, entre as maiores opress&otilde;es,<br>
+
+
+Compunha versos doutos e venustos.<br>
+
+
+N&atilde;o dir&aacute; F&uacute;lvia certo que &eacute;
+mentira,<br>
+
+
+Quando a deixava Ant&oacute;nio por Glafira,<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+Vai C&eacute;sar, sojugando toda Fran&ccedil;a,<br>
+
+
+E as armas n&atilde;o lhe impedem a ci&ecirc;ncia;<br>
+
+
+Mas, numa m&atilde;o a pena e noutra a lan&ccedil;a,<br>
+
+
+Igualava de C&iacute;cero a eloqu&ecirc;ncia.<br>
+
+
+O que de Cipi&atilde;o se sabe e alcan&ccedil;a,<br>
+
+
+&Eacute; nas com&eacute;dias grande experi&ecirc;ncia.<br>
+
+
+Lia Alexandro a Homero de maneira<br>
+
+
+Que sempre se lhe sabe &agrave; cabeceira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+Enfim, n&atilde;o houve forte capit&atilde;o,<br>
+
+
+Que n&atilde;o fosse tamb&eacute;m douto e ciente,<br>
+
+
+Da L&aacute;cia, Grega, ou B&aacute;rbara
+na&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+Sen&atilde;o da Portuguesa t&atilde;o somente.<br>
+
+
+Sem vergonha o n&atilde;o digo, que a raz&atilde;o<br>
+
+
+De algum n&atilde;o ser por versos excelente,<br>
+
+
+&Eacute; n&atilde;o se ver prezado o verso e rima,<br>
+
+
+Porque, quem n&atilde;o sabe arte, n&atilde;o na estima.<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+Por isso, e n&atilde;o por falta de natura,<br>
+
+
+N&atilde;o h&aacute; tamb&eacute;m Virg&iacute;lios nem
+Homeros;<br>
+
+
+Nem haver&aacute;, se este costume dura,<br>
+
+
+Pios Eneias, nem Aquiles feros.<br>
+
+
+Mas o pior de tudo &eacute; que a ventura<br>
+
+
+T&atilde;o &aacute;speros os fez, e t&atilde;o austeros,<br>
+
+
+T&atilde;o rudos, e de engenho t&atilde;o remisso,<br>
+
+
+Que a muitos lhe d&aacute; pouco, ou nada disso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+As Musas agrade&ccedil;a o nosso Gama<br>
+
+
+o Muito amor da P&aacute;tria, que as obriga<br>
+
+
+A dar aos seus na lira nome e fama<br>
+
+
+De toda a ilustro e b&eacute;lica fadiga:<br>
+
+
+Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,<br>
+
+
+Cal&iacute;ope n&atilde;o tem por t&atilde;o amiga,<br>
+
+
+Nem as filhas do Tejo, que deixassem<br>
+
+
+As telas douro fino, e que o cantassem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+Porque o amor fraterno e puro gosto<br>
+
+
+De dar a todo o Lusitano feito<br>
+
+
+Seu louvor, &eacute; somente o pressuposto<br>
+
+
+Das T&aacute;gides gentis, e seu respeito.<br>
+
+
+Por&eacute;m n&atilde;o deixe enfim de ter disposto<br>
+
+
+Ningu&eacute;m a grandes obras sempre o peito,<br>
+
+
+Que por esta, ou por outra qualquer via,<br>
+
+
+N&atilde;o perder&aacute; seu pre&ccedil;o, e sua valia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Sexto</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+N&atilde;o sabia em que modo festejasse<br>
+
+
+O Rei Pag&atilde;o os fortes navegantes,<br>
+
+
+Para que as amizades alcan&ccedil;asse<br>
+
+
+Do Rei Crist&atilde;o, das gentes t&atilde;o possantes;<br>
+
+
+Pesa-lhe que t&atilde;o longe o aposentasse<br>
+
+
+Das Europ&eacute;ias terras abundantes<br>
+
+
+A ventura, que n&atilde;o no fez vizinho<br>
+
+
+Donde H&eacute;rcules ao mar abriu caminho.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+Com jogos, dan&ccedil;as e outras alegrias,<br>
+
+
+A segundo a pol&iacute;cia Melindana,<br>
+
+
+Com usadas e ledas pescarias,<br>
+
+
+Com que a Lageia Ant&oacute;nio alegra e engana<br>
+
+
+Este famoso Rei, todos os dias,<br>
+
+
+Festeja a companhia Lusitana,<br>
+
+
+Com banquetes, manjares desusados,<br>
+
+
+Com frutas, aves, carnes e pescados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+Mas vendo o Capit&atilde;o que se detinha<br>
+
+
+J&aacute; mais do que devia, e o fresco vento<br>
+
+
+O convida que parta e tome asinha<br>
+
+
+Os pilotos da terra e mantimento,<br>
+
+
+N&atilde;o se quer mais deter, que ainda tinha<br>
+
+
+Muito para cortar do salso argento;<br>
+
+
+J&aacute; do Pag&atilde;o benigno se despede,<br>
+
+
+Que a todos amizade longa pede.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+Pede-lhe mais que aquele porto seja<br>
+
+
+Sempre com suas frotas visitado,<br>
+
+
+Que nenhum outro bem maior deseja,<br>
+
+
+Que dar a tais bar&otilde;es seu reino e estado;<br>
+
+
+E que enquanto seu corpo o esp&iacute;rito reja,<br>
+
+
+Estar&aacute; de contino aparelhado<br>
+
+
+A p&ocirc;r a vida e reino totalmente<br>
+
+
+Por t&atilde;o bom Rei, por t&atilde;o sublime gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Outras palavras tais lhe respondia<br>
+
+
+O Capit&atilde;o, o logo as velas dando,<br>
+
+
+Para as terras da Aurora se partia,<br>
+
+
+Que tanto tempo h&aacute; j&aacute; que vai buscando.<br>
+
+
+No piloto que leva n&atilde;o havia<br>
+
+
+Falsidade, mas antes vai mostrando<br>
+
+
+A navega&ccedil;&atilde;o certa, e assim caminha<br>
+
+
+J&aacute; mais seguro do que dantes vinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+As ondas navegavam do Oriente<br>
+
+
+J&aacute; nos mares da &Iacute;ndia, e enxergavam<br>
+
+
+Os t&aacute;lamos do Sol, que nasce ardente;<br>
+
+
+J&aacute; quase seus desejos se acabavam.<br>
+
+
+Mas o mau de Tioneu, que na alma sente<br>
+
+
+As venturas, que ent&atilde;o se aparelhavam<br>
+
+
+A gente Lusitana, delas dina,<br>
+
+
+Arde, morre, blasfema e desatina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+Via estar todo o C&eacute;u determinado<br>
+
+
+De fazer de Lisboa nova Roma;<br>
+
+
+N&atilde;o no pode estorvar, que destinado<br>
+
+
+Est&aacute; doutro poder que tudo doma.<br>
+
+
+Do Olimpo desce enfim desesperado;<br>
+
+
+Novo rem&eacute;dio em terra busca e toma:<br>
+
+
+Entra no &uacute;mido reino, e vai-se &agrave; corte<br>
+
+
+Daquele a quem o mar caiu em sorte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+No mais interno fundo das profundas<br>
+
+
+Cavernas altas, onde o mar se esconde,<br>
+
+
+L&aacute; donde as ondas saem furibundas,<br>
+
+
+Quando &agrave;s iras do vento o mar responde,<br>
+
+
+Netuno mora, e moram as jocundas<br>
+
+
+Nereidas, e outros Deuses do mar, onde<br>
+
+
+As &aacute;guas campo deixam &agrave;s cidades,<br>
+
+
+Que habitam estas &uacute;midas deidades.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+Descobre o fundo nunca descoberto<br>
+
+
+Das areias ali de prata fina;<br>
+
+
+Torres altas se v&ecirc;em no campo aberto<br>
+
+
+Da transparente massa cristalina:<br>
+
+
+Quanto se chegam mais os olhos perto,<br>
+
+
+Tanto menos a vista determina<br>
+
+
+Se &eacute; cristal o que v&ecirc;, se diamante,<br>
+
+
+Que assim se mostra claro e radiante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+As portas douro fino, e marchetadas<br>
+
+
+Do rico alj&ocirc;far que nas conchas nasce,<br>
+
+
+De escultura formosa est&atilde;o lavradas,<br>
+
+
+Na qual o irado Baco a vista pasce;<br>
+
+
+E v&ecirc; primeiro em cores variadas<br>
+
+
+Do velho Caos a t&atilde;o confusa face;<br>
+
+
+V&ecirc;em-se os quatro elementos trasladados<br>
+
+
+Em diversos of&iacute;cios ocupados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Ali sublime o Fogo estava em cima,<br>
+
+
+Que em nenhuma mat&eacute;ria se sustinha;<br>
+
+
+Daqui as coisas vivas sempre anima,<br>
+
+
+Depois que Prometeu furtado o tinha.<br>
+
+
+Logo ap&oacute;s ele leve se sublima<br>
+
+
+O invis&iacute;vel Ar, que mais asinha<br>
+
+
+Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,<br>
+
+
+Algum deixa no mundo estar vazio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+Estava a terra em montes revestida<br>
+
+
+De verdes ervas, e &aacute;rvores floridas,<br>
+
+
+Dando pasto diverso e dando vida<br>
+
+
+As alim&aacute;rias nela produzidas.<br>
+
+
+A clara forma ali estava esculpida<br>
+
+
+Das &aacute;guas entre a terra desparzidas,<br>
+
+
+De pescados criando v&aacute;rios modos,<br>
+
+
+Com seu humor mantendo os corpos todos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Noutra parte esculpida estava a guerra,<br>
+
+
+Que tiveram os Deuses com os Gigantes;<br>
+
+
+Est&aacute; Tifeu debaixo da alta serra<br>
+
+
+De Etna, que as flamas lan&ccedil;a crepitantes;<br>
+
+
+Esculpido se v&ecirc; ferindo a terra<br>
+
+
+Netuno, quando as gentes ignorantes<br>
+
+
+Dele o cavalo houveram, e a primeira<br>
+
+
+De Minerva pac&iacute;fica oliveira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Pouca tardan&ccedil;a faz Lieu irado<br>
+
+
+Na vista destas coisas, mas entrando<br>
+
+
+Nos pa&ccedil;os de Netuno, que avisado<br>
+
+
+Da vinda sua, o estava j&aacute; aguardando,<br>
+
+
+As portas o recebe, acompanhado<br>
+
+
+Das Ninfas, que se est&atilde;o maravilhando<br>
+
+
+De ver que, cometendo tal caminho,<br>
+
+
+Entre no reino d'&aacute;gua o Rei do vinho.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+"&Oacute; Netuno, lhe disse, n&atilde;o te espantes<br>
+
+
+De Baco nos teus reinos receberes,<br>
+
+
+Porque tamb&eacute;m com os grandes e possantes<br>
+
+
+Mostra a Fortuna injusta seus poderes.<br>
+
+
+Manda chamar os Deuses do mar, antes<br>
+
+
+Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;<br>
+
+
+Ver&atilde;o da desventura grandes modos:<br>
+
+
+Ou&ccedil;am todos o mal, que toca a todos."<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+Julgando j&aacute; Netuno que seria<br>
+
+
+Estranho caso aquele, logo manda<br>
+
+
+Trit&atilde;o, que chame os Deuses da &aacute;gua fria,<br>
+
+
+Que o mar habitam duma e doutra banda.<br>
+
+
+Trit&atilde;o, que de ser filho se gloria<br>
+
+
+Do Rei e de Sal&aacute;cia veneranda,<br>
+
+
+Era mancebo grande, negro e feio,<br>
+
+
+Trombeta de seu pai, e seu correio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+Os cabelos da barba, e os que descem<br>
+
+
+Da cabe&ccedil;a nos ombros, todos eram<br>
+
+
+Uns limos prenhes d'&aacute;gua, e bem parecem<br>
+
+
+Que nunca brando pentem conheceram;<br>
+
+
+Nas pontas pendurados n&atilde;o falecem<br>
+
+
+Os negros misilh&otilde;es, que ali se geram,<br>
+
+
+Na cabe&ccedil;a por gorra tinha posta<br>
+
+
+Uma muito grande casca de lagosta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+O corpo nu, e os membros genitais,<br>
+
+
+Por n&atilde;o ter ao nadar impedimento,<br>
+
+
+Mas por&eacute;m de pequenos animais<br>
+
+
+Do mar todos cobertos cento e cento:<br>
+
+
+Camar&otilde;es e cangrejos, e outros mais<br>
+
+
+Que recebem de Febe crescimento,<br>
+
+
+Ostras, e camar&otilde;es do musgo sujos,<br>
+
+
+As costas com a casca os caramujos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+Na m&atilde;o a grande concha retorcida<br>
+
+
+Que trazia, com for&ccedil;a, j&aacute; tocava;<br>
+
+
+A voz grande canora foi ouvida<br>
+
+
+Por todo o mar, que longe retumbava.<br>
+
+
+J&aacute; toda a companhia apercebida<br>
+
+
+Dos Deuses para os pa&ccedil;os caminhava<br>
+
+
+Do Deus, que fez os muros de Dard&acirc;nia,<br>
+
+
+Destru&iacute;dos depois da Grega ins&acirc;nia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+Vinha o padre Oceano acompanhado<br>
+
+
+Dos filhos e das filhas que gerara;<br>
+
+
+Vem Nereu, que com D&oacute;ris foi casado,<br>
+
+
+Que todo o mar de Ninfas povoara;<br>
+
+
+O profeta Proteu, deixando o gado<br>
+
+
+Mar&iacute;timo pascer pela &aacute;gua amara,<br>
+
+
+Ali veio tamb&eacute;m, mas j&aacute; sabia<br>
+
+
+O que o padre Lieu no mar queria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+Vinha por outra parte a linda esposa<br>
+
+
+De Netuno, de Celo e Vesta filha,<br>
+
+
+Grave e Ieda no gesto, e t&atilde;o formosa<br>
+
+
+Que se amansava o mar de maravilha.<br>
+
+
+Vestida uma camisa preciosa<br>
+
+
+Trazia de delgada beatilha,<br>
+
+
+Que o corpo cristalino deixa ver-se,<br>
+
+
+Que tanto bem n&atilde;o &eacute; para esconder-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+Anfitrite, formosa como as flores,<br>
+
+
+Neste caso n&atilde;o quis que falecesse;<br>
+
+
+O Delfim traz consigo, que aos amores<br>
+
+
+Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.<br>
+
+
+Com os olhos, que de tudo s&atilde;o senhores,<br>
+
+
+Qualquer parecer&aacute; que o Sol vencesse:<br>
+
+
+Ambas v&ecirc;m pela m&atilde;o, igual partido,<br>
+
+
+Pois ambas s&atilde;o esposas dum marido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+Aquela que das f&uacute;rias de Atamante<br>
+
+
+Fugindo, veio a ter divino estado,<br>
+
+
+Consigo traz o filho, belo Infante,<br>
+
+
+No n&uacute;mero dos Deuses relatado.<br>
+
+
+Pela praia brincando vem diante<br>
+
+
+Com as lindas conchinhas, que o salgado<br>
+
+
+Mar sempre cria, e &agrave;s vezes pela areia<br>
+
+
+No colo o to a a bela Panopeia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+E o Deus que foi num tempo corpo humano,<br>
+
+
+E por virtude da erva poderosa<br>
+
+
+Foi convertido em peixe, e deste dano<br>
+
+
+Lhe resultou deidade gloriosa,<br>
+
+
+Inda vinha chorando o feio engano<br>
+
+
+Que Circe tinha usado com a formosa<br>
+
+
+Cila, que ele ama, desta sendo amado,<br>
+
+
+Que a mais obriga amor mal empregado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+J&aacute; finalmente todos assentados<br>
+
+
+Na grande sala, nobre e divinal;<br>
+
+
+As Deusas em riqu&iacute;ssimos estrados,<br>
+
+
+Os Deuses em cadeiras de cristal,<br>
+
+
+Foram todos do Padre agasalhados,<br>
+
+
+Que com o Tebano tinha assento igual.<br>
+
+
+De fumos enche a casa a rica massa<br>
+
+
+Que no mar nasce, e Ar&aacute;bia em cheiro passa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+Estando sossegado j&aacute; o tumulto<br>
+
+
+Dos Deuses, e de seus recebimentos,<br>
+
+
+Come&ccedil;a a descobrir do peito oculto<br>
+
+
+A causa o Tioneu de seus tormentos:<br>
+
+
+Um pouco carregando-se no vulto,<br>
+
+
+Dando mostra de grandes sentimentos,<br>
+
+
+S&oacute; por dar aos de Luso triste morte<br>
+
+
+Com o ferro alheio, fala desta sorte:<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"Pr&iacute;ncipe, que de juro senhoreias<br>
+
+
+Dum P&oacute;lo ao outro P&oacute;lo o mar irado,<br>
+
+
+Tu, que as gentes da terra toda enfreias,<br>
+
+
+Que n&atilde;o passem o termo limitado;<br>
+
+
+E tu, padre Oceano, que rodeias<br>
+
+
+O inundo universal, e o tens cercado,<br>
+
+
+E com justo decreto assim permites<br>
+
+
+Que dentro vivam s&oacute; de seus limites;<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"E v&oacute;s, Deuses do mar, que n&atilde;o sofreis<br>
+
+
+Inj&uacute;ria alguma em vosso reino grande,<br>
+
+
+Que com castigo igual vos n&atilde;o vingueis<br>
+
+
+De quem quer que por ele corra e ande:<br>
+
+
+Que descuido foi este em que viveis?<br>
+
+
+Quem pode ser que tanto vos abrande<br>
+
+
+Os peitos, com raz&atilde;o endurecidos<br>
+
+
+Contra os humanos fracos e atrevidos?<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Vistes que com grand&iacute;ssima ousadia<br>
+
+
+Foram j&aacute; cometer o C&eacute;u supremo;<br>
+
+
+Vistes aquela insana fantasia<br>
+
+
+De tentarem o mar com vela e reino;<br>
+
+
+Vistes, e ainda vemos cada dia,<br>
+
+
+Soberbas e insol&ecirc;ncias tais, que temo<br>
+
+
+Que do mar e do C&eacute;u em poucos anos<br>
+
+
+Venham Deuses a ser, e n&oacute;s humanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Vedes agora a fraca gera&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Que dum vassalo meu o nome toma,<br>
+
+
+Com soberbo e altivo cora&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+A v&oacute;s, e a mi, e o mundo todo doma;<br>
+
+
+Vedes, o vosso mar cortando v&atilde;o,<br>
+
+
+Mais do que fez a gente alta de Roma;<br>
+
+
+Vedes, o vosso reino devassando,<br>
+
+
+Os vossos estatutos v&atilde;o quebrando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"Eu vi que contra os M&iacute;nias, que primeiro<br>
+
+
+No vosso reino este caminho abriram,<br>
+
+
+B&oacute;reas injuriado, e o companheiro<br>
+
+
+Aquilo, e os outros todos resistiram.<br>
+
+
+Pois se do ajuntamento aventureiro<br>
+
+
+Os ventos esta inj&uacute;ria assim sentiram,<br>
+
+
+V&oacute;s, a quem mais compete esta vingan&ccedil;a,<br>
+
+
+Que esperais? Porque a pondes em tardan&ccedil;a?<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"E n&atilde;o consinto, Deuses, que cuideis<br>
+
+
+Que por amor de v&oacute;s do c&eacute;u desci,<br>
+
+
+Nem da m&aacute;goa da inj&uacute;ria que sofreis,<br>
+
+
+Mas da que se me faz tamb&eacute;m a mi;<br>
+
+
+Que aquelas grandes honras, que sabeis<br>
+
+
+Que no mundo ganhei, quando venci<br>
+
+
+As terras Indianas do Oriente,<br>
+
+
+Todas vejo abatidas desta gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Que o gr&atilde; Senhor e Fados que destinam,<br>
+
+
+Como lhe bem parece, o baixo mundo,<br>
+
+
+Famas mores que nunca determinam<br>
+
+
+De dar a estes bar&otilde;es no mar profundo.<br>
+
+
+Aqui vereis, &oacute; Deuses, como ensinam<br>
+
+
+O mal tamb&eacute;m a Deuses: que, a segundo<br>
+
+
+Se v&ecirc;, ningu&eacute;m j&aacute; tem menos valia,<br>
+
+
+Que quem com mais raz&atilde;o valer devia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"E por isso do Olimpo j&aacute; fugi,<br>
+
+
+Buscando algum rem&eacute;dio a meus pesares,<br>
+
+
+Por ver o pre&ccedil;o que no C&eacute;u perdi,<br>
+
+
+Se por dita acharei nos vossos mares."<br>
+
+
+Mais quis dizer, e n&atilde;o passou daqui,<br>
+
+
+Porque as l&aacute;grimas j&aacute; correndo a pares<br>
+
+
+Lhe saltaram dos olhos, com que logo<br>
+
+
+Se acendem as Deidades d'&aacute;gua em fogo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+A ira com que s&uacute;bito alterado<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o dos Deuses foi num ponto,<br>
+
+
+N&atilde;o sofreu mais conselho bem cuidado,<br>
+
+
+Nem dila&ccedil;&atilde;o, nem outro algum desconto.<br>
+
+
+Ao grande Eolo mandam j&aacute; recado<br>
+
+
+Da parte de Netuno, que sem conto<br>
+
+
+Solte as f&uacute;rias dos ventos repugnantes,<br>
+
+
+Que n&atilde;o haja no mar mais navegantes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+Bem quisera primeiro ali Proteu<br>
+
+
+Dizer neste neg&oacute;cio o que sentia,<br>
+
+
+E segundo o que a todos pareceu,<br>
+
+
+Era alguma profunda profecia.<br>
+
+
+Por&eacute;m tanto o tumulto se moveu<br>
+
+
+S&uacute;bito na divina companhia,<br>
+
+
+Que Tethys indignada lhe bradou:<br>
+
+
+"Netuno sabe bem o que mandou".<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+J&aacute; l&aacute; o soberbo Hip&oacute;tades soltava<br>
+
+
+Do c&aacute;rcere fechado os furiosos<br>
+
+
+Ventos, que com palavras animava<br>
+
+
+Contra os var&otilde;es audazes e animosos.<br>
+
+
+S&uacute;bito o c&eacute;u sereno se obumbrava,<br>
+
+
+Que os ventos, mais que nunca impetuosos,<br>
+
+
+Come&ccedil;am novas for&ccedil;as a ir tomando,<br>
+
+
+Torres, montes e casas derribando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+Enquanto este conselho se fazia<br>
+
+
+No fundo aquoso, a leda lassa frota<br>
+
+
+Com vento sossegado prosseguia,<br>
+
+
+Pelo tranquilo mar, a longa rota.<br>
+
+
+Era no tempo quando a luz do dia<br>
+
+
+Do E&ocirc;o Hemisf&eacute;rio est&aacute; remota;<br>
+
+
+Os do quarto da prima se deitavam,<br>
+
+
+Para o segundo os outros despertavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+Vencidos v&ecirc;m do sono, e mal despertos;<br>
+
+
+Bocejando a mi&uacute;do se encostavam<br>
+
+
+Pelas antenas, todos mal cobertos<br>
+
+
+Contra os agudos ares, que assopravam;<br>
+
+
+Os olhos contra seu querer abertos,<br>
+
+
+Alas estregando, os membros estiravam;<br>
+
+
+Rem&eacute;dios contra o sono buscar querem,<br>
+
+
+Hist&oacute;rias contam, casos mil referem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Com que melhor podemos, um dizia,<br>
+
+
+Este tempo passar, que &eacute; t&atilde;o pesado,<br>
+
+
+Sen&atilde;o com algum conto de alegria,<br>
+
+
+Com que nos deixe o sono carregado?"<br>
+
+
+Responde Leonardo, que trazia<br>
+
+
+Pensamentos de firme namorado:<br>
+
+
+"Que contos poderemos ter melhores,<br>
+
+
+Para passar o tempo, que de amores?"<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"N&atilde;o &eacute;, disse Veloso, coisa justa<br>
+
+
+Tratar branduras em tanta aspereza;<br>
+
+
+Que o trabalho do mar, que tanto custa,<br>
+
+
+N&atilde;o sofre amores, nem delicadeza;<br>
+
+
+Antes de guerra f&eacute;rvida e robusta<br>
+
+
+A nossa hist&oacute;ria seja, pois dureza<br>
+
+
+Nossa vida h&aacute; de ser, segundo entendo,<br>
+
+
+Que o trabalho por vir me est&aacute; dizendo."<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+Consentem nisto todos, e encomendam<br>
+
+
+A Veloso que conte isto que aprova.<br>
+
+
+"Contarei, disse, sem que me repreendam<br>
+
+
+De contar cousa fabulosa ou nova;<br>
+
+
+E porque os que me ouvirem daqui aprendam<br>
+
+
+A fazer feitos grandes de alta prova,<br>
+
+
+Dos nascidos direi na nossa terra,<br>
+
+
+E estes sejam os doze de Inglaterra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+"No tempo que do Reino a r&eacute;dea leve<br>
+
+
+Jo&atilde;o, filho de Pedro, moderava,<br>
+
+
+Depois que sossegado e livre o teve<br>
+
+
+Do vizinho poder, que o molestava,<br>
+
+
+L&aacute; na grande Inglaterra, que da neve<br>
+
+
+Boreal sempre abunda, semeava<br>
+
+
+A fera Er&iacute;nis dura e m&aacute; ciz&acirc;nia,<br>
+
+
+Que lustre fosse a nossa Lusit&acirc;nia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+"Entre as damas gentis da corte Inglesa<br>
+
+
+E nobres cortes&atilde;os, acaso um dia<br>
+
+
+Se levantou disc&oacute;rdia em ira acesa,<br>
+
+
+Ou foi opini&atilde;o, ou foi porfia.<br>
+
+
+Os cortes&atilde;os, a quem t&atilde;o pouco pesa<br>
+
+
+Soltar palavras graves de ousadia,<br>
+
+
+Dizem que provar&atilde;o, que honras e famas<br>
+
+
+Em tais damas n&atilde;o h&aacute; para ser damas;<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+"E que se houver algu&eacute;m, com lan&ccedil;a e espada,<br>
+
+
+Que queira sustentar a parte sua,<br>
+
+
+Que eles, em campo raso ou estacada,<br>
+
+
+Lhe dar&atilde;o feia inf&acirc;mia, ou morte crua.<br>
+
+
+A feminil fraqueza Pouco usada,<br>
+
+
+Ou nunca, a opr&oacute;brios tais, vendo-se nua<br>
+
+
+De for&ccedil;as naturais convenientes,<br>
+
+
+Socorro pede a amigos e parentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+"Mas como fossem grandes e possantes<br>
+
+
+No reino os inimigos, n&atilde;o se atrevem<br>
+
+
+Nem parentes, nem f&eacute;rvidos amantes,<br>
+
+
+A sustentar as damas, como devem.<br>
+
+
+Com l&aacute;grimas formosas e bastantes<br>
+
+
+A fazer que em socorro os Deuses levem<br>
+
+
+De todo o C&eacute;u, por rostos de alabastro,<br>
+
+
+Se v&atilde;o todas ao duque de Alencastro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+"Era este Ingl&ecirc;s potente, e militara<br>
+
+
+Com os Portugueses j&aacute; contra Castela,<br>
+
+
+Onde as for&ccedil;as magn&acirc;nimas provara<br>
+
+
+Dos companheiros, e benigna estrela:<br>
+
+
+N&atilde;o menos nesta terra experimentara<br>
+
+
+Namorados afeitos, quando nela<br>
+
+
+A filha viu, que tinto o peito doma<br>
+
+
+Do forte Rei, que por mulher a toma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+"Este, que socorrer-lhe n&atilde;o queria,<br>
+
+
+Por n&atilde;o causar disc&oacute;rdias intestinas,<br>
+
+
+Lhe diz:&mdash;"Quando o direito pretendia<br>
+
+
+Do reino l&aacute; das terras Iberinas,<br>
+
+
+Nos Lusitanos vi tanta ousadia,<br>
+
+
+Tanto primor, e partes t&atilde;o divinas,<br>
+
+
+Que eles s&oacute;s poderiam, se n&atilde;o erro,<br>
+
+
+Sustentar vossa parte a fogo e ferro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+"E se, agravadas damas, sois servidas,<br>
+
+
+Por v&oacute;s lhe mandarei embaixadores,<br>
+
+
+Que, por cartas discretas e polidas,<br>
+
+
+De vosso agravo os fa&ccedil;am sabedores.<br>
+
+
+Tamb&eacute;m por vossa parto encarecidas<br>
+
+
+Com palavras de afagos e de amores<br>
+
+
+Lhe sejam vossas l&aacute;grimas, que eu creio<br>
+
+
+Que ali tereis socorro e forte esteio."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+"Destarte as aconselha o Duque experto,<br>
+
+
+E logo lhe nomeia doze fortes;<br>
+
+
+E por que cada dama um tenha certo,<br>
+
+
+Lhe manda que sobre eles lancem sortes,<br>
+
+
+Que elas s&oacute; doze s&atilde;o; e descoberto<br>
+
+
+Qual a qual tem ca&iacute;do das consertes,<br>
+
+
+Cada uma escreve ao seu por v&aacute;rios modos,<br>
+
+
+E todas a seu Rei, e o Duque a todos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"J&aacute; chega a Portugal o mensageiro;<br>
+
+
+Toda a corte alvoro&ccedil;a a novidade;<br>
+
+
+Quisera o Rei sublime ser primeiro,<br>
+
+
+Mas n&atilde;o lhe sofre a R&eacute;gia Majestade.<br>
+
+
+Qualquer dos cortes&atilde;os aventureiro<br>
+
+
+Deseja ser, com f&eacute;rvida vontade,<br>
+
+
+F, s&oacute; fica por bem-aventurado<br>
+
+
+Quem j&aacute; vem pelo Duque nomeado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"L&aacute; na leal Cidade, donde teve<br>
+
+
+Origem (como &eacute; fama) o nome eterno<br>
+
+
+De Portugal, armar madeiro leve<br>
+
+
+Manda o que tem o leme do governo.<br>
+
+
+Apercebem-se os doze, em tempo breve,<br>
+
+
+De armas, e roupas de uso mais moderno,<br>
+
+
+De elmos, cimeiras, letras, e primores,<br>
+
+
+Cavalos, e concertos de mil cores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"J&aacute; do seu Rei tomado t&ecirc;m licen&ccedil;a<br>
+
+
+Para partir do Douro celebrado<br>
+
+
+Aqueles, que escolhidos por senten&ccedil;a<br>
+
+
+Foram do Duque Ingl&ecirc;s experimentado.<br>
+
+
+N&atilde;o h&aacute; na companhia diferen&ccedil;a<br>
+
+
+De cavaleiro destro ou esfor&ccedil;ado;<br>
+
+
+Mas um s&oacute;, que Magri&ccedil;o se dizia,<br>
+
+
+Destarte fala &agrave; forte companhia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+&mdash;"Fort&iacute;ssimos cons&oacute;cios, eu desejo<br>
+
+
+H&aacute; muito j&aacute; de andar terras estranhas,<br>
+
+
+Por ver mais &aacute;guas que as do Douro o Tejo,<br>
+
+
+V&aacute;rias gentes, e leis, e v&aacute;rias manhas.<br>
+
+
+Agora, que aparelho certo vejo,<br>
+
+
+(Pois que do mundo as coisas s&atilde;o tamanhas)<br>
+
+
+Quero, se me deixais, ir s&oacute; por terra,<br>
+
+
+Porque eu serei convosco em Inglaterra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+&mdash;"E quando caso for que eu impedido<br>
+
+
+Por quem das cousas &eacute; &uacute;ltima linha,<br>
+
+
+N&atilde;o for convosco ao prazo institu&iacute;do,<br>
+
+
+Pouca falta vos faz a falta minha:<br>
+
+
+Todos por mim fareis o que &eacute; devido;<br>
+
+
+Mas, se a verdade o esp&iacute;rito me adivinha,<br>
+
+
+Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,<br>
+
+
+N&atilde;o far&atilde;o que eu convosco l&aacute;
+n&atilde;o seja."<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+"Assim diz, e abra&ccedil;ados os amigos,<br>
+
+
+E tomada licen&ccedil;a, enfim se parte:<br>
+
+
+Passa Li&atilde;o, Castela, vendo antigos<br>
+
+
+Lugares, que ganhara o p&aacute;trio Marte;<br>
+
+
+Navarra, com os alt&iacute;ssimos perigos<br>
+
+
+Do Perineu, que Espanha e G&aacute;lia parte;<br>
+
+
+Vistas enfim de Fran&ccedil;a as coisas grandes,<br>
+
+
+No grande emp&oacute;rio foi parar de Frandes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,<br>
+
+
+Sem passar se deteve muitos dias:<br>
+
+
+Mas dos onze a ilustr&iacute;ssima companha<br>
+
+
+Cortam do mar do Norte as ondas frias.<br>
+
+
+Chegados de Inglaterra &agrave; costa estranha,<br>
+
+
+Para Londres j&aacute; fazem todos vias.<br>
+
+
+Do Duque s&atilde;o com festa agasalhados,<br>
+
+
+E das damas servidos e amimados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+"Chega-se o prazo e dia assinalado<br>
+
+
+De entrar em campo j&aacute; com os doze Ingleses,<br>
+
+
+Que pelo Rei j&aacute; tinham segurado:<br>
+
+
+Armam-se de elmos, grevas e de arneses:<br>
+
+
+J&aacute; as damas t&ecirc;m por si, fulgente e armado,<br>
+
+
+O Mavorte feroz dos Portugueses;<br>
+
+
+Vestem-se elas de cores e de sedas,<br>
+
+
+De ouro e de j&oacute;ias mil, ricas e ledas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+"Mas aquela, a quem fora em sorte dado<br>
+
+
+Magri&ccedil;o, que n&atilde;o vinha, com tristeza<br>
+
+
+Se veste, por n&atilde;o ter quem nomeado<br>
+
+
+Seja seu cavaleiro nesta empresa;<br>
+
+
+Bem que os onze apregoam, que acabado<br>
+
+
+Ser&aacute; o neg&oacute;cio assim na corte Inglesa,<br>
+
+
+Que as damas vencedoras se conhe&ccedil;am,<br>
+
+
+Posto que dois e tr&ecirc;s dos seus fale&ccedil;am.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"J&aacute; num sublime e p&uacute;blico teatro<br>
+
+
+Se assenta o Rei Ingl&ecirc;s com toda a corte:<br>
+
+
+Estavam tr&ecirc;s e tr&ecirc;s, e quatro e quatro,<br>
+
+
+Bem como a cada qual coubera em sorte.<br>
+
+
+N&atilde;o s&atilde;o vistos do Sol, do Tejo ao Batro,<br>
+
+
+De for&ccedil;a, esfor&ccedil;o e de &acirc;nimo mais forte<br>
+
+
+Outros doze sair, como os Ingleses,<br>
+
+
+No campo, contra os onze Portugueses.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"Mastigam os cavalos, escumando,<br>
+
+
+Os &aacute;ureos freios com feroz semblante;<br>
+
+
+Estava o Sol nas armas rutilando<br>
+
+
+Como em cristal ou r&iacute;gido diamante;<br>
+
+
+Mas enxerga-se num e noutro bando<br>
+
+
+Partido desigual e dissonante<br>
+
+
+Dos onze contra os doze: quando a gente<br>
+
+
+Come&ccedil;a a alvoro&ccedil;ar-se geralmente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"Viram todos o rosto aonde havia<br>
+
+
+A causa principal do reboli&ccedil;o:<br>
+
+
+Eis entra um cavaleiro, que trazia<br>
+
+
+Armas, cavalo, ao b&eacute;lico servi&ccedil;o.<br>
+
+
+Ao Rei e &agrave;s damas fala, e logo se ia<br>
+
+
+Para os onze, que este era o gr&atilde; Magri&ccedil;o;<br>
+
+
+Abra&ccedil;a os companheiros como amigos,<br>
+
+
+A quem n&atilde;o falta certo nos perigos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"A dama, como ouviu que este era aquele<br>
+
+
+Que vinha a defender seu nome e fama,<br>
+
+
+Se alegra, e veste ali do animal de Hele,<br>
+
+
+Que a gente bruta mais que virtude ama.<br>
+
+
+J&aacute; d&atilde;o sinal, e o som da tuba impele<br>
+
+
+Os belicosos &acirc;nimos, que inflama:<br>
+
+
+Picam de esporas, largam r&eacute;deas logo,<br>
+
+
+Abaixam lan&ccedil;as, fere a terra fogo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+"Dos cavalos o estr&eacute;pito parece<br>
+
+
+Que faz que o ch&atilde;o debaixo todo treme;<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o no peito, que estremece<br>
+
+
+De quem os olha, se alvoro&ccedil;a e teme:<br>
+
+
+Qual do cavalo voa, que n&atilde;o desce;<br>
+
+
+Qual, com o cavalo em terra dando, geme;<br>
+
+
+Qual vermelhas as armas faz de brancas;<br>
+
+
+Qual com os penachos do elmo a&ccedil;outa as ancas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Algum dali tomou perp&eacute;tuo sono<br>
+
+
+E fez da vida ao fim breve intervalo;<br>
+
+
+Correndo algum cavalo vai sem dono<br>
+
+
+E noutra parte o dono sem cavalo.<br>
+
+
+Cai a soberba Inglesa de seu trono,<br>
+
+
+Que dois ou tr&ecirc;s j&aacute; fora v&atilde;o do vale;<br>
+
+
+Os que de espada v&ecirc;m fazer batalha,<br>
+
+
+Mais acham j&aacute; que arn&ecirc;s, escudo e malha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+"Gastar palavras em contar extremos<br>
+
+
+De golpes feros, cruas estocadas,<br>
+
+
+&Eacute; desses gastadores, que sabemos,<br>
+
+
+Maus do tempo, com f&aacute;bulas sonhadas.<br>
+
+
+Basta, por fim do caso, que entendemos<br>
+
+
+Que com finezas altas e afamadas,<br>
+
+
+Com os nossos fica a palma da vit&oacute;ria,<br>
+
+
+E as damas vencedoras, e com gl&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"Recolhe o Duque os doze vencedores<br>
+
+
+Nos seus pa&ccedil;os, com festas e alegria;<br>
+
+
+Cozinheiros ocupa e ca&ccedil;adores<br>
+
+
+Das damas a formosa companhia,<br>
+
+
+Que querem dar aos seus libertadores<br>
+
+
+Banquetes mil cada hora e cada dia,<br>
+
+
+Enquanto se det&ecirc;m em Inglaterra,<br>
+
+
+At&eacute; tornar &agrave; doce e cara terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Mas dizem que, contudo, o gr&atilde; Magri&ccedil;o,<br>
+
+
+Desejoso de ver as coisas grandes,<br>
+
+
+L&aacute; se deixou ficar, onde um servi&ccedil;o<br>
+
+
+Not&aacute;vel &agrave; condessa fez de Frandes;<br>
+
+
+E como quem n&atilde;o era j&aacute; novi&ccedil;o<br>
+
+
+Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,<br>
+
+
+Um Franc&ecirc;s mata em campo, que o destino<br>
+
+
+L&aacute; teve de Torcato e de Corvino.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Outro tamb&eacute;m dos doze em Alemanha<br>
+
+
+Se lan&ccedil;a, e teve um fero desafio<br>
+
+
+Com um Germano enganoso, que com manha<br>
+
+
+N&atilde;o devida o quis p&ocirc;r no extremo fio."<br>
+
+
+Contando assim Veloso, j&aacute; a companha<br>
+
+
+Lhe pede que n&atilde;o f a&ccedil;a tal desvio<br>
+
+
+Do caso de Magri&ccedil;o, e vencimento,<br>
+
+
+Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+Mas, neste passo, assim prontos estando<br>
+
+
+Eis o mestre, que olhando os ares anda,<br>
+
+
+O apito toca; acordam despertando<br>
+
+
+Os marinheiros duma e doutra banda;<br>
+
+
+E porque o vento vinha refrescando,<br>
+
+
+Os traquetes das g&aacute;veas tomar manda:<br>
+
+
+"Alerta, disse, estai, que o vento cresce<br>
+
+
+Daquela nuvem negra que aparece."<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+N&atilde;o eram os traquetes bem tomados,<br>
+
+
+Quando d&aacute; a grande e s&uacute;bita procela:<br>
+
+
+"Amaina, disse o mestre a grandes brados,<br>
+
+
+Amaina, disse, amaina a grande vela!"<br>
+
+
+N&atilde;o esperam os ventos indinados<br>
+
+
+Que amainassem; mas juntos dando nela,<br>
+
+
+Em peda&ccedil;os a fazem, com um ru&iacute;do<br>
+
+
+Que o mundo pareceu ser destru&iacute;do.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+O c&eacute;u fere com gritos nisto a gente,<br>
+
+
+Com s&uacute;bito temor e desacordo,<br>
+
+
+Que, no romper da vela, a nau pendente<br>
+
+
+Toma gr&atilde; suma d'&aacute;gua pelo bordo:<br>
+
+
+"Alija, disse o mestre rijamente,<br>
+
+
+Alija tudo ao mar; n&atilde;o falte acordo.<br>
+
+
+V&atilde;o outros dar &agrave; bomba, n&atilde;o cessando;<br>
+
+
+A bomba, que nos imos alagando!"<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+Correm logo os soldados animosos<br>
+
+
+A dar &agrave; bomba; e, tanto que chegaram,<br>
+
+
+Os balan&ccedil;os que os mares temerosos<br>
+
+
+Deram &agrave; nau, num bordo os derribaram.<br>
+
+
+Tr&ecirc;s marinheiros, duros e for&ccedil;osos,<br>
+
+
+A menear o leme n&atilde;o bastaram;<br>
+
+
+Talhas lhe punham duma e doutra parte,<br>
+
+
+Sem aproveitar dos homens for&ccedil;a e arte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+Os ventos eram tais, que n&atilde;o puderam<br>
+
+
+Mostrar mais for&ccedil;a do &iacute;mpeto cruel,<br>
+
+
+Se para derribar ent&atilde;o vieram<br>
+
+
+A fort&iacute;ssima torre de Babel.<br>
+
+
+Nos alt&iacute;ssimos mares, que cresceram,<br>
+
+
+A pequena grandura dum batel<br>
+
+
+Mostra a possante nau, que move espanto,<br>
+
+
+Vendo que se sust&eacute;m nas ondas tanto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+A nau grande, em que vai Paulo da Gama,<br>
+
+
+Quebrado leva o masto pelo meio.<br>
+
+
+Quase toda alagada: a gente chama<br>
+
+
+Aquele que a salvar o mundo veio.<br>
+
+
+N&atilde;o menos gritos v&atilde;os ao ar derrama<br>
+
+
+Toda a nau de Coelho, com receio,<br>
+
+
+Conquanto teve o mestre tanto tento,<br>
+
+
+Que primeiro amainou, que desse o vento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+Agora sobre as nuvens os subiam<br>
+
+
+As ondas de Netuno furibundo;<br>
+
+
+Agora a ver parece que desciam<br>
+
+
+As &iacute;ntimas entranhas do Profundo.<br>
+
+
+Noto, Austro, B&oacute;reas, Aquilo queriam<br>
+
+
+Arruinar a m&aacute;quina do mundo:<br>
+
+
+A noite negra e feia se alumia<br>
+
+
+Com os raios, em que o P&oacute;lo todo ardia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+As Alci&oacute;neas aves triste canto<br>
+
+
+Junto da costa brava levantaram,<br>
+
+
+Lembrando-se do seu passado pranto,<br>
+
+
+Que as furiosas &aacute;guas lhe causaram.<br>
+
+
+Os delfins namorados entretanto<br>
+
+
+L&aacute; nas covas mar&iacute;timas entraram,<br>
+
+
+Fugindo &agrave; tempestade e ventos duros,<br>
+
+
+Que nem no fundo os deixa estar segui-os.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+Nunca t&atilde;o vivos raios fabricou<br>
+
+
+Contra a fera soberba dos Gigantes<br>
+
+
+O gr&atilde; ferreiro s&oacute;rdido, que obrou<br>
+
+
+Do enteado as armas radiantes;<br>
+
+
+Nem tanto o gr&atilde; Tonante arremessou<br>
+
+
+Rel&acirc;mpagos ao mundo fulminantes,<br>
+
+
+No gr&atilde; dil&uacute;vio, donde s&oacute;s viveram<br>
+
+
+Os dois que em gente as pedras converteram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+Quantos montes, ent&atilde;o, que derribaram<br>
+
+
+As ondas que batiam denodadas!<br>
+
+
+Quantas &aacute;rvores velhas arrancaram<br>
+
+
+Do vento bravo as f&uacute;rias indinadas!<br>
+
+
+As for&ccedil;osas ra&iacute;zes n&atilde;o cuidaram<br>
+
+
+Que nunca para o c&eacute;u fossem viradas,<br>
+
+
+Nem as fundas areias que pudessem<br>
+
+
+Tanto os mares que em cima as revolvessem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+Vendo Vasco da Gama que t&atilde;o perto<br>
+
+
+Do fim de seu desejo se perdia;<br>
+
+
+Vendo ora o mar at&eacute; o inferno aberto,<br>
+
+
+Ora com nova f&uacute;ria ao c&eacute;u subia,<br>
+
+
+Confuso de temor, da vida incerto,<br>
+
+
+Onde nenhum rem&eacute;dio lhe valia,<br>
+
+
+Chama aquele rem&eacute;dio santo &eacute; forte,<br>
+
+
+Que o imposs&iacute;vel pode, desta sorte:<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"Divina Guarda, ang&eacute;lica, celeste,<br>
+
+
+Que os c&eacute;us, o mar e terra senhoreias;<br>
+
+
+Tu, que a todo Israel ref&uacute;gio deste<br>
+
+
+Por metade das &aacute;guas Eritreias;<br>
+
+
+Tu, que livraste Paulo e o defendeste<br>
+
+
+Das Sirtes arenosas e ondas feias,<br>
+
+
+E guardaste com os filhos o segundo<br>
+
+
+Povoador do alagado e v&aacute;cuo mundo;<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"Se tenho novos modos perigosos<br>
+
+
+Doutra Cila e Car&iacute;bdis j&aacute; passados,<br>
+
+
+Outras Sirtes e baixos arenosos,<br>
+
+
+Outros Acrocer&aacute;unios infamados,<br>
+
+
+No fim de tantos casos trabalhosos,<br>
+
+
+Por que somos de ti desamparados,<br>
+
+
+Se este nosso trabalho n&atilde;o te ofende,<br>
+
+
+Mas antes teu servi&ccedil;o s&oacute; pretende?<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"&Oacute; ditosos aqueles que puderam<br>
+
+
+Entre as agudas lan&ccedil;as Africanas<br>
+
+
+Morrer, enquanto fortes sostiveram<br>
+
+
+A santa F&eacute; nas terras Mauritanas!<br>
+
+
+De quem feitos ilustres se souberam,<br>
+
+
+De quem ficam mem&oacute;rias soberanas,<br>
+
+
+De quem se ganha a vida com perd&ecirc;-la,<br>
+
+
+Doce fazendo a morte as honras dela!"<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+Assim dizendo, os ventos que lutavam<br>
+
+
+Como touros ind&oacute;mitos bramando,<br>
+
+
+Mais e mais a tormenta acrescentavam<br>
+
+
+Pela mi&uacute;da enx&aacute;rcia assoviando.<br>
+
+
+Rel&acirc;mpados medonhos n&atilde;o cessavam,<br>
+
+
+Feros trov&otilde;es, que v&ecirc;m representando<br>
+
+
+Cair o c&eacute;u dos eixos sobre a terra,<br>
+
+
+Consigo os elementos terem guerra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+Mas j&aacute; a amorosa estrela cintilava<br>
+
+
+Diante do Sol claro, no Horizonte,<br>
+
+
+Mensageira do dia, e visitava<br>
+
+
+A terra e o largo mar, com leda fronte.<br>
+
+
+A densa que nos c&eacute;us a governava,<br>
+
+
+De quem foge o ens&iacute;fero Orionte,<br>
+
+
+Tanto que o mar e a cara armada vira,<br>
+
+
+Tocada junto foi de medo e de ira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+"Estas obras de Baco s&atilde;o, por certo,<br>
+
+
+Disse; mas n&atilde;o ser&aacute; que avante leve<br>
+
+
+T&atilde;o danada ten&ccedil;&atilde;o, que descoberto<br>
+
+
+Me ser&aacute; sempre o mil a que se atreve."<br>
+
+
+Isto dizendo, desce ao mar aberto,<br>
+
+
+No caminho gastando espa&ccedil;o breve,<br>
+
+
+Enquanto manda as Ninfas amorosas<br>
+
+
+Grinaldas nas cabe&ccedil;as p&ocirc;r de rosas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+Grinaldas manda p&ocirc;r de v&aacute;rias cores<br>
+
+
+Sobre cabelo; louros &agrave; porfia.<br>
+
+
+Quem n&atilde;o dir&aacute; que nascem roxas flores<br>
+
+
+Sobre ouro natural, que Amor enfia?<br>
+
+
+Abrandar determina, por amores,<br>
+
+
+Dos ventos a nojosa companhia,<br>
+
+
+Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,<br>
+
+
+Que mais formosas vinham que as estrelas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+Assim foi; porque, tanto que chegaram<br>
+
+
+A vista delas, logo lhe falecem<br>
+
+
+As for&ccedil;as com que dantes pelejaram,<br>
+
+
+E j&aacute; como rendidos lhe obedecem.<br>
+
+
+Os p&eacute;s e m&atilde;os parece que lhe ataram<br>
+
+
+Os cabelos que os raios escurecem.<br>
+
+
+A B&oacute;reas, que do peito mais queria,<br>
+
+
+Assim disse a bel&iacute;ssima Oritia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+"N&atilde;o creias, fero B&oacute;reas, que te creio<br>
+
+
+Que me tiveste nunca amor constante,<br>
+
+
+Que brandura &eacute; de amor mais certo arreio,<br>
+
+
+E n&atilde;o conv&eacute;m furor a firme amante.<br>
+
+
+Se j&aacute; n&atilde;o p&otilde;es a tanta
+ins&acirc;nia freio,<br>
+
+
+N&atilde;o esperes de mi, daqui em diante,<br>
+
+
+Que possa mais amar-te, mas temer-te;<br>
+
+
+Que amor contigo em medo se converte."<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+Assim mesmo a formosa Galateia<br>
+
+
+Dizia ao fero Noto, que bem sabe<br>
+
+
+Que dias h&aacute; que em v&ecirc;-la se recreia,<br>
+
+
+E bem cr&ecirc; que com ele tudo acabe.<br>
+
+
+N&atilde;o sabe o bravo tanto bem se o creia,<br>
+
+
+Que o cora&ccedil;&atilde;o no peito lhe n&atilde;o cabe,<br>
+
+
+De contente de ver que a dama o manda,<br>
+
+
+Pouco cuida que faz, se logo abranda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+Desta maneira as outras amansavam<br>
+
+
+Subitamente os outros amadores;<br>
+
+
+E logo &agrave; linda V&eacute;nus se entregavam,<br>
+
+
+Amansadas as iras e os furores.<br>
+
+
+Ela lhe prometeu, vendo que amavam,<br>
+
+
+Sempiterno favor em seus amores,<br>
+
+
+Nas belas m&atilde;os tomando-lhe homenagem<br>
+
+
+De lhe serem leais esta viagem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+J&aacute; a manh&atilde; clara dava nos outeiros<br>
+
+
+Por onde o Ganges murmurando soa,<br>
+
+
+Quando da celsa g&aacute;vea os marinheiros<br>
+
+
+Enxergaram terra alta pela proa.<br>
+
+
+J&aacute; fora de tormenta, e dos primeiros<br>
+
+
+Mares, o temor v&atilde;o do peito voa.<br>
+
+
+Disse alegre o piloto Melindano:<br>
+
+
+"Terra &eacute; de Calecu, se n&atilde;o me engano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+"Esta &eacute; por certo a terra que buscais<br>
+
+
+Da verdadeira &Iacute;ndia, que aparece;<br>
+
+
+E se do mundo mais n&atilde;o desejais,<br>
+
+
+Vosso trabalho longo aqui fenece."<br>
+
+
+Sofrer aqui n&atilde;o pode o Gama mais,<br>
+
+
+De ledo em ver que a terra se conhece:<br>
+
+
+Os geolhos no ch&atilde;o, as m&atilde;os ao c&eacute;u,<br>
+
+
+A merc&ecirc; grande a Deus agradeceu.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+As gra&ccedil;as a Deus dava, e raz&atilde;o tinha,<br>
+
+
+Que n&atilde;o somente a terra lhe mostrava,<br>
+
+
+Que com tanto temor buscando vinha,<br>
+
+
+Por quem tanto trabalho experimentava;<br>
+
+
+Mas via-se livrado t&atilde;o asinha<br>
+
+
+Da morte, que no mar lhe aparelhava<br>
+
+
+O vento duro, fervido e medonho,<br>
+
+
+Como quem despertou de horrendo sonho.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+Por meio destes h&oacute;rridos perigos,<br>
+
+
+Destes trabalhos graves e temores,<br>
+
+
+Alcan&ccedil;am os que s&atilde;o de fama amigos<br>
+
+
+As honras imortais e graus maiores:<br>
+
+
+N&atilde;o encostados sempre nos antigos<br>
+
+
+Troncos nobres de seus antecessores;<br>
+
+
+N&atilde;o nos leitos dourados, entre os finos<br>
+
+
+Animais de Mosc&oacute;via zebelinos;<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+N&atilde;o com os manjares novos e esquisitos,<br>
+
+
+N&atilde;o com os passeios moles e ociosos,<br>
+
+
+N&atilde;o com os v&aacute;rios deleites e infinitos,<br>
+
+
+Que afeminam os peitos generosos,<br>
+
+
+N&atilde;o com os nunca vencidos apetitos<br>
+
+
+Que a Fortuna tem sempre t&atilde;o mimosos,<br>
+
+
+Que n&atilde;o sofre a nenhum que o passo mude<br>
+
+
+Para alguma obra her&oacute;ica de virtude;<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+Mas com buscar com o seu for&ccedil;oso bra&ccedil;o<br>
+
+
+As honras, que ele chame pr&oacute;prias suas;<br>
+
+
+Vigiando, e vestindo o forjado a&ccedil;o,<br>
+
+
+Sofrendo tempestades e ondas cruas;<br>
+
+
+Vencendo os torpes frios no rega&ccedil;o<br>
+
+
+Do Sul e regi&otilde;es de abrigo nuas;<br>
+
+
+Engolindo o corrupto mantimento,<br>
+
+
+Temperado com um &aacute;rduo sofrimento;<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+E com for&ccedil;ar o rosto, que se enfia,<br>
+
+
+A parecer seguro, ledo, inteiro,<br>
+
+
+Para o pelouro ardente, que assovia<br>
+
+
+E leva a perna ou bra&ccedil;o ao companheiro.<br>
+
+
+Destarte, o peito um calo honroso cria,<br>
+
+
+Desprezador das honras e dinheiro,<br>
+
+
+Das honras e dinheiro, que a ventura<br>
+
+
+Forjou, e n&atilde;o virtude justa e dura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+Destarte se esclarece o entendimento,<br>
+
+
+Que experi&ecirc;ncias fazem repousado,<br>
+
+
+E fica vendo, corno de alto assento,<br>
+
+
+O baixo trato humano embara&ccedil;ado.<br>
+
+
+Este, onde tiver for&ccedil;a o regimento<br>
+
+
+Direito, e n&atilde;o de afeitos ocupado,<br>
+
+
+Subir&aacute; (como deve) a ilustre mando,<br>
+
+
+Contra vontade sua, e n&atilde;o rogando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto S&eacute;timo</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+J&aacute; se viam chegados junto &agrave; terra,<br>
+
+
+Que desejada j&aacute; de tantos fora,<br>
+
+
+Que entre as correntes Indicas se encerra,<br>
+
+
+E o Ganges, que no c&eacute;u terreno mora.<br>
+
+
+Ora, sus, gente forte, que na guerra<br>
+
+
+Quereis levar a palma vencedora,<br>
+
+
+J&aacute; sois chegados, j&aacute; tendes diante<br>
+
+
+A terra de riquezas abundante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+A v&oacute;s, &oacute; gera&ccedil;&atilde;o de Luso,
+digo,<br>
+
+
+Que t&atilde;o pequena parte sois no inundo;<br>
+
+
+N&atilde;o digo ainda no mundo, mas no amigo<br>
+
+
+Curral de quem governa o c&eacute;u rotundo;<br>
+
+
+V&oacute;s, a quem n&atilde;o somente algum perigo<br>
+
+
+Estorva conquistar o povo imundo,<br>
+
+
+Mas nem cobi&ccedil;a, ou pouca obedi&ecirc;ncia<br>
+
+
+Da Madre, que nos c&eacute;us est&aacute; em ess&ecirc;ncia;<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+V&oacute;s, Portugueses, poucos quanto fortes,<br>
+
+
+Que o fraco poder vosso n&atilde;o pesais;<br>
+
+
+V&oacute;s, que &agrave; custa de vossas v&aacute;rias
+mortes<br>
+
+
+A lei da vida eterna dilatais:<br>
+
+
+Assim do c&eacute;u deitadas s&atilde;o as sortes,<br>
+
+
+Que v&oacute;s, por muito poucos que sejais,<br>
+
+
+Muito fa&ccedil;ais na santa Cristandade:<br>
+
+
+Que tanto, &oacute; Cristo, exaltas a humildade!<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+Vede-los Alem&atilde;es, soberbo gado,<br>
+
+
+Que por t&atilde;o largos campos se apascenta,<br>
+
+
+Do sucessor de Pedro, rebelado,<br>
+
+
+Novo pastor, e nova seita inventa:<br>
+
+
+Vede-lo em feias guerras ocupado,<br>
+
+
+Que ainda com o cego error se n&atilde;o contenta,<br>
+
+
+N&atilde;o contra o soberb&iacute;ssimo Otomano,<br>
+
+
+Mas por sair do jugo soberano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Vede-lo duro Ingl&ecirc;s, que se nomeia<br>
+
+
+Rei da velha e sant&iacute;ssima cidade,<br>
+
+
+Que o torpe Ismaelita senhoreia,<br>
+
+
+(Quem viu honra t&atilde;o longe da verdade?)<br>
+
+
+Entre as Boreais neves se recreia,<br>
+
+
+Nova maneira faz de Cristandade:<br>
+
+
+Para os de Cristo tem a espada nua,<br>
+
+
+N&atilde;o por tomar a terra que era sua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+Guarda-lhe por entanto um falso Rei<br>
+
+
+A cidade Hieros&oacute;lima terrestre,<br>
+
+
+Enquanto ele n&atilde;o guarda a santa lei<br>
+
+
+Da cidade Hieros&oacute;lima celeste.<br>
+
+
+Pois de ti, Galo indigno, que direi?<br>
+
+
+Que o nome Cristian&iacute;ssimo quiseste,<br>
+
+
+N&atilde;o para defend&ecirc;-lo, nem guard&aacute;-lo,<br>
+
+
+Mas para ser contra ele, e derrub&aacute;-lo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+Achas que tens direito em senhorios<br>
+
+
+De Crist&atilde;os, sendo o teu t&atilde;o largo e tanto,<br>
+
+
+E n&atilde;o contra o Cin&iacute;fio e Nilo, rios<br>
+
+
+Inimigos do antigo nome santo?<br>
+
+
+Ali se h&atilde;o de provar da espada os fios<br>
+
+
+Em quem quer reprovar da Igreja o canto.<br>
+
+
+De Carlos, de Lu&iacute;s, o nome e a terra<br>
+
+
+Herdaste, e as causas n&atilde;o da justa guerra?<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+Pois que direi daqueles que em del&iacute;cias,<br>
+
+
+Que o vil &oacute;cio no mundo traz consigo,<br>
+
+
+Gastam as vidas, logram as div&iacute;cias,<br>
+
+
+Esquecidos de seu valor antigo?<br>
+
+
+Nascem da tirania inimic&iacute;cias,<br>
+
+
+Que o povo forte tem de si inimigo:<br>
+
+
+Contigo, It&aacute;lia, falo, j&aacute; submersa<br>
+
+
+Em V&iacute;cios mil, e de ti mesma adversa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+&Oacute; m&iacute;seros Crist&atilde;os, pela ventura,<br>
+
+
+Sois os dentes de Cadmo desparzidos,<br>
+
+
+Que uns aos outros se d&atilde;o a morte dura,<br>
+
+
+Sendo todos de um ventre produzidos?<br>
+
+
+N&atilde;o vedes a divina sepultura<br>
+
+
+Possu&iacute;da de c&atilde;es, que sempre unidos<br>
+
+
+Vos v&ecirc;m tomar a vossa antiga terra,<br>
+
+
+Fazendo-se famosos pela guerra?<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+Vedes que t&ecirc;m por uso e por decreto,<br>
+
+
+Do qual s&atilde;o t&atilde;o inteiros observantes,<br>
+
+
+Ajuntarem o ex&eacute;rcito inquieto<br>
+
+
+Contra os povos que s&atilde;o de Cristo amantes;<br>
+
+
+Entre v&oacute;s nunca deixa a fera Aleto<br>
+
+
+De semear ciz&acirc;nias repugnantes:<br>
+
+
+Olhai se estais seguros de perigos,<br>
+
+
+Que eles e v&oacute;s sois vossos inimigos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Se cobi&ccedil;a de grandes senhorios<br>
+
+
+Vos faz ir conquistar terras alheias,<br>
+
+
+N&atilde;o vedes que Pactolo e Hermo, rios,<br>
+
+
+Ambos volvem aur&iacute;feras areias?<br>
+
+
+Em L&iacute;dia, Ass&iacute;ria, lavram de ouro os fios;<br>
+
+
+&Aacute;frica esconde em si luzentes veias;<br>
+
+
+Mova-vos j&aacute; sequer riqueza tanta,<br>
+
+
+Pois mover-vos n&atilde;o pode a Casa Santa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+Aquelas inven&ccedil;&otilde;es feras e novas<br>
+
+
+De instrumentos mortais da artilharia,<br>
+
+
+J&aacute; devem de fazer as duras provas<br>
+
+
+Nos muros de Biz&acirc;ncio e de Turquia.<br>
+
+
+Fazei que torne l&aacute; &agrave;s silvestres covas<br>
+
+
+Dos C&aacute;spios montes, e da C&iacute;tia fria<br>
+
+
+A Turca gera&ccedil;&atilde;o, que multiplica<br>
+
+
+Na pol&iacute;cia da vossa Europa rica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Gregos, Traces, Arm&eacute;nios, Georgianos,<br>
+
+
+Bradando-vos est&atilde;o que o povo bruto<br>
+
+
+Lhe obriga os caros filhos aos profanos<br>
+
+
+Preceptos do Alcor&atilde;o (duro tributo!)<br>
+
+
+Em castigar os feitos inumanos<br>
+
+
+Vos gloriai de peito forte e astuto,<br>
+
+
+E n&atilde;o queirais louvores arrogantes<br>
+
+
+De serdes contra os vossos muito possantes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Mas entanto que cegos o sedentos<br>
+
+
+Andais de vosso sangue, &oacute; gente insana!<br>
+
+
+N&atilde;o faltar&atilde;o Crist&atilde;os atrevimentos<br>
+
+
+Nesta pequena casa Lusitana:<br>
+
+
+De &Aacute;frica tem mar&iacute;timos assentos,<br>
+
+
+&Eacute; na &Aacute;sia mais que todas soberana,<br>
+
+
+Na quarta parte nova os campos ara,<br>
+
+
+E se mais mundo houvera, l&aacute; chegara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+E vejamos entanto que acontece<br>
+
+
+Aqueles t&atilde;o famosos navegantes,<br>
+
+
+Depois que a branda V&eacute;nus enfraquece<br>
+
+
+O furor v&atilde;o dos ventos repugnantes:<br>
+
+
+Depois que a larga terra lhe aparece,<br>
+
+
+Fim de suas porfias t&atilde;o constantes,<br>
+
+
+E dar novo costume e novo Rei.<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+Tanto que &agrave; nova terra se chegaram,<br>
+
+
+Leves embarca&ccedil;&otilde;es de pescadores<br>
+
+
+Acharam, que o caminho lhe mostraram<br>
+
+
+De Calecu, onde eram moradores.<br>
+
+
+Para l&aacute; logo as proas se inclinaram,<br>
+
+
+Porque esta era a cidade das melhores<br>
+
+
+Do Malabar melhor, onde vivia<br>
+
+
+O Rei que a terra toda possu&iacute;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+Al&eacute;m do Indo jaz, e aqu&eacute;m do Gange,<br>
+
+
+Um terreno muito grande e assaz famoso,<br>
+
+
+Que pela parte Austral o mar abrange,<br>
+
+
+E para o Norte o Em&oacute;dio cavernoso.<br>
+
+
+Jugo de Reis diversos o constrange<br>
+
+
+A v&aacute;rias leis: alguns o vicioso<br>
+
+
+Mahoma, alguns os &iacute;dolos adoram,<br>
+
+
+Alguns os animais, que entre eles morri.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+L&aacute; bem no grande monte, que cortando<br>
+
+
+T&atilde;o larga terra, toda &Aacute;sia discorre,<br>
+
+
+Que nomes t&atilde;o diversos vai tomando,<br>
+
+
+Segundo as regi&otilde;es por onde corre,<br>
+
+
+As fontes saem, donde v&ecirc;m manando<br>
+
+
+Os rios, cuja gr&atilde; corrente morre<br>
+
+
+No mar &Iacute;ndico, e cercam todo o peso<br>
+
+
+Do terreno, fazendo-o Quersoneso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+Entro um e outro rio, em grande espa&ccedil;o,<br>
+
+
+Sai da larga terra uma loira ponta<br>
+
+
+Quase piramidal, que no rega&ccedil;o<br>
+
+
+Do mar com Ceil&atilde;o &iacute;nsula confronta;<br>
+
+
+E junto donde nasce o largo bra&ccedil;o<br>
+
+
+Gang&eacute;tico, o rumor antigo conta<br>
+
+
+Que os vizinhos, da terra moradores,<br>
+
+
+Do cheiro se mant&ecirc;m das finas flores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+Mas agora de nomes e de usan&ccedil;a<br>
+
+
+Novos e v&aacute;rios s&atilde;o os habitantes:<br>
+
+
+Os Delis, os Patanes, que em possan&ccedil;a<br>
+
+
+De terra e gente, s&atilde;o mais abundantes;<br>
+
+
+Decanis, Ori&aacute;s, que a esperan&ccedil;a<br>
+
+
+T&ecirc;m de sua salva&ccedil;&atilde;o nas ressonantes<br>
+
+
+&Aacute;guas do Gange, e a terra de Bengala<br>
+
+
+F&eacute;rtil de sorte que outra n&atilde;o lhe iguala.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+O Reino de Cambaia belicoso<br>
+
+
+(Dizem que foi de Poro, Rei potente)<br>
+
+
+O Reino de Narsinga, poderoso<br>
+
+
+Mais de ouro e pedras que de forte gente.<br>
+
+
+Aqui se enxerga l&aacute; do mar undoso<br>
+
+
+Um monte alto, que corre longamente,<br>
+
+
+Servindo ao Malabar de forte muro,<br>
+
+
+Com que do Canar&aacute; vive seguro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+Da terra os naturais lhe chamam Gate,<br>
+
+
+Do p&eacute; do qual pequena quantidade<br>
+
+
+Se estende uma fralda estreita, que combate<br>
+
+
+Do mar a natural ferocidade.<br>
+
+
+Aqui de outras cidades, sem debate,<br>
+
+
+Calecu tem a ilustre dignidade<br>
+
+
+De cabe&ccedil;a de Imp&eacute;rio rica e bela:<br>
+
+
+Samorim se intitula o senhor dela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+Chegada a frota ao rico senhorio,<br>
+
+
+Um Portugu&ecirc;s mandado logo parte<br>
+
+
+&nbsp;A fazer sabedor o Rei gentio<br>
+
+
+Da vinda sua a t&atilde;o remota parte.<br>
+
+
+Entrando o mensageiro pelo rio,<br>
+
+
+Que ali nas ondas entra, a n&atilde;o vista arte,<br>
+
+
+A cor, o gesto estranho, o trajo novo<br>
+
+
+Fez concorrer a v&ecirc;-lo todo o povo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+Entre a gente que a v&ecirc;-lo concorria,<br>
+
+
+Se chega um Mahometa, que nascido<br>
+
+
+Fora na regi&atilde;o da Berberia,<br>
+
+
+L&aacute; onde fora Anteu obedecido:<br>
+
+
+Ou pela vizinhan&ccedil;a j&aacute; teria<br>
+
+
+O Reino Lusitano conhecido,<br>
+
+
+Ou foi j&aacute; assinalado de seu ferro:<br>
+
+
+Fortuna o trouxe a t&atilde;o loiro desterro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+Em vendo o mensageiro, com jocundo<br>
+
+
+Rosto, como quem sabe a l&iacute;ngua Hispana,<br>
+
+
+Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,<br>
+
+
+T&atilde;o longe da tua p&aacute;tria Lusitana?"<br>
+
+
+&mdash;"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,<br>
+
+
+Por onde nunca veio gente humana,<br>
+
+
+Vimos buscar do Indo a gr&atilde;o corrente,<br>
+
+
+Por onde a Lei divina se acrescente."<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+Espantado ficou da gr&atilde; viagem<br>
+
+
+O Mouro, que Mon&ccedil;aide se chamava,<br>
+
+
+Ouvindo as opress&otilde;es que na passagem<br>
+
+
+Do mar, o Lusitano lhe contava:<br>
+
+
+Mas vendo enfim que a f or&ccedil;a da mensagem<br>
+
+
+S&oacute; para o Rei da terra relevava,<br>
+
+
+Lhe diz que estava f ora da cidade,<br>
+
+
+Mas de caminho pouca quantidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+E que, entanto que a nova lhe chegasse<br>
+
+
+De sua estranha vinda, se queria,<br>
+
+
+Na sua pobre casa repousasse,<br>
+
+
+E do manjar da terra comeria,<br>
+
+
+E depois que se um pouco recreasse,<br>
+
+
+Com ele para a armada tornaria,<br>
+
+
+Que alegria n&atilde;o pode ser tamanha,<br>
+
+
+Que achar gente vizinha em terra estranha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+O Portugu&ecirc;s aceita de vontade<br>
+
+
+O que o ledo Mon&ccedil;aide lhe oferece;<br>
+
+
+Como se longa fora j&aacute; a amizade,<br>
+
+
+Com ele come, e bebe, e lhe obedece.<br>
+
+
+Ambos se tornam logo da cidade<br>
+
+
+Para a frota, que o Mouro bem conhece;<br>
+
+
+Sobem &agrave; capitania; e toda a gente<br>
+
+
+Mon&ccedil;aide recebeu benignamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+O Capit&atilde;o o abra&ccedil;a em cabo ledo,<br>
+
+
+Ouvindo clara a l&iacute;ngua de Castela;<br>
+
+
+Junto de si o assenta, e pronto e quedo,<br>
+
+
+Pela terra pergunta, e cousas dela.<br>
+
+
+Qual se ajuntava em R&oacute;dope o arvoredo,<br>
+
+
+S&oacute; por ouvir o amante da donzela<br>
+
+
+Eur&iacute;dice, tocando a lira de ouro,<br>
+
+
+Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+Ele come&ccedil;a: "&Oacute; gente, que a natura<br>
+
+
+Vizinha fez de meu paterno ninho,<br>
+
+
+Que destino t&atilde;o grande ou que ventura<br>
+
+
+Vos trouxe a cometerdes tal caminho?<br>
+
+
+N&atilde;o &eacute; sem causa, n&atilde;o, oculta e escura,<br>
+
+
+Vir do long&iacute;nquo Tejo e ignoto Minho,<br>
+
+
+Por mares nunca doutro lenho arados,<br>
+
+
+A Reinos t&atilde;o remotos e apartados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"Deus por certo vos traz, porque pretende<br>
+
+
+Algum servi&ccedil;o seu por v&oacute;s obrado;<br>
+
+
+Por isso s&oacute; vos guia, e vos defende<br>
+
+
+Dos inimigos, do mar, do vento irado.<br>
+
+
+Sabei que estais na &Iacute;ndia, onde se estende<br>
+
+
+Diverso povo, rico e prosperado<br>
+
+
+De ouro luzente e fina pedraria,<br>
+
+
+Cheiro suave, ardente especiaria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"Esta prov&iacute;ncia, cujo porto agora<br>
+
+
+Tomado tendes, Malabar se chama:<br>
+
+
+Do culto antigo os &iacute;dolos adora,<br>
+
+
+Que c&aacute; por estas partes se derrama:<br>
+
+
+De diversos Reis &eacute;, mas dum s&oacute;<br>
+
+
+Noutro tempo, segundo a antiga fama;<br>
+
+
+Saram&aacute; Perimal foi derradeiro<br>
+
+
+Rei, que este Reino teve unido e inteiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Por&eacute;m, como a esta terra ent&atilde;o viessem<br>
+
+
+De l&aacute; do seio Ar&aacute;bico outras gentes,<br>
+
+
+Que o culto Mahom&eacute;tico trouxessem,<br>
+
+
+No qual me institu&iacute;ram meus parentes,<br>
+
+
+Sucedeu que pregando convertessem<br>
+
+
+O Perimal: de s&aacute;bios e eloquentes,<br>
+
+
+Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,<br>
+
+
+Que pressup&ocirc;s de nela morrer santo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"Naus arma, e nelas mete curioso<br>
+
+
+Mercadoria, que ofere&ccedil;a rica,<br>
+
+
+Para ir nelas a ser religioso,<br>
+
+
+Onde o profeta jaz, que a Lei publica;<br>
+
+
+Antes que parta, o Reino poderoso<br>
+
+
+Com os seus reparte, porque n&atilde;o lhe fica<br>
+
+
+Herdeiro pr&oacute;prio, faz os mais aceitos<br>
+
+
+Ricos de pobres, livres de sujeitos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"A um Cochim, e a outro Cananor,<br>
+
+
+A qual Chal&eacute;, a qual a ilha da Pimenta,<br>
+
+
+A qual Coul&atilde;o, a qual d&aacute; Cranganor,<br>
+
+
+E os mais, a quem o mais serve e contenta,<br>
+
+
+Um s&oacute; mo&ccedil;o, a quem tinha muito amor,<br>
+
+
+Depois que tudo deu, se lhe apresenta:<br>
+
+
+Para este Calecu somente fica,<br>
+
+
+Cidade j&aacute; por trato nobre e rica.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"Esta lhe d&aacute; com o t&iacute;tulo excelente<br>
+
+
+De Imperador, que sobre os outros mande.<br>
+
+
+Isto feito, se parte diligente<br>
+
+
+Para onde em santa vida acabe, e ande.<br>
+
+
+E daqui fica o nome de potente<br>
+
+
+Samori, mais que todos digno e grande,<br>
+
+
+Ao mo&ccedil;o e descendentes; donde vem<br>
+
+
+Este, que agora o Imp&eacute;rio manda e tem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"A Lei da gente toda, rica e pobre,<br>
+
+
+De f&aacute;bulas composta se imagina:<br>
+
+
+Andam nus, e somente um pano cobre<br>
+
+
+As partes, que a cobrir natura ensina.<br>
+
+
+Dois modos h&aacute; de gente, porque a nobre<br>
+
+
+Naires chamados s&atilde;o, e a menos digna<br>
+
+
+Pole&aacute;s tem por nome, a quem obriga<br>
+
+
+A Lei n&atilde;o misturar a casta antiga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"Porque os que usaram sempre um mesmo of&iacute;cio,<br>
+
+
+De outro n&atilde;o podem receber consorte,<br>
+
+
+Nem os filhos ter&atilde;o outro exerc&iacute;cio,<br>
+
+
+Sen&atilde;o o de seus passados, at&eacute; morte.<br>
+
+
+Para os Naires &eacute; certo grande v&iacute;cio<br>
+
+
+Destes serem tocados; de tal sorte,<br>
+
+
+Que quando algum se toca, por ventura,<br>
+
+
+Com cerim&oacute;nias mil se alimpa e apura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Desta sorte o Judaico povo antigo<br>
+
+
+N&atilde;o tocava na gente de Sam&aacute;ria.<br>
+
+
+Mais estranhezas ainda das que digo<br>
+
+
+Nesta terra vereis de usan&ccedil;a v&aacute;ria.<br>
+
+
+Os Naires s&oacute;s s&atilde;o dados ao perigo<br>
+
+
+Das armas; s&oacute;s defendem da contr&aacute;ria<br>
+
+
+Banda o seu Rei, trazendo sempre usada<br>
+
+
+Na esquerda a adarga e na direita a espada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Br&acirc;menes s&atilde;o os seus religiosos,<br>
+
+
+Nome antigo e de grande proemin&ecirc;ncia:<br>
+
+
+Observam os preceitos t&atilde;o famosos<br>
+
+
+Dum que primeiro p&ocirc;s nome &agrave; ci&ecirc;ncia:<br>
+
+
+N&atilde;o matam coisa viva, e, temerosos,<br>
+
+
+Das carnes t&ecirc;m grand&iacute;ssima abstin&ecirc;ncia;<br>
+
+
+Somente no ven&eacute;reo ajuntamento<br>
+
+
+T&ecirc;m mais licen&ccedil;a e menos regimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Gerais s&atilde;o as mulheres, mas somente<br>
+
+
+Para os da gera&ccedil;&atilde;o de seus maridos:<br>
+
+
+Ditosa condi&ccedil;&atilde;o, ditosa gente,<br>
+
+
+Que n&atilde;o s&atilde;o de ci&uacute;mes ofendidos!<br>
+
+
+Estes e outros costumes variamente<br>
+
+
+S&atilde;o pelos Malabares admitidos.<br>
+
+
+A terra &eacute; grossa em trato, em tudo aquilo<br>
+
+
+Que as ondas podem dar da China ao Nilo."<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+Assim contava o Mouro; mas vagando<br>
+
+
+Andava a fama j&aacute; pela cidade<br>
+
+
+Da vinda desta gente estranha, quando<br>
+
+
+O Rei saber mandava da verdade.<br>
+
+
+J&aacute; vinham pelas ruas caminhando,<br>
+
+
+Rodeados de todo sexo e idade,<br>
+
+
+Os principais, que o Rei buscar mandara<br>
+
+
+O Capit&atilde;o da armada, que chegara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+Mas ele, que do Rei j&aacute; tem licen&ccedil;a<br>
+
+
+Para desembarcar, acompanhado<br>
+
+
+Dos nobres Portugueses, sem deten&ccedil;a<br>
+
+
+Parte, de ricos panos adornado.<br>
+
+
+Das cores a formosa diferen&ccedil;a<br>
+
+
+A vista alegra ao povo alvoro&ccedil;ado.<br>
+
+
+O remo compassado fere frio<br>
+
+
+Agora o mar, depois o fresco rio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+Na praia um regedor do Reino estava,<br>
+
+
+Que na sua l&iacute;ngua Catual se chama,<br>
+
+
+Rodeado de Naires, que esperava<br>
+
+
+Com desusada festa o nobre Gama.<br>
+
+
+J&aacute; na terra, nos bra&ccedil;os o levava,<br>
+
+
+E num port&aacute;til leito uma rica cama<br>
+
+
+Lhe oferece, em que v&aacute;, costume usado,<br>
+
+
+Que nos ombros dos homens &eacute; levado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+Desta arte o Malabar, destarte o Luso<br>
+
+
+Caminham, l&aacute; para onde o Rei o espera:<br>
+
+
+Os outros Portugueses v&atilde;o ao uso<br>
+
+
+Que infantaria segue, esquadra fera.<br>
+
+
+O povo que concorre vai confuso<br>
+
+
+De ver a gente estranha, e bem quisera<br>
+
+
+Perguntar: mas no tempo j&aacute; passado<br>
+
+
+Na torre de Babel lhe foi vedado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+O Gama e o Catual iam falando<br>
+
+
+Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;<br>
+
+
+Mon&ccedil;aide entre eles vai interpretando<br>
+
+
+As palavras que de ambos entendia.<br>
+
+
+Assim pela cidade caminhando,<br>
+
+
+Onde uma rica f&aacute;brica se erguia<br>
+
+
+De um sumptuoso templo, j&aacute; chegavam,<br>
+
+
+Pelas portas do qual juntos entravam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+Ali est&atilde;o das deidades as figuras<br>
+
+
+Esculpidas em pau e em pedra fria;<br>
+
+
+V&aacute;rios de gestos, v&aacute;rios de pinturas,<br>
+
+
+A segundo o Dem&oacute;nio lhe fingia:<br>
+
+
+V&ecirc;em-se as abomin&aacute;veis esculturas,<br>
+
+
+Qual a Quimera em membros se varia:<br>
+
+
+Os Crist&atilde;os olhos, a ver Deus usados<br>
+
+
+Em forma humana, est&atilde;o maravilhados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+Um na cabe&ccedil;a cornos esculpidos,<br>
+
+
+Qual J&uacute;piter Amon em L&iacute;bia estava;<br>
+
+
+Outro num corpo rostos tinha unidos,<br>
+
+
+Bem como o antigo Jano se pintava;<br>
+
+
+Outro com muitos bra&ccedil;os divididos<br>
+
+
+A Briareu parece que imitava;<br>
+
+
+Outro fronte canina tem de fora,<br>
+
+
+Qual An&uacute;bis Menf&iacute;tico se adora.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+Aqui feita do b&aacute;rbaro gentio<br>
+
+
+A supersticiosa adora&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+Direitos v&atilde;o, sem outro algum desvio,<br>
+
+
+Para onde estava o Rei do povo v&atilde;o.<br>
+
+
+Engrossando-se vai da gente o fio,<br>
+
+
+Com os que v&ecirc;m ver o estranho Capit&atilde;o;<br>
+
+
+Est&atilde;o pelos telhados e janelas<br>
+
+
+Velhos e mo&ccedil;os, donas e donzelas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+J&aacute; chegam perto, e n&atilde;o com passos lentos,<br>
+
+
+Dos jardins odor&iacute;feros formosos,<br>
+
+
+Que em si escondem os r&eacute;gios aposentos,<br>
+
+
+Altos de torres n&atilde;o, mas sumptuosos.<br>
+
+
+Edificam-se os nobres seus assentos<br>
+
+
+Por entre os arvoredos deleitosos:<br>
+
+
+Assim vivem os Reis daquela gente,<br>
+
+
+No campo e na cidade juntamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+Pelos portais da cerca a sutileza<br>
+
+
+Se enxerga da Ded&aacute;lea facultade,<br>
+
+
+Em figuras mostrando, por nobreza,<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia a mais remota antiguidade.<br>
+
+
+Afiguradas v&atilde;o com tal viveza<br>
+
+
+As hist&oacute;rias daquela antiga idade,<br>
+
+
+Que quem delas tiver not&iacute;cia inteira,<br>
+
+
+Pela sombra conhece a verdadeira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+Estava um grande ex&eacute;rcito que pisa<br>
+
+
+A terra Oriental, que o Idaspe lava;<br>
+
+
+Rege-o um capit&atilde;o de fronte lisa,<br>
+
+
+Que com frondentes tirsos pelejava;<br>
+
+
+Por ele edificada estiva Nisa<br>
+
+
+Nas ribeiras do rio, que manava,<br>
+
+
+T&atilde;o pr&oacute;prio, que se ali estiver Semele,<br>
+
+
+Dir&aacute;, por certo, que &eacute; seu filho aquele.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+Mais avante bebendo seca o rio<br>
+
+
+Mui grande multid&atilde;o da Ass&iacute;ria gente,<br>
+
+
+Sujeita a feminino senhorio<br>
+
+
+De uma t&atilde;o bela como incontinente.<br>
+
+
+Ali tem junto ao lado nunca frio,<br>
+
+
+Esculpido o feroz ginete ardente,<br>
+
+
+Com quem teria o filho compet&ecirc;ncia:<br>
+
+
+Amor nefando, bruta incontin&ecirc;ncia!<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+Daqui mais apartadas tremulavam<br>
+
+
+As bandeiras de Gr&eacute;cia gloriosas,<br>
+
+
+Terceira Monarquia, e sojugavam<br>
+
+
+At&eacute; as &aacute;guas Gang&eacute;ticas undosas.<br>
+
+
+Dum capit&atilde;o mancebo se guiavam,<br>
+
+
+De palmas rodeado valerosas,<br>
+
+
+Que j&aacute;, n&atilde;o de Filipo, mas sem falta<br>
+
+
+De prog&eacute;nie de J&uacute;piter se exalta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+Os Portugueses vendo estas mem&oacute;rias,<br>
+
+
+Dizia o Catual ao Capit&atilde;o:<br>
+
+
+"Tempo cedo vir&aacute; que outras vit&oacute;rias<br>
+
+
+Estas, que agora olhais, abater&atilde;o;<br>
+
+
+Aqui se escrever&atilde;o novas hist&oacute;rias<br>
+
+
+Por gentes estrangeiras que vir&atilde;o;<br>
+
+
+Que os nossos s&aacute;bios magos o alcan&ccedil;aram<br>
+
+
+Quando o tempo futuro especularam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+"E diz-lhe mais a m&aacute;gica ci&ecirc;ncia<br>
+
+
+Que, para se evitar for&ccedil;a tamanha,<br>
+
+
+N&atilde;o valer&aacute; dos homens resist&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Que contra o C&eacute;u n&atilde;o val da gente manha;<br>
+
+
+Mas tamb&eacute;m diz que a b&eacute;lica excel&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Nas armas e na paz, da gente estranha<br>
+
+
+Ser&aacute; tal, que ser&aacute; no mundo ouvido<br>
+
+
+O vencedor, por gl&oacute;ria do vencido,"<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+Assim falando entravam j&aacute; na sala,<br>
+
+
+Onde aquele potente Imperador<br>
+
+
+Numa camilha jaz, que n&atilde;o se iguala<br>
+
+
+De outra alguma no pre&ccedil;o e no lavor.<br>
+
+
+No recostado gesto se assinala<br>
+
+
+Um venerando e pr&oacute;spero senhor;<br>
+
+
+Um pano de ouro cinge, e na cabe&ccedil;a<br>
+
+
+De preciosas gemas se adere&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+Bem junto dele um velho reverente,<br>
+
+
+Com os giolhos no ch&atilde;o, de quando em quando<br>
+
+
+Lhe dava a verde folha da erva ardente,<br>
+
+
+Que a seu costume estava ruminando.<br>
+
+
+Um Br&acirc;mene, pessoa proeminente,<br>
+
+
+Para o Gama vem com passo brando,<br>
+
+
+Para que ao grande Pr&iacute;ncipe o apresente,<br>
+
+
+Que diante lhe acena que se assente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+Sentado o Gama junto ao rico leito,<br>
+
+
+Os seus mais afastados, pronto em vista<br>
+
+
+Estava o Samori no trajo e jeito<br>
+
+
+Da gente, nunca de antes dele vista.<br>
+
+
+Lan&ccedil;ando a grave voz do s&aacute;bio peito,<br>
+
+
+Que grande autoridade logo aquista<br>
+
+
+Na opini&atilde;o do Rei e do povo todo,<br>
+
+
+O Capit&atilde;o lhe fala deste modo:<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"Um grande Rei, de l&aacute; das partes Onde<br>
+
+
+O c&eacute;u vol&uacute;vel, com perp&eacute;tua roda,<br>
+
+
+Da terra a luz solar com a terra esconde,<br>
+
+
+Tingindo a que deixou de escura noda,<br>
+
+
+Ouvindo do rumor que l&aacute; responde<br>
+
+
+O eco, como em ti da &Iacute;ndia toda<br>
+
+
+O principado est&aacute;, e a majestade,<br>
+
+
+V&iacute;nculo quer contigo de amizade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"E por longos rodeios a ti manda,<br>
+
+
+Por te fazer saber que tudo aquilo<br>
+
+
+Que sobre o mar, que sobre as terras anda<br>
+
+
+De riquezas, de l&aacute; do Tejo ao Nilo,<br>
+
+
+E desde a fria plaga de Gelanda<br>
+
+
+At&eacute; bem donde o Sol n&atilde;o muda o estilo<br>
+
+
+Nos dias, sobre a gente de Eti&oacute;pia,<br>
+
+
+Tudo tem no seu Reino em grande c&oacute;pia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"E se queres com pactos e alian&ccedil;as<br>
+
+
+De paz e de amizade sacra e nua<br>
+
+
+Com&eacute;rcio consentir das abastan&ccedil;as<br>
+
+
+Das fazendas da terra sua e tua,<br>
+
+
+Por que cres&ccedil;am as rendas e abastan&ccedil;as,<br>
+
+
+Por quem a gente mais trabalha e sua,<br>
+
+
+De vossos Reinos, ser&aacute; certamente<br>
+
+
+De ti proveito, o dele gl&oacute;ria ingente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"E sendo assim, que o n&oacute; desta amizade<br>
+
+
+Entre v&oacute;s firmemente permane&ccedil;a,<br>
+
+
+Estar&aacute; pronto a toda adversidade,<br>
+
+
+Que por guerra a teu Reino se ofere&ccedil;a,<br>
+
+
+Com gente, armas e naus, de qualidade<br>
+
+
+Que por irm&atilde;o te tenha e te conhe&ccedil;a;<br>
+
+
+E da vontade em ti sobre isto posta<br>
+
+
+Me d&ecirc;s a mim cert&iacute;ssima resposta."<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+Tal embaixada dava o Capit&atilde;o,<br>
+
+
+A quem o Rei gentio respondia<br>
+
+
+Que, em ver embaixadores de na&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+T&atilde;o remota, gr&atilde; gl&oacute;ria recebia;<br>
+
+
+Mas neste caso a &uacute;ltima ten&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Com os de seu conselho tomaria,<br>
+
+
+Informando-se certo de quem era<br>
+
+
+O Rei, e a gente, e terra que dissera..<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+E que entanto podia do trabalho<br>
+
+
+Passado ir repousar, e em tempo breve<br>
+
+
+Daria a seu despacho um justo talho,<br>
+
+
+Com que a seu Rei resposta alegre leve.<br>
+
+
+J&aacute; nisto punha a noite o usado atalho<br>
+
+
+As humanas canseiras, por que ceve<br>
+
+
+De doce sono os membros trabalhados,<br>
+
+
+Os olhos ocupando ao &oacute;cio dados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+Agasalhados foram juntamente<br>
+
+
+O Gama e Portugueses no aposento<br>
+
+
+Do nobre Regedor da &Iacute;ndica gente,<br>
+
+
+Com festas e geral contentamento.<br>
+
+
+O Catual, no cargo diligente<br>
+
+
+De seu Rei, tinha j&aacute; por regimento<br>
+
+
+Saber da gente estranha donde vinha,<br>
+
+
+Que costumes, que lei, que terra tinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+Tanto que os &iacute;gneos carros do formoso<br>
+
+
+Mancebo D&eacute;lio viu, que a luz renova,<br>
+
+
+Manda chamar Mon&ccedil;aide, desejoso<br>
+
+
+De poder-se informar da gente nova.<br>
+
+
+J&aacute; lhe pergunta pronto e curioso,<br>
+
+
+Se tem not&iacute;cia inteira e certa prova<br>
+
+
+Dos estranhos, quem s&atilde;o; que ouvido tinha<br>
+
+
+Que &eacute; gente de sua p&aacute;tria muito vizinha;<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+Que particularmente ali lhe desse<br>
+
+
+Informa&ccedil;&atilde;o mui larga, pois faria<br>
+
+
+Nisso servi&ccedil;o ao Rei, por que soubesse<br>
+
+
+O que neste neg&oacute;cio se faria.<br>
+
+
+Mon&ccedil;aide torna:&mdash;"Posto que eu quisesse<br>
+
+
+Dizer-te disto mais, n&atilde;o saberia;<br>
+
+
+Somente sei que &eacute; gente l&aacute; de Espanha,<br>
+
+
+Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"T&ecirc;m a lei dum Profeta, que gerado<br>
+
+
+Foi sem fazer na carne detrimento<br>
+
+
+Da m&atilde;e, tal que por bafo est&aacute; aprovado<br>
+
+
+Do Deus, que tem do mundo o regimento,<br>
+
+
+O que entre meus antigos &eacute; vulgado<br>
+
+
+Deles, &eacute; que o valor sanguinolento<br>
+
+
+Das armas no seu bra&ccedil;o resplandece,<br>
+
+
+O que em nossos passados se parece.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Porque eles, com virtude sobre-humana,<br>
+
+
+Os deitaram dos campos abundosos<br>
+
+
+Do rico Tejo e fresco Goadiana,<br>
+
+
+Com feitos memor&aacute;veis e famosos:<br>
+
+
+E n&atilde;o contentes ainda, e na Africana<br>
+
+
+Parte, cortando os mares procelosos,<br>
+
+
+Nos n&atilde;o querem deixar viver seguros,<br>
+
+
+Tomando-nos cidades e altos muros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"N&atilde;o menos t&ecirc;m mostrado esfor&ccedil;o e manha<br>
+
+
+Em quaisquer outras guerras que aconte&ccedil;as,<br>
+
+
+Ou das gentes bel&iacute;geras de Espanha,<br>
+
+
+Ou l&aacute; dalguns que do P&iacute;rene des&ccedil;am.<br>
+
+
+Assim que nunca enfim com lan&ccedil;a estranha<br>
+
+
+Se tem, que por vencidos se conhe&ccedil;am,<br>
+
+
+Nem se sabe ainda, n&atilde;o, te afirmo e asselo,<br>
+
+
+Para estes Anibais nenhum Marcelo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"E se esta informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o for inteira<br>
+
+
+Tanto quanto conv&eacute;m, deles pretende<br>
+
+
+Informar-te, que &eacute; gente verdadeira,<br>
+
+
+A quem mais falsidade enoja e ofende:<br>
+
+
+Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira<br>
+
+
+Do fundido metal, que tudo rende,<br>
+
+
+E folgar&aacute;s de veres a pol&iacute;cia<br>
+
+
+Portuguesa na paz e na mil&iacute;cia."<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+J&aacute; com desejos o Idolatra ardia<br>
+
+
+De ver isto, que o Mouro lhe contava.<br>
+
+
+Manda esquipar bat&eacute;is que ir ver queria<br>
+
+
+Os lenhos em que o Gama navegava.<br>
+
+
+Ambos partem da praia, a quem seguia<br>
+
+
+A Naira gera&ccedil;&atilde;o, que o mar coalhava.<br>
+
+
+A capitania sobem forte e bela,<br>
+
+
+Onde Paulo os recebe a bordo dela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+Purp&uacute;reos s&atilde;o os toldos, e as bandeiras<br>
+
+
+Do rico fio s&atilde;o que o bicho gera;<br>
+
+
+Nelas est&atilde;o pintadas as guerreiras<br>
+
+
+Obras, que o forte bra&ccedil;o j&aacute; fizera:<br>
+
+
+Batalhas tem campais, aventureiras,<br>
+
+
+Desafios cru&eacute;is, pintura fera,<br>
+
+
+Que, tanto que ao Gentio se apresenta,<br>
+
+
+A tento nela os olhos apascenta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+Pelo que v&ecirc; pergunta; mas o Gama<br>
+
+
+Lhe pedia primeiro que se assente,<br>
+
+
+E que aquele deleite, que tanto ama<br>
+
+
+A seita Epicureia, experimente.<br>
+
+
+Dos espumantes vasos se derrama<br>
+
+
+O licor que No&eacute; mostrara &agrave; gente:<br>
+
+
+Mas comer o Gentio n&atilde;o pretende,<br>
+
+
+Que a seita que seguia lho defende.<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+A trombeta que, em paz, no pensamento<br>
+
+
+Imagem faz de guerra, rompe os ares;<br>
+
+
+Com o fogo o diab&oacute;lico instrumento<br>
+
+
+Se faz ouvir no fundo l&aacute; dos mares.<br>
+
+
+Tudo o Gentio nota; mas o intento<br>
+
+
+Mostrava sempre ter nos singulares<br>
+
+
+Feitos dos homens, que em retrato breve<br>
+
+
+A muda poesia ali descreve<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+Al&ccedil;a-se em p&eacute;, com ele o Gama junto,<br>
+
+
+Coelho de outra parti, e o Mauritano;<br>
+
+
+Os olhos p&otilde;e no b&eacute;lico transunto<br>
+
+
+De um velho branco, aspecto venerando<br>
+
+
+Cujo nome n&atilde;o pode ser defunto<br>
+
+
+Enquanto houver no mundo trato humano:<br>
+
+
+No trajo a Grega usan&ccedil;a est&aacute; perfeita,<br>
+
+
+Um ramo por ins&iacute;gnia na direita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+Um ramo na m&atilde;o tinha... Mas, &oacute; cego!<br>
+
+
+Eu, que cometo insano e temer&aacute;rio,<br>
+
+
+Sem v&oacute;s, Ninfas do Tejo e do Mondego,<br>
+
+
+Por caminho t&atilde;o &aacute;rduo, longo e v&aacute;rio!<br>
+
+
+Vosso favor invoco, que navego<br>
+
+
+Por alto mar, com vento t&atilde;o contr&aacute;rio,<br>
+
+
+Que, se n&atilde;o me ajudais, hei grande medo<br>
+
+
+Que o meu fraco batel se alague cedo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+Olhai que h&aacute; tanto tempo que, cantando<br>
+
+
+O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,<br>
+
+
+A fortuna mo traz peregrinando,<br>
+
+
+Novos trabalhos vendo, e novos danos:<br>
+
+
+Agora o mar, agora experimentando<br>
+
+
+Os perigos Mav&oacute;rcios inumanos,<br>
+
+
+Qual Canace, que &agrave; morte se condena,<br>
+
+
+Numa m&atilde;o sempre a espada, e noutra a pena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+Agora, com pobreza avorrecida,<br>
+
+
+Por hosp&iacute;cios alheios degradado;<br>
+
+
+Agora, da esperan&ccedil;a j&aacute; adquirida,<br>
+
+
+De novo, mais que nunca, derribado;<br>
+
+
+Agora &agrave;s costas escapando a vida,<br>
+
+
+Que dum fio pendia t&atilde;o delgado<br>
+
+
+Que n&atilde;o menos milagre foi salvar-se<br>
+
+
+Que para o Rei Judaico acrescentar-se.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+E ainda, Ninfas minhas, n&atilde;o bastava<br>
+
+
+Que tamanhas mis&eacute;rias me cercassem,<br>
+
+
+Sen&atilde;o que aqueles, que eu cantando andava<br>
+
+
+Tal pr&eacute;mio de meus versos me tornassem:<br>
+
+
+A troco dos descansos que esperava,<br>
+
+
+Das capelas de louro que me honrassem,<br>
+
+
+Trabalhos nunca usados me inventaram,<br>
+
+
+Com que em t&atilde;o duro estado me deitaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+Vede, Ninfas, que engenhos de senhores<br>
+
+
+O vosso Tejo cria valorosos,<br>
+
+
+Que assim sabem prezar com tais favores<br>
+
+
+A quem os faz, cantando, gloriosos!<br>
+
+
+Que exemplos a futuros escritores,<br>
+
+
+Para espertar engenhos curiosos,<br>
+
+
+Para porem as coisas em mem&oacute;ria,<br>
+
+
+Que merecerem ter eterna gl&oacute;ria!<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+Pois logo em tantos males &eacute; for&ccedil;ado,<br>
+
+
+Que s&oacute; vosso favor me n&atilde;o fale&ccedil;a,<br>
+
+
+Principalmente aqui, que sou chegado<br>
+
+
+Onde feitos diversos engrande&ccedil;a:<br>
+
+
+Dai-mo v&oacute;s s&oacute;s, que eu tenho j&aacute; jurado<br>
+
+
+Que n&atilde;o o empregue em quem o n&atilde;o
+mere&ccedil;a,<br>
+
+
+Nem por lisonja louve algum subido,<br>
+
+
+Sob pena de n&atilde;o ser agradecido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+Nem creiais, Ninfas, n&atilde;o, que a fama desse<br>
+
+
+A quem ao bem comum e do seu Rei<br>
+
+
+Antepuser seu pr&oacute;prio interesse,<br>
+
+
+Inimigo da divina e humana Lei.<br>
+
+
+Nenhum ambicioso, que quisesse<br>
+
+
+Subir a grandes cargos, cantarei,<br>
+
+
+S&oacute; por poder com torpes exerc&iacute;cios<br>
+
+
+Usar mais largamente de seus v&iacute;cios;<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+Nenhum que use de seu poder bastante,<br>
+
+
+Para servir a seu desejo feio,<br>
+
+
+E que, por comprazer ao vulgo errante,<br>
+
+
+Se muda em mais figuras que Proteio.<br>
+
+
+Nem, Camenas, tamb&eacute;m cuideis que canto<br>
+
+
+Quem, com h&aacute;bito honesto e grave, veio,<br>
+
+
+Por contentar ao Rei no of&iacute;cio novo,<br>
+
+
+A despir e roubar o pobre povo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+Nem quem acha que &eacute; justo e que &eacute; direito<br>
+
+
+Guardar-se a lei do Rei severamente,<br>
+
+
+E n&atilde;o acha que &eacute; justo e bom respeito,<br>
+
+
+Que se pague o suor da servil gente;<br>
+
+
+Nem quem sempre, com pouco experto peito,<br>
+
+
+Raz&otilde;es aprende, e cuida que &eacute; prudente,<br>
+
+
+Para taxar, com m&atilde;o rapace e escassa,<br>
+
+
+Os trabalhos alheios, que n&atilde;o passa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+Aqueles s&oacute;s direi, que aventuraram<br>
+
+
+Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,<br>
+
+
+Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,<br>
+
+
+T&atilde;o bem de suas obras merecida.<br>
+
+
+Apolo, e as Musas que me acompanharam,<br>
+
+
+Me dobrar&atilde;o a f&uacute;ria concedida,<br>
+
+
+Enquanto eu tomo alento descansado,<br>
+
+
+Por tornar ao trabalho, mais folgado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Oitavo</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+Na primeira figura se detinha<br>
+
+
+O Catual que vira estar pintada,<br>
+
+
+Que por divisa um ramo na m&atilde;o tinha,<br>
+
+
+A barba branca, longa e penteada:<br>
+
+
+"Quem era, e por que causa lhe convinha<br>
+
+
+A divisa, que tem na m&atilde;o tomada?"<br>
+
+
+Paulo responde, cuja voz discreta<br>
+
+
+O Mauritano s&aacute;bio lhe interpreta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+"Estas figuras todas que aparecem,<br>
+
+
+Bravos em vista e feros nos aspectos,<br>
+
+
+Mais bravos e mais feros se conhecem,<br>
+
+
+Pela fama, nas obras e nos feitos:<br>
+
+
+Antigos s&atilde;o, mas ainda resplandecem<br>
+
+
+Colo nome, entre os engenhos mais perfeito<br>
+
+
+Este que v&ecirc;s &eacute; Luso, donde a fama<br>
+
+
+O nosso Reino Lusit&acirc;nia chama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+"Foi filho e companheiro do Tebano,<br>
+
+
+Que t&atilde;o diversas partes conquistou;<br>
+
+
+Parece vindo ter ao ninho Hispano<br>
+
+
+Seguindo as armas, que contino usou;<br>
+
+
+Do Douro o Guadiana o campo ufano,<br>
+
+
+J&aacute; dito El&iacute;sio, tanto o contentou,<br>
+
+
+Que ali quis dar aos j&aacute; cansados ossos<br>
+
+
+Eterna sepultura, e nome aos nossos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+"O ramo que lhe v&ecirc;s para divisa,<br>
+
+
+O verde tirso foi de Baco usado;<br>
+
+
+O qual &agrave; nossa idade amostra e avisa<br>
+
+
+Que foi seu companheiro e filho amido.<br>
+
+
+V&ecirc;s outro, que do Tejo a terra pisa,<br>
+
+
+Depois de ter t&atilde;o longo mar arado,<br>
+
+
+Onde muros perp&eacute;tuos edifica,<br>
+
+
+E templo a Palas, que em mem&oacute;ria fica?<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+"Ulisses &eacute; o que faz a santa casa<br>
+
+
+A Deusa, que lhe d&aacute; l&iacute;ngua facunda;<br>
+
+
+Que, se l&aacute; na &Aacute;sia Tr&oacute;ia insigne
+abrasa,<br>
+
+
+C&aacute; na Europa Lisboa ingente funda."<br>
+
+
+&mdash;"Quem ser&aacute; estoutro c&aacute;, que o campo
+arrasa<br>
+
+
+De mortos, com presen&ccedil;a furibunda?<br>
+
+
+Grandes batalhas tem desbaratadas,<br>
+
+
+Que as &aacute;guias nas bandeiras tem pintadas."<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+Assim o Gentio diz. Responde o Gama:<br>
+
+
+&mdash;"Este que v&ecirc;s, pastor j&aacute; foi de gado;<br>
+
+
+Viriato sabemos que se chama,<br>
+
+
+Destro na lan&ccedil;a mais que no cajado;<br>
+
+
+Injuriada tem de Roma a f ama,<br>
+
+
+Vencedor invenc&iacute;vel afamado;<br>
+
+
+N&atilde;o tem com ele, n&atilde;o, nem ter puderam<br>
+
+
+O primor que com Pirro j&aacute; tiveram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+"Com for&ccedil;a, n&atilde;o; com manha vergonhosa,<br>
+
+
+A vida lhe tiraram que os espanta:<br>
+
+
+Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,<br>
+
+
+As vezes leis magn&acirc;nimas quebranta.<br>
+
+
+Outro est&aacute; aqui que, contra a p&aacute;tria irosa,<br>
+
+
+Degradado, conosco se alevanta:<br>
+
+
+Escolheu bem com quem se alevantasse,<br>
+
+
+Para que eternamente se ilustrasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+"V&ecirc;s? conosco tamb&eacute;m vence as bandeiras<br>
+
+
+Dessas aves de J&uacute;piter validas;<br>
+
+
+Que j&aacute; naquele tempo as mais Guerreiras<br>
+
+
+Gentes de n&oacute;s souberam ser vencidas.<br>
+
+
+Olha t&atilde;o subtis artes e maneiras,<br>
+
+
+Para adquirir os povos, t&atilde;o fingidas,<br>
+
+
+A fat&iacute;dica Cerva que o avisa:<br>
+
+
+Ele &eacute; Sert&oacute;rio, e ela a sua divisa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+"Olha estoutra bandeira, e v&ecirc; pintado<br>
+
+
+O gr&atilde; progenitor dos Reis primeiros.<br>
+
+
+N&oacute;s &Uacute;ngaro o fazemos, por&eacute;m nado<br>
+
+
+Cr&ecirc;em ser em Lotar&iacute;ngia os estrangeiros.<br>
+
+
+Depois de ter com os Mouros superado,<br>
+
+
+Galegos e Leoneses cavaleiros,<br>
+
+
+A casa Santa passa o santo Henrique,<br>
+
+
+Por que o tronco dos Reis se santifique."<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+"Quem &eacute;, me diz, este outro que me espanta,<br>
+
+
+(Pergunta o Malabar maravilhado)<br>
+
+
+Que tantos esquadr&otilde;es, que gente tanta,<br>
+
+
+Com t&atilde;o pouca, tem roto e destro&ccedil;ado?<br>
+
+
+Tantos muros asp&eacute;rrimos quebranta,<br>
+
+
+Tantas batalhas d&aacute;, nunca cansado,<br>
+
+
+Tantas coroas tem por tantas partes<br>
+
+
+A seus p&eacute;s derribadas, e estandartes!"<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+&mdash;"Este &eacute; o primeiro Afonso, disse o Gama,<br>
+
+
+Que todo Portugal aos Mouros toma;<br>
+
+
+Por quem, no Est&iacute;gio lago, jura a Fama<br>
+
+
+De mais n&atilde;o celebrar nenhum de Roma.<br>
+
+
+Este &eacute; aquele zeloso a quem Deus ama,<br>
+
+
+Com cujo bra&ccedil;o o Mouro inimigo doma,<br>
+
+
+Para quem de seu Reino abaixa os muros,<br>
+
+
+Nada deixando j&aacute; para os futuros,<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+"Se C&eacute;sar, se Alexandre Rei, tiveram<br>
+
+
+T&atilde;o pequeno poder, t&atilde;o pouca gente,<br>
+
+
+Contra tantos inimigos quantos eram<br>
+
+
+Os que desbaratava este excelente,<br>
+
+
+N&atilde;o creias que seus nomes se estendera<br>
+
+
+Com gl&oacute;rias imortais t&atilde;o largamente;<br>
+
+
+Mas deixa os feitos seus inexplic&aacute;veis,<br>
+
+
+V&ecirc; que os de seus vassalos s&atilde;o not&aacute;veis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+"Este que v&ecirc;s olhar com gesto irado<br>
+
+
+Para o rompido aluno mal sofrido,<br>
+
+
+Dizendo-lhe que o ex&eacute;rcito espalhado<br>
+
+
+Recolha, e torne ao campo defendido;<br>
+
+
+Torna o mo&ccedil;o do velho acompanhado,<br>
+
+
+Que vencedor o torna de vencido:<br>
+
+
+Egas Moniz se chama o forte velho,<br>
+
+
+Para leais vassalos claro espelho.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+"V&ecirc;-lo c&aacute; vai com os filhos a entregar-se,<br>
+
+
+A corda ao colo, nu de seda e pano,<br>
+
+
+Porque n&atilde;o quis o mo&ccedil;o sujeitar-se,<br>
+
+
+Como ele prometera, ao Castelhano.<br>
+
+
+Fez com siso e promessas levantar-se<br>
+
+
+O cerco, que j&aacute; estava soberano;<br>
+
+
+Os filhos e mulher obriga &agrave; pena:<br>
+
+
+Para que o senhor salve, a si condena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+"N&atilde;o fez o C&ocirc;nsul tanto, que cercado<br>
+
+
+Foi nas for&ccedil;as Caudinas, de ignorante,<br>
+
+
+Quando a passar por baixo foi for&ccedil;ado<br>
+
+
+Do Samn&iacute;tico jugo triunfante.<br>
+
+
+Este, pelo seu povo injuriado,<br>
+
+
+A si se entrega s&oacute;, firme e constante;<br>
+
+
+Estoutro a si, e os filhos naturais,<br>
+
+
+E a consorte sem culpa, que d&oacute;i mais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+"V&ecirc;s este que, saindo da cilada,<br>
+
+
+D&aacute; sobre o Rei que cerca a vila forte?<br>
+
+
+J&aacute; o Rei tem preso e a vila descercada:<br>
+
+
+Ilustre feito, digno de Mavorte!<br>
+
+
+V&ecirc;-lo c&aacute; vai pintado nesta armada,<br>
+
+
+No mar tamb&eacute;m aos Mouros dando a morto,<br>
+
+
+Tomando-lhe as gal&eacute;s, levando a gl&oacute;ria<br>
+
+
+Da primeira mar&iacute;tima vit&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+"&Eacute;, Dom Fuas Roupinho, que na terra<br>
+
+
+E no mar resplandece juntamente,<br>
+
+
+Com o fogo que acendeu junto da serra<br>
+
+
+De Abila, nas gal&eacute;s da Maura gente.<br>
+
+
+Olha como, em t&atilde;o justa e santa guerra,<br>
+
+
+De acabar pelejando est&aacute; contente:<br>
+
+
+Das m&atilde;os dos Mouros entra a feliz alma,<br>
+
+
+Triunfando, nos c&eacute;us, com justa palma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+"N&atilde;o v&ecirc;s um ajuntamento, de estrangeiro<br>
+
+
+Trajo, sair da grande armada nova,<br>
+
+
+Que ajuda a combater o Rei primeiro<br>
+
+
+Lisboa, de si dando santa prova?<br>
+
+
+Olha Henrique, famoso cavaleiro,<br>
+
+
+A palma que lhe nasce junto &agrave; cova.<br>
+
+
+Por eles mostra Deus milagre visto:<br>
+
+
+Germanos s&atilde;o os m&aacute;rtires de Cristo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+"Um Sacerdote v&ecirc; brandindo a espada<br>
+
+
+Contra Arronches, que toma, por vingan&ccedil;a<br>
+
+
+De Leiria, que de antes foi tomada<br>
+
+
+Por quem por Mafamede enresta a lan&ccedil;a:<br>
+
+
+&Eacute; Teot&oacute;nio, Prior. Mas v&ecirc; cercada<br>
+
+
+Santar&eacute;m, e ver&aacute;s a seguran&ccedil;a<br>
+
+
+Da figura nos muros, que primeira<br>
+
+
+Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+"V&ecirc;-lo c&aacute;, donde Sancho desbarata<br>
+
+
+Os Mouros de Vand&aacute;lia em fera guerra;<br>
+
+
+Os inimigos rompendo, o alferes mata<br>
+
+
+E o Hisp&aacute;lico pend&atilde;o derriba em terra:<br>
+
+
+Mem Moniz &eacute;, que em si o valor retrata,<br>
+
+
+Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,<br>
+
+
+Digno destas bandeiras, pois sem falta<br>
+
+
+A contr&aacute;ria derriba e a sua exalta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+"Olha aquele que desce pela lan&ccedil;a?<br>
+
+
+Com as duas cabe&ccedil;as dos vigias,<br>
+
+
+Onde a cilada esconde, com que alcan&ccedil;a<br>
+
+
+A cidade por manhas e ousadias.<br>
+
+
+Ela por armas toma a semelhan&ccedil;a<br>
+
+
+Do cavaleiro, que as cabe&ccedil;as frias<br>
+
+
+Na m&atilde;o levava (feito nunca feito!)<br>
+
+
+Giraldo Sem-pavor &eacute; o forte peito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+"N&atilde;o v&ecirc;s um Castelhano, que agravado<br>
+
+
+De Afonso nono rei, pelo &oacute;dio antigo<br>
+
+
+Dos de Lara, com os Mouros &eacute; deitado,<br>
+
+
+De Portugal fazendo-se inimigo?<br>
+
+
+Abrantes vila toma, acompanhado<br>
+
+
+Dos duros infi&eacute;is que traz consigo.<br>
+
+
+Mas v&ecirc; que um Portugu&ecirc;s com pouca gente<br>
+
+
+O desbarata e o prende ousadamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+"Martim Lopes se chama o cavaleiro,<br>
+
+
+Que destes levar pode a palma e o louro.<br>
+
+
+Mas olha um Eclesi&aacute;stico guerreiro,<br>
+
+
+Que em lan&ccedil;a de a&ccedil;o torna o Bago de ouro.<br>
+
+
+V&ecirc;-lo entre os duvidosos t&atilde;o inteiro<br>
+
+
+Em n&atilde;o negar batalha ao bravo Mouro;<br>
+
+
+Olha o sinal no c&eacute;u que lhe aparece,<br>
+
+
+Com que nos poucos seus o esfor&ccedil;o cresce.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"V&oacute;s? v&atilde;o os Reis de C&oacute;rdova e Sevilha<br>
+
+
+Rotos, com os outros dois, e n&atilde;o de espa&ccedil;o.<br>
+
+
+Rotos? mas antes mortos, maravilha<br>
+
+
+Feita de Deus, que n&atilde;o de humano bra&ccedil;o.<br>
+
+
+V&ecirc;s? j&aacute; a vila de Alc&aacute;&ccedil;are
+se humilha,<br>
+
+
+Sem lhe valer defesa, ou muro de a&ccedil;o,<br>
+
+
+A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,<br>
+
+
+Que a coroa da palma ali coroa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"Olha um Mestre que desce de Castela,<br>
+
+
+Portugu&ecirc;s de na&ccedil;&atilde;o, como conquista<br>
+
+
+A terra dos Algarves, e j&aacute; nela<br>
+
+
+N&atilde;o acha quem por armas lhe resista;<br>
+
+
+Com manha, esfor&ccedil;o, e com benigna estrela,<br>
+
+
+Vilas, castelos toma &agrave; escala vista.<br>
+
+
+V&ecirc;s Tavila tomada aos moradores,<br>
+
+
+Em vingan&ccedil;a dos sete ca&ccedil;adores!<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"V&ecirc;s? com b&eacute;lica ast&uacute;cia ao Mouro ganha<br>
+
+
+Silves, que ele ganhou com for&ccedil;a ingente:<br>
+
+
+&Eacute; Dom Paio Correia, cuja manha<br>
+
+
+E grande esfor&ccedil;o faz inveja &agrave; gente.<br>
+
+
+Mas n&atilde;o passes os tr&ecirc;s que em Fran&ccedil;a e
+Espanha<br>
+
+
+Se fazem conhecer perpetuamente<br>
+
+
+Em desafios, justas e torneios,<br>
+
+
+Nelas deixando p&uacute;blicos trof&eacute;us.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"V&ecirc;-los, com o nome v&ecirc;m de aventureiros<br>
+
+
+A Castela, onde o pre&ccedil;o s&oacute;s levaram<br>
+
+
+Dos jogos de Belona verdadeiros,<br>
+
+
+Que com dano de alguns se exercitaram.<br>
+
+
+V&ecirc; mortos os soberbos cavaleiros,<br>
+
+
+Que o principal dos tr&ecirc;s desafiaram,<br>
+
+
+Que Gon&ccedil;alo Ribeiro se nomeia,<br>
+
+
+Que pode n&atilde;o temer a lei Leteia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Atenta num, que a fama tanto estende,<br>
+
+
+Que de nenhum passado se contenta;<br>
+
+
+Que a p&aacute;tria, que de um fraco fio pende,<br>
+
+
+Sobre seus duros ombros a sustenta.<br>
+
+
+N&atilde;o no v&ecirc;s tinto de ira, que reprende<br>
+
+
+A vil desconfian&ccedil;a inerte e lenta<br>
+
+
+Do povo, e faz que tome o doce freio<br>
+
+
+De Rei seu natural, e n&atilde;o de alheio?<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Olha: por seu conselho e ousadia<br>
+
+
+De Deus guiada s&oacute;, e de santa estrela,<br>
+
+
+S&oacute; pode o que imposs&iacute;vel parecia:<br>
+
+
+Vencer o povo ingente de Castela.<br>
+
+
+V&ecirc;s, por ind&uacute;stria, esfor&ccedil;o e valentia,<br>
+
+
+Outro estrago e vit&oacute;ria clara e bela,<br>
+
+
+Na gente, assim feroz como infinita,<br>
+
+
+Que entre o Tarteso e Goadiana habita?<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Mas n&atilde;o v&ecirc;s quase j&aacute; desbaratado<br>
+
+
+O poder Lusitano, pela aus&ecirc;ncia<br>
+
+
+Do Capit&atilde;o devoto, que, apartado<br>
+
+
+Orando invoca a suma e trina Ess&ecirc;ncia?<br>
+
+
+V&ecirc;-lo com pressa j&aacute; dos seus achado,<br>
+
+
+Que lhe dizem que falta resist&ecirc;ncia<br>
+
+
+Contra poder tamanho, e que viesse,<br>
+
+
+Por que consigo esfor&ccedil;o aos fracos desse?<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"Mas olha com que santa confian&ccedil;a,<br>
+
+
+&mdash;Que inda n&atilde;o era tempo,&mdash;respondia,<br>
+
+
+Como quem tinha em Deus a seguraria<br>
+
+
+Da vit&oacute;ria que logo lhe daria.<br>
+
+
+Assim Pomp&iacute;lio, ouvindo que a possan&ccedil;a<br>
+
+
+Dos inimigos a terra lhe corria,<br>
+
+
+A quem lhe a dura nova estava dando,<br>
+
+
+-"Pois eu, responde, estou sacrificando."&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"Se quem com tanto esfor&ccedil;o em Deus se atreve,<br>
+
+
+Ouvir quiseres como se nomeia,<br>
+
+
+Portugu&ecirc;s Cipi&atilde;o chamar-se deve;<br>
+
+
+Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:<br>
+
+
+Ditosa p&aacute;tria que tal filho teve!<br>
+
+
+Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia<br>
+
+
+Este globo de Ceres e Netuno,<br>
+
+
+Sempre suspirar&aacute; por tal aluno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Na mesma guerra v&ecirc; que presas ganha<br>
+
+
+Estoutro Capit&atilde;o de pouca gente;<br>
+
+
+Comendadores vence e o gado apanha,<br>
+
+
+Que levavam roubado ousadamente.<br>
+
+
+Outra vez v&ecirc; que a lan&ccedil;a em sangue banha<br>
+
+
+Destes, s&oacute; por livrar com o amor ardente<br>
+
+
+O preso amigo, preso por leal:<br>
+
+
+P&ecirc;ro Rodrigues &eacute; do Landroal.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"Olha este desleal o como paga<br>
+
+
+O perj&uacute;rio que fez e vil engano:<br>
+
+
+Gil Fernandes &eacute; de Elvas quem o estraga,<br>
+
+
+E faz vir a passar o &uacute;ltimo dano:<br>
+
+
+De Xerez rouba o campo, e quase alaga<br>
+
+
+Com o sangue de seus donos Castelhano.<br>
+
+
+Mas olha Rui Pereira, que com o rosto<br>
+
+
+Faz escudo &agrave;s gal&eacute;s, diante posto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"Olha que dezessete Lusitanos,<br>
+
+
+Neste outeiro subidos se defendem,<br>
+
+
+Fortes, de quatrocentos Castelhanos,<br>
+
+
+Que em derredor, pelos tomar, se estendem;<br>
+
+
+Por&eacute;m logo sentiram, com seus danos,<br>
+
+
+Que n&atilde;o s&oacute; se defendem, mas ofendem:<br>
+
+
+Digno feito de ser no mundo eterno,<br>
+
+
+Grande no tempo antigo e no moderno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"Sabe-se antigamente que trezentos<br>
+
+
+J&aacute; contra mil Romanos pelejaram,<br>
+
+
+No tempo que os viris atrevimentos<br>
+
+
+De Viriato tanto se ilustraram,<br>
+
+
+E deles alcan&ccedil;ando vencimentos<br>
+
+
+Memor&aacute;veis, de heran&ccedil;a nos deixaram<br>
+
+
+Que os muitos, por ser poucos, n&atilde;o temamos:<br>
+
+
+O que depois mil vezes amestramos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"Olha c&aacute; dois infantes, Pedro e Henrique,<br>
+
+
+Prog&eacute;nie generosa de Joane:<br>
+
+
+Aquele faz que fama ilustre fique<br>
+
+
+Dele em Germ&acirc;nia, com que a morte engane;<br>
+
+
+Este, que ela nos mares o publique<br>
+
+
+Por seu descobridor, e desengane<br>
+
+
+De Ceita a Maura t&uacute;mida vaidade,<br>
+
+
+Primeiro entrando as portas da cidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"V&ecirc;s o conde Dom Pedro, que sustenta<br>
+
+
+Dois cercos contra toda a Barbaria?<br>
+
+
+V&ecirc;s, outro Conde est&aacute;, que representa<br>
+
+
+Em terra Marte, em for&ccedil;as e ousadia;<br>
+
+
+De poder defender se n&atilde;o contenta<br>
+
+
+Alc&aacute;cere da ingente companhia;<br>
+
+
+Mas do seu Rei defende a cara vida,<br>
+
+
+Pondo por muro a sua, ali perdida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Outros muitos verias, que os pintores<br>
+
+
+Aqui tamb&eacute;m por certo pintariam;<br>
+
+
+Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,<br>
+
+
+Honra, pr&eacute;mio, favor, que as artes criam:<br>
+
+
+Culpa dos viciosos sucessores,<br>
+
+
+Que degeneram, certo, e se desviam<br>
+
+
+Do lustre e do valor dos seus passados,<br>
+
+
+Em gostos e vaidades atolados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Aqueles pais ilustres que j&aacute; deram<br>
+
+
+Princ&iacute;pio &agrave; gera&ccedil;&atilde;o que
+deles pende,<br>
+
+
+Pela virtude muito ent&atilde;o fizeram,<br>
+
+
+E por deixar a casa, que descende.<br>
+
+
+Cegos, que dos trabalhos que tiveram,<br>
+
+
+Se alta fama e rumor deles se estende,<br>
+
+
+Escuros deixam sempre seus menores,<br>
+
+
+Com lhe deixar descansos corruptores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Outros tamb&eacute;m h&aacute; grandes e abastados,<br>
+
+
+Sem nenhum tronco ilustre donde venham;<br>
+
+
+Culpa de Reis, que &agrave;s vezes a privados<br>
+
+
+D&atilde;o mais que a mil, que esfor&ccedil;o e saber tenham.<br>
+
+
+Estes os seus n&atilde;o querem ver pintados,<br>
+
+
+Crendo que cores v&atilde;s lhe n&atilde;o convenham,<br>
+
+
+E, como a seu contrairo natural,<br>
+
+
+A pintura, que fala, querem mal.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+"N&atilde;o nego que h&aacute; contudo descendentes<br>
+
+
+Do generoso tronco, e casa rica,<br>
+
+
+Que com costumes altos e excelentes,<br>
+
+
+Sustentam a nobreza que lhe fica;<br>
+
+
+E se a luz dos antigos seus parentes<br>
+
+
+Neles mais o valor n&atilde;o clarifica,<br>
+
+
+N&atilde;o falta ao menos, nem se faz escura.<br>
+
+
+Mas destes acha poucos a pintura."<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+Assim est&aacute; declarando os grandes feitos<br>
+
+
+O Gama, que ali mostra a v&aacute;ria tinta,<br>
+
+
+Que a douta m&atilde;o t&atilde;o claros, t&atilde;o
+perfeitos,<br>
+
+
+Do singular art&iacute;fice ali pinta.<br>
+
+
+Os olhos tinha prontos e direitos<br>
+
+
+O Catual na hist&oacute;ria bem distinta;<br>
+
+
+Mil vezes perguntava e mil ouvia<br>
+
+
+As gostosas batalhas que ali via.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+Mas j&aacute; a luz se mostrava duvidosa,<br>
+
+
+Porque a a l&acirc;mpada grande se escondia<br>
+
+
+Debaixo do Horizonte e luminosa<br>
+
+
+Levava aos Ant&iacute;podas o dia,<br>
+
+
+Quando o Gentio e a gente generosa<br>
+
+
+Dos Naires da nau forte se partia<br>
+
+
+A buscar o repouso que descansa<br>
+
+
+Os lassos animais, na noite mansa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+Entretanto os Ar&uacute;spices famosos<br>
+
+
+Na falsa opini&atilde;o, que em sacrif&iacute;cios<br>
+
+
+Antev&ecirc;em sempre os casos duvidosos,<br>
+
+
+Por sinais diab&oacute;licos e ind&iacute;cios,<br>
+
+
+Mandados do Rei pr&oacute;prio, estudiosos<br>
+
+
+Exercitavam a arte e seus of&iacute;cios<br>
+
+
+Sobre esta vinda desta gente estranha,<br>
+
+
+Que &agrave;s suas terras vem da ignota Espanha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,<br>
+
+
+De como a nova gente lhe seria<br>
+
+
+Jugo perp&eacute;tuo, eterno cativeiro,<br>
+
+
+Destrui&ccedil;&atilde;o de gente, e de valia.<br>
+
+
+Vai-se espantado o at&oacute;nito agoureiro<br>
+
+
+Dizer ao Rei (segundo o que entendia)<br>
+
+
+Os sinais temerosos que alcan&ccedil;ara<br>
+
+
+Nas entranhas das v&iacute;timas que olhara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+A isto mais se ajunta que um devoto<br>
+
+
+Sacerdote da lei de Mafamede,<br>
+
+
+Dos &oacute;dios concebidos n&atilde;o remoto<br>
+
+
+Contra a divina F&eacute;, que tudo excede,<br>
+
+
+Em forma do Profeta falso e noto,<br>
+
+
+Que do filho da escrava Agar procede,<br>
+
+
+Baco odioso em sonhos lhe aparece,<br>
+
+
+Que de seus &oacute;dios ainda se n&atilde;o desse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,<br>
+
+
+Do mal que se aparelha pelo inimigo<br>
+
+
+Que pelas &aacute;guas &uacute;midas caminha,<br>
+
+
+Antes que esteis mais perto do perigo."<br>
+
+
+Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,<br>
+
+
+Espantado do sonho; mas consigo<br>
+
+
+Cuida que n&atilde;o &eacute; mais que sonho usado:<br>
+
+
+Torna a dormir quieto e sossegado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+Torna Baco, dizendo: "N&atilde;o conheces<br>
+
+
+O gr&atilde; legislador que a teus passados<br>
+
+
+Tem mostrado o preceito a que obedeces,<br>
+
+
+Sem o qual f&ocirc;reis muitos batizados?<br>
+
+
+Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!<br>
+
+
+Pois saber&aacute;s que aqueles, que chegados<br>
+
+
+De novo s&atilde;o, ser&atilde;o muito grande dano<br>
+
+
+Da lei que eu dei ao n&eacute;scio povo humano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+"Enquanto &eacute; fraca a for&ccedil;a desta gente,<br>
+
+
+Ordena como em tudo se resista,<br>
+
+
+Porque, quando o Sol sai, facilmente<br>
+
+
+Se pode nele p&ocirc;r a aguda vista;<br>
+
+
+Por&eacute;m, depois que sobe claro e ardente,<br>
+
+
+Se agudeza dos olhos o conquista,<br>
+
+
+T&atilde;o cega fica, quanto ficareis,<br>
+
+
+Se ra&iacute;zes criar lhe n&atilde;o tolheis."<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+Isto dito, ele e o sono se despede.<br>
+
+
+Tremendo fica o at&oacute;nito Agareno:<br>
+
+
+Salta da cama, lume ao servos pede,<br>
+
+
+Lavrando nele o fervido veneno.<br>
+
+
+Tanto que a nova luz que ao Sol precede<br>
+
+
+Mostrara rosto ang&eacute;lico e sereno,<br>
+
+
+Convoca os principais da torpe seita,<br>
+
+
+Aos quais do que sonhou d&aacute; conta estreita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+Diversos pareceres e contr&aacute;rios<br>
+
+
+Ali se d&atilde;o, segundo o que entendiam;<br>
+
+
+Astutas trai&ccedil;&otilde;es, enganos v&aacute;rios,<br>
+
+
+Perf&iacute;dias inventavam e teciam.<br>
+
+
+Mas, deixando conselhos temer&aacute;rios,<br>
+
+
+Destrui&ccedil;&atilde;o da gente pretendiam,<br>
+
+
+Por manhas mais subtis e ardis melhores,<br>
+
+
+Com peitas adquirindo os regedores;<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+Com peitas, ouro, e d&aacute;divas secretas<br>
+
+
+Conciliam da terra os principais,<br>
+
+
+E com raz&otilde;es not&aacute;veis e discretas<br>
+
+
+Mostram ser perdi&ccedil;&atilde;o dos naturais,<br>
+
+
+Dizendo que s&atilde;o gentes inquietas,<br>
+
+
+Que, os mares discorrendo ocidentais,<br>
+
+
+Vivem s&oacute; de pir&aacute;ticas rapinas,<br>
+
+
+Sem Rei, sem leis humanas ou divinas<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+&Oacute; quanto deve o Rei que bem governa,<br>
+
+
+De olhar que os conselheiros, ou privados,<br>
+
+
+De consci&ecirc;ncia e de virtude interna<br>
+
+
+E de sincero amor sejam dotados!<br>
+
+
+Porque, como este posto na suprema<br>
+
+
+Cadeira, pode mal dos apartados<br>
+
+
+Neg&oacute;cios ter not&iacute;cia mais inteira,<br>
+
+
+Do que lhe der a l&iacute;ngua conselheira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+Nem t&atilde;o pouco direi que tome tanto<br>
+
+
+Em grosso a consci&ecirc;ncia limpa e certa,<br>
+
+
+Que se enleve num pobre e humilde manto,<br>
+
+
+Onde ambi&ccedil;&atilde;o acaso ande encoberta.<br>
+
+
+E quando um bom em tudo &eacute; justo e santo,<br>
+
+
+Em neg&oacute;cios do mundo pouco acerta,<br>
+
+
+Que mal com eles poder&aacute; ter conta<br>
+
+
+A quieta inoc&ecirc;ncia, em s&oacute; Deus pronta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+Mas aqueles avaros Catuais,<br>
+
+
+Que o Gent&iacute;lico povo governavam,<br>
+
+
+Induzidos das gentes infernais,<br>
+
+
+O Portugu&ecirc;s despacho dilatavam.<br>
+
+
+Mas o Gama, que n&atilde;o pretende mais,<br>
+
+
+De tudo quanto os Mouros ordenavam,<br>
+
+
+Que levar a seu Rei um sinal certo<br>
+
+
+Do mundo, que deixava descoberto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+Nisto trabalha s&oacute;; que bem sabia<br>
+
+
+Que depois que levasse esta certeza,<br>
+
+
+Armas, o naus, e gente mandaria<br>
+
+
+Manuel, que exercita a suma alteza,<br>
+
+
+Com que a seu jugo e lei someteria<br>
+
+
+Das terras e do mar a redondeza;<br>
+
+
+Que ele n&atilde;o era mais que um diligente<br>
+
+
+Descobridor das terras do Oriente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+Falar ao Rei gentio determina,<br>
+
+
+Por que com seu despacho se tornasse,<br>
+
+
+Que j&aacute; sentia em tudo da malina<br>
+
+
+Gente impedir-se quanto desejasse.<br>
+
+
+O Rei, que da not&iacute;cia falsa e indina<br>
+
+
+N&atilde;o era de espantar se se espantasse,<br>
+
+
+Que t&atilde;o cr&eacute;dulo era em seus agouros,<br>
+
+
+E mais sendo afirmados pelos Mouros,<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+Este temor lhe esfria o baixo peito.<br>
+
+
+Por outra parte a for&ccedil;a da cobi&ccedil;a,<br>
+
+
+A quem por natureza est&aacute; sujeito,<br>
+
+
+Um desejo imortal lhe acende e ati&ccedil;a:<br>
+
+
+Que bem v&ecirc; que grand&iacute;ssimo proveito<br>
+
+
+Far&aacute;, se com verdade e com justi&ccedil;a<br>
+
+
+O contrato fizer por longos anos,<br>
+
+
+Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+Sobre isto, nos conselhos que tomava,<br>
+
+
+Achava muito contr&aacute;rios pareceres;<br>
+
+
+Que naqueles com quem se aconselhava<br>
+
+
+Executa o dinheiro seus poderes.<br>
+
+
+O grande Capit&atilde;o chamar mandava,<br>
+
+
+A quem chegado disse:&mdash;"Se quiseres<br>
+
+
+Confessar-me a verdade limpa e nua,<br>
+
+
+Perd&atilde;o alcan&ccedil;ar&aacute;s da culpa tua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+Fala do Samorim ao Gama<br>
+
+
+"Eu sou bem informado que a embaixada<br>
+
+
+Que de teu Rei me deste, que &eacute; fingida;<br>
+
+
+Porque nem tu tens Rei, nem p&aacute;tria amada,<br>
+
+
+Mas vagabundo v&aacute;s passando a vida;<br>
+
+
+Que quem da Hesp&eacute;ria &uacute;ltima alongada,<br>
+
+
+Rei ou senhor de ins&acirc;nia desmedida,<br>
+
+
+H&aacute; de vir cometer com naus e frotas<br>
+
+
+T&atilde;o incertas viagens e remotas?<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"E se de grandes Reinos poderosos<br>
+
+
+O teu Rei tem a r&eacute;gia majestade,<br>
+
+
+Que presentes me trazes valerosos,<br>
+
+
+Sinais de tua inc&oacute;gnita verdade?<br>
+
+
+Com pe&ccedil;as e dons altos, sumptuosos,<br>
+
+
+Se lia dos Reis altos a amizade;<br>
+
+
+Que sinal nem penhor n&atilde;o &eacute; bastante<br>
+
+
+As palavras dum vago navegante.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"Se porventura vindes desterrados,<br>
+
+
+Como j&aacute; foram homens de alta sorte,<br>
+
+
+Em meu Reino sereis agasalhados,<br>
+
+
+Que toda a terra &eacute; p&aacute;tria para o forte;<br>
+
+
+Ou se piratas sois ao mar usados,<br>
+
+
+Dizei-mo sem temor de inf&acirc;mia ou morte,<br>
+
+
+Que por se sustentar em toda idade,<br>
+
+
+Tudo faz a vital necessidade."<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+Isto assim dito, o Gama, que j&aacute; tinha<br>
+
+
+Suspeitas das ins&iacute;dias que ordenava<br>
+
+
+O Mallom&eacute;tico &oacute;dio, donde vinha<br>
+
+
+Aquilo que t&atilde;o mal o Rei cuidava,<br>
+
+
+Com uma alta confian&ccedil;a, que convinha,<br>
+
+
+Com que seguro cr&eacute;dito alcan&ccedil;ava,<br>
+
+
+Que V&eacute;nus Acid&aacute;lia lhe influ&iacute;a,<br>
+
+
+Tais palavras do s&aacute;bio peito abria:<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Se os antigos delitos, que a mal&iacute;cia<br>
+
+
+Humana cometeu na prisca idade,<br>
+
+
+N&atilde;o causaram que o vaso da niqu&iacute;cia,<br>
+
+
+A&ccedil;oute t&atilde;o cruel da Cristandade,<br>
+
+
+Viera p&ocirc;r perp&eacute;tua inimic&iacute;cia<br>
+
+
+Na gera&ccedil;&atilde;o de Ad&atilde;o, coa falsidade,<br>
+
+
+&Oacute; poderoso Rei da torpe seita,<br>
+
+
+N&atilde;o conceberas tu t&atilde;o m&aacute; suspeita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+"Mas porque nenhum grande bem se alcan&ccedil;a<br>
+
+
+Sem grandes opress&otilde;es, e em todo o feito<br>
+
+
+Segue o temor os passos da esperan&ccedil;a,<br>
+
+
+Que em suor vive sempre de seu peito,<br>
+
+
+Me mostras tu t&atilde;o pouca confian&ccedil;a<br>
+
+
+Desta minha verdade, sem respeito<br>
+
+
+Das raz&otilde;es em contr&aacute;rio que acharias<br>
+
+
+Se n&atilde;o cresses a quem n&atilde;o crer devias.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"Porque, se eu de rapinas s&oacute; vivesse,<br>
+
+
+Und&iacute;vago, ou da p&aacute;tria desterrado,<br>
+
+
+Como cr&ecirc;s que t&atilde;o longe me viesse<br>
+
+
+Buscar assento inc&oacute;gnito e apartado?<br>
+
+
+Por que esperan&ccedil;as, ou por que interesse<br>
+
+
+Viria experimentando o mar irado,<br>
+
+
+Os Antarcticos frios, e os ardores<br>
+
+
+Que sofrem do Carneiro os moradores?<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Se com grandes presentes de alta estima<br>
+
+
+O cr&eacute;dito me pedes do que digo,<br>
+
+
+Eu n&atilde;o vim mais que a achar o estranho clima<br>
+
+
+Onde a natura p&ocirc;s teu Reino antigo.<br>
+
+
+Mas, se a Fortuna tanto me sublima<br>
+
+
+Que eu torne &agrave; minha p&aacute;tria e Reino amigo,<br>
+
+
+Ent&atilde;o ver&aacute;s o dom soberbo e rico,<br>
+
+
+Com que minha tornada certifico.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Se te parece inopinado feito,<br>
+
+
+Que Rei da &uacute;ltima Hesp&eacute;ria a ti me mande,<br>
+
+
+O cora&ccedil;&atilde;o sublime, o r&eacute;gio peito,<br>
+
+
+Nenhum caso poss&iacute;vel tem por grande.<br>
+
+
+Bem parece que o nobre e gr&atilde; conceito<br>
+
+
+Do Lusitano esp&iacute;rito demande<br>
+
+
+Maior cr&eacute;dito, e f&eacute; de mais alteza,<br>
+
+
+Que creia dele tanta fortaleza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Sabe que h&aacute; muitos anos que os antigos<br>
+
+
+Reis nossos firmemente propuseram<br>
+
+
+De vencer os trabalhos e perigos,<br>
+
+
+Que sempre &agrave;s grandes coisas se opuseram;<br>
+
+
+E, descobrindo os mares inimigos<br>
+
+
+Do quieto descanso, pretenderam<br>
+
+
+De saber que fim tinham, e onde estavam<br>
+
+
+As derradeiras praias que lavavam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"Conceito digno foi do ramo claro<br>
+
+
+Do venturoso Rei, que arou primeiro<br>
+
+
+O mar, por ir deitar do ninho caro<br>
+
+
+O morador de Abila derradeiro.<br>
+
+
+Este, por sua ind&uacute;stria e engenho raro,<br>
+
+
+Num madeiro ajuntando outro madeiro,<br>
+
+
+Descobrir p&ocirc;de a parte, que faz clara<br>
+
+
+De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"Crescendo com os sucessos bons primeiros<br>
+
+
+No peito as ousadias, descobriram<br>
+
+
+Pouco e pouco caminhos estrangeiros,<br>
+
+
+Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.<br>
+
+
+De &Aacute;frica os moradores derradeiros<br>
+
+
+Austrais, que nunca as sete flamas viram,<br>
+
+
+Foram vistos de n&oacute;s, atr&aacute;s deixando<br>
+
+
+Quantos est&atilde;o os Tr&oacute;picos queimando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+"Assim com firme peito, e com tamanho<br>
+
+
+Prop&oacute;sito, vencemos a Fortuna,<br>
+
+
+At&eacute; que n&oacute;s no teu terreno estranho<br>
+
+
+Viemos p&ocirc;r a &uacute;ltima coluna.<br>
+
+
+Rompendo a for&ccedil;a do l&iacute;quido estanho,<br>
+
+
+Da tempestade horr&iacute;fica e importuna,<br>
+
+
+A ti chegamos, de quem s&oacute; queremos<br>
+
+
+Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+"Esta &eacute; a verdade, Rei; que n&atilde;o faria<br>
+
+
+Por t&atilde;o incerto bem, t&atilde;o fraco pr&eacute;mio,<br>
+
+
+Qual, n&atilde;o sendo isto assim, esperar podia,<br>
+
+
+T&atilde;o longo, t&atilde;o fingido e v&atilde;o
+pro&ecirc;mio;<br>
+
+
+Mas antes descansar me deixaria<br>
+
+
+No nunca descansado e fero gr&ecirc;mio<br>
+
+
+Da madre Tethys, qual pirata inico,<br>
+
+
+Dos trabalhos alheios feito rico.<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+"Assim que, &oacute; Rei, se minha gr&atilde; verdade<br>
+
+
+Tens por qual &eacute;, sincera e n&atilde;o dobrada,<br>
+
+
+Ajunta-me ao despacho brevidade,<br>
+
+
+N&atilde;o me impe&ccedil;as o gosto da tornada.<br>
+
+
+E, se ainda te parece falsidade,<br>
+
+
+Cuida bem na raz&atilde;o que est&aacute; provada,<br>
+
+
+Que com claro ju&iacute;zo pode ver-se,<br>
+
+
+Que f&aacute;cil &eacute; a verdade de entender-se."<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+A tento estava o Rei na seguran&ccedil;a<br>
+
+
+Com que provava o Gama o que dizia;<br>
+
+
+Concebe dele certa confian&ccedil;a,<br>
+
+
+Cr&eacute;dito firme em quanto proferia.<br>
+
+
+Pondera das palavras a abastan&ccedil;a,<br>
+
+
+Julga na autoridade gr&atilde;o valia,<br>
+
+
+Come&ccedil;a de julgar por enganados<br>
+
+
+Os Catuais corruptos, mal julgados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+Juntamente a cobi&ccedil;a do proveito,<br>
+
+
+Que espera do contrato Lusitano,<br>
+
+
+O faz obedecer e ter respeito<br>
+
+
+Com o Capit&atilde;o, e n&atilde;o com o Mauro engano.<br>
+
+
+Enfim ao Gama manda que direito<br>
+
+
+As naus se v&aacute;, e, seguro de algum dano,<br>
+
+
+Possa a terra mandar qualquer fazenda,<br>
+
+
+Que pela especiaria troque e venda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,<br>
+
+
+Que nos Reinos Gang&eacute;ticos fale&ccedil;a;<br>
+
+
+Se alguma traz id&oacute;nea l&aacute; da banda<br>
+
+
+Donde a terra se acaba e o mar come&ccedil;a.<br>
+
+
+J&aacute; da real presen&ccedil;a veneranda<br>
+
+
+Se parte o Capit&atilde;o, para onde pe&ccedil;a<br>
+
+
+Ao Catual, que dele tinha cargo,<br>
+
+
+Embarca&ccedil;&atilde;o, que a sua est&aacute; de largo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+Embarca&ccedil;&atilde;o que o leve &agrave;s naus lhe pede;<br>
+
+
+Mas o mau Regedor, que novos la&ccedil;os<br>
+
+
+Lhe maquinava, nada lhe concede,<br>
+
+
+Interpondo tardan&ccedil;as e embara&ccedil;os.<br>
+
+
+Com ele parte ao cais, por que o arrede<br>
+
+
+Longe quanto puder dos r&eacute;gios pa&ccedil;os,<br>
+
+
+Onde, sem que seu Rei tenha not&iacute;cia,<br>
+
+
+Fa&ccedil;a o que lhe ensinar sua mal&iacute;cia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+L&aacute; bem longe lhe diz que lhe daria<br>
+
+
+Embarca&ccedil;&atilde;o bastante em que partisse,<br>
+
+
+Ou que para a luz cr&aacute;stina do dia<br>
+
+
+Futuro sua partida diferisse.<br>
+
+
+J&aacute; com tantas tardan&ccedil;as entendia<br>
+
+
+O Gama, que o Gentio consentisse<br>
+
+
+Na m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o dos Mouros, torpe e fera,<br>
+
+
+O que dele at&eacute;li n&atilde;o entendera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+Era este Catual um dos que estavam<br>
+
+
+Corruptos pela Maumetana gente,<br>
+
+
+O principal por quem se governavam<br>
+
+
+As cidades do Samorim potente.<br>
+
+
+Dele somente os Mouros esperavam<br>
+
+
+Efeito a seus enganos torpemente.<br>
+
+
+Ele, que no conceito vil conspira,<br>
+
+
+De suas esperan&ccedil;as n&atilde;o delira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+O Gama com inst&acirc;ncia lhe requere<br>
+
+
+Que o mande p&ocirc;r nas naus, e n&atilde;o lhe vai;<br>
+
+
+E que assim lhe mandara, lhe refere,<br>
+
+
+O nobre sucessor de Perimal.<br>
+
+
+Por que raz&atilde;o lhe impede e lhe difere<br>
+
+
+A fazenda trazer de Portugal?<br>
+
+
+Pois aquilo que os Reis j&aacute; t&ecirc;m mandado<br>
+
+
+N&atilde;o pode ser por outrem derrogado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+Pouco obedece o Catual corrupto<br>
+
+
+A tais palavras; antes revolvendo<br>
+
+
+Na fantasia algum subtil e astuto<br>
+
+
+Engano diab&oacute;lico e estupendo,<br>
+
+
+Ou como banhar possa o ferro bruto<br>
+
+
+No sangue avorrecido, estava vendo;<br>
+
+
+Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,<br>
+
+
+Por que nenhuma &agrave; p&aacute;tria mais tornasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+Que nenhum torne &agrave; p&aacute;tria s&oacute; pretende<br>
+
+
+O conselho infernal dos Maumetanos,<br>
+
+
+Por que n&atilde;o saiba nunca onde se estende<br>
+
+
+A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.<br>
+
+
+N&atilde;o parte o Gama enfim, que lho defende<br>
+
+
+O Regedor dos b&aacute;rbaros profanos;<br>
+
+
+Nem sem licen&ccedil;a sua ir-se podia,<br>
+
+
+Que as almadias todas lhe tolhia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+Aos brados o raz&otilde;es do Capit&atilde;o<br>
+
+
+Responde o Idolatra que mandasse&mdash;<br>
+
+
+Chegar &agrave; terra as naus, que longo est&atilde;o,<br>
+
+
+Por que melhor dali fosse e tornasse.<br>
+
+
+"Sinal &eacute; de inimigo e de ladr&atilde;o,<br>
+
+
+Que l&aacute; t&atilde;o longe a frota se alargasse,<br>
+
+
+Lhe diz, porque do certo e fido amigo<br>
+
+
+&Eacute; n&atilde;o temer do seu nenhum perigo."<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+Nestas palavras o discreto Gama<br>
+
+
+Enxerga bem que as naus deseja perto<br>
+
+
+O Catual, por que com f erro e flama,<br>
+
+
+Lhas assalte, por &oacute;dio descoberto.<br>
+
+
+Em v&aacute;rios pensamentos se derrama;<br>
+
+
+Fantasiando est&aacute; rem&eacute;dio certo,<br>
+
+
+Que desse a quanto mal se lhe ordenava;<br>
+
+
+Tudo temia, tudo enfim cuidava.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+Qual o reflexo lume do polido<br>
+
+
+Espelho de a&ccedil;o, ou de cristal formoso,<br>
+
+
+Que, do raio solar sendo ferido,<br>
+
+
+Vai ferir noutra parte luminoso,<br>
+
+
+E, sendo da ociosa m&atilde;o movido<br>
+
+
+Pela casa do mo&ccedil;o curioso,<br>
+
+
+Anda pelas paredes &eacute; telhado<br>
+
+
+Tr&ecirc;mulo, aqui e ali, e dessossegado:<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+Tal o vago ju&iacute;zo flutuava<br>
+
+
+Do Gama preso, quando lhe lembrara<br>
+
+
+Coelho, se por caso o esperava<br>
+
+
+Na praia com os bat&eacute;is, como ordenara.<br>
+
+
+Logo secretamente lhe mandava,<br>
+
+
+"Que se tornasse &agrave; frota, que deixara;<br>
+
+
+N&atilde;o fosse salteado dos enganos,<br>
+
+
+Que esperava dos feros Maumetanos."<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+Tal h&aacute; de ser quem quer, com o dom de Marte,<br>
+
+
+Imitar os ilustres e igual&aacute;-los:<br>
+
+
+Voar com o pensamento a toda parte,<br>
+
+
+Adivinhar perigos, e evit&aacute;-los:<br>
+
+
+Com militar engenho e subtil arte<br>
+
+
+Entender os inimigos, e engan&aacute;-los;<br>
+
+
+Crer tudo, enfim, que nunca louvarei<br>
+
+
+O Capit&atilde;o que diga: "N&atilde;o cuidei".<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+Insiste o Malabar em t&ecirc;-lo preso,<br>
+
+
+Se n&atilde;o manda chegar a terra a armada;<br>
+
+
+Ele constante, e de ira nobre aceso,<br>
+
+
+Os amea&ccedil;os seus n&atilde;o teme nada;<br>
+
+
+Que antes quer sobre si tomar o peso<br>
+
+
+De quanto mal a vil mal&iacute;cia ousada<br>
+
+
+Lhe andar armando, que p&ocirc;r em ventura<br>
+
+
+A frota de seu Rei, que tem segura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+Aquela noite esteve ali detido,<br>
+
+
+E parte do outro dia, quando ordena<br>
+
+
+De se tornar ao Rei; mas impedido<br>
+
+
+Foi da guarda que tinha, n&atilde;o pequena.<br>
+
+
+Comete-lhe o Gentio outro partido,<br>
+
+
+Temendo de seu Rei castigo ou pena,<br>
+
+
+Se sabe esta mal&iacute;cia, a qual asinha<br>
+
+
+Saber&aacute;, se mais tempo ali o detinha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda<br>
+
+
+Vend&iacute;vel, que trazia, para a terra,<br>
+
+
+Para que de vagar se troque e venda:<br>
+
+
+Que quem n&atilde;o quer com&eacute;rcio, busca guerra.<br>
+
+
+Posto que os maus prop&oacute;sitos entenda<br>
+
+
+O Gama, que o danado peito encerra,<br>
+
+
+Consente, porque sabe por verdade,<br>
+
+
+Que compra com a fazenda a liberdade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+Concertam-se que o negro mande dar<br>
+
+
+Embarca&ccedil;&otilde;es id&oacute;neas com que venha;<br>
+
+
+Que os seus bat&eacute;is n&atilde;o quer aventurar<br>
+
+
+Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.<br>
+
+
+Partem as almadias a buscar<br>
+
+
+Mercadoria Hispana, que convenha.<br>
+
+
+Escreve a seu irm&atilde;o que lhe mandasse<br>
+
+
+A fazenda com que se resgatasse.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+Vem a fazenda a terra, aonde logo<br>
+
+
+A agasalhou o infame Catual;<br>
+
+
+Com ela ficam &Aacute;lvaro e Diogo,<br>
+
+
+Que a pudessem vender pelo que val.<br>
+
+
+Se mais que obriga&ccedil;&atilde;o, que mando e rogo<br>
+
+
+No peito vil o pr&eacute;mio pode e val,<br>
+
+
+Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,<br>
+
+
+Pois o Gama soltou pela fazenda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+Por ela o solta, crendo que ali tinha<br>
+
+
+Penhor bastante, donde recebesse<br>
+
+
+Interesse maior do que lhe vinha,<br>
+
+
+Se o Capit&atilde;o mais tempo detivesse.<br>
+
+
+Ele, vendo que j&aacute; lhe n&atilde;o convinha<br>
+
+
+Tornar a terra, por que n&atilde;o pudesse<br>
+
+
+Ser mais retido, sendo &agrave;s naus chegado<br>
+
+
+Nelas estar se deixa descansado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+Nas naus estar se deixa vagaroso,<br>
+
+
+At&eacute; ver o que o tempo lhe descobre:<br>
+
+
+Que n&atilde;o se fia j&aacute; do cobi&ccedil;oso<br>
+
+
+Regedor corrompido e pouco nobre.<br>
+
+
+Veja agora o ju&iacute;zo curioso<br>
+
+
+Quanto no rico, assim como no pobre,<br>
+
+
+Pode o vil interesse e sede inimiga<br>
+
+
+Do dinheiro, que a tudo nos obriga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+A Polidoro mata o Ptei Tre&iacute;cio,<br>
+
+
+S&oacute; por ficar senhor do gr&atilde;o tesouro;<br>
+
+
+Entra, pelo fort&iacute;ssimo edif&iacute;cio,<br>
+
+
+Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;<br>
+
+
+Pode tanto em Tarpeia avaro v&iacute;cio,<br>
+
+
+Que, a troco do metal luzente e louro,<br>
+
+
+Entrega aos inimigos a alta torre,<br>
+
+
+Do qual quase afogada em pago morre.<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+Este rende munidas fortalezas,<br>
+
+
+Faz tredores e falsos os amigos:<br>
+
+
+Este a mais nobres faz fazer vilezas,<br>
+
+
+E entrega Capit&atilde;es aos inimigos;<br>
+
+
+Este corrompe virginais purezas,<br>
+
+
+Sem temer de honra ou fama alguns perigos:<br>
+
+
+Este deprava &agrave;s vezes as ci&ecirc;ncias,<br>
+
+
+Os ju&iacute;zos cegando e as consci&ecirc;ncias;<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+Este interpreta mais que sutilmente.<br>
+
+
+Os textos; este faz e desfaz leis;<br>
+
+
+Este causa os perj&uacute;rios entre a gente,<br>
+
+
+E mil vezes tiranos torna os Reis.<br>
+
+
+At&eacute; os que s&oacute; a Deus Onipotente<br>
+
+
+Se dedicam, mil vezes ouvireis<br>
+
+
+Que corrompe este encantador, e ilude;<br>
+
+
+Mas n&atilde;o sem cor, contudo, de virtude.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto Nono</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+Tiveram longamente na cidade,<br>
+
+
+Sem vender-se, a fazenda os dois feitores<br>
+
+
+Que os infi&eacute;is, por manha e falsidade,<br>
+
+
+Fazem que n&atilde;o lha comprem mercadores;<br>
+
+
+Que todo seu prop&oacute;sito e vontade<br>
+
+
+Era deter ali os descobridores<br>
+
+
+Da &Iacute;ndia tanto tempo, que viessem<br>
+
+
+De Meca as naus, que as suas desfizessem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+L&aacute; no seio Eritreu, onde fundada<br>
+
+
+Ars&iacute;noe foi do Eg&iacute;pcio Ptolomeu,<br>
+
+
+Do nome da irm&atilde; sua assim chamada,<br>
+
+
+Que depois em Suez se converteu,<br>
+
+
+N&atilde;o longe o porto jaz da nomeada<br>
+
+
+Cidade Meca, que se engrandeceu<br>
+
+
+Com a supersti&ccedil;&atilde;o falsa e profana<br>
+
+
+Da religiosa &aacute;gua Maumetana.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+Gid&aacute; se chama o porto, aonde o trato<br>
+
+
+De todo o Roxo mar mais florescia,<br>
+
+
+De que tinha proveito grande e grato<br>
+
+
+O Sold&atilde;o que esse Reino possu&iacute;a.<br>
+
+
+Daqui aos Malabares, por contrato<br>
+
+
+Dos infi&eacute;is, formosa companhia<br>
+
+
+De grandes naus, pelo &Iacute;ndico Oceano,<br>
+
+
+Especiaria vem buscar cada ano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+Por estas naus os Mouros esperavam,<br>
+
+
+Que, como fossem grandes e possantes,<br>
+
+
+Aquelas, que o com&eacute;rcio lhe tomavam,<br>
+
+
+Com flamas abrasassem crepitantes.<br>
+
+
+Neste socorro tanto confiavam,<br>
+
+
+Que j&aacute; n&atilde;o querem mais dos navegantes,<br>
+
+
+Sen&atilde;o que tanto tempo ali tardassem,<br>
+
+
+Que da famosa Meca as naus chegassem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Mas o Governador dos c&eacute;us e gentes,<br>
+
+
+Que, para quanto tem determinado,<br>
+
+
+De longe os meios d&aacute; convenientes,<br>
+
+
+Por onde vem a ef eito o fim fadado,<br>
+
+
+Influiu piedosos acidentes<br>
+
+
+De afei&ccedil;&atilde;o em Mon&ccedil;aide, que guardado<br>
+
+
+Estava para dar ao Gama aviso,<br>
+
+
+E merecer por isso o Para&iacute;so.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+Este, de quem se os Mouros n&atilde;o guardavam,<br>
+
+
+Por ser Mouro como eles, antes era<br>
+
+
+Participante em quanto maquinavam,<br>
+
+
+A ten&ccedil;&atilde;o lhe descobre torpe e fera.<br>
+
+
+Muitas vezes as naus que longe estavam<br>
+
+
+Visita, o com piedade considera<br>
+
+
+O dano, sem raz&atilde;o, que se lhe ordena<br>
+
+
+Pela maligna gente Sarracena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+Informa o cauto Gama das armadas<br>
+
+
+Que de Ar&aacute;bica Meca v&ecirc;m cada ano,<br>
+
+
+Que agora s&atilde;o dos seus t&atilde;o desejadas,<br>
+
+
+Para ser instrumento deste dano.<br>
+
+
+Diz-lhe que v&ecirc;m de gente carregadas,<br>
+
+
+E dos trov&otilde;es horrendos de Vulcano,<br>
+
+
+E que pode ser delas oprimido,<br>
+
+
+Segundo estava mal apercebido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+O Gama, que tamb&eacute;m considerava<br>
+
+
+O tempo, que para a partida o chama,<br>
+
+
+E que despacho j&aacute; n&atilde;o esperava<br>
+
+
+Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,<br>
+
+
+Aos feitores, que em terra est&atilde;o, mandava<br>
+
+
+Que se tornem &agrave;s naus; e por que a fama<br>
+
+
+Desta s&uacute;bita vinda os n&atilde;o impe&ccedil;a,<br>
+
+
+Lhe manda que a fizessem escondida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+Por&eacute;m n&atilde;o tardou muito que, voando,<br>
+
+
+Um rumor n&atilde;o soasse com verdade:<br>
+
+
+Que foram presos os feitores, quando<br>
+
+
+Foram sentidos vir-se da cidade.<br>
+
+
+Esta fama as orelhas penetrando<br>
+
+
+Do s&aacute;bio Capit&atilde;o, com brevidade<br>
+
+
+Faz represaria nuns, que &agrave;s naus vieram<br>
+
+
+A vender a pedraria que trouxeram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+Eram estes antigos mercadores<br>
+
+
+Ricos em Calecu, e conhecidos;<br>
+
+
+Da falta deles, logo entre os melhores<br>
+
+
+Sentido foi que est&atilde;o no mar retidos.<br>
+
+
+Mas j&aacute; nas naus os bons trabalhadores<br>
+
+
+Volvem o cabrestante, e repartidos<br>
+
+
+Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,<br>
+
+
+Outros quebram com o peito duro a barra;<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Outros pendem da verga, e j&aacute; desatam<br>
+
+
+A vela, que com grita se soltava,<br>
+
+
+Quando com maior grita ao Rei relatam<br>
+
+
+A pressa com que a armada se levava.<br>
+
+
+As mulheres e filhos que se matam<br>
+
+
+Daqueles que v&atilde;o presos, onde estava<br>
+
+
+O Samorim, se queixam que perdidos<br>
+
+
+Uns t&ecirc;m os pais, as outras os maridos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+Manda logo os feitores Lusitanos<br>
+
+
+Com toda sua fazenda livremente<br>
+
+
+Apesar dos inimigos Maumetanos,<br>
+
+
+Por que lhe torne a sua presa gente.<br>
+
+
+Desculpas manda o Rei de seus enganos;<br>
+
+
+Recebe o Capit&atilde;o de melhor mente<br>
+
+
+Os presos que as desculpas, e tornando<br>
+
+
+Alguns negros, se parte as velas dando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Parte-se costa abaixo, porque entende<br>
+
+
+Que em v&atilde;o com o Rei gentio trabalhava<br>
+
+
+Em querer dele paz, a qual pretende<br>
+
+
+Por firmar o com&eacute;rcio que tratava.<br>
+
+
+Mas como aquela terra, que se estende<br>
+
+
+Pela Aurora, sabida j&aacute; deixava,<br>
+
+
+Com estas novas torna &agrave; p&aacute;tria cara,<br>
+
+
+Certos sinais levando do que achara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Leva alguns Malabares, que tomou<br>
+
+
+Por for&ccedil;a, dos que o Samorim mandara<br>
+
+
+Quando os presos feitores lhe tornou;<br>
+
+
+Leva pimenta ardente, que comprara;<br>
+
+
+A seca flor de Banda n&atilde;o ficou,<br>
+
+
+A noz, e o negro cravo, que faz clara<br>
+
+
+A nova ilha Maluco, com a canela,<br>
+
+
+Com que Ceil&atilde;o &eacute; rica, ilustre e bela.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+Isto tudo lhe houvera a dilig&ecirc;ncia<br>
+
+
+De Mon&ccedil;aide fiel, que tamb&eacute;m leva,<br>
+
+
+Que, inspirado de ang&eacute;lica influ&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Quer no livro de Cristo que se escreva.<br>
+
+
+&Oacute; ditoso Africano, que a clem&ecirc;ncia<br>
+
+
+Divina assim tirou de escura treva,<br>
+
+
+E t&atilde;o longe da p&aacute;tria achou maneira<br>
+
+
+Para subir &agrave; p&aacute;tria verdadeira!<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+Apartadas assim da ardente costa<br>
+
+
+As venturosas naus, levando a proa<br>
+
+
+Para onde a Natureza tinha posta<br>
+
+
+A meta Austrina da esperan&ccedil;a boa,<br>
+
+
+Levando alegres novas e resposta<br>
+
+
+Da parte Oriental para Lisboa,<br>
+
+
+Outra vez cometendo os duros medos<br>
+
+
+Do mar incerto, t&iacute;midos e ledos;<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+O prazer de chegar &agrave; p&aacute;tria cara,<br>
+
+
+A seus penates caros e parentes,<br>
+
+
+Para contar a peregrina e rara<br>
+
+
+Navega&ccedil;&atilde;o, os v&aacute;rios c&eacute;us e
+gentes;<br>
+
+
+Vir a lograr o pr&eacute;mio, que ganhara<br>
+
+
+Por t&atilde;o longos trabalhos e acidentes,<br>
+
+
+Cada um tem por gosto t&atilde;o perfeito,<br>
+
+
+Que o cora&ccedil;&atilde;o para ele &eacute; vaso estreito.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+Por&eacute;m a deusa C&iacute;pria, que ordenada<br>
+
+
+Era para favor dos Lusitanos<br>
+
+
+Do Padre eterno, e por bom g&eacute;nio dada,<br>
+
+
+Que sempre os guia j&aacute; de longos anos;<br>
+
+
+A gl&oacute;ria por trabalhos alcan&ccedil;ada,<br>
+
+
+Satisfa&ccedil;&atilde;o de bem sofridos danos,<br>
+
+
+Lhe andava j&aacute; ordenando, e pretendia<br>
+
+
+Dar-lhe nos mares tristes alegria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+Depois de ter um pouco revolvido<br>
+
+
+Na mente o largo mar que navegaram,<br>
+
+
+Os trabalhos, que pelo Deus nascido<br>
+
+
+Nas Anfi&oacute;neas Tebas se causaram;<br>
+
+
+J&aacute; trazia de longe no sentido,<br>
+
+
+Para pr&eacute;mio de quanto mal passaram,<br>
+
+
+Buscar-lhe algum deleite, algum descanso<br>
+
+
+No Reino de cristal l&iacute;quido e manso;<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+Algum repouso, enfim, com que pudesse<br>
+
+
+Refocilar a lassa humanidade<br>
+
+
+Dos navegantes seus, como interesse<br>
+
+
+Do trabalho que encurta a breve idade.<br>
+
+
+Parece-lhe raz&atilde;o que conta desse<br>
+
+
+A seu filho, por cuja potestade<br>
+
+
+Os Deuses faz descer ao vil terreno<br>
+
+
+E os humanos subir ao c&eacute;u sereno.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+Isto bem revolvido, determina<br>
+
+
+De ter-lhe aparelhada, l&aacute; no meio<br>
+
+
+Das &aacute;guas, alguma &iacute;nsula divina,<br>
+
+
+Ornada de esmaltado e verde arreio;<br>
+
+
+Que muitas tem no reino, que confina<br>
+
+
+Da m&atilde;e primeira com o terreno seio,<br>
+
+
+Afora as que possui soberanas<br>
+
+
+Para dentro das portas Herculanas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+Ali quer que as aqu&aacute;ticas donzelas<br>
+
+
+Esperem os fort&iacute;ssimos bar&otilde;es,<br>
+
+
+Todas as que t&ecirc;m t&iacute;tulo de belas,<br>
+
+
+Gl&oacute;ria dos olhos, dor dos cora&ccedil;&otilde;es,<br>
+
+
+Com dan&ccedil;as e coreias, porque nelas<br>
+
+
+Influir&aacute; secretas afei&ccedil;&otilde;es,<br>
+
+
+Para com mais vontade trabalharem<br>
+
+
+De contentar, a quem se afei&ccedil;oaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+Tal manha buscou j&aacute;, para que aquele<br>
+
+
+Que de Anquises pariu, bem recebido<br>
+
+
+Fosse no campo que a bovina pele<br>
+
+
+Tomou de espa&ccedil;o, por subtil partido.<br>
+
+
+Seu filho vai buscar, porque s&oacute; nele<br>
+
+
+Tem todo seu poder, fero Cupido,<br>
+
+
+Que assim como naquela empresa antiga<br>
+
+
+Ajudou j&aacute;, nestoutra a ajude e siga.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+No carro ajunta as aves que na vida<br>
+
+
+V&atilde;o da morte as ex&eacute;quias celebrando,<br>
+
+
+E aquelas em que j&aacute; foi convertida<br>
+
+
+Per&iacute;stera, as boninas apanhando.<br>
+
+
+Em derredor da Deusa j&aacute; partida,<br>
+
+
+No ar lascivos beijos se v&atilde;o dando.<br>
+
+
+Ela, por onde passa, o ar e o vento<br>
+
+
+Sereno faz, com brando movimento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+J&aacute; sobre os Id&aacute;lios montes pende,<br>
+
+
+Onde o filho frecheiro estava ent&atilde;o<br>
+
+
+Ajuntando outros muitos, que pretende<br>
+
+
+Fazer uma famosa expedi&ccedil;&atilde;o<br>
+
+
+Contra o mundo rebelde, por que emende<br>
+
+
+Erros grandes, que h&aacute; dias nele est&atilde;o,<br>
+
+
+Amando coisas que nos foram dadas,<br>
+
+
+N&atilde;o para ser amadas, mas usadas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+Via Acteon na ca&ccedil;a t&atilde;o austero,<br>
+
+
+De cego na alegria bruta, insana,<br>
+
+
+Que por seguir um feio animal fero,<br>
+
+
+Foge da gente e bela forma humana;<br>
+
+
+E por castigo quer, doce e severo,<br>
+
+
+Mostrar-lhe a formosura de Diana;<br>
+
+
+E guarde-se n&atilde;o seja ainda comido<br>
+
+
+Desses c&atilde;es que agora ama, e consumido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+E v&ecirc; do mundo todo os principais,<br>
+
+
+Que nenhum no bem p&uacute;blico imagina;<br>
+
+
+V&ecirc; neles que n&atilde;o t&ecirc;m amor a mais<br>
+
+
+Que a si somente, e a quem Fil&aacute;ucia ensina.<br>
+
+
+V&ecirc; que esses que frequentam os reais<br>
+
+
+Pa&ccedil;os, por verdadeira e s&atilde; doutrina<br>
+
+
+Vendem adula&ccedil;&atilde;o, que mal consente<br>
+
+
+Mondar-se o novo trigo florescente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+V&ecirc; que aqueles que devem &agrave; pobreza<br>
+
+
+Amor divino e ao povo caridade,<br>
+
+
+Amam somente mandos e riqueza,<br>
+
+
+Simulando justi&ccedil;a e integridade.<br>
+
+
+Da feia tirania e de aspereza<br>
+
+
+Fazem direito e v&atilde; severidade:<br>
+
+
+Leis em favor do Rei se estabelecem,<br>
+
+
+As em favor do povo s&oacute; perecem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+V&ecirc;, enfim, que ningu&eacute;m ama o que deve,<br>
+
+
+Sen&atilde;o o que somente mal deseja;<br>
+
+
+N&atilde;o quer que tanto tempo se releve<br>
+
+
+O castigo, que duro e justo seja.<br>
+
+
+Seus ministros ajunta, por que leve<br>
+
+
+Ex&eacute;rcitos conformes &agrave; peleja,<br>
+
+
+Que espera ter com a mal regida gente,<br>
+
+
+Que lhe n&atilde;o for agora obediente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+Muitos destes meninos voadores<br>
+
+
+Est&atilde;o em v&aacute;rias obras trabalhando:<br>
+
+
+Uns amolando ferros passadores,<br>
+
+
+Outros &aacute;steas de setas delga&ccedil;ando;<br>
+
+
+Trabalhando, cantando est&atilde;o de amores,<br>
+
+
+V&aacute;rios casos em verso modulando,<br>
+
+
+Melodia sonora e concertada,<br>
+
+
+Suave a letra, ang&eacute;lica a soada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+Nas fr&aacute;goas imortais, onde forjavam<br>
+
+
+Para as setas as pontas penetrantes,<br>
+
+
+Por lenha cora&ccedil;&otilde;es ardendo estavam,<br>
+
+
+Vivas entranhas ainda palpitantes.<br>
+
+
+As &aacute;guas onde os ferros temperavam,<br>
+
+
+L&aacute;grimas s&atilde;o de m&iacute;seros amantes;<br>
+
+
+A viva f lama, o nunca morto lume,<br>
+
+
+Desejo &eacute; s&oacute; que queima, e n&atilde;o consume.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+Alguns exercitando a m&atilde;o andavam<br>
+
+
+Nos duros cora&ccedil;&otilde;es da plebe rude;<br>
+
+
+Crebros suspiros pelo ir soavam<br>
+
+
+Dos que feridos v&atilde;o da seta aguda.<br>
+
+
+Formosas Ninfas s&atilde;o as que curavam<br>
+
+
+As chagas recebidas cuja ajuda<br>
+
+
+N&atilde;o somente d&aacute; vida aos mal feridos,<br>
+
+
+Mas p&otilde;e em vida os ainda n&atilde;o nascidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+Formosas s&atilde;o algumas e outras feias,<br>
+
+
+Segundo a qualidade for das chagas;<br>
+
+
+Que o veneno espalhado pelas veias<br>
+
+
+Curam-no &agrave;s vezes &aacute;speras triagas.<br>
+
+
+Alguns ficam ligados em cadeias,<br>
+
+
+Por palavras subtis de s&aacute;bias magas:<br>
+
+
+Isto acontece &agrave;s vezes, quando as setas<br>
+
+
+Acertam de levar ervas secretas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+Destes tiros assim desordenados,<br>
+
+
+Que estes mo&ccedil;os mal destros v&atilde;o tirando,<br>
+
+
+Nascem amores mil desconcertados<br>
+
+
+Entre o povo ferido miserando;<br>
+
+
+E tamboril nos her&oacute;is de altos estados<br>
+
+
+Exemplos mil se v&ecirc;em de amor nefando,<br>
+
+
+Qual o das mo&ccedil;as B&iacute;bli e Cinireia,<br>
+
+
+Um mancebo de Ass&iacute;ria, um de Judeia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+E v&oacute;s, &oacute; poderosos, por pastoras<br>
+
+
+Muitas vezes ferido o peito vedes;<br>
+
+
+E por baixos e rudos, v&oacute;s, senhoras,<br>
+
+
+Tamb&eacute;m vos tomam nas Vulc&acirc;neas redes.<br>
+
+
+Uns esperando andais noturnas horas,<br>
+
+
+Outros subis telhados e paredes:<br>
+
+
+Mas eu creio que deste amor indino<br>
+
+
+&Eacute; mais culpa a da m&atilde;e que a do menino.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+Mas j&aacute; no verde prado o carro leve<br>
+
+
+Punham os brancos cisnes mansamente,<br>
+
+
+E Dione, que as rosas entro a neve<br>
+
+
+No rosto traz, descia diligente.<br>
+
+
+O frecheiro, que contra o c&eacute;u se atreve,<br>
+
+
+A receb&ecirc;-la vem, ledo e contente;<br>
+
+
+V&ecirc;m todos os Cupidos servidores<br>
+
+
+Beijar a m&atilde;o &agrave; Deusa dos amores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+Ela, por que n&atilde;o gaste o tempo em v&atilde;o,<br>
+
+
+Nos bra&ccedil;os tendo o filho, confiada<br>
+
+
+Lhe diz: "Amado filho, em cuja m&atilde;o<br>
+
+
+Toda minha pot&ecirc;ncia est&aacute; fundada;<br>
+
+
+Filho, em quem minhas for&ccedil;as sempre est&atilde;o;<br>
+
+
+Tu, que as armas Tifeias tens em nada,<br>
+
+
+A socorrer-me a tua potestade<br>
+
+
+Me triz especial necessidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"Bem v&ecirc;s as Lusit&acirc;nicas fadigas,<br>
+
+
+Que eu j&aacute; de muito longe favore&ccedil;o,<br>
+
+
+Porque das Parcas sei, minhas amigas,<br>
+
+
+Que me h&atilde;o de venerar e ter em pre&ccedil;o.<br>
+
+
+E, porque tanto imitam as antigas<br>
+
+
+Obras de meus Romanos, me ofere&ccedil;o<br>
+
+
+A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,<br>
+
+
+A quanto se estender o poder nosso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"E porque das ins&iacute;dias do odioso<br>
+
+
+Baco foram na &Iacute;ndia molestados,<br>
+
+
+E das inj&uacute;rias s&oacute;s do mar undoso<br>
+
+
+Puderam mais ser mortos que cansados,<br>
+
+
+No mesmo mar, que sempre temeroso<br>
+
+
+Lhe foi, quero que sejam repousados,<br>
+
+
+Tomando aquele pr&eacute;mio e doce gl&oacute;ria<br>
+
+
+Do trabalho, que faz clara a mem&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"E para isso queria que, feridas<br>
+
+
+As filhas de Nereu, no ponto fundo,<br>
+
+
+De amor dos Lusitanos incendidas,<br>
+
+
+Que v&ecirc;m de descobrir o novo mundo,<br>
+
+
+Todas numa ilha juntas e subidas,<br>
+
+
+Ilha, que nas entranhas do profundo<br>
+
+
+Oceano terei aparelhada,<br>
+
+
+De dons de Flora e Z&eacute;firo adornada;<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Ali, com mil refrescos e manjares,<br>
+
+
+Com vinhos odor&iacute;feros e rosas,<br>
+
+
+Em cristalinos pa&ccedil;os singulares<br>
+
+
+Formosos leitos, e elas mais formosas;<br>
+
+
+Enfim, com mil deleites n&atilde;o vulgares,<br>
+
+
+Os esperem as Ninfas amorosas,<br>
+
+
+De amor feridas, para lhes entregarem<br>
+
+
+Quanto delas os olhos cobi&ccedil;arem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+"Quero que haja no reino Netunino,<br>
+
+
+Onde eu nasci, prog&eacute;nie forte e bela,<br>
+
+
+E tome exemplo o mundo vil, malino,<br>
+
+
+Que contra tua pot&ecirc;ncia se rebela,<br>
+
+
+Por que entendam que muro adamantino,<br>
+
+
+Nem triste hipocrisia val contra ela:<br>
+
+
+Mal haver&aacute; na terra quem se guarde,<br>
+
+
+Se teu fogo imortal nas &aacute;guas arde."<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+Assim V&eacute;nus prop&ocirc;s, e o filho inieo,<br>
+
+
+Para lhe obedecer, j&aacute; se apercebe:<br>
+
+
+Manda trazer o arco eb&uacute;rneo rico,<br>
+
+
+Onde as setas de ponta de ouro embebe.<br>
+
+
+Com gesto ledo a C&iacute;pria, e impudico,<br>
+
+
+Dentro no carro o filho seu recebe;<br>
+
+
+A r&eacute;dea larga &agrave;s aves, cujo canto<br>
+
+
+A Fact&ocirc;ntea morte chorou tanto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+Mas diz Cupido, que era necess&aacute;ria<br>
+
+
+Uma famosa e c&eacute;lebre terceira,<br>
+
+
+Que, posto que mil vezes lhe &eacute; contr&aacute;ria,<br>
+
+
+Outras muitas a tem por companheira:<br>
+
+
+A Deusa Giganteia, temer&aacute;ria,<br>
+
+
+Jactante, mentirosa, e verdadeira,<br>
+
+
+Que com cem olhos v&ecirc;, e por onde voa,<br>
+
+
+O que v&ecirc;, com mil bocas apregoa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+V&atilde;o-a buscar, e mandam adiante,<br>
+
+
+Que celebrando v&aacute; com tuba clara<br>
+
+
+Os louvores da gente navegante,<br>
+
+
+Mais do que nunca os d'outrem celebrara.<br>
+
+
+J&aacute; murmurando a Fama penetrante<br>
+
+
+Pelas fundas cavernas se espalhara:<br>
+
+
+Fala verdade, havida por verdade,<br>
+
+
+Que junto a Deusa traz Credulidade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+O louvor grande, o rumor excelente<br>
+
+
+No cora&ccedil;&atilde;o dos Deuses, que indignados<br>
+
+
+Foram por Baco contra a ilustre gente,<br>
+
+
+Mudando, os fez um pouco afei&ccedil;oados.<br>
+
+
+O peito feminil, que levemente<br>
+
+
+Muda quaisquer prop&oacute;sitos tomados,<br>
+
+
+J&aacute; julga por mau zelo e por crueza<br>
+
+
+Desejar mal a tanta fortaleza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+Despede nisto o fero mo&ccedil;o as setas<br>
+
+
+Uma ap&oacute;s outra: geme o mar com os tiros;<br>
+
+
+Direitas pelas ondas inquietas<br>
+
+
+Algumas v&atilde;o, e algumas fazem giros;<br>
+
+
+Caem as Ninfas, lan&ccedil;am das secretas<br>
+
+
+Entranhas ardent&iacute;ssimos suspiros;<br>
+
+
+Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:<br>
+
+
+Que tanto, como a vista, pode a fama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+Os cornos ajuntou da eb&uacute;rnea lua<br>
+
+
+Com for&ccedil;a o mo&ccedil;o ind&oacute;mito excessiva,<br>
+
+
+Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,<br>
+
+
+Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.<br>
+
+
+J&aacute; n&atilde;o fica na aljava seta alguma,<br>
+
+
+Nem nos equ&oacute;reos campos Ninfa viva;<br>
+
+
+E se feridas ainda est&atilde;o vivendo,<br>
+
+
+Ser&aacute; para sentir que v&atilde;o morrendo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+Dai lugar, altas e cer&uacute;leas ondas,<br>
+
+
+Que, vedes, V&eacute;nus traz a medicina,<br>
+
+
+Mostrando as brancas velas e redondas,<br>
+
+
+Que v&ecirc;m por cima da &aacute;gua Netunina.<br>
+
+
+Para que tu rec&iacute;proco respondas,<br>
+
+
+Ardente Amor, &agrave; flama feminina,<br>
+
+
+&Eacute;, for&ccedil;ado que a pudic&iacute;cia honesta<br>
+
+
+Fa&ccedil;a quanto lhe V&eacute;nus amoesta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+J&aacute; todo o belo coro se aparelha<br>
+
+
+Das Nereidas, e junto caminhava<br>
+
+
+Em coreias gentis, usan&ccedil;a velha,<br>
+
+
+Para a ilha, a que V&eacute;nus as guiava.<br>
+
+
+Ali a formosa Deusa lhe aconselha<br>
+
+
+O que ela fez mil vezes, quando amava.<br>
+
+
+Elas, que v&atilde;o do doce amor vencidas,<br>
+
+
+Est&atilde;o a seu conselho oferecidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+Cortando v&atilde;o as naus a larga via<br>
+
+
+Do mar ingente para a p&aacute;tria amada,<br>
+
+
+Desejando prover-se de &aacute;gua fria,<br>
+
+
+Para a grande viagem prolongada,<br>
+
+
+Quando juntas, com s&uacute;bita alegria,<br>
+
+
+Houveram vista da ilha namorada,<br>
+
+
+Rompendo pelo c&eacute;u a m&atilde;e formosa<br>
+
+
+De Men&oacute;nio, suave e deleitosa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+De longe a Ilha viram fresca e bela,<br>
+
+
+Que V&eacute;nus pelas ondas lha levava<br>
+
+
+(Bem como o vento leva branca vela)<br>
+
+
+Para onde a forte armada se enxergava;<br>
+
+
+Que, por que n&atilde;o passassem, sem que nela<br>
+
+
+Tomassem porto, como desejava,<br>
+
+
+Para onde as naus navegam a movia<br>
+
+
+A Acid&aacute;lia, que tudo enfim podia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+Mas firme a fez e im&oacute;vel, como viu<br>
+
+
+Que era dos Nautas vista e demandada;<br>
+
+
+Qual ficou Delos, tanto que pariu<br>
+
+
+Latona Febo e a Deusa &agrave; ca&ccedil;a usada.<br>
+
+
+Para l&aacute; logo a proa o mar abriu,<br>
+
+
+Onde a costa fazia uma enseada<br>
+
+
+Curva e quieta, cuja branca areia,<br>
+
+
+Pintou de ruivas conchas Citereia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+Tr&ecirc;s formosos outeiros se mostravam<br>
+
+
+Erguidos com soberba graciosa,<br>
+
+
+Que de gram&iacute;neo esmalte se adornavam..<br>
+
+
+Na formosa ilha alegre e deleitosa;<br>
+
+
+Claras fontes o l&iacute;mpidas manavam<br>
+
+
+Do cume, que a verdura tem vi&ccedil;osa;<br>
+
+
+Por entre pedras alvas se deriva<br>
+
+
+A sonorosa Ninfa fugitiva.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+Num vale ameno, que os outeiros fende,<br>
+
+
+Vinham as claras &aacute;guas ajuntar-se,<br>
+
+
+Onde uma mesa fazem, que se estende<br>
+
+
+T&atilde;o bela quanto pode imaginar-se;<br>
+
+
+Arvoredo gentil sobre ela pende,<br>
+
+
+Como que pronto est&aacute; para afeitar-se,<br>
+
+
+Vendo-se no cristal resplandecente,<br>
+
+
+Que em si o est&aacute; pintando propriamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+Mil &aacute;rvores est&atilde;o ao c&eacute;u subindo,<br>
+
+
+Com pomos odor&iacute;feros e belos:<br>
+
+
+A laranjeira tem no fruto lindo<br>
+
+
+A cor que tinha Dafne nos cabelos;<br>
+
+
+Encosta-se no ch&atilde;o, que est&aacute; caindo,<br>
+
+
+A cidreira com os pesos amarelos;<br>
+
+
+Os formosos lim&otilde;es ali, cheirando,<br>
+
+
+Est&atilde;o virg&iacute;neas tetas imitando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+As &aacute;rvores agrestes que os outeiros<br>
+
+
+T&ecirc;m com frondente coma enobrecidos,<br>
+
+
+Alemos s&atilde;o de Alcides, e os loureiros<br>
+
+
+Do louro Deus amados e queridos;<br>
+
+
+Mirtos de Citereia, com os pinheiros<br>
+
+
+De Cibele, por outro amor vencidos;<br>
+
+
+Est&aacute; apontando o agudo cipariso<br>
+
+
+Para onde &eacute; posto o et&eacute;reo para&iacute;so.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+Os dons que d&aacute; Pomona, ali Natura<br>
+
+
+Produz diferentes nos sabores,<br>
+
+
+Sem ter necessidade de cultura,<br>
+
+
+Que sem ela se d&atilde;o muito melhores:<br>
+
+
+As cerejas purp&uacute;reas na pintura,<br>
+
+
+As amoras, que o nome t&ecirc;m de amores,<br>
+
+
+O pomo que da p&aacute;tria P&eacute;rsia veio,<br>
+
+
+Melhor tornado no terreno alheio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+Abre a rom&atilde;, mostrando a rubicunda<br>
+
+
+Cor, com que tu, rubi, teu pre&ccedil;o perdes;<br>
+
+
+Entre os bra&ccedil;os do ulmeiro est&aacute; a jocunda<br>
+
+
+Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;<br>
+
+
+E v&oacute;s, se na vossa &aacute;rvore fecunda,<br>
+
+
+Peras piramidais, viver quiserdes,<br>
+
+
+Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,<br>
+
+
+Em v&oacute;s fazem os p&aacute;ssaros inicos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+Pois a tape&ccedil;aria bela e fina,<br>
+
+
+Com que se cobre o r&uacute;stico terreno,<br>
+
+
+Faz ser a de Aquem&eacute;nia menos diria,<br>
+
+
+Mas o sombrio vale mais ameno.<br>
+
+
+Ali a cabe&ccedil;a a flor Cif&iacute;sia inclina<br>
+
+
+S&ocirc;bolo tanque l&uacute;cido e sereno;<br>
+
+
+Floresce o filho e neto de Ciniras,<br>
+
+
+Por quem tu, Deusa P&aacute;fia, inda suspiras.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+Para julgar, dif&iacute;cil coisa fora,<br>
+
+
+No c&eacute;u vendo e na terra as mesmas cores,<br>
+
+
+Se dava &agrave;s flores cor a bela Aurora,<br>
+
+
+Ou se lha d&atilde;o a ela as belas flores.<br>
+
+
+Pintando estava ali Z&eacute;firo e Flora<br>
+
+
+As violas da cor dos amadores;<br>
+
+
+O l&iacute;rio roxo, a fresca rosa bela,<br>
+
+
+Qual reluz nas faces da donzela;<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+A c&acirc;ndida cec&eacute;m, das matutinas<br>
+
+
+L&aacute;grimas rociada, e a manjarona.<br>
+
+
+V&ecirc;em-se as letras nas flores Hiacintinas,<br>
+
+
+T&atilde;o queridas do filho de Latona.<br>
+
+
+Bem se enxerga nos pomos e boninas<br>
+
+
+Que competia Cloris com Pomona.<br>
+
+
+Pois se as aves no ar cantando voam,<br>
+
+
+Alegres animais o ch&atilde;o povoam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+Ao longo da &aacute;gua o n&iacute;veo cisne canta,<br>
+
+
+Responde-lhe do ramo filomela;<br>
+
+
+Da sombra de seus cornos n&atilde;o se espanta<br>
+
+
+Acteon, n'&aacute;gua cristalina e bela;<br>
+
+
+Aqui a fugace lebre se levanta<br>
+
+
+Da espessa mata, ou t&iacute;mida gazela;<br>
+
+
+Ali no bico traz ao caro ninho<br>
+
+
+O mantimento o leve passarinho.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+Nesta frescura tal desembarcavam<br>
+
+
+J&aacute; das naus os segundos Argonautas,<br>
+
+
+Onde pela floresta se deixavam<br>
+
+
+Andar as belas Deusas, como incautas.<br>
+
+
+Algumas doces c&iacute;taras tocavam,<br>
+
+
+Algumas harpas e sonoras flautas,<br>
+
+
+Outras com os arcos de ouro se fingiam<br>
+
+
+Seguir os animais, que n&atilde;o seguiam.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+Assim lhe aconselhara a mestra experta;<br>
+
+
+Que andassem pelos campos espalhadas;<br>
+
+
+Que, vista dos bar&otilde;es a presa incerta,<br>
+
+
+Se fizessem primeiro desejadas.<br>
+
+
+Algumas, que na forma descoberta<br>
+
+
+Do belo corpo estavam confiadas,<br>
+
+
+Posta a artificiosa formosura,<br>
+
+
+Nuas lavar-se deixam na &aacute;gua pura,<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+Mas os fortes mancebos, que na praia<br>
+
+
+Punham os p&eacute;s, de terra cobi&ccedil;osos,<br>
+
+
+Que n&atilde;o h&aacute; nenhum deles que n&atilde;o saia<br>
+
+
+De acharem ca&ccedil;a agreste desejosos,<br>
+
+
+N&atilde;o cuidam que, sem la&ccedil;o ou redes, caia<br>
+
+
+Ca&ccedil;a naqueles montes deleitosos,<br>
+
+
+T&atilde;o suave, dom&eacute;stica e benigna,<br>
+
+
+Qual ferida lha tinha j&aacute; Ericina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+Alguns, que em espingardas e nas bestas,<br>
+
+
+Para ferir os cervos se fiavam,<br>
+
+
+Pelos sombrios matos e florestas<br>
+
+
+Determinadamente se lan&ccedil;avam:<br>
+
+
+Outros, nas sombras, que de as altas sestas<br>
+
+
+Defendem a verdura, passeavam<br>
+
+
+Ao longo da &aacute;gua que, suave e queda,<br>
+
+
+Por alvas pedras corre &agrave; praia leda.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+Come&ccedil;am de enxergar subitamente<br>
+
+
+Por entre verdes ramos v&aacute;rias cores,<br>
+
+
+Cores de quem a vista julga e sente<br>
+
+
+Que n&atilde;o eram das rosas ou das flores,<br>
+
+
+Mas da l&atilde; fina e seda diferente,<br>
+
+
+Que mais incita a for&ccedil;a dos amores,<br>
+
+
+De que se vestem as humanas rosas,<br>
+
+
+Fazendo-se por arte mais formosas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+D&aacute; Veloso espantado um grande grito:<br>
+
+
+"Senhores, ca&ccedil;a estranha, disse, &eacute; esta!<br>
+
+
+Se ainda dura o Gentio antigo rito,<br>
+
+
+A Deusas &eacute; sagrada esta floresta.<br>
+
+
+Mais descobrimos do que humano esp&iacute;rito<br>
+
+
+Desejou nunca; e bem se manifesta<br>
+
+
+Que s&atilde;o grandes as coisas e excelentes,<br>
+
+
+Que o mundo encobre aos homens imprudentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Sigamos estas Deusas, e vejamos<br>
+
+
+Se fant&aacute;sticas s&atilde;o, se verdadeiras."<br>
+
+
+Isto dito, velozes mais que gamos,<br>
+
+
+Se lan&ccedil;am a correr pelas ribeiras.<br>
+
+
+Fugindo as Ninfas v&atilde;o por entre os ramos,<br>
+
+
+Mas, mais industriosas que ligeiras,<br>
+
+
+Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,<br>
+
+
+Se deixam ir dos galgos alcan&ccedil;ando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+De uma os cabelos de ouro o vento leva<br>
+
+
+Correndo, e de outra as fraldas delicadas;<br>
+
+
+Acende-se o desejo, que se ceva<br>
+
+
+Nas alvas carnes s&uacute;bito mostradas;<br>
+
+
+Uma de ind&uacute;stria cai, e j&aacute; releva,<br>
+
+
+Com mostras mais macias que indignadas,<br>
+
+
+Que sobre ela, empecendo, tamb&eacute;m caia<br>
+
+
+Quem a seguiu pela arenosa praia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+Outros, por outra parte, v&atilde;o topar<br>
+
+
+Com as Deusas despidas, que se lavam:<br>
+
+
+Elas come&ccedil;am s&uacute;bito a gritar,<br>
+
+
+Como que assalto tal n&atilde;o esperavam.<br>
+
+
+Umas, fingindo menos estimar<br>
+
+
+A vergonha que a for&ccedil;a, se lan&ccedil;avam<br>
+
+
+Nuas por entre o mato, aos olhos dando<br>
+
+
+O que &agrave;s m&atilde;os cobi&ccedil;osas v&atilde;o
+negando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+Outra, como acudindo mais depressa<br>
+
+
+A vergonha da Deusa ca&ccedil;adora,<br>
+
+
+Esconde o corpo n'&aacute;gua; outra se apressa<br>
+
+
+Por tomar os vestidos, que tem fora.<br>
+
+
+Tal dos mancebos h&aacute;, que se arremessa,<br>
+
+
+Vestido assim e cal&ccedil;ado (que, coa mora<br>
+
+
+De se despir, h&aacute; medo que ainda tarde)<br>
+
+
+A matar na &aacute;gua o fogo que nele arde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+Qual c&atilde;o de ca&ccedil;ador, sagaz e ardido,<br>
+
+
+Usado a tomar na &aacute;gua a ave ferida,<br>
+
+
+Vendo no rosto o f&eacute;rreo cano erguido<br>
+
+
+Para a garcenha ou pata conhecida,<br>
+
+
+Antes que soe o estouro, mal sofrido<br>
+
+
+Salta n'&aacute;gua, e da presa n&atilde;o duvida,<br>
+
+
+Nadando vai e latindo: assim o mancebo<br>
+
+
+Remete &agrave; que n&atilde;o era irm&atilde; de Febo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+Leonardo, soldado bem disposto,<br>
+
+
+Manhoso, cavaleiro e namorado,<br>
+
+
+A quem amor n&atilde;o dera um s&oacute; desgosto,<br>
+
+
+Mas sempre fora dele maltratado,<br>
+
+
+E tinha j&aacute; por firme pressuposto<br>
+
+
+Ser com amores mal afortunado,<br>
+
+
+Por&eacute;m n&atilde;o que perdesse a esperan&ccedil;a<br>
+
+
+De ainda poder seu fado ter mudan&ccedil;a,<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+Quis aqui sua ventura, que corria<br>
+
+
+Ap&oacute;s Efire, exemplo de beleza,<br>
+
+
+Que mais caro que as outras dar queria<br>
+
+
+O que deu para dar-se a natureza.<br>
+
+
+J&aacute; cansado correndo lhe dizia:<br>
+
+
+"&Oacute; formosura indigna de aspereza,<br>
+
+
+Pois desta vida te concedo a palma,<br>
+
+
+Espera um corpo de quem levas a alma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+"Todas de correr cansam, Ninfa pura,<br>
+
+
+Rendendo-se &agrave; vontade do inimigo,<br>
+
+
+Tu s&oacute; de mi s&oacute; foges na espessura?<br>
+
+
+Quem te disse que eu era o que te sigo?<br>
+
+
+Se to tem dito j&aacute; aquela ventura,<br>
+
+
+Que em toda a parte sempre anda comigo,<br>
+
+
+&Oacute; n&atilde;o na creias, porque eu, quando a cria,<br>
+
+
+Mil vezes cada hora me mentia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+"N&atilde;o canses, que me cansas: e se queres<br>
+
+
+Fugir-me, por que n&atilde;o possa tocar-te,<br>
+
+
+Minha ventura &eacute; tal que, ainda que esperes,<br>
+
+
+Ela far&aacute; que n&atilde;o possa alcan&ccedil;ar-te.<br>
+
+
+Espora; quero ver, se tu quiseres,<br>
+
+
+Que subtil modo busca de escapar-te,<br>
+
+
+E notar&aacute;s, no fim deste sucesso,<br>
+
+
+Tra la spica e la man, qual muro &egrave; messo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+"&Oacute; n&atilde;o me fujas! Assim nunca o breve<br>
+
+
+Tempo fuja de tua formosura!<br>
+
+
+Que, s&oacute; com refrear o passo leve,<br>
+
+
+Vencer&aacute;s da fortuna a for&ccedil;a dura.<br>
+
+
+Que Imperador, que ex&eacute;rcito se atreve<br>
+
+
+A quebrantar a f&uacute;ria da ventura,<br>
+
+
+Que, em quanto desejei, me vai seguindo,<br>
+
+
+O que tu s&oacute; far&aacute;s n&atilde;o me fugindo!<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"P&otilde;es-te da parte da desdita minha?<br>
+
+
+Fraqueza &eacute; dar ajuda ao mais potente.<br>
+
+
+Levas-me um cora&ccedil;&atilde;o, que livre tinha?<br>
+
+
+Solta-me, e correr&aacute;s mais levemente.<br>
+
+
+N&atilde;o te carrega essa alma t&atilde;o mesquinha,<br>
+
+
+Que nesses fios de ouro reluzente<br>
+
+
+Atada levas? Ou, depois de presa,<br>
+
+
+Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"Nesta esperan&ccedil;a s&oacute; te vou seguindo:<br>
+
+
+Que, ou tu n&atilde;o sofrer&aacute;s o peso dela,<br>
+
+
+Ou na virtude de teu gesto lindo<br>
+
+
+Lhe mudar&aacute;s a triste e dura estrela:<br>
+
+
+E se se lhe mudar, n&atilde;o v&aacute;s fugindo,<br>
+
+
+Que Amor te ferir&aacute;, gentil donzela,<br>
+
+
+E tu me esperar&aacute;s, se Amor te fere:<br>
+
+
+E se me esperas, n&atilde;o h&aacute; mais que espere."<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+J&aacute; n&atilde;o fugia a bela Ninfa, tanto<br>
+
+
+Por se dar cara ao triste que a seguia,<br>
+
+
+Como por ir ouvindo o doce canto,<br>
+
+
+As namoradas m&aacute;goas que dizia.<br>
+
+
+Volvendo o rosto j&aacute; sereno e santo,<br>
+
+
+Toda banhada em riso e alegria,<br>
+
+
+Cair se deixa aos p&eacute;s do vencedor,<br>
+
+
+Que todo se desfaz em puro amor.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+&Oacute; que famintos beijos na floresta,<br>
+
+
+E que mimoso choro que soava!<br>
+
+
+Que afagos t&atilde;o suaves, que ira honesta,<br>
+
+
+Que em risinhos alegres se tornava!<br>
+
+
+O que mais passam na manh&atilde;, e na sesta,<br>
+
+
+Que V&eacute;nus com prazeres inflamava,<br>
+
+
+Melhor &eacute; experiment&aacute;-lo que julg&aacute;-lo,<br>
+
+
+Mas julgue-o quem n&atilde;o pode experiment&aacute;-lo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+Desta arte enfim conformes j&aacute; as formosas<br>
+
+
+Ninfas com os seus amados navegantes,<br>
+
+
+Os ornam de capelas deleitosas<br>
+
+
+De louro, e de ouro, e flores abundantes.<br>
+
+
+As m&atilde;os alvas lhes davam como esposas;<br>
+
+
+Com palavras formais e estipulantes<br>
+
+
+Se prometem eterna companhia<br>
+
+
+Em vida e morte, de honra e alegria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+Uma delas maior, a quem se humilha<br>
+
+
+Todo o coro das Ninfas, e obedece,<br>
+
+
+Que dizem ser de Celo e Vesta filha,<br>
+
+
+O que no gesto belo se parece,<br>
+
+
+Enchendo a terra e o mar de maravilha,<br>
+
+
+O Capit&atilde;o ilustre, que o merece,<br>
+
+
+Recebe ali com pompa honesta e r&eacute;gia,<br>
+
+
+Mostrando-se senhora grande e egr&eacute;gia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+Que, depois de lhe ter dito quem era,<br>
+
+
+Com um alto ex&oacute;rdio, de alta gra&ccedil;a ornado,<br>
+
+
+Dando-lhe a entender que ali viera<br>
+
+
+Por alta influi&ccedil;&atilde;o do im&oacute;vel fado,<br>
+
+
+Para lhe descobrir da unida esfera<br>
+
+
+Da terra imensa, e mar n&atilde;o navegado,<br>
+
+
+Os segredos, por alta profecia,<br>
+
+
+O que esta sua na&ccedil;&atilde;o s&oacute; merecia,<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+Tomando-o pela m&atilde;o, o leva e guia<br>
+
+
+Para o cume dum monte alto e divino,<br>
+
+
+No qual uma rica f&aacute;brica se erguia<br>
+
+
+De cristal toda, e de ouro puro e fino.<br>
+
+
+A maior parte aqui passam do dia<br>
+
+
+Em doces jogos e em prazer contino:<br>
+
+
+Ela nos pa&ccedil;os logra seus amores,<br>
+
+
+As outras pelas sombras entre as flores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+Assim a formosa e a forte companhia<br>
+
+
+O dia quase todo est&atilde;o passando,<br>
+
+
+Numa alma, doce, inc&oacute;gnita alegria,<br>
+
+
+Os trabalhos t&atilde;o longos compensando.<br>
+
+
+Porque dos feitos grandes, da ousadia<br>
+
+
+Forte e famosa, o mundo est&aacute; guardando<br>
+
+
+O pr&eacute;mio l&aacute; no fim, bem merecido,<br>
+
+
+Com fama grande e nome alto e subido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+Que as Ninfas do Oceano t&atilde;o formosas,<br>
+
+
+Tethys, e a ilha ang&eacute;lica pintada,<br>
+
+
+Outra coisa n&atilde;o &eacute; que as deleitosas<br>
+
+
+Honras que a vida fazem sublimada.<br>
+
+
+Aquelas proemin&ecirc;ncias gloriosas,<br>
+
+
+Os triunfos, a fronte coroada<br>
+
+
+De palma e louro, a gl&oacute;ria e maravilha:<br>
+
+
+Estes s&atilde;o os deleites desta ilha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+Que as imortalidades que fingia<br>
+
+
+A antiguidade, que os ilustres ama,<br>
+
+
+L&aacute; no estelante Olimpo, a quem subia<br>
+
+
+Sobre as asas &iacute;nclitas da Fama,<br>
+
+
+Por obras valorosas que fazia,<br>
+
+
+Pelo trabalho imenso que se chama<br>
+
+
+Caminho da virtude alto e fragoso,<br>
+
+
+Mas no fim doce, alegre e deleitoso:<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+N&atilde;o eram sen&atilde;o pr&eacute;mios que reparte<br>
+
+
+Por feitos imortais e soberanos<br>
+
+
+O mundo com os var&otilde;es, que esfor&ccedil;o e arte<br>
+
+
+Divinos os fizeram, sendo humanos.<br>
+
+
+Que J&uacute;piter, Merc&uacute;rio, Febo e Marte,<br>
+
+
+Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,<br>
+
+
+Ceres, Palas e Juno, com Diana,<br>
+
+
+Todos foram de fraca carne humana.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+Mas a Fama, trombeta de obras tais,<br>
+
+
+Lhe deu no mundo nomes t&atilde;o estranhos<br>
+
+
+De Deuses, Semideuses imortais,<br>
+
+
+Ind&iacute;getes, Her&oacute;icos e de Magnos.<br>
+
+
+Por isso, &oacute; v&oacute;s que as famas estimais,<br>
+
+
+Se quiserdes no mundo ser tamanhos,<br>
+
+
+Despertai j&aacute; do sono do &oacute;cio ignavo,<br>
+
+
+Que o &acirc;nimo de livre faz escravo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+E ponde na cobi&ccedil;a um freio duro,<br>
+
+
+E na ambi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m, que indignamente<br>
+
+
+Tomais mil vezes, e no torpe e escuro<br>
+
+
+V&iacute;cio da tirania infame e urgente;<br>
+
+
+Porque essas honras v&atilde;s, esse ouro puro<br>
+
+
+Verdadeiro valor n&atilde;o d&atilde;o &agrave; gente:<br>
+
+
+Melhor &eacute;, merec&ecirc;-los sem os ter,<br>
+
+
+Que possu&iacute;-los sem os merecer.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+Ou dai na paz as leis iguais, constantes,<br>
+
+
+Que aos grandes n&atilde;o d&ecirc;em o dos pequenos;<br>
+
+
+Ou vos vesti nas armas rutilantes,<br>
+
+
+Contra a lei dos inimigos Sarracenos:<br>
+
+
+Fareis os Reinos grandes e possantes,<br>
+
+
+E todos tereis mais, o nenhum menos;<br>
+
+
+Possuireis riquezas merecidas,<br>
+
+
+Com as honras, que ilustram tanto as vidas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+E fareis claro o Rei, que tanto amais,<br>
+
+
+Agora com os conselhos bem cuidados,<br>
+
+
+Agora com as espadas, que imortais<br>
+
+
+Vos far&atilde;o, como os vossos j&aacute; passados;<br>
+
+
+Impossibilidades n&atilde;o fa&ccedil;ais,<br>
+
+
+Que quem quis sempre p&ocirc;de; e numerados<br>
+
+
+Sereis entre os Her&oacute;is esclarecidos,<br>
+
+
+E nesta Ilha de V&eacute;nus recebidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+<h3>Canto D&eacute;cimo</h3>
+
+
+<br>
+
+
+1<br>
+
+
+Mas j&aacute; o claro amador da Lariss&eacute;ia<br>
+
+
+Ad&uacute;ltera inclinava os animais<br>
+
+
+L&aacute; pera o grande lago que rodeia<br>
+
+
+Temistit&atilde;o, nos fins Ocidentais;<br>
+
+
+O grande ardor do Sol Fav&oacute;nio enfreia<br>
+
+
+Co sopro que nos tanques naturais<br>
+
+
+Encrespa a &aacute;gua serena e despertava<br>
+
+
+Os l&iacute;rios e jasmins, que a calma agrava,<br>
+
+
+<br>
+
+
+2<br>
+
+
+Quando as fermosas Ninfas, cos amantes<br>
+
+
+Pela m&atilde;o, j&aacute; conformes e contentes,<br>
+
+
+Subiam pera os pa&ccedil;os radiantes<br>
+
+
+E de metais ornados reluzentes,<br>
+
+
+Mandados da Rainha, que abundantes<br>
+
+
+Mesas d'altos manjares excelentes<br>
+
+
+Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza<br>
+
+
+Restaurem da cansada natureza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+3<br>
+
+
+Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,<br>
+
+
+Se assentam dous e dous, amante e dama;<br>
+
+
+Noutras, &agrave; cabeceira, d'ouro finas,<br>
+
+
+Est&aacute; co a bela Deusa o claro Gama.<br>
+
+
+De iguarias suaves e divinas,<br>
+
+
+A quem n&atilde;o chega a Eg&iacute;pcia antiga fama,<br>
+
+
+Se acumulam os pratos de fulvo ouro,<br>
+
+
+Trazidos l&aacute; do Atl&acirc;ntico tesouro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+4<br>
+
+
+Os vinhos odor&iacute;feros, que acima<br>
+
+
+Est&atilde;o n&atilde;o s&oacute; do It&aacute;lico
+Falerno<br>
+
+
+Mas da Ambr&oacute;sia, que Jove tanto estima<br>
+
+
+Com todo o ajuntamento sempiterno,<br>
+
+
+Nos vasos, onde em v&atilde;o trabalha a lima,<br>
+
+
+Crespas escumas erguem, que no interno<br>
+
+
+Cora&ccedil;&atilde;o movem s&uacute;bita alegria,<br>
+
+
+Saltando co a mistura d'&aacute;gua fria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+5<br>
+
+
+Mil pr&aacute;ticas alegres se tocavam;<br>
+
+
+Risos doces, sutis e argutos ditos,<br>
+
+
+Que entre um e outro manjar se ale vantavam,<br>
+
+
+Despertando os alegres apetitos;<br>
+
+
+M&uacute;sicos instrumentos n&atilde;o faltavam<br>
+
+
+(Quais, no profundo Reino, os nus espritos<br>
+
+
+Fizeram descansar da eterna pena)<br>
+
+
+C&uuml;a voz d&uuml;a ang&eacute;lica Sirena.<br>
+
+
+<br>
+
+
+6<br>
+
+
+Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,<br>
+
+
+Que pelos altos pa&ccedil;os v&atilde;o soando,<br>
+
+
+Em conson&acirc;ncia igual, os instumentos<br>
+
+
+Suaves v&ecirc;m a um tempo conformando.<br>
+
+
+Um s&uacute;bito sil&ecirc;ncio enfreia os ventos<br>
+
+
+E faz ir docemente murmurando<br>
+
+
+As &aacute;guas, e nas casas naturais<br>
+
+
+Adormecer os brutos animais.<br>
+
+
+<br>
+
+
+7<br>
+
+
+Com doce voz est&aacute; subindo ao C&eacute;u<br>
+
+
+Altos var&otilde;es que est&atilde;o por vir ao mundo,<br>
+
+
+Cujas claras Ideias viu Proteu<br>
+
+
+Num globo v&atilde;o, di&aacute;fano, rotundo,<br>
+
+
+Que J&uacute;piter em dom lho concedeu<br>
+
+
+Em sonhos, e despois no Reino fundo,<br>
+
+
+Vaticinando, o disse, e na mem&oacute;ria<br>
+
+
+Recolheu logo a Ninfa a clara hist&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+8<br>
+
+
+Mat&eacute;ria &eacute; de coturno, e n&atilde;o de soco,<br>
+
+
+A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;<br>
+
+
+Qual Iopas n&atilde;o soube, ou Demodoco,<br>
+
+
+Entre os Feaces um, outro em Cartago.<br>
+
+
+Aqui, minha Cal&iacute;ope, te invoco<br>
+
+
+Neste trabalho extremo, por que em pago<br>
+
+
+Me tornes do que escrevo, e em v&atilde;o pretendo,<br>
+
+
+O gosto de escrever, que vou perdendo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+9<br>
+
+
+V&atilde;o os anos descendo, e j&aacute; do Estio<br>
+
+
+H&aacute; pouco que passar at&eacute; o Outono;<br>
+
+
+A Fortuna me faz o engenho frio,<br>
+
+
+Do qual j&aacute; n&atilde;o me jacto nem me abono;<br>
+
+
+Os desgostos me v&atilde;o levando ao rio<br>
+
+
+Do negro esquecimento e eterno sono.<br>
+
+
+Mas tu me d&aacute; que cumpra, &oacute; gr&atilde;o rainha<br>
+
+
+Das Musas, co que quero &agrave; na&ccedil;&atilde;o minha!<br>
+
+
+<br>
+
+
+10<br>
+
+
+Cantava a bela Deusa que viriam<br>
+
+
+Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,<br>
+
+
+Armadas que as ribeiras venceriam<br>
+
+
+Por onde o Oceano &Iacute;ndico suspira;<br>
+
+
+E que os Gentios Reis que n&atilde;o dariam<br>
+
+
+A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira<br>
+
+
+Provariam do bra&ccedil;o duro e forte,<br>
+
+
+At&eacute; render-se a ele ou logo &agrave; morte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+11<br>
+
+
+Cantava dum que tem nos Malabares<br>
+
+
+Do sumo sacerd&oacute;cio a dignidade,<br>
+
+
+Que, s&oacute; por n&atilde;o quebrar cos singulares<br>
+
+
+Bar&otilde;es os n&oacute;s que dera d'amizade,<br>
+
+
+Sofrer&aacute; suas cidades e lugares,<br>
+
+
+Com ferro, inc&ecirc;ndios, ira e crueldade,<br>
+
+
+Ver destruir do Samorim potente,<br>
+
+
+Que tais &oacute;dios ter&aacute; co a nova gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+12<br>
+
+
+E canta como l&aacute; se embarcaria<br>
+
+
+Em Bel&eacute;m o rem&eacute;dio deste dano,<br>
+
+
+Sem saber o que em si ao mar traria,<br>
+
+
+O gr&atilde;o Pacheco, Aquiles Lusitano.<br>
+
+
+O peso sentir&atilde;o, quando entraria,<br>
+
+
+O curvo lenho e o f&eacute;rvido Oceano,<br>
+
+
+Quando mais n'&aacute;gua os troncos que gemerem<br>
+
+
+Contra sua natureza se meterem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+13<br>
+
+
+Mas, j&aacute; chegado aos fins Orientais<br>
+
+
+E deixado em ajuda do gentio Rei de<br>
+
+
+Cochim, com poucos naturais,<br>
+
+
+Nos bra&ccedil;os do salgado e curvo rio<br>
+
+
+Desbaratar&aacute; os Naires infernais<br>
+
+
+No passo Cambal&atilde;o, tornando frio<br>
+
+
+D'espanto o ardor imenso do Oriente,<br>
+
+
+Que ver&aacute; tanto obrar t&atilde;o pouca gente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+14<br>
+
+
+Chamar&aacute; o Samorim mais gente nova;<br>
+
+
+Vir&atilde;o Reis [de] Bipur e de Tanor,<br>
+
+
+Das serras de Narsinga, que alta prova<br>
+
+
+Estar&atilde;o prometendo a seu senhor;<br>
+
+
+Far&aacute; que todo o Naire, enfim, se mova<br>
+
+
+Que entre Calecu jaz e Cananor,<br>
+
+
+D'ambas as Leis imigas pera a guerra:<br>
+
+
+Mouros por mar, Gentios pola terra.<br>
+
+
+<br>
+
+
+15<br>
+
+
+E todos outra vez desbaratando,<br>
+
+
+Por terra e mar, o gr&atilde;o Pacheco ousado,<br>
+
+
+A grande multid&atilde;o que ir&aacute; matando<br>
+
+
+A todo o Malabar ter&aacute; admirado.<br>
+
+
+Cometer&aacute; outra vez, n&atilde;o dilatando,<br>
+
+
+O Gentio os combates, apressado,<br>
+
+
+Injuriando os seus, fazendo votos<br>
+
+
+Em v&atilde;o aos Deuses v&atilde;os, surdos e imotos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+16<br>
+
+
+J&aacute; n&atilde;o defender&aacute; somente os passos,<br>
+
+
+Mas queimar-lhe-&aacute; lugares, templos, casas;<br>
+
+
+Aceso de ira, o C&atilde;o, n&atilde;o vendo lassos<br>
+
+
+Aqueles que as cidades fazem rasas,<br>
+
+
+Far&aacute; que os seus, de vida pouco escassos,<br>
+
+
+Cometam o Pacheco, que tem asas,<br>
+
+
+Por dous passos num tempo; mas voando<br>
+
+
+Dum noutro, tudo ir&aacute; desbaratando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+17<br>
+
+
+Vir&aacute; ali o Samorim, por que em pessoa<br>
+
+
+Veja a batalha e os seus esforce e anime;<br>
+
+
+Mas um tiro, que com zunido voa,<br>
+
+
+De sangue o tingir&aacute; no andor sublime.<br>
+
+
+J&aacute; n&atilde;o ver&aacute; rem&eacute;dio ou
+manha boa<br>
+
+
+Nem for&ccedil;a que o Pacheco muito estime;<br>
+
+
+Inventar&aacute; trai&ccedil;&otilde;es e v&atilde;os
+venenos,<br>
+
+
+Mas sempre (o C&eacute;u querendo) far&aacute; menos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+18<br>
+
+
+Que tornar&aacute; a vez s&eacute;tima (cantava)<br>
+
+
+Pelejar co invicto e forte Luso,<br>
+
+
+A quem nenhum trabalho pesa e agrava;<br>
+
+
+Mas, contudo, este s&oacute; o far&aacute; confuso.<br>
+
+
+Trar&aacute; pera a batalha, horrenda e brava,<br>
+
+
+M&aacute;quinas de madeiros fora de uso,<br>
+
+
+Pera lhe abalroar as caravelas,<br>
+
+
+Que at&eacute;'li v&atilde;o lhe fora comet&ecirc;-las.<br>
+
+
+<br>
+
+
+19<br>
+
+
+Pela &aacute;gua levar&aacute; serras de fogo<br>
+
+
+Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;<br>
+
+
+Mas a militar arte e engenho logo<br>
+
+
+Far&aacute; ser v&atilde; a braveza com que venha.<br>
+
+
+&mdash;"Nenhum claro bar&atilde;o no M&aacute;rcio jogo,<br>
+
+
+Que nas asas da Fama se sustenha,<br>
+
+
+Chega a este, que a palma a todos toma.<br>
+
+
+E perdoe-me a ilustre Gr&eacute;cia ou Roma.<br>
+
+
+<br>
+
+
+20<br>
+
+
+"Porque tantas batalhas, sustentadas<br>
+
+
+Com muito pouco mais de cem soldados,<br>
+
+
+Com tantas manhas e artes inventadas,<br>
+
+
+Tantos C&atilde;es n&atilde;o imbeles profligados,<br>
+
+
+Ou parecer&atilde;o f&aacute;bulas sonhadas,<br>
+
+
+Ou que os celestes Coros, invocados,<br>
+
+
+Decer&atilde;o a ajud&aacute;-lo e lhe dar&atilde;o<br>
+
+
+Esfor&ccedil;o, for&ccedil;a, ardil e
+cora&ccedil;&atilde;o.<br>
+
+
+<br>
+
+
+21<br>
+
+
+"Aquele que nos campos Marat&oacute;nios<br>
+
+
+O gr&atilde;o poder de D&aacute;rio estrui e rende,<br>
+
+
+Ou quem, com quatro mil Lacedem&oacute;nios,<br>
+
+
+O passo de Term&oacute;pilas defende,<br>
+
+
+Nem o mancebo Cocles dos Aus&oacute;nios,<br>
+
+
+Que com todo o poder Tusco contende<br>
+
+
+Em defensa da ponte, ou Quinto F&aacute;bio,<br>
+
+
+Foi como este na guerra forte e s&aacute;bio."<br>
+
+
+<br>
+
+
+22<br>
+
+
+Mas neste passo a Ninfa, o som canoro<br>
+
+
+Abaxando, fez ronco e entristecido,<br>
+
+
+Cantando em baxa voz, envolta em choro,<br>
+
+
+O grande esfor&ccedil;o mal agardecido.<br>
+
+
+&mdash;"&Oacute; Belis&aacute;rio (disse) que no coro<br>
+
+
+Das Musas ser&aacute;s sempre engrandecido,<br>
+
+
+Se em ti viste abatido o bravo Marte,<br>
+
+
+Aqui tens com quem podes consolar-te!<br>
+
+
+<br>
+
+
+23<br>
+
+
+"Aqui tens companheiro, assi nos feitos<br>
+
+
+Como no galard&atilde;o injusto e duro;<br>
+
+
+Em ti e nele veremos altos peitos<br>
+
+
+A baxo estado vir, humilde e escuro.<br>
+
+
+Morrer nos hospitais, em pobres leitos,<br>
+
+
+Os que ao Rei e &agrave; Lei servem de muro!<br>
+
+
+Isto fazem os Reis cuja vontade<br>
+
+
+Manda mais que a justi&ccedil;a e que a verdade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+24<br>
+
+
+"Isto fazem os Reis quando embebidos<br>
+
+
+N&uuml;a apar&ecirc;ncia branda que os contenta<br>
+
+
+D&atilde;o os pr&eacute;mios, de Aiace merecidos,<br>
+
+
+&Agrave; l&iacute;ngua v&atilde; de Ulisses, fraudulenta.<br>
+
+
+Mas vingo-me: que os bens mal repartidos<br>
+
+
+Por quem s&oacute; doces sombras apresenta,<br>
+
+
+Se n&atilde;o os d&atilde;o a s&aacute;bios cavaleiros,<br>
+
+
+D&atilde;o-os logo a avarentos lisonjeiros.<br>
+
+
+<br>
+
+
+25<br>
+
+
+"Mas tu, de quem ficou t&atilde;o mal pagado<br>
+
+
+Um tal vassalo, &oacute; Rei, s&oacute; nisto inico,<br>
+
+
+Se n&atilde;o &eacute;s pera dar-lhe honroso estado,<br>
+
+
+&Eacute; ele pera dar-te um Reino rico.<br>
+
+
+Enquanto for o mundo rodeado<br>
+
+
+Dos Apol&iacute;neos raios, eu te fico<br>
+
+
+Que ele seja entre a gente ilustre e claro,<br>
+
+
+E tu nisto culpado por avaro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+26<br>
+
+
+"Mas eis outro (cantava) intitulado<br>
+
+
+Vem com nome real e traz consigo<br>
+
+
+O filho, que no mar ser&aacute; ilustrado,<br>
+
+
+Tanto como qualquer Romano antigo.<br>
+
+
+Ambos dar&atilde;o com bra&ccedil;o forte, armado,<br>
+
+
+A Qu&iacute;loa f&eacute;rtil, &aacute;spero castigo,<br>
+
+
+Fazendo nela Rei leal e humano,<br>
+
+
+Deitado fora o p&eacute;rfido tirano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+27<br>
+
+
+"Tamb&eacute;m far&atilde;o Momba&ccedil;a, que se arreia<br>
+
+
+De casas sumptuosas e edif&iacute;cios,<br>
+
+
+Co ferro e fogo seu queimada e feia,<br>
+
+
+Em pago dos passados malef&iacute;cios.<br>
+
+
+Despois, na costa da &Iacute;ndia, andando cheia<br>
+
+
+De lenhos inimigos e artif&iacute;cios<br>
+
+
+Contra os Lusos, com velas e com remos<br>
+
+
+O mancebo Louren&ccedil;o far&aacute; extremos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+28<br>
+
+
+"Das grandes naus do Samorim potente,<br>
+
+
+Que encher&atilde;o todo o mar, co a f&eacute;rrea pela,<br>
+
+
+Que sai com trov&atilde;o do cobre ardente,<br>
+
+
+Far&aacute; peda&ccedil;os leme, masto, vela.<br>
+
+
+Despois, lan&ccedil;ando arp&eacute;us ousadamente<br>
+
+
+Na capitaina imiga, dentro nela<br>
+
+
+Saltando o far&aacute; s&oacute; com lan&ccedil;a e espada<br>
+
+
+De quatrocentos Mouros despejada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+29<br>
+
+
+"Mas de Deus a escondida provid&ecirc;ncia<br>
+
+
+(Que ela s&oacute; sabe o bem de que se serve)<br>
+
+
+O por&aacute; onde esfor&ccedil;o nem prud&ecirc;ncia<br>
+
+
+Poder&aacute; haver que a vida lhe reserve.<br>
+
+
+Em Cha&uacute;l, onde em sangue e resist&ecirc;ncia<br>
+
+
+O mar todo com fogo e ferro ferve,<br>
+
+
+Lhe far&atilde;o que com vida se n&atilde;o saia<br>
+
+
+As armadas de Egipto e de Cambaia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+30<br>
+
+
+"Ali o poder de muitos inimigos<br>
+
+
+(Que o grande esfor&ccedil;o s&oacute; com for&ccedil;a
+rende),<br>
+
+
+Os ventos que faltaram, e os perigos<br>
+
+
+Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.<br>
+
+
+Aqui ressurjam todos os Antigos,<br>
+
+
+A ver o nobre ardor que aqui se aprende:<br>
+
+
+Outro Ceva ver&atilde;o, que, espeda&ccedil;ado,<br>
+
+
+N&atilde;o sabe ser rendido nem domado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+31<br>
+
+
+"Com toda &uuml;a coxa fora, que em peda&ccedil;os<br>
+
+
+Lhe leva um cego tiro que passara,<br>
+
+
+Se serve inda dos animosos bra&ccedil;os<br>
+
+
+E do gr&atilde;o cora&ccedil;&atilde;o que lhe ficara.<br>
+
+
+At&eacute; que outro pelouro quebra os la&ccedil;os<br>
+
+
+Com que co alma o corpo se liara:<br>
+
+
+Ela, solta, voou da pris&atilde;o fora<br>
+
+
+Onde s&uacute;bito se acha vencedora.<br>
+
+
+<br>
+
+
+32<br>
+
+
+"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,<br>
+
+
+Na qual tu mereceste paz serena!<br>
+
+
+Que o corpo, que em peda&ccedil;os se apresenta,<br>
+
+
+Quem o gerou, vingan&ccedil;a j&aacute; lhe ordena:<br>
+
+
+Que eu ou&ccedil;o retumbar a gr&atilde;o tormenta,<br>
+
+
+Que vem j&aacute; dar a dura e eterna pena,<br>
+
+
+De esperas, basiliscos e trabucos,<br>
+
+
+A Cambaicos cru&eacute;is e Mamelucos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+33<br>
+
+
+"Eis vem o pai, com &acirc;nimo estupendo,<br>
+
+
+Trazendo f&uacute;ria e m&aacute;goa por antolhos,<br>
+
+
+Com que o paterno amor lhe est&aacute; movendo<br>
+
+
+Fogo no cora&ccedil;&atilde;o, &aacute;gua nos olhos.<br>
+
+
+A nobre ira lhe vinha prometendo<br>
+
+
+Que o sangue far&aacute; dar pelos giolhos<br>
+
+
+Nas inimigas naus; senti-lo-&aacute; o Nilo,<br>
+
+
+Pod&ecirc;-lo-&aacute; o Indo ver e o Gange ouvi-lo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+34<br>
+
+
+"Qual o touro cioso, que se ensaia<br>
+
+
+Pera a crua peleja, os cornos tenta<br>
+
+
+No tronco dum carvalho ou alta faia<br>
+
+
+E, o ar ferindo, as for&ccedil;as experimenta:<br>
+
+
+Tal, antes que no seio de Cambaia<br>
+
+
+Entre Francisco irado, na opulenta<br>
+
+
+Cidade de Dabul a espada afia,<br>
+
+
+Abaxando-lhe a t&uacute;mida ousadia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+35<br>
+
+
+"E logo, entrando fero na enseada<br>
+
+
+De Dio, ilustre em cercos e batalhas,<br>
+
+
+Far&aacute; espalhar a fraca e grande armada<br>
+
+
+De Calecu, que remos tem por malhas.<br>
+
+
+A de Melique Iaz, acautelada,<br>
+
+
+Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,<br>
+
+
+Far&aacute; ir ver o frio e fundo assento,<br>
+
+
+Secreto leito do h&uacute;mido elemento.<br>
+
+
+<br>
+
+
+36<br>
+
+
+"Mas a de Mir Hoc&eacute;m, que, abalroando,<br>
+
+
+A f&uacute;ria esperar&aacute; dos vingadores,<br>
+
+
+Ver&aacute; bra&ccedil;os e pernas ir nadando<br>
+
+
+Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.<br>
+
+
+Raios de fogo ir&atilde;o representando,<br>
+
+
+No cego ardor, os bravos domadores.<br>
+
+
+Quanto ali sentir&atilde;o olhos e ouvidos<br>
+
+
+&Eacute; fumo, ferro, flamas e alaridos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+37<br>
+
+
+"Mas ah, que desta pr&oacute;spera vit&oacute;ria,<br>
+
+
+Com que despois vir&aacute; ao p&aacute;trio Tejo,<br>
+
+
+Qu&aacute;si lhe roubar&aacute; a famosa gl&oacute;ria<br>
+
+
+Um sucesso, que triste e negro vejo!<br>
+
+
+O Cabo Torment&oacute;rio, que a mem&oacute;ria<br>
+
+
+Cos ossos guardar&aacute;, n&atilde;o ter&aacute; pejo<br>
+
+
+De tirar deste mundo aquele esprito,<br>
+
+
+Que n&atilde;o tiraram toda a &Iacute;ndia e Egipto.<br>
+
+
+<br>
+
+
+38<br>
+
+
+"Ali, Cafres selvagens poder&atilde;o<br>
+
+
+O que destros imigos n&atilde;o puderam;<br>
+
+
+E rudos paus tostados s&oacute;s far&atilde;o<br>
+
+
+O que arcos e pelouros n&atilde;o fizeram.<br>
+
+
+Ocultos os ju&iacute;zos de Deus s&atilde;o;<br>
+
+
+As gentes v&atilde;s, que n&atilde;o nos entenderam,<br>
+
+
+Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,<br>
+
+
+Sendo s&oacute; provid&ecirc;ncia de Deus pura.<br>
+
+
+<br>
+
+
+39<br>
+
+
+"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto<br>
+
+
+(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)<br>
+
+
+L&aacute; no mar de Melinde, em sangue tinto<br>
+
+
+Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,<br>
+
+
+Pelo Cunha tamb&eacute;m, que nunca extinto<br>
+
+
+Ser&aacute; seu nome em todo o mar que lava<br>
+
+
+As ilhas do Austro, e praias que se chamam<br>
+
+
+De S&atilde;o Louren&ccedil;o, e em todo o Sul se afamam!<br>
+
+
+<br>
+
+
+40<br>
+
+
+"Esta luz &eacute; do fogo e das luzentes<br>
+
+
+Armas com que Albuquerque ir&aacute; amansando<br>
+
+
+De Ormuz os P&aacute;rseos, por seu mal valentes,<br>
+
+
+Que refusam o jugo honroso e brando.<br>
+
+
+Ali ver&atilde;o as setas estridentes<br>
+
+
+Reciprocar-se, a ponta no ar virando<br>
+
+
+Contra quem as tirou; que Deus peleja<br>
+
+
+Por quem estende a f&eacute; da Madre Igreja.<br>
+
+
+<br>
+
+
+41<br>
+
+
+"Ali do sal os montes n&atilde;o defendem<br>
+
+
+De corrup&ccedil;&atilde;o os corpos no combate,<br>
+
+
+Que mortos pela praia e mar se estendem<br>
+
+
+De Gerum, de Mazcate e Calaiate;<br>
+
+
+At&eacute; que &agrave; for&ccedil;a s&oacute; de
+bra&ccedil;o aprendem<br>
+
+
+A abaxar a cerviz, onde se lhe ate<br>
+
+
+Obriga&ccedil;&atilde;o de dar o reino inico<br>
+
+
+Das perlas de Bar&eacute;m tributo rico.<br>
+
+
+<br>
+
+
+42<br>
+
+
+"Que gloriosas palmas tecer vejo<br>
+
+
+Com que Vit&oacute;ria a fronte lhe coroa,<br>
+
+
+Quando, sem sombra v&atilde; de medo ou pejo,<br>
+
+
+Toma a ilha ilustr&iacute;ssima de Goa!<br>
+
+
+Despois, obedecendo ao duro ensejo,<br>
+
+
+A deixa, e ocasi&atilde;o espera boa<br>
+
+
+Com que a torne a tomar, que esfor&ccedil;o e arte<br>
+
+
+Vencer&atilde;o a Fortuna e o pr&oacute;prio Marte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+43<br>
+
+
+"Eis j&aacute; sobr'ela torna e vai rompendo<br>
+
+
+Por muros, fogo, lan&ccedil;as e pelouros,<br>
+
+
+Abrindo com a espada o espesso e horrendo<br>
+
+
+Esquadr&atilde;o de Gentios e de Mouros.<br>
+
+
+Ir&atilde;o soldados &iacute;nclitos fazendo<br>
+
+
+Mais que li&otilde;es fam&eacute;licos e touros,<br>
+
+
+Na luz que sempre celebrada e dina<br>
+
+
+Ser&aacute; da Eg&iacute;pcia Santa Caterina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+44<br>
+
+
+"Nem tu menos fugir poder&aacute;s deste,<br>
+
+
+Posto que rica e posto que assentada<br>
+
+
+L&aacute; no gr&eacute;mio da Aurora, onde naceste,<br>
+
+
+Opulenta Malaca nomeada.<br>
+
+
+As setas venenosas que fizeste,<br>
+
+
+Os crises com que j&aacute; te vejo armada,<br>
+
+
+Malaios namorados, Jaus valentes,<br>
+
+
+Todos far&aacute;s ao Luso obedientes."<br>
+
+
+<br>
+
+
+45<br>
+
+
+Mais estan&ccedil;as cantara esta Sirena<br>
+
+
+Em louvor do ilustr&iacute;ssimo Albuquerque,<br>
+
+
+Mas alembrou-lhe &uuml;a ira que o condena,<br>
+
+
+Posto que a fama sua o mundo cerque.<br>
+
+
+O grande Capit&atilde;o, que o fado ordena<br>
+
+
+Que com trabalhos gl&oacute;ria eterna merque,<br>
+
+
+Mais h&aacute;-de ser um brando companheiro<br>
+
+
+Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+46<br>
+
+
+Mas em tempo que fomes e asperezas,<br>
+
+
+Doen&ccedil;as, frechas e trov&otilde;es ardentes,<br>
+
+
+A saz&atilde;o e o lugar, fazem cruezas<br>
+
+
+Nos soldados a tudo obedientes,<br>
+
+
+Parece de selv&aacute;ticas brutezas,<br>
+
+
+De peitos inumanos e insolentes,<br>
+
+
+Dar extremo supl&iacute;cio pela culpa<br>
+
+
+Que a fraca humanidade e Amor desculpa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+47<br>
+
+
+N&atilde;o ser&aacute; a culpa abominoso incesto<br>
+
+
+Nem violento estupro em virgem pura,<br>
+
+
+Nem menos adult&eacute;rio desonesto,<br>
+
+
+Mas c&uuml;a escrava vil, lasciva e escura.<br>
+
+
+Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,<br>
+
+
+Ou de usado a crueza fera e dura,<br>
+
+
+Cos seus &uuml;a ira insana n&atilde;o refreia,<br>
+
+
+P&otilde;e na fama alva noda negra e feia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+48<br>
+
+
+Viu Alexandre Apeles namorado<br>
+
+
+Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,<br>
+
+
+N&atilde;o sendo seu soldado exprimentado,<br>
+
+
+Nem vendo-se num cerco duro e urgente.<br>
+
+
+Sentiu Ciro que andava j&aacute; abrasado<br>
+
+
+Araspas, de Panteia, em fogo ardente,<br>
+
+
+Que ele tomara em guarda, e prometia<br>
+
+
+Que nenhum mau desejo o venceria;<br>
+
+
+<br>
+
+
+49<br>
+
+
+Mas, vendo o ilustre Persa que vencido<br>
+
+
+Fora de Amor, que, enfim, n&atilde;o tem defensa,<br>
+
+
+Levemente o perdoa, e foi servido<br>
+
+
+Dele num caso grande, em recompensa.<br>
+
+
+Per for&ccedil;a, de Judita foi marido<br>
+
+
+O f&eacute;rreo Baldu&iacute;no; mas dispensa<br>
+
+
+Carlos, pai dela, posto em causas grandes,<br>
+
+
+Que viva e povoador seja de Frandes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+50<br>
+
+
+Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,<br>
+
+
+De Soares cantava, que as bandeiras<br>
+
+
+Faria tremular e p&ocirc;r espanto<br>
+
+
+Pelas roxas Ar&aacute;bicas ribeiras:<br>
+
+
+&mdash;"Medina abomin&aacute;bil teme tanto,<br>
+
+
+Quanto Meca e Gid&aacute;, co as derradeiras<br>
+
+
+Praias de Ab&aacute;ssia; Barbor&aacute; se teme<br>
+
+
+Do mal de que o emp&oacute;rio Zeila geme.<br>
+
+
+<br>
+
+
+51<br>
+
+
+"A nobre ilha tamb&eacute;m de Taprobana,<br>
+
+
+J&aacute; pelo nome antigo t&atilde;o famosa<br>
+
+
+Quanto agora soberba e soberana<br>
+
+
+Pela corti&ccedil;a c&aacute;lida, cheirosa,<br>
+
+
+Dela dar&aacute; tributo &agrave; Lusitana<br>
+
+
+Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,<br>
+
+
+Vencendo se erguer&aacute; na torre erguida,<br>
+
+
+Em Columbo, dos pr&oacute;prios t&atilde;o temida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+52<br>
+
+
+"Tamb&eacute;m Sequeira, as ondas Eritreias<br>
+
+
+Dividindo, abrir&aacute; novo caminho<br>
+
+
+Pera ti, grande Imp&eacute;rio, que te arreias<br>
+
+
+De seres de Candace e Sab&aacute; ninho.<br>
+
+
+Ma&ccedil;u&aacute;, com cisternas de &aacute;gua cheias<br>
+
+
+Ver&aacute;, e o porto Arquico, ali vizinho;<br>
+
+
+E far&aacute; descobir remotas Ilhas,<br>
+
+
+Que d&atilde;o ao mundo novas maravilhas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+53<br>
+
+
+"Vir&aacute; despois Meneses, cujo ferro<br>
+
+
+Mais na Africa, que c&aacute;, ter&aacute; provado;<br>
+
+
+Castigar&aacute; de Ormuz soberba o erro,<br>
+
+
+Com lhe fazer tributo dar dobrado.<br>
+
+
+Tamb&eacute;m tu, Gama, em pago do desterro<br>
+
+
+Em que est&aacute;s e ser&aacute;s inda tornado,<br>
+
+
+Cos t&iacute;tulos de Conde e d'honras nobres<br>
+
+
+Vir&aacute;s mandar a terra que descobres.<br>
+
+
+<br>
+
+
+54<br>
+
+
+"Mas aquela fatal necessidade<br>
+
+
+De quem ningu&eacute;m se exime dos humanos,<br>
+
+
+Ilustrado co a R&eacute;gia dignidade,<br>
+
+
+Te tirar&aacute; do mundo e seus enganos.<br>
+
+
+Outro Meneses logo, cuja idade<br>
+
+
+&Eacute; maior na prud&ecirc;ncia que nos anos,<br>
+
+
+Governar&aacute;; e far&aacute; o ditoso Henrique<br>
+
+
+Que perp&eacute;tua mem&oacute;ria dele fique.<br>
+
+
+<br>
+
+
+55<br>
+
+
+"N&atilde;o vencer&aacute; somente os Malabares,<br>
+
+
+Destruindo Panane com Coulete,<br>
+
+
+Cometendo as bombardas, que, nos ares,<br>
+
+
+Se vingam s&oacute; do peito que as comete;<br>
+
+
+Mas com virtudes, certo, singulares,<br>
+
+
+Vence os imigos d'alma todos sete;<br>
+
+
+De cobi&ccedil;a triunfa e incontin&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Que em tal idade &eacute; suma de excel&ecirc;ncia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+56<br>
+
+
+"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,<br>
+
+
+Suceder&aacute;s, &oacute; forte Mascarenhas;<br>
+
+
+E, se injustos o mando te tomarem,<br>
+
+
+Prometo-te que fama eterna tenhas.<br>
+
+
+Pera teus inimigos confessarem<br>
+
+
+Teu valor alto, o fado quer que venhas<br>
+
+
+A mandar, mais de palmas coroado,<br>
+
+
+Que de fortuna justa acompanhado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+57<br>
+
+
+"No reino de Bint&atilde;o, que tantos danos<br>
+
+
+Ter&aacute; a Malaca muito tempo feitos,<br>
+
+
+Num s&oacute; dia as inj&uacute;rias de mil anos<br>
+
+
+Vingar&aacute;s, co valor de ilustres peitos.<br>
+
+
+Trabalhos e perigos inumanos,<br>
+
+
+Abrolhos f&eacute;rreos mil, passos estreitos,<br>
+
+
+Tranqueiras, baluartes, lan&ccedil;as, setas:<br>
+
+
+Tudo fico que rompas e sometas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+58<br>
+
+
+"Mas na &Iacute;ndia, cobi&ccedil;a e
+ambi&ccedil;&atilde;o,<br>
+
+
+Que claramente p&otilde;em aberto o rosto<br>
+
+
+Contra Deus e Justi&ccedil;a, te far&atilde;o<br>
+
+
+Vitup&eacute;rio nenhum, mas s&oacute; desgosto.<br>
+
+
+Quem faz inj&uacute;ria vil e sem raz&atilde;o,<br>
+
+
+Com for&ccedil;as e poder em que est&aacute; posto,<br>
+
+
+N&atilde;o vence; que a vit&oacute;ria verdadeira<br>
+
+
+&Eacute; saber ter justi&ccedil;a nua e inteira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+59<br>
+
+
+"Mas, contudo, n&atilde;o nego que Sampaio<br>
+
+
+Ser&aacute;, no esfor&ccedil;o, ilustre e assinalado,<br>
+
+
+Mostrando-se no mar um fero raio,<br>
+
+
+Que de inimigos mil ver&aacute; coalhado.<br>
+
+
+Em Bacanor far&aacute; cruel ensaio<br>
+
+
+No Malabar, pera que, amedrontado,<br>
+
+
+Despois a ser vencido dele venha<br>
+
+
+Cutiale, com quanta armada tenha.<br>
+
+
+<br>
+
+
+60<br>
+
+
+"E n&atilde;o menos de Dio a fera frota,<br>
+
+
+Que Cha&uacute;l temer&aacute;, de grande e ousada,<br>
+
+
+Far&aacute;, co a vista s&oacute;, perdida e rota,<br>
+
+
+Por Heitor da Silveira e destro&ccedil;ada;<br>
+
+
+Por Heitor Portugu&ecirc;s, de quem se nota<br>
+
+
+Que na costa Cambaica, sempre armada,<br>
+
+
+Ser&aacute; aos Guzarates tanto dano,<br>
+
+
+Quanto j&aacute; foi aos Gregos o Troiano.<br>
+
+
+<br>
+
+
+61<br>
+
+
+"A Sampaio feroz suceder&aacute;<br>
+
+
+Cunha, que longo tempo tem o leme:<br>
+
+
+De Chale as torres altas erguer&aacute;,<br>
+
+
+Enquanto Dio ilustre dele treme;<br>
+
+
+O forte Ba&ccedil;aim se lhe dar&aacute;,<br>
+
+
+N&atilde;o sem sangue, por&eacute;m, que nele geme<br>
+
+
+Melique, porque &agrave; for&ccedil;a s&oacute; de espada<br>
+
+
+A tranqueira soberba v&ecirc; tomada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+62<br>
+
+
+"Tr&aacute;s este vem Noronha, cujo ausp&iacute;cio<br>
+
+
+De Dio os Rumes feros afugenta;<br>
+
+
+Dio, que o peito e b&eacute;lico exerc&iacute;cio<br>
+
+
+De Ant&oacute;nio da Silveira bem sustenta.<br>
+
+
+Far&aacute; em Noronha a morte o usado of&iacute;cio,<br>
+
+
+Quando um teu ramo, &oacute; Gama, se exprimenta<br>
+
+
+No governo do Imp&eacute;rio, cujo zelo<br>
+
+
+Com medo o Roxo Mar far&aacute; amarelo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+63<br>
+
+
+"Das m&atilde;os do teu Est&ecirc;v&atilde;o vem tomar<br>
+
+
+As r&eacute;deas um, que j&aacute; ser&aacute; ilustrado<br>
+
+
+No Brasil, com vencer e castigar<br>
+
+
+O pirata Franc&ecirc;s, ao mar usado.<br>
+
+
+Despois, Capit&atilde;o-mor do &Iacute;ndico mar,<br>
+
+
+O muro de Dam&atilde;o, soberbo e armado,<br>
+
+
+Escala e primeiro entra a porta aberta,<br>
+
+
+Que fogo e frechas mil ter&atilde;o coberta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+64<br>
+
+
+"A este o Rei Cambaico soberb&iacute;ssimo<br>
+
+
+Fortaleza dar&aacute; na rica Dio,<br>
+
+
+Por que contra o Mogor poderos&iacute;ssimo<br>
+
+
+Lhe ajude a defender o senhorio.<br>
+
+
+Despois ir&aacute; com peito esfor&ccedil;ad&iacute;ssimo<br>
+
+
+A tolher que n&atilde;o passe o Rei gentio<br>
+
+
+De Calecu, que assi com quantos veio<br>
+
+
+O far&aacute; retirar, de sangue cheio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+65<br>
+
+
+"Destruir&aacute; a cidade Repelim,<br>
+
+
+Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;<br>
+
+
+E despois, junto ao Cabo Comorim,<br>
+
+
+&uuml;a fa&ccedil;anha faz esclarecida:<br>
+
+
+A frota principal do Samorim,<br>
+
+
+Que destruir o mundo n&atilde;o duvida,<br>
+
+
+Vencer&aacute; co furor do ferro e fogo;<br>
+
+
+Em si ver&aacute; Beadala o M&aacute;rcio jogo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+66<br>
+
+
+"Tendo assi limpa a &Iacute;ndia dos imigos,<br>
+
+
+Vir&aacute; despois com ceptro a govern&aacute;-Ia<br>
+
+
+Sem que ache resist&ecirc;ncia nem perigos,<br>
+
+
+Que todos tremem dele e nenhum fala.<br>
+
+
+S&oacute; quis provar os &aacute;speros castigos<br>
+
+
+Batical&aacute;, que vira j&aacute; Beadala.<br>
+
+
+De sangue e corpos mortos ficou cheia<br>
+
+
+E de fogo e trov&otilde;es desfeita e feia.<br>
+
+
+<br>
+
+
+67<br>
+
+
+"Este ser&aacute; Martinho, que de Marte<br>
+
+
+O nome tem co as obras derivado;<br>
+
+
+Tanto em armas ilustre em toda parte,<br>
+
+
+Quanto, em conselho, s&aacute;bio e bem cuidado.<br>
+
+
+Suceder-lhe-&aacute; ali Castro, que o estandarte<br>
+
+
+Portugu&ecirc;s ter&aacute; sempre levantado,<br>
+
+
+Conforme sucessor ao sucedido,<br>
+
+
+Que um ergue Dio, outro o defende erguido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+68<br>
+
+
+"Persas feroces, Abassis e Rumes,<br>
+
+
+Que trazido de Roma o nome t&ecirc;m,<br>
+
+
+V&aacute;rios de gestos, v&aacute;rios de costumes<br>
+
+
+(Que mil na&ccedil;&otilde;es ao cerco feras v&ecirc;m),<br>
+
+
+Far&atilde;o dos C&eacute;us ao mundo v&atilde;os queixumes<br>
+
+
+Porque uns poucos a terra lhe det&ecirc;m.<br>
+
+
+Em sangue Portugu&ecirc;s, juram, descridos,<br>
+
+
+De banhar os bigodes retorcidos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+69<br>
+
+
+"Basiliscos medonhos e li&otilde;es,<br>
+
+
+Trabucos feros, minas encobertas,<br>
+
+
+Sustenta Mascarenhas cos bar&otilde;es<br>
+
+
+Que t&atilde;o ledos as mortes t&ecirc;m por certas;<br>
+
+
+At&eacute; que, nas maiores opress&otilde;es,<br>
+
+
+Castro libertador, fazendo ofertas<br>
+
+
+Das vidas de seus filhos, quer que fiquem<br>
+
+
+Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+70<br>
+
+
+"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,<br>
+
+
+Onde o violento fogo, com ruido,<br>
+
+
+Em peda&ccedil;os os muros no ar levanta,<br>
+
+
+Ser&aacute; ali arrebatado e ao C&eacute;u subido.<br>
+
+
+&Aacute;lvaro, quando o Inverno o mundo espanta<br>
+
+
+E tem o caminho h&uacute;mido impedido,<br>
+
+
+Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,<br>
+
+
+Os ventos e despois os inimigos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+71<br>
+
+
+"Eis vem despois o pai, que as ondas corta<br>
+
+
+Co restante da gente Lusitana,<br>
+
+
+E com for&ccedil;a e saber, que mais importa,<br>
+
+
+Batalha d&aacute; felice e soberana.<br>
+
+
+Uns, paredes subindo, escusam porta;<br>
+
+
+Outros a abrem na fera esquadra insana.<br>
+
+
+Feitos far&atilde;o t&atilde;o dinos de mem&oacute;ria<br>
+
+
+Que n&atilde;o caibam em verso ou larga hist&oacute;ria.<br>
+
+
+<br>
+
+
+72<br>
+
+
+"Este, despois, em campo se apresenta,<br>
+
+
+Vencedor forte e intr&eacute;pido, ao possante<br>
+
+
+Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta<br>
+
+
+Da fera multid&atilde;o quadrupedante.<br>
+
+
+N&atilde;o menos suas terras mal sustenta<br>
+
+
+O Hidalc&atilde;o, do bra&ccedil;o triunfante<br>
+
+
+Que castigando vai Dabul na costa;<br>
+
+
+Nem lhe escapou Pond&aacute;, no sert&atilde;o posta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+73<br>
+
+
+"Estes e outros Bar&otilde;es, por v&aacute;rias partes,<br>
+
+
+Dinos todos de fama e maravilha,<br>
+
+
+Fazendo-se na terra bravos Martes,<br>
+
+
+Vir&atilde;o lograr os gostos desta Ilha,<br>
+
+
+Varrendo triunfantes estandartes<br>
+
+
+Pelas ondas que corta a aguda quilha;<br>
+
+
+E achar&atilde;o estas Ninfas e estas mesas,<br>
+
+
+Que gl&oacute;rias e honras s&atilde;o de &aacute;rduas
+empresas."<br>
+
+
+<br>
+
+
+74<br>
+
+
+Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,<br>
+
+
+Com sonoroso aplauso, vozes davam,<br>
+
+
+Com que festejam as alegres vodas<br>
+
+
+Que com tanto prazer se celebravam.<br>
+
+
+&mdash;"Por mais que da Fortuna andem as rodas<br>
+
+
+(N&uuml;a c&ocirc;nsona voz todas soavam),<br>
+
+
+N&atilde;o vos h&atilde;o-de faltar, gente famosa,<br>
+
+
+Honra, valor e fama gloriosa."<br>
+
+
+<br>
+
+
+75<br>
+
+
+Despois que a corporal necessidade<br>
+
+
+Se satisfez do mantimento nobre,<br>
+
+
+E na harmonia e doce suavidade<br>
+
+
+Viram os altos feitos que descobre,<br>
+
+
+T&eacute;tis, de gra&ccedil;a ornada e gravidade,<br>
+
+
+Pera que com mais alta gl&oacute;ria dobre<br>
+
+
+As festas deste alegre e claro dia,<br>
+
+
+Pera o felice Gama assi dizia:<br>
+
+
+<br>
+
+
+76<br>
+
+
+&mdash;"Faz-te merc&ecirc;, bar&atilde;o, a
+Sapi&ecirc;ncia<br>
+
+
+Suprema de, cos olhos corporais,<br>
+
+
+Veres o que n&atilde;o pode a v&atilde; ci&ecirc;ncia<br>
+
+
+Dos errados e m&iacute;seros mortais.<br>
+
+
+Sigue-me firme e forte, com prud&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Por este monte espesso, tu cos mais."<br>
+
+
+Assi lhe diz e o guia por um mato<br>
+
+
+&Aacute;rduo, dif&iacute;cil, duro a humano trato.<br>
+
+
+<br>
+
+
+77<br>
+
+
+N&atilde;o andam muito que no erguido cume<br>
+
+
+Se acharam, onde um campo se esmaltava<br>
+
+
+De esmeraldas, rubis, tais que presume<br>
+
+
+A vista que divino ch&atilde;o pisava.<br>
+
+
+Aqui um globo v&ecirc;m no ar, que o lume<br>
+
+
+Clar&iacute;ssimo por ele penetrava,<br>
+
+
+De modo que o seu centro est&aacute; evidente,<br>
+
+
+Como a sua superf&iacute;cia, claramente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+78<br>
+
+
+Qual a mat&eacute;ria seja n&atilde;o se enxerga,<br>
+
+
+Mas enxerga-se bem que est&aacute; composto<br>
+
+
+De v&aacute;rios orbes, que a Divina verga<br>
+
+
+Comp&ocirc;s, e um centro a todos s&oacute; tem posto.<br>
+
+
+Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,<br>
+
+
+Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto<br>
+
+
+Por toda a parte tem; e em toda a parte<br>
+
+
+Come&ccedil;a e acaba, enfim, por divina arte,<br>
+
+
+<br>
+
+
+79<br>
+
+
+Uniforme, perfeito, em si sustido,<br>
+
+
+Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.<br>
+
+
+Vendo o Gama este globo, comovido<br>
+
+
+De espanto e de desejo ali ficou.<br>
+
+
+Diz-lhe a Deusa:&mdash;"O transunto, reduzido<br>
+
+
+Em pequeno volume, aqui te dou<br>
+
+
+Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas<br>
+
+
+Por onde v&aacute;s e ir&aacute;s e o que desejas.<br>
+
+
+<br>
+
+
+80<br>
+
+
+"V&ecirc;s aqui a grande m&aacute;quina do Mundo,<br>
+
+
+Et&eacute;rea e elemental, que fabricada<br>
+
+
+Assi foi do Saber, alto e profundo,<br>
+
+
+Que &eacute; sem princ&iacute;pio e meta limitada.<br>
+
+
+Quem cerca em derredor este rotundo<br>
+
+
+Globo e sua superf&iacute;cia t&atilde;o limada,<br>
+
+
+&Eacute; Deus: mas o que &eacute; Deus, ningu&eacute;m o
+entende,<br>
+
+
+Que a tanto o engenho humano n&atilde;o se estende.<br>
+
+
+<br>
+
+
+81<br>
+
+
+"Este orbe que, primeiro, vai cercando<br>
+
+
+Os outros mais pequenos que em si tem,<br>
+
+
+Que est&aacute; com luz t&atilde;o clara radiando<br>
+
+
+Que a vista cega e a mente vil tamb&eacute;m,<br>
+
+
+Emp&iacute;reo se nomeia, onde logrando<br>
+
+
+Puras almas est&atilde;o daquele Bem<br>
+
+
+Tamanho, que ele s&oacute; se entende e alcan&ccedil;a,<br>
+
+
+De quem n&atilde;o h&aacute; no mundo semelhan&ccedil;a.<br>
+
+
+<br>
+
+
+82<br>
+
+
+"Aqui, s&oacute; verdadeiros, gloriosos<br>
+
+
+Divos est&atilde;o, porque eu, Saturno e Jano,<br>
+
+
+J&uacute;piter, Juno, fomos fabulosos,<br>
+
+
+Fingidos de mortal e cego engano.<br>
+
+
+S&oacute; pera fazer versos deleitosos<br>
+
+
+Servimos; e, se mais o trato humano<br>
+
+
+Nos pode dar, &eacute; s&oacute; que o nome nosso<br>
+
+
+Nestas estrelas p&ocirc;s o engenho vosso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+83<br>
+
+
+"E tamb&eacute;m, porque a santa Provid&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Que em J&uacute;piter aqui se representa,<br>
+
+
+Por esp&iacute;ritos mil que t&ecirc;m prud&ecirc;ncia<br>
+
+
+Governa o Mundo todo que sustenta<br>
+
+
+(Ensina-lo a prof&eacute;tica ci&ecirc;ncia,<br>
+
+
+Em muitos dos exemplos que apresenta);<br>
+
+
+Os que s&atilde;o bons, guiando, favorecem,<br>
+
+
+Os maus, em quanto podem, nos empecem;<br>
+
+
+<br>
+
+
+84<br>
+
+
+"Quer logo aqui a pintura que varia<br>
+
+
+Agora deleitando, ora ensinando,<br>
+
+
+Dar-lhe nomes que a antiga Poesia<br>
+
+
+A seus Deuses j&aacute; dera, fabulando;<br>
+
+
+Que os Anjos de celeste companhia<br>
+
+
+Deuses o sacro verso est&aacute; chamando,<br>
+
+
+Nem nega que esse nome preminente<br>
+
+
+Tamb&eacute;m aos maus se d&aacute;, mas falsamente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+85<br>
+
+
+"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas<br>
+
+
+Causas obra no Mundo, tudo manda.<br>
+
+
+E tornando a contar-te das profundas<br>
+
+
+Obras da M&atilde;o Divina veneranda,<br>
+
+
+Debaxo deste c&iacute;rculo onde as mundas<br>
+
+
+Almas divinas gozam, que n&atilde;o anda,<br>
+
+
+Outro corre, t&atilde;o leve e t&atilde;o ligeiro<br>
+
+
+Que n&atilde;o se enxerga: &eacute; o M&oacute;bile
+primeiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+86<br>
+
+
+"Com este rapto e grande movimento<br>
+
+
+V&atilde;o todos os que dentro tem no seio;<br>
+
+
+Por obra deste, o Sol, andando a tento,<br>
+
+
+O dia e noite faz, com curso alheio.<br>
+
+
+Debaxo deste leve, anda outro lento,<br>
+
+
+T&atilde;o lento e sojugado a duro freio,<br>
+
+
+Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,<br>
+
+
+Duzentos cursos faz, d&aacute; ele um passo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+87<br>
+
+
+"Olha estoutro debaxo, que esmaltado<br>
+
+
+De corpos lisos anda e radiantes,<br>
+
+
+Que tamb&eacute;m nele tem curso ordenado<br>
+
+
+E nos seus axes correm cintilantes.<br>
+
+
+Bem v&ecirc;s como se veste e faz ornado<br>
+
+
+Co largo Cinto d, ouro, que estelantes<br>
+
+
+Animais doze traz afigurados,<br>
+
+
+Apousentos de Febo limitados.<br>
+
+
+<br>
+
+
+88<br>
+
+
+"Olha por outras partes a pintura<br>
+
+
+Que as Estrelas fulgentes v&atilde;o fazendo:<br>
+
+
+Olha a Carreta, atenta a Cinosura,<br>
+
+
+Andr&oacute;meda e seu pai, e o Drago horrendo;<br>
+
+
+V&ecirc; de Cassiopeia a fermosura<br>
+
+
+E do Orionte o gesto turbulento;<br>
+
+
+Olha o Cisne morrendo que suspira,<br>
+
+
+A Lebre e os C&atilde;es, a Nau e a doce Lira.<br>
+
+
+<br>
+
+
+89<br>
+
+
+"Debaxo deste grande Firmamento,<br>
+
+
+V&ecirc;s o c&eacute;u de Saturno, Deus antigo;<br>
+
+
+J&uacute;piter logo faz o movimento,<br>
+
+
+E Marte abaxo, b&eacute;lico inimigo;<br>
+
+
+O claro Olho do c&eacute;u, no quarto assento,<br>
+
+
+E V&eacute;nus, que os amores traz consigo;<br>
+
+
+Merc&uacute;rio, de eloqu&ecirc;ncia soberana;<br>
+
+
+Com tr&ecirc;s rostos, debaxo vai Diana.<br>
+
+
+<br>
+
+
+90<br>
+
+
+"Em todos estes orbes, diferente<br>
+
+
+Curso ver&aacute;s, nuns grave e noutros leve;<br>
+
+
+Ora fogem do Centro longamente,<br>
+
+
+Ora da Terra est&atilde;o caminho breve,<br>
+
+
+Bem como quis o Padre omnipotente,<br>
+
+
+Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,<br>
+
+
+Os quais ver&aacute;s que jazem mais a dentro<br>
+
+
+E tem co Mar a Terra por seu centro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+91<br>
+
+
+"Neste centro, pousada dos humanos,<br>
+
+
+Que n&atilde;o somente, ousados, se contentam<br>
+
+
+De sofrerem da terra firme os danos,<br>
+
+
+Mas inda o mar inst&aacute;bil exprimentam,<br>
+
+
+Ver&aacute;s as v&aacute;rias partes, que os insanos<br>
+
+
+Mares dividem, onde se apousentam<br>
+
+
+V&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es que mandam
+v&aacute;rios Reis,<br>
+
+
+V&aacute;rios costumes seus e v&aacute;rias leis.<br>
+
+
+<br>
+
+
+92<br>
+
+
+"V&ecirc;s Europa Crist&atilde;, mais alta e clara<br>
+
+
+Que as outras em pol&iacute;cia e fortaleza.<br>
+
+
+V&ecirc;s &Aacute;frica, dos bens do mundo avara,<br>
+
+
+Inculta e toda cheia de bruteza;<br>
+
+
+Co Cabo que at&eacute;'aqui se vos negara,<br>
+
+
+Que assentou pera o Austro a Natureza.<br>
+
+
+Olha essa terra toda, que se habita<br>
+
+
+Dessa gente sem Lei, qu&aacute;si infinita.<br>
+
+
+<br>
+
+
+93<br>
+
+
+"V&ecirc; do Benomotapa o grande imp&eacute;rio,<br>
+
+
+De selv&aacute;tica gente, negra e nua,<br>
+
+
+Onde Gon&ccedil;alo morte e vitup&eacute;rio<br>
+
+
+Padecer&aacute;, pola F&eacute; santa sua.<br>
+
+
+Nace por este inc&oacute;gnito Hemisp&eacute;rio<br>
+
+
+O metal por que mais a gente sua.<br>
+
+
+V&ecirc; que do lago donde se derrama<br>
+
+
+O Nilo, tamb&eacute;m vindo est&aacute; Cuama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+94<br>
+
+
+"Olha as casas dos negros, como est&atilde;o<br>
+
+
+Sem portas, confiados, em seus ninhos,<br>
+
+
+Na justi&ccedil;a real e defens&atilde;o<br>
+
+
+E na fidelidade dos vizinhos;<br>
+
+
+Olha deles a bruta multid&atilde;o,<br>
+
+
+Qual bando espesso e negro de estorninhos,<br>
+
+
+Combater&aacute; em Sofala a fortaleza, Que<br>
+
+
+defender&aacute; Nhaia com destreza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+95<br>
+
+
+"Olha l&aacute; as alagoas donde o Nilo<br>
+
+
+Nace, que n&atilde;o souberam os antigos;<br>
+
+
+V&ecirc;-lo rega, gerando o crocodilo,<br>
+
+
+Os povos Abassis, de Crista amigos;<br>
+
+
+Olha como sem muros (novo estilo)<br>
+
+
+Se defendem milhor dos inimigos;<br>
+
+
+V&ecirc; M&eacute;roe, que ilha foi de antiga fama,<br>
+
+
+Que ora dos naturais Nob&aacute; se chama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+96<br>
+
+
+"Nesta remota terra um filho teu<br>
+
+
+Nas armas contra os Turcos ser&aacute; claro;<br>
+
+
+H&aacute;-de ser Dom Crist&oacute;v&atilde;o o nome seu;<br>
+
+
+Mas contra o fim fatal n&atilde;o h&aacute; reparo.<br>
+
+
+V&ecirc; c&aacute; a costa do mar, onde te deu<br>
+
+
+Melinde hosp&iacute;cio gasalhoso e caro;<br>
+
+
+O Rapto rio nota, que o romance<br>
+
+
+Da terra chama Obi; entra em Quilmance.<br>
+
+
+<br>
+
+
+97<br>
+
+
+"O Cabo v&ecirc; j&aacute; Ar&oacute;mata chamado,<br>
+
+
+E agora Guardaf&uacute;, dos moradores,<br>
+
+
+Onde come&ccedil;a a boca do afamado<br>
+
+
+Mar Roxo, que do fundo toma as cores;<br>
+
+
+Este como limite est&aacute; lan&ccedil;ado<br>
+
+
+Que divide Asia de Africa; e as milhores<br>
+
+
+Povoa&ccedil;&otilde;es que a parte Africa tem<br>
+
+
+Ma&ccedil;u&aacute; s&atilde;o, Arquico e
+Suaqu&eacute;m.<br>
+
+
+<br>
+
+
+98<br>
+
+
+"V&ecirc;s o extremo Suez, que antigamente<br>
+
+
+Dizem que foi dos H&eacute;roas a cidade<br>
+
+
+(Outros dizem que Ars&iacute;noe), e ao presente<br>
+
+
+Tem das frotas do Egipto a potestade.<br>
+
+
+Olha as &aacute;guas nas quais abriu patente<br>
+
+
+Estrada o gr&atilde;o Mous&eacute;s na antiga idade.<br>
+
+
+&Aacute;sia come&ccedil;a aqui, que se apresenta<br>
+
+
+Em terras grande, em reinos opulenta.<br>
+
+
+<br>
+
+
+99<br>
+
+
+"Olha o monte Sinai, que se ennobrece<br>
+
+
+Co sepulcro de Santa Caterina;<br>
+
+
+Olha Toro e Gid&aacute;, que lhe falece<br>
+
+
+&Aacute;gua das fontes, doce e cristalina;<br>
+
+
+Olha as portas do Estreito, que fenece<br>
+
+
+No reino da seca &Aacute;dem, que confina<br>
+
+
+Com a serra d'Arzira, pedra viva,<br>
+
+
+Onde chuva dos c&eacute;us se n&atilde;o deriva.<br>
+
+
+<br>
+
+
+100<br>
+
+
+"Olha as Ar&aacute;bias tr&ecirc;s, que tanta terra<br>
+
+
+Tomam, todas da gente vaga e ba&ccedil;a,<br>
+
+
+Donde v&ecirc;m os cavalos pera a guerra,<br>
+
+
+Ligeiros e feroces, de alta ra&ccedil;a;<br>
+
+
+Olha a costa que corrre, at&eacute; que cera<br>
+
+
+Outro Estreito de P&eacute;rsia, e faz a tra&ccedil;a<br>
+
+
+O Cabo que co nome se apelida<br>
+
+
+Da cidade Fartaque, ali sabida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+101<br>
+
+
+"Olha D&oacute;far, insigne porque manda<br>
+
+
+O mais cheiroso incenso pera as aras;<br>
+
+
+Mas atenta: j&aacute; c&aacute; destoutra banda<br>
+
+
+De Ro&ccedil;algate, e praias sempre avaras,<br>
+
+
+Come&ccedil;a o reino Ormuz, que todo se anda<br>
+
+
+Pelas ribeiras que inda ser&atilde;o claras<br>
+
+
+Quando as gal&eacute;s do Turco e fera armada<br>
+
+
+Virem de Castelbranco nua a espada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+102<br>
+
+
+"Olha o Cabo Asaboro, que chamado<br>
+
+
+Agora &eacute; Mo&ccedil;and&atilde;o, dos navegantes;<br>
+
+
+Por aqui entra o lago que &eacute; fechado<br>
+
+
+De Ar&aacute;bia e P&eacute;rsias terras abundantes.<br>
+
+
+Atenta a ilha Bar&eacute;m, que o fundo ornado<br>
+
+
+Tem das suas perlas ricas, e imitantes<br>
+
+
+A cor da Aurora; e v&ecirc; na &aacute;gua salgada<br>
+
+
+Ter o T&iacute;gris e Eufrates &uuml;a entrada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+103<br>
+
+
+"Olha da grande P&eacute;rsia o imp&eacute;rio nobre,<br>
+
+
+Sempre posto no campo e nos cavalos,<br>
+
+
+Que se injuria de usar fundido cobre<br>
+
+
+E de n&atilde;o ter das armas sempre os calos.<br>
+
+
+Mas v&ecirc; a ilha Gerum, como descobre<br>
+
+
+O que fazem do tempo os intervalos,<br>
+
+
+Que da cidade Armuza, que ali esteve,<br>
+
+
+Ela o nome despois e a gl&oacute;ria teve.<br>
+
+
+<br>
+
+
+104<br>
+
+
+"Aqui de Dom Filipe de Meneses<br>
+
+
+Se mostrar&aacute; a virtude, em armas clara,<br>
+
+
+Quando, com muito poucos Portugueses,<br>
+
+
+Os muitos P&aacute;rseos vencer&aacute; de Lara.<br>
+
+
+Vir&atilde;o provar os golpes e reveses<br>
+
+
+De Dom Pedro de Sousa, que provara<br>
+
+
+J&aacute; seu bra&ccedil;o em Ampaza, que deixada<br>
+
+
+Ter&aacute; por terra, &agrave; for&ccedil;a s&oacute;
+de espada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+105<br>
+
+
+"Mas deixemos o Estreito e o conhecido<br>
+
+
+Cabo de Jasque, dito j&aacute; Carpela,<br>
+
+
+Com todo o seu terreno mal querido<br>
+
+
+Da Natura e dos d&otilde;es usados dela;<br>
+
+
+Carm&acirc;nia teve j&aacute; por apelido.<br>
+
+
+Mas v&ecirc;s o fermoso Indo, que daquela<br>
+
+
+Altura nace, junto &agrave; qual, tamb&eacute;m<br>
+
+
+Doutra altura correndo o Gange vem?<br>
+
+
+<br>
+
+
+106<br>
+
+
+"Olha a terra de Ulcinde, fertil&iacute;ssima,<br>
+
+
+E de J&aacute;quete a &iacute;ntima enseada;<br>
+
+
+Do mar a enchente s&uacute;bita, grand&iacute;ssima,<br>
+
+
+E a vazante, que foge apressurada.<br>
+
+
+A terra de Cambaia v&ecirc;, riqu&iacute;ssima,<br>
+
+
+Onde do mar o seio faz entrada;<br>
+
+
+Cidades outras mil, que vou passando,<br>
+
+
+A v&oacute;s outros aqui se est&atilde;o guardando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+107<br>
+
+
+"V&ecirc;s corre a costa c&eacute;lebre Indiana<br>
+
+
+Pera o Sul, at&eacute; o Cabo Comori,<br>
+
+
+J&aacute; chamado Cori, que Taprobana<br>
+
+
+(Que ora &eacute; Ceil&atilde;o) defronte tem de si.<br>
+
+
+Por este mar a gente Lusitana,<br>
+
+
+Que com armas vir&aacute; despois de ti,<br>
+
+
+Ter&aacute; vit&oacute;rias, terras e cidades,<br>
+
+
+Nas quais h&atilde;o-de viver muitas idades.<br>
+
+
+<br>
+
+
+108<br>
+
+
+"As prov&iacute;ncias que entre um e o outro rio<br>
+
+
+V&ecirc;s, com v&aacute;rias na&ccedil;&otilde;es,
+s&atilde;o infinitas:<br>
+
+
+Um reino Mahometa, outro Gentio,<br>
+
+
+A quem tem o Dem&oacute;nio leis escritas.<br>
+
+
+Olha que de Narsinga o senhorio<br>
+
+
+Tem as rel&iacute;quias santas e benditas<br>
+
+
+Do corpo de Tom&eacute;, bar&atilde;o sagrado,<br>
+
+
+Que a Jesu Cristo teve a m&atilde;o no lado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+109<br>
+
+
+"Aqui a cidade foi que se chamava<br>
+
+
+Meliapor, fermosa, grande e rica;<br>
+
+
+Os &Iacute;dolos antigos adorava<br>
+
+
+Como inda agora faz a gente inica.<br>
+
+
+Longe do mar naquele tempo estava,<br>
+
+
+Quando a F&eacute;, que no mundo se pubrica,<br>
+
+
+Tom&eacute; vinha pr&egrave;gando, e j&aacute; passara<br>
+
+
+Prov&iacute;ncias mil do mundo, que ensinara.<br>
+
+
+<br>
+
+
+110<br>
+
+
+"Chegado aqui, pregando e junto dando<br>
+
+
+A doentes sa&uacute;de, a mortos vida,<br>
+
+
+Acaso traz um dia o mar, vagando,<br>
+
+
+Um lenho de grandeza desmedida.<br>
+
+
+Deseja o Rei, que andava edificando,<br>
+
+
+Fazer dele madeira; e n&atilde;o duvida<br>
+
+
+Poder tir&aacute;-lo a terra, com possantes<br>
+
+
+For&ccedil;as d' homens, de engenhos, de alifantes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+111<br>
+
+
+"Era t&atilde;o grande o peso do madeiro<br>
+
+
+Que, s&oacute; pera abalar-se, nada abasta;<br>
+
+
+Mas o n&uacute;ncio de Cristo verdadeiro<br>
+
+
+Menos trabalho em tal neg&oacute;cio gasta:<br>
+
+
+Ata o cord&atilde;o que traz, por derradeiro,<br>
+
+
+No tronco, e f&agrave;cilmente o leva e arrasta<br>
+
+
+Pera onde fa&ccedil;a um sumptuoso templo<br>
+
+
+Que ficasse aos futuros por exemplo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+112<br>
+
+
+"Sabia bem que se com f&eacute; formada<br>
+
+
+Mandar a um monte surdo que se mova,<br>
+
+
+Que obedecer&aacute; logo &agrave; voz sagrada,<br>
+
+
+Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.<br>
+
+
+A gente ficou disto alvora&ccedil;ada;<br>
+
+
+Os Br&acirc;menes o t&ecirc;m por cousa nova;<br>
+
+
+Vendo os milagres, vendo a santidade,<br>
+
+
+H&atilde;o medo de perder autoridade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+113<br>
+
+
+"S&atilde;o estes sacerdotes dos Gentios<br>
+
+
+Em quem mais penetrado tinha enveja;<br>
+
+
+Buscam maneiras mil, buscam desvios,<br>
+
+
+Com que Tom&eacute; n&atilde;o se ou&ccedil;a, ou morto
+seja.<br>
+
+
+O principal, que ao peito traz os fios,<br>
+
+
+Um caso horrendo faz, que o mundo veja<br>
+
+
+Que inimiga n&atilde;o h&aacute;, t&atilde;o dura e fera,<br>
+
+
+Como a virtude falsa, da sincera.<br>
+
+
+<br>
+
+
+114<br>
+
+
+"Um filho pr&oacute;prio mata, e logo acusa<br>
+
+
+De homic&iacute;dio Tom&eacute;, que era inocente;<br>
+
+
+D&aacute; falsas testemunhas, como se usa;<br>
+
+
+Condenaram-no a morte brevemente.<br>
+
+
+O Santo, que n&atilde;o v&ecirc; milhor escusa<br>
+
+
+Que apelar pera o Padre omnipotente,<br>
+
+
+Quer, diante do Rei e dos senhores,<br>
+
+
+Que se fa&ccedil;a um milagre dos maiores.<br>
+
+
+<br>
+
+
+115<br>
+
+
+"O corpo morto manda ser trazido,<br>
+
+
+Que res[s]ucite e seja perguntado<br>
+
+
+Quem foi seu matador, e ser&aacute; crido<br>
+
+
+Por testemunho, o seu, mais aprovado.<br>
+
+
+Viram todos o mo&ccedil;o vivo, erguido,<br>
+
+
+Em nome de Jesu crucificado:<br>
+
+
+D&aacute; gra&ccedil;as a Tom&eacute;, que lhe deu vida,<br>
+
+
+E descobre seu pai ser homicida.<br>
+
+
+<br>
+
+
+116<br>
+
+
+"Este milagre fez tamanho espanto<br>
+
+
+Que o Rei se banha logo na &aacute;gua santa,<br>
+
+
+E muitos ap&oacute;s ele; um beija o manto,<br>
+
+
+Outro louvor do Deus de Tom&eacute; canta.<br>
+
+
+Os Br&acirc;menes se encheram de &oacute;dio tanto,<br>
+
+
+Com seu veneno os morde enveja tanta,<br>
+
+
+Que, persuadindo a isso o povo rudo,<br>
+
+
+Determinam mat&aacute;-lo, em fim de tudo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+117<br>
+
+
+"Um dia que pregando ao povo estava,<br>
+
+
+Fingiram entre a gente um arru&iacute;do.<br>
+
+
+(J&aacute; Cristo neste tempo lhe ordenava<br>
+
+
+Que, padecendo, fosse ao C&eacute;u subido);<br>
+
+
+A multid&atilde;o das pedras que voava<br>
+
+
+No Santo d&aacute;, j&aacute; a tudo oferecido;<br>
+
+
+Um dos maus, por fartar-se mais depressa,<br>
+
+
+Com crua lan&ccedil;a o peito lhe atravessa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+118<br>
+
+
+"Choraram-te, Tom&eacute;, o Gange e o Indo;<br>
+
+
+Chorou-te toda a terra que pisaste;<br>
+
+
+Mais te choram as almas que vestindo<br>
+
+
+Se iam da santa F&eacute; que lhe ensinaste.<br>
+
+
+Mas os Anjos do C&eacute;u, cantando e rindo,<br>
+
+
+Te recebem na gl&oacute;ria que ganhaste.<br>
+
+
+Pedimos-te que a Deus ajuda pe&ccedil;as<br>
+
+
+Com que os teus Lusitanos favore&ccedil;as.<br>
+
+
+<br>
+
+
+119<br>
+
+
+"E v&oacute;s outros que os nomes usurpais<br>
+
+
+De mandados de Deus, como Tom&eacute;,<br>
+
+
+Dizei: se sois mandados, como estais<br>
+
+
+Sem irdes a pregar a santa F&eacute;?<br>
+
+
+Olhai que, se sois Sal e vos danais<br>
+
+
+Na p&aacute;tria, onde profeta ningu&eacute;m &eacute;,<br>
+
+
+Com que se salgar&atilde;o em nossos dias<br>
+
+
+(Infi&eacute;is deixo) tantas heresias?<br>
+
+
+<br>
+
+
+120<br>
+
+
+"Mas passo esta mat&eacute;ria perigosa<br>
+
+
+E tornemos &agrave; costa debuxada.<br>
+
+
+J&aacute; com esta cidade t&atilde;o famosa<br>
+
+
+Se faz curva a Gang&eacute;tica enseada;<br>
+
+
+Corre Narsinga, rica e poderosa;<br>
+
+
+Corre Orixa, de roupas abastada;<br>
+
+
+No fundo da enseada, o ilustre rio<br>
+
+
+Ganges vem ao salgado senhorio;<br>
+
+
+<br>
+
+
+121<br>
+
+
+"Ganges, no qual os seus habitadores<br>
+
+
+Morrem banhados, tendo por certeza<br>
+
+
+Que, inda que sejam grandes pecadores,<br>
+
+
+Esta &aacute;gua santa os lava e d&aacute; pureza.<br>
+
+
+V&ecirc; Catig&atilde;o, cidade das milhores<br>
+
+
+De Bengala prov&iacute;ncia, que se preza<br>
+
+
+De abundante. Mas olha que est&aacute; posta<br>
+
+
+Pera o Austro, daqui virada, a costa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+122<br>
+
+
+"Olha o reino Arrac&atilde;o; olha o assento<br>
+
+
+De Pegu, que j&aacute; monstros povoaram,<br>
+
+
+Monstros filhos do feio ajuntamento<br>
+
+
+D&uuml;a mulher e um c&atilde;o, que s&oacute;s se acharam.<br>
+
+
+Aqui soante arame no instrumento<br>
+
+
+Da gera&ccedil;&atilde;o costumam, o que usaram<br>
+
+
+Por manha da Rainha que, inventando<br>
+
+
+Tal uso, deitou fora o error nefando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+123<br>
+
+
+"Olha Tavai cidade, onde come&ccedil;a<br>
+
+
+De Si&atilde;o largo o imp&eacute;rio t&atilde;o comprido;<br>
+
+
+Tenassari, Qued&aacute;, que &eacute; s&oacute;
+cabe&ccedil;a<br>
+
+
+Das que pimenta ali t&ecirc;m produzido.<br>
+
+
+Mais avante fareis que se conhe&ccedil;a<br>
+
+
+Malaca por emp&oacute;rio ennobrecido,<br>
+
+
+Onde toda a prov&iacute;ncia do mar grande<br>
+
+
+Suas mercadorias ricas mande.<br>
+
+
+<br>
+
+
+124<br>
+
+
+"Dizem que desta terra co as possantes<br>
+
+
+Ondas o mar, entrando, dividiu<br>
+
+
+A nobre ilha Samatra, que j&aacute; d'antes<br>
+
+
+Juntas ambas a gente antiga viu.<br>
+
+
+Quersoneso foi dita; e das prestantes<br>
+
+
+Veias d'ouro que a terra produziu,<br>
+
+
+'Aurea', por epit&eacute;to lhe ajuntaram;<br>
+
+
+Alguns que fosse Ofir imaginaram.<br>
+
+
+<br>
+
+
+125<br>
+
+
+"Mas, na ponta da terra, Cingapura<br>
+
+
+Ver&aacute;s, onde o caminho &agrave;s naus se estreita;<br>
+
+
+Daqui tornando a costa &agrave; Cinosura,<br>
+
+
+Se encurva e pera a Aurora se endireita.<br>
+
+
+V&ecirc;s Pam, Patane, reinos, e a longura<br>
+
+
+De Si&atilde;o, que estes e outros mais sujeita;<br>
+
+
+Olha o rio Men&atilde;o, que se derrama<br>
+
+
+Do grande lago que Chiamai se chama.<br>
+
+
+<br>
+
+
+126<br>
+
+
+V&ecirc;s neste gr&atilde;o terreno os diferentes<br>
+
+
+Nomes de mil na&ccedil;&otilde;es, nunca sabidas:<br>
+
+
+Os Laos, em terra e n&uacute;mero potentes;<br>
+
+
+Av&aacute;s, Bram&aacute;s, por serras t&atilde;o compridas;<br>
+
+
+V&ecirc; nos remotos montes outras gentes,<br>
+
+
+Que Gueos se chamam, de selvages vidas;<br>
+
+
+Humana carne comem, mas a sua<br>
+
+
+Pintam com ferro ardente, usan&ccedil;a crua.<br>
+
+
+<br>
+
+
+127<br>
+
+
+"V&ecirc;s, passa por Camboja Mecom rio,<br>
+
+
+Que capit&atilde;o das &aacute;guas se interpreta;<br>
+
+
+Tantas recebe d' outro s&oacute; no Estio,<br>
+
+
+Que alaga os campos largos e inquieta;<br>
+
+
+Tem as enchentes quais o Nilo frio;<br>
+
+
+A gente dele cr&ecirc;, como indiscreta,<br>
+
+
+Que pena e gl&oacute;ria t&ecirc;m, despois de morte,<br>
+
+
+Os brutos animais de toda sorte.<br>
+
+
+<br>
+
+
+128<br>
+
+
+"Este receber&aacute;, pl&aacute;cido e brando,<br>
+
+
+No seu rega&ccedil;o os Cantos que molhados<br>
+
+
+V&ecirc;m do naufr&aacute;gio triste e miserando,<br>
+
+
+Dos procelosos baxos escapados,<br>
+
+
+Das fomes, dos perigos grandes, quando<br>
+
+
+Ser&aacute; o injusto mando executado<br>
+
+
+Naquele cuja Lira sonorosa<br>
+
+
+Ser&aacute; mais afamada que ditosa.<br>
+
+
+<br>
+
+
+129<br>
+
+
+"V&ecirc;s, corre a costa que Champ&aacute; se chama,<br>
+
+
+Cuja mata &eacute; do pau cheiroso ornada;<br>
+
+
+V&ecirc;s Cauchichina est&aacute;, de escura fama,<br>
+
+
+E de Ain&atilde;o v&ecirc; a inc&oacute;gnita enseada;<br>
+
+
+Aqui o soberbo Imp&eacute;rio, que se afama<br>
+
+
+Com terras e riqueza n&atilde;o cuidada,<br>
+
+
+Da China corre, e ocupa o senhorio<br>
+
+
+Desde o Tr&oacute;pico ardente ao Cinto frio.<br>
+
+
+<br>
+
+
+130<br>
+
+
+"Olha o muro e edif&iacute;cio nunca crido,<br>
+
+
+Que entre um imp&eacute;rio e o outro se edifica,<br>
+
+
+Cert&iacute;ssimo sinal, e conhecido,<br>
+
+
+Da pot&ecirc;ncia real, soberba e rica.<br>
+
+
+Estes, o Rei que t&ecirc;m, n&atilde;o foi nacido<br>
+
+
+Pr&iacute;ncipe, nem dos pais aos filhos fica,<br>
+
+
+Mas elegem aquele que &eacute; famoso<br>
+
+
+Por cavaleiro, s&aacute;bio e virtuoso.<br>
+
+
+<br>
+
+
+131<br>
+
+
+"Inda outra muita terra se te esconde<br>
+
+
+At&eacute; que venha o tempo de mostrar-se;<br>
+
+
+Mas n&atilde;o deixes no mar as Ilhas onde<br>
+
+
+A Natureza quis mais afamar-se:<br>
+
+
+Esta, meia escondida, que responde<br>
+
+
+De longe &agrave; China, donde vem buscar-se,<br>
+
+
+&Eacute; Jap&atilde;o, onde nace a prata fina,<br>
+
+
+Que ilustrada ser&aacute; co a Lei divina.<br>
+
+
+<br>
+
+
+132<br>
+
+
+"Olha c&aacute; pelos mares do Oriente<br>
+
+
+&Aacute;s infinitas Ilhas espalhadas:<br>
+
+
+V&ecirc; Tidore e Ternate, co fervente<br>
+
+
+Cume, que lan&ccedil;a as flamas ondeadas.<br>
+
+
+As &aacute;rvores ver&aacute;s do cravo ardente,<br>
+
+
+Co sangue Portugu&ecirc;s inda compradas.<br>
+
+
+Aqui h&aacute; as &aacute;ureas aves, que n&atilde;o decem<br>
+
+
+Nunca &agrave; terra e s&oacute; mortas aparecem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+133<br>
+
+
+"Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam<br>
+
+
+Da v&aacute;ria cor que pinta o roxo fruto;<br>
+
+
+&Agrave;s aves variadas, que ali saltam,<br>
+
+
+Da verde noz tomando seu tributo.<br>
+
+
+Olha tamb&eacute;m Born&eacute;u, onde n&atilde;o faltam<br>
+
+
+L&aacute;grimas no licor coalhado e enxuto<br>
+
+
+Das &aacute;rvores, que c&acirc;nfora &eacute; chamado,<br>
+
+
+Com que da Ilha o nome &eacute; celebrado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+134<br>
+
+
+"Ali tamb&eacute;m Timor, que o lenho manda<br>
+
+
+S&acirc;ndalo, salut&iacute;fero e cheiroso;<br>
+
+
+Olha a Sunda, t&atilde;o larga que &uuml;a banda<br>
+
+
+Esconde pera o Sul dificultoso;<br>
+
+
+A gente do Sert&atilde;o, que as terras anda,<br>
+
+
+Um rio diz que tem miraculoso,<br>
+
+
+Que, por onde ele s&oacute;, sem outro, vai,<br>
+
+
+Converte em pedra o pau que nele cai.<br>
+
+
+<br>
+
+
+135<br>
+
+
+"V&ecirc; naquela que o tempo tornou Ilha,<br>
+
+
+Que tamb&eacute;m flamas tr&eacute;mulas vapora,<br>
+
+
+A fonte que &oacute;leo mana, e a maravilha<br>
+
+
+Do cheiroso licor que o tronco chora,<br>
+
+
+&mdash;Cheiroso, mais que quanto estila a filha<br>
+
+
+De Ciniras na Ar&aacute;bia, onde ela mora;<br>
+
+
+E v&ecirc; que, tendo quanto as outras t&ecirc;m,<br>
+
+
+Branda seda e fino ouro d&aacute; tamb&eacute;m.<br>
+
+
+<br>
+
+
+136<br>
+
+
+"Olha, em Ceil&atilde;o, que o monte se alevanta<br>
+
+
+Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;<br>
+
+
+Os naturais o t&ecirc;m por cousa santa,<br>
+
+
+Pola pedra onde est&aacute; a pegada humana.<br>
+
+
+Nas ilhas de Maldiva nace a pranta<br>
+
+
+No profundo das &aacute;guas, soberana,<br>
+
+
+Cujo pomo contra o veneno urgente<br>
+
+
+&Eacute; tido por ant&iacute;doto excelente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+137<br>
+
+
+"Ver&aacute;s defronte estar do Roxo Estreito<br>
+
+
+Socotor&aacute;, co amaro alo&eacute; famosa;<br>
+
+
+Outras ilhas, no mar tamb&eacute;m sujeito<br>
+
+
+A v&oacute;s, na costa de &Aacute;frica arenosa,<br>
+
+
+Onde sai do cheiro mais perfeito<br>
+
+
+A massa, ao mundo oculta e preciosa.<br>
+
+
+De S&atilde;o Louren&ccedil;o v&ecirc; a Ilha afamada,<br>
+
+
+Que Madag&aacute;scar &eacute; dalguns chamada.<br>
+
+
+<br>
+
+
+138<br>
+
+
+"Eis aqui as novas partes do Oriente<br>
+
+
+Que v&oacute;s outros agora ao mundo dais,<br>
+
+
+Abrindo a porta ao vasto mar patente,<br>
+
+
+Que com t&atilde;o forte peito navegais.<br>
+
+
+Mas &eacute; tamb&eacute;m raz&atilde;o que, no Ponente,<br>
+
+
+Dum Lusitano um feito inda vejais,<br>
+
+
+Que, de seu Rei mostrando-se agravado,<br>
+
+
+Caminho h&aacute;-de fazer nunca cuidado.<br>
+
+
+<br>
+
+
+139<br>
+
+
+"Vedes a grande terra que contina<br>
+
+
+Vai de Calisto ao seu contr&aacute;rio P&oacute;lo,<br>
+
+
+Que soberba a far&aacute; a luzente mina<br>
+
+
+Do metal que a cor tem do louro Apolo.<br>
+
+
+Castela, vossa amiga, ser&aacute; dina<br>
+
+
+De lan&ccedil;ar-lhe o colar ao rudo colo.<br>
+
+
+Varias prov&iacute;ncias tem de v&aacute;rias gentes,<br>
+
+
+Em ritos e costumes, diferentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+140<br>
+
+
+"Mas c&aacute; onde mais se alarga, ali tereis<br>
+
+
+Parte tamb&eacute;m, co pau vermelho nota;<br>
+
+
+De Santa Cruz o nome lhe poreis;<br>
+
+
+Descobri-la-&aacute; a primeira vossa frota.<br>
+
+
+Ao longo desta costa, que tereis,<br>
+
+
+Ir&aacute; buscando a parte mais remota<br>
+
+
+O Magalh&atilde;es, no feito, com verdade,<br>
+
+
+Portugu&ecirc;s, por&eacute;m n&atilde;o na lealdade.<br>
+
+
+<br>
+
+
+141<br>
+
+
+"D&ecirc;s que passar a via mais que meia<br>
+
+
+Que ao Ant&aacute;rtico P&oacute;lo vai da Linha,<br>
+
+
+D&uuml;a estatura qu&aacute;si giganteia<br>
+
+
+Homens ver&aacute;, da terra ali vizinha;<br>
+
+
+E mais avante o Estreito que se arreia<br>
+
+
+Co nome dele agora, o qual caminha<br>
+
+
+Pera outro mar e terra que fica onde<br>
+
+
+Com suas frias asas o Austro a esconde.<br>
+
+
+<br>
+
+
+142<br>
+
+
+"At&eacute;'aqui Portugueses concedido<br>
+
+
+Vos &eacute; saberdes os futuros feitos<br>
+
+
+Que, pelo mar que j&aacute; deixais sabido,<br>
+
+
+Vir&atilde;o fazer bar&otilde;es de fortes peitos.<br>
+
+
+Agora, pois que tendes aprendido<br>
+
+
+Trabalhos que vos fa&ccedil;am ser aceitos<br>
+
+
+As eternas esposas e fermosas,<br>
+
+
+Que coroas vos tecem gloriosas,<br>
+
+
+<br>
+
+
+143<br>
+
+
+"Podeis-vos embarcar, que tendes vento<br>
+
+
+E mar tranquilo, pera a p&aacute;tria amada."<br>
+
+
+Assi lhe disse; e logo movimento<br>
+
+
+Fazem da Ilha alegre e namorada.<br>
+
+
+Levam refresco e nobre mantimento;<br>
+
+
+Levam a companhia desejada<br>
+
+
+Das Ninfas, que h&atilde;o-de ter eternamente,<br>
+
+
+Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+144<br>
+
+
+Assi foram cortando o mar sereno,<br>
+
+
+Com vento sempre manso e nunca irado,<br>
+
+
+At&eacute; que houveram vista do terreno<br>
+
+
+Em que naceram, sempre desejado.<br>
+
+
+Entraram pela foz do Tejo ameno,<br>
+
+
+E &agrave; sua p&aacute;tria e Rei temido e amado<br>
+
+
+O pr&eacute;mio e gl&oacute;ria d&atilde;o por que mandou,<br>
+
+
+E com t&iacute;tulos novos se ilustrou.<br>
+
+
+<br>
+
+
+145<br>
+
+
+N&ocirc; mais, Musa, n&ocirc; mais, que a Lira tenho<br>
+
+
+Destemperada e a voz enrouquecida,<br>
+
+
+E n&atilde;o do canto, mas de ver que venho<br>
+
+
+Cantar a gente surda e endurecida.<br>
+
+
+O favor com que mais se acende o engenho<br>
+
+
+N&atilde;o no d&aacute; a p&aacute;tria, n&atilde;o,
+que est&aacute; metida<br>
+
+
+No gosto da cobi&ccedil;a e na rudeza<br>
+
+
+D&uuml;a austera, apagada e vil tristeza.<br>
+
+
+<br>
+
+
+146<br>
+
+
+E n&atilde;o sei por que influxo de Destino<br>
+
+
+N&atilde;o tem um ledo orgulho e geral gosto,<br>
+
+
+Que os &acirc;nimos levanta de contino<br>
+
+
+A ter pera trabalhos ledo o rosto.<br>
+
+
+Por isso v&oacute;s, &oacute; Rei, que por divino<br>
+
+
+Conselho estais no r&eacute;gio s&oacute;lio posto,<br>
+
+
+Olhai que sois (e vede as outras gentes)<br>
+
+
+Senhor s&oacute; de vassalos excelentes.<br>
+
+
+<br>
+
+
+147<br>
+
+
+Olhai que ledos v&atilde;o, por v&aacute;rias vias,<br>
+
+
+Quais rompentes li&otilde;es e bravos touros,<br>
+
+
+Dando os corpos a fomes e vigias,<br>
+
+
+A ferro, a fogo, a setas e pelouros,<br>
+
+
+A quentes regi&otilde;es, a plagas frias,<br>
+
+
+A golpes de Idol&aacute;tras e de Mouros,<br>
+
+
+A perigos inc&oacute;gnitos do mundo,<br>
+
+
+A naufr&aacute;gios, a pexes, ao profundo.<br>
+
+
+<br>
+
+
+148<br>
+
+
+Por vos servir, a tudo aparelhados;<br>
+
+
+De v&oacute;s t&atilde;o longe, sempre obedientes;<br>
+
+
+A quaisquer vossos &aacute;speros mandados,<br>
+
+
+Sem dar reposta, prontos e contentes.<br>
+
+
+S&oacute; com saber que s&atilde;o de v&oacute;s olhados,<br>
+
+
+Dem&oacute;nios infernais, negros e ardentes,<br>
+
+
+Cometer&atilde;o convosco, e n&atilde;o duvido<br>
+
+
+Que vencedor vos fa&ccedil;am, n&atilde;o vencido.<br>
+
+
+<br>
+
+
+149<br>
+
+
+Favorecei-os logo, e alegrai-os<br>
+
+
+Com a presen&ccedil;a e leda humanidade;<br>
+
+
+De rigorosas leis desalivai-os,<br>
+
+
+Que assi se abre o caminho &agrave; santidade.<br>
+
+
+Os mais exprimentados levantai-os,<br>
+
+
+Se, com a experi&ecirc;ncia, t&ecirc;m bondade<br>
+
+
+Pera vosso conselho, pois que sabem<br>
+
+
+O como, o quando, e onde as cousas cabem.<br>
+
+
+<br>
+
+
+150<br>
+
+
+Todos favorecei em seus of&iacute;cios,<br>
+
+
+Segundo t&ecirc;m das vidas o talento;<br>
+
+
+Tenham Religiosos exerc&iacute;cios<br>
+
+
+De rogarem, por vosso regimento,<br>
+
+
+Com jejuns, disciplina, pelos v&iacute;cios<br>
+
+
+Comuns; toda ambi&ccedil;&atilde;o ter&atilde;o por vento,<br>
+
+
+Que o bom Religioso verdadeiro<br>
+
+
+Gl&oacute;ria v&atilde; n&atilde;o pretende nem dinheiro.<br>
+
+
+<br>
+
+
+151<br>
+
+
+Os Cavaleiros tende em muita estima,<br>
+
+
+Pois com seu sangue intr&eacute;pido e fervente<br>
+
+
+Estendem n&atilde;o s&ograve;mente a Lei de cima,<br>
+
+
+Mas inda vosso Imp&eacute;rio preminente.<br>
+
+
+Pois aqueles que a t&atilde;o remoto clima<br>
+
+
+Vos v&atilde;o servir, com passo diligente,<br>
+
+
+Dous inimigos vencem: uns, os vivos,<br>
+
+
+E (o que &eacute; mais) os trabalhos excessivos.<br>
+
+
+<br>
+
+
+152<br>
+
+
+Fazei, Senhor, que nunca os admirados<br>
+
+
+Alem&atilde;es, Galos, &Iacute;talos e Ingleses,<br>
+
+
+Possam dizer que s&atilde;o pera mandados,<br>
+
+
+Mais que pera mandar, os Portugueses.<br>
+
+
+Tomai conselho s&oacute; d'exprimentados<br>
+
+
+Que viram largos anos, largos meses,<br>
+
+
+Que, posto que em cientes muito cabe.<br>
+
+
+Mais em particular o experto sabe.<br>
+
+
+<br>
+
+
+153<br>
+
+
+De Formi&atilde;o, fil&oacute;sofo elegante,<br>
+
+
+Vereis como Anibal escarnecia,<br>
+
+
+Quando das artes b&eacute;licas, diante<br>
+
+
+Dele, com larga voz tratava e lia.<br>
+
+
+A disciplina militar prestante<br>
+
+
+N&atilde;o se aprende, Senhor, na fantasia,<br>
+
+
+Sonhando, imaginando ou estudando,<br>
+
+
+Sen&atilde;o vendo, tratando e pelejando.<br>
+
+
+<br>
+
+
+154<br>
+
+
+Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,<br>
+
+
+De v&oacute;s n&atilde;o conhecido nem sonhado?<br>
+
+
+Da boca dos pequenos sei, contudo,<br>
+
+
+Que o louvor sai &agrave;s vezes acabado.<br>
+
+
+Tem me falta na vida honesto estudo,<br>
+
+
+Com longa experi&ecirc;ncia misturado,<br>
+
+
+Nem engenho, que aqui vereis presente,<br>
+
+
+Cousas que juntas se acham raramente.<br>
+
+
+<br>
+
+
+155<br>
+
+
+Pera servir-vos, bra&ccedil;o &agrave;s armas feito,<br>
+
+
+Pera cantar-vos, mente &agrave;s Musas dada;<br>
+
+
+S&oacute; me falece ser a v&oacute;s aceito,<br>
+
+
+De quem virtude deve ser prezada.<br>
+
+
+Se me isto o C&eacute;u concede, e o vosso peito<br>
+
+
+Dina empresa tomar de ser cantada,<br>
+
+
+Como a pres[s]aga mente vaticina<br>
+
+
+Olhando a vossa inclina&ccedil;&atilde;o divina,<br>
+
+
+<br>
+
+
+156<br>
+
+
+Ou fazendo que, mais que a de Medusa,<br>
+
+
+A vista vossa tema o monte Atlante,<br>
+
+
+Ou rompendo nos campos de Ampelusa<br>
+
+
+Os muros de Marrocos e Trudante,<br>
+
+
+A minha j&aacute; estimada e leda Musa<br>
+
+
+Fico que em todo o mundo de v&oacute;s cante,<br>
+
+
+De sorte que Alexandro em v&oacute;s se veja,<br>
+
+
+Sem &agrave; dita de Aquiles ter enveja.<br>
+
+
+<br>
+&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;oOo&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;<br>
+
+
+<br>
+
+
+Final de Os Lus&iacute;adas<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+<br>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
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+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
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+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
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+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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