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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/33068-8.txt b/33068-8.txt new file mode 100644 index 0000000..af1adc9 --- /dev/null +++ b/33068-8.txt @@ -0,0 +1,2210 @@ +The Project Gutenberg eBook, Da importancia da Historia Universal +Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos, by Alberto Pimentel + + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + + + + +Title: Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos + + +Author: Alberto Pimentel + + + +Release Date: July 3, 2010 [eBook #33068] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + + +***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA +UNIVERSAL PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS*** + + +E-text prepared by Pedro Saborano + + + +DA IMPORTANCIA +DA +HISTORIA UNIVERSAL +PHILOSOPHICA +NA +ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS + + +DISSERTAÇÃO +PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA) +DO +CURSO SUPERIOR DE LETRAS +APRESENTADA PELO CANDIDATO + +ALBERTO PIMENTEL + + + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE + +ERNESTO CHARDRON EUGENIO CHARDRON + +Porto Braga + +1878 + + * * * * * + +DA IMPORTANCIA +DA +HISTORIA UNIVERSAL +PHILOSOPHICA +NA +ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS + + * * * * * + +DA IMPORTANCIA +DA +HISTORIA UNIVERSAL +PHILOSOPHICA +NA +ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS + + +DISSERTAÇÃO +PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA) +DO +CURSO SUPERIOR DE LETRAS +APRESENTADA PELO CANDIDATO + +ALBERTO PIMENTEL + + + +LIVRARIA INTERNACIONAL +DE + +ERNESTO CHARDRON EUGENIO CHARDRON + +Porto Braga + +1878 + + * * * * * + + +Porto: 1878--Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62 + + + * * * * * + + + + + DA IMPORTANCIA + DA + HISTORIA UNIVERSAL + PHILOSOPHICA + NA + ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS + + +João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades +humanas, vai encontrar a origem da _curiosidade, filha da ignorancia e +mãi da sciencia_, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de +impressionar profundamente os sentidos e a imaginação dos homens +primitivos. + +Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o +tempo sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os +vapores seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no +espirito dos gigantes _vigorosos_ e _robustos_, que então povoavam a +terra, causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o +interesse com que ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram +como um immenso corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto +exprimir por meio d'essa estranha linguagem de fogo. + +Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove, +que tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso +que toda a terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a +phrase _Jovis omnia plena_, que Platão julgou dever traduzir por ether, +os gigantes da terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde, +como de uma semente abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos +os conhecimentos humanos. + +Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado +por Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de +Noé, quer consideremos essa inundação geral como uma simples phase +geologica, caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente +narrado pelo philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr, +é de todo o ponto provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno +meteorologico o primeiro estimulo da curiosidade humana. + +Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os +phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas +pessoas, e cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da +apparição de um cometa. + +Despertada a imaginação do homem pelo sentimento da curiosidade, entrou +elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da +humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um +mundo desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio, +para assim dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz +estranha converteu-se para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas +fixa e duradoura, n'uma como estrella de guia, que o obrigou a altear o +pensamento para além das brenhas da terra em que como selvagem vivia. + +Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar, +uma tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa, +porque chegará um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a +expressão, o mundo da sua existencia, construindo um ninho como as aves, +organisando uma familia, norteando-a, como piloto, através dos mares +aparcellados da vida; assim a humanidade era, n'esse periodo da sua +infancia, chamada a cumprir a grandiosa missão de adaptar o mundo +inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua existencia, de +desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos seculos; de +aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as +harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar +dos elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da +humanidade, com toda a perfeição relativa de contornos e relevos que +hoje tem, porque a humanidade não era mais na sua infancia que um esboço +que importava accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que +tinha de desenvolver-se a si propria. + +Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a +obra do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo, +outro ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira +instrucção; assim tambem a humanidade se foi transformando por +successivos esforços e progressos, fazendo hoje uma conquista, ámanhã +uma creação, enchendo a pouco e pouco o molde vazio em que, estatua, +tinha de fundir-se e completar-se. + +Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar +a grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo +até hoje. Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias, +commercio, artes, sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho +lento, que principiou por elementos simples, como se póde por exemplo +ver na linguagem, onde o monosyllabo veio finalmente a converter-se nas +linguas de flexão; na religião, onde a primeira elevação da alma para as +forças da natureza, que foram encarnadas em symbolos grosseiros, veio a +transformar-se na concepção grandiosa da divindade immaterial e +absolutamente perfeita; no estabelecimento dos estados, onde o poder +theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo que se pódem +variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude cultura da +terra, a que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia moderna, +sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard +servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril +exercida pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações +costeiras, vieram a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões +e officios a que se dedicam as classes contemporaneas; no commercio, +onde a simples troca de productos, n'uma área muito limitada, veio a +metamorphosear-se nas grandes operações commerciaes que se alargam por +todo o mundo, graças á invenção da moeda, aos progressos da navegação, +aos rapidos meios de transporte; nas artes, onde os instrumentos de +silex se transmudaram nos mais completos processos mechanicos, e os +megalithos, que tanto se teem estudado hoje[1], vieram a converter-se +nos grandiosos monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por +exemplo, a astronomia caminhou desde os pastores da Chaldéa, que +contemplavam os astros, sentados nas eminencias penhascosas, pelo +silencio da noite, até que essa sciencia celeste terminou com Newton, +como diz Larousse, a sua evolução historica. + +Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da +humanidade se fixavam na terra tão nova como ella, ao mesmo tempo que as +plantas enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma +exuberancia caudal, os homens, como a criança, só poderam olhar para +deante, para o futuro. O seu berço ficava ainda tão perto que não havia +tempo de ter brotado d'elle esse doce sentimento que as lagrimas +purificam, e que não poucas vezes conduz á reconstrucção do passado pela +memoria,--a saudade; ou antes, como diz Cantu[2], _os antigos tinham +ainda muito poucas ruinas deante de si_, phrase que Edgar Quinet repetiu +[3],--e sendo o passado o campo aberto ás investigações da historia, +onde quasi não havia passado não podia haver historia. + +Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um +historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto +edificio zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É +pelo esqueleto das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos +dias teem realisado as mais assombrosas conquistas da sciencia moderna. + +Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido +recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua +infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em +tribu, e que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes +obras d'arte, as instituições humanas foram modeladas por um esboço, e +aperfeiçoadas depois. O esboço da nação foi a tribu. + +Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento +humano em que se constituiram as primeiras sociedades. + +«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da +paternidade tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que +d'isto deriva e os meios de o alcançar? Como conceberia as vantagens da +sociedade o que nunca as tivesse experimentado? Para que os homens se +unam entre si, e façam um pacto social, é forçoso que possuam uma +linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e fórmas de +convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam +reunidos já em sociedade.» + +Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões +seguintes. + +As relações naturaes a que o auctor da _Historia universal_ allude na +primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos +deveres que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de +instincto, facto comprovado em todas as especies animaes, e até nas +vegetaes. Para as aves, por exemplo, os laços d'essas relações naturaes +convertem-se em deveres, e todavia nós não podemos suppôr nas aves a +noção moral de dever. Emquanto, entre algumas familias aladas, a mãi +acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a femea, e muitos +naturalistas citam o facto de certas aves _educarem_ seus filhos no que +chamaremos _arte do vôo_, antes de os abandonarem a si mesmos. + +Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de +constituir sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. +Tambem poderemos suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o +conhecimento das vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, +que vivem e trabalham em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de +conservação, ou serão impellidas pela elevada idéa da utilidade de +associação? + +Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem +commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, +desejamos accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar. + +Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente +privadas de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock[4] que essas +tribus possuem todas uma linguagem, comquanto muito imperfeita e +complicada de signaes. + +Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios +kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o +testimunho de James[5], ignorando completamente a linguagem umas das +outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr dous individuos, +pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, conversando +facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo as +suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, +por um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, +o mais espalhado ainda entre elles.» + +Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar +linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais +cordeaes relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a +theoria de Vico, dos _povos mudos_, exprimindo-se por meio de corpos ou +de imagens, que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam +exprimir, por exemplo, _tres espigas_ para significarem a idéa abstracta +de _tres annos_[6], é manifestamente muito mais acceitavel do que a de +Cantu, porque se funda na propria natureza humana, e destroe a opinião +de que sem uma linguagem, no estado de perfeição em que Cesar Cantu +parece suppol-a, a associação humana é inadmissivel. + +O dr. Luiz Büchner[7] confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, +que o homem primitivo foi necessariamente um sêr mudo, e a linguagem +articulada uma acquisição lenta e gradual; que ella teve por origem os +gritos espontaneos de prazer e dôr, a que succederam os sons imitativos +(_onomatopéas_), razão por que na grande variedade de todas as linguas +(cerca de tres mil) ha um numero consideravel de sons equivalentes, e +até mais ou menos analogos. Cita uma observação de William Bell, a +respeito do monosyllabo _loh_, empregado em muitas linguas para designar +a luz, a chamma, e que procede da simples exclamação _oh!_ precedida de +um _l_ ou de uma vibração da lingua. Crê que a pouco e pouco se foram +formando os polysyllabos, pela repetição de um som simples, como nas +palavras _mamã_, _papá_ ou pela agglutinação das syllabas. «Depois, +observa finalmente, o simples grito, correspondente a um sentimento, foi +_imitado pelos companheiros d'aquelle_ que o soltou, e acabou por +tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o proprio +sentimento.» + +Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao +contrario, tomando a sociedade como base da sua perfeição. + +Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza +humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros +passos na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e +intellectuaes, que por um lento progresso permittiram depois as mais +elevadas concepções, e as mais assombrosas conquistas, foi ainda o +instincto que levou a humanidade a lançar mão das primeiras industrias, +da vida pastoril, da caça, da pesca, do commercio, segundo as condições +naturaes dos paizes. «Assim as diversas industrias, diz Cantu, nasceram +e cresceram na razão dos lugares; porém a agricultura foi a que +introduziu maiores mudanças na constituição moral. O homem, querendo, +quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que lhe dava, +construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão +imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do +lar domestico dá origem á associação civil.» Mas o _lar domestico_ a que +se refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela +familia que a monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus +escravos, e dos filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai +era o _senhor_; governava pela força. A mulher era simplesmente uma +_cousa_, um instrumento de reproducção; e as mais das vezes era +arrebatada á sua tribu por violencia. Portanto, as primeiras familias +foram uma reunião de escravos dominados por um chefe, só muito tarde, +como mostra Lubbock[8], baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. Lennan +e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e +de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava--escravos.--A +mulher e os filhos só por serem escravos eram considerados familia. + +Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas +affirmações. Sustentando, como na formação da linguagem, os _verbos_ +vieram depois dos _nomes_, e como os primeiros verbos foram +certamente aquelles que são como que os _generos_ ou os _radicaes_ de +todos os outros, exemplo, _sum_, que contém _todas as cousas +metaphysicas_,--_sto_, que exprime a immobilidade, e _eo_, que significa +o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a +principio o modo _imperativo_, porque no _estado de familia_, e na +excessiva pobreza de linguagem que então havia, só os _paes_ davam +ordens a seus _filhos ou a seus criados_, ao passo que estes, +_submettidos ao terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem +murmurios ás suas ordens_[9]. Ainda hoje, entre os kalmuckos do Volga, o +azorrague é o sceptro e o symbolo do poder domestico[10]. + +Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de +tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a +reunião de algumas _familias_, por maioria de razão, carecia de um +magistrado que a governasse. Os chefes de _familia_ ou _senhores_ +reuniam-se para se entregarem, em condições de segurança, ao exercicio +da caça. Escolhiam certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais +se assignalava pela destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua +superioridade natural, ficava sendo o dominador da tribu. E esta +authoridade devia ser tanto mais respeitada e temida, quanto era certo +que se baseava n'um facto indestructivel e inevitavel, revestido de +caracter divino, porque a força era um attributo que não dependia da +vontade do homem. + +Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração das +_familias_ havia nascido a tribu. + +Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era +preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades +physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas +essas qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia +deixar de considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar +Cantu observa que o vocabulo _dynastia_ (de _dynamis_, força) indica a +origem de um tal poderio. + +Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da +força, origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes +e tempos. Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus +successores, diz Montesquieu[11], estiveram quasi sempre em guerra com +os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou terras; voltavam a +cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e rebanhos: o +que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que +foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade +chegou.» A origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, +para assim dizer, na athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel +perseguidor dos mouros, o guerreiro de estatura agigantada. + +A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que, +segundo Victor Cousin[12], é o instrumento terrivel mas necessario da +civilisação. «A hypothese de um estado de paz perpetua na especie +humana--diz elle--é a hypothese da immobilidade.» Comquanto não nos +exalte em favor da guerra esta opinião de Victor Cousin, somos todavia +levados a acreditar que a vida das primeiras nacionalidades se +fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se fortalece pela +gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos povos, +nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e +arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que +é a primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos[13]. + +Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações +das brumas do maravilhoso. + +Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois +de haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar +a historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado +fabuloso. Na mais antiga parte dos _Vedas_, o _Rigveda_, os indios +agradecem a intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra +protege a carnificina, como nós, quando procurámos uma origem +maravilhosa, fizemos intervir Christo na batalha de Ourique. + +Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a +Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, +misturados com as legendas phantasticas, desenvolveram-na. + +Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior +elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as +ruinas da humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer +destroços. Na China, a monarchia dos _Hia_, que durou quatrocentos +annos, acabou acompanhada de graves perturbações. Eis-aqui como foram +augmentando os materiaes da Historia: ruinas e destroços. + +Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores +coloridos da manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada +nação, envolta nas tradições maravilhosas da sua origem poetica. + +Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros +homens que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura +das gerações que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes +vida nova, imitando a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e +dar-lhes pensamento e voz, e ouvil-as, e collocal-as á volta de si +mesmos, vendo-as passar em turbilhões phantasticos como na formosa +ballada da dança dos mortos! O historiador, por uma arrojada abstracção, +collocava-se fóra do seu paiz, e com uma poderosa alavanca, muito +semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao rei Hieron, levantava a +terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações que a povoaram, +mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente assombrosa esta +nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o homem +transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. +Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus +descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á +vida de seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um +presente de seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, +arremessaram para a immensidade do futuro a outra extremidade da +corrente de ouro, a que as gerações subsequentes haviam de encadear +novos anneis. + +Chegado á grande conquista do que chamaremos _faculdade historica_, isto +é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da +vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se +o homem de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia +reconstruir o passado. + +Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo +milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia. + +Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a +estas arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem +totalmente de flôres, como a amendoeira. A imaginação, excitada pela +tradição poetica[14], estava n'elles em pleno vigor, pompeava as suas +galas luxuriantes, á maneira das florestas virgens que se enredam em +labyrinthos de phantasiosas ramarias. + +Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, +os primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as +suas narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a +imaginação acceitára com prazer ou até com enthusiasmo. + +Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá +largas á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com +colleccionar anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear +os espiritos frivolos, porque são um brinco para a imaginação. + +Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas +piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por +sua vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da +imaginação na Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e +independente. + +Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava +com a posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente +proxima de nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só +para obter os restos mortaes de Santa Triphomena. Theodoro, bispo de +Metz, preava em Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava +que não a largaria sem que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a +desejava possuir[15]. Jerusalem, a cidade celeste, apparecia ás +imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas lagrimas de +Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos cedros +do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma +expressão alheia. + +A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as +ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as +aventuras dos paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão +futil mas tão pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, +que bastará citar um só facto para comproval-a. Quando Carlos V foi +coroado em Bolonha, tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser +cavalleiros, dizendo a cada um: _Esto miles._ Mas como todos gritassem +em volta do rei: _Sire, sire, ad me, ad me_, Carlos V, estendendo a +espada sobre a multidão, viu-se obrigado a dizer: _No puedo mas. Estote +milites, estote milites, todos, todos_[16]. + +Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as +suas lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas +cortadas nos hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como +outras, como claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz +brindou Margarida de Provença, o qual era formado de margaritas e de +lizes alternados, tendo no meio um cruciflxo circuitado por esta +inscripção: _Hors cet anel pourrions-nous trouver amor_[17]? + +Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que +tiveram por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso +da tradição cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado +por Herculano, e á instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada +por fr. Francisco de S. Luiz. + +Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio +da imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie de +_peccado original_ devia desapparecer batido pelo criterio philosophico? + +Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um +novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a +humanidade. A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculo XVII, +época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista +do pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular +ruinas sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os +imperios desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os +cadaveres dos homens e das instituições se amontoassem, para que de cima +de todos esses enormes escombros se levantasse sereno e altivo o +pensamento humano, semelhante a uma grande aguia, e alçasse o vôo até +pairar n'uma esphera superior e poder medir, com segura agudeza de +vista, a profundeza dos destinos da humanidade na successão dos seculos. + +Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o +homem alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que +reconstruisse a humanidade como os primeiros historiadores haviam +reconstruido a nação; que zombasse da morte animando as cinzas dos +cadaveres e povoando com elles, por um poder maravilhoso do espirito, os +imperios que tinham apparecido e desapparecido á face da terra, como +plantas marinhas que ora surgem fluctuando no dorso da onda, ora se +escondem nos sulcos profundos do oceano! + +Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o +maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da +Historia. Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o +centro e o fim do universo, e se impunha á adoração do genero +humano[18]»; agora era o genero humano que se impunha á admiração de +cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia pensar-se +em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o orgulho +nacional, o excessivo sentimento de amor patrio que procurava revestir +essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a filiação +da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e +evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia +tempo para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres +inuteis, sob o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. +Como flôres inuteis, dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados +por Victor Cousin[19], que os primeiros erros são inevitaveis e ao mesmo +passo uteis, porque fornecem a base de todo o progresso. De feito, não +se póde entender a idéa de progresso senão á vista de primordios que se +tornam defeituosos quando comparados com trabalhos posteriores. «Sem as +attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas decepções da +alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto +Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series +de observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de +fundamento ás primeiras theorias positivas de uma e outra classe de +phenomenos[20]»? + +Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a +historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava +feito. Pelo contrario, tudo principiará agora a fazer-se, tomando por +elementos de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que +nos collocamos n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia +universal, e, conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos +povos, salteou-nos o desejo de averiguar as relações que poderiam +existir entre os factos e as idéas, de conhecer se todos esses factos +seriam obra do acaso, ou se cada povo teria sido impellido por um mobil +secreto para o cumprimento de determinada lei e encarregado de +desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação geral. + +De tal desejo nasceu, no seculo XVIII, a Philosophia da historia. + +Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a +caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida +interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada +a contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama +humanidade, se a philosophia, desempenhando missão semelhante a da +physiologia no campo das sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de +intimo e de secreto no seio d'esse colosso, se, por outras palavras, não +habilitasse a escrever a verdadeira historia da humanidade[21]. + +Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um +philosopho[22], o que é uma nação de mais ou de menos na humanidade? E +tem razão. A Historia não passa além do tempo marcado á existencia +d'essa nação, quer dizer, acompanha-a até ao seu ultimo dia, mas a +Philosophia da historia procura estudar a influencia que essa nação +extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o papel que representou +no grande concerto dos destinos da civilisação. + +Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos +praticados por individualidades conscientes, embora hajam sido +determinados por causas variadas, representam uma idéa. + +A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um +d'esses factos envolve. + +Portanto a Philosophia completa a Historia. + +Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de +uma Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao +Delphim,--vasto, sobretudo, em relação a época--procura lançar a vista +sobre a successão dos seculos, afim de que no espirito do principe +permaneçam gravados os traços geraes da vida da humanidade se por +ventura se lhe desluzirem da memoria os episodios das historias +particulares. + +«Esta maneira de historia universal--diz elle[23]--é, a respeito da +historia de cada paiz e de cada povo, o que uma carta geral é para as +cartas particulares. Nas cartas particulares estudaes miudamente um +reino ou uma provincia em si mesmos; nas cartas universaes aprendeis a +situar todas as regiões do mundo conjunctamente; vêdes o que Paris ou a +ilha de França é para o reino, o que o reino é para a Europa, e o que a +Europa é para o universo.» + +Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era +assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do +prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem +primeiro _executou_ a idéa de uma Historia universal. + +Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia +do povo de Deus, _que foi o fundamento da religião_. Escreve, portanto, +sob o ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua +obra é, para assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a +originalidade que revela está, como observa Cousin, na execução. Vendo +caminhar o povo de Deus á face da terra, sempre guiado pelo milagre, que +faz, por exemplo, com que a vara de Moysés aparte as aguas do mar +Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse povo a mão de Deus, o +espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na mobilidade dos +acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas lembrai-vos, meu +senhor--conclue o prelado de Meaux[24]--que esta longa cadêa das causas +particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens +secretas da divina Providencia.» Embora arrastado pelas convicções +profundamente religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo +dever da sua posição social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, +unico, intransigente; mas em todo o caso imprime á Historia um caracter +philosophico, porque determina um mobil e um fim a todos os +acontecimentos humanos. + +O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia +moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia +universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a +França, a França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se +comtudo, perante o espectaculo da Providencia, embevecido em extasis +religiosos, de estudar as relações dos povos entre si para se elevar até +á humanidade. Elle preoccupa-se com o povo de Moysés como se esse povo +constituisse por si só a humanidade. Na historia dos imperios, a que +consagra a terceira parte da sua obra, procura systematicamente a +ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de Deus. Não só o +Oriente falta no grande livro de Bossuet,--pondera Cousin[25]--assim +como a historia das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as +religiões e as instituições politicas dos differentes povos são algumas +vezes tratadas de modo um pouco superficial, se bem que de longe a +longe, e por exemplo na historia romana, haja relampagos de uma +sagacidade superior e paginas que lembram Machiavel e antecipam +Montesquieu.» + +Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, +uma de duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet +ficaria esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam +continuar a fabrica gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente +superior, um «d'estes genios descobridores que alcançam as verdades na +sua maior generalisação»[26], appareceu em Italia, illuminando com os +relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas humanas, +porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou antes +creando elle proprio uma sciencia nova, _scienza nuova_, a _rainha das +sciencias_, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o +objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os +primeiros pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras +reflexões dos philosophos sobre as idéas humanas[27]. + +É claro que nos referimos a João Baptista Vico. + +O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais +sympathica admiração e o mais profundo interesse, extrahe da _noite +profunda e tenebrosa que envolve a antiguidade_, uma affirmação +completamente nova e surprehendente: _O mundo civil foi certamente feito +pelos homens_ ou, n'uma phrase mais synthetica ainda, _a humanidade é +obra de si mesma_. + +Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João +Baptista Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada +pelos descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por +ligações passageiras e arbitrarias, se espalharam na _grande floresta da +terra_. + +A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do +homem. + +Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os +leva a conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram +no seio da humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da +divindade, como já mostramos no principio d'este trabalho. + +A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem, +desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro +monosyllabo. + +O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no +homem. A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos +ou pela grosseira representação dos objectos na casca das arvores, +origem dos hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras +palavras, os homens fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos +versos, da pantomima e da dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as +primeiras palavras são a copia dos sons da natureza. Depois as palavras +perdem a significação natural e tomam uma significação convencional; o +mesmo acontece na escriptura, a partir dos hieroglyphos. + +O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da +terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua +companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de +procurar alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das +cavernas. Do accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira +sociedade deu origem, nasceu o direito natural. + +Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um +producto de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem. + +Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época +em que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade +dos heroes, ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos +deuses, attribuem a si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade +historica, em que o heroe se humanisa, e em que a natureza humana se +torna intelligente, modesta, dôce e razoavel, obedecendo por +consequencia á lei da consciencia, da razão e do dever, como diz o +proprio Vico[28]. + +Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida +dos povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que +fica assignalado, cada povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu +maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir +substituir dentro do mesmo circulo fatal. + +Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie +de linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seu +_corsi_ e _ricorsi_, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta +theoria, os governos começam pela _unidade_ nas monarchias de familia; +pelo _menor numero_, nas aristocracias heroicas; pelo _maior numero_, +nas republicas populares, e acabam pela _unidade_, como principiaram, +nas monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de +cada povo. + +Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha de +_corsi_, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja +authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a +expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (_Monarchias de +familia_). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que +lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. +São vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de +familia procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os +direitos das _gentes minores_, dos adventicios (_Aristocracias +heroicas_). Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por +parte das _gentes minores_ obtem concessões que produzem finalmente o +governo humano, isto é, do maior numero (_Republicas populares_). A +estas épocas de agitação succede naturalmente um periodo de repouso, a +monarchia. Mas cumpre notar que por isso que as monarchias e as +republicas populares são ambas uma expressão do _governo humano_, podem +succeder-se alternadamente. + +Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha de _corsi_, a linha de +_ricorsi_ no periodo da segunda barbarie. + +Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, +magestades sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é +encimada pela cruz. Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes +dos brazões correspondem á linguagem hieroglyphica.--Regressam os tempos +heroicos pelo feudalismo. Os barões são os heroes; os servos são as +_gentes minores_.--Finalmente, os esforços dos vassallos para +conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que a potencia livre de +um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dos _senhores_ e dão +origem ao governo do _maior numero_, isto é, aos governos democraticos +modernos. + +Vico, encontrando o parallelismo dos _corsi_ e _ricorsi_ na linha +d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos +periodos, porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo +que o da primeira. + +A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da +impugnação se possa deduzir menospreço pela elevada concepção do +philosopho napolitano, que evidentemente se baseia na divisão dos +tempos, feita pelos egypcios e pelos chinezes. Cantu acha que a theoria +da _Scienza nuova_ tem o inconveniente de sobrepôr a razão á liberdade; +de inutilisar todos os esforços tendentes a realisar um progresso +continuo; finalmente, que ella é desmentida pela constituição da +sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e sem +feudatarios, á custa da industria e da concorrencia[29]. Cousin encontra +na theoria de Vico o vicio da preponderancia do elemento politico, da +omissão quasi completa da arte e da philosophia, e sobretudo do estudo +da civilisação oriental, dominada pela religião; finalmente, da omissão +relativa aos destinos da humanidade em geral na sua marcha de refluxo em +refluxo[30]. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha erro n'aquella +divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que os +periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros[31]. + +Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, +cuja arrojada intuição, em pleno seculo XVIII, espanta realmente. +Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da +sciencia, sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem +das especies, distribuição geographica das raças humanas, pluralidade +dos mundos, suspeitada já por Giordano Bruno, e á questão da influencia +dos meios, não póde deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos +mais transcendentes problemas da sciencia moderna, taes como o da origem +da linguagem, cuja resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua +obra os germens de muitas sciencias novas[32], e que foi o fecundador da +maior parte das theorias modernas, entre as quaes a Philosophia da +Historia. + +A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente +superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os +costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que +todavia já Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da +antiguidade haviam suspeitado: a influencia dos climas no caracter e +vida dos povos. Bossuet havia introduzido na Historia universal o +elemento religioso: Vico, o elemento racional; Montesquieu introduziu o +elemento climatologico. + +O auctor do _Espirito das Leis_, fanatico pela sua doutrina, exagera os +effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios +cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem +demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, +quando tratarmos de Herder, nasce e vive sob a influencia da natureza +que o rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos +tempos, constituem a sensibilidade definitiva[33]. Nas obras d'arte, e +de litteratura, que são as que mais profundamente caracterisam a +civilisação de um povo, como mais de espaço veremos, importa considerar, +segundo Taine[34], tres forças primordiaes, a raça, o _meio_, e o +momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica no _homo +duplex_, Emilio Deschanel[35] procura no estylo de cada escriptor a +caracteristica do temperamento, do _clima_, dos habitos, etc. Pelletan, +considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça, +reconhece a necessidade de se escrever a _geographia do progresso_[36]. + +Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob +o ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a +contradicções flagrantes, a que os proprios factos historicos dão +relevo, embora Montesquieu veja ainda no fundo d'essas contradicções a +influencia climaterica. Assente que os climas frios são os que dão o +vigor, a energia, e os climas quentes a molleza e a indolencia, o +proprio Montesquieu[37] foi obrigado a notar contradicções nos +caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente +faltos de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos +nas Indias, perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se +plenamente confirmada no precioso livro de um viajante hollandez[38], o +qual, tratando da maneira de viver dos portuguezes na India, faz notar a +ociosidade a que se entregavam, a ponto de explorarem a honra de suas +proprias mulheres[39]. Pois não obstante a indolencia peculiar ao clima +da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera +ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens +submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. +Montesquieu explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos +indios, a qual é devida á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A +preguiça do espirito traz, realmente, a immobilidade nas leis e nos +costumes; sem embargo, como observa Voltaire, a influencia dos climas é +algumas vezes desmentida pelos factos historicos: em resposta á asserção +de que os povos dos paizes quentes são timidos como os velhos, lembra +Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta annos maior territorio do +que aquelle que o imperio romano possuia. + +Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta +sobre a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; +segundo Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, +a natureza é o molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja +largueza de vistas abrange todos os elementos da humanidade, estudados +desde a origem dos tempos, no seu desenvolvimento harmonico e +progressivo, o que lhe dá uma incontestavel vantagem sobre os +philosophos que o precederam, parte da geographia physica para chegar a +uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto--diz Quinet--que +Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos +desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar +na natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos +povos[40].» A theoria de Herder é muito mais complexa do que a de +Montesquieu, e é claro que, lançando mão de todos os elementos +offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. Herder, +como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, as +linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo +dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com +effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das +paixões que se irão desenvolver no drama. No grande palco do mundo +acontece o mesmo. O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma +tempera robusta[41]. Em Portugal, os povos nascidos nas duas montanhosas +provincias da Beira sahem aptos para as maiores rudezas do trabalho; são +principalmente elles os que executam a tarefa das ceifas no Alemtejo, +onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, abrazador, +chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, +quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do +trabalho[42]. Os povos do Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da +situação geographica, arrojam-se ás maiores ousadias da navegação, como +a que no principio d'este seculo realisaram, indo dous homens n'um +cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha razão. Um só rio, o sinuoso e +extenso Douro, basta a caracterisar a vida da maior parte dos habitantes +d'uma provincia. O conhecimento pratico, a observação de algumas +povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio de que a fórma +geometrica dos rios determina os costumes dos povos circumpostos. As +correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de vida; pelo +contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho +continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos +esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um +trabalho por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma +religião. Pendurados das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, +empenhados em vencerem os perigos dos _pontos_, verdadeiras cataratas, +havendo previamente, de barrete na mão, confiado as suas vidas a Deus, +são completamente absorvidos pela preoccupação do trabalho. Extenuados, +quando recolhem ao lar domestico, dedicam-se á vida de familia, ao +descanço patriarchal da lareira; regulando ainda assim o tempo por modo +que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua pequena horta, no +intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a navegação +não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A +propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para +fortalecer-se; bebem para embriagar-se, por _deboche_. Quando chega a +noite, procuram as casas devassas, as rameiras do caes. + +Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios +cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes +astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No +estado actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores +sociologicos, posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos +cosmologicos. As profissões industriaes, por exemplo, não raro dependem +de uma influencia puramente local. Jacques de Boisjoslin confirma esta +opinião, avisando de que as aptidões profissionaes podem enganar sobre +as verdadeiras disposições das raças, por isso que frequentemente +derivam do clima, da pressão da natureza[43]. + +Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A +figura dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,--escreve +elle com o seu bello colorido poetico--, quasi por toda a parte ha +determinado a das sociedades; de modo que cada continente é um molde +onde a Providencia vasa as raças humanas para que ahi tomem a fórma +eterna dos seus designios; e o primeiro propheta escreveu o seu livro +nas linhas mudas dos continentes ainda deshabitados[44].» + +Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres +épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de +geração, tres épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o +pensamento humano póde conceber, o _infinito_, o _finito_, a _relação do +finito com o infinito_, sendo que estes tres elementos podem coexistir +n'uma mesma época posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; +Cousin liga tambem uma alta importancia á situação geographica e chega á +conclusão de que para _tres épocas differentes, tres theatros +differentes_. + +A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de +imprimir ao homem um caracter de passividade, que o reduz á condição de +escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, +não póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da +civilisação. Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, +posto que até certo ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros +homens as vozes da natureza pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder +explicar por esse mesmo facto a origem da linguagem, e pela situação +geographica a euphonia ou a aspereza de certos dialectos. + +Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem +ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, +quando estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da +historia; pelo que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, +a que pertencia, quando representou como rebeldes a toda a cultura os +celtas e os slavos, que foram a guarda-avançada da colonisação +europêa[45]. + +Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia +illuminar, principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes +problemas da sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem +dedicado grande numero de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias +não podemos mencionar n'um trabalho que, como este, tem de ser realisado +n'um periodo fatal e curto. + +O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de +Vico ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos +os elementos da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, +as artes, as litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. +Duchinski achou vinte e oito elementos de critica historica: 1. +Hydrographia; 2. Plasticidade do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. +Hygiene, doenças; 5. Climatologia; 6. Mythos; 7. Tradições peculiares a +cada raça; 8. Faculdades musicaes e poeticas; 9. Tendencia dos povos á +vida sedentaria agricola ou a vida nómada mercantil; 10. Lugar da mulher +na sociedade; 11. Faculdades religiosas, desenvolvimento das seitas; 12. +Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. Desenvolvimento da vida +provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor predisposição +para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a +geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o +ponto de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista +euphonico; 21. As linguas sob o ponto de vista dos caracteres da +civilisação; 22. As linguas sob o ponto de vista das tradições +historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza relativa dos costumes; +24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de parentesco entre os +povos sob o ponto de vista das relações historico-politicas; 26. +Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. 28. Grau de +parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia Duchinski +gabar de ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a +Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma +caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma +alga microscopica, a _Trichodesmium erythræum_, produz certa coloração +particular do mar Vermelho. + +Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da +humanidade, era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande +numero de sciencias correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. +Cada sciencia especial acode a offerecer ao investigador uma poderosa +alavanca que ha-de ajudar a levantar a humanidade á altura precisa para +receber de frente toda a luz da Philosophia. A Historia, que fôra +outr'ora simplesmente a narração de factos, tornou-se, portanto, a mais +complexa de todas as sciencias. Foi uma transformação assombrosa. +Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os sabios lançaram-se +á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por instrumento. O nosso +seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A Philosophia +positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos cyclos +mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles. + +Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda +em alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição +dos modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança +foi que nos determinou a escolhermos para dissertação de concurso o +vasto assumpto de que vimos tratando, seguramente muito superior ás +nossas forças. + +Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada +anno, diz elle[46] numerosas e interessantes monographias, obras +especiaes de um incontestavel valor; mas não passam de uteis materiaes, +que seria tempo de pôr em obra. A Historia está no ponto em que se +achavam: a astronomia antes de Keppler, Copernico e Newton; a chimica +antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes de Archimedes; a +zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de Cuvier; a +physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais +difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se +movem os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar +a curva que descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da +orbita que percorrem as nações! Porque não descobrirão a lei da +aggregação dos homens, como souberam achar a lei da aggregação das +moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica social do mesmo modo que +ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será que as forças +chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os gazes, os +liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma +combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus +precipitados? Descobriu-se a lei da circulação do sangue no homem: a +historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do +sangue nas sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a +formula da dynamica e da statica politicas, etc.» + +Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos +da actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da +humanidade o impossivel. + +Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano +caminha energicamente para as acquisições scientificas que as mais +pacientes observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada +a jornada até esta conquista, porque o espirito humano teve de +atravessar successivamente o estado theologico, base e estimulo de todo +o progresso, porque é preciso um ponto de apoio qualquer para firmar os +primeiros passos, e o estado metaphysico, transição do estado theologico +para o estado positivo. + +Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia +positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que +nos permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes +invariaveis, e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de +simplificarmos a universalidade dos conhecimentos humanos; que nos +permitta sujeitar a um systema claro e positivo todas as sciencias +fundamentaes estudadas nas suas relações communs como elementos +constitutivos de um todo harmonico, e portanto tambem nas suas relações +com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa obra de +simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a Philosophia +positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que lhe +é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a +Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se +propozesse estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se +na dos astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na +dos physiologicos, e creou a _physica social_, que se trata de estudar +com o vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de +observação exige, e que virá completar a constituição da Philosophia +positiva. + +Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito +humano, toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá +produzir o conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou +da explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica? +Responde o proprio Comte, o grande apostolo do positivismo: «Na minha +profunda convicção pessoal, considero estas empresas d'explicação +universal de todos os phenomenos por uma lei unica como eminentemente +chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes +intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, +e o universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica +possa estar ao nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa +muito exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam +necessariamente, se ella fosse possivel[47].» É o proprio Augusto Comte +que nos vem dizer que considera defezos á razão humana todos os +mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; +que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se +acha, a impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas +intimas dos phenomenos, a origem e o destino do universo[48]. + +Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e +havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É +preciso tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em +sêda. A astronomia esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu +Archimedes. Odysse-Barot pede a formula da dynamica e da statica +politicas: portanto, o que pede são duas theorias scientificas, que se +devem considerar como factos logicos. Ora só por uma profunda observação +d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das leis logicas[49]. A +Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já +perfeitamente conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos +phenomenos sociaes para attingir o seu caracter de universalidade. + +Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e +observadora, a Historia teve de estudar profundamente a natureza para +chegar, finalmente, á exacta concepção do lugar que n'ella occupa o +homem. A geologia tem, portanto, attingido um notavel estado de +florecimento. A historia da terra desdobrou-se em capitulos com uma +nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento se converteu +na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da terra, +para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia +encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. +Nas camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a +que o vulgo chama ainda hoje _pedras de raio_[50], e que effectivamente +foram considerados como productos da natureza antes que Mercati os +considerasse como armas defensivas do homem no estado da sua rudeza +primitiva. O achado de alguns fosseis, que pareceram humanos, a par com +os esqueletos de alimarias ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de +longos debates, e de novos achados, desfazer o erro anthropocentrico, +confirmar a existencia prehistorica do homem e por conseguinte o emprego +dos instrumentos de silex. Foi assim que do consorcio da geologia com a +paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do grande facho da +archeologia, pôde a Historia reconstruir as idades primitivas do homem. +Chamou á primeira, _de pedra_, e subdividiu-a em _paleolithica_ ou dos +instrumentos de pedra lascada; _mesolithica_ ou dos instrumentos de +pedra lascada e de osso; _neolithica_ ou dos instrumentos de pedra +polida; e á segunda, idade dos _metaes_, subdividindo-a em idade de +bronze[51] e idade de ferro. A descoberta de fosseis humanos, e dos +instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo de +sciencias que teem necessaria relação entre si. + +No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da +historia natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se +póde considerar originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos +já designassem pelo vocabulo _anthropologos_ aquelles que discutiam +sobre o homem. O problema da origem do homem impoz-se á meditação dos +sabios, como uma das mais importantes questões a resolver. Apartaram-se +as opiniões, os campos. A primeira base de toda a discussão foi o +Genesis. A opinião polygenista tirava argumento de serem os filhos de +Deus representados como raças provenientes de Adão, e os filhos dos +homens como raças não adamicas[52] e de que a Biblia apenas se referia +aos povos semitas, particularmente aos judeus[53]. A opinião monogenista +contrapunha que todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, +e consecutivamente dos tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a +influencia dos meios cosmicos produzira a variedade das raças. Esta +discussão veio a generalisar-se, a emancipar-se da sua origem biblica, a +diffundir-se pelo campo da sciencia, e até da politica[54]. + +O _transformismo_ é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve +uma idéa antiga[55]. Lamarck sustenta que as especies se transformam +passando de uma para outra, tanto no reino animal como no vegetal: o +homem é uma transformação lenta do macaco. Procurando a origem dos +sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes ou mónadas, provenientes +de geração espontanea. N'este systema, os meios de transformação +explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da existencia. +Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das idéas +orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos +Darwin, cuja theoria se póde definir: _A selecção natural por a lucta +pela existencia, applicada ao transformismo de Lamarck_[56]. Segundo +Darwin, todos os seres organisados se transformam incessantemente sob o +imperio de uma lei de selecção natural (_natural selection_), e todas +estas transformações têem por causa a lucta pela vida (_struggle for +life_), isto é, o combate eterno dos sêres vivos entre si pelos meios de +existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo Darwin, de um +pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da selecção +natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios +nocivos eliminados[57]. Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de +applicar a sua theoria á especie humana particularmente, os que a +defendem fazem essa applicação como consequencia logica das asserções +apresentadas por elle. A doutrina darwiniana foi o ponto de partida de +um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que se filiaram na +escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a origem do +homem parte das primeiras cellulas conhecidas, _moneras_, formadas por +geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, depois +de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous +graus, apparece o homem. + +Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias +biologicas chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram +vida nova á intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. +Desdobram-se na tela da discussão os mais graves problemas, como por +exemplo o das gerações espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das +Sciencias de Paris, depois que em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo +da discordia ao seio dos quarenta immortaes[58]. Certo é que muitos +d'esses grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por exemplo o +do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações +vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao +transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos +seres organisados vai cada dia ganhando maior terreno. + +N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no +Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a +ethnologia, sciencia que se occupa da classificação, descripção, +repartição, filiação e evolução das raças humanas, tem um logar +importantissimo, e tanto se identifica esta nova sciencia com a Historia +philosophica, que só pelo estudo das raças constituiram alguns +historiadores uma Philosophia da Historia. + +As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito +determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça +indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação +levaram Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas, +que até ahi faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de +origem aryana. Por onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela +applicação do methodo philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas +sciencias, por igual importantes, a ethnologia e a philologia. E não +diremos que a philologia é a base da ethnologia, porque muitas vezes a +linguagem de um povo está falseada por agentes historicos e sociaes, +taes como a conquista, o commercio, e a irradiação de focos +intellectuaes mais ardentes[59]. Mas, como quer que seja, acompanhar a +evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer +simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico +das litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da +mythologia[60]. Os grandes problemas philologicos apenas começaram a +inspirar geral interesse no principio d'este seculo. O ponto de partida +dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem foi a _Grammatica +comparada das linguas indo-europêas_ por Francisco Boop. A antiguidade +classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou grega, não +podia elevar-se ás theorias geraes[61]. Além do que, era preciso que a +Historia fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para +sobre o conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia +da linguagem[62]. No seculo actual a philologia começou a estudar as +ramificações das linguas, a comparal-as, a classifical-as, a criticar os +seus productos, como a Historia começou simultaneamente a estudar as +ramificações dos povos, a comparal-os, a classifical-os, a criticar as +suas manifestações. A linguistica, estudando a phonetica e a estructura +das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á philologia, porque +se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz Hovelacque, se +ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como poderá fazer +um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente, d'essa +lingua[63]? A Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos +de simplificação e de generalisação, tratou de procurar as leis que +presidiram á formação das linguas, e assim é que a sciencia da linguagem +tem chegado á descoberta de factos importantissimos. Averiguou-se, por +exemplo, que a lingua chineza, a qual comprehende quarenta mil palavras, +apenas possue um peculio de quatrocentas e cincoenta raizes. +Lubbock[64] occupa-se em mostrar a identidade de raizes na linguagem de +muitas raças, e toma para exemplo as articulações _pa_ e _ma_, que para +a maioria dos povos significam _pai_ e _mãe_, por isso mesmo que são as +primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais faceis, as mais +involuntarias, como observa Lefèvre[65]. Mas, aqui se levanta uma +importante questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que +certas cousas foram indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses +primitivos elementos das differentes famillias de linguas _typos +phoneticos_ produzidos por um poder inherente á natureza humana. E +acrescenta: «Existem, como diria Platão, por natureza; ainda que devemos +tambem declarar com Platão que quando dizemos por natureza, queremos +dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas palavras que, como _zas_, +provém da imitação de um som. Segundo Müller, as palavras d'esta especie +parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes. + +Lubbock não fica satisfeito com a resposta dada por Müller a esta +pergunta «Como é que os sons podem exprimir o pensamento»? posto +adjective de eloquente a resposta. Lefèvre qualifica-a de excesso de +mysticismo anglicano por parte de Müller, e observa que «o grito vago, +fixado, precisado pelo habito, por convenção, por analogia com certas +impressões traduzidas em onomatopêas nos basta para comprehender como a +tal ordem de sensações ou de movimentos cerebraes se pôde ligar tal ou +tal som.» D'este modo não haveria na linguagem as flôres artificiaes de +que falla Müller, e, como pensamos, todas essas syllabas-mães +mergulhariam raizes na interjeição ou na onomatopêa, acabando de +fixal-as o habito. + +A moderna applicação da Historia a todos os ramos dos conhecimentos +humanos produziu, na sciencia da linguagem, um estudo encantador--a +biographia de cada palavra, muitas vezes em opposição com as regras +phoneticas que determinam as mudanças possiveis das letras. O verdadeiro +caracter de universalidade da Historia provém certamente não do facto de +abranger a generalidade dos povos, mas sim a generalidade dos assumptos, +e é por isso que ella envolve, na sua immensa esphera, todas as +sciencias. Tudo tem uma historia, e o historiador universal tem de +abranger a historia de tudo. + +Max Müller[66] faz, a traços poeticos, a biographia da palavra +_palacio_. Sobre as margens do Tibre, uma das sete collinas era chamada +_collis Palatinus_. Palatinus derivava-se de Palas, divindade pastoral, +cuja festa se celebrava a 21 de abril. Nero mandou demolir todas as +casas particulares d'esta collina para ahi edificar o seu aureo palacio, +_domus aurea_, a que se principiou a dar o nome de _Palatium_, +conservando-se como typo dos palacios reaes da Europa. De _palatium_ +nasceu o adjectivo _palatino_, a que se juntou a palavra _abobada_ para +significar o ponto mais elevado da bocca, porque _abobada_ era +realmente, como observa Müller, uma palavra muito propria para designar +o palacio da bocca. O illustre professor d'Oxford, lembrando a phrase de +Ennius--_palatum coeli_--, para exprimir a abobada dos céos, faz sentir +a evidente analogia que ha entre a concepção do palacio da bocca e a de +uma abobada, e entre a concepção de uma abobada e a sumptuosa habitação +dos imperadores. + +Tomando por instrumento de investigação a philologia, a Historia não +abriu os vocabularios das differentes raças para estudar sómente a +biographia das palavras, mas quiz tambem deletrear n'elles a condição +social, a civilisação d'essas raças. + +A critica philologica descobriu que os Hos da India central não conhecem +os termos affectuosos; que os Algonquinos, povo da America +septentrional, não possuem o verbo _amar_; que os Bosmejans não teem +nomes proprios para distinguir os individuos; que as tribus brazilicas +desconhecem as noções de _côr_, _genero_, _espirito_, etc., por isso que +não apparecem nos seus vocabularios palavras correspondentes a estas +noções[67]. + +Se os vocabularios foram considerados testimunhos importantes para a +historia da civilisação dos povos, as litteraturas, os monumentos +litterarios principiaram a reputar-se, perante a critica moderna, a +photographia do estado do espirito d'esses povos, e dos seus costumes. É +por isso que Henri Taine[68] disse: «A historia transformou-se ha cem +annos na Allemanha e ha sessenta em França, pelo estudo das +litteraturas.» A litteratura copia o povo, como o livro copia o homem. +Os monumentos litterarios são a concretisação da alma das nações: tudo o +que ella sentia no _momento_ em que produziu, influenciada pela força do +meio physico, clima, e pelas disposições hereditarias, _raça_, está alli +condensado. Uma epopéa é um composto determinado pela acção simultanea +d'estas tres forças primordiaes reconhecidas por Taine. + +Interrogado o _Mahabharata_, reproduz a nossos olhos o cyclo tempestuoso +das conquistas dos aryas, quando, avançando para o sul, se propozeram +assenhorear as regiões do Ganges. O _Ramayana_ é tambem um symbolo sob a +fórma de uma epopéa. A serenidade e abundancia que succedem aos +trabalhos de Rama, para rehaver o throno e a esposa, representam a +conquista pacifica do Meio-dia da India depois da conquista guerreira. É +o poema da _posse_, como o _Mahabharata_ é o poema da lucta. Ambos elles +respondem eloquentemente ás interrogações da Historia, ambos elles +caracterisam a alma da raça arya ao tempo em que rolava do alto do +Thibet para, como uma onda enorme, alagar talvez o mundo[69]. Eis-aqui +porque já haviamos dito que as obras de arte e de litteratura são as que +mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo. + +Nos tempos modernos, a Historia, depois do rumo que lhe imprimiu Vico, +pôde extrahir grandes recursos do estudo dos symbolos; quando ella +chegou a lêr esses alphabetos mudos, permitta-se-nos a expressão, dos +povos primitivos, descobriu segredos importantissimos. Na poesia do +_Ramayana_ conseguiu reconhecer em Rama e em Sita uma dupla +personificação da agricultura, da força que move o arado e do sulco que +esse movimento produz na terra[70], o que plenamente confirma a exegese +em que o _Ramayana_ é o poema da conquista do sul da peninsula +indostanica pelo trabalho sereno, pela paz. O symbolismo juridico, +interrogado pela Historia, produziu a _poesia do direito_, concepção +encantadora que em Portugal só tem originado, até hoje, um unico +livro[71]. Assim é que a symbolica vai encontrar na _stipulacão_ a +_palha_ (_stipula_), que intervinha nos contractos[72] e que até algumas +vezes se cosia aos documentos[73]; na prova pelo _fogo_ o symbolo da +pureza, porque, segundo os antigos, o fogo, sendo o grande purificador, +«não podia conjurar contra o innocente[74].» + +Em Portugal, as mulheres accusadas de adulterio _purgavam-se a ferro +caldo_. O ferro, aquecido pelo fogo, accusava o crime ou a innocencia: o +fogo, diz o _Ramayana_, vê tudo o que ha de manifesto e tudo o que ha de +occulto. Bastaria só este facto para demonstrar que o symbolismo tanto +abrangia a religião como o direito. Por um lado o fogo tinha um caracter +divino, encarnava-se em Vesta, a que os gregos chamavam Estia, _fogo +domestico_[75]; por outro lado revestia um caracter juridico, porque +pela prova do fogo ficava a mulher legalmente rehabilitada. De modo que +no _ferro caldo_ não só se póde distinguir o elemento religioso e o +elemento juridico, mas tambem a relação existente entre os dous +elementos: sendo o adulterio um crime que principalmente affecta a vida +de familia, a superstição continuou a fazel-o julgar pelo fogo, que na +mythologia grega tinha um caracter divino de domesticidade. + +Antigamente, o historiador fugia dos symbolos pela mesma razão que os +caminhantes fugiam da Sphynge: por não poder adivinhar o que elles +diziam. Mas depois de Vico, o primeiro philosopho da Historia, as +allegorias tornaram-se claras, luminosas. Desde esse momento tanto se +dilatou a esphera da Historia, que um só individuo passou a representar +uma generalisação: Achilles o _valor commum a todos os homens fortes_, +Ulysses a _prudencia commum a todos os sabios_[76]. Esta generalisação +illustrou ao mesmo passo o passado e o futuro: o passado, porque +interpretou a antiguidade; o futuro, porque produziu a etymologia das +linguagens poeticas. + +Pelo auxilio que a archeologia e o estudo das litteraturas vieram +prestar á Historia, chegou-se á concepção da ethnographia, sciencia que +dá o conhecimento dos usos, costumes, aptidões e religiões dos povos, e +cuja denominação foi fixada em 1826 por Balbi[77]. Esta nova sciencia +veio, pois, completar o estudo do grupo humano sob o ponto de vista +zoologico (anthropologia) e sob o ponto de vista historico e geographico +(ethnologia). Como se fossem tres grandes linhas, as tres sciencias +cruzaram-se em triangulo: dentro d'elle ficou o homem. O _homo sapiens_ +de Linneu mais propriamente se poderia denominar desde então _homo +triplex_. + +Toda a importancia da ethnographia não está, como por muito tempo se +julgou, no interesse maior ou menor que póde despertar á imaginação o +conhecimento da estranha maneira de viver dos povos. A sciencia moderna +deu ás narrativas dos _touristes_ um valor até agora desconhecido, +e foi d'este modo que a ethnographia revestiu um caracter altamente +scientifico. Sob este ponto de vista, presta um grande auxilio a +interpretação dos phenomenos sociaes, á sciencia da sociedade ou +_sociologia_, como lhe chamou Augusto Comte. Herbert Spencer +encontrou grandes subsidios na historia das superstições, quando +reconheceu que ellas pertenciam ao numero de certas particularidades de +que parcialmente depende a maneira por que a unidade social se comporta +no meio das condições ambientes, inorganicas, organicas e +superorganicas[78]. + +As civilisações antigas teem-se reconstruido em grande parte pelas +investigações archeologicas, que são para a ethnographia um poderoso +instrumento de averiguação. A sciencia moderna tem conseguido fazer a +historia geral da civilisação da humanidade desde a idade de pedra até +nossos dias, como se o homem actual podesse realmente retroceder ao +passado e voltar ao presente com as provas materiaes do modo como a sua +existencia se desenvolveu, de cyclo em cyclo, sobre a face da terra. Na +grande resurreição da humanidade pela sciencia, o mais insignificante +fragmento de barro serviu para a reconstrucção historica de uma +civilisação. + +Do conjuncto das sciencias que estudam o passado, e que são dominadas +pela Historia, porque se apoiam sobre factos historicos, trazem origem +algumas sciencias novas, entre as quaes mencionaremos a _sciencia das +religiões_. Com quanto recentissima, são realmente admiraveis as +conquistas, as descobertas já realisadas por esta sciencia. Uma d'ellas +é, seguramente, a affirmação da unidade historica das religiões. A +crença de que cada religião possuia sua autochthonia, ou pelo menos +certa originalidade, cahiu perante o resultado das investigações +modernas, as quaes poderam levar o espirito humano á conclusão de que as +religiões teem uma origem asiatica commum, que se encontra nos _Vedas_. +A demonstração d'esta verdade é admiravelmente desenvolvida por Emilio +Durnouf[79]. + +Achou-se que as religiões derivam de um elemento primitivo, o fogo, +considerado sob o ponto de vista de tres funcções distinctas: uma +_physica_, outra _psychologica_, a ultima _metaphysica_. A estas tres +funcções correspondem tres phenomenos, que impressionaram o espirito dos +aryas, quando ainda estanciavam nos valles do Oxus: o movimento, a vida, +o pensamento. Estes tres phenomenos abrangem a totalidade dos phenomenos +naturaes. + +Espraiando a vista por todas as cousas inanimadas que os rodeavam, os +aryas chegaram á convicção de que todas essas cousas se moviam por +effeito do calor, proveniente do sol. Reconheceram o calor na chamma, no +raio, nas nuvens formadas pela evaporação das aguas, no vento produzido +pelos movimentos vibratorios do ar devidos á presença do calor, que o +rarefaz, ou á sua ausencia, que o condensa; em tudo, finalmente. Depois, +fixando a sua attenção nos corpos organicos, encontraram a mesma causa +de vida: viram os vegetaes enfolhar e florir animados pelo ósculo tépido +da primavera, e pender feridos de morte no inverno; viram os animaes +mover-se cheios de actividade e de vida quando o calor lhes retemperava +os membros, e enfermar e morrer quando o frio os enregelava. + +Portanto foram levados a concluir que residia no calor a causa de todo o +movimento nos corpos inorganicos, e de todos as phenomenos vitaes nos +corpos organisados. + +Mas a presença ou a ausencia de calor, estudada no corpo humano, +produziu a noção de tres funcções differentes. + +FUNCÇÃO PHYSICA.--O corpo do homem ganhava pelo calor a actividade, a +vida, que perdia pelo resfriamento. + +FUNCÇÃO PSYCHOLOGIGA.--Desde o momento em que o corpo do homem se +tornava cadaver por um resfriamento geral, a faculdade de pensar +desapparecia. + +FUNCÇÃO METAPHYSICA.--Se pela ausencia da luz o mundo ficasse +sepultado em trevas, a intelligencia humana, dado que podesse +funccionar, ficaria inteiramente desajudada do auxilio da vista, que é o +sentido pelo qual nós adquirimos a percepção de quasi todas as idéas, +especialmente a idéa da harmonia das cousas, e conseguintemente do +principio de que emanam[80]. + +Assentes estes principios, vejamos como se póde affirmar a unidade +historica das religiões pela sua filiação commum no elemento vedico do +calor. Tomemos na religião que seguimos um exemplo, o dogma da trindade. + +Temos no christianismo o _Padre_, o _Filho_ e o _Espirito_, e na +trindade aryana a concepção de tres deuses que resumiam o nucleo da +theogonia: _Savitri_, _Agni_ e _Vâyu_. + +_Savitri_, o productor, o pai celeste, é o sol. + +_Agni_, é o fogo, habita na terra. O seu nascimento é mystico: se por um +lado tem um pai terrestre, _Twastri_, que quer dizer _carpinteiro_, por +outro lado descende do céo, e foi concebido pela vontade de _Vâyu_ no +ventre de _Mâyâ_. + +_Vâyu_, no sentido material é o vento, o ar em movimento, que alimenta a +luz e o fogo; no sentido metaphysico é o espirito de vida, a +immortalidade em si mesma. + +Todos estes tres deuses estão, pois, substancialmente identificados na +trindade aryana como na trindade christã. São uma concepção metaphysica +baseada sobre uma concepção muito vaga da natureza. + +Mas a unidade historica das religiões póde ainda acompanhar-se na vida +de _Agni_, o deus que se humanisa, porque desce á terra. + +_Twastri_, seu pai, é o carpinteiro, que fricciona os dous bocados de +madeira, de que ha-de sahir o «filho divino». + +_Mâyâ_ é a personificação da potencia productora sob a fórma de mulher. + +_Agni_ nasce homem e transforma-se em deus quando um sacerdote, +collocando-o sobre o altar, derramou sobre a sua cabeça o licôr sagrado, +_sôma_, e o ungiu com a manteiga do sacrificio. Entre os aryas da Asia +central a vacca era o typo por excellencia dos animaes, produz o leite, +o qual produz a manteiga. A manteiga clarificada é a materia animal que +melhor serve para alimentar o fogo. O _sôma_ é um licôr alcoolico, +produzido pelo succo da asclepias acida, que, fermentado, e lançado ao +fogo, cria chammas esplendidas. + +O _sôma_ das religiões do Oriente transforma-se nas religiões do +Occidente em vinho, o licôr sagrado. Assim como _Agni_ reside no _sôma_, +Christo reside no vinho, tambem sob uma fórma mystica. Ainda vamos +encontrar no vinho o elemento vedico do fogo: a uva amadurece pelo +calor, concentra-o, e transmitte-o a quem bebe o seu succo. O bolo que +na religião indiana é feito de farinha e manteiga, materias +eminentemente combustiveis e nutritivas, transforma-se na religião +christa na hostia feita de farinha e agua, convindo lembrar que a +combinação do hydrogenio com o oxygenio, de que resulta a agua, tem por +condição, essencial o calor. _Agni_ como Christo residem n'esta offrenda +solida: são o sacrificador que se offerece a si mesmo como victima. + +Eis o dogma da eucharistia. + +Seguindo o luminoso rastro de Burnouf, poderiamos levar mais longe a +demonstração da unidade historica das religiões, mesmo sem sahirmos do +christianismo; poderiamos descer a minuciosidades, mostrar como a +_estrella dos magos_ é a _savanagraha_, a estrella fatidica; como a +vacca do presepe de Bethlem é a vacca mystica dos aryas, e como nem +siquer falta o jumentinho que para alguns áryas traz sobre o dorso o +fructo de que se extrahe o licôr sagrado; pelo que especialmente toca +aos ritos, seria curioso mostrar, por exemplo, acompanhando Burnouf, +como a grande época do anno christão consiste justamente nas ceremonias +da _renovação do fogo_, quer dizer, na Paschoa; mas o nosso fim é tão +sómente fazer sentir que a unidade das religiões é uma verdade, e que +essa verdade foi conquistada por uma sciencia nova, baseada sobre factos +historicos, e portanto filha da Historia universal philosophica. + +A grande obra de simplificação da Philosophia positiva releva +principalmente no mobil que impelliu o espirito humano a descobrir o +principio de unidade das religiões. + +Realmente é assombroso acompanhar a marcha da idéa religiosa, semelhante +a uma grande corrente aryana, desde o seu berço asiatico, e através das +mythologias dos antigos povos gregos, latinos e germanos, até ao +christianismo, em que _Agnus_, o cordeiro immaculado, parece não ser +mais que uma leve alteração morphologica de _Agni_. + +A sciencia moderna está já dirigindo as suas vistas para a America, no +indefesso empenho de encontrar a unidade das origens da civilisação. De +Chavencey, estudando o mytho americano de Votan, encontrou n'elle uma +contrafacção, á parte o elemento indigena já introduzido, das legendas +asiaticas de Phra-Ruang e de Pyú-Tsau-ti[81]. «Tem-se notado, observa +Maury[82] a analogia de muitas tradições religiosas dos antigos +mexicanos e de algumas crenças christãs ou buddicas, a conformidade de +certos monumentos e symbolos da America central com figuras e emblemas +christãos e japonezes. As populações boreaes encontravam um caminho já +traçado para o novo mundo pelo estreito de Behring e ilhas Aleutianas.» + +Especialmente pelo que toca á religião, a philosophia applicada á +Historia é muitas vezes accusada de acintemente demolidora. Esta +accusação, na materia de que vimos tratando, refere-se principalmente á +vida de Christo. Ora é preciso observar que deve haver n'este assumpto +tres pontos distinctos, correspondentes a tres elementos differentes: a +theoria de Christo, a legenda de Christo e a vida de Jesus[83]. Christo, +estudado na pureza sublime da sua vida, merece o respeito de todos os +philosophos. «De alguma crença que a critica racional nos despoje, diz +Stuart Mill[84], resta-nos Christo; figura unica, que se eleva tanto +acima dos seus precursores como dos seus successores, e d'aquelles +mesmos que tiveram o privilegio de receber directamente de sua bocca o +seu ensinamento.» + +Desde o momento em que o espirito moderno tratou de procurar nos factos +sociaes a estabilidade de principios que rege os phenomenos naturaes, +querendo assim reduzir todas as nossas concepções fundamentaes a um +estado de homogeneidade e, portanto, dar á philosophia um caracter +definitivo de positividade, a Historia, fornecendo uma grande base para +os estudos de observação, veio occupar um ponto culminante na esphera +dos conhecimentos humanos. Esta superioridade de posição, que a Historia +conquistou na hierarchia das sciencias, provém da necessaria relação que +ha entre os factos e as idéas. De modo que se póde dizer que um grande +numero de sciencias, se é que não são todas ellas, concorrem de mãos +dadas para erigir o vasto monumento da Historia. As obras colossaes +precisam de um immenso concurso de trabalho; quando Cheops e Cephten +pensaram em levantar as duas mais altas pyramides do Egypto, diz-se que +cêrca de cem mil homens carreavam materiaes. A Historia é tambem uma +pyramide. E assim como as do Egypto dominavam com as suas quatro faces +os quatro pontos cardeaes do mundo, a Historia abrange com a sua vista +de aguia a esphera dos conhecimentos humanos. + + + + ((1878)) + + + [1] Referimo-nos principalmente ás antas ou dolmens. Vide Adolpho + Coelho, _Algumas observações ácerca do diccionario bibliographico + portuguez e seu auctor_, pag. 10, e Augusto Filippe Simões, + _Introducção á archeologia da peninsula iberica_, pag. 76. + + [2] _Historia universal_, introducção, cap. VII. + + [3] _Introduction a la philosophie de l'histoire de l'humanité._ + + [4] _Les origines de la civilisation_, cap. IX, traducção franceza + de Ed. Barbier. + + [5] _Expedition to the Rocky mountains_, vol. III, pag. 52. + + [6] _Scienza nuova_, liv. II, Da sabedoria poetica. + + [7] _L'homme selon la science_, traducção franceza de Ch. + Letourneau, pag. 235. + + [8] _Les origines de la civilisation_, cap. III. + + [9] _Scienza nuova_, liv. II. + + [10] Paulo Janet. _A familia._ + + [11] _Considérations sur les causes de la grandeur des romains et de + leur décadence._ Cap. I. + + [12] _Introduction a l'histoire de la philosophie_, neuvième leçon. + + [13] Theophilo Braga. _Historia da poesia popular portugueza._ + + [14] _Les sciences et la philosophie_, por Th.-Henri Martin, pag. + 30. + + [15] Cantu. _Hist. univ._ Liv. XI, cap. I. + + [16] Ibidem, cap. IV. + + [17] Cantu. _Hist. univ._ Liv. XI, cap. VI. + + [18] _Introduction a la philosophie de l'histoire de l'humanité._ + + [19] _Introduction a l'histoire de la philosophie_, sixième édition, + pag. 228. + + [20] _Principes de philosophie positive_, por Augusto Comte, pag. + 96. + + [21] Cousin. _Premiers essais de philosophie_, pag. 380. + + [22] Ibidem, pag. 379. + + [23] _Discours sur l'histoire universelle_--Avant-propos. + + [24] _Disc. sur l'hist. univ._ Troisième partie, chapitre VIII. + + [25] _Introduction a l'histoire de la philosophie_, onzième leçon. + + [26] Theophilo Braga. _Poesia do direito_, pag. 168. + + [27] Vico. _Scienza nuova_, liv. I. + + [28] _Scienza nuova._ Liv. IV. + + [29] _Historia universal._ Introd. + + [30] _Introduction a l'histoire de la philosophie_, sixième Edition, + pag. 239 e 240. + + [31] _Poesia do Direito_, pag. 13. + + [32] «O seu livro é um Apocalypse, cada dia se descobre alli o + germen d'uma sciencia nova, a Philosophia da Historia, a Symbolica + do Direito, a Critica da Arte.» Theophilo Braga. _A Poesia do + Direito._ + + [33] H. Taine. _La Fontaine et ses fables_, troisième édition, pag. + 8. + + [34] _Histoire de la litteratura anglaise_, tome premier, pag. 22. + + [35] _Physiologie des ecrivains et des artistes._ + + [36] _Le monde marche_, seconde édition, pag. 214. + + [37] _De l'esprit des lois_, livre quatorzième, chapitre III. + + [38] _Histoire de la navigation de Jean Hugues de Linschot, + hollandois, aux Indes Orientales._ Amsterdam, 1619. + + [39] Capitulos XXIX e XXX. + + [40] _Introduction a la philosophie de l'histoire de l'humanité._ + + [41] Theophilo Braga. _Introducção á Historia da litteratura + portugueza_, pag. 6. + + [42] Joaquim Pedro Fragoso de Siqueira. _Memorias economicas da + Academia_, tom. V. + + [43] _Les peuples de la France_, pag. 16. + + [44] _Le génie des religions._ (Ed. de 1869), cap. II, pag. 15. + + [45] Jacques de Boisjoslin. _Les peuples de la France_, pag. 12 e + 155. + + [46] _Lettres sur la philosophie de l'histoire_, pag. 115. + + [47] _Principes de philosophie positive_, pag. 140. + + [48] Obra citada, pag. 88. + + [49] Idem, pag. 119. + + [50] _Introducção á archeologia da peninsula iberica_ pelo dr. + Augusto Filippe Simões, pag. 2. + + [51] «Quem souber porém que o bronze é uma liga de cobre e estanho, + que o segundo d'estes metaes é menos commum que o primeiro e de mais + difficil extracção, e finalmente que, sem se conhecerem ambos, não + se inventaria a sua liga, de certo perguntará porque se não faz + preceder a época do bronze pela época do cobre? A razão é simples. + Em quasi todas as nações da Europa apparecem tão numerosos os + objectos de bronze e tão raros os de cobre, que se teem refusado os + archeologos a admittir uma época só caracterisada por este metal.» + Dr. Augusto Filippe Simões. + + [52] Capitulo VI do _Genesis_. + + [53] Com razão observa Quatrefages que o polygenismo, habitualmente + olhado como um resultado do _livre pensamento_, começou por ser + biblico e dogmatico. _L'espèce humaine_, deuzième édition, pag. 22. + + [54] Quatrefages. A proposito da discussão americana entre + esclavistas e negrophilos. + + [55] Dumont. _Hæckel et la théorie de l'évolution en Allemagne._ + Segundo Dumont a theoria da evolução apparece em germen nas velhas + religiões pantheistas da India e do Egypto. O philosopho Parmenides + concebia a geração da vida como gradual e resultante d'ensaios + successivos. Chapitre premier. + + [56] Topinard. _L'Anthropologie_, pag. 550. + + [57] Este ponto é considerado inatacavel por Quatrefages. «Se toda a + terra, diz elle, não é invadida dentro de alguns annos por certas + especies, se os rios e os oceanos não são igualmente invadidos, a + estas luctas se deve.» + + [58] As peripecias d'este debate vem largamente narradas no livro + _La genèse des espèces_, publicado em 1873 por H. de Valroger, padre + do Oratorio (pag. 38 e seg.) e no livro _Du darwinisme ou + l'homme-singe_ pelo dr. Constantin James, publicado em 1877. Este + ultimo livro é um manifesto plagiato do primeiro. Diz, por exemplo, + o padre Valroger: «M. Claude Bernard, A. Dumas, M. de Quatrefages e + M. Payen combattirent les theses de M. Pouchet, en s'appuyant sur + leurs propres expériences, et signalèrent des causes d'erreur dont + M. Pouchet paraissait ne pas s'être préservé. L'Academie proposa + l'examen de la question en litige comme sujet d'un de ses prix.» Diz + o dr. James, copiando quasi textualmente, sem citar o padre do + Oratorio: «MM. Claude Bernard, Dumas, de Quatrefages e Payen, + combattirent la thèse de M. Pouchet, en s'appuyant sur leurs propres + expériences, et signalerent de plus les causes d'erreur dont il + n'avait pas su se garantir. C'est alors que l'Academie proposa + l'examen de la question en litige comme sujet d'un de ses prix!» + (Pag. 79). + + [59] De Boisjoslin cita, entre outros factos, o dos judeus haverem + deixado de fallar hebreu seiscentos annos antes de Christo, e o dos + francos terem perdido a lingua teutonica trezentos annos antes de + Clovis. + + [60] Hovelacque. _La linguistique_, pag. 3. + + [61] _Études de linguistique et de philologie_ par André Lefévre, + pag. 41. + + [62] Theodoro Benfey. Citado pelo snr. Adolpho Coelho no seu + opusculo _Sobre a necessidade da introducção do ensino da glottica + em Portugal_, pag. 4. + + [63] _La linguistique_, pag. 13. + + [64] _Les origines de la civilisation_, pag. 416. + + [65] _Études de linguistique et de philologie_, pag. 94. + + [66] _Nouvelles leçons sur la science du langage_, traducção + franceza de Harris e Perrot, pag. 318. + + [67] Lubbock. _Les origines de la civilisation_, pag. 425 e 426. + + [68] _Histoire de la littérature anglaise_, tome premier. + + [69] Dr. Theophilo Braga: «... esta raça conhecida pelo nome de + indo-europêa, é a que pelas suas condições de ubiquidade, que lhe dá + a sciencia e o poder, subsistira como unica na terra.» _Hist. + Univ._, fasc. I, pag. 55. + + [70] «Minha filha Sita, nobre premio da força, não recebeu a vida no + seio de uma mulher; esta virgem de encantadoras fórmas, que se diria + filha dos Immortaes, nasceu de um _sulco_ aberto para o sacrificio. + Eu a dou como esposa a Rama; elle heroicamente a mereceu por sua + _força_ e _vigor_.» _Ramayana_, trad, de Hippolyte Fauche. + + [71] Referimo-nos á _Poesia do Direito_ do snr. dr. Theophilo Braga. + + [72] _Poesia do Direito_, pag. XIV. + + [73] _Idem_, pag. 62. + + [74] _Idem_, pag. 66. + + [75] _O Fogo_, por F. da Fonseca Benevides. + + [76] Vico. _Scienza nuova._ Liv. II. _Da logica poetica._ + + [77] _Atlas ethnographique._ + + [78] _Principes de sociologie_, trad. franceza de Cazelles, pag. + 137. + + [79] _La science des religions._ + + [80] Emilio Burnouf. _La science des religions_, cap. VIII, pag. 208 + e seguintes. (Ed. de 1872). + + [81] _Le mythe de Votan, étude sur les origines asiatiques de la + civilisation américaine_, pag. 87. + + [82] _La terre et l'homme_, quatrième edition, pag 485. + + [83] Burnouf. _La science des religions_, pag. 242. + + [84] _Essais sur la religion_, traducção franceza de Cazelles, pag. + 237. + + + +***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA UNIVERSAL +PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS*** + + +******* This file should be named 33068-8.txt or 33068-8.zip ******* + + +This and all associated files of various formats will be found in: +http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/0/6/33068 + + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a></pre> +<p>Title: Da importancia da Historia Universal Philosophica na esphera dos conhecimentos humanos</p> +<p>Author: Alberto Pimentel</p> +<p>Release Date: July 3, 2010 [eBook #33068]</p> +<p>Language: Portuguese</p> +<p>Character set encoding: ISO-8859-1</p> +<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA UNIVERSAL PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS***</p> +<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center> +<p> </p> +<hr class="full"> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 4px #444;"> + +<p style="font-size: 1.4em;">DA IMPORTANCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DA</p> + +<p style="font-size: 2em;">HISTORIA UNIVERSAL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PHILOSOPHICA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NA</p> + +<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p> + +<hr width="20%"> + +<p style="font-size: 1.1em;">DISSERTAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.8em; font-weight: bold;">PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA)</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">CURSO SUPERIOR DE LETRAS</p> + +<p>APRESENTADA PELO CANDIDATO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p> + +<hr width="30%"> + +<p style="font-size: 0.9em;">LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + +<small>DE</small></p> + +<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: 0.8em;"> +<p>ERNESTO CHARDRON<br> +—<br> +<b>Porto</b></p> +</div> + +<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: 0.8em;;"> +<p>EUGENIO CHARDRON<br> +—<br> +<b>Braga</b></p> +</div> + +<p>1878</p> + +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">DA IMPORTANCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DA</p> + +<p style="font-size: 2em;">HISTORIA UNIVERSAL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PHILOSOPHICA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NA</p> + +<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p> + +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{2}</span></p> + +<p> <span class="pn">{3}</span></p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">DA IMPORTANCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DA</p> + +<p style="font-size: 2em;">HISTORIA UNIVERSAL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PHILOSOPHICA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NA</p> + +<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p> + +<hr width="20%"> + +<p style="font-size: 1.1em;">DISSERTAÇÃO</p> + +<p style="font-size: 0.8em; font-weight: bold;">PARA O CONCURSO DA PRIMEIRA CADEIRA (HISTORIA UNIVERSAL E PATRIA)</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">CURSO SUPERIOR DE LETRAS</p> + +<p>APRESENTADA PELO CANDIDATO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">A<small>LBERTO </small>P<small>IMENTEL</small></p> + +<hr width="30%"> + +<p style="font-size: 0.9em;">LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + +<small>DE</small></p> + +<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: 0.8em;"> +<p>ERNESTO CHARDRON<br> +—<br> +<b>Porto</b></p> +</div> + +<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: 0.8em;;"> +<p>EUGENIO CHARDRON<br> +—<br> +<b>Braga</b></p> +</div> + +<p>1878</p> +</div> + +<p><span class="pn">{4}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> + +<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;">Porto: 1878—Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 1.2em;">DA IMPORTANCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DA</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">HISTORIA UNIVERSAL</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">PHILOSOPHICA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">NA</p> + +<p>ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS</p> + +</div> + +<hr width="20%"> + +<div id="corpo"> + +<p>João Baptista Vico, remontando-se á infancia poetica das sociedades humanas, +vai encontrar a origem da <i>curiosidade, filha da ignorancia e mãi da +sciencia</i>, n'um phenomeno natural que effectivamente devia de impressionar +profundamente os sentidos e a imaginação dos homens primitivos.</p> + +<p>Acceitando da tradição biblica o facto do diluvio, e dando á terra o tempo +sufficiente para enxugar da inundação universal e para exhalar os vapores +seccos proprios a formarem o raio, descreve a impressão que no espirito dos +gigantes <i>vigorosos</i> e <i>robustos</i>, que então povoavam a terra, +causára o coriscar d'aquelle meteóro através do ether, e o interesse com que +ficaram olhando para o céo que desde logo consideraram como um<span class="pn">{6}</span> immenso +corpo animado, o qual alguma cousa queria decerto exprimir por meio d'essa +estranha linguagem de fogo.</p> + +<p>Personificando toda a immensidade do céo no grande deus chamado Jove, que +tinha por sceptro o raio, e que por toda a parte os seguia, por isso que toda a +terra era coberta pelo céo, o que, segundo Vico, explica a phrase <i>Jovis +omnia plena</i>, que Platão julgou dever traduzir por ether, os gigantes da +terra renderam o primeiro culto á curiosidade, d'onde, como de uma semente +abençoada, devia brotar o fructo precioso de todos os conhecimentos humanos.</p> + +<p>Quer acceitemos a tradição religiosa do diluvio universal, determinado por +Deus para refundir toda a humanidade com a familia salva na arca de Noé, quer +consideremos essa inundação geral como uma simples phase geologica, +caracterisada por phenomenos glaciarios, o facto poeticamente narrado pelo +philosopho napolitano subsiste em essencia, e, a nosso vêr, é de todo o ponto +provavel, e quasi certo, que fosse um phenomeno meteorologico o primeiro +estimulo da curiosidade humana.</p> + +<p>Vico lembra, afim de fazer acceitar a sua asserção, que ainda hoje os +phenomenos naturaes lançam uma profunda impressão no animo de muitas pessoas, e +cita especialmente, entre todos esses phenomenos, o da apparição de um cometa.</p> + +<p>Despertada a imaginação do homem pelo sentimento<span class="pn">{7}</span> da curiosidade, entrou +elle no periodo mais laborioso e ao mesmo passo poetico da infancia da +humanidade. Era até ahi como um pobre cego lançado na vastidão de um mundo +desconhecido e mysterioso. Mas a chamma electrica do raio veio, para assim +dizer, rarear as trevas da sua immensa cegueira; essa luz estranha converteu-se +para elle, como se não fosse movel e fugitiva mas fixa e duradoura, n'uma como +estrella de guia, que o obrigou a altear o pensamento para além das brenhas da +terra em que como selvagem vivia.</p> + +<p>Assim como a criança tem deante de si, sem o presentir, sem o suspeitar, uma +tarefa enorme a cumprir, o peso d'uma responsabilidade immensa, porque chegará +um dia em que ella devera crear, permitta-se-nos a expressão, o mundo da sua +existencia, construindo um ninho como as aves, organisando uma familia, +norteando-a, como piloto, através dos mares aparcellados da vida; assim a +humanidade era, n'esse periodo da sua infancia, chamada a cumprir a grandiosa +missão de adaptar o mundo inteiro, como um ninho enorme, ás necessidades da sua +existencia, de desbravar os caminhos por onde devia fazer a jornada dos +seculos; de aproveitar todas as forças da natureza e as suas proprias, de as +harmonisar, de as educar convenientemente para um fim commum; de pegar dos +elementos creados e fundir com elles a gigantesca estatua da humanidade, com +toda a perfeição relativa de contornos e relevos que hoje tem, porque a +humanidade não era mais na sua infancia<span class="pn">{8}</span> que um esboço que importava +accentuar, um molde que cumpria encher, uma força que tinha de desenvolver-se a +si propria.</p> + +<p>Mas assim como a criança lentamente e quasi inconscientemente enceta a obra +do seu futuro, carreando uma pedra dia a dia, dando hoje um passo, outro +ámanhã, refundindo o seu espirito com o auxilio da primeira instrucção; assim +tambem a humanidade se foi transformando por successivos esforços e progressos, +fazendo hoje uma conquista, ámanhã uma creação, enchendo a pouco e pouco o +molde vazio em que, estatua, tinha de fundir-se e completar-se.</p> + +<p>Pelo desenvolvimento da humanidade no momento actual é-nos facil avaliar a +grandeza do seu trabalho através dos seculos, desde a origem do mundo até hoje. +Religião, linguagem, agricultura, governo, industrias, commercio, artes, +sciencias, tudo isso ella foi creando por um trabalho lento, que principiou por +elementos simples, como se póde por exemplo ver na linguagem, onde o +monosyllabo veio finalmente a converter-se nas linguas de flexão; na religião, +onde a primeira elevação da alma para as forças da natureza, que foram +encarnadas em symbolos grosseiros, veio a transformar-se na concepção grandiosa +da divindade immaterial e absolutamente perfeita; no estabelecimento dos +estados, onde o poder theocratico veio a parar nas modernas fórmas de governo +que se pódem variar segundo o interesse geral; na agricultura, onde a rude +cultura da terra, a<span class="pn">{9}</span> que o instincto impellia, se desdobrou na agronomia +moderna, sciencia complexa, a que as invenções dos Dombasle, Fowler e Howard +servem de diadema auriluzente; nas industrias, onde a vida pastoril exercida +pelas tribus nómadas, e a da pesca, exercida pelas povoações costeiras, vieram +a multiplicar-se na immensa diversidade de profissões e officios a que se +dedicam as classes contemporaneas; no commercio, onde a simples troca de +productos, n'uma área muito limitada, veio a metamorphosear-se nas grandes +operações commerciaes que se alargam por todo o mundo, graças á invenção da +moeda, aos progressos da navegação, aos rapidos meios de transporte; nas artes, +onde os instrumentos de silex se transmudaram nos mais completos processos +mechanicos, e os megalithos, que tanto se teem estudado hoje<a name="tex2html1" +href="#foot427"><sup>[1]</sup></a>, vieram a converter-se nos grandiosos +monumentos de nossos dias; nas sciencias, onde, por exemplo, a astronomia +caminhou desde os pastores da Chaldéa, que contemplavam os astros, sentados nas +eminencias penhascosas, pelo silencio da noite, até que essa sciencia celeste +terminou com Newton, como diz Larousse, a sua evolução historica.</p> + +<p>Durante esta obra de seculos, emquanto as bellas instituições da humanidade +se fixavam na terra tão nova<span class="pn">{10}</span> como ella, ao mesmo tempo que as plantas +enraizavam no solo e bebiam os succos nutritivos n'uma exuberancia caudal, os +homens, como a criança, só poderam olhar para deante, para o futuro. O seu +berço ficava ainda tão perto que não havia tempo de ter brotado d'elle esse +doce sentimento que as lagrimas purificam, e que não poucas vezes conduz á +reconstrucção do passado pela memoria,—a saudade; ou antes, como diz Cantu<a +name="tex2html2" href="#foot428"><sup>[2]</sup></a>, <i>os antigos tinham ainda +muito poucas ruinas deante de si</i>, phrase que Edgar Quinet repetiu <a +name="tex2html3" href="#foot429"><sup>[3]</sup></a>,—e sendo o passado o campo +aberto ás investigações da historia, onde quasi não havia passado não podia +haver historia.</p> + +<p>Sim. Dai um montão de ruinas ao homem, e conseguireis fazer d'elle um +historiador. Uma vertebra, que no fim de contas é uma ruina do vasto edificio +zoologico, bastou a Cuvier para a reconstrucção do passado. É pelo esqueleto +das gerações que nos antecederam que os sabios de nossos dias teem realisado as +mais assombrosas conquistas da sciencia moderna.</p> + +<p>Mas havia transcorrido o tempo e as nacionalidades tinham sahido +recentemente do berço, porque a humanidade gastára longo periodo da sua +infancia na vida errante e rude primeiro que podesse constituir-se em tribu, e +que da tribu nascesse a nação. Como acontece com as grandes obras d'arte, as +instituições humanas foram modeladas<span class="pn">{11}</span> por um esboço, e aperfeiçoadas +depois. O esboço da nação foi a tribu.</p> + +<p>Parece-nos, porém, questionavel a fixação do periodo de desenvolvimento +humano em que se constituiram as primeiras sociedades.</p> + +<p>«Na verdade, diz Cantu, como podiam os laços do matrimonio e da paternidade +tomar-se deveres antes do homem comprehender o bem que d'isto deriva e os meios +de o alcançar? Como conceberia as vantagens da sociedade o que nunca as tivesse +experimentado? Para que os homens se unam entre si, e façam um pacto social, é +forçoso que possuam uma linguagem commum para se entenderem uns aos outros, e +fórmas de convenção, de assembléas, e de representação; isto é, que estejam +reunidos já em sociedade.»</p> + +<p>Não concordamos, a este respeito, com a opinião de Cantu, pelas razões +seguintes.</p> + +<p>As relações naturaes a que o auctor da <i>Historia universal</i> allude na +primeira interrogação, e que, segundo elle, importam a comprehensão dos deveres +que d'ellas derivam, annullam, assim encaradas, a idéa de instincto, facto +comprovado em todas as especies animaes, e até nas vegetaes. Para as aves, por +exemplo, os laços d'essas relações naturaes convertem-se em deveres, e todavia +nós não podemos suppôr nas aves a noção moral de dever. Emquanto, entre algumas +familias aladas, a mãi acalenta o ovo, o pai divaga procurando alimento para a +femea, e muitos naturalistas citam o facto de certas aves <i>educarem</i><span class="pn">{12}</span> +seus filhos no que chamaremos <i>arte do vôo</i>, antes de os abandonarem a si +mesmos.</p> + +<p>Quanto á segunda interrogação, convem distinguir entre o facto de constituir +sociedade e o conhecimento das vantagens que d'ella resultam. Tambem poderemos +suppôr nas aves, que se agremiam em grandes bandos, o conhecimento das +vantagens que d'essa aggremiação resultam? As formigas, que vivem e trabalham +em commum, obedecerão simplesmente ao instincto de conservação, ou serão +impellidas pela elevada idéa da utilidade de associação?</p> + +<p>Quanto á terceira interrogação, isto é, á necessidade de uma linguagem +commum para que os homens possam reunir-se por um pacto social, desejamos +accentuar mais largamente a nossa maneira de pensar.</p> + +<p>Não somos da opinião dos que affirmam que haja tribus completamente privadas +de linguagem, mas entendemos com sir John Lubbock<a name="tex2html4" +href="#foot430"><sup>[4]</sup></a> que essas tribus possuem todas uma +linguagem, comquanto muito imperfeita e complicada de signaes.</p> + +<p>Bastará citar em abono d'esta asserção o facto de entre os indios +kiawa-kaskaia as tribus communicarem diariamente entre si, segundo o testimunho +de James<a name="tex2html5" href="#foot431"><sup>[5]</sup></a>, ignorando +completamente a linguagem umas das outras. «Pelo que não é raro, diz James, vêr +dous individuos,<span class="pn">{13}</span> pertencentes a tribus differentes, sentados no sólo, +conversando facilmente por signaes. São muito habeis em exprimir por este modo +as suas idéas, e apenas interrompem o jogo das mãos, a longos intervallos, por +um sorriso ou por uma palavra pronunciada no idioma dos indios crow, o mais +espalhado ainda entre elles.»</p> + +<p>Por onde nos é licito vêr que sobre a mais imperfeita e rudimentar +linguagem, a dos signaes, estabelecem os indios kiawa-kaskaia as mais cordeaes +relações de sociabilidade com as tribus visinhas. Finalmente, a theoria de +Vico, dos <i>povos mudos</i>, exprimindo-se por meio de corpos ou de imagens, +que tinham alguma relação natural com as idéas que queriam exprimir, por +exemplo, <i>tres espigas</i> para significarem a idéa abstracta de <i>tres +annos</i><a name="tex2html6" href="#foot432"><sup>[6]</sup></a>, é +manifestamente muito mais acceitavel do que a de Cantu, porque se funda na +propria natureza humana, e destroe a opinião de que sem uma linguagem, no +estado de perfeição em que Cesar Cantu parece suppol-a, a associação humana é +inadmissivel.</p> + +<p>O dr. Luiz Büchner<a name="tex2html7" href="#foot433"><sup>[7]</sup></a> +confirma a opinião de Vico. Crê, segundo Westropp, que o homem primitivo foi +necessariamente um sêr mudo, e a linguagem articulada uma acquisição lenta e +gradual; que ella teve por origem os gritos espontaneos de prazer e dôr, a que +succederam<span class="pn">{14}</span> os sons imitativos (<i>onomatopéas</i>), razão por que na +grande variedade de todas as linguas (cerca de tres mil) ha um numero +consideravel de sons equivalentes, e até mais ou menos analogos. Cita uma +observação de William Bell, a respeito do monosyllabo <i>loh</i>, empregado em +muitas linguas para designar a luz, a chamma, e que procede da simples +exclamação <i>oh!</i> precedida de um <i>l</i> ou de uma vibração da lingua. +Crê que a pouco e pouco se foram formando os polysyllabos, pela repetição de um +som simples, como nas palavras <i>mamã</i>, <i>papá</i> ou pela agglutinação +das syllabas. «Depois, observa finalmente, o simples grito, correspondente a um +sentimento, foi <i>imitado pelos companheiros d'aquelle</i> que o soltou, e +acabou por tornar-se um signal representativo fixo servindo a designar o +proprio sentimento.»</p> + +<p>Aqui temos nós a linguagem, não como base de sociedade, mas, ao contrario, +tomando a sociedade como base da sua perfeição.</p> + +<p>Estabelecida a procreação pelo instincto, força irresistivel da natureza +humana, que principiou a manifestar-se no homem desde os seus primeiros passos +na terra, achando-se ainda embryonarias todas as forças moraes e intellectuaes, +que por um lento progresso permittiram depois as mais elevadas concepções, e as +mais assombrosas conquistas, foi ainda o instincto que levou a humanidade a +lançar mão das primeiras industrias, da vida pastoril, da caça, da pesca, do +commercio, segundo as condições naturaes dos paizes. «Assim as diversas +industrias, diz Cantu, nasceram<span class="pn">{15}</span> e cresceram na razão dos lugares; porém a +agricultura foi a que introduziu maiores mudanças na constituição moral. O +homem, querendo, quando cultivou um campo, seguir com a vista as esperanças que +lhe dava, construiu junto d'elle uma habitação; então aquelle sentimento tão +imperioso, que chamamos amor da patria, apparece, e a estabilidade do lar +domestico dá origem á associação civil.» Mas o <i>lar domestico</i> a que se +refere Cantu está longe de ser a moralidade pela familia, pela familia que a +monogamia santificou. O agricultor vivia rodeado dos seus escravos, e dos +filhos; de procedencias diversas, escravos tambem. O pai era o <i>senhor</i>; +governava pela força. A mulher era simplesmente uma <i>cousa</i>, um +instrumento de reproducção; e as mais das vezes era arrebatada á sua tribu por +violencia. Portanto, as primeiras familias foram uma reunião de escravos +dominados por um chefe, só muito tarde, como mostra Lubbock<a name="tex2html8" +href="#foot434"><sup>[8]</sup></a>, baseando-se nos trabalhos de Bachofen, M. +Lennan e Morgan, é que se reconheceu que os filhos eram parentes de seu pai e +de sua mãi. Mesmo em Roma, a palavra familia significava—escravos.—A mulher e +os filhos só por serem escravos eram considerados familia.</p> + +<p>Vico mostra, por uma observação philologica, a verdade d'estas affirmações. +Sustentando, como na formação da linguagem, os <i>verbos</i> vieram depois dos +<i>nomes</i>, e como os primeiros verbos foram certamente aquelles que<span class="pn">{16}</span> +são como que os <i>generos</i> ou os <i>radicaes</i> de todos os outros, +exemplo, <i>sum</i>, que contém <i>todas as cousas +metaphysicas</i>,—<i>sto</i>, que exprime a immobilidade, e <i>eo</i>, que +significa o movimento, observa por ultimo que estes verbos apenas tiveram a +principio o modo <i>imperativo</i>, porque no <i>estado de familia</i>, e na +excessiva pobreza de linguagem que então havia, só os <i>paes</i> davam ordens +a seus <i>filhos ou a seus criados</i>, ao passo que estes, <i>submettidos ao +terrivel imperio do chefe de familia, obedeciam sem murmurios ás suas +ordens</i><a name="tex2html9" href="#foot435"><sup>[9]</sup></a>. Ainda hoje, +entre os kalmuckos do Volga, o azorrague é o sceptro e o symbolo do poder +domestico<a name="tex2html10" href="#foot436"><sup>[10]</sup></a>.</p> + +<p>Foi certamente com esta mesma força de auctoridade que nasceu o chefe de +tribu. Se a reunião de algumas pessoas carecia de uma que a regesse, a reunião +de algumas <i>familias</i>, por maioria de razão, carecia de um magistrado que +a governasse. Os chefes de <i>familia</i> ou <i>senhores</i> reuniam-se para se +entregarem, em condições de segurança, ao exercicio da caça. Escolhiam +certamente d'entre elles, para os dirigir, o que mais se assignalava pela +destreza e certeza de caçador. Reconhecida a sua superioridade natural, ficava +sendo o dominador da tribu. E esta authoridade devia ser tanto mais respeitada +e temida, quanto era certo que se baseava n'um facto indestructivel e +inevitavel, revestido de caracter divino,<span class="pn">{17}</span> porque a força era um attributo +que não dependia da vontade do homem.</p> + +<p>Da agglomeração das tribus nasceu a nação, como da agglomeração das +<i>familias</i> havia nascido a tribu.</p> + +<p>Sendo, porém, maior o numero de governados na nação do que na tribu, era +preciso que o chefe escolhido para governal-os dispozesse de qualidades +physicas ainda muito mais consideraveis. A mais importante de todas essas +qualidades era a força, que, n'uma raça de valentes, não podia deixar de +considerar-se um direito hereditario para governar. Cesar Cantu observa que o +vocabulo <i>dynastia</i> (de <i>dynamis</i>, força) indica a origem de um tal +poderio.</p> + +<p>Temos, finalmente, fixada a nação, a nacionalidade, sob o imperio da força, +origem dos grandes como dos pequenos estados, em todos os paizes e tempos. +Citemos dous exemplos, ao acaso. «Romulo e os seus successores, diz +Montesquieu<a name="tex2html11" href="#foot437"><sup>[11]</sup></a>, estiveram +quasi sempre em guerra com os povos visinhos para ter cidadãos, mulheres ou +terras; voltavam a cidade com os despojos dos vencidos; eram feixes de trigo e +rebanhos: o que causava uma grande alegria. Eis-aqui a origem dos triumphos que +foram no futuro a principal causa das grandezas a que esta cidade chegou.» A +origem da moderna e pequena monarchia portugueza encarna-se, para assim dizer, +na<span class="pn">{18}</span> athletica figura de Affonso Henriques, o terrivel perseguidor dos +mouros, o guerreiro de estatura agigantada.</p> + +<p>A propria origem das primeiras nacionalidades as impelliu á guerra, que, +segundo Victor Cousin<a name="tex2html12" href="#foot438"><sup>[12]</sup></a>, +é o instrumento terrivel mas necessario da civilisação. «A hypothese de um +estado de paz perpetua na especie humana—diz elle—é a hypothese da +immobilidade.» Comquanto não nos exalte em favor da guerra esta opinião de +Victor Cousin, somos todavia levados a acreditar que a vida das primeiras +nacionalidades se fortaleceu pela guerra, como o corpo de uma criança se +fortalece pela gymnastica. Além do que, a victoria, lisonjeando o orgulho dos +povos, nobilitava, para assim dizer, as suas aspirações de grandeza, e +arrastava-os a assignalarem a si mesmos uma origem divina, aspiração que é a +primeira fonte das tradições poeticas d'esses mesmos povos<a name="tex2html13" +href="#foot439"><sup>[13]</sup></a>.</p> + +<p>Acordada, portanto, a imaginação popular, cerca-se o berço das nações das +brumas do maravilhoso.</p> + +<p>Os quatro livros sagrados de Confucio, reconstruidos de memoria, depois de +haverem sido queimados, e acrescentados com tradições, fazem remontar a +historia da China, especialmente o ultimo livro, a um passado fabuloso. Na mais +antiga parte dos <i>Vedas</i>, o <i>Rigveda</i>, os indios agradecem a +intervenção do poder celeste nos seus combates. Indra protege a carnificina, +como nós, quando<span class="pn">{19}</span> procurámos uma origem maravilhosa, fizemos intervir +Christo na batalha de Ourique.</p> + +<p>Por um lado as tradições poeticas, as narrativas fabulosas geraram a +Historia. Por outro lado os factos reaes, especialmente os combates, misturados +com as legendas phantasticas, desenvolveram-na.</p> + +<p>Como para haver Historia é preciso que haja ruinas, a guerra foi o maior +elemento da Historia, porque produz cadaveres, e os cadaveres são as ruinas da +humanidade. Os seculos não passavam impunemente, sem fazer destroços. Na China, +a monarchia dos <i>Hia</i>, que durou quatrocentos annos, acabou acompanhada de +graves perturbações. Eis-aqui como foram augmentando os materiaes da Historia: +ruinas e destroços.</p> + +<p>Foi assim que, semelhante ao sol que nasce velado pelos vapores coloridos da +manhã, surgiu, na successão dos tempos, a historia de cada nação, envolta nas +tradições maravilhosas da sua origem poetica.</p> + +<p>Que interessado enthusiasmo não devia de ser, porém, o dos primeiros homens +que puderam quebrar imaginariamente o sello sagrado da sepultura das gerações +que os precederam no perimetro da sua nação, e soprar-lhes vida nova, imitando +a fabula de Pygmalião, o estatuario divino, e dar-lhes pensamento e voz, e +ouvil-as, e collocal-as á volta de si mesmos, vendo-as passar em turbilhões +phantasticos como na formosa ballada da dança dos mortos! O historiador, por +uma arrojada abstracção, collocava-se fóra do seu paiz, e com uma +poderosa<span class="pn">{20}</span> alavanca, muito semelhante á que o sabio Archimedes pedira ao +rei Hieron, levantava a terra que lhe fôra berço com o peso enorme das gerações +que a povoaram, mostrando-a suspensa aos olhos do mundo. Era realmente +assombrosa esta nova conquista do pensamento humano, tanto mais que podia o +homem transmittil-a aos seus successores por meio da tradição escripta. +Sentiu-se decerto orgulhoso de si mesmo o homem que pôde legar aos seus +descendentes essa preciosa cadêa de ouro que o prendia ao passado, á vida de +seus avós, á gloria da antiguidade; fez, para assim dizer, um presente de +seculos aos seus descendentes, que, por sua vez, arremessaram para a +immensidade do futuro a outra extremidade da corrente de ouro, a que as +gerações subsequentes haviam de encadear novos anneis.</p> + +<p>Chegado á grande conquista do que chamaremos <i>faculdade historica</i>, +isto é, ao desenvolvimento intellectual que permittiu transpor os limites da +vida individual para se internar no estudo da vida nacional, apossou-se o homem +de um poder verdadeiramente superior, que lhe permittia reconstruir o passado.</p> + +<p>Se é attribuido a Christo o poder de ter resuscitado um só homem pelo +milagre, o homem logrou resuscitar a nação pela Historia.</p> + +<p>Mas os primeiros historiadores deveram forçosamente de assemelhar-se a estas +arvores que, exuberantes de seiva na primavera, se cobrem totalmente de flôres, +como a amendoeira. A imaginação, excitada pela tradição poetica<a +name="tex2html14" href="#foot440"><sup>[14]</sup></a>,<span class="pn">{21}</span> estava n'elles em +pleno vigor, pompeava as suas galas luxuriantes, á maneira das florestas +virgens que se enredam em labyrinthos de phantasiosas ramarias.</p> + +<p>Sendo certo que o ardor da imaginação arrasta á excessiva credulidade, os +primeiros historiadores foram profundamente credulos, e bordaram as suas +narrações com todas as tradições, legendas e fabulas, que a imaginação +acceitára com prazer ou até com enthusiasmo.</p> + +<p>Herodoto é um historiador poeta, que divinisa a Grecia; Tito-Livio dá largas +á imaginação para descrever e declamar; Suetonio contenta-se com colleccionar +anecdotas, que, por via de regra, tanto costumam lisonjear os espiritos +frivolos, porque são um brinco para a imaginação.</p> + +<p>Na successão dos tempos o christianismo, com o seu cortejo de legendas +piedosas, com as exagerações proprias da exaltação da fé, contribuiu por sua +vez, e não pouco largamente, para prolongar o predominio da imaginação na +Historia, e retardar o advento do criterio philosophico e independente.</p> + +<p>Toda a gente sabe como a imaginação dos povos occidentaes se exaltava com a +posse das reliquias de um santo, n'uma época ainda relativamente proxima de +nós. Sicard, duque de Benevento, declarava guerra a Amalfi só para obter os +restos mortaes de Santa Triphomena.<span class="pn">{22}</span> Theodoro, bispo de Metz, preava em +Roma, na presença do papa, a cadêa de S. Pedro, e jurava que não a largaria sem +que primeiro lhe cortassem as mãos, porque a desejava possuir<a +name="tex2html15" href="#foot441"><sup>[15]</sup></a>. Jerusalem, a cidade +celeste, apparecia ás imaginações christãs como um sagrado jardim rociado pelas +lagrimas de Maria e pelo sangue de Jesus, e povoado das rosas de Engaddi, dos +cedros do Libano, das oliveiras de Gethsemani, para nos servirmos de uma +expressão alheia.</p> + +<p>A cavallaria, em que o elemento christão se accentuou de modo a gerar as +ordens militares religiosas, veio ainda inçar a Historia com as aventuras dos +paladinos, com os matizes d'essa vida de imaginação, tão futil mas tão +pittoresca. A febre da cavallaria chegou a ser tamanha, que bastará citar um só +facto para comproval-a. Quando Carlos <small>V</small> foi coroado em Bolonha, +tocou com a espada na cabeça dos que desejavam ser cavalleiros, dizendo a cada +um: <i>Esto miles.</i> Mas como todos gritassem em volta do rei: <i>Sire, sire, +ad me, ad me</i>, Carlos <small>V</small>, estendendo a espada sobre a +multidão, viu-se obrigado a dizer: <i>No puedo mas. Estote milites, estote +milites, todos, todos</i><a name="tex2html16" +href="#foot442"><sup>[16]</sup></a>.</p> + +<p>Na época a que nos vimos referindo, os historiadores engrinaldavam as suas +lucubrações com as flôres colhidas pela mão do amor e com as rosas cortadas +nos<span class="pn">{23}</span> hortos de Jerusalem, pois que tanto valiam umas como outras, como +claramente demonstra o annel nupcial com que S. Luiz brindou Margarida de +Provença, o qual era formado de margaritas e de lizes alternados, tendo no meio +um cruciflxo circuitado por esta inscripção: <i>Hors cet anel pourrions-nous +trouver amor</i><a name="tex2html17" href="#foot443"><sup>[17]</sup></a>?</p> + +<p>Na historia portugueza andaram por muito tempo dous episodios, que tiveram +por origem o maravilhoso da tradição religiosa e o maravilhoso da tradição +cavalheiresca. Referimo-nos ao milagre de Ourique, refutado por Herculano, e á +instituição da ordem de S. Miguel da Ala, refutada por fr. Francisco de S. +Luiz.</p> + +<p>Quando havia de soar, porém, a hora em que o maravilhoso, o predominio da +imaginação, devia ser banido da Historia? em que essa especie de <i>peccado +original</i> devia desapparecer batido pelo criterio philosophico?</p> + +<p>Coube aos tempos modernos a gloria de refundir a Historia, de lhe dar um +novo rumo, de alargar as suas vistas espraiando-as por sobre toda a humanidade. +A primeira idéa da Historia universal nasceu no seculo <small>XVII</small>, +época relativamente muito recente, mas esta nova e grandissima conquista do +pensamento humano só tarde podia chegar. Era preciso deixar accumular ruinas +sobre ruinas, destroços sobre destroços, dar tempo a que os imperios +desabassem, a que as religiões desapparecessem, a que os cadaveres dos homens e +das instituições<span class="pn">{24}</span> se amontoassem, para que de cima de todos esses enormes +escombros se levantasse sereno e altivo o pensamento humano, semelhante a uma +grande aguia, e alçasse o vôo até pairar n'uma esphera superior e poder medir, +com segura agudeza de vista, a profundeza dos destinos da humanidade na +successão dos seculos.</p> + +<p>Victoria immensa foi essa, triumpho assombroso o que permittiu que o homem +alargasse por todo o mundo o dominio do seu espirito, que reconstruisse a +humanidade como os primeiros historiadores haviam reconstruido a nação; que +zombasse da morte animando as cinzas dos cadaveres e povoando com elles, por um +poder maravilhoso do espirito, os imperios que tinham apparecido e +desapparecido á face da terra, como plantas marinhas que ora surgem fluctuando +no dorso da onda, ora se escondem nos sulcos profundos do oceano!</p> + +<p>Desde o momento em que o homem pôde realisar esta synthese estupenda, o +maravilhoso, as tradições fabulosas fugiram espavoridos do dominio da Historia. +Outr'ora, como observa Edgar Quinet, «cada nação se fazia o centro e o fim do +universo, e se impunha á adoração do genero humano<a name="tex2html18" +href="#foot444"><sup>[18]</sup></a>»; agora era o genero humano que se impunha +á admiração de cada nação. Perante o enorme conjuncto dos povos, já não podia +pensar-se em assignalar a origem de cada um singularmente; desapparecia o +orgulho nacional, o excessivo sentimento de<span class="pn">{25}</span> amor patrio que procurava +revestir essa origem de ouropeis poeticos; agora era preciso procurar a +filiação da humanidade, estudar a sua apparição na terra, as suas divisões e +evoluções, e tomando a peito a resolução de tamanhos problemas não havia tempo +para estar a inventar fabulas, que ficavam esmagadas, como flôres inuteis, sob +o carro da nova idéa, ou antes da nova sciencia vencedora. Como flôres inuteis, +dissemos nós, e todavia devemos reflectir, avisados por Victor Cousin<a +name="tex2html19" href="#foot445"><sup>[19]</sup></a>, que os primeiros erros +são inevitaveis e ao mesmo passo uteis, porque fornecem a base de todo o +progresso. De feito, não se póde entender a idéa de progresso senão á vista de +primordios que se tornam defeituosos quando comparados com trabalhos +posteriores. «Sem as attrahentes chimeras da astrologia, sem as energicas +decepções da alchimia, por exemplo, onde teriamos nós haurido, pergunta Augusto +Comte, a constancia e o ardor necessarios para recolher as longas series de +observações e de experiencias que, mais tarde, teem servido de fundamento ás +primeiras theorias positivas de uma e outra classe de phenomenos<a +name="tex2html20" href="#foot446"><sup>[20]</sup></a>»?</p> + +<p>Até agora tinhamos diante de nós a Grecia, Carthago ou Roma, e feita a +historia separada de cada uma d'essas nações, julgavamos que tudo estava feito. +Pelo contrario,<span class="pn">{26}</span> tudo principiará agora a fazer-se, tomando por elementos +de trabalho as ruinas d'esses emporios. Desde o momento em que nos collocamos +n'um plano superior a todas as nações, creamos a Historia universal, e, +conhecendo pela Historia universal os factos da vida dos povos, salteou-nos o +desejo de averiguar as relações que poderiam existir entre os factos e as +idéas, de conhecer se todos esses factos seriam obra do acaso, ou se cada povo +teria sido impellido por um mobil secreto para o cumprimento de determinada lei +e encarregado de desempenhar uma missão no grande conjuncto da civilisação +geral.</p> + +<p>De tal desejo nasceu, no seculo <small>XVIII</small>, a Philosophia da +historia.</p> + +<p>Assim como a medicina seria uma sciencia imperfeitissima, destinada a +caminhar ás cegas, se a physiologia não houvesse podido penetrar na vida +interior do corpo humano, assim a Historia universal ficaria condemnada a +contemplar tão sómente o enorme vulto do gigante que se chama humanidade, se a +philosophia, desempenhando missão semelhante a da physiologia no campo das +sciencias medicas, não perscrutasse o que ha de intimo e de secreto no seio +d'esse colosso, se, por outras palavras, não habilitasse a escrever a +verdadeira historia da humanidade<a name="tex2html21" +href="#foot447"><sup>[21]</sup></a>.</p> + +<p>Uma nação constitue-se, florece e cahe. No fim de contas, pergunta um +philosopho<a name="tex2html22" href="#foot161"><sup>[22]</sup></a>, o que é uma +nação de<span class="pn">{27}</span> mais ou de menos na humanidade? E tem razão. A Historia não +passa além do tempo marcado á existencia d'essa nação, quer dizer, acompanha-a +até ao seu ultimo dia, mas a Philosophia da historia procura estudar a +influencia que essa nação extincta imprimiu na sorte da humanidade, qual o +papel que representou no grande concerto dos destinos da civilisação.</p> + +<p>Os povos são individualidades conscientes. Ora todos os factos praticados +por individualidades conscientes, embora hajam sido determinados por causas +variadas, representam uma idéa.</p> + +<p>A Historia estuda os factos; a Philosophia estuda a idéa que cada um d'esses +factos envolve.</p> + +<p>Portanto a Philosophia completa a Historia.</p> + +<p>Bossuet, o sabio prelado de Meaux, foi quem primeiro executou a idéa de uma +Historia universal. Dedicando o seu vasto trabalho ao Delphim,—vasto, +sobretudo, em relação a época—procura lançar a vista sobre a successão dos +seculos, afim de que no espirito do principe permaneçam gravados os traços +geraes da vida da humanidade se por ventura se lhe desluzirem da memoria os +episodios das historias particulares.</p> + +<p>«Esta maneira de historia universal—diz elle<a name="tex2html23" +href="#foot448"><sup>[23]</sup></a>—é, a respeito da historia de cada paiz e +de cada povo, o que uma carta geral é para as cartas particulares. Nas cartas +particulares estudaes miudamente um reino ou uma provincia<span class="pn">{28}</span> em si mesmos; +nas cartas universaes aprendeis a situar todas as regiões do mundo +conjunctamente; vêdes o que Paris ou a ilha de França é para o reino, o que o +reino é para a Europa, e o que a Europa é para o universo.»</p> + +<p>Realmente, este espectaculo offerecido por Bossuet ao Delphim era +assombroso, mas não se póde considerar como propriamente uma invenção do +prelado de Meaux. Por isso dissemos anteriormente que foi elle quem primeiro +<i>executou</i> a idéa de uma Historia universal.</p> + +<p>Bossuet, traçando o plano da sua obra, antepõe a tudo o mais a historia do +povo de Deus, <i>que foi o fundamento da religião</i>. Escreve, portanto, sob o +ponto de vista religioso, ou antes faz-se um echo da Igreja. A sua obra é, para +assim dizer, um desdobramento da Biblia, e toda a originalidade que revela +está, como observa Cousin, na execução. Vendo caminhar o povo de Deus á face da +terra, sempre guiado pelo milagre, que faz, por exemplo, com que a vara de +Moysés aparte as aguas do mar Vermelho, Bossuet vê em todos os passos d'esse +povo a mão de Deus, o espirito do Senhor. O plano descoberto por Bossuet na +mobilidade dos acontecimentos humanos é traçado pela Providencia. «Mas +lembrai-vos, meu senhor—conclue o prelado de Meaux<a name="tex2html24" +href="#foot449"><sup>[24]</sup></a>—que esta longa cadêa das causas +particulares que fazem e desfazem os imperios, depende das ordens secretas da +divina<span class="pn">{29}</span> Providencia.» Embora arrastado pelas convicções profundamente +religiosas do seu tempo e do seu espirito, e até pelo dever da sua posição +social, Bossuet tem um ponto de vista exclusivo, unico, intransigente; mas em +todo o caso imprime á Historia um caracter philosophico, porque determina um +mobil e um fim a todos os acontecimentos humanos.</p> + +<p>O exclusivismo de Bossuet é seguramente, pelo menos á luz da sciencia +moderna, o maior defeito da sua obra. Havendo elle comparado a Historia +universal a um mappa-mundi, onde se póde vêr o que Paris é para a França, a +França para a Europa, e a Europa para o universo, esquece-se comtudo, perante o +espectaculo da Providencia, embevecido em extasis religiosos, de estudar as +relações dos povos entre si para se elevar até á humanidade. Elle preoccupa-se +com o povo de Moysés como se esse povo constituisse por si só a humanidade. Na +historia dos imperios, a que consagra a terceira parte da sua obra, procura +systematicamente a ligação, que reputa necessaria, com a historia do povo de +Deus. Não só o Oriente falta no grande livro de Bossuet,—pondera Cousin<a +name="tex2html25" href="#foot450"><sup>[25]</sup></a>—assim como a historia +das artes, da industria e da philosophia; mas tambem as religiões e as +instituições politicas dos differentes povos são algumas vezes tratadas de modo +um pouco superficial, se bem que de longe a longe, e por exemplo na historia +romana, haja<span class="pn">{30}</span> relampagos de uma sagacidade superior e paginas que lembram +Machiavel e antecipam Montesquieu.»</p> + +<p>Lançada a primeira pedra no vasto edificio da Historia da humanidade, uma de +duas cousas havia fatalmente de acontecer: ou a obra de Bossuet ficaria +esquecida e, portanto, perdida, ou novos obreiros viriam continuar a fabrica +gigantesca. Felizmente, um homem verdadeiramente superior, um «d'estes genios +descobridores que alcançam as verdades na sua maior generalisação»<a +name="tex2html26" href="#foot451"><sup>[26]</sup></a>, appareceu em Italia, +illuminando com os relampagos do seu genio a grande obra da historia das idéas +humanas, porque, já o dissemos, a historia dos povos não é outra cousa, ou +antes creando elle proprio uma sciencia nova, <i>scienza nuova</i>, a <i>rainha +das sciencias</i>, «porque as sciencias devem começar onde a materia e o +objecto de que tratam principiam, e esta começará de feito com os primeiros +pensamentos dos primeiros homens, e não com as primeiras reflexões dos +philosophos sobre as idéas humanas<a name="tex2html27" +href="#foot452"><sup>[27]</sup></a>.</p> + +<p>É claro que nos referimos a João Baptista Vico.</p> + +<p>O immortal philosopho napolitano, cujas obras despertam a mais sympathica +admiração e o mais profundo interesse, extrahe da <i>noite profunda e tenebrosa +que envolve a antiguidade</i>, uma affirmação completamente nova e +surprehendente: <i>O mundo civil foi certamente feito pelos homens</i><span class="pn">{31}</span> +ou, n'uma phrase mais synthetica ainda, <i>a humanidade é obra de si mesma</i>.</p> + +<p>Remontando-se á origem do mundo das nações, ou mundo civil, João Baptista +Vico acceita a tradição biblica de que a terra fôra repovoada pelos +descendentes de Noé, os quaes, rompendo os laços de familia por ligações +passageiras e arbitrarias, se espalharam na <i>grande floresta da terra</i>.</p> + +<p>A infancia da humanidade é semelhante, segundo Vico, á infancia do homem.</p> + +<p>Os homens são mudos na sua origem. Vivem apenas porque o instincto os leva a +conservarem-se. Mas o primeiro trovão e o primeiro raio lançaram no seio da +humanidade nascente uma luz nova, a primeira noção da divindade, como já +mostramos no principio d'este trabalho.</p> + +<p>A commoção que o primeiro phenomeno meteorologico produziu no homem, +desprende-lhe a lingua: póde, finalmente, pronunciar o primeiro monosyllabo.</p> + +<p>O desenvolvimento da palavra faz-se lentamente na humanidade como no homem. +A insufficiencia da linguagem é supprida por signaes, por gestos ou pela +grosseira representação dos objectos na casca das arvores, origem dos +hieroglyphos. Para facilitar a articulação das primeiras palavras, os homens +fallam cadenciadamente: é a origem dos cantos, dos versos, da pantomima e da +dança. Desenvolvidos os orgãos da voz, as primeiras palavras são a copia dos +sons da natureza. Depois as palavras perdem a significação natural e tomam uma +significação<span class="pn">{32}</span> convencional; o mesmo acontece na escriptura, a partir dos +hieroglyphos.</p> + +<p>O homem, assustado pelo trovão e pelo raio, escondeu-se nas cavernas da +terra, receando d'um poder superior a elle; e ahi occultou tambem a sua +companheira. D'esta juncção nasceu a familia, a que o homem teve de procurar +alimentos, tendo de sahir, para encontral-os, dos recessos das cavernas. Do +accordo dos deveres e das necessidades, a que esta primeira sociedade deu +origem, nasceu o direito natural.</p> + +<p>Segundo a formosa theoria de Vico, vêmos, pois, como o homem é um producto +de si mesmo, e o mundo civil é feito pelo homem.</p> + +<p>Na existencia de cada povo, Vico encontra a idade dos deuses, ou a época em +que a imaginação e o medo divinisam as forças da natureza; a idade dos heroes, +ou a época em que os homens, imaginando que tudo é obra dos deuses, attribuem a +si mesmos uma origem divina; finalmente, a idade historica, em que o heroe se +humanisa, e em que a natureza humana se torna intelligente, modesta, dôce e +razoavel, obedecendo por consequencia á lei da consciencia, da razão e do +dever, como diz o proprio Vico<a name="tex2html28" +href="#foot453"><sup>[28]</sup></a>.</p> + +<p>Dentro do circulo fatal d'estas tres idades ou naturezas, é que a vida dos +povos se desenvolve e completa. Chegado ao grau de perfeição que fica +assignalado, cada<span class="pn">{33}</span> povo extingue-se como uma flôr que attingiu o seu +maximo desenvolvimento. Outro povo, como outra flôr, o ha-de vir substituir +dentro do mesmo circulo fatal.</p> + +<p>Toda a theoria de Vico se póde representar graphicamente por uma serie de +linhas parallelas, que a nosso vêr exprimem perfeitamente o seu <i>corsi</i> e +<i>ricorsi</i>, o progresso e retrocesso dos povos. Segundo esta theoria, os +governos começam pela <i>unidade</i> nas monarchias de familia; pelo <i>menor +numero</i>, nas aristocracias heroicas; pelo <i>maior numero</i>, nas +republicas populares, e acabam pela <i>unidade</i>, como principiaram, nas +monarchias civis. A successão d'estes periodos abrange a vida de cada povo.</p> + +<p>Assim, Vico, traçando, nos tempos da primeira barbarie, a longa linha de +<i>corsi</i>, encontra os paes de familia exercendo um governo, cuja +authoridade pretende derivar dos deuses. Esse é o periodo do mutismo; a +expressão do pensamento é gesticulada, hieroglyphica (<i>Monarchias de +familia</i>). Os homens errantes refugiam-se junto dos paes de familia, que +lhes não querem reconhecer direito algum. Os adventicios revoltam-se. São +vencidos pelos paes de familia. Revoltam-se de novo. Os paes de familia +procuram fortificar-se formando uma classe e regulando os direitos das +<i>gentes minores</i>, dos adventicios (<i>Aristocracias heroicas</i>). +Segue-se o periodo em que a continuação das revoltas por parte das <i>gentes +minores</i> obtem concessões que produzem finalmente o governo humano, isto é, +do maior numero (<i>Republicas populares</i>).<span class="pn">{34}</span> A estas épocas de agitação +succede naturalmente um periodo de repouso, a monarchia. Mas cumpre notar que +por isso que as monarchias e as republicas populares são ambas uma expressão do +<i>governo humano</i>, podem succeder-se alternadamente.</p> + +<p>Tracemos agora, segundo Vico, parallela á linha de <i>corsi</i>, a linha de +<i>ricorsi</i> no periodo da segunda barbarie.</p> + +<p>Voltam os tempos divinos. Os reis são os defensores da religião, magestades +sagradas. Revestem a dalmatica dos diaconos. A corôa é encimada pela cruz. +Fundação das ordens religiosas armadas. Os signaes dos brazões correspondem á +linguagem hieroglyphica.—Regressam os tempos heroicos pelo feudalismo. Os +barões são os heroes; os servos são as <i>gentes minores</i>.—Finalmente, os +esforços dos vassallos para conquistarem a liberdade, em virtude da lei de que +a potencia livre de um estado deve passar ao acto, vencem os esforços dos +<i>senhores</i> e dão origem ao governo do <i>maior numero</i>, isto é, aos +governos democraticos modernos.</p> + +<p>Vico, encontrando o parallelismo dos <i>corsi</i> e <i>ricorsi</i> na linha +d'extensão, não o pôde comtudo achar na duração e intensidade dos periodos, +porque o da segunda barbarie foi muito menos longo e profundo que o da +primeira.</p> + +<p>A theoria de Vico tem sido mais ou menos impugnada, sem que da impugnação se +possa deduzir menospreço pela elevada concepção do philosopho napolitano,<span class="pn">{35}</span> +que evidentemente se baseia na divisão dos tempos, feita pelos egypcios e pelos +chinezes. Cantu acha que a theoria da <i>Scienza nuova</i> tem o inconveniente +de sobrepôr a razão á liberdade; de inutilisar todos os esforços tendentes a +realisar um progresso continuo; finalmente, que ella é desmentida pela +constituição da sociedade americana, que se organisou sem deuses, sem heroes e +sem feudatarios, á custa da industria e da concorrencia<a name="tex2html29" +href="#foot454"><sup>[29]</sup></a>. Cousin encontra na theoria de Vico o vicio +da preponderancia do elemento politico, da omissão quasi completa da arte e da +philosophia, e sobretudo do estudo da civilisação oriental, dominada pela +religião; finalmente, da omissão relativa aos destinos da humanidade em geral +na sua marcha de refluxo em refluxo<a name="tex2html30" +href="#foot455"><sup>[30]</sup></a>. O snr. dr. Theophilo Braga acha que se ha +erro n'aquella divisão dos tempos consiste em fazer o computo de tal modo, que +os periodos subsequentes sejam excluidos dos primeiros<a name="tex2html31" +href="#foot456"><sup>[31]</sup></a>.</p> + +<p>Mas Cantu, como Cousin, faz justiça ao talento brilhantissimo de Vico, cuja +arrojada intuição, em pleno seculo <small>XVIII</small>, espanta realmente. +Comquanto Vico fique hoje muito atrazado em vista do estado actual da sciencia, +sobretudo pelo que toca aos modernos debates sobre a origem das especies, +distribuição geographica das raças humanas, pluralidade dos mundos, suspeitada +já por<span class="pn">{36}</span> Giordano Bruno, e á questão da influencia dos meios, não póde +deixar de reconhecer-se que não só previu muitos dos mais transcendentes +problemas da sciencia moderna, taes como o da origem da linguagem, cuja +resolução antecipou, mas tambem que deixou na sua obra os germens de muitas +sciencias novas<a name="tex2html32" href="#foot457"><sup>[32]</sup></a>, e que +foi o fecundador da maior parte das theorias modernas, entre as quaes a +Philosophia da Historia.</p> + +<p>A obra de Vico foi continuada por Montesquieu n'um plano igualmente +superior. Como Vico, Montesquieu occupa-se da relação do direito com os +costumes, mas introduz na sciencia da Historia um elemento novo, que todavia já +Hippocrates, Platão, Aristoteles e outros sabios da antiguidade haviam +suspeitado: a influencia dos climas no caracter e vida dos povos. Bossuet havia +introduzido na Historia universal o elemento religioso: Vico, o elemento +racional; Montesquieu introduziu o elemento climatologico.</p> + +<p>O auctor do <i>Espirito das Leis</i>, fanatico pela sua doutrina, exagera os +effeitos do clima, comquanto devesse attender a totalidade dos meios +cosmologicos como Herder, mas o que é certo, e a sciencia moderna o tem +demonstrado, é que o homem, e mais adeante nos demoraremos n'este ponto, quando +tratarmos de Herder, nasce<span class="pn">{37}</span> e vive sob a influencia da natureza que o +rodeia. O clima produz as sensações habituaes, que, no decurso dos tempos, +constituem a sensibilidade definitiva<a name="tex2html33" +href="#foot458"><sup>[33]</sup></a>. Nas obras d'arte, e de litteratura, que +são as que mais profundamente caracterisam a civilisação de um povo, como mais +de espaço veremos, importa considerar, segundo Taine<a name="tex2html34" +href="#foot459"><sup>[34]</sup></a>, tres forças primordiaes, a raça, o +<i>meio</i>, e o momento. Estabelecida a verdade da influencia climatologica no +<i>homo duplex</i>, Emilio Deschanel<a name="tex2html35" +href="#foot460"><sup>[35]</sup></a> procura no estylo de cada escriptor a +caracteristica do temperamento, do <i>clima</i>, dos habitos, etc. Pelletan, +considerando o sólo como um collaborador forçado do destino d'uma raça, +reconhece a necessidade de se escrever a <i>geographia do progresso</i><a +name="tex2html36" href="#foot461"><sup>[36]</sup></a>.</p> + +<p>Não se póde levar tão longe, porém, a fatalidade exclusiva do clima, sob o +ponto de vista da temperatura, que haja de se fechar os olhos a contradicções +flagrantes, a que os proprios factos historicos dão relevo, embora Montesquieu +veja ainda no fundo d'essas contradicções a influencia climaterica. Assente que +os climas frios são os que dão o vigor, a energia, e os climas quentes a +molleza e a indolencia, o proprio Montesquieu<a name="tex2html37" +href="#foot462"><sup>[37]</sup></a> foi<span class="pn">{38}</span> obrigado a notar contradicções +nos caracteres de certos povos do Meio-dia. «Os indios são naturalmente faltos +de coragem, diz elle; os proprios filhos dos europeus, nascidos nas Indias, +perdem a do seu clima.» Esta ultima affirmação acha-se plenamente confirmada no +precioso livro de um viajante hollandez<a name="tex2html38" +href="#foot463"><sup>[38]</sup></a>, o qual, tratando da maneira de viver dos +portuguezes na India, faz notar a ociosidade a que se entregavam, a ponto de +explorarem a honra de suas proprias mulheres<a name="tex2html39" +href="#foot464"><sup>[39]</sup></a>. Pois não obstante a indolencia peculiar ao +clima da India, onde a luz e o calor parece conservarem-se n'uma primavera +ininterrompida, os costumes indianos são violentos e barbaros: os homens +submettem-se a males incriveis, as mulheres lançam-se ao fogo. Montesquieu +explica ainda este facto pela preguiça do espirito dos indios, a qual é devida +á indolencia do corpo, produzida pelo clima. A preguiça do espirito traz, +realmente, a immobilidade nas leis e nos costumes; sem embargo, como observa +Voltaire, a influencia dos climas é algumas vezes desmentida pelos factos +historicos: em resposta á asserção de que os povos dos paizes quentes são +timidos como os velhos, lembra Voltaire que os arabes conquistaram em oitenta +annos maior territorio do que aquelle que o imperio romano possuia.<span class="pn">{39}</span></p> + +<p>Um philosopho allemão, que Edgar Quinet vulgarisou na Europa, levanta sobre +a theoria de Montesquieu um edificio tão brilhante como arrojado; segundo +Montesquieu, o homem é influenciado pelo clima; segundo Herder, a natureza é o +molde d'onde a humanidade sahe conformada. Herder, cuja largueza de vistas +abrange todos os elementos da humanidade, estudados desde a origem dos tempos, +no seu desenvolvimento harmonico e progressivo, o que lhe dá uma incontestavel +vantagem sobre os philosophos que o precederam, parte da geographia physica +para chegar a uma synthese assombrosa. «É com um admiravel instincto—diz +Quinet—que Herder segue o contorno dos rochedos e dos rios, que se perde nos +desertos, que penetra com um olhar o interior de um paiz, para encontrar na +natureza externa o primeiro mobil das tendencias e determinações dos povos<a +name="tex2html40" href="#foot465"><sup>[40]</sup></a>.» A theoria de Herder é +muito mais complexa do que a de Montesquieu, e é claro que, lançando mão de +todos os elementos offerecidos pela natureza, abrange maior numero de verdades. +Herder, como observa Quinet, estuda até os contornos dos rochedos e dos rios, +as linhas da natureza; os perfis das montanhas e as sinuosidades do alveo +dão-lhe a idéa das tendencias dos povos que vivem n'essas paragens. Com +effeito, o scenario de um theatro fornece a primeira concepção das paixões que +se irão desenvolver<span class="pn">{40}</span> no drama. No grande palco do mundo acontece o mesmo. +O aspecto da natureza torna o germano dotado de uma tempera robusta<a +name="tex2html41" href="#foot466"><sup>[41]</sup></a>. Em Portugal, os povos +nascidos nas duas montanhosas provincias da Beira sahem aptos para as maiores +rudezas do trabalho; são principalmente elles os que executam a tarefa das +ceifas no Alemtejo, onde vão todos os annos, arrostando um sol canicular, +abrazador, chegando a morrer n'um só estio e n'uma só comarca, a de Elvas, +quatrocentos ceifeiros, de fouce em punho, como verdadeiros heroes do +trabalho<a name="tex2html42" href="#foot467"><sup>[42]</sup></a>. Os povos do +Algarve nascem marinheiros pela fatalidade da situação geographica, arrojam-se +ás maiores ousadias da navegação, como a que no principio d'este seculo +realisaram, indo dous homens n'um cahique ao Rio de Janeiro. Herder tinha +razão. Um só rio, o sinuoso e extenso Douro, basta a caracterisar a vida da +maior parte dos habitantes d'uma provincia. O conhecimento pratico, a +observação de algumas povoações portuguezas leva-nos a estabelecer o principio +de que a fórma geometrica dos rios determina os costumes dos povos +circumpostos. As correntes em linha recta são as que produzem menor pureza de +vida; pelo contrario, os rios meandrosos, difficeis, occasionando um trabalho +continuo e perigoso santificam, para assim dizer, os costumes. Estudemos<span class="pn">{41}</span> +esta theoria no rio Douro. Os barqueiros d'este rio entregam-se a um trabalho +por tal modo intenso e ininterrompido, que chega a ser uma religião. Pendurados +das fragas afim de tirarem os barcos á sirga, empenhados em vencerem os perigos +dos <i>pontos</i>, verdadeiras cataratas, havendo previamente, de barrete na +mão, confiado as suas vidas a Deus, são completamente absorvidos pela +preoccupação do trabalho. Extenuados, quando recolhem ao lar domestico, +dedicam-se á vida de familia, ao descanço patriarchal da lareira; regulando +ainda assim o tempo por modo que muitos d'elles cultivam a sua vinha, a sua +pequena horta, no intervallo das viagens. Mas nos rios placidos, rectilineos, a +navegação não é um trabalho, é, pelo contrario, um pretexto de ociosidade. A +propria corrente leva o barco, os barqueiros não bebem para fortalecer-se; +bebem para embriagar-se, por <i>deboche</i>. Quando chega a noite, procuram as +casas devassas, as rameiras do caes.</p> + +<p>Herder, desenvolvendo a theoria de Vico, abrangeu todos os meios +cosmologicos; não se preoccupou só, como Montesquieu, com os agentes +astronomicos, e deu a devida importancia á acção geral da natureza. No estado +actual da sciencia é preciso tambem ter em vista os modificadores sociologicos, +posto que muitas vezes nos pareçam sujeitos aos cosmologicos. As profissões +industriaes, por exemplo, não raro dependem de uma influencia puramente local. +Jacques de Boisjoslin confirma esta opinião, avisando de que as aptidões +profissionaes<span class="pn">{42}</span> podem enganar sobre as verdadeiras disposições das raças, +por isso que frequentemente derivam do clima, da pressão da natureza<a +name="tex2html43" href="#foot468"><sup>[43]</sup></a>.</p> + +<p>Edgar Quinet lança-se com vivo enthusiasmo na theoria de Herder: «A figura +dos continentes, dos rios, dos mares, das montanhas,—escreve elle com o seu +bello colorido poetico—, quasi por toda a parte ha determinado a das +sociedades; de modo que cada continente é um molde onde a Providencia vasa as +raças humanas para que ahi tomem a fórma eterna dos seus designios; e o +primeiro propheta escreveu o seu livro nas linhas mudas dos continentes ainda +deshabitados<a name="tex2html44" href="#foot469"><sup>[44]</sup></a>.»</p> + +<p>Cousin, depois de haver prescripto ao movimento geral da Historia tres +épocas, ligadas não só por uma relação de successão mas tambem de geração, tres +épocas baseadas sobre as tres unicas idéas que o pensamento humano póde +conceber, o <i>infinito</i>, o <i>finito</i>, a <i>relação do finito com o +infinito</i>, sendo que estes tres elementos podem coexistir n'uma mesma época +posto que seja o predominio de um o que a caracterisa; Cousin liga tambem uma +alta importancia á situação geographica e chega á conclusão de que para <i>tres +épocas differentes, tres theatros differentes</i>.</p> + +<p>A theoria de Herder tem sido, porém, accusada por alguns philosophos de +imprimir ao homem um caracter<span class="pn">{43}</span> de passividade, que o reduz á condição de +escravo da natureza que o rodeia, e elle proprio, como lhe é censurado, não +póde explicar pela geographia physica todos os desenvolvimentos da civilisação. +Para elle, a linguagem humana é uma instituição divina, posto que até certo +ponto nos pareça que, reproduzindo os primeiros homens as vozes da natureza +pela onomatopea, segundo Vico, podia Herder explicar por esse mesmo facto a +origem da linguagem, e pela situação geographica a euphonia ou a aspereza de +certos dialectos.</p> + +<p>Uma outra accusação consiste em não se haver Herder remontado á origem +ethnica das raças, encarando-as apenas no estado em que as encontrou, quando +estudou o caracter de cada uma como elemento da Philosophia da historia; pelo +que calumniou toda a raça aryana, e portanto os germanos, a que pertencia, +quando representou como rebeldes a toda a cultura os celtas e os slavos, que +foram a guarda-avançada da colonisação europêa<a name="tex2html45" +href="#foot470"><sup>[45]</sup></a>.</p> + +<p>Como quer que seja, Herder accendeu a esplendida aurora que devia illuminar, +principalmente em nossos dias, o estudo de todos os grandes problemas da +sciencia e da humanidade, a que, depois d'elle, se tem dedicado grande numero +de espiritos luminosos e fortes, cujas theorias não podemos mencionar n'um +trabalho que, como este, tem de ser realisado n'um periodo fatal e curto.<span class="pn">{44}</span></p> + +<p>O ponto de vista religioso de Bossuet e o ponto de vista politico de Vico +ficaram desde Herder offuscados pelo conjuncto synthetico de todos os elementos +da civilisação humana: as raças, as linguas, as religiões, as artes, as +litteraturas, os systemas de governo e de philosophia, etc. Duchinski achou +vinte e oito elementos de critica historica: 1. Hydrographia; 2. Plasticidade +do sólo; 3. Physionomia dos habitantes; 4. Hygiene, doenças; 5. Climatologia; +6. Mythos; 7. Tradições peculiares a cada raça; 8. Faculdades musicaes e +poeticas; 9. Tendencia dos povos á vida sedentaria agricola ou a vida nómada +mercantil; 10. Lugar da mulher na sociedade; 11. Faculdades religiosas, +desenvolvimento das seitas; 12. Vestuario; 13. Alimentos, e bebidas; 14. +Desenvolvimento da vida provincial e das idéas federativas; 15. Maior ou menor +predisposição para a adoração do principio do mal; 16. A geologia e sobretudo a +geologia agricola; 17. A botanica; 18. A zoologia; 19. As linguas sob o ponto +de vista lexicographico; 20. As linguas sob o ponto de vista euphonico; 21. As +linguas sob o ponto de vista dos caracteres da civilisação; 22. As linguas sob +o ponto de vista das tradições historicas que apresentam; 23. Pureza e impureza +relativa dos costumes; 24. Grau do poder creador do espirito; 25. Grau de +parentesco entre os povos sob o ponto de vista das relações +historico-politicas; 26. Estatistica; 27. Encadeamento dos factos historicos. +28. Grau de parentesco com relação ás origens. E certamente não se poderia +Duchinski gabar de<span class="pn">{45}</span> ter enumerado todos os materiaes que sabe aproveitar a +Philosophia da Historia, em cujo campo o menor elemento fornece uma +caracteristica, o que não deve admirar depois que se conheceu que uma alga +microscopica, a <i>Trichodesmium erythræum</i>, produz certa coloração +particular do mar Vermelho.</p> + +<p>Afim de estudar todos estes elementos, para chegar á synthese da humanidade, +era preciso desenvolver, refundir e até crear um grande numero de sciencias +correlativas a elles. É o que se tem feito até hoje. Cada sciencia especial +acode a offerecer ao investigador uma poderosa alavanca que ha-de ajudar a +levantar a humanidade á altura precisa para receber de frente toda a luz da +Philosophia. A Historia, que fôra outr'ora simplesmente a narração de factos, +tornou-se, portanto, a mais complexa de todas as sciencias. Foi uma +transformação assombrosa. Atearam-se os grandes debates da sciencia moderna, os +sabios lançaram-se á descoberta da verdade, tomando a Philosophia por +instrumento. O nosso seculo tem assistido as mais brilhantes investigações. A +Philosophia positiva metteu hombros ao colosso do passado, e iniciou um dos +cyclos mais admiraveis da humanidade, se não o mais assombroso de todos elles.</p> + +<p>Parece-nos conveniente insistir n'este ponto, por isso que lavra ainda em +alguns espiritos uma certa desconfiança sobre o estado de perfeição dos +modernos trabalhos scientificos. O conhecimento d'esta desconfiança foi que nos +determinou a escolhermos para dissertação<span class="pn">{46}</span> de concurso o vasto assumpto de +que vimos tratando, seguramente muito superior ás nossas forças.</p> + +<p>Odysse-Barot é um d'esses espiritos desconfiados. «Vemos apparecer cada +anno, diz elle<a name="tex2html46" href="#foot471"><sup>[46]</sup></a> +numerosas e interessantes monographias, obras especiaes de um incontestavel +valor; mas não passam de uteis materiaes, que seria tempo de pôr em obra. A +Historia está no ponto em que se achavam: a astronomia antes de Keppler, +Copernico e Newton; a chimica antes de Lavoisier e Berzelius; a physica antes +de Archimedes; a zoologia antes de Geoffroy Saint-Hilaire; a geologia antes de +Cuvier; a physiologia antes de Harvey. A lei da attracção universal será mais +difficil de formular do que a lei da attracção celeste? Sabemos como se movem +os astros, e ignoramos como se movem os povos! Podemos determinar a curva que +descrevem os mundos, e não sabemos absolutamente nada da orbita que percorrem +as nações! Porque não descobrirão a lei da aggregação dos homens, como souberam +achar a lei da aggregação das moleculas de um corpo? Não haverá uma chimica +social do mesmo modo que ha uma chimica organica ou uma chimica mineral? Será +que as forças chamadas cohesão e affinidade não possam actuar senão sobre os +gazes, os liquidos ou os solidos? Acaso a humanidade ignora o que é uma +combinação, uma liga? Não tem seus reagentes, suas decomposições, seus +precipitados? Descobriu-se a<span class="pn">{47}</span> lei da circulação do sangue no homem: a +historia espera o seu Harvey, para encontrar a lei da circulação do sangue nas +sociedades. A historia espera o seu Archimedes, que nos dê a formula da +dynamica e da statica politicas, etc.»</p> + +<p>Realmente, isto é querer desconhecer até onde teem chegado os progressos da +actividade humana dentro do campo da possibilidade, e exigir da humanidade o +impossivel.</p> + +<p>Com a sabia orientação da Philosophia positiva, o espirito humano caminha +energicamente para as acquisições scientificas que as mais pacientes +observações preparam todos os dias. Foi trabalhosa e demorada a jornada até +esta conquista, porque o espirito humano teve de atravessar successivamente o +estado theologico, base e estimulo de todo o progresso, porque é preciso um +ponto de apoio qualquer para firmar os primeiros passos, e o estado +metaphysico, transição do estado theologico para o estado positivo.</p> + +<p>Mas, chegados a esta nova conquista, o que podemos exigir da Philosophia +positiva, sciencia que elevou a Historia á sua mais alta concepção? Que nos +permitta encarar todos os phenomenos como sujeitos a leis naturaes invariaveis, +e reduzil-as ao menor numero possivel, afim de simplificarmos a universalidade +dos conhecimentos humanos; que nos permitta sujeitar a um systema claro e +positivo todas as sciencias fundamentaes estudadas nas suas relações communs +como elementos constitutivos de<span class="pn">{48}</span> um todo harmonico, e portanto tambem nas +suas relações com esse mesmo systema, com esse todo. Esta grande, esta immensa +obra de simplificação deve-se á Philosophia positiva. Mas para que a +Philosophia positiva podesse constituir-se com o caracter de universalidade que +lhe é proprio, era preciso abraçar todas as ordens de phenomenos. Por isso a +Philosophia positiva teve de inventar uma nova sciencia, que se propozesse +estudar uma especie de phenomenos, que não podia incluir-se na dos +astronomicos, na dos physicos, na dos chimicos, nem finalmente na dos +physiologicos, e creou a <i>physica social</i>, que se trata de estudar com o +vagar que a sua dependencia de todas as outras sciencias de observação exige, e +que virá completar a constituição da Philosophia positiva.</p> + +<p>Mas todos estes grandes, estes grandissimos progressos do espirito humano, +toda esta colossal obra de simplificação e generalisação poderá produzir o +conhecimento exacto, certo das causas das leis estudadas ou da explicação +universal de todos os phenomenos por uma lei unica? Responde o proprio Comte, o +grande apostolo do positivismo: «Na minha profunda convicção pessoal, considero +estas empresas d'explicação universal de todos os phenomenos por uma lei unica +como eminentemente chimericas, ainda quando são tentadas pelas mais competentes +intelligencias. Creio que os meios do espirito humano são muito fracos, e o +universo muito complicado para que uma tal perfeição scientifica possa estar +ao<span class="pn">{49}</span> nosso alcance, e até penso que se faz geralmente uma idéa muito +exagerada das vantagens que de tal conquista resultariam necessariamente, se +ella fosse possivel<a name="tex2html47" href="#foot472"><sup>[47]</sup></a>.» É +o proprio Augusto Comte que nos vem dizer que considera defezos á razão humana +todos os mysterios que a philosophia theologica procurava explicar facilmente; +que o espirito humano deve reconhecer, no estado positivo em que se acha, a +impossibilidade de obter noções absolutas, de conhecer as causas intimas dos +phenomenos, a origem e o destino do universo<a name="tex2html48" +href="#foot260"><sup>[48]</sup></a>.</p> + +<p>Estamos, pois, lançados na ampla estrada de uma sciencia toda humana, e +havemos de chegar até onde os recursos humanos nos possam levar. É preciso +tempo e trabalho para que a folha da amoreira se converta em sêda. A astronomia +esperou o seu Keppler, como a historia espera o seu Archimedes. Odysse-Barot +pede a formula da dynamica e da statica politicas: portanto, o que pede são +duas theorias scientificas, que se devem considerar como factos logicos. Ora só +por uma profunda observação d'esses factos se póde chegar ao conhecimento das +leis logicas<a name="tex2html49" href="#foot261"><sup>[49]</sup></a>. A +Philosophia positiva, auxiliada pelas sciencias de observação já perfeitamente +conhecidas, procura preencher a lacuna que respeita aos phenomenos sociaes para +attingir o seu caracter de universalidade.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>Segundo esta nova marcha do espirito humano, toda positiva e observadora, a +Historia teve de estudar profundamente a natureza para chegar, finalmente, á +exacta concepção do lugar que n'ella occupa o homem. A geologia tem, portanto, +attingido um notavel estado de florecimento. A historia da terra desdobrou-se +em capitulos com uma nitidez admiravel, desde a nebulose, que pelo resfriamento +se converteu na esphera terrestre, até nossos dias. Excavando nas entranhas da +terra, para extrahir, como um minerio precioso, a sua historia, a sciencia +encontrou os destroços animaes e vegetaes que geraram a paleontologia. Nas +camadas terciarias do globo appareceram os instrumentos de pedra, a que o vulgo +chama ainda hoje <i>pedras de raio</i><a name="tex2html50" +href="#foot473"><sup>[50]</sup></a>, e que effectivamente foram considerados +como productos da natureza antes que Mercati os considerasse como armas +defensivas do homem no estado da sua rudeza primitiva. O achado de alguns +fosseis, que pareceram humanos, a par com os esqueletos de alimarias +ante-diluvianas, veio depois, ao cabo de longos debates, e de novos achados, +desfazer o erro anthropocentrico, confirmar a existencia prehistorica do homem +e por conseguinte o emprego dos instrumentos de silex. Foi assim que do +consorcio da geologia com a paleontologia nasceu a archeologia. Então, á luz do +grande facho da archeologia, pôde a Historia<span class="pn">{51}</span> reconstruir as idades +primitivas do homem. Chamou á primeira, <i>de pedra</i>, e subdividiu-a em +<i>paleolithica</i> ou dos instrumentos de pedra lascada; <i>mesolithica</i> ou +dos instrumentos de pedra lascada e de osso; <i>neolithica</i> ou dos +instrumentos de pedra polida; e á segunda, idade dos <i>metaes</i>, +subdividindo-a em idade de bronze<a name="tex2html51" +href="#foot271"><sup>[51]</sup></a> e idade de ferro. A descoberta de fosseis +humanos, e dos instrumentos prehistoricos, veio dar desenvolvimento a um grupo +de sciencias que teem necessaria relação entre si.</p> + +<p>No primeiro plano d'este grupo, apparece a anthropologia, ramo da historia +natural que trata do homem e das raças humanas, sciencia que se póde considerar +originada pelo positivismo moderno, comquanto os gregos já designassem pelo +vocabulo <i>anthropologos</i> aquelles que discutiam sobre o homem. O problema +da origem do homem impoz-se á meditação dos sabios, como uma das mais +importantes questões a resolver. Apartaram-se as opiniões, os campos. A +primeira base de toda a discussão foi o Genesis. A opinião polygenista tirava +argumento de serem os filhos de Deus representados como raças<span class="pn">{52}</span> +provenientes de Adão, e os filhos dos homens como raças não adamicas<a +name="tex2html52" href="#foot474"><sup>[52]</sup></a> e de que a Biblia apenas +se referia aos povos semitas, particularmente aos judeus<a name="tex2html53" +href="#foot475"><sup>[53]</sup></a>. A opinião monogenista contrapunha que +todas as raças descendiam primitivamente de Adão e Eva, e consecutivamente dos +tres filhos de Noé salvos do diluvio; que a influencia dos meios cosmicos +produzira a variedade das raças. Esta discussão veio a generalisar-se, a +emancipar-se da sua origem biblica, a diffundir-se pelo campo da sciencia, e +até da politica<a name="tex2html54" href="#foot278"><sup>[54]</sup></a>.</p> + +<p>O <i>transformismo</i> é uma phase nova d'esta grande questão, que envolve +uma idéa antiga<a name="tex2html55" href="#foot476"><sup>[55]</sup></a>. +Lamarck sustenta que as especies se transformam passando de uma para outra, +tanto no reino animal como no vegetal: o homem é uma transformação lenta do +macaco. Procurando a origem dos sêres, Lamarck encontra os germens primordiaes +ou mónadas, provenientes de geração espontanea. N'este systema, os meios de +transformação<span class="pn">{53}</span> explicam-se pela adaptação dos orgãos ás condições da +existencia. Cuvier, Geoffroy Saint-Hilaire e outros, sahiram em defeza das +idéas orthodoxas, que parecia haverem triumphado quando appareceu Carlos +Darwin, cuja theoria se póde definir: <i>A selecção natural por a lucta pela +existencia, applicada ao transformismo de Lamarck</i><a name="tex2html56" +href="#foot477"><sup>[56]</sup></a>. Segundo Darwin, todos os seres organisados +se transformam incessantemente sob o imperio de uma lei de selecção natural +(<i>natural selection</i>), e todas estas transformações têem por causa a lucta +pela vida (<i>struggle for life</i>), isto é, o combate eterno dos sêres vivos +entre si pelos meios de existencia. Todas as especies vivas descendem, segundo +Darwin, de um pequeno numero de prototypos ou mesmo de um só. Em virtude da +selecção natural todas as variações uteis são conservadas, e todos os desvios +nocivos eliminados<a name="tex2html57" href="#foot286"><sup>[57]</sup></a>. +Comquanto Carlos Darwin se abstivesse de applicar a sua theoria á especie +humana particularmente, os que a defendem fazem essa applicação como +consequencia logica das asserções apresentadas por elle. A doutrina darwiniana +foi o ponto de partida de um longo debate que ainda dura. Entre os allemães que +se filiaram na escóla do transformismo, avulta Hæckel, que para explicar a +origem do<span class="pn">{54}</span> homem parte das primeiras cellulas conhecidas, <i>moneras</i>, +formadas por geração espontanea. Estas cellulas foram-se dispondo em orgãos e, +depois de uma serie de transformações, que se podem classificar em vinte e dous +graus, apparece o homem.</p> + +<p>Graças ao espirito de positivismo do nosso seculo, as sciencias biologicas +chegaram a este grau de desenvolvimento, e como que sopraram vida nova á +intelligencia humana cada vez mais ávida de saber. Desdobram-se na tela da +discussão os mais graves problemas, como por exemplo o das gerações +espontaneas, que tanto preoccupou a Academia das Sciencias de Paris, depois que +em 1858 o professor Pouchet lançou o pomo da discordia ao seio dos quarenta +immortaes<a name="tex2html58" href="#foot478"><sup>[58]</sup></a>. Certo é que +muitos d'esses<span class="pn">{55}</span> grandes problemas não estão ainda resolvidos, como por +exemplo o do transformismo, mas não é menos certo que as modernas investigações +vão cada vez produzindo novas acquisições, e que, pelo que toca ao +transformismo, a doutrina da mutabilidade e da evolução morphologica dos seres +organisados vai cada dia ganhando maior terreno.</p> + +<p>N'um curso regular de anthropologia, como aquelle que se professa no +Instituto anthropologico de Paris, sob a direcção de Paulo Broca, a ethnologia, +sciencia que se occupa da classificação, descripção, repartição, filiação e +evolução das raças humanas, tem um logar importantissimo, e tanto se identifica +esta nova sciencia com a Historia philosophica, que só pelo estudo das raças +constituiram alguns historiadores uma Philosophia da Historia.</p> + +<p>As analogias encontradas entre as linguas da Europa e o sanscrito +determinaram as affirmações a que se chegou sobre a unidade da raça +indo-européa ou aryana. Os resultados fornecidos pela investigação levaram +Francisco Boop a reconhecer o parentesco das linguas celticas, que até ahi +faziam grupo á parte, com o sanscrito, e com as demais de origem aryana. Por +onde nos é dado vêr como a ethnologia prosperou pela applicação do methodo +philologico. Aqui temos pois irmanadas duas novas sciencias, por igual +importantes, a ethnologia e a philologia. E não diremos que a philologia é a +base da ethnologia, porque muitas vezes a linguagem de um povo está falseada +por agentes historicos e sociaes, taes como a conquista,<span class="pn">{56}</span> o commercio, e a +irradiação de focos intellectuaes mais ardentes<a name="tex2html59" +href="#foot293"><sup>[59]</sup></a>. Mas, como quer que seja, acompanhar a +evolução das raças desde a sua filiação o mesmo importa que fazer +simultaneamente a historia das linguas respectivas e o estudo critico das +litteraturas sob o ponto de vista da archeologia, da arte e da mythologia<a +name="tex2html60" href="#foot479"><sup>[60]</sup></a>. Os grandes problemas +philologicos apenas começaram a inspirar geral interesse no principio d'este +seculo. O ponto de partida dos modernos trabalhos sobre a sciencia da linguagem +foi a <i>Grammatica comparada das linguas indo-europêas</i> por Francisco Boop. +A antiguidade classica, circumscripta ao estudo da civilisação italiana ou +grega, não podia elevar-se ás theorias geraes<a name="tex2html61" +href="#foot480"><sup>[61]</sup></a>. Além do que, era preciso que a Historia +fosse estudando a genealogia dos povos, reconhecendo-os, para sobre o +conhecimento pratico das linguas fundamentar a moderna sciencia da linguagem<a +name="tex2html62" href="#foot481"><sup>[62]</sup></a>. No seculo actual a +philologia começou a estudar as ramificações das linguas, a comparal-as, a +classifical-as, a criticar os seus productos, como a Historia começou +simultaneamente a estudar as ramificações<span class="pn">{57}</span> dos povos, a comparal-os, a +classifical-os, a criticar as suas manifestações. A linguistica, estudando a +phonetica e a estructura das linguas, veio prestar uma valiosa collaboração á +philologia, porque se o philologo não sabe nada da lingua em si mesma, diz +Hovelacque, se ignora a sua estructura e os elementos que a compoem, como +poderá fazer um juizo completo sobre os productos, os fructos d'esse agente, +d'essa lingua<a name="tex2html63" href="#foot482"><sup>[63]</sup></a>? A +Philosophia positiva, pela applicação dos seus processos de simplificação e de +generalisação, tratou de procurar as leis que presidiram á formação das +linguas, e assim é que a sciencia da linguagem tem chegado á descoberta de +factos importantissimos. Averiguou-se, por exemplo, que a lingua chineza, a +qual comprehende quarenta mil palavras, apenas possue um peculio de +quatrocentas e cincoenta raizes. Lubbock<a name="tex2html64" +href="#foot483"><sup>[64]</sup></a> occupa-se em mostrar a identidade de raizes +na linguagem de muitas raças, e toma para exemplo as articulações <i>pa</i> e +<i>ma</i>, que para a maioria dos povos significam <i>pai</i> e <i>mãe</i>, por +isso mesmo que são as primeiras syllabas pronunciadas pela criança, as mais +faceis, as mais involuntarias, como observa Lefèvre<a name="tex2html65" +href="#foot484"><sup>[65]</sup></a>. Mas, aqui se levanta uma importante +questão. Como foram escolhidas estas raizes? Como é que certas cousas foram +indicadas por certos sons? Max Müller chama a esses primitivos elementos das +differentes famillias de linguas <i>typos phoneticos</i><span class="pn">{58}</span> produzidos por +um poder inherente á natureza humana. E acrescenta: «Existem, como diria +Platão, por natureza; ainda que devemos tambem declarar com Platão que quando +dizemos por natureza, queremos dizer pela mão de Deus.» Ha, porém, algumas +palavras que, como <i>zas</i>, provém da imitação de um som. Segundo Müller, as +palavras d'esta especie parecem-se com as flôres artificiaes: não têem raizes.</p> + +<p>Lubbock não fica satisfeito com a resposta dada por Müller a esta pergunta +«Como é que os sons podem exprimir o pensamento»? posto adjective de eloquente +a resposta. Lefèvre qualifica-a de excesso de mysticismo anglicano por parte de +Müller, e observa que «o grito vago, fixado, precisado pelo habito, por +convenção, por analogia com certas impressões traduzidas em onomatopêas nos +basta para comprehender como a tal ordem de sensações ou de movimentos +cerebraes se pôde ligar tal ou tal som.» D'este modo não haveria na linguagem +as flôres artificiaes de que falla Müller, e, como pensamos, todas essas +syllabas-mães mergulhariam raizes na interjeição ou na onomatopêa, acabando de +fixal-as o habito.</p> + +<p>A moderna applicação da Historia a todos os ramos dos conhecimentos humanos +produziu, na sciencia da linguagem, um estudo encantador—a biographia de cada +palavra, muitas vezes em opposição com as regras phoneticas que determinam as +mudanças possiveis das letras. O verdadeiro caracter de universalidade da +Historia provém<span class="pn">{59}</span> certamente não do facto de abranger a generalidade dos +povos, mas sim a generalidade dos assumptos, e é por isso que ella envolve, na +sua immensa esphera, todas as sciencias. Tudo tem uma historia, e o historiador +universal tem de abranger a historia de tudo.</p> + +<p>Max Müller<a name="tex2html66" href="#foot485"><sup>[66]</sup></a> faz, a +traços poeticos, a biographia da palavra <i>palacio</i>. Sobre as margens do +Tibre, uma das sete collinas era chamada <i>collis Palatinus</i>. Palatinus +derivava-se de Palas, divindade pastoral, cuja festa se celebrava a 21 de +abril. Nero mandou demolir todas as casas particulares d'esta collina para ahi +edificar o seu aureo palacio, <i>domus aurea</i>, a que se principiou a dar o +nome de <i>Palatium</i>, conservando-se como typo dos palacios reaes da Europa. +De <i>palatium</i> nasceu o adjectivo <i>palatino</i>, a que se juntou a +palavra <i>abobada</i> para significar o ponto mais elevado da bocca, porque +<i>abobada</i> era realmente, como observa Müller, uma palavra muito propria +para designar o palacio da bocca. O illustre professor d'Oxford, lembrando a +phrase de Ennius—<i>palatum coeli</i>—, para exprimir a abobada dos céos, faz +sentir a evidente analogia que ha entre a concepção do palacio da bocca e a de +uma abobada, e entre a concepção de uma abobada e a sumptuosa habitação dos +imperadores.</p> + +<p>Tomando por instrumento de investigação a philologia, a Historia não abriu +os vocabularios das differentes<span class="pn">{60}</span> raças para estudar sómente a biographia +das palavras, mas quiz tambem deletrear n'elles a condição social, a +civilisação d'essas raças.</p> + +<p>A critica philologica descobriu que os Hos da India central não conhecem os +termos affectuosos; que os Algonquinos, povo da America septentrional, não +possuem o verbo <i>amar</i>; que os Bosmejans não teem nomes proprios para +distinguir os individuos; que as tribus brazilicas desconhecem as noções de +<i>côr</i>, <i>genero</i>, <i>espirito</i>, etc., por isso que não apparecem +nos seus vocabularios palavras correspondentes a estas noções<a +name="tex2html67" href="#foot486"><sup>[67]</sup></a>.</p> + +<p>Se os vocabularios foram considerados testimunhos importantes para a +historia da civilisação dos povos, as litteraturas, os monumentos litterarios +principiaram a reputar-se, perante a critica moderna, a photographia do estado +do espirito d'esses povos, e dos seus costumes. É por isso que Henri Taine<a +name="tex2html68" href="#foot487"><sup>[68]</sup></a> disse: «A historia +transformou-se ha cem annos na Allemanha e ha sessenta em França, pelo estudo +das litteraturas.» A litteratura copia o povo, como o livro copia o homem. Os +monumentos litterarios são a concretisação da alma das nações: tudo o que ella +sentia no <i>momento</i> em que produziu, influenciada pela força do meio +physico, clima, e pelas disposições hereditarias, <i>raça</i>, está alli +condensado. Uma epopéa é um composto determinado pela acção simultanea<span class="pn">{61}</span> +d'estas tres forças primordiaes reconhecidas por Taine.</p> + +<p>Interrogado o <i>Mahabharata</i>, reproduz a nossos olhos o cyclo +tempestuoso das conquistas dos aryas, quando, avançando para o sul, se +propozeram assenhorear as regiões do Ganges. O <i>Ramayana</i> é tambem um +symbolo sob a fórma de uma epopéa. A serenidade e abundancia que succedem aos +trabalhos de Rama, para rehaver o throno e a esposa, representam a conquista +pacifica do Meio-dia da India depois da conquista guerreira. É o poema da +<i>posse</i>, como o <i>Mahabharata</i> é o poema da lucta. Ambos elles +respondem eloquentemente ás interrogações da Historia, ambos elles caracterisam +a alma da raça arya ao tempo em que rolava do alto do Thibet para, como uma +onda enorme, alagar talvez o mundo<a name="tex2html69" +href="#foot488"><sup>[69]</sup></a>. Eis-aqui porque já haviamos dito que as +obras de arte e de litteratura são as que mais profundamente caracterisam a +civilisação de um povo.</p> + +<p>Nos tempos modernos, a Historia, depois do rumo que lhe imprimiu Vico, pôde +extrahir grandes recursos do estudo dos symbolos; quando ella chegou a lêr +esses alphabetos mudos, permitta-se-nos a expressão, dos povos primitivos, +descobriu segredos importantissimos. Na poesia do <i>Ramayana</i> conseguiu +reconhecer em Rama e em<span class="pn">{62}</span> Sita uma dupla personificação da agricultura, da +força que move o arado e do sulco que esse movimento produz na terra<a +name="tex2html70" href="#foot489"><sup>[70]</sup></a>, o que plenamente +confirma a exegese em que o <i>Ramayana</i> é o poema da conquista do sul da +peninsula indostanica pelo trabalho sereno, pela paz. O symbolismo juridico, +interrogado pela Historia, produziu a <i>poesia do direito</i>, concepção +encantadora que em Portugal só tem originado, até hoje, um unico livro<a +name="tex2html71" href="#foot490"><sup>[71]</sup></a>. Assim é que a symbolica +vai encontrar na <i>stipulacão</i> a <i>palha</i> (<i>stipula</i>), que +intervinha nos contractos<a name="tex2html72" +href="#foot491"><sup>[72]</sup></a> e que até algumas vezes se cosia aos +documentos<a name="tex2html73" href="#foot492"><sup>[73]</sup></a>; na prova +pelo <i>fogo</i> o symbolo da pureza, porque, segundo os antigos, o fogo, sendo +o grande purificador, «não podia conjurar contra o innocente<a +name="tex2html74" href="#foot493"><sup>[74]</sup></a>.»</p> + +<p>Em Portugal, as mulheres accusadas de adulterio <i>purgavam-se a ferro +caldo</i>. O ferro, aquecido pelo fogo, accusava o crime ou a innocencia: o +fogo, diz o <i>Ramayana</i>, vê tudo o que ha de manifesto e tudo o que<span class="pn">{63}</span> +ha de occulto. Bastaria só este facto para demonstrar que o symbolismo tanto +abrangia a religião como o direito. Por um lado o fogo tinha um caracter +divino, encarnava-se em Vesta, a que os gregos chamavam Estia, <i>fogo +domestico</i><a name="tex2html75" href="#foot494"><sup>[75]</sup></a>; por +outro lado revestia um caracter juridico, porque pela prova do fogo ficava a +mulher legalmente rehabilitada. De modo que no <i>ferro caldo</i> não só se +póde distinguir o elemento religioso e o elemento juridico, mas tambem a +relação existente entre os dous elementos: sendo o adulterio um crime que +principalmente affecta a vida de familia, a superstição continuou a fazel-o +julgar pelo fogo, que na mythologia grega tinha um caracter divino de +domesticidade.</p> + +<p>Antigamente, o historiador fugia dos symbolos pela mesma razão que os +caminhantes fugiam da Sphynge: por não poder adivinhar o que elles diziam. Mas +depois de Vico, o primeiro philosopho da Historia, as allegorias tornaram-se +claras, luminosas. Desde esse momento tanto se dilatou a esphera da Historia, +que um só individuo passou a representar uma generalisação: Achilles o <i>valor +commum a todos os homens fortes</i>, Ulysses a <i>prudencia commum a todos os +sabios</i><a name="tex2html76" href="#foot495"><sup>[76]</sup></a>. Esta +generalisação illustrou ao mesmo passo o passado e o futuro: o passado, porque +interpretou a antiguidade; o futuro, porque produziu a etymologia das +linguagens poeticas.<span class="pn">{64}</span></p> + +<p>Pelo auxilio que a archeologia e o estudo das litteraturas vieram prestar á +Historia, chegou-se á concepção da ethnographia, sciencia que dá o conhecimento +dos usos, costumes, aptidões e religiões dos povos, e cuja denominação foi +fixada em 1826 por Balbi<a name="tex2html77" +href="#foot496"><sup>[77]</sup></a>. Esta nova sciencia veio, pois, completar o +estudo do grupo humano sob o ponto de vista zoologico (anthropologia) e sob o +ponto de vista historico e geographico (ethnologia). Como se fossem tres +grandes linhas, as tres sciencias cruzaram-se em triangulo: dentro d'elle ficou +o homem. O <i>homo sapiens</i> de Linneu mais propriamente se poderia denominar +desde então <i>homo triplex</i>.</p> + +<p>Toda a importancia da ethnographia não está, como por muito tempo se julgou, +no interesse maior ou menor que póde despertar á imaginação o conhecimento da +estranha maneira de viver dos povos. A sciencia moderna deu ás narrativas dos +<i>touristes</i> um valor até agora desconhecido, e foi d'este modo que a +ethnographia revestiu um caracter altamente scientifico. Sob este ponto de +vista, presta um grande auxilio a interpretação dos phenomenos sociaes, á +sciencia da sociedade ou <i>sociologia</i>, como lhe chamou Augusto Comte. +Herbert Spencer encontrou grandes subsidios na historia das superstições, +quando reconheceu que ellas pertenciam ao numero de certas particularidades de +que parcialmente depende a maneira por que a unidade social se comporta no +meio<span class="pn">{65}</span> das condições ambientes, inorganicas, organicas e superorganicas<a +name="tex2html78" href="#foot497"><sup>[78]</sup></a>.</p> + +<p>As civilisações antigas teem-se reconstruido em grande parte pelas +investigações archeologicas, que são para a ethnographia um poderoso +instrumento de averiguação. A sciencia moderna tem conseguido fazer a historia +geral da civilisação da humanidade desde a idade de pedra até nossos dias, como +se o homem actual podesse realmente retroceder ao passado e voltar ao presente +com as provas materiaes do modo como a sua existencia se desenvolveu, de cyclo +em cyclo, sobre a face da terra. Na grande resurreição da humanidade pela +sciencia, o mais insignificante fragmento de barro serviu para a reconstrucção +historica de uma civilisação.</p> + +<p>Do conjuncto das sciencias que estudam o passado, e que são dominadas pela +Historia, porque se apoiam sobre factos historicos, trazem origem algumas +sciencias novas, entre as quaes mencionaremos a <i>sciencia das religiões</i>. +Com quanto recentissima, são realmente admiraveis as conquistas, as descobertas +já realisadas por esta sciencia. Uma d'ellas é, seguramente, a affirmação da +unidade historica das religiões. A crença de que cada religião possuia sua +autochthonia, ou pelo menos certa originalidade, cahiu perante o resultado das +investigações modernas, as quaes poderam levar o espirito humano<span class="pn">{66}</span> á +conclusão de que as religiões teem uma origem asiatica commum, que se encontra +nos <i>Vedas</i>. A demonstração d'esta verdade é admiravelmente desenvolvida +por Emilio Durnouf<a name="tex2html79" href="#foot498"><sup>[79]</sup></a>.</p> + +<p>Achou-se que as religiões derivam de um elemento primitivo, o fogo, +considerado sob o ponto de vista de tres funcções distinctas: uma +<i>physica</i>, outra <i>psychologica</i>, a ultima <i>metaphysica</i>. A estas +tres funcções correspondem tres phenomenos, que impressionaram o espirito dos +aryas, quando ainda estanciavam nos valles do Oxus: o movimento, a vida, o +pensamento. Estes tres phenomenos abrangem a totalidade dos phenomenos +naturaes.</p> + +<p>Espraiando a vista por todas as cousas inanimadas que os rodeavam, os aryas +chegaram á convicção de que todas essas cousas se moviam por effeito do calor, +proveniente do sol. Reconheceram o calor na chamma, no raio, nas nuvens +formadas pela evaporação das aguas, no vento produzido pelos movimentos +vibratorios do ar devidos á presença do calor, que o rarefaz, ou á sua +ausencia, que o condensa; em tudo, finalmente. Depois, fixando a sua attenção +nos corpos organicos, encontraram a mesma causa de vida: viram os vegetaes +enfolhar e florir animados pelo ósculo tépido da primavera, e pender feridos de +morte no inverno; viram os animaes mover-se cheios de actividade e de vida +quando o calor lhes<span class="pn">{67}</span> retemperava os membros, e enfermar e morrer quando o +frio os enregelava.</p> + +<p>Portanto foram levados a concluir que residia no calor a causa de todo o +movimento nos corpos inorganicos, e de todos as phenomenos vitaes nos corpos +organisados.</p> + +<p>Mas a presença ou a ausencia de calor, estudada no corpo humano, produziu a +noção de tres funcções differentes.</p> + +<p>F<small>UNCÇÃO PHYSICA.</small>—O corpo do homem ganhava pelo calor a +actividade, a vida, que perdia pelo resfriamento.</p> + +<p>F<small>UNCÇÃO PSYCHOLOGIGA.</small>—Desde o momento em que o corpo do +homem se tornava cadaver por um resfriamento geral, a faculdade de pensar +desapparecia.</p> + +<p>F<small>UNCÇÃO METAPHYSICA.</small>—Se pela ausencia da luz o mundo ficasse +sepultado em trevas, a intelligencia humana, dado que podesse funccionar, +ficaria inteiramente desajudada do auxilio da vista, que é o sentido pelo qual +nós adquirimos a percepção de quasi todas as idéas, especialmente a idéa da +harmonia das cousas, e conseguintemente do principio de que emanam<a +name="tex2html80" href="#foot499"><sup>[80]</sup></a>.</p> + +<p>Assentes estes principios, vejamos como se póde affirmar a unidade historica +das religiões pela sua filiação commum no elemento vedico do calor. Tomemos na +religião<span class="pn">{68}</span> que seguimos um exemplo, o dogma da trindade.</p> + +<p>Temos no christianismo o <i>Padre</i>, o <i>Filho</i> e o <i>Espirito</i>, e +na trindade aryana a concepção de tres deuses que resumiam o nucleo da +theogonia: <i>Savitri</i>, <i>Agni</i> e <i>Vâyu</i>.</p> + +<p><i>Savitri</i>, o productor, o pai celeste, é o sol.</p> + +<p><i>Agni</i>, é o fogo, habita na terra. O seu nascimento é mystico: se por +um lado tem um pai terrestre, <i>Twastri</i>, que quer dizer +<i>carpinteiro</i>, por outro lado descende do céo, e foi concebido pela +vontade de <i>Vâyu</i> no ventre de <i>Mâyâ</i>.</p> + +<p><i>Vâyu</i>, no sentido material é o vento, o ar em movimento, que alimenta +a luz e o fogo; no sentido metaphysico é o espirito de vida, a immortalidade em +si mesma.</p> + +<p>Todos estes tres deuses estão, pois, substancialmente identificados na +trindade aryana como na trindade christã. São uma concepção metaphysica baseada +sobre uma concepção muito vaga da natureza.</p> + +<p>Mas a unidade historica das religiões póde ainda acompanhar-se na vida de +<i>Agni</i>, o deus que se humanisa, porque desce á terra.</p> + +<p><i>Twastri</i>, seu pai, é o carpinteiro, que fricciona os dous bocados de +madeira, de que ha-de sahir o «filho divino».</p> + +<p><i>Mâyâ</i> é a personificação da potencia productora sob a fórma de +mulher.<span class="pn">{69}</span></p> + +<p><i>Agni</i> nasce homem e transforma-se em deus quando um sacerdote, +collocando-o sobre o altar, derramou sobre a sua cabeça o licôr sagrado, +<i>sôma</i>, e o ungiu com a manteiga do sacrificio. Entre os aryas da Asia +central a vacca era o typo por excellencia dos animaes, produz o leite, o qual +produz a manteiga. A manteiga clarificada é a materia animal que melhor serve +para alimentar o fogo. O <i>sôma</i> é um licôr alcoolico, produzido pelo succo +da asclepias acida, que, fermentado, e lançado ao fogo, cria chammas +esplendidas.</p> + +<p>O <i>sôma</i> das religiões do Oriente transforma-se nas religiões do +Occidente em vinho, o licôr sagrado. Assim como <i>Agni</i> reside no +<i>sôma</i>, Christo reside no vinho, tambem sob uma fórma mystica. Ainda vamos +encontrar no vinho o elemento vedico do fogo: a uva amadurece pelo calor, +concentra-o, e transmitte-o a quem bebe o seu succo. O bolo que na religião +indiana é feito de farinha e manteiga, materias eminentemente combustiveis e +nutritivas, transforma-se na religião christa na hostia feita de farinha e +agua, convindo lembrar que a combinação do hydrogenio com o oxygenio, de que +resulta a agua, tem por condição, essencial o calor. <i>Agni</i> como Christo +residem n'esta offrenda solida: são o sacrificador que se offerece a si mesmo +como victima.</p> + +<p>Eis o dogma da eucharistia.</p> + +<p>Seguindo o luminoso rastro de Burnouf, poderiamos levar mais longe a +demonstração da unidade historica das religiões, mesmo sem sahirmos do +christianismo;<span class="pn">{70}</span> poderiamos descer a minuciosidades, mostrar como a +<i>estrella dos magos</i> é a <i>savanagraha</i>, a estrella fatidica; como a +vacca do presepe de Bethlem é a vacca mystica dos aryas, e como nem siquer +falta o jumentinho que para alguns áryas traz sobre o dorso o fructo de que se +extrahe o licôr sagrado; pelo que especialmente toca aos ritos, seria curioso +mostrar, por exemplo, acompanhando Burnouf, como a grande época do anno +christão consiste justamente nas ceremonias da <i>renovação do fogo</i>, quer +dizer, na Paschoa; mas o nosso fim é tão sómente fazer sentir que a unidade das +religiões é uma verdade, e que essa verdade foi conquistada por uma sciencia +nova, baseada sobre factos historicos, e portanto filha da Historia universal +philosophica.</p> + +<p>A grande obra de simplificação da Philosophia positiva releva principalmente +no mobil que impelliu o espirito humano a descobrir o principio de unidade das +religiões.</p> + +<p>Realmente é assombroso acompanhar a marcha da idéa religiosa, semelhante a +uma grande corrente aryana, desde o seu berço asiatico, e através das +mythologias dos antigos povos gregos, latinos e germanos, até ao christianismo, +em que <i>Agnus</i>, o cordeiro immaculado, parece não ser mais que uma leve +alteração morphologica de <i>Agni</i>.</p> + +<p>A sciencia moderna está já dirigindo as suas vistas para a America, no +indefesso empenho de encontrar a unidade das origens da civilisação. De +Chavencey, estudando<span class="pn">{71}</span> o mytho americano de Votan, encontrou n'elle uma +contrafacção, á parte o elemento indigena já introduzido, das legendas +asiaticas de Phra-Ruang e de Pyú-Tsau-ti<a name="tex2html81" +href="#foot500"><sup>[81]</sup></a>. «Tem-se notado, observa Maury<a +name="tex2html82" href="#foot501"><sup>[82]</sup></a> a analogia de muitas +tradições religiosas dos antigos mexicanos e de algumas crenças christãs ou +buddicas, a conformidade de certos monumentos e symbolos da America central com +figuras e emblemas christãos e japonezes. As populações boreaes encontravam um +caminho já traçado para o novo mundo pelo estreito de Behring e ilhas +Aleutianas.»</p> + +<p>Especialmente pelo que toca á religião, a philosophia applicada á Historia é +muitas vezes accusada de acintemente demolidora. Esta accusação, na materia de +que vimos tratando, refere-se principalmente á vida de Christo. Ora é preciso +observar que deve haver n'este assumpto tres pontos distinctos, correspondentes +a tres elementos differentes: a theoria de Christo, a legenda de Christo e a +vida de Jesus<a name="tex2html83" href="#foot502"><sup>[83]</sup></a>. Christo, +estudado na pureza sublime da sua vida, merece o respeito de todos os +philosophos. «De alguma crença que a critica racional nos despoje, diz Stuart +Mill<a name="tex2html84" href="#foot503"><sup>[84]</sup></a>, resta-nos +Christo; figura unica,<span class="pn">{72}</span> que se eleva tanto acima dos seus precursores como +dos seus successores, e d'aquelles mesmos que tiveram o privilegio de receber +directamente de sua bocca o seu ensinamento.»</p> + +<p>Desde o momento em que o espirito moderno tratou de procurar nos factos +sociaes a estabilidade de principios que rege os phenomenos naturaes, querendo +assim reduzir todas as nossas concepções fundamentaes a um estado de +homogeneidade e, portanto, dar á philosophia um caracter definitivo de +positividade, a Historia, fornecendo uma grande base para os estudos de +observação, veio occupar um ponto culminante na esphera dos conhecimentos +humanos. Esta superioridade de posição, que a Historia conquistou na hierarchia +das sciencias, provém da necessaria relação que ha entre os factos e as idéas. +De modo que se póde dizer que um grande numero de sciencias, se é que não são +todas ellas, concorrem de mãos dadas para erigir o vasto monumento da Historia. +As obras colossaes precisam de um immenso concurso de trabalho; quando Cheops e +Cephten pensaram em levantar as duas mais altas pyramides do Egypto, diz-se que +cêrca de cem mil homens carreavam materiaes. A Historia é tambem uma pyramide. +E assim como as do Egypto dominavam com as suas quatro faces os quatro pontos +cardeaes do mundo, a Historia abrange com a sua vista de aguia a esphera dos +conhecimentos humanos.<span class="pn">{73}</span></p> + +<p><span class="pn">{74}</span></p> +<p> </p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">((1878))</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot427" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Referimo-nos +principalmente ás antas ou dolmens. Vide Adolpho Coelho, <i>Algumas observações +ácerca do diccionario bibliographico portuguez e seu auctor</i>, pag. 10, e +Augusto Filippe Simões, <i>Introducção á archeologia da peninsula iberica</i>, +pag. 76.</p> + +<p><a name="foot428" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> <i>Historia +universal</i>, introducção, cap. <small>VII</small>.</p> + +<p><a name="foot429" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <i>Introduction a la +philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p> + +<p><a name="foot430" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Les origines de la +civilisation</i>, cap. <small>IX</small>, traducção franceza de Ed. Barbier.</p> + +<p><a name="foot431" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>Expedition to the +Rocky mountains</i>, vol. <small>III</small>, pag. 52.</p> + +<p><a name="foot432" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <i>Scienza nuova</i>, +liv. <small>II</small>, Da sabedoria poetica.</p> + +<p><a name="foot433" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> <i>L'homme selon la +science</i>, traducção franceza de Ch. Letourneau, pag. 235.</p> + +<p><a name="foot434" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Les origines de la +civilisation</i>, cap. <small>III</small>.</p> + +<p><a name="foot435" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <i>Scienza nuova</i>, +liv. <small>II</small>.</p> + +<p><a name="foot436" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Paulo Janet. <i>A +familia.</i></p> + +<p><a name="foot437" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> <i>Considérations +sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence.</i> Cap. +<small>I</small>.</p> + +<p><a name="foot438" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> <i>Introduction a +l'histoire de la philosophie</i>, neuvième leçon.</p> + +<p><a name="foot439" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Theophilo Braga. +<i>Historia da poesia popular portugueza.</i></p> + +<p><a name="foot440" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> <i>Les sciences et +la philosophie</i>, por Th.-Henri Martin, pag. 30.</p> + +<p><a name="foot441" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> Cantu. <i>Hist. +univ.</i> Liv. <small>XI</small>, cap. <small>I</small>.</p> + +<p><a name="foot442" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Ibidem, cap. +<small>IV</small>.</p> + +<p><a name="foot443" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> Cantu. <i>Hist. +univ.</i> Liv. <small>XI</small>, cap. <small>VI</small>.</p> + +<p><a name="foot444" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> <i>Introduction a +la philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p> + +<p><a name="foot445" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> <i>Introduction a +l'histoire de la philosophie</i>, sixième édition, pag. 228.</p> + +<p><a name="foot446" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> <i>Principes de +philosophie positive</i>, por Augusto Comte, pag. 96.</p> + +<p><a name="foot447" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Cousin. <i>Premiers +essais de philosophie</i>, pag. 380.</p> + +<p><a name="foot161" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Ibidem, pag. 379.</p> + +<p><a name="foot448" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> <i>Discours sur +l'histoire universelle</i>—Avant-propos.</p> + +<p><a name="foot449" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> <i>Disc. sur +l'hist. univ.</i> Troisième partie, chapitre <small>VIII</small>.</p> + +<p><a name="foot450" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> <i>Introduction a +l'histoire de la philosophie</i>, onzième leçon.</p> + +<p><a name="foot451" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> Theophilo Braga. +<i>Poesia do direito</i>, pag. 168.</p> + +<p><a name="foot452" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> Vico. <i>Scienza +nuova</i>, liv. <small>I</small>.</p> + +<p><a name="foot453" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> <i>Scienza +nuova.</i> Liv. <small>IV</small>.</p> + +<p><a name="foot454" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> <i>Historia +universal.</i> Introd.</p> + +<p><a name="foot455" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> <i>Introduction a +l'histoire de la philosophie</i>, sixième Edition, pag. 239 e 240.</p> + +<p><a name="foot456" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> <i>Poesia do +Direito</i>, pag. 13.</p> + +<p><a name="foot457" href="#tex2html32"><sup>[32]</sup></a> «O seu livro é um +Apocalypse, cada dia se descobre alli o germen d'uma sciencia nova, a +Philosophia da Historia, a Symbolica do Direito, a Critica da Arte.» Theophilo +Braga. <i>A Poesia do Direito.</i></p> + +<p><a name="foot458" href="#tex2html33"><sup>[33]</sup></a> H. Taine. <i>La +Fontaine et ses fables</i>, troisième édition, pag. 8.</p> + +<p><a name="foot459" href="#tex2html34"><sup>[34]</sup></a> <i>Histoire de la +litteratura anglaise</i>, tome premier, pag. 22.</p> + +<p><a name="foot460" href="#tex2html35"><sup>[35]</sup></a> <i>Physiologie des +ecrivains et des artistes.</i></p> + +<p><a name="foot461" href="#tex2html36"><sup>[36]</sup></a> <i>Le monde +marche</i>, seconde édition, pag. 214.</p> + +<p><a name="foot462" href="#tex2html37"><sup>[37]</sup></a> <i>De l'esprit des +lois</i>, livre quatorzième, chapitre <small>III</small>.</p> + +<p><a name="foot463" href="#tex2html38"><sup>[38]</sup></a> <i>Histoire de la +navigation de Jean Hugues de Linschot, hollandois, aux Indes Orientales.</i> +Amsterdam, 1619.</p> + +<p><a name="foot464" href="#tex2html39"><sup>[39]</sup></a> Capitulos +<small>XXIX</small> e <small>XXX</small>.</p> + +<p><a name="foot465" href="#tex2html40"><sup>[40]</sup></a> <i>Introduction a +la philosophie de l'histoire de l'humanité.</i></p> + +<p><a name="foot466" href="#tex2html41"><sup>[41]</sup></a> Theophilo Braga. +<i>Introducção á Historia da litteratura portugueza</i>, pag. 6.</p> + +<p><a name="foot467" href="#tex2html42"><sup>[42]</sup></a> Joaquim Pedro +Fragoso de Siqueira. <i>Memorias economicas da Academia</i>, tom. +<small>V</small>.</p> + +<p><a name="foot468" href="#tex2html43"><sup>[43]</sup></a> <i>Les peuples de +la France</i>, pag. 16.</p> + +<p><a name="foot469" href="#tex2html44"><sup>[44]</sup></a> <i>Le génie des +religions.</i> (Ed. de 1869), cap. <small>II</small>, pag. 15.</p> + +<p><a name="foot470" href="#tex2html45"><sup>[45]</sup></a> Jacques de +Boisjoslin. <i>Les peuples de la France</i>, pag. 12 e 155.</p> + +<p><a name="foot471" href="#tex2html46"><sup>[46]</sup></a> <i>Lettres sur la +philosophie de l'histoire</i>, pag. 115.</p> + +<p><a name="foot472" href="#tex2html47"><sup>[47]</sup></a> <i>Principes de +philosophie positive</i>, pag. 140.</p> + +<p><a name="foot260" href="#tex2html48"><sup>[48]</sup></a> Obra citada, pag. +88.</p> + +<p><a name="foot261" href="#tex2html49"><sup>[49]</sup></a> Idem, pag. 119.</p> + +<p><a name="foot473" href="#tex2html50"><sup>[50]</sup></a> <i>Introducção á +archeologia da peninsula iberica</i> pelo dr. Augusto Filippe Simões, pag. 2.</p> + +<p><a name="foot271" href="#tex2html51"><sup>[51]</sup></a> «Quem souber porém +que o bronze é uma liga de cobre e estanho, que o segundo d'estes metaes é +menos commum que o primeiro e de mais difficil extracção, e finalmente que, sem +se conhecerem ambos, não se inventaria a sua liga, de certo perguntará porque +se não faz preceder a época do bronze pela época do cobre? A razão é simples. +Em quasi todas as nações da Europa apparecem tão numerosos os objectos de +bronze e tão raros os de cobre, que se teem refusado os archeologos a admittir +uma época só caracterisada por este metal.» Dr. Augusto Filippe Simões.</p> + +<p><a name="foot474" href="#tex2html52"><sup>[52]</sup></a> Capitulo +<small>VI</small> do <i>Genesis</i>.</p> + +<p><a name="foot475" href="#tex2html53"><sup>[53]</sup></a> Com razão observa +Quatrefages que o polygenismo, habitualmente olhado como um resultado do +<i>livre pensamento</i>, começou por ser biblico e dogmatico. <i>L'espèce +humaine</i>, deuzième édition, pag. 22.</p> + +<p><a name="foot278" href="#tex2html54"><sup>[54]</sup></a> Quatrefages. A +proposito da discussão americana entre esclavistas e negrophilos.</p> + +<p><a name="foot476" href="#tex2html55"><sup>[55]</sup></a> Dumont. <i>Hæckel +et la théorie de l'évolution en Allemagne.</i> Segundo Dumont a theoria da +evolução apparece em germen nas velhas religiões pantheistas da India e do +Egypto. O philosopho Parmenides concebia a geração da vida como gradual e +resultante d'ensaios successivos. Chapitre premier.</p> + +<p><a name="foot477" href="#tex2html56"><sup>[56]</sup></a> Topinard. +<i>L'Anthropologie</i>, pag. 550.</p> + +<p><a name="foot286" href="#tex2html57"><sup>[57]</sup></a> Este ponto é +considerado inatacavel por Quatrefages. «Se toda a terra, diz elle, não é +invadida dentro de alguns annos por certas especies, se os rios e os oceanos +não são igualmente invadidos, a estas luctas se deve.»</p> + +<p><a name="foot478" href="#tex2html58"><sup>[58]</sup></a> As peripecias +d'este debate vem largamente narradas no livro <i>La genèse des espèces</i>, +publicado em 1873 por H. de Valroger, padre do Oratorio (pag. 38 e seg.) e no +livro <i>Du darwinisme ou l'homme-singe</i> pelo dr. Constantin James, +publicado em 1877. Este ultimo livro é um manifesto plagiato do primeiro. Diz, +por exemplo, o padre Valroger: «M. Claude Bernard, A. Dumas, M. de Quatrefages +e M. Payen combattirent les theses de M. Pouchet, en s'appuyant sur leurs +propres expériences, et signalèrent des causes d'erreur dont M. Pouchet +paraissait ne pas s'être préservé. L'Academie proposa l'examen de la question +en litige comme sujet d'un de ses prix.» Diz o dr. James, copiando quasi +textualmente, sem citar o padre do Oratorio: «MM. Claude Bernard, Dumas, de +Quatrefages e Payen, combattirent la thèse de M. Pouchet, en s'appuyant sur +leurs propres expériences, et signalerent de plus les causes d'erreur dont il +n'avait pas su se garantir. C'est alors que l'Academie proposa l'examen de la +question en litige comme sujet d'un de ses prix!» (Pag. 79).</p> + +<p><a name="foot293" href="#tex2html59"><sup>[59]</sup></a> De Boisjoslin cita, +entre outros factos, o dos judeus haverem deixado de fallar hebreu seiscentos +annos antes de Christo, e o dos francos terem perdido a lingua teutonica +trezentos annos antes de Clovis.</p> + +<p><a name="foot479" href="#tex2html60"><sup>[60]</sup></a> Hovelacque. <i>La +linguistique</i>, pag. 3.</p> + +<p><a name="foot480" href="#tex2html61"><sup>[61]</sup></a> <i>Études de +linguistique et de philologie</i> par André Lefévre, pag. 41.</p> + +<p><a name="foot481" href="#tex2html62"><sup>[62]</sup></a> Theodoro Benfey. +Citado pelo snr. Adolpho Coelho no seu opusculo <i>Sobre a necessidade da +introducção do ensino da glottica em Portugal</i>, pag. 4.</p> + +<p><a name="foot482" href="#tex2html63"><sup>[63]</sup></a> <i>La +linguistique</i>, pag. 13.</p> + +<p><a name="foot483" href="#tex2html64"><sup>[64]</sup></a> <i>Les origines de +la civilisation</i>, pag. 416.</p> + +<p><a name="foot484" href="#tex2html65"><sup>[65]</sup></a> <i>Études de +linguistique et de philologie</i>, pag. 94.</p> + +<p><a name="foot485" href="#tex2html66"><sup>[66]</sup></a> <i>Nouvelles leçons +sur la science du langage</i>, traducção franceza de Harris e Perrot, pag. 318.</p> + +<p><a name="foot486" href="#tex2html67"><sup>[67]</sup></a> Lubbock. <i>Les +origines de la civilisation</i>, pag. 425 e 426.</p> + +<p><a name="foot487" href="#tex2html68"><sup>[68]</sup></a> <i>Histoire de la +littérature anglaise</i>, tome premier.</p> + +<p><a name="foot488" href="#tex2html69"><sup>[69]</sup></a> Dr. Theophilo +Braga: «... esta raça conhecida pelo nome de indo-europêa, é a que pelas suas +condições de ubiquidade, que lhe dá a sciencia e o poder, subsistira como unica +na terra.» <i>Hist. Univ.</i>, fasc. <small>I</small>, pag. 55.</p> + +<p><a name="foot489" href="#tex2html70"><sup>[70]</sup></a> «Minha filha Sita, +nobre premio da força, não recebeu a vida no seio de uma mulher; esta virgem de +encantadoras fórmas, que se diria filha dos Immortaes, nasceu de um +<i>sulco</i> aberto para o sacrificio. Eu a dou como esposa a Rama; elle +heroicamente a mereceu por sua <i>força</i> e <i>vigor</i>.» <i>Ramayana</i>, +trad, de Hippolyte Fauche.</p> + +<p><a name="foot490" href="#tex2html71"><sup>[71]</sup></a> Referimo-nos á +<i>Poesia do Direito</i> do snr. dr. Theophilo Braga.</p> + +<p><a name="foot491" href="#tex2html72"><sup>[72]</sup></a> <i>Poesia do +Direito</i>, pag. <small>XIV</small>.</p> + +<p><a name="foot492" href="#tex2html73"><sup>[73]</sup></a> <i>Idem</i>, pag. +62.</p> + +<p><a name="foot493" href="#tex2html74"><sup>[74]</sup></a> <i>Idem</i>, pag. +66.</p> + +<p><a name="foot494" href="#tex2html75"><sup>[75]</sup></a> <i>O Fogo</i>, por +F. da Fonseca Benevides.</p> + +<p><a name="foot495" href="#tex2html76"><sup>[76]</sup></a> Vico. <i>Scienza +nuova.</i> Liv. <small>II</small>. <i>Da logica poetica.</i></p> + +<p><a name="foot496" href="#tex2html77"><sup>[77]</sup></a> <i>Atlas +ethnographique.</i></p> + +<p><a name="foot497" href="#tex2html78"><sup>[78]</sup></a> <i>Principes de +sociologie</i>, trad. franceza de Cazelles, pag. 137.</p> + +<p><a name="foot498" href="#tex2html79"><sup>[79]</sup></a> <i>La science des +religions.</i></p> + +<p><a name="foot499" href="#tex2html80"><sup>[80]</sup></a> Emilio Burnouf. +<i>La science des religions</i>, cap. <small>VIII</small>, pag. 208 e +seguintes. (Ed. de 1872).</p> + +<p><a name="foot500" href="#tex2html81"><sup>[81]</sup></a> <i>Le mythe de +Votan, étude sur les origines asiatiques de la civilisation américaine</i>, +pag. 87.</p> + +<p><a name="foot501" href="#tex2html82"><sup>[82]</sup></a> <i>La terre et +l'homme</i>, quatrième edition, pag 485.</p> + +<p><a name="foot502" href="#tex2html83"><sup>[83]</sup></a> Burnouf. <i>La +science des religions</i>, pag. 242.</p> + +<p><a name="foot503" href="#tex2html84"><sup>[84]</sup></a> <i>Essais sur la +religion</i>, traducção franceza de Cazelles, pag. 237.</p> +</div> +</div> + +<hr class="full"> +<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK DA IMPORTANCIA DA HISTORIA UNIVERSAL PHILOSOPHICA NA ESPHERA DOS CONHECIMENTOS HUMANOS***</p> +<p>******* This file should be named 33068-h.txt or 33068-h.zip *******</p> +<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br> +<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/3/0/6/33068">http://www.gutenberg.org/3/3/0/6/33068</a></p> +<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed.</p> + +<p>Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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