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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 05:21:04 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Lusíadas + +Author: Luís Vaz de Camões + +Release Date: February 4, 2007 [EBook #3333] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS *** + + + + +Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha + + + + + +</pre> + + + +<br> + + +<h2>Luís Vaz de Camões</h2> + + +<h1>Os Lusíadas</h1> + + +<br> + + +<h3>Canto Primeiro</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +As armas e os barões assinalados,<br> + + +Que da ocidental praia Lusitana,<br> + + +Por mares nunca de antes navegados,<br> + + +Passaram ainda além da Taprobana,<br> + + +Em perigos e guerras esforçados,<br> + + +Mais do que prometia a força humana,<br> + + +E entre gente remota edificaram<br> + + +Novo Reino, que tanto sublimaram;<br> + + +<br> + + +2<br> + + +E também as memórias gloriosas<br> + + +Daqueles Reis, que foram dilatando<br> + + +A Fé, o Império, e as terras viciosas<br> + + +De África e de Ásia andaram devastando;<br> + + +E aqueles, que por obras valerosas<br> + + +Se vão da lei da morte libertando;<br> + + +Cantando espalharei por toda parte,<br> + + +Se a tanto me ajudar o engenho e arte.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Cessem do sábio Grego e do Troiano<br> + + +As navegações grandes que fizeram;<br> + + +Cale-se de Alexandro e de Trajano<br> + + +A fama das vitórias que tiveram;<br> + + +Que eu canto o peito ilustre Lusitano,<br> + + +A quem Neptuno e Marte obedeceram:<br> + + +Cesse tudo o que a Musa antígua canta,<br> + + +Que outro valor mais alto se alevanta.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +E vós, Tágides minhas, pois criado<br> + + +Tendes em mim um novo engenho ardente,<br> + + +Se sempre em verso humilde celebrado<br> + + +Foi de mim vosso rio alegremente,<br> + + +Dai-me agora um som alto e sublimado,<br> + + +Um estilo grandíloquo e corrente,<br> + + +Porque de vossas águas, Febo ordene<br> + + +Que não tenham inveja às de Hipoerene.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Dai-me uma fúria grande e sonorosa,<br> + + +E não de agreste avena ou frauta ruda,<br> + + +Mas de tuba canora e belicosa,<br> + + +Que o peito acende e a cor ao gesto muda;<br> + + +Dai-me igual canto aos feitos da famosa<br> + + +Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;<br> + + +Que se espalhe e se cante no universo,<br> + + +Se tão sublime preço cabe em verso.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +E vós, ó bem nascida segurança<br> + + +Da Lusitana antígua liberdade,<br> + + +E não menos certíssima esperança<br> + + +De aumento da pequena Cristandade;<br> + + +Vós, ó novo temor da Maura lança,<br> + + +Maravilha fatal da nossa idade,<br> + + +Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,<br> + + +Para do mundo a Deus dar parte grande;<br> + + +<br> + + +7<br> + + +Vós, tenro e novo ramo florescente<br> + + +De uma árvore de Cristo mais amada<br> + + +Que nenhuma nascida no Ocidente,<br> + + +Cesárea ou Cristianíssima chamada;<br> + + +(Vede-o no vosso escudo, que presente<br> + + +Vos amostra a vitória já passada,<br> + + +Na qual vos deu por armas, e deixou<br> + + +As que Ele para si na Cruz tomou)<br> + + +<br> + + +8<br> + + +Vós, poderoso Rei, cujo alto Império<br> + + +O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;<br> + + +Vê-o também no meio do Hemisfério,<br> + + +E quando desce o deixa derradeiro;<br> + + +Vós, que esperamos jugo e vitupério<br> + + +Do torpe Ismaelita cavaleiro,<br> + + +Do Turco oriental, e do Gentio,<br> + + +Que inda bebe o licor do santo rio;<br> + + +<br> + + +9<br> + + +Inclinai por um pouco a majestade,<br> + + +Que nesse tenro gesto vos contemplo,<br> + + +Que já se mostra qual na inteira idade,<br> + + +Quando subindo ireis ao eterno templo;<br> + + +Os olhos da real benignidade<br> + + +Ponde no chão: vereis um novo exemplo<br> + + +De amor dos pátrios feitos valerosos,<br> + + +Em versos divulgado numerosos.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +Vereis amor da pátria, não movido<br> + + +De prémio vil, mas alto e quase eterno:<br> + + +Que não é prémio vil ser conhecido<br> + + +Por um pregão do ninho meu paterno.<br> + + +Ouvi: vereis o nome engrandecido<br> + + +Daqueles de quem sois senhor superno,<br> + + +E julgareis qual é mais excelente,<br> + + +Se ser do mundo Rei, se de til gente.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,<br> + + +Fantásticas, fingidas, mentirosas,<br> + + +Louvar os vossos, como nas estranhas<br> + + +Musas, de engrandecer-se desejosas:<br> + + +As verdadeiras vossas são tamanhas,<br> + + +Que excedem as sonhadas, fabulosas;<br> + + +Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,<br> + + +E Orlando, inda que fora verdadeiro,<br> + + +<br> + + +12<br> + + +Por estes vos darei um Nuno fero,<br> + + +Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,<br> + + +Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero<br> + + +A cítara para eles só cobiço.<br> + + +Pois pelos doze Pares dar-vos quero<br> + + +Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;<br> + + +Dou-vos também aquele ilustre Gama,<br> + + +Que para si de Eneias toma a fama.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Pois se a troco de Carlos, Rei de França,<br> + + +Ou de César, quereis igual memória,<br> + + +Vede o primeiro Afonso, cuja lança<br> + + +Escura faz qualquer estranha glória;<br> + + +E aquele que a seu Reino a segurança<br> + + +Deixou com a grande e próspera vitória;<br> + + +Outro Joane, invicto cavaleiro,<br> + + +O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Nem deixarão meus versos esquecidos<br> + + +Aqueles que nos Reinos lá da Aurora<br> + + +Fizeram, só por armas tão subidos,<br> + + +Vossa bandeira sempre vencedora:<br> + + +Um Pacheco fortíssimo, e os temidos<br> + + +Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;<br> + + +Albuquerque terríbil, Castro forte,<br> + + +E outros em quem poder não teve a morte.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,<br> + + +Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,<br> + + +Tomai as rédeas vós do Reino vosso:<br> + + +Dareis matéria a nunca ouvido canto.<br> + + +Comecem a sentir o peso grosso<br> + + +(Que pelo mundo todo faça espanto)<br> + + +De exércitos e feitos singulares,<br> + + +De África as terras, e do Oriente os marços,<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Em vós os olhos tem o Mouro frio,<br> + + +Em quem vê seu exício afigurado;<br> + + +Só com vos ver o bárbaro Gentio<br> + + +Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;<br> + + +Tethys todo o cerúleo senhorio<br> + + +Tem para vós por dote aparelhado;<br> + + +Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,<br> + + +Deseja de comprar-vos para genro.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +Em vós se vêm da olímpica morada<br> + + +Dos dois avós as almas cá famosas,<br> + + +Uma na paz angélica dourada,<br> + + +Outra pelas batalhas sanguinosas;<br> + + +Em vós esperam ver-se renovada<br> + + +Sua memória e obras valerosas;<br> + + +E lá vos tem lugar, no fim da idade,<br> + + +No templo da suprema Eternidade.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +Mas enquanto este tempo passa lento<br> + + +De regerdes os povos, que o desejam,<br> + + +Dai vós favor ao novo atrevimento,<br> + + +Para que estes meus versos vossos sejam;<br> + + +E vereis ir cortando o salso argento<br> + + +Os vossos Argonautas, por que vejam<br> + + +Que são vistos de vós no mar irado,<br> + + +E costumai-vos já a ser invocado.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Já no largo Oceano navegavam,<br> + + +As inquietas ondas apartando;<br> + + +Os ventos brandamente respiravam,<br> + + +Das naus as velas côncavas inchando;<br> + + +Da branca escuma os mares se mostravam<br> + + +Cobertos, onde as proas vão cortando<br> + + +As marítimas águas consagradas,<br> + + +Que do gado de Próteo são cortadas<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Quando os Deuses no Olimpo luminoso,<br> + + +Onde o governo está da humana gente,<br> + + +Se ajuntam em concílio glorioso<br> + + +Sobre as cousas futuras do Oriente.<br> + + +Pisando o cristalino Céu formoso,<br> + + +Vêm pela Via-Láctea juntamente,<br> + + +Convocados da parte do Tonante,<br> + + +Pelo neto gentil do velho Atlante.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +Deixam dos sete Céus o regimento,<br> + + +Que do poder mais alto lhe foi dado,<br> + + +Alto poder, que só co'o pensamento<br> + + +Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.<br> + + +Ali se acharam juntos num momento<br> + + +Os que habitam o Arcturo congelado,<br> + + +E os que o Austro tem, e as partes onde<br> + + +A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Estava o Padre ali sublime e dino,<br> + + +Que vibra os feros raios de Vulcano,<br> + + +Num assento de estrelas cristalino,<br> + + +Com gesto alto, severo e soberano.<br> + + +Do rosto respirava um ar divino,<br> + + +Que divino tornara um corpo humano;<br> + + +Com uma coroa e ceptro rutilante,<br> + + +De outra pedra mais clara que diamante.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +Em luzentes assentos, marchetados<br> + + +De ouro e de perlas, mais abaixo estavam<br> + + +Os outros Deuses todos assentados,<br> + + +Como a razão e a ordem concertavam:<br> + + +Precedem os antíguos mais honrados;<br> + + +Mais abaixo os menores se assentavam;<br> + + +Quando Júpiter alto, assim dizendo,<br> + + +C'um tom de voz começa, grave e horrendo:<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"Eternos moradores do luzente<br> + + +Estelífero pólo, e claro assento,<br> + + +Se do grande valor da forte gente<br> + + +De Luso não perdeis o pensamento,<br> + + +Deveis de ter sabido claramente,<br> + + +Como é dos fados grandes certo intento,<br> + + +Que por ela se esqueçam os humanos<br> + + +De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"Já lhe foi (bem o vistes) concedido<br> + + +C'um poder tão singelo e tão pequeno,<br> + + +Tomar ao Mouro forte e guarnecido<br> + + +Toda a terra, que rega o Tejo ameno:<br> + + +Pois contra o Castelhano tão temido,<br> + + +Sempre alcançou favor do Céu sereno.<br> + + +Assim que sempre, enfim, com fama e glória,<br> + + +Teve os troféus pendentes da vitória.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,<br> + + +Que coa gente de Rómulo alcançaram,<br> + + +Quando com Viriato, na inimiga<br> + + +Guerra romana tanto se afamaram;<br> + + +Também deixo a memória, que os obriga<br> + + +A grande nome, quando alevantaram<br> + + +Um por seu capitão, que peregrino<br> + + +Fingiu na cerva espírito divino.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Agora vedes bem que, cometendo<br> + + +O duvidoso mar num lenho leve,<br> + + +Por vias nunca usadas, não temendo<br> + + +De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:<br> + + +Que havendo tanto já que as partes vendo<br> + + +Onde o dia é comprido e onde breve,<br> + + +Inclinam seu propósito e porfia<br> + + +A ver os berços onde nasce o dia.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Prometido lhe está do Fado eterno,<br> + + +Cuja alta Lei não pode ser quebrada,<br> + + +Que tenham longos tempos o governo<br> + + +Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.<br> + + +Nas águas têm passado o duro inverno;<br> + + +A gente vem perdida e trabalhada;<br> + + +Já parece bem feito que lhe seja<br> + + +Mostrada a nova terra, que deseja.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"E porque, como vistes, têm passados<br> + + +Na viagem tão ásperos perigos,<br> + + +Tantos climas e céus experimentados,<br> + + +Tanto furor de ventos inimigos,<br> + + +Que sejam, determino, agasalhados<br> + + +Nesta costa africana, como amigos.<br> + + +E tendo guarnecida a lassa frota,<br> + + +Tornarão a seguir sua longa rota."<br> + + +<br> + + +30<br> + + +Estas palavras Júpiter dizia,<br> + + +Quando os Deuses por ordem respondendo,<br> + + +Na sentença um do outro diferia,<br> + + +Razões diversas dando e recebendo.<br> + + +O padre Baco ali não consentia<br> + + +No que Júpiter disse, conhecendo<br> + + +Que esquecerão seus feitos no Oriente,<br> + + +Se lá passar a Lusitana gente.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +Ouvido tinha aos Fados que viria<br> + + +Uma gente fortíssima de Espanha<br> + + +Pelo mar alto, a qual sujeitaria<br> + + +Da índia tudo quanto Dóris banha,<br> + + +E com novas vitórias venceria<br> + + +A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.<br> + + +Altamente lhe dói perder a glória,<br> + + +De que Nisa celebra inda a memória.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +Vê que já teve o Indo sojugado,<br> + + +E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,<br> + + +Por vencedor da Índia ser cantado<br> + + +De quantos bebem a água de Parnaso.<br> + + +Teme agora que seja sepultado<br> + + +Seu tão célebre nome em negro vaso<br> + + +D'água do esquecimento, se lá chegam<br> + + +Os fortes Portugueses, que navegam.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +Sustentava contra ele Vénus bela,<br> + + +Afeiçoada à gente Lusitana,<br> + + +Por quantas qualidades via nela<br> + + +Da antiga tão amada sua Romana;<br> + + +Nos fortes corações, na grande estrela,<br> + + +Que mostraram na terra Tingitana,<br> + + +E na língua, na qual quando imagina,<br> + + +Com pouca corrupção crê que +é a Latina.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +Estas causas moviam Citereia,<br> + + +E mais, porque das Parcas claro entende<br> + + +Que há de ser celebrada a clara Deia,<br> + + +Onde a gente belígera se estende.<br> + + +Assim que, um pela infâmia, que arreceia,<br> + + +E o outro pelas honras, que pretende,<br> + + +Debatem, e na porfia permanecem;<br> + + +A qualquer seus amigos favorecem.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura<br> + + +De silvestre arvoredo abastecida,<br> + + +Rompendo os ramos vão da mata escura,<br> + + +Com ímpeto e braveza desmedida;<br> + + +Brama toda a montanha, o som murmura,<br> + + +Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:<br> + + +Tal andava o tumulto levantado,<br> + + +Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +Mas Marte, que da Deusa sustentava<br> + + +Entre todos as partes em porfia,<br> + + +Ou porque o amor antigo o obrigava,<br> + + +Ou porque a gente forte o merecia,<br> + + +De entre os Deuses em pé se levantava:<br> + + +Merencório no gesto parecia;<br> + + +O forte escudo ao colo pendurado<br> + + +Deitando para trás, medonho e irado,<br> + + +<br> + + +37<br> + + +A viseira do elmo de diamante<br> + + +Alevantando um pouco, mui seguro,<br> + + +Por dar seu parecer, se pôs diante<br> + + +De Júpiter, armado, forte e duro:<br> + + +E dando uma pancada penetrante,<br> + + +Com o conto do bastão no sólio puro,<br> + + +O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,<br> + + +Um pouco a luz perdeu, como enfiado.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +E disse assim: "Ó Padre, a cujo império<br> + + +Tudo aquilo obedece, que criaste,<br> + + +Se esta gente, que busca outro hemisfério,<br> + + +Cuja valia, e obras tanto amaste,<br> + + +Não queres que padeçam vitupério,<br> + + +Como há já tanto tempo que ordenaste,<br> + + +Não onças mais, pois és juiz direito,<br> + + +Razões de quem parece que é suspeito.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Que, se aqui a razão se não mostrasse<br> + + +Vencida do temor demasiado,<br> + + +Bem fora que aqui Baco os sustentasse,<br> + + +Pois que de Luso vem, seu tão privado;<br> + + +Mas esta tenção sua agora passe,<br> + + +Porque enfim vem de estâmago danado;<br> + + +Que nunca tirará alheia inveja<br> + + +O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"E tu, Padre de grande fortaleza,<br> + + +Da determinação, que tens tomada,<br> + + +Não tornes por detrás, pois é fraqueza<br> + + +Desistir-se da cousa começada.<br> + + +Mercúrio, pois excede em ligeireza<br> + + +Ao vento leve, e à seta bem talhada,<br> + + +Lhe vá mostrar a terra, onde se informe<br> + + +Da índia, e onde a gente se reforme."<br> + + +<br> + + +41<br> + + +Como isto disse, o Padre poderoso,<br> + + +A cabeça inclinando, consentiu<br> + + +No que disse Mavorte valeroso,<br> + + +E néctar sobre todos esparziu.<br> + + +Pelo caminho Lácteo glorioso<br> + + +Logo cada um dos Deuses se partiu,<br> + + +Fazendo seus reais acatamentos,<br> + + +Para os determinados aposentos.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +Enquanto isto se passa na formosa<br> + + +Casa etérea do Olimpo onipotente,<br> + + +Cortava o mar a gente belicosa,<br> + + +Já lá da banda do Austro e do Oriente,<br> + + +Entre a costa Etiópica e a famosa<br> + + +Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente<br> + + +Queimava então os Deuses, que Tifeu<br> + + +Com o temor grande em peixes converteu.<br> + + +<br> + + +<br> + + +43<br> + + +Tão brandamente os ventos os levavam,<br> + + +Como quem o céu tinha por amigo:<br> + + +Sereno o ar, e os tempos se mostravam<br> + + +Sem nuvens, sem receio de perigo.<br> + + +O promontório Prasso já passavam,<br> + + +Na costa de Etiópia, nome antigo,<br> + + +Quando o mar descobrindo lhe mostrava<br> + + +Novas ilhas, que em torno cerca e lava.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +Vasco da Gama, o forte capitão,<br> + + +Que a tamanhas empresas se oferece,<br> + + +De soberbo e de altivo coração,<br> + + +A quem Fortuna sempre favorece,<br> + + +Para se aqui deter não vê razão,<br> + + +Que inabitada a terra lhe parece:<br> + + +Por diante passar determinava;<br> + + +Mas não lhe sucedeu como cuidava.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +Eis aparecem logo em companhia<br> + + +Uns pequenos batéis, que vêm daquela<br> + + +Que mais chegada à terra parecia,<br> + + +Cortando o longo mar com larga vela.<br> + + +A gente se alvoroça, e de alegria<br> + + +Não sabe mais que olhar a causa dela.<br> + + +Que gente será esta, em si diziam,<br> + + +Que costumes, que Lei, que Rei teriam?<br> + + +<br> + + +46<br> + + +As embarcações eram, na maneira,<br> + + +Mui veloces, estreitas e compridas:<br> + + +As velas, com que, vêm, eram de esteira<br> + + +Dumas folhas de palma, bem tecidas;<br> + + +A gente da cor era verdadeira,<br> + + +Que Faeton, nas terras acendidas,<br> + + +Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:<br> + + +O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +De panos de algodão vinham vestidos,<br> + + +De várias cores, brancos e listrados:<br> + + +Uns trazem derredor de si cingidos,<br> + + +Outros em modo airoso sobraçados:<br> + + +Da cinta para cima vêm despidos;<br> + + +Por armas têm adargas o terçados;<br> + + +Com toucas na cabeça; e navegando,<br> + + +Anafis sonoros vão tocando.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +Co'os panos e co'os braços acenavam<br> + + +As gentes Lusitanas, que esperassem;<br> + + +Mas já as proas ligeiras se inclinavam<br> + + +Para que junto às ilhas amainassem.<br> + + +A gente e marinheiros trabalhavam,<br> + + +Como se aqui os trabalhos se acabassem;<br> + + +Tomam velas; amaina-se a verga alta;<br> + + +Da âncora, o mar ferido, em cima salta.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +Não eram ancorados, quando a gente<br> + + +Estranha pelas cordas já subia.<br> + + +No gesto ledos vêm, e humanamente<br> + + +O Capitão sublime os recebia:<br> + + +As mesas manda pôr em continente;<br> + + +Do licor que Lieo prantado havia<br> + + +Enchem vasos de vidro, e do que deitam,<br> + + +Os de Faeton queimados nada enjeitam.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +Comendo alegremente perguntavam,<br> + + +Pela Arábica língua, donde vinham,<br> + + +Quem eram, de que terra, que buscavam,<br> + + +Ou que partes do mar corrido tinham?<br> + + +Os fortes Lusitanos lhe tornavam<br> + + +As discretas respostas, que convinham:<br> + + +"Os Portugueses somos do Ocidente,<br> + + +Imos buscando as terras do Oriente.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"Do mar temos corrido e navegado<br> + + +Toda a parte do Antártico e Calisto,<br> + + +Toda a costa Africana rodeado,<br> + + +Diversos céus e terras temos visto;<br> + + +Dum Rei potente somos, tão amado,<br> + + +Tão querido de todos, e benquisto,<br> + + +Que não no largo mar, com leda fronte,<br> + + +Mas no lago entraremos de Aqueronte.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"E por mandado seu, buscando andamos<br> + + +A terra Oriental que o Indo rega;<br> + + +Por ele, o mar remoto navegamos,<br> + + +Que só dos feios focas se navega.<br> + + +Mas já razão parece que saibamos,<br> + + +Se entre vós a verdade não se nega,<br> + + +Quem sois, que terra é esta que habitais,<br> + + +Ou se tendes da Índia alguns sinais?"<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,<br> + + +Estrangeiros na terra, Lei e nação;<br> + + +Que os próprios são aqueles, que criou<br> + + +A natura sem Lei e sem razão.<br> + + +Nós temos a Lei certa, que ensinou<br> + + +O claro descendente de Abraão<br> + + +Que agora tem do mundo o senhorio,<br> + + +A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.<br> + + +Informações. A Ilha de Moçambique.<br> + + +<br> + + +54<br> + + +"Esta ilha pequena, que habitamos,<br> + + +em toda esta terra certa escala<br> + + +De todos os que as ondas navegamos<br> + + +De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;<br> + + +E, por ser necessária, procuramos,<br> + + +Como próprios da terra, de habitá-la;<br> + + +E por que tudo enfim vos notifique,<br> + + +Chama-se a pequena ilha Moçambique.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +"E já que de tão longe navegais,<br> + + +Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,<br> + + +Piloto aqui tereis, por quem sejais<br> + + +Guiados pelas ondas sabiamente.<br> + + +Também será bem feito que tenhais<br> + + +Da terra algum refresco, e que o Regente<br> + + +Que esta terra governa, que vos veja,<br> + + +E do mais necessário vos proveja."<br> + + +<br> + + +56<br> + + +Isto dizendo, o Mouro se tornou<br> + + +A seus batéis com toda a companhia;<br> + + +Do Capitão e gente se apartou<br> + + +Com mostras de devida cortesia.<br> + + +Nisto Febo nas águas encerrou,<br> + + +Co'o carro de cristal, o claro dia,<br> + + +Dando cargo à irmã, que alumiasse<br> + + +O largo mundo, enquanto repousasse.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +A noite se passou na lassa frota<br> + + +Com estranha alegria, e não cuidada,<br> + + +Por acharem da terra tão remota<br> + + +Nova de tanto tempo desejada.<br> + + +Qualquer então consigo cuida e nota<br> + + +Na gente e na maneira desusada,<br> + + +E como os que na errada Seita creram,<br> + + +Tanto por todo o mundo se estenderam,<br> + + +<br> + + +58<br> + + +Da Lua os claros raios rutilavam<br> + + +Pelas argênteas ondas Neptuninas,<br> + + +As estrelas os Céus acompanhavam,<br> + + +Qual campo revestido de boninas;<br> + + +Os furiosos ventos repousavam<br> + + +Pelas covas escuras peregrinas;<br> + + +Porém da armada a gente vigiava,<br> + + +Como por longo tempo costumava.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +Mas assim como a Aurora marchetada<br> + + +Os formosos cabelos espalhou<br> + + +No Céu sereno, abrindo a roxa entrada<br> + + +Ao claro Hiperiónio, que acordou,<br> + + +Começa a embandeirar-se toda a armada,<br> + + +E de toldos alegres se adornou,<br> + + +Por receber com festas e alegria<br> + + +O Regedor das ilhas, que partia.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +Partia alegremente navegando,<br> + + +A ver as naus ligeiras Lusitanas,<br> + + +Com refresco da terra, em si cuidando<br> + + +Que são aquelas gentes inumanas,<br> + + +Que, os aposentos cáspios habitando,<br> + + +A conquistar as terras Asianas<br> + + +Vieram; e por ordem do Destino,<br> + + +O Império tomaram a Constantino.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +Recebe o Capitão alegremente<br> + + +O Mouro, e toda a sua companhia;<br> + + +Dá-lhe de ricas peças um presente,<br> + + +Que só para este efeito já trazia;<br> + + +Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente<br> + + +Não usado licor, que dá alegria.<br> + + +Tudo o Mouro contente bem recebe;<br> + + +E muito mais contente come e bebe.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +Está a gente marítima de Luso<br> + + +Subida pela enxárcia, de admirada,<br> + + +Notando o estrangeiro modo e uso,<br> + + +E a linguagem tão bárbara e enleada.<br> + + +Também o Mouro astuto está confuso,<br> + + +Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;<br> + + +E perguntando tudo, lhe dizia<br> + + +"Se por ventura vinham de Turquia?"<br> + + +<br> + + +63<br> + + +E mais lhe diz também, que ver deseja<br> + + +Os livros de sua Lei, preceito eu fé,<br> + + +Para ver se conforme à sua seja,<br> + + +Ou se são dos de Cristo, como Crê.<br> + + +E porque tudo note e tudo veja,<br> + + +Ao Capitão pedia que lhe dê<br> + + +Mostra das fortes armas de que usavam,<br> + + +Quando co'os inimigos pelejavam.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +Responde o valeroso Capitão<br> + + +Por um, que a língua escura bem sabia:<br> + + +"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação<br> + + +De mim, da Lei, das armas que trazia.<br> + + +Nem sou da terra, nem da geração<br> + + +Das gentes enojosas de Turquia:<br> + + +Mas sou da forte Europa belicosa,<br> + + +Busco as terras da índia tão famosa.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +A lei tenho daquele, a cujo império<br> + + +Obedece o visíbil e ínvisíbil<br> + + +Aquele que criou todo o Hemisfério,<br> + + +Tudo o que sente, o todo o insensíbil;<br> + + +Que padeceu desonra e vitupério,<br> + + +Sofrendo morte injusta e insofríbil,<br> + + +E que do Céu à Terra, enfim desceu,<br> + + +Por subir os mortais da Terra ao Céu.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +Deste Deus-Homem, alto e infinito,<br> + + +Os livros, que tu pedes não trazia,<br> + + +Que bem posso escusar trazer escrito<br> + + +Em papel o que na alma andar devia.<br> + + +Se as armas queres ver, como tens dito,<br> + + +Cumprido esse desejo te seria;<br> + + +Como amigo as verás; porque eu me obrigo,<br> + + +Que nunca as queiras ver como inimigo."<br> + + +<br> + + +67<br> + + +Isto dizendo, manda os diligentes<br> + + +Ministros amostrar as armaduras:<br> + + +Vêm arneses, e peitos reluzentes,<br> + + +Malhas finas, e lâminas seguras,<br> + + +Escudos de pinturas diferentes,<br> + + +Pelouros, espingardas de aço puras,<br> + + +Arcos, e sagitíferas aljavas,<br> + + +Partazanas agudas, chuças bravas:<br> + + +<br> + + +68<br> + + +As bombas vêm de fogo, e juntamente<br> + + +As panelas sulfúreas, tão danosas;<br> + + +Porém aos de Vulcano não consente<br> + + +Que dêem fogo às bombardas temerosas;<br> + + +Porque o generoso ânimo e valente,<br> + + +Entre gentes tão poucas e medrosas,<br> + + +Não mostra quanto pode, e com razão,<br> + + +Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +Porém disto, que o Mouro aqui notou,<br> + + +E de tudo o que viu com olho atento<br> + + +Um ódio certo na alma lhe ficou,<br> + + +Uma vontade má de pensamento.<br> + + +Nas mostras e no gesto o não mostrou;<br> + + +Mas com risonho e ledo fingimento<br> + + +Tratá-los brandamente determina,<br> + + +Até que mostrar possa o que imagina.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +Pilotos lhe pedia o Capitão,<br> + + +Por quem pudesse à Índia ser levado;<br> + + +Diz-lhe que o largo prémio levarão<br> + + +Do trabalho que nisso for tomado.<br> + + +Promete-lhos o Mouro, com tenção<br> + + +De peito venenoso, e tão danado,<br> + + +Que a morte, se pudesse, neste dia,<br> + + +Em lugar de pilotos lhe daria.<br> + + +<br> + + +<br> + + +71<br> + + +Tamanho o ódio foi, e a má vontade,<br> + + +Que aos estrangeiros súbito tomou,<br> + + +Sabendo ser sequazes da verdade,<br> + + +Que o Filho de David nos ensinou.<br> + + +ó segredos daquela Eternidade,<br> + + +A quem juízo algum nunca alcançou!<br> + + +Que nunca falte um pérfido inimigo<br> + + +Aqueles de quem foste tanto amigo!<br> + + +<br> + + +72<br> + + +Partiu-se Disto enfim coa companhia,<br> + + +Das naus o falso Mouro despedido,<br> + + +Com enganosa e grande cortesia,<br> + + +Com gesto ledo a todos, e fingido.<br> + + +Cortaram os batéis a curta via<br> + + +Das águas de Neptuno, e recebido<br> + + +Na terra do obsequente ajuntamento<br> + + +Se foi o Mouro ao cógnito aposento.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +Do claro assento etóreo o grão Tebano,<br> + + +Que da paternal coxa foi nascido,<br> + + +Olhando o ajuntamento Lusitano<br> + + +Ao Mouro ser molesto e avorrecido,<br> + + +No pensamento cuida um falso engano,<br> + + +Com que seja de todo destruído.<br> + + +E enquanto isto só na alma imaginava,<br> + + +Consigo estas palavras praticava:<br> + + +<br> + + +74<br> + + +"Está do fado já determinado,<br> + + +Que tamanhas vitórias, tão famosas,<br> + + +Hajam os Portugueses alcançado<br> + + +Das Indianas gentes belicosas.<br> + + +E eu só, filho do Padre sublimado,<br> + + +Com tantas qualidades generosas,<br> + + +Hei de sofrer que o fado favoreça<br> + + +Outrem, por quem meu nome se escureça?<br> + + +<br> + + +75<br> + + +"Já quiseram os Deuses que tivesse<br> + + +O filho de Filipo nesta parte<br> + + +Tanto poder, que tudo submetesse<br> + + +Debaixo de seu jugo o fero Marte.<br> + + +Mas há-se de sofrer que o fado desse<br> + + +A tão poucos tamanho esforço e arte,<br> + + +Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,<br> + + +Demos lugar ao nome Lusitano?<br> + + +<br> + + +76<br> + + +"Não será assim, porque antes que chegado<br> + + +Seja este Capitão, astutamente<br> + + +Lhe será tanto engano fabricados<br> + + +Que nunca veja as partes do Oriente.<br> + + +Eu descerei à Terra, e o indignado<br> + + +Peito revolverei da Maura gente;<br> + + +Porque sempre por via irá direita<br> + + +Quem do oportuno tempo se aproveita."<br> + + +<br> + + +77<br> + + +Isto dizendo, irado e quase insano,<br> + + +Sobre a terra africana descendeu,<br> + + +Onde vestindo a forma e gesto humano,<br> + + +Para o Prasso sabido se moveu.<br> + + +E por melhor tecer o astuto engano,<br> + + +No gesto natural se converteu<br> + + +Dum Mouro, em Moçambique conhecido<br> + + +Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas<br> + + +A sua falsidade acomodadas,<br> + + +Lhe diz como eram gentes roubadoras,<br> + + +Estas que ora de novo são chegadas;<br> + + +Que das nações na costa moradoras<br> + + +Correndo a fama veio que roubadas<br> + + +Foram por estes homens que passavam,<br> + + +Que com pactos de paz sempre ancoravam.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +E sabe mais, lhe diz, como entendido<br> + + +Tenho destes cristãos sanguinolentos,<br> + + +Que quase todo o mar têm destruído<br> + + +Com roubos, com incêndios violentos;<br> + + +E trazem já de longe engano urdido<br> + + +Contra nós; e que todos seus intentos<br> + + +São para nos matarem e roubarem,<br> + + +E mulheres e filhos cativarem.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"E também sei que tem determinado<br> + + +De vir por água a terra muito cedo<br> + + +O Capitão dos seus acompanhado,<br> + + +Que da tensão danada nasce o medo.<br> + + +Tu deves de ir também co'os teus armado<br> + + +Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;<br> + + +Porque, saindo a gente descuidada,<br> + + +Cairão facilmente na cilada.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"E se inda não ficarem deste jeito<br> + + +Destruídos, ou mortos totalmente<br> + + +Eu tenho imaginado no conceito<br> + + +Outra manha e ardil, que te contente:<br> + + +Manda-lhe dar piloto, que de jeito<br> + + +Seja astuto no engano, e tão prudente,<br> + + +Que os leve aonde sejam destruídos,<br> + + +Desbaratados, mortos, ou perdidos."<br> + + +<br> + + +82<br> + + +Tanto que estas palavras acabou,<br> + + +O Mouro, nos tais casos sábio e velho,<br> + + +Os braços pelo colo lhe lançou,<br> + + +Agradecendo muito o tal conselho;<br> + + +E logo nesse instante concertou<br> + + +Para a guerra o belígero aparelho,<br> + + +Para que ao Português se lhe tornasse<br> + + +Em roxo sangue a água, que buscasse.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +E busca mais, para o cuidado engano,<br> + + +Mouro, que por piloto à nau lhe mande,<br> + + +Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,<br> + + +De quem fiar-se possa um feito grande.<br> + + +Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,<br> + + +Por tais costas e mares com ele ande,<br> + + +Que, se daqui escapar, que lá diante<br> + + +Vá cair onde nunca se alevante.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +Já o raio Apolíneo visitava<br> + + +Os montes Nabatêos acendido,<br> + + +Quando o Gama, colos seus determinava<br> + + +De vir por água a terra apercebido.<br> + + +A gente nos batéis se concertava,<br> + + +Como se fosse o engano já sabido:<br> + + +Mas pode suspeitar-se facilmente,<br> + + +Que o coração pressago nunca mente.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +E mais também mandado tinha a terra,<br> + + +De antes, pelo piloto necessário,<br> + + +E foi-lhe respondido em som de guerra,<br> + + +Caso do que cuidava mui contrário;<br> + + +Por isto, e porque sabe quanto erra<br> + + +Quem se crê de seu pérfido adversário,<br> + + +Apercebido vai como podia,<br> + + +Em três batéis somente que trazia.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +Mas os Mouros que andavam pela praia,<br> + + +Por lhe defender a água desejada,<br> + + +Um de escudo embraçado e de azagaia,<br> + + +Outro de arco encurvado e seta ervada,<br> + + +Esperam que a guerreira gente saia,<br> + + +Outros muitos já postos em cilada.<br> + + +E, porque o caso leve se lhe faça,<br> + + +Põem uns poucos diante por negaça,<br> + + +<br> + + +87<br> + + +Andam pela ribeira alva, arenosa,<br> + + +Os belicosos Mouros acenando<br> + + +Com a adarga e co'a hástia perigosa,<br> + + +Os fortes Portugueses incitando.<br> + + +Não sofre muito a gente generosa<br> + + +Andar-lhe os cães os dentes amostrando.<br> + + +Qualquer em terra salta tão ligeiro,<br> + + +Que nenhum dizer pode que é primeiro.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +Qual no corro sanguino o ledo amante,<br> + + +Vendo a formosa dama desejada,<br> + + +O touro busca, e pondo-se diante,<br> + + +Salta, corre, sibila, acena, e brada,<br> + + +Mas o animal atroce, nesse instante,<br> + + +Com a fronte cornígera inclinada,<br> + + +Bramando duro corre, e os olhos cerra,<br> + + +Derriba, fere e mata, e põe por terra:<br> + + +<br> + + +89<br> + + +Eis nos batéis o fogo se levanta<br> + + +Na furiosa e dura artilharia,<br> + + +A plúmbea péla mata, o brado espanta,<br> + + +Ferido o ar retumba e assovia:<br> + + +O coração dos Mouros se quebranta,<br> + + +O temor grande o sangue lhe resfria.<br> + + +Já foge o escondido de medroso,<br> + + +E morre o descoberto aventuroso.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Não se contenta a gente Portuguesa,<br> + + +Mas seguindo a vitória estrui e mata;<br> + + +A povoação, sem muro e sem defesa,<br> + + +Esbombardeia, acende e desbarata.<br> + + +Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,<br> + + +Que bem cuidou comprá-la mais barata;<br> + + +Já blasfema da guerra, e maldizia,<br> + + +O velho inerte, e a mãe que o filho cria.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Fugindo, a seta o Mouro vai tirando<br> + + +Sem força, de covarde e de apressado,<br> + + +A pedra, o pau, e o canto arremessando;<br> + + +Dá-lhe armas o furor desatinado.<br> + + +Já a ilha e todo o mais desemparando,<br> + + +A terra firme foge amedrontado;<br> + + +Passa e corta do mar o estreito braço,<br> + + +Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Uns vão nas almadias carregadas,<br> + + +Um corta o mar a nado diligente,<br> + + +Quem se afoga nas ondas encurvadas,<br> + + +Quem bebe o mar, e o deita juntamente.<br> + + +Arrombam as miúdas bombardadas<br> + + +Os pangaios subtis da bruta gente:<br> + + +Desta arte o Português enfim castiga<br> + + +A vil malícia, pérfida, inimiga.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +Tornam vitoriosos para a armada,<br> + + +Co'o despojo da guerra e rica presa,<br> + + +E vão a seu prazer fazer aguada,<br> + + +Sem achar resistência, nem defesa.<br> + + +Ficava a Maura gente magoada,<br> + + +No ódio antigo mais que nunca acesa;<br> + + +E vendo sem vingança tanto dano,<br> + + +Somente estriba no segundo engano.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +Pazes cometer manda arrependido<br> + + +O Regedor daquela iníqua terra,<br> + + +Sem ser dos Lusitanos entendido,<br> + + +Que em figura de paz lhe manda guerra;<br> + + +Porque o piloto falso prometido,<br> + + +Que toda a má tenção no peito encerra,<br> + + +Para os guiar à morte lhe mandava,<br> + + +Como em sinal das pazes que tratava.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +O Capitão, que já lhe então convinha<br> + + +Tornar a seu caminho acostumado,<br> + + +Que tempo concertado e ventos tinha<br> + + +Para ir buscar o Indo desejado,<br> + + +Recebendo o piloto, que lhe vinha,<br> + + +Foi dele alegremente agasalhado;<br> + + +E respondendo ao mensageiro a tento,<br> + + +As velas manda dar ao largo vento.<br> + + +<br> + + +96<br> + + +Desta arte despedida a forte armada,<br> + + +As ondas de Anfitrite dividia,<br> + + +Das filhas de Nereu acompanhada,<br> + + +Fiel, alegre e doce companhia.<br> + + +O Capitão, que não caía em nada<br> + + +Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,<br> + + +Dele mui largamente se informava<br> + + +Da Índia toda, e costas que passava.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +Mas o Mouro, instruído nos enganos<br> + + +Que o malévolo Baco lhe ensinara,<br> + + +De morte ou cativeiro novos danos,<br> + + +Antes que à Índia chegue, lhe prepara:<br> + + +Dando razões dos portos Indianos,<br> + + +Também tudo o que pede lhe declara,<br> + + +Que, havendo por verdade o que dizia,<br> + + +De nada a forte gente se temia.<br> + + +<br> + + +98<br> + + +E diz-lhe mais, com o falso pensamento<br> + + +Com que Sinon os Frígios enganou:<br> + + +Que perto está uma ilha, cujo assento<br> + + +Povo antigo cristão sempre habitou.<br> + + +O Capitão, que a tudo estava a tento,<br> + + +Tanto com estas novas se alegrou,<br> + + +Que com dádivas grandes lhe rogava,<br> + + +Que o leve à terra onde esta gente estava.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +O mesmo o falso Mouro determina,<br> + + +Que o seguro Cristão lhe manda e pede;<br> + + +Que a ilha é possuída da malina<br> + + +Gente que segue o torpe Mahamede.<br> + + +Aqui o engano e morte lhe imagina,<br> + + +Porque em poder e forças muito excede<br> + + +A Moçambique esta ilha, que se chama<br> + + +Quíloa, mui conhecida pela fama.<br> + + +<br> + + +100<br> + + +Para lá se inclinava a leda frota;<br> + + +Mas a Deusa em Citere celebrada,<br> + + +Vendo como deixava a certa rota<br> + + +Por ir buscar a morte não cuidada,<br> + + +Não consente que em terra tão remota<br> + + +Se perca a gente dela tanto amada.<br> + + +E com ventos contrários a desvia<br> + + +Donde o piloto falso a leva e guia.<br> + + +<br> + + +101<br> + + +Mas o malvado Mouro, não podendo<br> + + +Tal determinação levar avante,<br> + + +Outra maldade iníqua cometendo,<br> + + +Ainda em seu propósito constante,<br> + + +Lhe diz que, pois as águas discorrendo<br> + + +Os levaram por força por diante,<br> + + +Que outra ilha tem perto, cuja gente<br> + + +Eram Cristãos com Mouros juntamente.<br> + + +<br> + + +102<br> + + +Também nestas palavras lhe mentia,<br> + + +Como por regimento enfim levava,<br> + + +Que aqui gente de Cristo não havia,<br> + + +Mas a que a Mahamede celebrava.<br> + + +O Capitão, que em tudo o Mouro cria,<br> + + +Virando as velas, a ilha demandava;<br> + + +Mas, não querendo a Deusa guardadora,<br> + + +Não entra pela barra, e surge fora.<br> + + +<br> + + +103<br> + + +Estava a ilha à terra tão chegada,<br> + + +Que um estreito pequeno a dividia;<br> + + +Uma cidade nela situada,<br> + + +Que na fronte do mar aparecia,<br> + + +De nobres edifícios fabricada,<br> + + +Como por fora ao longe descobria,<br> + + +Regida por um Rei de antiga idade:<br> + + +Mombaça é o nome da ilha e da cidade.<br> + + +<br> + + +104<br> + + +E sendo a ela o Capitão chegado,<br> + + +Estranhamente ledo, porque espera<br> + + +De poder ver o povo batizado,<br> + + +Como o falso piloto lhe dissera,<br> + + +Eis vêm batéis da terra com recado<br> + + +Do Rei, que já sabia a gente que era:<br> + + +Que Baco muito de antes o avisara,<br> + + +Na forma doutro Mouro, que tomara.<br> + + +<br> + + +105<br> + + +O recado que trazem é de amigos,<br> + + +Mas debaixo o veneno vem coberto;<br> + + +Que os pensamentos eram de inimigos,<br> + + +Segundo foi o engano descoberto.<br> + + +Ó grandes e gravíssimos perigos!<br> + + +Ó caminho de vida nunca certo:<br> + + +Que aonde a gente põe sua esperança,<br> + + +Tenha a vida tão pouca segurança!<br> + + +<br> + + +106<br> + + +No mar tanta tormenta, e tanto dano,<br> + + +Tantas vezes a morte apercebida!<br> + + +Na terra tanta guerra, tanto engano,<br> + + +Tanta necessidade avorrecida!<br> + + +Onde pode acolher-se um fraco humano,<br> + + +Onde terá segura a curta vida,<br> + + +Que não se arme, e se indigne o Céu sereno<br> + + +Contra um bicho da terra tão pequeno?<br> + + +<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Segundo</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Já neste tempo o lúcido Planeta,<br> + + +Que as horas vai do dia distinguindo,<br> + + +Chegava à desejada e lenta meta,<br> + + +A luz celeste às gentes encobrindo,<br> + + +E da casa marítima secreta<br> + + +Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,<br> + + +Quando as infidas gentes se chegaram<br> + + +As naus, que pouco havia que ancoraram.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +Dentre eles um, que traz encomendado<br> + + +O mortífero engano, assim dizia:<br> + + +"Capitão valeroso, que cortado<br> + + +Tens de Neptuno o reino e salsa via,<br> + + +O Rei que manda esta ilha, alvoroçado<br> + + +Da vinda tua, tem tanta alegria,<br> + + +Que não deseja mais que agasalhar-te,<br> + + +Ver-te, e do necessário reformar-te.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +"E porque está em extremo desejoso<br> + + +De te ver, como cousa nomeada,<br> + + +Te roga que, de nada receoso,<br> + + +Entres a barra, tu com toda armada:<br> + + +E porque do caminho trabalhoso<br> + + +Trarás a gente débil e cansada,<br> + + +Diz que na terra podes reformá-la,<br> + + +Que a natureza obriga a desejá-la.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +"E se buscando vás mercadoria<br> + + +Que produze o aurífero Levante,<br> + + +Canela, cravo, ardente especiaria,<br> + + +Ou droga salutífera e prestante;<br> + + +Ou se queres luzente pedraria,<br> + + +O rubi fino, o rígido diamante,<br> + + +Daqui levarás tudo tão sobejo<br> + + +Com que faças o fim a teu desejo."<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Ao mensageiro o Capitão responde<br> + + +As palavras do Rei agradecendo:<br> + + +E diz que, porque o Sol no mar se esconde,<br> + + +Não entra para dentro, obedecendo;<br> + + +Porém que, como a luz mostrar por onde<br> + + +Vá sem perigo a frota, não temendo,<br> + + +Cumprirá sem receio seu mandado,<br> + + +Que a mais por tal senhor está obrigado.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +Pergunta-lhe depois, se estão na terra<br> + + +Cristãos, como o piloto lhe dizia;<br> + + +O mensageiro astuto, que não erra,<br> + + +Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.<br> + + +Desta sorte do peito lhe desterra<br> + + +Toda a suspeita e cauta fantasia;<br> + + +Por onde o Capitão seguramente<br> + + +Se fia da infiel e falsa gente.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +E de alguns que trazia condenados<br> + + +Por culpas e por feitos vergonhosos,<br> + + +Por que pudessem ser aventurados<br> + + +Em casos desta sorte duvidosos,<br> + + +Manda dous mais sagazes, ensaiados,<br> + + +Por que notem dos Mouros enganosos<br> + + +A cidade e poder, e por que vejam<br> + + +Os Cristãos, que só tanto ver desejam.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +E por estes ao Rei presentes manda,<br> + + +Por que a boa vontade, que mostrava,<br> + + +Tenha firme, segura, limpa e branda;<br> + + +A qual bem ao contrário em tudo estava.<br> + + +Já a companhia pérfida e nefanda<br> + + +Das naus se despedia e o mar cortava:<br> + + +Foram com gestos ledos e fingidos,<br> + + +Os dous da frota em terra recebidos.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +E depois que ao Rei apresentaram,<br> + + +Co'o recado, os presentes que traziam,<br> + + +A cidade correram, e notaram<br> + + +Muito menos daquilo que queriam;<br> + + +Que os Mouros cautelosos se guardaras<br> + + +De lhes mostrarem tudo o que pediam:<br> + + +Que onde reina a malícia, está o receio,<br> + + +Que a faz imaginar no peito alheio.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +Mas aquele que sempre a mocidade<br> + + +Tem no rosto perpétua, e foi nascido<br> + + +De duas mães, que urdia a falsidade<br> + + +Por ver o navegante destruído,<br> + + +Estava numa casa da cidade,<br> + + +Com rosto humano e hábito fingido,<br> + + +Mostrando-se Cristão, e fabricava<br> + + +Um altar sumptuoso, que adorava.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Ali tinha em retrato afigurada<br> + + +Do alto e Santo Espírito a pintura:<br> + + +A cândida pombinha debuxada<br> + + +Sobre a única Fénix, Virgem pura;<br> + + +A companhia santa está pintada<br> + + +Dos doze, tão torvados na figura,<br> + + +Como os que, só das línguas que caíram,<br> + + +De fogo, várias línguas referiram.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +Aqui os dous companheiros conduzidos<br> + + +Onde com este engano Baco estava,<br> + + +Põem em terra os giolhos, e os sentidos<br> + + +Naquele Deus que o mundo governava.<br> + + +Os cheiros excelentes, produzidos<br> + + +Na Pancaia odorífera, queimava<br> + + +O Tioneu, e assim por derradeiro<br> + + +O falso Deus adora o verdadeiro.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Aqui foram de noite agasalhados,<br> + + +Com todo o bom e honesto tratamento,<br> + + +Os dous Cristãos, não vendo que enganados<br> + + +Os tinha o falso e santo fingimento.<br> + + +Mas assim como os raios espalhados<br> + + +Do Sol foram no mundo, e num momento<br> + + +Apareceu no rúbido horizonte<br> + + +Da moça de Titão a roxa fronte,<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Tornam da terra os Mouros co'o recado<br> + + +Do Rei, para que entrassem, e consigo<br> + + +Os dous que o Capitão tinha mandado,<br> + + +A quem se o Rei mostrou sincero amigo;<br> + + +E sendo o Português certificado<br> + + +De não haver receio de perigo,<br> + + +E que gente de Cristo em terra havia,<br> + + +Dentro no salso rio entrar queria.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +Dizem-lhe os que mandou, que em terra<br> + + +Sacras aras e sacerdote sinto; viram<br> + + +Que ali se agasalharam o dormiram,<br> + + +Enquanto a luz cobriu o escuro manto;<br> + + +E que no Rei e gentes não sentiram<br> + + +Senão contentamento e gosto tanto,<br> + + +Que não podia certo haver suspeita<br> + + +Numa mostra tão clara e tão perfeita.<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Com isto o nobre Gama recebia<br> + + +Alegremente os Mouros que subiam;<br> + + +Que levemente um ânimo se fia<br> + + +De mostras, que tão certas pareciam.<br> + + +A nau da gente pérfida se enchia,<br> + + +Deixando a bordo os barcos que traziam.<br> + + +Alegres vinham todos, porque crêm<br> + + +Que a presa desejada certa têm.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +Na terra, cautamente aparelhavam<br> + + +Armas e munições que, como vissem<br> + + +Que no rio os navios ancoravam,<br> + + +Neles ousadamente se subissem;<br> + + +E, nesta treição determinavam<br> + + +Que os de Luso de todo destruíssem,<br> + + +E que incautos pagassem deste jeito<br> + + +O mal que em Moçambique tinham feito.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +As âncoras tenaces vão levando<br> + + +Com a náutica grita costumada;<br> + + +Da proa as velas sós ao vento dando<br> + + +Inclinam para a barra abalizada.<br> + + +Mas a linda Ericina, que guardando<br> + + +Andava sempre a gente assinalada,<br> + + +Vendo a cilada grande, e tão secreta,<br> + + +Voa do Céu ao mar como uma seta.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Convoca as alvas filhas de Nereu,<br> + + +Com toda a mais cerúlea companhia,<br> + + +Que, porque no salgado mar nasceu,<br> + + +Das águas o poder lhe obedecia.<br> + + +E propondo-lhe a causa a que desceu,<br> + + +Com todas juntamente se partia,<br> + + +Para estorvar que a armada não chegasse<br> + + +Aonde para sempre se acabasse.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Já na água erguendo vão, com grande +pressa,<br> + + +Com as argênteas caudas branca escuma;<br> + + +Cloto eo'o peito corta e atravessa<br> + + +Com mais furor o mar do que costuma.<br> + + +Salta Nise, Nerine se arremessa<br> + + +Por cima da água crespa, em força suma.<br> + + +Abrem caminho as ondas encurvadas<br> + + +De temor das Nereidas apressadas.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,<br> + + +Vai a linda Dione furiosa;<br> + + +Não sente quem a leva o doce peso,<br> + + +De soberbo com carga tão formosa.<br> + + +Já chegam perto donde o vento teso<br> + + +Enche as velas da frota belicosa;<br> + + +Repartem-se e rodeiam nesse instante<br> + + +As naus ligeiras, que iam por diante.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Põe-se a Deusa com outras em direito<br> + + +Da proa capitaina, e ali fechando<br> + + +O caminho da barra, estão de jeito,<br> + + +Que em vão assopra o vento, a vela inchando.<br> + + +Põem no madeiro duro o brando peito,<br> + + +Para detrás a forte nau forçando;<br> + + +Outras em derredor levando-a estavam,<br> + + +E da barra inimiga a desviavam.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +Quais para a cova as próvidas formigas,<br> + + +Levando o peso grande acomodado,<br> + + +As forças exercitam, de inimigas<br> + + +Do inimigo inverno congelado;<br> + + +Ali são seus trabalhos e fadigas,<br> + + +Ali mostram vigor nunca esperado:<br> + + +Tais andavam as Ninfas estorvando<br> + + +A gente Portuguesa o fim nefando.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +Torna para detrás a nau forçada,<br> + + +Apesar dos que leva, que gritando<br> + + +Mareiam velas; ferve a gente irada,<br> + + +O leme a um bordo e a outro atravessando;<br> + + +O mestre astuto em vão da popa brada,<br> + + +Vendo como diante ameaçando<br> + + +Os estava um marítimo penedo,<br> + + +Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +A celeuma medonha se alevanta<br> + + +No rudo marinheiro que trabalha;<br> + + +O grande estrondo a Maura gente espanta,<br> + + +Como se vissem hórrida batalha;<br> + + +Não sabem a razão de fúria tanta,<br> + + +Não sabem nesta pressa quem lhe valha;<br> + + +Cuidam que seus enganos são sabidos,<br> + + +E que hão de ser por isso aqui punidos.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +Ei-los subitamente se lançavam<br> + + +A seus batéis velozes que traziam;<br> + + +Outros em cima o mar alevantavam,<br> + + +Saltando n'água, a nado se acolhiam;<br> + + +De um bordo e doutro súbito saltavam,<br> + + +Que o medo os compelia do que viam;<br> + + +Que antes querem ao mar aventurar-se<br> + + +Que nas mãos inimigas entregar-se.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +Assim como em selvática alagoa<br> + + +As rãs, no tempo antigo Lícia gente,<br> + + +Se sentem por ventura vir pessoa,<br> + + +Estando fora da água incautamente,<br> + + +Daqui e dali saltando, o charco soa,<br> + + +Por fugir do perigo que se sente,<br> + + +E acolhendo-se ao couto que conhecem,<br> + + +Sós as cabeças na água lhe aparecem:<br> + + +<br> + + +28<br> + + +Assim fogem os Mouros; e o piloto,<br> + + +Que ao perigo grande as naus guiara,<br> + + +Crendo que seu engano estava noto,<br> + + +Também foge, saltando na água amara.<br> + + +Mas, por não darem no penedo imoto,<br> + + +Onde percam a vida doce e cara,<br> + + +A âncora solta logo a capitaina,<br> + + +Qualquer das outras junto dela amaina.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +Vendo o Gama, atentado, a estranheza<br> + + +Dos Mouros, não cuidada, e juntamente<br> + + +O piloto fugir-lhe com presteza,<br> + + +Entende o que ordenava a bruta gente;<br> + + +E vendo, sem contraste e sem braveza<br> + + +Dos ventos, ou das águas sem corrente,<br> + + +Que a nau passar avante não podia,<br> + + +Havendo-o por milagre, assim dizia:<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Ó caso grande, estranho e não cuidado,<br> + + +Ó milagre claríssimo e evidente,<br> + + +Ó descoberto engano inopinado,<br> + + +Ó pérfida, inimiga e falsa gente!<br> + + +Quem poderá do mal aparelhado<br> + + +Livrar-se sem perigo sabiamente,<br> + + +Se lá de cima a Guarda soberana<br> + + +Não acudir à fraca força humana?<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Bem nos mostra a divina Providência<br> + + +Destes portos a pouca segurança;<br> + + +Bem claro temos visto na aparência,<br> + + +Que era enganada a nossa confiança.<br> + + +Mas pois saber humano nem prudência<br> + + +Enganos tão fingidos não alcança,<br> + + +Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado<br> + + +De quem sem ti não pode ser guardado!<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"E se te move tanto a piedade<br> + + +Desta mísera gente peregrina,<br> + + +Que só por tua altíssima bondade,<br> + + +Da gente a salvas pérfida e malina,<br> + + +Nalgum porto seguro de verdade<br> + + +Conduzir-nos já agora determina,<br> + + +Ou nos amostra a terra que buscamos,<br> + + +Pois só por teu serviço navegamos."<br> + + +<br> + + +33<br> + + +Ouviu-lhe essas palavras piedosas<br> + + +A formosa Dione, e comovida,<br> + + +Dentre as Ninfas se vai, que saudosas<br> + + +Ficaram desta súbita partida.<br> + + +Já penetra as Estrelas luminosas,<br> + + +Já na terceira Esfera recebida<br> + + +Avante passa, e lá no sexto Céu,<br> + + +Para onde estava o Padre, se moveu.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +E como ia afrontada do caminho,<br> + + +Tão formosa no gesto se mostrava,<br> + + +Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,<br> + + +E tudo quanto a via namorava.<br> + + +Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,<br> + + +Uns espíritos vivos inspirava,<br> + + +Com que os Pólos gelados acendia,<br> + + +E tornava do Fogo a esfera fria.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +E por mais namorar o soberano<br> + + +Padre, de quem foi sempre amada e eriça,<br> + + +Se lhe apresenta assim como ao Troiano,<br> + + +Na selva Idea, já se apresentara.<br> + + +Se a vira o caçador, que o vulto humano<br> + + +Perdeu, vendo Diana na água clara,<br> + + +Nunca os famintos galgos o mataram,<br> + + +Que primeiro desejos o acabaram.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +Os crespos fios d'ouro se esparziam<br> + + +Pelo colo, que a neve escurecia;<br> + + +Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,<br> + + +Com quem Amor brincava, e não se via;<br> + + +Da alva petrina flamas lhe saíam,<br> + + +Onde o Menino as almas acendia;<br> + + +Pelas lisas colunas lhe trepavam<br> + + +Desejos, que como hera se enrolavam.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +C'um delgado sendal as partes cobre,<br> + + +De quem vergonha é natural reparo,<br> + + +Porém nem tudo esconde, nem descobre,<br> + + +O véu, dos roxos lírios pouco avaro;<br> + + +Mas, para que o desejo acenda o dobre,<br> + + +Lhe põe diante aquele objeto raro.<br> + + +Já se sentem no Céu, por toda a parte,<br> + + +Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +E mostrando no angélico semblante<br> + + +Co'o riso uma tristeza misturada,<br> + + +Como dama que foi do incauto amante<br> + + +Em brincos amorosos mal tratada,<br> + + +Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,<br> + + +E se torna entre alegre magoada,<br> + + +Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,<br> + + +Mais mimosa que triste ao Padre fala:<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,<br> + + +Que, para as cousas que eu do peito amasse,<br> + + +Te achasse brando, afábil e amoroso,<br> + + +Posto que a algum contrário lhe pesasse;<br> + + +Mas, pois que contra mim te vejo iroso,<br> + + +Sem que to merecesse, nem te errasse,<br> + + +Faça-se como Baco determina;<br> + + +Assentarei enfim que fui mofina.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Este povo que é meu, por quem derramo<br> + + +As lágrimas que em vão caídas vejo,<br> + + +Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,<br> + + +Sendo tu tanto contra meu desejo!<br> + + +Por ele a ti rogando choro e bramo,<br> + + +E contra minha dita enfim pelejo.<br> + + +Ora pois, porque o amo é mal tratado,<br> + + +Quero-lhe querer mal, será guardado.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,<br> + + +Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,<br> + + +O rosto banha em lágrimas ardentes,<br> + + +Como co'o orvalho fica a fresca rosa.<br> + + +Calada um pouco, como se entre os dentes<br> + + +Se lhe impedira a fala piedosa,<br> + + +Torna a segui-la; e indo por diante,<br> + + +Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +E destas brandas mostras comovido,<br> + + +Que moveram de um tigre o peito duro,<br> + + +Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,<br> + + +Torna sereno e claro o ar escuro,<br> + + +As lágrimas lhe alimpa, e acendido<br> + + +Na face a beija, e abraça o colo puro;<br> + + +De modo que dali, se só se achara,<br> + + +Outro novo Cupido se gerara.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +E co'o seu apertando o rosto amado,<br> + + +Que os soluços e lágrimas aumenta,<br> + + +Como menino da ama castigado,<br> + + +Que quem no afaga o choro lhe acrescente,<br> + + +Por lhe pôr em sossego o peito irado,<br> + + +Muitos casos futuros lhe apresenta.<br> + + +Dos fados as entranhas revolvendo,<br> + + +Desta maneira enfim lhe está dizendo:<br> + + +<br> + + +44<br> + + +"Formosa filha minha, não temais<br> + + +Perigo algum nos vossos Lusitanos,<br> + + +Nem que ninguém comigo possa mais,<br> + + +Que esses chorosos olhos soberanos;<br> + + +Que eu vos prometo, filha, que vejais<br> + + +Esquecerem-se Gregos e Romanos,<br> + + +Pelos ilustres feitos que esta gente<br> + + +Há-de fazer nas partes do Oriente.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +"Que se o facundo Ulisses escapou<br> + + +De ser na Ogígia ilha eterno escravo,<br> + + +E se Antenor os seios penetrou<br> + + +Ilíricos e a fonte de Timavo;<br> + + +E se o piedoso Eneias navegou<br> + + +De Cila e de Caríbdis o mar bravo,<br> + + +Os vossos, mores cousas atentando,<br> + + +Novos mundos ao mundo irão mostrando.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +"Fortalezas, cidades e altos muros,<br> + + +Por eles vereis, filha, edificados;<br> + + +Os Turcos belacíssimos e duros,<br> + + +Deles sempre vereis desbaratados.<br> + + +Os Reis da índia, livres e seguros,<br> + + +Vereis ao Rei potente sojugados;<br> + + +E por eles, de tudo enfim senhores,<br> + + +Serão dadas na terra leis melhores.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +"Vereis este, que agora pressuroso<br> + + +Por tantos medos o Indo vai buscando,<br> + + +Tremer dele Neptuno, de medroso<br> + + +Sem vento suas águas encrespando.<br> + + +Ó caso nunca visto e milagroso,<br> + + +Que trema e ferva o mar, em calma estando!<br> + + +Ó gente forte e de altos pensamentos,<br> + + +Que também dela hão medo os Elementos!<br> + + +<br> + + +48<br> + + +"Vereis a terra, que a água lhe tolhia,<br> + + +Que inda há-de ser um porto mui decente,<br> + + +Em que vão descansar da longa via<br> + + +As naus que navegarem do Ocidente.<br> + + +Toda esta costa enfim, que agora urdia<br> + + +O mortífero engano, obediente<br> + + +Lhe pagará tributos, conhecendo<br> + + +Não poder resistir ao Luso horrendo.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +"E vereis o mar Roxo, tão famoso,<br> + + +Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;<br> + + +Vereis de Ormuz o Reino poderoso<br> + + +Duas vezes tomado e sojugado.<br> + + +Ali vereis o Mouro furioso<br> + + +De suas mesmas setas traspassado:<br> + + +Que quem vai contra os vossos, claro veja<br> + + +Que, se resiste, contra si peleja.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +"Vereis a inexpugnábil Dio forte,<br> + + +Que dous cercos terá, dos vossos sendo.<br> + + +Ali se mostrará seu preço e sorte,<br> + + +Feitos de armas grandíssimos fazendo.<br> + + +Invejoso vereis o grão Mavorte<br> + + +Do peito Lusitano fero e horrendo:<br> + + +Do Mouro ali verão que a voz extrema<br> + + +Do falso Mahamede ao Céu blasfema.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"Goa vereis aos Mouros ser tomada,<br> + + +A qual virá depois a ser senhora<br> + + +De todo o Oriente, e sublimada<br> + + +Co'os triunfos da gente vencedora.<br> + + +Ali soberba, altiva, e exalçada,<br> + + +Ao Gentio, que os ídolos adora,<br> + + +Duro freio porá, e a toda a terra<br> + + +Que cuidar de fazer aos vossos guerra.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"Vereis a fortaleza sustentar-se<br> + + +De Cananor, com pouca força e gente;<br> + + +E vereis Calecu desbaratar-se,<br> + + +Cidade populosa e tão potente:<br> + + +E vereis em Cochim assinalar-se<br> + + +Tanto um peito soberbo e insolente,<br> + + +Que cítara jamais cantou vitória,<br> + + +Que assim mereça eterno nome e glória.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Nunca com Marte instructo e furioso,<br> + + +Se viu ferver Leucate, quando Augusto<br> + + +Nas civis Actias guerras animoso,<br> + + +O Capitão venceu Romano injusto,<br> + + +Que dos povos da Aurora, e do famoso<br> + + +Nilo, e do Bactra Cítico e robusto<br> + + +A vitória trazia, e presa rica,<br> + + +Preso na Egípcia linda e nego pudica.<br> + + +<br> + + +54<br> + + +Como vereis o mar fervendo aceso<br> + + +Colos incêndios dos vossos pelejando,<br> + + +Levando o Idololatra, e o Mouro preso,<br> + + +De nações diferentes triunfando.<br> + + +E sujeita a rica Áurea Quersoneso,<br> + + +Até ao longínquo China navegando,<br> + + +E as ilhas mais remotas do Oriente,<br> + + +Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +"De modo, filha minha, que de jeito<br> + + +Amostrarão esforço mais que humano,<br> + + +Que nunca se verá tão forte peito,<br> + + +Do Gangético mar ao Gaditano,<br> + + +Nem das Boreais ondas ao Estreito,<br> + + +Que mostrou o agravado Lusitano,<br> + + +Posto que em todo o mundo, de afrontados,<br> + + +Ressuscitassem todos os passados."<br> + + +<br> + + +56<br> + + +Como isto disse, manda o consagrado<br> + + +Filho de Maia à Terra, por que tenha<br> + + +Um pacífico porto o sossegado,<br> + + +Para onde sem receio a frota venha;<br> + + +F, para que em Mombaça, aventurado,<br> + + +O forte Capitão se não detenha,<br> + + +Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra<br> + + +A terra, onde quieto repousasse.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +Já pelo ar o Cileneu voava;<br> + + +Com as asas nos pés à Terra desce;<br> + + +Sua vara fatal na mão levava,<br> + + +Com que os olhos cansados adormece:<br> + + +Com esta, as tristes almas revocava<br> + + +Do Inferno, e o vento lhe obedece.<br> + + +Na cabeça o galero costumado.<br> + + +E desta arte a Melinde foi chegado.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +Consigo a Fama leva, por que diga<br> + + +Do Lusitano o preço grande e raro,<br> + + +Que o nome ilustre a um certo amor obriga<br> + + +E faz, a quem o tem, amado e caro.<br> + + +Desta arte vai fazendo a gente amiga,<br> + + +Co rumor famosíssimo, e perclaro.<br> + + +Já Melinde em desejos arde todo<br> + + +De ver da gente forte o gesto e modo.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +Dali para Mombaça logo parte,<br> + + +Aonde as naus estavam temerosas,<br> + + +Para que à gente mande que se aparte<br> + + +Da barra amiga e terras suspeitosas:<br> + + +Porque mui pouco val esforço e arte,<br> + + +Contra infernais vontades enganosas;<br> + + +Pouco val coração, astúcia e siso,<br> + + +Se lá dos Céus não vem celeste aviso.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +No feio caminho a noite tinha anelado,<br> + + +E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,<br> + + +Tinham o largo Mundo alumiado;<br> + + +E só co'o sono a gente se recreia.<br> + + +O Capitão ilustre, já cansado<br> + + +De vigiar a noite que arreceia,<br> + + +Breve repouso então aos olhos dava,<br> + + +A outra gente a quartos vigiava;<br> + + +<br> + + +61<br> + + +Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,<br> + + +Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,<br> + + +Da cilada que o Rei malvado tece,<br> + + +Por te trazer ao fim, e extremo dano;<br> + + +Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;<br> + + +Sereno o tempo tens e o Oceano,<br> + + +E outro Rei mais amigo, noutra parte,<br> + + +Onde podes seguro agasalhar-te.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"Não tens aqui senão aparelhado<br> + + +O hospício que o cru Diomedes dava,<br> + + +Fazendo ser manjar acostumado<br> + + +De cavalos a gente que hospedava;<br> + + +As aras de Busíris infamado,<br> + + +Onde os hóspedes tristes imolava,<br> + + +Terás certas aqui, se muito esperas.<br> + + +Fuge das gentes pérfidas e feras.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"Vai-te ao longo da costa discorrendo,<br> + + +E outra terra acharás de mais verdade,<br> + + +Lá quase junto donde o Sol ardendo<br> + + +Iguala o dia e noite em quantidade;<br> + + +Ali tua frota alegre recebendo<br> + + +Um Rei, com muitas obras de amizade,<br> + + +Gasalhado seguro te daria,<br> + + +E, para a índia, certa e sábia guia."<br> + + +<br> + + +64<br> + + +Isto Mercúrio disse, e o sono leva<br> + + +Ao Capitão, que com mui grande espanto<br> + + +Acorda, e vê ferida a escura treva<br> + + +De uma súbita luz e raio santo.<br> + + +E vendo claro quanto lhe releva<br> + + +Não se deter na terra iníqua tanto,<br> + + +Com novo espírito ao mestre seu mandava<br> + + +Que as velas desse ao vento que assopravam.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Dai velas, disse, dai ao largo vento,<br> + + +Que o Céu nos favorece e Deus o manda;<br> + + +Que um mensageiro vi do claro assento<br> + + +Que só em favor de nossos passos anda."<br> + + +Alevanta-se nisto o movimento<br> + + +Dos marinheiros, de uma e de outra banda;<br> + + +Levam gritando as âncoras acima,<br> + + +Mostrando a ruda força, que se estima.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +Neste tempo, que as âncoras levavam,<br> + + +Na sombra escura os Mouros escondidos<br> + + +Mansamente as amarras lhe cortavam,<br> + + +Por serem, dando à costa, destruídos;<br> + + +Mas com vista de linces vigiavam<br> + + +Os Portugueses, sempre apercebidos.<br> + + +Eles, como acordados os sentiram,<br> + + +Voando, e não remando, lhe fugiram.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +Mas já as agudas proas apartando<br> + + +Iam as vias húmidas de argento;<br> + + +Assopra-lhe galerno o vento, e brando,<br> + + +Com suave e seguro movimento.<br> + + +Nos perigos passados vão falando,<br> + + +Que mal se perderão do pensamento<br> + + +Os casos grandes, donde em tanto aperto<br> + + +A vida em salvo escapa por acerto.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +Tinha uma volta dado o Sol ardente<br> + + +E noutro começava, quando viram<br> + + +Ao longe deus navios, brandamente<br> + + +Co'os ventos navegando, que respiram:<br> + + +Porque haviam de ser da Maura gente,<br> + + +Para eles arribando, as velas viram:<br> + + +Um, de temor do mal que arreceava,<br> + + +Por se salvar a gente à costa dava.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +Não é o outro que fica tão manhoso;<br> + + +Mas nas mãos vai cair do Lusitano,<br> + + +Sem o rigor de Marte furioso,<br> + + +E sem a fúria horrenda de Vulcano;<br> + + +Que como fosse débil e medroso<br> + + +Da pouca gente o fraco peito humano,<br> + + +Não teve resistência; e se a tivera,<br> + + +Mais dano resistindo recebera.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +E como o Gama muito desejasse<br> + + +Piloto para a Índia que buscava,<br> + + +Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;<br> + + +Mas não lhe sucedeu como cuidava,<br> + + +Que nenhum deles há que lhe ensinasse<br> + + +A que parte dos céus a Índia estava;<br> + + +Porém dizem-lhe todos, que tem perto<br> + + +Melinde, onde achará piloto certo.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +Louvam do Rei os Mouros a bondade,<br> + + +Condição liberal, sincero peito,<br> + + +Magnificência grande e humanidade,<br> + + +Com partes de grandíssimo respeito.<br> + + +O Capitão o assela por verdade,<br> + + +Porque já lhe dissera, deste jeito,<br> + + +Cileneu em sonhos; e partia<br> + + +Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +Era no tempo alegre, quando entrava<br> + + +No roubador de Europa a luz Febeia,<br> + + +Quando um e outro corno lhe aquentava,<br> + + +E Flora derramava o de Amalteia:<br> + + +A memória do dia renovava<br> + + +O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,<br> + + +Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,<br> + + +O selo pôs a quanto tinha feito;<br> + + +<br> + + +73<br> + + +Quando chegava a frota àquela parte,<br> + + +Onde o Reino Melinde já se via,<br> + + +De toldos adornada, e leda de arte<br> + + +Que bem mostra estimar o santo dia.<br> + + +Treme a bandeira, voa o estandarte,<br> + + +A cor purpúrea ao longe aparecia;<br> + + +Soam os atambores o pandeiros,<br> + + +E assim entravam ledos e guerreiros.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +Enche-se toda a praia Melindana<br> + + +Da gente que vem ver a leda armada,<br> + + +Gente mais verdadeira, e mais humana,<br> + + +Que toda a doutra terra atrás deixada.<br> + + +Surge diante a frota Lusitana,<br> + + +Pega no fundo a âncora pesada;<br> + + +Mandam fora um dos Mouros que tomaram,<br> + + +Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.<br> + + +<br> + + +75<br> + + +O Rei, que já sabia da nobreza<br> + + +Que tanto os Portugueses engrandece,<br> + + +Tomarem o seu porto tanto preza,<br> + + +Quanto a gente fortíssima merece:<br> + + +E com verdadeiro ânimo e pureza,<br> + + +Que os peitos generosos enobrece,<br> + + +Lhe manda rogar muito que saíssem,<br> + + +Para que de seus reinos se servissem.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +São oferecimentos verdadeiros,<br> + + +E palavras sinceras, não dobradas,<br> + + +As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,<br> + + +Que tanto mar e terras tem passadas.<br> + + +Manda-lhe mais lanígeros carneiros,<br> + + +E galinhas domésticas cevadas,<br> + + +Com as frutas, que então na terra havia;<br> + + +E a vontade à dádiva excedia.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +Recebe o Capitão alegremente<br> + + +O mensageiro ledo e seu recado;<br> + + +E logo manda ao Rei outro presente,<br> + + +Que de longe trazia aparelhado:<br> + + +Escarlata purpúrea, cor ardente,<br> + + +O ramoso coral, fino e prezado,<br> + + +Que debaixo das águas mole cresce,<br> + + +E como é fora delas se endurece.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +Manda mais um, na prática elegante,<br> + + +Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,<br> + + +E que de não sair naquele instante<br> + + +De suas naus em terra o desculpasse.<br> + + +Partido assim o embaixador prestante,<br> + + +Como na terra ao Rei se apresentasse,<br> + + +Com estilo que Palas lhe ensinava,<br> + + +Estas palavras tais falando orava:<br> + + +<br> + + +79<br> + + +"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro<br> + + +Foi da suma Justiça concedido<br> + + +Refrear o soberbo povo duro,<br> + + +Não menos dele amado, que temido:<br> + + +Como porto mui forte e mui seguro,<br> + + +De todo o Oriente conhecido,<br> + + +Te vimos a buscar, para que achemos<br> + + +Em ti o remédio certo que queremos.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"Não somos roubadores, que passando<br> + + +Pelas fracas cidades descuidadas,<br> + + +A ferro e a fogo as gentes vão matando,<br> + + +Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;<br> + + +Mas da soberba Europa navegando,<br> + + +Imos buscando as terras apartadas<br> + + +Da Índia grande e rica, por mandado<br> + + +De um Rei que temos, alto e sublimado.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"Que geração tão dura há hi +de gente,<br> + + +Que bárbaro costume e usança feia,<br> + + +Que não vedem os portos tão somente,<br> + + +Mas inda o hospício da deserta areia?<br> + + +Que má tenção, que peito em +nós se sente,<br> + + +Que de tão pouca gente se arreceia?<br> + + +Que com laços armados, tão fingidos,<br> + + +Nos ordenassem ver-nos destruídos?<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"Mas tu, e quem mui certo confiamos<br> + + +Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,<br> + + +E aquela certa ajuda em ti esperamos,<br> + + +Que teve o perdido Ítaco em Alcino,<br> + + +A teu porto seguro navegamos,<br> + + +Conduzidos do intérprete divino;<br> + + +Que, pois a ti nos manda, está mui claro,<br> + + +Que és de peito sincero, humano e raro.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"E não cuides, ó Rei, que não +saísse<br> + + +O nosso Capitão esclarecido<br> + + +A ver-te, ou a servir-te, porque visse<br> + + +Ou suspeitasse em ti peito fingido:<br> + + +Mas saberás que o fez, porque cumprisse<br> + + +O regimento, em tudo obedecido,<br> + + +De seu Rei, que lhe manda que não saia,<br> + + +Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +"E porque é, de vassalos o exercício,<br> + + +Que os membros tem regidos da cabeça,<br> + + +Não quererás, pois tens de Rei o +ofício,<br> + + +Que ninguém a seu Rei desobedeça;<br> + + +Mas as mercês e o grande benefício,<br> + + +Que ora acha em ti, promete que conheça<br> + + +Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,<br> + + +Enquanto os rios para o mar correrem."<br> + + +<br> + + +85<br> + + +Assim dizia; e todos juntamente,<br> + + +Uns com outros em prática falando,<br> + + +Louvavam muito o estâmago da gente,<br> + + +Que tantos céus e mares vai passando.<br> + + +E o Rei ilustre, o peito obediente<br> + + +Dos Portugueses na alma imaginando,<br> + + +Tinha por valor grande e mui subido<br> + + +O do Rei que é tão longe obedecido.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +E com risonha vista e ledo aspeito,<br> + + +Responde ao embaixador, que tanto estima:<br> + + +"Toda a suspeita má tirai do peito,<br> + + +Nenhum frio temor em vós se imprima;<br> + + +Que vosso preço e obras são de jeito<br> + + +Para vos ter o mundo em muita estima;<br> + + +E quem vos fez molesto tratamento,<br> + + +Não pode ter subido pensamento.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +"De não sair em terra toda a gente,<br> + + +Por observar a usada preminência,<br> + + +Ainda que me pese estranhamente,<br> + + +Em muito tenho a muita obediência;<br> + + +Mas, se lho o regimento não consente,<br> + + +Nem eu consentirei que a excelência<br> + + +De peitos tão leais em si desfaça,<br> + + +Só porque a meu desejo satisfaça.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +"Porém, como a luz crástina chegada<br> + + +Ao mundo for, em minhas almadias<br> + + +Eu irei visitar a forte armada,<br> + + +Que ver tanto desejo, há tantos dias;<br> + + +E se vier do mar desbaratada,<br> + + +Do furioso vento e longas vias,<br> + + +Aqui terá, de limpos pensamentos,<br> + + +Piloto, munições e mantimentos."<br> + + +<br> + + +89<br> + + +Isto disse; e nas águas se escondia<br> + + +O filho de Latona; e o mensageiro<br> + + +Coa embaixada alegre se partia<br> + + +Para a frota, no seu batel ligeiro.<br> + + +Enchem-se os peitos todos de alegria.<br> + + +Por terem o remédio verdadeiro<br> + + +Para acharem a terra que buscavam;<br> + + +E assim ledos a noite festejavam.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Não faltam ali os raios de artifício,<br> + + +Os trêmulos cometas imitando;<br> + + +Fazem os bombardeiros seu ofício,<br> + + +O céu, a terra e as ondas atroando.<br> + + +Mostra-se dos Ciclopas o exercício<br> + + +Nas bombas que de fogo estão queimando;<br> + + +Outros com vozes, com que o céu feriam,<br> + + +Instrumentos altíssonos tangiam.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Respondem-lhe da terra juntamente,<br> + + +Co'o raio volteando, com zunido;<br> + + +Anda em giros no ar a roda ardente,<br> + + +Estoura o pó sulfúreo escondido.<br> + + +A grita se alevanta ao céu, da gente;<br> + + +O mar se via em fogos acendido,<br> + + +E não menos a terra; e assim festeja<br> + + +Um ao outro, a maneira de peleja.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Mas já o Céu inquieto revolvendo,<br> + + +As gentes incitava a seu trabalho,<br> + + +E já a mãe de Menon a luz trazendo,<br> + + +Ao sono longo punha certo atalho;<br> + + +Iam-se as sombras lentas desfazendo,<br> + + +Sobre as flores da terra em frio orvalho,<br> + + +Quando o Rei Melindano se embarcava<br> + + +A ver a frota, que no mar estava.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +Viam-se em derredor ferver as praias<br> + + +Da gente, que a ver só concorre leda;<br> + + +Luzem da fina púrpura as cabaias,<br> + + +Lustram os panos da tecida seda;<br> + + +Em lugar das guerreiras azagaias<br> + + +E do arco, que os cornos arremeda<br> + + +Da Lua, trazem ramos de palmeira,<br> + + +Dos que vencem, coroa verdadeira.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +Um batel grande e largo, que toldado<br> + + +Vinha de sedas de diversas cores,<br> + + +Traz o Rei de Melinde, acompanhado<br> + + +De nobres e seu Reino e de senhores:<br> + + +Vem de ricos vestidos adornado,<br> + + +Segundo seus costumes e primores;<br> + + +Na cabeça uma fota guarnecida<br> + + +De ouro, e de seda e de algodão tecida.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +Cabaia de Damasco rico e dino,<br> + + +Da Tíria cor, entre eles estimada,<br> + + +Um colar ao pescoço, de ouro fino,<br> + + +Onde a matéria da obra é superada,<br> + + +C'um resplendor reluze adamantino;<br> + + +Na cinta, a rica bem lavrada;<br> + + +Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,<br> + + +Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.<br> + + +<br> + + +96<br> + + +Com um redondo emparo alto de seda,<br> + + +Numa alta e dourada hástia enxerido,<br> + + +Um ministro à solar quentura veda.<br> + + +Que não ofenda e queime o Rei subido.<br> + + +Música traz na proa, estranha e leda,<br> + + +De áspero som, horríssono ao ouvido,<br> + + +De trombetas arcadas em redondo,<br> + + +Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +Não menos guarnecido o Lusitano<br> + + +Nos seus batéis, da frota se partia<br> + + +A receber no mar o Melindano,<br> + + +Com lustrosa e lograda companhia.<br> + + +Vestido o Gama vem ao modo Hispano,<br> + + +Mas Francesa era a roupa que vestia,<br> + + +De cetim da Adriática Veneza<br> + + +Carmesi, cor que a gente tanto preza:<br> + + +<br> + + +98<br> + + +De botões douro as mangas vêm tomadas,<br> + + +Onde o Sol reluzindo a vista cega;<br> + + +As calças soldadescas recamadas<br> + + +Do metal, que Fortuna a tantos nega,<br> + + +E com pontas do mesmo delicadas<br> + + +Os golpes do gibão ajunta e achega;<br> + + +Ao Itálico modo a áurea espada;<br> + + +Pluma na gorra, um pouco declinada.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +Nos de sua companhia se mostrava<br> + + +Da tinta, que dá o múrice excelente,<br> + + +A vária cor, que os olhos alegrava,<br> + + +E a maneira do trajo diferente.<br> + + +Tal o formoso esmalte se notava<br> + + +Dos vestidos, olhados juntamente,<br> + + +Qual aparece o arco rutilante<br> + + +Da bela Ninfa, filha de Taumante.<br> + + +<br> + + +100<br> + + +Sonorosas trombetas incitavam<br> + + +Os ânimos alegres, ressoando;<br> + + +Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,<br> + + +Os toldos pelas águas arrojando;<br> + + +As bombardas horríssonas bramavam,<br> + + +Com as nuvens de fumo o Sol tomando;<br> + + +Amiúdam-se os brados acendidos,<br> + + +Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.<br> + + +<br> + + +101<br> + + +Já no batel entrou do Capitão<br> + + +O Rei, que nos seus braços o levava;<br> + + +Ele coa cortesia, que a razão<br> + + +(Por ser Rei) requeria, lhe falava.<br> + + +C'umas mostras de espanto e admiração,<br> + + +O Mouro o gesto e o modo lhe notava,<br> + + +Como quem em mui grande estima tinha<br> + + +Gente que de tão longe à índia vinha.<br> + + +<br> + + +102<br> + + +E com grandes palavras lhe oferece<br> + + +Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,<br> + + +E que, se mantimento lhe falece,<br> + + +Como se próprio fosse, lho pedisse.<br> + + +Diz-lhe mais, que por fama bem conhece<br> + + +A gente Lusitana, sem que a visse;<br> + + +Que já ouviu dizer, que noutra terra<br> + + +Com gente de sua Lei tivesse guerra.<br> + + +<br> + + +103<br> + + +E como por toda África se soa,<br> + + +Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,<br> + + +Quando nela ganharam a coroa<br> + + +Do Reino, onde as Hespéridas viveram;<br> + + +E com muitas palavras apregoa<br> + + +O menos que os de Luso mereceram,<br> + + +E o mais que pela fama o Rei sabia.<br> + + +Mas desta sorte o Gama respondia:<br> + + +<br> + + +104<br> + + +"Ó tu, que só tiveste piedade,<br> + + +Rei benigno, da gente Lusitana,<br> + + +Que com tanta miséria e adversidade<br> + + +Dos mares experimenta a fúria insana;<br> + + +Aquela alta e divina Eternidade,<br> + + +Que o Céu revolve e rege a gente humana,<br> + + +Pois que de ti tais obras recebemos,<br> + + +Te pague o que nós outros não podemos.<br> + + +<br> + + +105<br> + + +"Tu só, de todos quantos queima Apolo,<br> + + +Nos recebes em paz, cio mar profundo;<br> + + +Em ti dos ventos hórridos de Eolo<br> + + +Refúgio achamos bom, fido e jocundo.<br> + + +Enquanto apascentar o largo Pólo<br> + + +As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,<br> + + +Onde quer que eu viver, com fama e glória<br> + + +Viverão teus louvores em memória."<br> + + +<br> + + +106<br> + + +Isto dizendo, os barcos vão remando<br> + + +Para a frota, que o Mouro ver deseja;<br> + + +Vão as naus uma e uma rodeando,<br> + + +Porque de todas tudo note e veja.<br> + + +Mas para o céu Vulcano fuzilando,<br> + + +A frota coas bombardas o festeja,<br> + + +E as trombetas canoras lhe tangiam;<br> + + +Co'os anafis os Mouros respondiam.<br> + + +<br> + + +107<br> + + +Mas depois de ser tudo já notado<br> + + +Do generoso Mouro, que pasmava<br> + + +Ouvindo o instrumento inusitado,<br> + + +Que tamanho terror em si mostrava,<br> + + +Mandava estar quieto e ancorado<br> + + +N'água o batel ligeiro que os levava,<br> + + +Por falar de vagar co'o forte Gama,<br> + + +Nas cousas de que tem notícia e faina.<br> + + +<br> + + +108<br> + + +Em práticas o Mouro diferentes<br> + + +Se deleitava, perguntando agora<br> + + +Pelas guerras famosas e excelentes<br> + + +Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;<br> + + +Agora lhe pergunta pelas gentes<br> + + +De toda a Hespéria última, onde mora;<br> + + +Agora pelos povos seus vizinhos,<br> + + +Agora pelos úmidos caminhos.<br> + + +<br> + + +109<br> + + +"Mas antes, valeroso Capitão,<br> + + +Nos conta, lhe dizia, diligente,<br> + + +Da terra tua o clima, e região<br> + + +Do mundo onde morais distintamente;<br> + + +E assim de vossa antiga geração,<br> + + +E o princípio do Reino tão potente,<br> + + +Co'os sucessos das guerras do começo,<br> + + +Que, sem sabê-las, sei que são de preço.<br> + + +<br> + + +110<br> + + +"E assim também nos conta dos rodeios<br> + + +Longos, em que te traz o mar irado,<br> + + +Vendo os costumes bárbaros alheios.<br> + + +Que a nossa África ruda tem criado.<br> + + +Conta: que agora vêm co'os áureos freios<br> + + +Os cavalos que o carro marchetado<br> + + +Do novo Sol, da fria Aurora trazem,<br> + + +O vento dorme, o mar e as ondas jazem.<br> + + +<br> + + +111<br> + + +"E não menos co'o tempo se parece<br> + + +O desejo de ouvir-te o que contares;<br> + + +Que quem há, que por fama não conhece<br> + + +As obras Portuguesas singulares?<br> + + +Não tanto desviado resplandece<br> + + +De nós o claro Sol, para julgares<br> + + +Que os Melindanos têm tão rudo peito,<br> + + +Que não estimem muito um grande feito.<br> + + +<br> + + +112<br> + + +"Cometeram soberbos os Gigantes,<br> + + +Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;<br> + + +Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,<br> + + +O Reino de Plutão horrendo e escuro.<br> + + +Se houve feitos no mundo tão possantes,<br> + + +Não menos é trabalho ilustre e duro,<br> + + +Quanto foi cometer Inferno o Céu,<br> + + +Que outrem cometa a fúria de Nereu.<br> + + +<br> + + +113<br> + + +"Queimou o sagrado templo de Diana,<br> + + +Do subtil Tesifónio fabricado,<br> + + +Heróstrato, por ser da gente humana<br> + + +Conhecido no mundo e nomeado:<br> + + +Se também com tais obras nos engana<br> + + +O desejo de um nome avantajado,<br> + + +Mais razão há que queira eterna glória<br> + + +Quem faz obras tão dignas de memória."<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Terceiro</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Agora tu, Calíope, me ensina<br> + + +O que contou ao Rei o ilustre Gama:<br> + + +Inspira imortal canto e voz divina<br> + + +Neste peito mortal, que tanto te ama.<br> + + +Assim o claro inventor da Medicina,<br> + + +De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,<br> + + +Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,<br> + + +Te negue o amor devido, como soe.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,<br> + + +Como merece a gente Lusitana;<br> + + +Que veja e saiba o mundo que do Tejo<br> + + +O licor de Aganipe corre e mana.<br> + + +Deixa as flores de Pindo, que já vejo<br> + + +Banhar-me Apolo na água soberana;<br> + + +Senão direi que tens algum receio,<br> + + +Que se escureça o teu querido Orfeio.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Prontos estavam todos escutando<br> + + +O que o sublime Gama contaria,<br> + + +Quando, depois de um pouco estar cuidando,<br> + + +Alevantando o rosto, assim dizia:<br> + + +"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando<br> + + +De minha gente a grão genealogia:<br> + + +Não me mandas contar estranha história,<br> + + +Mas mandas-me louvar dos meus a glória.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +"Que outrem possa louvar esforço alheio,<br> + + +Cousa é que se costuma e se deseja;<br> + + +Mas louvar os meus próprios, arreceio<br> + + +Que louvor tão suspeito mal me esteja;<br> + + +E para dizer tudo, temo e creio,<br> + + +Que qualquer longo tempo curto seja:<br> + + +Mas, pois o mandas, tudo se te deve,<br> + + +Irei contra o que devo, e serei breve.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +"Além disso, o que a tudo enfim me obriga,<br> + + +É não poder mentir no que disser,<br> + + +Porque de feitos tais, por mais que diga,<br> + + +Mais me há-de ficar inda por dizer.<br> + + +Mas, porque nisto a ordens leve e siga,<br> + + +Segundo o que desejas de saber,<br> + + +Primeiro tratarei da larga terra,<br> + + +Depois direi da sanguinosa guerra.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,<br> + + +Meta setentrional do Sol luzente,<br> + + +E aquela que por f ria se arreceia<br> + + +Tanto, como a do meio por ardente,<br> + + +Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,<br> + + +Pela parte do Areturo, e do Ocidente,<br> + + +Com suas salsas ondas o Oceano,<br> + + +E pela Austral o mar Mediterrano.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +"Da parte donde o dia vem nascendo,<br> + + +Com Ásia se avizinha; mas o rio<br> + + +Que dos montes Rifeios vai correndo,<br> + + +Na alagoa Meotis, curvo o frio,<br> + + +As divide: e o mar que, fero e horrendo,<br> + + +Viu dos Gregos o irado senhorio,<br> + + +Onde agora de Tróia triunfante<br> + + +Não vê mais que a memória o navegante.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +"Lá onde mais debaixo está do Pólo,<br> + + +Os montes Hiperbóreos aparecem,<br> + + +E aqueles onde sempre sopra Eolo,<br> + + +E co'o nome, dos sopros se enobrecem.<br> + + +Aqui tão pouca força tem de Apolo<br> + + +Os raios que no mundo resplandecem,<br> + + +Que a neve está contido pelos montes,<br> + + +Gelado o mar, geladas sempre as fontes.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +"Aqui dos Citas grande quantidade<br> + + +Vivem, que antigamente grande guerra<br> + + +Tiveram, sobre a humana antiguidade,<br> + + +Co'os que tinham então a Egípcia terra;<br> + + +Mas quem tão fora estava da verdade,<br> + + +(Já que o juízo humano tanto erra)<br> + + +Para que do mais certo se informara,<br> + + +Ao campo Damasceno o perguntara.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +"Agora nestas partes se nomeia<br> + + +A Lápia fria, a inculta Noruega,<br> + + +Escandinávia Ilha, que se arreia<br> + + +Das vitórias que Itália não lhe nega.<br> + + +Aqui, enquanto as águas não refreia<br> + + +O congelado inverno, se navega<br> + + +Um braço do Sarmático Oceano<br> + + +Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +"Entre este mar e o Tánais vive estranha<br> + + +Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,<br> + + +Sármatas outro tempo; e na montanha<br> + + +Hircínia os Marcomanos são Polónios.<br> + + +Sujeitos ao Império de Alemanha<br> + + +São Saxones, Boêmios e Panónios,<br> + + +E outras várias nações, que o Reno frio<br> + + +Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,<br> + + +Aonde Hele deixou co'o nome a vida,<br> + + +Estão os Traces de robusto peito,<br> + + +Do fero Marte pátria tão querida,<br> + + +Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito<br> + + +Ao Otomano está, que submetida<br> + + +Bizâncio tem a seu serviço indino:<br> + + +Boa injúria do grande Constantino!<br> + + +<br> + + +13<br> + + +"Logo de Macedónia estão as gentes,<br> + + +A quem lava do Axio a água fria;<br> + + +E vós também, ó terras excelentes<br> + + +Nos costumes, engenhos e ousadia,<br> + + +Que criastes os peitos eloquentes<br> + + +E os juízos de alta fantasia,<br> + + +Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,<br> + + +E não menos por armas, que por letras.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +"Logo os Dálmatas vivem; e no seio,<br> + + +Onde Antenor já muros levantou,<br> + + +A soberba Veneza está no meio<br> + + +Das águas, que tão baixa começou.<br> + + +Da terra um braço vem ao mar, que cheio<br> + + +De esforço, nações várias +sujeitou,<br> + + +Braço forte, de gente sublimada,<br> + + +Não menos nos engenhos, que na espada.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +"Em torno o cerca o Reino Neptunino,<br> + + +Co'os muros naturais por outra parte;<br> + + +Pelo meio o divide o Apenino,<br> + + +Que tão ilustre fez o pátrio Marte;<br> + + +Mas depois que o Porteiro tem divino,<br> + + +Perdendo o esforço veio, e bélica arte;<br> + + +Pobre está já de antiga potestade:<br> + + +Tanto Deus se contenta de humildade!<br> + + +<br> + + +16<br> + + +"Gália ali se verá que nomeada<br> + + +Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,<br> + + +Que do Séquana e Ródano é regada,<br> + + +E do Giruna frio e Reno fundo.<br> + + +Logo os montes da Ninfa sepultada<br> + + +Pirene se alevantam, que segundo<br> + + +Antiguidades contam, quando arderam,<br> + + +Rios de ouro e de prata então correram.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,<br> + + +Como cabeça ali de Europa toda,<br> + + +Em cujo senhorio o glória estranha<br> + + +Muitas voltas tem dado a fatal roda;<br> + + +Mas nunca poderá, com força ou manha,<br> + + +A fortuna inquieta pôr-lhe noda,<br> + + +Que lhe não tire o esforço e ousadia<br> + + +Dos belicosos peitos que em si cria.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +"Com Tingitânia entesta, e ali parece<br> + + +Que quer fechar o mar Mediterrano,<br> + + +Onde o sabido Estreito se enobrece<br> + + +Co'o extremo trabalhado Tebano.<br> + + +Com nações diferentes se engrandece,<br> + + +Cercadas com as ondas do Oceano;<br> + + +Todas de tal nobreza e tal valor,<br> + + +Que qualquer delas cuida que é melhor.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +"Tem o Tarragonês, que se fez claro<br> + + +Sujeitando Parténope inquieta;<br> + + +O Navarro, as Astúrias, que reparo<br> + + +Já foram contra a gente Mahometa;<br> + + +Tem o Galego cauto, e o grande e raro<br> + + +Castelhano, a quem fez o seu Planeta<br> + + +Restituidor de Espanha e senhor dela,<br> + + +Bétis, Lião, Granada, com Castela.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +"Eis aqui, quase cume da cabeça<br> + + +De Europa toda, o Reino Lusitano,<br> + + +Onde a terra se acaba e o mar começa,<br> + + +E onde Febo repousa no Oceano.<br> + + +Este quis o Céu justo que floresça<br> + + +Nas armas contra o torpe Mauritano,<br> + + +Deitando-o de si fora, e lá na ardente<br> + + +África estar quieto o não consente.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +"Esta é a ditosa pátria minha amada,<br> + + +A qual se o Céu me dá que eu sem perigo<br> + + +Torne, com esta empresa já acabada,<br> + + +Acabe-se esta luz ali comigo.<br> + + +Esta foi Lusitânia, derivada<br> + + +De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo<br> + + +Filhos foram, parece, ou companheiros,<br> + + +E nela então os Íncolas primeiros.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +"Desta o pastor nasceu, que no seu nome<br> + + +Se vê que de homem forte os feitos teve;<br> + + +Cuja fama ninguém virá que dome,<br> + + +Pois a grande de Roma não se atreve.<br> + + +Esta, o velho que os filhos próprios come<br> + + +Por decreto do Céu, ligeiro e leve,<br> + + +Veio a fazer no mundo tanta parte,<br> + + +Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:<br> + + +<br> + + +23<br> + + +"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,<br> + + +Que fez aos Sarracenos tanta guerra,<br> + + +Que por armas sanguinas, força e manha,<br> + + +A muitos fez perder a vida o a terra;<br> + + +Voando deste Rei a fama estranha<br> + + +Do Herculano Calpe à Cáspia serra,<br> + + +Muitos, para na guerra esclarecer-se,<br> + + +Vinham a ele e à morte oferecer-se.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"E com um amor intrínseco acendidos<br> + + +Da Fé, mais que das honras populares,<br> + + +Eram de várias terras conduzidos,<br> + + +Deixando a pátria amada e próprios lares.<br> + + +Depois que em feitos altos e subidos<br> + + +Se mostraram nas armas singulares,<br> + + +Quis o famoso Afonso que obras tais<br> + + +Levassem prémio digno e dons iguais.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"Destes Anrique, dizem que segundo<br> + + +Filho de um Rei de Ungria exprimentado,<br> + + +Portugal houve em sorte, que no mundo<br> + + +Então não era ilustre nem prezado;<br> + + +E, para mais sinal d'amor profundo,<br> + + +Quis o Rei Castelhano, que casado<br> + + +Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;<br> + + +E com ela das terras tornou posse.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Este, depois que contra os descendentes<br> + + +Da escrava Agar vitórias grandes teve,<br> + + +Ganhando muitas terras adjacentes,<br> + + +Fazendo o que a seu forte peito deve,<br> + + +Em prémio destes feitos excelentes,<br> + + +Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,<br> + + +Um filho, que ilustrasse o nome ufano<br> + + +Do belicoso Reino Lusitano.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Já tinha vindo Anrique da conquista<br> + + +Da cidade Hierosólima sagrada,<br> + + +E do Jordão a areia tinha vista,<br> + + +Que viu de Deus a carne em si lavada;<br> + + +Que não tendo Gotfredo a quem resista,<br> + + +Depois de ter Judeia sojugada,<br> + + +Muitos, que nestas guerras o ajudaram,<br> + + +Para seus senhorios se tornaram;<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Quando chegado ao fim de sua idade,<br> + + +O forte e famoso Úngaro estremado,<br> + + +Forçado da fatal necessidade,<br> + + +O espírito deu a quem lhe tinha dado,<br> + + +Ficava o filho em tenra mocidade,<br> + + +Em quem o pai deixava seu traslado,<br> + + +Que do mundo os mais fortes igualava;<br> + + +Que de tal pai tal filho se esperava.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Mas o velho rumor, não sei se errado,<br> + + +Que em tanta antiguidade não há certeza,<br> + + +Conta que a mãe, tomando todo o estado,<br> + + +Do segundo himeneu não se despreza.<br> + + +O filho órfão deixava deserdado,<br> + + +Dizendo que nas terras a grandeza<br> + + +Do senhorio todo só sua era,<br> + + +Porque, para casar, seu pai lhes dera.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Mas o Príncipe Afonso, que desta arte<br> + + +Se chamava, do avô tomando o nome,<br> + + +Vendo-se em suas terras não ter parte,<br> + + +Que a mãe, com seu marido, as manda e come,<br> + + +Fervendo-lhe no peito o duro Marte,<br> + + +Imagina consigo como as tome.<br> + + +Revolvidas as causas no conceito,<br> + + +Ao propósito firme segue o efeito.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"De Guimarães o campo se tingia<br> + + +Co'o sangue próprio da intestina guerra,<br> + + +Onde a mãe, que tão pouco o parecia,<br> + + +A seu filho negava o amor e a terra.<br> + + +Com ele posta em campo já se via;<br> + + +E não vê a soberba o muito que erra<br> + + +Contra Deus, contra o maternal amor;<br> + + +Mas nela o sensual era maior.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"Ó Progne crua! ó mágica Medeia!<br> + + +Se em vossos próprios filhos vos vingais<br> + + +Da maldade dos pais, da culpa alheia,<br> + + +Olhai que inda Teresa peca mais:<br> + + +Incontinência má, cobiça feia,<br> + + +São as causas deste erro principais:<br> + + +Cila, por uma, mata o velho pai,<br> + + +Esta, por ambas, contra o filho vai.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Mas já o Príncipe claro o vencimento<br> + + +Do padrasto e da iníqua mãe levava;<br> + + +Já lhe obedece a terra num momento,<br> + + +Que primeiro contra ele pelejava.<br> + + +Porém, vencido de ira o entendimento,<br> + + +A mãe em ferros ásperos atava;<br> + + +Mas de Deus foi vingada em tempo breve:<br> + + +Tanta veneração aos pais se deve!<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,<br> + + +Para vingar a injúria de Teresa,<br> + + +Contra o tão raro em gente Lusitano,<br> + + +A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.<br> + + +Em batalha cruel o peito humano,<br> + + +Ajudado da angélica defesa,<br> + + +Não só contra tal fúria se sustenta,<br> + + +Mas o inimigo aspérrimo afugenta.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"Não passa muito tempo, quando o forte<br> + + +Príncipe em Guimarães está cercado<br> + + +De infinito poder; que desta sorte<br> + + +Foi refazer-se o inimigo magoado;<br> + + +Mas, com se oferecer à dura morte<br> + + +O fiel Egas amo, foi livrado;<br> + + +Que de outra arte pudera ser perdido,<br> + + +Segundo estava mal apercebido.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"lulas o leal vassalo, conhecendo<br> + + +Que seu senhor não tinha resistência,<br> + + +Se vai ao Castelhano, prometendo<br> + + +Que ele faria dar-lhe obediência.<br> + + +Levanta o inimigo o cerco horrendo,<br> + + +Fiado na promessa e consciência<br> + + +De Egas Moniz; mas não consente o peito<br> + + +Do moço ilustre a outrem ser sujeito.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"Chegado tinha o prazo prometido,<br> + + +Em que o Rei Castelhano já aguardava<br> + + +Que o Príncipe, a seu mando sometido,<br> + + +Lhe desse a obediência que esperava.<br> + + +Vendo Egas que ficava fementido,<br> + + +O que dele Castela não cuidava,<br> + + +Determina de dar a doce vida<br> + + +A troco da palavra mal cumprida.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"E com seus filhos e mulher se parte<br> + + +A alevantar com eles a fiança,<br> + + +Descalços e despidos, de tal arte,<br> + + +Que mais move a piedade que a vingança.<br> + + +—"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te<br> + + +De minha temerária confiança,<br> + + +Dizia, eis aqui venho oferecido<br> + + +A te pagar, coa vida, o prometido.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Vês aqui trago as vidas inocentes<br> + + +Dos filhos sem pecado e da consorte;<br> + + +Se a peitos generosos e excelentes,<br> + + +Dos fracos satisfaz a fera morte.<br> + + +Vês aqui as mãos e a língua +delinquentes:<br> + + +Nelas sós exprimenta toda a sorte<br> + + +De tormentos, de mortes, pelo estilo<br> + + +De Cínis e do touro de Perilo"!—<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Qual diante do algoz o condenado,<br> + + +Que já na vida a morte tem bebido,<br> + + +Põe no cepo a garganta, e já entregado<br> + + +Espera pelo golpe tão temido:<br> + + +Tal diante do Príncipe indinado,<br> + + +Egas estava a tudo oferecido.<br> + + +Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,<br> + + +Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Ó grão fidelidade Portuguesa,<br> + + +De vassalo, que a tanto se obrigava!<br> + + +Que mais o Persa fez naquela empresa,<br> + + +Onde rosto e narizes se cortava?<br> + + +Do que ao grande Dario tanto pesa,<br> + + +Que mil vezes dizendo suspirava,<br> + + +Que mais o seu Zopiro são prezara,<br> + + +Que vinte Babilónias que tomara.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +Mas já o Príncipe Afonso aparelhava<br> + + +O Lusitano exército ditoso,<br> + + +Contra o Mouro que as terras habitava<br> + + +D'além do claro Tejo deleitoso;<br> + + +Já no campo de Ourique se assentava<br> + + +O arraial soberbo e belicoso,<br> + + +Defronte do inimigo Sarraceno,<br> + + +Posto que em força e gente tão pequeno.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +"Em nenhuma outra cousa confiado,<br> + + +Senão no sumo Deus, que o Céu regia,<br> + + +Que tão pouco era o povo batizado,<br> + + +Que para um só cem Mouros haveria.<br> + + +Julga qualquer juízo sossegado<br> + + +Por mais temeridade que ousadia,<br> + + +Cometer um tamanho ajuntamento,<br> + + +Que para um cavaleiro houvesse cento.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +"Cinco Reis Mouros são os inimigos,<br> + + +Dos quais o principal Ismar se chama;<br> + + +Todos exprimentados nos perigos<br> + + +Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.<br> + + +Seguem guerreiras damas seus amigos,<br> + + +Imitando a formosa e forte Dama,<br> + + +De quem tanto os Troianos se ajudaram,<br> + + +E as que o Termodonte já gostaram.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +"A matutina luz serena e fria,<br> + + +As estrelas do Pólo já apartava,<br> + + +Quando na Cruz o Filho de Maria,<br> + + +Amostrando-se a Afonso, o animava.<br> + + +Ele, adorando quem lhe aparecia,<br> + + +Na Fé todo inflamado assim gritava:<br> + + +—"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,<br> + + +E não a mim, que creio o que podeis!"<br> + + +<br> + + +46<br> + + +"Com tal milagre os ânimos da gente<br> + + +Portuguesa inflamados, levantavam<br> + + +Por seu Rei natural este excelente<br> + + +Príncipe, que do peito tanto amavam;<br> + + +E diante do exército potente<br> + + +Dos imigos, gritando o céu tocavam,<br> + + +Dizendo em alta voz:—"Real, real,<br> + + +Por Afonso alto Rei de Portugal."<br> + + +<br> + + +47<br> + + +"Qual co'os gritos e vozes incitado,<br> + + +Pela montanha o rábido Moloso,<br> + + +Contra o touro remete, que fiado<br> + + +Na força está do corno temeroso:<br> + + +Ora pega na orelha, ora no lado,<br> + + +Latindo mais ligeiro que forçoso,<br> + + +Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,<br> + + +Do bravo a força horrenda se quebranta:<br> + + +<br> + + +48<br> + + +"Tal do Rei novo o estâmago acendido<br> + + +Por Deus e pelo povo juntamente,<br> + + +O Bárbaro comete apercebido,<br> + + +Co'o animoso exército rompente.<br> + + +Levantam nisto os perros o alarido<br> + + +Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,<br> + + +As lanças e arcos tomam, tubas soam,<br> + + +Instrumentos de guerra tudo atroam.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +"Bem como quando a flama, que ateada<br> + + +Foi nos áridos campos (assoprando<br> + + +O sibilante Bóreas) animada<br> + + +Co'o vento, o seco mato vai queimando;<br> + + +A pastoral companha, que deitada<br> + + +Co'o doce sono estava, despertando<br> + + +Ao estridor do fogo que se ateia,<br> + + +Recolhe o fato, e foge para a aldeia:<br> + + +<br> + + +50<br> + + +"Desta arte o Mouro atónito e torvado,<br> + + +Toma sem tento as armas mui depressa;<br> + + +Não foge; mas espera confiado,<br> + + +E o ginete belígero arremessa.<br> + + +O Português o encontra denodado,<br> + + +Pelos peitos as lanças lhe atravessa:<br> + + +Uns caem meios mortos, e outros vão<br> + + +A ajuda convocando do Alcorão.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"Ali se vêem encontros temerosos,<br> + + +Para se desfazer uma alta serra,<br> + + +E os animais correndo furiosos<br> + + +Que Neptuno amostrou ferindo a terra.<br> + + +Golpes se dão medonhos e forçosos;<br> + + +Por toda a parte andava acesa a guerra:<br> + + +Mas o de Luso arnês, couraça e malha<br> + + +Rompe, corta, desfaz, abola e talha.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"Cabeças pelo campo vão saltando<br> + + +Braços, pernas, sem dono e sem sentido;<br> + + +E doutros as entranhas palpitando,<br> + + +Pálida a cor, o gesto amortecido.<br> + + +Já perde o campo o exército nefando;<br> + + +Correm rios de sangue desparzido,<br> + + +Com que também do campo a cor se perde,<br> + + +Tornado carmesi de branco e verde.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Já fica vencedor o Lusitano,<br> + + +Recolhendo os troféus e presa rica;<br> + + +Desbaratado e roto o Mauro Hispano,<br> + + +Três dias o grão Rei no campo fiei.<br> + + +Aqui pinta no branco escudo ufano,<br> + + +Que agora esta vitória certifica,<br> + + +Cinco escudos azuis esclarecidos,<br> + + +Em sinal destes cinco Reis vencidos,<br> + + +<br> + + +54<br> + + +"E nestes cinco escudos pinta os trinta<br> + + +Dinheiros por que Deus fora vendido,<br> + + +Escrevendo a memória em vária tinta,<br> + + +Daquele de quem foi favorecido.<br> + + +Em cada uni dos cinco, cinco pinta,<br> + + +Porque assim fica o número cumprido,<br> + + +Contando duas vezes o do meio,<br> + + +Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +"Passado já algum tempo que passada<br> + + +Era esta grão vitória, o Rei subido<br> + + +A tomar vai Leiria, que tomada<br> + + +Fora, mui pouco havia, do vencido.<br> + + +Com esta a forte Arronches sojugada<br> + + +Foi juntamente, e o sempre enobrecido<br> + + +Scalabicastro, cujo campo ameno,<br> + + +Tu, claro Tejo, regas tão sereno.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +"A estas nobres vilas sometidas,<br> + + +Ajunta também Mafra, em pouco espaço,<br> + + +E nas serras da Lua conhecidas,<br> + + +Sojuga a fria Sintra o duro braço;<br> + + +Sintra, onde as Naiades, escondidas<br> + + +Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,<br> + + +Onde Amor as enreda brandamente,<br> + + +Nas águas acendendo fogo ardente.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo<br> + + +Facilmente das outras és princesa,<br> + + +Que edificada foste do facundo,<br> + + +Por cujo engano foi Dardânia acesa;<br> + + +Tu, a quem obedece o mar profundo,<br> + + +Obedeceste à força Portuguesa,<br> + + +Ajudada também da forte armada,<br> + + +Que das Boreais partes foi mandada.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +"Lá do Germânico Albis, e do Rene,<br> + + +E da fria Bretanha conduzidos,<br> + + +A destruir o povo Sarraceno,<br> + + +Muitos com tensão santa eram partidos.<br> + + +Entrando a boca já do Tejo ameno,<br> + + +Co'o arraial do grande Afonso unidos,<br> + + +Cuja alta fama então subia aos Céus,<br> + + +Foi posto cerco tos muros Ulisseus.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +"Cinco vezes a Lua se escondera,<br> + + +E outras tantas mostrara cheio o rosto,<br> + + +Quando a cidade entrada se rendera<br> + + +Ao duro cerco, que lhe estava posto.<br> + + +Foi a batalha tão sanguina e fera,<br> + + +Quanto obrigava o firme pressuposto<br> + + +De vencedores ásperos e ousados,<br> + + +E de vencidos já desesperados.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"Desta arte enfim tomada se rendeu<br> + + +Aquela que, nos tempos já passados,<br> + + +A grande força nunca obedeceu<br> + + +Dos frios povos Cíticos ousados,<br> + + +Cujo poder a tanto se estendeu<br> + + +Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;<br> + + +E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam<br> + + +Que à terra de Vandália nome deram.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"Que cidade tão forte por ventura<br> + + +Haverá que resista, se Lisboa<br> + + +Não pôde resistir à força +dura<br> + + +Da gente, cuja fama tanto voa?<br> + + +Já lhe obedece toda a Estremadura,<br> + + +Óbidos, Alenquer, por onde soa<br> + + +O tom das frescas águas, entre as pedras,<br> + + +Que murmurando lava, e Torres Vedras.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"E vós também, ó terras Transtaganas,<br> + + +Afamadas co'o dom da flava Ceres,<br> + + +Obedeceis às forças mais que humanas,<br> + + +Entregando-lhe os muros e os poderes.<br> + + +E tu, lavrador Mouro, que te enganas,<br> + + +Se sustentar a fértil terra queres;<br> + + +Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,<br> + + +E Alcácere-do-Sal estão rendidas.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"Eis a nobre Cidade, certo assento<br> + + +Do rebelde Sertório antigamente,<br> + + +Onde ora as águas nítidas de argento<br> + + +Vem sustentar de longo a terra e a gente,<br> + + +Pelos arcos reais, que cento e cento<br> + + +Nos ares se alevantam nobremente,<br> + + +Obedeceu por meio e ousadia<br> + + +De Giraldo, que medos não temia.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +"Já na cidade Beja vai tomar<br> + + +Vingança de Trancoso destruída<br> + + +Afonso, que não sabe sossegar,<br> + + +Por estender coa fama a curta vida.<br> + + +Não se lhe pode muito sustentar<br> + + +A cidade; mas sendo já rendida,<br> + + +Em toda a cousa viva a gente irada<br> + + +Provando os fios vai da dura espada.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Com estas sojugada foi Palmela,<br> + + +E a piscosa Cezimbra, e juntamente,<br> + + +Sendo ajudado mais de sua estrela,<br> + + +Desbarata um exército potente:<br> + + +Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,<br> + + +Que a socorrê-la vinha diligente<br> + + +Pela fralda da serra, descuidado<br> + + +Do temeroso encontro inopinado.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +"O Rei de Badajoz era alto Mouro,<br> + + +Com quatro mil cavalos furiosos,<br> + + +Inúmeros peões, d'armas e de ouro<br> + + +Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.<br> + + +Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,<br> + + +Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,<br> + + +Sentindo gente o bruto e cego amante<br> + + +Salteia o descuidado caminhante:<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"Desta arte Afonso súbito mostrado<br> + + +Na gente dá, que passa bem segura,<br> + + +Fere, mata, derriba denodado;<br> + + +Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.<br> + + +Dum pânico terror todo assombrado,<br> + + +Só de segui-lo o exército procura;<br> + + +Sendo estes que fizeram tanto abalo<br> + + +Não mais que só sessenta de cavalo.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Logo segue a vitória sem tardança<br> + + +O grão Rei incansábil, ajuntando<br> + + +Gentes de todo o Reino, cuja usança<br> + + +Era andar sempre terras conquistando.<br> + + +Cercar vai Badajoz, e logo alcança<br> + + +O fim de seu desejo, pelejando<br> + + +Com tanto esforço, e arte, e valentia,<br> + + +Que a fez fazer às outras companhia.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Mas o alto Deus, que para longe guarda<br> + + +O castigo daquele que o merece,<br> + + +Ou, para que se emende, às vezes tarda,<br> + + +Ou por segredos que homem não conhece,<br> + + +Se até que sempre o forte Rei resguarda<br> + + +Dos perigos a que ele se oferece;<br> + + +Agora lhe não deixa ter defesa<br> + + +Da maldição da mãe que estava presa.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Que estando na cidade, que cercara,<br> + + +Cercado nela foi dos Lioneses,<br> + + +Porque a conquista dela lhe tomara,<br> + + +De Lião sendo, e não dos Portugueses.<br> + + +A pertinácia aqui lhe custa cara,<br> + + +Assim como acontece muitas vezes,<br> + + +Que em ferros quebra as pernas, indo aceso<br> + + +A batalha, onde foi vencido e preso.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Ó famoso Pompeio, não te pene<br> + + +De teus feitos ilustres a ruína,<br> + + +Nem ver que a justa Némesis ordene<br> + + +Ter teu sogro de ti vitória dina,<br> + + +Posto que o frio Fásis, ou Siene,<br> + + +Que para nenhum cabo a sombra inclina,<br> + + +O Bootes gelado e a linha ardente,<br> + + +Temessem o teu nome geralmente.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"Posto que a rica Arábia e que os ferozes<br> + + +Eníocos e Colcos, cuja fama<br> + + +O Véu dourado estende, e os Capadoces,<br> + + +E Judeia, que um Deus adora e ama,<br> + + +E que os moles Sofenos, e os atroces<br> + + +Cilícios, com a Arménia, que derrama<br> + + +As águas dos dous rios, cuja fonte<br> + + +Está noutro mais alto e santo monte;<br> + + +<br> + + +73<br> + + +"E posto enfim que desde o mar de Atlante<br> + + +Até o Cítico Tauro monte erguido,<br> + + +Já vencedor te vissem, não te espanto<br> + + +Se o campo Emátio só te viu vencido,<br> + + +Porque Afonso verás, soberbo e ovante,<br> + + +Tudo render-se ser depois rendido.<br> + + +Assim o quis o conselho alto e celeste,<br> + + +Que vença o sogro a ti, e o genro a este.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +"Tornado o Rei sublime finalmente,<br> + + +Do divino Juízo castigado,<br> + + +Depois que em Santarém soberbamente<br> + + +Em vão dos Sarracenos foi cercado,<br> + + +E depois que do mártire Vicente<br> + + +O santíssimo corpo venerado<br> + + +Do Sacro Promontório conhecido<br> + + +A cidade Ulisseia foi trazido;<br> + + +<br> + + +75<br> + + +"Porque levasse avante seu desejo,<br> + + +Ao forte filho manda o lasso velho<br> + + +Que às terras se passasse d'Alentejo,<br> + + +Com gente e co'o belígero aparelho.<br> + + +Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,<br> + + +Avante passa, e faz correr vermelho<br> + + +O rio que Sevilha vai regando,<br> + + +Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +"E com esta vitória cobiçoso,<br> + + +Já não descansa o moço até +que veja<br> + + +Outro estrago como este, temeroso,<br> + + +No Bárbaro que tem cercado Beja.<br> + + +Não tarda muito o Príncipe ditoso<br> + + +Sem ver o fim daquilo que deseja.<br> + + +Assim estragado o Mouro, na vingança<br> + + +De tantas perdas põe sua esperança.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +"Já se ajuntam do monte a quem Medusa<br> + + +O corpo fez perder, que teve o Céu;<br> + + +Já vem do promontório de Ampelusa<br> + + +E do Tinge, que assento foi de Anteu.<br> + + +O morador de Abila não se escusa,<br> + + +Que também com suas armas se moveu,<br> + + +Ao som da Mauritana e ronca tuba,<br> + + +Todo o Reino que foi do nobre Juba.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +"Entrava com toda esta companhia<br> + + +O Miralmomini em Portugal;<br> + + +Treze Reis mouros leva de valia,<br> + + +Entre os quais tem o ceptro imperial;<br> + + +E assim fazendo quanto mal podia,<br> + + +O que em partes podia fazer mal,<br> + + +Dom Sancho vai cercar em Santarém;<br> + + +Porém não lhe sucede muito bem.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +"Dá-lhe combates ásperos, fazendo<br> + + +Ardis de guerra mil o Mouro iroso;<br> + + +Não lhe aproveita já trabuco horrendo,<br> + + +Mina secreta, aríete forçoso:<br> + + +Porque o filho de Afonso não perdendo<br> + + +Nada do esforço e acordo generoso,<br> + + +Tudo provê com ânimo e prudência;<br> + + +Que em toda a parte há esforço e +resistência.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"Mas o velho, a quem tinham já obrigado<br> + + +Os trabalhosos anos ao sossego,<br> + + +Estando na cidade, cujo prado<br> + + +Enverdecem as águas do Mondego,<br> + + +Sabendo como o filho está cercado<br> + + +Em Santarém do Mauro povo cego,<br> + + +Se parte diligente da cidade;<br> + + +Que não perde a presteza coa idade.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"E coa famosa gente à guerra usada<br> + + +Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,<br> + + +A Portuguesa fúria costumada<br> + + +Em breve os Mouros tem desbaratados.<br> + + +A campina, que toda está coalhada<br> + + +De marlotas, capuzes variados,<br> + + +De cavalos, jaezes, presa rica,<br> + + +De seus senhores mortos cheia fica.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"Logo todo o restante se partiu<br> + + +De Lusitânia, postos em fugida;<br> + + +O Miralmomini só não fugiu,<br> + + +Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.<br> + + +A quem lhe esta vitória permitiu<br> + + +Dão louvores e graças sem medida:<br> + + +Que em casos tão estranhos claramente<br> + + +Mais peleja o favor de Deus que a gente.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"De tamanhas vitórias triunfava<br> + + +O velho Afonso, Príncipe subido,<br> + + +Quando, quem tudo enfim vencendo andava,<br> + + +Da larga e muita idade foi vencido.<br> + + +A pálida doença lhe tocava<br> + + +Com fria mão o corpo enfraquecido;<br> + + +E pagaram seus anos deste jeito<br> + + +A triste Libitina seu direito.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +"Os altos promontórios o choraram,<br> + + +E dos rios as águas saudosas<br> + + +Os semeados campos alagaram<br> + + +Com lágrimas correndo piedosas.<br> + + +Mas tanto pelo mundo se alargaram<br> + + +Com faina suas obras valerosas,<br> + + +Que sempre no seu Reino chamarão<br> + + +"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +"Sancho, forte mancebo, que ficara<br> + + +Imitando seu pai na valentia,<br> + + +E que em sua vida já se exprimentara,<br> + + +Quando o Bétis de sangue se tingia,<br> + + +E o bárbaro poder desbaratara<br> + + +Do Ismaelita Rei de Andaluzia;<br> + + +E mais quando os que Beja em vão cercaram,<br> + + +Os golpes de seu braço em si provaram;<br> + + +<br> + + +86<br> + + +"Depois que foi por Rei alevantado,<br> + + +Havendo poucos anos que reinava,<br> + + +A cidade de Silves tem cercado,<br> + + +Cujos campos o bárbaro lavrava.<br> + + +Foi das valentes gentes ajudado<br> + + +Da Germânica armada que passava,<br> + + +De armas fortes e gente apercebida,<br> + + +A recobrar Judeia já perdida.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +"Passavam a ajudar na santa empresa<br> + + +O roxo Federico, que moveu<br> + + +O poderoso exército em defesa<br> + + +Da cidade onde Cristo padeceu,<br> + + +Quando Guido, coa gente em sede acesa,<br> + + +Ao grande Saladino se rendeu,<br> + + +No lugar onde aos Mouros sobejavam<br> + + +As águas que os de Guido desejavam.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +"Mas a formosa armada, que viera<br> + + +Por contraste de vento àquela parte,<br> + + +Sancho quis ajudar na guerra fera,<br> + + +Já que em serviço vai do santo Marte.<br> + + +Assim como a seu pai acontecera<br> + + +Quando tomou Lisboa, da mesma arte<br> + + +Do Germano ajudado Silves toma,<br> + + +E o bravo morador destrue e doma.<br> + + +<br> + + +89<br> + + +"E se tantos troféus do Mahometa<br> + + +Alevantando vai, também do forte<br> + + +Lionês não consente estar quieta<br> + + +A terra, usada aos casos de Mavorte,<br> + + +Até que na cerviz seu jugo meta<br> + + +Da soberba Tui, que a mesma sorte<br> + + +Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,<br> + + +Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +"Mas entre tantas palmas salteado<br> + + +Da temerosa morte, fica herdeiro<br> + + +Um filho seu, de todos estimado,<br> + + +Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.<br> + + +No tempo deste, aos Mouros foi tomado<br> + + +Alcácere-do-Sal por derradeiro;<br> + + +Porque dantes os Mouros o tomaram,<br> + + +Mas agora estruídos o pagaram.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +"Morto depois Afonso, lhe sucede<br> + + +Sancho segundo, manso e descuidado,<br> + + +Que tanto em seus descuidos se desmede,<br> + + +Que de outrem, quem mandava, era mandado.<br> + + +De governar o Reino, que outro pede,<br> + + +Por causa dos privados foi privado,<br> + + +Porque, como por eles se regia,<br> + + +Em todos os seus vícios consentia.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +"Não era Sancho, não, tão desonesto<br> + + +Como Nero, que um moço recebia<br> + + +Por mulher, e depois horrendo incesto<br> + + +Com a mãe Agripina cometia;<br> + + +Nem tão cruel às gentes e molesto,<br> + + +Que a cidade queimasse onde vivia,<br> + + +Nem tão mau como foi Heliogabalo,<br> + + +Nem como o mole Rei Sardanapalo.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +"Nem era o povo seu tiranizado,<br> + + +Como Sicília foi de seus tiranos;<br> + + +Nem tinha como Fálaris achado<br> + + +Gênero de tormentos inumanos;<br> + + +Mas o Reino, de altivo e costumado<br> + + +A senhores em tudo soberanos,<br> + + +A Rei não obedece, nem consente,<br> + + +Que não for mais que todos excelente.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +"Por esta causa o Reino governou<br> + + +O Conde Bolonhês, depois alçado<br> + + +Por Rei, quando da vida se apartou<br> + + +Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.<br> + + +Este, que Afonso o bravo, se chamou,<br> + + +Depois de ter o Reino segurado,<br> + + +Em dilatá-lo cuida, que em terreno<br> + + +Não cabe o altivo peito, tão pequeno.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +"Da terra dos Algarves, que lhe fora<br> + + +Em casamento dada, grande parte<br> + + +Recupera co'o braço, e deita fora<br> + + +O Mouro, mal querido já de Marte.<br> + + +Este de todo fez livre e senhora<br> + + +Lusitânia, com força e bélica arte;<br> + + +E acabou de oprimir a nação forte,<br> + + +Na terra que aos de Luso coube em sorte.<br> + + +<br> + + +96<br> + + +"Eis depois vem Dinis, que bem parece<br> + + +Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,<br> + + +Com quem a fama grande se escurece<br> + + +Da liberalidade Alexandrina.<br> + + +Com este o Reino próspero florece<br> + + +(Alcançada já a paz áurea divina)<br> + + +Em constituições, leis e costumes,<br> + + +Na terra já tranquila claros lumes.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se<br> + + +O valeroso ofício de Minerva;<br> + + +E de Helicona as Musas fez passar-se<br> + + +A pisar do Monde-o a fértil erva.<br> + + +Quanto pode de Atenas desejar-se,<br> + + +Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.<br> + + +Aqui as capelas dá tecidas de ouro,<br> + + +Do bácaro e do sempre verde louro.<br> + + +<br> + + +98<br> + + +"Nobres vilas de novo edificou<br> + + +Fortalezas, castelos mui seguros,<br> + + +E quase o Reino todo reformou<br> + + +Com edifícios grandes, e altos muros.<br> + + +Mas depois que a dura Átropos cortou<br> + + +O fio de seus dias já maduros,<br> + + +Ficou-lhe o filho pouco obediente,<br> + + +Quarto Afonso, mas forte e excelente.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +"Este sempre as soberbas Castelhanas<br> + + +Co'o peito desprezou firme e sereno,<br> + + +Porque não é das forças Lusitanas,<br> + + +Temer poder maior, por mais pequeno.<br> + + +Mas porém, quando as gentes Mauritanas,<br> + + +A possuir o Hespérico terreno<br> + + +Entraram pelas terras de Castela,<br> + + +Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.<br> + + +<br> + + +100<br> + + +"Nunca com Semirâmis gente tanta<br> + + +Veio os campos idáspicos enchendo,<br> + + +Nem Atila, que Itália toda espanta,<br> + + +Chamando-se de Deus açoute horrendo,<br> + + +Gótica gente trouxe tanta, quanta<br> + + +Do Sarraceno bárbaro estupendo,<br> + + +Co'o poder excessivo de Granada,<br> + + +Foi nos campos Tartésios ajuntada.<br> + + +<br> + + +101<br> + + +"E vendo o Rei sublime Castelhano<br> + + +A força inexpugnábil, grande e forte,<br> + + +Temendo mais o fim do povo hispano,<br> + + +Já perdido uma vez, que a própria morte,<br> + + +Pedindo ajuda ao forte Lusitano,<br> + + +Lhe mandava a caríssima consorte,<br> + + +Mulher de quem a manda, e filha amada<br> + + +Daquele a cujo Reino foi mandada.<br> + + +<br> + + +102<br> + + +"Entrava a formosíssima Maria<br> + + +Pelos paternais paços sublimados,<br> + + +Lindo o gesto, mas fora de alegria,<br> + + +E seus olhos em lágrimas banhados;<br> + + +Os cabelos angélicos trazia<br> + + +Pelos ebúrneos ombros espalhados:<br> + + +Diante do pai ledo, que a agasalha,<br> + + +Estas palavras tais, chorando, espalha:<br> + + +<br> + + +103<br> + + +—"Quantos povos a terra produziu<br> + + +De África toda, gente fera e estranha,<br> + + +O grão Rei de Marrocos conduziu<br> + + +Para vir possuir a nobre Espanha:<br> + + +Poder tamanho junto não se viu,<br> + + +Depois que o salso mar a terra banha.<br> + + +Trazem ferocidade, e furor tanto,<br> + + +Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.<br> + + +<br> + + +104<br> + + +—"Aquele que me deste por marido,<br> + + +Por defender sua terra amedrontada,<br> + + +Co'o pequeno poder, oferecido<br> + + +Ao duro golpe está da Maura espada;<br> + + +E se não for contigo socorrido,<br> + + +Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,<br> + + +Viúva e triste, e posta em vida escura,<br> + + +Sem marido, sem Reino, e sem ventura.<br> + + +<br> + + +105<br> + + +"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo<br> + + +O corrente Muluca se congela,<br> + + +Rompe toda a tardança, acude cedo<br> + + +A miseranda gente de Castela.<br> + + +Se esse gesto, que mostras claro e ledo,<br> + + +De pai o verdadeiro amor assela,<br> + + +Acude e corre, pai, que se não corres,<br> + + +Pode ser que não aches quem socorres."—<br> + + +<br> + + +106<br> + + +"Não de outra sorte a tímida Maria<br> + + +Falando está, que a triste Vénus, quando<br> + + +A Júpiter, seu pai, favor pedia<br> + + +Para Eneias, seu filho, navegando;<br> + + +Que a tanta piedade o comovia<br> + + +Que, caído das mãos o raio infando,<br> + + +Tudo o clemente Padre lhe concede,<br> + + +Pesando-lhe do pouco que lhe pede.<br> + + +<br> + + +107<br> + + +"Mas já co'os esquadrões da gente armada<br> + + +Os Eborenses campos vão coalhados:<br> + + +Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;<br> + + +Vão rinchando os cavalos jaezados.<br> + + +A canora trombeta embandeirada,<br> + + +Os corações à paz acostumados<br> + + +Vai às fulgentes armas incitando,<br> + + +Pelas concavidades retumbando.<br> + + +<br> + + +108<br> + + +"Entre todos no meio se sublima,<br> + + +Das insígnias Reais acompanhado,<br> + + +O valeroso Afonso, que por cima<br> + + +De todos leva o colo alevantado;<br> + + +E somente co'o gesto esforça e anima<br> + + +A qualquer coração amedrontado.<br> + + +Assim entra nas terras de Castela<br> + + +Com a filha gentil, Rainha dela.<br> + + +<br> + + +109<br> + + +"Juntos os dous Afonsos finalmente<br> + + +Nos campos de Tarifa estão defronte<br> + + +Da grande multidão da cega gente,<br> + + +Para quem são pequenos campo e monte.<br> + + +Não há peito tão alto e tão +potente,<br> + + +Que de desconfiança não se afronte,<br> + + +Enquanto não conheça e claro veja<br> + + +Que co'o braço dos seus Cristo peleja.<br> + + +<br> + + +110<br> + + +"Estão de Agar os netos quase rindo<br> + + +Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,<br> + + +As terras como suas repartindo<br> + + +Antemão, entre o exército Agareno,<br> + + +Que com título falso possuindo<br> + + +Está o famoso nome Sarraceno.<br> + + +Assim também com falsa conta e nua,<br> + + +À nobre terra alheia chamam sua.<br> + + +<br> + + +111<br> + + +"Qual o membrudo e bárbaro Gigante,<br> + + +Do rei Saul, com causa, tão temido,<br> + + +Vendo o pastor inerme estar diante,<br> + + +Só de pedras e esforço apercebido,<br> + + +Com palavras soberbas o arrogante<br> + + +Despreza o fraco moço mal vestido,<br> + + +Que, rodeando a funda, o desengana<br> + + +Quanto mais pode a Fé que a força humana:<br> + + +<br> + + +112<br> + + +"Desta arte o Mouro pérfido despreza<br> + + +O poder dos Cristãos, e não entende<br> + + +Que está ajudado da Alta Fortaleza,<br> + + +A quem o inferno horrífico se rende.<br> + + +Co ela o Castelhano, e com destreza<br> + + +De Marrocos o Rei comete e ofende.<br> + + +O Português, que tudo estima em nada,<br> + + +Se faz temer ao Reino de Granada.<br> + + +<br> + + +113<br> + + +"Eis as lanças e espadas retiniam<br> + + +Por cima dos arneses: bravo estrago!<br> + + +Chamam (segundo as leis que ali seguiam)<br> + + +Uns Mafamede, e os outros Santiago.<br> + + +Os feridos com grita o Céu feriam,<br> + + +Fazendo de seu sangue bruto lago,<br> + + +Onde outros meios mortos se afogavam,<br> + + +Quando do ferro as vidas escapavam.<br> + + +<br> + + +114<br> + + +"Com esforço tamanho estrui e mata<br> + + +O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,<br> + + +Totalmente o poder lhe desbarata,<br> + + +Sem lhe valer defesa ou peito de aço.<br> + + +De alcançar tal vitória tão barata<br> + + +Inda não bem contente o forte braço,<br> + + +Vai ajudar ao bravo Castelhano,<br> + + +Que pelejando está co'o Mauritano.<br> + + +<br> + + +115<br> + + +"Já se ia o Sol ardente recolhendo<br> + + +Para a casa de Tethys, e inclinado<br> + + +Para o Ponente, o Véspero trazendo,<br> + + +Estava o claro dia memorado,<br> + + +Quando o poder do Mauro grande e horrendo<br> + + +Foi pelos fortes Reis desbaratado,<br> + + +Com tanta mortandade, que a memória<br> + + +Nunca no mundo viu tão grã vitória.<br> + + +<br> + + +116<br> + + +"Não matou a quarta parte o forte Mário<br> + + +Dos que morreram neste vencimento,<br> + + +Quando as águas co'o sangue do adversário<br> + + +Fez beber ao exército sedento;<br> + + +Nem o Peno asperíssimo contrário<br> + + +Do Romano poder, de nascimento,<br> + + +Quando tantos matou da ilustro Roma,<br> + + +Que alqueires três de anéis dos mortos toma.<br> + + +<br> + + +117<br> + + +"E se tu tantas almas só pudeste<br> + + +Mandar ao Reino escuro de Cocito,<br> + + +Quando a santa Cidade desfizeste<br> + + +Do povo pertinaz no antigo rito:<br> + + +Permissão e vingança foi celeste,<br> + + +E não força de braço, ó +nobre Tito,<br> + + +Que assim dos Vates foi profetizado,<br> + + +E depois por Jesu certificado.<br> + + +<br> + + +118<br> + + +"Passada esta tão próspera vitória,<br> + + +Tornando Afonso à Lusitana terra,<br> + + +A se lograr da paz com tanta glória<br> + + +Quanta soube ganhar na dura guerra,<br> + + +O caso triste, e dino da memória,<br> + + +Que do sepulcro os homens desenterra,<br> + + +Aconteceu da mísera e mesquinha<br> + + +Que depois de ser morta foi Rainha.<br> + + +<br> + + +119<br> + + +"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,<br> + + +Que os corações humanos tanto obriga,<br> + + +Deste causa à molesta morte sua,<br> + + +Como se fora pérfida inimiga.<br> + + +Se dizem, fero Amor, que a sede tua<br> + + +Nem com lágrimas tristes se mitiga,<br> + + +É porque queres, áspero e tirano,<br> + + +Tuas aras banhar em sangue humano.<br> + + +<br> + + +120<br> + + +"Estavas, linda Inês, posta em sossego,<br> + + +De teus anos colhendo doce fruto,<br> + + +Naquele engano da alma, ledo e cego,<br> + + +Que a fortuna não deixa durar muito,<br> + + +Nos saudosos campos do Mondego,<br> + + +De teus fermosos olhos nunca enxuto,<br> + + +Aos montes ensinando e às ervinhas<br> + + +O nome que no peito escrito tinhas.<br> + + +<br> + + +121<br> + + +"Do teu Príncipe ali te respondiam<br> + + +As lembranças que na alma lhe moravam,<br> + + +Que sempre ante seus olhos te traziam,<br> + + +Quando dos teus fermosos se apartavam:<br> + + +De noite em doces sonhos, que mentiam,<br> + + +De dia em pensamentos, que voavam.<br> + + +E quanto enfim cuidava, e quanto via,<br> + + +Eram tudo memórias de alegria.<br> + + +<br> + + +122<br> + + +"De outras belas senhoras e Princesas<br> + + +Os desejados tálamos enjeita,<br> + + +Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,<br> + + +Quando um gesto suave te sujeita.<br> + + +Vendo estas namoradas estranhezas<br> + + +O velho pai sesudo, que respeita<br> + + +O murmurar do povo, e a fantasia<br> + + +Do filho, que casar-se não queria,<br> + + +<br> + + +123<br> + + +"Tirar Inês ao mundo determina,<br> + + +Por lhe tirar o filho que tem preso,<br> + + +Crendo co'o sangue só da morte indina<br> + + +Matar do firme amor o fogo aceso.<br> + + +Que furor consentiu que a espada fina,<br> + + +Que pôde sustentar o grande peso<br> + + +Do furor Mauro, fosse alevantada<br> + + +Contra uma fraca dama delicada?<br> + + +<br> + + +124<br> + + +"Traziam-na os horríficos algozes<br> + + +Ante o Rei, já movido a piedade:<br> + + +Mas o povo, com falsas e ferozes<br> + + +Razões, à morte crua o persuade.<br> + + +Ela com tristes o piedosas vozes,<br> + + +Saídas só da mágoa, e saudade<br> + + +Do seu Príncipe, e filhos que deixava,<br> + + +Que mais que a própria morte a magoava,<br> + + +<br> + + +125<br> + + +"Para o Céu cristalino alevantando<br> + + +Com lágrimas os olhos piedosos,<br> + + +Os olhos, porque as mãos lhe estava atando<br> + + +Um dos duros ministros rigorosos;<br> + + +E depois nos meninos atentando,<br> + + +Que tão queridos tinha, e tão mimosos,<br> + + +Cuja orfandade como mãe temia,<br> + + +Para o avô cruel assim dizia:<br> + + +<br> + + +126<br> + + +—"Se já nas brutas feras, cuja mente<br> + + +Natura fez cruel de nascimento,<br> + + +E nas aves agrestes, que somente<br> + + +Nas rapinas aéreas têm o intento,<br> + + +Com pequenas crianças viu a gente<br> + + +Terem tão piedoso sentimento,<br> + + +Como coa mãe de Nino já mostraram,<br> + + +E colos irmãos que Roma edificaram;<br> + + +<br> + + +127<br> + + +—"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito<br> + + +(Se de humano é matar uma donzela<br> + + +Fraca e sem força, só por ter sujeito<br> + + +O coração a quem soube vencê-la)<br> + + +A estas criancinhas tem respeito,<br> + + +Pois o não tens à morte escura dela;<br> + + +Mova-te a piedade sua e minha,<br> + + +Pois te não move a culpa que não tinha.<br> + + +<br> + + +128<br> + + +—"E se, vencendo a Maura resistência,<br> + + +A morte sabes dar com fogo e ferro,<br> + + +Sabe também dar vicia com clemência<br> + + +A quem para perdê-la não fez erro.<br> + + +Mas se to assim merece esta inocência,<br> + + +Põe-me em perpétuo e mísero desterro,<br> + + +Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,<br> + + +Onde em lágrimas viva eternamente.<br> + + +<br> + + +129<br> + + +"Põe-me onde se use toda a feridade,<br> + + +Entre leões e tigres, e verei<br> + + +Se neles achar posso a piedade<br> + + +Que entre peitos humanos não achei:<br> + + +Ali com o amor intrínseco e vontade<br> + + +Naquele por quem morro, criarei<br> + + +Estas relíquias suas que aqui viste,<br> + + +Que refrigério sejam da mãe triste."—<br> + + +<br> + + +130<br> + + +—Morte de Inês de Castro<br> + + +"Queria perdoar-lhe o Rei benino,<br> + + +Movido das palavras que o magoam;<br> + + +Mas o pertinaz povo, e seu destino<br> + + +(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.<br> + + +Arrancam das espadas de aço fino<br> + + +Os que por bom tal feito ali apregoam.<br> + + +Contra uma dama, ó peitos carniceiros,<br> + + +Feros vos amostrais, e cavaleiros?<br> + + +<br> + + +131<br> + + +"Qual contra a linda moça Policena,<br> + + +Consolação extrema da mãe velha,<br> + + +Porque a sombra de Aquiles a condena,<br> + + +Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;<br> + + +Mas ela os olhos com que o ar serena<br> + + +(Bem como paciente e mansa ovelha)<br> + + +Na mísera mãe postos, que endoudece,<br> + + +Ao duro sacrifício se oferece:<br> + + +<br> + + +132<br> + + +"Tais contra Inês os brutos matadores<br> + + +No colo de alabastro, que sustinha<br> + + +As obras com que Amor matou de amores<br> + + +Aquele que depois a fez Rainha;<br> + + +As espadas banhando, e as brancas flores,<br> + + +Que ela dos olhos seus regadas tinha,<br> + + +Se encarniçavam, férvidos e irosos,<br> + + +No futuro castigo não cuidosos.<br> + + +<br> + + +133<br> + + +"Bem puderas, ó Sol, da vista destes<br> + + +Teus raios apartar aquele dia,<br> + + +Como da seva mesa de Tiestes,<br> + + +Quando os filhos por mão de Atreu comia.<br> + + +Vós, ó côncavos vales, que pudestes<br> + + +A voz extrema ouvir da boca fria,<br> + + +O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,<br> + + +Por muito grande espaço repetisses!<br> + + +<br> + + +134<br> + + +"Assim como a bonina, que cortada<br> + + +Antes do tempo foi, cândida e bela,<br> + + +Sendo das mãos lascivas maltratada<br> + + +Da menina que a trouxe na capela,<br> + + +O cheiro traz perdido e a cor murchada:<br> + + +Tal está morta a pálida donzela,<br> + + +Secas do rosto as rosas, e perdida<br> + + +A branca e viva cor, coa doce vida.<br> + + +<br> + + +135<br> + + +"As filhas do Mondego a morte escura<br> + + +Longo tempo chorando memoraram,<br> + + +E, por memória eterna, em fonte pura<br> + + +As lágrimas choradas transformaram;<br> + + +O nome lhe puseram, que inda dura,<br> + + +Dos amores de Inês que ali passaram.<br> + + +Vede que fresca fonte rega as flores,<br> + + +Que lágrimas são a água, e o nome +amores.<br> + + +<br> + + +136<br> + + +"Não correu muito tempo que a vingança<br> + + +Não visse Pedro das mortais feridas,<br> + + +Que, em tomando do Reino a governança,<br> + + +A tomou dos fugidos homicidas.<br> + + +Do outro Pedro cruíssimo os alcança,<br> + + +Que ambos, imigos das humanas vidas,<br> + + +O concerto fizeram, duro e injusto,<br> + + +Que com Lépido e António fez Augusto.<br> + + +<br> + + +137<br> + + +"Este, castigador foi rigoroso<br> + + +De latrocínios, mortes e adultérios:<br> + + +Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,<br> + + +Eram os seus mais certos refrigérios.<br> + + +As cidades guardando justiçoso<br> + + +De todos os soberbos vitupérios,<br> + + +Mais ladrões castigando à morte deu,<br> + + +Que o vagabundo Aleides ou Teseu.<br> + + +<br> + + +138<br> + + +"Do justo e duro Pedro nasce o brando,<br> + + +(Vede da natureza o desconcerto!)<br> + + +Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,<br> + + +Que todo o Reino pôs em muito aperto:<br> + + +Que, vindo o Castelhano devastando<br> + + +As terras sem defesa, esteve perto<br> + + +De destruir-se o Reino totalmente;<br> + + +Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.<br> + + +<br> + + +139<br> + + +"Ou foi castigo claro do pecado<br> + + +De tirar Lianor a seu marido,<br> + + +E casar-se com ela, de enlevado<br> + + +Num falso parecer mal entendido;<br> + + +Ou foi que o coração sujeito e dado<br> + + +Ao vício vil, de quem se viu rendido,<br> + + +Mole se fez e fraco; e bem parece,<br> + + +Que um baixo amor os fortes enfraquece.<br> + + +<br> + + +140<br> + + +"Do pecado tiveram sempre a pena<br> + + +Muitos, que Deus o quis, e permitiu:<br> + + +Os que foram roubar a bela Helena,<br> + + +E com Apio também Tarquilio o viu.<br> + + +Pois por quem David Santo se condena?<br> + + +Ou quem o Tribo ilustre destruiu<br> + + +De Benjamim? Bem claro no-lo ensina<br> + + +Por Sara Faraó, Siquém por Dina.<br> + + +<br> + + +141<br> + + +"E pois se os peitos fortes enfraquece<br> + + +Um inconcesso amor desatinado,<br> + + +Bem no filho de Alcmena se parece,<br> + + +Quando em Ônfale andava transformado.<br> + + +De Marco António a faina se escurece<br> + + +Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.<br> + + +Tu também, Peno próspero, o sentiste<br> + + +Depois que uma moça vil na Apúlia viste.<br> + + +<br> + + +142<br> + + +"Mas quem pode livrar-se por ventura<br> + + +Dos laços que Amor arma brandamente<br> + + +Entre as rosas e a neve humana pura,<br> + + +O ouro e o alabastro transparente?<br> + + +Quem de uma peregrina formosura,<br> + + +De um vulto de Medusa propriamente,<br> + + +Que o coração converte, que tem preso,<br> + + +Em pedra não, mas em desejo aceso?<br> + + +<br> + + +143<br> + + +"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,<br> + + +Uma suave e angélica excelência,<br> + + +Que em si está sempre as almas transformando,<br> + + +Que tivesse contra ela resistência?<br> + + +Desculpado por certo está Fernando,<br> + + +Para quem tem de amor experiência;<br> + + +Mas antes, tendo livre a fantasia,<br> + + +Por muito mais culpado o julgaria.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Quarto</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +"Depois de procelosa tempestade,<br> + + +Noturna sombra e sibilante vento,<br> + + +Traz a manhã serena claridade,<br> + + +Esperança de porto e salvamento;<br> + + +Aparta o sol a negra escuridade,<br> + + +Removendo o temor do pensamento:<br> + + +Assim no Reino forte aconteceu,<br> + + +Depois que o Rei Fernando faleceu.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +"Porque, se muito os nossos desejaram<br> + + +Quem os danos e ofensas vá vingando<br> + + +Naqueles que tão bem se aproveitaram<br> + + +Do descuido remisso de Fernando,<br> + + +Depois de pouco tempo o alcançaram,<br> + + +Joane, sempre ilustre, alevantando<br> + + +Por Rei, como de Pedro único herdeiro,<br> + + +(Ainda que bastardo) verdadeiro.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +"Ser isto ordenação dos céus divina,<br> + + +Por sinais muito claros se mostrou,<br> + + +Quando em Évora a voz de uma menina,<br> + + +Ante tempo falando o nomeou;<br> + + +E como cousa enfim que o Céu destina,<br> + + +No berço o corpo e a voz alevantou:<br> + + +—"Portugal! Portugal!" alçando a mão<br> + + +Disse "pelo Rei novo, Dom João."—<br> + + +<br> + + +4<br> + + +"Alteradas então do Reino as gentes<br> + + +Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,<br> + + +Absolutas cruezas e evidentes<br> + + +Faz do povo o furor por onde vinha;<br> + + +Matando vão amigos e parentes<br> + + +Do adúltero Conde e da Rainha,<br> + + +Com quem sua incontinência desonesta<br> + + +Mais (depois de viúva) manifesta.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +"Mas ele enfim, com causa desonrado,<br> + + +Diante dela a ferro frio morre,<br> + + +De outros muitos na morte acompanhado,<br> + + +Que tudo o fogo erguido queima e corre:<br> + + +Quem, como Astianás, precipitado,<br> + + +(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,<br> + + +A quem ordens, nem aras, nem respeito;<br> + + +Quem nu por ruas, e em pedaços feito.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +"Podem-se pôr em longo esquecimento<br> + + +As cruezas mortais que Roma viu<br> + + +Feitas do feroz Mário e do cruento<br> + + +Sila, quando o contrário lhe fugiu.<br> + + +Por isso Lianor, que o sentimento<br> + + +Do morto Conde ao mundo descobriu,<br> + + +Faz contra Lusitânia vir Castela,<br> + + +Dizendo ser sua filha herdeira dela.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +"Beatriz era a filha, que casada<br> + + +Co'o Castelhano está, que o Reino pede,<br> + + +Por filha de Fernando reputada,<br> + + +Se a corrompida fama lhe concede.<br> + + +Com esta voz Castela alevantada,<br> + + +Dizendo que esta filha ao pai sucede,<br> + + +Suas forças ajunta para as guerras<br> + + +De várias regiões e várias terras.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +Vem de toda a província que de um Brigo<br> + + +(Se foi) já teve o nome derivado;<br> + + +Das terras que Fernando e que Rodrigo<br> + + +Ganharam do tirano e Mauro estado.<br> + + +Não estimam das armas o perigo<br> + + +Os que cortando vão co'o duro arado<br> + + +Os campos Lioneses, cuja gente<br> + + +C'os Mouros foi nas armas excelente.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +"Os Vândalos, na antiga valentia<br> + + +Ainda confiados, se ajuntavam<br> + + +Da cabeça de toda Andaluzia,<br> + + +Que do Guadalquibir as águas lavam.<br> + + +A nobre Ilha também se apercebia,<br> + + +Que antigamente os Tírios habitavam,<br> + + +Trazendo por insígnias verdadeiras<br> + + +As Hercúleas colunas nas bandeiras.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +"Também vem lá do Reino de Toledo,<br> + + +Cidade nobre e antiga, a quem cercando<br> + + +O Tejo em torno vai suave e ledo<br> + + +Que das serras de Conca vem manando.<br> + + +A vós outros também não tolhe o medo,<br> + + +Ó sórdidos Galegos, duro bando,<br> + + +Que para resistirdes vos armastes,<br> + + +Aqueles, cujos golpes já provasses.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +"Também movem da guerra as negras fúrias<br> + + +A gente Biscainha, que carece<br> + + +De polidas razões, e que as injúrias<br> + + +Muito mal dos estranhos compadece.<br> + + +A terra de Guipúscua e das Astúrias,<br> + + +Que com minas de ferro se enobrece,<br> + + +Armou dele os soberbos moradores,<br> + + +Para ajudar na guerra a seus senhores.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +"Joane, a quem do peito o esforço cresce,<br> + + +Como a Sansão Hebréio da guedelha,<br> + + +Posto que tudo pouco lhe parece,<br> + + +Co'os poucos de seu Reino se aparelha;<br> + + +E não porque conselho lhe falece,<br> + + +Co'os principais senhores se aconselha,<br> + + +Mas só por ver das gentes as sentenças:<br> + + +Que sempre houve entre muitos diferenças.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +"Não falta com razões quem desconcerte<br> + + +Da opinião de todos, na vontade,<br> + + +Em quem o esforço antigo se converte<br> + + +Em desusada e má deslealdade;<br> + + +Podendo o temor mais, gelado, inerte,<br> + + +Que a própria e natural fidelidade:<br> + + +Negam o Rei e a pátria, e, se convém,<br> + + +Negarão (como Pedro) o Deus que têm.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +"Mas nunca foi que este erro se sentisse<br> + + +No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,<br> + + +Posto que em seus irmãos tão claro o visse,<br> + + +Reprovando as vontades inconstantes,<br> + + +Aquelas duvidosas gentes disse,<br> + + +Com palavras mais duras que elegantes,<br> + + +A mão na espada, irado, e não facundo,<br> + + +Ameaçando a terra, o mar e o mundo:<br> + + +<br> + + +15<br> + + +—"Como! Da gente ilustre Portuguesa<br> + + +Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,<br> + + +Como! Desta província, que princesa<br> + + +Foi das gentes na guerra em toda a parte,<br> + + +Há-de sair quem negue ter defesa?<br> + + +Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte<br> + + +De Português, e por nenhum respeito<br> + + +O próprio Reino queira ver sujeito?<br> + + +<br> + + +16<br> + + +—"Como! Não seis vós inda os +descendentes<br> + + +Daqueles, que debaixo da bandeira<br> + + +Do grande Henriques, feros e valentes,<br> + + +Vencestes esta gente tão guerreira?<br> + + +Quando tantas bandeiras, tantas gentes<br> + + +Puseram em fugida, de maneira<br> + + +Que sete ilustres Condes lhe trouxeram<br> + + +Presos, afora a presa que tiveram?<br> + + +<br> + + +17<br> + + +—"Com quem foram contino sopeados<br> + + +Estes, de quem o estais agora vós,<br> + + +Por Dinis e seu filho, sublimados,<br> + + +Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?<br> + + +Pois se com seus descuidos, ou pecados,<br> + + +Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,<br> + + +Torne-vos vossas forças o Rei novo:<br> + + +Se é certo que co'o Rei se muda o povo.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +—"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes<br> + + +Igual ao Rei que agora alevantastes,<br> + + +Desbaratareis tudo o que quiserdes,<br> + + +Quanto mais a quem já desbaratasses.<br> + + +E se com isto enfim vos não moverdes<br> + + +Do penetrante medo que tomastes,<br> + + +Atai as mãos a vosso vão receio,<br> + + +Que eu só resistirei ao jugo alheio.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +—"Eu só com meus vassalos, e com esta<br> + + +(E dizendo isto arranca meia espada)<br> + + +Defenderei da força dura e infesta<br> + + +A terra nunca de outrem sojugada.<br> + + +Em virtude do Rei, da pátria mesta,<br> + + +Da lealdade já por vós negada,<br> + + +Vencerei (não só estes adversários)<br> + + +Mas quantos a meu Rei forem contrários."—<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Bem como entre os mancebos recolhidos<br> + + +Em Canúsio, relíquias sós de Canas,<br> + + +Já para se entregar quase movidos<br> + + +A fortuna das forças Africanas,<br> + + +Cornélio moço os faz que, compelidos<br> + + +Da sua espada, jurem que as Romanas<br> + + +Armas não deixarão, enquanto a vida<br> + + +Os não deixar, ou nelas for perdida:<br> + + +<br> + + +21<br> + + +"Destarte a gente força e esforça Nuno,<br> + + +Que, com lhe ouvir as últimas razões,<br> + + +Removem o temor frio, importuno,<br> + + +Que gelados lhe tinha os corações.<br> + + +Nos animais cavalgam de Neptuno,<br> + + +Brandindo e volteando arremessões;<br> + + +Vão correndo e gritando a boca aberta:<br> + + +—"Viva o famoso Rei que nos liberta!"—<br> + + +<br> + + +22<br> + + +"Das gentes populares, uns aprovam<br> + + +A guerra com que a pátria se sustinha;<br> + + +Uns as armas alimpam e renovam,<br> + + +Que a ferrugem da paz gastadas tinha;<br> + + +Capacetes estofam, peitos provam,<br> + + +Arma-se cada um como convinha;<br> + + +Outros fazem vestidos de mil cores,<br> + + +Com letras e tenções de seus amores.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +"Com toda esta lustrosa companhia<br> + + +Joane forte sai da fresca Abrantes,<br> + + +Abrantes, que também da fonte fria<br> + + +Do Tejo logra as águas abundantes.<br> + + +Os primeiros armígeros regia<br> + + +Quem para reger era os mui possantes<br> + + +Orientais exércitos, sem conto,<br> + + +Com que passava Xerxes o Helesponto.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro<br> + + +Açoute de soberbos Castelhanos<br> + + +Como já o fero Huno o foi primeiro<br> + + +Para Franceses, para Italianos.<br> + + +Outro também famoso cavaleiro,<br> + + +Que a ala direita tem dos Lusitanos,<br> + + +Apto para mandá-los, e regê-los,<br> + + +Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"E da outra ala, que a esta corresponde,<br> + + +Antão Vasques de Almada é capitão,<br> + + +Que depois foi de Abranches nobre Conde,<br> + + +Das gentes vai regendo a sestra mão.<br> + + +Logo na retaguarda não se esconde<br> + + +Das quinas e castelos o pendão,<br> + + +Com Joane, Rei forte em toda parte,<br> + + +Que escurecendo o preço vai de Alarte.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Estavam pelos muros, temerosas,<br> + + +E de um alegre medo quase frias,<br> + + +Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,<br> + + +Prometendo jejuns e romarias.<br> + + +Já chegam as esquadras belicosas<br> + + +Defronte das amigas companhias,<br> + + +Que com grita grandíssima os recebem,<br> + + +E todas grande dúvida concebem.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Respondem as trombetas mensageiras,<br> + + +Pífaros sibilantes e atambores;<br> + + +Alférezes volteam as bandeiras,<br> + + +Que variadas são de muitas cores.<br> + + +Era no seco tempo, que nas eiras<br> + + +Ceres o fruto deixa aos lavradores,<br> + + +Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,<br> + + +Baco das uvas tira o doce mosto.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Deu sinal a trombeta Castelhana,<br> + + +Horrendo, fero, ingente e temeroso;<br> + + +Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana<br> + + +Atrás tornou as ondas de medroso;<br> + + +Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;<br> + + +Correu ao mar o Tejo duvidoso;<br> + + +E as mães, que o som terríbil escutaram,<br> + + +Aos peitos os filhinhos apertaram.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Quantos rostos ali se vêem sem cor,<br> + + +Que ao coração acode o sangue amigo!<br> + + +Que, nos perigos grandes, o temor<br> + + +É maior muitas vezes que o perigo;<br> + + +E se o não é, parece-o; que o furor<br> + + +De ofender ou vencer o duro amigo<br> + + +Faz não sentir que é perda grande e rara,<br> + + +Dos membros corporais, da vida cara.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Começa-se a travar a incerta guerra;<br> + + +De ambas partes se move a primeira ala;<br> + + +Uns leva a defensão da própria terra,<br> + + +Outros as esperanças de ganhá-la;<br> + + +Logo o grande Pereira, em quem se encerra<br> + + +Todo o valor, primeiro se assinala:<br> + + +Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia<br> + + +Dos que a tanto desejam, sendo alheia.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Já pelo espesso ar os estridentes<br> + + +Farpões, setas e vários tiros voam;<br> + + +Debaixo dos pés duros dos ardentes<br> + + +Cavalos treme a terra, os vales soam;<br> + + +Espedaçam-se as lanças; e as frequentes<br> + + +Quedas coas duras armas, tudo atroam;<br> + + +Recrescem os amigos sobre a pouca<br> + + +Gente do fero Nuno, que os apouca.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"Eis ali seus irmãos contra ele vão,<br> + + +(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,<br> + + +Que menos é querer matar o irmão,<br> + + +Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:<br> + + +Destes arrenegados muitos são<br> + + +No primeiro esquadrão, que se adianta<br> + + +Contra irmãos e parentes (caso estranho!)<br> + + +Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,<br> + + +Catilina, e vós outros dos antigos,<br> + + +Que contra vossas pátrias, com profano<br> + + +Coração, vos fizestes inimigos,<br> + + +Se lá no reino escuro de Sumano<br> + + +Receberdes gravíssimos castigos,<br> + + +Dizei-lhe que também dos Portugueses<br> + + +Alguns tredores houve algumas vezes.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,<br> + + +Tantos dos inimigos a eles vão!<br> + + +Está ali Nuno, qual pelos outeiros<br> + + +De Ceita está o fortíssimo leão,<br> + + +Que cercado se vê dos cavaleiros<br> + + +Que os campos vão correr de Tetuão:<br> + + +Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,<br> + + +Torvado um pouco está, mas não medroso.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"Com torva vista os vê, mas a natura<br> + + +Ferina e a ira não lhe compadecem<br> + + +Que as costas dê, mas antes na espessura<br> + + +Das lanças se arremessa, que recrescem.<br> + + +Tal está o cavaleiro, que a verdura<br> + + +Tinge co'o sangue alheio; ali perecem<br> + + +Alguns dos seus, que o ânimo valente<br> + + +Perde a virtude contra tanta gente.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"Sentiu Joane a afronta que passava<br> + + +Nuno, que, como sábio capitão,<br> + + +Tudo corria e via, e a todos dava,<br> + + +Com presença e palavras, coração.<br> + + +Qual parida leoa, fera e brava,<br> + + +Que os filhos que no ninho sós estão,<br> + + +Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,<br> + + +O pastor de Massília lhos furtara;<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"Corre raivosa, e freme, e com bramidos<br> + + +Os montes Sete Irmãos atroa e abala:<br> + + +Tal Joane, com outros escolhidos<br> + + +Dos seus, correndo acode à primeira ala:<br> + + +-"Ó fortes companheiros, ó subidos<br> + + +Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,<br> + + +Defendei vossas terras, que a esperança<br> + + +Da liberdade está na vossa lança.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,<br> + + +Que entre as lanças, e setas, e os arneses<br> + + +Dos inimigos corro e vou primeiro:<br> + + +Pelejai, verdadeiros Portugueses!"—<br> + + +Isto disse o magnânimo guerreiro,<br> + + +E, sopesando a lança quatro vezes,<br> + + +Com força tira; e, deste único tiro,<br> + + +Muitos lançaram o último suspiro.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Porque eis os seus acesos novamente<br> + + +Duma nobre vergonha e honroso fogo,<br> + + +Sobre qual mais com ânimo valente<br> + + +Perigos vencerá do Márcio jogo,<br> + + +Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;<br> + + +Rompem malhas primeiro, e peitos logo:<br> + + +Assim recebem junto e dão feridas,<br> + + +Como a quem já não dói perder as vidas.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"A muitos mandam ver o Estígio lago,<br> + + +Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:<br> + + +O Mestre morre ali de Santiago,<br> + + +Que fortíssimamente pelejava;<br> + + +Morre também, fazendo grande estrago,<br> + + +Outro Mestre cruel de Calatrava;<br> + + +Os Pereiras também arrenegados<br> + + +Morrem, arrenegando o Céu e os fados.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Muitos também do vulgo vil sem nome<br> + + +Vão, e também dos nobres, ao profundo,<br> + + +Onde o trifauce Cão perpétua fome<br> + + +Tem das almas que passam deste mundo.<br> + + +E porque mais aqui se amanse e dome<br> + + +A soberba do amigo furibundo,<br> + + +A sublime bandeira Castelhana<br> + + +Foi derribada aos pés da Lusitana.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +"Aqui a fera batalha se encruece<br> + + +Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;<br> + + +A multidão da gente que perece<br> + + +Tem as flores da própria cor mudadas;<br> + + +Já as costas dão e as vidas; já falece<br> + + +O furor e sobejam as lançadas;<br> + + +Já de Castela o Rei desbaratado<br> + + +Se vê, e de seu propósito mudado.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +"O campo vai deixando ao vencedor,<br> + + +Contente de lhe não deixar a vida.<br> + + +Seguem-no os que ficaram, e o temor<br> + + +Lhe dá, não pés, mas asas à +fugida.<br> + + +Encobrem no profundo peito a dor<br> + + +Da morte, da fazenda despendida,<br> + + +Da mágoa, da desonra, e triste nojo<br> + + +De ver outrem triunfar de seu despojo.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +"Alguns vão maldizendo e blasfemando<br> + + +Do primeiro que guerra fez no mundo;<br> + + +Outros a sede dura vão culpando<br> + + +Do peito cobiçoso e sitibundo,<br> + + +Que, por tomar o alheio, o miserando<br> + + +Povo aventura às penas do profundo,<br> + + +Deixando tantas mães, tantas esposas<br> + + +Sem filhos, sem maridos, desditosas.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +"O vencedor Joane esteve os dias<br> + + +Costumados no campo, em grande glória;<br> + + +Com ofertas depois, e romarias,<br> + + +As graças deu a quem lhe deu vitória.<br> + + +Mas Nuno, que não quer por outras vias<br> + + +Entre as gentes deixar de si memória<br> + + +Senão por armas sempre soberanas,<br> + + +Para as terras se passa Transtaganas.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +"Ajuda-o seu destino de maneira<br> + + +Que fez igual o efeito ao pensamento,<br> + + +Porque a terra dos Vândalos fronteira<br> + + +Lhe concede o despojo e o vencimento.<br> + + +Já de Sevilha a Bética bandeira<br> + + +E de vários senhores num momento<br> + + +Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa<br> + + +Obrigados da força Portuguesa.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +"Destas e outras vitórias longamente<br> + + +Eram os Castelhanos oprimidos,<br> + + +Quando a paz, desejada já da gente,<br> + + +Deram os vencedores aos vencidos,<br> + + +Depois que quis o Padre onipotente<br> + + +Dar os Reis inimigos por maridos<br> + + +As duas ilustríssimas Inglesas,<br> + + +Gentis, formosas, ínclitas princesas.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +"Não sofre o peito forte, usado à guerra,<br> + + +Não ter amigo já a quem faça dano;<br> + + +E assim não tendo a quem vencer na terra,<br> + + +Vai cometer as ondas do Oceano.<br> + + +Este é o primeiro Rei que se desterra<br> + + +Da Pátria, por fazer que o Africano<br> + + +Conheça, pelas armas, quanto excede<br> + + +A lei de Cristo à lei de Mafamede.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +"Eis mil nadantes aves pelo argento<br> + + +Da furiosa Tethys inquieta<br> + + +Abrindo as pandas asas vão ao vento,<br> + + +Para onde Alcides pôs a extrema meta.<br> + + +O monte Abila e o nobre fundamento<br> + + +De Ceita toma, e o torpe Mahometa<br> + + +Deita fora, e segura toda Espanha<br> + + +Da Juliana, má, e desleal manha.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +"Não consentiu a morte tantos anos<br> + + +Que de Herói tão ditoso se lograsse<br> + + +Portugal, mas os coros soberanos<br> + + +Do Céu supremo quis que povoasse.<br> + + +Mas para defensão dos Lusitanos<br> + + +Deixou, quem o levou quem governasse,<br> + + +E aumentasse a terra mais que dantes,<br> + + +Inclita geração, altos Infantes.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"Não foi do Rei Duarte tão ditoso<br> + + +O tempo que ficou na suma alteza,<br> + + +Que assim vai alternando o tempo iroso<br> + + +O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.<br> + + +Quem viu sempre um estado deleitoso?<br> + + +Ou quem viu em fortuna haver firmeza?<br> + + +Pois inda neste Reino e neste Rei<br> + + +Não ousou ela tanto desta lei.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"Viu ser cativo o santo irmão Fernando,<br> + + +Que a tão altas empresas aspirava,<br> + + +Que, por salvar o povo miserando<br> + + +Cercado, ao Sarraceno se entregava.<br> + + +Só por amor da pátria está passando<br> + + +A vida de senhora feita escrava,<br> + + +Por não se dar por ele a forte Ceita:<br> + + +Mais o público bem que o seu respeita.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Codro, porque o inimigo não vencesse,<br> + + +Deixou antes vencer da morte a vida;<br> + + +Régulo, porque a pátria não perdesse,<br> + + +Quis mais a liberdade ver perdida.<br> + + +Este, porque se Espanha não temesse,<br> + + +Ao cativeiro eterno se convida:<br> + + +Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,<br> + + +Nem os Décios leais fizeram tanto.<br> + + +<br> + + +54<br> + + +"Mas Afonso, do Reino único herdeiro,<br> + + +Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,<br> + + +Que a soberba do bárbaro fronteira<br> + + +Tornou em baixa e humílima miséria,<br> + + +Fora por certo invicto cavaleiro,<br> + + +Se não quisera ir ver a terra Ibéria.<br> + + +Mas África dirá ser impossíbil<br> + + +Poder ninguém vencer o Rei terríbil.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +"Este pôde colher as maçãs de ouro,<br> + + +Que somente o Tiríntio colher pôde:<br> + + +Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro<br> + + +A cerviz inda agora não sacode.<br> + + +Na fronte a palma leva e o verde louro<br> + + +Das vitórias do Bárbaro, que acode<br> + + +A defender Alcácer, forte vila,<br> + + +Tângere populoso e a dura Arzila.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +"Porém elas enfim por força entradas,<br> + + +Os muros abaixaram de diamante<br> + + +As Portuguesas forças, costumadas<br> + + +A derribarem quanto acham diante.<br> + + +Maravilhas em armas estremadas,<br> + + +E de escritura dinas elegante,<br> + + +Fizeram cavaleiros nesta empresa,<br> + + +Mais afinando a fama Portuguesa.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +"Porém depois, tocado de ambição<br> + + +E glória de mandar, amara e bela,<br> + + +Vai cometer Fernando de Aragão,<br> + + +Sobre o potente Reino de Castela.<br> + + +Ajunta-se a inimiga multidão<br> + + +Das soberbas e várias gentes dela,<br> + + +Desde Cádis ao alto Pireneu,<br> + + +Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +"Não quis ficar nos Reinos ocioso<br> + + +O mancebo Joane, e logo ordena<br> + + +De ir ajudar o pai ambicioso,<br> + + +Que então lhe foi ajuda não pequena.<br> + + +Saiu-se enfim do trance perigoso<br> + + +Com fronte não torvada, mas serena,<br> + + +Desbaratado o pai sanguinolento<br> + + +Mas ficou duvidoso o vencimento.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +"Porque o filho sublime e soberano,<br> + + +Gentil, forte, animoso cavaleiro,<br> + + +Nos contrários fazendo imenso dano,<br> + + +Todo um dia ficou no campo inteiro.<br> + + +Desta arte foi vencido Octaviano,<br> + + +E António vencedor, sem companheiro,<br> + + +Quando daqueles que César mataram<br> + + +Nos Filípicos campos se vingaram.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"Porém depois que a escura noite eterna<br> + + +Afonso aposentou no Céu sereno,<br> + + +O Príncipe, que o Reino então governa,<br> + + +Foi Joane segundo e Rei trezeno.<br> + + +Este, por haver fama sempiterna,<br> + + +Mais do que tentar pode homem terreno<br> + + +Tentou, que foi buscar da roxa Aurora<br> + + +Os términos, que eu vou buscando agora.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"Manda seus mensageiros, que passaram<br> + + +Espanha, França, Itália celebrada,<br> + + +E lá no ilustre porto se embarcaram<br> + + +Onde já foi Parténope enterra:<br> + + +Nápoles, onde os Xados se mostraram,<br> + + +Fazendo-a a várias gentes subjugada,<br> + + +Pola ilustrar no fim de tantos anos<br> + + +Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"Pelo mar alto Sículo navegam;<br> + + +Vão-se às praias de Rodes arenosas;<br> + + +E dali às ribeiras altas chegam,<br> + + +Que com morte de Magno são famosas;<br> + + +Vão a Mênfis e às terras, que se regam<br> + + +Das enchentes Nilóticas undosas;<br> + + +Sobem à Etiópia, sobre Egito,<br> + + +Que de Cristo lá guarda o santo rito.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"Passam também as ondas Eritreias,<br> + + +Que o povo de Israel sem nau passou;<br> + + +Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,<br> + + +Que o filho de Ismael co'o nome ornou.<br> + + +As costas odoríferas Sabeias,<br> + + +Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,<br> + + +Cercam, com toda a Arábia descoberta<br> + + +Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +"Entram no estreito Pérsico, onde dura<br> + + +Da confusa Babel inda a memória;<br> + + +Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,<br> + + +Que as fontes onde nascem tem por glória.<br> + + +Dali vão em demanda da água pura,<br> + + +Que causa inda será de larga história,<br> + + +Do Indo, pelas ondas do Oceano,<br> + + +Onde não se atreveu passar Trajano.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Viram gentes incógnitas e estranhas<br> + + +Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,<br> + + +Vendo vários costumes, várias manhas,<br> + + +Que cada região produze e cria.<br> + + +Mas de vias tão ásperas, tamanhas,<br> + + +Tornar-se facilmente não podia:<br> + + +Lá morreram enfim, e lá ficaram,<br> + + +Que à desejada pátria não tornaram.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +"Parece que guardava o claro Céu<br> + + +A Manuel, e seus merecimentos,<br> + + +Esta empresa tão árdua, que o moveu<br> + + +A subidos e ilustres movimentos:<br> + + +Manuel, que a Joane sucedeu<br> + + +No Reino e nos altivos pensamentos,<br> + + +Logo, corno tornou do Reino o cargo,<br> + + +Tomou mais a conquista do mar largo.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"O qual, como do nobre pensamento<br> + + +Daquela obrigação, que lhe ficara<br> + + +De seus antepassados, (cujo intento<br> + + +Foi sempre acrescentar a terra cara)<br> + + +Não deixasse de ser um só momento<br> + + +Conquistado: no tempo que a luz clara<br> + + +Foge, e as estrelas nítidas, que saem,<br> + + +A repouso convidam quando caem,<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Estando já deitado no áureo leito,<br> + + +Onde imaginações mais certas são?<br> + + +Revolvendo contino no conceito<br> + + +Seu ofício e sangue a obrigação,<br> + + +Os olhos lhe ocupou o sono aceito,<br> + + +Sem lhe desocupar o coração;<br> + + +Porque, tanto que lasso se adormece,<br> + + +Morfeu em várias formas lhe aparece.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Aqui se lhe apresenta que subia<br> + + +Tão alto, que tocava a prima Esfera,<br> + + +Donde diante vários mundos via,<br> + + +Nações de muita gente estranha e fera;<br> + + +E lá bem junto donde nasce o dia,<br> + + +Depois que os olhos longos estendera,<br> + + +Viu de antigos, longínquos e altos montes<br> + + +Nascerem duas claras e altas fontes.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Aves agrestes, feras e alimárias,<br> + + +Pelo monte selvático habitavam;<br> + + +Mil árvores silvestres e ervas várias<br> + + +O passo e o tracto às gentes atalhavam.<br> + + +Estas duras montanhas, adversárias<br> + + +De mais conversação, por si mostravam<br> + + +Que, desque Adão pecou aos nossos anos,<br> + + +Não as romperam nunca pés humanos.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Das águas se lhe antolha que saíam,<br> + + +Para ele os largos passos inclinando,<br> + + +Dois homens, que mui velhos pareciam,<br> + + +De aspecto, inda que agreste, venerando:<br> + + +Das pontas dos cabelos lhe caíam<br> + + +Gotas, que o corpo vão banhando;<br> + + +A cor da pele baça e denegrida,<br> + + +A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"Dambos de dois a fronte coroada<br> + + +Ramos não conhecidos e ervas tinha;<br> + + +Um deles a presença traz cansada,<br> + + +Como quem de mais longe ali caminha.<br> + + +E assim a água, com ímpeto alterada,<br> + + +Parecia que doutra parte vinha,<br> + + +Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa<br> + + +Vai buscar os abraços de Aretusa.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +"Este, que era o mais grave na pessoa,<br> + + +Destarte para o Rei de longe brada:<br> + + +—"Ó tu, a cujos reinos e coroa<br> + + +Grande parte do mundo está guardada,<br> + + +Nós outros, cuja fama tanto voa,<br> + + +Cuja cerviz bem nunca foi domada,<br> + + +Te avisamos que é tempo que já mandes<br> + + +A receber de nós tributos grandes.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +—"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra<br> + + +Celeste tenho o berço verdadeiro;<br> + + +Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra<br> + + +Que vês, seu nascimento tem primeiro.<br> + + +Custar-te-emos contudo dura guerra;<br> + + +Mas insistindo tu, por derradeiro,<br> + + +Com não vistas vitórias, sem receio,<br> + + +A quantas gentes vês, porás o freio."—<br> + + +<br> + + +75<br> + + +"Não disse mais o rio ilustre e santo,<br> + + +Mas ambos desaparecem num momento.<br> + + +Acorda Emanuel c'um novo espanto<br> + + +E grande alteração de pensamento.<br> + + +Estendeu nisto Febo o claro manto<br> + + +Pelo escuro Hemisfério sonolento;<br> + + +Veio a manhã no céu pintando as cores<br> + + +De pudibunda rosa e roxas flores.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +"Chama o Rei os senhores a conselho,<br> + + +E propõe-lhe as figuras da visão;<br> + + +As palavras lhe diz do santo velho,<br> + + +Que a todos foram grande admiração.<br> + + +Determinam o náutico aparelho,<br> + + +Para que com sublime coração<br> + + +Vá a gente que mandar cortando os mares<br> + + +A buscar novos climas, novos ares.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +"Eu, que bem mal cuidava que em efeito<br> + + +Se pusesse o que o peito me pedia,<br> + + +Que sempre grandes cousas deste jeito<br> + + +Pressago o coração me prometia,<br> + + +Não sei por que razão, por que respeito,<br> + + +Ou por que bom sinal que em mi se via,<br> + + +Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave<br> + + +Deste cometimento grande e grave.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +"E com rogo o palavras amorosas,<br> + + +Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,<br> + + +Me disse:—"As cousas árduas e lustrosas<br> + + +Se alcançam com trabalho e com fadiga;<br> + + +Faz as pessoas altas e famosas<br> + + +A vida que se perde e que periga;<br> + + +Que, quando ao medo infame não se rende,<br> + + +Então, se menos dura, mais se estende.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +—"Eu vos tenho entre todos escolhido<br> + + +Para uma empresa, qual a vós se deve,<br> + + +Trabalho ilustre, duro e esclarecido,<br> + + +O que eu sei que por mi vos será leve."—<br> + + +Não sofri mais, mas logo:—"Ó Rei subido,<br> + + +Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,<br> + + +É tão pouco por vós, que mais me pena<br> + + +Ser esta vida cousa tão pequena.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +—"Imaginai tamanhas aventuras,<br> + + +Quais Euristeu a Alcides inventava,<br> + + +O leão Cleoneu, Harpias duras,<br> + + +O porco de Erimanto, a Hidra brava,<br> + + +Descer enfim às sombras vãs e escuras<br> + + +Onde os campos de Dite a Estige lava;<br> + + +Porque a maior perigo, a mor afronta,<br> + + +Por vós, ó Rei, o espírito e a carne +é pronta."<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"Com mercês sumptuosas me agradece<br> + + +E com razões me louva esta vontade;<br> + + +Que a virtude louvada vive e cresce,<br> + + +E o louvor altos casos persuade.<br> + + +A acompanhar-me logo se oferece,<br> + + +Obrigado d'amor e d'amizade,<br> + + +Não menos cobiçoso de honra e fama,<br> + + +O caro meu irmão Paulo da Gama.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,<br> + + +De trabalhos mui grande sofredor;<br> + + +Ambos são de valia e de conselho,<br> + + +De experiência em armas e furor.<br> + + +Já de manceba gente me aparelho,<br> + + +Em que cresce o desejo do valor;<br> + + +Todos de grande esforço; e assim parece<br> + + +Quem a tamanhas cousas se oferece.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"Foram de Emanuel remunerados,<br> + + +Porque com mais amor se apercebessem,<br> + + +E com palavras altas animados<br> + + +Para quantos trabalhos sucedessem.<br> + + +Assim foram os Mínias ajuntados,<br> + + +Para que o Véu dourado combatessem,<br> + + +Na fatídica Nau, que ousou primeira<br> + + +Tentar o mar Euxínio, aventureira.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +"E já no porto da ínclita Ulisseia<br> + + +C'um alvoroço nobre, e é um desejo,<br> + + +(Onde o licor mistura e branca areia<br> + + +Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)<br> + + +As naus prestes estão; e não refreia<br> + + +Temor nenhum o juvenil despejo,<br> + + +Porque a gente marítima e a de Marte<br> + + +Estão para seguir-me a toda parte.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +"Pelas praias vestidos os soldados<br> + + +De várias cores vêm e várias artes,<br> + + +E não menos de esforço aparelhados<br> + + +Para buscar do inundo novas partes.<br> + + +Nas fortes naus os ventos sossegados<br> + + +Ondeam os aéreos estandartes;<br> + + +Elas prometem, vendo os mares largos,<br> + + +De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +"Depois de aparelhados desta sorte<br> + + +De quanto tal viagem pede e manda,<br> + + +Aparelhamos a alma para a morte,<br> + + +Que sempre aos nautas ante os olhos anda.<br> + + +Para o sumo Poder que a etérea corte<br> + + +Sustenta só coa vista veneranda,<br> + + +Imploramos favor que nos guiasse,<br> + + +E que nossos começos aspirasse.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +"Partimo-nos assim do santo templo<br> + + +Que nas praias do mar está assentado,<br> + + +Que o nome tem da terra, para exemplo,<br> + + +Donde Deus foi em carne ao mundo dado.<br> + + +Certifico-te, ó Rei, que se contemplo<br> + + +Como fui destas praias apartado,<br> + + +Cheio dentro de dúvida e receio,<br> + + +Que apenas nos meus olhos ponho o freio.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +"A gente da cidade aquele dia,<br> + + +(Uns por amigos, outros por parentes,<br> + + +Outros por ver somente) concorria,<br> + + +Saudosos na vista e descontentes.<br> + + +E nós coa virtuosa companhia<br> + + +De mil Religiosos diligentes,<br> + + +Em procissão solene a Deus orando,<br> + + +Para os batéis viemos caminhando.<br> + + +<br> + + +89<br> + + +"Em tão longo caminho e duvidoso<br> + + +Por perdidos as gentes nos julgavam;<br> + + +As mulheres c'um choro piedoso,<br> + + +Os homens com suspiros que arrancavam;<br> + + +Mães, esposas, irmãs, que o temeroso<br> + + +Amor mais desconfia, acrescentavam<br> + + +A desesperarão, e frio medo<br> + + +De já nos não tornar a ver tão cedo.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +"Qual vai dizendo:—"Ó filho, a quem eu tinha<br> + + +Só para refrigério, e doce amparo<br> + + +Desta cansada já velhice minha,<br> + + +Que em choro acabará, penoso e amaro,<br> + + +Por que me deixas, mísera e mesquinha?<br> + + +Por que de mim te vás, ó filho caro,<br> + + +A fazer o funéreo enterramento,<br> + + +Onde sejas de peixes mantimento!"—<br> + + +<br> + + +91<br> + + +"Qual em cabelo:—"Ó doce e amado esposo,<br> + + +Sem quem não quis Amor que viver possa,<br> + + +Por que is aventurar ao mar iroso<br> + + +Essa vida que é minha, e não é vossa?<br> + + +Como por um caminho duvidoso<br> + + +Vos esquece a afeição tão doce nossa?<br> + + +Nosso amor, nosso vão contentamento<br> + + +Quereis que com as velas leve o vento?"—<br> + + +<br> + + +92<br> + + +"Nestas e outras palavras que diziam<br> + + +De amor e de piedosa humanidade,<br> + + +Os velhos e os meninos os seguiam,<br> + + +Em quem menos esforço põe a idade.<br> + + +Os montes de mais perto respondiam,<br> + + +Quase movidos de alta piedade;<br> + + +A branca areia as lágrimas banhavam,<br> + + +Que em multidão com elas se igualavam.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +"Nós outros sem a vista alevantarmos<br> + + +Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,<br> + + +Por nos não magoarmos, ou mudarmos<br> + + +Do propósito firme começado,<br> + + +Determinei de assim nos embarcarmos<br> + + +Sem o despedimento costumado,<br> + + +Que, posto que é de amor usança boa,<br> + + +A quem se aparta, ou fica, mais magoa.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +"Mas um velho d'aspeito venerando,<br> + + +Que ficava nas praias, entre a gente,<br> + + +Postos em nós os olhos, meneando<br> + + +Três vezes a cabeça, descontente,<br> + + +A voz pesada um pouco alevantando,<br> + + +Que nós no mar ouvimos claramente,<br> + + +C'um saber só de experiências feito,<br> + + +Tais palavras tirou do experto peito:<br> + + +<br> + + +95<br> + + +—"Ó glória de mandar! Ó +vã +cobiça<br> + + +Desta vaidade, a quem chamamos Fama!<br> + + +Ó fraudulento gosto, que se atiça<br> + + +C'uma aura popular, que honra se chama!<br> + + +Que castigo tamanho e que justiça<br> + + +Fazes no peito vão que muito te ama!<br> + + +Que mortes, que perigos, que tormentas,<br> + + +Que crueldades neles experimentas!<br> + + +<br> + + +96<br> + + +—"Dura inquietação d'alma e da vida,<br> + + +Fonte de desamparos e adultérios,<br> + + +Sagaz consumidora conhecida<br> + + +De fazendas, de reinos e de impérios:<br> + + +Chamam-te ilustre, chamam-te subida,<br> + + +Sendo dina de infames vitupérios;<br> + + +Chamam-te Fama e Glória soberana,<br> + + +Nomes com quem se o povo néscio engana!<br> + + +<br> + + +97<br> + + +—"A que novos desastres determinas<br> + + +De levar estes reinos e esta gente?<br> + + +Que perigos, que mortes lhe destinas<br> + + +Debaixo dalgum nome preminente?<br> + + +Que promessas de reinos, e de minas<br> + + +D'ouro, que lhe farás tão facilmente?<br> + + +Que famas lhe prometerás? que histórias?<br> + + +Que triunfos, que palmas, que vitórias?<br> + + +<br> + + +98<br> + + +—"Mas ó tu, geração daquele +insano,<br> + + +Cujo pecado e desobediência,<br> + + +Não somente do reino soberano<br> + + +Te pôs neste desterro e triste ausência,<br> + + +Mas inda doutro estado mais que humano<br> + + +Da quieta e da simples inocência,<br> + + +Idade d'ouro, tanto te privou,<br> + + +Que na de ferro e d'armas te deitou:<br> + + +<br> + + +99<br> + + +—"Já que nesta gostosa vaidade<br> + + +Tanto enlevas a leve fantasia,<br> + + +Já que à bruta crueza e feridade<br> + + +Puseste nome esforço e valentia,<br> + + +Já que prezas em tanta quantidades<br> + + +O desprezo da vida, que devia<br> + + +De ser sempre estimada, pois que já<br> + + +Temeu tanto perdê-la quem a dá:<br> + + +<br> + + +100<br> + + +—"Não tens junto contigo o Ismaelita,<br> + + +Com quem sempre terás guerras sobejas?<br> + + +Não segue ele do Arábio a lei maldita,<br> + + +Se tu pela de Cristo só pelejas?<br> + + +Não tem cidades mil, terra infinita,<br> + + +Se terras e riqueza mais desejas?<br> + + +Não é ele por armas esforçado,<br> + + +Se queres por vitórias ser louvado?<br> + + +<br> + + +101<br> + + +—"Deixas criar às portas o inimigo,<br> + + +Por ires buscar outro de tão longe,<br> + + +Por quem se despovoe o Reino antigo,<br> + + +Se enfraqueça e se vá deitando a longe?<br> + + +Buscas o incerto e incógnito perigo<br> + + +Por que a fama te exalte e te lisonge,<br> + + +Chamando-te senhor, com larga cópia,<br> + + +Da Índia, Pérsia, Arábia e de +Etiópia?<br> + + +<br> + + +102<br> + + +—"Ó maldito o primeiro que no mundo<br> + + +Nas ondas velas pôs em seco lenho,<br> + + +Dino da eterna pena do profundo,<br> + + +Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!<br> + + +Nunca juízo algum alto e profundo,<br> + + +Nem cítara sonora, ou vivo engenho,<br> + + +Te dê por isso fama nem memória,<br> + + +Mas contigo se acabe o nome e glória.<br> + + +<br> + + +103<br> + + +—"Trouxe o filho de Jápeto do Céu<br> + + +O fogo que ajuntou ao peito humano,<br> + + +Fogo que o mundo em armas acendeu<br> + + +Em mortes, em desonras (grande engano).<br> + + +Quanto melhor nos fora, Prometeu,<br> + + +E quanto para o mundo menos dano,<br> + + +Que a tua estátua ilustre não tivera<br> + + +Fogo de altos desejos, que a movera!<br> + + +<br> + + +104<br> + + +—"Não cometera o moço miserando<br> + + +O carro alto do pai, nem o ar vazio<br> + + +O grande Arquiteto co'o filho, dando<br> + + +Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.<br> + + +Nenhum cometimento alto e nefando,<br> + + +Por fogo, ferro, água, calma e frio,<br> + + +Deixa intentado a humana geração.<br> + + +Mísera sorte, estranha +condição!"—<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Quinto</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +"Estas sentenças tais o velho honrado<br> + + +Vociferando estava, quando abrimos<br> + + +As asas ao sereno e sossegado<br> + + +Vento, e do porto amado nos partimos.<br> + + +E, como é já no mar costume usado,<br> + + +A vela desfraldando, o céu ferimos,<br> + + +Dizendo: "Boa viagem", logo o vento<br> + + +Nos troncos fez o usado movimento.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +"Entrava neste tempo o eterno lume<br> + + +No animal Nemeio truculento,<br> + + +E o mundo, que com tempo se consume,<br> + + +Na sexta idade andava enfermo e lento:<br> + + +Nela vê, como tinha por costume,<br> + + +Cursos do sol quatorze vezes cento,<br> + + +Com mais noventa e sete, em que corria,<br> + + +Quando no mar a armada se estendia.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +"Já a vista pouco e pouco se desterra<br> + + +Daqueles pátrios montes que ficavam;<br> + + +Ficava o caro Tejo, e a fresca serra<br> + + +De Sintra, e nela os olhos se alongavam.<br> + + +Ficava-nos também na amada terra<br> + + +O coração, que as mágoas lá +deixavam;<br> + + +E já depois que toda se escondeu,<br> + + +Não vimos mais enfim que mar e céu.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +"Assim fomos abrindo aqueles mares,<br> + + +Que geração alguma não abriu,<br> + + +As novas ilhas vendo e os novos ares,<br> + + +Que o generoso Henrique descobriu;<br> + + +De Mauritânia os montes e lugares,<br> + + +Terra que Anteu num tempo possuiu,<br> + + +Deixando à mão esquerda; que à direita<br> + + +Não há certeza doutra, mas suspeita.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +"Passamos a grande Ilha da Madeira,<br> + + +Que do muito arvoredo assim se chama,<br> + + +Das que nós povoamos, a primeira,<br> + + +Mais célebre por nome que por fama:<br> + + +Mas nem por ser do mundo a derradeira<br> + + +Se lhe aventajam quantas Vénus ama,<br> + + +Antes, sendo esta sua, se esquecera<br> + + +De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +"Deixamos de Massília a estéril costa,<br> + + +Onde seu gado os Azenegues pastam,<br> + + +Gente que as frescas águas nunca gosta<br> + + +Nem as ervas do campo bem lhe abastam:<br> + + +A terra a nenhum fruto enfim disposta,<br> + + +Onde as aves no ventre o ferro gastam,<br> + + +Padecendo de tudo extrema inópia,<br> + + +Que aparta a Barbaria de Etiópia.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +"Passamos o limite aonde chega<br> + + +O Sol, que para o Norte os carros guia,<br> + + +Onde jazem os povos a quem nega<br> + + +O filho de Climene a cor do dia.<br> + + +Aqui gentes estranhas lava e rega<br> + + +Do negro Sanagá a corrente fria,<br> + + +Onde o Cabo Arsinário o nome perde,<br> + + +Chamando-se dos nossos Cabo Verde.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +"Passadas tendo já as Canárias ilhas,<br> + + +Que tiveram por nome Fortunadas,<br> + + +Entramos, navegando, pelas filhas<br> + + +Do velho Hespério, Hespérides chamadas;<br> + + +Terras por onde novas maravilhas<br> + + +Andaram vendo já nossas armadas.<br> + + +Ali tomamos porto com bom vento,<br> + + +Por tomarmos da terra mantimento.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +"Aquela ilha apartamos, que tomou<br> + + +O nome do guerreiro Santiago,<br> + + +Santo que os Espanhóis tanto ajudou<br> + + +A fazerem nos Mouros bravo estrago.<br> + + +Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,<br> + + +Tornamos a cortar o imenso lago<br> + + +Do salgado Oceano, e assim deixamos<br> + + +A terra onde o refresco doce achamos.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +"Por aqui rodeando a larga parte<br> + + +De África, que ficava ao Oriente,<br> + + +A província Jalofo, que reparte<br> + + +Por diversas nações a negra gente;<br> + + +A mui grande Mandinga, por cuja arte<br> + + +Logramos o metal rico e luzente,<br> + + +Que do curvo Gambeia as águas bebe,<br> + + +As quais o largo Atlântico recebe.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +"As Dórcadas passamos, povoadas<br> + + +Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,<br> + + +Que de vista total sendo privadas,<br> + + +Todas três dum só olho se serviam.<br> + + +Tu só, tu, cujas tranças encrespadas<br> + + +Netuno lá nas águas acendiam,<br> + + +Tornada já de todas a mais feia,<br> + + +De bívoras encheste a ardente areia.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +"Sempre enfim para o Austro a aguda proa<br> + + +No grandíssimo gólfão nos metemos,<br> + + +Deixando a serra aspérrima Leoa,<br> + + +Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.<br> + + +O grande rio, onde batendo soa<br> + + +O mar nas praias notas que ali temos,<br> + + +Ficou, com a Ilha ilustre que tomou<br> + + +O nome dum que o lado a Deus tocou.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +"Ali o mui grande reino está de Congo,<br> + + +Por nós já convertido à fé +de Cristo,<br> + + +Por onde o Zaire passa, claro e longo,<br> + + +Rio pelos antigos nunca visto.<br> + + +Por este largo mar enfim me alongo<br> + + +Do conhecido pólo de Calisto,<br> + + +Tendo o término ardente já passado,<br> + + +Onde o meio do mundo é limitado.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +"Já descoberto tínhamos diante,<br> + + +Lá no novo Hemisfério, nova estrela,<br> + + +Não vista de outra gente, que ignorante<br> + + +Alguns tempos esteve incerta dela.<br> + + +Vimos a parte menos rutilante,<br> + + +E, por falta de estrelas, menos bela,<br> + + +Do Pólo fixo, onde ainda se não sabe<br> + + +Que outra terra comece, ou mar acabe.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +"Assim passando aquelas regiões<br> + + +Por onde duas vezes passa Apolo,<br> + + +Dois invernos fazendo e dois verões,<br> + + +Enquanto corre dum ao outro Pólo,<br> + + +Por calmas, por tormentas e opressões,<br> + + +Que sempre f az no mar o irado Eolo,<br> + + +Vimos as Ursas, apesar de Juno,<br> + + +Banharem-se nas águas de Netuno.<br> + + +<br> + + +16<br> + + +"Contar-te longamente as perigosas<br> + + +Coisas do mar, que os homens não entendem:<br> + + +Súbitas trovoadas temerosas,<br> + + +Relâmpados que o ar em fogo acendem,<br> + + +Negros chuveiros, noites tenebrosas,<br> + + +Bramidos de trovões que o mundo fendem,<br> + + +Não menos é trabalho, que grande erro,<br> + + +Ainda que tivesse a voz de ferro.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +"Os casos vi que os rudos marinheiros,<br> + + +Que têm por mestra a longa experiência,<br> + + +Contam por certos sempre e verdadeiros,<br> + + +Julgando as cousas só pela aparência,<br> + + +E que os que têm juízos mais inteiros,<br> + + +Que só por puro engenho e por ciência,<br> + + +Vêem do mundo os segredos escondidos,<br> + + +Julgam por falsos, ou mal entendidos.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +"Vi, claramente visto, o lume vivo<br> + + +Que a marítima gente tem por santo<br> + + +Em tempo de tormenta e vento esquivo,<br> + + +De tempestade escura e triste pranto.<br> + + +Não menos foi a todos excessivo<br> + + +Milagre, e coisa certo de alto espanto,<br> + + +Ver as nuvens do mar com largo cano<br> + + +Sorver as altas águas do Oceano.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +"Eu o vi certamente (e não presumo<br> + + +Que a vista me enganava) levantar-se<br> + + +No ar um vaporzinho e subtil fumo,<br> + + +E, do vento trazido, rodear-se:<br> + + +Daqui levado um cano ao pólo sumo<br> + + +Se via, tão delgado, que enxergar-se<br> + + +Dos olhos facilmente não podia:<br> + + +Da matéria das nuvens parecia.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +"Ia-se pouco e pouco acrescentando<br> + + +E mais que um largo masto se engrossava;<br> + + +Aqui se estreita, aqui se alarga, quando<br> + + +Os golpes grandes de água em si chupava;<br> + + +Estava-se coas ondas ondeando:<br> + + +Em cima dele uma nuvem se espessava,<br> + + +Fazendo-se maior, mais carregada<br> + + +Co'o cargo grande d'água em si tomada.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +"Qual roxa sanguessuga se veria<br> + + +Nos beiços da alimária (que imprudente,<br> + + +Bebendo a recolheu na fonte fria)<br> + + +Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;<br> + + +Chupando mais e mais se engrossa e cria,<br> + + +Ali se enche e se alarga grandemente:<br> + + +Tal a grande coluna, enchendo, aumenta<br> + + +A si, e a nuvem negra que sustenta.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +"Mas depois que de todo se fartou,<br> + + +O pó que tem no mar a si recolhe,<br> + + +E pelo céu chovendo enfim voou,<br> + + +Porque coa água a jacente água molhe:<br> + + +As ondas torna as ondas que tomou,<br> + + +Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.<br> + + +Vejam agora os sábios na escritura,<br> + + +Que segredos são estes de Natura.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +"Se os antigos filósofos, que andaram<br> + + +Tantas terras, por ver segredos delas,<br> + + +As maravilhas que eu passei, passaram,<br> + + +A tão diversos ventos dando as velas,<br> + + +Que grandes escrituras que deixaram!<br> + + +Que influição de signos e de estrelas!<br> + + +Que estranhezas, que grandes qualidades!<br> + + +E tudo sem mentir, puras verdades.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"Mas já o Planeta que no céu primeiro<br> + + +Habita, cinco vezes apressada,<br> + + +Agora meio rosto, agora inteiro<br> + + +Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,<br> + + +Quando da etérea gávea um marinheiro,<br> + + +Pronto coa vista, "Terra! Terra!" brada.<br> + + +Salta no bordo alvoroçada a gente<br> + + +Co'os olhos no horizonte do Oriente.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"A maneira de nuvens se começam<br> + + +A descobrir os montes que enxergamos;<br> + + +As âncoras pesadas se adereçam;<br> + + +As velas, já chegados, amainamos.<br> + + +E para que mais certas se conheçam<br> + + +As partes tão remotas onde estamos,<br> + + +Pelo novo instrumento do Astrolábio,<br> + + +Invenção de subtil juízo e +sábio,<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Desembarcamos logo na espaçosa,<br> + + +Parte, por onde a gente se espalhou,<br> + + +De ver eousas estranhas desejosa<br> + + +Da terra que outro povo não pisou;<br> + + +Porém eu co'os pilotos na arenosa<br> + + +Praia, por vermos em que parte estou,<br> + + +Me detenho em tomar do Sol a altura<br> + + +E compassar a universal pintura.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Achamos ter de todo já passado<br> + + +Do Semicapro peixe a grande meta,<br> + + +Estando entre ele e o círculo gelado<br> + + +Austral, parte do mundo mais secreta.<br> + + +Eis, de meus companheiros rodeado,<br> + + +Vejo um estranho vir de pele preta,<br> + + +Que tomaram por força, enquanto apanha<br> + + +De mel os doces favos na montanha.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Torvado vem na vista, como aquele<br> + + +Que não se vira nunca em tal extremo;<br> + + +Nem ele entende a nós, nem nós a ele,<br> + + +Selvagem mais que o bruto Polifemo.<br> + + +Começo-lhe a mostrar da rica pelo<br> + + +De Colcos o gentil metal supremo,<br> + + +A prata fina, a quente especiaria:<br> + + +A nada disto o bruto se movia.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Mando mostrar-lhe peças mais somenos:<br> + + +Contas de cristalino transparente,<br> + + +Alguns soantes cascavéis pequenos,<br> + + +Um barrete vermelho, cor contente.<br> + + +Vi logo, por sinais e por acenos,<br> + + +Que com isto se alegra grandemente.<br> + + +Mando-o soltar com tudo, e assim caminha<br> + + +Para a povoação que perto tinha.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,<br> + + +Todos nus, e da cor da escura treva,<br> + + +Descendo pelos ásperos outeiros,<br> + + +As peças vêm buscar que estoutro leva:<br> + + +Domésticos já tanto e companheiros<br> + + +Se nos mostram, que fazem que se atreva<br> + + +Fernão Veloso a ir ver da terra o trato<br> + + +E partir-se com eles pelo mato.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"É Veloso no braço confiado,<br> + + +E de arrogante crê que vai seguro;<br> + + +Mas, sendo um grande espaço já passado,<br> + + +Em que algum bom sinal saber procuro,<br> + + +Estando, a vista alçada, co'o cuidado<br> + + +No aventureiro, eis pelo monto duro<br> + + +Aparece, e, segundo ao mar caminha,<br> + + +Mais apressado do que fora, vinha.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"O batel de Coelho foi depressa<br> + + +Pelo tomar; mas, antes que chegasse,<br> + + +Um Etíope ousado se arremessa<br> + + +A ele, por que não se lhe escapasse;<br> + + +Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa<br> + + +Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;<br> + + +Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,<br> + + +Se mostra um bando negro descoberto.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Da espessa nuvem setas e pedradas<br> + + +Chovem sobre nós outros sem medida;<br> + + +E não foram ao vento em vão deitadas,<br> + + +Que esta perna trouxe eu dali ferida;<br> + + +Mas nós, como pessoas magoadas,<br> + + +A resposta lhe demos tão tecida,<br> + + +Que, em mais que nos barretes, se suspeita<br> + + +Que a cor vermelha levam desta feita.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"E sendo já, Veloso em salvamento,<br> + + +Logo nos recolhemos para a armada,<br> + + +Vendo a malícia feia e rudo intento<br> + + +Da gente bestial, bruta e malvada,<br> + + +De quem nenhum melhor conhecimento<br> + + +Pudemos ter da índia desejada<br> + + +Que estarmos ainda muito longe dela;<br> + + +E assim tornei a dar ao vento a vela.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"Disse então a Veloso um companheiro<br> + + +(Começando-se todos a sorrir)<br> + + +-"Ó lá, Veloso amigo, aquele outeiro<br> + + +É melhor de descer que de subir."<br> + + +—"Sim, é, (responde o ousado aventureiro)<br> + + +Mas quando eu para cá vi tantos vir<br> + + +Daqueles cães, depressa um pouco vim,<br> + + +Por me lembrar que estáveis cá sem<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"Contou então que, tanto que passaram<br> + + +Aquele monte, os negros de quem falo,<br> + + +Avante mais passar o não deixaram,<br> + + +Querendo, se não torna, ali matá-lo;<br> + + +E tornando-se, logo se emboscaram,<br> + + +Por que, saindo nós para tomá-lo,<br> + + +Nos pudessem mandar ao reino escuro,<br> + + +Por nos roubarem mais a seu seguro.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"Porém já cinco Sóis eram passados<br> + + +Que dali nos partíramos, cortando<br> + + +Os mares nunca doutrem navegados,<br> + + +Prósperamente os ventos assoprando,<br> + + +Quando uma noite estando descuidados,<br> + + +Na cortadora proa vigiando,<br> + + +Uma nuvem que os ares escurece<br> + + +Sobre nossas cabeças aparece.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"Tão temerosa vinha e carregada,<br> + + +Que pôs nos corações um grande medo;<br> + + +Bramindo o negro mar, de longe brada<br> + + +Como se desse em vão nalgum rochedo.<br> + + +—"Ó Potestade, disse, sublimada!<br> + + +Que ameaço divino, ou que segredo<br> + + +Este clima e este mar nos apresenta,<br> + + +Que mor cousa parece que tormenta?"—<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Não acabava, quando uma figura<br> + + +Se nos mostra no ar, robusta e válida,<br> + + +De disforme e grandíssima estatura,<br> + + +O rosto carregado, a barba esquálida,<br> + + +Os olhos encovados, e a postura<br> + + +Medonha e má, e a cor terrena e pálida,<br> + + +Cheios de terra e crespos os cabelos,<br> + + +A boca negra, os dentes amarelos.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Tão grande era de membros, que bem posso<br> + + +Certificar-te, que este era o segundo<br> + + +De Rodes estranhíssimo Colosso,<br> + + +Que um dos sete milagres foi do mundo:<br> + + +Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,<br> + + +Que pareceu sair do mar profundo:<br> + + +Arrepiam-se as carnes e o cabelo<br> + + +A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"E disse:—"Ó gente ousada, mais que quantas<br> + + +No mundo cometeram grandes cousas,<br> + + +Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,<br> + + +E por trabalhos vãos nunca repousas,<br> + + +Pois os vedados términos quebrantas,<br> + + +E navegar meus longos mares ousas,<br> + + +Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,<br> + + +Nunca arados d'estranho ou próprio lenho:<br> + + +<br> + + +42<br> + + +—"Pois vens ver os segredos escondidos<br> + + +Da natureza e do úmido elemento,<br> + + +A nenhum grande humano concedidos<br> + + +De nobre ou de imortal merecimento,<br> + + +Ouve os danos de mim, que apercebidos<br> + + +Estão a teu sobejo atrevimento,<br> + + +Por todo o largo mar e pela terra,<br> + + +Que ainda hás de sojugar com dura guerra.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +—"Sabe que quantas naus esta viagem<br> + + +Que tu fazes, fizerem de atrevidas,<br> + + +Inimiga terão esta paragem<br> + + +Com ventos e tormentas desmedidas.<br> + + +E da primeira armada que passagem<br> + + +Fizer por estas ondas insofridas,<br> + + +Eu farei d'improviso tal castigo,<br> + + +Que seja mor o dano que o perigo.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +—"Aqui espero tomar, se não me engano,<br> + + +De quem me descobriu, suma vingança.<br> + + +E não se acabará só nisto o dano<br> + + +Da vossa pertinace confiança;<br> + + +Antes em vossas naus vereis cada ano,<br> + + +Se é verdade o que meu juízo alcança,<br> + + +Naufrágios, perdições de toda sorte,<br> + + +Que o menor mal de todos seja a morte.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +—"É do primeiro Ilustre, que a ventura<br> + + +Com fama alta fizer tocar os Céus,<br> + + +Serei eterna e nova sepultura,<br> + + +Por juízos incógnitos de Deus.<br> + + +Aqui porá da Turca armada dura<br> + + +Os soberbos e prósperos troféus;<br> + + +Comigo de seus danos o ameaça<br> + + +A destruída Quíloa com Mombaça.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +—"Outro também virá de honrada fama,<br> + + +Liberal, cavaleiro, enamorado,<br> + + +E consigo trará a formosa dama<br> + + +Que Amor por grã mercê lhe terá dado.<br> + + +Triste ventura e negro fado os chama<br> + + +Neste terreno meu, que duro e irado<br> + + +Os deixará dum cru naufrágio vivos<br> + + +Para verem trabalhos excessivos.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +—"Verão morrer com fome os filhos caros,<br> + + +Em tanto amor gerados e nascidos;<br> + + +Verão os Cafres ásperos e avaros<br> + + +Tirar à linda dama seus vestidos;<br> + + +Os cristalinos membros e perclaros<br> + + +A calma, ao frio, ao ar verão despidos,<br> + + +Depois de ter pisada longamente<br> + + +Co'os delicados pés a areia ardente.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +—"E verão mais os olhos que escaparem<br> + + +De tanto mal, de tanta desventura,<br> + + +Os dois amantes míseros ficarem<br> + + +Na férvida e implacável espessura.<br> + + +Ali, depois que as pedras abrandarem<br> + + +Com lágrimas de dor, de mágoa pura,<br> + + +Abraçados as almas soltarão<br> + + +Da formosa e misérrima prisão."—<br> + + +<br> + + +49<br> + + +"Mais ia por diante o monstro horrendo<br> + + +Dizendo nossos fados, quando alçado<br> + + +Lhe disse eu:—Quem és tu? que esse estupendo<br> + + +Corpo certo me tem maravilhado.—<br> + + +A boca e os olhos negros retorcendo,<br> + + +E dando um espantoso e grande brado,<br> + + +Me respondeu, com voz pesada e amara,<br> + + +Como quem da pergunta lhe pesara:<br> + + +<br> + + +50<br> + + +—"Eu sou aquele oculto e grande Cabo,<br> + + +A quem chamais vós outros Tormentório,<br> + + +Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,<br> + + +Plínio, e quantos passaram, fui notório.<br> + + +Aqui toda a Africana costa acabo<br> + + +Neste meu nunca visto Promontório,<br> + + +Que para o Pólo Antarctico se estende,<br> + + +A quem vossa ousadia tanto ofende.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +—"Fui dos filhos aspérrimos da Terra,<br> + + +Qual Encélado, Egeu e o Centimano;<br> + + +Chamei-me Adamastor, e fui na guerra<br> + + +Contra o que vibra os raios de Vulcano;<br> + + +Não que pusesse serra sobre serra,<br> + + +Mas conquistando as ondas do Oceano,<br> + + +Fui capitão do mar, por onde andava<br> + + +A armada de Netuno, que eu buscava.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +—"Amores da alta esposa de Peleu<br> + + +Me fizeram tomar tamanha empresa.<br> + + +Todas as Deusas desprezei do céu,<br> + + +Só por amar das águas a princesa.<br> + + +Um dia a vi coas filhas de Nereu<br> + + +Sair nua na praia, e logo presa<br> + + +A vontade senti de tal maneira<br> + + +Que ainda não sinto coisa que mais queira.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +—"Como fosse impossível +alcançá-la<br> + + +Pela grandeza feia de meu gesto,<br> + + +Determinei por armas de tomá-la,<br> + + +E a Doris este caso manifesto.<br> + + +De medo a Deusa então por mim lhe fala;<br> + + +Mas ela, com um formoso riso honesto,<br> + + +Respondeu:—"Qual será o amor bastante<br> + + +De Ninfa que sustente o dum Gigante?<br> + + +<br> + + +54<br> + + +—"Contudo, por livrarmos o Oceano<br> + + +De tanta guerra, eu buscarei maneira,<br> + + +Com que, com minha honra, escuse o dano."<br> + + +Tal resposta me torna a mensageira.<br> + + +Eu, que cair não pude neste engano,<br> + + +(Que é grande dos amantes a cegueira)<br> + + +Encheram-me com grandes abondanças<br> + + +O peito de desejos e esperanças.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +—"Já néscio, já da guerra +desistindo,<br> + + +Uma noite de Dóris prometida,<br> + + +Me aparece de longe o gesto lindo<br> + + +Da branca Tétis única despida:<br> + + +Como doido corri de longe, abrindo<br> + + +Os braços, para aquela que era vida<br> + + +Deste corpo, e começo os olhos belos<br> + + +A lhe beijar, as faces e os cabelos.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +—"Ó que não sei de nojo como o conte!<br> + + +Que, crendo ter nos braços quem amava,<br> + + +Abraçado me achei com um duro monte<br> + + +De áspero mato e de espessura brava.<br> + + +Estando com um penedo fronte a fronte,<br> + + +Que eu pelo rosto angélico apertava<br> + + +Não fiquei homem não, mas mudo e quedo,<br> + + +E junto dum penedo outro penedo.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +—"Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,<br> + + +Já que minha presença não te agrada,<br> + + +Que te custava ter-me neste engano,<br> + + +Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?<br> + + +Daqui me parto irado, e quase insano<br> + + +Da mágoa e da desonra ali passada,<br> + + +A buscar outro inundo, onde não visse<br> + + +Quem de meu pranto e de meu mal se risse,<br> + + +<br> + + +58<br> + + +—"Eram já neste tempo meus irmãos<br> + + +Vencidos e em miséria extrema postos;<br> + + +E por mais segurar-se os Deuses vãos,<br> + + +Alguns a vários montes sotopostos:<br> + + +E como contra o Céu não valem mãos,<br> + + +Eu, que chorando andava meus desgostos,<br> + + +Comecei a sentir do fado inimigo<br> + + +Por meus atrevimentos o castigo.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +—"Converte-se-me a carne em terra dura,<br> + + +Em penedos os ossos sefizeram,<br> + + +Estes membros que vês e esta figura<br> + + +Por estas longas águas se estenderam;<br> + + +Enfim, minha grandíssima estatura<br> + + +Neste remoto cabo converteram<br> + + +Os Deuses, e por mais dobradas mágoas,<br> + + +Me anda Tétis cercando destas águas."—<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"Assim contava, e com um medonho choro<br> + + +Súbito diante os olhos se apartou;<br> + + +Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro<br> + + +Bramido muito longe o mar soou.<br> + + +Eu, levantando as mãos ao santo coro<br> + + +Dos anjos, que tão longe nos guiou,<br> + + +A Deus pedi que removesse os duros<br> + + +Casos, que Adamastor contou futuros.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"Já Flegon e Piróis vinham tirando<br> + + +Com os outros dois o carro radiante,<br> + + +Quando a terra alta se nos foi mostrando,<br> + + +Em que foi convertido o grão Gigante.<br> + + +Ao longo desta costa, começando<br> + + +Já de cortar as ondas do Levante,<br> + + +Por ela abaixo um pouco navegamos,<br> + + +Onde segunda vez terra tomamos.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"A gente que esta terra possuía,<br> + + +Posto que todos Etíopes eram,<br> + + +Mais humana no trato parecia<br> + + +Que os outros, que tão mal nos receberam.<br> + + +Com bailos e com festas de alegria<br> + + +Pela praia arenosa a nós vieram,<br> + + +As mulheres consigo e o manso gado<br> + + +Que apascentavam, gordo e bem criado.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"As mulheres queimadas vêm em cima<br> + + +Dos vagarosos bois, ali sentadas,<br> + + +Animais que eles têm em mais estima<br> + + +Que todo o outro gado das manadas.<br> + + +Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,<br> + + +Na sua língua cantam concertadas<br> + + +Com o doce som das rústicas avenas,<br> + + +Imitando de Títiro as Camenas.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +"Estes, como na vista prazenteiros<br> + + +Fossem, humanamente nos trataram,<br> + + +Trazendo-nos galinhas e carneiros,<br> + + +A troco doutras peças, que levaram.<br> + + +Mas como nunca enfim meus companheiros<br> + + +Palavra sua alguma lhe alcançaram<br> + + +Que desse algum sinal do que buscamos,<br> + + +As velas dando, as âncoras levamos.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Já aqui tínhamos dado um grã rodeio<br> + + +A costa negra de África, e tornava<br> + + +A proa a demandar o ardente meio<br> + + +Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:<br> + + +Aquele ilhéu deixamos, onde veio<br> + + +Outra armada primeira, que buscava<br> + + +O Tormentório cabo, e descoberto,<br> + + +Naquele ilhéu fez seu limite certo.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +Daqui fomos cortando muitos dias<br> + + +Entre tormentas tristes e bonanças,<br> + + +No largo mar fazendo novas vias,<br> + + +Só conduzidos de árduas esperanças.<br> + + +Colo mar um tempo andamos em porfias,<br> + + +Que, como tudo nele são mudanças.<br> + + +Corrente nele achamos tão possante<br> + + +Que passar não deixava por diante.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"Era maior a força em demasia,<br> + + +Segundo para trás nos obrigava,<br> + + +Do mar, que contra nós ali corria,<br> + + +Que por nós a do vento que assoprava.<br> + + +Injuriado Noto da porfia<br> + + +Em que colo mar (parece) tanto estava,<br> + + +Os assopros esforça iradamente,<br> + + +Com que nos fez vencer a grão corrente.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Trazia o Sol o dia celebrado,<br> + + +Em que três Reis das partes do Oriento<br> + + +Foram buscar um Rei de pouco nado,<br> + + +No qual Rei outros três há juntamente.<br> + + +Neste dia outro porto foi tomado<br> + + +Por nós, da mesma já contada gente,<br> + + +Num largo rio, ao qual o no e demos<br> + + +Do dia, em que por ele nos metemos.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Desta gente refresco algum tomamos,<br> + + +E do rio fresca água; mas contudo<br> + + +Nenhum sinal aqui da Índia achamos<br> + + +No Povo, com nós outros quase mudo.<br> + + +Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos,<br> + + +Sem sair nunca deste povo rudo,<br> + + +Sem vermos nunca nova nem sinal<br> + + +Da desejada parte Oriental.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Ora imagina agora coitados<br> + + +Andaríamos todos, perdidos,<br> + + +De fomes, de tormentas quebrantados,<br> + + +Por climas e por mares não sabidos,<br> + + +E do esperar comprido tão cansados,<br> + + +Quanto a desesperar já compelidos,<br> + + +Por céus não naturais, de qualidade<br> + + +Inimiga de nossa humanidade.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Corrupto já e danado o mantimento,<br> + + +Danoso e mau ao fraco corpo humano,<br> + + +E além disso nenhum contentamento,<br> + + +Que sequer da esperança fosse engano.<br> + + +Crês tu que, se este nosso ajuntamento<br> + + +De soldados não fora Lusitano,<br> + + +Que durara ele tanto obediente<br> + + +Por ventura a seu Rei e a seu regente?<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"Crês tu que já não foram levantados<br> + + +Contra seu Capitão, se os resistira,<br> + + +Fazendo-se piratas, obrigados<br> + + +De desesperação, de fome, de ira?<br> + + +Grandemente, por certo, estão provados,<br> + + +Pois que nenhum trabalho grande os tira<br> + + +Daquela Portuguesa alta excelência<br> + + +De lealdade firme, e obediência.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +"Deixando o porto enfim do doce rio<br> + + +E tornando a cortar a água salgada,<br> + + +Fizemos desta costa algum desvio,<br> + + +Deitando para o pego toda a armada;<br> + + +Porque, ventando Noto manso e frio,<br> + + +Não nos apanhasse a água da enseada,<br> + + +Que a costa faz ali daquela banda<br> + + +Donde a rica Sofala o ouro manda.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +"Esta passada, logo o leve leme<br> + + +Encomendado ao sacro Nicolau,<br> + + +Para onde o mar na costa brada e geme,<br> + + +A proa inclina duma e doutra nau;<br> + + +Quando indo o coração que espera e teme<br> + + +E que tanto fiou dum fraco pau<br> + + +Do que esperava já desesperado,<br> + + +Foi duma novidade alvoroçado<br> + + +<br> + + +75<br> + + +"E foi que, estando já da costa perto,<br> + + +Onde as praias e vales bem se viam,<br> + + +Num rio, que ali sai ao mar aberto,<br> + + +Batéis à vela entravam e saíam.<br> + + +Alegria muito grande foi por certo<br> + + +Acharmos já pessoas que sabiam<br> + + +Navegar, porque entre elas esperamos<br> + + +De achar novas algumas, como achamos.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +"Etíopes são todos, mas parece<br> + + +Que com gente melhor comunicavam;<br> + + +Palavra alguma Arábia se conhece<br> + + +Entre a linguagem sua que falavam;<br> + + +E com pano delgado, que se tece<br> + + +De algodão, as cabeças apertavam;<br> + + +Com outro, que de tinta azul se tinge,<br> + + +Cada um as vergonhosas partes cinge.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +"Pela Arábica língua, que mal falam,<br> + + +E que Fernão Martins muito bem entende,<br> + + +Dizem que por naus, que em grandeza igualam<br> + + +As nossas, o seu mar se corta e fende;<br> + + +Mas que lá donde sai o Sol, se abalam<br> + + +Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,<br> + + +E do Sul para o Sol, terra onde havia<br> + + +Gente, assim como nós, da cor do dia.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +"Muito grandemente aqui nos alegramos<br> + + +Com a gente, e com as novas muito mais:<br> + + +Pelos sinais que neste rio achamos<br> + + +O nome lhe ficou dos Bons Sinais.<br> + + +Um padrão nesta terra alevantamos,<br> + + +Que, para assinalar lugares tais,<br> + + +Trazia alguns; o nome tem do belo<br> + + +Guiador de Tobias a Gabelo.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,<br> + + +Nojosa criação das águas fundas,<br> + + +Alimpamos as naus, que dos caminhos<br> + + +Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.<br> + + +Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,<br> + + +Com mostras aprazíveis e jocundas,<br> + + +louvemos sempre o usado mantimento,<br> + + +Limpos de todo o falso pensamento.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"Mas não foi, da esperança grande e imensa<br> + + +Que nesta terra houvemos, limpa e pura<br> + + +A alegria; mas logo a recompensa<br> + + +A Ramnúsia com nova desventura.<br> + + +Assim no céu sereno se dispensa:<br> + + +Com esta condição pesada e dura<br> + + +Nascemos: o pesar terá firmeza,<br> + + +Mas o bem logo muda a natureza.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"E foi que de doença crua e feia,<br> + + +A mais que eu nunca vi, desampararam<br> + + +Muitos a vida, e em terra estranha e alheia<br> + + +Os ossos para sempre sepultaram.<br> + + +Quem haverá que, sem o ver, o creia?<br> + + +Que tão disformemente ali lhe incharam<br> + + +As gengivas na boca, que crescia<br> + + +A carne, e juntamente apodrecia.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"—Apodrecia com um fétido e bruto<br> + + +Cheiro, que o ar vizinho inficionava;<br> + + +Não tínhamos ali médico astuto,<br> + + +Cirurgião subtil menos se achava;<br> + + +Mas qualquer, neste ofício pouco instructo,<br> + + +Pela carne já podre assim cortava<br> + + +Como se fora morta, e bem convinha,<br> + + +Pois que morto ficava quem a tinha.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"Enfim que nesta incógnita espessura<br> + + +Deixamos para sempre os companheiros,<br> + + +Que em tal caminho e em tanta desventura<br> + + +Foram sempre conosco aventureiros.<br> + + +Quão fácil é ao corpo a sepultura!<br> + + +Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros<br> + + +Estranhos, assim mesmo como aos nossos,<br> + + +Receberão de todo o Ilustre os ossos.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +"Assim que, deste porto nos partirmos<br> + + +Com maior esperança e maior tristeza,<br> + + +E pela costa abaixo o mar abrirmos<br> + + +Buscando algum sinal de mais firmeza.<br> + + +Na dura Moçambique enfim surgimos,<br> + + +De cuja falsidade e má vileza<br> + + +Já serás sabedor, e dos enganos<br> + + +Dos povos de Mombaça pouco humanos.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +"Até que aqui no teu seguro porto,<br> + + +Cuja brandura e doce tratamento<br> + + +Dará saúde a um vivo, e vida a um morto,<br> + + +Nos trouxe a piedade do alto assento.<br> + + +Aqui repouso, aqui doce conforto,<br> + + +Nova quietação do pensamento<br> + + +Nos deste: e vês aqui, se atento ouviste,<br> + + +Te contei tudo quanto me pediste.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +"Julgas agora, Rei, se houve no mundo<br> + + +Gentes que tais caminhos cometessem?<br> + + +Crês tu que tanto Eneias e o facundo<br> + + +Ulisses pelo inundo se estendessem?<br> + + +Ousou algum a ver do mar profundo,<br> + + +Por mais versos que dele se escrevessem,<br> + + +Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,<br> + + +E do que ainda hei de ver, a oitava parte?<br> + + +<br> + + +87<br> + + +"Esse que bebeu tanto da água Aónia,<br> + + +Sobre quem tem contenda peregrina,<br> + + +Entre si, Rodes, Smirna e Colofónia,<br> + + +Atenas, Ios, Argo e Salamina:<br> + + +Esse outro que esclarece toda Ausónía,<br> + + +A cuja voz altíssona e divina<br> + + +Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece,<br> + + +Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;<br> + + +<br> + + +88<br> + + +Cantem, louvem e escrevam sempre extremos<br> + + +Desses seus Semideuses, e encareçam,<br> + + +Fingindo Magis Circes, Polifemos,<br> + + +Sirenas que com o canto os adormeçam;<br> + + +Dêem-lhe mais navegar à vela e remos<br> + + +Os Cicones, e a torra onde se esqueçam<br> + + +Os companheiros, em gostando o Loto;<br> + + +Dêem-lhe perder nas águas o piloto;<br> + + +<br> + + +89<br> + + +"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem<br> + + +Dos odres e Calipsos namoradas;<br> + + +Harpias que o manjar lhe contaminem;<br> + + +Descer às sombras nuas já passadas:<br> + + +Que por muito e por muito que se afinem<br> + + +Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,<br> + + +A verdade que eu conto nua e pura<br> + + +Vence toda grandíloqua escritura."<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Da boca do facundo Capitão<br> + + +Pendendo estavam todos embebidos,<br> + + +Quando deu fim à longa narração<br> + + +Dos altos feitos grandes e subidos.<br> + + +Louva o Rei o sublime coração<br> + + +Dos Reis em tantas guerras conhecidos;<br> + + +Da gente louva a antiga fortaleza,<br> + + +A lealdade de ânimo e nobreza.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Vai recontando o povo, que se admira,<br> + + +O caso cada qual que mais notou;<br> + + +Nenhum deles da gente os olhos tira,<br> + + +Que tão longos caminhos rodeou.<br> + + +Mas já o mancebo Délio as rédeas vira<br> + + +Que o irmão de Lampécia mal guiou,<br> + + +Por vir a descansar nos Tétios braços;<br> + + +E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Quão doce é o louvor e a justa glória<br> + + +Dos próprios feitos, quando são soados!<br> + + +Qualquer nobre trabalha que em memória<br> + + +Vença ou iguale os grandes já passados.<br> + + +As invejas da ilustre e alheia história<br> + + +Fazem mil vezes feitos sublimados.<br> + + +Quem valerosas obras exercita,<br> + + +Louvor alheio muito o esperta e incita.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +Não tinha em tanto os feitos gloriosos<br> + + +De Aquiles, Alexandro na peleja,<br> + + +Quanto de quem o canta, os numerosos<br> + + +Versos; isso só louva, isso deseja.<br> + + +Os troféus de Melcíades famosos<br> + + +Temístoeles despertam só de inveja,<br> + + +E diz que nada tanto o deleitava<br> + + +Como a voz que seus feitos celebrava.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +Trabalha por mostrar Vasco da Gama<br> + + +Que essas navegações que o mundo canta<br> + + +Não merecem tamanha glória e fama<br> + + +Como a sua, que o céu e a terra espanta.<br> + + +Si; mas aquele Herói, que estima e ama<br> + + +Com dons, mercês, favores e honra tanta<br> + + +A lira Mantuana, faz que soe<br> + + +Eneias, e a Romana glória voe.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +Dá a terra lusitana Cipiões,<br> + + +Césares, Alexandros, e dá Augustos;<br> + + +Mas não lhe dá contudo aqueles dois<br> + + +Cuja falta os faz duros e robustos.<br> + + +Octávio, entre as maiores opressões,<br> + + +Compunha versos doutos e venustos.<br> + + +Não dirá Fúlvia certo que é +mentira,<br> + + +Quando a deixava António por Glafira,<br> + + +<br> + + +96<br> + + +Vai César, sojugando toda França,<br> + + +E as armas não lhe impedem a ciência;<br> + + +Mas, numa mão a pena e noutra a lança,<br> + + +Igualava de Cícero a eloquência.<br> + + +O que de Cipião se sabe e alcança,<br> + + +É nas comédias grande experiência.<br> + + +Lia Alexandro a Homero de maneira<br> + + +Que sempre se lhe sabe à cabeceira.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +Enfim, não houve forte capitão,<br> + + +Que não fosse também douto e ciente,<br> + + +Da Lácia, Grega, ou Bárbara +nação,<br> + + +Senão da Portuguesa tão somente.<br> + + +Sem vergonha o não digo, que a razão<br> + + +De algum não ser por versos excelente,<br> + + +É não se ver prezado o verso e rima,<br> + + +Porque, quem não sabe arte, não na estima.<br> + + +<br> + + +98<br> + + +Por isso, e não por falta de natura,<br> + + +Não há também Virgílios nem +Homeros;<br> + + +Nem haverá, se este costume dura,<br> + + +Pios Eneias, nem Aquiles feros.<br> + + +Mas o pior de tudo é que a ventura<br> + + +Tão ásperos os fez, e tão austeros,<br> + + +Tão rudos, e de engenho tão remisso,<br> + + +Que a muitos lhe dá pouco, ou nada disso.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +As Musas agradeça o nosso Gama<br> + + +o Muito amor da Pátria, que as obriga<br> + + +A dar aos seus na lira nome e fama<br> + + +De toda a ilustro e bélica fadiga:<br> + + +Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,<br> + + +Calíope não tem por tão amiga,<br> + + +Nem as filhas do Tejo, que deixassem<br> + + +As telas douro fino, e que o cantassem.<br> + + +<br> + + +100<br> + + +Porque o amor fraterno e puro gosto<br> + + +De dar a todo o Lusitano feito<br> + + +Seu louvor, é somente o pressuposto<br> + + +Das Tágides gentis, e seu respeito.<br> + + +Porém não deixe enfim de ter disposto<br> + + +Ninguém a grandes obras sempre o peito,<br> + + +Que por esta, ou por outra qualquer via,<br> + + +Não perderá seu preço, e sua valia.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Sexto</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Não sabia em que modo festejasse<br> + + +O Rei Pagão os fortes navegantes,<br> + + +Para que as amizades alcançasse<br> + + +Do Rei Cristão, das gentes tão possantes;<br> + + +Pesa-lhe que tão longe o aposentasse<br> + + +Das Européias terras abundantes<br> + + +A ventura, que não no fez vizinho<br> + + +Donde Hércules ao mar abriu caminho.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +Com jogos, danças e outras alegrias,<br> + + +A segundo a polícia Melindana,<br> + + +Com usadas e ledas pescarias,<br> + + +Com que a Lageia António alegra e engana<br> + + +Este famoso Rei, todos os dias,<br> + + +Festeja a companhia Lusitana,<br> + + +Com banquetes, manjares desusados,<br> + + +Com frutas, aves, carnes e pescados.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Mas vendo o Capitão que se detinha<br> + + +Já mais do que devia, e o fresco vento<br> + + +O convida que parta e tome asinha<br> + + +Os pilotos da terra e mantimento,<br> + + +Não se quer mais deter, que ainda tinha<br> + + +Muito para cortar do salso argento;<br> + + +Já do Pagão benigno se despede,<br> + + +Que a todos amizade longa pede.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +Pede-lhe mais que aquele porto seja<br> + + +Sempre com suas frotas visitado,<br> + + +Que nenhum outro bem maior deseja,<br> + + +Que dar a tais barões seu reino e estado;<br> + + +E que enquanto seu corpo o espírito reja,<br> + + +Estará de contino aparelhado<br> + + +A pôr a vida e reino totalmente<br> + + +Por tão bom Rei, por tão sublime gente.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Outras palavras tais lhe respondia<br> + + +O Capitão, o logo as velas dando,<br> + + +Para as terras da Aurora se partia,<br> + + +Que tanto tempo há já que vai buscando.<br> + + +No piloto que leva não havia<br> + + +Falsidade, mas antes vai mostrando<br> + + +A navegação certa, e assim caminha<br> + + +Já mais seguro do que dantes vinha.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +As ondas navegavam do Oriente<br> + + +Já nos mares da Índia, e enxergavam<br> + + +Os tálamos do Sol, que nasce ardente;<br> + + +Já quase seus desejos se acabavam.<br> + + +Mas o mau de Tioneu, que na alma sente<br> + + +As venturas, que então se aparelhavam<br> + + +A gente Lusitana, delas dina,<br> + + +Arde, morre, blasfema e desatina.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +Via estar todo o Céu determinado<br> + + +De fazer de Lisboa nova Roma;<br> + + +Não no pode estorvar, que destinado<br> + + +Está doutro poder que tudo doma.<br> + + +Do Olimpo desce enfim desesperado;<br> + + +Novo remédio em terra busca e toma:<br> + + +Entra no úmido reino, e vai-se à corte<br> + + +Daquele a quem o mar caiu em sorte.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +No mais interno fundo das profundas<br> + + +Cavernas altas, onde o mar se esconde,<br> + + +Lá donde as ondas saem furibundas,<br> + + +Quando às iras do vento o mar responde,<br> + + +Netuno mora, e moram as jocundas<br> + + +Nereidas, e outros Deuses do mar, onde<br> + + +As águas campo deixam às cidades,<br> + + +Que habitam estas úmidas deidades.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +Descobre o fundo nunca descoberto<br> + + +Das areias ali de prata fina;<br> + + +Torres altas se vêem no campo aberto<br> + + +Da transparente massa cristalina:<br> + + +Quanto se chegam mais os olhos perto,<br> + + +Tanto menos a vista determina<br> + + +Se é cristal o que vê, se diamante,<br> + + +Que assim se mostra claro e radiante.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +As portas douro fino, e marchetadas<br> + + +Do rico aljôfar que nas conchas nasce,<br> + + +De escultura formosa estão lavradas,<br> + + +Na qual o irado Baco a vista pasce;<br> + + +E vê primeiro em cores variadas<br> + + +Do velho Caos a tão confusa face;<br> + + +Vêem-se os quatro elementos trasladados<br> + + +Em diversos ofícios ocupados.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Ali sublime o Fogo estava em cima,<br> + + +Que em nenhuma matéria se sustinha;<br> + + +Daqui as coisas vivas sempre anima,<br> + + +Depois que Prometeu furtado o tinha.<br> + + +Logo após ele leve se sublima<br> + + +O invisível Ar, que mais asinha<br> + + +Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,<br> + + +Algum deixa no mundo estar vazio.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +Estava a terra em montes revestida<br> + + +De verdes ervas, e árvores floridas,<br> + + +Dando pasto diverso e dando vida<br> + + +As alimárias nela produzidas.<br> + + +A clara forma ali estava esculpida<br> + + +Das águas entre a terra desparzidas,<br> + + +De pescados criando vários modos,<br> + + +Com seu humor mantendo os corpos todos.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Noutra parte esculpida estava a guerra,<br> + + +Que tiveram os Deuses com os Gigantes;<br> + + +Está Tifeu debaixo da alta serra<br> + + +De Etna, que as flamas lança crepitantes;<br> + + +Esculpido se vê ferindo a terra<br> + + +Netuno, quando as gentes ignorantes<br> + + +Dele o cavalo houveram, e a primeira<br> + + +De Minerva pacífica oliveira.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Pouca tardança faz Lieu irado<br> + + +Na vista destas coisas, mas entrando<br> + + +Nos paços de Netuno, que avisado<br> + + +Da vinda sua, o estava já aguardando,<br> + + +As portas o recebe, acompanhado<br> + + +Das Ninfas, que se estão maravilhando<br> + + +De ver que, cometendo tal caminho,<br> + + +Entre no reino d'água o Rei do vinho.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +"Ó Netuno, lhe disse, não te espantes<br> + + +De Baco nos teus reinos receberes,<br> + + +Porque também com os grandes e possantes<br> + + +Mostra a Fortuna injusta seus poderes.<br> + + +Manda chamar os Deuses do mar, antes<br> + + +Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;<br> + + +Verão da desventura grandes modos:<br> + + +Ouçam todos o mal, que toca a todos."<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Julgando já Netuno que seria<br> + + +Estranho caso aquele, logo manda<br> + + +Tritão, que chame os Deuses da água fria,<br> + + +Que o mar habitam duma e doutra banda.<br> + + +Tritão, que de ser filho se gloria<br> + + +Do Rei e de Salácia veneranda,<br> + + +Era mancebo grande, negro e feio,<br> + + +Trombeta de seu pai, e seu correio.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +Os cabelos da barba, e os que descem<br> + + +Da cabeça nos ombros, todos eram<br> + + +Uns limos prenhes d'água, e bem parecem<br> + + +Que nunca brando pentem conheceram;<br> + + +Nas pontas pendurados não falecem<br> + + +Os negros misilhões, que ali se geram,<br> + + +Na cabeça por gorra tinha posta<br> + + +Uma muito grande casca de lagosta.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +O corpo nu, e os membros genitais,<br> + + +Por não ter ao nadar impedimento,<br> + + +Mas porém de pequenos animais<br> + + +Do mar todos cobertos cento e cento:<br> + + +Camarões e cangrejos, e outros mais<br> + + +Que recebem de Febe crescimento,<br> + + +Ostras, e camarões do musgo sujos,<br> + + +As costas com a casca os caramujos.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Na mão a grande concha retorcida<br> + + +Que trazia, com força, já tocava;<br> + + +A voz grande canora foi ouvida<br> + + +Por todo o mar, que longe retumbava.<br> + + +Já toda a companhia apercebida<br> + + +Dos Deuses para os paços caminhava<br> + + +Do Deus, que fez os muros de Dardânia,<br> + + +Destruídos depois da Grega insânia.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Vinha o padre Oceano acompanhado<br> + + +Dos filhos e das filhas que gerara;<br> + + +Vem Nereu, que com Dóris foi casado,<br> + + +Que todo o mar de Ninfas povoara;<br> + + +O profeta Proteu, deixando o gado<br> + + +Marítimo pascer pela água amara,<br> + + +Ali veio também, mas já sabia<br> + + +O que o padre Lieu no mar queria.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +Vinha por outra parte a linda esposa<br> + + +De Netuno, de Celo e Vesta filha,<br> + + +Grave e Ieda no gesto, e tão formosa<br> + + +Que se amansava o mar de maravilha.<br> + + +Vestida uma camisa preciosa<br> + + +Trazia de delgada beatilha,<br> + + +Que o corpo cristalino deixa ver-se,<br> + + +Que tanto bem não é para esconder-se.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Anfitrite, formosa como as flores,<br> + + +Neste caso não quis que falecesse;<br> + + +O Delfim traz consigo, que aos amores<br> + + +Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.<br> + + +Com os olhos, que de tudo são senhores,<br> + + +Qualquer parecerá que o Sol vencesse:<br> + + +Ambas vêm pela mão, igual partido,<br> + + +Pois ambas são esposas dum marido.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +Aquela que das fúrias de Atamante<br> + + +Fugindo, veio a ter divino estado,<br> + + +Consigo traz o filho, belo Infante,<br> + + +No número dos Deuses relatado.<br> + + +Pela praia brincando vem diante<br> + + +Com as lindas conchinhas, que o salgado<br> + + +Mar sempre cria, e às vezes pela areia<br> + + +No colo o to a a bela Panopeia.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +E o Deus que foi num tempo corpo humano,<br> + + +E por virtude da erva poderosa<br> + + +Foi convertido em peixe, e deste dano<br> + + +Lhe resultou deidade gloriosa,<br> + + +Inda vinha chorando o feio engano<br> + + +Que Circe tinha usado com a formosa<br> + + +Cila, que ele ama, desta sendo amado,<br> + + +Que a mais obriga amor mal empregado.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +Já finalmente todos assentados<br> + + +Na grande sala, nobre e divinal;<br> + + +As Deusas em riquíssimos estrados,<br> + + +Os Deuses em cadeiras de cristal,<br> + + +Foram todos do Padre agasalhados,<br> + + +Que com o Tebano tinha assento igual.<br> + + +De fumos enche a casa a rica massa<br> + + +Que no mar nasce, e Arábia em cheiro passa.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +Estando sossegado já o tumulto<br> + + +Dos Deuses, e de seus recebimentos,<br> + + +Começa a descobrir do peito oculto<br> + + +A causa o Tioneu de seus tormentos:<br> + + +Um pouco carregando-se no vulto,<br> + + +Dando mostra de grandes sentimentos,<br> + + +Só por dar aos de Luso triste morte<br> + + +Com o ferro alheio, fala desta sorte:<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Príncipe, que de juro senhoreias<br> + + +Dum Pólo ao outro Pólo o mar irado,<br> + + +Tu, que as gentes da terra toda enfreias,<br> + + +Que não passem o termo limitado;<br> + + +E tu, padre Oceano, que rodeias<br> + + +O inundo universal, e o tens cercado,<br> + + +E com justo decreto assim permites<br> + + +Que dentro vivam só de seus limites;<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"E vós, Deuses do mar, que não sofreis<br> + + +Injúria alguma em vosso reino grande,<br> + + +Que com castigo igual vos não vingueis<br> + + +De quem quer que por ele corra e ande:<br> + + +Que descuido foi este em que viveis?<br> + + +Quem pode ser que tanto vos abrande<br> + + +Os peitos, com razão endurecidos<br> + + +Contra os humanos fracos e atrevidos?<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Vistes que com grandíssima ousadia<br> + + +Foram já cometer o Céu supremo;<br> + + +Vistes aquela insana fantasia<br> + + +De tentarem o mar com vela e reino;<br> + + +Vistes, e ainda vemos cada dia,<br> + + +Soberbas e insolências tais, que temo<br> + + +Que do mar e do Céu em poucos anos<br> + + +Venham Deuses a ser, e nós humanos.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Vedes agora a fraca geração<br> + + +Que dum vassalo meu o nome toma,<br> + + +Com soberbo e altivo coração,<br> + + +A vós, e a mi, e o mundo todo doma;<br> + + +Vedes, o vosso mar cortando vão,<br> + + +Mais do que fez a gente alta de Roma;<br> + + +Vedes, o vosso reino devassando,<br> + + +Os vossos estatutos vão quebrando.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Eu vi que contra os Mínias, que primeiro<br> + + +No vosso reino este caminho abriram,<br> + + +Bóreas injuriado, e o companheiro<br> + + +Aquilo, e os outros todos resistiram.<br> + + +Pois se do ajuntamento aventureiro<br> + + +Os ventos esta injúria assim sentiram,<br> + + +Vós, a quem mais compete esta vingança,<br> + + +Que esperais? Porque a pondes em tardança?<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"E não consinto, Deuses, que cuideis<br> + + +Que por amor de vós do céu desci,<br> + + +Nem da mágoa da injúria que sofreis,<br> + + +Mas da que se me faz também a mi;<br> + + +Que aquelas grandes honras, que sabeis<br> + + +Que no mundo ganhei, quando venci<br> + + +As terras Indianas do Oriente,<br> + + +Todas vejo abatidas desta gente.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Que o grã Senhor e Fados que destinam,<br> + + +Como lhe bem parece, o baixo mundo,<br> + + +Famas mores que nunca determinam<br> + + +De dar a estes barões no mar profundo.<br> + + +Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam<br> + + +O mal também a Deuses: que, a segundo<br> + + +Se vê, ninguém já tem menos valia,<br> + + +Que quem com mais razão valer devia.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"E por isso do Olimpo já fugi,<br> + + +Buscando algum remédio a meus pesares,<br> + + +Por ver o preço que no Céu perdi,<br> + + +Se por dita acharei nos vossos mares."<br> + + +Mais quis dizer, e não passou daqui,<br> + + +Porque as lágrimas já correndo a pares<br> + + +Lhe saltaram dos olhos, com que logo<br> + + +Se acendem as Deidades d'água em fogo.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +A ira com que súbito alterado<br> + + +O coração dos Deuses foi num ponto,<br> + + +Não sofreu mais conselho bem cuidado,<br> + + +Nem dilação, nem outro algum desconto.<br> + + +Ao grande Eolo mandam já recado<br> + + +Da parte de Netuno, que sem conto<br> + + +Solte as fúrias dos ventos repugnantes,<br> + + +Que não haja no mar mais navegantes.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +Bem quisera primeiro ali Proteu<br> + + +Dizer neste negócio o que sentia,<br> + + +E segundo o que a todos pareceu,<br> + + +Era alguma profunda profecia.<br> + + +Porém tanto o tumulto se moveu<br> + + +Súbito na divina companhia,<br> + + +Que Tethys indignada lhe bradou:<br> + + +"Netuno sabe bem o que mandou".<br> + + +<br> + + +37<br> + + +Já lá o soberbo Hipótades soltava<br> + + +Do cárcere fechado os furiosos<br> + + +Ventos, que com palavras animava<br> + + +Contra os varões audazes e animosos.<br> + + +Súbito o céu sereno se obumbrava,<br> + + +Que os ventos, mais que nunca impetuosos,<br> + + +Começam novas forças a ir tomando,<br> + + +Torres, montes e casas derribando.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +Enquanto este conselho se fazia<br> + + +No fundo aquoso, a leda lassa frota<br> + + +Com vento sossegado prosseguia,<br> + + +Pelo tranquilo mar, a longa rota.<br> + + +Era no tempo quando a luz do dia<br> + + +Do Eôo Hemisfério está remota;<br> + + +Os do quarto da prima se deitavam,<br> + + +Para o segundo os outros despertavam.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +Vencidos vêm do sono, e mal despertos;<br> + + +Bocejando a miúdo se encostavam<br> + + +Pelas antenas, todos mal cobertos<br> + + +Contra os agudos ares, que assopravam;<br> + + +Os olhos contra seu querer abertos,<br> + + +Alas estregando, os membros estiravam;<br> + + +Remédios contra o sono buscar querem,<br> + + +Histórias contam, casos mil referem.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Com que melhor podemos, um dizia,<br> + + +Este tempo passar, que é tão pesado,<br> + + +Senão com algum conto de alegria,<br> + + +Com que nos deixe o sono carregado?"<br> + + +Responde Leonardo, que trazia<br> + + +Pensamentos de firme namorado:<br> + + +"Que contos poderemos ter melhores,<br> + + +Para passar o tempo, que de amores?"<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Não é, disse Veloso, coisa justa<br> + + +Tratar branduras em tanta aspereza;<br> + + +Que o trabalho do mar, que tanto custa,<br> + + +Não sofre amores, nem delicadeza;<br> + + +Antes de guerra férvida e robusta<br> + + +A nossa história seja, pois dureza<br> + + +Nossa vida há de ser, segundo entendo,<br> + + +Que o trabalho por vir me está dizendo."<br> + + +<br> + + +42<br> + + +Consentem nisto todos, e encomendam<br> + + +A Veloso que conte isto que aprova.<br> + + +"Contarei, disse, sem que me repreendam<br> + + +De contar cousa fabulosa ou nova;<br> + + +E porque os que me ouvirem daqui aprendam<br> + + +A fazer feitos grandes de alta prova,<br> + + +Dos nascidos direi na nossa terra,<br> + + +E estes sejam os doze de Inglaterra.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +"No tempo que do Reino a rédea leve<br> + + +João, filho de Pedro, moderava,<br> + + +Depois que sossegado e livre o teve<br> + + +Do vizinho poder, que o molestava,<br> + + +Lá na grande Inglaterra, que da neve<br> + + +Boreal sempre abunda, semeava<br> + + +A fera Erínis dura e má cizânia,<br> + + +Que lustre fosse a nossa Lusitânia.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +"Entre as damas gentis da corte Inglesa<br> + + +E nobres cortesãos, acaso um dia<br> + + +Se levantou discórdia em ira acesa,<br> + + +Ou foi opinião, ou foi porfia.<br> + + +Os cortesãos, a quem tão pouco pesa<br> + + +Soltar palavras graves de ousadia,<br> + + +Dizem que provarão, que honras e famas<br> + + +Em tais damas não há para ser damas;<br> + + +<br> + + +45<br> + + +"E que se houver alguém, com lança e espada,<br> + + +Que queira sustentar a parte sua,<br> + + +Que eles, em campo raso ou estacada,<br> + + +Lhe darão feia infâmia, ou morte crua.<br> + + +A feminil fraqueza Pouco usada,<br> + + +Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua<br> + + +De forças naturais convenientes,<br> + + +Socorro pede a amigos e parentes.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +"Mas como fossem grandes e possantes<br> + + +No reino os inimigos, não se atrevem<br> + + +Nem parentes, nem férvidos amantes,<br> + + +A sustentar as damas, como devem.<br> + + +Com lágrimas formosas e bastantes<br> + + +A fazer que em socorro os Deuses levem<br> + + +De todo o Céu, por rostos de alabastro,<br> + + +Se vão todas ao duque de Alencastro.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +"Era este Inglês potente, e militara<br> + + +Com os Portugueses já contra Castela,<br> + + +Onde as forças magnânimas provara<br> + + +Dos companheiros, e benigna estrela:<br> + + +Não menos nesta terra experimentara<br> + + +Namorados afeitos, quando nela<br> + + +A filha viu, que tinto o peito doma<br> + + +Do forte Rei, que por mulher a toma.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +"Este, que socorrer-lhe não queria,<br> + + +Por não causar discórdias intestinas,<br> + + +Lhe diz:—"Quando o direito pretendia<br> + + +Do reino lá das terras Iberinas,<br> + + +Nos Lusitanos vi tanta ousadia,<br> + + +Tanto primor, e partes tão divinas,<br> + + +Que eles sós poderiam, se não erro,<br> + + +Sustentar vossa parte a fogo e ferro.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +"E se, agravadas damas, sois servidas,<br> + + +Por vós lhe mandarei embaixadores,<br> + + +Que, por cartas discretas e polidas,<br> + + +De vosso agravo os façam sabedores.<br> + + +Também por vossa parto encarecidas<br> + + +Com palavras de afagos e de amores<br> + + +Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio<br> + + +Que ali tereis socorro e forte esteio."—<br> + + +<br> + + +50<br> + + +"Destarte as aconselha o Duque experto,<br> + + +E logo lhe nomeia doze fortes;<br> + + +E por que cada dama um tenha certo,<br> + + +Lhe manda que sobre eles lancem sortes,<br> + + +Que elas só doze são; e descoberto<br> + + +Qual a qual tem caído das consertes,<br> + + +Cada uma escreve ao seu por vários modos,<br> + + +E todas a seu Rei, e o Duque a todos.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"Já chega a Portugal o mensageiro;<br> + + +Toda a corte alvoroça a novidade;<br> + + +Quisera o Rei sublime ser primeiro,<br> + + +Mas não lhe sofre a Régia Majestade.<br> + + +Qualquer dos cortesãos aventureiro<br> + + +Deseja ser, com férvida vontade,<br> + + +F, só fica por bem-aventurado<br> + + +Quem já vem pelo Duque nomeado.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"Lá na leal Cidade, donde teve<br> + + +Origem (como é fama) o nome eterno<br> + + +De Portugal, armar madeiro leve<br> + + +Manda o que tem o leme do governo.<br> + + +Apercebem-se os doze, em tempo breve,<br> + + +De armas, e roupas de uso mais moderno,<br> + + +De elmos, cimeiras, letras, e primores,<br> + + +Cavalos, e concertos de mil cores.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Já do seu Rei tomado têm licença<br> + + +Para partir do Douro celebrado<br> + + +Aqueles, que escolhidos por sentença<br> + + +Foram do Duque Inglês experimentado.<br> + + +Não há na companhia diferença<br> + + +De cavaleiro destro ou esforçado;<br> + + +Mas um só, que Magriço se dizia,<br> + + +Destarte fala à forte companhia:<br> + + +<br> + + +54<br> + + +—"Fortíssimos consócios, eu desejo<br> + + +Há muito já de andar terras estranhas,<br> + + +Por ver mais águas que as do Douro o Tejo,<br> + + +Várias gentes, e leis, e várias manhas.<br> + + +Agora, que aparelho certo vejo,<br> + + +(Pois que do mundo as coisas são tamanhas)<br> + + +Quero, se me deixais, ir só por terra,<br> + + +Porque eu serei convosco em Inglaterra.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +—"E quando caso for que eu impedido<br> + + +Por quem das cousas é última linha,<br> + + +Não for convosco ao prazo instituído,<br> + + +Pouca falta vos faz a falta minha:<br> + + +Todos por mim fareis o que é devido;<br> + + +Mas, se a verdade o espírito me adivinha,<br> + + +Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,<br> + + +Não farão que eu convosco lá +não seja."<br> + + +<br> + + +56<br> + + +"Assim diz, e abraçados os amigos,<br> + + +E tomada licença, enfim se parte:<br> + + +Passa Lião, Castela, vendo antigos<br> + + +Lugares, que ganhara o pátrio Marte;<br> + + +Navarra, com os altíssimos perigos<br> + + +Do Perineu, que Espanha e Gália parte;<br> + + +Vistas enfim de França as coisas grandes,<br> + + +No grande empório foi parar de Frandes.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,<br> + + +Sem passar se deteve muitos dias:<br> + + +Mas dos onze a ilustríssima companha<br> + + +Cortam do mar do Norte as ondas frias.<br> + + +Chegados de Inglaterra à costa estranha,<br> + + +Para Londres já fazem todos vias.<br> + + +Do Duque são com festa agasalhados,<br> + + +E das damas servidos e amimados.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +"Chega-se o prazo e dia assinalado<br> + + +De entrar em campo já com os doze Ingleses,<br> + + +Que pelo Rei já tinham segurado:<br> + + +Armam-se de elmos, grevas e de arneses:<br> + + +Já as damas têm por si, fulgente e armado,<br> + + +O Mavorte feroz dos Portugueses;<br> + + +Vestem-se elas de cores e de sedas,<br> + + +De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +"Mas aquela, a quem fora em sorte dado<br> + + +Magriço, que não vinha, com tristeza<br> + + +Se veste, por não ter quem nomeado<br> + + +Seja seu cavaleiro nesta empresa;<br> + + +Bem que os onze apregoam, que acabado<br> + + +Será o negócio assim na corte Inglesa,<br> + + +Que as damas vencedoras se conheçam,<br> + + +Posto que dois e três dos seus faleçam.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"Já num sublime e público teatro<br> + + +Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:<br> + + +Estavam três e três, e quatro e quatro,<br> + + +Bem como a cada qual coubera em sorte.<br> + + +Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,<br> + + +De força, esforço e de ânimo mais forte<br> + + +Outros doze sair, como os Ingleses,<br> + + +No campo, contra os onze Portugueses.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"Mastigam os cavalos, escumando,<br> + + +Os áureos freios com feroz semblante;<br> + + +Estava o Sol nas armas rutilando<br> + + +Como em cristal ou rígido diamante;<br> + + +Mas enxerga-se num e noutro bando<br> + + +Partido desigual e dissonante<br> + + +Dos onze contra os doze: quando a gente<br> + + +Começa a alvoroçar-se geralmente.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"Viram todos o rosto aonde havia<br> + + +A causa principal do reboliço:<br> + + +Eis entra um cavaleiro, que trazia<br> + + +Armas, cavalo, ao bélico serviço.<br> + + +Ao Rei e às damas fala, e logo se ia<br> + + +Para os onze, que este era o grã Magriço;<br> + + +Abraça os companheiros como amigos,<br> + + +A quem não falta certo nos perigos.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"A dama, como ouviu que este era aquele<br> + + +Que vinha a defender seu nome e fama,<br> + + +Se alegra, e veste ali do animal de Hele,<br> + + +Que a gente bruta mais que virtude ama.<br> + + +Já dão sinal, e o som da tuba impele<br> + + +Os belicosos ânimos, que inflama:<br> + + +Picam de esporas, largam rédeas logo,<br> + + +Abaixam lanças, fere a terra fogo.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +"Dos cavalos o estrépito parece<br> + + +Que faz que o chão debaixo todo treme;<br> + + +O coração no peito, que estremece<br> + + +De quem os olha, se alvoroça e teme:<br> + + +Qual do cavalo voa, que não desce;<br> + + +Qual, com o cavalo em terra dando, geme;<br> + + +Qual vermelhas as armas faz de brancas;<br> + + +Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Algum dali tomou perpétuo sono<br> + + +E fez da vida ao fim breve intervalo;<br> + + +Correndo algum cavalo vai sem dono<br> + + +E noutra parte o dono sem cavalo.<br> + + +Cai a soberba Inglesa de seu trono,<br> + + +Que dois ou três já fora vão do vale;<br> + + +Os que de espada vêm fazer batalha,<br> + + +Mais acham já que arnês, escudo e malha.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +"Gastar palavras em contar extremos<br> + + +De golpes feros, cruas estocadas,<br> + + +É desses gastadores, que sabemos,<br> + + +Maus do tempo, com fábulas sonhadas.<br> + + +Basta, por fim do caso, que entendemos<br> + + +Que com finezas altas e afamadas,<br> + + +Com os nossos fica a palma da vitória,<br> + + +E as damas vencedoras, e com glória.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"Recolhe o Duque os doze vencedores<br> + + +Nos seus paços, com festas e alegria;<br> + + +Cozinheiros ocupa e caçadores<br> + + +Das damas a formosa companhia,<br> + + +Que querem dar aos seus libertadores<br> + + +Banquetes mil cada hora e cada dia,<br> + + +Enquanto se detêm em Inglaterra,<br> + + +Até tornar à doce e cara terra.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,<br> + + +Desejoso de ver as coisas grandes,<br> + + +Lá se deixou ficar, onde um serviço<br> + + +Notável à condessa fez de Frandes;<br> + + +E como quem não era já noviço<br> + + +Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,<br> + + +Um Francês mata em campo, que o destino<br> + + +Lá teve de Torcato e de Corvino.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Outro também dos doze em Alemanha<br> + + +Se lança, e teve um fero desafio<br> + + +Com um Germano enganoso, que com manha<br> + + +Não devida o quis pôr no extremo fio."<br> + + +Contando assim Veloso, já a companha<br> + + +Lhe pede que não f aça tal desvio<br> + + +Do caso de Magriço, e vencimento,<br> + + +Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +Mas, neste passo, assim prontos estando<br> + + +Eis o mestre, que olhando os ares anda,<br> + + +O apito toca; acordam despertando<br> + + +Os marinheiros duma e doutra banda;<br> + + +E porque o vento vinha refrescando,<br> + + +Os traquetes das gáveas tomar manda:<br> + + +"Alerta, disse, estai, que o vento cresce<br> + + +Daquela nuvem negra que aparece."<br> + + +<br> + + +71<br> + + +Não eram os traquetes bem tomados,<br> + + +Quando dá a grande e súbita procela:<br> + + +"Amaina, disse o mestre a grandes brados,<br> + + +Amaina, disse, amaina a grande vela!"<br> + + +Não esperam os ventos indinados<br> + + +Que amainassem; mas juntos dando nela,<br> + + +Em pedaços a fazem, com um ruído<br> + + +Que o mundo pareceu ser destruído.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +O céu fere com gritos nisto a gente,<br> + + +Com súbito temor e desacordo,<br> + + +Que, no romper da vela, a nau pendente<br> + + +Toma grã suma d'água pelo bordo:<br> + + +"Alija, disse o mestre rijamente,<br> + + +Alija tudo ao mar; não falte acordo.<br> + + +Vão outros dar à bomba, não cessando;<br> + + +A bomba, que nos imos alagando!"<br> + + +<br> + + +73<br> + + +Correm logo os soldados animosos<br> + + +A dar à bomba; e, tanto que chegaram,<br> + + +Os balanços que os mares temerosos<br> + + +Deram à nau, num bordo os derribaram.<br> + + +Três marinheiros, duros e forçosos,<br> + + +A menear o leme não bastaram;<br> + + +Talhas lhe punham duma e doutra parte,<br> + + +Sem aproveitar dos homens força e arte.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +Os ventos eram tais, que não puderam<br> + + +Mostrar mais força do ímpeto cruel,<br> + + +Se para derribar então vieram<br> + + +A fortíssima torre de Babel.<br> + + +Nos altíssimos mares, que cresceram,<br> + + +A pequena grandura dum batel<br> + + +Mostra a possante nau, que move espanto,<br> + + +Vendo que se sustém nas ondas tanto.<br> + + +<br> + + +75<br> + + +A nau grande, em que vai Paulo da Gama,<br> + + +Quebrado leva o masto pelo meio.<br> + + +Quase toda alagada: a gente chama<br> + + +Aquele que a salvar o mundo veio.<br> + + +Não menos gritos vãos ao ar derrama<br> + + +Toda a nau de Coelho, com receio,<br> + + +Conquanto teve o mestre tanto tento,<br> + + +Que primeiro amainou, que desse o vento.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +Agora sobre as nuvens os subiam<br> + + +As ondas de Netuno furibundo;<br> + + +Agora a ver parece que desciam<br> + + +As íntimas entranhas do Profundo.<br> + + +Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam<br> + + +Arruinar a máquina do mundo:<br> + + +A noite negra e feia se alumia<br> + + +Com os raios, em que o Pólo todo ardia.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +As Alcióneas aves triste canto<br> + + +Junto da costa brava levantaram,<br> + + +Lembrando-se do seu passado pranto,<br> + + +Que as furiosas águas lhe causaram.<br> + + +Os delfins namorados entretanto<br> + + +Lá nas covas marítimas entraram,<br> + + +Fugindo à tempestade e ventos duros,<br> + + +Que nem no fundo os deixa estar segui-os.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +Nunca tão vivos raios fabricou<br> + + +Contra a fera soberba dos Gigantes<br> + + +O grã ferreiro sórdido, que obrou<br> + + +Do enteado as armas radiantes;<br> + + +Nem tanto o grã Tonante arremessou<br> + + +Relâmpagos ao mundo fulminantes,<br> + + +No grã dilúvio, donde sós viveram<br> + + +Os dois que em gente as pedras converteram.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +Quantos montes, então, que derribaram<br> + + +As ondas que batiam denodadas!<br> + + +Quantas árvores velhas arrancaram<br> + + +Do vento bravo as fúrias indinadas!<br> + + +As forçosas raízes não cuidaram<br> + + +Que nunca para o céu fossem viradas,<br> + + +Nem as fundas areias que pudessem<br> + + +Tanto os mares que em cima as revolvessem.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +Vendo Vasco da Gama que tão perto<br> + + +Do fim de seu desejo se perdia;<br> + + +Vendo ora o mar até o inferno aberto,<br> + + +Ora com nova fúria ao céu subia,<br> + + +Confuso de temor, da vida incerto,<br> + + +Onde nenhum remédio lhe valia,<br> + + +Chama aquele remédio santo é forte,<br> + + +Que o impossível pode, desta sorte:<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"Divina Guarda, angélica, celeste,<br> + + +Que os céus, o mar e terra senhoreias;<br> + + +Tu, que a todo Israel refúgio deste<br> + + +Por metade das águas Eritreias;<br> + + +Tu, que livraste Paulo e o defendeste<br> + + +Das Sirtes arenosas e ondas feias,<br> + + +E guardaste com os filhos o segundo<br> + + +Povoador do alagado e vácuo mundo;<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"Se tenho novos modos perigosos<br> + + +Doutra Cila e Caríbdis já passados,<br> + + +Outras Sirtes e baixos arenosos,<br> + + +Outros Acroceráunios infamados,<br> + + +No fim de tantos casos trabalhosos,<br> + + +Por que somos de ti desamparados,<br> + + +Se este nosso trabalho não te ofende,<br> + + +Mas antes teu serviço só pretende?<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"Ó ditosos aqueles que puderam<br> + + +Entre as agudas lanças Africanas<br> + + +Morrer, enquanto fortes sostiveram<br> + + +A santa Fé nas terras Mauritanas!<br> + + +De quem feitos ilustres se souberam,<br> + + +De quem ficam memórias soberanas,<br> + + +De quem se ganha a vida com perdê-la,<br> + + +Doce fazendo a morte as honras dela!"<br> + + +<br> + + +84<br> + + +Assim dizendo, os ventos que lutavam<br> + + +Como touros indómitos bramando,<br> + + +Mais e mais a tormenta acrescentavam<br> + + +Pela miúda enxárcia assoviando.<br> + + +Relâmpados medonhos não cessavam,<br> + + +Feros trovões, que vêm representando<br> + + +Cair o céu dos eixos sobre a terra,<br> + + +Consigo os elementos terem guerra.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +Mas já a amorosa estrela cintilava<br> + + +Diante do Sol claro, no Horizonte,<br> + + +Mensageira do dia, e visitava<br> + + +A terra e o largo mar, com leda fronte.<br> + + +A densa que nos céus a governava,<br> + + +De quem foge o ensífero Orionte,<br> + + +Tanto que o mar e a cara armada vira,<br> + + +Tocada junto foi de medo e de ira.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +"Estas obras de Baco são, por certo,<br> + + +Disse; mas não será que avante leve<br> + + +Tão danada tenção, que descoberto<br> + + +Me será sempre o mil a que se atreve."<br> + + +Isto dizendo, desce ao mar aberto,<br> + + +No caminho gastando espaço breve,<br> + + +Enquanto manda as Ninfas amorosas<br> + + +Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +Grinaldas manda pôr de várias cores<br> + + +Sobre cabelo; louros à porfia.<br> + + +Quem não dirá que nascem roxas flores<br> + + +Sobre ouro natural, que Amor enfia?<br> + + +Abrandar determina, por amores,<br> + + +Dos ventos a nojosa companhia,<br> + + +Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,<br> + + +Que mais formosas vinham que as estrelas.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +Assim foi; porque, tanto que chegaram<br> + + +A vista delas, logo lhe falecem<br> + + +As forças com que dantes pelejaram,<br> + + +E já como rendidos lhe obedecem.<br> + + +Os pés e mãos parece que lhe ataram<br> + + +Os cabelos que os raios escurecem.<br> + + +A Bóreas, que do peito mais queria,<br> + + +Assim disse a belíssima Oritia:<br> + + +<br> + + +89<br> + + +"Não creias, fero Bóreas, que te creio<br> + + +Que me tiveste nunca amor constante,<br> + + +Que brandura é de amor mais certo arreio,<br> + + +E não convém furor a firme amante.<br> + + +Se já não pões a tanta +insânia freio,<br> + + +Não esperes de mi, daqui em diante,<br> + + +Que possa mais amar-te, mas temer-te;<br> + + +Que amor contigo em medo se converte."<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Assim mesmo a formosa Galateia<br> + + +Dizia ao fero Noto, que bem sabe<br> + + +Que dias há que em vê-la se recreia,<br> + + +E bem crê que com ele tudo acabe.<br> + + +Não sabe o bravo tanto bem se o creia,<br> + + +Que o coração no peito lhe não cabe,<br> + + +De contente de ver que a dama o manda,<br> + + +Pouco cuida que faz, se logo abranda.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Desta maneira as outras amansavam<br> + + +Subitamente os outros amadores;<br> + + +E logo à linda Vénus se entregavam,<br> + + +Amansadas as iras e os furores.<br> + + +Ela lhe prometeu, vendo que amavam,<br> + + +Sempiterno favor em seus amores,<br> + + +Nas belas mãos tomando-lhe homenagem<br> + + +De lhe serem leais esta viagem.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Já a manhã clara dava nos outeiros<br> + + +Por onde o Ganges murmurando soa,<br> + + +Quando da celsa gávea os marinheiros<br> + + +Enxergaram terra alta pela proa.<br> + + +Já fora de tormenta, e dos primeiros<br> + + +Mares, o temor vão do peito voa.<br> + + +Disse alegre o piloto Melindano:<br> + + +"Terra é de Calecu, se não me engano.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +"Esta é por certo a terra que buscais<br> + + +Da verdadeira Índia, que aparece;<br> + + +E se do mundo mais não desejais,<br> + + +Vosso trabalho longo aqui fenece."<br> + + +Sofrer aqui não pode o Gama mais,<br> + + +De ledo em ver que a terra se conhece:<br> + + +Os geolhos no chão, as mãos ao céu,<br> + + +A mercê grande a Deus agradeceu.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +As graças a Deus dava, e razão tinha,<br> + + +Que não somente a terra lhe mostrava,<br> + + +Que com tanto temor buscando vinha,<br> + + +Por quem tanto trabalho experimentava;<br> + + +Mas via-se livrado tão asinha<br> + + +Da morte, que no mar lhe aparelhava<br> + + +O vento duro, fervido e medonho,<br> + + +Como quem despertou de horrendo sonho.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +Por meio destes hórridos perigos,<br> + + +Destes trabalhos graves e temores,<br> + + +Alcançam os que são de fama amigos<br> + + +As honras imortais e graus maiores:<br> + + +Não encostados sempre nos antigos<br> + + +Troncos nobres de seus antecessores;<br> + + +Não nos leitos dourados, entre os finos<br> + + +Animais de Moscóvia zebelinos;<br> + + +<br> + + +96<br> + + +Não com os manjares novos e esquisitos,<br> + + +Não com os passeios moles e ociosos,<br> + + +Não com os vários deleites e infinitos,<br> + + +Que afeminam os peitos generosos,<br> + + +Não com os nunca vencidos apetitos<br> + + +Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,<br> + + +Que não sofre a nenhum que o passo mude<br> + + +Para alguma obra heróica de virtude;<br> + + +<br> + + +97<br> + + +Mas com buscar com o seu forçoso braço<br> + + +As honras, que ele chame próprias suas;<br> + + +Vigiando, e vestindo o forjado aço,<br> + + +Sofrendo tempestades e ondas cruas;<br> + + +Vencendo os torpes frios no regaço<br> + + +Do Sul e regiões de abrigo nuas;<br> + + +Engolindo o corrupto mantimento,<br> + + +Temperado com um árduo sofrimento;<br> + + +<br> + + +98<br> + + +E com forçar o rosto, que se enfia,<br> + + +A parecer seguro, ledo, inteiro,<br> + + +Para o pelouro ardente, que assovia<br> + + +E leva a perna ou braço ao companheiro.<br> + + +Destarte, o peito um calo honroso cria,<br> + + +Desprezador das honras e dinheiro,<br> + + +Das honras e dinheiro, que a ventura<br> + + +Forjou, e não virtude justa e dura.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +Destarte se esclarece o entendimento,<br> + + +Que experiências fazem repousado,<br> + + +E fica vendo, corno de alto assento,<br> + + +O baixo trato humano embaraçado.<br> + + +Este, onde tiver força o regimento<br> + + +Direito, e não de afeitos ocupado,<br> + + +Subirá (como deve) a ilustre mando,<br> + + +Contra vontade sua, e não rogando.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Sétimo</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Já se viam chegados junto à terra,<br> + + +Que desejada já de tantos fora,<br> + + +Que entre as correntes Indicas se encerra,<br> + + +E o Ganges, que no céu terreno mora.<br> + + +Ora, sus, gente forte, que na guerra<br> + + +Quereis levar a palma vencedora,<br> + + +Já sois chegados, já tendes diante<br> + + +A terra de riquezas abundante.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +A vós, ó geração de Luso, +digo,<br> + + +Que tão pequena parte sois no inundo;<br> + + +Não digo ainda no mundo, mas no amigo<br> + + +Curral de quem governa o céu rotundo;<br> + + +Vós, a quem não somente algum perigo<br> + + +Estorva conquistar o povo imundo,<br> + + +Mas nem cobiça, ou pouca obediência<br> + + +Da Madre, que nos céus está em essência;<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,<br> + + +Que o fraco poder vosso não pesais;<br> + + +Vós, que à custa de vossas várias +mortes<br> + + +A lei da vida eterna dilatais:<br> + + +Assim do céu deitadas são as sortes,<br> + + +Que vós, por muito poucos que sejais,<br> + + +Muito façais na santa Cristandade:<br> + + +Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!<br> + + +<br> + + +4<br> + + +Vede-los Alemães, soberbo gado,<br> + + +Que por tão largos campos se apascenta,<br> + + +Do sucessor de Pedro, rebelado,<br> + + +Novo pastor, e nova seita inventa:<br> + + +Vede-lo em feias guerras ocupado,<br> + + +Que ainda com o cego error se não contenta,<br> + + +Não contra o soberbíssimo Otomano,<br> + + +Mas por sair do jugo soberano.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Vede-lo duro Inglês, que se nomeia<br> + + +Rei da velha e santíssima cidade,<br> + + +Que o torpe Ismaelita senhoreia,<br> + + +(Quem viu honra tão longe da verdade?)<br> + + +Entre as Boreais neves se recreia,<br> + + +Nova maneira faz de Cristandade:<br> + + +Para os de Cristo tem a espada nua,<br> + + +Não por tomar a terra que era sua.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +Guarda-lhe por entanto um falso Rei<br> + + +A cidade Hierosólima terrestre,<br> + + +Enquanto ele não guarda a santa lei<br> + + +Da cidade Hierosólima celeste.<br> + + +Pois de ti, Galo indigno, que direi?<br> + + +Que o nome Cristianíssimo quiseste,<br> + + +Não para defendê-lo, nem guardá-lo,<br> + + +Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!<br> + + +<br> + + +7<br> + + +Achas que tens direito em senhorios<br> + + +De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,<br> + + +E não contra o Cinífio e Nilo, rios<br> + + +Inimigos do antigo nome santo?<br> + + +Ali se hão de provar da espada os fios<br> + + +Em quem quer reprovar da Igreja o canto.<br> + + +De Carlos, de Luís, o nome e a terra<br> + + +Herdaste, e as causas não da justa guerra?<br> + + +<br> + + +8<br> + + +Pois que direi daqueles que em delícias,<br> + + +Que o vil ócio no mundo traz consigo,<br> + + +Gastam as vidas, logram as divícias,<br> + + +Esquecidos de seu valor antigo?<br> + + +Nascem da tirania inimicícias,<br> + + +Que o povo forte tem de si inimigo:<br> + + +Contigo, Itália, falo, já submersa<br> + + +Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +Ó míseros Cristãos, pela ventura,<br> + + +Sois os dentes de Cadmo desparzidos,<br> + + +Que uns aos outros se dão a morte dura,<br> + + +Sendo todos de um ventre produzidos?<br> + + +Não vedes a divina sepultura<br> + + +Possuída de cães, que sempre unidos<br> + + +Vos vêm tomar a vossa antiga terra,<br> + + +Fazendo-se famosos pela guerra?<br> + + +<br> + + +10<br> + + +Vedes que têm por uso e por decreto,<br> + + +Do qual são tão inteiros observantes,<br> + + +Ajuntarem o exército inquieto<br> + + +Contra os povos que são de Cristo amantes;<br> + + +Entre vós nunca deixa a fera Aleto<br> + + +De semear cizânias repugnantes:<br> + + +Olhai se estais seguros de perigos,<br> + + +Que eles e vós sois vossos inimigos.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Se cobiça de grandes senhorios<br> + + +Vos faz ir conquistar terras alheias,<br> + + +Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,<br> + + +Ambos volvem auríferas areias?<br> + + +Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;<br> + + +África esconde em si luzentes veias;<br> + + +Mova-vos já sequer riqueza tanta,<br> + + +Pois mover-vos não pode a Casa Santa.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +Aquelas invenções feras e novas<br> + + +De instrumentos mortais da artilharia,<br> + + +Já devem de fazer as duras provas<br> + + +Nos muros de Bizâncio e de Turquia.<br> + + +Fazei que torne lá às silvestres covas<br> + + +Dos Cáspios montes, e da Cítia fria<br> + + +A Turca geração, que multiplica<br> + + +Na polícia da vossa Europa rica.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,<br> + + +Bradando-vos estão que o povo bruto<br> + + +Lhe obriga os caros filhos aos profanos<br> + + +Preceptos do Alcorão (duro tributo!)<br> + + +Em castigar os feitos inumanos<br> + + +Vos gloriai de peito forte e astuto,<br> + + +E não queirais louvores arrogantes<br> + + +De serdes contra os vossos muito possantes.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Mas entanto que cegos o sedentos<br> + + +Andais de vosso sangue, ó gente insana!<br> + + +Não faltarão Cristãos atrevimentos<br> + + +Nesta pequena casa Lusitana:<br> + + +De África tem marítimos assentos,<br> + + +É na Ásia mais que todas soberana,<br> + + +Na quarta parte nova os campos ara,<br> + + +E se mais mundo houvera, lá chegara.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +E vejamos entanto que acontece<br> + + +Aqueles tão famosos navegantes,<br> + + +Depois que a branda Vénus enfraquece<br> + + +O furor vão dos ventos repugnantes:<br> + + +Depois que a larga terra lhe aparece,<br> + + +Fim de suas porfias tão constantes,<br> + + +E dar novo costume e novo Rei.<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Tanto que à nova terra se chegaram,<br> + + +Leves embarcações de pescadores<br> + + +Acharam, que o caminho lhe mostraram<br> + + +De Calecu, onde eram moradores.<br> + + +Para lá logo as proas se inclinaram,<br> + + +Porque esta era a cidade das melhores<br> + + +Do Malabar melhor, onde vivia<br> + + +O Rei que a terra toda possuía.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +Além do Indo jaz, e aquém do Gange,<br> + + +Um terreno muito grande e assaz famoso,<br> + + +Que pela parte Austral o mar abrange,<br> + + +E para o Norte o Emódio cavernoso.<br> + + +Jugo de Reis diversos o constrange<br> + + +A várias leis: alguns o vicioso<br> + + +Mahoma, alguns os ídolos adoram,<br> + + +Alguns os animais, que entre eles morri.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +Lá bem no grande monte, que cortando<br> + + +Tão larga terra, toda Ásia discorre,<br> + + +Que nomes tão diversos vai tomando,<br> + + +Segundo as regiões por onde corre,<br> + + +As fontes saem, donde vêm manando<br> + + +Os rios, cuja grã corrente morre<br> + + +No mar Índico, e cercam todo o peso<br> + + +Do terreno, fazendo-o Quersoneso.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Entro um e outro rio, em grande espaço,<br> + + +Sai da larga terra uma loira ponta<br> + + +Quase piramidal, que no regaço<br> + + +Do mar com Ceilão ínsula confronta;<br> + + +E junto donde nasce o largo braço<br> + + +Gangético, o rumor antigo conta<br> + + +Que os vizinhos, da terra moradores,<br> + + +Do cheiro se mantêm das finas flores.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Mas agora de nomes e de usança<br> + + +Novos e vários são os habitantes:<br> + + +Os Delis, os Patanes, que em possança<br> + + +De terra e gente, são mais abundantes;<br> + + +Decanis, Oriás, que a esperança<br> + + +Têm de sua salvação nas ressonantes<br> + + +Águas do Gange, e a terra de Bengala<br> + + +Fértil de sorte que outra não lhe iguala.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +O Reino de Cambaia belicoso<br> + + +(Dizem que foi de Poro, Rei potente)<br> + + +O Reino de Narsinga, poderoso<br> + + +Mais de ouro e pedras que de forte gente.<br> + + +Aqui se enxerga lá do mar undoso<br> + + +Um monte alto, que corre longamente,<br> + + +Servindo ao Malabar de forte muro,<br> + + +Com que do Canará vive seguro.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Da terra os naturais lhe chamam Gate,<br> + + +Do pé do qual pequena quantidade<br> + + +Se estende uma fralda estreita, que combate<br> + + +Do mar a natural ferocidade.<br> + + +Aqui de outras cidades, sem debate,<br> + + +Calecu tem a ilustre dignidade<br> + + +De cabeça de Império rica e bela:<br> + + +Samorim se intitula o senhor dela.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +Chegada a frota ao rico senhorio,<br> + + +Um Português mandado logo parte<br> + + + A fazer sabedor o Rei gentio<br> + + +Da vinda sua a tão remota parte.<br> + + +Entrando o mensageiro pelo rio,<br> + + +Que ali nas ondas entra, a não vista arte,<br> + + +A cor, o gesto estranho, o trajo novo<br> + + +Fez concorrer a vê-lo todo o povo.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +Entre a gente que a vê-lo concorria,<br> + + +Se chega um Mahometa, que nascido<br> + + +Fora na região da Berberia,<br> + + +Lá onde fora Anteu obedecido:<br> + + +Ou pela vizinhança já teria<br> + + +O Reino Lusitano conhecido,<br> + + +Ou foi já assinalado de seu ferro:<br> + + +Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +Em vendo o mensageiro, com jocundo<br> + + +Rosto, como quem sabe a língua Hispana,<br> + + +Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,<br> + + +Tão longe da tua pátria Lusitana?"<br> + + +—"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,<br> + + +Por onde nunca veio gente humana,<br> + + +Vimos buscar do Indo a grão corrente,<br> + + +Por onde a Lei divina se acrescente."<br> + + +<br> + + +26<br> + + +Espantado ficou da grã viagem<br> + + +O Mouro, que Monçaide se chamava,<br> + + +Ouvindo as opressões que na passagem<br> + + +Do mar, o Lusitano lhe contava:<br> + + +Mas vendo enfim que a f orça da mensagem<br> + + +Só para o Rei da terra relevava,<br> + + +Lhe diz que estava f ora da cidade,<br> + + +Mas de caminho pouca quantidade.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +E que, entanto que a nova lhe chegasse<br> + + +De sua estranha vinda, se queria,<br> + + +Na sua pobre casa repousasse,<br> + + +E do manjar da terra comeria,<br> + + +E depois que se um pouco recreasse,<br> + + +Com ele para a armada tornaria,<br> + + +Que alegria não pode ser tamanha,<br> + + +Que achar gente vizinha em terra estranha.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +O Português aceita de vontade<br> + + +O que o ledo Monçaide lhe oferece;<br> + + +Como se longa fora já a amizade,<br> + + +Com ele come, e bebe, e lhe obedece.<br> + + +Ambos se tornam logo da cidade<br> + + +Para a frota, que o Mouro bem conhece;<br> + + +Sobem à capitania; e toda a gente<br> + + +Monçaide recebeu benignamente.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +O Capitão o abraça em cabo ledo,<br> + + +Ouvindo clara a língua de Castela;<br> + + +Junto de si o assenta, e pronto e quedo,<br> + + +Pela terra pergunta, e cousas dela.<br> + + +Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,<br> + + +Só por ouvir o amante da donzela<br> + + +Eurídice, tocando a lira de ouro,<br> + + +Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +Ele começa: "Ó gente, que a natura<br> + + +Vizinha fez de meu paterno ninho,<br> + + +Que destino tão grande ou que ventura<br> + + +Vos trouxe a cometerdes tal caminho?<br> + + +Não é sem causa, não, oculta e escura,<br> + + +Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,<br> + + +Por mares nunca doutro lenho arados,<br> + + +A Reinos tão remotos e apartados.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Deus por certo vos traz, porque pretende<br> + + +Algum serviço seu por vós obrado;<br> + + +Por isso só vos guia, e vos defende<br> + + +Dos inimigos, do mar, do vento irado.<br> + + +Sabei que estais na Índia, onde se estende<br> + + +Diverso povo, rico e prosperado<br> + + +De ouro luzente e fina pedraria,<br> + + +Cheiro suave, ardente especiaria.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"Esta província, cujo porto agora<br> + + +Tomado tendes, Malabar se chama:<br> + + +Do culto antigo os ídolos adora,<br> + + +Que cá por estas partes se derrama:<br> + + +De diversos Reis é, mas dum só<br> + + +Noutro tempo, segundo a antiga fama;<br> + + +Saramá Perimal foi derradeiro<br> + + +Rei, que este Reino teve unido e inteiro.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Porém, como a esta terra então viessem<br> + + +De lá do seio Arábico outras gentes,<br> + + +Que o culto Mahomético trouxessem,<br> + + +No qual me instituíram meus parentes,<br> + + +Sucedeu que pregando convertessem<br> + + +O Perimal: de sábios e eloquentes,<br> + + +Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,<br> + + +Que pressupôs de nela morrer santo.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"Naus arma, e nelas mete curioso<br> + + +Mercadoria, que ofereça rica,<br> + + +Para ir nelas a ser religioso,<br> + + +Onde o profeta jaz, que a Lei publica;<br> + + +Antes que parta, o Reino poderoso<br> + + +Com os seus reparte, porque não lhe fica<br> + + +Herdeiro próprio, faz os mais aceitos<br> + + +Ricos de pobres, livres de sujeitos.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"A um Cochim, e a outro Cananor,<br> + + +A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,<br> + + +A qual Coulão, a qual dá Cranganor,<br> + + +E os mais, a quem o mais serve e contenta,<br> + + +Um só moço, a quem tinha muito amor,<br> + + +Depois que tudo deu, se lhe apresenta:<br> + + +Para este Calecu somente fica,<br> + + +Cidade já por trato nobre e rica.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"Esta lhe dá com o título excelente<br> + + +De Imperador, que sobre os outros mande.<br> + + +Isto feito, se parte diligente<br> + + +Para onde em santa vida acabe, e ande.<br> + + +E daqui fica o nome de potente<br> + + +Samori, mais que todos digno e grande,<br> + + +Ao moço e descendentes; donde vem<br> + + +Este, que agora o Império manda e tem.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"A Lei da gente toda, rica e pobre,<br> + + +De fábulas composta se imagina:<br> + + +Andam nus, e somente um pano cobre<br> + + +As partes, que a cobrir natura ensina.<br> + + +Dois modos há de gente, porque a nobre<br> + + +Naires chamados são, e a menos digna<br> + + +Poleás tem por nome, a quem obriga<br> + + +A Lei não misturar a casta antiga.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,<br> + + +De outro não podem receber consorte,<br> + + +Nem os filhos terão outro exercício,<br> + + +Senão o de seus passados, até morte.<br> + + +Para os Naires é certo grande vício<br> + + +Destes serem tocados; de tal sorte,<br> + + +Que quando algum se toca, por ventura,<br> + + +Com cerimónias mil se alimpa e apura.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Desta sorte o Judaico povo antigo<br> + + +Não tocava na gente de Samária.<br> + + +Mais estranhezas ainda das que digo<br> + + +Nesta terra vereis de usança vária.<br> + + +Os Naires sós são dados ao perigo<br> + + +Das armas; sós defendem da contrária<br> + + +Banda o seu Rei, trazendo sempre usada<br> + + +Na esquerda a adarga e na direita a espada.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Brâmenes são os seus religiosos,<br> + + +Nome antigo e de grande proeminência:<br> + + +Observam os preceitos tão famosos<br> + + +Dum que primeiro pôs nome à ciência:<br> + + +Não matam coisa viva, e, temerosos,<br> + + +Das carnes têm grandíssima abstinência;<br> + + +Somente no venéreo ajuntamento<br> + + +Têm mais licença e menos regimento.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Gerais são as mulheres, mas somente<br> + + +Para os da geração de seus maridos:<br> + + +Ditosa condição, ditosa gente,<br> + + +Que não são de ciúmes ofendidos!<br> + + +Estes e outros costumes variamente<br> + + +São pelos Malabares admitidos.<br> + + +A terra é grossa em trato, em tudo aquilo<br> + + +Que as ondas podem dar da China ao Nilo."<br> + + +<br> + + +42<br> + + +Assim contava o Mouro; mas vagando<br> + + +Andava a fama já pela cidade<br> + + +Da vinda desta gente estranha, quando<br> + + +O Rei saber mandava da verdade.<br> + + +Já vinham pelas ruas caminhando,<br> + + +Rodeados de todo sexo e idade,<br> + + +Os principais, que o Rei buscar mandara<br> + + +O Capitão da armada, que chegara.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +Mas ele, que do Rei já tem licença<br> + + +Para desembarcar, acompanhado<br> + + +Dos nobres Portugueses, sem detença<br> + + +Parte, de ricos panos adornado.<br> + + +Das cores a formosa diferença<br> + + +A vista alegra ao povo alvoroçado.<br> + + +O remo compassado fere frio<br> + + +Agora o mar, depois o fresco rio.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +Na praia um regedor do Reino estava,<br> + + +Que na sua língua Catual se chama,<br> + + +Rodeado de Naires, que esperava<br> + + +Com desusada festa o nobre Gama.<br> + + +Já na terra, nos braços o levava,<br> + + +E num portátil leito uma rica cama<br> + + +Lhe oferece, em que vá, costume usado,<br> + + +Que nos ombros dos homens é levado.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +Desta arte o Malabar, destarte o Luso<br> + + +Caminham, lá para onde o Rei o espera:<br> + + +Os outros Portugueses vão ao uso<br> + + +Que infantaria segue, esquadra fera.<br> + + +O povo que concorre vai confuso<br> + + +De ver a gente estranha, e bem quisera<br> + + +Perguntar: mas no tempo já passado<br> + + +Na torre de Babel lhe foi vedado.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +O Gama e o Catual iam falando<br> + + +Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;<br> + + +Monçaide entre eles vai interpretando<br> + + +As palavras que de ambos entendia.<br> + + +Assim pela cidade caminhando,<br> + + +Onde uma rica fábrica se erguia<br> + + +De um sumptuoso templo, já chegavam,<br> + + +Pelas portas do qual juntos entravam.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +Ali estão das deidades as figuras<br> + + +Esculpidas em pau e em pedra fria;<br> + + +Vários de gestos, vários de pinturas,<br> + + +A segundo o Demónio lhe fingia:<br> + + +Vêem-se as abomináveis esculturas,<br> + + +Qual a Quimera em membros se varia:<br> + + +Os Cristãos olhos, a ver Deus usados<br> + + +Em forma humana, estão maravilhados.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +Um na cabeça cornos esculpidos,<br> + + +Qual Júpiter Amon em Líbia estava;<br> + + +Outro num corpo rostos tinha unidos,<br> + + +Bem como o antigo Jano se pintava;<br> + + +Outro com muitos braços divididos<br> + + +A Briareu parece que imitava;<br> + + +Outro fronte canina tem de fora,<br> + + +Qual Anúbis Menfítico se adora.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +Aqui feita do bárbaro gentio<br> + + +A supersticiosa adoração,<br> + + +Direitos vão, sem outro algum desvio,<br> + + +Para onde estava o Rei do povo vão.<br> + + +Engrossando-se vai da gente o fio,<br> + + +Com os que vêm ver o estranho Capitão;<br> + + +Estão pelos telhados e janelas<br> + + +Velhos e moços, donas e donzelas.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +Já chegam perto, e não com passos lentos,<br> + + +Dos jardins odoríferos formosos,<br> + + +Que em si escondem os régios aposentos,<br> + + +Altos de torres não, mas sumptuosos.<br> + + +Edificam-se os nobres seus assentos<br> + + +Por entre os arvoredos deleitosos:<br> + + +Assim vivem os Reis daquela gente,<br> + + +No campo e na cidade juntamente.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +Pelos portais da cerca a sutileza<br> + + +Se enxerga da Dedálea facultade,<br> + + +Em figuras mostrando, por nobreza,<br> + + +Da Índia a mais remota antiguidade.<br> + + +Afiguradas vão com tal viveza<br> + + +As histórias daquela antiga idade,<br> + + +Que quem delas tiver notícia inteira,<br> + + +Pela sombra conhece a verdadeira.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +Estava um grande exército que pisa<br> + + +A terra Oriental, que o Idaspe lava;<br> + + +Rege-o um capitão de fronte lisa,<br> + + +Que com frondentes tirsos pelejava;<br> + + +Por ele edificada estiva Nisa<br> + + +Nas ribeiras do rio, que manava,<br> + + +Tão próprio, que se ali estiver Semele,<br> + + +Dirá, por certo, que é seu filho aquele.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +Mais avante bebendo seca o rio<br> + + +Mui grande multidão da Assíria gente,<br> + + +Sujeita a feminino senhorio<br> + + +De uma tão bela como incontinente.<br> + + +Ali tem junto ao lado nunca frio,<br> + + +Esculpido o feroz ginete ardente,<br> + + +Com quem teria o filho competência:<br> + + +Amor nefando, bruta incontinência!<br> + + +<br> + + +54<br> + + +Daqui mais apartadas tremulavam<br> + + +As bandeiras de Grécia gloriosas,<br> + + +Terceira Monarquia, e sojugavam<br> + + +Até as águas Gangéticas undosas.<br> + + +Dum capitão mancebo se guiavam,<br> + + +De palmas rodeado valerosas,<br> + + +Que já, não de Filipo, mas sem falta<br> + + +De progénie de Júpiter se exalta.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +Os Portugueses vendo estas memórias,<br> + + +Dizia o Catual ao Capitão:<br> + + +"Tempo cedo virá que outras vitórias<br> + + +Estas, que agora olhais, abaterão;<br> + + +Aqui se escreverão novas histórias<br> + + +Por gentes estrangeiras que virão;<br> + + +Que os nossos sábios magos o alcançaram<br> + + +Quando o tempo futuro especularam.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +"E diz-lhe mais a mágica ciência<br> + + +Que, para se evitar força tamanha,<br> + + +Não valerá dos homens resistência,<br> + + +Que contra o Céu não val da gente manha;<br> + + +Mas também diz que a bélica excelência,<br> + + +Nas armas e na paz, da gente estranha<br> + + +Será tal, que será no mundo ouvido<br> + + +O vencedor, por glória do vencido,"<br> + + +<br> + + +57<br> + + +Assim falando entravam já na sala,<br> + + +Onde aquele potente Imperador<br> + + +Numa camilha jaz, que não se iguala<br> + + +De outra alguma no preço e no lavor.<br> + + +No recostado gesto se assinala<br> + + +Um venerando e próspero senhor;<br> + + +Um pano de ouro cinge, e na cabeça<br> + + +De preciosas gemas se adereça.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +Bem junto dele um velho reverente,<br> + + +Com os giolhos no chão, de quando em quando<br> + + +Lhe dava a verde folha da erva ardente,<br> + + +Que a seu costume estava ruminando.<br> + + +Um Brâmene, pessoa proeminente,<br> + + +Para o Gama vem com passo brando,<br> + + +Para que ao grande Príncipe o apresente,<br> + + +Que diante lhe acena que se assente.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +Sentado o Gama junto ao rico leito,<br> + + +Os seus mais afastados, pronto em vista<br> + + +Estava o Samori no trajo e jeito<br> + + +Da gente, nunca de antes dele vista.<br> + + +Lançando a grave voz do sábio peito,<br> + + +Que grande autoridade logo aquista<br> + + +Na opinião do Rei e do povo todo,<br> + + +O Capitão lhe fala deste modo:<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"Um grande Rei, de lá das partes Onde<br> + + +O céu volúvel, com perpétua roda,<br> + + +Da terra a luz solar com a terra esconde,<br> + + +Tingindo a que deixou de escura noda,<br> + + +Ouvindo do rumor que lá responde<br> + + +O eco, como em ti da Índia toda<br> + + +O principado está, e a majestade,<br> + + +Vínculo quer contigo de amizade.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"E por longos rodeios a ti manda,<br> + + +Por te fazer saber que tudo aquilo<br> + + +Que sobre o mar, que sobre as terras anda<br> + + +De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,<br> + + +E desde a fria plaga de Gelanda<br> + + +Até bem donde o Sol não muda o estilo<br> + + +Nos dias, sobre a gente de Etiópia,<br> + + +Tudo tem no seu Reino em grande cópia.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"E se queres com pactos e alianças<br> + + +De paz e de amizade sacra e nua<br> + + +Comércio consentir das abastanças<br> + + +Das fazendas da terra sua e tua,<br> + + +Por que cresçam as rendas e abastanças,<br> + + +Por quem a gente mais trabalha e sua,<br> + + +De vossos Reinos, será certamente<br> + + +De ti proveito, o dele glória ingente.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"E sendo assim, que o nó desta amizade<br> + + +Entre vós firmemente permaneça,<br> + + +Estará pronto a toda adversidade,<br> + + +Que por guerra a teu Reino se ofereça,<br> + + +Com gente, armas e naus, de qualidade<br> + + +Que por irmão te tenha e te conheça;<br> + + +E da vontade em ti sobre isto posta<br> + + +Me dês a mim certíssima resposta."<br> + + +<br> + + +64<br> + + +Tal embaixada dava o Capitão,<br> + + +A quem o Rei gentio respondia<br> + + +Que, em ver embaixadores de nação<br> + + +Tão remota, grã glória recebia;<br> + + +Mas neste caso a última tenção<br> + + +Com os de seu conselho tomaria,<br> + + +Informando-se certo de quem era<br> + + +O Rei, e a gente, e terra que dissera..<br> + + +<br> + + +65<br> + + +E que entanto podia do trabalho<br> + + +Passado ir repousar, e em tempo breve<br> + + +Daria a seu despacho um justo talho,<br> + + +Com que a seu Rei resposta alegre leve.<br> + + +Já nisto punha a noite o usado atalho<br> + + +As humanas canseiras, por que ceve<br> + + +De doce sono os membros trabalhados,<br> + + +Os olhos ocupando ao ócio dados.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +Agasalhados foram juntamente<br> + + +O Gama e Portugueses no aposento<br> + + +Do nobre Regedor da Índica gente,<br> + + +Com festas e geral contentamento.<br> + + +O Catual, no cargo diligente<br> + + +De seu Rei, tinha já por regimento<br> + + +Saber da gente estranha donde vinha,<br> + + +Que costumes, que lei, que terra tinha.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +Tanto que os ígneos carros do formoso<br> + + +Mancebo Délio viu, que a luz renova,<br> + + +Manda chamar Monçaide, desejoso<br> + + +De poder-se informar da gente nova.<br> + + +Já lhe pergunta pronto e curioso,<br> + + +Se tem notícia inteira e certa prova<br> + + +Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha<br> + + +Que é gente de sua pátria muito vizinha;<br> + + +<br> + + +68<br> + + +Que particularmente ali lhe desse<br> + + +Informação mui larga, pois faria<br> + + +Nisso serviço ao Rei, por que soubesse<br> + + +O que neste negócio se faria.<br> + + +Monçaide torna:—"Posto que eu quisesse<br> + + +Dizer-te disto mais, não saberia;<br> + + +Somente sei que é gente lá de Espanha,<br> + + +Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Têm a lei dum Profeta, que gerado<br> + + +Foi sem fazer na carne detrimento<br> + + +Da mãe, tal que por bafo está aprovado<br> + + +Do Deus, que tem do mundo o regimento,<br> + + +O que entre meus antigos é vulgado<br> + + +Deles, é que o valor sanguinolento<br> + + +Das armas no seu braço resplandece,<br> + + +O que em nossos passados se parece.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Porque eles, com virtude sobre-humana,<br> + + +Os deitaram dos campos abundosos<br> + + +Do rico Tejo e fresco Goadiana,<br> + + +Com feitos memoráveis e famosos:<br> + + +E não contentes ainda, e na Africana<br> + + +Parte, cortando os mares procelosos,<br> + + +Nos não querem deixar viver seguros,<br> + + +Tomando-nos cidades e altos muros.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Não menos têm mostrado esforço e manha<br> + + +Em quaisquer outras guerras que aconteças,<br> + + +Ou das gentes belígeras de Espanha,<br> + + +Ou lá dalguns que do Pírene desçam.<br> + + +Assim que nunca enfim com lança estranha<br> + + +Se tem, que por vencidos se conheçam,<br> + + +Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,<br> + + +Para estes Anibais nenhum Marcelo.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"E se esta informação não for inteira<br> + + +Tanto quanto convém, deles pretende<br> + + +Informar-te, que é gente verdadeira,<br> + + +A quem mais falsidade enoja e ofende:<br> + + +Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira<br> + + +Do fundido metal, que tudo rende,<br> + + +E folgarás de veres a polícia<br> + + +Portuguesa na paz e na milícia."<br> + + +<br> + + +73<br> + + +Já com desejos o Idolatra ardia<br> + + +De ver isto, que o Mouro lhe contava.<br> + + +Manda esquipar batéis que ir ver queria<br> + + +Os lenhos em que o Gama navegava.<br> + + +Ambos partem da praia, a quem seguia<br> + + +A Naira geração, que o mar coalhava.<br> + + +A capitania sobem forte e bela,<br> + + +Onde Paulo os recebe a bordo dela.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +Purpúreos são os toldos, e as bandeiras<br> + + +Do rico fio são que o bicho gera;<br> + + +Nelas estão pintadas as guerreiras<br> + + +Obras, que o forte braço já fizera:<br> + + +Batalhas tem campais, aventureiras,<br> + + +Desafios cruéis, pintura fera,<br> + + +Que, tanto que ao Gentio se apresenta,<br> + + +A tento nela os olhos apascenta.<br> + + +<br> + + +75<br> + + +Pelo que vê pergunta; mas o Gama<br> + + +Lhe pedia primeiro que se assente,<br> + + +E que aquele deleite, que tanto ama<br> + + +A seita Epicureia, experimente.<br> + + +Dos espumantes vasos se derrama<br> + + +O licor que Noé mostrara à gente:<br> + + +Mas comer o Gentio não pretende,<br> + + +Que a seita que seguia lho defende.<br> + + +<br> + + +76<br> + + +A trombeta que, em paz, no pensamento<br> + + +Imagem faz de guerra, rompe os ares;<br> + + +Com o fogo o diabólico instrumento<br> + + +Se faz ouvir no fundo lá dos mares.<br> + + +Tudo o Gentio nota; mas o intento<br> + + +Mostrava sempre ter nos singulares<br> + + +Feitos dos homens, que em retrato breve<br> + + +A muda poesia ali descreve<br> + + +<br> + + +77<br> + + +Alça-se em pé, com ele o Gama junto,<br> + + +Coelho de outra parti, e o Mauritano;<br> + + +Os olhos põe no bélico transunto<br> + + +De um velho branco, aspecto venerando<br> + + +Cujo nome não pode ser defunto<br> + + +Enquanto houver no mundo trato humano:<br> + + +No trajo a Grega usança está perfeita,<br> + + +Um ramo por insígnia na direita.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!<br> + + +Eu, que cometo insano e temerário,<br> + + +Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,<br> + + +Por caminho tão árduo, longo e vário!<br> + + +Vosso favor invoco, que navego<br> + + +Por alto mar, com vento tão contrário,<br> + + +Que, se não me ajudais, hei grande medo<br> + + +Que o meu fraco batel se alague cedo.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +Olhai que há tanto tempo que, cantando<br> + + +O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,<br> + + +A fortuna mo traz peregrinando,<br> + + +Novos trabalhos vendo, e novos danos:<br> + + +Agora o mar, agora experimentando<br> + + +Os perigos Mavórcios inumanos,<br> + + +Qual Canace, que à morte se condena,<br> + + +Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +Agora, com pobreza avorrecida,<br> + + +Por hospícios alheios degradado;<br> + + +Agora, da esperança já adquirida,<br> + + +De novo, mais que nunca, derribado;<br> + + +Agora às costas escapando a vida,<br> + + +Que dum fio pendia tão delgado<br> + + +Que não menos milagre foi salvar-se<br> + + +Que para o Rei Judaico acrescentar-se.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +E ainda, Ninfas minhas, não bastava<br> + + +Que tamanhas misérias me cercassem,<br> + + +Senão que aqueles, que eu cantando andava<br> + + +Tal prémio de meus versos me tornassem:<br> + + +A troco dos descansos que esperava,<br> + + +Das capelas de louro que me honrassem,<br> + + +Trabalhos nunca usados me inventaram,<br> + + +Com que em tão duro estado me deitaram.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +Vede, Ninfas, que engenhos de senhores<br> + + +O vosso Tejo cria valorosos,<br> + + +Que assim sabem prezar com tais favores<br> + + +A quem os faz, cantando, gloriosos!<br> + + +Que exemplos a futuros escritores,<br> + + +Para espertar engenhos curiosos,<br> + + +Para porem as coisas em memória,<br> + + +Que merecerem ter eterna glória!<br> + + +<br> + + +83<br> + + +Pois logo em tantos males é forçado,<br> + + +Que só vosso favor me não faleça,<br> + + +Principalmente aqui, que sou chegado<br> + + +Onde feitos diversos engrandeça:<br> + + +Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado<br> + + +Que não o empregue em quem o não +mereça,<br> + + +Nem por lisonja louve algum subido,<br> + + +Sob pena de não ser agradecido.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse<br> + + +A quem ao bem comum e do seu Rei<br> + + +Antepuser seu próprio interesse,<br> + + +Inimigo da divina e humana Lei.<br> + + +Nenhum ambicioso, que quisesse<br> + + +Subir a grandes cargos, cantarei,<br> + + +Só por poder com torpes exercícios<br> + + +Usar mais largamente de seus vícios;<br> + + +<br> + + +85<br> + + +Nenhum que use de seu poder bastante,<br> + + +Para servir a seu desejo feio,<br> + + +E que, por comprazer ao vulgo errante,<br> + + +Se muda em mais figuras que Proteio.<br> + + +Nem, Camenas, também cuideis que canto<br> + + +Quem, com hábito honesto e grave, veio,<br> + + +Por contentar ao Rei no ofício novo,<br> + + +A despir e roubar o pobre povo.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +Nem quem acha que é justo e que é direito<br> + + +Guardar-se a lei do Rei severamente,<br> + + +E não acha que é justo e bom respeito,<br> + + +Que se pague o suor da servil gente;<br> + + +Nem quem sempre, com pouco experto peito,<br> + + +Razões aprende, e cuida que é prudente,<br> + + +Para taxar, com mão rapace e escassa,<br> + + +Os trabalhos alheios, que não passa.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +Aqueles sós direi, que aventuraram<br> + + +Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,<br> + + +Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,<br> + + +Tão bem de suas obras merecida.<br> + + +Apolo, e as Musas que me acompanharam,<br> + + +Me dobrarão a fúria concedida,<br> + + +Enquanto eu tomo alento descansado,<br> + + +Por tornar ao trabalho, mais folgado.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Oitavo</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Na primeira figura se detinha<br> + + +O Catual que vira estar pintada,<br> + + +Que por divisa um ramo na mão tinha,<br> + + +A barba branca, longa e penteada:<br> + + +"Quem era, e por que causa lhe convinha<br> + + +A divisa, que tem na mão tomada?"<br> + + +Paulo responde, cuja voz discreta<br> + + +O Mauritano sábio lhe interpreta.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +"Estas figuras todas que aparecem,<br> + + +Bravos em vista e feros nos aspectos,<br> + + +Mais bravos e mais feros se conhecem,<br> + + +Pela fama, nas obras e nos feitos:<br> + + +Antigos são, mas ainda resplandecem<br> + + +Colo nome, entre os engenhos mais perfeito<br> + + +Este que vês é Luso, donde a fama<br> + + +O nosso Reino Lusitânia chama.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +"Foi filho e companheiro do Tebano,<br> + + +Que tão diversas partes conquistou;<br> + + +Parece vindo ter ao ninho Hispano<br> + + +Seguindo as armas, que contino usou;<br> + + +Do Douro o Guadiana o campo ufano,<br> + + +Já dito Elísio, tanto o contentou,<br> + + +Que ali quis dar aos já cansados ossos<br> + + +Eterna sepultura, e nome aos nossos.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +"O ramo que lhe vês para divisa,<br> + + +O verde tirso foi de Baco usado;<br> + + +O qual à nossa idade amostra e avisa<br> + + +Que foi seu companheiro e filho amido.<br> + + +Vês outro, que do Tejo a terra pisa,<br> + + +Depois de ter tão longo mar arado,<br> + + +Onde muros perpétuos edifica,<br> + + +E templo a Palas, que em memória fica?<br> + + +<br> + + +5<br> + + +"Ulisses é o que faz a santa casa<br> + + +A Deusa, que lhe dá língua facunda;<br> + + +Que, se lá na Ásia Tróia insigne +abrasa,<br> + + +Cá na Europa Lisboa ingente funda."<br> + + +—"Quem será estoutro cá, que o campo +arrasa<br> + + +De mortos, com presença furibunda?<br> + + +Grandes batalhas tem desbaratadas,<br> + + +Que as águias nas bandeiras tem pintadas."<br> + + +<br> + + +6<br> + + +Assim o Gentio diz. Responde o Gama:<br> + + +—"Este que vês, pastor já foi de gado;<br> + + +Viriato sabemos que se chama,<br> + + +Destro na lança mais que no cajado;<br> + + +Injuriada tem de Roma a f ama,<br> + + +Vencedor invencível afamado;<br> + + +Não tem com ele, não, nem ter puderam<br> + + +O primor que com Pirro já tiveram.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +"Com força, não; com manha vergonhosa,<br> + + +A vida lhe tiraram que os espanta:<br> + + +Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,<br> + + +As vezes leis magnânimas quebranta.<br> + + +Outro está aqui que, contra a pátria irosa,<br> + + +Degradado, conosco se alevanta:<br> + + +Escolheu bem com quem se alevantasse,<br> + + +Para que eternamente se ilustrasse.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +"Vês? conosco também vence as bandeiras<br> + + +Dessas aves de Júpiter validas;<br> + + +Que já naquele tempo as mais Guerreiras<br> + + +Gentes de nós souberam ser vencidas.<br> + + +Olha tão subtis artes e maneiras,<br> + + +Para adquirir os povos, tão fingidas,<br> + + +A fatídica Cerva que o avisa:<br> + + +Ele é Sertório, e ela a sua divisa.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +"Olha estoutra bandeira, e vê pintado<br> + + +O grã progenitor dos Reis primeiros.<br> + + +Nós Úngaro o fazemos, porém nado<br> + + +Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.<br> + + +Depois de ter com os Mouros superado,<br> + + +Galegos e Leoneses cavaleiros,<br> + + +A casa Santa passa o santo Henrique,<br> + + +Por que o tronco dos Reis se santifique."<br> + + +<br> + + +10<br> + + +"Quem é, me diz, este outro que me espanta,<br> + + +(Pergunta o Malabar maravilhado)<br> + + +Que tantos esquadrões, que gente tanta,<br> + + +Com tão pouca, tem roto e destroçado?<br> + + +Tantos muros aspérrimos quebranta,<br> + + +Tantas batalhas dá, nunca cansado,<br> + + +Tantas coroas tem por tantas partes<br> + + +A seus pés derribadas, e estandartes!"<br> + + +<br> + + +11<br> + + +—"Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,<br> + + +Que todo Portugal aos Mouros toma;<br> + + +Por quem, no Estígio lago, jura a Fama<br> + + +De mais não celebrar nenhum de Roma.<br> + + +Este é aquele zeloso a quem Deus ama,<br> + + +Com cujo braço o Mouro inimigo doma,<br> + + +Para quem de seu Reino abaixa os muros,<br> + + +Nada deixando já para os futuros,<br> + + +<br> + + +12<br> + + +"Se César, se Alexandre Rei, tiveram<br> + + +Tão pequeno poder, tão pouca gente,<br> + + +Contra tantos inimigos quantos eram<br> + + +Os que desbaratava este excelente,<br> + + +Não creias que seus nomes se estendera<br> + + +Com glórias imortais tão largamente;<br> + + +Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,<br> + + +Vê que os de seus vassalos são notáveis.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +"Este que vês olhar com gesto irado<br> + + +Para o rompido aluno mal sofrido,<br> + + +Dizendo-lhe que o exército espalhado<br> + + +Recolha, e torne ao campo defendido;<br> + + +Torna o moço do velho acompanhado,<br> + + +Que vencedor o torna de vencido:<br> + + +Egas Moniz se chama o forte velho,<br> + + +Para leais vassalos claro espelho.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +"Vê-lo cá vai com os filhos a entregar-se,<br> + + +A corda ao colo, nu de seda e pano,<br> + + +Porque não quis o moço sujeitar-se,<br> + + +Como ele prometera, ao Castelhano.<br> + + +Fez com siso e promessas levantar-se<br> + + +O cerco, que já estava soberano;<br> + + +Os filhos e mulher obriga à pena:<br> + + +Para que o senhor salve, a si condena.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +"Não fez o Cônsul tanto, que cercado<br> + + +Foi nas forças Caudinas, de ignorante,<br> + + +Quando a passar por baixo foi forçado<br> + + +Do Samnítico jugo triunfante.<br> + + +Este, pelo seu povo injuriado,<br> + + +A si se entrega só, firme e constante;<br> + + +Estoutro a si, e os filhos naturais,<br> + + +E a consorte sem culpa, que dói mais.<br> + + +<br> + + +16<br> + + +"Vês este que, saindo da cilada,<br> + + +Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?<br> + + +Já o Rei tem preso e a vila descercada:<br> + + +Ilustre feito, digno de Mavorte!<br> + + +Vê-lo cá vai pintado nesta armada,<br> + + +No mar também aos Mouros dando a morto,<br> + + +Tomando-lhe as galés, levando a glória<br> + + +Da primeira marítima vitória.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +"É, Dom Fuas Roupinho, que na terra<br> + + +E no mar resplandece juntamente,<br> + + +Com o fogo que acendeu junto da serra<br> + + +De Abila, nas galés da Maura gente.<br> + + +Olha como, em tão justa e santa guerra,<br> + + +De acabar pelejando está contente:<br> + + +Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,<br> + + +Triunfando, nos céus, com justa palma.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +"Não vês um ajuntamento, de estrangeiro<br> + + +Trajo, sair da grande armada nova,<br> + + +Que ajuda a combater o Rei primeiro<br> + + +Lisboa, de si dando santa prova?<br> + + +Olha Henrique, famoso cavaleiro,<br> + + +A palma que lhe nasce junto à cova.<br> + + +Por eles mostra Deus milagre visto:<br> + + +Germanos são os mártires de Cristo.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +"Um Sacerdote vê brandindo a espada<br> + + +Contra Arronches, que toma, por vingança<br> + + +De Leiria, que de antes foi tomada<br> + + +Por quem por Mafamede enresta a lança:<br> + + +É Teotónio, Prior. Mas vê cercada<br> + + +Santarém, e verás a segurança<br> + + +Da figura nos muros, que primeira<br> + + +Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +"Vê-lo cá, donde Sancho desbarata<br> + + +Os Mouros de Vandália em fera guerra;<br> + + +Os inimigos rompendo, o alferes mata<br> + + +E o Hispálico pendão derriba em terra:<br> + + +Mem Moniz é, que em si o valor retrata,<br> + + +Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,<br> + + +Digno destas bandeiras, pois sem falta<br> + + +A contrária derriba e a sua exalta.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +"Olha aquele que desce pela lança?<br> + + +Com as duas cabeças dos vigias,<br> + + +Onde a cilada esconde, com que alcança<br> + + +A cidade por manhas e ousadias.<br> + + +Ela por armas toma a semelhança<br> + + +Do cavaleiro, que as cabeças frias<br> + + +Na mão levava (feito nunca feito!)<br> + + +Giraldo Sem-pavor é o forte peito.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +"Não vês um Castelhano, que agravado<br> + + +De Afonso nono rei, pelo ódio antigo<br> + + +Dos de Lara, com os Mouros é deitado,<br> + + +De Portugal fazendo-se inimigo?<br> + + +Abrantes vila toma, acompanhado<br> + + +Dos duros infiéis que traz consigo.<br> + + +Mas vê que um Português com pouca gente<br> + + +O desbarata e o prende ousadamente.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +"Martim Lopes se chama o cavaleiro,<br> + + +Que destes levar pode a palma e o louro.<br> + + +Mas olha um Eclesiástico guerreiro,<br> + + +Que em lança de aço torna o Bago de ouro.<br> + + +Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro<br> + + +Em não negar batalha ao bravo Mouro;<br> + + +Olha o sinal no céu que lhe aparece,<br> + + +Com que nos poucos seus o esforço cresce.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"Vós? vão os Reis de Córdova e Sevilha<br> + + +Rotos, com os outros dois, e não de espaço.<br> + + +Rotos? mas antes mortos, maravilha<br> + + +Feita de Deus, que não de humano braço.<br> + + +Vês? já a vila de Alcáçare +se humilha,<br> + + +Sem lhe valer defesa, ou muro de aço,<br> + + +A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,<br> + + +Que a coroa da palma ali coroa.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"Olha um Mestre que desce de Castela,<br> + + +Português de nação, como conquista<br> + + +A terra dos Algarves, e já nela<br> + + +Não acha quem por armas lhe resista;<br> + + +Com manha, esforço, e com benigna estrela,<br> + + +Vilas, castelos toma à escala vista.<br> + + +Vês Tavila tomada aos moradores,<br> + + +Em vingança dos sete caçadores!<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Vês? com bélica astúcia ao Mouro ganha<br> + + +Silves, que ele ganhou com força ingente:<br> + + +É Dom Paio Correia, cuja manha<br> + + +E grande esforço faz inveja à gente.<br> + + +Mas não passes os três que em França e +Espanha<br> + + +Se fazem conhecer perpetuamente<br> + + +Em desafios, justas e torneios,<br> + + +Nelas deixando públicos troféus.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Vê-los, com o nome vêm de aventureiros<br> + + +A Castela, onde o preço sós levaram<br> + + +Dos jogos de Belona verdadeiros,<br> + + +Que com dano de alguns se exercitaram.<br> + + +Vê mortos os soberbos cavaleiros,<br> + + +Que o principal dos três desafiaram,<br> + + +Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,<br> + + +Que pode não temer a lei Leteia.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Atenta num, que a fama tanto estende,<br> + + +Que de nenhum passado se contenta;<br> + + +Que a pátria, que de um fraco fio pende,<br> + + +Sobre seus duros ombros a sustenta.<br> + + +Não no vês tinto de ira, que reprende<br> + + +A vil desconfiança inerte e lenta<br> + + +Do povo, e faz que tome o doce freio<br> + + +De Rei seu natural, e não de alheio?<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Olha: por seu conselho e ousadia<br> + + +De Deus guiada só, e de santa estrela,<br> + + +Só pode o que impossível parecia:<br> + + +Vencer o povo ingente de Castela.<br> + + +Vês, por indústria, esforço e valentia,<br> + + +Outro estrago e vitória clara e bela,<br> + + +Na gente, assim feroz como infinita,<br> + + +Que entre o Tarteso e Goadiana habita?<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Mas não vês quase já desbaratado<br> + + +O poder Lusitano, pela ausência<br> + + +Do Capitão devoto, que, apartado<br> + + +Orando invoca a suma e trina Essência?<br> + + +Vê-lo com pressa já dos seus achado,<br> + + +Que lhe dizem que falta resistência<br> + + +Contra poder tamanho, e que viesse,<br> + + +Por que consigo esforço aos fracos desse?<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Mas olha com que santa confiança,<br> + + +—Que inda não era tempo,—respondia,<br> + + +Como quem tinha em Deus a seguraria<br> + + +Da vitória que logo lhe daria.<br> + + +Assim Pompílio, ouvindo que a possança<br> + + +Dos inimigos a terra lhe corria,<br> + + +A quem lhe a dura nova estava dando,<br> + + +-"Pois eu, responde, estou sacrificando."—<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,<br> + + +Ouvir quiseres como se nomeia,<br> + + +Português Cipião chamar-se deve;<br> + + +Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:<br> + + +Ditosa pátria que tal filho teve!<br> + + +Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia<br> + + +Este globo de Ceres e Netuno,<br> + + +Sempre suspirará por tal aluno.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Na mesma guerra vê que presas ganha<br> + + +Estoutro Capitão de pouca gente;<br> + + +Comendadores vence e o gado apanha,<br> + + +Que levavam roubado ousadamente.<br> + + +Outra vez vê que a lança em sangue banha<br> + + +Destes, só por livrar com o amor ardente<br> + + +O preso amigo, preso por leal:<br> + + +Pêro Rodrigues é do Landroal.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"Olha este desleal o como paga<br> + + +O perjúrio que fez e vil engano:<br> + + +Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga,<br> + + +E faz vir a passar o último dano:<br> + + +De Xerez rouba o campo, e quase alaga<br> + + +Com o sangue de seus donos Castelhano.<br> + + +Mas olha Rui Pereira, que com o rosto<br> + + +Faz escudo às galés, diante posto.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"Olha que dezessete Lusitanos,<br> + + +Neste outeiro subidos se defendem,<br> + + +Fortes, de quatrocentos Castelhanos,<br> + + +Que em derredor, pelos tomar, se estendem;<br> + + +Porém logo sentiram, com seus danos,<br> + + +Que não só se defendem, mas ofendem:<br> + + +Digno feito de ser no mundo eterno,<br> + + +Grande no tempo antigo e no moderno.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"Sabe-se antigamente que trezentos<br> + + +Já contra mil Romanos pelejaram,<br> + + +No tempo que os viris atrevimentos<br> + + +De Viriato tanto se ilustraram,<br> + + +E deles alcançando vencimentos<br> + + +Memoráveis, de herança nos deixaram<br> + + +Que os muitos, por ser poucos, não temamos:<br> + + +O que depois mil vezes amestramos.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"Olha cá dois infantes, Pedro e Henrique,<br> + + +Progénie generosa de Joane:<br> + + +Aquele faz que fama ilustre fique<br> + + +Dele em Germânia, com que a morte engane;<br> + + +Este, que ela nos mares o publique<br> + + +Por seu descobridor, e desengane<br> + + +De Ceita a Maura túmida vaidade,<br> + + +Primeiro entrando as portas da cidade.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"Vês o conde Dom Pedro, que sustenta<br> + + +Dois cercos contra toda a Barbaria?<br> + + +Vês, outro Conde está, que representa<br> + + +Em terra Marte, em forças e ousadia;<br> + + +De poder defender se não contenta<br> + + +Alcácere da ingente companhia;<br> + + +Mas do seu Rei defende a cara vida,<br> + + +Pondo por muro a sua, ali perdida.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Outros muitos verias, que os pintores<br> + + +Aqui também por certo pintariam;<br> + + +Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,<br> + + +Honra, prémio, favor, que as artes criam:<br> + + +Culpa dos viciosos sucessores,<br> + + +Que degeneram, certo, e se desviam<br> + + +Do lustre e do valor dos seus passados,<br> + + +Em gostos e vaidades atolados.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Aqueles pais ilustres que já deram<br> + + +Princípio à geração que +deles pende,<br> + + +Pela virtude muito então fizeram,<br> + + +E por deixar a casa, que descende.<br> + + +Cegos, que dos trabalhos que tiveram,<br> + + +Se alta fama e rumor deles se estende,<br> + + +Escuros deixam sempre seus menores,<br> + + +Com lhe deixar descansos corruptores.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Outros também há grandes e abastados,<br> + + +Sem nenhum tronco ilustre donde venham;<br> + + +Culpa de Reis, que às vezes a privados<br> + + +Dão mais que a mil, que esforço e saber tenham.<br> + + +Estes os seus não querem ver pintados,<br> + + +Crendo que cores vãs lhe não convenham,<br> + + +E, como a seu contrairo natural,<br> + + +A pintura, que fala, querem mal.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +"Não nego que há contudo descendentes<br> + + +Do generoso tronco, e casa rica,<br> + + +Que com costumes altos e excelentes,<br> + + +Sustentam a nobreza que lhe fica;<br> + + +E se a luz dos antigos seus parentes<br> + + +Neles mais o valor não clarifica,<br> + + +Não falta ao menos, nem se faz escura.<br> + + +Mas destes acha poucos a pintura."<br> + + +<br> + + +43<br> + + +Assim está declarando os grandes feitos<br> + + +O Gama, que ali mostra a vária tinta,<br> + + +Que a douta mão tão claros, tão +perfeitos,<br> + + +Do singular artífice ali pinta.<br> + + +Os olhos tinha prontos e direitos<br> + + +O Catual na história bem distinta;<br> + + +Mil vezes perguntava e mil ouvia<br> + + +As gostosas batalhas que ali via.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +Mas já a luz se mostrava duvidosa,<br> + + +Porque a a lâmpada grande se escondia<br> + + +Debaixo do Horizonte e luminosa<br> + + +Levava aos Antípodas o dia,<br> + + +Quando o Gentio e a gente generosa<br> + + +Dos Naires da nau forte se partia<br> + + +A buscar o repouso que descansa<br> + + +Os lassos animais, na noite mansa.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +Entretanto os Arúspices famosos<br> + + +Na falsa opinião, que em sacrifícios<br> + + +Antevêem sempre os casos duvidosos,<br> + + +Por sinais diabólicos e indícios,<br> + + +Mandados do Rei próprio, estudiosos<br> + + +Exercitavam a arte e seus ofícios<br> + + +Sobre esta vinda desta gente estranha,<br> + + +Que às suas terras vem da ignota Espanha.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,<br> + + +De como a nova gente lhe seria<br> + + +Jugo perpétuo, eterno cativeiro,<br> + + +Destruição de gente, e de valia.<br> + + +Vai-se espantado o atónito agoureiro<br> + + +Dizer ao Rei (segundo o que entendia)<br> + + +Os sinais temerosos que alcançara<br> + + +Nas entranhas das vítimas que olhara.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +A isto mais se ajunta que um devoto<br> + + +Sacerdote da lei de Mafamede,<br> + + +Dos ódios concebidos não remoto<br> + + +Contra a divina Fé, que tudo excede,<br> + + +Em forma do Profeta falso e noto,<br> + + +Que do filho da escrava Agar procede,<br> + + +Baco odioso em sonhos lhe aparece,<br> + + +Que de seus ódios ainda se não desse.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,<br> + + +Do mal que se aparelha pelo inimigo<br> + + +Que pelas águas úmidas caminha,<br> + + +Antes que esteis mais perto do perigo."<br> + + +Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,<br> + + +Espantado do sonho; mas consigo<br> + + +Cuida que não é mais que sonho usado:<br> + + +Torna a dormir quieto e sossegado.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +Torna Baco, dizendo: "Não conheces<br> + + +O grã legislador que a teus passados<br> + + +Tem mostrado o preceito a que obedeces,<br> + + +Sem o qual fôreis muitos batizados?<br> + + +Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!<br> + + +Pois saberás que aqueles, que chegados<br> + + +De novo são, serão muito grande dano<br> + + +Da lei que eu dei ao néscio povo humano.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +"Enquanto é fraca a força desta gente,<br> + + +Ordena como em tudo se resista,<br> + + +Porque, quando o Sol sai, facilmente<br> + + +Se pode nele pôr a aguda vista;<br> + + +Porém, depois que sobe claro e ardente,<br> + + +Se agudeza dos olhos o conquista,<br> + + +Tão cega fica, quanto ficareis,<br> + + +Se raízes criar lhe não tolheis."<br> + + +<br> + + +51<br> + + +Isto dito, ele e o sono se despede.<br> + + +Tremendo fica o atónito Agareno:<br> + + +Salta da cama, lume ao servos pede,<br> + + +Lavrando nele o fervido veneno.<br> + + +Tanto que a nova luz que ao Sol precede<br> + + +Mostrara rosto angélico e sereno,<br> + + +Convoca os principais da torpe seita,<br> + + +Aos quais do que sonhou dá conta estreita.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +Diversos pareceres e contrários<br> + + +Ali se dão, segundo o que entendiam;<br> + + +Astutas traições, enganos vários,<br> + + +Perfídias inventavam e teciam.<br> + + +Mas, deixando conselhos temerários,<br> + + +Destruição da gente pretendiam,<br> + + +Por manhas mais subtis e ardis melhores,<br> + + +Com peitas adquirindo os regedores;<br> + + +<br> + + +53<br> + + +Com peitas, ouro, e dádivas secretas<br> + + +Conciliam da terra os principais,<br> + + +E com razões notáveis e discretas<br> + + +Mostram ser perdição dos naturais,<br> + + +Dizendo que são gentes inquietas,<br> + + +Que, os mares discorrendo ocidentais,<br> + + +Vivem só de piráticas rapinas,<br> + + +Sem Rei, sem leis humanas ou divinas<br> + + +<br> + + +54<br> + + +Ó quanto deve o Rei que bem governa,<br> + + +De olhar que os conselheiros, ou privados,<br> + + +De consciência e de virtude interna<br> + + +E de sincero amor sejam dotados!<br> + + +Porque, como este posto na suprema<br> + + +Cadeira, pode mal dos apartados<br> + + +Negócios ter notícia mais inteira,<br> + + +Do que lhe der a língua conselheira.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +Nem tão pouco direi que tome tanto<br> + + +Em grosso a consciência limpa e certa,<br> + + +Que se enleve num pobre e humilde manto,<br> + + +Onde ambição acaso ande encoberta.<br> + + +E quando um bom em tudo é justo e santo,<br> + + +Em negócios do mundo pouco acerta,<br> + + +Que mal com eles poderá ter conta<br> + + +A quieta inocência, em só Deus pronta.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +Mas aqueles avaros Catuais,<br> + + +Que o Gentílico povo governavam,<br> + + +Induzidos das gentes infernais,<br> + + +O Português despacho dilatavam.<br> + + +Mas o Gama, que não pretende mais,<br> + + +De tudo quanto os Mouros ordenavam,<br> + + +Que levar a seu Rei um sinal certo<br> + + +Do mundo, que deixava descoberto.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +Nisto trabalha só; que bem sabia<br> + + +Que depois que levasse esta certeza,<br> + + +Armas, o naus, e gente mandaria<br> + + +Manuel, que exercita a suma alteza,<br> + + +Com que a seu jugo e lei someteria<br> + + +Das terras e do mar a redondeza;<br> + + +Que ele não era mais que um diligente<br> + + +Descobridor das terras do Oriente.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +Falar ao Rei gentio determina,<br> + + +Por que com seu despacho se tornasse,<br> + + +Que já sentia em tudo da malina<br> + + +Gente impedir-se quanto desejasse.<br> + + +O Rei, que da notícia falsa e indina<br> + + +Não era de espantar se se espantasse,<br> + + +Que tão crédulo era em seus agouros,<br> + + +E mais sendo afirmados pelos Mouros,<br> + + +<br> + + +59<br> + + +Este temor lhe esfria o baixo peito.<br> + + +Por outra parte a força da cobiça,<br> + + +A quem por natureza está sujeito,<br> + + +Um desejo imortal lhe acende e atiça:<br> + + +Que bem vê que grandíssimo proveito<br> + + +Fará, se com verdade e com justiça<br> + + +O contrato fizer por longos anos,<br> + + +Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +Sobre isto, nos conselhos que tomava,<br> + + +Achava muito contrários pareceres;<br> + + +Que naqueles com quem se aconselhava<br> + + +Executa o dinheiro seus poderes.<br> + + +O grande Capitão chamar mandava,<br> + + +A quem chegado disse:—"Se quiseres<br> + + +Confessar-me a verdade limpa e nua,<br> + + +Perdão alcançarás da culpa tua.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +Fala do Samorim ao Gama<br> + + +"Eu sou bem informado que a embaixada<br> + + +Que de teu Rei me deste, que é fingida;<br> + + +Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,<br> + + +Mas vagabundo vás passando a vida;<br> + + +Que quem da Hespéria última alongada,<br> + + +Rei ou senhor de insânia desmedida,<br> + + +Há de vir cometer com naus e frotas<br> + + +Tão incertas viagens e remotas?<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"E se de grandes Reinos poderosos<br> + + +O teu Rei tem a régia majestade,<br> + + +Que presentes me trazes valerosos,<br> + + +Sinais de tua incógnita verdade?<br> + + +Com peças e dons altos, sumptuosos,<br> + + +Se lia dos Reis altos a amizade;<br> + + +Que sinal nem penhor não é bastante<br> + + +As palavras dum vago navegante.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"Se porventura vindes desterrados,<br> + + +Como já foram homens de alta sorte,<br> + + +Em meu Reino sereis agasalhados,<br> + + +Que toda a terra é pátria para o forte;<br> + + +Ou se piratas sois ao mar usados,<br> + + +Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,<br> + + +Que por se sustentar em toda idade,<br> + + +Tudo faz a vital necessidade."<br> + + +<br> + + +64<br> + + +Isto assim dito, o Gama, que já tinha<br> + + +Suspeitas das insídias que ordenava<br> + + +O Mallomético ódio, donde vinha<br> + + +Aquilo que tão mal o Rei cuidava,<br> + + +Com uma alta confiança, que convinha,<br> + + +Com que seguro crédito alcançava,<br> + + +Que Vénus Acidália lhe influía,<br> + + +Tais palavras do sábio peito abria:<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Se os antigos delitos, que a malícia<br> + + +Humana cometeu na prisca idade,<br> + + +Não causaram que o vaso da niquícia,<br> + + +Açoute tão cruel da Cristandade,<br> + + +Viera pôr perpétua inimicícia<br> + + +Na geração de Adão, coa falsidade,<br> + + +Ó poderoso Rei da torpe seita,<br> + + +Não conceberas tu tão má suspeita.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +"Mas porque nenhum grande bem se alcança<br> + + +Sem grandes opressões, e em todo o feito<br> + + +Segue o temor os passos da esperança,<br> + + +Que em suor vive sempre de seu peito,<br> + + +Me mostras tu tão pouca confiança<br> + + +Desta minha verdade, sem respeito<br> + + +Das razões em contrário que acharias<br> + + +Se não cresses a quem não crer devias.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"Porque, se eu de rapinas só vivesse,<br> + + +Undívago, ou da pátria desterrado,<br> + + +Como crês que tão longe me viesse<br> + + +Buscar assento incógnito e apartado?<br> + + +Por que esperanças, ou por que interesse<br> + + +Viria experimentando o mar irado,<br> + + +Os Antarcticos frios, e os ardores<br> + + +Que sofrem do Carneiro os moradores?<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Se com grandes presentes de alta estima<br> + + +O crédito me pedes do que digo,<br> + + +Eu não vim mais que a achar o estranho clima<br> + + +Onde a natura pôs teu Reino antigo.<br> + + +Mas, se a Fortuna tanto me sublima<br> + + +Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,<br> + + +Então verás o dom soberbo e rico,<br> + + +Com que minha tornada certifico.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Se te parece inopinado feito,<br> + + +Que Rei da última Hespéria a ti me mande,<br> + + +O coração sublime, o régio peito,<br> + + +Nenhum caso possível tem por grande.<br> + + +Bem parece que o nobre e grã conceito<br> + + +Do Lusitano espírito demande<br> + + +Maior crédito, e fé de mais alteza,<br> + + +Que creia dele tanta fortaleza.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Sabe que há muitos anos que os antigos<br> + + +Reis nossos firmemente propuseram<br> + + +De vencer os trabalhos e perigos,<br> + + +Que sempre às grandes coisas se opuseram;<br> + + +E, descobrindo os mares inimigos<br> + + +Do quieto descanso, pretenderam<br> + + +De saber que fim tinham, e onde estavam<br> + + +As derradeiras praias que lavavam.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Conceito digno foi do ramo claro<br> + + +Do venturoso Rei, que arou primeiro<br> + + +O mar, por ir deitar do ninho caro<br> + + +O morador de Abila derradeiro.<br> + + +Este, por sua indústria e engenho raro,<br> + + +Num madeiro ajuntando outro madeiro,<br> + + +Descobrir pôde a parte, que faz clara<br> + + +De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"Crescendo com os sucessos bons primeiros<br> + + +No peito as ousadias, descobriram<br> + + +Pouco e pouco caminhos estrangeiros,<br> + + +Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.<br> + + +De África os moradores derradeiros<br> + + +Austrais, que nunca as sete flamas viram,<br> + + +Foram vistos de nós, atrás deixando<br> + + +Quantos estão os Trópicos queimando.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +"Assim com firme peito, e com tamanho<br> + + +Propósito, vencemos a Fortuna,<br> + + +Até que nós no teu terreno estranho<br> + + +Viemos pôr a última coluna.<br> + + +Rompendo a força do líquido estanho,<br> + + +Da tempestade horrífica e importuna,<br> + + +A ti chegamos, de quem só queremos<br> + + +Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +"Esta é a verdade, Rei; que não faria<br> + + +Por tão incerto bem, tão fraco prémio,<br> + + +Qual, não sendo isto assim, esperar podia,<br> + + +Tão longo, tão fingido e vão +proêmio;<br> + + +Mas antes descansar me deixaria<br> + + +No nunca descansado e fero grêmio<br> + + +Da madre Tethys, qual pirata inico,<br> + + +Dos trabalhos alheios feito rico.<br> + + +<br> + + +75<br> + + +"Assim que, ó Rei, se minha grã verdade<br> + + +Tens por qual é, sincera e não dobrada,<br> + + +Ajunta-me ao despacho brevidade,<br> + + +Não me impeças o gosto da tornada.<br> + + +E, se ainda te parece falsidade,<br> + + +Cuida bem na razão que está provada,<br> + + +Que com claro juízo pode ver-se,<br> + + +Que fácil é a verdade de entender-se."<br> + + +<br> + + +76<br> + + +A tento estava o Rei na segurança<br> + + +Com que provava o Gama o que dizia;<br> + + +Concebe dele certa confiança,<br> + + +Crédito firme em quanto proferia.<br> + + +Pondera das palavras a abastança,<br> + + +Julga na autoridade grão valia,<br> + + +Começa de julgar por enganados<br> + + +Os Catuais corruptos, mal julgados.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +Juntamente a cobiça do proveito,<br> + + +Que espera do contrato Lusitano,<br> + + +O faz obedecer e ter respeito<br> + + +Com o Capitão, e não com o Mauro engano.<br> + + +Enfim ao Gama manda que direito<br> + + +As naus se vá, e, seguro de algum dano,<br> + + +Possa a terra mandar qualquer fazenda,<br> + + +Que pela especiaria troque e venda.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,<br> + + +Que nos Reinos Gangéticos faleça;<br> + + +Se alguma traz idónea lá da banda<br> + + +Donde a terra se acaba e o mar começa.<br> + + +Já da real presença veneranda<br> + + +Se parte o Capitão, para onde peça<br> + + +Ao Catual, que dele tinha cargo,<br> + + +Embarcação, que a sua está de largo.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +Embarcação que o leve às naus lhe pede;<br> + + +Mas o mau Regedor, que novos laços<br> + + +Lhe maquinava, nada lhe concede,<br> + + +Interpondo tardanças e embaraços.<br> + + +Com ele parte ao cais, por que o arrede<br> + + +Longe quanto puder dos régios paços,<br> + + +Onde, sem que seu Rei tenha notícia,<br> + + +Faça o que lhe ensinar sua malícia.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +Lá bem longe lhe diz que lhe daria<br> + + +Embarcação bastante em que partisse,<br> + + +Ou que para a luz crástina do dia<br> + + +Futuro sua partida diferisse.<br> + + +Já com tantas tardanças entendia<br> + + +O Gama, que o Gentio consentisse<br> + + +Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,<br> + + +O que dele atéli não entendera.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +Era este Catual um dos que estavam<br> + + +Corruptos pela Maumetana gente,<br> + + +O principal por quem se governavam<br> + + +As cidades do Samorim potente.<br> + + +Dele somente os Mouros esperavam<br> + + +Efeito a seus enganos torpemente.<br> + + +Ele, que no conceito vil conspira,<br> + + +De suas esperanças não delira.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +O Gama com instância lhe requere<br> + + +Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai;<br> + + +E que assim lhe mandara, lhe refere,<br> + + +O nobre sucessor de Perimal.<br> + + +Por que razão lhe impede e lhe difere<br> + + +A fazenda trazer de Portugal?<br> + + +Pois aquilo que os Reis já têm mandado<br> + + +Não pode ser por outrem derrogado.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +Pouco obedece o Catual corrupto<br> + + +A tais palavras; antes revolvendo<br> + + +Na fantasia algum subtil e astuto<br> + + +Engano diabólico e estupendo,<br> + + +Ou como banhar possa o ferro bruto<br> + + +No sangue avorrecido, estava vendo;<br> + + +Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,<br> + + +Por que nenhuma à pátria mais tornasse.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +Que nenhum torne à pátria só pretende<br> + + +O conselho infernal dos Maumetanos,<br> + + +Por que não saiba nunca onde se estende<br> + + +A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.<br> + + +Não parte o Gama enfim, que lho defende<br> + + +O Regedor dos bárbaros profanos;<br> + + +Nem sem licença sua ir-se podia,<br> + + +Que as almadias todas lhe tolhia.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +Aos brados o razões do Capitão<br> + + +Responde o Idolatra que mandasse—<br> + + +Chegar à terra as naus, que longo estão,<br> + + +Por que melhor dali fosse e tornasse.<br> + + +"Sinal é de inimigo e de ladrão,<br> + + +Que lá tão longe a frota se alargasse,<br> + + +Lhe diz, porque do certo e fido amigo<br> + + +É não temer do seu nenhum perigo."<br> + + +<br> + + +86<br> + + +Nestas palavras o discreto Gama<br> + + +Enxerga bem que as naus deseja perto<br> + + +O Catual, por que com f erro e flama,<br> + + +Lhas assalte, por ódio descoberto.<br> + + +Em vários pensamentos se derrama;<br> + + +Fantasiando está remédio certo,<br> + + +Que desse a quanto mal se lhe ordenava;<br> + + +Tudo temia, tudo enfim cuidava.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +Qual o reflexo lume do polido<br> + + +Espelho de aço, ou de cristal formoso,<br> + + +Que, do raio solar sendo ferido,<br> + + +Vai ferir noutra parte luminoso,<br> + + +E, sendo da ociosa mão movido<br> + + +Pela casa do moço curioso,<br> + + +Anda pelas paredes é telhado<br> + + +Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:<br> + + +<br> + + +88<br> + + +Tal o vago juízo flutuava<br> + + +Do Gama preso, quando lhe lembrara<br> + + +Coelho, se por caso o esperava<br> + + +Na praia com os batéis, como ordenara.<br> + + +Logo secretamente lhe mandava,<br> + + +"Que se tornasse à frota, que deixara;<br> + + +Não fosse salteado dos enganos,<br> + + +Que esperava dos feros Maumetanos."<br> + + +<br> + + +89<br> + + +Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte,<br> + + +Imitar os ilustres e igualá-los:<br> + + +Voar com o pensamento a toda parte,<br> + + +Adivinhar perigos, e evitá-los:<br> + + +Com militar engenho e subtil arte<br> + + +Entender os inimigos, e enganá-los;<br> + + +Crer tudo, enfim, que nunca louvarei<br> + + +O Capitão que diga: "Não cuidei".<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Insiste o Malabar em tê-lo preso,<br> + + +Se não manda chegar a terra a armada;<br> + + +Ele constante, e de ira nobre aceso,<br> + + +Os ameaços seus não teme nada;<br> + + +Que antes quer sobre si tomar o peso<br> + + +De quanto mal a vil malícia ousada<br> + + +Lhe andar armando, que pôr em ventura<br> + + +A frota de seu Rei, que tem segura.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Aquela noite esteve ali detido,<br> + + +E parte do outro dia, quando ordena<br> + + +De se tornar ao Rei; mas impedido<br> + + +Foi da guarda que tinha, não pequena.<br> + + +Comete-lhe o Gentio outro partido,<br> + + +Temendo de seu Rei castigo ou pena,<br> + + +Se sabe esta malícia, a qual asinha<br> + + +Saberá, se mais tempo ali o detinha.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda<br> + + +Vendível, que trazia, para a terra,<br> + + +Para que de vagar se troque e venda:<br> + + +Que quem não quer comércio, busca guerra.<br> + + +Posto que os maus propósitos entenda<br> + + +O Gama, que o danado peito encerra,<br> + + +Consente, porque sabe por verdade,<br> + + +Que compra com a fazenda a liberdade.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +Concertam-se que o negro mande dar<br> + + +Embarcações idóneas com que venha;<br> + + +Que os seus batéis não quer aventurar<br> + + +Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.<br> + + +Partem as almadias a buscar<br> + + +Mercadoria Hispana, que convenha.<br> + + +Escreve a seu irmão que lhe mandasse<br> + + +A fazenda com que se resgatasse.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +Vem a fazenda a terra, aonde logo<br> + + +A agasalhou o infame Catual;<br> + + +Com ela ficam Álvaro e Diogo,<br> + + +Que a pudessem vender pelo que val.<br> + + +Se mais que obrigação, que mando e rogo<br> + + +No peito vil o prémio pode e val,<br> + + +Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,<br> + + +Pois o Gama soltou pela fazenda.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +Por ela o solta, crendo que ali tinha<br> + + +Penhor bastante, donde recebesse<br> + + +Interesse maior do que lhe vinha,<br> + + +Se o Capitão mais tempo detivesse.<br> + + +Ele, vendo que já lhe não convinha<br> + + +Tornar a terra, por que não pudesse<br> + + +Ser mais retido, sendo às naus chegado<br> + + +Nelas estar se deixa descansado.<br> + + +<br> + + +96<br> + + +Nas naus estar se deixa vagaroso,<br> + + +Até ver o que o tempo lhe descobre:<br> + + +Que não se fia já do cobiçoso<br> + + +Regedor corrompido e pouco nobre.<br> + + +Veja agora o juízo curioso<br> + + +Quanto no rico, assim como no pobre,<br> + + +Pode o vil interesse e sede inimiga<br> + + +Do dinheiro, que a tudo nos obriga.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +A Polidoro mata o Ptei Treício,<br> + + +Só por ficar senhor do grão tesouro;<br> + + +Entra, pelo fortíssimo edifício,<br> + + +Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;<br> + + +Pode tanto em Tarpeia avaro vício,<br> + + +Que, a troco do metal luzente e louro,<br> + + +Entrega aos inimigos a alta torre,<br> + + +Do qual quase afogada em pago morre.<br> + + +<br> + + +98<br> + + +Este rende munidas fortalezas,<br> + + +Faz tredores e falsos os amigos:<br> + + +Este a mais nobres faz fazer vilezas,<br> + + +E entrega Capitães aos inimigos;<br> + + +Este corrompe virginais purezas,<br> + + +Sem temer de honra ou fama alguns perigos:<br> + + +Este deprava às vezes as ciências,<br> + + +Os juízos cegando e as consciências;<br> + + +<br> + + +99<br> + + +Este interpreta mais que sutilmente.<br> + + +Os textos; este faz e desfaz leis;<br> + + +Este causa os perjúrios entre a gente,<br> + + +E mil vezes tiranos torna os Reis.<br> + + +Até os que só a Deus Onipotente<br> + + +Se dedicam, mil vezes ouvireis<br> + + +Que corrompe este encantador, e ilude;<br> + + +Mas não sem cor, contudo, de virtude.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Nono</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Tiveram longamente na cidade,<br> + + +Sem vender-se, a fazenda os dois feitores<br> + + +Que os infiéis, por manha e falsidade,<br> + + +Fazem que não lha comprem mercadores;<br> + + +Que todo seu propósito e vontade<br> + + +Era deter ali os descobridores<br> + + +Da Índia tanto tempo, que viessem<br> + + +De Meca as naus, que as suas desfizessem.<br> + + +<br> + + +2<br> + + +Lá no seio Eritreu, onde fundada<br> + + +Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,<br> + + +Do nome da irmã sua assim chamada,<br> + + +Que depois em Suez se converteu,<br> + + +Não longe o porto jaz da nomeada<br> + + +Cidade Meca, que se engrandeceu<br> + + +Com a superstição falsa e profana<br> + + +Da religiosa água Maumetana.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Gidá se chama o porto, aonde o trato<br> + + +De todo o Roxo mar mais florescia,<br> + + +De que tinha proveito grande e grato<br> + + +O Soldão que esse Reino possuía.<br> + + +Daqui aos Malabares, por contrato<br> + + +Dos infiéis, formosa companhia<br> + + +De grandes naus, pelo Índico Oceano,<br> + + +Especiaria vem buscar cada ano.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +Por estas naus os Mouros esperavam,<br> + + +Que, como fossem grandes e possantes,<br> + + +Aquelas, que o comércio lhe tomavam,<br> + + +Com flamas abrasassem crepitantes.<br> + + +Neste socorro tanto confiavam,<br> + + +Que já não querem mais dos navegantes,<br> + + +Senão que tanto tempo ali tardassem,<br> + + +Que da famosa Meca as naus chegassem.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Mas o Governador dos céus e gentes,<br> + + +Que, para quanto tem determinado,<br> + + +De longe os meios dá convenientes,<br> + + +Por onde vem a ef eito o fim fadado,<br> + + +Influiu piedosos acidentes<br> + + +De afeição em Monçaide, que guardado<br> + + +Estava para dar ao Gama aviso,<br> + + +E merecer por isso o Paraíso.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +Este, de quem se os Mouros não guardavam,<br> + + +Por ser Mouro como eles, antes era<br> + + +Participante em quanto maquinavam,<br> + + +A tenção lhe descobre torpe e fera.<br> + + +Muitas vezes as naus que longe estavam<br> + + +Visita, o com piedade considera<br> + + +O dano, sem razão, que se lhe ordena<br> + + +Pela maligna gente Sarracena.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +Informa o cauto Gama das armadas<br> + + +Que de Arábica Meca vêm cada ano,<br> + + +Que agora são dos seus tão desejadas,<br> + + +Para ser instrumento deste dano.<br> + + +Diz-lhe que vêm de gente carregadas,<br> + + +E dos trovões horrendos de Vulcano,<br> + + +E que pode ser delas oprimido,<br> + + +Segundo estava mal apercebido.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +O Gama, que também considerava<br> + + +O tempo, que para a partida o chama,<br> + + +E que despacho já não esperava<br> + + +Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,<br> + + +Aos feitores, que em terra estão, mandava<br> + + +Que se tornem às naus; e por que a fama<br> + + +Desta súbita vinda os não impeça,<br> + + +Lhe manda que a fizessem escondida.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +Porém não tardou muito que, voando,<br> + + +Um rumor não soasse com verdade:<br> + + +Que foram presos os feitores, quando<br> + + +Foram sentidos vir-se da cidade.<br> + + +Esta fama as orelhas penetrando<br> + + +Do sábio Capitão, com brevidade<br> + + +Faz represaria nuns, que às naus vieram<br> + + +A vender a pedraria que trouxeram.<br> + + +<br> + + +10<br> + + +Eram estes antigos mercadores<br> + + +Ricos em Calecu, e conhecidos;<br> + + +Da falta deles, logo entre os melhores<br> + + +Sentido foi que estão no mar retidos.<br> + + +Mas já nas naus os bons trabalhadores<br> + + +Volvem o cabrestante, e repartidos<br> + + +Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,<br> + + +Outros quebram com o peito duro a barra;<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Outros pendem da verga, e já desatam<br> + + +A vela, que com grita se soltava,<br> + + +Quando com maior grita ao Rei relatam<br> + + +A pressa com que a armada se levava.<br> + + +As mulheres e filhos que se matam<br> + + +Daqueles que vão presos, onde estava<br> + + +O Samorim, se queixam que perdidos<br> + + +Uns têm os pais, as outras os maridos.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +Manda logo os feitores Lusitanos<br> + + +Com toda sua fazenda livremente<br> + + +Apesar dos inimigos Maumetanos,<br> + + +Por que lhe torne a sua presa gente.<br> + + +Desculpas manda o Rei de seus enganos;<br> + + +Recebe o Capitão de melhor mente<br> + + +Os presos que as desculpas, e tornando<br> + + +Alguns negros, se parte as velas dando.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Parte-se costa abaixo, porque entende<br> + + +Que em vão com o Rei gentio trabalhava<br> + + +Em querer dele paz, a qual pretende<br> + + +Por firmar o comércio que tratava.<br> + + +Mas como aquela terra, que se estende<br> + + +Pela Aurora, sabida já deixava,<br> + + +Com estas novas torna à pátria cara,<br> + + +Certos sinais levando do que achara.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Leva alguns Malabares, que tomou<br> + + +Por força, dos que o Samorim mandara<br> + + +Quando os presos feitores lhe tornou;<br> + + +Leva pimenta ardente, que comprara;<br> + + +A seca flor de Banda não ficou,<br> + + +A noz, e o negro cravo, que faz clara<br> + + +A nova ilha Maluco, com a canela,<br> + + +Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +Isto tudo lhe houvera a diligência<br> + + +De Monçaide fiel, que também leva,<br> + + +Que, inspirado de angélica influência,<br> + + +Quer no livro de Cristo que se escreva.<br> + + +Ó ditoso Africano, que a clemência<br> + + +Divina assim tirou de escura treva,<br> + + +E tão longe da pátria achou maneira<br> + + +Para subir à pátria verdadeira!<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Apartadas assim da ardente costa<br> + + +As venturosas naus, levando a proa<br> + + +Para onde a Natureza tinha posta<br> + + +A meta Austrina da esperança boa,<br> + + +Levando alegres novas e resposta<br> + + +Da parte Oriental para Lisboa,<br> + + +Outra vez cometendo os duros medos<br> + + +Do mar incerto, tímidos e ledos;<br> + + +<br> + + +17<br> + + +O prazer de chegar à pátria cara,<br> + + +A seus penates caros e parentes,<br> + + +Para contar a peregrina e rara<br> + + +Navegação, os vários céus e +gentes;<br> + + +Vir a lograr o prémio, que ganhara<br> + + +Por tão longos trabalhos e acidentes,<br> + + +Cada um tem por gosto tão perfeito,<br> + + +Que o coração para ele é vaso estreito.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +Porém a deusa Cípria, que ordenada<br> + + +Era para favor dos Lusitanos<br> + + +Do Padre eterno, e por bom génio dada,<br> + + +Que sempre os guia já de longos anos;<br> + + +A glória por trabalhos alcançada,<br> + + +Satisfação de bem sofridos danos,<br> + + +Lhe andava já ordenando, e pretendia<br> + + +Dar-lhe nos mares tristes alegria.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Depois de ter um pouco revolvido<br> + + +Na mente o largo mar que navegaram,<br> + + +Os trabalhos, que pelo Deus nascido<br> + + +Nas Anfióneas Tebas se causaram;<br> + + +Já trazia de longe no sentido,<br> + + +Para prémio de quanto mal passaram,<br> + + +Buscar-lhe algum deleite, algum descanso<br> + + +No Reino de cristal líquido e manso;<br> + + +<br> + + +20<br> + + +Algum repouso, enfim, com que pudesse<br> + + +Refocilar a lassa humanidade<br> + + +Dos navegantes seus, como interesse<br> + + +Do trabalho que encurta a breve idade.<br> + + +Parece-lhe razão que conta desse<br> + + +A seu filho, por cuja potestade<br> + + +Os Deuses faz descer ao vil terreno<br> + + +E os humanos subir ao céu sereno.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +Isto bem revolvido, determina<br> + + +De ter-lhe aparelhada, lá no meio<br> + + +Das águas, alguma ínsula divina,<br> + + +Ornada de esmaltado e verde arreio;<br> + + +Que muitas tem no reino, que confina<br> + + +Da mãe primeira com o terreno seio,<br> + + +Afora as que possui soberanas<br> + + +Para dentro das portas Herculanas.<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Ali quer que as aquáticas donzelas<br> + + +Esperem os fortíssimos barões,<br> + + +Todas as que têm título de belas,<br> + + +Glória dos olhos, dor dos corações,<br> + + +Com danças e coreias, porque nelas<br> + + +Influirá secretas afeições,<br> + + +Para com mais vontade trabalharem<br> + + +De contentar, a quem se afeiçoaram.<br> + + +<br> + + +23<br> + + +Tal manha buscou já, para que aquele<br> + + +Que de Anquises pariu, bem recebido<br> + + +Fosse no campo que a bovina pele<br> + + +Tomou de espaço, por subtil partido.<br> + + +Seu filho vai buscar, porque só nele<br> + + +Tem todo seu poder, fero Cupido,<br> + + +Que assim como naquela empresa antiga<br> + + +Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +No carro ajunta as aves que na vida<br> + + +Vão da morte as exéquias celebrando,<br> + + +E aquelas em que já foi convertida<br> + + +Perístera, as boninas apanhando.<br> + + +Em derredor da Deusa já partida,<br> + + +No ar lascivos beijos se vão dando.<br> + + +Ela, por onde passa, o ar e o vento<br> + + +Sereno faz, com brando movimento.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +Já sobre os Idálios montes pende,<br> + + +Onde o filho frecheiro estava então<br> + + +Ajuntando outros muitos, que pretende<br> + + +Fazer uma famosa expedição<br> + + +Contra o mundo rebelde, por que emende<br> + + +Erros grandes, que há dias nele estão,<br> + + +Amando coisas que nos foram dadas,<br> + + +Não para ser amadas, mas usadas.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +Via Acteon na caça tão austero,<br> + + +De cego na alegria bruta, insana,<br> + + +Que por seguir um feio animal fero,<br> + + +Foge da gente e bela forma humana;<br> + + +E por castigo quer, doce e severo,<br> + + +Mostrar-lhe a formosura de Diana;<br> + + +E guarde-se não seja ainda comido<br> + + +Desses cães que agora ama, e consumido.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +E vê do mundo todo os principais,<br> + + +Que nenhum no bem público imagina;<br> + + +Vê neles que não têm amor a mais<br> + + +Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.<br> + + +Vê que esses que frequentam os reais<br> + + +Paços, por verdadeira e sã doutrina<br> + + +Vendem adulação, que mal consente<br> + + +Mondar-se o novo trigo florescente.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +Vê que aqueles que devem à pobreza<br> + + +Amor divino e ao povo caridade,<br> + + +Amam somente mandos e riqueza,<br> + + +Simulando justiça e integridade.<br> + + +Da feia tirania e de aspereza<br> + + +Fazem direito e vã severidade:<br> + + +Leis em favor do Rei se estabelecem,<br> + + +As em favor do povo só perecem.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,<br> + + +Senão o que somente mal deseja;<br> + + +Não quer que tanto tempo se releve<br> + + +O castigo, que duro e justo seja.<br> + + +Seus ministros ajunta, por que leve<br> + + +Exércitos conformes à peleja,<br> + + +Que espera ter com a mal regida gente,<br> + + +Que lhe não for agora obediente.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +Muitos destes meninos voadores<br> + + +Estão em várias obras trabalhando:<br> + + +Uns amolando ferros passadores,<br> + + +Outros ásteas de setas delgaçando;<br> + + +Trabalhando, cantando estão de amores,<br> + + +Vários casos em verso modulando,<br> + + +Melodia sonora e concertada,<br> + + +Suave a letra, angélica a soada.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +Nas frágoas imortais, onde forjavam<br> + + +Para as setas as pontas penetrantes,<br> + + +Por lenha corações ardendo estavam,<br> + + +Vivas entranhas ainda palpitantes.<br> + + +As águas onde os ferros temperavam,<br> + + +Lágrimas são de míseros amantes;<br> + + +A viva f lama, o nunca morto lume,<br> + + +Desejo é só que queima, e não consume.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +Alguns exercitando a mão andavam<br> + + +Nos duros corações da plebe rude;<br> + + +Crebros suspiros pelo ir soavam<br> + + +Dos que feridos vão da seta aguda.<br> + + +Formosas Ninfas são as que curavam<br> + + +As chagas recebidas cuja ajuda<br> + + +Não somente dá vida aos mal feridos,<br> + + +Mas põe em vida os ainda não nascidos.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +Formosas são algumas e outras feias,<br> + + +Segundo a qualidade for das chagas;<br> + + +Que o veneno espalhado pelas veias<br> + + +Curam-no às vezes ásperas triagas.<br> + + +Alguns ficam ligados em cadeias,<br> + + +Por palavras subtis de sábias magas:<br> + + +Isto acontece às vezes, quando as setas<br> + + +Acertam de levar ervas secretas.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +Destes tiros assim desordenados,<br> + + +Que estes moços mal destros vão tirando,<br> + + +Nascem amores mil desconcertados<br> + + +Entre o povo ferido miserando;<br> + + +E tamboril nos heróis de altos estados<br> + + +Exemplos mil se vêem de amor nefando,<br> + + +Qual o das moças Bíbli e Cinireia,<br> + + +Um mancebo de Assíria, um de Judeia.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +E vós, ó poderosos, por pastoras<br> + + +Muitas vezes ferido o peito vedes;<br> + + +E por baixos e rudos, vós, senhoras,<br> + + +Também vos tomam nas Vulcâneas redes.<br> + + +Uns esperando andais noturnas horas,<br> + + +Outros subis telhados e paredes:<br> + + +Mas eu creio que deste amor indino<br> + + +É mais culpa a da mãe que a do menino.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +Mas já no verde prado o carro leve<br> + + +Punham os brancos cisnes mansamente,<br> + + +E Dione, que as rosas entro a neve<br> + + +No rosto traz, descia diligente.<br> + + +O frecheiro, que contra o céu se atreve,<br> + + +A recebê-la vem, ledo e contente;<br> + + +Vêm todos os Cupidos servidores<br> + + +Beijar a mão à Deusa dos amores.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +Ela, por que não gaste o tempo em vão,<br> + + +Nos braços tendo o filho, confiada<br> + + +Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão<br> + + +Toda minha potência está fundada;<br> + + +Filho, em quem minhas forças sempre estão;<br> + + +Tu, que as armas Tifeias tens em nada,<br> + + +A socorrer-me a tua potestade<br> + + +Me triz especial necessidade.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"Bem vês as Lusitânicas fadigas,<br> + + +Que eu já de muito longe favoreço,<br> + + +Porque das Parcas sei, minhas amigas,<br> + + +Que me hão de venerar e ter em preço.<br> + + +E, porque tanto imitam as antigas<br> + + +Obras de meus Romanos, me ofereço<br> + + +A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,<br> + + +A quanto se estender o poder nosso.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"E porque das insídias do odioso<br> + + +Baco foram na Índia molestados,<br> + + +E das injúrias sós do mar undoso<br> + + +Puderam mais ser mortos que cansados,<br> + + +No mesmo mar, que sempre temeroso<br> + + +Lhe foi, quero que sejam repousados,<br> + + +Tomando aquele prémio e doce glória<br> + + +Do trabalho, que faz clara a memória.<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"E para isso queria que, feridas<br> + + +As filhas de Nereu, no ponto fundo,<br> + + +De amor dos Lusitanos incendidas,<br> + + +Que vêm de descobrir o novo mundo,<br> + + +Todas numa ilha juntas e subidas,<br> + + +Ilha, que nas entranhas do profundo<br> + + +Oceano terei aparelhada,<br> + + +De dons de Flora e Zéfiro adornada;<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Ali, com mil refrescos e manjares,<br> + + +Com vinhos odoríferos e rosas,<br> + + +Em cristalinos paços singulares<br> + + +Formosos leitos, e elas mais formosas;<br> + + +Enfim, com mil deleites não vulgares,<br> + + +Os esperem as Ninfas amorosas,<br> + + +De amor feridas, para lhes entregarem<br> + + +Quanto delas os olhos cobiçarem.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +"Quero que haja no reino Netunino,<br> + + +Onde eu nasci, progénie forte e bela,<br> + + +E tome exemplo o mundo vil, malino,<br> + + +Que contra tua potência se rebela,<br> + + +Por que entendam que muro adamantino,<br> + + +Nem triste hipocrisia val contra ela:<br> + + +Mal haverá na terra quem se guarde,<br> + + +Se teu fogo imortal nas águas arde."<br> + + +<br> + + +43<br> + + +Assim Vénus propôs, e o filho inieo,<br> + + +Para lhe obedecer, já se apercebe:<br> + + +Manda trazer o arco ebúrneo rico,<br> + + +Onde as setas de ponta de ouro embebe.<br> + + +Com gesto ledo a Cípria, e impudico,<br> + + +Dentro no carro o filho seu recebe;<br> + + +A rédea larga às aves, cujo canto<br> + + +A Factôntea morte chorou tanto.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +Mas diz Cupido, que era necessária<br> + + +Uma famosa e célebre terceira,<br> + + +Que, posto que mil vezes lhe é contrária,<br> + + +Outras muitas a tem por companheira:<br> + + +A Deusa Giganteia, temerária,<br> + + +Jactante, mentirosa, e verdadeira,<br> + + +Que com cem olhos vê, e por onde voa,<br> + + +O que vê, com mil bocas apregoa.<br> + + +<br> + + +45<br> + + +Vão-a buscar, e mandam adiante,<br> + + +Que celebrando vá com tuba clara<br> + + +Os louvores da gente navegante,<br> + + +Mais do que nunca os d'outrem celebrara.<br> + + +Já murmurando a Fama penetrante<br> + + +Pelas fundas cavernas se espalhara:<br> + + +Fala verdade, havida por verdade,<br> + + +Que junto a Deusa traz Credulidade.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +O louvor grande, o rumor excelente<br> + + +No coração dos Deuses, que indignados<br> + + +Foram por Baco contra a ilustre gente,<br> + + +Mudando, os fez um pouco afeiçoados.<br> + + +O peito feminil, que levemente<br> + + +Muda quaisquer propósitos tomados,<br> + + +Já julga por mau zelo e por crueza<br> + + +Desejar mal a tanta fortaleza.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +Despede nisto o fero moço as setas<br> + + +Uma após outra: geme o mar com os tiros;<br> + + +Direitas pelas ondas inquietas<br> + + +Algumas vão, e algumas fazem giros;<br> + + +Caem as Ninfas, lançam das secretas<br> + + +Entranhas ardentíssimos suspiros;<br> + + +Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:<br> + + +Que tanto, como a vista, pode a fama.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +Os cornos ajuntou da ebúrnea lua<br> + + +Com força o moço indómito excessiva,<br> + + +Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,<br> + + +Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.<br> + + +Já não fica na aljava seta alguma,<br> + + +Nem nos equóreos campos Ninfa viva;<br> + + +E se feridas ainda estão vivendo,<br> + + +Será para sentir que vão morrendo.<br> + + +<br> + + +49<br> + + +Dai lugar, altas e cerúleas ondas,<br> + + +Que, vedes, Vénus traz a medicina,<br> + + +Mostrando as brancas velas e redondas,<br> + + +Que vêm por cima da água Netunina.<br> + + +Para que tu recíproco respondas,<br> + + +Ardente Amor, à flama feminina,<br> + + +É, forçado que a pudicícia honesta<br> + + +Faça quanto lhe Vénus amoesta.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +Já todo o belo coro se aparelha<br> + + +Das Nereidas, e junto caminhava<br> + + +Em coreias gentis, usança velha,<br> + + +Para a ilha, a que Vénus as guiava.<br> + + +Ali a formosa Deusa lhe aconselha<br> + + +O que ela fez mil vezes, quando amava.<br> + + +Elas, que vão do doce amor vencidas,<br> + + +Estão a seu conselho oferecidas.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +Cortando vão as naus a larga via<br> + + +Do mar ingente para a pátria amada,<br> + + +Desejando prover-se de água fria,<br> + + +Para a grande viagem prolongada,<br> + + +Quando juntas, com súbita alegria,<br> + + +Houveram vista da ilha namorada,<br> + + +Rompendo pelo céu a mãe formosa<br> + + +De Menónio, suave e deleitosa.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +De longe a Ilha viram fresca e bela,<br> + + +Que Vénus pelas ondas lha levava<br> + + +(Bem como o vento leva branca vela)<br> + + +Para onde a forte armada se enxergava;<br> + + +Que, por que não passassem, sem que nela<br> + + +Tomassem porto, como desejava,<br> + + +Para onde as naus navegam a movia<br> + + +A Acidália, que tudo enfim podia.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +Mas firme a fez e imóvel, como viu<br> + + +Que era dos Nautas vista e demandada;<br> + + +Qual ficou Delos, tanto que pariu<br> + + +Latona Febo e a Deusa à caça usada.<br> + + +Para lá logo a proa o mar abriu,<br> + + +Onde a costa fazia uma enseada<br> + + +Curva e quieta, cuja branca areia,<br> + + +Pintou de ruivas conchas Citereia.<br> + + +<br> + + +54<br> + + +Três formosos outeiros se mostravam<br> + + +Erguidos com soberba graciosa,<br> + + +Que de gramíneo esmalte se adornavam..<br> + + +Na formosa ilha alegre e deleitosa;<br> + + +Claras fontes o límpidas manavam<br> + + +Do cume, que a verdura tem viçosa;<br> + + +Por entre pedras alvas se deriva<br> + + +A sonorosa Ninfa fugitiva.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +Num vale ameno, que os outeiros fende,<br> + + +Vinham as claras águas ajuntar-se,<br> + + +Onde uma mesa fazem, que se estende<br> + + +Tão bela quanto pode imaginar-se;<br> + + +Arvoredo gentil sobre ela pende,<br> + + +Como que pronto está para afeitar-se,<br> + + +Vendo-se no cristal resplandecente,<br> + + +Que em si o está pintando propriamente.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +Mil árvores estão ao céu subindo,<br> + + +Com pomos odoríferos e belos:<br> + + +A laranjeira tem no fruto lindo<br> + + +A cor que tinha Dafne nos cabelos;<br> + + +Encosta-se no chão, que está caindo,<br> + + +A cidreira com os pesos amarelos;<br> + + +Os formosos limões ali, cheirando,<br> + + +Estão virgíneas tetas imitando.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +As árvores agrestes que os outeiros<br> + + +Têm com frondente coma enobrecidos,<br> + + +Alemos são de Alcides, e os loureiros<br> + + +Do louro Deus amados e queridos;<br> + + +Mirtos de Citereia, com os pinheiros<br> + + +De Cibele, por outro amor vencidos;<br> + + +Está apontando o agudo cipariso<br> + + +Para onde é posto o etéreo paraíso.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +Os dons que dá Pomona, ali Natura<br> + + +Produz diferentes nos sabores,<br> + + +Sem ter necessidade de cultura,<br> + + +Que sem ela se dão muito melhores:<br> + + +As cerejas purpúreas na pintura,<br> + + +As amoras, que o nome têm de amores,<br> + + +O pomo que da pátria Pérsia veio,<br> + + +Melhor tornado no terreno alheio.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +Abre a romã, mostrando a rubicunda<br> + + +Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;<br> + + +Entre os braços do ulmeiro está a jocunda<br> + + +Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;<br> + + +E vós, se na vossa árvore fecunda,<br> + + +Peras piramidais, viver quiserdes,<br> + + +Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,<br> + + +Em vós fazem os pássaros inicos.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +Pois a tapeçaria bela e fina,<br> + + +Com que se cobre o rústico terreno,<br> + + +Faz ser a de Aqueménia menos diria,<br> + + +Mas o sombrio vale mais ameno.<br> + + +Ali a cabeça a flor Cifísia inclina<br> + + +Sôbolo tanque lúcido e sereno;<br> + + +Floresce o filho e neto de Ciniras,<br> + + +Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +Para julgar, difícil coisa fora,<br> + + +No céu vendo e na terra as mesmas cores,<br> + + +Se dava às flores cor a bela Aurora,<br> + + +Ou se lha dão a ela as belas flores.<br> + + +Pintando estava ali Zéfiro e Flora<br> + + +As violas da cor dos amadores;<br> + + +O lírio roxo, a fresca rosa bela,<br> + + +Qual reluz nas faces da donzela;<br> + + +<br> + + +62<br> + + +A cândida cecém, das matutinas<br> + + +Lágrimas rociada, e a manjarona.<br> + + +Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas,<br> + + +Tão queridas do filho de Latona.<br> + + +Bem se enxerga nos pomos e boninas<br> + + +Que competia Cloris com Pomona.<br> + + +Pois se as aves no ar cantando voam,<br> + + +Alegres animais o chão povoam.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +Ao longo da água o níveo cisne canta,<br> + + +Responde-lhe do ramo filomela;<br> + + +Da sombra de seus cornos não se espanta<br> + + +Acteon, n'água cristalina e bela;<br> + + +Aqui a fugace lebre se levanta<br> + + +Da espessa mata, ou tímida gazela;<br> + + +Ali no bico traz ao caro ninho<br> + + +O mantimento o leve passarinho.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +Nesta frescura tal desembarcavam<br> + + +Já das naus os segundos Argonautas,<br> + + +Onde pela floresta se deixavam<br> + + +Andar as belas Deusas, como incautas.<br> + + +Algumas doces cítaras tocavam,<br> + + +Algumas harpas e sonoras flautas,<br> + + +Outras com os arcos de ouro se fingiam<br> + + +Seguir os animais, que não seguiam.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +Assim lhe aconselhara a mestra experta;<br> + + +Que andassem pelos campos espalhadas;<br> + + +Que, vista dos barões a presa incerta,<br> + + +Se fizessem primeiro desejadas.<br> + + +Algumas, que na forma descoberta<br> + + +Do belo corpo estavam confiadas,<br> + + +Posta a artificiosa formosura,<br> + + +Nuas lavar-se deixam na água pura,<br> + + +<br> + + +66<br> + + +Mas os fortes mancebos, que na praia<br> + + +Punham os pés, de terra cobiçosos,<br> + + +Que não há nenhum deles que não saia<br> + + +De acharem caça agreste desejosos,<br> + + +Não cuidam que, sem laço ou redes, caia<br> + + +Caça naqueles montes deleitosos,<br> + + +Tão suave, doméstica e benigna,<br> + + +Qual ferida lha tinha já Ericina.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +Alguns, que em espingardas e nas bestas,<br> + + +Para ferir os cervos se fiavam,<br> + + +Pelos sombrios matos e florestas<br> + + +Determinadamente se lançavam:<br> + + +Outros, nas sombras, que de as altas sestas<br> + + +Defendem a verdura, passeavam<br> + + +Ao longo da água que, suave e queda,<br> + + +Por alvas pedras corre à praia leda.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +Começam de enxergar subitamente<br> + + +Por entre verdes ramos várias cores,<br> + + +Cores de quem a vista julga e sente<br> + + +Que não eram das rosas ou das flores,<br> + + +Mas da lã fina e seda diferente,<br> + + +Que mais incita a força dos amores,<br> + + +De que se vestem as humanas rosas,<br> + + +Fazendo-se por arte mais formosas.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +Dá Veloso espantado um grande grito:<br> + + +"Senhores, caça estranha, disse, é esta!<br> + + +Se ainda dura o Gentio antigo rito,<br> + + +A Deusas é sagrada esta floresta.<br> + + +Mais descobrimos do que humano espírito<br> + + +Desejou nunca; e bem se manifesta<br> + + +Que são grandes as coisas e excelentes,<br> + + +Que o mundo encobre aos homens imprudentes.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Sigamos estas Deusas, e vejamos<br> + + +Se fantásticas são, se verdadeiras."<br> + + +Isto dito, velozes mais que gamos,<br> + + +Se lançam a correr pelas ribeiras.<br> + + +Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,<br> + + +Mas, mais industriosas que ligeiras,<br> + + +Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,<br> + + +Se deixam ir dos galgos alcançando.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +De uma os cabelos de ouro o vento leva<br> + + +Correndo, e de outra as fraldas delicadas;<br> + + +Acende-se o desejo, que se ceva<br> + + +Nas alvas carnes súbito mostradas;<br> + + +Uma de indústria cai, e já releva,<br> + + +Com mostras mais macias que indignadas,<br> + + +Que sobre ela, empecendo, também caia<br> + + +Quem a seguiu pela arenosa praia.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +Outros, por outra parte, vão topar<br> + + +Com as Deusas despidas, que se lavam:<br> + + +Elas começam súbito a gritar,<br> + + +Como que assalto tal não esperavam.<br> + + +Umas, fingindo menos estimar<br> + + +A vergonha que a força, se lançavam<br> + + +Nuas por entre o mato, aos olhos dando<br> + + +O que às mãos cobiçosas vão +negando.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +Outra, como acudindo mais depressa<br> + + +A vergonha da Deusa caçadora,<br> + + +Esconde o corpo n'água; outra se apressa<br> + + +Por tomar os vestidos, que tem fora.<br> + + +Tal dos mancebos há, que se arremessa,<br> + + +Vestido assim e calçado (que, coa mora<br> + + +De se despir, há medo que ainda tarde)<br> + + +A matar na água o fogo que nele arde.<br> + + +<br> + + +74<br> + + +Qual cão de caçador, sagaz e ardido,<br> + + +Usado a tomar na água a ave ferida,<br> + + +Vendo no rosto o férreo cano erguido<br> + + +Para a garcenha ou pata conhecida,<br> + + +Antes que soe o estouro, mal sofrido<br> + + +Salta n'água, e da presa não duvida,<br> + + +Nadando vai e latindo: assim o mancebo<br> + + +Remete à que não era irmã de Febo.<br> + + +<br> + + +75<br> + + +Leonardo, soldado bem disposto,<br> + + +Manhoso, cavaleiro e namorado,<br> + + +A quem amor não dera um só desgosto,<br> + + +Mas sempre fora dele maltratado,<br> + + +E tinha já por firme pressuposto<br> + + +Ser com amores mal afortunado,<br> + + +Porém não que perdesse a esperança<br> + + +De ainda poder seu fado ter mudança,<br> + + +<br> + + +76<br> + + +Quis aqui sua ventura, que corria<br> + + +Após Efire, exemplo de beleza,<br> + + +Que mais caro que as outras dar queria<br> + + +O que deu para dar-se a natureza.<br> + + +Já cansado correndo lhe dizia:<br> + + +"Ó formosura indigna de aspereza,<br> + + +Pois desta vida te concedo a palma,<br> + + +Espera um corpo de quem levas a alma.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +"Todas de correr cansam, Ninfa pura,<br> + + +Rendendo-se à vontade do inimigo,<br> + + +Tu só de mi só foges na espessura?<br> + + +Quem te disse que eu era o que te sigo?<br> + + +Se to tem dito já aquela ventura,<br> + + +Que em toda a parte sempre anda comigo,<br> + + +Ó não na creias, porque eu, quando a cria,<br> + + +Mil vezes cada hora me mentia.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +"Não canses, que me cansas: e se queres<br> + + +Fugir-me, por que não possa tocar-te,<br> + + +Minha ventura é tal que, ainda que esperes,<br> + + +Ela fará que não possa alcançar-te.<br> + + +Espora; quero ver, se tu quiseres,<br> + + +Que subtil modo busca de escapar-te,<br> + + +E notarás, no fim deste sucesso,<br> + + +Tra la spica e la man, qual muro è messo.<br> + + +<br> + + +79<br> + + +"Ó não me fujas! Assim nunca o breve<br> + + +Tempo fuja de tua formosura!<br> + + +Que, só com refrear o passo leve,<br> + + +Vencerás da fortuna a força dura.<br> + + +Que Imperador, que exército se atreve<br> + + +A quebrantar a fúria da ventura,<br> + + +Que, em quanto desejei, me vai seguindo,<br> + + +O que tu só farás não me fugindo!<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"Pões-te da parte da desdita minha?<br> + + +Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.<br> + + +Levas-me um coração, que livre tinha?<br> + + +Solta-me, e correrás mais levemente.<br> + + +Não te carrega essa alma tão mesquinha,<br> + + +Que nesses fios de ouro reluzente<br> + + +Atada levas? Ou, depois de presa,<br> + + +Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"Nesta esperança só te vou seguindo:<br> + + +Que, ou tu não sofrerás o peso dela,<br> + + +Ou na virtude de teu gesto lindo<br> + + +Lhe mudarás a triste e dura estrela:<br> + + +E se se lhe mudar, não vás fugindo,<br> + + +Que Amor te ferirá, gentil donzela,<br> + + +E tu me esperarás, se Amor te fere:<br> + + +E se me esperas, não há mais que espere."<br> + + +<br> + + +82<br> + + +Já não fugia a bela Ninfa, tanto<br> + + +Por se dar cara ao triste que a seguia,<br> + + +Como por ir ouvindo o doce canto,<br> + + +As namoradas mágoas que dizia.<br> + + +Volvendo o rosto já sereno e santo,<br> + + +Toda banhada em riso e alegria,<br> + + +Cair se deixa aos pés do vencedor,<br> + + +Que todo se desfaz em puro amor.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +Ó que famintos beijos na floresta,<br> + + +E que mimoso choro que soava!<br> + + +Que afagos tão suaves, que ira honesta,<br> + + +Que em risinhos alegres se tornava!<br> + + +O que mais passam na manhã, e na sesta,<br> + + +Que Vénus com prazeres inflamava,<br> + + +Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,<br> + + +Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.<br> + + +<br> + + +84<br> + + +Desta arte enfim conformes já as formosas<br> + + +Ninfas com os seus amados navegantes,<br> + + +Os ornam de capelas deleitosas<br> + + +De louro, e de ouro, e flores abundantes.<br> + + +As mãos alvas lhes davam como esposas;<br> + + +Com palavras formais e estipulantes<br> + + +Se prometem eterna companhia<br> + + +Em vida e morte, de honra e alegria.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +Uma delas maior, a quem se humilha<br> + + +Todo o coro das Ninfas, e obedece,<br> + + +Que dizem ser de Celo e Vesta filha,<br> + + +O que no gesto belo se parece,<br> + + +Enchendo a terra e o mar de maravilha,<br> + + +O Capitão ilustre, que o merece,<br> + + +Recebe ali com pompa honesta e régia,<br> + + +Mostrando-se senhora grande e egrégia.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +Que, depois de lhe ter dito quem era,<br> + + +Com um alto exórdio, de alta graça ornado,<br> + + +Dando-lhe a entender que ali viera<br> + + +Por alta influição do imóvel fado,<br> + + +Para lhe descobrir da unida esfera<br> + + +Da terra imensa, e mar não navegado,<br> + + +Os segredos, por alta profecia,<br> + + +O que esta sua nação só merecia,<br> + + +<br> + + +87<br> + + +Tomando-o pela mão, o leva e guia<br> + + +Para o cume dum monte alto e divino,<br> + + +No qual uma rica fábrica se erguia<br> + + +De cristal toda, e de ouro puro e fino.<br> + + +A maior parte aqui passam do dia<br> + + +Em doces jogos e em prazer contino:<br> + + +Ela nos paços logra seus amores,<br> + + +As outras pelas sombras entre as flores.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +Assim a formosa e a forte companhia<br> + + +O dia quase todo estão passando,<br> + + +Numa alma, doce, incógnita alegria,<br> + + +Os trabalhos tão longos compensando.<br> + + +Porque dos feitos grandes, da ousadia<br> + + +Forte e famosa, o mundo está guardando<br> + + +O prémio lá no fim, bem merecido,<br> + + +Com fama grande e nome alto e subido.<br> + + +<br> + + +89<br> + + +Que as Ninfas do Oceano tão formosas,<br> + + +Tethys, e a ilha angélica pintada,<br> + + +Outra coisa não é que as deleitosas<br> + + +Honras que a vida fazem sublimada.<br> + + +Aquelas proeminências gloriosas,<br> + + +Os triunfos, a fronte coroada<br> + + +De palma e louro, a glória e maravilha:<br> + + +Estes são os deleites desta ilha.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +Que as imortalidades que fingia<br> + + +A antiguidade, que os ilustres ama,<br> + + +Lá no estelante Olimpo, a quem subia<br> + + +Sobre as asas ínclitas da Fama,<br> + + +Por obras valorosas que fazia,<br> + + +Pelo trabalho imenso que se chama<br> + + +Caminho da virtude alto e fragoso,<br> + + +Mas no fim doce, alegre e deleitoso:<br> + + +<br> + + +91<br> + + +Não eram senão prémios que reparte<br> + + +Por feitos imortais e soberanos<br> + + +O mundo com os varões, que esforço e arte<br> + + +Divinos os fizeram, sendo humanos.<br> + + +Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,<br> + + +Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,<br> + + +Ceres, Palas e Juno, com Diana,<br> + + +Todos foram de fraca carne humana.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +Mas a Fama, trombeta de obras tais,<br> + + +Lhe deu no mundo nomes tão estranhos<br> + + +De Deuses, Semideuses imortais,<br> + + +Indígetes, Heróicos e de Magnos.<br> + + +Por isso, ó vós que as famas estimais,<br> + + +Se quiserdes no mundo ser tamanhos,<br> + + +Despertai já do sono do ócio ignavo,<br> + + +Que o ânimo de livre faz escravo.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +E ponde na cobiça um freio duro,<br> + + +E na ambição também, que indignamente<br> + + +Tomais mil vezes, e no torpe e escuro<br> + + +Vício da tirania infame e urgente;<br> + + +Porque essas honras vãs, esse ouro puro<br> + + +Verdadeiro valor não dão à gente:<br> + + +Melhor é, merecê-los sem os ter,<br> + + +Que possuí-los sem os merecer.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +Ou dai na paz as leis iguais, constantes,<br> + + +Que aos grandes não dêem o dos pequenos;<br> + + +Ou vos vesti nas armas rutilantes,<br> + + +Contra a lei dos inimigos Sarracenos:<br> + + +Fareis os Reinos grandes e possantes,<br> + + +E todos tereis mais, o nenhum menos;<br> + + +Possuireis riquezas merecidas,<br> + + +Com as honras, que ilustram tanto as vidas.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +E fareis claro o Rei, que tanto amais,<br> + + +Agora com os conselhos bem cuidados,<br> + + +Agora com as espadas, que imortais<br> + + +Vos farão, como os vossos já passados;<br> + + +Impossibilidades não façais,<br> + + +Que quem quis sempre pôde; e numerados<br> + + +Sereis entre os Heróis esclarecidos,<br> + + +E nesta Ilha de Vénus recebidos.<br> + + +<br> + + +<h3>Canto Décimo</h3> + + +<br> + + +1<br> + + +Mas já o claro amador da Larisséia<br> + + +Adúltera inclinava os animais<br> + + +Lá pera o grande lago que rodeia<br> + + +Temistitão, nos fins Ocidentais;<br> + + +O grande ardor do Sol Favónio enfreia<br> + + +Co sopro que nos tanques naturais<br> + + +Encrespa a água serena e despertava<br> + + +Os lírios e jasmins, que a calma agrava,<br> + + +<br> + + +2<br> + + +Quando as fermosas Ninfas, cos amantes<br> + + +Pela mão, já conformes e contentes,<br> + + +Subiam pera os paços radiantes<br> + + +E de metais ornados reluzentes,<br> + + +Mandados da Rainha, que abundantes<br> + + +Mesas d'altos manjares excelentes<br> + + +Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza<br> + + +Restaurem da cansada natureza.<br> + + +<br> + + +3<br> + + +Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,<br> + + +Se assentam dous e dous, amante e dama;<br> + + +Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,<br> + + +Está co a bela Deusa o claro Gama.<br> + + +De iguarias suaves e divinas,<br> + + +A quem não chega a Egípcia antiga fama,<br> + + +Se acumulam os pratos de fulvo ouro,<br> + + +Trazidos lá do Atlântico tesouro.<br> + + +<br> + + +4<br> + + +Os vinhos odoríferos, que acima<br> + + +Estão não só do Itálico +Falerno<br> + + +Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima<br> + + +Com todo o ajuntamento sempiterno,<br> + + +Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,<br> + + +Crespas escumas erguem, que no interno<br> + + +Coração movem súbita alegria,<br> + + +Saltando co a mistura d'água fria.<br> + + +<br> + + +5<br> + + +Mil práticas alegres se tocavam;<br> + + +Risos doces, sutis e argutos ditos,<br> + + +Que entre um e outro manjar se ale vantavam,<br> + + +Despertando os alegres apetitos;<br> + + +Músicos instrumentos não faltavam<br> + + +(Quais, no profundo Reino, os nus espritos<br> + + +Fizeram descansar da eterna pena)<br> + + +Cüa voz düa angélica Sirena.<br> + + +<br> + + +6<br> + + +Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,<br> + + +Que pelos altos paços vão soando,<br> + + +Em consonância igual, os instumentos<br> + + +Suaves vêm a um tempo conformando.<br> + + +Um súbito silêncio enfreia os ventos<br> + + +E faz ir docemente murmurando<br> + + +As águas, e nas casas naturais<br> + + +Adormecer os brutos animais.<br> + + +<br> + + +7<br> + + +Com doce voz está subindo ao Céu<br> + + +Altos varões que estão por vir ao mundo,<br> + + +Cujas claras Ideias viu Proteu<br> + + +Num globo vão, diáfano, rotundo,<br> + + +Que Júpiter em dom lho concedeu<br> + + +Em sonhos, e despois no Reino fundo,<br> + + +Vaticinando, o disse, e na memória<br> + + +Recolheu logo a Ninfa a clara história.<br> + + +<br> + + +8<br> + + +Matéria é de coturno, e não de soco,<br> + + +A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;<br> + + +Qual Iopas não soube, ou Demodoco,<br> + + +Entre os Feaces um, outro em Cartago.<br> + + +Aqui, minha Calíope, te invoco<br> + + +Neste trabalho extremo, por que em pago<br> + + +Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,<br> + + +O gosto de escrever, que vou perdendo.<br> + + +<br> + + +9<br> + + +Vão os anos descendo, e já do Estio<br> + + +Há pouco que passar até o Outono;<br> + + +A Fortuna me faz o engenho frio,<br> + + +Do qual já não me jacto nem me abono;<br> + + +Os desgostos me vão levando ao rio<br> + + +Do negro esquecimento e eterno sono.<br> + + +Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha<br> + + +Das Musas, co que quero à nação minha!<br> + + +<br> + + +10<br> + + +Cantava a bela Deusa que viriam<br> + + +Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,<br> + + +Armadas que as ribeiras venceriam<br> + + +Por onde o Oceano Índico suspira;<br> + + +E que os Gentios Reis que não dariam<br> + + +A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira<br> + + +Provariam do braço duro e forte,<br> + + +Até render-se a ele ou logo à morte.<br> + + +<br> + + +11<br> + + +Cantava dum que tem nos Malabares<br> + + +Do sumo sacerdócio a dignidade,<br> + + +Que, só por não quebrar cos singulares<br> + + +Barões os nós que dera d'amizade,<br> + + +Sofrerá suas cidades e lugares,<br> + + +Com ferro, incêndios, ira e crueldade,<br> + + +Ver destruir do Samorim potente,<br> + + +Que tais ódios terá co a nova gente.<br> + + +<br> + + +12<br> + + +E canta como lá se embarcaria<br> + + +Em Belém o remédio deste dano,<br> + + +Sem saber o que em si ao mar traria,<br> + + +O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.<br> + + +O peso sentirão, quando entraria,<br> + + +O curvo lenho e o férvido Oceano,<br> + + +Quando mais n'água os troncos que gemerem<br> + + +Contra sua natureza se meterem.<br> + + +<br> + + +13<br> + + +Mas, já chegado aos fins Orientais<br> + + +E deixado em ajuda do gentio Rei de<br> + + +Cochim, com poucos naturais,<br> + + +Nos braços do salgado e curvo rio<br> + + +Desbaratará os Naires infernais<br> + + +No passo Cambalão, tornando frio<br> + + +D'espanto o ardor imenso do Oriente,<br> + + +Que verá tanto obrar tão pouca gente.<br> + + +<br> + + +14<br> + + +Chamará o Samorim mais gente nova;<br> + + +Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,<br> + + +Das serras de Narsinga, que alta prova<br> + + +Estarão prometendo a seu senhor;<br> + + +Fará que todo o Naire, enfim, se mova<br> + + +Que entre Calecu jaz e Cananor,<br> + + +D'ambas as Leis imigas pera a guerra:<br> + + +Mouros por mar, Gentios pola terra.<br> + + +<br> + + +15<br> + + +E todos outra vez desbaratando,<br> + + +Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,<br> + + +A grande multidão que irá matando<br> + + +A todo o Malabar terá admirado.<br> + + +Cometerá outra vez, não dilatando,<br> + + +O Gentio os combates, apressado,<br> + + +Injuriando os seus, fazendo votos<br> + + +Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.<br> + + +<br> + + +16<br> + + +Já não defenderá somente os passos,<br> + + +Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;<br> + + +Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos<br> + + +Aqueles que as cidades fazem rasas,<br> + + +Fará que os seus, de vida pouco escassos,<br> + + +Cometam o Pacheco, que tem asas,<br> + + +Por dous passos num tempo; mas voando<br> + + +Dum noutro, tudo irá desbaratando.<br> + + +<br> + + +17<br> + + +Virá ali o Samorim, por que em pessoa<br> + + +Veja a batalha e os seus esforce e anime;<br> + + +Mas um tiro, que com zunido voa,<br> + + +De sangue o tingirá no andor sublime.<br> + + +Já não verá remédio ou +manha boa<br> + + +Nem força que o Pacheco muito estime;<br> + + +Inventará traições e vãos +venenos,<br> + + +Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.<br> + + +<br> + + +18<br> + + +Que tornará a vez sétima (cantava)<br> + + +Pelejar co invicto e forte Luso,<br> + + +A quem nenhum trabalho pesa e agrava;<br> + + +Mas, contudo, este só o fará confuso.<br> + + +Trará pera a batalha, horrenda e brava,<br> + + +Máquinas de madeiros fora de uso,<br> + + +Pera lhe abalroar as caravelas,<br> + + +Que até'li vão lhe fora cometê-las.<br> + + +<br> + + +19<br> + + +Pela água levará serras de fogo<br> + + +Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;<br> + + +Mas a militar arte e engenho logo<br> + + +Fará ser vã a braveza com que venha.<br> + + +—"Nenhum claro barão no Márcio jogo,<br> + + +Que nas asas da Fama se sustenha,<br> + + +Chega a este, que a palma a todos toma.<br> + + +E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.<br> + + +<br> + + +20<br> + + +"Porque tantas batalhas, sustentadas<br> + + +Com muito pouco mais de cem soldados,<br> + + +Com tantas manhas e artes inventadas,<br> + + +Tantos Cães não imbeles profligados,<br> + + +Ou parecerão fábulas sonhadas,<br> + + +Ou que os celestes Coros, invocados,<br> + + +Decerão a ajudá-lo e lhe darão<br> + + +Esforço, força, ardil e +coração.<br> + + +<br> + + +21<br> + + +"Aquele que nos campos Maratónios<br> + + +O grão poder de Dário estrui e rende,<br> + + +Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,<br> + + +O passo de Termópilas defende,<br> + + +Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,<br> + + +Que com todo o poder Tusco contende<br> + + +Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,<br> + + +Foi como este na guerra forte e sábio."<br> + + +<br> + + +22<br> + + +Mas neste passo a Ninfa, o som canoro<br> + + +Abaxando, fez ronco e entristecido,<br> + + +Cantando em baxa voz, envolta em choro,<br> + + +O grande esforço mal agardecido.<br> + + +—"Ó Belisário (disse) que no coro<br> + + +Das Musas serás sempre engrandecido,<br> + + +Se em ti viste abatido o bravo Marte,<br> + + +Aqui tens com quem podes consolar-te!<br> + + +<br> + + +23<br> + + +"Aqui tens companheiro, assi nos feitos<br> + + +Como no galardão injusto e duro;<br> + + +Em ti e nele veremos altos peitos<br> + + +A baxo estado vir, humilde e escuro.<br> + + +Morrer nos hospitais, em pobres leitos,<br> + + +Os que ao Rei e à Lei servem de muro!<br> + + +Isto fazem os Reis cuja vontade<br> + + +Manda mais que a justiça e que a verdade.<br> + + +<br> + + +24<br> + + +"Isto fazem os Reis quando embebidos<br> + + +Nüa aparência branda que os contenta<br> + + +Dão os prémios, de Aiace merecidos,<br> + + +À língua vã de Ulisses, fraudulenta.<br> + + +Mas vingo-me: que os bens mal repartidos<br> + + +Por quem só doces sombras apresenta,<br> + + +Se não os dão a sábios cavaleiros,<br> + + +Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.<br> + + +<br> + + +25<br> + + +"Mas tu, de quem ficou tão mal pagado<br> + + +Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,<br> + + +Se não és pera dar-lhe honroso estado,<br> + + +É ele pera dar-te um Reino rico.<br> + + +Enquanto for o mundo rodeado<br> + + +Dos Apolíneos raios, eu te fico<br> + + +Que ele seja entre a gente ilustre e claro,<br> + + +E tu nisto culpado por avaro.<br> + + +<br> + + +26<br> + + +"Mas eis outro (cantava) intitulado<br> + + +Vem com nome real e traz consigo<br> + + +O filho, que no mar será ilustrado,<br> + + +Tanto como qualquer Romano antigo.<br> + + +Ambos darão com braço forte, armado,<br> + + +A Quíloa fértil, áspero castigo,<br> + + +Fazendo nela Rei leal e humano,<br> + + +Deitado fora o pérfido tirano.<br> + + +<br> + + +27<br> + + +"Também farão Mombaça, que se arreia<br> + + +De casas sumptuosas e edifícios,<br> + + +Co ferro e fogo seu queimada e feia,<br> + + +Em pago dos passados malefícios.<br> + + +Despois, na costa da Índia, andando cheia<br> + + +De lenhos inimigos e artifícios<br> + + +Contra os Lusos, com velas e com remos<br> + + +O mancebo Lourenço fará extremos.<br> + + +<br> + + +28<br> + + +"Das grandes naus do Samorim potente,<br> + + +Que encherão todo o mar, co a férrea pela,<br> + + +Que sai com trovão do cobre ardente,<br> + + +Fará pedaços leme, masto, vela.<br> + + +Despois, lançando arpéus ousadamente<br> + + +Na capitaina imiga, dentro nela<br> + + +Saltando o fará só com lança e espada<br> + + +De quatrocentos Mouros despejada.<br> + + +<br> + + +29<br> + + +"Mas de Deus a escondida providência<br> + + +(Que ela só sabe o bem de que se serve)<br> + + +O porá onde esforço nem prudência<br> + + +Poderá haver que a vida lhe reserve.<br> + + +Em Chaúl, onde em sangue e resistência<br> + + +O mar todo com fogo e ferro ferve,<br> + + +Lhe farão que com vida se não saia<br> + + +As armadas de Egipto e de Cambaia.<br> + + +<br> + + +30<br> + + +"Ali o poder de muitos inimigos<br> + + +(Que o grande esforço só com força +rende),<br> + + +Os ventos que faltaram, e os perigos<br> + + +Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.<br> + + +Aqui ressurjam todos os Antigos,<br> + + +A ver o nobre ardor que aqui se aprende:<br> + + +Outro Ceva verão, que, espedaçado,<br> + + +Não sabe ser rendido nem domado.<br> + + +<br> + + +31<br> + + +"Com toda üa coxa fora, que em pedaços<br> + + +Lhe leva um cego tiro que passara,<br> + + +Se serve inda dos animosos braços<br> + + +E do grão coração que lhe ficara.<br> + + +Até que outro pelouro quebra os laços<br> + + +Com que co alma o corpo se liara:<br> + + +Ela, solta, voou da prisão fora<br> + + +Onde súbito se acha vencedora.<br> + + +<br> + + +32<br> + + +"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,<br> + + +Na qual tu mereceste paz serena!<br> + + +Que o corpo, que em pedaços se apresenta,<br> + + +Quem o gerou, vingança já lhe ordena:<br> + + +Que eu ouço retumbar a grão tormenta,<br> + + +Que vem já dar a dura e eterna pena,<br> + + +De esperas, basiliscos e trabucos,<br> + + +A Cambaicos cruéis e Mamelucos.<br> + + +<br> + + +33<br> + + +"Eis vem o pai, com ânimo estupendo,<br> + + +Trazendo fúria e mágoa por antolhos,<br> + + +Com que o paterno amor lhe está movendo<br> + + +Fogo no coração, água nos olhos.<br> + + +A nobre ira lhe vinha prometendo<br> + + +Que o sangue fará dar pelos giolhos<br> + + +Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,<br> + + +Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.<br> + + +<br> + + +34<br> + + +"Qual o touro cioso, que se ensaia<br> + + +Pera a crua peleja, os cornos tenta<br> + + +No tronco dum carvalho ou alta faia<br> + + +E, o ar ferindo, as forças experimenta:<br> + + +Tal, antes que no seio de Cambaia<br> + + +Entre Francisco irado, na opulenta<br> + + +Cidade de Dabul a espada afia,<br> + + +Abaxando-lhe a túmida ousadia.<br> + + +<br> + + +35<br> + + +"E logo, entrando fero na enseada<br> + + +De Dio, ilustre em cercos e batalhas,<br> + + +Fará espalhar a fraca e grande armada<br> + + +De Calecu, que remos tem por malhas.<br> + + +A de Melique Iaz, acautelada,<br> + + +Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,<br> + + +Fará ir ver o frio e fundo assento,<br> + + +Secreto leito do húmido elemento.<br> + + +<br> + + +36<br> + + +"Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,<br> + + +A fúria esperará dos vingadores,<br> + + +Verá braços e pernas ir nadando<br> + + +Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.<br> + + +Raios de fogo irão representando,<br> + + +No cego ardor, os bravos domadores.<br> + + +Quanto ali sentirão olhos e ouvidos<br> + + +É fumo, ferro, flamas e alaridos.<br> + + +<br> + + +37<br> + + +"Mas ah, que desta próspera vitória,<br> + + +Com que despois virá ao pátrio Tejo,<br> + + +Quási lhe roubará a famosa glória<br> + + +Um sucesso, que triste e negro vejo!<br> + + +O Cabo Tormentório, que a memória<br> + + +Cos ossos guardará, não terá pejo<br> + + +De tirar deste mundo aquele esprito,<br> + + +Que não tiraram toda a Índia e Egipto.<br> + + +<br> + + +38<br> + + +"Ali, Cafres selvagens poderão<br> + + +O que destros imigos não puderam;<br> + + +E rudos paus tostados sós farão<br> + + +O que arcos e pelouros não fizeram.<br> + + +Ocultos os juízos de Deus são;<br> + + +As gentes vãs, que não nos entenderam,<br> + + +Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,<br> + + +Sendo só providência de Deus pura.<br> + + +<br> + + +39<br> + + +"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto<br> + + +(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)<br> + + +Lá no mar de Melinde, em sangue tinto<br> + + +Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,<br> + + +Pelo Cunha também, que nunca extinto<br> + + +Será seu nome em todo o mar que lava<br> + + +As ilhas do Austro, e praias que se chamam<br> + + +De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!<br> + + +<br> + + +40<br> + + +"Esta luz é do fogo e das luzentes<br> + + +Armas com que Albuquerque irá amansando<br> + + +De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,<br> + + +Que refusam o jugo honroso e brando.<br> + + +Ali verão as setas estridentes<br> + + +Reciprocar-se, a ponta no ar virando<br> + + +Contra quem as tirou; que Deus peleja<br> + + +Por quem estende a fé da Madre Igreja.<br> + + +<br> + + +41<br> + + +"Ali do sal os montes não defendem<br> + + +De corrupção os corpos no combate,<br> + + +Que mortos pela praia e mar se estendem<br> + + +De Gerum, de Mazcate e Calaiate;<br> + + +Até que à força só de +braço aprendem<br> + + +A abaxar a cerviz, onde se lhe ate<br> + + +Obrigação de dar o reino inico<br> + + +Das perlas de Barém tributo rico.<br> + + +<br> + + +42<br> + + +"Que gloriosas palmas tecer vejo<br> + + +Com que Vitória a fronte lhe coroa,<br> + + +Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,<br> + + +Toma a ilha ilustríssima de Goa!<br> + + +Despois, obedecendo ao duro ensejo,<br> + + +A deixa, e ocasião espera boa<br> + + +Com que a torne a tomar, que esforço e arte<br> + + +Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.<br> + + +<br> + + +43<br> + + +"Eis já sobr'ela torna e vai rompendo<br> + + +Por muros, fogo, lanças e pelouros,<br> + + +Abrindo com a espada o espesso e horrendo<br> + + +Esquadrão de Gentios e de Mouros.<br> + + +Irão soldados ínclitos fazendo<br> + + +Mais que liões famélicos e touros,<br> + + +Na luz que sempre celebrada e dina<br> + + +Será da Egípcia Santa Caterina.<br> + + +<br> + + +44<br> + + +"Nem tu menos fugir poderás deste,<br> + + +Posto que rica e posto que assentada<br> + + +Lá no grémio da Aurora, onde naceste,<br> + + +Opulenta Malaca nomeada.<br> + + +As setas venenosas que fizeste,<br> + + +Os crises com que já te vejo armada,<br> + + +Malaios namorados, Jaus valentes,<br> + + +Todos farás ao Luso obedientes."<br> + + +<br> + + +45<br> + + +Mais estanças cantara esta Sirena<br> + + +Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,<br> + + +Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,<br> + + +Posto que a fama sua o mundo cerque.<br> + + +O grande Capitão, que o fado ordena<br> + + +Que com trabalhos glória eterna merque,<br> + + +Mais há-de ser um brando companheiro<br> + + +Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.<br> + + +<br> + + +46<br> + + +Mas em tempo que fomes e asperezas,<br> + + +Doenças, frechas e trovões ardentes,<br> + + +A sazão e o lugar, fazem cruezas<br> + + +Nos soldados a tudo obedientes,<br> + + +Parece de selváticas brutezas,<br> + + +De peitos inumanos e insolentes,<br> + + +Dar extremo suplício pela culpa<br> + + +Que a fraca humanidade e Amor desculpa.<br> + + +<br> + + +47<br> + + +Não será a culpa abominoso incesto<br> + + +Nem violento estupro em virgem pura,<br> + + +Nem menos adultério desonesto,<br> + + +Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.<br> + + +Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,<br> + + +Ou de usado a crueza fera e dura,<br> + + +Cos seus üa ira insana não refreia,<br> + + +Põe na fama alva noda negra e feia.<br> + + +<br> + + +48<br> + + +Viu Alexandre Apeles namorado<br> + + +Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,<br> + + +Não sendo seu soldado exprimentado,<br> + + +Nem vendo-se num cerco duro e urgente.<br> + + +Sentiu Ciro que andava já abrasado<br> + + +Araspas, de Panteia, em fogo ardente,<br> + + +Que ele tomara em guarda, e prometia<br> + + +Que nenhum mau desejo o venceria;<br> + + +<br> + + +49<br> + + +Mas, vendo o ilustre Persa que vencido<br> + + +Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,<br> + + +Levemente o perdoa, e foi servido<br> + + +Dele num caso grande, em recompensa.<br> + + +Per força, de Judita foi marido<br> + + +O férreo Balduíno; mas dispensa<br> + + +Carlos, pai dela, posto em causas grandes,<br> + + +Que viva e povoador seja de Frandes.<br> + + +<br> + + +50<br> + + +Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,<br> + + +De Soares cantava, que as bandeiras<br> + + +Faria tremular e pôr espanto<br> + + +Pelas roxas Arábicas ribeiras:<br> + + +—"Medina abominábil teme tanto,<br> + + +Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras<br> + + +Praias de Abássia; Barborá se teme<br> + + +Do mal de que o empório Zeila geme.<br> + + +<br> + + +51<br> + + +"A nobre ilha também de Taprobana,<br> + + +Já pelo nome antigo tão famosa<br> + + +Quanto agora soberba e soberana<br> + + +Pela cortiça cálida, cheirosa,<br> + + +Dela dará tributo à Lusitana<br> + + +Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,<br> + + +Vencendo se erguerá na torre erguida,<br> + + +Em Columbo, dos próprios tão temida.<br> + + +<br> + + +52<br> + + +"Também Sequeira, as ondas Eritreias<br> + + +Dividindo, abrirá novo caminho<br> + + +Pera ti, grande Império, que te arreias<br> + + +De seres de Candace e Sabá ninho.<br> + + +Maçuá, com cisternas de água cheias<br> + + +Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;<br> + + +E fará descobir remotas Ilhas,<br> + + +Que dão ao mundo novas maravilhas.<br> + + +<br> + + +53<br> + + +"Virá despois Meneses, cujo ferro<br> + + +Mais na Africa, que cá, terá provado;<br> + + +Castigará de Ormuz soberba o erro,<br> + + +Com lhe fazer tributo dar dobrado.<br> + + +Também tu, Gama, em pago do desterro<br> + + +Em que estás e serás inda tornado,<br> + + +Cos títulos de Conde e d'honras nobres<br> + + +Virás mandar a terra que descobres.<br> + + +<br> + + +54<br> + + +"Mas aquela fatal necessidade<br> + + +De quem ninguém se exime dos humanos,<br> + + +Ilustrado co a Régia dignidade,<br> + + +Te tirará do mundo e seus enganos.<br> + + +Outro Meneses logo, cuja idade<br> + + +É maior na prudência que nos anos,<br> + + +Governará; e fará o ditoso Henrique<br> + + +Que perpétua memória dele fique.<br> + + +<br> + + +55<br> + + +"Não vencerá somente os Malabares,<br> + + +Destruindo Panane com Coulete,<br> + + +Cometendo as bombardas, que, nos ares,<br> + + +Se vingam só do peito que as comete;<br> + + +Mas com virtudes, certo, singulares,<br> + + +Vence os imigos d'alma todos sete;<br> + + +De cobiça triunfa e incontinência,<br> + + +Que em tal idade é suma de excelência.<br> + + +<br> + + +56<br> + + +"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,<br> + + +Sucederás, ó forte Mascarenhas;<br> + + +E, se injustos o mando te tomarem,<br> + + +Prometo-te que fama eterna tenhas.<br> + + +Pera teus inimigos confessarem<br> + + +Teu valor alto, o fado quer que venhas<br> + + +A mandar, mais de palmas coroado,<br> + + +Que de fortuna justa acompanhado.<br> + + +<br> + + +57<br> + + +"No reino de Bintão, que tantos danos<br> + + +Terá a Malaca muito tempo feitos,<br> + + +Num só dia as injúrias de mil anos<br> + + +Vingarás, co valor de ilustres peitos.<br> + + +Trabalhos e perigos inumanos,<br> + + +Abrolhos férreos mil, passos estreitos,<br> + + +Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:<br> + + +Tudo fico que rompas e sometas.<br> + + +<br> + + +58<br> + + +"Mas na Índia, cobiça e +ambição,<br> + + +Que claramente põem aberto o rosto<br> + + +Contra Deus e Justiça, te farão<br> + + +Vitupério nenhum, mas só desgosto.<br> + + +Quem faz injúria vil e sem razão,<br> + + +Com forças e poder em que está posto,<br> + + +Não vence; que a vitória verdadeira<br> + + +É saber ter justiça nua e inteira.<br> + + +<br> + + +59<br> + + +"Mas, contudo, não nego que Sampaio<br> + + +Será, no esforço, ilustre e assinalado,<br> + + +Mostrando-se no mar um fero raio,<br> + + +Que de inimigos mil verá coalhado.<br> + + +Em Bacanor fará cruel ensaio<br> + + +No Malabar, pera que, amedrontado,<br> + + +Despois a ser vencido dele venha<br> + + +Cutiale, com quanta armada tenha.<br> + + +<br> + + +60<br> + + +"E não menos de Dio a fera frota,<br> + + +Que Chaúl temerá, de grande e ousada,<br> + + +Fará, co a vista só, perdida e rota,<br> + + +Por Heitor da Silveira e destroçada;<br> + + +Por Heitor Português, de quem se nota<br> + + +Que na costa Cambaica, sempre armada,<br> + + +Será aos Guzarates tanto dano,<br> + + +Quanto já foi aos Gregos o Troiano.<br> + + +<br> + + +61<br> + + +"A Sampaio feroz sucederá<br> + + +Cunha, que longo tempo tem o leme:<br> + + +De Chale as torres altas erguerá,<br> + + +Enquanto Dio ilustre dele treme;<br> + + +O forte Baçaim se lhe dará,<br> + + +Não sem sangue, porém, que nele geme<br> + + +Melique, porque à força só de espada<br> + + +A tranqueira soberba vê tomada.<br> + + +<br> + + +62<br> + + +"Trás este vem Noronha, cujo auspício<br> + + +De Dio os Rumes feros afugenta;<br> + + +Dio, que o peito e bélico exercício<br> + + +De António da Silveira bem sustenta.<br> + + +Fará em Noronha a morte o usado ofício,<br> + + +Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta<br> + + +No governo do Império, cujo zelo<br> + + +Com medo o Roxo Mar fará amarelo.<br> + + +<br> + + +63<br> + + +"Das mãos do teu Estêvão vem tomar<br> + + +As rédeas um, que já será ilustrado<br> + + +No Brasil, com vencer e castigar<br> + + +O pirata Francês, ao mar usado.<br> + + +Despois, Capitão-mor do Índico mar,<br> + + +O muro de Damão, soberbo e armado,<br> + + +Escala e primeiro entra a porta aberta,<br> + + +Que fogo e frechas mil terão coberta.<br> + + +<br> + + +64<br> + + +"A este o Rei Cambaico soberbíssimo<br> + + +Fortaleza dará na rica Dio,<br> + + +Por que contra o Mogor poderosíssimo<br> + + +Lhe ajude a defender o senhorio.<br> + + +Despois irá com peito esforçadíssimo<br> + + +A tolher que não passe o Rei gentio<br> + + +De Calecu, que assi com quantos veio<br> + + +O fará retirar, de sangue cheio.<br> + + +<br> + + +65<br> + + +"Destruirá a cidade Repelim,<br> + + +Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;<br> + + +E despois, junto ao Cabo Comorim,<br> + + +üa façanha faz esclarecida:<br> + + +A frota principal do Samorim,<br> + + +Que destruir o mundo não duvida,<br> + + +Vencerá co furor do ferro e fogo;<br> + + +Em si verá Beadala o Márcio jogo.<br> + + +<br> + + +66<br> + + +"Tendo assi limpa a Índia dos imigos,<br> + + +Virá despois com ceptro a governá-Ia<br> + + +Sem que ache resistência nem perigos,<br> + + +Que todos tremem dele e nenhum fala.<br> + + +Só quis provar os ásperos castigos<br> + + +Baticalá, que vira já Beadala.<br> + + +De sangue e corpos mortos ficou cheia<br> + + +E de fogo e trovões desfeita e feia.<br> + + +<br> + + +67<br> + + +"Este será Martinho, que de Marte<br> + + +O nome tem co as obras derivado;<br> + + +Tanto em armas ilustre em toda parte,<br> + + +Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.<br> + + +Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte<br> + + +Português terá sempre levantado,<br> + + +Conforme sucessor ao sucedido,<br> + + +Que um ergue Dio, outro o defende erguido.<br> + + +<br> + + +68<br> + + +"Persas feroces, Abassis e Rumes,<br> + + +Que trazido de Roma o nome têm,<br> + + +Vários de gestos, vários de costumes<br> + + +(Que mil nações ao cerco feras vêm),<br> + + +Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes<br> + + +Porque uns poucos a terra lhe detêm.<br> + + +Em sangue Português, juram, descridos,<br> + + +De banhar os bigodes retorcidos.<br> + + +<br> + + +69<br> + + +"Basiliscos medonhos e liões,<br> + + +Trabucos feros, minas encobertas,<br> + + +Sustenta Mascarenhas cos barões<br> + + +Que tão ledos as mortes têm por certas;<br> + + +Até que, nas maiores opressões,<br> + + +Castro libertador, fazendo ofertas<br> + + +Das vidas de seus filhos, quer que fiquem<br> + + +Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.<br> + + +<br> + + +70<br> + + +"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,<br> + + +Onde o violento fogo, com ruido,<br> + + +Em pedaços os muros no ar levanta,<br> + + +Será ali arrebatado e ao Céu subido.<br> + + +Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta<br> + + +E tem o caminho húmido impedido,<br> + + +Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,<br> + + +Os ventos e despois os inimigos.<br> + + +<br> + + +71<br> + + +"Eis vem despois o pai, que as ondas corta<br> + + +Co restante da gente Lusitana,<br> + + +E com força e saber, que mais importa,<br> + + +Batalha dá felice e soberana.<br> + + +Uns, paredes subindo, escusam porta;<br> + + +Outros a abrem na fera esquadra insana.<br> + + +Feitos farão tão dinos de memória<br> + + +Que não caibam em verso ou larga história.<br> + + +<br> + + +72<br> + + +"Este, despois, em campo se apresenta,<br> + + +Vencedor forte e intrépido, ao possante<br> + + +Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta<br> + + +Da fera multidão quadrupedante.<br> + + +Não menos suas terras mal sustenta<br> + + +O Hidalcão, do braço triunfante<br> + + +Que castigando vai Dabul na costa;<br> + + +Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.<br> + + +<br> + + +73<br> + + +"Estes e outros Barões, por várias partes,<br> + + +Dinos todos de fama e maravilha,<br> + + +Fazendo-se na terra bravos Martes,<br> + + +Virão lograr os gostos desta Ilha,<br> + + +Varrendo triunfantes estandartes<br> + + +Pelas ondas que corta a aguda quilha;<br> + + +E acharão estas Ninfas e estas mesas,<br> + + +Que glórias e honras são de árduas +empresas."<br> + + +<br> + + +74<br> + + +Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,<br> + + +Com sonoroso aplauso, vozes davam,<br> + + +Com que festejam as alegres vodas<br> + + +Que com tanto prazer se celebravam.<br> + + +—"Por mais que da Fortuna andem as rodas<br> + + +(Nüa cônsona voz todas soavam),<br> + + +Não vos hão-de faltar, gente famosa,<br> + + +Honra, valor e fama gloriosa."<br> + + +<br> + + +75<br> + + +Despois que a corporal necessidade<br> + + +Se satisfez do mantimento nobre,<br> + + +E na harmonia e doce suavidade<br> + + +Viram os altos feitos que descobre,<br> + + +Tétis, de graça ornada e gravidade,<br> + + +Pera que com mais alta glória dobre<br> + + +As festas deste alegre e claro dia,<br> + + +Pera o felice Gama assi dizia:<br> + + +<br> + + +76<br> + + +—"Faz-te mercê, barão, a +Sapiência<br> + + +Suprema de, cos olhos corporais,<br> + + +Veres o que não pode a vã ciência<br> + + +Dos errados e míseros mortais.<br> + + +Sigue-me firme e forte, com prudência,<br> + + +Por este monte espesso, tu cos mais."<br> + + +Assi lhe diz e o guia por um mato<br> + + +Árduo, difícil, duro a humano trato.<br> + + +<br> + + +77<br> + + +Não andam muito que no erguido cume<br> + + +Se acharam, onde um campo se esmaltava<br> + + +De esmeraldas, rubis, tais que presume<br> + + +A vista que divino chão pisava.<br> + + +Aqui um globo vêm no ar, que o lume<br> + + +Claríssimo por ele penetrava,<br> + + +De modo que o seu centro está evidente,<br> + + +Como a sua superfícia, claramente.<br> + + +<br> + + +78<br> + + +Qual a matéria seja não se enxerga,<br> + + +Mas enxerga-se bem que está composto<br> + + +De vários orbes, que a Divina verga<br> + + +Compôs, e um centro a todos só tem posto.<br> + + +Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,<br> + + +Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto<br> + + +Por toda a parte tem; e em toda a parte<br> + + +Começa e acaba, enfim, por divina arte,<br> + + +<br> + + +79<br> + + +Uniforme, perfeito, em si sustido,<br> + + +Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.<br> + + +Vendo o Gama este globo, comovido<br> + + +De espanto e de desejo ali ficou.<br> + + +Diz-lhe a Deusa:—"O transunto, reduzido<br> + + +Em pequeno volume, aqui te dou<br> + + +Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas<br> + + +Por onde vás e irás e o que desejas.<br> + + +<br> + + +80<br> + + +"Vês aqui a grande máquina do Mundo,<br> + + +Etérea e elemental, que fabricada<br> + + +Assi foi do Saber, alto e profundo,<br> + + +Que é sem princípio e meta limitada.<br> + + +Quem cerca em derredor este rotundo<br> + + +Globo e sua superfícia tão limada,<br> + + +É Deus: mas o que é Deus, ninguém o +entende,<br> + + +Que a tanto o engenho humano não se estende.<br> + + +<br> + + +81<br> + + +"Este orbe que, primeiro, vai cercando<br> + + +Os outros mais pequenos que em si tem,<br> + + +Que está com luz tão clara radiando<br> + + +Que a vista cega e a mente vil também,<br> + + +Empíreo se nomeia, onde logrando<br> + + +Puras almas estão daquele Bem<br> + + +Tamanho, que ele só se entende e alcança,<br> + + +De quem não há no mundo semelhança.<br> + + +<br> + + +82<br> + + +"Aqui, só verdadeiros, gloriosos<br> + + +Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,<br> + + +Júpiter, Juno, fomos fabulosos,<br> + + +Fingidos de mortal e cego engano.<br> + + +Só pera fazer versos deleitosos<br> + + +Servimos; e, se mais o trato humano<br> + + +Nos pode dar, é só que o nome nosso<br> + + +Nestas estrelas pôs o engenho vosso.<br> + + +<br> + + +83<br> + + +"E também, porque a santa Providência,<br> + + +Que em Júpiter aqui se representa,<br> + + +Por espíritos mil que têm prudência<br> + + +Governa o Mundo todo que sustenta<br> + + +(Ensina-lo a profética ciência,<br> + + +Em muitos dos exemplos que apresenta);<br> + + +Os que são bons, guiando, favorecem,<br> + + +Os maus, em quanto podem, nos empecem;<br> + + +<br> + + +84<br> + + +"Quer logo aqui a pintura que varia<br> + + +Agora deleitando, ora ensinando,<br> + + +Dar-lhe nomes que a antiga Poesia<br> + + +A seus Deuses já dera, fabulando;<br> + + +Que os Anjos de celeste companhia<br> + + +Deuses o sacro verso está chamando,<br> + + +Nem nega que esse nome preminente<br> + + +Também aos maus se dá, mas falsamente.<br> + + +<br> + + +85<br> + + +"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas<br> + + +Causas obra no Mundo, tudo manda.<br> + + +E tornando a contar-te das profundas<br> + + +Obras da Mão Divina veneranda,<br> + + +Debaxo deste círculo onde as mundas<br> + + +Almas divinas gozam, que não anda,<br> + + +Outro corre, tão leve e tão ligeiro<br> + + +Que não se enxerga: é o Móbile +primeiro.<br> + + +<br> + + +86<br> + + +"Com este rapto e grande movimento<br> + + +Vão todos os que dentro tem no seio;<br> + + +Por obra deste, o Sol, andando a tento,<br> + + +O dia e noite faz, com curso alheio.<br> + + +Debaxo deste leve, anda outro lento,<br> + + +Tão lento e sojugado a duro freio,<br> + + +Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,<br> + + +Duzentos cursos faz, dá ele um passo.<br> + + +<br> + + +87<br> + + +"Olha estoutro debaxo, que esmaltado<br> + + +De corpos lisos anda e radiantes,<br> + + +Que também nele tem curso ordenado<br> + + +E nos seus axes correm cintilantes.<br> + + +Bem vês como se veste e faz ornado<br> + + +Co largo Cinto d, ouro, que estelantes<br> + + +Animais doze traz afigurados,<br> + + +Apousentos de Febo limitados.<br> + + +<br> + + +88<br> + + +"Olha por outras partes a pintura<br> + + +Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:<br> + + +Olha a Carreta, atenta a Cinosura,<br> + + +Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;<br> + + +Vê de Cassiopeia a fermosura<br> + + +E do Orionte o gesto turbulento;<br> + + +Olha o Cisne morrendo que suspira,<br> + + +A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.<br> + + +<br> + + +89<br> + + +"Debaxo deste grande Firmamento,<br> + + +Vês o céu de Saturno, Deus antigo;<br> + + +Júpiter logo faz o movimento,<br> + + +E Marte abaxo, bélico inimigo;<br> + + +O claro Olho do céu, no quarto assento,<br> + + +E Vénus, que os amores traz consigo;<br> + + +Mercúrio, de eloquência soberana;<br> + + +Com três rostos, debaxo vai Diana.<br> + + +<br> + + +90<br> + + +"Em todos estes orbes, diferente<br> + + +Curso verás, nuns grave e noutros leve;<br> + + +Ora fogem do Centro longamente,<br> + + +Ora da Terra estão caminho breve,<br> + + +Bem como quis o Padre omnipotente,<br> + + +Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,<br> + + +Os quais verás que jazem mais a dentro<br> + + +E tem co Mar a Terra por seu centro.<br> + + +<br> + + +91<br> + + +"Neste centro, pousada dos humanos,<br> + + +Que não somente, ousados, se contentam<br> + + +De sofrerem da terra firme os danos,<br> + + +Mas inda o mar instábil exprimentam,<br> + + +Verás as várias partes, que os insanos<br> + + +Mares dividem, onde se apousentam<br> + + +Várias nações que mandam +vários Reis,<br> + + +Vários costumes seus e várias leis.<br> + + +<br> + + +92<br> + + +"Vês Europa Cristã, mais alta e clara<br> + + +Que as outras em polícia e fortaleza.<br> + + +Vês África, dos bens do mundo avara,<br> + + +Inculta e toda cheia de bruteza;<br> + + +Co Cabo que até'aqui se vos negara,<br> + + +Que assentou pera o Austro a Natureza.<br> + + +Olha essa terra toda, que se habita<br> + + +Dessa gente sem Lei, quási infinita.<br> + + +<br> + + +93<br> + + +"Vê do Benomotapa o grande império,<br> + + +De selvática gente, negra e nua,<br> + + +Onde Gonçalo morte e vitupério<br> + + +Padecerá, pola Fé santa sua.<br> + + +Nace por este incógnito Hemispério<br> + + +O metal por que mais a gente sua.<br> + + +Vê que do lago donde se derrama<br> + + +O Nilo, também vindo está Cuama.<br> + + +<br> + + +94<br> + + +"Olha as casas dos negros, como estão<br> + + +Sem portas, confiados, em seus ninhos,<br> + + +Na justiça real e defensão<br> + + +E na fidelidade dos vizinhos;<br> + + +Olha deles a bruta multidão,<br> + + +Qual bando espesso e negro de estorninhos,<br> + + +Combaterá em Sofala a fortaleza, Que<br> + + +defenderá Nhaia com destreza.<br> + + +<br> + + +95<br> + + +"Olha lá as alagoas donde o Nilo<br> + + +Nace, que não souberam os antigos;<br> + + +Vê-lo rega, gerando o crocodilo,<br> + + +Os povos Abassis, de Crista amigos;<br> + + +Olha como sem muros (novo estilo)<br> + + +Se defendem milhor dos inimigos;<br> + + +Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,<br> + + +Que ora dos naturais Nobá se chama.<br> + + +<br> + + +96<br> + + +"Nesta remota terra um filho teu<br> + + +Nas armas contra os Turcos será claro;<br> + + +Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;<br> + + +Mas contra o fim fatal não há reparo.<br> + + +Vê cá a costa do mar, onde te deu<br> + + +Melinde hospício gasalhoso e caro;<br> + + +O Rapto rio nota, que o romance<br> + + +Da terra chama Obi; entra em Quilmance.<br> + + +<br> + + +97<br> + + +"O Cabo vê já Arómata chamado,<br> + + +E agora Guardafú, dos moradores,<br> + + +Onde começa a boca do afamado<br> + + +Mar Roxo, que do fundo toma as cores;<br> + + +Este como limite está lançado<br> + + +Que divide Asia de Africa; e as milhores<br> + + +Povoações que a parte Africa tem<br> + + +Maçuá são, Arquico e +Suaquém.<br> + + +<br> + + +98<br> + + +"Vês o extremo Suez, que antigamente<br> + + +Dizem que foi dos Héroas a cidade<br> + + +(Outros dizem que Arsínoe), e ao presente<br> + + +Tem das frotas do Egipto a potestade.<br> + + +Olha as águas nas quais abriu patente<br> + + +Estrada o grão Mousés na antiga idade.<br> + + +Ásia começa aqui, que se apresenta<br> + + +Em terras grande, em reinos opulenta.<br> + + +<br> + + +99<br> + + +"Olha o monte Sinai, que se ennobrece<br> + + +Co sepulcro de Santa Caterina;<br> + + +Olha Toro e Gidá, que lhe falece<br> + + +Água das fontes, doce e cristalina;<br> + + +Olha as portas do Estreito, que fenece<br> + + +No reino da seca Ádem, que confina<br> + + +Com a serra d'Arzira, pedra viva,<br> + + +Onde chuva dos céus se não deriva.<br> + + +<br> + + +100<br> + + +"Olha as Arábias três, que tanta terra<br> + + +Tomam, todas da gente vaga e baça,<br> + + +Donde vêm os cavalos pera a guerra,<br> + + +Ligeiros e feroces, de alta raça;<br> + + +Olha a costa que corrre, até que cera<br> + + +Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça<br> + + +O Cabo que co nome se apelida<br> + + +Da cidade Fartaque, ali sabida.<br> + + +<br> + + +101<br> + + +"Olha Dófar, insigne porque manda<br> + + +O mais cheiroso incenso pera as aras;<br> + + +Mas atenta: já cá destoutra banda<br> + + +De Roçalgate, e praias sempre avaras,<br> + + +Começa o reino Ormuz, que todo se anda<br> + + +Pelas ribeiras que inda serão claras<br> + + +Quando as galés do Turco e fera armada<br> + + +Virem de Castelbranco nua a espada.<br> + + +<br> + + +102<br> + + +"Olha o Cabo Asaboro, que chamado<br> + + +Agora é Moçandão, dos navegantes;<br> + + +Por aqui entra o lago que é fechado<br> + + +De Arábia e Pérsias terras abundantes.<br> + + +Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado<br> + + +Tem das suas perlas ricas, e imitantes<br> + + +A cor da Aurora; e vê na água salgada<br> + + +Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.<br> + + +<br> + + +103<br> + + +"Olha da grande Pérsia o império nobre,<br> + + +Sempre posto no campo e nos cavalos,<br> + + +Que se injuria de usar fundido cobre<br> + + +E de não ter das armas sempre os calos.<br> + + +Mas vê a ilha Gerum, como descobre<br> + + +O que fazem do tempo os intervalos,<br> + + +Que da cidade Armuza, que ali esteve,<br> + + +Ela o nome despois e a glória teve.<br> + + +<br> + + +104<br> + + +"Aqui de Dom Filipe de Meneses<br> + + +Se mostrará a virtude, em armas clara,<br> + + +Quando, com muito poucos Portugueses,<br> + + +Os muitos Párseos vencerá de Lara.<br> + + +Virão provar os golpes e reveses<br> + + +De Dom Pedro de Sousa, que provara<br> + + +Já seu braço em Ampaza, que deixada<br> + + +Terá por terra, à força só +de espada.<br> + + +<br> + + +105<br> + + +"Mas deixemos o Estreito e o conhecido<br> + + +Cabo de Jasque, dito já Carpela,<br> + + +Com todo o seu terreno mal querido<br> + + +Da Natura e dos dões usados dela;<br> + + +Carmânia teve já por apelido.<br> + + +Mas vês o fermoso Indo, que daquela<br> + + +Altura nace, junto à qual, também<br> + + +Doutra altura correndo o Gange vem?<br> + + +<br> + + +106<br> + + +"Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,<br> + + +E de Jáquete a íntima enseada;<br> + + +Do mar a enchente súbita, grandíssima,<br> + + +E a vazante, que foge apressurada.<br> + + +A terra de Cambaia vê, riquíssima,<br> + + +Onde do mar o seio faz entrada;<br> + + +Cidades outras mil, que vou passando,<br> + + +A vós outros aqui se estão guardando.<br> + + +<br> + + +107<br> + + +"Vês corre a costa célebre Indiana<br> + + +Pera o Sul, até o Cabo Comori,<br> + + +Já chamado Cori, que Taprobana<br> + + +(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.<br> + + +Por este mar a gente Lusitana,<br> + + +Que com armas virá despois de ti,<br> + + +Terá vitórias, terras e cidades,<br> + + +Nas quais hão-de viver muitas idades.<br> + + +<br> + + +108<br> + + +"As províncias que entre um e o outro rio<br> + + +Vês, com várias nações, +são infinitas:<br> + + +Um reino Mahometa, outro Gentio,<br> + + +A quem tem o Demónio leis escritas.<br> + + +Olha que de Narsinga o senhorio<br> + + +Tem as relíquias santas e benditas<br> + + +Do corpo de Tomé, barão sagrado,<br> + + +Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.<br> + + +<br> + + +109<br> + + +"Aqui a cidade foi que se chamava<br> + + +Meliapor, fermosa, grande e rica;<br> + + +Os Ídolos antigos adorava<br> + + +Como inda agora faz a gente inica.<br> + + +Longe do mar naquele tempo estava,<br> + + +Quando a Fé, que no mundo se pubrica,<br> + + +Tomé vinha prègando, e já passara<br> + + +Províncias mil do mundo, que ensinara.<br> + + +<br> + + +110<br> + + +"Chegado aqui, pregando e junto dando<br> + + +A doentes saúde, a mortos vida,<br> + + +Acaso traz um dia o mar, vagando,<br> + + +Um lenho de grandeza desmedida.<br> + + +Deseja o Rei, que andava edificando,<br> + + +Fazer dele madeira; e não duvida<br> + + +Poder tirá-lo a terra, com possantes<br> + + +Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.<br> + + +<br> + + +111<br> + + +"Era tão grande o peso do madeiro<br> + + +Que, só pera abalar-se, nada abasta;<br> + + +Mas o núncio de Cristo verdadeiro<br> + + +Menos trabalho em tal negócio gasta:<br> + + +Ata o cordão que traz, por derradeiro,<br> + + +No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta<br> + + +Pera onde faça um sumptuoso templo<br> + + +Que ficasse aos futuros por exemplo.<br> + + +<br> + + +112<br> + + +"Sabia bem que se com fé formada<br> + + +Mandar a um monte surdo que se mova,<br> + + +Que obedecerá logo à voz sagrada,<br> + + +Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.<br> + + +A gente ficou disto alvoraçada;<br> + + +Os Brâmenes o têm por cousa nova;<br> + + +Vendo os milagres, vendo a santidade,<br> + + +Hão medo de perder autoridade.<br> + + +<br> + + +113<br> + + +"São estes sacerdotes dos Gentios<br> + + +Em quem mais penetrado tinha enveja;<br> + + +Buscam maneiras mil, buscam desvios,<br> + + +Com que Tomé não se ouça, ou morto +seja.<br> + + +O principal, que ao peito traz os fios,<br> + + +Um caso horrendo faz, que o mundo veja<br> + + +Que inimiga não há, tão dura e fera,<br> + + +Como a virtude falsa, da sincera.<br> + + +<br> + + +114<br> + + +"Um filho próprio mata, e logo acusa<br> + + +De homicídio Tomé, que era inocente;<br> + + +Dá falsas testemunhas, como se usa;<br> + + +Condenaram-no a morte brevemente.<br> + + +O Santo, que não vê milhor escusa<br> + + +Que apelar pera o Padre omnipotente,<br> + + +Quer, diante do Rei e dos senhores,<br> + + +Que se faça um milagre dos maiores.<br> + + +<br> + + +115<br> + + +"O corpo morto manda ser trazido,<br> + + +Que res[s]ucite e seja perguntado<br> + + +Quem foi seu matador, e será crido<br> + + +Por testemunho, o seu, mais aprovado.<br> + + +Viram todos o moço vivo, erguido,<br> + + +Em nome de Jesu crucificado:<br> + + +Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,<br> + + +E descobre seu pai ser homicida.<br> + + +<br> + + +116<br> + + +"Este milagre fez tamanho espanto<br> + + +Que o Rei se banha logo na água santa,<br> + + +E muitos após ele; um beija o manto,<br> + + +Outro louvor do Deus de Tomé canta.<br> + + +Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,<br> + + +Com seu veneno os morde enveja tanta,<br> + + +Que, persuadindo a isso o povo rudo,<br> + + +Determinam matá-lo, em fim de tudo.<br> + + +<br> + + +117<br> + + +"Um dia que pregando ao povo estava,<br> + + +Fingiram entre a gente um arruído.<br> + + +(Já Cristo neste tempo lhe ordenava<br> + + +Que, padecendo, fosse ao Céu subido);<br> + + +A multidão das pedras que voava<br> + + +No Santo dá, já a tudo oferecido;<br> + + +Um dos maus, por fartar-se mais depressa,<br> + + +Com crua lança o peito lhe atravessa.<br> + + +<br> + + +118<br> + + +"Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;<br> + + +Chorou-te toda a terra que pisaste;<br> + + +Mais te choram as almas que vestindo<br> + + +Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.<br> + + +Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,<br> + + +Te recebem na glória que ganhaste.<br> + + +Pedimos-te que a Deus ajuda peças<br> + + +Com que os teus Lusitanos favoreças.<br> + + +<br> + + +119<br> + + +"E vós outros que os nomes usurpais<br> + + +De mandados de Deus, como Tomé,<br> + + +Dizei: se sois mandados, como estais<br> + + +Sem irdes a pregar a santa Fé?<br> + + +Olhai que, se sois Sal e vos danais<br> + + +Na pátria, onde profeta ninguém é,<br> + + +Com que se salgarão em nossos dias<br> + + +(Infiéis deixo) tantas heresias?<br> + + +<br> + + +120<br> + + +"Mas passo esta matéria perigosa<br> + + +E tornemos à costa debuxada.<br> + + +Já com esta cidade tão famosa<br> + + +Se faz curva a Gangética enseada;<br> + + +Corre Narsinga, rica e poderosa;<br> + + +Corre Orixa, de roupas abastada;<br> + + +No fundo da enseada, o ilustre rio<br> + + +Ganges vem ao salgado senhorio;<br> + + +<br> + + +121<br> + + +"Ganges, no qual os seus habitadores<br> + + +Morrem banhados, tendo por certeza<br> + + +Que, inda que sejam grandes pecadores,<br> + + +Esta água santa os lava e dá pureza.<br> + + +Vê Catigão, cidade das milhores<br> + + +De Bengala província, que se preza<br> + + +De abundante. Mas olha que está posta<br> + + +Pera o Austro, daqui virada, a costa.<br> + + +<br> + + +122<br> + + +"Olha o reino Arracão; olha o assento<br> + + +De Pegu, que já monstros povoaram,<br> + + +Monstros filhos do feio ajuntamento<br> + + +Düa mulher e um cão, que sós se acharam.<br> + + +Aqui soante arame no instrumento<br> + + +Da geração costumam, o que usaram<br> + + +Por manha da Rainha que, inventando<br> + + +Tal uso, deitou fora o error nefando.<br> + + +<br> + + +123<br> + + +"Olha Tavai cidade, onde começa<br> + + +De Sião largo o império tão comprido;<br> + + +Tenassari, Quedá, que é só +cabeça<br> + + +Das que pimenta ali têm produzido.<br> + + +Mais avante fareis que se conheça<br> + + +Malaca por empório ennobrecido,<br> + + +Onde toda a província do mar grande<br> + + +Suas mercadorias ricas mande.<br> + + +<br> + + +124<br> + + +"Dizem que desta terra co as possantes<br> + + +Ondas o mar, entrando, dividiu<br> + + +A nobre ilha Samatra, que já d'antes<br> + + +Juntas ambas a gente antiga viu.<br> + + +Quersoneso foi dita; e das prestantes<br> + + +Veias d'ouro que a terra produziu,<br> + + +'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;<br> + + +Alguns que fosse Ofir imaginaram.<br> + + +<br> + + +125<br> + + +"Mas, na ponta da terra, Cingapura<br> + + +Verás, onde o caminho às naus se estreita;<br> + + +Daqui tornando a costa à Cinosura,<br> + + +Se encurva e pera a Aurora se endireita.<br> + + +Vês Pam, Patane, reinos, e a longura<br> + + +De Sião, que estes e outros mais sujeita;<br> + + +Olha o rio Menão, que se derrama<br> + + +Do grande lago que Chiamai se chama.<br> + + +<br> + + +126<br> + + +Vês neste grão terreno os diferentes<br> + + +Nomes de mil nações, nunca sabidas:<br> + + +Os Laos, em terra e número potentes;<br> + + +Avás, Bramás, por serras tão compridas;<br> + + +Vê nos remotos montes outras gentes,<br> + + +Que Gueos se chamam, de selvages vidas;<br> + + +Humana carne comem, mas a sua<br> + + +Pintam com ferro ardente, usança crua.<br> + + +<br> + + +127<br> + + +"Vês, passa por Camboja Mecom rio,<br> + + +Que capitão das águas se interpreta;<br> + + +Tantas recebe d' outro só no Estio,<br> + + +Que alaga os campos largos e inquieta;<br> + + +Tem as enchentes quais o Nilo frio;<br> + + +A gente dele crê, como indiscreta,<br> + + +Que pena e glória têm, despois de morte,<br> + + +Os brutos animais de toda sorte.<br> + + +<br> + + +128<br> + + +"Este receberá, plácido e brando,<br> + + +No seu regaço os Cantos que molhados<br> + + +Vêm do naufrágio triste e miserando,<br> + + +Dos procelosos baxos escapados,<br> + + +Das fomes, dos perigos grandes, quando<br> + + +Será o injusto mando executado<br> + + +Naquele cuja Lira sonorosa<br> + + +Será mais afamada que ditosa.<br> + + +<br> + + +129<br> + + +"Vês, corre a costa que Champá se chama,<br> + + +Cuja mata é do pau cheiroso ornada;<br> + + +Vês Cauchichina está, de escura fama,<br> + + +E de Ainão vê a incógnita enseada;<br> + + +Aqui o soberbo Império, que se afama<br> + + +Com terras e riqueza não cuidada,<br> + + +Da China corre, e ocupa o senhorio<br> + + +Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.<br> + + +<br> + + +130<br> + + +"Olha o muro e edifício nunca crido,<br> + + +Que entre um império e o outro se edifica,<br> + + +Certíssimo sinal, e conhecido,<br> + + +Da potência real, soberba e rica.<br> + + +Estes, o Rei que têm, não foi nacido<br> + + +Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,<br> + + +Mas elegem aquele que é famoso<br> + + +Por cavaleiro, sábio e virtuoso.<br> + + +<br> + + +131<br> + + +"Inda outra muita terra se te esconde<br> + + +Até que venha o tempo de mostrar-se;<br> + + +Mas não deixes no mar as Ilhas onde<br> + + +A Natureza quis mais afamar-se:<br> + + +Esta, meia escondida, que responde<br> + + +De longe à China, donde vem buscar-se,<br> + + +É Japão, onde nace a prata fina,<br> + + +Que ilustrada será co a Lei divina.<br> + + +<br> + + +132<br> + + +"Olha cá pelos mares do Oriente<br> + + +Ás infinitas Ilhas espalhadas:<br> + + +Vê Tidore e Ternate, co fervente<br> + + +Cume, que lança as flamas ondeadas.<br> + + +As árvores verás do cravo ardente,<br> + + +Co sangue Português inda compradas.<br> + + +Aqui há as áureas aves, que não decem<br> + + +Nunca à terra e só mortas aparecem.<br> + + +<br> + + +133<br> + + +"Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam<br> + + +Da vária cor que pinta o roxo fruto;<br> + + +Às aves variadas, que ali saltam,<br> + + +Da verde noz tomando seu tributo.<br> + + +Olha também Bornéu, onde não faltam<br> + + +Lágrimas no licor coalhado e enxuto<br> + + +Das árvores, que cânfora é chamado,<br> + + +Com que da Ilha o nome é celebrado.<br> + + +<br> + + +134<br> + + +"Ali também Timor, que o lenho manda<br> + + +Sândalo, salutífero e cheiroso;<br> + + +Olha a Sunda, tão larga que üa banda<br> + + +Esconde pera o Sul dificultoso;<br> + + +A gente do Sertão, que as terras anda,<br> + + +Um rio diz que tem miraculoso,<br> + + +Que, por onde ele só, sem outro, vai,<br> + + +Converte em pedra o pau que nele cai.<br> + + +<br> + + +135<br> + + +"Vê naquela que o tempo tornou Ilha,<br> + + +Que também flamas trémulas vapora,<br> + + +A fonte que óleo mana, e a maravilha<br> + + +Do cheiroso licor que o tronco chora,<br> + + +—Cheiroso, mais que quanto estila a filha<br> + + +De Ciniras na Arábia, onde ela mora;<br> + + +E vê que, tendo quanto as outras têm,<br> + + +Branda seda e fino ouro dá também.<br> + + +<br> + + +136<br> + + +"Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta<br> + + +Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;<br> + + +Os naturais o têm por cousa santa,<br> + + +Pola pedra onde está a pegada humana.<br> + + +Nas ilhas de Maldiva nace a pranta<br> + + +No profundo das águas, soberana,<br> + + +Cujo pomo contra o veneno urgente<br> + + +É tido por antídoto excelente.<br> + + +<br> + + +137<br> + + +"Verás defronte estar do Roxo Estreito<br> + + +Socotorá, co amaro aloé famosa;<br> + + +Outras ilhas, no mar também sujeito<br> + + +A vós, na costa de África arenosa,<br> + + +Onde sai do cheiro mais perfeito<br> + + +A massa, ao mundo oculta e preciosa.<br> + + +De São Lourenço vê a Ilha afamada,<br> + + +Que Madagáscar é dalguns chamada.<br> + + +<br> + + +138<br> + + +"Eis aqui as novas partes do Oriente<br> + + +Que vós outros agora ao mundo dais,<br> + + +Abrindo a porta ao vasto mar patente,<br> + + +Que com tão forte peito navegais.<br> + + +Mas é também razão que, no Ponente,<br> + + +Dum Lusitano um feito inda vejais,<br> + + +Que, de seu Rei mostrando-se agravado,<br> + + +Caminho há-de fazer nunca cuidado.<br> + + +<br> + + +139<br> + + +"Vedes a grande terra que contina<br> + + +Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,<br> + + +Que soberba a fará a luzente mina<br> + + +Do metal que a cor tem do louro Apolo.<br> + + +Castela, vossa amiga, será dina<br> + + +De lançar-lhe o colar ao rudo colo.<br> + + +Varias províncias tem de várias gentes,<br> + + +Em ritos e costumes, diferentes.<br> + + +<br> + + +140<br> + + +"Mas cá onde mais se alarga, ali tereis<br> + + +Parte também, co pau vermelho nota;<br> + + +De Santa Cruz o nome lhe poreis;<br> + + +Descobri-la-á a primeira vossa frota.<br> + + +Ao longo desta costa, que tereis,<br> + + +Irá buscando a parte mais remota<br> + + +O Magalhães, no feito, com verdade,<br> + + +Português, porém não na lealdade.<br> + + +<br> + + +141<br> + + +"Dês que passar a via mais que meia<br> + + +Que ao Antártico Pólo vai da Linha,<br> + + +Düa estatura quási giganteia<br> + + +Homens verá, da terra ali vizinha;<br> + + +E mais avante o Estreito que se arreia<br> + + +Co nome dele agora, o qual caminha<br> + + +Pera outro mar e terra que fica onde<br> + + +Com suas frias asas o Austro a esconde.<br> + + +<br> + + +142<br> + + +"Até'aqui Portugueses concedido<br> + + +Vos é saberdes os futuros feitos<br> + + +Que, pelo mar que já deixais sabido,<br> + + +Virão fazer barões de fortes peitos.<br> + + +Agora, pois que tendes aprendido<br> + + +Trabalhos que vos façam ser aceitos<br> + + +As eternas esposas e fermosas,<br> + + +Que coroas vos tecem gloriosas,<br> + + +<br> + + +143<br> + + +"Podeis-vos embarcar, que tendes vento<br> + + +E mar tranquilo, pera a pátria amada."<br> + + +Assi lhe disse; e logo movimento<br> + + +Fazem da Ilha alegre e namorada.<br> + + +Levam refresco e nobre mantimento;<br> + + +Levam a companhia desejada<br> + + +Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,<br> + + +Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.<br> + + +<br> + + +144<br> + + +Assi foram cortando o mar sereno,<br> + + +Com vento sempre manso e nunca irado,<br> + + +Até que houveram vista do terreno<br> + + +Em que naceram, sempre desejado.<br> + + +Entraram pela foz do Tejo ameno,<br> + + +E à sua pátria e Rei temido e amado<br> + + +O prémio e glória dão por que mandou,<br> + + +E com títulos novos se ilustrou.<br> + + +<br> + + +145<br> + + +Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho<br> + + +Destemperada e a voz enrouquecida,<br> + + +E não do canto, mas de ver que venho<br> + + +Cantar a gente surda e endurecida.<br> + + +O favor com que mais se acende o engenho<br> + + +Não no dá a pátria, não, +que está metida<br> + + +No gosto da cobiça e na rudeza<br> + + +Düa austera, apagada e vil tristeza.<br> + + +<br> + + +146<br> + + +E não sei por que influxo de Destino<br> + + +Não tem um ledo orgulho e geral gosto,<br> + + +Que os ânimos levanta de contino<br> + + +A ter pera trabalhos ledo o rosto.<br> + + +Por isso vós, ó Rei, que por divino<br> + + +Conselho estais no régio sólio posto,<br> + + +Olhai que sois (e vede as outras gentes)<br> + + +Senhor só de vassalos excelentes.<br> + + +<br> + + +147<br> + + +Olhai que ledos vão, por várias vias,<br> + + +Quais rompentes liões e bravos touros,<br> + + +Dando os corpos a fomes e vigias,<br> + + +A ferro, a fogo, a setas e pelouros,<br> + + +A quentes regiões, a plagas frias,<br> + + +A golpes de Idolátras e de Mouros,<br> + + +A perigos incógnitos do mundo,<br> + + +A naufrágios, a pexes, ao profundo.<br> + + +<br> + + +148<br> + + +Por vos servir, a tudo aparelhados;<br> + + +De vós tão longe, sempre obedientes;<br> + + +A quaisquer vossos ásperos mandados,<br> + + +Sem dar reposta, prontos e contentes.<br> + + +Só com saber que são de vós olhados,<br> + + +Demónios infernais, negros e ardentes,<br> + + +Cometerão convosco, e não duvido<br> + + +Que vencedor vos façam, não vencido.<br> + + +<br> + + +149<br> + + +Favorecei-os logo, e alegrai-os<br> + + +Com a presença e leda humanidade;<br> + + +De rigorosas leis desalivai-os,<br> + + +Que assi se abre o caminho à santidade.<br> + + +Os mais exprimentados levantai-os,<br> + + +Se, com a experiência, têm bondade<br> + + +Pera vosso conselho, pois que sabem<br> + + +O como, o quando, e onde as cousas cabem.<br> + + +<br> + + +150<br> + + +Todos favorecei em seus ofícios,<br> + + +Segundo têm das vidas o talento;<br> + + +Tenham Religiosos exercícios<br> + + +De rogarem, por vosso regimento,<br> + + +Com jejuns, disciplina, pelos vícios<br> + + +Comuns; toda ambição terão por vento,<br> + + +Que o bom Religioso verdadeiro<br> + + +Glória vã não pretende nem dinheiro.<br> + + +<br> + + +151<br> + + +Os Cavaleiros tende em muita estima,<br> + + +Pois com seu sangue intrépido e fervente<br> + + +Estendem não sòmente a Lei de cima,<br> + + +Mas inda vosso Império preminente.<br> + + +Pois aqueles que a tão remoto clima<br> + + +Vos vão servir, com passo diligente,<br> + + +Dous inimigos vencem: uns, os vivos,<br> + + +E (o que é mais) os trabalhos excessivos.<br> + + +<br> + + +152<br> + + +Fazei, Senhor, que nunca os admirados<br> + + +Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,<br> + + +Possam dizer que são pera mandados,<br> + + +Mais que pera mandar, os Portugueses.<br> + + +Tomai conselho só d'exprimentados<br> + + +Que viram largos anos, largos meses,<br> + + +Que, posto que em cientes muito cabe.<br> + + +Mais em particular o experto sabe.<br> + + +<br> + + +153<br> + + +De Formião, filósofo elegante,<br> + + +Vereis como Anibal escarnecia,<br> + + +Quando das artes bélicas, diante<br> + + +Dele, com larga voz tratava e lia.<br> + + +A disciplina militar prestante<br> + + +Não se aprende, Senhor, na fantasia,<br> + + +Sonhando, imaginando ou estudando,<br> + + +Senão vendo, tratando e pelejando.<br> + + +<br> + + +154<br> + + +Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,<br> + + +De vós não conhecido nem sonhado?<br> + + +Da boca dos pequenos sei, contudo,<br> + + +Que o louvor sai às vezes acabado.<br> + + +Tem me falta na vida honesto estudo,<br> + + +Com longa experiência misturado,<br> + + +Nem engenho, que aqui vereis presente,<br> + + +Cousas que juntas se acham raramente.<br> + + +<br> + + +155<br> + + +Pera servir-vos, braço às armas feito,<br> + + +Pera cantar-vos, mente às Musas dada;<br> + + +Só me falece ser a vós aceito,<br> + + +De quem virtude deve ser prezada.<br> + + +Se me isto o Céu concede, e o vosso peito<br> + + +Dina empresa tomar de ser cantada,<br> + + +Como a pres[s]aga mente vaticina<br> + + +Olhando a vossa inclinação divina,<br> + + +<br> + + +156<br> + + +Ou fazendo que, mais que a de Medusa,<br> + + +A vista vossa tema o monte Atlante,<br> + + +Ou rompendo nos campos de Ampelusa<br> + + +Os muros de Marrocos e Trudante,<br> + + +A minha já estimada e leda Musa<br> + + +Fico que em todo o mundo de vós cante,<br> + + +De sorte que Alexandro em vós se veja,<br> + + +Sem à dita de Aquiles ter enveja.<br> + + +<br> +——————————oOo——————————<br> + + +<br> + + +Final de Os Lusíadas<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + +<br> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusíadas, by Luís Vaz de Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSÍADAS *** + +***** This file should be named 3333-h.htm or 3333-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/3/3333/ + +Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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