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diff --git a/33057-8.txt b/33057-8.txt new file mode 100644 index 0000000..58397d4 --- /dev/null +++ b/33057-8.txt @@ -0,0 +1,1249 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal + (folheto para poucos) + +Author: Manoel Caldas Cordeiro + +Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + _Manoel Caldas Cordeiro_ + + O MARQUEZ DE POMBAL + + + (FOLHETO PARA POUCOS) + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1890 + + + + +O MARQUEZ DE POMBAL + + + + +PUBLICAÇÕES DO AUTOR + +_A Vigilia_, n.º 1, 1886. + +_A Vigilia_, n.º 2, 1886. + +_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888. + +_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888. + +_O Marquez de Pombal_, 1890. + +_Rimes Folles_ (em preparação). + +_Contos Sinistros_ (em preparação) + + + + + _Manoel Caldas Cordeiro_ + + O MARQUEZ DE POMBAL + + + (FOLHETO PARA POUCOS) + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1890 + + + + +O MARQUEZ DE POMBAL + + +Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo +com um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, +do providencial expurgador da impiedade; a envergadura do +livre-pensador, do philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os +contemporaneos. + +Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul--um visinho da +sobre-loja, portanto,--chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha +sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão +Antonio Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito +poderoso» e outras baboseiras. Os que viviam junto d'elle +elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora +corressem parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o +ministro de Luiz XV. + +Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se +quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são +uma revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que +não teve nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens +que imitou sempre. + +Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier +d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches. + +Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre +pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de +administração mas não lhe imitou o _dandysmo_, a resignação espirituosa +com que este _impio_ de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos +braços de uma amante.[1] + +Quando queria ser _dandy_ o marquez de Pombal nem sequer o era como um +doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto _dandysmo_, que +historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é +a maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um +velho de entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao +pescoço. Elle tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o +plural.[2] + +As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez +do marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem +immortal, um homem deslocado no seu meio e no seu seculo. Elle estava +até muito bem posto, o marquez--no meio e no seculo! + +O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia +da lingua ingleza e a ausencia completa,--de resto propria do seu +esquerdismo de desastrado--do puritanismo britannico, o grande +puritanismo que antecedeu os _dandies_ George IV, Brummell e lord +Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno +do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um +Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este +ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia +tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em +carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na +pedreira do coração. + +Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que +lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais +estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de +Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o +escriptor que herdasse os manuscriptos de um fallecido, e, publicando-os +em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo. + +N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de +Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos +da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de +racional. + + * * * * * + +A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. +Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm +feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de +conjecturas. + +Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; +outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, +que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não +ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada +póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi +ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores. É provável +que haja engano. + +N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da +cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um +braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o. + +Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez +d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos. + +Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida +em quasi todas as _Historias de Portugal_. Na do snr. Pinheiro Chagas +vem elle narrado com muita exactidão. + +Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os +Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia +Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, +confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal +com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, +fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam +desprezivelmente por _Sebastião José_. O tribunal aceitou a confissão do +duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados +postos a tratos, segundo confessa Michelet e como logicamente se +comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes, +só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho. + +Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de +torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a +sua, dos seus, e do seu amo. + +Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de +Inconfidencia, todo composto de malandros e de estupidos da casta +d'elle? Sebastião José jurou perder os Tavoras, porque julgou, talvez +com razão, que a tentativa da conspiração visava mais a elle do que ao rei. + +Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro. +Corriam boatos de que elles eram cumplices--e elles ouviam perfeitamente +esses boatos. Porque não fugiam? + +Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações? + +Estavam innocentes. + +Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade +com que aguardavam a colera do rei e do ministro que, no tenebroso +espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as +minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem. + +A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta: + +--Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle +hesitaria em condemnar-vos innocentes? + +Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão +fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo. + +Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida +soberba e uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal. + +Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:--um malandro +porquissimo e um gordurento repugnante. + +Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro +tinha a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido +seduzidas pelo rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso +deboche». + +Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o +desminta. + +Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido +era o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José I. +Não havia porém uma prova cabal contra elles. + +Isto não impediu que o tribunal os condemnasse. + + * * * * * + +Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos +infelizes, considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer +soffrer na alma e no corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, +torturando-os, insistindo d'uma maneira infame sobre o destino dos seus +restos mortaes. + +Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos +a fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, +escripto por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas +minuciosidades bestiaes foram o additamento que o marquez fez á sentença +condemnatoria. + + * * * * * + +A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite +sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As +pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos +todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, +tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem. + +Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos. + +Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse +contemplar o horroroso supplicio. + +Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos +Bichos e sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, +o corregedor e a tropa. + +Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada +por dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no +começo da escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. +Recebeu-a o algoz, e, quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a +vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia +servir ao seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os +seus dois filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, +os braços; contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a +morte do pai da dos filhos. + +A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem +a morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, +vendáram-n'a; e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça. + +Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto. + +Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido, +pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe +iam infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez. + +Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo, +mas a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe +sumia na garganta. Devia de dizer que morria innocente. + +Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa, passáram-lhe uma corda pelo +pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os braços, procurávam +estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os ossos, dava +gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas pelos +ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as +dilacerantes minuciosidades d'estas mortes. + +Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de +Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz +do que o irmão:--os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as +pernas e os braços. + +O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. +Antonio Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel. + +Houve um pequeno intervallo. + +Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente, +subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de +quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da +mulher, dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade +se acabou por um momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, +amarráram-lhe os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu +heroicamente[3]. + +Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a +familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente +desfigurado, sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. +Estendido na aspa o carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, +emquanto o infeliz uivava uns gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os +braços e as pernas. Eram tantos os gritos e as contorsões, que o +carrasco apiedado--talvez!--deu-lhe com a maça na cabeça. + +O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros +entraram pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos +para a fogueira diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás +minudencias da tortura. Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que +queimavam os cadaveres das outras victimas. O vento soprava as chammas e +avermelhava o corpo em braza do desgraçado que gritava, torcia, +blasphemava, apesar das consolações dos dois frades. + +Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e +ainda o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo +misericordia. José Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se +tinha evadido. Sobre este sujeito veja-se a historia curiosissima que +vem no _Perfil do Marquez de Pombal_ do snr. Camillo Castello Branco. O +cadafalso, os cadaveres, tudo, reduzido a cinzas, foi deitado ao mar. + +Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal +roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na +ultima compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma _Genealogia +dos Tavoras_ que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata +foi achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se +d'isso muito segredo. + + * * * * * + +Reflexões sobre estes supplicios: + +O rei, convencido pelo marquez de Pombal da culpabilidade dos +infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José não era +animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de +Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do +povo. E, façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha +marqueza. Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua +porca vingança, induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a +minima indulgencia. E depois como elle punha e dispunha de tudo, a +vontade do rei, quando se não tornava imperiosa e rude, era para elle +cousa secundaria. + +Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de +esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os +Tavoras os mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; +confisca-lhes os bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer +pessoa, sob pena de confiscação de todos os bens, use do appellido de +Tavora, e, passados nove annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o +seu segundo filho José de Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e +Lorena, sobrinha e prima dos sentenciados de Belem e filha de Nuno +Gaspar de Tavora e Lorena! + + * * * * * + +Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no +forte da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José +d'Oliveira, João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo +d'Oliveira, Francisco Duarte e Gabriel Malagrida. + +Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua _Historia de Portugal_: + +«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda +consagrada ao bem do paiz.» + +Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os +Tavoras, o Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas +masmorras, os roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este +livre pensador, para acabar com elles mais summariamente, entregava ao +Santo Officio! + +Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho +septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de +todos. Os devotos consideravam-n'o santo e procuravam-n'o com +insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não +era nem devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o. + +Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil, +onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas +concessões justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, +aggravado por uma mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura +mansa. + +Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao +paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de +visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. +Escreveu na prisão a _Vida da gloriosa Sant'Anna_, livro em que se +revela o apogeu da loucura serena. + +Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus +tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, +os annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta +loucura. O livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o +entregar á Inquisição. O processo foi summario e toda a +responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte +dos historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam +a innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é +escripta n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, +como se diz hoje, de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador. + +Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como +Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas +pela corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado. + +Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo XVIII, Voltaire que não +tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento de +Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu +sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo +excesso do ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez +julgasse, quando lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa +na sua vida, que o philosopho d'algodão em rama achava ridiculo o +jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando +lhe fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle +se certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o +considerávam nem mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel +que o seu real amo D. José. + +No _Perfil do Marquez de Pombal_ escreve Camillo Castello Branco: «A sua +mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A +Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas +que trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns +açoitados que se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira +de entrudo.» Com effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na +manhã de quarta-feira de cinza.[4] + +Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns +Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto +providencial que salvou do descredito os vinhos portuguezes e +augmentou a exportação (dizem elles), não foi mais do que um +monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria, +contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia, +absurdo, tolo, e, sobretudo, inutil. + +A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor +da cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da +aguardente no Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como +eram contrarios á Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de +vinho, fixada pela Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a +declarar a quem o vendiam. Immortal legislador! Era d'esta e d'outras +maneiras que este grande liberal impulsionava o commercio e a agricultura. + +Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este +amontoado de desconchavos, de tolices e de privilegios. + +Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia +dos vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis. + +Eu não quero crêr que operasse n'estas creaturas o espirito liberal +e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande escriptor +citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo. + +Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados +um attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um +protesto contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro! +O real amo de Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico +considerava-se mais rei do que o proprio rei, e quando via indisciplinas +contra os seus decretos, punia-as como crimes de lesa-magestade. Assim +bem podia o escrupuloso desembargador João Pacheco Pereira de +Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o escrupulo de +condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem podia o +fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles +selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos +para Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o +abreviar summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente +enforcada por sua causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores +que depois escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a inquebrantavel +severidade dos grandes espiritos.» + +Finalmente--rejubilou Sebastião!--a 11 de outubro foi proferida a +sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e +confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação +de metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma +outra infinidade de penas um pouco menores. + +No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e +quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma +total dos condemnados ás diversas penas é de 237. + +E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao +marquez, não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam +de confessar a completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio +e á exportação. + +Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas +exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente +inédita, ao mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos +manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca +publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os +commissarios inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio: + +Annos ... Pipas + +1750 ... 15:121 + +1751 ... 17:406 + +1752 ... 13:238 + +1753 ... 21:257 + +1754 ... 14:773 + +1755 ... 13:124 + +1756 ... 12:094 + +Somma ... 107:013 + +Nos sete annos depois do monopolio: + +Annos ... Pipas + +1757 ... 11:317 + +1758 ... 16:568 + +1759 ... 16:413 + +1760 ... 17:130 + +1761 ... 14:785 + +1762 ... 21:199 + +1763 ... 9:683 + +Somma ... 107:095 + +Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras +foi grande a diminuição depois do monopolio) mandou Sebastião de +Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de desgraçados, +que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a saude e +com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer um +estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem +verdadeiramente extraordinario n'uma qualidade unica:--a suprema +crueldade. Elle era um bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria +considerado como um delirante furioso, mas que em Portugal é ainda +tido--graças aos historiadores que fazem _historias_!--um ministro +providencial. + +Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com +uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o +procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João +Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa +occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como +desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez +com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado com um sujeito +por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer +igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não +queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas +José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade. +Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o +processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do +ministro. + +Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens +de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos +e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que +considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os +cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros». + +José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á +mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de +Mascarenhas leiam o _Perfil do Marquez de Pombal_ pelo snr. Camillo +Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos +menos importantes que digam respeito á crueldade de Pombal; por isso, +lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão +desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento. + + * * * * * + +O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu +porquissimo nariz--immundo e purguento deposito de rapé e de ranho. + +Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe +suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a +celebração do santo sacrificio da missa». + +O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe +provarem o grau de intelligencia. + +Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de +todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles. + +Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens +religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, +não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do +sacrificio, que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, +puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia +de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a +consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era +falsificado com misturas reles. + +O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro _Le Marquis de +Pombal_, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as +misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da +adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais +conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os +manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa. + + * * * * * + +Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam +ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, +depois do terremoto de 1 de novembro de 1755. + +Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e +terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem que o nome dos +ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de +manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em +1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». +Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil +almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a +narração. + +Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das +Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes +para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua +Augusta e rua da Prata? + +O que pertence ao marquez--e traz o cunho indelevel d'esta +individualidade--são os avisos mandados expedir depois do terremoto. +Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas +suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com +quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante +tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do +monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando +trabalhar nas obras da cidade bandos de operarios com fome, +chicoteados e mal remunerados. + +Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo +despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos +pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo +com que ha sete annos lhe celebraram o centenario. + +Porque--que isto se saiba!--quando este homem se retirou do poder +deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria +fome![5] + + * * * * * + +Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, +já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais +zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja. + +Em Hespanha, _ministrava_ Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um +intrigante que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de +Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as +gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir +em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez +ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que +monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da +conversação. Monopolio facil:--monopolio do espirito dos outros:--de +Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau +romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por +todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo +sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e +impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo! + +Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo, +mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de +poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos +torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, +junto dos dois que com o seu cynismo mais concorreram para o +descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o +talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande +faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos +diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se +espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje +seriam--talvez!--dois citados escriptores illegiveis da _Revista dos +Dois Mundos_! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que +deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de +queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições. + +A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus +inimigos--até Voltaire!--protestáram contra ella. + +D'Alembert dizia: + +«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença +contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que +nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande +numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc. + +«A todos estes meios de augmentar a sua consideração e credito +juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu +comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra +elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.» +Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram +expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os +bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve _Dominus ac Redemptor_, +que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina. + +Firmava-o o pulso fraco,--mas parricida!--de Clemente XIV que em pleno +peito apunhalava os seus mais zelosos filhos. + +Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á +Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os +supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de +Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de +supprimir a Ordem.[6] + + * * * * * + +Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz +casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. +Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, +dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: +e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi +toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir +de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança +projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O +rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o +contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu. + +Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o +empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a +entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta +disparando sobre elle um olhar carregado e colerico. + +O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe +influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos +de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro +ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de +odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus +crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro +desprezivel--e já desprezado! + +A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, +começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos +maiores desfeiteadores o cardeal Cunha--um antigo amigo do marquez. Bom +homem! + +D. José--o gordo--morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777. +A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I +que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da +commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a +villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo +a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião +de Carvalho. Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a +apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se +póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de +escriptor. + +D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os +desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha +interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que +se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que +havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes +enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data +de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! +O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as +garras--porque já não podia arranhar. + +Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos +respeitos que não recebia, este velho--velho como a estupida maldade do +seculo em que viveu--era o espantalho sinistro do seu passado +terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era +o espectro vivo d'um monstro amortalhado no sudario de infamias, +parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que +durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca--e fôra +perdoado! + +É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os +jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, +recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos +despojos da invasão franceza. + +Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer +que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira +ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do +chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos. + + * * * * * + +Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os +seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto +n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez de Pombal +morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais +quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos +um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus +dias![7] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as +minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a +conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do +Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma +caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina +para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante. + +FIM. + + [1] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco _Perfil do + Marquez de Pombal_. Porto, 1882. + + [2] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi + a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem + sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer + duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas + dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a + fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez + _l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello_, etc., etc. + Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13. + + Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do + ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade. + + [3] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença, + deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos. + O rei modificou-lhes esta tremenda morte. + + [4] 23 de fevereiro de 1757. + + [5] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os + guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o. + + [6] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, + Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc. + + [7] Foi tão medonho o supplicio do Pelle que os frades arrabidos + desmaiaram no meio da execução, e o carrasco para acabar com a + victima teve de estrangulal-a com o lenço. + + + + +PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA. + +_Cancella Velha, 70_ + + + + + +OBRAS PUBLICADAS + +José de Sousa + +Notas de pedagogia philosophica. 1 vol. ... 400 + +Caldas Cordeiro + +O Marquez de Pombal. (Folheto para poucos) ... 100 + +Victor Hugo + +O rei diverte-se. Drama em cinco actos, em verso. Traducção de ACACIO +ANTUNES. 1 vol. ... 600 + +NO PRÉLO + +Teixeira Bastos + +Sciencia e Philosophia (Ensaios de critica positivista) ... 1 vol. + +Sá Chaves + +Episodios militares e casos contemporaneos (Etographias portuguezas) ... +1 vol. + + + + + + +End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 33057-8.txt or 33057-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/0/5/33057/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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