diff options
Diffstat (limited to '32296-h')
| -rw-r--r-- | 32296-h/32296-h.htm | 7019 |
1 files changed, 7019 insertions, 0 deletions
diff --git a/32296-h/32296-h.htm b/32296-h/32296-h.htm new file mode 100644 index 0000000..88e898a --- /dev/null +++ b/32296-h/32296-h.htm @@ -0,0 +1,7019 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Pero da Covilhan, por Zeferino Brandão</title> + <meta name="Author" content="Zeferino Norberto Gonçalves Brandão, 1842-1910"> + <meta name="Publisher" content="Antiga Casa Bertrand--José Bastos"> + <meta name="Date" content="1897"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Pero da Covilhan, by Zeferino Norberto Gonçalves Brandão + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Pero da Covilhan + Episodio Romantico do Seculo XV + +Author: Zeferino Norberto Gonçalves Brandão + +Release Date: May 8, 2010 [EBook #32296] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div class="fbox"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1897.</p> + +<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não considerámos necessário assinalá-los.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em; text-align: center;">Pero da Covilhan</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.1em;">QUARTO CENTENARIO<br> +DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2.5em;">P<small>ERO DA</small> C<small>OVILHAN</small></p> + +<p style="font-size: 1.1em;">(EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ZEPHYRINO BRANDÃO</p> + +<p><small>DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE +MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA E DA S. G. L.</small></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>A<small>NTIGA </small>C<small>ASA</small> BERTRAND—JOSÉ BASTOS <br> +LIVREIRO-EDITOR <br> +<em>LISBOA—73, Rua Garrett, 75</em></p> + +<p>1897</p> +</div> + +<p><a class="pn" name="pg_IV">{IV}</a></p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<hr> +<p style="text-align: center;"><small>Typographia da Academia Real das Sciencias de +Lisboa</small></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><a class="pn" name="pg_V">{V}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000100">CONVERSA PREAMBULAR</a> </h1> + +<p>Eu não sei bem o que venho aqui fazer.</p> + +<p>Não venho, de certo, apresentar Zeferino Brandão, pois eu proprio lhe fui +apresentado, noviço em lettras, quando elle já era, na egreja litteraria, +officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos sacerdotes maximos, com +alguns dos quaes privava, de irmão a irmão.</p> + +<p>Com effeito,—e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, não +devendo comtudo andar muito longe dos trinta,—foi na primeira casa que João de +Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio quarto do poeta, +que Zeferino Brandão e eu nos avistámos a vez primeira.<a class="pn" +name="pg_VI">{VI}</a> Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu, +cadete de lanceiros.</p> + +<p>Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um +momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo, e que +um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa dos hospedes, +com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo, conquistando-me uma +ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e deixando-me a mim proprio +deslumbrado de taes versos serem meus. Coitados! Por onde andarão elles!</p> + +<p>Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender de +então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu, que, sempre +que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão bellas coisas a +relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava ali; o Arriaga, que vinha +todos os dias; o Anthero, que apparecia de quando em quando; o Simões Dias, o +Candido de Figueiredo, o Guimarães Fonseca, o João Penha, a todo o momento +falados, porém ausentes.</p> + +<p>Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer +annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como<a class="pn" +name="pg_VII">{VII}</a> disparate de marca maior, e como antecedente de +pessimos effeitos. E tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima +roupa:</p> + +<blockquote> + Com que então, cahiu na asneira <br> + De fazer na quinta feira, <br> + Vinte e seis annos! Que tolo! <br> + Ainda se os desfizesse... <br> + Mas fazel-os, não parece <br> + De quem tem muito miolo! </blockquote> + +<p>Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no anno +anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no immediato. E por +isso João de Deus accrescentava:</p> + +<blockquote> + Não sei quem foi que me disse, <br> + Que fez a mesma tolice <br> + Aqui o anno passado... <br> + Agora o que vem, apósto, <br> + Como lhe tomou o gosto, <br> + Que faz o mesmo? Coitado! <br> + <br> + Não faça tal; porque os annos <br> + Que nos trazem? Desenganos <br> + Que fazem a gente velho. <br> + Faça outra coisa; que em summa <br> + Não fazer coisa nenhuma, <br> + Tambem lhe não aconselho. </blockquote> + +<p>Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do poeta; +não poude no emtanto<a class="pn" name="pg_VIII">{VIII}</a> +satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez outras coisas, livros excellentes, +por exemplo; mas accumulou, e foi tambem fazendo annos, com a maior moderação, +o mais devagar que lhe foi possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os. +Era o que João de Deus lhe tinha dito:</p> + +<blockquote> + Mas annos, não caia n'essa! <br> + Olhe que a gente começa <br> + Ás vezes por brincadeira, <br> + Mas depois, se se habitua, <br> + Já não tem vontade sua, <br> + E fal-os, queira ou não queira. </blockquote> + +<p>Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi da +noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e alegre +convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de então, e sabe-se +quanto é ciosa e aristocrata a superioridade intellectual, que não desce nunca +a nivelar-se com os mediocres, e que só anda hombro a hombro com os seus pares. +</p> + +<p>Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e no +tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou, áquellas de +que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.<a class="pn" +name="pg_IX">{IX}</a></p> + +<p>Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu +<em>caloiro</em>.</p> + +<p>Portanto, toda e qualquer ideia de apresentação, ou de recommendação seria +absurda.</p> + +<p>Mas Zeferino Brandão exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta excursão +pelo mundo aventuroso da publicidade, não por medo d'ella, que o seu animo é +seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a ponderar quanto valem +baldões e glorias litterarias; mas verdadeiramente tão só, pois outra +explicação lhe não posso dar, por mero capricho de artista.</p> + +<p>Dêmos, por conseguinte, o braço e vamos ambos de companhia, uma vez que esta +lhe é agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.</p> + +<p>Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brandão apuramento selecto em +um volume, a que deu por titulo <em>Paginas Intimas</em>, do qual depois fez +segunda edição, mais aprimorada ainda, e tambem difficil já de encontrar nas +livrarias. Não é vulgar que este caso succeda, e não é pequena honra, nem +pequena satisfação para um auctor, e sobretudo para um poeta, poder referil-o. +</p> + +<p>Os taes annos, que a gente se habitúa a fazer, e que depois cada qual faz, +queira ou não queira, foram arredando o poeta das tentações da rima,<a +class="pn" name="pg_X">{X}</a> sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia, +que elle continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada +em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas coloridas e +illuminadas, quer na evocação ideal dos tempos volvidos, trazendo á tela do +presente, memorias, personagens e feitos do passado.</p> + +<p>D'estas duas predilecções da sua mente, a um tempo assimiladora e imaginosa, +são documento bastante os dois livros de valor, com que a sua bagagem +litteraria se enriquece. Um d'elles, <em>Monumentos e lendas de Santarem</em>, +é um verdadeiro padrão de sentimento, erguido ás recordações gloriosas d'essa +forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de uma collecção de +<em>Viagens</em>, que está reclamando, a brados, os seus successores, é uma +soberba descripção da <em>Belgica</em> moderna.</p> + +<p>Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos +descriptivos de uma excursão pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo da +publicação, nos deixou no espirito uma grata lembrança.</p> + +<p>Compraz-se o escriptor, como se vê, e n'isto mesmo affirma intensamente o +seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relação com o seu +tempo, como na vida sonhadora a que<a class="pn" name="pg_XI">{XI}</a> o +attraem os livros de outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de +meridional mais á larga se expande.</p> + +<p>Ali, os monumentos de mais de uma raça, livros de pedra abertos á meditação +dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na memoria dos povos +que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como centro de attracção maior; +depois, primacialmente, as soberanias e magnificencias da arte, legados +inestimaveis que as gerações foram transmittindo, e nos quaes vae encontrar as +mais altas suggestões artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o +gosto moderno.</p> + +<p>Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes, tambem, só +por si, dão medida do bom equilibrio e da alta cultura de quem os escolhe e +professa.</p> + +<p>Não são diversos os predicados do novo livro, que me encontro prefaciando. O +auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de Pero da Covilhã, a +qual apparece na historia, um pouco esbatida, tão sómente pela exuberancia de +luz com que se illuminam os quadros dos descobrimentos e conquistas +subsequentes, que elle em tamanha parte preparou.</p> + +<p>Essa figura, porém, tem contornos bem definidos,<a class="pn" +name="pg_XII">{XII}</a> e Pero da Covilhã é, na epopêa dos Gamas e dos +Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um inolvidavel predecessor.</p> + +<p>Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel para o +seu proposito; mas de tal fórma se cinge ás linhas da realidade, que a figura +se destaca viva, deante de nós, como realmente foi, e o leitor mal póde +discernir onde começa e acaba a ficção, e onde prevalece o rigor historico.</p> + +<p>Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brandão, uma vez que a vida +aventurosa do seu personagem dá que farte para todas as exigencias da concepção +romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginação.</p> + +<p>O scenario em que elle expande a sua actividade, tão ousada e tão original, +mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades não eram de extranheza, +apparece-nos restabelecido, por tão singular poder de evocação, que nos +sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto e a alma cheia de +interesse, como se nós mesmos pertencessemos á época em que toda a acção do +livro, muito mais historia do que romance, amplamente se desenrola.</p> + +<p>Vêmos, logo no começo, a Sevilha do seculo decimo<a class="pn" +name="pg_XIII">{XIII}</a> quinto, e o viver luxuoso das grandes casas de +Hespanha, onde em muitas das quaes a cadeira senhorial ousava defrontar-se em +orgulhos e pretenções com os thronos dos reis; e no solar magestoso dos +Medina-Sidonia, vamos encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido +d'ali a terras de Portugal, por cá se deixou ficar a pedido de Affonso V, +servindo com o seu coração, que já era de portuguez, a patria de seus paes, +assim restituida a elle proprio.</p> + +<p>Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro, é acompanhado pelo auctor e pelo +leitor, primeiro na sua missão e officio de personagem da côrte e do séquito +real, durante o ultimo quartel de vida, tão agitado e tão pouco feliz, do rei, +que em Portugal o havia detido e que sempre lhe dispensou o seu favor; depois, +em toda a sua peregrinação ao Oriente, na demanda das terras do Preste, até dar +fundo na Abyssinia, onde para sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um +captiveiro perpetuo, que não deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o +houvessem tecido com laços de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e +das honras, agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do +amor.</p> + +<p>O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica<a class="pn" +name="pg_XIV">{XIV}</a> fundamental, d'onde veiu por fim a ser gerada esta +successão esplendida de quadros historicos, passa-se na intimidade dos corações +e das consciencias d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas +para os quaes a mais viva aspiração da alma foi um sonho que jámais se +realisou. Não se póde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais +pericia, atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias +physicas do homem são postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a +agudissima sensibilidade do coração.</p> + +<p>Parece-nos até, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro +reside no contraste a que damos relêvo agora. Os que tenham pensado encontrar +n'elle uma obra de completa ficção, podem talvez ficar desapontados ante o +predominio que ali assumem a exactidão, a abundancia, a veracidade historica. +Mas a conducção do fio ideal e subtilissimo, de uma pura e platonica paixão +amorosa, accendida nos mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o +decurso da vida com os oleos da religião e da cavallaria, com os incitamentos +do dever e da honra, a habil e engenhosissima conducção d'esse fio, repetimos, +com a qual o auctor parece nada se preoccupar sem<a class="pn" +name="pg_XV">{XV}</a> que todavia um momento a descure, é uma das maiores +provas que Zeferino Brandão nos podia dar, de quão delicado é o seu +temperamento artistico, de quão profundo é o seu sentimento poetico, de quão +esmerado é o seu fino gosto.</p> + +<p>E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os meritos +da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se não reparasse em qual deve +ser já a sua impaciencia, e em como é tempo de os deixar a sós com o dono da +casa, do qual sabem já que teem a esperar uma recepção de primôr.</p> + +<p> </p> + +<p> 26 de fevereiro de 1897.</p> + +<p style="text-align: right;">F<small>ERNANDES </small>C<small>OSTA.</small> + +<p> </p> + + +<p><a class="pn" name="pg_XVI">{XVI}</a></p> + +<p> </p> + +<p><a class="pn" name="pg_XVII">{XVII}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000200"><em>ADVERTENCIA</em></a> </h1> + +<p>O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um +pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma e pura, +como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de lodaçaes, d'essas +miserias, que são a mais viva chaga social de todos os tempos, o terrivel +problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.</p> + +<p>Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por +impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no incidente da +successão á corôa de Castella.<a class="pn" +name="pg_XVIII">{XVIII}</a></p> + +<p>Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.</p> + +<p>A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na +formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para +descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira lamentavel em +ambos os casos.</p> + +<p>No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio, +houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios. D'estes não +cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca estiveram, os meus +dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido eterno da palavra, antes de +o serem no sentido historico.</p> + +<p>—E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou +tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á qual +subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha phantasia? +</p> + +<p>Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto +hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,<a class="pn" +name="pg_XIX">{XIX}</a> porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar +as tintas modernas, e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.</p> + +<p>Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do descobrimento +do caminho maritimo da India.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Zephyrino Brandão</em></p> + +<p><a class="pn" name="pg_XX">{XX}</a></p> + +<p> </p> + +<p><a class="pn" name="pg_1">{1}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000300">I</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000310"><em>DESPEDIDA</em></a> </h2> + +<p>O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam por +lá os nossos visinhos, que <em>não vio maravilha</em>.</p> + +<p>Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr +no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir +do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos +materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.</p> + +<p>O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo +<small>XV</small>, em um dia calmoso do estio.</p> + +<p>Abrasa tanto calor!...</p> + +<p>Em breve zombaremos d'elle.</p> + +<p>Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de +jardins e fontes,<a class="pn" name="pg_2">{2}</a> no intuito de +refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e até no interior dos proprios +edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem +fielmente os costumes de seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma +d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.</p> + +<p>Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa +planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.</p> + +<p>Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle +se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com +grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre +caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só +por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por +facilitar assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria +fabril dos sevilhanos;—o que torna riquissima de população e haveres a formosa +metropole andaluza.</p> + +<p>Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do +Ouro.</p> + +<p>Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a +estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a +<em>grande</em>, como á de Toledo a <em>rica</em>, á de Salamanca a +<em>forte</em> e á de Leão a <em>bella</em>.<a class="pn" +name="pg_3">{3}</a></p> + +<p>Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa, +que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com +variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o +mais notavel monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo +celebre alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a +invenção da algebra.</p> + +<p>—Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe +ainda o <em>Giraldillo</em>, e por isso a torre não é conhecida pelo nome de +<em>Giralda</em>.</p> + +<p>Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com +palacios realengos.</p> + +<p>As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com +graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som +das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; <a +href="#nota_A">de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</a> +por tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a reflectir a +luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.</p> + +<p>O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que +não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é +patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama +patrioticamente:<a class="pn" name="pg_4">{4}</a></p> + +<blockquote> + «Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas <br> + Para el Cielo crió tantos tesoros, <br> + Cuantas el ancho mar esconde arenas, <br> + Cuantas estrellas los celestes coros!» </blockquote> + +<p>Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem +algo peccadora...</p> + +<p>A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam +frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu +serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias. +</p> + +<p>Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças +centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos +legados em seus testamentos.</p> + +<p>Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como +tambem o tratam.</p> + +<p>Entremos no seu palacio.</p> + +<p>Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior uma +riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a influencia +exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde considerar-se uma vivenda +semi-oriental, como todas as do estylo <em>mudejar</em>, a que pertence, para a +construcção das quaes as duas artes, christã e mahometana, se dão as mãos com +tal engenho, que se harmonisam perfeitamente os dois elementos de manifestações +tão diversas.</p> + +<p>—Como sabido anda, os arabes que ficaram<a class="pn" +name="pg_5">{5}</a> com os christãos, depois de certos tratados, em virtude +dos quaes se lhes permittia conservar suas leis, religião e costumes, +chamavam-se <em>mudejares</em>, e nas edificações, em que eram empregados, +imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que os da sua raça haviam +conquistado, especialmente da Persia.</p> + +<p>Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o +estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das quaes +demoram as habitações.</p> + +<p>A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes d'ella +recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus desenhos +primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento acha-se coberto com +uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No tecto, o elemento decorativo +predominante são estalactites e laçarias, tudo realçado com applicação de côres +e douraduras.</p> + +<p>Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa +imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás suas +tradições gloriosas.</p> + +<p>Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e +estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia. Uma +riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés d'esta +cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum extrangeiro<a +class="pn" name="pg_6">{6}</a> de distincção, que o visita, e a quem elle +offerece esse lugar de honra.</p> + +<p>Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres, +representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos, batalhas, +torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos, imitando persas, +guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de mosaicos esmaltados. Os +tectos, estucados e pintados, com imitações mais ou menos exactas da flora. +Alguns pavimentos, alcatifados.</p> + +<p>Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua +escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da pintura +sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes fundára a sua escola. +As paredes e tectos da ante-camara, armados e toldados de riquissimos lambeis. +Os móveis, de páu-santo, primorosamente entalhados e forrados de brocado e +ouro.</p> + +<p>Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero manda +executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a perfeita +intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma credencia com tres +compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim e rendas de Flandres, +repousam varios objectos de uso senhoril, uns de ouro, outros de prata e +crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano, coberto com um bancal de velludo, +tendo ao meio bordadas<a class="pn" name="pg_7">{7}</a> as armas da +duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados de +prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e castiçaes de +ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas proclamam a sua +candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de onyx exhalam a sua +fragancia suavissima.</p> + +<p>As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes, +despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas, adargas, onde +se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em fórma de meia lua, +espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.</p> + +<p>Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem completamente +as estreitas portas de alerse.</p> + +<p>O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar coroado +por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla, titulo da familia +Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas cadeiras ainda, lavradas +com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e umas e outras com escabellos +fixos ou moveis; almofadas de seda, sobrepostas duas a duas, e servindo de +assento na sala de recepção da duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, +bancos longos e de espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de +thezoura, bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros +dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de<a class="pn" +name="pg_8">{8}</a> escrever, todas de madeiras preciosas e guarnecidas de +prata, ferro ou bronze; relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, +outras de ferro. Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias +orientaes, que lhe dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus +bordados caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de +um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre que se +vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas, outros vasos +de prata lavrada, salvas e floreiras.</p> + +<p>Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D. Juan +de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.</p> + +<p>Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as dez +donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão um rosario e +um livro de missa.</p> + +<p>Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento. +Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com que na +volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.</p> + +<p>Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças +da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena +côrte.</p> + +<p>Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas +donzellas e de<a class="pn" name="pg_9">{9}</a> alguns fidalgos, dos mais +apontados em garbos de cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de +conversadores, passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, +recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.</p> + +<p>Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente +algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão +justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de <em>mãe dos pobres</em>. +</p> + +<p>E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo +principal do palacio.</p> + +<p>É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente, +decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de +ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de +ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro +uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e +os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.</p> + +<p>Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O +sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande +toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do +tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:</p> + +<p>—Estais a despedir-vos das flores, Perico?...</p> + +<p>—Quem sabe, se tornarei a vê-las!...—respondeo<a class="pn" +name="pg_10">{10}</a> o pagem com pronunciado acento de tristeza.</p> + +<p>—Pois porque não haveis de voltar?...</p> + +<p>—Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...</p> + +<p>—Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando +com presagios pelo caminho...</p> + +<p>As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua +companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á +sua interlocutora:</p> + +<p>—Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na +certeza de que ficaria bem guardado?</p> + +<p>—De mim!—exclamam todas a um tempo.</p> + +<p>—Como elle não póde repartir-se,—ponderou o pagem—entrega-lo-hia a +Beatriz.</p> + +<p>—Sois mui gentil, Perico!—tornou esta. Graças pela preferencia...</p> + +<p>—Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...</p> + +<p>—Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...</p> + +<p>—Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao +som d'elle:</p> + +<blockquote> + <em>Con dos cuidados guerreo</em> <br> + <em>que me dan pena y sospiro;</em> <br> + <em>el uno quando no os veo,</em> <br> + <em>el otro quando vos miro.</em><a name="tex2html1" + href="#foot117"><sup>[1]</sup></a> </blockquote> + +<p><a class="pn" name="pg_11">{11}</a></p> + +<p>—Bellissimo, Perico!...—bradaram as donzellas com viva demonstração de +alegria.</p> + +<p>—Que gracioso sois!—accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque +esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento +alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?</p> + +<p>—Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...—observou o pagem.</p> + +<p>—Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos +jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste +descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando +regressardes, recitai-os, Perico!...</p> + +<p>—Careceis dos nossos rogos?...—atalharam as outras donzellas.</p> + +<p>Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de +Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são +poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes +e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o +reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo +não havia perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.</p> + +<p>Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na +lingua arabe, e<a class="pn" name="pg_12">{12}</a> sabem numerosas lendas +d'este povo de poetas. Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a +litteratura. Os romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de +Hespanha, anteriores ao presente seculo <small>XV</small>, todos os cavalleiros +d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez +de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos é +escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes esta +maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a espada na mão do +cavalleiro.»</p> + +<p>N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a +familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.</p> + +<p>Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade, +parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de +graça, e exclama:</p> + +<p>—Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...</p> + +<p>Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao +animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria +inferior.</p> + +<p>O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude +d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da +galeria.</p> + +<p>Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de +olhar scintillante e<a class="pn" name="pg_13">{13}</a> modos altaneiros, +em que se traduz o seu orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do +infortunio, tem feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, +ora narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A +famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar ginetes, +para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos Guzman, apesar do +seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos estavam arreados, e +promptos a enfrear á primeira voz.</p> + +<p>São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que +lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida +momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil +cavallos».</p> + +<p>Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do +palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D. +Juan de Guzman.</p> + +<p>Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o +qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que +o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos +trovadores da sua côrte.</p> + +<p>Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas +e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros,<a class="pn" +name="pg_14">{14}</a> encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha +ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam alcançado +licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui passar a Santiago +de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar os caminhos de Hespanha +ora tão infestados de bandidos e salteadores.</p> + +<p>As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima +nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam +distinguir um só d'elles.</p> + +<p>—Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez. +Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.</p> + +<p>—E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?... +Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de +entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte +teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia +da memoria os venturosos dias de Sevilha?...</p> + +<p>Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas +com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.</p> + +<p>Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos +costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia,<a +class="pn" name="pg_15">{15}</a> não auctoriza a procurar mysterios no que +tão natural se apresenta.</p> + +<p>—Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de +experimentados escudeiros?</p> + +<p>—É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que +monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos +joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.</p> + +<p>Ditosa mocidade!...</p> + +<p>Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a +exercer o galante ministerio de <em>juiza</em> em alguma <em>côrte de +amor</em>.</p> + +<p>E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da +sanfona:</p> + +<blockquote> + «Rosa fresca, rosa fresca, <br> + tan garrida y con amor; <br> + quando vos tuve em mis braços, <br> + no vos supe servir, no, <br> + y agora que os serviria <br> + no vos puedo aver no.<a name="tex2html2" href="#foot128"><sup>[2]</sup></a> + <br> + ............................ <br> + ............................ </blockquote> + +<p><a class="pn" name="pg_16">{16}</a><br><a class="pn" +name="pg_17">{17}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000400">II</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000410"><em>CONSPIRAÇÃO</em></a> </h2> + +<p>Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde +poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para +melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.</p> + +<p>Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal +D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma +menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo, +pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D. +Isabel, irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco +depois, reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a +recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra +o juramento.<a class="pn" name="pg_18">{18}</a></p> + +<p>Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem +da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente +agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no +serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de +cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam +reconhecer-lhe meritos para tanto.</p> + +<p>Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;—o +verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e +divertindo-se.</p> + +<p>D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de +Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este, +por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia +empenhado por avultada somma de dinheiro.</p> + +<p>Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei +usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.</p> + +<p>O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e, +como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça +tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.</p> + +<p>No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e +seus sequazes,<a class="pn" name="pg_19">{19}</a> para uma reunião +secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.</p> + +<p>Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:</p> + +<p>—É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.</p> + +<p>—Não se me afigura empresa difficil...—acudio em tom pausado e sisudo o +arcebispo de Toledo.</p> + +<p>—Convenho;—replicou Vilhena—mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e +tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...</p> + +<p>—E a nós,—atalhou, recachando-se, o prelado toledano—embóra inferiores na +quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que +luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...</p> + +<p>—Sim, esse...—condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja +execução de ninguem confiava.—Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de +Aragão.</p> + +<p>—Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas +palavras: invistamos contra a honra da rainha!</p> + +<p>Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade +media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para +menear o cajado pacifico do apostolo.</p> + +<p>O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor, +e, occultando cautelosamente<a class="pn" name="pg_20">{20}</a> o +assombro, que lhe produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:</p> + +<p>—Como?...</p> + +<p>—Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la +Cueva—respondeo serenamente o arcebispo.</p> + +<p>—E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o +facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se +com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos +é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na +sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, +sem evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do +rei, e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações +perante tal mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...</p> + +<p>—E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem +acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o +vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados, +e até as avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha +defensa possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a +mostrar-se em publico, sem correr o risco de ser apupado...</p> + +<p>—N'essas circumstancias deixará a infanta de<a class="pn" +name="pg_21">{21}</a> ser a herdeira presumptiva da corôa...—contestou +pausadamente o marquez.</p> + +<p>—Sem duvida!—atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no +marquez de Vilhena certo ar de indecisão.</p> + +<p>—Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...</p> + +<p>—Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!—exclamou o +arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo, +accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...</p> + +<p>—Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de +Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a +côrte aragoneza...</p> + +<p>—É habil esse lance!...—ponderou o arcebispo—Comtudo não vos esqueçais do +arcebispo de Sevilha...</p> + +<p>—Seguramente...</p> + +<p>—Vejo, que nos comprehendemos...</p> + +<p>—Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de +restaurar...</p> + +<p>—O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e +apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...—concluio o arcebispo, sorrindo +ironicamente.</p> + +<p>—É uma creança que substitue outra...—observou Vilhena.</p> + +<p>—É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança,<a class="pn" +name="pg_22">{22}</a> e D. Affonso hade obedecer ás nossas inspirações...</p> + +<p>Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não +confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e +audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia +consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a +victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem +d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com +elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de +uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!</p> + +<p>O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão +mostrando elles para gloria sua.</p> + +<p>Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão, +assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe +servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a +sua intimidade com o conde de Ledesma.</p> + +<p>Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o +nome de <em>Beltraneja</em>, posto por elles á innocente infanta, e perfida +injuria disparada ao pundonor de sua mãe.</p> + +<p>Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na +baixeza, de propalar<a class="pn" name="pg_23">{23}</a> em tamanha +infamia aquelles, que se diziam <em>grandes de Castella</em>!</p> + +<p>Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por +saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe +propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido +monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto +a sua victima, que passou logo para o bando dos descontentes!</p> + +<p>Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e +apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa. +Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a +camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes +ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.</p> + +<p>De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam, +com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar +por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não +era sua filha bem o sabiam elle e o conde!</p> + +<p>O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os +perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e +accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por +que tanto suspirava o marquez de Vilhena.<a class="pn" +name="pg_24">{24}</a></p> + +<p>Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez +que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno, +entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se +considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D. +Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.</p> + +<p>Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram +em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual +collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de +sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em +seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o +sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de +Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a +pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!</p> + +<p>O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram +a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.</p> + +<p>Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero +instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!</p> + +<p>Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado +profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia<a +class="pn" name="pg_25">{25}</a> de Henrique IV, que era o desespero dos +bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os +conjurados.</p> + +<p>Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um +grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica, +feita á princeza D. Joanna em Saragoça.</p> + +<p>Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas, +mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo +lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o +sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que +fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a +responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.</p> + +<p>O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da +velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;—o que +significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por +traidores.</p> + +<p>Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos +negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se +ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que +Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de +armas por cinco mezes, dando<a class="pn" name="pg_26">{26}</a> azo a +despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as povoações, <a +href="#nota_B">a ponto de provocar a fundação das <em>Hermandades</em></a>, +para perseguir os malfeitores.</p> + +<p>Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente +comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados, +cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.</p> + +<p>O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus +serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse +com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz +Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de +Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr +tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.</p> + +<p>A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer +esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.</p> + +<p>O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e +senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando +de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo, +principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que +appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada,<a +class="pn" name="pg_27">{27}</a> participando-lhe, que tinham acclamado o +infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em vez de +attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle os castigos +eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava todas as classes á +desobediencia.</p> + +<p>D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os +conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não +poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse... +Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com +D. Joanna, a quem chamou <em>supposta</em> filha do monarcha.</p> + +<p>Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã +não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da +rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente +infanta, sua filha.</p> + +<p>Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo +legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo +quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia +recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel +desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.</p> + +<p>Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para +D. Isabel.<a class="pn" name="pg_28">{28}</a></p> + +<p>O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto +D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena +oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo +engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace +d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas +discordias, surgiam logo outras.</p> + +<p>Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa +sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo +elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete +em suas mãos.</p> + +<p>Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de +previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso, +porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo +illustre uma pagina indecorosa.</p> + +<p>O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova +campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de +Castella.</p> + +<p>Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim +de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e +depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com +quem fosse,<a class="pn" name="pg_29">{29}</a> antes de elle regressar. A +infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e +intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei de +Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante certas +condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella encarregára a +negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as consideravam +os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio realisou-se. Correo +logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a dispensa pontificia, tão +reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, +nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á +verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o breve +indispensavel.</p> + +<p>Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição, +na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se +effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu +rei, por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa +união. Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em +que lhe communicava a sua mudança de estado.</p> + +<p>Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!</p> + +<p>O desforço de Henrique IV consistio em reunir<a class="pn" +name="pg_30">{30}</a> um simulacro de côrtes no valle de Lozoya, onde, +perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era irrito e nullo +o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D. Isabel por +herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha, pois lhe +fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima filha. +Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por +procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, +que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu +assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que por +meio de poderes especiaes havia empenhado.</p> + +<p>Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V, +a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de +Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de +Vilhena do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique +IV entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão, +filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador +de Castella.</p> + +<p>Começou o anno de 1474.</p> + +<p>Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera, +teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar<a class="pn" +name="pg_31">{31}</a> com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural +bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para +apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto IV, +sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que desejasse, por +isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a ponto de lograr +induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova publica de +affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao alcaçar. +Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã e +cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em braços +para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias, para que +declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O +marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D. +Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a +sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo +contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um pêso, +de que não podia alliviar-se.</p> + +<p>Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que +falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes +antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D. +Diogo,<a class="pn" name="pg_32">{32}</a> que assistio com o cardeal +Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, +aos ultimos momentos do rei em Madrid.</p> + +<p>Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha +moribundo, perguntou a este o cardeal:</p> + +<p>—V. A. deixa testamento?</p> + +<p>—Deixo—respondeo Henrique IV.—O meu secretario Juan de Oviedo o +apresentará.</p> + +<p>—E quem são os vossos testamenteiros?—continuou o cardeal.</p> + +<p>—Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde +de Plasencia.</p> + +<p>—E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?—insistio ainda Mendoza.</p> + +<p>—A minha filha D. Joanna—replicou o monarcha serena e firmemente.</p> + +<p>Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda, +em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas +ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!</p> + +<p>Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar, +em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne +<em>Te-Deum</em>, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente +foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu +esposo e do rei defunto, sentou-se<a class="pn" name="pg_33">{33}</a> +junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o +alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D. +Henrique.</p> + +<p>Parece um sarcasmo!</p> + +<p>Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a +successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o +direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os +rebeldes.</p> + +<p><a href="#nota_C">Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da +historia.</a></p> + +<p>Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu +criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que +é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.</p> + +<p>O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido +desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa, +com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.</p> + +<p>Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella; +saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que +no conceito de Camões,</p> + +<blockquote> + <em>Fôra por certo invicto cavalleiro,</em> <br> + <em>Se não quizera ir ver a terra Iberica.</em> </blockquote> + +<p><a class="pn" name="pg_34">{34}</a><br><a class="pn" +name="pg_35">{35}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000500">III</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000510"><em>NOVO ESCUDEIRO</em></a> </h2> + +<p>Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de D. +Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de Aragão +principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia afinal +decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em circumstancias mui +diversas.</p> + +<p>Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna era +uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem a +necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se operava a +favor da justa causa da princeza de Castella.</p> + +<p>Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das hostilidades, +de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe, ficou inteiramente á +mercê da versatilidade caracteristica de<a class="pn" +name="pg_36">{36}</a> seus parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de +seus odios particulares, e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por +zelo do bem publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V, +para lhes saciar a cobiça.</p> + +<p>Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o +testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D. Joanna +sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão, pedindo outrosim +a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e casasse com a sobrinha. +</p> + +<p>Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos +grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo respeito ás +praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer conselho, que +contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não só quantos e quaes +eram os magnates castelhanos legitimistas, como de certificar-se da valia +d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque, seu camareiro-mór, depois conde +de Penamacor.</p> + +<p>A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido pelo +monarcha.</p> + +<p>Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito com +ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente pediam a +lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato grandes e +pequenos.<a class="pn" name="pg_37">{37}</a></p> + +<p>Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o +apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto entre +ambos ficasse assentado.</p> + +<p>Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:</p> + +<p>—Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O reino +sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de dissolução, +caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de voss'alteza está o +poder evita-la.</p> + +<p>—São esses os meus desejos;—replicou D. Affonso—mas, como sabeis, a +empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que se +propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.</p> + +<p>—Da parte de meu irmão—tornou Guzman—venho eu prestar homenagem a +voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar, tomar e +reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se desposar com a +senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do governo de Castella.</p> + +<p>—O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como procede, +offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.</p> + +<p>—Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a +gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.<a +class="pn" name="pg_38">{38}</a></p> + +<p>—Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!</p> + +<p>D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados ademanes +de cavalleiro:</p> + +<p>—Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que desde +já põe ao serviço de voss'alteza.</p> + +<p>—É contingente valioso esse—observou D. Affonso.</p> + +<p>A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser +definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.</p> + +<p>—Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da +resposta de meu irmão.</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D. +Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois desejava +enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que poderiamos entrar +em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.</p> + +<p>—E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?</p> + +<p>—Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este +numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella, pois +muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão immediatamente. +</p> + +<p>D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de ter já +por si em Castella<a class="pn" name="pg_39">{39}</a> tão importantes +forças; e com a sua habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:</p> + +<p>—Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais +briosos certamente.</p> + +<p>—Mercê por elles, meu Senhor.</p> + +<p>—Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito gostará +de conversar comvosco.</p> + +<p>É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra, +sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe acceitar o +papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.</p> + +<p>D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o tempo +sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o pagem, que +viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo sevilhano, o qual, +mais talvez por alardear philaucias de familia, do que por enaltecer as +qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu em resumo: que da Covilhan +costumava ir a Sevilha o páe do pagem commerciar e conquistára grandes +creditos. Tendo afinal estabelecido a sua residencia n'aquella cidade, onde era +geralmente estimado, accedeu ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, +de deixar-lhe educar o filho, então muito creança ainda, mas dotado já de +singular viveza. Como fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o +pagem inteiramente confiado ao amparo<a class="pn" name="pg_40">{40}</a> +do duque. Possuia prendas muito estimaveis, poderia em breve ser um excellente +cavalleiro, e chamava-se Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.</p> + +<p>Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite de +terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia reconhecido isso na +maneira como lhe fallavam d'elle.</p> + +<p>Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan: +</p> + +<p>—Quereis ser pagem do rei de Portugal?</p> + +<p>—Tudo quanto sou—respondeu Pero—devo ao senhor duque, por isso não tenho +animo de separar-me d'elle.</p> + +<p>—Esperava essa resposta;—volveu Guzman—mas se eu vos pedir, que fiqueis? +</p> + +<p>—Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.</p> + +<p>—Meu bom Perico!—exclamou affectuosamente Guzman.—Muito me custa +deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de +Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por +isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito. +</p> + +<p>No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V +dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro, +servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte +annos.<a class="pn" name="pg_41">{41}</a></p> + +<p>O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz +XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa +D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava +convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear, +que na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o +retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente +em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. +Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de +ambos os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a +ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França. +</p> + +<p>Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI, +que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe +capaz de manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino +com a França; mas contra todos em geral e sem excepção.</p> + +<p>N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da +Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse +comprehendido no tractado a celebrar com Castella.</p> + +<p>De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz +XI; o que determinou<a class="pn" name="pg_42">{42}</a> este a promulgar +uma carta patente sobre o soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire +d'Albret commandante de um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia. +</p> + +<p>Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu +parecer—que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro—ácerca da +entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em +marcha, conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.</p> + +<p>—Insistis na vossa opinião?—perguntou o monarcha ao duque de Bragança.</p> + +<p>—Certamente, meu Senhor—respondeu o duque.</p> + +<p>—Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que por +Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?</p> + +<p>—Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses +mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa sobrinha, são +os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural, depondo-o do governo do +reino.</p> + +<p>—Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que assiste +a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus anteriores +desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim grandes mercês?</p> + +<p>—O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende unicamente da +sua ambição, e<a class="pn" name="pg_43">{43}</a> vem acompanhada de mais +interesse, do que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas +começar a ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa +bandeira.</p> + +<p>—Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora descabida. +Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a grandes perigos, +offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se duvidassem do seu e meu +triumpho?!</p> + +<p>—De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis. Mas +superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e prudentes, tendo ao +seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel por sua rainha. E uma +acclamação, como esta, é vantagem muito grande no começo dos reinados, servindo +até de justificar as pretensões mais duvidosas.</p> + +<p>—Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto não +só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com outros tantos +castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade engrossarão o meu +exercito.</p> + +<p>—E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como em +armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha decerto; e +até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da Secilia, o rei de +Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.</p> + +<p>—Sim, estão os meus adversarios bem aparentados;<a class="pn" +name="pg_44">{44}</a> mas não os temo apesar d'isso, e eu tambem <em>não +nasci das pedras</em>.<a name="tex2html3" href="#foot173"><sup>[3]</sup></a> +Conto igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, <em>que é +mais fiel que todos os parentes e amigos</em>, e tenho sobretudo a Deus em meu +auxilio.</p> + +<p>—Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti, +porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha +de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a +paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não +olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir +fallar do casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora, +obriga o mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a +murmurar e attribuir esta guerra a algum odio reservado...</p> + +<p>—Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.</p> + +<p>—Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para +ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de +voss'alteza e a minha, se necessario for.</p> + +<p>A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de +Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D. +Isabel, proxima parenta do duque;<a class="pn" name="pg_45">{45}</a> +suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão +fatal á casa de Bragança.</p> + +<p>D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de +que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse +o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e +unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos +portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os +principes contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores, +especie de péste endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda +remedio.</p> + +<p>O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os +successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia, +do que lisonjear um principe.</p> + +<p>Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho +primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas +grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem +que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei, +consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos +principes do partido contrario.</p> + +<p>Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo +alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns<a +class="pn" name="pg_46">{46}</a> dos quaes consumiam seus patrimonios e +forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o +influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal, +havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais acendraram a +fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de que era +singularmente dotado.</p> + +<p>A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela +Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados +pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra +do solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de +reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e +desamparada?</p> + +<p>E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?</p> + +<p>Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os codices da +preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, em +um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito instructiva:</p> + +<p>«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento +delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com a +Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a Castella o +Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje<a class="pn" +name="pg_47">{47}</a> he Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em +corte de Roma privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e +asi outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o mesmo +caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de Cecilia e Principe +d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que primeiro foi Rei de Navarra, o +qual casamento fez por mão do Arcebispo de Tolledo dom Affonso Carillo, e do +Almirante avoo do dito Rei da parte de sua mãi, e fique em memoria que o fez +porque o dito Senhor Rei Dom Affonso <em>a não quiz, querendo ella muito</em>, +e depois elle a quisera e ella como as molheres naturalmente sam vingativas o +não quiz quando elle quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar, +como na verdade foi, <em>ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com +o titolo de sua sobrinha</em>, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á +Rainha Dona Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada +sobcederão fique do Coronista ao carguo.»</p> + +<p>Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como +vimos, a mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que <a +href="#nota_D">o principe D. João casasse com a princeza de Castella, D. +Joanna</a>. D. Affonso dilatou a sua resolução, e sómente quando muito instado +por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do marquez de +Vilhena, mandou uma embaixada<a class="pn" name="pg_48">{48}</a> pedir a +infanta. Os embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e +afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios brandos de +reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de Toledo cuidou +immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo em relêvo a dilação +descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que preferisse Fernando de Aragão, e +entendeu, que, para frustrar as idéas dos adversarios, devia fazer secretamente +os preparativos, precipitar os tramites do negocio, e de um modo ou outro +verificar o matrimonio, para que, realizado e consumado, não désse lugar ao +<em>arrependimento da princeza</em>. E maior préssa se deu ainda, quando soube, +que de Roma havia sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de +1469, concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então um breve +apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio II, +pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento da +consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o sigillo e +realizar o negocio com promptidão.</p> + +<p>O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e commetter +torpezas.<a class="pn" name="pg_49">{49}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000600">IV</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000610"><em>JORNADA INFELIZ</em></a> </h2> + +<p>Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde +mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o +<em>Regimento de Guerra</em>, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham +de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a hoste +assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a bandeira real +mettida na funda.</p> + +<p>Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475, D. +Affonso V</p> + +<blockquote> + ...................«tocado de ambição <br> + E gloria de mandar amara e bella, <br> + Sai cometter Fernando de Aragão, <br> + Sobre o potente reino de Castella.»<a name="tex2html4" + href="#foot187"><sup>[4]</sup></a> </blockquote> + +<p><a class="pn" name="pg_50">{50}</a></p> + +<p>Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva, Ruy +Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram a Piedra +Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e seiscentos +cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V, que tomou então o +supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o marechal, o ouvidor da +hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos, cavalleiros e capitães, a quem +recommendou obediencia em tudo aos quatro primeiros; verificou o numero da +gente que havia, e deu as necessarias providencias no tocante á ordenança, que +as tropas deviam conservar durante a marcha.</p> + +<p>Na frente saíu o <em>adail-mór</em> com um troço de ginetes, formando a +guarda avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do +arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da vanguarda +real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a, o condestavel, +cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava as alas a fina flor +da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a rectaguarda não mediava mais +de um tiro de bésta, a fim de poderem mutuamente soccorrer-se.</p> + +<p>Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na +vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa +dignidade estavam repartidas por D. João, marquez<a class="pn" +name="pg_51">{51}</a> de Montemór, filho do duque de Bragança D. Fernando I, +e por seu irmão o duque de Guimarães.</p> + +<p>A cavallaria compunha-se de <em>cavalleiros</em> e <em>escudeiros</em> de +geração nobre; de <em>lanças</em>, que os senhores de terras tinham obrigação +de dar, acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de +<em>cavalleiros</em> da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a +contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes sómente +eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou rezenha das +praças, que constituiam os corpos chamados bésteria, denominando-se +<em>bésteiros do conto</em> tanto os de cavallo, como os de pé.</p> + +<p>Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou <em>á gineta</em>. Na +primeira, o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, +os cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos curtos +no apparelho do cavallo.</p> + +<p>A infanteria constava de <em>bésteiros</em>, <em>espingardeiros</em> e +<em>piqueiros de pé</em>.</p> + +<p>Na bésteria differençavam-se os chamados de <em>polé</em>, por trazerem +bésta, que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os <em>bésteiros da +camara</em>, que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; +<em>bésteiros de garrucha</em>, mais abastados e considerados, que os de polé, +armados com bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e +solhas para arremessar virotões; <em>bésteiros</em><a class="pn" +name="pg_52">{52}</a> <em>de fraldilha</em>, por levarem uma fralda de +couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do inimigo; e +<em>bésteiros do monte</em> ou caçadores.</p> + +<p>Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais, á +medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi acolhida, durante +muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria, que considerava cobardes +similhantes armas, com especialidade as portateis. No reinado de D. João II +apparece já o cargo de <em>anadél-mór</em> dos espingardeiros, concedido a Payo +de Freitas, cavalleiro da casa real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua +vez de extinguir em 1498 os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da +camara, todos os cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando +unicamente os bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e +Algarve, com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como +consta da carta de 29 de maio de 1499.</p> + +<p>A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a quem +pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os alojamentos; +executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do condestavel; e julgar as +causas civeis e crimes das gentes de guerra, levando um ouvidor comsigo para +esse fim.</p> + +<p>O <em>alféres-mór</em> levava a <em>signa</em> ou <em>bandeira</em>, a qual +não estendia ou desenrolava sem especial<a class="pn" +name="pg_53">{53}</a> determinação do rei, quando estivessem á vista do +inimigo, e costumava ter um <em>alferes pequeno</em>, que o substituia. As +bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o +fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou +insignias. No guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher +D. Isabel, e consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida +ao redor, e na legenda <em>Jámais</em>. Com oito ou dez pendões pequenos era +balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.</p> + +<p>Havia um <em>aposentador-mór</em>, que de ante-mão preparava os quarteis das +tropas, quando estas se mobilisavam. O <em>capitão de ginetes</em> era o +general de cavallaria; o <em>adail-mór</em>, o capitão dos bésteiros; e o +<em>coudel-mór</em> commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam +a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por <em>coudeis</em>. +</p> + +<p>Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros, +commandados por um <em>guarda-mór</em>. Eram escolhidos, e andavam armados de +cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz assistiam no paço +junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava tambem da sua guarda +o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de cavalleiros, que +ficavam em tudo considerados como os da camara real.<a class="pn" +name="pg_54">{54}</a></p> + +<p>Segundo prescrevia o <em>Regimento</em>, os soldados ou gente de guerra +deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e +tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas +eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma +Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos +atabales.</p> + +<p>O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente +conduzido. Estava a cargo de um <em>védor-mór</em>, aprompta-lo e pô-lo em +marcha.</p> + +<p>Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um +<em>regimento</em> proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. +Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que +julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem +como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse +necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus +merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho. +</p> + +<p>O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a +Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer +alto em Plasencia.</p> + +<p>D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D. +Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o<a +class="pn" name="pg_55">{55}</a> seu reconhecimento como rei de Castella, e, +conforme os desejos do rei de França, renovar os antigos tractados, que +existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de +Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e +Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem +fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de Aragão. +</p> + +<p>Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada +dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e +solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de +Castella, Leão e Portugal.</p> + +<p>Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de +Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros +contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais +afortunado fosse.</p> + +<p>D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se +formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias +de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas +povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu +antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza. +Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros<a class="pn" +name="pg_56">{56}</a> ao exercito, que seu marido commandava, para conter o +progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de Leão. Entabolava as +intelligencias, que lhe fizeram recobrar a importante cidade da Zamora. Reduzia +o numero de inimigos, que tinha na depravada e cupida aristocracia. Lançava +finalmente mão do thezouro de Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de +Contrera, a quem mais tarde brindou com o Marquezado de Moya.</p> + +<p>Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de +Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois, +segundo Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da +Secilia, e seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela +Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no +interior do reino, e fazia-se fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de +Vilhena, que se mostrou descontente por não ser attendido, e tomou este +pretexto para se retirar do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse +magnate assim procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se +declarado a maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que +os corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a +propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua mulher.</p> + +<p>Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se<a class="pn" +name="pg_57">{57}</a> a miude as incursões de nossos visinhos. Até o +primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais +audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como se fosse em terras +de mouros.</p> + +<p>Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois +da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe +prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.</p> + +<p>E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada +de D. Juan de Guzman?</p> + +<p>—O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião. +</p> + +<p>Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o +principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados +de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para +avisarem das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas, +a fim de embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre +os arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos +males, cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.</p> + +<p>Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio +de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor,<a +class="pn" name="pg_58">{58}</a> saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade +com a rainha, a quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou +por Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca do +movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era chamado e +levado para soccorrer.</p> + +<p>O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta +empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos +denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas, +de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome, +e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.</p> + +<p>Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em +que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno +em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre +inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os +seus homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu +paiz: <em>que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na +roca</em>.</p> + +<p>De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo, +pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a +caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que +defendiam a ponte<a class="pn" name="pg_59">{59}</a> sobre o Douro, á +entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou +matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V +a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do +qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da guarda +real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a nado, para +se furtar á vigilancia do inimigo.</p> + +<p>Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude +conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com +a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os +habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha +foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.</p> + +<p>Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em +quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho +principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á +força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella, +para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se +d'essa façanha, e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por +um rei de armas desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então +Fernando foi sitiar o<a class="pn" name="pg_60">{60}</a> castello de +Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não havia +esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de +guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da +fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por +lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da +cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida +varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até +fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma +carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta +denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma +costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.</p> + +<p>Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e +D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha +Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver +grande desigualdade no penhor.</p> + +<p>D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já +tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo +certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo +questão de igualdade das pessoas, era confessar que não queria<a class="pn" +name="pg_61">{61}</a> o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a +sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude +conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.</p> + +<p>Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe +D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e +dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o +seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a +sua causa se tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o +arcebispo de Toledo.</p> + +<p>Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio +portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no +coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.</p> + +<p>A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois +da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e +conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria +necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade! +</p> + +<p>D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte. +</p> + +<p>—Para que?</p> + +<p>Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde +tremulava ainda a bandeira<a class="pn" name="pg_62">{62}</a> portugueza, +pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar +o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma +superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e tendo +cobertas todas as communicações importantes.</p> + +<p>Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de +Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa +Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante, +approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o +arraial.</p> + +<p>Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno +alcance das bôcas de fogo, mas preceito do <em>Regimento de guerra</em>, para +fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte estava +enfiada pela nossa artilheria.</p> + +<p>Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o +damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para +concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador, +de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue +causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez +mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua +situação. O<a class="pn" name="pg_63">{63}</a> nosso, além de luctar com +as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz extranho, tinha mais um +inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo que as chuvas e neves o iam já +desimando, começava a falta de viveres a fazer-se sentir. Consumia-se emfim +inutilmente.</p> + +<p>Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que +Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D. +Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e +foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque +e a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido +de Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de +seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de +Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que +tomára seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.</p> + +<p>Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que +começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos, +a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda +com algumas cargas ligeiras de cavallaria.</p> + +<p>Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas +D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde<a +class="pn" name="pg_64">{64}</a> lhe deram a nova, pois tão apertado era, +marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais +despejadamente.</p> + +<p>D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as +suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto +possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções. +Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou +a flor da cavallaria portugueza.</p> + +<p>Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita +capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, <em>vindo na reserva</em> Fernando de +Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o cardeal +Mendoza.</p> + +<p>Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a +rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois +que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem +finalmente de infanteria mais numerosa.</p> + +<p>Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma de +infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e uniformidade de seus +movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á cavallaria, olvidando-se a maxima +dos antigos, prudentemente restaurada pela illustração militar dos nossos +tempos, de que a infanteria é o agente principal do combate, ou, como<a +class="pn" name="pg_65">{65}</a> poeticamente dizem alguns, a rainha das +batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de nobreza valente e +déstra, mas pouco subordinada, bem como dos contingentes tumultuarios das +cidades, era incompativel com a disciplina e outros requisitos essenciaes da +sua organisação. N'este encontro de Toro, comtudo, os castelhanos empregaram +com proveito a sua infanteria ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora +aguerrido, não soube mostrar-se disciplinado.</p> + +<p>Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois +exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol têr-se +posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva miuda e +persistente.</p> + +<p>Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o +convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do +adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado pelas +trombetas, fosse o primeiro a romper.</p> + +<p>Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, <em>por S. Jorge e S. Christovão</em>, +invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza, clamando +com os seus por <em>S. Thiago e S. Lazaro</em>.</p> + +<p>Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas +obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora +D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa +cavallaria,<a class="pn" name="pg_66">{66}</a> como se fôra uma forte +muralha de lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, +irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram +quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos, com o +principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais completa +debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á carnificina, que +em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito moral d'esse choque +violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por isso Fernando de +Aragão—um moço de vinte e seis annos!—que, para não expor a vida á +contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa +distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas +de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a +pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos +cavalleiros, que correram sobre elle.</p> + +<p>Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei +da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la +embainhada, e lança-se no combate.</p> + +<p>Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria; +rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com +furia; retingem-se de sangue as<a class="pn" name="pg_67">{67}</a> +espadas nos crébros golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, +alliviados do peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; +resoam, similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de +dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e servindo +antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida, desesperada, horrivel a +refréga. Não cessa do ardor, com que começou de accender-se, e a victoria +duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á do esforço.</p> + +<p>Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo +em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo—o que +para a nossa hoste era uma novidade—dão uma descarga, que fez hesitar um +momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado +aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo +recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.</p> + +<p>Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no +ultimo choque.</p> + +<p>D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás +contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte +ou a gloria o escopo unico d'aquelle</p> + +<blockquote> + «Que a suberba do barbaro fronteiro <br> + Tornou em baixa, e humillima miseria.» </blockquote> + +<p>Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias,<a class="pn" +name="pg_68">{68}</a> mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que +junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, +detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do +denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais +fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na +bainha.</p> + +<p>Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos +nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a +Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada +resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o +inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de +Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.</p> + +<p>Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das +cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa +quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança +tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por +isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um +acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era +dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe +real fosse derrotado, tal era a confiança<a class="pn" +name="pg_69">{69}</a> que depositava no valor de seu filho e no dos +companheiros, que lhe deu.</p> + +<p>Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um +porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou +victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os +prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de +Aragão.</p> + +<p>Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava +fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe, +vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle +ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a +corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe, +e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando <a href="#nota_E">a bandeira +real, que por instantes tremulára na mão de um castelhano</a>.</p> + +<p>Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que +tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram +depois de uma lucta titanica.</p> + +<p>Singulares contrastes!</p> + +<p>Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria, +onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para +immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de +<em>Bandeira</em>; a<a class="pn" name="pg_70">{70}</a> outra, o cognome +de <em>Decepado</em> a Duarte de Almeida.</p> + +<blockquote> + «Cercado por toda a parte <br> + Sua espada se partiu. <br> + Por guardar seu estandarte, <br> + D'arma o estandarte serviu: <br> + A dextra mão jaz por terra, <br> + O seu guante a não guardou; <br> + O pendão na sextra aferra, <br> + E a mão perdida vingou: <br> + Outro golpe lhe sepára <br> + A sextra mão que segura <br> + A bandeira, que jurára <br> + Conservar intacta e pura: <br> + Nem assim perde a bandeira, <br> + N'hastea dura os dentes crava, <br> + Quando lança traiçoeira <br> + Seu ginete lhe prostava: <br> + Cahe no chão o cavalleiro <br> + Sem vida, quasi expirando, <br> + E ficou prisioneiro <br> + D'illustre rey Dom Fernando. <br> + Mas a bandeira regada <br> + Pelo sangue portuguez, <br> + Por Goncal'Pires livrada <br> + Breve foi, logo outra vez.» </blockquote> + +<p>Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de +Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga +porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro +resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas +se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço +tão desusado.<a class="pn" name="pg_71">{71}</a></p> + +<p>A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois <em>per força e +como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a +levava</em> (a bandeira), <em>e o prendeo sobre sua menagem</em>,<a +name="tex2html5" href="#foot255"><sup>[5]</sup></a> abrindo a golpes de espada +caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em +direcção a Zamora.</p> + +<p>Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias, +ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou +accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.</p> + +<p>O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação. +</p> + +<p>Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem +mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas +pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.</p> + +<p>—Cães de portuguezes!—grunhia um.—Por causa d'elles fizeram de nós +morcêgos!...</p> + +<p>—Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de +Malaga!—tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o +cavallo á mão.</p> + +<p>—Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar—observou o outro, +sem nenhuma<a class="pn" name="pg_72">{72}</a> curiosidade de saber, quem +era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.</p> + +<p>—Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!—exclamou +o cavalleiro.—Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a +fazer?—perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o +entendimento.</p> + +<p>—Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...</p> + +<p>—Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça. +</p> + +<p>—Fugiu, não direi... Retirou...</p> + +<p>—Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo +sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da +<em>Beltraneja</em>, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois +tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que +levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.</p> + +<p>—Sim, é o mais certo;—replicou em tom indifferente o cavalleiro.</p> + +<p>Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os +biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a +cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.</p> + +<p>Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se +concentravam no acampamento<a class="pn" name="pg_73">{73}</a> sem +apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com +o exercito para Zamora.</p> + +<p>D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres +dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de +Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D. +Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na +marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.</p> + +<p>Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o +interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que +pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo +Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar +o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua +liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.</p> + +<p>—Não merece—exclamou alto e bom som—o nome de cavalleiro, quem abandona o +seu rei, e o não segue na vida ou na morte!</p> + +<p>E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:</p> + +<p>—O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?</p> + +<p>Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu +Pero da Covilhan, e disse ao principe:<a class="pn" name="pg_74">{74}</a> +</p> + +<p>—El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são +está, por isso sejais tranquillo.</p> + +<p>—E onde está el-rei, nosso senhor?!...—perguntou com alvoroço o principe +real.</p> + +<p>—Em Castro Nunho.</p> + +<p>—Quem nos trouxe tão bom recado?</p> + +<p>—El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.</p> + +<p>A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de +trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria, +feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para +Castro Nunho uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de +acompanharem D. Affonso V a Toro.</p> + +<p>Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei, +pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe, +havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que +conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.</p> + +<p>Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:</p> + +<p>—Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?</p> + +<p>—Facilmente, meu senhor—respondeu Pero da Covilhan com a maior +naturalidade.—Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em +nosso campo não havia de el-rei novas, nem<a class="pn" +name="pg_75">{75}</a> mandados. Ancioso de buscar sua alteza, era dominado +por um triste presentimento. As trévas da noite, e a confusão que reinava no +campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu +tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os +dialectos de Hespanha, e fui á ventura.</p> + +<p>—Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a +vida—atalhou o principe.</p> + +<p>—Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava +unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.—A poucos +passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem +do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do +inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me +naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um +d'elles affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho. +Corri logo a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já +voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do +acampamento sem licença de voss'alteza.</p> + +<p>—Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se +alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que +pelejastes a meu lado.<a class="pn" name="pg_76">{76}</a></p> + +<p>—Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...</p> + +<p>Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da +Covilhan, como veremos.</p> + +<p>O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada +guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e +o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra +o occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no +caminho de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão +prodiga, não fosse para o seu competidor tão adversa.</p> + +<p>Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a +morte.</p> + +<p>Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser +instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação. +Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do +sangue derramado em Alfarrobeira.</p> + +<p>Justiça da Providencia!<a class="pn" name="pg_77">{77}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000700">V</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000710"><em>ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA</em></a> </h2> + +<p>Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos +meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria +empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João +d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. +Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não +fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. +Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com +sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por +maxima: <em>quem não sabe dissimular, não sabe reinar</em>; e que, por elle ser +assás astucioso e perfido, lhe chamavam <em>a raposa</em>.</p> + +<p>Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro<a class="pn" +name="pg_78">{78}</a> de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França +se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e +Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e +amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma +parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.</p> + +<p>O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as +estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as +probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente +com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de +Borgonha.</p> + +<p>Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o +maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe +o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da +affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua +reputação.</p> + +<p>Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França +o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na +conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.</p> + +<p>A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi +arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,<a +class="pn" name="pg_79">{79}</a> que Luiz XI lhe enviára por um official de +sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os +navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia +parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro. +</p> + +<p>Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e +teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte +de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.</p> + +<p>De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de +notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam +conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu +por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de +tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de +Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que +por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto +viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, +fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a +mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e +antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o <em>Lancelote +do Lago</em>, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura<a +class="pn" name="pg_80">{80}</a> do qual os paladinos dos seculos +<small>XII</small> e <small>XIII</small> aprendiam com enthusiasmo a imitar +algum dos fabulosos cavalleiros da <em>Tavola Redonda</em>. Poderia inflammar +tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por +si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o +levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.</p> + +<p>Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves +da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da +côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os +aposentos, que lhe estavam destinados.</p> + +<p>Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, +onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que +elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio +recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado +adeante para regularem o ceremonial da entrevista.</p> + +<p>A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha +com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes +carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada +d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo +jaez da espada, e ao pescoço uma<a class="pn" name="pg_81">{81}</a> béca +de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas +calças brancas entretalhadas de muitas côres.</p> + +<p>«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos +muito baixos.</p> + +<p>«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos +no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a +um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa +o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e +ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino +estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e +serviço, como nos de Portugal.</p> + +<p>«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se +cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»<a +name="tex2html6" href="#foot275"><sup>[6]</sup></a></p> + +<p>Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se +humilde até á repugnancia!</p> + +<p>Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para +Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com +o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha, +a princeza D. Joanna.<a class="pn" name="pg_82">{82}</a></p> + +<p>Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração +do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, +então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em +guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli +mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era +congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz +XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais +facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das +tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella. +</p> + +<p>O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe +apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem +sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a +vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de +Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na +defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de +Nancy para lhe dar batalha.</p> + +<p>Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á +concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim +fez.<a class="pn" name="pg_83">{83}</a></p> + +<p>Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo +mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o +momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e +apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas +perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o +problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão +de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha +ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos +de seus agentes.</p> + +<p>Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de +Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, +adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros +principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das +promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a +morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar +a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de +Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo +assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz +XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,<a class="pn" +name="pg_84">{84}</a> que tratassem com essa potencia; e não os delegados de +Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás +diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre +habil e cautelosa a curia romana.</p> + +<p>A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle +a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro +dos dois monarchas em Arras.</p> + +<p>Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a +sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos +regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma +resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.</p> + +<p>Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para +Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até +que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á +sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. +Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios +religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado +logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.</p> + +<p>Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:<a class="pn" +name="pg_85">{85}</a></p> + +<p>—Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho +por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.</p> + +<p>Ao que Pero da Covilhan respondeu:</p> + +<p>—Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu +cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi, +concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu +rei e Senhor.</p> + +<p>—Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, +dando-me algum allivio o desabafo.—Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e +metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de +reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo +eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, +minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de +França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, +movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... +Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus +negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de +haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, +que vivem e morrem na regencia de seus<a class="pn" name="pg_86">{86}</a> +estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a +resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, +pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não +deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco +honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de +desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para +a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus +dias em uma clausura.</p> + +<p>Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!</p> + +<p>—Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos +filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes +proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, +mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os +dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de +Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...</p> + +<p>D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito +impressionado:</p> + +<p>—Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos +da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro +experimentou já a rija tempera da sua<a class="pn" name="pg_87">{87}</a> +espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que +pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em +grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem +elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a +Castro Nunho.</p> + +<p>Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que +seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.</p> + +<p>Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua +peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com +facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas, +não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso +preferiu deixa-lo ao serviço do principe.</p> + +<p>Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei +saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de +estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia +legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez +voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que +continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua +comitiva estivesse presente.<a class="pn" name="pg_88">{88}</a></p> + +<p>Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI +acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em +regressar do seu passeio.</p> + +<p>Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que +elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento. +Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto +ou palavra, que o trahissem.</p> + +<p>Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram +encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual +pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, +que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao +ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da +sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada +instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao +reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o +proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual +nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.</p> + +<p>Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao +principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou +mais tarde no seu reinado, e que tinha<a class="pn" name="pg_89">{89}</a> +vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude +d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de +S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.</p> + +<p>Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e +não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio +fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de +Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar +a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, +pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.</p> + +<p>Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um +cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da +Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o +reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir +a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a +pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, +que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. +E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu +prisioneiro.</p> + +<p>O conde de Penamacor, que era o primeiro<a class="pn" +name="pg_90">{90}</a> camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não +voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui +pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou +pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. +Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta +muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em +Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue, +para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia +sobre brasas.</p> + +<p>Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur +desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a +comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado <em>o +Grego</em>.</p> + +<p>O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de +respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E +D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo +resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até +alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro +para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que +recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...</p> + +<p><a href="#nota_F">D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande +predilecção pelos que cultivavam as lettras</a>;<a +class="pn" name="pg_91">{91}</a> por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da +Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella; +com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil +soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, +aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel +nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de +Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.</p> + +<p>Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a +conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia +de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido +em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo +este aportou á mesma bahia.</p> + +<p>Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir +a Oeiras.</p> + +<p>No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que +mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por +obediencia havia empunhado.</p> + +<p>A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O +arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça. +O proprio Beltran de La Cueva<a class="pn" name="pg_92">{92}</a> recebia +mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de +Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de +Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se +afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de +França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi +affrontosa a victoria para o exercito sitiante.</p> + +<p>Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de +1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer +confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal, +assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.</p> + +<p>Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns +magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com +elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o +casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava +despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam +as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e +manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas, +e n'isto convieram emfim as partes interessadas.</p> + +<p>Para entabolar as negociações, avistaram-se na<a class="pn" +name="pg_93">{93}</a> villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e +sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as +quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 +de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre +D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o +principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por +palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a +qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos +necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar +n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para +poder dispôr de si.</p> + +<p>Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de +Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.</p> + +<p>Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na +villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar +em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi +o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela +terçaria.</p> + +<p>No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D. +João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D. +Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,<a class="pn" +name="pg_94">{94}</a> devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria +nas mãos da infanta D. Beatriz.</p> + +<p>Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos +os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de +conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na +reciproca offensa dos interesses nacionaes.</p> + +<p>Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes +successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a +innocente princeza D. Joanna:</p> + +<p>«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua +liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com +dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou +o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e +vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa +real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus +cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe +deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse +imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da +dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de +outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; +porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado<a class="pn" +name="pg_95">{95}</a> e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as +deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei +n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no +cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por +ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela +gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não +desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a +desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela +culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal +apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, +sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de +Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se +tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois +de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte +do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo +vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo +morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e +innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, +privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e +hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e<a class="pn" +name="pg_96">{96}</a> grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por +cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo +apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios, +comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando +n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de +ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança +d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar +estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, +que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com +o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento +seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por +castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe +innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta +senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com +madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de +nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta +esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os +succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais +chegados».</p> + +<p>Depois da profissão da <em>Excellente Senhora</em>—tratamento dado a D. +Joanna tanto que vestiu o<a class="pn" name="pg_97">{97}</a> habito de +clarista—D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do +Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo +designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do +paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.</p> + +<p>A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a +sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de +ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.</p> + +<p>Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com +Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, +rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar +deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a +legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as +propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se +solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.</p> + +<p>Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a +quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o +terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram +misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.</p> + +<p>Malfadada condição a sua!<a class="pn" name="pg_98">{98}</a></p> + +<p>Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao +filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para +realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha +monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo +<small>VIII</small> pela batalha de Guadalete.</p> + +<p>Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era +patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se +serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas +as dynastias podiam considerar-se problematicas.</p> + +<p>O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e +torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde, +com que ella conspurcou o seu nome para sempre.</p> + +<p>Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de +Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, +realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao +mais alto grau de prosperidade.</p> + +<p>Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da +realeza.<a class="pn" name="pg_99">{99}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000800">VI</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000810"><em>PESQUIZAS</em></a> </h2> + +<p>Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para +si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da +Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em +Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo +ascendeu esta á quasi intimidade de valido.</p> + +<p>Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros +particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra +estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e +menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por +carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na +melhor conta os seus companheiros de armas<a class="pn" +name="pg_100">{100}</a> em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e +valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu +sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil +<em>vassallos d'el-rei</em>, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas +em Evora a 12 de setembro de 1481.</p> + +<p>Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua +guarda.</p> + +<p>Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O +rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de +achar-se rodeado de <a href="#nota_G">cortezãos dotados de boas prendas</a>, e +com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras +insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.</p> + +<p>Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr +dançar com primor a <em>retorta mourisca</em> pelas damas trajando ao uso +arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a +lembrar os desafios poeticos, as <em>côrtes de amôr</em>, o <em>jogo dos +naipes</em>, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de +cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.</p> + +<p>Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha +educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real +<em>jardim de formosura</em>, como depois Gil Vicente<a class="pn" +name="pg_101">{101}</a> chamou ao estrado das damas de D. Leonor.</p> + +<p>Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso. +Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os +apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba, +despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos +d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão +esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da +mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na +linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta o +<em>Cancioneiro Geral</em>, de Garcia de Rezende.</p> + +<p>Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:</p> + +<p>—Amo-vos!...</p> + +<p>Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular +uma palavra.</p> + +<p>Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse +comsigo mesma:</p> + +<p>—Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria +o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por +elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...</p> + +<p>Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa +alguma para o<a class="pn" name="pg_102">{102}</a> seu silencio. Até pelo +seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava +convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é +sempre facil de responder.</p> + +<p>Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas +retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a +cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de +subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a +faisca sagrada.</p> + +<p>Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a +dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os +olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos, +que lá guardamos.</p> + +<p>Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a +novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu, +disse-lhe:</p> + +<p>—Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis... +Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha +Senhora?...</p> + +<p>—Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha +occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a +bem...—respondeu Pero da Covilhan,<a class="pn" name="pg_103">{103}</a> +ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria +Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:</p> + +<p>—Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha +real ama...</p> + +<p>—Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan +supplicando.</p> + +<p>—Porquê?!...—perguntou Thereza meio admirada.</p> + +<p>—Porque não vos mereço ainda...</p> + +<p>—Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...</p> + +<p>—Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que +espereis...</p> + +<p>—Esperarei.</p> + +<p>—Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei +offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade... +Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...</p> + +<p>—Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D. +João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os +melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas +de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras... +</p> + +<p>—Assim é; mas...</p> + +<p>—Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não +tendes a nobreza<a class="pn" name="pg_104">{104}</a> por herança e +patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença minha.</p> + +<p>—Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso +peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...</p> + +<p>—Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós +envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas +raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!... +Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que +muitos lá ficaram...</p> + +<p>—Morreram no seu posto...</p> + +<p>—Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi +sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres... +Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A +vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já, +enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o +rei de Tremecem?...</p> + +<p>—Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço... +Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza +ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!... +Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!... +</p> + +<p>—E eu de ser por vós amada!...<a class="pn" +name="pg_105">{105}</a></p> + +<p>—Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de +elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...</p> + +<p>—Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...</p> + +<p>—Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois +já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...</p> + +<p>—Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu +saiba corresponder ás vossas esperanças!</p> + +<p>—Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de +Deus, Thereza!...</p> + +<p>—Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha, +minha Senhora. Adeus.</p> + +<p>Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas +soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:</p> + +<p>—Encantadora!...</p> + +<p>E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo +abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol +em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito +perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, +invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, +que<a class="pn" name="pg_106">{106}</a> geralmente o interesse era o +verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas, +senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições, +que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu +nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém, +aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da +pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; +porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais +egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua +privação irreparavel.</p> + +<p>A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o +deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a +sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu +espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe +roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que +justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e +primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e +recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe +deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da +honra.</p> + +<p>Que mãe de familia com taes dotes!<a class="pn" +name="pg_107">{107}</a> </p> + +<p>Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua +paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem +prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo +encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe, +que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe +religião, que se avigóre.</p> + +<p>Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua +pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que +uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas +alegrias e pelos pezáres communs da familia.</p> + +<p>Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia +a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo, +tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os +seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu +olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as +mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma +reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor +d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as +vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao +imagina-lo.<a class="pn" name="pg_108">{108}</a></p> + +<p>Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde +que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros +estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma +paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de +eleva-lo.</p> + +<p>O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se +nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola +brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar, +tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes +murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos +feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se +unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais +faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores +interesseiros e faceis.</p> + +<p>Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de +Pero da Covilhan.</p> + +<p>Desinteressado amor!</p> + +<p>A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a +burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da +patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda +mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava<a +class="pn" name="pg_109">{109}</a> por isso de contentamento intimo, quando +o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada +o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa +de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o +coração.</p> + +<p>Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a +Maria Thereza:</p> + +<p>—De novo passo á Barberia.</p> + +<p>—Deus vos guie!—respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.—Comvosco vae +tambem o meu coração, que é vosso.</p> + +<p>Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria +Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo +apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre +que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As +despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.</p> + +<p>D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel +e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos +d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação +real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca +do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan, +recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em +1472 havia mandado a<a class="pn" name="pg_110">{110}</a> ossada de D. +Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da +viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja, +a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan +alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante +á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais +tarde rei.</p> + +<p>Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.</p> + +<p>Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro +encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do +plano politico de D. João II.</p> + +<p>Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos +mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.</p> + +<p>—Bem o fizestes—disse-lhe o rei—; e agora—muito secretamente—espéro de +vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso +em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de +sair já de nossos reinos?</p> + +<p>—Préstes estou, meu Senhor e rei—respondeu Pero da Covilhan.—Peza-me, +porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir +voss'alteza...</p> + +<p>—Embóra, ireis, que Deus vos guardará.—A descobrir e saber do Preste João, +e onde se acham<a class="pn" name="pg_111">{111}</a> a canella e as +outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um +homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a +Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia +entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior +incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e +discernimento muito mais confio...</p> + +<p>—Mercê a voss'alteza, meu Senhor...</p> + +<p>—O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné +podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se +a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.</p> + +<p>—Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por +que beijo a mão de voss'alteza.</p> + +<p>—Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos +dou para auxiliar-vos.</p> + +<p>Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já +sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava +partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons +serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu +a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:<a class="pn" +name="pg_112">{112}</a></p> + +<p>—Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...</p> + +<p>—A Virgem vos ouça!—exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e +radiante.—A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei +esperando... de outro jámais serei!...</p> + +<p>E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé +revigóra.</p> + +<p>Nem um uma lagrima derramaram!</p> + +<p>As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se +prova, com as que se deixam de chorar.</p> + +<p>Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor +maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia +para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando, +para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de +chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se +queriam.</p> + +<p>No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu +lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já +com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova, +pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o <em>Calçadilha</em>, depois bispo, e pelos +physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o +primeiro<a class="pn" name="pg_113">{113}</a> parte na <em>junta dos +cosmographos</em>. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do +senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.</p> + +<p>Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das +despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da +Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber +em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito, +dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos +paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para +o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o +conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta +de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma +d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se +poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse +exalçada.</p> + +<p>E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.<a +class="pn" name="pg_114">{114}</a><br> +<a class="pn" name="pg_115">{115}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION000900">VII</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION000910"><em>EM RHODES</em></a> </h2> + +<p>Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a +Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa +commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho, +em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.</p> + +<p>Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes +uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram +n'ella, pois.</p> + +<p>Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu, +tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma +natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas +do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo<a class="pn" +name="pg_116">{116}</a> a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a +náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o +destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com +Thereza.</p> + +<p>Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais +da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar +ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da +saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.</p> + +<p>A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas +pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para +Rhodes, surge n'este porto.</p> + +<p>Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.</p> + +<p>Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de +Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria +para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria, +bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com +galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos, +roubando e fazendo captivos muitos d'elles.</p> + +<p>Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com +que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só<a +class="pn" name="pg_117">{117}</a> davam passagem segura e pousada franca +aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos +e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até +ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás +virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os +infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.</p> + +<p>Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e +frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante +defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de +frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes +fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre +todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter +nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de +tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando +se topam em terra alheia.</p> + +<p>Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do +assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este; +reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas +perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e +restabelecer finalmente o importante commercio<a class="pn" +name="pg_118">{118}</a> dos rhodios, que tão notavel incremento havia já +tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das +mais florescentes cidades da Asia.</p> + +<p>Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia, +foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de +haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava +sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado +fraguedo, que se erguia do seio das ondas.</p> + +<p>Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi +podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem +soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que +n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com +interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo, +que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.</p> + +<p>Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra, +por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos +gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao +esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso +milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.</p> + +<p>—Depois de assalto á cidade fugiram para ella<a class="pn" +name="pg_119">{119}</a> grande numero de turcos. Attestaram estes com +juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo +as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e +de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo +instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da +côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos +vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem +vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um +luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal +ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão—diziam os +desertores—ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em +marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam +interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas, +e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.</p> + +<p>—Vencemos!—concluiu frei Fernão—. Mas sem aquelle celeste auxilio não +podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos +inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos +christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar, +que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção +distrahida<a class="pn" name="pg_120">{120}</a> para Africa, e não nos +auxilie em nossa empreza!...</p> + +<p>—Estou certo—retorquiu Pero da Covilhan—de que el-rei, meu Senhor, admira +os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada +milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não +podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua +alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e +maldito?...</p> + +<p>—Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida +obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o +nosso dominio na Asia...</p> + +<p>—Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir +á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões +remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...</p> + +<p>—Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal +proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...</p> + +<p>—Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que +vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por +indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante, +posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que +estejamos sempre<a class="pn" name="pg_121">{121}</a> anciosos de vencer +esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os +primeiros navegadores do mundo?!...</p> + +<p>—Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas... +Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria +fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem +póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se +podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...</p> + +<p>—Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...</p> + +<p>—Assim é...</p> + +<p>—Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no +movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do +Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro. +Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além, +uns retrocederam, outros ficaram...</p> + +<p>—Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é +acredita-lo—interrompeu fr. Fernão.</p> + +<p>—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre +no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se +transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...<a +class="pn" name="pg_122">{122}</a></p> + +<p>—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro +razão sobeja me dá.</p> + +<p>—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao +Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!... +</p> + +<p>—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão. +</p> + +<p>—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é +procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que +me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa +religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...</p> + +<p>—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse +afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.</p> + +<p>—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?</p> + +<p>—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um +seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o +reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.</p> + +<p>—Informação de pêso é essa...</p> + +<p>—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum +a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de +Dario aos reis persas, o de Cesar<a class="pn" name="pg_123">{123}</a> +aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa +ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus +em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da +cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse +imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia, +de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se +chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que +desappareceu.</p> + +<p>—E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios +o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não +volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.</p> + +<p>—Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.</p> + +<p>O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe +cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das +Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel; +serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.</p> + +<p>De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar, +atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.<a +class="pn" name="pg_124">{124}</a><br> +<a class="pn" name="pg_125">{125}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001000">VIII</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001010"><em>BOAS NOVAS</em></a> </h2> + +<p>Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao +porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do +costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer, +que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma +feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais +bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o +Oriente.</p> + +<p>Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua +bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus +monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade +gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no <small>VII</small> seculo.</p> + +<p>De todas essas preciosidades historicas restavam<a class="pn" +name="pg_126">{126}</a> unicamente: a columna de Pompeu, denominada +Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamados +<em>Agulhas de Cleopatra</em>, e as catacumbas.</p> + +<p>A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo +<em>Serapeion</em>, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos +centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de +Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha +sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou +um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano, <em>genio tutelar +da cidade</em>, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que +soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado, +em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado. +</p> + +<p>As <em>Agulhas</em> consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em +parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois +monumentos: um, o <em>Sebasteion</em>, em honra de Tiberio; o outro, á gloria +de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor, e, por +consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno, em que +assentava a velha aldeia de Rakotis.</p> + +<p>No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle +Pharaó.<a class="pn" name="pg_127">{127}</a></p> + +<p>Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do +Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais +especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para +Rakotis.</p> + +<p>Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra +firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado <em>Heptastadion</em>, +campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das maravilhas do +mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do Egypto grego.</p> + +<p>Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e +que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore +branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome +sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o +do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a +descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.</p> + +<p>Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual +Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos +Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte +surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.</p> + +<p>Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes,<a class="pn" +name="pg_128">{128}</a> e pouco mais, pois que uma fébre maligna os prostou. +</p> + +<p>Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver +successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima +parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres +povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital +do Egypto, a qual demorava na margem direita.</p> + +<p>Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio, +encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden. +Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór. +D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de +Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem, +riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para +Aden.</p> + +<p>Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de +Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais +conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio +das especiarias.</p> + +<p>Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a +sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe +arraigava no coração as suas crenças.<a class="pn" +name="pg_129">{129}</a> O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a +imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir +audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma +exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de +que não fosse mercador ismaelita.</p> + +<p>Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia +produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos +dos tripulantes e mercadores que o cercavam.</p> + +<p>Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e +picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada, +lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella +mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e +largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.</p> + +<p>Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do +mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de +cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do +outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros +podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu +cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro. +Por duas<a class="pn" name="pg_130">{130}</a> portas, ambas juntas, se +entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em +um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas, +protegida cada uma por sua fortificação.</p> + +<p>Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do +clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da +serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes +tanques abertos na rocha.</p> + +<p>O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre +estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus +paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as +caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo +Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a +Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.</p> + +<p>Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande +rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou +com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India, +aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada +época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.<a +class="pn" name="pg_131">{131}</a></p> + +<p>Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na +costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a +cidade de Calicut.</p> + +<p>Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o +Oceano Indico.</p> + +<p>A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro +sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os +ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes +para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas +cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de +igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das +pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.</p> + +<p>A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da +amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar +em melhor linha de bolina.</p> + +<p>Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para +cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de +rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.</p> + +<p>Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque, +betumando as costuras do taboado com <em>quil</em>, e untando-as com azeite de +peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim<a class="pn" +name="pg_132">{132}</a> vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os +quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou +quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.</p> + +<p>O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da +India para o mar Vermelho.</p> + +<p>Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras +particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem +coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada +em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de +palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.</p> + +<p>Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros +abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava +muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma +especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das +esteiras de rotas, com que cobriam a carga.</p> + +<p>O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de +madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de +trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da +quotidiana alimentação.<a class="pn" name="pg_133">{133}</a></p> + +<p>E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a +navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois +varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.</p> + +<p>Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um +movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em +similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!</p> + +<p>Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação +arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem +tudo soffria resignado!</p> + +<p>A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que +permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por +elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou +seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas, +separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos +vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de +espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava +igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel +era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre +si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes +iracundas.<a class="pn" name="pg_134">{134}</a> A náu, sem governo, +vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas +serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, +equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em +quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo +lençól de espuma.</p> + +<p>Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas +horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.</p> + +<p>Salvou-se!</p> + +<p>Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor, +para fazer aguada e tomar lenha.</p> + +<p>A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por +ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu +rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.</p> + +<p>Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no +seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a +belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com +as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o +maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua +imaginação havia sonhado.</p> + +<p>Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos<a class="pn" +name="pg_135">{135}</a> arbitrariamente traçados, estava disseminada a +casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras +odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. +Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos +pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que +resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e +a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima +distancia da praia.</p> + +<p>A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas +espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e +frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir, +quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas +victimas.</p> + +<p>Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a +tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos, +consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento +silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres +fios, com a largura de dois dedos, como a correia.</p> + +<p>Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois +ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado<a class="pn" +name="pg_136">{136}</a> ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e +resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os +malabares chamavam <em>boi</em>.</p> + +<p>Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se +approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador +encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa +distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E +mantinha-se tanto esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o +peccado original do nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.</p> + +<p>Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de +Pero da Covilhan.</p> + +<p>O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram +por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.</p> + +<p>Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia +fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando +d'ellas todo o proveito.</p> + +<p>Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz, +o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa +meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de +Monomotapa.<a class="pn" name="pg_137">{137}</a></p> + +<p>Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que +lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado +de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu +companheiro, soube alli, que este fallecera.</p> + +<p>Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os +vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se +animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os +vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.</p> + +<p>—De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me +incumbira...—pensava Pero da Covilhan.</p> + +<p>Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria +ao serviço de seu real amo.</p> + +<p>N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes, +que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta +rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão +embaraçosas situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de +encontra-lo.</p> + +<p>Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o +outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.</p> + +<p>—Á procura de vós andavamos!—exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero +da Covilhan.<a class="pn" name="pg_138">{138}</a></p> + +<p>Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou +um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:</p> + +<p>—Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com +portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...</p> + +<p>Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de +D. João II, disse-lhe:</p> + +<p>—Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas +cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.</p> + +<p>—E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...—perguntou +Pero da Covilhan.</p> + +<p>—Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão +esquerda...—respondeu Abraham, apontando para ella.</p> + +<p>—Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu +senhor!...—replicou Pero da Covilhan, sorrindo.</p> + +<p>—Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia, +que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.</p> + +<p>Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse +mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido +de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo +voltar ao reino sem ter visto o Préste João.<a class="pn" +name="pg_139">{139}</a></p> + +<p>Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar +muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás +cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a +narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender +esta nova viagem, que concertára com o rabbi.</p> + +<p>—De tudo estou inteirado—disse Pero da Covilhan.—A vós, Joseph, vou +immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e—voltando-se +para Abraham—comvosco tornarei a vêr Ormuz.</p> + +<p>N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego, +fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que +serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente +d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu +principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por +tratado com o sultão do Egypto.</p> + +<p>A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as +especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido +áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do +Malabar.</p> + +<p>Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel +valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.<a class="pn" +name="pg_140">{140}</a></p> + +<p>A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de +Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as +espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.</p> + +<p>Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso, +parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo +brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com +a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao +termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa +no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os +mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E +addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres +da Guiné se póde navegar para a India».</p> + +<p>Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava +tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no +Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe +mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que +para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse +rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da +Covilhan muitas<a class="pn" name="pg_141">{141}</a> cousas do rei +abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns +mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar +adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe +diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia +mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.</p> + +<p>Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as +cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este +porto sahiram para Ormuz.</p> + +<p>Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar +largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte +portugueza!...</p> + +<p>O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...</p> + +<p>Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a +esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados, +era o melhor lenitivo da sua saudade.</p> + +<p>—Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei +qual é o caminho da India pelo mar!...—repetiam os echos da sua alma radiante +e apaixonada.</p> + +<p>E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar +d'Oman.<a class="pn" name="pg_142">{142}</a><br> +<a class="pn" name="pg_143">{143}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001100">IX</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001110"><em>CONSTANCIA</em></a> </h2> + +<p>Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao +espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros +nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição +permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.</p> + +<p>Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma +repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, +era unicamente por obediencia.</p> + +<p>Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga +nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar +na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a +tudo estão attentos, reparavam, que a Maria<a class="pn" +name="pg_144">{144}</a> Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu +ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem +sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.</p> + +<p>Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás +suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um +tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.</p> + +<p>Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá +Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando +maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso +franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...</p> + +<p>—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu +mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...</p> + +<p>—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se +insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.</p> + +<p>—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes</p> + +<p>—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.</p> + +<p>—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza +diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa +menina!...—exclamou Gonçalo da Fonseca.<a class="pn" +name="pg_145">{145}</a></p> + +<p>Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a +convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe +Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas +porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter +d'esse soberano, como o leitor vae vêr.</p> + +<p>Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na +presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por +gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós +vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».</p> + +<p>Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos +duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte +Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.</p> + +<p>Voltemos, porém, ao ponto.</p> + +<p>A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca +dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo +Garcia de Rezende, se deu principio ao <em>jogo dos naipes</em>.</p> + +<p>Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, +os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais +desagradaveis ainda, havia chegado a<a class="pn" name="pg_146">{146}</a> +uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e +esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava +fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe +agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella +respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de +alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais +particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.</p> + +<p>Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a +dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou +rapidamente a seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender +com fingido agrado este importuno!...</p> + +<p>Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de +duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em +ancias de tranzido amor.</p> + +<p>O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como +sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia +angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a +saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.</p> + +<p>Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não +logrando evitar,<a class="pn" name="pg_147">{147}</a> que fosse trahido +pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu +aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:</p> + +<p>—Não vos interessa o <em>jogo dos naipes</em>?</p> + +<p>—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz +tomar hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.</p> + +<p>—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que +mereceis...</p> + +<p>—Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...</p> + +<p>—Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...—retorquiu com certa +intimativa Pedro de Barcellos.</p> + +<p>—Eu!?... Grande poder me confiais!...</p> + +<p>—E não o quereis?...</p> + +<p>—Para quê?...</p> + +<p>—Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...</p> + +<p>—Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...</p> + +<p>—É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...</p> + +<p>—Devaneais, primo!</p> + +<p>—Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?—instou +Pedro de Barcellos com forçado sorriso.</p> + +<p>—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,<a class="pn" +name="pg_148">{148}</a> e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de +cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa +pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...—redarguiu com +reflexiva gravidade Maria Thereza.</p> + +<p>—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro, +porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não +julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...</p> + +<p>—Porque nunca poderia corresponder-lhe.</p> + +<p>—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...</p> + +<p>—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.</p> + +<p>Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, +os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria +Thereza:</p> + +<p>—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de +que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:</p> + +<blockquote> + «Por mais mal que me façais <br> + nunca mudar me fareis <br> + até que não me acabeis. <br> + <br> + Minha fé, minha firmeza <br> + Em vosso poder está; <br> + soffrerei minha tristeza, <br> + pois vossa mercê m'a dá.<a class="pn" name="pg_149">{149}</a> <br> + <br> + E meu bem nunca fará <br> + mudança, nem a vereis, <br> + até que não me acabeis.»<a name="tex2html7" + href="#foot375"><sup>[7]</sup></a> </blockquote> + +<p>—Bello villancete, primo!...</p> + +<p>—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me +lembrei de recita-lo...</p> + +<p>—E não tendes prezente composição alguma vossa?...</p> + +<p>—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...</p> + +<p>—Não vos disse já, que vos estimo?...</p> + +<p>Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois +de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria +Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa +d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais +ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de +bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, +perguntando-lhe com a maior formalidade:</p> + +<p>—Porque me não concedeis a vossa mão?...</p> + +<p>—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...—respondeu Maria +Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo +respeito a Pedro de Barcellos.</p> + +<p>Este, reconhecendo que seria importuna e pouco<a class="pn" +name="pg_150">{150}</a> delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza: +</p> + +<p>—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais +saberá, senão vós.</p> + +<p>E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte +villancete:</p> + +<blockquote> + Aqui, onde vou deixar-vos, <br> + esse vosso doce olhar <br> + nunca me verá tornar. <br> + <br> + Para o mar vou sem ventura, <br> + sendo mais vosso cativo! <br> + Serei morto, sendo vivo, <br> + sem ver vossa formosura, <br> + pois que a minha sorte dura <br> + de vós me quér apartar <br> + para nunca mais tornar. <br> + <br> + E se bem, que me confórte, <br> + esperar me não é dado, <br> + melhor é ditosa morte, <br> + que viver desesperado. <br> + Acabe assim o cuidado <br> + de sómente em vós cuidar, <br> + e no vosso doce olhar!... </blockquote> + +<p>—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o +divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito... +Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que +fico sendo-vos muito affeiçoada...</p> + +<p>Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado +longo.<a class="pn" name="pg_151">{151}</a></p> + +<p>Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema +bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua +belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, +do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para +ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a +extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na +possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no +coração diamantino da sua filha adoptiva.</p> + +<p>D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa +primazia.</p> + +<p>Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a +sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao +respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os +perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.</p> + +<p>Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio +aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se +reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á +ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros +povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.<a class="pn" +name="pg_152">{152}</a></p> + +<p>Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa +ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da +cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da +Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues +das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e +voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de +Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos +<em>Ricos-homens</em> de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e por consequencia +tambem <em>rico-homem</em>.—No principio da monarchia era essa a maior +dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamava +<em>primos</em>, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e +não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da +guerra, sem o conselho d'elles.</p> + +<p>Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da +Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro +varão, que nasceu na Terceira.</p> + +<p>Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de +sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com +mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio +de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se<a class="pn" +name="pg_153">{153}</a> João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando +Annes ou Joannes.</p> + +<p>Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, +primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de +visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram +as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de +apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.</p> + +<p>Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a +quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de +descobrir novas terras.</p> + +<p>Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo +de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as +canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude +aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então +pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não +era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel +ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle +muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o +seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.<a +class="pn" name="pg_154">{154}</a></p> + +<p>Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II, +animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.</p> + +<p>Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua +formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe +havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que +momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre +attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus +brios de homem digno.</p> + +<p>Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo +recebido com particular carinho no solar de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e +tornou logo para a Terceira.</p> + +<p>Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e +tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou +da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495, <a +href="#nota_H">depois de ter descoberto a costa do Labrador</a>.</p> + +<p>Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 +de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle +a uma região do <em>Novo Mundo</em>. E assim succedeu, com effeito. O facto, +porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do +insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna +superior<a class="pn" name="pg_155">{155}</a> ao nosso Pedr'Alvares +Cabral, <a href="#nota_I">a quem a patria não fez ainda a devida +justiça</a>.</p> + +<p>Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e +penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços +tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador, +concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho +de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por +outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de +armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras +e privilegios de nobres e fidalgos, por procederem <a href="#nota_J">da geração +e linhagem dos Machados</a>, por parte de sua mãe e avós.</p> + +<p>Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de +Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho +da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos +preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da +India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.</p> + +<p>Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas +culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas +maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as +caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses +dois problemas.<a class="pn" name="pg_156">{156}</a></p> + +<p>Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu +Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da <em>Bôa Esperança</em>, e +chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a +recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois +navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes +vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que +D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.</p> + +<p>Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da +Covilhan, em Santarem?</p> + +<p>Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum +interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado? +</p> + +<p>Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o +successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, +quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais +direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. +Manoel uma esphera por empreza, cuja <em>alma</em> era: <em>Spera in Deo</em>? +Não parece ser um presentimento muito singular?...<a class="pn" +name="pg_157">{157}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001200">X</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001210"><em>TENTANDO AS AZAS...</em></a> </h2> + +<p>Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan. +Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente +podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do +monarcha.</p> + +<p>Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:</p> + +<p>—Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...</p> + +<p>Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a +nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá +credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão +bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por +Préste João da India o imperador da Ethiopia.</p> + +<p>Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações<a class="pn" +name="pg_158">{158}</a> d'esse tempo—o apparecimento d'aquelle personagem +legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar, excepto D. João II e +Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.</p> + +<p>Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A +esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora +mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.</p> + +<p>Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis +catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração +d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de +seu tio o duque de Borgonha, em Lille.</p> + +<p>A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste. +</p> + +<p>No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para +banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S. +Francisco dava para tudo.</p> + +<p>Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus +estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir +grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella +da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.</p> + +<p>Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão +largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.<a class="pn" +name="pg_159">{159}</a></p> + +<p>Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se +fabricar a sala dos banquetes—aquella sala de madeira,</p> + +<blockquote> + «que ficara por memoria. <br> + Real em tanta maneira, <br> + de perfeição tão inteira, <br> + de tanta mundana gloria».<a name="tex2html8" + href="#foot401"><sup>[8]</sup></a> </blockquote> + +<p>Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do +seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia +em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S. +Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que +se hão de tornar em pranto!...»</p> + +<p>E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:—«Quem viver +verá!...»</p> + +<p>A verdade é, que se não enganou.</p> + +<p>Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr +côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do espoliado +cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a sensibilisar-se com +lamentações de frades.</p> + +<p>A construcção da <em>sala de madeira</em> foi dirigida por Andrea Contucci, +a quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.<a class="pn" +name="pg_160">{160}</a></p> + +<p>Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu +nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D. João II +pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.</p> + +<p>Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já revelado o +seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira, iniciada depois de ter +chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que tão merecida e distinctamente +occupa na historia da Arte.</p> + +<p>Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns +trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença, não o +impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha a mais +pronunciada vocação.</p> + +<p>O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de Domenico +Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo, ainda ignorado +na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo. Vê-se bem, qual foi, pois +o móvel do crime.</p> + +<p>O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na +pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis, seu +patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo fundiu a bella +medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual Lourenço o +<em>Magnifico</em> se salvou milagrosamente.</p> + +<p>O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua<a class="pn" +name="pg_161">{161}</a> poderosa influencia o triumpho simultaneo do +Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo, na maioria dos productos da +intelligencia humana; e, sem embargo de have-lo proclamado grande protector das +lettras a universidade de Pisa, por elle fundada, o seu consulado fórma um +periodo tristemente memoravel para a historia dos costumes, das artes e das +proprias lettras.</p> + +<p>É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo +determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D. +João II.</p> + +<p>Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do +seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia +real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.</p> + +<p>D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de +Evora, as recordações do periodo medieval.</p> + +<p>Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro, +para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um +sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham +entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as +mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real +thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e +cavallo; e os que<a class="pn" name="pg_162">{162}</a> entravam nos mômos +e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado vestido e dinheiro +aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais galantes raparigas e foliantes +mocetões do Alemtejo, que vieram com suas danças, toques e descantes concorrer +todos para o luzimento e alegria das festas.</p> + +<p>O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na <em>sala de madeira</em>, +appareceu-lhe invencionado no phantastico <em>cavalleiro do cysne</em>, o +poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou ler, e +depois entregar á princeza, sua nora, um <em>bréve</em>, em que propunha a +tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas +conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para justar com +seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.</p> + +<p>Singular caracter o d'este monarcha!</p> + +<p>Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os +preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho; +comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma +enlevada e contemplativa—a fundação da misericordia de Lisboa.</p> + +<p>Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel +de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.</p> + +<p>De visita ao seu mosteiro de Santarem havia<a class="pn" +name="pg_163">{163}</a> chegado a Evora o douto e humilde trino, e veiu +encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S. Matheus, cuja +doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da devota rainha, +para o purificar e tornar fecundo.</p> + +<p>—Embóra vindes, fr. Miguel!...—disse a rainha ao receber o trinitario, que +com profunda reverencia lhe beijou a mão.—Sentae-vos que muito desejo +ouvir-vos ácerca da <em>vossa</em> Misericordia...</p> + +<p>—Da de voss'alteza: quereis dizer...—ponderou Contreiras.</p> + +<p>—Pois seja de ambos nós—tornou D. Leonor,—ou melhor: de Deus será esse +arbusto, que vamos plantar, e que se fará—assim o espero da protecção +divina—arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...</p> + +<p>—Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que +váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la +de melhores mãos...</p> + +<p>—Mãos de peccadora...</p> + +<p>—Purificadas nas boas obras...—atalhou Contreiras.</p> + +<p>—Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás +miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não +hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino +Mestre?...</p> + +<p>—Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo +interesse nas acções<a class="pn" name="pg_164">{164}</a> boas que +praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão +misericordia».</p> + +<p>—Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do +Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...</p> + +<p>—E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado +pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...</p> + +<p>—Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa +instituição, que projectamos...</p> + +<p>—Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...</p> + +<p>—Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em +nome da caridade christã vamos congregar...</p> + +<p>—Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de +concluido, á censura e approvação de voss'alteza...</p> + +<p>—Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser +traça vossa...</p> + +<p>—Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê +me fazeis...</p> + +<p>A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de +Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha, +dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.</p> + +<p>Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas<a class="pn" +name="pg_165">{165}</a> correu Maria Thereza para sua ama, foi ajoelhar +junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:</p> + +<p>—Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...</p> + +<p>—Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...—volveu carinhosamente a +rainha.</p> + +<p>—Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o +cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum +tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas... +agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal +fim?...</p> + +<p>A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe +para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:</p> + +<p>—Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas +do casamento.</p> + +<p>Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas, +não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:</p> + +<p>—E se eu fosse já?...</p> + +<p>—Que trigança é essa?...</p> + +<p>—Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...</p> + +<p>—Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!... +Olha, que não é bom, ser-se impaciente...</p> + +<p>—Se eu não agastasse a vossa'alteza!...<a class="pn" +name="pg_166">{166}</a></p> + +<p>—O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...</p> + +<p>—Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e, +todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo +da minha alma... Eu, minha Senhora...</p> + +<p>Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais +os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.</p> + +<p>D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:</p> + +<p>—Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...</p> + +<p>Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os, +respondeu:</p> + +<p>—Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...</p> + +<p>—Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...—perguntou a rainha, +accentuando com grande admiração as suas palavras.</p> + +<p>—Sim, minha Senhora—replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e +parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.</p> + +<p>—Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na +differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu +casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...</p> + +<p>—O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um +passo, que não<a class="pn" name="pg_167">{167}</a> seja do real agrado +de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu +coração o que consagro a voss'alteza, como do coração da esposa nunca se +apaga—creio—o amor da filha. Até este mais santifica e robustece o outro... +</p> + +<p>—Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu +as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...</p> + +<p>—Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle +não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas +honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por +onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não +esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo +cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado, +que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...</p> + +<p>—Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores—affirmou +gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as +palavras, que docemente proferia, continuou:—pois bem... mandarei dizer a teu +tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás +festas... e faço-te a vontade...</p> + +<p>Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente<a class="pn" +name="pg_168">{168}</a> Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma +palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz +do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava +deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem +tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:</p> + +<p>—Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum +tempo a companhia de voss'alteza!...</p> + +<p>—Pobre creança!...—interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa. +Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela +cara:</p> + +<p>—Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres, +não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...<a +class="pn" name="pg_169">{169}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001300">XI</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001310"><em>PEREGRINAÇÃO</em></a> </h2> + +<p>Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar +em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente +catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca, +incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o +recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os +musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor +fanatico.</p> + +<p>Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se +considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la, +porém, mórmente no seculo <small>XV</small>, embóra se tivesse envergado o +<em>ihram</em> do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.</p> + +<p>Os raros europeus, que no seculo actual lográram<a class="pn" +name="pg_170">{170}</a> vêr Mecca, dão testemunho do perigo, a que se expõem +os christãos, que se afoitam a violar a lei que lhes prohibe, com pena de +morte, o seu ingresso no velho santuario arabe.</p> + +<p>Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o Oceano +indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e costumes, nada +havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um dever, a cujo cumprimento +sacrificava a propria vida.</p> + +<p>É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na +adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos labores +improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e, no seu +resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e robustecia cada +vez mais a confiança, que em si proprio depositava.</p> + +<p>Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.</p> + +<p>O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia, tem +importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela influencia, que +recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A sua aridez, quasi +geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha. Cortam a immensa solidão +das suas planicies arenosas, que se extendem para a margem do mar Vermelho, +pouquissimos valles cultivados e montanhas cobertas de rochedos, que se vão +tornando cada vez mais abruptas á medida que os viandantes<a class="pn" +name="pg_171">{171}</a> se internam no paiz. As estradas são regueiras +enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se transformam em rios caudalosos. +Caminha-se por esses <em>uâdis</em>, e na falta d'elles seguem-se as direcções +rigorosamente determinadas pela situação de póços e cisternas, sem cuja agua a +vida seria impossivel no deserto.</p> + +<p>Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que +percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o +<em>simoun</em>.</p> + +<p>Para combater o primeiro, iam os açacaes—<em>sakka</em>—encarregados de +conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam novas +provisões da dos depositos, que encontravam.</p> + +<p>Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam +exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em armas. Os +nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes, pois que taes +bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma caravana, como um general +europeu de ter bombardeado e conquistado uma praça de guerra; e, se não erguiam +uma estatua ao scheick, por elles muito venerado, e que os conduzia á victoria, +é porque na Arabia, a ninguem se fazia essa consagração.</p> + +<p>O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.<a class="pn" +name="pg_172">{172}</a></p> + +<p>Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois todo o +Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então um aspecto +sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia finissima, +arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar embravecido, era preciso +fugir a toda a pressa!</p> + +<p>Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!</p> + +<p>O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais +turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos, +os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes +<em>navios do deserto</em>, desarvoravam, partiam á desfilada, zombando da +vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de +conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças. +</p> + +<p>Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia +abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a +calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á +mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a +esperança de sobreviver os abandonava!</p> + +<p>Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope, +desfalleciam, caíam inanimes<a class="pn" name="pg_173">{173}</a> +n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e tumulo, até que +novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas numerosissimas do +implacavel e deshumano simoun!</p> + +<p>De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio +fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.</p> + +<p>Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia, +que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes, +que cercavam a <em>mãe das cidades</em>, a Om-el-Kora dos arabes.</p> + +<p>A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada +pelo <em>propheta</em> a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca, +para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.</p> + +<p>Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar +Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á +roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.</p> + +<p>N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre +de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de +tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o +caracteristico predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana +fizeram uma ablução geral, chamada <em>ghort</em>, substituiram os seus trajos +de viagem pelo <em>ihram</em>,<a class="pn" name="pg_174">{174}</a> o +calçado pelas chinelas—<em>besmak</em>—, e perfumaram-se. As musulmanas +tambem purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o +<em>ihram</em>, e denominado <em>yaschmak</em>.</p> + +<p>Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de <em>hadji</em>, depois +d'ella era tratado pelo de <em>mohrim</em>; e as suas vestes ficavam +santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente +guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.</p> + +<p>A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho—os +homens em voz alta e as mulheres em voz baixa—muitas orações, terminando pelo +<em>Tebiya</em> ou <em>Lebbeika</em>.</p> + +<p>Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando +as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem +atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas +numerosas, pronunciaram o <em>tekbir</em> e o <em>tehlil</em>, que consistem em +dizer: <em>Allah Akbar</em>—Deus é grande; <em>Lá lla illá lla</em>—não ha +outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos +pregoeiros—<em>almuadens</em> ou <em>muezzinos</em>, voltado para a <em>kaaba: +observai, observai a casa de Deus, a prohibida!</em> E logo irromperam +descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, +approximaram-se da <em>pedra-negra</em>—<em>Hadjar elaswad</em>, para fazer o +<em>touaf</em>, isto é, para dar sete giros em volta da <em>kaaba</em>, +offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario,<a class="pn" +name="pg_175">{175}</a> que se elevava no meio do atrio, e, conforme a +crença arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.</p> + +<p>A mesquita—<em>mesgid</em>, <em>guma'a</em>, lugar de reunião, e tambem +<em>Beïttallah</em>, casa de Deus, reduzia-se a um +claustro—<em>sakhn-el-gama</em>, ou pateo aberto, formando um parallelogrammo +perfeitamente regular, ladeado de porticos levantados sobre quatrocentas e +noventa e uma columnas, umas de granito outras de marmore, e para o qual davam +accesso dezenove portas, destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, +irregulares emfim na sua construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em +arco de volta inteira.</p> + +<p>As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram +cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete +minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um +modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.</p> + +<p>A fórma e architectura da notabilissima <em>kaaba</em> não desmentiam, com +effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de altura, com +paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o Norte uma +pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo. Este templo +apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia guardado +pelo muslim, ou de reunião—<em>iom el guma'a</em>, e tambem<a class="pn" +name="pg_176">{176}</a> quando se celebrava o anniversario natalicio do +propheta. Ao scheick dos anciãos, ou <em>xaibins</em>, pertencia abrir a porta. +Para isto subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em +que terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, +chamada <em>Albarcá</em>, especie de véo de purpura, que se extendia sobre a +porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de prata.</p> + +<p>O povo, ao invadir a <em>kaaba</em>, rompia, de braços abertos e mãos +erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua +misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»</p> + +<p>O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois +pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e +pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por +ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro +bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O +exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta, chamado +<em>Kesoua</em>, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os +primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda +por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o +véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta, +nas quaes<a class="pn" name="pg_177">{177}</a> se liam inscripções +piedosas e textos do Corão.</p> + +<p>Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas +dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas +dos anjos, que voavam em torno da <em>kaaba</em>, e que levarão um dia o +sagrado véo deante do throno de Allah.</p> + +<p>A <em>pedra-negra</em> era o unico ponto da <em>kaaba</em>, permanentemente +offerecido á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para +nórdéste, achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em +chapas de prata.</p> + +<p>Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de +Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus +arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada +junto de Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho <em>páe dos +crentes</em> estava construindo a <em>kaaba</em>. A Pero da Covilhan, porém, +pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma substancia amarellada; +ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um vermelho carregado, que +podia passar por negro.</p> + +<p>Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento, +em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de +mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens +maculados<a class="pn" name="pg_178">{178}</a> de iniquidades de toda a +especie a tinham assim metamorphoseado.</p> + +<p>No páteo da mesquita, e pérto da <em>kaaba</em>, elevava-se outra +construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que +o santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e +afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a +tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço +de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A +sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos +os lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a +fonte, d'onde se tirava a agua santa para a purificação.</p> + +<p>Junto da <em>pedra-negra</em> começavam e terminavam os giros, durante os +quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a pedra, +se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois no caso +contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios. Seguia-se +beijar o nobre <em>Alcamamo</em> ou <em>maquam d'Ibrahim</em>, o qual consistia +em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e, por ultima +ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.</p> + +<p>Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este +nome, voltavam-se para a <em>kaaba</em> e recomeçavam as suas orações. +Desciam<a class="pn" name="pg_179">{179}</a> depois lentamente ao valle +Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e a de Meroua, para executarem alli +a marcha, chamada <em>saï</em>, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas +palavras, voltados para a <em>kaaba</em>: «Ó meu Deus, sê misericordioso; +perdôa os meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes +direcções, para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por +Abraham.</p> + +<p>Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa, +com que terminava a peregrinação.</p> + +<p>Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de +Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações +quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se <em>Sabah +Namazy</em>; a segunda, <em>Oilah Namazy</em>, ao meio-dia; a terceira, +<em>Akindy Namazy</em>, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, <em>Acham +Namazy</em>, ao sol posto; e a quinta <em>Yatzu Namazy</em>, ao serrar da +noite.</p> + +<p>Precedia sempre as orações uma ablução +parcial—<em>woudou'</em>, que consistia em lavar a cara, as +mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o artelho. Antes de começar a reza, +o crente extendia no chão o seu tapete quadrado, collocava-se de pé sobre elle, +voltava-se para a <em>kaaba</em>, estando em Mecca, ou para esta, em outra +parte, conforme a <em>quebla</em> estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de +perdão—<em>istigfar</em>, elevava depois<a class="pn" +name="pg_180">{180}</a> as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e +quasi em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar +chamada <em>tekbir</em>. Passava ao <em>fatihah</em>, e pronunciava ao menos +tres versiculos, ou <em>ayat</em>, d'esta oração, que é a primeira sura do +Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda, +e cravando os olhos no chão. Declamava o <em>tesbihk</em>, inclinando o corpo e +a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a posição do +<em>fatihah</em>, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma +prosternação—<em>soudjoud</em>, durante a qual repetia o <em>tekbir</em> e +tres vezes o <em>tesbihk</em>, tendo a face voltada para a terra, os dedos das +mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava +um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos, e +repetia o <em>tekbir</em>. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a +direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a oração, +estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.</p> + +<p>A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um <em>rick'ah</em>.</p> + +<p>Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente +do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate +contra o espirito das trevas.</p> + +<p>No mez de <em>schewal</em>, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro +dos mezes da peregrinação,<a class="pn" name="pg_181">{181}</a> +accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as velas da mesquita, bem como os +candieiros das torres, illuminando-se igualmente o eirado do edificio, na noite +do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte celebrava-se a oração da +paschoa, pois que no mez anterior, o <em>ramadhan</em>, era a quaresma, durante +a qual nenhum musulmano comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr +do sol até o romper d'alva.</p> + +<p>Chegado o primeiro dia do mez de <em>doulkaadah</em>, que era o undecimo, +tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do +abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao dia +da subida a Arafat. No setimo dia o <em>iman</em> pronunciava do alto do mimbar +na mesquita a <em>khotbat-el-hadjï</em>, isto é, uma allocução, em que +explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam +celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de +Miná. Este dia chamava-se de reflexão—<em>Ianm terwia</em>, alludindo á +incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu +filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão +diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração +matutina, a caravana subia á montanha de Arafat, onde existia uma +capella—<em>turben</em>, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel +fôra ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme<a +class="pn" name="pg_182">{182}</a> o ritual, os crentes, depois de uma +oração feita na propria <em>kubba</em>, armada no acampamento, iam esperar o +pôr do sol, e entretanto o <em>iman</em> erguia os braços ao Céo, para invocar +a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes +unisonas; <em>Lebeïk Allahouma Lebeïk!</em> Nós estamos ás tuas ordens, ó Deus! +</p> + +<p>Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a +<em>Djebel Farkh</em>, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma +catarata de espuma!</p> + +<p>No segundo dia punha-se em marcha, atravessava +<em>Elmeschar-el-haram</em>—o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em +confusão enorme, o apertado valle <em>Onadi-monhassar</em>—o valle maldito, e +chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas, junto do +<em>Djamrat-el-Agabé</em>, sete pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em +signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do arremesso: +<em>Bismillah!</em>—Em nome de Deus!</p> + +<p>Os sete seixinhos, que tomavam o nome de <em>Hassiato-Aljemar</em>, eram +expressamente apanhados em Monzdelifat.</p> + +<p>Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima, +que trouxesse.</p> + +<p>A caravana regressava a Mecca para visitar a <em>kaaba</em>, fazia nova +romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade <em>santa</em>, antes de +commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar pela<a class="pn" +name="pg_183">{183}</a> terceira e ultima vez á <em>kaaba</em>, a fim de +celebrar os <em>Thonaf-wida</em>—procissões da despedida; ao pôço de Zemzem +onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e retirava-se +finalmente pela porta do adeus—<em>Bab-el-wida</em>.</p> + +<p>Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de +um <em>uâdi</em>, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde raro +corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes inundações, indo +depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.</p> + +<p>As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam +sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por +singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios +do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades +arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa +regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes +suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto monotono.</p> + +<p>Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques, +cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana +Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid. +</p> + +<p>Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio +muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que<a +class="pn" name="pg_184">{184}</a> em seus bazares accumulavam-se as +producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e faziam-se negocios +importantes.</p> + +<p>No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e +carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que, +mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas +<em>foluzes</em>, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em +duas alcôfas de differente tamanho, chamadas <em>Magtalá</em>, as compras +feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.</p> + +<p>O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento, +e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles, +como pasta, a que chamavam <em>hops</em>.</p> + +<p>De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que +verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.</p> + +<p>Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos, +mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube, +que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da +peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas +mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando +ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da <em>kaaba</em>, o aroma +expirado por seus vestidos<a class="pn" name="pg_185">{185}</a> +predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que muito tempo depois de +retirarem, permanecia alli o seu vestigio fragrantissimo.</p> + +<p>Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A +muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os +tingiam, velhas e moças, com o <em>kohl</em>, que do mesmo modo empregavam nas +pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas ampleavam e +arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás palpebras, esbatiam +os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o +<em>kohl</em> um verdadeiro collyrio, e um remedio soberano contra as +ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e +nas mãos com um certo pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha +despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, +servindo-se para isso de uma erva denominada <em>elhene</em>.</p> + +<p>As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes +um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma +pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.</p> + +<p>Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do +Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande +similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa—o que<a +class="pn" name="pg_186">{186}</a> sómente bastaria, á falta de outras +provas, para demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.</p> + +<p>As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são +o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu +gosto.</p> + +<p>O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes +abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas, +compunha-se geralmente de uma larga tunica—<em>farmla</em>, atada na cintura +com o <em>samla</em> ou <em>foutah</em>, e um véo—<em>tarbah</em>, que cobria +a cabeça e quasi todo o semblante.</p> + +<p>Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de +espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o +pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as +quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros +desempenados, as deusas da Grecia antiga.</p> + +<p>Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente +um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam +verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que, +muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair +artificiosamente o véo, regalando os olhos de quem as via.<a class="pn" +name="pg_187">{187}</a></p> + +<p>Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia +esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér +desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.</p> + +<p>Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita, +gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser +preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual +ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma +na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito +do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.</p> + +<p>Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as +cinzas de Mahomet. Os mercadores—<em>gellabys</em>, carregaram de provisões os +seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os seus +tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o <em>kyrba</em>, ou gancho +indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por +impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o caminho, nem +de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de sobejo e não lhes faltava +tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas necessidades occorriam as +esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes viam-se grandes caldeirões +de cobre, chamados <em>arraçuato</em>, para cozinhar a comida nos aduares, os +quaes<a class="pn" name="pg_188">{188}</a> eram illuminados por lanternas +immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite. Em varios +<em>meharas</em> enfeitados com collares de sêda, e o <em>henné</em> ou +apparelho coberto com magnificos brocados, sobresaíam os <em>attatouch</em>, ou +palanquins, para commodamente se recostarem as mulheres opulentas.</p> + +<p>O alfange, o punhal—<em>khamtscher</em>, a faca,—<em>bitschak</em>, a +lança, a alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.</p> + +<p>A cidade do propheta <em>Medinet-el-Nebi</em>, distava de Mecca onze dias de +jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e +extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E a toda +essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas Mecca e Medina, +davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado, +<em>houdoud-el-haram</em>.</p> + +<p>Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a +sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento +funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa +mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por +trezentas lampadas.</p> + +<p>O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os +de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra. +Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da +altura<a class="pn" name="pg_189">{189}</a> por uma grade de ferro com +intervallos estreitissimos.</p> + +<p>O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob +um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de +prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se +sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata, +em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua +de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras +preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.</p> + +<p>Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual +paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do +enviado.</p> + +<p>Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas +tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do +tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em +que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo +propheta, e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu +filhinho. Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, +suspiraria inconsolavel até ao dia de juizo!»</p> + +<p>O pulpito era feito de tamargueira.<a class="pn" +name="pg_190">{190}</a> </p> + +<p>Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe +faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao +sudoeste d'ella, no mar Vermelho.</p> + +<p>Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do +propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de +Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser +transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria +alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se +tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes +a morrer de sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul +prolongava-se a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de +palmeiras juntos de póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar, +moderavam de longe em longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as +argilas alternavam com as areias e a greda.</p> + +<p>Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando +em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando +a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.</p> + +<p>Chegou emfim ás portas da Abyssinia.<a class="pn" +name="pg_191">{191}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001400">XII</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001410"><em>NA ABYSSINIA</em></a> </h2> + +<p>Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente +Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que +Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, +para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem +deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a +mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam +seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos +olhos da Europa a historia da Abyssinia.</p> + +<p>Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade +credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no +seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o +islamismo.<a class="pn" name="pg_192">{192}</a></p> + +<p>Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?—Ninguem sabia responder; +pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez +por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.</p> + +<p>Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado +entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela +Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a +Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou o +<em>Kolla</em>, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados, +encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora +especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media, +ou o <em>Onaïna Déga</em>, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais +fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou o <em>Déga</em>, +cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas +montanhas.</p> + +<p>As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece +formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero +d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta +dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a +quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade +impreterivel de as collear e transpôr; por<a class="pn" +name="pg_193">{193}</a> isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da +Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão +invios caminhos, voltassem para traz.</p> + +<p>Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe +afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o +Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a +desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham +cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das +chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os +numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes. +</p> + +<p>Então o Tacazé ou <em>Nilo negro</em>, que na bacia hydrographica +septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem +banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado +impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande +lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou <em>Nilo azul</em>, +atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e +tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios +indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o +vertice das montanhas.<a class="pn" name="pg_194">{194}</a></p> + +<p>Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.</p> + +<p>Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos +purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em +mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das +florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das +aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das +flores e dos fructos.</p> + +<p>Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido, +aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía, +determinada pelas grandes differenças de nivel!</p> + +<p>A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas +as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios +no mesmo solo.</p> + +<p>O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar +insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas +centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe +mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das +nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.</p> + +<p>Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa +as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.<a class="pn" +name="pg_195">{195}</a></p> + +<p>Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma +extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções +extraordinarias, bem como o <em>teff</em>, coberto de flôres purpurinas, e cujo +grão oblongo dá uma farinha saborosa.</p> + +<p>O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do +Sudão, devastam as ceáras, o <em>enséte</em>, que é uma especie de bananeira, +cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja +completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.</p> + +<p>Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero +infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a +vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente +de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.</p> + +<p>O agigantado <em>baobah</em>, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a +palmeira excelsa, o <em>kuara</em> com as suas bellas flôres coralinas, a +<em>mimosa</em>, o <em>cusco</em>, o <em>wansey</em>, cujas flôres alvissimas +abrem todas a um tempo, o <em>daro</em>, que escolhe, para os abrigar com a sua +sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores +egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros +massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais +singulares e formosos cambiantes.</p> + +<p>No mesmo solo humedecido, e alcatifado de<a class="pn" +name="pg_196">{196}</a> flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos, +emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas +pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala, +subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.</p> + +<p>E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu +retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos +do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena +animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus +movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça +de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela +immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho +das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem +das aves, mórmente da do <em>sonis-manga</em>, ou <em>cynnirus splendidus</em>, +conforme a denominação scientifica moderna.</p> + +<p>Nas regiões mais aridas, o <em>cactus</em>, a especie de euphorbio, +denominada <em>kolquall</em>, a palmeira anã, o <em>kautuffa</em> coberto de +espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são +testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, +corças, e outros antilopes, como o <em>beni-israil</em>, igualmente elegantes, +que logram escapar, por causa da ligeireza dos<a class="pn" +name="pg_197">{197}</a> movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis +inimigos.</p> + +<p>Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de +asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a +todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.</p> + +<p>Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto, +garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes +elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte +bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios, +em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.</p> + +<p>No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos +se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras +plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os +montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o +<em>Kousso-Brayera anthelmintica</em>, e o <em>Gibarra</em>—Rhynchopetalum, +que se elevam descommunalmente.</p> + +<p>Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de +medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles +tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da +caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.<a class="pn" +name="pg_198">{198}</a></p> + +<p>Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, +por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem +a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as +quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não +só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as +tinham dispostas.</p> + +<p>Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa +distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados +uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com +symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados +alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á +mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e +outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, +tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam +duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro +d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes +colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com +azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de +um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande<a class="pn" +name="pg_199">{199}</a> tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos +arruamentos milhares de outras, todas brancas.</p> + +<p>Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, +por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada +sensação no ajuntamento.</p> + +<p>Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que +vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para +o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico—já n'esse tempo a +lingua da côrte—que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de +entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso +imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. +O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á +presença d'elle Pero da Covilhan.</p> + +<p>Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um +catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas +barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado +da sua côrte.</p> + +<p>Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao +chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu +pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do +soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. +O Préste mandou-o<a class="pn" name="pg_200">{200}</a> levantar, fez-lhe +algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João +II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para +mais tarde conversarem largamente, como desejava.</p> + +<p>Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os +grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das +cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia +publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e +a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.</p> + +<p>A côrte compunha-se do <em>Bellátimoche goytá</em>, mordomo-mór; do +<em>Tecácase Bellátimoche-goytá</em>, pequeno mordomo-mór; dos dois +<em>Betendet</em>, os validos do imperador; do <em>Titaurári</em>, que fazia o +officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso +frequentava diariamente a tenda imperial o <em>Abima</em>, que quer dizer páe, +e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da +Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha +grande auctoridade, o <em>étch'égé</em>, prelado do numeroso clero regular, e +officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado pelo +<em>abima</em> Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do +<em>abima</em>, havia o <em>Labeata</em>, padre de nomeação imperial. Junto do +soberano funccionavam os <em>Azages</em> e <em>Umbares</em>, dezembargadores +e<a class="pn" name="pg_201">{201}</a> ouvidores do imperio, sem +escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na +presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as +sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo +immenso de trapaças.</p> + +<p>O livro da lei, <em>Fitha Negoust</em>, compunha-se de textos mal traduzidos +do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem +ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na +presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que +jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e +se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua +alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim +os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, +assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade +disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com +os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que +jurava: amen.</p> + +<p>O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o +juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que +sobre tudo temia.</p> + +<p>As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias +festivos e para as<a class="pn" name="pg_202">{202}</a> grandes +recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco +em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas +sentinellas.</p> + +<p>Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, +na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras +de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo +metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia; +sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar +unicamente na direcção dos homens que o antecediam.</p> + +<p>Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a +comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido, +que fazia afastar a gente.</p> + +<p>Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de +maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um +cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de +leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita +pedraria falsa.</p> + +<p>O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por +clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.</p> + +<p>O <em>Titaurári</em> escolhia o lugar do arraial, assignalando<a +class="pn" name="pg_203">{203}</a> com uma lança cravada no terreno o centro +da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que +dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da +qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em +bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.</p> + +<p>Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente +d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. +Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de +duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; +tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma +povoação em taes condições se tornava mister.</p> + +<p>As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente. +</p> + +<p>As pessoas pobres dormiam sobre o seu <em>Neté</em>, que era um coiro de +boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como +cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente +uma pelle de carneiro, leão ou tigre.</p> + +<p>Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava +voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver +commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para +evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á<a class="pn" +name="pg_204">{204}</a> sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando +a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso, +puniam-n'o sem julgamento prévio.</p> + +<p>Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as +quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O +travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada <em>bercutá</em>, onde +não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não +amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.</p> + +<p>Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais +sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e +não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás <em>ápas</em>, espécie de pão +de varias farinhas, em que entravam a do <em>teraux</em> e a do +<em>cousio</em>, e que tambem lhes servia de alimento.</p> + +<p>Sobre as <em>ápas</em> collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo +estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de +barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadas +<em>escambiás</em>.</p> + +<p>Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, +embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam <em>berindó</em> a este amargo +manjar, um dos mais delicados da sua mesa.</p> + +<p>Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o +hydromel; que<a class="pn" name="pg_205">{205}</a> constava de cinco ou +seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia +ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado +<em>sardó</em>, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do +mel.</p> + +<p>Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das +mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com +barro e selladas, e denominavam-se <em>gombos</em>. Os portadores d'ellas iam +escoltados por muitos homens d'armas.</p> + +<p>Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que +se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam +da canna para alimento.</p> + +<p>Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do +territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo +escassa a producção de hortaliças.</p> + +<p>Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a +quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos +bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As +perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das +nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como +gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas, +differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.<a class="pn" +name="pg_206">{206}</a></p> + +<p>Appareciam tambem coelhos e lebres.</p> + +<p>Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade, +nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e +unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos +gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias +lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.</p> + +<p>Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio. +Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome de +<em>gueddam</em> e seus governadores o de <em>alikas</em>.</p> + +<p>A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de +algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes +formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de +telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra +ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão +unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de +varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de +pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe +muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito +delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel +dos senhores.<a class="pn" name="pg_207">{207}</a></p> + +<p>Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os +orientaes lhes chamam <em>hobesch</em>. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de +rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente +guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos +aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias +sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, do +<em>foulah</em> ou <em>peulh</em>—raça vermelha, do arabe e do africano puro. +N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos +secundarios mais proximos, <em>bedjas</em>, <em>somali</em>, <em>galla</em> e o +syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se +o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça. +</p> + +<p>Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e +curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não +occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e +n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo, +de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de +egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de +leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal +cobria estas até ao joelho.</p> + +<p>Em geral a plebe não usava calçado, e o seu<a class="pn" +name="pg_208">{208}</a> vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma +capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.</p> + +<p>Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao +artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e +d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os +calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos +baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um +collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem, +tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, +consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles +tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, +ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da +terra ou de bofetá.</p> + +<p>Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto +andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros, +<em>ainda não estava na graça do Senhor</em>; mas logo que fallasse com o +Préste, e saisse da sua tenda vestido, <em>já estava na graça do Senhor</em>. +</p> + +<p>Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados +caprichosos. As mulheres<a class="pn" name="pg_209">{209}</a> +encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam +solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.</p> + +<p>O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois +zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo, +com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas +<em>bolotás</em>; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças +curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos +estreitos, como se foram dardos.</p> + +<p>Os mais nobres cingiam espada—de que raras vezes se serviam—com +empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns +traziam tambem adaga.</p> + +<p>Os cavalleiros com sáia de malha—que poucos eram—não se curavam de +rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.</p> + +<p>Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro +choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.</p> + +<p>Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e +bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham +ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos +estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.</p> + +<p>Além da gente de armas, era muita mais a que<a class="pn" +name="pg_210">{210}</a> seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias +inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as <em>ápas</em> e o +hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, +não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações +passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente +selvagem.</p> + +<p>Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras +effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados <em>amalé</em>, +cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.</p> + +<p>Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e +estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e +aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras +com a corrente das aguas.</p> + +<p>A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia, +explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a +natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos +importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.</p> + +<p>A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em +Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.<a +class="pn" name="pg_211">{211}</a></p> + +<p>Junto de um immenso <em>daro</em> elevava-se o templo christão, que era de +formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas +abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e +denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.</p> + +<p>Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam +hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces +esculturas, que revelavam um cinzel grego.</p> + +<p>N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a +christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os +primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a +prophecia de David.</p> + +<p>Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da +sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de +judaismo, com traços de budhismo.</p> + +<p>Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas +egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.</p> + +<p>Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia +com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e +sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas +portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se<a class="pn" +name="pg_212">{212}</a> facilmente, que não deixaram discipulos os artistas, +que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo +attribuidas aos egypcios todas essas obras.</p> + +<p>Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro +sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço +comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos +o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava +á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe +ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo +sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em +gheez, que era a lingua lithurgica.</p> + +<p>O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser +admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso. +Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou +insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle +usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se +affirmava.</p> + +<p>Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos +tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.</p> + +<p>O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o +contrahia com o tacito<a class="pn" name="pg_213">{213}</a> ou expresso +consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso +fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes +asqueroso, das causas de divorcio.</p> + +<p>As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam +indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a +hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, +deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, +pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as +vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola +furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem +cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o +clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.</p> + +<p>Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a +cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, +quando iam já distantes.</p> + +<p>A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser +muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano +não podia considerar-se completamente absoluto.</p> + +<p>E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:<a class="pn" +name="pg_214">{214}</a> arcyprestes—<em>komosats</em>; +conegos—<em>debterats</em>; curas—<em>kasis</em>; +vigarios—<em>nefk-kasis</em>; diaconos—<em>diakons</em>; e +sub-diaconos—<em>nefk-diakons</em>.</p> + +<p>Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel +moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se +dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com +repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a +resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o +mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. +E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, +prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e +florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio +immenso emfim.</p> + +<p>A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o +soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e +distrahi-lo do proposito de voltar á patria.</p> + +<p>Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente +ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha +de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da +sua casa.</p> + +<p>Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se<a class="pn" +name="pg_215">{215}</a> perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os +ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres +insensiveis que o cercavam!...</p> + +<p>Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um +povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade +tambem distante!...</p> + +<p>E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do +rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos +ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas +recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os +segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos +ardentes de a vêr!...</p> + +<p>Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...</p> + +<p>A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a +miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de +estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.</p> + +<p>Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, +a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem +perspectiva.</p> + +<p>Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o +alfabeto ethiopico do das<a class="pn" name="pg_216">{216}</a> +inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo +numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia +estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da +direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das +semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.</p> + +<p>O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o +amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado +do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão +aparentado com o egypcio antigo.</p> + +<p>Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios +dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso +alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe +reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua +modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, +conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que +nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir o <em>novo senhor</em>. +O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles +povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto +de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho +ou filha,<a class="pn" name="pg_217">{217}</a> que nos deixeis em penhor, +mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; +não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque +tendes em nós um amigo.»</p> + +<p>Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu +profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade: +«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença +pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.» +</p> + +<p>Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse +passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou +de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar +os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se +encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem +por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes +entregou.</p> + +<p>Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; +mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia +do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente +sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.</p> + +<p>Helena considerava-se a mais ditosa filha da<a class="pn" +name="pg_218">{218}</a> Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre +uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e +fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou +feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os +corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que +eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do +<em>daro</em>, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que +vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!... +Amo-te muito!... muito!...»</p> + +<p>Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas +lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...</p> + +<p>Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...</p> + +<p>—E porque chorava?!...</p> + +<p>Pobre coração humano!...<a class="pn" name="pg_219">{219}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001500">XIII</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001510"><em>REMATE</em></a> </h2> + +<p>O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor +de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se. +Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir +no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a +vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe +incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, +e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar +a enfermidade d'esse amor.</p> + +<p>Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do +amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a +engrinardar-lhe o nome. Assim o<a class="pn" name="pg_220">{220}</a> +esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.</p> + +<p>D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem +de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas +ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um +espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo +illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa +Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua +intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!</p> + +<p>Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares +qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já +sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto +plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com +o fim de collaborar, no desenvolvimento da prosperidade nacional, e na +exaltação da fé catholica.</p> + +<p>No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não +olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria +impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista +eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes, +para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.<a +class="pn" name="pg_221">{221}</a></p> + +<p>Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle +uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da +sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para +a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI, +indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não +houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.</p> + +<p>Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que +fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.</p> + +<p>Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa, +antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,<a name="tex2html9" +href="#foot659"><sup>[9]</sup></a> a qual occupava as casas, de que lhe havia +feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, +contra o muro velho da cidade.</p> + +<p>O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes, +conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha +fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte, +era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do +sitio sabiam já a hora, a que <em>elle</em> passava para as aulas, ou saía a +passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os<a +class="pn" name="pg_222">{222}</a> olhos no galante <em>moço</em>. Maria +Thereza ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava +a despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a +sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez sorria-se +maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.</p> + +<p>Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a +Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até +na graça da palestra.</p> + +<p>Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no +acto para licenciado, causou assombro aos mestres.</p> + +<p>Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico. +</p> + +<p>Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente +foi logo convida-la, para reger a cadeira,<a name="tex2html10" +href="#foot663"><sup>[10]</sup></a> que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o +convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não +pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de +que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza +se façam».</p> + +<p>Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria +Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,<a +class="pn" name="pg_223">{223}</a> durante quatro annos lectivos, cursou as +aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou +ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.</p> + +<p>D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da +Abyssinia por creados seus;<a name="tex2html11" +href="#foot665"><sup>[11]</sup></a> como, porém, estivesse em preparativos de +passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas +de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria +dar a Maria Thereza.</p> + +<p>Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha +o escrinio, onde guardava aquellas cartas.</p> + +<p>Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença, +que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor, +desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de +communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do +throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de +Alencastro—que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.</p> + +<p>Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver +assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para +Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,<a class="pn" +name="pg_224">{224}</a> d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e +seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo. +Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais +commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra +ás portas da morte.</p> + +<p>Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D. +João II, ou <em>morreu o homem</em>, como sentenciosamente disse Isabel, a +Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova +certa do fallecimento.</p> + +<p>Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de +vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr, +que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão, +que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso—quem +sabe se nas festas de Evora!...</p> + +<p>No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez +uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II +havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns +principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e +documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.</p> + +<p>Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida +os de maior transcendencia,<a class="pn" name="pg_225">{225}</a> que seu +irmão praticou no começo do seu reinado.</p> + +<p>Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da +importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao +novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas +apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse +junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia +solicitasse a resposta.</p> + +<p>Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem +gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas +nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario +apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares +levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as +buscaria.</p> + +<p>A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a +conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque +já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo, +agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de +Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto +d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.<a class="pn" +name="pg_226">{226}</a></p> + +<p>Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia +de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador +Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a +Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido +na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.</p> + +<p>Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes, +e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.</p> + +<p>Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham +baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e +por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua +menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.</p> + +<p>As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos +islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do +imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados +por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do +Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se +senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo +o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente +guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas +n'esses<a class="pn" name="pg_227">{227}</a> paizes. A mosqueteria e +artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.</p> + +<p>Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel +vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção +de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas +victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se +ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça, +tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da +India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe +perguntava.</p> + +<p>Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por +fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do +que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino, +mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do +Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na +Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, +não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita +honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na +esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.</p> + +<p>A esquadra, composta de dez náus, largou do<a class="pn" +name="pg_228">{228}</a> porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou +tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D. +Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do +embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do +rei.</p> + +<p>Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao +Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a +embaixada portugueza.</p> + +<p>Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu +Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu +destino, depois de longas e arduas jornadas.</p> + +<p>Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que +exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se +da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.</p> + +<p>Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito +lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente +sacrificou a vida pelo seu paiz.</p> + +<p>Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de +Lima, dizia:</p> + +<p>«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até +ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe +como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».<a +class="pn" name="pg_229">{229}</a></p> + +<p>Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah +e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e +aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim, +lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam +as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.</p> + +<p>Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...</p> + +<p>Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo <small>XVI</small>, sem +comtudo irmos mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder. +</p> + +<p>Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a +seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza</em></p> + +<p> </p> + +<p>Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e +comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu +desejava, ou—porque não direi?—como nós ambos desejavamos.</p> + +<p>Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha +Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu +Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe +conversar<a class="pn" name="pg_230">{230}</a> comvosco, condemnado, como +estou a não mais vos vêr, nem ouvir.</p> + +<p>A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao +lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a +minha alma se fortaleça com tão duras provações!...</p> + +<p>De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem +El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente +dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o +agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.</p> + +<p>Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei +o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes +portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á +India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella +cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os +mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias, +provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado. +</p> + +<p>Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi +Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar +Vermelho.<a class="pn" name="pg_231">{231}</a></p> + +<p>Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir +visitar a <em>cidade santa</em>, como elles fanaticamente chamavam a Mecca, +encorporei-me na sua caravana.</p> + +<p>Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella, +senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto +moveram mais as vossas orações do que as minhas.</p> + +<p>Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos +meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.</p> + +<p>Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus +lugares santos...</p> + +<p>Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive +de tomar parte—perdôe-me Deus!—na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi, +que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!</p> + +<p>É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais +variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos +bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do +<em>propheta</em>, e fazem-se negocios importantes.</p> + +<p>De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do <em>sancarrão</em>. +Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e maninha.</p> + +<p>Terminada a peregrinação, retirei para Yambo,<a class="pn" +name="pg_232">{232}</a> que é no mar Vermelho o porto, que abastece Medina, +e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a Tor.</p> + +<p>Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O +Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde +vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na +Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos +hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com +o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o +propheta Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri +emfim toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz +biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de +Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, +bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas, +recebendo em troca os productos da Phenicia.</p> + +<p>Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar +em Zeila.</p> + +<p>Tinha chegado ás portas da Abyssinia.</p> + +<p>A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e +situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.</p> + +<p>Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma +altissima serra,<a class="pn" name="pg_233">{233}</a> como se fôra +inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual +no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens +a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á +qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se +alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo com o +prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e perdem-se +totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis despenhadeiros +abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da outra umas como +portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam com tamanho +risco de suas vidas.</p> + +<p>Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe +instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis +vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?</p> + +<p>—Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por +fiador, me mandaria a Portugal!</p> + +<p>Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!</p> + +<p>A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.</p> + +<p>Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas +perder-se-ia tudo quanto<a class="pn" name="pg_234">{234}</a> tenho +feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre desconfiada, e em geral de pouca +verdade, ficaria tendo-me na conta de um embusteiro; no que não perigava a +minha consciencia, mas o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim +tomariam por grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome +de meu Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se +com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere, +respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não resolver +o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.</p> + +<p>De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a +natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo +muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e +conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as +necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter +as mais pacificas relações de amisade com o Préste.</p> + +<p>Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como +El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.</p> + +<p>Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a +vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil +admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias +a<a class="pn" name="pg_235">{235}</a> este exilio, empregal-os-ei todos +no serviço d'El-Rei, e da patria.</p> + +<p>Fui constrangido a constituir familia, e todavia—crêde-me, Thereza!—vivo +em uma solidão immensa!...</p> + +<p>Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as +suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar +do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E, +emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos +juntar-se-hão no caminho do céo...</p> + +<p>Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser +visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que +repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe, +experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...</p> + +<p>Não nos é dado realizar o impossivel!</p> + +<p>O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára, +acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...</p> + +<p>Adeus.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida +cecem das matutinas<a class="pn" name="pg_236">{236}</a> lagrimas +rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os +suspiros, que as entrecortavam.</p> + +<p>Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e +exclamou:</p> + +<p>—Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as +coisas d'esta vida!...</p> + +<p>—Tambem as ha certas—interrompeu D. Leonor com muito carinho—e uma +d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...</p> + +<p>—Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me +permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan: +«de outro jámais serei!»</p> + +<p>—Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes—tornou a rainha—; +mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!... +Emfim é necessario, que penses no teu futuro...</p> + +<p>—Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr +Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já +não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.</p> + +<p>—Não póde haver união mais santa—retorquiu com jubilo a rainha—; mas +sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...</p> + +<p>—Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu +proposito; anima-me,<a class="pn" name="pg_237">{237}</a> pelo contrario, +a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser +a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha +fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois +corações...</p> + +<p>—Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu +coração de ouro!...</p> + +<p>Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos, +regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça +da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...</p> + +<p>Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do +mesmo affecto finissimo.</p> + +<p>Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente +de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com +sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e +logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia +de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria +para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos +esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com +que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de +candura.<a class="pn" name="pg_238">{238}</a></p> + +<p>Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada +em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo +para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se +deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus +primeiros ensaios em Portugal.</p> + +<p>Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais +velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou +edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.</p> + +<p>N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as +asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se +votou.</p> + +<p>Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos +de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P. +Francisco Alvarez:</p> + +<p> </p> + + +<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan</em></p> + +<p> </p> + +<p>Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos +sacrificios.</p> + +<p>Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado +em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura, +onde espéro servir melhor a<a class="pn" name="pg_239">{239}</a> Deus, do +que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o +Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção +pura, com que lh'as dirijo.</p> + +<p>Elle vos acompanhe sempre!</p> + +<p> Adeus.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas, +onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa +do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide, +na qual se lia unicamente;</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">A<small>QUI ESTÁ A RAINHA </small>D. L<small>EONOR.</small></p> + +<p> </p> + +<p>Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua +vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!</p> + +<p>As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre +testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do +glorificado.</p> + +<p>O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que +tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.</p> + +<p>As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se<a class="pn" +name="pg_240">{240}</a> definitivamente no seculo <small>XVI</small>, e +conservaram-se até o seculo seguinte.</p> + +<p>Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento +de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do +mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah, +abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto. +D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do +sultão ottomano.</p> + +<p>E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a +9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de +Zeila.</p> + +<p>D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o +primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade +acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o +sentir.»</p> + +<p>Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes +portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do +seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.</p> + +<p>Aureos tempos!...</p> + +<p>Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em +latim,<a name="tex2html12" href="#foot704"><sup>[12]</sup></a> e sendo por<a +class="pn" name="pg_241">{241}</a> isso aurora brilhantissima da renascença +das lettras em Portugal.</p> + +<p>Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá +contemplava o Tejo...</p> + +<p>Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com +ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...</p> + +<p>E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar +sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior +recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!... <a class="pn" +name="pg_242">{242}</a><br> +<a class="pn" name="pg_243">{243}</a></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0001600">NOTAS</a> </h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001610">A</a> </h2> + +<p><a href="#pg_3" name="nota_A" id="nota_A">P<small>AG. 3.</small></a>—«... +<em>de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</em>». Como +referimos no Cap. <small>XI</small>, o <em>tarbah</em> das musulmanas +serve-lhes de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão +um dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este +costume.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001620">B</a> </h2> + +<p><a href="#pg_26" name="nota_B" id="nota_B">P<small>AG. +26.</small></a>—«...<em>a ponto de provocar a formação das Hermandades</em>». +Estas confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por +essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a segurança +publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos fóros e liberdade +dos povos e communidades que as formavam. Eram uma força importantissima, que +os reis catholicos habilmente aproveitaram depois, fazendo depender do governo +do Estado a disciplina e constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais +tropas da <em>Hermandad</em>, aquelles principes lográram ter um corpo +permanente de exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi +um ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito +contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia da mais +incommoda e turbulenta oligarchia.<a class="pn" +name="pg_244">{244}</a></p> + +<p>Muito antes de conflicto do Toro já existia a «<em>santa hermandad</em>», e +não foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se +limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como erradamente +affirma o Sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em>.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001630">C</a> </h2> + +<p><a href="#pg_33" name="nota_C" id="nota_C">P<small>AG. +33.</small></a>—«<em>Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da +historia</em>». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas ácerca +do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em assumpto de tanta +monta, como a successão á corôa de Castella por morte de Henrique IV, diz: «o +fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira e veridica do succedido podia +offender a pessoas auctorisadas e poderosas».</p> + +<p>É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001640">D</a> </h2> + +<p><a href="#pg_47" name="nota_D" id="nota_D">P<small>AG. 47.</small></a>—«... +<em>o principe D. João casasse com a princesa de Castella, D. Joanna</em>». +Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro de Toro, e tão +affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II, sendo principe, muito +desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas «condemnou depois o máu +conselho d'elle, em não haver acceitado os primeiros casamentos d'aquelle +reino: que era casar el-rei com a Infante D. Isabel, e elle com a princeza D. +Joanna». Zurita, Anales de Aragon, tom. <small>IV</small>, liv. +<small>XIX</small>, cap. <small>XVIII</small>.</p> + +<p>Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis D. +Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de Clemencin, +Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. <small>VII</small>.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001650">E</a> </h2> + +<p><a href="#pg_69" name="nota_E" id="nota_E">P<small>AG. 69.</small></a>—«... +<em>a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de um castelhano</em>». +O sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em> mostra, não dar crédito +ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito, recobrado o estandarte +real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o tomou. Ignorava de certo, que +existe<a class="pn" name="pg_245">{245}</a> em Torre d'Eita, povoação +pouco distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente +o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de +Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico feito +de Toro.</p> + +<p>É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada visse +passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o estandarte real +portuguez a varrer as ruas.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001660">F</a> </h2> + +<p><a href="#pg_90" name="nota_F" id="nota_F">P<small>AG. +90.</small></a>—«<em>D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande +predilecção pelos que cultivavam as lettras</em>». O sr. Oliveira Martins +amesquinha com tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um +<em>genio incoherente e curto no alcance</em>, concede-lhe a primasia em +organisar uma bibliotheca no paço, mas... unicamente <em>por seguir a +móda</em>; e occulta o facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o +primeiro rei, que tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia +portugueza.</p> + +<p>Singular criterio!</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001670">G</a> </h2> + +<p><a href="#pg_100" name="nota_G" id="nota_G">P<small>AG. +100.</small></a>—«...<em>cortezãos dotados de bôas prendas</em>». Talvez o +leitor compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no +seculo <small>XV</small>, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de +Frederico III, imperador da Allemanha.</p> + +<p>Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou nos +ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de insensatos tanto +nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em geral, incapazes de bons +costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os olhos negros e furiosos.</p> + +<p>Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que +foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001680">H</a> </h2> + +<p><a href="#pg_154" name="nota_H" id="nota_H">P<small>AG. +154.</small></a>—«...<em>depois de ter descoberto a costa do Labrador</em>». +Quem primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito +michaelense, sr. Ernesto do Canto, no <em>Archivo dos Açores</em>,<a +class="pn" name="pg_246">{246}</a> vol. <small>XII</small>, pag. 529; e +confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo <em>Quem deu o nome á Terra +do Labrador</em>.</p> + +<p>Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que foi +extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo indefesso +investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito Rebello.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0001690">I</a> </h2> + +<p><a href="#pg_155" name="nota_I" id="nota_I">P<small>AG. +155.</small></a>—«... <em>a quem a patria não fez ainda a devida +justiça</em>». Em a<em> Noticia Preliminar</em>, que precede o +<em>Esmeraldo de situ Orbis</em>, publicação dirigida pelo douto academico sr. +Raphael Basto, para a commemoração do quarto centenario do descobrimento da +America, mostra o sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e +do Roteiro de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o +descobrimento da terra de <em>Vera Cruz</em>. Como temos, ha muito, esta +opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a cujas +investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a historia +portugueza.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00016100">J</a> </h2> + +<p><a href="#pg_155" name="nota_J" id="nota_J">P<small>AG. +155.</small></a>—«... <em>da geração e linhagem dos Machados</em>». É digno de +reparo que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha +materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que seus +maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente gravadas no seu +escudo.</p> + +<p>A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só pela +sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são accórdes todos +os nossos genealogistas.</p> + +<p>Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos, os +Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com os +Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos, os +Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de modo que +se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o sangue das duas +familias.</p> + +<p>A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem estes +mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos<a class="pn" +name="pg_247">{247}</a> os parentes d'aquelles procurariam contribuir, para +perpetuar o nome, que muito os distinguia aos olhos de seus conterraneos. E +tanto os Barcellos iam n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a +honrosissima carta, com que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os +serviços do navegador Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o +valor particular d'essa mercê.</p> + +<p>D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e aquelles +a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei pesaria a +circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a uma familia, que +tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto podia ser informado o +monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.</p> + +<p>De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II, que +Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D. Affonso, +primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar direito civil e +canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor <em>in utroque</em>. +Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande entendimento, summa +prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das lettras, e as suas muitas +virtudes e qualidades o fizeram conciliar os affectos de todos os principes do +seu tempo.</p> + +<p>Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de Bragança +se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão imparcial e +recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando regente, o chamou para +seu lado.</p> + +<p>Seu páe, Estevam Annes, <em>o Môço</em>, fôra educado na casa do condestavel +D. Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em todas +as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos Atoleiros.</p> + +<p>Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro Pinheiro de +Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o denomina a carta de D. +Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista Machado, que, renunciando o morgado e +casa de seus páes, entrou na Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em +22 de maio de 1617.</p> + +<p>O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o +antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt. D'este +e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel Borges do Canto, +era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto Bettencourt do Carvalhal +Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a uma intelligencia e a uma +illustração sãs, que se lhe serviram de ornamento proprio, tambem<a +class="pn" name="pg_248">{248}</a> contribuiram, para honrar mais ainda a +sua estirpe nobilissima.—Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de meus +filhos.</p> + +<p>Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte de +D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza lhe deu, +não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os enthusiasmos. +</p> + +<p> </p> +</div> + + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot117" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Canc. Gen.</p> + +<p><a name="foot128" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Canc. Gen.</p> + +<p><a name="foot173" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Hist.</p> + +<p><a name="foot187" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Camões.</p> + +<p><a name="foot255" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Ruy de Pina.</p> + +<p><a name="foot275" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Ruy de Pina.</p> + +<p><a name="foot375" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Canc. ger.</p> + +<p><a name="foot401" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Misc., Garcia de +Rezende.</p> + +<p><a name="foot659" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Historico.</p> + +<p><a name="foot663" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Historico.</p> + +<p><a name="foot665" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Historico.</p> + +<p><a name="foot704" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Historico.</p> +</div> + + +<p> </p> +<p> </p> + +<div class="rodape"> +<h3>Notas de transcrição:</h3> + +<p>O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os +erros apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas +durante a transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram +corrigidos nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das +correcções aplicadas.</p> +</div> + + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Pero da Covilhan, by +Zeferino Norberto Gonçalves Brandão + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN *** + +***** This file should be named 32296-h.htm or 32296-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/2/9/32296/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> |
