diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 33057-8.txt | 1249 | ||||
| -rw-r--r-- | 33057-8.zip | bin | 0 -> 24252 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 33057-h.zip | bin | 0 -> 25829 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 33057-h/33057-h.htm | 1359 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
7 files changed, 2624 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/33057-8.txt b/33057-8.txt new file mode 100644 index 0000000..58397d4 --- /dev/null +++ b/33057-8.txt @@ -0,0 +1,1249 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal + (folheto para poucos) + +Author: Manoel Caldas Cordeiro + +Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + _Manoel Caldas Cordeiro_ + + O MARQUEZ DE POMBAL + + + (FOLHETO PARA POUCOS) + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1890 + + + + +O MARQUEZ DE POMBAL + + + + +PUBLICAÇÕES DO AUTOR + +_A Vigilia_, n.º 1, 1886. + +_A Vigilia_, n.º 2, 1886. + +_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888. + +_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888. + +_O Marquez de Pombal_, 1890. + +_Rimes Folles_ (em preparação). + +_Contos Sinistros_ (em preparação) + + + + + _Manoel Caldas Cordeiro_ + + O MARQUEZ DE POMBAL + + + (FOLHETO PARA POUCOS) + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA + Rua da Cancella Velha, 70 + 1890 + + + + +O MARQUEZ DE POMBAL + + +Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo +com um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, +do providencial expurgador da impiedade; a envergadura do +livre-pensador, do philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os +contemporaneos. + +Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul--um visinho da +sobre-loja, portanto,--chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha +sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão +Antonio Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito +poderoso» e outras baboseiras. Os que viviam junto d'elle +elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora +corressem parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o +ministro de Luiz XV. + +Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se +quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são +uma revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que +não teve nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens +que imitou sempre. + +Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier +d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches. + +Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre +pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de +administração mas não lhe imitou o _dandysmo_, a resignação espirituosa +com que este _impio_ de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos +braços de uma amante.[1] + +Quando queria ser _dandy_ o marquez de Pombal nem sequer o era como um +doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto _dandysmo_, que +historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é +a maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um +velho de entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao +pescoço. Elle tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o +plural.[2] + +As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez +do marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem +immortal, um homem deslocado no seu meio e no seu seculo. Elle estava +até muito bem posto, o marquez--no meio e no seculo! + +O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia +da lingua ingleza e a ausencia completa,--de resto propria do seu +esquerdismo de desastrado--do puritanismo britannico, o grande +puritanismo que antecedeu os _dandies_ George IV, Brummell e lord +Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno +do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um +Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este +ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia +tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em +carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na +pedreira do coração. + +Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que +lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais +estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de +Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o +escriptor que herdasse os manuscriptos de um fallecido, e, publicando-os +em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo. + +N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de +Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos +da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de +racional. + + * * * * * + +A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. +Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm +feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de +conjecturas. + +Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; +outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, +que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não +ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada +póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi +ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores. É provável +que haja engano. + +N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da +cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um +braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o. + +Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez +d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos. + +Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida +em quasi todas as _Historias de Portugal_. Na do snr. Pinheiro Chagas +vem elle narrado com muita exactidão. + +Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os +Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia +Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, +confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal +com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, +fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam +desprezivelmente por _Sebastião José_. O tribunal aceitou a confissão do +duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados +postos a tratos, segundo confessa Michelet e como logicamente se +comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes, +só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho. + +Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de +torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a +sua, dos seus, e do seu amo. + +Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de +Inconfidencia, todo composto de malandros e de estupidos da casta +d'elle? Sebastião José jurou perder os Tavoras, porque julgou, talvez +com razão, que a tentativa da conspiração visava mais a elle do que ao rei. + +Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro. +Corriam boatos de que elles eram cumplices--e elles ouviam perfeitamente +esses boatos. Porque não fugiam? + +Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações? + +Estavam innocentes. + +Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade +com que aguardavam a colera do rei e do ministro que, no tenebroso +espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as +minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem. + +A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta: + +--Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle +hesitaria em condemnar-vos innocentes? + +Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão +fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo. + +Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida +soberba e uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal. + +Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:--um malandro +porquissimo e um gordurento repugnante. + +Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro +tinha a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido +seduzidas pelo rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso +deboche». + +Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o +desminta. + +Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido +era o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José I. +Não havia porém uma prova cabal contra elles. + +Isto não impediu que o tribunal os condemnasse. + + * * * * * + +Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos +infelizes, considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer +soffrer na alma e no corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, +torturando-os, insistindo d'uma maneira infame sobre o destino dos seus +restos mortaes. + +Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos +a fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, +escripto por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas +minuciosidades bestiaes foram o additamento que o marquez fez á sentença +condemnatoria. + + * * * * * + +A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite +sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As +pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos +todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, +tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem. + +Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos. + +Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse +contemplar o horroroso supplicio. + +Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos +Bichos e sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, +o corregedor e a tropa. + +Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada +por dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no +começo da escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. +Recebeu-a o algoz, e, quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a +vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia +servir ao seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os +seus dois filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, +os braços; contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a +morte do pai da dos filhos. + +A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem +a morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, +vendáram-n'a; e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça. + +Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto. + +Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido, +pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe +iam infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez. + +Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo, +mas a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe +sumia na garganta. Devia de dizer que morria innocente. + +Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa, passáram-lhe uma corda pelo +pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os braços, procurávam +estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os ossos, dava +gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas pelos +ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as +dilacerantes minuciosidades d'estas mortes. + +Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de +Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz +do que o irmão:--os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as +pernas e os braços. + +O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. +Antonio Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel. + +Houve um pequeno intervallo. + +Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente, +subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de +quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da +mulher, dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade +se acabou por um momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, +amarráram-lhe os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu +heroicamente[3]. + +Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a +familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente +desfigurado, sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. +Estendido na aspa o carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, +emquanto o infeliz uivava uns gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os +braços e as pernas. Eram tantos os gritos e as contorsões, que o +carrasco apiedado--talvez!--deu-lhe com a maça na cabeça. + +O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros +entraram pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos +para a fogueira diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás +minudencias da tortura. Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que +queimavam os cadaveres das outras victimas. O vento soprava as chammas e +avermelhava o corpo em braza do desgraçado que gritava, torcia, +blasphemava, apesar das consolações dos dois frades. + +Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e +ainda o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo +misericordia. José Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se +tinha evadido. Sobre este sujeito veja-se a historia curiosissima que +vem no _Perfil do Marquez de Pombal_ do snr. Camillo Castello Branco. O +cadafalso, os cadaveres, tudo, reduzido a cinzas, foi deitado ao mar. + +Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal +roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na +ultima compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma _Genealogia +dos Tavoras_ que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata +foi achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se +d'isso muito segredo. + + * * * * * + +Reflexões sobre estes supplicios: + +O rei, convencido pelo marquez de Pombal da culpabilidade dos +infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José não era +animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de +Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do +povo. E, façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha +marqueza. Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua +porca vingança, induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a +minima indulgencia. E depois como elle punha e dispunha de tudo, a +vontade do rei, quando se não tornava imperiosa e rude, era para elle +cousa secundaria. + +Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de +esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os +Tavoras os mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; +confisca-lhes os bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer +pessoa, sob pena de confiscação de todos os bens, use do appellido de +Tavora, e, passados nove annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o +seu segundo filho José de Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e +Lorena, sobrinha e prima dos sentenciados de Belem e filha de Nuno +Gaspar de Tavora e Lorena! + + * * * * * + +Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no +forte da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José +d'Oliveira, João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo +d'Oliveira, Francisco Duarte e Gabriel Malagrida. + +Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua _Historia de Portugal_: + +«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda +consagrada ao bem do paiz.» + +Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os +Tavoras, o Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas +masmorras, os roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este +livre pensador, para acabar com elles mais summariamente, entregava ao +Santo Officio! + +Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho +septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de +todos. Os devotos consideravam-n'o santo e procuravam-n'o com +insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não +era nem devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o. + +Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil, +onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas +concessões justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, +aggravado por uma mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura +mansa. + +Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao +paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de +visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. +Escreveu na prisão a _Vida da gloriosa Sant'Anna_, livro em que se +revela o apogeu da loucura serena. + +Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus +tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, +os annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta +loucura. O livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o +entregar á Inquisição. O processo foi summario e toda a +responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte +dos historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam +a innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é +escripta n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, +como se diz hoje, de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador. + +Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como +Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas +pela corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado. + +Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo XVIII, Voltaire que não +tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento de +Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu +sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo +excesso do ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez +julgasse, quando lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa +na sua vida, que o philosopho d'algodão em rama achava ridiculo o +jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando +lhe fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle +se certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o +considerávam nem mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel +que o seu real amo D. José. + +No _Perfil do Marquez de Pombal_ escreve Camillo Castello Branco: «A sua +mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A +Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas +que trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns +açoitados que se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira +de entrudo.» Com effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na +manhã de quarta-feira de cinza.[4] + +Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns +Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto +providencial que salvou do descredito os vinhos portuguezes e +augmentou a exportação (dizem elles), não foi mais do que um +monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria, +contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia, +absurdo, tolo, e, sobretudo, inutil. + +A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor +da cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da +aguardente no Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como +eram contrarios á Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de +vinho, fixada pela Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a +declarar a quem o vendiam. Immortal legislador! Era d'esta e d'outras +maneiras que este grande liberal impulsionava o commercio e a agricultura. + +Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este +amontoado de desconchavos, de tolices e de privilegios. + +Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia +dos vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis. + +Eu não quero crêr que operasse n'estas creaturas o espirito liberal +e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande escriptor +citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo. + +Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados +um attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um +protesto contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro! +O real amo de Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico +considerava-se mais rei do que o proprio rei, e quando via indisciplinas +contra os seus decretos, punia-as como crimes de lesa-magestade. Assim +bem podia o escrupuloso desembargador João Pacheco Pereira de +Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o escrupulo de +condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem podia o +fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles +selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos +para Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o +abreviar summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente +enforcada por sua causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores +que depois escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a inquebrantavel +severidade dos grandes espiritos.» + +Finalmente--rejubilou Sebastião!--a 11 de outubro foi proferida a +sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e +confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação +de metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma +outra infinidade de penas um pouco menores. + +No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e +quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma +total dos condemnados ás diversas penas é de 237. + +E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao +marquez, não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam +de confessar a completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio +e á exportação. + +Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas +exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente +inédita, ao mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos +manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca +publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os +commissarios inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio: + +Annos ... Pipas + +1750 ... 15:121 + +1751 ... 17:406 + +1752 ... 13:238 + +1753 ... 21:257 + +1754 ... 14:773 + +1755 ... 13:124 + +1756 ... 12:094 + +Somma ... 107:013 + +Nos sete annos depois do monopolio: + +Annos ... Pipas + +1757 ... 11:317 + +1758 ... 16:568 + +1759 ... 16:413 + +1760 ... 17:130 + +1761 ... 14:785 + +1762 ... 21:199 + +1763 ... 9:683 + +Somma ... 107:095 + +Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras +foi grande a diminuição depois do monopolio) mandou Sebastião de +Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de desgraçados, +que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a saude e +com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer um +estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem +verdadeiramente extraordinario n'uma qualidade unica:--a suprema +crueldade. Elle era um bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria +considerado como um delirante furioso, mas que em Portugal é ainda +tido--graças aos historiadores que fazem _historias_!--um ministro +providencial. + +Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com +uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o +procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João +Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa +occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como +desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez +com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado com um sujeito +por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer +igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não +queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas +José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade. +Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o +processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do +ministro. + +Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens +de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos +e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que +considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os +cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros». + +José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á +mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de +Mascarenhas leiam o _Perfil do Marquez de Pombal_ pelo snr. Camillo +Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos +menos importantes que digam respeito á crueldade de Pombal; por isso, +lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão +desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento. + + * * * * * + +O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu +porquissimo nariz--immundo e purguento deposito de rapé e de ranho. + +Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe +suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a +celebração do santo sacrificio da missa». + +O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe +provarem o grau de intelligencia. + +Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de +todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles. + +Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens +religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, +não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do +sacrificio, que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, +puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia +de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a +consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era +falsificado com misturas reles. + +O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro _Le Marquis de +Pombal_, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as +misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da +adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais +conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os +manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa. + + * * * * * + +Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam +ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, +depois do terremoto de 1 de novembro de 1755. + +Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e +terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem que o nome dos +ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de +manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em +1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». +Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil +almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a +narração. + +Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das +Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes +para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua +Augusta e rua da Prata? + +O que pertence ao marquez--e traz o cunho indelevel d'esta +individualidade--são os avisos mandados expedir depois do terremoto. +Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas +suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com +quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante +tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do +monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando +trabalhar nas obras da cidade bandos de operarios com fome, +chicoteados e mal remunerados. + +Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo +despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos +pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo +com que ha sete annos lhe celebraram o centenario. + +Porque--que isto se saiba!--quando este homem se retirou do poder +deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria +fome![5] + + * * * * * + +Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, +já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais +zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja. + +Em Hespanha, _ministrava_ Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um +intrigante que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de +Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as +gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir +em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez +ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que +monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da +conversação. Monopolio facil:--monopolio do espirito dos outros:--de +Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau +romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por +todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo +sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e +impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo! + +Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo, +mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de +poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos +torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, +junto dos dois que com o seu cynismo mais concorreram para o +descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o +talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande +faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos +diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se +espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje +seriam--talvez!--dois citados escriptores illegiveis da _Revista dos +Dois Mundos_! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que +deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de +queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições. + +A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus +inimigos--até Voltaire!--protestáram contra ella. + +D'Alembert dizia: + +«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença +contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que +nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande +numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc. + +«A todos estes meios de augmentar a sua consideração e credito +juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu +comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra +elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.» +Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram +expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os +bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve _Dominus ac Redemptor_, +que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina. + +Firmava-o o pulso fraco,--mas parricida!--de Clemente XIV que em pleno +peito apunhalava os seus mais zelosos filhos. + +Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á +Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os +supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de +Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de +supprimir a Ordem.[6] + + * * * * * + +Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz +casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. +Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, +dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: +e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi +toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir +de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança +projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O +rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o +contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu. + +Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o +empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a +entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta +disparando sobre elle um olhar carregado e colerico. + +O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe +influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos +de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro +ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de +odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus +crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro +desprezivel--e já desprezado! + +A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, +começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos +maiores desfeiteadores o cardeal Cunha--um antigo amigo do marquez. Bom +homem! + +D. José--o gordo--morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777. +A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I +que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da +commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a +villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo +a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião +de Carvalho. Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a +apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se +póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de +escriptor. + +D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os +desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha +interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que +se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que +havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes +enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data +de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! +O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as +garras--porque já não podia arranhar. + +Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos +respeitos que não recebia, este velho--velho como a estupida maldade do +seculo em que viveu--era o espantalho sinistro do seu passado +terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era +o espectro vivo d'um monstro amortalhado no sudario de infamias, +parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que +durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca--e fôra +perdoado! + +É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os +jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, +recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos +despojos da invasão franceza. + +Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer +que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira +ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do +chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos. + + * * * * * + +Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os +seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto +n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez de Pombal +morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais +quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos +um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus +dias![7] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as +minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a +conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do +Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma +caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina +para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante. + +FIM. + + [1] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco _Perfil do + Marquez de Pombal_. Porto, 1882. + + [2] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi + a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem + sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer + duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas + dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a + fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez + _l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello_, etc., etc. + Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13. + + Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do + ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade. + + [3] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença, + deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos. + O rei modificou-lhes esta tremenda morte. + + [4] 23 de fevereiro de 1757. + + [5] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os + guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o. + + [6] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, + Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc. + + [7] Foi tão medonho o supplicio do Pelle que os frades arrabidos + desmaiaram no meio da execução, e o carrasco para acabar com a + victima teve de estrangulal-a com o lenço. + + + + +PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA. + +_Cancella Velha, 70_ + + + + + +OBRAS PUBLICADAS + +José de Sousa + +Notas de pedagogia philosophica. 1 vol. ... 400 + +Caldas Cordeiro + +O Marquez de Pombal. (Folheto para poucos) ... 100 + +Victor Hugo + +O rei diverte-se. Drama em cinco actos, em verso. Traducção de ACACIO +ANTUNES. 1 vol. ... 600 + +NO PRÉLO + +Teixeira Bastos + +Sciencia e Philosophia (Ensaios de critica positivista) ... 1 vol. + +Sá Chaves + +Episodios militares e casos contemporaneos (Etographias portuguezas) ... +1 vol. + + + + + + +End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 33057-8.txt or 33057-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/0/5/33057/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/33057-8.zip b/33057-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..62399f9 --- /dev/null +++ b/33057-8.zip diff --git a/33057-h.zip b/33057-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a05de98 --- /dev/null +++ b/33057-h.zip diff --git a/33057-h/33057-h.htm b/33057-h/33057-h.htm new file mode 100644 index 0000000..686739f --- /dev/null +++ b/33057-h/33057-h.htm @@ -0,0 +1,1359 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O Marquez de Pombal, por Manoel Caldas Cordeiro</title> + <meta name="Author" content="Manoel Caldas Cordeiro"> + <meta name="Edition" + content="Porto: Typographia de A. J. da Silva Teixeira, 1890."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal + (folheto para poucos) + +Author: Manoel Caldas Cordeiro + +Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align: center; border: double 2px #000;"> +<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p> + +<hr style="width: 30%; height: 2px;"> + + +<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p> + +<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70<br> +</small></p> + +<p><small>1890</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h4 style="text-align: center;">PUBLICAÇÕES DO AUTOR</h4> + +<div style="margin: 10%;"> +<p><i>A Vigilia</i>, n.º 1, 1886.</p> + +<p><i>A Vigilia</i>, n.º 2, 1886.</p> + +<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888.</p> + +<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888.</p> + +<p><i>O Marquez de Pombal</i>, 1890.</p> + +<p><i>Rimes Folles</i> (em preparação).</p> + +<p><i>Contos Sinistros</i> (em preparação)</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p> + +<hr style="width: 30%; height: 2px;"> + + +<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p> + +<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70<br> +</small></p> + +<p><small>1890</small></p> +</div> + +<p> <span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>O MARQUEZ DE POMBAL</h1> + +<p>Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo com +um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, do +providencial expurgador da impiedade; a envergadura do livre-pensador, do +philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os contemporaneos.</p> + +<p>Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul—um visinho da +sobre-loja, portanto,—chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha +sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão Antonio +Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito poderoso» e +outras baboseiras. Os que viviam<span class="pn">{6}</span> junto d'elle +elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora corressem +parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o ministro de Luiz +<small>XV</small>.</p> + +<p>Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se +quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são uma +revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que não teve +nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens que imitou +sempre.</p> + +<p>Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier +d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.</p> + +<p>Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre +pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de administração +mas não lhe imitou o <i>dandysmo</i>, a resignação espirituosa com que este +<i>impio</i> de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos braços de uma +amante.<a name="tex2html1" href="#foot142"><sup>[1]</sup></a><span +class="pn">{7}</span></p> + +<p>Quando queria ser <i>dandy</i> o marquez de Pombal nem sequer o era como um +doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto <i>dandysmo</i>, que +historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é a +maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um velho de +entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao pescoço. Elle +tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o plural.<a +name="tex2html2" href="#foot143"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p>As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez do +marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem immortal, +um homem deslocado no seu meio e no<span class="pn">{8}</span> seu seculo. Elle +estava até muito bem posto, o marquez—no meio e no seculo!</p> + +<p>O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia da +lingua ingleza e a ausencia completa,—de resto propria do seu esquerdismo +de desastrado—do puritanismo britannico, o grande puritanismo que +antecedeu os <i>dandies</i> George <small>IV</small>, Brummell e lord Pellehan. +O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno do ridiculo da +época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um Saint-Just, um +Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este ultimo o era de corpo, o +ministro applaudido e consagrado pela historia tinha uma tão ingenua maldade +que a sua attitude dominante consistia em carregar o sobr'olho para fingir a +polvora da colera que lhe explosia na pedreira do coração.</p> + +<p>Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que lhe +dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais estupidamente +bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de Pombal como estadista tem +o mesmo merito que na litteratura teria o escriptor que herdasse os +manuscriptos de um<span class="pn">{9}</span> fallecido, e, publicando-os em +seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.</p> + +<p>N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de Sebastião +e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos da bibliotheca +publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de racional.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. +Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm feito, +só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de conjecturas. +</p> + +<p>Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; +outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, que +tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não ha um +documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada póde +considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi ferido no +braço: «gravemente» dizem alguns historiadores.<span class="pn">{10}</span> É +provável que haja engano.</p> + +<p>N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da cirurgia; +no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um braço, o cirurgião +remediava o perigo da gangrena, cortando-o.</p> + +<p>Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez d'Angeja +onde lhe foram dados os primeiros curativos.</p> + +<p>Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida em +quasi todas as <i>Historias de Portugal</i>. Na do snr. Pinheiro Chagas vem +elle narrado com muita exactidão.</p> + +<p>Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os Tavoras, o +duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia Tavora é hoje tida +como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, confessou que elles eram +culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal com a confissão havia de ter um +jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, fidalgos honestos, vaidosos dos seus +pergaminhos que o tratavam desprezivelmente por <i>Sebastião José</i>. O +tribunal aceitou a confissão do duque; mas quando se retractou, não lh'o +consentiram. Os desgraçados postos a tratos,<span class="pn">{11}</span> +segundo confessa Michelet e como logicamente se comprehende, muitas vezes +confessavam crimes de que estavam innocentes, só para se livrarem d'aquelle +supplicio medonho.</p> + +<p>Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de +torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a sua, dos +seus, e do seu amo.</p> + +<p>Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de Inconfidencia, +todo composto de malandros e de estupidos da casta d'elle? Sebastião José jurou +perder os Tavoras, porque julgou, talvez com razão, que a tentativa da +conspiração visava mais a elle do que ao rei.</p> + +<p>Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro. +Corriam boatos de que elles eram cumplices—e elles ouviam perfeitamente +esses boatos. Porque não fugiam?</p> + +<p>Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?</p> + +<p>Estavam innocentes.</p> + +<p>Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade com +que aguardavam a colera do rei e do ministro<span class="pn">{12}</span> que, +no tenebroso espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as +minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.</p> + +<p>A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:</p> + +<p>—Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle +hesitaria em condemnar-vos innocentes?</p> + +<p>Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão +fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.</p> + +<p>Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida soberba e +uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.</p> + +<p>Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:—um malandro +porquissimo e um gordurento repugnante.</p> + +<p>Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro tinha +a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido seduzidas pelo +rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso deboche».</p> + +<p>Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o +desminta.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido era +o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José +<small>I</small>. Não havia porém uma prova cabal contra elles.</p> + +<p>Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos infelizes, +considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer soffrer na alma e no +corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, torturando-os, insistindo +d'uma maneira infame sobre o destino dos seus restos mortaes.</p> + +<p>Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos a +fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, escripto +por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas minuciosidades bestiaes +foram o additamento que o marquez fez á sentença condemnatoria.<span +class="pn">{14}</span></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite sinistra, +á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As pancadas dos +martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos todos n'uma casa do +palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, tinha sido conduzida, do +convento das Grillas para Belem.</p> + +<p>Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.</p> + +<p>Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse +contemplar o horroroso supplicio.</p> + +<p>Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos Bichos e +sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, o corregedor e +a tropa.</p> + +<p>Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada por +dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no começo da +escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. Recebeu-a o algoz, +e,<span class="pn">{15}</span> quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a +vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia servir ao +seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os seus dois +filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, os braços; +contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a morte do pai da +dos filhos.</p> + +<p>A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem a +morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, vendáram-n'a; +e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.</p> + +<p>Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.</p> + +<p>Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido, +pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe iam +infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez.</p> + +<p>Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo, mas +a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe sumia na +garganta. Devia de dizer que morria innocente.</p> + +<p>Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa,<span class="pn">{16}</span> +passáram-lhe uma corda pelo pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os +braços, procurávam estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os +ossos, dava gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas +pelos ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as +dilacerantes minuciosidades d'estas mortes.</p> + +<p>Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de +Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz do que +o irmão:—os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as pernas e +os braços.</p> + +<p>O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. Antonio +Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.</p> + +<p>Houve um pequeno intervallo.</p> + +<p>Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente, +subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de +quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da mulher, +dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade se acabou por um +momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, amarráram-lhe<span +class="pn">{17}</span> os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu +heroicamente<a name="tex2html3" href="#foot82"><sup>[3]</sup></a>.</p> + +<p>Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a +familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente desfigurado, +sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. Estendido na aspa o +carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, emquanto o infeliz uivava uns +gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os braços e as pernas. Eram tantos os +gritos e as contorsões, que o carrasco apiedado—talvez!—deu-lhe com +a maça na cabeça.</p> + +<p>O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros entraram +pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos para a fogueira +diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás minudencias da tortura. +Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que queimavam os cadaveres das outras +victimas. O vento soprava as chammas e avermelhava o corpo em braza<span +class="pn">{18}</span> do desgraçado que gritava, torcia, blasphemava, apesar +das consolações dos dois frades.</p> + +<p>Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e ainda +o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo misericordia. José +Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se tinha evadido. Sobre este +sujeito veja-se a historia curiosissima que vem no <i>Perfil do Marquez de +Pombal</i> do snr. Camillo Castello Branco. O cadafalso, os cadaveres, tudo, +reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.</p> + +<p>Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal +roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na ultima +compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma <i>Genealogia dos +Tavoras</i> que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata foi +achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se d'isso +muito segredo.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Reflexões sobre estes supplicios:</p> + +<p>O rei, convencido pelo marquez de Pombal<span class="pn">{19}</span> da +culpabilidade dos infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José +não era animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de +Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do povo. E, +façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha marqueza. +Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua porca vingança, +induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a minima indulgencia. E +depois como elle punha e dispunha de tudo, a vontade do rei, quando se não +tornava imperiosa e rude, era para elle cousa secundaria.</p> + +<p>Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de +esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os Tavoras os +mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; confisca-lhes os +bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer pessoa, sob pena de +confiscação de todos os bens, use do appellido de Tavora, e, passados nove +annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o seu segundo filho José de +Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e Lorena, sobrinha e prima dos +sentenciados de Belem<span class="pn">{20}</span> e filha de Nuno Gaspar de +Tavora e Lorena!</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no forte +da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José d'Oliveira, +João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo d'Oliveira, Francisco +Duarte e Gabriel Malagrida.</p> + +<p>Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua <i>Historia de Portugal</i>:</p> + +<p>«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda +consagrada ao bem do paiz.»</p> + +<p>Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os Tavoras, o +Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas masmorras, os +roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este livre pensador, para +acabar com elles mais summariamente, entregava ao Santo Officio!</p> + +<p>Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho +septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de todos. Os +devotos consideravam-n'o<span class="pn">{21}</span> santo e procuravam-n'o com +insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não era nem +devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.</p> + +<p>Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil, +onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas concessões +justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, aggravado por uma +mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura mansa.</p> + +<p>Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao +paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de +visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. Escreveu na +prisão a <i>Vida da gloriosa Sant'Anna</i>, livro em que se revela o apogeu da +loucura serena.</p> + +<p>Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus +tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, os +annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta loucura. O +livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o entregar<span +class="pn">{22}</span> á Inquisição. O processo foi summario e toda a +responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte dos +historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam a +innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é escripta +n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, como se diz hoje, +de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.</p> + +<p>Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como +Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas pela +corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado.</p> + +<p>Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo <small>XVIII</small>, Voltaire +que não tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento +de Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu +sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo excesso do +ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez julgasse, quando +lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa na sua vida, que o +philosopho d'algodão em rama achava ridiculo<span class="pn">{23}</span> o +jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando lhe +fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle se +certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o considerávam nem +mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel que o seu real amo D. +José.</p> + +<p>No <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> escreve Camillo Castello Branco: «A +sua mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A +Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas que +trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns açoitados que +se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira de entrudo.» Com +effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na manhã de quarta-feira de +cinza.<a name="tex2html4" href="#foot97"><sup>[4]</sup></a></p> + +<p>Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns +Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto providencial que +salvou do descredito os vinhos portuguezes e augmentou<span +class="pn">{24}</span> a exportação (dizem elles), não foi mais do que um +monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria, +contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia, absurdo, +tolo, e, sobretudo, inutil.</p> + +<p>A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor da +cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da aguardente no +Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como eram contrarios á +Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de vinho, fixada pela +Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a declarar a quem o vendiam. +Immortal legislador! Era d'esta e d'outras maneiras que este grande liberal +impulsionava o commercio e a agricultura.</p> + +<p>Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este amontoado de +desconchavos, de tolices e de privilegios.</p> + +<p>Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia dos +vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis.</p> + +<p>Eu não quero crêr que operasse n'estas<span class="pn">{25}</span> creaturas +o espirito liberal e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande +escriptor citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo.</p> + +<p>Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados um +attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um protesto +contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro! O real amo de +Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico considerava-se mais rei do que o +proprio rei, e quando via indisciplinas contra os seus decretos, punia-as como +crimes de lesa-magestade. Assim bem podia o escrupuloso desembargador João +Pacheco Pereira de Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o +escrupulo de condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem +podia o fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles +selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos para +Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o abreviar +summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente enforcada por sua +causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores que depois<span +class="pn">{26}</span> escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a +inquebrantavel severidade dos grandes espiritos.»</p> + +<p>Finalmente—rejubilou Sebastião!—a 11 de outubro foi proferida a +sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e +confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação de +metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma outra +infinidade de penas um pouco menores.</p> + +<p>No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e +quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma total dos +condemnados ás diversas penas é de 237.</p> + +<p>E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao marquez, +não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam de confessar a +completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio e á exportação.</p> + +<p>Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas +exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente inédita, ao +mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos<span class="pn">{27}</span> +manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca +publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os commissarios +inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio:</p> + +<p> </p> + +<p>Annos ... Pipas</p> + +<p>1750 ... 15:121</p> + +<p>1751 ... 17:406</p> + +<p>1752 ... 13:238</p> + +<p>1753 ... 21:257</p> + +<p>1754 ... 14:773</p> + +<p>1755 ... 13:124</p> + +<p>1756 ... 12:094</p> + +<p>Somma ... 107:013</p> + +<p> </p> + +<p>Nos sete annos depois do monopolio:</p> + +<p> </p> + +<p>Annos ... Pipas</p> + +<p>1757 ... 11:317</p> + +<p>1758 ... 16:568</p> + +<p>1759 ... 16:413</p> + +<p>1760 ... 17:130</p> + +<p>1761 ... 14:785</p> + +<p>1762 ... 21:199</p> + +<p>1763 ... 9:683</p> + +<p>Somma ... 107:095</p> + +<p> </p> + +<p>Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras foi +grande<span class="pn">{28}</span> a diminuição depois do monopolio) mandou +Sebastião de Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de +desgraçados, que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a +saude e com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer +um estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem verdadeiramente +extraordinario n'uma qualidade unica:—a suprema crueldade. Elle era um +bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria considerado como um delirante +furioso, mas que em Portugal é ainda tido—graças aos historiadores que +fazem <i>historias</i>!—um ministro providencial.</p> + +<p>Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com uma +ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o +procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João +Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa occasião +sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como desterro simulado, +reservando-se para mais tarde o prender, o que fez com effeito em 1758. +Sebastião José de Carvalho indignado<span class="pn">{29}</span> com um sujeito +por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer igualal-o! Se +isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não queria rivaes n'uma +qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas José de Mascarenhas estava +longe de aspirar a semelhante rivalidade. Elle era um pouco menos fraco do que +o pai, mas foi sempre durante o processo o fiel e talvez o brando executor das +ordens tremendas do ministro.</p> + +<p>Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens de +Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos e muito +ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que considerasse o crime como +de lesa-magestade, que mandasse enforcar os cabeças do motim, açoitar, degredar +e roubar os outros».</p> + +<p>José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á mulher +gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de Mascarenhas leiam +o <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> pelo snr. Camillo Castello Branco. Tendo +pouco espaço, não me posso occupar de assumptos menos importantes que digam +respeito á<span class="pn">{30}</span> crueldade de Pombal; por isso, lendo o +livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão desfiada a meada +em que se enredáram historiadores de talento.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu +porquissimo nariz—immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.</p> + +<p>Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe suppôr +«que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a celebração do +santo sacrificio da missa».</p> + +<p>O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe +provarem o grau de intelligencia.</p> + +<p>Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de +todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.</p> + +<p>Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens +religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, não +mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do sacrificio,<span +class="pn">{31}</span> que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, +puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia de que o +é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a consciencia d'isso, +porque sabiam que o vinho da Companhia era falsificado com misturas reles.</p> + +<p>O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro <i>Le Marquis de +Pombal</i>, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as +misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da adulteração. Não +era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais conhecimento das manhosas +trapalhadas do ministro consulte os manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de +Lisboa.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam +ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, depois +do terremoto de 1 de novembro de 1755.</p> + +<p>Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e +terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem<span class="pn">{32}</span> que o +nome dos ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de +manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em 1614, +maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». Abriu-se a +terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil almas sepultadas nas +ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a narração.</p> + +<p>Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das Aguas-Livres +e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes para construirem os +paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua Augusta e rua da Prata? +</p> + +<p>O que pertence ao marquez—e traz o cunho indelevel d'esta +individualidade—são os avisos mandados expedir depois do terremoto. Isto +sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas suspeitas, +que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com quantias +superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante tres dias. Ordem +providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do monopolio da +escravatura branca que elle empregava mandando trabalhar<span +class="pn">{33}</span> nas obras da cidade bandos de operarios com fome, +chicoteados e mal remunerados.</p> + +<p>Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo +despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos pelo povo +durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo com que ha sete +annos lhe celebraram o centenario.</p> + +<p>Porque—que isto se saiba!—quando este homem se retirou do poder +deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria fome!<a +name="tex2html5" href="#foot113"><sup>[5]</sup></a></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, já +as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais zelosa, a +mais pugnadora pelos interesses da Egreja.</p> + +<p>Em Hespanha, <i>ministrava</i> Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um +intrigante<span class="pn">{34}</span> que troçava espirituosamente das +patifarias solemnes de Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um +philosopho que as gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de +creado de servir em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de +talvez ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que +monopolisava o espirito nos salões do seculo <small>XVIII</small>, o grande +seculo da conversação. Monopolio facil:—monopolio do espirito dos +outros:—de Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau +poeta, mau romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por +todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo sublime, e +alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e impotente Rousseau ao +lado de Victor Hugo!</p> + +<p>Ironia medonha! O homem que no seculo <small>XIX</small> mais enthusiasmo, +mais estylo, mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um +monumento de poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos +torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, junto dos +dois que com o seu cynismo<span class="pn">{35}</span> mais concorreram para o +descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o talento +que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande faculdade da +admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos diffusos, solemnes, +precisando d'um campo largo e aplainado para se espojarem, foram o alvo das +acclamações d'um seculo, e hoje seriam—talvez!—dois citados +escriptores illegiveis da <i>Revista dos Dois Mundos</i>! Juntava-se a elles a +Pompadour, a espirituosa mulher que deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. +Esta sim, tinha razão de queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam +as ambições.</p> + +<p>A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus +inimigos—até Voltaire!—protestáram contra ella.</p> + +<p>D'Alembert dizia:</p> + +<p>«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença contra +os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que nenhuma ordem +religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande numero de homens +celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.</p> + +<p>«A todos estes meios de augmentar a<span class="pn">{36}</span> sua +consideração e credito juntavam um outro não menos seguro, que era a +regularidade do seu comportamento e costumes. Embora se tenham publicado +calumnias contra elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos +para isso.» Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 +foram expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os +bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve <i>Dominus ac Redemptor</i>, que +supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.</p> + +<p>Firmava-o o pulso fraco,—mas parricida!—de Clemente +<small>XIV</small> que em pleno peito apunhalava os seus mais zelosos +filhos.</p> + +<p>Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á Egreja +é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os supprimia? Quem não +vê aqui o grande erro e o grande crime de Ganganelli, o cardeal que obteve a +tiara com a expressa condição de supprimir a Ordem.<a name="tex2html6" +href="#foot124"><sup>[6]</sup></a><span class="pn">{37}</span></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz +casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. +Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, dizia +elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: e propunha o +casamento do principe com a filha de Luiz <small>XVI</small>. Como quasi toda a +côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir de Roma os +breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança projectada. Os papeis +chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O rei adoeceu da paralysia +mortal e ateimou para que se abreviasse o contrato. Procuráram-se os papeis em +casa de Pombal, que os sumiu.</p> + +<p>Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o +empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a entrar +na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta disparando sobre +elle um olhar carregado e colerico.<span class="pn">{38}</span></p> + +<p>O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe +influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos de +connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro ministro. Uma +tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de odio, de piedade e de +gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus crimes, evitou que o rei +punisse com severidade o aventureiro desprezivel—e já desprezado!</p> + +<p>A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, +começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos maiores +desfeiteadores o cardeal Cunha—um antigo amigo do marquez. Bom homem!</p> + +<p>D. José—o gordo—morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de +1777. A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria +<small>I</small> que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia +mercê da commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a +villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo a +carruagem em que ia. D. Maria <small>I</small> resolvêra deixar em socego +Sebastião de Carvalho.<span class="pn">{39}</span> Mas elle, que não +comprehendeu isso, publicou a apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume +provocador em que se póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de +politico e de escriptor.</p> + +<p>D. Maria <small>I</small>, instigada com razão pelos escandalisados, mandou +a Pombal os desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da +Rocha interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que +se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que havia por +bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes enfermidades, os +castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data de 16 d'agosto de 1781. +O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! O velho tigre, desdentado para +morder, lambia, encolhendo as garras—porque já não podia arranhar.</p> + +<p>Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos +respeitos que não recebia, este velho—velho como a estupida maldade do +seculo em que viveu—era o espantalho sinistro do seu passado terrorista. +Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era o espectro vivo +d'um monstro amortalhado<span class="pn">{40}</span> no sudario de infamias, +parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que +durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca—e fôra +perdoado!</p> + +<p>É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os +jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, +recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos +despojos da invasão franceza.</p> + +<p>Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer que o +marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira ficou +piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do chão foi +varrida para a rua. Não houve estremecimentos.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os seus +actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto n'este +pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez<span +class="pn">{41}</span> de Pombal morreu, o medico achou-lhe duas pedras no +coração. Devia de ter mais quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda +de quatro cavallos um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára +contra os seus dias!<a name="tex2html7" href="#foot136"><sup>[7]</sup></a> +Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as minuciosidades do +cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a conspiração dos jesuitas, e o +crime de lesa-magestade na revolta do Porto. Escriptores metaphoricos comparam +o coração do velho a uma caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente +fallando, uma latrina para onde escorriam as fezes da sua alma sempre +abundante.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM.</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot142" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Vide o magnifico +livro de Camillo Castello Branco <i>Perfil do Marquez de Pombal</i>. Porto, +1882.</p> + +<p><a name="foot143" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Uma das primeiras +leis providenciaes do «grande reformador» foi a que mandava reprimir +severamente «os libertinos que escolhem sempre a noite para assignalar o +deboche e que, querendo fazer duvidar da honra das mulheres que se casavam, +punham-lhes nas casas dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam +suspeita a fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez +<i>l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello</i>, etc., etc. Amsterdam, +1786, tomo <small>II</small>, pag. 13.</p> + +<p>Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do ministro, que, +para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.</p> + +<p><a name="foot82" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> O marquez de Tavora e +o duque d'Aveiro, segundo a sentença, deviam ter os braços e as pernas +quebrados e serem queimados vivos. O rei modificou-lhes esta tremenda morte.</p> + +<p><a name="foot97" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> 23 de fevereiro de +1757.</p> + +<p><a name="foot113" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Soldados, cabos e +sargentos pediam esmola publicamente. Os guardas do ministro pediam esmola a +quem ia visital-o.</p> + +<p><a name="foot124" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Vide os historiadores +Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, +etc., etc.</p> + +<p><a name="foot136" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Foi tão medonho o +supplicio do Pelle que os frades arrabidos desmaiaram no meio da execução, e o +carrasco para acabar com a victima teve de estrangulal-a com o lenço.</p> +</div> + + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 50%; height: 2px;"> + +<p style="text-align: center;"><small>PORTO—TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.</small></p> + +<p style="text-align: center;"><small><i>Cancella Velha, 70</i></small></p> + +<hr style="width: 50%; height: 2px;"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">OBRAS PUBLICADAS</p> + +<h4 style="text-align: center;">José de Sousa</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Notas de pedagogia philosophica.</span> 1 +vol. ... 400</p> + +<h4 style="text-align: center;">Caldas Cordeiro</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">O Marquez de Pombal.</span> (Folheto para +poucos) ... 100</p> + +<h4 style="text-align: center;">Victor Hugo</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">O rei diverte-se.</span> Drama em cinco +actos, em verso. Traducção de A<small>CACIO </small>A<small>NTUNES</small>. 1 +vol. ... 600</p> + +<p style="text-align: center;">NO PRÉLO</p> + +<h4 style="text-align: center;">Teixeira Bastos</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Sciencia e Philosophia</span> (Ensaios de +critica positivista) ... 1 vol.</p> + +<h4 style="text-align: center;">Sá Chaves</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Episodios militares e casos +contemporaneos</span> (Etographias portuguezas) ... 1 vol.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 33057-h.htm or 33057-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/0/5/33057/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..54295c4 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #33057 (https://www.gutenberg.org/ebooks/33057) |
