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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal
+ (folheto para poucos)
+
+Author: Manoel Caldas Cordeiro
+
+Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
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+
+Produced by Pedro Saborano
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+ _Manoel Caldas Cordeiro_
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+ (FOLHETO PARA POUCOS)
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1890
+
+
+
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+
+
+PUBLICAÇÕES DO AUTOR
+
+_A Vigilia_, n.º 1, 1886.
+
+_A Vigilia_, n.º 2, 1886.
+
+_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888.
+
+_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888.
+
+_O Marquez de Pombal_, 1890.
+
+_Rimes Folles_ (em preparação).
+
+_Contos Sinistros_ (em preparação)
+
+
+
+
+ _Manoel Caldas Cordeiro_
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+ (FOLHETO PARA POUCOS)
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1890
+
+
+
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo
+com um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José,
+do providencial expurgador da impiedade; a envergadura do
+livre-pensador, do philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os
+contemporaneos.
+
+Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul--um visinho da
+sobre-loja, portanto,--chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha
+sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão
+Antonio Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito
+poderoso» e outras baboseiras. Os que viviam junto d'elle
+elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora
+corressem parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o
+ministro de Luiz XV.
+
+Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se
+quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são
+uma revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que
+não teve nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens
+que imitou sempre.
+
+Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier
+d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.
+
+Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre
+pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de
+administração mas não lhe imitou o _dandysmo_, a resignação espirituosa
+com que este _impio_ de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos
+braços de uma amante.[1]
+
+Quando queria ser _dandy_ o marquez de Pombal nem sequer o era como um
+doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto _dandysmo_, que
+historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é
+a maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um
+velho de entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao
+pescoço. Elle tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o
+plural.[2]
+
+As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez
+do marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem
+immortal, um homem deslocado no seu meio e no seu seculo. Elle estava
+até muito bem posto, o marquez--no meio e no seculo!
+
+O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia
+da lingua ingleza e a ausencia completa,--de resto propria do seu
+esquerdismo de desastrado--do puritanismo britannico, o grande
+puritanismo que antecedeu os _dandies_ George IV, Brummell e lord
+Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno
+do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um
+Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este
+ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia
+tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em
+carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na
+pedreira do coração.
+
+Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que
+lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais
+estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de
+Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o
+escriptor que herdasse os manuscriptos de um fallecido, e, publicando-os
+em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.
+
+N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de
+Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos
+da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de
+racional.
+
+ * * * * *
+
+A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas.
+Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm
+feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de
+conjecturas.
+
+Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal;
+outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira,
+que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não
+ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada
+póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi
+ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores. É provável
+que haja engano.
+
+N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da
+cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um
+braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o.
+
+Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez
+d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos.
+
+Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida
+em quasi todas as _Historias de Portugal_. Na do snr. Pinheiro Chagas
+vem elle narrado com muita exactidão.
+
+Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os
+Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia
+Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos,
+confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal
+com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras,
+fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam
+desprezivelmente por _Sebastião José_. O tribunal aceitou a confissão do
+duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados
+postos a tratos, segundo confessa Michelet e como logicamente se
+comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes,
+só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho.
+
+Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de
+torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a
+sua, dos seus, e do seu amo.
+
+Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de
+Inconfidencia, todo composto de malandros e de estupidos da casta
+d'elle? Sebastião José jurou perder os Tavoras, porque julgou, talvez
+com razão, que a tentativa da conspiração visava mais a elle do que ao rei.
+
+Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro.
+Corriam boatos de que elles eram cumplices--e elles ouviam perfeitamente
+esses boatos. Porque não fugiam?
+
+Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?
+
+Estavam innocentes.
+
+Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade
+com que aguardavam a colera do rei e do ministro que, no tenebroso
+espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as
+minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.
+
+A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:
+
+--Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle
+hesitaria em condemnar-vos innocentes?
+
+Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão
+fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.
+
+Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida
+soberba e uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.
+
+Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:--um malandro
+porquissimo e um gordurento repugnante.
+
+Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro
+tinha a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido
+seduzidas pelo rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso
+deboche».
+
+Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o
+desminta.
+
+Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido
+era o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José I.
+Não havia porém uma prova cabal contra elles.
+
+Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.
+
+ * * * * *
+
+Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos
+infelizes, considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer
+soffrer na alma e no corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os,
+torturando-os, insistindo d'uma maneira infame sobre o destino dos seus
+restos mortaes.
+
+Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos
+a fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa,
+escripto por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas
+minuciosidades bestiaes foram o additamento que o marquez fez á sentença
+condemnatoria.
+
+ * * * * *
+
+A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite
+sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As
+pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos
+todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora,
+tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem.
+
+Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.
+
+Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse
+contemplar o horroroso supplicio.
+
+Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos
+Bichos e sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime,
+o corregedor e a tropa.
+
+Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada
+por dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no
+começo da escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo.
+Recebeu-a o algoz, e, quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a
+vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia
+servir ao seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os
+seus dois filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas,
+os braços; contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a
+morte do pai da dos filhos.
+
+A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem
+a morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço,
+vendáram-n'a; e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.
+
+Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.
+
+Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido,
+pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe
+iam infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez.
+
+Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo,
+mas a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe
+sumia na garganta. Devia de dizer que morria innocente.
+
+Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa, passáram-lhe uma corda pelo
+pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os braços, procurávam
+estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os ossos, dava
+gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas pelos
+ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as
+dilacerantes minuciosidades d'estas mortes.
+
+Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de
+Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz
+do que o irmão:--os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as
+pernas e os braços.
+
+O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados.
+Antonio Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.
+
+Houve um pequeno intervallo.
+
+Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente,
+subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de
+quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da
+mulher, dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade
+se acabou por um momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete,
+amarráram-lhe os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu
+heroicamente[3].
+
+Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a
+familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente
+desfigurado, sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos.
+Estendido na aspa o carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e,
+emquanto o infeliz uivava uns gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os
+braços e as pernas. Eram tantos os gritos e as contorsões, que o
+carrasco apiedado--talvez!--deu-lhe com a maça na cabeça.
+
+O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros
+entraram pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos
+para a fogueira diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás
+minudencias da tortura. Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que
+queimavam os cadaveres das outras victimas. O vento soprava as chammas e
+avermelhava o corpo em braza do desgraçado que gritava, torcia,
+blasphemava, apesar das consolações dos dois frades.
+
+Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e
+ainda o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo
+misericordia. José Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se
+tinha evadido. Sobre este sujeito veja-se a historia curiosissima que
+vem no _Perfil do Marquez de Pombal_ do snr. Camillo Castello Branco. O
+cadafalso, os cadaveres, tudo, reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.
+
+Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal
+roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na
+ultima compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma _Genealogia
+dos Tavoras_ que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata
+foi achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se
+d'isso muito segredo.
+
+ * * * * *
+
+Reflexões sobre estes supplicios:
+
+O rei, convencido pelo marquez de Pombal da culpabilidade dos
+infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José não era
+animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de
+Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do
+povo. E, façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha
+marqueza. Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua
+porca vingança, induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a
+minima indulgencia. E depois como elle punha e dispunha de tudo, a
+vontade do rei, quando se não tornava imperiosa e rude, era para elle
+cousa secundaria.
+
+Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de
+esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os
+Tavoras os mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia;
+confisca-lhes os bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer
+pessoa, sob pena de confiscação de todos os bens, use do appellido de
+Tavora, e, passados nove annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o
+seu segundo filho José de Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e
+Lorena, sobrinha e prima dos sentenciados de Belem e filha de Nuno
+Gaspar de Tavora e Lorena!
+
+ * * * * *
+
+Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no
+forte da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José
+d'Oliveira, João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo
+d'Oliveira, Francisco Duarte e Gabriel Malagrida.
+
+Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua _Historia de Portugal_:
+
+«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda
+consagrada ao bem do paiz.»
+
+Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os
+Tavoras, o Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas
+masmorras, os roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este
+livre pensador, para acabar com elles mais summariamente, entregava ao
+Santo Officio!
+
+Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho
+septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de
+todos. Os devotos consideravam-n'o santo e procuravam-n'o com
+insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não
+era nem devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.
+
+Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil,
+onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas
+concessões justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo,
+aggravado por uma mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura
+mansa.
+
+Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao
+paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de
+visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições.
+Escreveu na prisão a _Vida da gloriosa Sant'Anna_, livro em que se
+revela o apogeu da loucura serena.
+
+Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus
+tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos,
+os annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta
+loucura. O livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o
+entregar á Inquisição. O processo foi summario e toda a
+responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte
+dos historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam
+a innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é
+escripta n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico,
+como se diz hoje, de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.
+
+Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como
+Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas
+pela corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado.
+
+Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo XVIII, Voltaire que não
+tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento de
+Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu
+sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo
+excesso do ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez
+julgasse, quando lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa
+na sua vida, que o philosopho d'algodão em rama achava ridiculo o
+jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando
+lhe fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle
+se certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o
+considerávam nem mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel
+que o seu real amo D. José.
+
+No _Perfil do Marquez de Pombal_ escreve Camillo Castello Branco: «A sua
+mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A
+Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas
+que trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns
+açoitados que se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira
+de entrudo.» Com effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na
+manhã de quarta-feira de cinza.[4]
+
+Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns
+Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto
+providencial que salvou do descredito os vinhos portuguezes e
+augmentou a exportação (dizem elles), não foi mais do que um
+monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria,
+contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia,
+absurdo, tolo, e, sobretudo, inutil.
+
+A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor
+da cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da
+aguardente no Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como
+eram contrarios á Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de
+vinho, fixada pela Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a
+declarar a quem o vendiam. Immortal legislador! Era d'esta e d'outras
+maneiras que este grande liberal impulsionava o commercio e a agricultura.
+
+Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este
+amontoado de desconchavos, de tolices e de privilegios.
+
+Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia
+dos vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis.
+
+Eu não quero crêr que operasse n'estas creaturas o espirito liberal
+e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande escriptor
+citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo.
+
+Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados
+um attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um
+protesto contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro!
+O real amo de Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico
+considerava-se mais rei do que o proprio rei, e quando via indisciplinas
+contra os seus decretos, punia-as como crimes de lesa-magestade. Assim
+bem podia o escrupuloso desembargador João Pacheco Pereira de
+Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o escrupulo de
+condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem podia o
+fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles
+selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos
+para Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o
+abreviar summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente
+enforcada por sua causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores
+que depois escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a inquebrantavel
+severidade dos grandes espiritos.»
+
+Finalmente--rejubilou Sebastião!--a 11 de outubro foi proferida a
+sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e
+confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação
+de metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma
+outra infinidade de penas um pouco menores.
+
+No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e
+quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma
+total dos condemnados ás diversas penas é de 237.
+
+E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao
+marquez, não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam
+de confessar a completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio
+e á exportação.
+
+Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas
+exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente
+inédita, ao mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos
+manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca
+publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os
+commissarios inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio:
+
+Annos ... Pipas
+
+1750 ... 15:121
+
+1751 ... 17:406
+
+1752 ... 13:238
+
+1753 ... 21:257
+
+1754 ... 14:773
+
+1755 ... 13:124
+
+1756 ... 12:094
+
+Somma ... 107:013
+
+Nos sete annos depois do monopolio:
+
+Annos ... Pipas
+
+1757 ... 11:317
+
+1758 ... 16:568
+
+1759 ... 16:413
+
+1760 ... 17:130
+
+1761 ... 14:785
+
+1762 ... 21:199
+
+1763 ... 9:683
+
+Somma ... 107:095
+
+Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras
+foi grande a diminuição depois do monopolio) mandou Sebastião de
+Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de desgraçados,
+que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a saude e
+com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer um
+estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem
+verdadeiramente extraordinario n'uma qualidade unica:--a suprema
+crueldade. Elle era um bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria
+considerado como um delirante furioso, mas que em Portugal é ainda
+tido--graças aos historiadores que fazem _historias_!--um ministro
+providencial.
+
+Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com
+uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o
+procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João
+Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa
+occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como
+desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez
+com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado com um sujeito
+por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer
+igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não
+queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas
+José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade.
+Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o
+processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do
+ministro.
+
+Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens
+de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos
+e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que
+considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os
+cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros».
+
+José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á
+mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de
+Mascarenhas leiam o _Perfil do Marquez de Pombal_ pelo snr. Camillo
+Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos
+menos importantes que digam respeito á crueldade de Pombal; por isso,
+lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão
+desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento.
+
+ * * * * *
+
+O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu
+porquissimo nariz--immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.
+
+Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe
+suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a
+celebração do santo sacrificio da missa».
+
+O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe
+provarem o grau de intelligencia.
+
+Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de
+todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.
+
+Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens
+religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu,
+não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do
+sacrificio, que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural,
+puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia
+de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a
+consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era
+falsificado com misturas reles.
+
+O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro _Le Marquis de
+Pombal_, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as
+misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da
+adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais
+conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os
+manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam
+ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital,
+depois do terremoto de 1 de novembro de 1755.
+
+Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e
+terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem que o nome dos
+ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de
+manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em
+1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo».
+Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil
+almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a
+narração.
+
+Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das
+Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes
+para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua
+Augusta e rua da Prata?
+
+O que pertence ao marquez--e traz o cunho indelevel d'esta
+individualidade--são os avisos mandados expedir depois do terremoto.
+Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas
+suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com
+quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante
+tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do
+monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando
+trabalhar nas obras da cidade bandos de operarios com fome,
+chicoteados e mal remunerados.
+
+Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo
+despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos
+pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo
+com que ha sete annos lhe celebraram o centenario.
+
+Porque--que isto se saiba!--quando este homem se retirou do poder
+deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria
+fome![5]
+
+ * * * * *
+
+Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas,
+já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais
+zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja.
+
+Em Hespanha, _ministrava_ Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um
+intrigante que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de
+Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as
+gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir
+em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez
+ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que
+monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da
+conversação. Monopolio facil:--monopolio do espirito dos outros:--de
+Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau
+romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por
+todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo
+sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e
+impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo!
+
+Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo,
+mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de
+poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos
+torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas,
+junto dos dois que com o seu cynismo mais concorreram para o
+descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o
+talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande
+faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos
+diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se
+espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje
+seriam--talvez!--dois citados escriptores illegiveis da _Revista dos
+Dois Mundos_! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que
+deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de
+queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições.
+
+A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus
+inimigos--até Voltaire!--protestáram contra ella.
+
+D'Alembert dizia:
+
+«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença
+contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que
+nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande
+numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.
+
+«A todos estes meios de augmentar a sua consideração e credito
+juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu
+comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra
+elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.»
+Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram
+expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os
+bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve _Dominus ac Redemptor_,
+que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.
+
+Firmava-o o pulso fraco,--mas parricida!--de Clemente XIV que em pleno
+peito apunhalava os seus mais zelosos filhos.
+
+Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á
+Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os
+supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de
+Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de
+supprimir a Ordem.[6]
+
+ * * * * *
+
+Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz
+casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca.
+Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque,
+dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal:
+e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi
+toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir
+de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança
+projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O
+rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o
+contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu.
+
+Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o
+empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a
+entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta
+disparando sobre elle um olhar carregado e colerico.
+
+O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe
+influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos
+de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro
+ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de
+odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus
+crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro
+desprezivel--e já desprezado!
+
+A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso,
+começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos
+maiores desfeiteadores o cardeal Cunha--um antigo amigo do marquez. Bom
+homem!
+
+D. José--o gordo--morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777.
+A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I
+que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da
+commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a
+villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo
+a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião
+de Carvalho. Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a
+apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se
+póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de
+escriptor.
+
+D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os
+desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha
+interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que
+se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que
+havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes
+enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data
+de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão!
+O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as
+garras--porque já não podia arranhar.
+
+Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos
+respeitos que não recebia, este velho--velho como a estupida maldade do
+seculo em que viveu--era o espantalho sinistro do seu passado
+terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era
+o espectro vivo d'um monstro amortalhado no sudario de infamias,
+parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que
+durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca--e fôra
+perdoado!
+
+É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os
+jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal,
+recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos
+despojos da invasão franceza.
+
+Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer
+que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira
+ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do
+chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos.
+
+ * * * * *
+
+Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os
+seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto
+n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez de Pombal
+morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais
+quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos
+um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus
+dias![7] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as
+minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a
+conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do
+Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma
+caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina
+para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante.
+
+FIM.
+
+ [1] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco _Perfil do
+ Marquez de Pombal_. Porto, 1882.
+
+ [2] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi
+ a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem
+ sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer
+ duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas
+ dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a
+ fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez
+ _l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello_, etc., etc.
+ Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13.
+
+ Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do
+ ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.
+
+ [3] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença,
+ deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos.
+ O rei modificou-lhes esta tremenda morte.
+
+ [4] 23 de fevereiro de 1757.
+
+ [5] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os
+ guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o.
+
+ [6] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower,
+ Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc.
+
+ [7] Foi tão medonho o supplicio do Pelle que os frades arrabidos
+ desmaiaram no meio da execução, e o carrasco para acabar com a
+ victima teve de estrangulal-a com o lenço.
+
+
+
+
+PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.
+
+_Cancella Velha, 70_
+
+
+
+
+
+OBRAS PUBLICADAS
+
+José de Sousa
+
+Notas de pedagogia philosophica. 1 vol. ... 400
+
+Caldas Cordeiro
+
+O Marquez de Pombal. (Folheto para poucos) ... 100
+
+Victor Hugo
+
+O rei diverte-se. Drama em cinco actos, em verso. Traducção de ACACIO
+ANTUNES. 1 vol. ... 600
+
+NO PRÉLO
+
+Teixeira Bastos
+
+Sciencia e Philosophia (Ensaios de critica positivista) ... 1 vol.
+
+Sá Chaves
+
+Episodios militares e casos contemporaneos (Etographias portuguezas) ...
+1 vol.
+
+
+
+
+
+
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+
+1.F.
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+Literary Archive Foundation
+
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+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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