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+<title>The Project Gutenberg eBook of Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos, by Alberto Pimentel</title>
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+<h1 class="pg">The Project Gutenberg eBook, Da importancia da Historia Universal
+Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos, by Alberto Pimentel</h1>
+<pre>
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre>
+<p>Title: Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos</p>
+<p>Author: Alberto Pimentel</p>
+<p>Release Date: July 3, 2010 [eBook #33068]</p>
+<p>Language: Portuguese</p>
+<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p>
+<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA UNIVERSAL PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS***</p>
+<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center>
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="full">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 4px #444;">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">DA IMPORTANCIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">HISTORIA UNIVERSAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PHILOSOPHICA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">NA</p>
+
+<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p>
+
+<hr width="20%">
+
+<p style="font-size: 1.1em;">DISSERTAÇÃO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em; font-weight: bold;">PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA)</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">CURSO SUPERIOR DE LETRAS</p>
+
+<p>APRESENTADA PELO CANDIDATO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p>
+
+<hr width="30%">
+
+<p style="font-size: 0.9em;">LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+
+<small>DE</small></p>
+
+<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: 0.8em;">
+<p>ERNESTO CHARDRON<br>
+&mdash;<br>
+<b>Porto</b></p>
+</div>
+
+<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: 0.8em;;">
+<p>EUGENIO CHARDRON<br>
+&mdash;<br>
+<b>Braga</b></p>
+</div>
+
+<p>1878</p>
+
+</div>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p><span class="pn">{1}</span></p>
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+<div style="text-align: center;">
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+<p>&nbsp;<span class="pn">{2}</span></p>
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+<p>&nbsp;<span class="pn">{3}</span></p>
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+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">DA IMPORTANCIA</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">DA</p>
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+<p style="font-size: 1.1em;">DISSERTAÇÃO</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">DO</p>
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+
+<p>APRESENTADA PELO CANDIDATO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p>
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+&mdash;<br>
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+
+<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: 0.8em;;">
+<p>EUGENIO CHARDRON<br>
+&mdash;<br>
+<b>Braga</b></p>
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+</div>
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+<p><span class="pn">{4}</span></p>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<hr>
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+<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;">Porto: 1878&mdash;Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p><span class="pn">{5}</span></p>
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+<div style="text-align: center;">
+
+<p style="font-size: 1.2em;">DA IMPORTANCIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">DA</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">HISTORIA UNIVERSAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">PHILOSOPHICA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">NA</p>
+
+<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p>
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+</div>
+
+<hr width="20%">
+
+<div id="corpo">
+
+<p>João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades humanas,
+vai encontrar a origem da <i>curiosidade, filha da ignorancia e mãi da
+sciencia</i>, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de impressionar
+profundamente os sentidos e a imaginação dos homens primitivos.</p>
+
+<p>Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o tempo
+sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os vapores
+seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no espirito dos
+gigantes <i>vigorosos</i> e <i>robustos</i>, que então povoavam a terra,
+causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o interesse com que
+ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram como um<span class="pn">{6}</span> immenso
+corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto exprimir por meio d'essa
+estranha linguagem de fogo.</p>
+
+<p>Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove, que
+tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso que toda a
+terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a phrase <i>Jovis
+omnia plena</i>, que Platão julgou dever traduzir por ether, os gigantes da
+terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde, como de uma semente
+abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos os conhecimentos humanos.</p>
+
+<p>Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado por
+Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de Noé, quer
+consideremos essa inundação geral como uma simples phase geologica,
+caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente narrado pelo
+philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr, é de todo o ponto
+provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno meteorologico o primeiro
+estimulo da curiosidade humana.</p>
+
+<p>Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os
+phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas pessoas, e
+cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da apparição de um cometa.</p>
+
+<p>Despertada a imaginação do homem pelo sentimento<span class="pn">{7}</span> da curiosidade, entrou
+elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da
+humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um mundo
+desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio, para assim
+dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz estranha converteu-se
+para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas fixa e duradoura, n'uma como
+estrella de guia, que o obrigou a altear o pensamento para além das brenhas da
+terra em que como selvagem vivia.</p>
+
+<p>Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar, uma
+tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa, porque chegará
+um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a expressão, o mundo da sua
+existencia, construindo um ninho como as aves, organisando uma familia,
+norteando-a, como piloto, através dos mares aparcellados da vida; assim a
+humanidade era, n'esse periodo da sua infancia, chamada a cumprir a grandiosa
+missão de adaptar o mundo inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua
+existencia, de desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos
+seculos; de aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as
+harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar dos
+elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da humanidade, com
+toda a perfeição relativa de contornos e relevos que hoje tem, porque a
+humanidade não era mais na sua infancia<span class="pn">{8}</span> que um esboço que importava
+accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que tinha de desenvolver-se a
+si propria.</p>
+
+<p>Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a obra
+do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo, outro
+ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira instrucção; assim
+tambem a humanidade se foi transformando por successivos esforços e progressos,
+fazendo hoje uma conquista, ámanhã uma creação, enchendo a pouco e pouco o
+molde vazio em que, estatua, tinha de fundir-se e completar-se.</p>
+
+<p>Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar a
+grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo até hoje.
+Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias, commercio, artes,
+sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho lento, que principiou por
+elementos simples, como se póde por exemplo ver na linguagem, onde o
+monosyllabo veio finalmente a converter-se nas linguas de flexão; na religião,
+onde a primeira elevação da alma para as forças da natureza, que foram
+encarnadas em symbolos grosseiros, veio a transformar-se na concepção grandiosa
+da divindade immaterial e absolutamente perfeita; no estabelecimento dos
+estados, onde o poder theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo
+que se pódem variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude
+cultura da terra, a<span class="pn">{9}</span> que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia
+moderna, sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard
+servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril exercida
+pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações costeiras, vieram
+a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões e officios a que se
+dedicam as classes contemporaneas; no commercio, onde a simples troca de
+productos, n'uma área muito limitada, veio a metamorphosear-se nas grandes
+operações commerciaes que se alargam por todo o mundo, graças á invenção da
+moeda, aos progressos da navegação, aos rapidos meios de transporte; nas artes,
+onde os instrumentos de silex se transmudaram nos mais completos processos
+mechanicos, e os megalithos, que tanto se teem estudado hoje<a name="tex2html1"
+href="#foot427"><sup>[1]</sup></a>, vieram a converter-se nos grandiosos
+monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por exemplo, a astronomia
+caminhou desde os pastores da Chaldéa, que contemplavam os astros, sentados nas
+eminencias penhascosas, pelo silencio da noite, até que essa sciencia celeste
+terminou com Newton, como diz Larousse, a sua evolução historica.</p>
+
+<p>Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da humanidade
+se fixavam na terra tão nova<span class="pn">{10}</span> como ella, ao mesmo tempo que as plantas
+enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma exuberancia caudal, os
+homens, como a criança, só poderam olhar para deante, para o futuro. O seu
+berço ficava ainda tão perto que não havia tempo de ter brotado d'elle esse
+doce sentimento que as lagrimas purificam, e que não poucas vezes conduz á
+reconstrucção do passado pela memoria,&mdash;a saudade; ou antes, como diz Cantu<a
+name="tex2html2" href="#foot428"><sup>[2]</sup></a>, <i>os antigos tinham ainda
+muito poucas ruinas deante de si</i>, phrase que Edgar Quinet repetiu <a
+name="tex2html3" href="#foot429"><sup>[3]</sup></a>,&mdash;e sendo o passado o campo
+aberto ás investigações da historia, onde quasi não havia passado não podia
+haver historia.</p>
+
+<p>Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um
+historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto edificio
+zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É pelo esqueleto
+das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos dias teem realisado as
+mais assombrosas conquistas da sciencia moderna.</p>
+
+<p>Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido
+recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua
+infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em tribu, e
+que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes obras d'arte, as
+instituições humanas foram modeladas<span class="pn">{11}</span> por um esboço, e aperfeiçoadas
+depois. O esboço da nação foi a tribu.</p>
+
+<p>Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento
+humano em que se constituiram as primeiras sociedades.</p>
+
+<p>«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da paternidade
+tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que d'isto deriva e os meios
+de o alcançar? Como conceberia as vantagens da sociedade o que nunca as tivesse
+experimentado? Para que os homens se unam entre si, e façam um pacto social, é
+forçoso que possuam uma linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e
+fórmas de convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam
+reunidos já em sociedade.»</p>
+
+<p>Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões
+seguintes.</p>
+
+<p>As relações naturaes a que o auctor da <i>Historia universal</i> allude na
+primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres
+que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto
+comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por
+exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia
+nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas
+familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a
+femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aves <i>educarem</i><span class="pn">{12}</span>
+seus filhos no que chamaremos <i>arte do vôo</i>, antes de os abandonarem a si
+mesmos.</p>
+
+<p>Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir
+sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos
+suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das
+vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham
+em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão
+impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?</p>
+
+<p>Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem
+commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos
+accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.</p>
+
+<p>Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas
+de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock<a name="tex2html4"
+href="#foot430"><sup>[4]</sup></a> que essas tribus possuem todas uma
+linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.</p>
+
+<p>Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios
+kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o testimunho
+de James<a name="tex2html5" href="#foot431"><sup>[5]</sup></a>, ignorando
+completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr
+dous individuos,<span class="pn">{13}</span> pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo,
+conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo
+as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por
+um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais
+espalhado ainda entre elles.»</p>
+
+<p>Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar
+linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes
+relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de
+Vico, dos <i>povos mudos</i>, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens,
+que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por
+exemplo, <i>tres espigas</i> para significarem a idéa abstracta de <i>tres
+annos</i><a name="tex2html6" href="#foot432"><sup>[6]</sup></a>, é
+manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na
+propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no
+estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é
+inadmissivel.</p>
+
+<p>O dr. Luiz Büchner<a name="tex2html7" href="#foot433"><sup>[7]</sup></a>
+confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi
+necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e
+gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que
+succederam<span class="pn">{14}</span> os sons imitativos (<i>onomatopéas</i>), razão por que na
+grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero
+consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma
+observação de William Bell, a respeito do monosyllabo <i>loh</i>, empregado em
+muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples
+exclamação <i>oh!</i> precedida de um <i>l</i> ou de uma vibração da lingua.
+Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um
+som simples, como nas palavras <i>mamã</i>, <i>papá</i> ou pela agglutinação
+das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um
+sentimento, foi <i>imitado pelos companheiros d'aquelle</i> que o soltou, e
+acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o
+proprio sentimento.»</p>
+
+<p>Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao contrario,
+tomando a sociedade como base da sua perfeição.</p>
+
+<p>Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza
+humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros passos
+na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e intellectuaes,
+que por um lento progresso permittiram depois as mais elevadas concepções, e as
+mais assombrosas conquistas, foi ainda o instincto que levou a humanidade a
+lançar mão das primeiras industrias, da vida pastoril, da caça, da pesca, do
+commercio, segundo as condições naturaes dos paizes. «Assim as diversas
+industrias, diz Cantu, nasceram<span class="pn">{15}</span> e cresceram na razão dos lugares; porém a
+agricultura foi a que introduziu maiores mudanças na constituição moral. O
+homem, querendo, quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que
+lhe dava, construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão
+imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do lar
+domestico dá origem á associação civil.» Mas o <i>lar domestico</i> a que se
+refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela familia que a
+monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus escravos, e dos
+filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai era o <i>senhor</i>;
+governava pela força. A mulher era simplesmente uma <i>cousa</i>, um
+instrumento de reproducção; e as mais das vezes era arrebatada á sua tribu por
+violencia. Portanto, as primeiras familias foram uma reunião de escravos
+dominados por um chefe, só muito tarde, como mostra Lubbock<a name="tex2html8"
+href="#foot434"><sup>[8]</sup></a>, baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M.
+Lennan e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e
+de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava&mdash;escravos.&mdash;A mulher e
+os filhos só por serem escravos eram considerados familia.</p>
+
+<p>Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas affirmações.
+Sustentando, como na formação da linguagem, os <i>verbos</i> vieram depois dos
+<i>nomes</i>, e como os primeiros verbos foram certamente aquelles que<span class="pn">{16}</span>
+são como que os <i>generos</i> ou os <i>radicaes</i> de todos os outros,
+exemplo, <i>sum</i>, que contém <i>todas as cousas
+metaphysicas</i>,&mdash;<i>sto</i>, que exprime a immobilidade, e <i>eo</i>, que
+significa o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a
+principio o modo <i>imperativo</i>, porque no <i>estado de familia</i>, e na
+excessiva pobreza de linguagem que então havia, só os <i>paes</i> davam ordens
+a seus <i>filhos ou a seus criados</i>, ao passo que estes, <i>submettidos ao
+terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem murmurios ás suas
+ordens</i><a name="tex2html9" href="#foot435"><sup>[9]</sup></a>. Ainda hoje,
+entre os kalmuckos do Volga, o azorrague é o sceptro e o symbolo do poder
+domestico<a name="tex2html10" href="#foot436"><sup>[10]</sup></a>.</p>
+
+<p>Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de
+tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a reunião
+de algumas <i>familias</i>, por maioria de razão, carecia de um magistrado que
+a governasse. Os chefes de <i>familia</i> ou <i>senhores</i> reuniam-se para se
+entregarem, em condições de segurança, ao exercicio da caça. Escolhiam
+certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais se assignalava pela
+destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua superioridade natural, ficava
+sendo o dominador da tribu. E esta authoridade devia ser tanto mais respeitada
+e temida, quanto era certo que se baseava n'um facto indestructivel e
+inevitavel, revestido de caracter divino,<span class="pn">{17}</span> porque a força era um attributo
+que não dependia da vontade do homem.</p>
+
+<p>Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração das
+<i>familias</i> havia nascido a tribu.</p>
+
+<p>Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era
+preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades
+physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas essas
+qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia deixar de
+considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar Cantu observa que o
+vocabulo <i>dynastia</i> (de <i>dynamis</i>, força) indica a origem de um tal
+poderio.</p>
+
+<p>Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da força,
+origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes e tempos.
+Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus successores, diz
+Montesquieu<a name="tex2html11" href="#foot437"><sup>[11]</sup></a>, estiveram
+quasi sempre em guerra com os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou
+terras; voltavam a cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e
+rebanhos: o que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que
+foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade chegou.» A
+origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, para assim dizer,
+na<span class="pn">{18}</span> athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel perseguidor dos
+mouros, o guerreiro de estatura agigantada.</p>
+
+<p>A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que,
+segundo Victor Cousin<a name="tex2html12" href="#foot438"><sup>[12]</sup></a>,
+é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um
+estado de paz perpetua na especie humana&mdash;diz elle&mdash;é a hypothese da
+immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de
+Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras
+nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se
+fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos
+povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e
+arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a
+primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos<a name="tex2html13"
+href="#foot439"><sup>[13]</sup></a>.</p>
+
+<p>Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das
+brumas do maravilhoso.</p>
+
+<p>Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de
+haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a
+historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais
+antiga parte dos <i>Vedas</i>, o <i>Rigveda</i>, os indios agradecem a
+intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina,
+como nós, quando<span class="pn">{19}</span> procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir
+Christo na batalha de Ourique.</p>
+
+<p>Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a
+Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados
+com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.</p>
+
+<p>Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior
+elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da
+humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China,
+a monarchia dos <i>Hia</i>, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de
+graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia:
+ruinas e destroços.</p>
+
+<p>Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da
+manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas
+tradições maravilhosas da sua origem poetica.</p>
+
+<p>Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens
+que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações
+que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando
+a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e
+ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões
+phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por
+uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma
+poderosa<span class="pn">{20}</span> alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao
+rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações
+que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente
+assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o
+homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta.
+Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus
+descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de
+seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de
+seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a
+immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as
+gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.</p>
+
+<p>Chegado á grande conquista do que chamaremos <i>faculdade historica</i>,
+isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da
+vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem
+de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.</p>
+
+<p>Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo
+milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.</p>
+
+<p>Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas
+arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres,
+como a amendoeira. A imaginação, excitada pela tradição poetica<a
+name="tex2html14" href="#foot440"><sup>[14]</sup></a>,<span class="pn">{21}</span> estava n'elles em
+pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas
+virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.</p>
+
+<p>Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os
+primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas
+narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação
+acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.</p>
+
+<p>Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas
+á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar
+anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos
+frivolos, porque são um brinco para a imaginação.</p>
+
+<p>Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas
+piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua
+vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na
+Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.</p>
+
+<p>Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a
+posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de
+nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os
+restos mortaes de Santa Triphomena.<span class="pn">{22}</span> Theodoro, bispo de Metz, preava em
+Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem
+que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava possuir<a
+name="tex2html15" href="#foot441"><sup>[15]</sup></a>. Jerusalem, a cidade
+celeste, apparecia ás imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas
+lagrimas de Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos
+cedros do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma
+expressão alheia.</p>
+
+<p>A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as
+ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as aventuras dos
+paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão futil mas tão
+pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, que bastará citar um só
+facto para comproval-a. Quando Carlos <small>V</small> foi coroado em Bolonha,
+tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser cavalleiros, dizendo a cada
+um: <i>Esto miles.</i> Mas como todos gritassem em volta do rei: <i>Sire, sire,
+ad me, ad me</i>, Carlos <small>V</small>, estendendo a espada sobre a
+multidão, viu-se obrigado a dizer: <i>No puedo mas. Estote milites, estote
+milites, todos, todos</i><a name="tex2html16"
+href="#foot442"><sup>[16]</sup></a>.</p>
+
+<p>Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as suas
+lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas cortadas
+nos<span class="pn">{23}</span> hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como outras, como
+claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz brindou Margarida de
+Provença, o qual era formado de margaritas e de lizes alternados, tendo no meio
+um cruciflxo circuitado por esta inscripção: <i>Hors cet anel pourrions-nous
+trouver amor</i><a name="tex2html17" href="#foot443"><sup>[17]</sup></a>?</p>
+
+<p>Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que tiveram
+por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso da tradição
+cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado por Herculano, e á
+instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada por fr. Francisco de S.
+Luiz.</p>
+
+<p>Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio da
+imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie de <i>peccado
+original</i> devia desapparecer batido pelo criterio philosophico?</p>
+
+<p>Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um
+novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a humanidade.
+A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculo <small>XVII</small>,
+época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista do
+pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular ruinas
+sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os imperios
+desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os cadaveres dos homens e
+das instituições<span class="pn">{24}</span> se amontoassem, para que de cima de todos esses enormes
+escombros se levantasse sereno e altivo o pensamento humano, semelhante a uma
+grande aguia, e alçasse o vôo até pairar n'uma esphera superior e poder medir,
+com segura agudeza de vista, a profundeza dos destinos da humanidade na
+successão dos seculos.</p>
+
+<p>Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o homem
+alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que reconstruisse a
+humanidade como os primeiros historiadores haviam reconstruido a nação; que
+zombasse da morte animando as cinzas dos cadaveres e povoando com elles, por um
+poder maravilhoso do espirito, os imperios que tinham apparecido e
+desapparecido á face da terra, como plantas marinhas que ora surgem fluctuando
+no dorso da onda, ora se escondem nos sulcos profundos do oceano!</p>
+
+<p>Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o
+maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da Historia.
+Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o centro e o fim do
+universo, e se impunha á adoração do genero humano<a name="tex2html18"
+href="#foot444"><sup>[18]</sup></a>»; agora era o genero humano que se impunha
+á admiração de cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia
+pensar-se em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o
+orgulho nacional, o excessivo sentimento de<span class="pn">{25}</span> amor patrio que procurava
+revestir essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a
+filiação da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e
+evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia tempo
+para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres inuteis, sob
+o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. Como flôres inuteis,
+dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados por Victor Cousin<a
+name="tex2html19" href="#foot445"><sup>[19]</sup></a>, que os primeiros erros
+são inevitaveis e ao mesmo passo uteis, porque fornecem a base de todo o
+progresso. De feito, não se póde entender a idéa de progresso senão á vista de
+primordios que se tornam defeituosos quando comparados com trabalhos
+posteriores. «Sem as attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas
+decepções da alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto
+Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series de
+observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de fundamento ás
+primeiras theorias positivas de uma e outra classe de phenomenos<a
+name="tex2html20" href="#foot446"><sup>[20]</sup></a>»?</p>
+
+<p>Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a
+historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava feito.
+Pelo contrario,<span class="pn">{26}</span> tudo principiará agora a fazer-se, tomando por elementos
+de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que nos collocamos
+n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia universal, e,
+conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos povos, salteou-nos o
+desejo de averiguar as relações que poderiam existir entre os factos e as
+idéas, de conhecer se todos esses factos seriam obra do acaso, ou se cada povo
+teria sido impellido por um mobil secreto para o cumprimento de determinada lei
+e encarregado de desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação
+geral.</p>
+
+<p>De tal desejo nasceu, no seculo <small>XVIII</small>, a Philosophia da
+historia.</p>
+
+<p>Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a
+caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida
+interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada a
+contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama humanidade, se a
+philosophia, desempenhando missão semelhante a da physiologia no campo das
+sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de intimo e de secreto no seio
+d'esse colosso, se, por outras palavras, não habilitasse a escrever a
+verdadeira historia da humanidade<a name="tex2html21"
+href="#foot447"><sup>[21]</sup></a>.</p>
+
+<p>Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um
+philosopho<a name="tex2html22" href="#foot161"><sup>[22]</sup></a>, o que é uma
+nação de<span class="pn">{27}</span> mais ou de menos na humanidade? E tem razão. A Historia não
+passa além do tempo marcado á existencia d'essa nação, quer dizer, acompanha-a
+até ao seu ultimo dia, mas a Philosophia da historia procura estudar a
+influencia que essa nação extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o
+papel que representou no grande concerto dos destinos da civilisação.</p>
+
+<p>Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos praticados
+por individualidades conscientes, embora hajam sido determinados por causas
+variadas, representam uma idéa.</p>
+
+<p>A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um d'esses
+factos envolve.</p>
+
+<p>Portanto a Philosophia completa a Historia.</p>
+
+<p>Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de uma
+Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao Delphim,&mdash;vasto,
+sobretudo, em relação a época&mdash;procura lançar a vista sobre a successão dos
+seculos, afim de que no espirito do principe permaneçam gravados os traços
+geraes da vida da humanidade se por ventura se lhe desluzirem da memoria os
+episodios das historias particulares.</p>
+
+<p>«Esta maneira de historia universal&mdash;diz elle<a name="tex2html23"
+href="#foot448"><sup>[23]</sup></a>&mdash;é, a respeito da historia de cada paiz e
+de cada povo, o que uma carta geral é para as cartas particulares. Nas cartas
+particulares estudaes miudamente um reino ou uma provincia<span class="pn">{28}</span> em si mesmos;
+nas cartas universaes aprendeis a situar todas as regiões do mundo
+conjunctamente; vêdes o que Paris ou a ilha de França é para o reino, o que o
+reino é para a Europa, e o que a Europa é para o universo.»</p>
+
+<p>Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era
+assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do
+prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiro
+<i>executou</i> a idéa de uma Historia universal.</p>
+
+<p>Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do
+povo de Deus, <i>que foi o fundamento da religião</i>. Escreve, portanto, sob o
+ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para
+assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela
+está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da
+terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de
+Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse
+povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na
+mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas
+lembrai-vos, meu senhor&mdash;conclue o prelado de Meaux<a name="tex2html24"
+href="#foot449"><sup>[24]</sup></a>&mdash;que esta longa cadêa das causas
+particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da
+divina<span class="pn">{29}</span> Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente
+religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição
+social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em
+todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um
+mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.</p>
+
+<p>O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia
+moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia
+universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a
+França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o
+espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as
+relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se
+com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na
+historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura
+systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de
+Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,&mdash;pondera Cousin<a
+name="tex2html25" href="#foot450"><sup>[25]</sup></a>&mdash;assim como a historia
+das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as religiões e as
+instituições politicas dos differentes povos são algumas vezes tratadas de modo
+um pouco superficial, se bem que de longe a longe, e por exemplo na historia
+romana, haja<span class="pn">{30}</span> relampagos de uma sagacidade superior e paginas que lembram
+Machiavel e antecipam Montesquieu.»</p>
+
+<p>Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, uma de
+duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet ficaria
+esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam continuar a fabrica
+gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente superior, um «d'estes genios
+descobridores que alcançam as verdades na sua maior generalisação»<a
+name="tex2html26" href="#foot451"><sup>[26]</sup></a>, appareceu em Italia,
+illuminando com os relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas
+humanas, porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou
+antes creando elle proprio uma sciencia nova, <i>scienza nuova</i>, a <i>rainha
+das sciencias</i>, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o
+objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os primeiros
+pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras reflexões dos
+philosophos sobre as idéas humanas<a name="tex2html27"
+href="#foot452"><sup>[27]</sup></a>.</p>
+
+<p>É claro que nos referimos a João Baptista Vico.</p>
+
+<p>O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais sympathica
+admiração e o mais profundo interesse, extrahe da <i>noite profunda e tenebrosa
+que envolve a antiguidade</i>, uma affirmação completamente nova e
+surprehendente: <i>O mundo civil foi certamente feito pelos homens</i><span class="pn">{31}</span>
+ou, n'uma phrase mais synthetica ainda, <i>a humanidade é obra de si mesma</i>.</p>
+
+<p>Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João Baptista
+Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada pelos
+descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por ligações
+passageiras e arbitrarias, se espalharam na <i>grande floresta da terra</i>.</p>
+
+<p>A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do homem.</p>
+
+<p>Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os leva a
+conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram no seio da
+humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da divindade, como já
+mostramos no principio d'este trabalho.</p>
+
+<p>A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem,
+desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro monosyllabo.</p>
+
+<p>O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no homem.
+A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos ou pela
+grosseira representação dos objectos na casca das arvores, origem dos
+hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras palavras, os homens
+fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos versos, da pantomima e da
+dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as primeiras palavras são a copia dos
+sons da natureza. Depois as palavras perdem a significação natural e tomam uma
+significação<span class="pn">{32}</span> convencional; o mesmo acontece na escriptura, a partir dos
+hieroglyphos.</p>
+
+<p>O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da
+terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua
+companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de procurar
+alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das cavernas. Do
+accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira sociedade deu
+origem, nasceu o direito natural.</p>
+
+<p>Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um producto
+de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.</p>
+
+<p>Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época em
+que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade dos heroes,
+ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos deuses, attribuem a
+si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade historica, em que o heroe se
+humanisa, e em que a natureza humana se torna intelligente, modesta, dôce e
+razoavel, obedecendo por consequencia á lei da consciencia, da razão e do
+dever, como diz o proprio Vico<a name="tex2html28"
+href="#foot453"><sup>[28]</sup></a>.</p>
+
+<p>Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida dos
+povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que fica
+assignalado, cada<span class="pn">{33}</span> povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu
+maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir substituir
+dentro do mesmo circulo fatal.</p>
+
+<p>Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie de
+linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seu <i>corsi</i> e
+<i>ricorsi</i>, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta theoria, os
+governos começam pela <i>unidade</i> nas monarchias de familia; pelo <i>menor
+numero</i>, nas aristocracias heroicas; pelo <i>maior numero</i>, nas
+republicas populares, e acabam pela <i>unidade</i>, como principiaram, nas
+monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de cada povo.</p>
+
+<p>Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha de
+<i>corsi</i>, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja
+authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a
+expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (<i>Monarchias de
+familia</i>). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que
+lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. São
+vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de familia
+procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os direitos das
+<i>gentes minores</i>, dos adventicios (<i>Aristocracias heroicas</i>).
+Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por parte das <i>gentes
+minores</i> obtem concessões que produzem finalmente o governo humano, isto é,
+do maior numero (<i>Republicas populares</i>).<span class="pn">{34}</span> A estas épocas de agitação
+succede naturalmente um periodo de repouso, a monarchia. Mas cumpre notar que
+por isso que as monarchias e as republicas populares são ambas uma expressão do
+<i>governo humano</i>, podem succeder-se alternadamente.</p>
+
+<p>Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha de <i>corsi</i>, a linha de
+<i>ricorsi</i> no periodo da segunda barbarie.</p>
+
+<p>Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, magestades
+sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é encimada pela cruz.
+Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes dos brazões correspondem á
+linguagem hieroglyphica.&mdash;Regressam os tempos heroicos pelo feudalismo. Os
+barões são os heroes; os servos são as <i>gentes minores</i>.&mdash;Finalmente, os
+esforços dos vassallos para conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que
+a potencia livre de um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dos
+<i>senhores</i> e dão origem ao governo do <i>maior numero</i>, isto é, aos
+governos democraticos modernos.</p>
+
+<p>Vico, encontrando o parallelismo dos <i>corsi</i> e <i>ricorsi</i> na linha
+d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos periodos,
+porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo que o da
+primeira.</p>
+
+<p>A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da impugnação se
+possa deduzir menospreço pela elevada concepção do philosopho napolitano,<span class="pn">{35}</span>
+que evidentemente se baseia na divisão dos tempos, feita pelos egypcios e pelos
+chinezes. Cantu acha que a theoria da <i>Scienza nuova</i> tem o inconveniente
+de sobrepôr a razão á liberdade; de inutilisar todos os esforços tendentes a
+realisar um progresso continuo; finalmente, que ella é desmentida pela
+constituição da sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e
+sem feudatarios, á custa da industria e da concorrencia<a name="tex2html29"
+href="#foot454"><sup>[29]</sup></a>. Cousin encontra na theoria de Vico o vicio
+da preponderancia do elemento politico, da omissão quasi completa da arte e da
+philosophia, e sobretudo do estudo da civilisação oriental, dominada pela
+religião; finalmente, da omissão relativa aos destinos da humanidade em geral
+na sua marcha de refluxo em refluxo<a name="tex2html30"
+href="#foot455"><sup>[30]</sup></a>. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha
+erro n'aquella divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que
+os periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros<a name="tex2html31"
+href="#foot456"><sup>[31]</sup></a>.</p>
+
+<p>Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, cuja
+arrojada intuição, em pleno seculo <small>XVIII</small>, espanta realmente.
+Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da sciencia,
+sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem das especies,
+distribuição geographica das raças humanas, pluralidade dos mundos, suspeitada
+já por<span class="pn">{36}</span> Giordano Bruno, e á questão da influencia dos meios, não póde
+deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos mais transcendentes
+problemas da sciencia moderna, taes como o da origem da linguagem, cuja
+resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua obra os germens de muitas
+sciencias novas<a name="tex2html32" href="#foot457"><sup>[32]</sup></a>, e que
+foi o fecundador da maior parte das theorias modernas, entre as quaes a
+Philosophia da Historia.</p>
+
+<p>A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente
+superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os
+costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que todavia já
+Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da antiguidade haviam
+suspeitado: a influencia dos climas no caracter e vida dos povos. Bossuet havia
+introduzido na Historia universal o elemento religioso: Vico, o elemento
+racional; Montesquieu introduziu o elemento climatologico.</p>
+
+<p>O auctor do <i>Espirito das Leis</i>, fanatico pela sua doutrina, exagera os
+effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios
+cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem
+demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, quando
+tratarmos de Herder, nasce<span class="pn">{37}</span> e vive sob a influencia da natureza que o
+rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos tempos,
+constituem a sensibilidade definitiva<a name="tex2html33"
+href="#foot458"><sup>[33]</sup></a>. Nas obras d'arte, e de litteratura, que
+são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo, como mais
+de espaço veremos, importa considerar, segundo Taine<a name="tex2html34"
+href="#foot459"><sup>[34]</sup></a>, tres forças primordiaes, a raça, o
+<i>meio</i>, e o momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica no
+<i>homo duplex</i>, Emilio Deschanel<a name="tex2html35"
+href="#foot460"><sup>[35]</sup></a> procura no estylo de cada escriptor a
+caracteristica do temperamento, do <i>clima</i>, dos habitos, etc. Pelletan,
+considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça,
+reconhece a necessidade de se escrever a <i>geographia do progresso</i><a
+name="tex2html36" href="#foot461"><sup>[36]</sup></a>.</p>
+
+<p>Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob o
+ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a contradicções
+flagrantes, a que os proprios factos historicos dão relevo, embora Montesquieu
+veja ainda no fundo d'essas contradicções a influencia climaterica. Assente que
+os climas frios são os que dão o vigor, a energia, e os climas quentes a
+molleza e a indolencia, o proprio Montesquieu<a name="tex2html37"
+href="#foot462"><sup>[37]</sup></a> foi<span class="pn">{38}</span> obrigado a notar contradicções
+nos caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente faltos
+de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos nas Indias,
+perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se plenamente confirmada no
+precioso livro de um viajante hollandez<a name="tex2html38"
+href="#foot463"><sup>[38]</sup></a>, o qual, tratando da maneira de viver dos
+portuguezes na India, faz notar a ociosidade a que se entregavam, a ponto de
+explorarem a honra de suas proprias mulheres<a name="tex2html39"
+href="#foot464"><sup>[39]</sup></a>. Pois não obstante a indolencia peculiar ao
+clima da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera
+ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens
+submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. Montesquieu
+explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos indios, a qual é devida
+á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A preguiça do espirito traz,
+realmente, a immobilidade nas leis e nos costumes; sem embargo, como observa
+Voltaire, a influencia dos climas é algumas vezes desmentida pelos factos
+historicos: em resposta á asserção de que os povos dos paizes quentes são
+timidos como os velhos, lembra Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta
+annos maior territorio do que aquelle que o imperio romano possuia.<span class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre
+a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo
+Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o
+molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas
+abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos,
+no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel
+vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica
+para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto&mdash;diz
+Quinet&mdash;que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos
+desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na
+natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos<a
+name="tex2html40" href="#foot465"><sup>[40]</sup></a>.» A theoria de Herder é
+muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de
+todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades.
+Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios,
+as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo
+dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com
+effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que
+se irão desenvolver<span class="pn">{40}</span> no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo.
+O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta<a
+name="tex2html41" href="#foot466"><sup>[41]</sup></a>. Em Portugal, os povos
+nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores
+rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das
+ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular,
+abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas,
+quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do
+trabalho<a name="tex2html42" href="#foot467"><sup>[42]</sup></a>. Os povos do
+Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se
+ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo
+realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha
+razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da
+maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a
+observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio
+de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos
+circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de
+vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho
+continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos<span class="pn">{41}</span>
+esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho
+por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados
+das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos
+dos <i>pontos</i>, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na
+mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela
+preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico,
+dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando
+ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua
+pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a
+navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A
+propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se;
+bebem para embriagar-se, por <i>deboche</i>. Quando chega a noite, procuram as
+casas devassas, as rameiras do caes.</p>
+
+<p>Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios
+cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes
+astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado
+actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos,
+posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões
+industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local.
+Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões
+profissionaes<span class="pn">{42}</span> podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças,
+por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza<a
+name="tex2html43" href="#foot468"><sup>[43]</sup></a>.</p>
+
+<p>Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura
+dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,&mdash;escreve elle com o seu
+bello colorido poetico&mdash;, quasi por toda a parte ha determinado a das
+sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as
+raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o
+primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda
+deshabitados<a name="tex2html44" href="#foot469"><sup>[44]</sup></a>.»</p>
+
+<p>Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres
+épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres
+épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde
+conceber, o <i>infinito</i>, o <i>finito</i>, a <i>relação do finito com o
+infinito</i>, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época
+posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma
+alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que para <i>tres
+épocas differentes, tres theatros differentes</i>.</p>
+
+<p>A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de
+imprimir ao homem um caracter<span class="pn">{43}</span> de passividade, que o reduz á condição de
+escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não
+póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação.
+Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo
+ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza
+pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a
+origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de
+certos dialectos.</p>
+
+<p>Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem
+ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando
+estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo
+que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia,
+quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que
+foram a guarda-avançada da colonisação europêa<a name="tex2html45"
+href="#foot470"><sup>[45]</sup></a>.</p>
+
+<p>Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar,
+principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da
+sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero
+de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um
+trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p>O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico
+ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos
+da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as
+litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou
+vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade
+do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia;
+6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e
+poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada
+mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas,
+desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14.
+Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor
+predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a
+geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto
+de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As
+linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob
+o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza
+relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de
+parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações
+historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos.
+28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia
+Duchinski gabar de<span class="pn">{45}</span> ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a
+Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma
+caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga
+microscopica, a <i>Trichodesmium erythræum</i>, produz certa coloração
+particular do mar Vermelho.</p>
+
+<p>Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade,
+era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias
+correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial
+acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a
+levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da
+Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos,
+tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma
+transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os
+sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por
+instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A
+Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos
+cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.</p>
+
+<p>Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em
+alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos
+modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos
+determinou a escolhermos para dissertação<span class="pn">{46}</span> de concurso o vasto assumpto de
+que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.</p>
+
+<p>Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada
+anno, diz elle<a name="tex2html46" href="#foot471"><sup>[46]</sup></a>
+numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel
+valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A
+Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler,
+Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes
+de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de
+Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais
+difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem
+os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que
+descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem
+as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam
+achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica
+social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será
+que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os
+gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma
+combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus
+precipitados? Descobriu-se a<span class="pn">{47}</span> lei da circulação do sangue no homem: a
+historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas
+sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da
+dynamica e da statica politicas, etc.»</p>
+
+<p>Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da
+actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o
+impossivel.</p>
+
+<p>Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha
+energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes
+observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até
+esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o
+estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um
+ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado
+metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.</p>
+
+<p>Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia
+positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos
+permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis,
+e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade
+dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e
+positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs
+como elementos constitutivos de<span class="pn">{48}</span> um todo harmonico, e portanto tambem nas
+suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa
+obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a
+Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que
+lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a
+Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse
+estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos
+astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos
+physiologicos, e creou a <i>physica social</i>, que se trata de estudar com o
+vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e
+que virá completar a constituição da Philosophia positiva.</p>
+
+<p>Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano,
+toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o
+conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação
+universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o
+grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero
+estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica
+como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes
+intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o
+universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar
+ao<span class="pn">{49}</span> nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito
+exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se
+ella fosse possivel<a name="tex2html47" href="#foot472"><sup>[47]</sup></a>.» É
+o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana
+todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente;
+que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a
+impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos
+phenomenos, a origem e o destino do universo<a name="tex2html48"
+href="#foot260"><sup>[48]</sup></a>.</p>
+
+<p>Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e
+havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso
+tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia
+esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot
+pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são
+duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só
+por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das
+leis logicas<a name="tex2html49" href="#foot261"><sup>[49]</sup></a>. A
+Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente
+conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para
+attingir o seu caracter de universalidade.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a
+Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á
+exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto,
+attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se
+em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento
+se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da
+terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia
+encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas
+camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo
+chama ainda hoje <i>pedras de raio</i><a name="tex2html50"
+href="#foot473"><sup>[50]</sup></a>, e que effectivamente foram considerados
+como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas
+defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns
+fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias
+ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados,
+desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem
+e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do
+consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do
+grande facho da archeologia, pôde a Historia<span class="pn">{51}</span> reconstruir as idades
+primitivas do homem. Chamou á primeira, <i>de pedra</i>, e subdividiu-a em
+<i>paleolithica</i> ou dos instrumentos de pedra lascada; <i>mesolithica</i> ou
+dos instrumentos de pedra lascada e de osso; <i>neolithica</i> ou dos
+instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dos <i>metaes</i>,
+subdividindo-a em idade de bronze<a name="tex2html51"
+href="#foot271"><sup>[51]</sup></a> e idade de ferro. A descoberta de fosseis
+humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo
+de sciencias que teem necessaria relação entre si.</p>
+
+<p>No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia
+natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar
+originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo
+vocabulo <i>anthropologos</i> aquelles que discutiam sobre o homem. O problema
+da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais
+importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A
+primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava
+argumento de serem os filhos de Deus representados como raças<span class="pn">{52}</span>
+provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas<a
+name="tex2html52" href="#foot474"><sup>[52]</sup></a> e de que a Biblia apenas
+se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus<a name="tex2html53"
+href="#foot475"><sup>[53]</sup></a>. A opinião monogenista contrapunha que
+todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos
+tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos
+produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a
+emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e
+até da politica<a name="tex2html54" href="#foot278"><sup>[54]</sup></a>.</p>
+
+<p>O <i>transformismo</i> é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve
+uma idéa antiga<a name="tex2html55" href="#foot476"><sup>[55]</sup></a>.
+Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra,
+tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do
+macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes
+ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de
+transformação<span class="pn">{53}</span> explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da
+existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das
+idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos
+Darwin, cuja theoria se póde definir: <i>A selecção natural por a lucta pela
+existencia, applicada ao transformismo de Lamarck</i><a name="tex2html56"
+href="#foot477"><sup>[56]</sup></a>. Segundo Darwin, todos os seres organisados
+se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural
+(<i>natural selection</i>), e todas estas transformações têem por causa a lucta
+pela vida (<i>struggle for life</i>), isto é, o combate eterno dos sêres vivos
+entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo
+Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da
+selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios
+nocivos eliminados<a name="tex2html57" href="#foot286"><sup>[57]</sup></a>.
+Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie
+humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como
+consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana
+foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que
+se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a
+origem do<span class="pn">{54}</span> homem parte das primeiras cellulas conhecidas, <i>moneras</i>,
+formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e,
+depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous
+graus, apparece o homem.</p>
+
+<p>Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas
+chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á
+intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da
+discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações
+espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que
+em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta
+immortaes<a name="tex2html58" href="#foot478"><sup>[58]</sup></a>. Certo é que
+muitos d'esses<span class="pn">{55}</span> grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por
+exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações
+vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao
+transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres
+organisados vai cada dia ganhando maior terreno.</p>
+
+<p>N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no
+Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia,
+sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e
+evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica
+esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças
+constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.</p>
+
+<p>As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito
+determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça
+indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação levaram
+Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas, que até ahi
+faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de origem aryana. Por
+onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela applicação do methodo
+philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas sciencias, por igual
+importantes, a ethnologia e a philologia. E não diremos que a philologia é a
+base da ethnologia, porque muitas vezes a linguagem de um povo está falseada
+por agentes historicos e sociaes, taes como a conquista,<span class="pn">{56}</span> o commercio, e a
+irradiação de focos intellectuaes mais ardentes<a name="tex2html59"
+href="#foot293"><sup>[59]</sup></a>. Mas, como quer que seja, acompanhar a
+evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer
+simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico das
+litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da mythologia<a
+name="tex2html60" href="#foot479"><sup>[60]</sup></a>. Os grandes problemas
+philologicos apenas começaram a inspirar geral interesse no principio d'este
+seculo. O ponto de partida dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem
+foi a <i>Grammatica comparada das linguas indo-europêas</i> por Francisco Boop.
+A antiguidade classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou
+grega, não podia elevar-se ás theorias geraes<a name="tex2html61"
+href="#foot480"><sup>[61]</sup></a>. Além do que, era preciso que a Historia
+fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para sobre o
+conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia da linguagem<a
+name="tex2html62" href="#foot481"><sup>[62]</sup></a>. No seculo actual a
+philologia começou a estudar as ramificações das linguas, a comparal-as, a
+classifical-as, a criticar os seus productos, como a Historia começou
+simultaneamente a estudar as ramificações<span class="pn">{57}</span> dos povos, a comparal-os, a
+classifical-os, a criticar as suas manifestações. A linguistica, estudando a
+phonetica e a estructura das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á
+philologia, porque se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz
+Hovelacque, se ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como
+poderá fazer um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente,
+d'essa lingua<a name="tex2html63" href="#foot482"><sup>[63]</sup></a>? A
+Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos de simplificação e de
+generalisação, tratou de procurar as leis que presidiram á formação das
+linguas, e assim é que a sciencia da linguagem tem chegado á descoberta de
+factos importantissimos. Averiguou-se, por exemplo, que a lingua chineza, a
+qual comprehende quarenta mil palavras, apenas possue um peculio de
+quatrocentas e cincoenta raizes. Lubbock<a name="tex2html64"
+href="#foot483"><sup>[64]</sup></a> occupa-se em mostrar a identidade de raizes
+na linguagem de muitas raças, e toma para exemplo as articulações <i>pa</i> e
+<i>ma</i>, que para a maioria dos povos significam <i>pai</i> e <i>mãe</i>, por
+isso mesmo que são as primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais
+faceis, as mais involuntarias, como observa Lefèvre<a name="tex2html65"
+href="#foot484"><sup>[65]</sup></a>. Mas, aqui se levanta uma importante
+questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que certas cousas foram
+indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses primitivos elementos das
+differentes famillias de linguas <i>typos phoneticos</i><span class="pn">{58}</span> produzidos por
+um poder inherente á natureza humana. E acrescenta: «Existem, como diria
+Platão, por natureza; ainda que devemos tambem declarar com Platão que quando
+dizemos por natureza, queremos dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas
+palavras que, como <i>zas</i>, provém da imitação de um som. Segundo Müller, as
+palavras d'esta especie parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes.</p>
+
+<p>Lubbock não fica satisfeito com a resposta dada por Müller a esta pergunta
+«Como é que os sons podem exprimir o pensamento»? posto adjective de eloquente
+a resposta. Lefèvre qualifica-a de excesso de mysticismo anglicano por parte de
+Müller, e observa que «o grito vago, fixado, precisado pelo habito, por
+convenção, por analogia com certas impressões traduzidas em onomatopêas nos
+basta para comprehender como a tal ordem de sensações ou de movimentos
+cerebraes se pôde ligar tal ou tal som.» D'este modo não haveria na linguagem
+as flôres artificiaes de que falla Müller, e, como pensamos, todas essas
+syllabas-mães mergulhariam raizes na interjeição ou na onomatopêa, acabando de
+fixal-as o habito.</p>
+
+<p>A moderna applicação da Historia a todos os ramos dos conhecimentos humanos
+produziu, na sciencia da linguagem, um estudo encantador&mdash;a biographia de cada
+palavra, muitas vezes em opposição com as regras phoneticas que determinam as
+mudanças possiveis das letras. O verdadeiro caracter de universalidade da
+Historia provém<span class="pn">{59}</span> certamente não do facto de abranger a generalidade dos
+povos, mas sim a generalidade dos assumptos, e é por isso que ella envolve, na
+sua immensa esphera, todas as sciencias. Tudo tem uma historia, e o historiador
+universal tem de abranger a historia de tudo.</p>
+
+<p>Max Müller<a name="tex2html66" href="#foot485"><sup>[66]</sup></a> faz, a
+traços poeticos, a biographia da palavra <i>palacio</i>. Sobre as margens do
+Tibre, uma das sete collinas era chamada <i>collis Palatinus</i>. Palatinus
+derivava-se de Palas, divindade pastoral, cuja festa se celebrava a 21 de
+abril. Nero mandou demolir todas as casas particulares d'esta collina para ahi
+edificar o seu aureo palacio, <i>domus aurea</i>, a que se principiou a dar o
+nome de <i>Palatium</i>, conservando-se como typo dos palacios reaes da Europa.
+De <i>palatium</i> nasceu o adjectivo <i>palatino</i>, a que se juntou a
+palavra <i>abobada</i> para significar o ponto mais elevado da bocca, porque
+<i>abobada</i> era realmente, como observa Müller, uma palavra muito propria
+para designar o palacio da bocca. O illustre professor d'Oxford, lembrando a
+phrase de Ennius&mdash;<i>palatum coeli</i>&mdash;, para exprimir a abobada dos céos, faz
+sentir a evidente analogia que ha entre a concepção do palacio da bocca e a de
+uma abobada, e entre a concepção de uma abobada e a sumptuosa habitação dos
+imperadores.</p>
+
+<p>Tomando por instrumento de investigação a philologia, a Historia não abriu
+os vocabularios das differentes<span class="pn">{60}</span> raças para estudar sómente a biographia
+das palavras, mas quiz tambem deletrear n'elles a condição social, a
+civilisação d'essas raças.</p>
+
+<p>A critica philologica descobriu que os Hos da India central não conhecem os
+termos affectuosos; que os Algonquinos, povo da America septentrional, não
+possuem o verbo <i>amar</i>; que os Bosmejans não teem nomes proprios para
+distinguir os individuos; que as tribus brazilicas desconhecem as noções de
+<i>côr</i>, <i>genero</i>, <i>espirito</i>, etc., por isso que não apparecem
+nos seus vocabularios palavras correspondentes a estas noções<a
+name="tex2html67" href="#foot486"><sup>[67]</sup></a>.</p>
+
+<p>Se os vocabularios foram considerados testimunhos importantes para a
+historia da civilisação dos povos, as litteraturas, os monumentos litterarios
+principiaram a reputar-se, perante a critica moderna, a photographia do estado
+do espirito d'esses povos, e dos seus costumes. É por isso que Henri Taine<a
+name="tex2html68" href="#foot487"><sup>[68]</sup></a> disse: «A historia
+transformou-se ha cem annos na Allemanha e ha sessenta em França, pelo estudo
+das litteraturas.» A litteratura copia o povo, como o livro copia o homem. Os
+monumentos litterarios são a concretisação da alma das nações: tudo o que ella
+sentia no <i>momento</i> em que produziu, influenciada pela força do meio
+physico, clima, e pelas disposições hereditarias, <i>raça</i>, está alli
+condensado. Uma epopéa é um composto determinado pela acção simultanea<span class="pn">{61}</span>
+d'estas tres forças primordiaes reconhecidas por Taine.</p>
+
+<p>Interrogado o <i>Mahabharata</i>, reproduz a nossos olhos o cyclo
+tempestuoso das conquistas dos aryas, quando, avançando para o sul, se
+propozeram assenhorear as regiões do Ganges. O <i>Ramayana</i> é tambem um
+symbolo sob a fórma de uma epopéa. A serenidade e abundancia que succedem aos
+trabalhos de Rama, para rehaver o throno e a esposa, representam a conquista
+pacifica do Meio-dia da India depois da conquista guerreira. É o poema da
+<i>posse</i>, como o <i>Mahabharata</i> é o poema da lucta. Ambos elles
+respondem eloquentemente ás interrogações da Historia, ambos elles caracterisam
+a alma da raça arya ao tempo em que rolava do alto do Thibet para, como uma
+onda enorme, alagar talvez o mundo<a name="tex2html69"
+href="#foot488"><sup>[69]</sup></a>. Eis-aqui porque já haviamos dito que as
+obras de arte e de litteratura são as que mais profundamente caracterisam a
+civilisação de um povo.</p>
+
+<p>Nos tempos modernos, a Historia, depois do rumo que lhe imprimiu Vico, pôde
+extrahir grandes recursos do estudo dos symbolos; quando ella chegou a lêr
+esses alphabetos mudos, permitta-se-nos a expressão, dos povos primitivos,
+descobriu segredos importantissimos. Na poesia do <i>Ramayana</i> conseguiu
+reconhecer em Rama e em<span class="pn">{62}</span> Sita uma dupla personificação da agricultura, da
+força que move o arado e do sulco que esse movimento produz na terra<a
+name="tex2html70" href="#foot489"><sup>[70]</sup></a>, o que plenamente
+confirma a exegese em que o <i>Ramayana</i> é o poema da conquista do sul da
+peninsula indostanica pelo trabalho sereno, pela paz. O symbolismo juridico,
+interrogado pela Historia, produziu a <i>poesia do direito</i>, concepção
+encantadora que em Portugal só tem originado, até hoje, um unico livro<a
+name="tex2html71" href="#foot490"><sup>[71]</sup></a>. Assim é que a symbolica
+vai encontrar na <i>stipulacão</i> a <i>palha</i> (<i>stipula</i>), que
+intervinha nos contractos<a name="tex2html72"
+href="#foot491"><sup>[72]</sup></a> e que até algumas vezes se cosia aos
+documentos<a name="tex2html73" href="#foot492"><sup>[73]</sup></a>; na prova
+pelo <i>fogo</i> o symbolo da pureza, porque, segundo os antigos, o fogo, sendo
+o grande purificador, «não podia conjurar contra o innocente<a
+name="tex2html74" href="#foot493"><sup>[74]</sup></a>.»</p>
+
+<p>Em Portugal, as mulheres accusadas de adulterio <i>purgavam-se a ferro
+caldo</i>. O ferro, aquecido pelo fogo, accusava o crime ou a innocencia: o
+fogo, diz o <i>Ramayana</i>, vê tudo o que ha de manifesto e tudo o que<span class="pn">{63}</span>
+ha de occulto. Bastaria só este facto para demonstrar que o symbolismo tanto
+abrangia a religião como o direito. Por um lado o fogo tinha um caracter
+divino, encarnava-se em Vesta, a que os gregos chamavam Estia, <i>fogo
+domestico</i><a name="tex2html75" href="#foot494"><sup>[75]</sup></a>; por
+outro lado revestia um caracter juridico, porque pela prova do fogo ficava a
+mulher legalmente rehabilitada. De modo que no <i>ferro caldo</i> não só se
+póde distinguir o elemento religioso e o elemento juridico, mas tambem a
+relação existente entre os dous elementos: sendo o adulterio um crime que
+principalmente affecta a vida de familia, a superstição continuou a fazel-o
+julgar pelo fogo, que na mythologia grega tinha um caracter divino de
+domesticidade.</p>
+
+<p>Antigamente, o historiador fugia dos symbolos pela mesma razão que os
+caminhantes fugiam da Sphynge: por não poder adivinhar o que elles diziam. Mas
+depois de Vico, o primeiro philosopho da Historia, as allegorias tornaram-se
+claras, luminosas. Desde esse momento tanto se dilatou a esphera da Historia,
+que um só individuo passou a representar uma generalisação: Achilles o <i>valor
+commum a todos os homens fortes</i>, Ulysses a <i>prudencia commum a todos os
+sabios</i><a name="tex2html76" href="#foot495"><sup>[76]</sup></a>. Esta
+generalisação illustrou ao mesmo passo o passado e o futuro: o passado, porque
+interpretou a antiguidade; o futuro, porque produziu a etymologia das
+linguagens poeticas.<span class="pn">{64}</span></p>
+
+<p>Pelo auxilio que a archeologia e o estudo das litteraturas vieram prestar á
+Historia, chegou-se á concepção da ethnographia, sciencia que dá o conhecimento
+dos usos, costumes, aptidões e religiões dos povos, e cuja denominação foi
+fixada em 1826 por Balbi<a name="tex2html77"
+href="#foot496"><sup>[77]</sup></a>. Esta nova sciencia veio, pois, completar o
+estudo do grupo humano sob o ponto de vista zoologico (anthropologia) e sob o
+ponto de vista historico e geographico (ethnologia). Como se fossem tres
+grandes linhas, as tres sciencias cruzaram-se em triangulo: dentro d'elle ficou
+o homem. O <i>homo sapiens</i> de Linneu mais propriamente se poderia denominar
+desde então <i>homo triplex</i>.</p>
+
+<p>Toda a importancia da ethnographia não está, como por muito tempo se julgou,
+no interesse maior ou menor que póde despertar á imaginação o conhecimento da
+estranha maneira de viver dos povos. A sciencia moderna deu ás narrativas dos
+<i>touristes</i> um valor até agora desconhecido, e foi d'este modo que a
+ethnographia revestiu um caracter altamente scientifico. Sob este ponto de
+vista, presta um grande auxilio a interpretação dos phenomenos sociaes, á
+sciencia da sociedade ou <i>sociologia</i>, como lhe chamou Augusto Comte.
+Herbert Spencer encontrou grandes subsidios na historia das superstições,
+quando reconheceu que ellas pertenciam ao numero de certas particularidades de
+que parcialmente depende a maneira por que a unidade social se comporta no
+meio<span class="pn">{65}</span> das condições ambientes, inorganicas, organicas e superorganicas<a
+name="tex2html78" href="#foot497"><sup>[78]</sup></a>.</p>
+
+<p>As civilisações antigas teem-se reconstruido em grande parte pelas
+investigações archeologicas, que são para a ethnographia um poderoso
+instrumento de averiguação. A sciencia moderna tem conseguido fazer a historia
+geral da civilisação da humanidade desde a idade de pedra até nossos dias, como
+se o homem actual podesse realmente retroceder ao passado e voltar ao presente
+com as provas materiaes do modo como a sua existencia se desenvolveu, de cyclo
+em cyclo, sobre a face da terra. Na grande resurreição da humanidade pela
+sciencia, o mais insignificante fragmento de barro serviu para a reconstrucção
+historica de uma civilisação.</p>
+
+<p>Do conjuncto das sciencias que estudam o passado, e que são dominadas pela
+Historia, porque se apoiam sobre factos historicos, trazem origem algumas
+sciencias novas, entre as quaes mencionaremos a <i>sciencia das religiões</i>.
+Com quanto recentissima, são realmente admiraveis as conquistas, as descobertas
+já realisadas por esta sciencia. Uma d'ellas é, seguramente, a affirmação da
+unidade historica das religiões. A crença de que cada religião possuia sua
+autochthonia, ou pelo menos certa originalidade, cahiu perante o resultado das
+investigações modernas, as quaes poderam levar o espirito humano<span class="pn">{66}</span> á
+conclusão de que as religiões teem uma origem asiatica commum, que se encontra
+nos <i>Vedas</i>. A demonstração d'esta verdade é admiravelmente desenvolvida
+por Emilio Durnouf<a name="tex2html79" href="#foot498"><sup>[79]</sup></a>.</p>
+
+<p>Achou-se que as religiões derivam de um elemento primitivo, o fogo,
+considerado sob o ponto de vista de tres funcções distinctas: uma
+<i>physica</i>, outra <i>psychologica</i>, a ultima <i>metaphysica</i>. A estas
+tres funcções correspondem tres phenomenos, que impressionaram o espirito dos
+aryas, quando ainda estanciavam nos valles do Oxus: o movimento, a vida, o
+pensamento. Estes tres phenomenos abrangem a totalidade dos phenomenos
+naturaes.</p>
+
+<p>Espraiando a vista por todas as cousas inanimadas que os rodeavam, os aryas
+chegaram á convicção de que todas essas cousas se moviam por effeito do calor,
+proveniente do sol. Reconheceram o calor na chamma, no raio, nas nuvens
+formadas pela evaporação das aguas, no vento produzido pelos movimentos
+vibratorios do ar devidos á presença do calor, que o rarefaz, ou á sua
+ausencia, que o condensa; em tudo, finalmente. Depois, fixando a sua attenção
+nos corpos organicos, encontraram a mesma causa de vida: viram os vegetaes
+enfolhar e florir animados pelo ósculo tépido da primavera, e pender feridos de
+morte no inverno; viram os animaes mover-se cheios de actividade e de vida
+quando o calor lhes<span class="pn">{67}</span> retemperava os membros, e enfermar e morrer quando o
+frio os enregelava.</p>
+
+<p>Portanto foram levados a concluir que residia no calor a causa de todo o
+movimento nos corpos inorganicos, e de todos as phenomenos vitaes nos corpos
+organisados.</p>
+
+<p>Mas a presença ou a ausencia de calor, estudada no corpo humano, produziu a
+noção de tres funcções differentes.</p>
+
+<p>F<small>UNCÇÃO PHYSICA.</small>&mdash;O corpo do homem ganhava pelo calor a
+actividade, a vida, que perdia pelo resfriamento.</p>
+
+<p>F<small>UNCÇÃO PSYCHOLOGIGA.</small>&mdash;Desde o momento em que o corpo do
+homem se tornava cadaver por um resfriamento geral, a faculdade de pensar
+desapparecia.</p>
+
+<p>F<small>UNCÇÃO METAPHYSICA.</small>&mdash;Se pela ausencia da luz o mundo ficasse
+sepultado em trevas, a intelligencia humana, dado que podesse funccionar,
+ficaria inteiramente desajudada do auxilio da vista, que é o sentido pelo qual
+nós adquirimos a percepção de quasi todas as idéas, especialmente a idéa da
+harmonia das cousas, e conseguintemente do principio de que emanam<a
+name="tex2html80" href="#foot499"><sup>[80]</sup></a>.</p>
+
+<p>Assentes estes principios, vejamos como se póde affirmar a unidade historica
+das religiões pela sua filiação commum no elemento vedico do calor. Tomemos na
+religião<span class="pn">{68}</span> que seguimos um exemplo, o dogma da trindade.</p>
+
+<p>Temos no christianismo o <i>Padre</i>, o <i>Filho</i> e o <i>Espirito</i>, e
+na trindade aryana a concepção de tres deuses que resumiam o nucleo da
+theogonia: <i>Savitri</i>, <i>Agni</i> e <i>Vâyu</i>.</p>
+
+<p><i>Savitri</i>, o productor, o pai celeste, é o sol.</p>
+
+<p><i>Agni</i>, é o fogo, habita na terra. O seu nascimento é mystico: se por
+um lado tem um pai terrestre, <i>Twastri</i>, que quer dizer
+<i>carpinteiro</i>, por outro lado descende do céo, e foi concebido pela
+vontade de <i>Vâyu</i> no ventre de <i>Mâyâ</i>.</p>
+
+<p><i>Vâyu</i>, no sentido material é o vento, o ar em movimento, que alimenta
+a luz e o fogo; no sentido metaphysico é o espirito de vida, a immortalidade em
+si mesma.</p>
+
+<p>Todos estes tres deuses estão, pois, substancialmente identificados na
+trindade aryana como na trindade christã. São uma concepção metaphysica baseada
+sobre uma concepção muito vaga da natureza.</p>
+
+<p>Mas a unidade historica das religiões póde ainda acompanhar-se na vida de
+<i>Agni</i>, o deus que se humanisa, porque desce á terra.</p>
+
+<p><i>Twastri</i>, seu pai, é o carpinteiro, que fricciona os dous bocados de
+madeira, de que ha-de sahir o «filho divino».</p>
+
+<p><i>Mâyâ</i> é a personificação da potencia productora sob a fórma de
+mulher.<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p><i>Agni</i> nasce homem e transforma-se em deus quando um sacerdote,
+collocando-o sobre o altar, derramou sobre a sua cabeça o licôr sagrado,
+<i>sôma</i>, e o ungiu com a manteiga do sacrificio. Entre os aryas da Asia
+central a vacca era o typo por excellencia dos animaes, produz o leite, o qual
+produz a manteiga. A manteiga clarificada é a materia animal que melhor serve
+para alimentar o fogo. O <i>sôma</i> é um licôr alcoolico, produzido pelo succo
+da asclepias acida, que, fermentado, e lançado ao fogo, cria chammas
+esplendidas.</p>
+
+<p>O <i>sôma</i> das religiões do Oriente transforma-se nas religiões do
+Occidente em vinho, o licôr sagrado. Assim como <i>Agni</i> reside no
+<i>sôma</i>, Christo reside no vinho, tambem sob uma fórma mystica. Ainda vamos
+encontrar no vinho o elemento vedico do fogo: a uva amadurece pelo calor,
+concentra-o, e transmitte-o a quem bebe o seu succo. O bolo que na religião
+indiana é feito de farinha e manteiga, materias eminentemente combustiveis e
+nutritivas, transforma-se na religião christa na hostia feita de farinha e
+agua, convindo lembrar que a combinação do hydrogenio com o oxygenio, de que
+resulta a agua, tem por condição, essencial o calor. <i>Agni</i> como Christo
+residem n'esta offrenda solida: são o sacrificador que se offerece a si mesmo
+como victima.</p>
+
+<p>Eis o dogma da eucharistia.</p>
+
+<p>Seguindo o luminoso rastro de Burnouf, poderiamos levar mais longe a
+demonstração da unidade historica das religiões, mesmo sem sahirmos do
+christianismo;<span class="pn">{70}</span> poderiamos descer a minuciosidades, mostrar como a
+<i>estrella dos magos</i> é a <i>savanagraha</i>, a estrella fatidica; como a
+vacca do presepe de Bethlem é a vacca mystica dos aryas, e como nem siquer
+falta o jumentinho que para alguns áryas traz sobre o dorso o fructo de que se
+extrahe o licôr sagrado; pelo que especialmente toca aos ritos, seria curioso
+mostrar, por exemplo, acompanhando Burnouf, como a grande época do anno
+christão consiste justamente nas ceremonias da <i>renovação do fogo</i>, quer
+dizer, na Paschoa; mas o nosso fim é tão sómente fazer sentir que a unidade das
+religiões é uma verdade, e que essa verdade foi conquistada por uma sciencia
+nova, baseada sobre factos historicos, e portanto filha da Historia universal
+philosophica.</p>
+
+<p>A grande obra de simplificação da Philosophia positiva releva principalmente
+no mobil que impelliu o espirito humano a descobrir o principio de unidade das
+religiões.</p>
+
+<p>Realmente é assombroso acompanhar a marcha da idéa religiosa, semelhante a
+uma grande corrente aryana, desde o seu berço asiatico, e através das
+mythologias dos antigos povos gregos, latinos e germanos, até ao christianismo,
+em que <i>Agnus</i>, o cordeiro immaculado, parece não ser mais que uma leve
+alteração morphologica de <i>Agni</i>.</p>
+
+<p>A sciencia moderna está já dirigindo as suas vistas para a America, no
+indefesso empenho de encontrar a unidade das origens da civilisação. De
+Chavencey, estudando<span class="pn">{71}</span> o mytho americano de Votan, encontrou n'elle uma
+contrafacção, á parte o elemento indigena já introduzido, das legendas
+asiaticas de Phra-Ruang e de Pyú-Tsau-ti<a name="tex2html81"
+href="#foot500"><sup>[81]</sup></a>. «Tem-se notado, observa Maury<a
+name="tex2html82" href="#foot501"><sup>[82]</sup></a> a analogia de muitas
+tradições religiosas dos antigos mexicanos e de algumas crenças christãs ou
+buddicas, a conformidade de certos monumentos e symbolos da America central com
+figuras e emblemas christãos e japonezes. As populações boreaes encontravam um
+caminho já traçado para o novo mundo pelo estreito de Behring e ilhas
+Aleutianas.»</p>
+
+<p>Especialmente pelo que toca á religião, a philosophia applicada á Historia é
+muitas vezes accusada de acintemente demolidora. Esta accusação, na materia de
+que vimos tratando, refere-se principalmente á vida de Christo. Ora é preciso
+observar que deve haver n'este assumpto tres pontos distinctos, correspondentes
+a tres elementos differentes: a theoria de Christo, a legenda de Christo e a
+vida de Jesus<a name="tex2html83" href="#foot502"><sup>[83]</sup></a>. Christo,
+estudado na pureza sublime da sua vida, merece o respeito de todos os
+philosophos. «De alguma crença que a critica racional nos despoje, diz Stuart
+Mill<a name="tex2html84" href="#foot503"><sup>[84]</sup></a>, resta-nos
+Christo; figura unica,<span class="pn">{72}</span> que se eleva tanto acima dos seus precursores como
+dos seus successores, e d'aquelles mesmos que tiveram o privilegio de receber
+directamente de sua bocca o seu ensinamento.»</p>
+
+<p>Desde o momento em que o espirito moderno tratou de procurar nos factos
+sociaes a estabilidade de principios que rege os phenomenos naturaes, querendo
+assim reduzir todas as nossas concepções fundamentaes a um estado de
+homogeneidade e, portanto, dar á philosophia um caracter definitivo de
+positividade, a Historia, fornecendo uma grande base para os estudos de
+observação, veio occupar um ponto culminante na esphera dos conhecimentos
+humanos. Esta superioridade de posição, que a Historia conquistou na hierarchia
+das sciencias, provém da necessaria relação que ha entre os factos e as idéas.
+De modo que se póde dizer que um grande numero de sciencias, se é que não são
+todas ellas, concorrem de mãos dadas para erigir o vasto monumento da Historia.
+As obras colossaes precisam de um immenso concurso de trabalho; quando Cheops e
+Cephten pensaram em levantar as duas mais altas pyramides do Egypto, diz-se que
+cêrca de cem mil homens carreavam materiaes. A Historia é tambem uma pyramide.
+E assim como as do Egypto dominavam com as suas quatro faces os quatro pontos
+cardeaes do mundo, a Historia abrange com a sua vista de aguia a esphera dos
+conhecimentos humanos.<span class="pn">{73}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{74}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">((1878))</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot427" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referimo-nos
+principalmente ás antas ou dolmens. Vide Adolpho Coelho, <i>Algumas observações
+ácerca do diccionario bibliographico portuguez e seu auctor</i>, pag. 10, e
+Augusto Filippe Simões, <i>Introducção á archeologia da peninsula iberica</i>,
+pag. 76.</p>
+
+<p><a name="foot428" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> <i>Historia
+universal</i>, introducção, cap. <small>VII</small>.</p>
+
+<p><a name="foot429" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <i>Introduction a la
+philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p>
+
+<p><a name="foot430" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Les origines de la
+civilisation</i>, cap. <small>IX</small>, traducção franceza de Ed. Barbier.</p>
+
+<p><a name="foot431" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>Expedition to the
+Rocky mountains</i>, vol. <small>III</small>, pag. 52.</p>
+
+<p><a name="foot432" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <i>Scienza nuova</i>,
+liv. <small>II</small>, Da sabedoria poetica.</p>
+
+<p><a name="foot433" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> <i>L'homme selon la
+science</i>, traducção franceza de Ch. Letourneau, pag. 235.</p>
+
+<p><a name="foot434" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Les origines de la
+civilisation</i>, cap. <small>III</small>.</p>
+
+<p><a name="foot435" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <i>Scienza nuova</i>,
+liv. <small>II</small>.</p>
+
+<p><a name="foot436" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Paulo Janet. <i>A
+familia.</i></p>
+
+<p><a name="foot437" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> <i>Considérations
+sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence.</i> Cap.
+<small>I</small>.</p>
+
+<p><a name="foot438" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> <i>Introduction a
+l'histoire de la philosophie</i>, neuvième leçon.</p>
+
+<p><a name="foot439" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Theophilo Braga.
+<i>Historia da poesia popular portugueza.</i></p>
+
+<p><a name="foot440" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> <i>Les sciences et
+la philosophie</i>, por Th.-Henri Martin, pag. 30.</p>
+
+<p><a name="foot441" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Cantu. <i>Hist.
+univ.</i> Liv. <small>XI</small>, cap. <small>I</small>.</p>
+
+<p><a name="foot442" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Ibidem, cap.
+<small>IV</small>.</p>
+
+<p><a name="foot443" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Cantu. <i>Hist.
+univ.</i> Liv. <small>XI</small>, cap. <small>VI</small>.</p>
+
+<p><a name="foot444" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> <i>Introduction a
+la philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p>
+
+<p><a name="foot445" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> <i>Introduction a
+l'histoire de la philosophie</i>, sixième édition, pag. 228.</p>
+
+<p><a name="foot446" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> <i>Principes de
+philosophie positive</i>, por Augusto Comte, pag. 96.</p>
+
+<p><a name="foot447" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Cousin. <i>Premiers
+essais de philosophie</i>, pag. 380.</p>
+
+<p><a name="foot161" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Ibidem, pag. 379.</p>
+
+<p><a name="foot448" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> <i>Discours sur
+l'histoire universelle</i>&mdash;Avant-propos.</p>
+
+<p><a name="foot449" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> <i>Disc. sur
+l'hist. univ.</i> Troisième partie, chapitre <small>VIII</small>.</p>
+
+<p><a name="foot450" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> <i>Introduction a
+l'histoire de la philosophie</i>, onzième leçon.</p>
+
+<p><a name="foot451" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> Theophilo Braga.
+<i>Poesia do direito</i>, pag. 168.</p>
+
+<p><a name="foot452" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> Vico. <i>Scienza
+nuova</i>, liv. <small>I</small>.</p>
+
+<p><a name="foot453" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> <i>Scienza
+nuova.</i> Liv. <small>IV</small>.</p>
+
+<p><a name="foot454" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <i>Historia
+universal.</i> Introd.</p>
+
+<p><a name="foot455" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <i>Introduction a
+l'histoire de la philosophie</i>, sixième Edition, pag. 239 e 240.</p>
+
+<p><a name="foot456" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> <i>Poesia do
+Direito</i>, pag. 13.</p>
+
+<p><a name="foot457" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> «O seu livro é um
+Apocalypse, cada dia se descobre alli o germen d'uma sciencia nova, a
+Philosophia da Historia, a Symbolica do Direito, a Critica da Arte.» Theophilo
+Braga. <i>A Poesia do Direito.</i></p>
+
+<p><a name="foot458" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> H. Taine. <i>La
+Fontaine et ses fables</i>, troisième édition, pag. 8.</p>
+
+<p><a name="foot459" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> <i>Histoire de la
+litteratura anglaise</i>, tome premier, pag. 22.</p>
+
+<p><a name="foot460" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> <i>Physiologie des
+ecrivains et des artistes.</i></p>
+
+<p><a name="foot461" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> <i>Le monde
+marche</i>, seconde édition, pag. 214.</p>
+
+<p><a name="foot462" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> <i>De l'esprit des
+lois</i>, livre quatorzième, chapitre <small>III</small>.</p>
+
+<p><a name="foot463" href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> <i>Histoire de la
+navigation de Jean Hugues de Linschot, hollandois, aux Indes Orientales.</i>
+Amsterdam, 1619.</p>
+
+<p><a name="foot464" href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> Capitulos
+<small>XXIX</small> e <small>XXX</small>.</p>
+
+<p><a name="foot465" href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <i>Introduction a
+la philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p>
+
+<p><a name="foot466" href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> Theophilo Braga.
+<i>Introducção á Historia da litteratura portugueza</i>, pag. 6.</p>
+
+<p><a name="foot467" href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> Joaquim Pedro
+Fragoso de Siqueira. <i>Memorias economicas da Academia</i>, tom.
+<small>V</small>.</p>
+
+<p><a name="foot468" href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a> <i>Les peuples de
+la France</i>, pag. 16.</p>
+
+<p><a name="foot469" href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a> <i>Le génie des
+religions.</i> (Ed. de 1869), cap. <small>II</small>, pag. 15.</p>
+
+<p><a name="foot470" href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> Jacques de
+Boisjoslin. <i>Les peuples de la France</i>, pag. 12 e 155.</p>
+
+<p><a name="foot471" href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> <i>Lettres sur la
+philosophie de l'histoire</i>, pag. 115.</p>
+
+<p><a name="foot472" href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a> <i>Principes de
+philosophie positive</i>, pag. 140.</p>
+
+<p><a name="foot260" href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a> Obra citada, pag.
+88.</p>
+
+<p><a name="foot261" href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> Idem, pag. 119.</p>
+
+<p><a name="foot473" href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> <i>Introducção á
+archeologia da peninsula iberica</i> pelo dr. Augusto Filippe Simões, pag. 2.</p>
+
+<p><a name="foot271" href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> «Quem souber porém
+que o bronze é uma liga de cobre e estanho, que o segundo d'estes metaes é
+menos commum que o primeiro e de mais difficil extracção, e finalmente que, sem
+se conhecerem ambos, não se inventaria a sua liga, de certo perguntará porque
+se não faz preceder a época do bronze pela época do cobre? A razão é simples.
+Em quasi todas as nações da Europa apparecem tão numerosos os objectos de
+bronze e tão raros os de cobre, que se teem refusado os archeologos a admittir
+uma época só caracterisada por este metal.» Dr. Augusto Filippe Simões.</p>
+
+<p><a name="foot474" href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> Capitulo
+<small>VI</small> do <i>Genesis</i>.</p>
+
+<p><a name="foot475" href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> Com razão observa
+Quatrefages que o polygenismo, habitualmente olhado como um resultado do
+<i>livre pensamento</i>, começou por ser biblico e dogmatico. <i>L'espèce
+humaine</i>, deuzième édition, pag. 22.</p>
+
+<p><a name="foot278" href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> Quatrefages. A
+proposito da discussão americana entre esclavistas e negrophilos.</p>
+
+<p><a name="foot476" href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> Dumont. <i>Hæckel
+et la théorie de l'évolution en Allemagne.</i> Segundo Dumont a theoria da
+evolução apparece em germen nas velhas religiões pantheistas da India e do
+Egypto. O philosopho Parmenides concebia a geração da vida como gradual e
+resultante d'ensaios successivos. Chapitre premier.</p>
+
+<p><a name="foot477" href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a> Topinard.
+<i>L'Anthropologie</i>, pag. 550.</p>
+
+<p><a name="foot286" href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> Este ponto é
+considerado inatacavel por Quatrefages. «Se toda a terra, diz elle, não é
+invadida dentro de alguns annos por certas especies, se os rios e os oceanos
+não são igualmente invadidos, a estas luctas se deve.»</p>
+
+<p><a name="foot478" href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> As peripecias
+d'este debate vem largamente narradas no livro <i>La genèse des espèces</i>,
+publicado em 1873 por H. de Valroger, padre do Oratorio (pag. 38 e seg.) e no
+livro <i>Du darwinisme ou l'homme-singe</i> pelo dr. Constantin James,
+publicado em 1877. Este ultimo livro é um manifesto plagiato do primeiro. Diz,
+por exemplo, o padre Valroger: «M. Claude Bernard, A. Dumas, M. de Quatrefages
+e M. Payen combattirent les theses de M. Pouchet, en s'appuyant sur leurs
+propres expériences, et signalèrent des causes d'erreur dont M. Pouchet
+paraissait ne pas s'être préservé. L'Academie proposa l'examen de la question
+en litige comme sujet d'un de ses prix.» Diz o dr. James, copiando quasi
+textualmente, sem citar o padre do Oratorio: «MM. Claude Bernard, Dumas, de
+Quatrefages e Payen, combattirent la thèse de M. Pouchet, en s'appuyant sur
+leurs propres expériences, et signalerent de plus les causes d'erreur dont il
+n'avait pas su se garantir. C'est alors que l'Academie proposa l'examen de la
+question en litige comme sujet d'un de ses prix!» (Pag. 79).</p>
+
+<p><a name="foot293" href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a> De Boisjoslin cita,
+entre outros factos, o dos judeus haverem deixado de fallar hebreu seiscentos
+annos antes de Christo, e o dos francos terem perdido a lingua teutonica
+trezentos annos antes de Clovis.</p>
+
+<p><a name="foot479" href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> Hovelacque. <i>La
+linguistique</i>, pag. 3.</p>
+
+<p><a name="foot480" href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> <i>Études de
+linguistique et de philologie</i> par André Lefévre, pag. 41.</p>
+
+<p><a name="foot481" href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> Theodoro Benfey.
+Citado pelo snr. Adolpho Coelho no seu opusculo <i>Sobre a necessidade da
+introducção do ensino da glottica em Portugal</i>, pag. 4.</p>
+
+<p><a name="foot482" href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> <i>La
+linguistique</i>, pag. 13.</p>
+
+<p><a name="foot483" href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> <i>Les origines de
+la civilisation</i>, pag. 416.</p>
+
+<p><a name="foot484" href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> <i>Études de
+linguistique et de philologie</i>, pag. 94.</p>
+
+<p><a name="foot485" href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> <i>Nouvelles leçons
+sur la science du langage</i>, traducção franceza de Harris e Perrot, pag. 318.</p>
+
+<p><a name="foot486" href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Lubbock. <i>Les
+origines de la civilisation</i>, pag. 425 e 426.</p>
+
+<p><a name="foot487" href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> <i>Histoire de la
+littérature anglaise</i>, tome premier.</p>
+
+<p><a name="foot488" href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> Dr. Theophilo
+Braga: «... esta raça conhecida pelo nome de indo-europêa, é a que pelas suas
+condições de ubiquidade, que lhe dá a sciencia e o poder, subsistira como unica
+na terra.» <i>Hist. Univ.</i>, fasc. <small>I</small>, pag. 55.</p>
+
+<p><a name="foot489" href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> «Minha filha Sita,
+nobre premio da força, não recebeu a vida no seio de uma mulher; esta virgem de
+encantadoras fórmas, que se diria filha dos Immortaes, nasceu de um
+<i>sulco</i> aberto para o sacrificio. Eu a dou como esposa a Rama; elle
+heroicamente a mereceu por sua <i>força</i> e <i>vigor</i>.» <i>Ramayana</i>,
+trad, de Hippolyte Fauche.</p>
+
+<p><a name="foot490" href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> Referimo-nos á
+<i>Poesia do Direito</i> do snr. dr. Theophilo Braga.</p>
+
+<p><a name="foot491" href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> <i>Poesia do
+Direito</i>, pag. <small>XIV</small>.</p>
+
+<p><a name="foot492" href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a> <i>Idem</i>, pag.
+62.</p>
+
+<p><a name="foot493" href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> <i>Idem</i>, pag.
+66.</p>
+
+<p><a name="foot494" href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> <i>O Fogo</i>, por
+F. da Fonseca Benevides.</p>
+
+<p><a name="foot495" href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> Vico. <i>Scienza
+nuova.</i> Liv. <small>II</small>. <i>Da logica poetica.</i></p>
+
+<p><a name="foot496" href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> <i>Atlas
+ethnographique.</i></p>
+
+<p><a name="foot497" href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> <i>Principes de
+sociologie</i>, trad. franceza de Cazelles, pag. 137.</p>
+
+<p><a name="foot498" href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <i>La science des
+religions.</i></p>
+
+<p><a name="foot499" href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> Emilio Burnouf.
+<i>La science des religions</i>, cap. <small>VIII</small>, pag. 208 e
+seguintes. (Ed. de 1872).</p>
+
+<p><a name="foot500" href="#tex2html81"><sup>[81]</sup></a> <i>Le mythe de
+Votan, étude sur les origines asiatiques de la civilisation américaine</i>,
+pag. 87.</p>
+
+<p><a name="foot501" href="#tex2html82"><sup>[82]</sup></a> <i>La terre et
+l'homme</i>, quatrième edition, pag 485.</p>
+
+<p><a name="foot502" href="#tex2html83"><sup>[83]</sup></a> Burnouf. <i>La
+science des religions</i>, pag. 242.</p>
+
+<p><a name="foot503" href="#tex2html84"><sup>[84]</sup></a> <i>Essais sur la
+religion</i>, traducção franceza de Cazelles, pag. 237.</p>
+</div>
+</div>
+
+<hr class="full">
+<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA UNIVERSAL PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS***</p>
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://www.gutenberg.org/about/contact
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://www.gutenberg.org/fundraising/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Each eBook is in a subdirectory of the same number as the eBook's
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+compressed (zipped), HTML and others.
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