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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:58:47 -0700 |
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J. da Silva Teixeira, 1890."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Marquez de Pombal + (folheto para poucos) + +Author: Manoel Caldas Cordeiro + +Release Date: July 3, 2010 [EBook #33057] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align: center; border: double 2px #000;"> +<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p> + +<hr style="width: 30%; height: 2px;"> + + +<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p> + +<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70<br> +</small></p> + +<p><small>1890</small></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h4 style="text-align: center;">PUBLICAÇÕES DO AUTOR</h4> + +<div style="margin: 10%;"> +<p><i>A Vigilia</i>, n.º 1, 1886.</p> + +<p><i>A Vigilia</i>, n.º 2, 1886.</p> + +<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 1), 1888.</p> + +<p><i>Pyrilampos</i> (collaboração de Eduardo Pacheco, n.º 2), 1888.</p> + +<p><i>O Marquez de Pombal</i>, 1890.</p> + +<p><i>Rimes Folles</i> (em preparação).</p> + +<p><i>Contos Sinistros</i> (em preparação)</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p><big><i>Manoel Caldas Cordeiro</i></big></p> + +<hr style="width: 30%; height: 2px;"> + + +<p><big><big><big>O MARQUEZ DE POMBAL</big></big></big></p> + +<p>(FOLHETO PARA POUCOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA<br> +Rua da Cancella Velha, 70<br> +</small></p> + +<p><small>1890</small></p> +</div> + +<p> <span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>O MARQUEZ DE POMBAL</h1> + +<p>Elle tinha duas envergaduras como esses palhaços que apparecem no circo com +um fato de duas côres. A envergadura do beato, do amigo de D. José, do +providencial expurgador da impiedade; a envergadura do livre-pensador, do +philosopho preoccupado com o que d'elle diziam os contemporaneos.</p> + +<p>Diziam boas cousas os contemporaneos. O Choiseul—um visinho da +sobre-loja, portanto,—chamáva-lhe: «um tacanho aventureiro que tinha +sempre um jesuita a cavallo no nariz». O massador Garção e o semsaborão Antonio +Diniz da Cruz e Silva chamávam-lhe «genio, muito alto e muito poderoso» e +outras baboseiras. Os que viviam<span class="pn">{6}</span> junto d'elle +elogiávam-n'o uns por medo, outros por interesse. Os de longe, embora corressem +parelhas, no talento e no caracter, eram tão amaveis como o ministro de Luiz +<small>XV</small>.</p> + +<p>Como politico os seus actos de governo derivam das duas attitudes que se +quiz dar toda a vida. Attitudes que estão em antithese guerreira e são uma +revelação do caracter repugnante e hypocrita d'este doutrinario que não teve +nem a aberta franqueza, nem o espirito absolvidor dos homens que imitou +sempre.</p> + +<p>Chamam-se elles D. Luiz da Cunha, Alexandre de Gusmão, Francisco Xavier +d'Oliveira (o cavalleiro d'Oliveira), e o dr. Antonio Ribeiro Sanches.</p> + +<p>Eis os homens que tomou para norma das suas idéas occultas de livre +pensador. De D. Luiz da Cunha apanhou as idéas de governo e de administração +mas não lhe imitou o <i>dandysmo</i>, a resignação espirituosa com que este +<i>impio</i> de oitenta annos esperava a morte em Paris, nos braços de uma +amante.<a name="tex2html1" href="#foot142"><sup>[1]</sup></a><span +class="pn">{7}</span></p> + +<p>Quando queria ser <i>dandy</i> o marquez de Pombal nem sequer o era como um +doutrinado ridiculo. O unico traço de supposto <i>dandysmo</i>, que +historiadores como Rebello da Silva e o snr. Pinheiro Chagas nos dão, é a +maneira porque elle assestava a sua tremenda luneta. Tal e qual um velho de +entrudo, de rabicho, bastão, oculos e o corninho pendurado ao pescoço. Elle +tinha tudo isto, menos o corno de que possuia talvez o plural.<a +name="tex2html2" href="#foot143"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p>As paginas que vão lêr-se são um protesto contra a lenda idiota que fez do +marquez de Pombal um homem extraordinario, um homem unico, um homem immortal, +um homem deslocado no seu meio e no<span class="pn">{8}</span> seu seculo. Elle +estava até muito bem posto, o marquez—no meio e no seculo!</p> + +<p>O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia da +lingua ingleza e a ausencia completa,—de resto propria do seu esquerdismo +de desastrado—do puritanismo britannico, o grande puritanismo que +antecedeu os <i>dandies</i> George <small>IV</small>, Brummell e lord Pellehan. +O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno do ridiculo da +época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um Saint-Just, um +Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este ultimo o era de corpo, o +ministro applaudido e consagrado pela historia tinha uma tão ingenua maldade +que a sua attitude dominante consistia em carregar o sobr'olho para fingir a +polvora da colera que lhe explosia na pedreira do coração.</p> + +<p>Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que lhe +dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais estupidamente +bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de Pombal como estadista tem +o mesmo merito que na litteratura teria o escriptor que herdasse os +manuscriptos de um<span class="pn">{9}</span> fallecido, e, publicando-os em +seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.</p> + +<p>N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de Sebastião +e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos da bibliotheca +publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de racional.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. +Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm feito, +só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de conjecturas. +</p> + +<p>Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; +outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, que +tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não ha um +documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada póde +considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi ferido no +braço: «gravemente» dizem alguns historiadores.<span class="pn">{10}</span> É +provável que haja engano.</p> + +<p>N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da cirurgia; +no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um braço, o cirurgião +remediava o perigo da gangrena, cortando-o.</p> + +<p>Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez d'Angeja +onde lhe foram dados os primeiros curativos.</p> + +<p>Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida em +quasi todas as <i>Historias de Portugal</i>. Na do snr. Pinheiro Chagas vem +elle narrado com muita exactidão.</p> + +<p>Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os Tavoras, o +duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia Tavora é hoje tida +como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, confessou que elles eram +culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal com a confissão havia de ter um +jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, fidalgos honestos, vaidosos dos seus +pergaminhos que o tratavam desprezivelmente por <i>Sebastião José</i>. O +tribunal aceitou a confissão do duque; mas quando se retractou, não lh'o +consentiram. Os desgraçados postos a tratos,<span class="pn">{11}</span> +segundo confessa Michelet e como logicamente se comprehende, muitas vezes +confessavam crimes de que estavam innocentes, só para se livrarem d'aquelle +supplicio medonho.</p> + +<p>Os criados do duque foram mais honrados do que elle: nem á força de +torturas, confessáram a culpabilidade dos Tavoras, confessando porém a sua, dos +seus, e do seu amo.</p> + +<p>Mas que importava isto ao marquez de Pombal e ao tribunal de Inconfidencia, +todo composto de malandros e de estupidos da casta d'elle? Sebastião José jurou +perder os Tavoras, porque julgou, talvez com razão, que a tentativa da +conspiração visava mais a elle do que ao rei.</p> + +<p>Os Tavoras viveram no antigo luxo e socego depois do dia 3 de setembro. +Corriam boatos de que elles eram cumplices—e elles ouviam perfeitamente +esses boatos. Porque não fugiam?</p> + +<p>Porque não tentavam precaverem-se contra essas accusações?</p> + +<p>Estavam innocentes.</p> + +<p>Resposta que resume tudo; resposta que os absolve da louca serenidade com +que aguardavam a colera do rei e do ministro<span class="pn">{12}</span> que, +no tenebroso espirito ao serviço do seu coração empedrado, preparava as +minuciosidades selvagens do cadafalso de Belem.</p> + +<p>A historia a unica reprehensão que póde fazer aos desgraçados é esta:</p> + +<p>—Vossês deviam conhecer melhor Sebastião José! Julgavam que elle +hesitaria em condemnar-vos innocentes?</p> + +<p>Os Tavoras não esperavam tanta infamia da parte do seu inimigo. Senão +fugiriam como depois fugiu José Polycarpo de Azevedo.</p> + +<p>Quanto ao duque d'Aveiro, varia muito a attitude. Só uma estolida soberba e +uma inabsolvivel leviandade o podia fazer ficar em Portugal.</p> + +<p>Lamentemos estas infelizes victimas do ministro e do rei:—um malandro +porquissimo e um gordurento repugnante.</p> + +<p>Um escriptor francez, Victor Joly chega a dizer que «o duque d'Aveiro tinha +a queixar-se d'um duplo ultrage: a mulher e a filha tinham sido seduzidas pelo +rei e entregues a todos os caprichos de um escandaloso deboche».</p> + +<p>Cito este escriptor porque não será facil que algum historiador o +desminta.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Os Tavoras tinham recebido desconsiderações do rei; mas o mais offendido era +o segundo marquez de Tavora cuja mulher era a marafona de D. José +<small>I</small>. Não havia porém uma prova cabal contra elles.</p> + +<p>Isto não impediu que o tribunal os condemnasse.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Nunca em Portugal se viu uma tão intensa crueldade na morte dos infelizes, +considerados reus. Havia um proposito firme de os fazer soffrer na alma e no +corpo, prolongando-lhes o martyrio, infamando-os, torturando-os, insistindo +d'uma maneira infame sobre o destino dos seus restos mortaes.</p> + +<p>Aos apologistas do marquez de Pombal offerecemos a narração que passamos a +fazer e que tiramos do manuscripto da bibliotheca publica de Lisboa, escripto +por testemunha ocular, observando-lhes que todas estas minuciosidades bestiaes +foram o additamento que o marquez fez á sentença condemnatoria.<span +class="pn">{14}</span></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite sinistra, +á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As pancadas dos +martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos todos n'uma casa do +palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, tinha sido conduzida, do +convento das Grillas para Belem.</p> + +<p>Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos.</p> + +<p>Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse +contemplar o horroroso supplicio.</p> + +<p>Passava das seis horas e meia, quando se abriu a porta do pateo dos Bichos e +sahiu o grande acompanhamento tenebroso: os ministros do crime, o corregedor e +a tropa.</p> + +<p>Atraz vinha a cadeirinha d'onde se apeiou a marqueza de Tavora amparada por +dois padres da congregação de S. Vicente de Paula. Confessou-se no começo da +escada. Depois subiu com agitação os degraus do patibulo. Recebeu-a o algoz, +e,<span class="pn">{15}</span> quando ella julgava que elle ia acabar-lhe a +vida, o carrasco descreveu-lhe minuciosamente o instrumento que ia servir ao +seu supplicio, mostrou-lhe a corda que havia de estrangular os seus dois +filhos, e o genro, o maço que havia de quebrar-lhes as pernas, os braços; +contou-lhe como havia de morrer o marido, e em que divergia a morte do pai da +dos filhos.</p> + +<p>A marqueza, exhausta pela tortura moral, pedia de joelhos que lhe dessem a +morte. Amarráram-n'a á cadeira, tiráram-lhe o lenço do pescoço, vendáram-n'a; +e, o cutello ferindo-a na nuca, decepou-lhe a cabeça.</p> + +<p>Cobriram o cadaver da primeira victima com um panno preto.</p> + +<p>Sahiu a cadeirinha outra vez do pateo e apeiou-se quasi desfallecido, +pallido como um cadaver, entorpecido na lembrança do martyrio que lhe iam +infligir, um rapaz de vinte e um annos, loiro, amado talvez.</p> + +<p>Subiu difficultosamente a escada amparado pelos frades. Fallou ao povo, mas +a testemunha cujo manuscripto seguimos diz que a voz quasi se lhe sumia na +garganta. Devia de dizer que morria innocente.</p> + +<p>Os algozes estenderam-n'o n'uma aspa,<span class="pn">{16}</span> +passáram-lhe uma corda pelo pescoço, e emquanto lhe quebravam as pernas e os +braços, procurávam estrangulál-o. A corda partiu, e o infeliz, estalados os +ossos, dava gritos tremendos. Como esses gritos deviam penetrar como balas +pelos ouvidos dos espectadores! Hoje ainda o coração se nos mirra com as +dilacerantes minuciosidades d'estas mortes.</p> + +<p>Pela terceira vez trouxe a cadeirinha a terceira victima, o marquez de +Tavora, o novo, o que o rei tinha corneado. Este foi um pouco mais feliz do que +o irmão:—os algozes estranguláram-n'o e depois quebráram-lhes as pernas e +os braços.</p> + +<p>O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. Antonio +Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.</p> + +<p>Houve um pequeno intervallo.</p> + +<p>Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente, +subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de +quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da mulher, +dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade se acabou por um +momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, amarráram-lhe<span +class="pn">{17}</span> os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu +heroicamente<a name="tex2html3" href="#foot82"><sup>[3]</sup></a>.</p> + +<p>Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a +familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente desfigurado, +sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. Estendido na aspa o +carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, emquanto o infeliz uivava uns +gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os braços e as pernas. Eram tantos os +gritos e as contorsões, que o carrasco apiedado—talvez!—deu-lhe com +a maça na cabeça.</p> + +<p>O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros entraram +pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos para a fogueira +diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás minudencias da tortura. +Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que queimavam os cadaveres das outras +victimas. O vento soprava as chammas e avermelhava o corpo em braza<span +class="pn">{18}</span> do desgraçado que gritava, torcia, blasphemava, apesar +das consolações dos dois frades.</p> + +<p>Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e ainda +o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo misericordia. José +Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se tinha evadido. Sobre este +sujeito veja-se a historia curiosissima que vem no <i>Perfil do Marquez de +Pombal</i> do snr. Camillo Castello Branco. O cadafalso, os cadaveres, tudo, +reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.</p> + +<p>Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal +roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na ultima +compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma <i>Genealogia dos +Tavoras</i> que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata foi +achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se d'isso +muito segredo.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Reflexões sobre estes supplicios:</p> + +<p>O rei, convencido pelo marquez de Pombal<span class="pn">{19}</span> da +culpabilidade dos infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José +não era animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de +Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do povo. E, +façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha marqueza. +Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua porca vingança, +induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a minima indulgencia. E +depois como elle punha e dispunha de tudo, a vontade do rei, quando se não +tornava imperiosa e rude, era para elle cousa secundaria.</p> + +<p>Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de +esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os Tavoras os +mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; confisca-lhes os +bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer pessoa, sob pena de +confiscação de todos os bens, use do appellido de Tavora, e, passados nove +annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o seu segundo filho José de +Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e Lorena, sobrinha e prima dos +sentenciados de Belem<span class="pn">{20}</span> e filha de Nuno Gaspar de +Tavora e Lorena!</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no forte +da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José d'Oliveira, +João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo d'Oliveira, Francisco +Duarte e Gabriel Malagrida.</p> + +<p>Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua <i>Historia de Portugal</i>:</p> + +<p>«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda +consagrada ao bem do paiz.»</p> + +<p>Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os Tavoras, o +Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas masmorras, os +roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este livre pensador, para +acabar com elles mais summariamente, entregava ao Santo Officio!</p> + +<p>Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho +septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de todos. Os +devotos consideravam-n'o<span class="pn">{21}</span> santo e procuravam-n'o com +insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não era nem +devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.</p> + +<p>Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil, +onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas concessões +justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, aggravado por uma +mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura mansa.</p> + +<p>Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao +paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de +visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. Escreveu na +prisão a <i>Vida da gloriosa Sant'Anna</i>, livro em que se revela o apogeu da +loucura serena.</p> + +<p>Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus +tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, os +annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta loucura. O +livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o entregar<span +class="pn">{22}</span> á Inquisição. O processo foi summario e toda a +responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte dos +historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam a +innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é escripta +n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, como se diz hoje, +de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.</p> + +<p>Accusava-se o padre de heresiarcha como João Huss, como Savonarola, como +Calvino; e, depois de um extenso rol de perfidias fortuitas, inventadas pela +corja do ministro, condemnavam-n'o a ser garrotado e queimado.</p> + +<p>Voltaire, esse pequeno grande homem do seculo <small>XVIII</small>, Voltaire +que não tinha nem o espirito de Rivarol e de Chamfort, nem o colossal talento +de Diderot, Voltaire, o senhor de La Palisse do livre pensamento, escreveu +sobre esta condemnação que «o excesso do horror só era vencido pelo excesso do +ridiculo». O conde d'Oeiras, como era bastante tapado, talvez julgasse, quando +lhe disseram a phrase do homem que não fez outra cousa na sua vida, que o +philosopho d'algodão em rama achava ridiculo<span class="pn">{23}</span> o +jesuita garrotado. Por isto devia alegrar-se. Só, passados annos, quando lhe +fizeram comprehender o sentido das palavras de Voltaire, é que elle se +certificaria que os philosophos quando fallavam d'elle, não o considerávam nem +mais intelligente, nem mais perspicaz, nem menos cruel que o seu real amo D. +José.</p> + +<p>No <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> escreve Camillo Castello Branco: «A +sua mão (a do marquez), onde quer que pousava, punha nodoas de sangue. A +Companhia dos vinhos foi inaugurada no Porto com uma fileira de forcas que +trabalháram seis horas e por um crebro ulular de gemidos de uns açoitados que +se tinham amotinado em seguida á bebedeira de terça-feira de entrudo.» Com +effeito os taberneiros excitaram o povo á revolta na manhã de quarta-feira de +cinza.<a name="tex2html4" href="#foot97"><sup>[4]</sup></a></p> + +<p>Antes d'isso, convem advertir que a Companhia dos vinhos, que alguns +Plutarchos de Sebastião de Carvalho consideráram como um acto providencial que +salvou do descredito os vinhos portuguezes e augmentou<span +class="pn">{24}</span> a exportação (dizem elles), não foi mais do que um +monopolio infame, tendente a proteger aquelles que o Sebastião queria, +contrario a todas as leis de liberdade do commercio e de economia, absurdo, +tolo, e, sobretudo, inutil.</p> + +<p>A Companhia tinha o privilegio de vender vinho em tres leguas de redor da +cidade em 1760 em quarto; tinha o exclusivismo do fabrico da aguardente no +Minho, em Traz-os-Montes, na Beira. Os proprietarios, como eram contrarios á +Companhia, só podiam vender uma certa quantidade de vinho, fixada pela +Companhia, e eram obrigados, sob penas graves, a declarar a quem o vendiam. +Immortal legislador! Era d'esta e d'outras maneiras que este grande liberal +impulsionava o commercio e a agricultura.</p> + +<p>Ainda ha mais uma série de medidas que são o complemento d'este amontoado de +desconchavos, de tolices e de privilegios.</p> + +<p>Os amotinados de 23 de fevereiro entráram nos escriptorios da Companhia dos +vinhos, quebráram os moveis e queimáram os papeis.</p> + +<p>Eu não quero crêr que operasse n'estas<span class="pn">{25}</span> creaturas +o espirito liberal e revolucionario, mas sim, como o dá a entender o grande +escriptor citado, vestigios das bebedeiras de terça-feira de entrudo.</p> + +<p>Sebastião José de Carvalho, esse illuminado, viu na revolta dos bebados um +attentado contra a pessoa do rei, um crime de lesa-magestade, um protesto +contra os irrevogaveis decretos do seu real amo. Que malandro! O real amo de +Sebastião de Carvalho era elle mesmo. O cynico considerava-se mais rei do que o +proprio rei, e quando via indisciplinas contra os seus decretos, punia-as como +crimes de lesa-magestade. Assim bem podia o escrupuloso desembargador João +Pacheco Pereira de Vasconcellos escrever-lhe do Porto notificando-lhe o +escrupulo de condemnar os infelizes como reus de crime de lesa-magestade; bem +podia o fraco e respeitavel homem querer induzir um pouco á piedade o reles +selvagem. Tudo foi inutil. O processo durou cinco longos mezes, longos para +Sebastião de Carvalho, que de Lisboa não fazia senão mandal-o abreviar +summariamente. Elle anciava que se soubesse, que morria gente enforcada por sua +causa. O mostrengo bem sabia que viriam historiadores que depois<span +class="pn">{26}</span> escreveriam: «Sebastião de Carvalho tinha a +inquebrantavel severidade dos grandes espiritos.»</p> + +<p>Finalmente—rejubilou Sebastião!—a 11 de outubro foi proferida a +sentença condemnando á forca 21 homens e 5 mulheres; á pena de açoites e +confiscação de metade dos bens 26 homens; á pena de açoites, confiscação de +metade dos bens e degredo para Africa 8 homens e 9 mulheres, e uma outra +infinidade de penas um pouco menores.</p> + +<p>No dia 14 sahiram a morrer na forca treze homens (oito tinham fugido) e +quatro mulheres. Uma escapou da forca, por causa da gravidez. A somma total dos +condemnados ás diversas penas é de 237.</p> + +<p>E os vinhos nem por isso se vendiam mais. Historiadores affectos ao marquez, +não occultam a revolta de semelhantes iniquidades, e não deixam de confessar a +completa inutilidade que a Companhia trouxe ao commercio e á exportação.</p> + +<p>Têm-se publicado listas, mais ou menos exactas, sobre o numero de pipas +exportadas antes e depois do monopolio. Ahi vai uma, inteiramente inédita, ao +mesmo tempo imparcial, visto que é copiada dos<span class="pn">{27}</span> +manuscriptos adquiridos, no anno de 1889, á casa Pombal pela bibliotheca +publica de Lisboa. O numero d'estas pipas é exportado para os commissarios +inglezes. Eis a lista, nos sete annos anteriores ao monopolio:</p> + +<p> </p> + +<p>Annos ... Pipas</p> + +<p>1750 ... 15:121</p> + +<p>1751 ... 17:406</p> + +<p>1752 ... 13:238</p> + +<p>1753 ... 21:257</p> + +<p>1754 ... 14:773</p> + +<p>1755 ... 13:124</p> + +<p>1756 ... 12:094</p> + +<p>Somma ... 107:013</p> + +<p> </p> + +<p>Nos sete annos depois do monopolio:</p> + +<p> </p> + +<p>Annos ... Pipas</p> + +<p>1757 ... 11:317</p> + +<p>1758 ... 16:568</p> + +<p>1759 ... 16:413</p> + +<p>1760 ... 17:130</p> + +<p>1761 ... 14:785</p> + +<p>1762 ... 21:199</p> + +<p>1763 ... 9:683</p> + +<p>Somma ... 107:095</p> + +<p> </p> + +<p>Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras foi +grande<span class="pn">{28}</span> a diminuição depois do monopolio) mandou +Sebastião de Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de +desgraçados, que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a +saude e com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer +um estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem verdadeiramente +extraordinario n'uma qualidade unica:—a suprema crueldade. Elle era um +bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria considerado como um delirante +furioso, mas que em Portugal é ainda tido—graças aos historiadores que +fazem <i>historias</i>!—um ministro providencial.</p> + +<p>Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com uma +ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o +procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João +Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa occasião +sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como desterro simulado, +reservando-se para mais tarde o prender, o que fez com effeito em 1758. +Sebastião José de Carvalho indignado<span class="pn">{29}</span> com um sujeito +por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer igualal-o! Se +isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não queria rivaes n'uma +qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas José de Mascarenhas estava +longe de aspirar a semelhante rivalidade. Elle era um pouco menos fraco do que +o pai, mas foi sempre durante o processo o fiel e talvez o brando executor das +ordens tremendas do ministro.</p> + +<p>Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens de +Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos e muito +ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que considerasse o crime como +de lesa-magestade, que mandasse enforcar os cabeças do motim, açoitar, degredar +e roubar os outros».</p> + +<p>José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á mulher +gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de Mascarenhas leiam +o <i>Perfil do Marquez de Pombal</i> pelo snr. Camillo Castello Branco. Tendo +pouco espaço, não me posso occupar de assumptos menos importantes que digam +respeito á<span class="pn">{30}</span> crueldade de Pombal; por isso, lendo o +livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão desfiada a meada +em que se enredáram historiadores de talento.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu +porquissimo nariz—immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.</p> + +<p>Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe suppôr +«que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a celebração do +santo sacrificio da missa».</p> + +<p>O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe +provarem o grau de intelligencia.</p> + +<p>Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de +todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.</p> + +<p>Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens +religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, não +mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do sacrificio,<span +class="pn">{31}</span> que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, +puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia de que o +é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a consciencia d'isso, +porque sabiam que o vinho da Companhia era falsificado com misturas reles.</p> + +<p>O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro <i>Le Marquis de +Pombal</i>, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as +misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da adulteração. Não +era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais conhecimento das manhosas +trapalhadas do ministro consulte os manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de +Lisboa.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam +ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, depois +do terremoto de 1 de novembro de 1755.</p> + +<p>Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e +terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem<span class="pn">{32}</span> que o +nome dos ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de +manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em 1614, +maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». Abriu-se a +terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil almas sepultadas nas +ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a narração.</p> + +<p>Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das Aguas-Livres +e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes para construirem os +paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua Augusta e rua da Prata? +</p> + +<p>O que pertence ao marquez—e traz o cunho indelevel d'esta +individualidade—são os avisos mandados expedir depois do terremoto. Isto +sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas suspeitas, +que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com quantias +superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante tres dias. Ordem +providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do monopolio da +escravatura branca que elle empregava mandando trabalhar<span +class="pn">{33}</span> nas obras da cidade bandos de operarios com fome, +chicoteados e mal remunerados.</p> + +<p>Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo +despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos pelo povo +durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo com que ha sete +annos lhe celebraram o centenario.</p> + +<p>Porque—que isto se saiba!—quando este homem se retirou do poder +deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria fome!<a +name="tex2html5" href="#foot113"><sup>[5]</sup></a></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, já +as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais zelosa, a +mais pugnadora pelos interesses da Egreja.</p> + +<p>Em Hespanha, <i>ministrava</i> Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um +intrigante<span class="pn">{34}</span> que troçava espirituosamente das +patifarias solemnes de Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um +philosopho que as gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de +creado de servir em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de +talvez ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que +monopolisava o espirito nos salões do seculo <small>XVIII</small>, o grande +seculo da conversação. Monopolio facil:—monopolio do espirito dos +outros:—de Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau +poeta, mau romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por +todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo sublime, e +alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e impotente Rousseau ao +lado de Victor Hugo!</p> + +<p>Ironia medonha! O homem que no seculo <small>XIX</small> mais enthusiasmo, +mais estylo, mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um +monumento de poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos +torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, junto dos +dois que com o seu cynismo<span class="pn">{35}</span> mais concorreram para o +descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o talento +que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande faculdade da +admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos diffusos, solemnes, +precisando d'um campo largo e aplainado para se espojarem, foram o alvo das +acclamações d'um seculo, e hoje seriam—talvez!—dois citados +escriptores illegiveis da <i>Revista dos Dois Mundos</i>! Juntava-se a elles a +Pompadour, a espirituosa mulher que deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. +Esta sim, tinha razão de queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam +as ambições.</p> + +<p>A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus +inimigos—até Voltaire!—protestáram contra ella.</p> + +<p>D'Alembert dizia:</p> + +<p>«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença contra +os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que nenhuma ordem +religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande numero de homens +celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.</p> + +<p>«A todos estes meios de augmentar a<span class="pn">{36}</span> sua +consideração e credito juntavam um outro não menos seguro, que era a +regularidade do seu comportamento e costumes. Embora se tenham publicado +calumnias contra elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos +para isso.» Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 +foram expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os +bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve <i>Dominus ac Redemptor</i>, que +supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.</p> + +<p>Firmava-o o pulso fraco,—mas parricida!—de Clemente +<small>XIV</small> que em pleno peito apunhalava os seus mais zelosos +filhos.</p> + +<p>Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á Egreja +é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os supprimia? Quem não +vê aqui o grande erro e o grande crime de Ganganelli, o cardeal que obteve a +tiara com a expressa condição de supprimir a Ordem.<a name="tex2html6" +href="#foot124"><sup>[6]</sup></a><span class="pn">{37}</span></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz +casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. +Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, dizia +elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: e propunha o +casamento do principe com a filha de Luiz <small>XVI</small>. Como quasi toda a +côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir de Roma os +breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança projectada. Os papeis +chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O rei adoeceu da paralysia +mortal e ateimou para que se abreviasse o contrato. Procuráram-se os papeis em +casa de Pombal, que os sumiu.</p> + +<p>Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o +empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a entrar +na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta disparando sobre +elle um olhar carregado e colerico.<span class="pn">{38}</span></p> + +<p>O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe +influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos de +connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro ministro. Uma +tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de odio, de piedade e de +gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus crimes, evitou que o rei +punisse com severidade o aventureiro desprezivel—e já desprezado!</p> + +<p>A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, +começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos maiores +desfeiteadores o cardeal Cunha—um antigo amigo do marquez. Bom homem!</p> + +<p>D. José—o gordo—morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de +1777. A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria +<small>I</small> que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia +mercê da commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a +villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo a +carruagem em que ia. D. Maria <small>I</small> resolvêra deixar em socego +Sebastião de Carvalho.<span class="pn">{39}</span> Mas elle, que não +comprehendeu isso, publicou a apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume +provocador em que se póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de +politico e de escriptor.</p> + +<p>D. Maria <small>I</small>, instigada com razão pelos escandalisados, mandou +a Pombal os desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da +Rocha interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que +se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que havia por +bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes enfermidades, os +castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data de 16 d'agosto de 1781. +O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! O velho tigre, desdentado para +morder, lambia, encolhendo as garras—porque já não podia arranhar.</p> + +<p>Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos +respeitos que não recebia, este velho—velho como a estupida maldade do +seculo em que viveu—era o espantalho sinistro do seu passado terrorista. +Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era o espectro vivo +d'um monstro amortalhado<span class="pn">{40}</span> no sudario de infamias, +parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que +durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca—e fôra +perdoado!</p> + +<p>É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os +jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, +recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos +despojos da invasão franceza.</p> + +<p>Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer que o +marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira ficou +piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do chão foi +varrida para a rua. Não houve estremecimentos.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os seus +actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto n'este +pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez<span +class="pn">{41}</span> de Pombal morreu, o medico achou-lhe duas pedras no +coração. Devia de ter mais quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda +de quatro cavallos um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára +contra os seus dias!<a name="tex2html7" href="#foot136"><sup>[7]</sup></a> +Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as minuciosidades do +cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a conspiração dos jesuitas, e o +crime de lesa-magestade na revolta do Porto. Escriptores metaphoricos comparam +o coração do velho a uma caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente +fallando, uma latrina para onde escorriam as fezes da sua alma sempre +abundante.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM.</p> + +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot142" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Vide o magnifico +livro de Camillo Castello Branco <i>Perfil do Marquez de Pombal</i>. Porto, +1882.</p> + +<p><a name="foot143" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Uma das primeiras +leis providenciaes do «grande reformador» foi a que mandava reprimir +severamente «os libertinos que escolhem sempre a noite para assignalar o +deboche e que, querendo fazer duvidar da honra das mulheres que se casavam, +punham-lhes nas casas dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam +suspeita a fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez +<i>l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello</i>, etc., etc. Amsterdam, +1786, tomo <small>II</small>, pag. 13.</p> + +<p>Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do ministro, que, +para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.</p> + +<p><a name="foot82" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> O marquez de Tavora e +o duque d'Aveiro, segundo a sentença, deviam ter os braços e as pernas +quebrados e serem queimados vivos. O rei modificou-lhes esta tremenda morte.</p> + +<p><a name="foot97" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> 23 de fevereiro de +1757.</p> + +<p><a name="foot113" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Soldados, cabos e +sargentos pediam esmola publicamente. Os guardas do ministro pediam esmola a +quem ia visital-o.</p> + +<p><a name="foot124" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Vide os historiadores +Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, +etc., etc.</p> + +<p><a name="foot136" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Foi tão medonho o +supplicio do Pelle que os frades arrabidos desmaiaram no meio da execução, e o +carrasco para acabar com a victima teve de estrangulal-a com o lenço.</p> +</div> + + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 50%; height: 2px;"> + +<p style="text-align: center;"><small>PORTO—TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.</small></p> + +<p style="text-align: center;"><small><i>Cancella Velha, 70</i></small></p> + +<hr style="width: 50%; height: 2px;"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">OBRAS PUBLICADAS</p> + +<h4 style="text-align: center;">José de Sousa</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Notas de pedagogia philosophica.</span> 1 +vol. ... 400</p> + +<h4 style="text-align: center;">Caldas Cordeiro</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">O Marquez de Pombal.</span> (Folheto para +poucos) ... 100</p> + +<h4 style="text-align: center;">Victor Hugo</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">O rei diverte-se.</span> Drama em cinco +actos, em verso. Traducção de A<small>CACIO </small>A<small>NTUNES</small>. 1 +vol. ... 600</p> + +<p style="text-align: center;">NO PRÉLO</p> + +<h4 style="text-align: center;">Teixeira Bastos</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Sciencia e Philosophia</span> (Ensaios de +critica positivista) ... 1 vol.</p> + +<h4 style="text-align: center;">Sá Chaves</h4> + +<p><span style="font-weight: bold;">Episodios militares e casos +contemporaneos</span> (Etographias portuguezas) ... 1 vol.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manoel Caldas Cordeiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL *** + +***** This file should be named 33057-h.htm or 33057-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/0/5/33057/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. 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