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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal
+ (folheto para poucos)
+
+Author: Manoel Caldas Cordeiro
+
+Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+ _Manoel Caldas Cordeiro_
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+ (FOLHETO PARA POUCOS)
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1890
+
+
+
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+
+
+PUBLICAÇÕES DO AUTOR
+
+_A Vigilia_, n.º 1, 1886.
+
+_A Vigilia_, n.º 2, 1886.
+
+_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888.
+
+_Pyrilampos_ (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888.
+
+_O Marquez de Pombal_, 1890.
+
+_Rimes Folles_ (em preparação).
+
+_Contos Sinistros_ (em preparação)
+
+
+
+
+ _Manoel Caldas Cordeiro_
+
+ O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+ (FOLHETO PARA POUCOS)
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+ Rua da Cancella Velha, 70
+ 1890
+
+
+
+
+O MARQUEZ DE POMBAL
+
+
+Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo
+com um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José,
+do providencial expurgador da impiedade; a envergadura do
+livre-pensador, do philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os
+contemporaneos.
+
+Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul--um visinho da
+sobre-loja, portanto,--chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha
+sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão
+Antonio Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito
+poderoso» e outras baboseiras. Os que viviam junto d'elle
+elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora
+corressem parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o
+ministro de Luiz XV.
+
+Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se
+quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são
+uma revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que
+não teve nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens
+que imitou sempre.
+
+Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier
+d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.
+
+Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre
+pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de
+administração mas não lhe imitou o _dandysmo_, a resignação espirituosa
+com que este _impio_ de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos
+braços de uma amante.[1]
+
+Quando queria ser _dandy_ o marquez de Pombal nem sequer o era como um
+doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto _dandysmo_, que
+historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é
+a maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um
+velho de entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao
+pescoço. Elle tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o
+plural.[2]
+
+As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez
+do marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem
+immortal, um homem deslocado no seu meio e no seu seculo. Elle estava
+até muito bem posto, o marquez--no meio e no seculo!
+
+O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia
+da lingua ingleza e a ausencia completa,--de resto propria do seu
+esquerdismo de desastrado--do puritanismo britannico, o grande
+puritanismo que antecedeu os _dandies_ George IV, Brummell e lord
+Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno
+do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um
+Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este
+ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia
+tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em
+carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na
+pedreira do coração.
+
+Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que
+lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais
+estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de
+Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o
+escriptor que herdasse os manuscriptos de um fallecido, e, publicando-os
+em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.
+
+N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de
+Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos
+da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de
+racional.
+
+ * * * * *
+
+A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas.
+Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm
+feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de
+conjecturas.
+
+Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal;
+outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira,
+que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não
+ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada
+póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi
+ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores. É provável
+que haja engano.
+
+N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da
+cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um
+braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o.
+
+Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez
+d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos.
+
+Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida
+em quasi todas as _Historias de Portugal_. Na do snr. Pinheiro Chagas
+vem elle narrado com muita exactidão.
+
+Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os
+Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia
+Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos,
+confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal
+com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras,
+fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam
+desprezivelmente por _Sebastião José_. O tribunal aceitou a confissão do
+duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados
+postos a tratos, segundo confessa Michelet e como logicamente se
+comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes,
+só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho.
+
+Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de
+torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a
+sua, dos seus, e do seu amo.
+
+Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de
+Inconfidencia, todo composto de malandros e de estupidos da casta
+d'elle? Sebastião José jurou perder os Tavoras, porque julgou, talvez
+com razão, que a tentativa da conspiração visava mais a elle do que ao rei.
+
+Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro.
+Corriam boatos de que elles eram cumplices--e elles ouviam perfeitamente
+esses boatos. Porque não fugiam?
+
+Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?
+
+Estavam innocentes.
+
+Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade
+com que aguardavam a colera do rei e do ministro que, no tenebroso
+espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as
+minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.
+
+A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:
+
+--Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle
+hesitaria em condemnar-vos innocentes?
+
+Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão
+fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.
+
+Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida
+soberba e uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.
+
+Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:--um malandro
+porquissimo e um gordurento repugnante.
+
+Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro
+tinha a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido
+seduzidas pelo rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso
+deboche».
+
+Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o
+desminta.
+
+Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido
+era o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José I.
+Não havia porém uma prova cabal contra elles.
+
+Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.
+
+ * * * * *
+
+Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos
+infelizes, considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer
+soffrer na alma e no corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os,
+torturando-os, insistindo d'uma maneira infame sobre o destino dos seus
+restos mortaes.
+
+Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos
+a fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa,
+escripto por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas
+minuciosidades bestiaes foram o additamento que o marquez fez á sentença
+condemnatoria.
+
+ * * * * *
+
+A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite
+sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As
+pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos
+todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora,
+tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem.
+
+Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.
+
+Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse
+contemplar o horroroso supplicio.
+
+Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos
+Bichos e sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime,
+o corregedor e a tropa.
+
+Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada
+por dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no
+começo da escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo.
+Recebeu-a o algoz, e, quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a
+vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia
+servir ao seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os
+seus dois filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas,
+os braços; contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a
+morte do pai da dos filhos.
+
+A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem
+a morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço,
+vendáram-n'a; e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.
+
+Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.
+
+Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido,
+pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe
+iam infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez.
+
+Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo,
+mas a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe
+sumia na garganta. Devia de dizer que morria innocente.
+
+Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa, passáram-lhe uma corda pelo
+pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os braços, procurávam
+estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os ossos, dava
+gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas pelos
+ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as
+dilacerantes minuciosidades d'estas mortes.
+
+Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de
+Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz
+do que o irmão:--os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as
+pernas e os braços.
+
+O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados.
+Antonio Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.
+
+Houve um pequeno intervallo.
+
+Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente,
+subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de
+quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da
+mulher, dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade
+se acabou por um momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete,
+amarráram-lhe os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu
+heroicamente[3].
+
+Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a
+familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente
+desfigurado, sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos.
+Estendido na aspa o carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e,
+emquanto o infeliz uivava uns gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os
+braços e as pernas. Eram tantos os gritos e as contorsões, que o
+carrasco apiedado--talvez!--deu-lhe com a maça na cabeça.
+
+O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros
+entraram pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos
+para a fogueira diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás
+minudencias da tortura. Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que
+queimavam os cadaveres das outras victimas. O vento soprava as chammas e
+avermelhava o corpo em braza do desgraçado que gritava, torcia,
+blasphemava, apesar das consolações dos dois frades.
+
+Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e
+ainda o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo
+misericordia. José Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se
+tinha evadido. Sobre este sujeito veja-se a historia curiosissima que
+vem no _Perfil do Marquez de Pombal_ do snr. Camillo Castello Branco. O
+cadafalso, os cadaveres, tudo, reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.
+
+Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal
+roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na
+ultima compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma _Genealogia
+dos Tavoras_ que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata
+foi achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se
+d'isso muito segredo.
+
+ * * * * *
+
+Reflexões sobre estes supplicios:
+
+O rei, convencido pelo marquez de Pombal da culpabilidade dos
+infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José não era
+animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de
+Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do
+povo. E, façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha
+marqueza. Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua
+porca vingança, induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a
+minima indulgencia. E depois como elle punha e dispunha de tudo, a
+vontade do rei, quando se não tornava imperiosa e rude, era para elle
+cousa secundaria.
+
+Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de
+esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os
+Tavoras os mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia;
+confisca-lhes os bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer
+pessoa, sob pena de confiscação de todos os bens, use do appellido de
+Tavora, e, passados nove annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o
+seu segundo filho José de Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e
+Lorena, sobrinha e prima dos sentenciados de Belem e filha de Nuno
+Gaspar de Tavora e Lorena!
+
+ * * * * *
+
+Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no
+forte da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José
+d'Oliveira, João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo
+d'Oliveira, Francisco Duarte e Gabriel Malagrida.
+
+Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua _Historia de Portugal_:
+
+«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda
+consagrada ao bem do paiz.»
+
+Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os
+Tavoras, o Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas
+masmorras, os roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este
+livre pensador, para acabar com elles mais summariamente, entregava ao
+Santo Officio!
+
+Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho
+septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de
+todos. Os devotos consideravam-n'o santo e procuravam-n'o com
+insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não
+era nem devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.
+
+Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil,
+onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas
+concessões justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo,
+aggravado por uma mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura
+mansa.
+
+Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao
+paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de
+visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições.
+Escreveu na prisão a _Vida da gloriosa Sant'Anna_, livro em que se
+revela o apogeu da loucura serena.
+
+Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus
+tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos,
+os annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta
+loucura. O livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o
+entregar á Inquisição. O processo foi summario e toda a
+responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte
+dos historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam
+a innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é
+escripta n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico,
+como se diz hoje, de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.
+
+Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como
+Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas
+pela corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado.
+
+Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo XVIII, Voltaire que não
+tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento de
+Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu
+sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo
+excesso do ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez
+julgasse, quando lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa
+na sua vida, que o philosopho d'algodão em rama achava ridiculo o
+jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando
+lhe fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle
+se certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o
+considerávam nem mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel
+que o seu real amo D. José.
+
+No _Perfil do Marquez de Pombal_ escreve Camillo Castello Branco: «A sua
+mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A
+Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas
+que trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns
+açoitados que se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira
+de entrudo.» Com effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na
+manhã de quarta-feira de cinza.[4]
+
+Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns
+Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto
+providencial que salvou do descredito os vinhos portuguezes e
+augmentou a exportação (dizem elles), não foi mais do que um
+monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria,
+contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia,
+absurdo, tolo, e, sobretudo, inutil.
+
+A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor
+da cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da
+aguardente no Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como
+eram contrarios á Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de
+vinho, fixada pela Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a
+declarar a quem o vendiam. Immortal legislador! Era d'esta e d'outras
+maneiras que este grande liberal impulsionava o commercio e a agricultura.
+
+Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este
+amontoado de desconchavos, de tolices e de privilegios.
+
+Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia
+dos vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis.
+
+Eu não quero crêr que operasse n'estas creaturas o espirito liberal
+e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande escriptor
+citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo.
+
+Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados
+um attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um
+protesto contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro!
+O real amo de Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico
+considerava-se mais rei do que o proprio rei, e quando via indisciplinas
+contra os seus decretos, punia-as como crimes de lesa-magestade. Assim
+bem podia o escrupuloso desembargador João Pacheco Pereira de
+Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o escrupulo de
+condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem podia o
+fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles
+selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos
+para Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o
+abreviar summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente
+enforcada por sua causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores
+que depois escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a inquebrantavel
+severidade dos grandes espiritos.»
+
+Finalmente--rejubilou Sebastião!--a 11 de outubro foi proferida a
+sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e
+confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação
+de metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma
+outra infinidade de penas um pouco menores.
+
+No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e
+quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma
+total dos condemnados ás diversas penas é de 237.
+
+E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao
+marquez, não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam
+de confessar a completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio
+e á exportação.
+
+Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas
+exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente
+inédita, ao mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos
+manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca
+publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os
+commissarios inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio:
+
+Annos ... Pipas
+
+1750 ... 15:121
+
+1751 ... 17:406
+
+1752 ... 13:238
+
+1753 ... 21:257
+
+1754 ... 14:773
+
+1755 ... 13:124
+
+1756 ... 12:094
+
+Somma ... 107:013
+
+Nos sete annos depois do monopolio:
+
+Annos ... Pipas
+
+1757 ... 11:317
+
+1758 ... 16:568
+
+1759 ... 16:413
+
+1760 ... 17:130
+
+1761 ... 14:785
+
+1762 ... 21:199
+
+1763 ... 9:683
+
+Somma ... 107:095
+
+Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras
+foi grande a diminuição depois do monopolio) mandou Sebastião de
+Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de desgraçados,
+que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a saude e
+com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer um
+estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem
+verdadeiramente extraordinario n'uma qualidade unica:--a suprema
+crueldade. Elle era um bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria
+considerado como um delirante furioso, mas que em Portugal é ainda
+tido--graças aos historiadores que fazem _historias_!--um ministro
+providencial.
+
+Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com
+uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o
+procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João
+Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa
+occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como
+desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez
+com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado com um sujeito
+por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer
+igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não
+queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas
+José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade.
+Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o
+processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do
+ministro.
+
+Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens
+de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos
+e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que
+considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os
+cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros».
+
+José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á
+mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de
+Mascarenhas leiam o _Perfil do Marquez de Pombal_ pelo snr. Camillo
+Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos
+menos importantes que digam respeito á crueldade de Pombal; por isso,
+lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão
+desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento.
+
+ * * * * *
+
+O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu
+porquissimo nariz--immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.
+
+Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe
+suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a
+celebração do santo sacrificio da missa».
+
+O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe
+provarem o grau de intelligencia.
+
+Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de
+todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.
+
+Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens
+religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu,
+não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do
+sacrificio, que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural,
+puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia
+de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a
+consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era
+falsificado com misturas reles.
+
+O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro _Le Marquis de
+Pombal_, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as
+misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da
+adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais
+conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os
+manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam
+ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital,
+depois do terremoto de 1 de novembro de 1755.
+
+Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e
+terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem que o nome dos
+ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de
+manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em
+1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo».
+Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil
+almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a
+narração.
+
+Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das
+Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes
+para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua
+Augusta e rua da Prata?
+
+O que pertence ao marquez--e traz o cunho indelevel d'esta
+individualidade--são os avisos mandados expedir depois do terremoto.
+Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas
+suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com
+quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante
+tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do
+monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando
+trabalhar nas obras da cidade bandos de operarios com fome,
+chicoteados e mal remunerados.
+
+Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo
+despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos
+pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo
+com que ha sete annos lhe celebraram o centenario.
+
+Porque--que isto se saiba!--quando este homem se retirou do poder
+deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria
+fome![5]
+
+ * * * * *
+
+Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas,
+já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais
+zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja.
+
+Em Hespanha, _ministrava_ Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um
+intrigante que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de
+Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as
+gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir
+em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez
+ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que
+monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da
+conversação. Monopolio facil:--monopolio do espirito dos outros:--de
+Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau
+romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por
+todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo
+sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e
+impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo!
+
+Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo,
+mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de
+poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos
+torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas,
+junto dos dois que com o seu cynismo mais concorreram para o
+descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o
+talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande
+faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos
+diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se
+espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje
+seriam--talvez!--dois citados escriptores illegiveis da _Revista dos
+Dois Mundos_! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que
+deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de
+queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições.
+
+A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus
+inimigos--até Voltaire!--protestáram contra ella.
+
+D'Alembert dizia:
+
+«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença
+contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que
+nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande
+numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.
+
+«A todos estes meios de augmentar a sua consideração e credito
+juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu
+comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra
+elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.»
+Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram
+expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os
+bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve _Dominus ac Redemptor_,
+que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.
+
+Firmava-o o pulso fraco,--mas parricida!--de Clemente XIV que em pleno
+peito apunhalava os seus mais zelosos filhos.
+
+Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á
+Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os
+supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de
+Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de
+supprimir a Ordem.[6]
+
+ * * * * *
+
+Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz
+casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca.
+Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque,
+dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal:
+e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi
+toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir
+de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança
+projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O
+rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o
+contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu.
+
+Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o
+empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a
+entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta
+disparando sobre elle um olhar carregado e colerico.
+
+O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe
+influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos
+de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro
+ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de
+odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus
+crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro
+desprezivel--e já desprezado!
+
+A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso,
+começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos
+maiores desfeiteadores o cardeal Cunha--um antigo amigo do marquez. Bom
+homem!
+
+D. José--o gordo--morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777.
+A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I
+que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da
+commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a
+villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo
+a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião
+de Carvalho. Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a
+apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se
+póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de
+escriptor.
+
+D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os
+desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha
+interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que
+se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que
+havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes
+enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data
+de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão!
+O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as
+garras--porque já não podia arranhar.
+
+Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos
+respeitos que não recebia, este velho--velho como a estupida maldade do
+seculo em que viveu--era o espantalho sinistro do seu passado
+terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era
+o espectro vivo d'um monstro amortalhado no sudario de infamias,
+parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que
+durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca--e fôra
+perdoado!
+
+É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os
+jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal,
+recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos
+despojos da invasão franceza.
+
+Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer
+que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira
+ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do
+chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos.
+
+ * * * * *
+
+Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os
+seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto
+n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez de Pombal
+morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais
+quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos
+um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus
+dias![7] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as
+minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a
+conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do
+Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma
+caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina
+para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante.
+
+FIM.
+
+ [1] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco _Perfil do
+ Marquez de Pombal_. Porto, 1882.
+
+ [2] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi
+ a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem
+ sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer
+ duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas
+ dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a
+ fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez
+ _l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello_, etc., etc.
+ Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13.
+
+ Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do
+ ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.
+
+ [3] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença,
+ deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos.
+ O rei modificou-lhes esta tremenda morte.
+
+ [4] 23 de fevereiro de 1757.
+
+ [5] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os
+ guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o.
+
+ [6] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower,
+ Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc.
+
+ [7] Foi tão medonho o supplicio do Pelle que os frades arrabidos
+ desmaiaram no meio da execução, e o carrasco para acabar com a
+ victima teve de estrangulal-a com o lenço.
+
+
+
+
+PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.
+
+_Cancella Velha, 70_
+
+
+
+
+
+OBRAS PUBLICADAS
+
+José de Sousa
+
+Notas de pedagogia philosophica. 1 vol. ... 400
+
+Caldas Cordeiro
+
+O Marquez de Pombal. (Folheto para poucos) ... 100
+
+Victor Hugo
+
+O rei diverte-se. Drama em cinco actos, em verso. Traducção de ACACIO
+ANTUNES. 1 vol. ... 600
+
+NO PRÉLO
+
+Teixeira Bastos
+
+Sciencia e Philosophia (Ensaios de critica positivista) ... 1 vol.
+
+Sá Chaves
+
+Episodios militares e casos contemporaneos (Etographias portuguezas) ...
+1 vol.
+
+
+
+
+
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+ <title>O Marquez de Pombal, por Manoel Caldas Cordeiro</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Marquez de Pombal
+ (folheto para poucos)
+
+Author: Manoel Caldas Cordeiro
+
+Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
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+
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+
+<div style="text-align: center; border: double 2px #000;">
+<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p>
+
+<hr style="width: 30%; height: 2px;">
+
+
+<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p>
+
+<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br>
+Rua da Cancella Velha, 70<br>
+</small></p>
+
+<p><small>1890</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;"><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">PUBLICAÇÕES DO AUTOR</h4>
+
+<div style="margin: 10%;">
+<p><i>A Vigilia</i>, n.º 1, 1886.</p>
+
+<p><i>A Vigilia</i>, n.º 2, 1886.</p>
+
+<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888.</p>
+
+<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888.</p>
+
+<p><i>O Marquez de Pombal</i>, 1890.</p>
+
+<p><i>Rimes Folles</i> (em preparação).</p>
+
+<p><i>Contos Sinistros</i> (em preparação)</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p>
+
+<hr style="width: 30%; height: 2px;">
+
+
+<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p>
+
+<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTO<br>
+<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br>
+Rua da Cancella Velha, 70<br>
+</small></p>
+
+<p><small>1890</small></p>
+</div>
+
+<p> <span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>O MARQUEZ DE POMBAL</h1>
+
+<p>Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo com
+um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, do
+providencial expurgador da impiedade; a envergadura do livre-pensador, do
+philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os contemporaneos.</p>
+
+<p>Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul&mdash;um visinho da
+sobre-loja, portanto,&mdash;chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha
+sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão Antonio
+Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito poderoso» e
+outras baboseiras. Os que viviam<span class="pn">{6}</span> junto d'elle
+elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora corressem
+parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o ministro de Luiz
+<small>XV</small>.</p>
+
+<p>Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se
+quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são uma
+revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que não teve
+nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens que imitou
+sempre.</p>
+
+<p>Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier
+d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.</p>
+
+<p>Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre
+pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de administração
+mas não lhe imitou o <i>dandysmo</i>, a resignação espirituosa com que este
+<i>impio</i> de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos braços de uma
+amante.<a name="tex2html1" href="#foot142"><sup>[1]</sup></a><span
+class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Quando queria ser <i>dandy</i> o marquez de Pombal nem sequer o era como um
+doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto <i>dandysmo</i>, que
+historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é a
+maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um velho de
+entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao pescoço. Elle
+tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o plural.<a
+name="tex2html2" href="#foot143"><sup>[2]</sup></a></p>
+
+<p>As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez do
+marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem immortal,
+um homem deslocado no seu meio e no<span class="pn">{8}</span> seu seculo. Elle
+estava até muito bem posto, o marquez&mdash;no meio e no seculo!</p>
+
+<p>O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia da
+lingua ingleza e a ausencia completa,&mdash;de resto propria do seu esquerdismo
+de desastrado&mdash;do puritanismo britannico, o grande puritanismo que
+antecedeu os <i>dandies</i> George <small>IV</small>, Brummell e lord Pellehan.
+O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno do ridiculo da
+época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um Saint-Just, um
+Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este ultimo o era de corpo, o
+ministro applaudido e consagrado pela historia tinha uma tão ingenua maldade
+que a sua attitude dominante consistia em carregar o sobr'olho para fingir a
+polvora da colera que lhe explosia na pedreira do coração.</p>
+
+<p>Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que lhe
+dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais estupidamente
+bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de Pombal como estadista tem
+o mesmo merito que na litteratura teria o escriptor que herdasse os
+manuscriptos de um<span class="pn">{9}</span> fallecido, e, publicando-os em
+seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.</p>
+
+<p>N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de Sebastião
+e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos da bibliotheca
+publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de racional.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas.
+Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm feito,
+só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de conjecturas.
+</p>
+
+<p>Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal;
+outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, que
+tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não ha um
+documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada póde
+considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi ferido no
+braço: «gravemente» dizem alguns historiadores.<span class="pn">{10}</span> É
+provável que haja engano.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da cirurgia;
+no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um braço, o cirurgião
+remediava o perigo da gangrena, cortando-o.</p>
+
+<p>Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez d'Angeja
+onde lhe foram dados os primeiros curativos.</p>
+
+<p>Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida em
+quasi todas as <i>Historias de Portugal</i>. Na do snr. Pinheiro Chagas vem
+elle narrado com muita exactidão.</p>
+
+<p>Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os Tavoras, o
+duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia Tavora é hoje tida
+como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, confessou que elles eram
+culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal com a confissão havia de ter um
+jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, fidalgos honestos, vaidosos dos seus
+pergaminhos que o tratavam desprezivelmente por <i>Sebastião José</i>. O
+tribunal aceitou a confissão do duque; mas quando se retractou, não lh'o
+consentiram. Os desgraçados postos a tratos,<span class="pn">{11}</span>
+segundo confessa Michelet e como logicamente se comprehende, muitas vezes
+confessavam crimes de que estavam innocentes, só para se livrarem d'aquelle
+supplicio medonho.</p>
+
+<p>Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de
+torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a sua, dos
+seus, e do seu amo.</p>
+
+<p>Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de Inconfidencia,
+todo composto de malandros e de estupidos da casta d'elle? Sebastião José jurou
+perder os Tavoras, porque julgou, talvez com razão, que a tentativa da
+conspiração visava mais a elle do que ao rei.</p>
+
+<p>Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro.
+Corriam boatos de que elles eram cumplices&mdash;e elles ouviam perfeitamente
+esses boatos. Porque não fugiam?</p>
+
+<p>Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?</p>
+
+<p>Estavam innocentes.</p>
+
+<p>Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade com
+que aguardavam a colera do rei e do ministro<span class="pn">{12}</span> que,
+no tenebroso espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as
+minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.</p>
+
+<p>A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:</p>
+
+<p>&mdash;Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle
+hesitaria em condemnar-vos innocentes?</p>
+
+<p>Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão
+fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.</p>
+
+<p>Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida soberba e
+uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.</p>
+
+<p>Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:&mdash;um malandro
+porquissimo e um gordurento repugnante.</p>
+
+<p>Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro tinha
+a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido seduzidas pelo
+rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso deboche».</p>
+
+<p>Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o
+desminta.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido era
+o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José
+<small>I</small>. Não havia porém uma prova cabal contra elles.</p>
+
+<p>Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos infelizes,
+considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer soffrer na alma e no
+corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, torturando-os, insistindo
+d'uma maneira infame sobre o destino dos seus restos mortaes.</p>
+
+<p>Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos a
+fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, escripto
+por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas minuciosidades bestiaes
+foram o additamento que o marquez fez á sentença condemnatoria.<span
+class="pn">{14}</span></p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite sinistra,
+á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As pancadas dos
+martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos todos n'uma casa do
+palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, tinha sido conduzida, do
+convento das Grillas para Belem.</p>
+
+<p>Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.</p>
+
+<p>Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse
+contemplar o horroroso supplicio.</p>
+
+<p>Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos Bichos e
+sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, o corregedor e
+a tropa.</p>
+
+<p>Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada por
+dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no começo da
+escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. Recebeu-a o algoz,
+e,<span class="pn">{15}</span> quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a
+vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia servir ao
+seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os seus dois
+filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, os braços;
+contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a morte do pai da
+dos filhos.</p>
+
+<p>A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem a
+morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, vendáram-n'a;
+e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.</p>
+
+<p>Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.</p>
+
+<p>Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido,
+pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe iam
+infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez.</p>
+
+<p>Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo, mas
+a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe sumia na
+garganta. Devia de dizer que morria innocente.</p>
+
+<p>Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa,<span class="pn">{16}</span>
+passáram-lhe uma corda pelo pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os
+braços, procurávam estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os
+ossos, dava gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas
+pelos ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as
+dilacerantes minuciosidades d'estas mortes.</p>
+
+<p>Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de
+Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz do que
+o irmão:&mdash;os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as pernas e
+os braços.</p>
+
+<p>O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. Antonio
+Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.</p>
+
+<p>Houve um pequeno intervallo.</p>
+
+<p>Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente,
+subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de
+quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da mulher,
+dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade se acabou por um
+momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, amarráram-lhe<span
+class="pn">{17}</span> os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu
+heroicamente<a name="tex2html3" href="#foot82"><sup>[3]</sup></a>.</p>
+
+<p>Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a
+familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente desfigurado,
+sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. Estendido na aspa o
+carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, emquanto o infeliz uivava uns
+gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os braços e as pernas. Eram tantos os
+gritos e as contorsões, que o carrasco apiedado&mdash;talvez!&mdash;deu-lhe com
+a maça na cabeça.</p>
+
+<p>O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros entraram
+pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos para a fogueira
+diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás minudencias da tortura.
+Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que queimavam os cadaveres das outras
+victimas. O vento soprava as chammas e avermelhava o corpo em braza<span
+class="pn">{18}</span> do desgraçado que gritava, torcia, blasphemava, apesar
+das consolações dos dois frades.</p>
+
+<p>Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e ainda
+o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo misericordia. José
+Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se tinha evadido. Sobre este
+sujeito veja-se a historia curiosissima que vem no <i>Perfil do Marquez de
+Pombal</i> do snr. Camillo Castello Branco. O cadafalso, os cadaveres, tudo,
+reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.</p>
+
+<p>Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal
+roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na ultima
+compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma <i>Genealogia dos
+Tavoras</i> que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata foi
+achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se d'isso
+muito segredo.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Reflexões sobre estes supplicios:</p>
+
+<p>O rei, convencido pelo marquez de Pombal<span class="pn">{19}</span> da
+culpabilidade dos infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José
+não era animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de
+Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do povo. E,
+façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha marqueza.
+Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua porca vingança,
+induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a minima indulgencia. E
+depois como elle punha e dispunha de tudo, a vontade do rei, quando se não
+tornava imperiosa e rude, era para elle cousa secundaria.</p>
+
+<p>Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de
+esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os Tavoras os
+mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; confisca-lhes os
+bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer pessoa, sob pena de
+confiscação de todos os bens, use do appellido de Tavora, e, passados nove
+annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o seu segundo filho José de
+Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e Lorena, sobrinha e prima dos
+sentenciados de Belem<span class="pn">{20}</span> e filha de Nuno Gaspar de
+Tavora e Lorena!</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no forte
+da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José d'Oliveira,
+João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo d'Oliveira, Francisco
+Duarte e Gabriel Malagrida.</p>
+
+<p>Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua <i>Historia de Portugal</i>:</p>
+
+<p>«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda
+consagrada ao bem do paiz.»</p>
+
+<p>Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os Tavoras, o
+Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas masmorras, os
+roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este livre pensador, para
+acabar com elles mais summariamente, entregava ao Santo Officio!</p>
+
+<p>Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho
+septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de todos. Os
+devotos consideravam-n'o<span class="pn">{21}</span> santo e procuravam-n'o com
+insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não era nem
+devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.</p>
+
+<p>Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil,
+onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas concessões
+justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, aggravado por uma
+mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura mansa.</p>
+
+<p>Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao
+paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de
+visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. Escreveu na
+prisão a <i>Vida da gloriosa Sant'Anna</i>, livro em que se revela o apogeu da
+loucura serena.</p>
+
+<p>Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus
+tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, os
+annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta loucura. O
+livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o entregar<span
+class="pn">{22}</span> á Inquisição. O processo foi summario e toda a
+responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte dos
+historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam a
+innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é escripta
+n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, como se diz hoje,
+de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.</p>
+
+<p>Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como
+Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas pela
+corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado.</p>
+
+<p>Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo <small>XVIII</small>, Voltaire
+que não tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento
+de Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu
+sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo excesso do
+ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez julgasse, quando
+lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa na sua vida, que o
+philosopho d'algodão em rama achava ridiculo<span class="pn">{23}</span> o
+jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando lhe
+fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle se
+certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o considerávam nem
+mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel que o seu real amo D.
+José.</p>
+
+<p>No <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> escreve Camillo Castello Branco: «A
+sua mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A
+Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas que
+trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns açoitados que
+se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira de entrudo.» Com
+effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na manhã de quarta-feira de
+cinza.<a name="tex2html4" href="#foot97"><sup>[4]</sup></a></p>
+
+<p>Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns
+Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto providencial que
+salvou do descredito os vinhos portuguezes e augmentou<span
+class="pn">{24}</span> a exportação (dizem elles), não foi mais do que um
+monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria,
+contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia, absurdo,
+tolo, e, sobretudo, inutil.</p>
+
+<p>A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor da
+cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da aguardente no
+Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como eram contrarios á
+Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de vinho, fixada pela
+Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a declarar a quem o vendiam.
+Immortal legislador! Era d'esta e d'outras maneiras que este grande liberal
+impulsionava o commercio e a agricultura.</p>
+
+<p>Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este amontoado de
+desconchavos, de tolices e de privilegios.</p>
+
+<p>Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia dos
+vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis.</p>
+
+<p>Eu não quero crêr que operasse n'estas<span class="pn">{25}</span> creaturas
+o espirito liberal e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande
+escriptor citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo.</p>
+
+<p>Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados um
+attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um protesto
+contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro! O real amo de
+Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico considerava-se mais rei do que o
+proprio rei, e quando via indisciplinas contra os seus decretos, punia-as como
+crimes de lesa-magestade. Assim bem podia o escrupuloso desembargador João
+Pacheco Pereira de Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o
+escrupulo de condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem
+podia o fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles
+selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos para
+Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o abreviar
+summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente enforcada por sua
+causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores que depois<span
+class="pn">{26}</span> escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a
+inquebrantavel severidade dos grandes espiritos.»</p>
+
+<p>Finalmente&mdash;rejubilou Sebastião!&mdash;a 11 de outubro foi proferida a
+sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e
+confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação de
+metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma outra
+infinidade de penas um pouco menores.</p>
+
+<p>No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e
+quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma total dos
+condemnados ás diversas penas é de 237.</p>
+
+<p>E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao marquez,
+não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam de confessar a
+completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio e á exportação.</p>
+
+<p>Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas
+exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente inédita, ao
+mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos<span class="pn">{27}</span>
+manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca
+publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os commissarios
+inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Annos ... Pipas</p>
+
+<p>1750 ... 15:121</p>
+
+<p>1751 ... 17:406</p>
+
+<p>1752 ... 13:238</p>
+
+<p>1753 ... 21:257</p>
+
+<p>1754 ... 14:773</p>
+
+<p>1755 ... 13:124</p>
+
+<p>1756 ... 12:094</p>
+
+<p>Somma ... 107:013</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Nos sete annos depois do monopolio:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Annos ... Pipas</p>
+
+<p>1757 ... 11:317</p>
+
+<p>1758 ... 16:568</p>
+
+<p>1759 ... 16:413</p>
+
+<p>1760 ... 17:130</p>
+
+<p>1761 ... 14:785</p>
+
+<p>1762 ... 21:199</p>
+
+<p>1763 ... 9:683</p>
+
+<p>Somma ... 107:095</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras foi
+grande<span class="pn">{28}</span> a diminuição depois do monopolio) mandou
+Sebastião de Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de
+desgraçados, que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a
+saude e com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer
+um estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem verdadeiramente
+extraordinario n'uma qualidade unica:&mdash;a suprema crueldade. Elle era um
+bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria considerado como um delirante
+furioso, mas que em Portugal é ainda tido&mdash;graças aos historiadores que
+fazem <i>historias</i>!&mdash;um ministro providencial.</p>
+
+<p>Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com uma
+ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o
+procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João
+Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa occasião
+sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como desterro simulado,
+reservando-se para mais tarde o prender, o que fez com effeito em 1758.
+Sebastião José de Carvalho indignado<span class="pn">{29}</span> com um sujeito
+por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer igualal-o! Se
+isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não queria rivaes n'uma
+qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas José de Mascarenhas estava
+longe de aspirar a semelhante rivalidade. Elle era um pouco menos fraco do que
+o pai, mas foi sempre durante o processo o fiel e talvez o brando executor das
+ordens tremendas do ministro.</p>
+
+<p>Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens de
+Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos e muito
+ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que considerasse o crime como
+de lesa-magestade, que mandasse enforcar os cabeças do motim, açoitar, degredar
+e roubar os outros».</p>
+
+<p>José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á mulher
+gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de Mascarenhas leiam
+o <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> pelo snr. Camillo Castello Branco. Tendo
+pouco espaço, não me posso occupar de assumptos menos importantes que digam
+respeito á<span class="pn">{30}</span> crueldade de Pombal; por isso, lendo o
+livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão desfiada a meada
+em que se enredáram historiadores de talento.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu
+porquissimo nariz&mdash;immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.</p>
+
+<p>Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe suppôr
+«que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a celebração do
+santo sacrificio da missa».</p>
+
+<p>O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe
+provarem o grau de intelligencia.</p>
+
+<p>Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de
+todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.</p>
+
+<p>Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens
+religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, não
+mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do sacrificio,<span
+class="pn">{31}</span> que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural,
+puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia de que o
+é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a consciencia d'isso,
+porque sabiam que o vinho da Companhia era falsificado com misturas reles.</p>
+
+<p>O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro <i>Le Marquis de
+Pombal</i>, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as
+misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da adulteração. Não
+era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais conhecimento das manhosas
+trapalhadas do ministro consulte os manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de
+Lisboa.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam
+ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, depois
+do terremoto de 1 de novembro de 1755.</p>
+
+<p>Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e
+terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem<span class="pn">{32}</span> que o
+nome dos ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de
+manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em 1614,
+maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». Abriu-se a
+terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil almas sepultadas nas
+ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a narração.</p>
+
+<p>Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das Aguas-Livres
+e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes para construirem os
+paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua Augusta e rua da Prata?
+</p>
+
+<p>O que pertence ao marquez&mdash;e traz o cunho indelevel d'esta
+individualidade&mdash;são os avisos mandados expedir depois do terremoto. Isto
+sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas suspeitas,
+que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com quantias
+superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante tres dias. Ordem
+providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do monopolio da
+escravatura branca que elle empregava mandando trabalhar<span
+class="pn">{33}</span> nas obras da cidade bandos de operarios com fome,
+chicoteados e mal remunerados.</p>
+
+<p>Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo
+despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos pelo povo
+durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo com que ha sete
+annos lhe celebraram o centenario.</p>
+
+<p>Porque&mdash;que isto se saiba!&mdash;quando este homem se retirou do poder
+deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria fome!<a
+name="tex2html5" href="#foot113"><sup>[5]</sup></a></p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, já
+as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais zelosa, a
+mais pugnadora pelos interesses da Egreja.</p>
+
+<p>Em Hespanha, <i>ministrava</i> Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um
+intrigante<span class="pn">{34}</span> que troçava espirituosamente das
+patifarias solemnes de Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um
+philosopho que as gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de
+creado de servir em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de
+talvez ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que
+monopolisava o espirito nos salões do seculo <small>XVIII</small>, o grande
+seculo da conversação. Monopolio facil:&mdash;monopolio do espirito dos
+outros:&mdash;de Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau
+poeta, mau romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por
+todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo sublime, e
+alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e impotente Rousseau ao
+lado de Victor Hugo!</p>
+
+<p>Ironia medonha! O homem que no seculo <small>XIX</small> mais enthusiasmo,
+mais estylo, mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um
+monumento de poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos
+torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, junto dos
+dois que com o seu cynismo<span class="pn">{35}</span> mais concorreram para o
+descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o talento
+que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande faculdade da
+admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos diffusos, solemnes,
+precisando d'um campo largo e aplainado para se espojarem, foram o alvo das
+acclamações d'um seculo, e hoje seriam&mdash;talvez!&mdash;dois citados
+escriptores illegiveis da <i>Revista dos Dois Mundos</i>! Juntava-se a elles a
+Pompadour, a espirituosa mulher que deu aos francezes mobilia, alegria e gozo.
+Esta sim, tinha razão de queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam
+as ambições.</p>
+
+<p>A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus
+inimigos&mdash;até Voltaire!&mdash;protestáram contra ella.</p>
+
+<p>D'Alembert dizia:</p>
+
+<p>«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença contra
+os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que nenhuma ordem
+religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande numero de homens
+celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.</p>
+
+<p>«A todos estes meios de augmentar a<span class="pn">{36}</span> sua
+consideração e credito juntavam um outro não menos seguro, que era a
+regularidade do seu comportamento e costumes. Embora se tenham publicado
+calumnias contra elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos
+para isso.» Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759
+foram expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os
+bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve <i>Dominus ac Redemptor</i>, que
+supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.</p>
+
+<p>Firmava-o o pulso fraco,&mdash;mas parricida!&mdash;de Clemente
+<small>XIV</small> que em pleno peito apunhalava os seus mais zelosos
+filhos.</p>
+
+<p>Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á Egreja
+é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os supprimia? Quem não
+vê aqui o grande erro e o grande crime de Ganganelli, o cardeal que obteve a
+tiara com a expressa condição de supprimir a Ordem.<a name="tex2html6"
+href="#foot124"><sup>[6]</sup></a><span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz
+casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca.
+Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, dizia
+elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: e propunha o
+casamento do principe com a filha de Luiz <small>XVI</small>. Como quasi toda a
+côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir de Roma os
+breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança projectada. Os papeis
+chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O rei adoeceu da paralysia
+mortal e ateimou para que se abreviasse o contrato. Procuráram-se os papeis em
+casa de Pombal, que os sumiu.</p>
+
+<p>Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o
+empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a entrar
+na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta disparando sobre
+elle um olhar carregado e colerico.<span class="pn">{38}</span></p>
+
+<p>O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe
+influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos de
+connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro ministro. Uma
+tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de odio, de piedade e de
+gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus crimes, evitou que o rei
+punisse com severidade o aventureiro desprezivel&mdash;e já desprezado!</p>
+
+<p>A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso,
+começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos maiores
+desfeiteadores o cardeal Cunha&mdash;um antigo amigo do marquez. Bom homem!</p>
+
+<p>D. José&mdash;o gordo&mdash;morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de
+1777. A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria
+<small>I</small> que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia
+mercê da commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a
+villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo a
+carruagem em que ia. D. Maria <small>I</small> resolvêra deixar em socego
+Sebastião de Carvalho.<span class="pn">{39}</span> Mas elle, que não
+comprehendeu isso, publicou a apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume
+provocador em que se póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de
+politico e de escriptor.</p>
+
+<p>D. Maria <small>I</small>, instigada com razão pelos escandalisados, mandou
+a Pombal os desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da
+Rocha interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que
+se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que havia por
+bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes enfermidades, os
+castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data de 16 d'agosto de 1781.
+O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! O velho tigre, desdentado para
+morder, lambia, encolhendo as garras&mdash;porque já não podia arranhar.</p>
+
+<p>Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos
+respeitos que não recebia, este velho&mdash;velho como a estupida maldade do
+seculo em que viveu&mdash;era o espantalho sinistro do seu passado terrorista.
+Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era o espectro vivo
+d'um monstro amortalhado<span class="pn">{40}</span> no sudario de infamias,
+parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que
+durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca&mdash;e fôra
+perdoado!</p>
+
+<p>É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os
+jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal,
+recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos
+despojos da invasão franceza.</p>
+
+<p>Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer que o
+marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira ficou
+piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do chão foi
+varrida para a rua. Não houve estremecimentos.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os seus
+actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto n'este
+pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez<span
+class="pn">{41}</span> de Pombal morreu, o medico achou-lhe duas pedras no
+coração. Devia de ter mais quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda
+de quatro cavallos um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára
+contra os seus dias!<a name="tex2html7" href="#foot136"><sup>[7]</sup></a>
+Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as minuciosidades do
+cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a conspiração dos jesuitas, e o
+crime de lesa-magestade na revolta do Porto. Escriptores metaphoricos comparam
+o coração do velho a uma caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente
+fallando, uma latrina para onde escorriam as fezes da sua alma sempre
+abundante.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot142" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Vide o magnifico
+livro de Camillo Castello Branco <i>Perfil do Marquez de Pombal</i>. Porto,
+1882.</p>
+
+<p><a name="foot143" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Uma das primeiras
+leis providenciaes do «grande reformador» foi a que mandava reprimir
+severamente «os libertinos que escolhem sempre a noite para assignalar o
+deboche e que, querendo fazer duvidar da honra das mulheres que se casavam,
+punham-lhes nas casas dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam
+suspeita a fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez
+<i>l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello</i>, etc., etc. Amsterdam,
+1786, tomo <small>II</small>, pag. 13.</p>
+
+<p>Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do ministro, que,
+para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.</p>
+
+<p><a name="foot82" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> O marquez de Tavora e
+o duque d'Aveiro, segundo a sentença, deviam ter os braços e as pernas
+quebrados e serem queimados vivos. O rei modificou-lhes esta tremenda morte.</p>
+
+<p><a name="foot97" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> 23 de fevereiro de
+1757.</p>
+
+<p><a name="foot113" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Soldados, cabos e
+sargentos pediam esmola publicamente. Os guardas do ministro pediam esmola a
+quem ia visital-o.</p>
+
+<p><a name="foot124" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Vide os historiadores
+Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas,
+etc., etc.</p>
+
+<p><a name="foot136" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Foi tão medonho o
+supplicio do Pelle que os frades arrabidos desmaiaram no meio da execução, e o
+carrasco para acabar com a victima teve de estrangulal-a com o lenço.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 50%; height: 2px;">
+
+<p style="text-align: center;"><small>PORTO&mdash;TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.</small></p>
+
+<p style="text-align: center;"><small><i>Cancella Velha, 70</i></small></p>
+
+<hr style="width: 50%; height: 2px;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">OBRAS PUBLICADAS</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">José de Sousa</h4>
+
+<p><span style="font-weight: bold;">Notas de pedagogia philosophica.</span> 1
+vol. ... 400</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">Caldas Cordeiro</h4>
+
+<p><span style="font-weight: bold;">O Marquez de Pombal.</span> (Folheto para
+poucos) ... 100</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">Victor Hugo</h4>
+
+<p><span style="font-weight: bold;">O rei diverte-se.</span> Drama em cinco
+actos, em verso. Traducção de A<small>CACIO </small>A<small>NTUNES</small>. 1
+vol. ... 600</p>
+
+<p style="text-align: center;">NO PRÉLO</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">Teixeira Bastos</h4>
+
+<p><span style="font-weight: bold;">Sciencia e Philosophia</span> (Ensaios de
+critica positivista) ... 1 vol.</p>
+
+<h4 style="text-align: center;">Sá Chaves</h4>
+
+<p><span style="font-weight: bold;">Episodios militares e casos
+contemporaneos</span> (Etographias portuguezas) ... 1 vol.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
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+
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+
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+works.
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+
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
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+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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