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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:21 -0700
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+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Pero da Covilhan, por Zeferino Brandão</title>
+ <meta name="Author" content="Zeferino Norberto Gonçalves Brandão, 1842-1910">
+ <meta name="Publisher" content="Antiga Casa Bertrand--José Bastos">
+ <meta name="Date" content="1897">
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Pero da Covilhan, by Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Pero da Covilhan
+ Episodio Romantico do Seculo XV
+
+Author: Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+Release Date: May 8, 2010 [EBook #32296]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="fbox">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1897.</p>
+
+<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não considerámos necessário assinalá-los.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em; text-align: center;">Pero da Covilhan</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.1em;">QUARTO CENTENARIO<br>
+DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">P<small>ERO DA</small> C<small>OVILHAN</small></p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">(EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ZEPHYRINO BRANDÃO</p>
+
+<p><small>DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE
+MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA E DA S. G. L.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A<small>NTIGA </small>C<small>ASA</small> BERTRAND&mdash;JOSÉ BASTOS <br>
+LIVREIRO-EDITOR <br>
+<em>LISBOA&mdash;73, Rua Garrett, 75</em></p>
+
+<p>1897</p>
+</div>
+
+<p><a class="pn" name="pg_IV">{IV}</a></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+<p style="text-align: center;"><small>Typographia da Academia Real das Sciencias de
+Lisboa</small></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><a class="pn" name="pg_V">{V}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000100">CONVERSA PREAMBULAR</a> </h1>
+
+<p>Eu não sei bem o que venho aqui fazer.</p>
+
+<p>Não venho, de certo, apresentar Zeferino Brandão, pois eu proprio lhe fui
+apresentado, noviço em lettras, quando elle já era, na egreja litteraria,
+officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos sacerdotes maximos, com
+alguns dos quaes privava, de irmão a irmão.</p>
+
+<p>Com effeito,&mdash;e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, não
+devendo comtudo andar muito longe dos trinta,&mdash;foi na primeira casa que João de
+Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio quarto do poeta,
+que Zeferino Brandão e eu nos avistámos a vez primeira.<a class="pn"
+name="pg_VI">{VI}</a> Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu,
+cadete de lanceiros.</p>
+
+<p>Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um
+momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo, e que
+um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa dos hospedes,
+com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo, conquistando-me uma
+ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e deixando-me a mim proprio
+deslumbrado de taes versos serem meus. Coitados! Por onde andarão elles!</p>
+
+<p>Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender de
+então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu, que, sempre
+que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão bellas coisas a
+relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava ali; o Arriaga, que vinha
+todos os dias; o Anthero, que apparecia de quando em quando; o Simões Dias, o
+Candido de Figueiredo, o Guimarães Fonseca, o João Penha, a todo o momento
+falados, porém ausentes.</p>
+
+<p>Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer
+annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como<a class="pn"
+name="pg_VII">{VII}</a> disparate de marca maior, e como antecedente de
+pessimos effeitos. E tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima
+roupa:</p>
+
+<blockquote>
+ Com que então, cahiu na asneira <br>
+ De fazer na quinta feira, <br>
+ Vinte e seis annos! Que tolo! <br>
+ Ainda se os desfizesse... <br>
+ Mas fazel-os, não parece <br>
+ De quem tem muito miolo! </blockquote>
+
+<p>Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no anno
+anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no immediato. E por
+isso João de Deus accrescentava:</p>
+
+<blockquote>
+ Não sei quem foi que me disse, <br>
+ Que fez a mesma tolice <br>
+ Aqui o anno passado... <br>
+ Agora o que vem, apósto, <br>
+ Como lhe tomou o gosto, <br>
+ Que faz o mesmo? Coitado! <br>
+   <br>
+ Não faça tal; porque os annos <br>
+ Que nos trazem? Desenganos <br>
+ Que fazem a gente velho. <br>
+ Faça outra coisa; que em summa <br>
+ Não fazer coisa nenhuma, <br>
+ Tambem lhe não aconselho. </blockquote>
+
+<p>Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do poeta;
+não poude no emtanto<a class="pn" name="pg_VIII">{VIII}</a>
+satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez outras coisas, livros excellentes,
+por exemplo; mas accumulou, e foi tambem fazendo annos, com a maior moderação,
+o mais devagar que lhe foi possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os.
+Era o que João de Deus lhe tinha dito:</p>
+
+<blockquote>
+ Mas annos, não caia n'essa! <br>
+ Olhe que a gente começa <br>
+ Ás vezes por brincadeira, <br>
+ Mas depois, se se habitua, <br>
+ Já não tem vontade sua, <br>
+ E fal-os, queira ou não queira. </blockquote>
+
+<p>Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi da
+noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e alegre
+convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de então, e sabe-se
+quanto é ciosa e aristocrata a superioridade intellectual, que não desce nunca
+a nivelar-se com os mediocres, e que só anda hombro a hombro com os seus pares.
+</p>
+
+<p>Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e no
+tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou, áquellas de
+que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.<a class="pn"
+name="pg_IX">{IX}</a></p>
+
+<p>Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu
+<em>caloiro</em>.</p>
+
+<p>Portanto, toda e qualquer ideia de apresentação, ou de recommendação seria
+absurda.</p>
+
+<p>Mas Zeferino Brandão exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta excursão
+pelo mundo aventuroso da publicidade, não por medo d'ella, que o seu animo é
+seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a ponderar quanto valem
+baldões e glorias litterarias; mas verdadeiramente tão só, pois outra
+explicação lhe não posso dar, por mero capricho de artista.</p>
+
+<p>Dêmos, por conseguinte, o braço e vamos ambos de companhia, uma vez que esta
+lhe é agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.</p>
+
+<p>Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brandão apuramento selecto em
+um volume, a que deu por titulo <em>Paginas Intimas</em>, do qual depois fez
+segunda edição, mais aprimorada ainda, e tambem difficil já de encontrar nas
+livrarias. Não é vulgar que este caso succeda, e não é pequena honra, nem
+pequena satisfação para um auctor, e sobretudo para um poeta, poder referil-o.
+</p>
+
+<p>Os taes annos, que a gente se habitúa a fazer, e que depois cada qual faz,
+queira ou não queira, foram arredando o poeta das tentações da rima,<a
+class="pn" name="pg_X">{X}</a> sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia,
+que elle continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada
+em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas coloridas e
+illuminadas, quer na evocação ideal dos tempos volvidos, trazendo á tela do
+presente, memorias, personagens e feitos do passado.</p>
+
+<p>D'estas duas predilecções da sua mente, a um tempo assimiladora e imaginosa,
+são documento bastante os dois livros de valor, com que a sua bagagem
+litteraria se enriquece. Um d'elles, <em>Monumentos e lendas de Santarem</em>,
+é um verdadeiro padrão de sentimento, erguido ás recordações gloriosas d'essa
+forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de uma collecção de
+<em>Viagens</em>, que está reclamando, a brados, os seus successores, é uma
+soberba descripção da <em>Belgica</em> moderna.</p>
+
+<p>Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos
+descriptivos de uma excursão pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo da
+publicação, nos deixou no espirito uma grata lembrança.</p>
+
+<p>Compraz-se o escriptor, como se vê, e n'isto mesmo affirma intensamente o
+seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relação com o seu
+tempo, como na vida sonhadora a que<a class="pn" name="pg_XI">{XI}</a> o
+attraem os livros de outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de
+meridional mais á larga se expande.</p>
+
+<p>Ali, os monumentos de mais de uma raça, livros de pedra abertos á meditação
+dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na memoria dos povos
+que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como centro de attracção maior;
+depois, primacialmente, as soberanias e magnificencias da arte, legados
+inestimaveis que as gerações foram transmittindo, e nos quaes vae encontrar as
+mais altas suggestões artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o
+gosto moderno.</p>
+
+<p>Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes, tambem, só
+por si, dão medida do bom equilibrio e da alta cultura de quem os escolhe e
+professa.</p>
+
+<p>Não são diversos os predicados do novo livro, que me encontro prefaciando. O
+auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de Pero da Covilhã, a
+qual apparece na historia, um pouco esbatida, tão sómente pela exuberancia de
+luz com que se illuminam os quadros dos descobrimentos e conquistas
+subsequentes, que elle em tamanha parte preparou.</p>
+
+<p>Essa figura, porém, tem contornos bem definidos,<a class="pn"
+name="pg_XII">{XII}</a> e Pero da Covilhã é, na epopêa dos Gamas e dos
+Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um inolvidavel predecessor.</p>
+
+<p>Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel para o
+seu proposito; mas de tal fórma se cinge ás linhas da realidade, que a figura
+se destaca viva, deante de nós, como realmente foi, e o leitor mal póde
+discernir onde começa e acaba a ficção, e onde prevalece o rigor historico.</p>
+
+<p>Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brandão, uma vez que a vida
+aventurosa do seu personagem dá que farte para todas as exigencias da concepção
+romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginação.</p>
+
+<p>O scenario em que elle expande a sua actividade, tão ousada e tão original,
+mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades não eram de extranheza,
+apparece-nos restabelecido, por tão singular poder de evocação, que nos
+sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto e a alma cheia de
+interesse, como se nós mesmos pertencessemos á época em que toda a acção do
+livro, muito mais historia do que romance, amplamente se desenrola.</p>
+
+<p>Vêmos, logo no começo, a Sevilha do seculo decimo<a class="pn"
+name="pg_XIII">{XIII}</a> quinto, e o viver luxuoso das grandes casas de
+Hespanha, onde em muitas das quaes a cadeira senhorial ousava defrontar-se em
+orgulhos e pretenções com os thronos dos reis; e no solar magestoso dos
+Medina-Sidonia, vamos encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido
+d'ali a terras de Portugal, por cá se deixou ficar a pedido de Affonso V,
+servindo com o seu coração, que já era de portuguez, a patria de seus paes,
+assim restituida a elle proprio.</p>
+
+<p>Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro, é acompanhado pelo auctor e pelo
+leitor, primeiro na sua missão e officio de personagem da côrte e do séquito
+real, durante o ultimo quartel de vida, tão agitado e tão pouco feliz, do rei,
+que em Portugal o havia detido e que sempre lhe dispensou o seu favor; depois,
+em toda a sua peregrinação ao Oriente, na demanda das terras do Preste, até dar
+fundo na Abyssinia, onde para sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um
+captiveiro perpetuo, que não deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o
+houvessem tecido com laços de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e
+das honras, agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do
+amor.</p>
+
+<p>O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica<a class="pn"
+name="pg_XIV">{XIV}</a> fundamental, d'onde veiu por fim a ser gerada esta
+successão esplendida de quadros historicos, passa-se na intimidade dos corações
+e das consciencias d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas
+para os quaes a mais viva aspiração da alma foi um sonho que jámais se
+realisou. Não se póde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais
+pericia, atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias
+physicas do homem são postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a
+agudissima sensibilidade do coração.</p>
+
+<p>Parece-nos até, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro
+reside no contraste a que damos relêvo agora. Os que tenham pensado encontrar
+n'elle uma obra de completa ficção, podem talvez ficar desapontados ante o
+predominio que ali assumem a exactidão, a abundancia, a veracidade historica.
+Mas a conducção do fio ideal e subtilissimo, de uma pura e platonica paixão
+amorosa, accendida nos mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o
+decurso da vida com os oleos da religião e da cavallaria, com os incitamentos
+do dever e da honra, a habil e engenhosissima conducção d'esse fio, repetimos,
+com a qual o auctor parece nada se preoccupar sem<a class="pn"
+name="pg_XV">{XV}</a> que todavia um momento a descure, é uma das maiores
+provas que Zeferino Brandão nos podia dar, de quão delicado é o seu
+temperamento artistico, de quão profundo é o seu sentimento poetico, de quão
+esmerado é o seu fino gosto.</p>
+
+<p>E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os meritos
+da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se não reparasse em qual deve
+ser já a sua impaciencia, e em como é tempo de os deixar a sós com o dono da
+casa, do qual sabem já que teem a esperar uma recepção de primôr.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>     26 de fevereiro de 1897.</p>
+
+<p style="text-align: right;">F<small>ERNANDES </small>C<small>OSTA.</small>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p><a class="pn" name="pg_XVI">{XVI}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_XVII">{XVII}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000200"><em>ADVERTENCIA</em></a> </h1>
+
+<p>O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um
+pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma e pura,
+como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de lodaçaes, d'essas
+miserias, que são a mais viva chaga social de todos os tempos, o terrivel
+problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.</p>
+
+<p>Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por
+impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no incidente da
+successão á corôa de Castella.<a class="pn"
+name="pg_XVIII">{XVIII}</a></p>
+
+<p>Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.</p>
+
+<p>A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na
+formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
+descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira lamentavel em
+ambos os casos.</p>
+
+<p>No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
+houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios. D'estes não
+cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca estiveram, os meus
+dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido eterno da palavra, antes de
+o serem no sentido historico.</p>
+
+<p>&mdash;E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
+tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á qual
+subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha phantasia?
+</p>
+
+<p>Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
+hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,<a class="pn"
+name="pg_XIX">{XIX}</a> porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar
+as tintas modernas, e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.</p>
+
+<p>Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do descobrimento
+do caminho maritimo da India.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Zephyrino Brandão</em></p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_XX">{XX}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_1">{1}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000300">I</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000310"><em>DESPEDIDA</em></a> </h2>
+
+<p>O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam por
+lá os nossos visinhos, que <em>não vio maravilha</em>.</p>
+
+<p>Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr
+no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir
+do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos
+materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.</p>
+
+<p>O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo
+<small>XV</small>, em um dia calmoso do estio.</p>
+
+<p>Abrasa tanto calor!...</p>
+
+<p>Em breve zombaremos d'elle.</p>
+
+<p>Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de
+jardins e fontes,<a class="pn" name="pg_2">{2}</a> no intuito de
+refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e até no interior dos proprios
+edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem
+fielmente os costumes de seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma
+d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.</p>
+
+<p>Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
+planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.</p>
+
+<p>Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle
+se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com
+grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre
+caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só
+por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por
+facilitar assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria
+fabril dos sevilhanos;&mdash;o que torna riquissima de população e haveres a formosa
+metropole andaluza.</p>
+
+<p>Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do
+Ouro.</p>
+
+<p>Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a
+estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a
+<em>grande</em>, como á de Toledo a <em>rica</em>, á de Salamanca a
+<em>forte</em> e á de Leão a <em>bella</em>.<a class="pn"
+name="pg_3">{3}</a></p>
+
+<p>Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa,
+que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com
+variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o
+mais notavel monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo
+celebre alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a
+invenção da algebra.</p>
+
+<p>&mdash;Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe
+ainda o <em>Giraldillo</em>, e por isso a torre não é conhecida pelo nome de
+<em>Giralda</em>.</p>
+
+<p>Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com
+palacios realengos.</p>
+
+<p>As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
+graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som
+das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; <a
+href="#nota_A">de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</a>
+por tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a reflectir a
+luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.</p>
+
+<p>O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que
+não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é
+patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama
+patrioticamente:<a class="pn" name="pg_4">{4}</a></p>
+
+<blockquote>
+ «Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas <br>
+ Para el Cielo crió tantos tesoros, <br>
+ Cuantas el ancho mar esconde arenas, <br>
+ Cuantas estrellas los celestes coros!» </blockquote>
+
+<p>Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
+algo peccadora...</p>
+
+<p>A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam
+frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu
+serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias.
+</p>
+
+<p>Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças
+centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos
+legados em seus testamentos.</p>
+
+<p>Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como
+tambem o tratam.</p>
+
+<p>Entremos no seu palacio.</p>
+
+<p>Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior uma
+riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a influencia
+exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde considerar-se uma vivenda
+semi-oriental, como todas as do estylo <em>mudejar</em>, a que pertence, para a
+construcção das quaes as duas artes, christã e mahometana, se dão as mãos com
+tal engenho, que se harmonisam perfeitamente os dois elementos de manifestações
+tão diversas.</p>
+
+<p>&mdash;Como sabido anda, os arabes que ficaram<a class="pn"
+name="pg_5">{5}</a> com os christãos, depois de certos tratados, em virtude
+dos quaes se lhes permittia conservar suas leis, religião e costumes,
+chamavam-se <em>mudejares</em>, e nas edificações, em que eram empregados,
+imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que os da sua raça haviam
+conquistado, especialmente da Persia.</p>
+
+<p>Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o
+estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das quaes
+demoram as habitações.</p>
+
+<p>A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes d'ella
+recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus desenhos
+primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento acha-se coberto com
+uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No tecto, o elemento decorativo
+predominante são estalactites e laçarias, tudo realçado com applicação de côres
+e douraduras.</p>
+
+<p>Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
+imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás suas
+tradições gloriosas.</p>
+
+<p>Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e
+estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia. Uma
+riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés d'esta
+cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum extrangeiro<a
+class="pn" name="pg_6">{6}</a> de distincção, que o visita, e a quem elle
+offerece esse lugar de honra.</p>
+
+<p>Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
+representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos, batalhas,
+torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos, imitando persas,
+guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de mosaicos esmaltados. Os
+tectos, estucados e pintados, com imitações mais ou menos exactas da flora.
+Alguns pavimentos, alcatifados.</p>
+
+<p>Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
+escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da pintura
+sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes fundára a sua escola.
+As paredes e tectos da ante-camara, armados e toldados de riquissimos lambeis.
+Os móveis, de páu-santo, primorosamente entalhados e forrados de brocado e
+ouro.</p>
+
+<p>Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero manda
+executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a perfeita
+intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma credencia com tres
+compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim e rendas de Flandres,
+repousam varios objectos de uso senhoril, uns de ouro, outros de prata e
+crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano, coberto com um bancal de velludo,
+tendo ao meio bordadas<a class="pn" name="pg_7">{7}</a> as armas da
+duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados de
+prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e castiçaes de
+ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas proclamam a sua
+candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de onyx exhalam a sua
+fragancia suavissima.</p>
+
+<p>As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,
+despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas, adargas, onde
+se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em fórma de meia lua,
+espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.</p>
+
+<p>Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem completamente
+as estreitas portas de alerse.</p>
+
+<p>O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar coroado
+por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla, titulo da familia
+Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas cadeiras ainda, lavradas
+com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e umas e outras com escabellos
+fixos ou moveis; almofadas de seda, sobrepostas duas a duas, e servindo de
+assento na sala de recepção da duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar,
+bancos longos e de espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de
+thezoura, bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
+dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de<a class="pn"
+name="pg_8">{8}</a> escrever, todas de madeiras preciosas e guarnecidas de
+prata, ferro ou bronze; relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira,
+outras de ferro. Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias
+orientaes, que lhe dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus
+bordados caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
+um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre que se
+vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas, outros vasos
+de prata lavrada, salvas e floreiras.</p>
+
+<p>Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D. Juan
+de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.</p>
+
+<p>Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as dez
+donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão um rosario e
+um livro de missa.</p>
+
+<p>Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
+Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com que na
+volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.</p>
+
+<p>Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças
+da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena
+côrte.</p>
+
+<p>Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas
+donzellas e de<a class="pn" name="pg_9">{9}</a> alguns fidalgos, dos mais
+apontados em garbos de cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de
+conversadores, passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia,
+recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.</p>
+
+<p>Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente
+algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão
+justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de <em>mãe dos pobres</em>.
+</p>
+
+<p>E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo
+principal do palacio.</p>
+
+<p>É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
+decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
+ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de
+ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro
+uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e
+os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.</p>
+
+<p>Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O
+sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande
+toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do
+tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:</p>
+
+<p>&mdash;Estais a despedir-vos das flores, Perico?...</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, se tornarei a vê-las!...&mdash;respondeo<a class="pn"
+name="pg_10">{10}</a> o pagem com pronunciado acento de tristeza.</p>
+
+<p>&mdash;Pois porque não haveis de voltar?...</p>
+
+<p>&mdash;Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...</p>
+
+<p>&mdash;Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando
+com presagios pelo caminho...</p>
+
+<p>As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
+companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á
+sua interlocutora:</p>
+
+<p>&mdash;Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na
+certeza de que ficaria bem guardado?</p>
+
+<p>&mdash;De mim!&mdash;exclamam todas a um tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Como elle não póde repartir-se,&mdash;ponderou o pagem&mdash;entrega-lo-hia a
+Beatriz.</p>
+
+<p>&mdash;Sois mui gentil, Perico!&mdash;tornou esta. Graças pela preferencia...</p>
+
+<p>&mdash;Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...</p>
+
+<p>&mdash;Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao
+som d'elle:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Con dos cuidados guerreo</em> <br>
+ <em>que me dan pena y sospiro;</em> <br>
+ <em>el uno quando no os veo,</em> <br>
+ <em>el otro quando vos miro.</em><a name="tex2html1"
+ href="#foot117"><sup>[1]</sup></a> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_11">{11}</a></p>
+
+<p>&mdash;Bellissimo, Perico!...&mdash;bradaram as donzellas com viva demonstração de
+alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Que gracioso sois!&mdash;accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
+esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento
+alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...&mdash;observou o pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
+jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste
+descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando
+regressardes, recitai-os, Perico!...</p>
+
+<p>&mdash;Careceis dos nossos rogos?...&mdash;atalharam as outras donzellas.</p>
+
+<p>Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de
+Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são
+poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes
+e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o
+reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo
+não havia perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.</p>
+
+<p>Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na
+lingua arabe, e<a class="pn" name="pg_12">{12}</a> sabem numerosas lendas
+d'este povo de poetas. Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a
+litteratura. Os romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de
+Hespanha, anteriores ao presente seculo <small>XV</small>, todos os cavalleiros
+d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez
+de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos é
+escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes esta
+maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a espada na mão do
+cavalleiro.»</p>
+
+<p>N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a
+familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.</p>
+
+<p>Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade,
+parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de
+graça, e exclama:</p>
+
+<p>&mdash;Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...</p>
+
+<p>Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao
+animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria
+inferior.</p>
+
+<p>O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude
+d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da
+galeria.</p>
+
+<p>Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
+olhar scintillante e<a class="pn" name="pg_13">{13}</a> modos altaneiros,
+em que se traduz o seu orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do
+infortunio, tem feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona,
+ora narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A
+famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar ginetes,
+para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos Guzman, apesar do
+seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos estavam arreados, e
+promptos a enfrear á primeira voz.</p>
+
+<p>São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que
+lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida
+momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil
+cavallos».</p>
+
+<p>Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do
+palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D.
+Juan de Guzman.</p>
+
+<p>Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
+qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que
+o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos
+trovadores da sua côrte.</p>
+
+<p>Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas
+e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros,<a class="pn"
+name="pg_14">{14}</a> encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha
+ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam alcançado
+licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui passar a Santiago
+de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar os caminhos de Hespanha
+ora tão infestados de bandidos e salteadores.</p>
+
+<p>As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima
+nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam
+distinguir um só d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez.
+Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.</p>
+
+<p>&mdash;E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?...
+Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de
+entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte
+teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia
+da memoria os venturosos dias de Sevilha?...</p>
+
+<p>Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas
+com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.</p>
+
+<p>Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos
+costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia,<a
+class="pn" name="pg_15">{15}</a> não auctoriza a procurar mysterios no que
+tão natural se apresenta.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de
+experimentados escudeiros?</p>
+
+<p>&mdash;É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que
+monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos
+joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.</p>
+
+<p>Ditosa mocidade!...</p>
+
+<p>Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
+exercer o galante ministerio de <em>juiza</em> em alguma <em>côrte de
+amor</em>.</p>
+
+<p>E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da
+sanfona:</p>
+
+<blockquote>
+ «Rosa fresca, rosa fresca, <br>
+ tan garrida y con amor; <br>
+ quando vos tuve em mis braços, <br>
+ no vos supe servir, no, <br>
+ y agora que os serviria <br>
+ no vos puedo aver no.<a name="tex2html2" href="#foot128"><sup>[2]</sup></a>
+ <br>
+ ............................ <br>
+ ............................ </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_16">{16}</a><br><a class="pn"
+name="pg_17">{17}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000400">II</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000410"><em>CONSPIRAÇÃO</em></a> </h2>
+
+<p>Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde
+poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para
+melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.</p>
+
+<p>Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal
+D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma
+menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo,
+pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D.
+Isabel, irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco
+depois, reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a
+recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra
+o juramento.<a class="pn" name="pg_18">{18}</a></p>
+
+<p>Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem
+da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente
+agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no
+serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de
+cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam
+reconhecer-lhe meritos para tanto.</p>
+
+<p>Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;&mdash;o
+verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e
+divertindo-se.</p>
+
+<p>D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
+Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este,
+por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia
+empenhado por avultada somma de dinheiro.</p>
+
+<p>Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei
+usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.</p>
+
+<p>O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
+como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça
+tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.</p>
+
+<p>No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e
+seus sequazes,<a class="pn" name="pg_19">{19}</a> para uma reunião
+secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.</p>
+
+<p>Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:</p>
+
+<p>&mdash;É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.</p>
+
+<p>&mdash;Não se me afigura empresa difficil...&mdash;acudio em tom pausado e sisudo o
+arcebispo de Toledo.</p>
+
+<p>&mdash;Convenho;&mdash;replicou Vilhena&mdash;mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e
+tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;E a nós,&mdash;atalhou, recachando-se, o prelado toledano&mdash;embóra inferiores na
+quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que
+luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, esse...&mdash;condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
+execução de ninguem confiava.&mdash;Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de
+Aragão.</p>
+
+<p>&mdash;Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas
+palavras: invistamos contra a honra da rainha!</p>
+
+<p>Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade
+media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para
+menear o cajado pacifico do apostolo.</p>
+
+<p>O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor,
+e, occultando cautelosamente<a class="pn" name="pg_20">{20}</a> o
+assombro, que lhe produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:</p>
+
+<p>&mdash;Como?...</p>
+
+<p>&mdash;Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la
+Cueva&mdash;respondeo serenamente o arcebispo.</p>
+
+<p>&mdash;E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o
+facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se
+com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos
+é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na
+sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid,
+sem evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do
+rei, e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações
+perante tal mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...</p>
+
+<p>&mdash;E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem
+acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o
+vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados,
+e até as avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha
+defensa possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a
+mostrar-se em publico, sem correr o risco de ser apupado...</p>
+
+<p>&mdash;N'essas circumstancias deixará a infanta de<a class="pn"
+name="pg_21">{21}</a> ser a herdeira presumptiva da corôa...&mdash;contestou
+pausadamente o marquez.</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida!&mdash;atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
+marquez de Vilhena certo ar de indecisão.</p>
+
+<p>&mdash;Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...</p>
+
+<p>&mdash;Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!&mdash;exclamou o
+arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo,
+accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de
+Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a
+côrte aragoneza...</p>
+
+<p>&mdash;É habil esse lance!...&mdash;ponderou o arcebispo&mdash;Comtudo não vos esqueçais do
+arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;Seguramente...</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, que nos comprehendemos...</p>
+
+<p>&mdash;Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
+restaurar...</p>
+
+<p>&mdash;O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e
+apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...&mdash;concluio o arcebispo, sorrindo
+ironicamente.</p>
+
+<p>&mdash;É uma creança que substitue outra...&mdash;observou Vilhena.</p>
+
+<p>&mdash;É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança,<a class="pn"
+name="pg_22">{22}</a> e D. Affonso hade obedecer ás nossas inspirações...</p>
+
+<p>Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não
+confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e
+audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia
+consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a
+victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem
+d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com
+elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de
+uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!</p>
+
+<p>O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão
+mostrando elles para gloria sua.</p>
+
+<p>Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão,
+assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe
+servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a
+sua intimidade com o conde de Ledesma.</p>
+
+<p>Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o
+nome de <em>Beltraneja</em>, posto por elles á innocente infanta, e perfida
+injuria disparada ao pundonor de sua mãe.</p>
+
+<p>Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
+baixeza, de propalar<a class="pn" name="pg_23">{23}</a> em tamanha
+infamia aquelles, que se diziam <em>grandes de Castella</em>!</p>
+
+<p>Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
+saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe
+propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido
+monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto
+a sua victima, que passou logo para o bando dos descontentes!</p>
+
+<p>Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
+apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa.
+Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a
+camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes
+ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.</p>
+
+<p>De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam,
+com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar
+por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não
+era sua filha bem o sabiam elle e o conde!</p>
+
+<p>O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
+perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
+accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por
+que tanto suspirava o marquez de Vilhena.<a class="pn"
+name="pg_24">{24}</a></p>
+
+<p>Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez
+que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno,
+entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se
+considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D.
+Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.</p>
+
+<p>Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram
+em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual
+collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de
+sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em
+seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o
+sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de
+Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a
+pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!</p>
+
+<p>O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram
+a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.</p>
+
+<p>Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
+instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!</p>
+
+<p>Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado
+profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia<a
+class="pn" name="pg_25">{25}</a> de Henrique IV, que era o desespero dos
+bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os
+conjurados.</p>
+
+<p>Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
+grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica,
+feita á princeza D. Joanna em Saragoça.</p>
+
+<p>Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
+mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo
+lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o
+sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que
+fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a
+responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.</p>
+
+<p>O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da
+velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;&mdash;o que
+significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por
+traidores.</p>
+
+<p>Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
+negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se
+ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que
+Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de
+armas por cinco mezes, dando<a class="pn" name="pg_26">{26}</a> azo a
+despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as povoações, <a
+href="#nota_B">a ponto de provocar a fundação das <em>Hermandades</em></a>,
+para perseguir os malfeitores.</p>
+
+<p>Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente
+comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados,
+cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.</p>
+
+<p>O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
+serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse
+com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz
+Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de
+Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr
+tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.</p>
+
+<p>A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer
+esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.</p>
+
+<p>O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e
+senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando
+de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo,
+principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que
+appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada,<a
+class="pn" name="pg_27">{27}</a> participando-lhe, que tinham acclamado o
+infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em vez de
+attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle os castigos
+eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava todas as classes á
+desobediencia.</p>
+
+<p>D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
+conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não
+poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse...
+Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com
+D. Joanna, a quem chamou <em>supposta</em> filha do monarcha.</p>
+
+<p>Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã
+não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da
+rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente
+infanta, sua filha.</p>
+
+<p>Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
+legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo
+quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia
+recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel
+desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.</p>
+
+<p>Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para
+D. Isabel.<a class="pn" name="pg_28">{28}</a></p>
+
+<p>O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto
+D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena
+oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo
+engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace
+d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas
+discordias, surgiam logo outras.</p>
+
+<p>Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa
+sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo
+elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete
+em suas mãos.</p>
+
+<p>Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
+previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso,
+porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo
+illustre uma pagina indecorosa.</p>
+
+<p>O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova
+campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de
+Castella.</p>
+
+<p>Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim
+de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e
+depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com
+quem fosse,<a class="pn" name="pg_29">{29}</a> antes de elle regressar. A
+infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
+intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei de
+Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante certas
+condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella encarregára a
+negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as consideravam
+os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio realisou-se. Correo
+logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a dispensa pontificia, tão
+reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos,
+nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á
+verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o breve
+indispensavel.</p>
+
+<p>Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição,
+na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se
+effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu
+rei, por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa
+união. Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em
+que lhe communicava a sua mudança de estado.</p>
+
+<p>Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!</p>
+
+<p>O desforço de Henrique IV consistio em reunir<a class="pn"
+name="pg_30">{30}</a> um simulacro de côrtes no valle de Lozoya, onde,
+perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era irrito e nullo
+o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D. Isabel por
+herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha, pois lhe
+fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima filha.
+Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por
+procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades,
+que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
+assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que por
+meio de poderes especiaes havia empenhado.</p>
+
+<p>Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V,
+a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de
+Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de
+Vilhena do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique
+IV entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão,
+filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador
+de Castella.</p>
+
+<p>Começou o anno de 1474.</p>
+
+<p>Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera,
+teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar<a class="pn"
+name="pg_31">{31}</a> com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural
+bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para
+apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto IV,
+sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que desejasse, por
+isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a ponto de lograr
+induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova publica de
+affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao alcaçar.
+Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã e
+cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em braços
+para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias, para que
+declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O
+marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
+Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
+sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo
+contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um pêso,
+de que não podia alliviar-se.</p>
+
+<p>Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que
+falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes
+antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D.
+Diogo,<a class="pn" name="pg_32">{32}</a> que assistio com o cardeal
+Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo,
+aos ultimos momentos do rei em Madrid.</p>
+
+<p>Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
+moribundo, perguntou a este o cardeal:</p>
+
+<p>&mdash;V. A. deixa testamento?</p>
+
+<p>&mdash;Deixo&mdash;respondeo Henrique IV.&mdash;O meu secretario Juan de Oviedo o
+apresentará.</p>
+
+<p>&mdash;E quem são os vossos testamenteiros?&mdash;continuou o cardeal.</p>
+
+<p>&mdash;Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde
+de Plasencia.</p>
+
+<p>&mdash;E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?&mdash;insistio ainda Mendoza.</p>
+
+<p>&mdash;A minha filha D. Joanna&mdash;replicou o monarcha serena e firmemente.</p>
+
+<p>Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda,
+em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas
+ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!</p>
+
+<p>Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar,
+em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne
+<em>Te-Deum</em>, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente
+foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu
+esposo e do rei defunto, sentou-se<a class="pn" name="pg_33">{33}</a>
+junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o
+alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
+Henrique.</p>
+
+<p>Parece um sarcasmo!</p>
+
+<p>Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a
+successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o
+direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os
+rebeldes.</p>
+
+<p><a href="#nota_C">Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
+historia.</a></p>
+
+<p>Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu
+criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que
+é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.</p>
+
+<p>O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
+desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa,
+com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.</p>
+
+<p>Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella;
+saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que
+no conceito de Camões,</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Fôra por certo invicto cavalleiro,</em> <br>
+ <em>Se não quizera ir ver a terra Iberica.</em> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_34">{34}</a><br><a class="pn"
+name="pg_35">{35}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000500">III</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000510"><em>NOVO ESCUDEIRO</em></a> </h2>
+
+<p>Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de D.
+Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de Aragão
+principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia afinal
+decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em circumstancias mui
+diversas.</p>
+
+<p>Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna era
+uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem a
+necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se operava a
+favor da justa causa da princeza de Castella.</p>
+
+<p>Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das hostilidades,
+de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe, ficou inteiramente á
+mercê da versatilidade caracteristica de<a class="pn"
+name="pg_36">{36}</a> seus parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de
+seus odios particulares, e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por
+zelo do bem publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V,
+para lhes saciar a cobiça.</p>
+
+<p>Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o
+testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D. Joanna
+sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão, pedindo outrosim
+a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e casasse com a sobrinha.
+</p>
+
+<p>Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos
+grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo respeito ás
+praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer conselho, que
+contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não só quantos e quaes
+eram os magnates castelhanos legitimistas, como de certificar-se da valia
+d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque, seu camareiro-mór, depois conde
+de Penamacor.</p>
+
+<p>A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido pelo
+monarcha.</p>
+
+<p>Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito com
+ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente pediam a
+lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato grandes e
+pequenos.<a class="pn" name="pg_37">{37}</a></p>
+
+<p>Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
+apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto entre
+ambos ficasse assentado.</p>
+
+<p>Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O reino
+sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de dissolução,
+caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de voss'alteza está o
+poder evita-la.</p>
+
+<p>&mdash;São esses os meus desejos;&mdash;replicou D. Affonso&mdash;mas, como sabeis, a
+empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que se
+propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.</p>
+
+<p>&mdash;Da parte de meu irmão&mdash;tornou Guzman&mdash;venho eu prestar homenagem a
+voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar, tomar e
+reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se desposar com a
+senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do governo de Castella.</p>
+
+<p>&mdash;O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como procede,
+offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.</p>
+
+<p>&mdash;Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a
+gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.<a
+class="pn" name="pg_38">{38}</a></p>
+
+<p>&mdash;Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!</p>
+
+<p>D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados ademanes
+de cavalleiro:</p>
+
+<p>&mdash;Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que desde
+já põe ao serviço de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;É contingente valioso esse&mdash;observou D. Affonso.</p>
+
+<p>A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser
+definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da
+resposta de meu irmão.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D.
+Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois desejava
+enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que poderiamos entrar
+em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.</p>
+
+<p>&mdash;E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este
+numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella, pois
+muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão immediatamente.
+</p>
+
+<p>D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de ter já
+por si em Castella<a class="pn" name="pg_39">{39}</a> tão importantes
+forças; e com a sua habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais
+briosos certamente.</p>
+
+<p>&mdash;Mercê por elles, meu Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito gostará
+de conversar comvosco.</p>
+
+<p>É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra,
+sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe acceitar o
+papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.</p>
+
+<p>D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o tempo
+sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o pagem, que
+viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo sevilhano, o qual,
+mais talvez por alardear philaucias de familia, do que por enaltecer as
+qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu em resumo: que da Covilhan
+costumava ir a Sevilha o páe do pagem commerciar e conquistára grandes
+creditos. Tendo afinal estabelecido a sua residencia n'aquella cidade, onde era
+geralmente estimado, accedeu ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia,
+de deixar-lhe educar o filho, então muito creança ainda, mas dotado já de
+singular viveza. Como fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o
+pagem inteiramente confiado ao amparo<a class="pn" name="pg_40">{40}</a>
+do duque. Possuia prendas muito estimaveis, poderia em breve ser um excellente
+cavalleiro, e chamava-se Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.</p>
+
+<p>Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite de
+terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia reconhecido isso na
+maneira como lhe fallavam d'elle.</p>
+
+<p>Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:
+</p>
+
+<p>&mdash;Quereis ser pagem do rei de Portugal?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo quanto sou&mdash;respondeu Pero&mdash;devo ao senhor duque, por isso não tenho
+animo de separar-me d'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava essa resposta;&mdash;volveu Guzman&mdash;mas se eu vos pedir, que fiqueis?
+</p>
+
+<p>&mdash;Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom Perico!&mdash;exclamou affectuosamente Guzman.&mdash;Muito me custa
+deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de
+Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por
+isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito.
+</p>
+
+<p>No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V
+dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro,
+servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte
+annos.<a class="pn" name="pg_41">{41}</a></p>
+
+<p>O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz
+XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa
+D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava
+convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear,
+que na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o
+retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente
+em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna.
+Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de
+ambos os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a
+ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França.
+</p>
+
+<p>Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI,
+que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe
+capaz de manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino
+com a França; mas contra todos em geral e sem excepção.</p>
+
+<p>N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da
+Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse
+comprehendido no tractado a celebrar com Castella.</p>
+
+<p>De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz
+XI; o que determinou<a class="pn" name="pg_42">{42}</a> este a promulgar
+uma carta patente sobre o soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire
+d'Albret commandante de um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.
+</p>
+
+<p>Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu
+parecer&mdash;que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro&mdash;ácerca da
+entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em
+marcha, conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;Insistis na vossa opinião?&mdash;perguntou o monarcha ao duque de Bragança.</p>
+
+<p>&mdash;Certamente, meu Senhor&mdash;respondeu o duque.</p>
+
+<p>&mdash;Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que por
+Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?</p>
+
+<p>&mdash;Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses
+mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa sobrinha, são
+os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural, depondo-o do governo do
+reino.</p>
+
+<p>&mdash;Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que assiste
+a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus anteriores
+desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim grandes mercês?</p>
+
+<p>&mdash;O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende unicamente da
+sua ambição, e<a class="pn" name="pg_43">{43}</a> vem acompanhada de mais
+interesse, do que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas
+começar a ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa
+bandeira.</p>
+
+<p>&mdash;Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora descabida.
+Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a grandes perigos,
+offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se duvidassem do seu e meu
+triumpho?!</p>
+
+<p>&mdash;De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis. Mas
+superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e prudentes, tendo ao
+seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel por sua rainha. E uma
+acclamação, como esta, é vantagem muito grande no começo dos reinados, servindo
+até de justificar as pretensões mais duvidosas.</p>
+
+<p>&mdash;Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto não
+só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com outros tantos
+castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade engrossarão o meu
+exercito.</p>
+
+<p>&mdash;E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como em
+armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha decerto; e
+até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da Secilia, o rei de
+Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, estão os meus adversarios bem aparentados;<a class="pn"
+name="pg_44">{44}</a> mas não os temo apesar d'isso, e eu tambem <em>não
+nasci das pedras</em>.<a name="tex2html3" href="#foot173"><sup>[3]</sup></a>
+Conto igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, <em>que é
+mais fiel que todos os parentes e amigos</em>, e tenho sobretudo a Deus em meu
+auxilio.</p>
+
+<p>&mdash;Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti,
+porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha
+de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a
+paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não
+olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir
+fallar do casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora,
+obriga o mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a
+murmurar e attribuir esta guerra a algum odio reservado...</p>
+
+<p>&mdash;Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.</p>
+
+<p>&mdash;Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para
+ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de
+voss'alteza e a minha, se necessario for.</p>
+
+<p>A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de
+Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D.
+Isabel, proxima parenta do duque;<a class="pn" name="pg_45">{45}</a>
+suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão
+fatal á casa de Bragança.</p>
+
+<p>D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de
+que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse
+o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e
+unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos
+portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os
+principes contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores,
+especie de péste endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda
+remedio.</p>
+
+<p>O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os
+successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia,
+do que lisonjear um principe.</p>
+
+<p>Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho
+primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas
+grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem
+que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei,
+consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos
+principes do partido contrario.</p>
+
+<p>Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo
+alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns<a
+class="pn" name="pg_46">{46}</a> dos quaes consumiam seus patrimonios e
+forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o
+influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal,
+havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais acendraram a
+fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de que era
+singularmente dotado.</p>
+
+<p>A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela
+Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados
+pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra
+do solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de
+reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e
+desamparada?</p>
+
+<p>E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?</p>
+
+<p>Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os codices da
+preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, em
+um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito instructiva:</p>
+
+<p>«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento
+delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com a
+Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a Castella o
+Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje<a class="pn"
+name="pg_47">{47}</a> he Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em
+corte de Roma privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e
+asi outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o mesmo
+caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de Cecilia e Principe
+d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que primeiro foi Rei de Navarra, o
+qual casamento fez por mão do Arcebispo de Tolledo dom Affonso Carillo, e do
+Almirante avoo do dito Rei da parte de sua mãi, e fique em memoria que o fez
+porque o dito Senhor Rei Dom Affonso <em>a não quiz, querendo ella muito</em>,
+e depois elle a quisera e ella como as molheres naturalmente sam vingativas o
+não quiz quando elle quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar,
+como na verdade foi, <em>ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com
+o titolo de sua sobrinha</em>, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á
+Rainha Dona Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada
+sobcederão fique do Coronista ao carguo.»</p>
+
+<p>Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como
+vimos, a mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que <a
+href="#nota_D">o principe D. João casasse com a princeza de Castella, D.
+Joanna</a>. D. Affonso dilatou a sua resolução, e sómente quando muito instado
+por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do marquez de
+Vilhena, mandou uma embaixada<a class="pn" name="pg_48">{48}</a> pedir a
+infanta. Os embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
+afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios brandos de
+reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de Toledo cuidou
+immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo em relêvo a dilação
+descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que preferisse Fernando de Aragão, e
+entendeu, que, para frustrar as idéas dos adversarios, devia fazer secretamente
+os preparativos, precipitar os tramites do negocio, e de um modo ou outro
+verificar o matrimonio, para que, realizado e consumado, não désse lugar ao
+<em>arrependimento da princeza</em>. E maior préssa se deu ainda, quando soube,
+que de Roma havia sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de
+1469, concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então um breve
+apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio II,
+pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento da
+consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o sigillo e
+realizar o negocio com promptidão.</p>
+
+<p>O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e commetter
+torpezas.<a class="pn" name="pg_49">{49}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000600">IV</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000610"><em>JORNADA INFELIZ</em></a> </h2>
+
+<p>Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde
+mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o
+<em>Regimento de Guerra</em>, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
+de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a hoste
+assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a bandeira real
+mettida na funda.</p>
+
+<p>Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475, D.
+Affonso V</p>
+
+<blockquote>
+ ...................«tocado de ambição <br>
+ E gloria de mandar amara e bella, <br>
+ Sai cometter Fernando de Aragão, <br>
+ Sobre o potente reino de Castella.»<a name="tex2html4"
+ href="#foot187"><sup>[4]</sup></a> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_50">{50}</a></p>
+
+<p>Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva, Ruy
+Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram a Piedra
+Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e seiscentos
+cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V, que tomou então o
+supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o marechal, o ouvidor da
+hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos, cavalleiros e capitães, a quem
+recommendou obediencia em tudo aos quatro primeiros; verificou o numero da
+gente que havia, e deu as necessarias providencias no tocante á ordenança, que
+as tropas deviam conservar durante a marcha.</p>
+
+<p>Na frente saíu o <em>adail-mór</em> com um troço de ginetes, formando a
+guarda avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do
+arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da vanguarda
+real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a, o condestavel,
+cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava as alas a fina flor
+da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a rectaguarda não mediava mais
+de um tiro de bésta, a fim de poderem mutuamente soccorrer-se.</p>
+
+<p>Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na
+vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa
+dignidade estavam repartidas por D. João, marquez<a class="pn"
+name="pg_51">{51}</a> de Montemór, filho do duque de Bragança D. Fernando I,
+e por seu irmão o duque de Guimarães.</p>
+
+<p>A cavallaria compunha-se de <em>cavalleiros</em> e <em>escudeiros</em> de
+geração nobre; de <em>lanças</em>, que os senhores de terras tinham obrigação
+de dar, acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de
+<em>cavalleiros</em> da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a
+contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes sómente
+eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou rezenha das
+praças, que constituiam os corpos chamados bésteria, denominando-se
+<em>bésteiros do conto</em> tanto os de cavallo, como os de pé.</p>
+
+<p>Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou <em>á gineta</em>. Na
+primeira, o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda,
+os cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos curtos
+no apparelho do cavallo.</p>
+
+<p>A infanteria constava de <em>bésteiros</em>, <em>espingardeiros</em> e
+<em>piqueiros de pé</em>.</p>
+
+<p>Na bésteria differençavam-se os chamados de <em>polé</em>, por trazerem
+bésta, que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os <em>bésteiros da
+camara</em>, que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino;
+<em>bésteiros de garrucha</em>, mais abastados e considerados, que os de polé,
+armados com bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e
+solhas para arremessar virotões; <em>bésteiros</em><a class="pn"
+name="pg_52">{52}</a> <em>de fraldilha</em>, por levarem uma fralda de
+couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do inimigo; e
+<em>bésteiros do monte</em> ou caçadores.</p>
+
+<p>Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais, á
+medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi acolhida, durante
+muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria, que considerava cobardes
+similhantes armas, com especialidade as portateis. No reinado de D. João II
+apparece já o cargo de <em>anadél-mór</em> dos espingardeiros, concedido a Payo
+de Freitas, cavalleiro da casa real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua
+vez de extinguir em 1498 os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da
+camara, todos os cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando
+unicamente os bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e
+Algarve, com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como
+consta da carta de 29 de maio de 1499.</p>
+
+<p>A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a quem
+pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os alojamentos;
+executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do condestavel; e julgar as
+causas civeis e crimes das gentes de guerra, levando um ouvidor comsigo para
+esse fim.</p>
+
+<p>O <em>alféres-mór</em> levava a <em>signa</em> ou <em>bandeira</em>, a qual
+não estendia ou desenrolava sem especial<a class="pn"
+name="pg_53">{53}</a> determinação do rei, quando estivessem á vista do
+inimigo, e costumava ter um <em>alferes pequeno</em>, que o substituia. As
+bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o
+fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou
+insignias. No guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher
+D. Isabel, e consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida
+ao redor, e na legenda <em>Jámais</em>. Com oito ou dez pendões pequenos era
+balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.</p>
+
+<p>Havia um <em>aposentador-mór</em>, que de ante-mão preparava os quarteis das
+tropas, quando estas se mobilisavam. O <em>capitão de ginetes</em> era o
+general de cavallaria; o <em>adail-mór</em>, o capitão dos bésteiros; e o
+<em>coudel-mór</em> commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam
+a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por <em>coudeis</em>.
+</p>
+
+<p>Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros,
+commandados por um <em>guarda-mór</em>. Eram escolhidos, e andavam armados de
+cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz assistiam no paço
+junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava tambem da sua guarda
+o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de cavalleiros, que
+ficavam em tudo considerados como os da camara real.<a class="pn"
+name="pg_54">{54}</a></p>
+
+<p>Segundo prescrevia o <em>Regimento</em>, os soldados ou gente de guerra
+deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e
+tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas
+eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma
+Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos
+atabales.</p>
+
+<p>O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente
+conduzido. Estava a cargo de um <em>védor-mór</em>, aprompta-lo e pô-lo em
+marcha.</p>
+
+<p>Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um
+<em>regimento</em> proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450.
+Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que
+julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
+como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse
+necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus
+merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho.
+</p>
+
+<p>O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a
+Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer
+alto em Plasencia.</p>
+
+<p>D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D.
+Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o<a
+class="pn" name="pg_55">{55}</a> seu reconhecimento como rei de Castella, e,
+conforme os desejos do rei de França, renovar os antigos tractados, que
+existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de
+Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e
+Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem
+fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de Aragão.
+</p>
+
+<p>Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada
+dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e
+solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de
+Castella, Leão e Portugal.</p>
+
+<p>Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de
+Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros
+contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais
+afortunado fosse.</p>
+
+<p>D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se
+formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias
+de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas
+povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu
+antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza.
+Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros<a class="pn"
+name="pg_56">{56}</a> ao exercito, que seu marido commandava, para conter o
+progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de Leão. Entabolava as
+intelligencias, que lhe fizeram recobrar a importante cidade da Zamora. Reduzia
+o numero de inimigos, que tinha na depravada e cupida aristocracia. Lançava
+finalmente mão do thezouro de Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de
+Contrera, a quem mais tarde brindou com o Marquezado de Moya.</p>
+
+<p>Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de
+Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois,
+segundo Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da
+Secilia, e seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela
+Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no
+interior do reino, e fazia-se fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de
+Vilhena, que se mostrou descontente por não ser attendido, e tomou este
+pretexto para se retirar do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse
+magnate assim procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se
+declarado a maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que
+os corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a
+propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua mulher.</p>
+
+<p>Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se<a class="pn"
+name="pg_57">{57}</a> a miude as incursões de nossos visinhos. Até o
+primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais
+audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como se fosse em terras
+de mouros.</p>
+
+<p>Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois
+da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe
+prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.</p>
+
+<p>E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada
+de D. Juan de Guzman?</p>
+
+<p>&mdash;O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião.
+</p>
+
+<p>Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o
+principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados
+de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para
+avisarem das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas,
+a fim de embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre
+os arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos
+males, cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.</p>
+
+<p>Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio
+de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor,<a
+class="pn" name="pg_58">{58}</a> saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade
+com a rainha, a quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou
+por Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca do
+movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era chamado e
+levado para soccorrer.</p>
+
+<p>O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta
+empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos
+denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas,
+de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome,
+e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.</p>
+
+<p>Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em
+que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno
+em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre
+inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os
+seus homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu
+paiz: <em>que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na
+roca</em>.</p>
+
+<p>De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo,
+pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a
+caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que
+defendiam a ponte<a class="pn" name="pg_59">{59}</a> sobre o Douro, á
+entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou
+matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V
+a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do
+qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da guarda
+real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a nado, para
+se furtar á vigilancia do inimigo.</p>
+
+<p>Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude
+conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com
+a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os
+habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha
+foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.</p>
+
+<p>Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em
+quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho
+principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á
+força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella,
+para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se
+d'essa façanha, e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por
+um rei de armas desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então
+Fernando foi sitiar o<a class="pn" name="pg_60">{60}</a> castello de
+Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não havia
+esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de
+guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da
+fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por
+lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da
+cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida
+varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até
+fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma
+carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
+denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma
+costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.</p>
+
+<p>Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e
+D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha
+Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver
+grande desigualdade no penhor.</p>
+
+<p>D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já
+tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo
+certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo
+questão de igualdade das pessoas, era confessar que não queria<a class="pn"
+name="pg_61">{61}</a> o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a
+sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude
+conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.</p>
+
+<p>Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe
+D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e
+dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o
+seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a
+sua causa se tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o
+arcebispo de Toledo.</p>
+
+<p>Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio
+portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no
+coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.</p>
+
+<p>A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois
+da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e
+conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria
+necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade!
+</p>
+
+<p>D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.
+</p>
+
+<p>&mdash;Para que?</p>
+
+<p>Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde
+tremulava ainda a bandeira<a class="pn" name="pg_62">{62}</a> portugueza,
+pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar
+o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma
+superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e tendo
+cobertas todas as communicações importantes.</p>
+
+<p>Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de
+Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa
+Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante,
+approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o
+arraial.</p>
+
+<p>Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno
+alcance das bôcas de fogo, mas preceito do <em>Regimento de guerra</em>, para
+fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte estava
+enfiada pela nossa artilheria.</p>
+
+<p>Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o
+damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para
+concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador,
+de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue
+causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez
+mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua
+situação. O<a class="pn" name="pg_63">{63}</a> nosso, além de luctar com
+as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz extranho, tinha mais um
+inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo que as chuvas e neves o iam já
+desimando, começava a falta de viveres a fazer-se sentir. Consumia-se emfim
+inutilmente.</p>
+
+<p>Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que
+Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D.
+Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e
+foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque
+e a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido
+de Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de
+seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de
+Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que
+tomára seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.</p>
+
+<p>Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que
+começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos,
+a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda
+com algumas cargas ligeiras de cavallaria.</p>
+
+<p>Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas
+D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde<a
+class="pn" name="pg_64">{64}</a> lhe deram a nova, pois tão apertado era,
+marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais
+despejadamente.</p>
+
+<p>D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as
+suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto
+possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções.
+Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou
+a flor da cavallaria portugueza.</p>
+
+<p>Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
+capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, <em>vindo na reserva</em> Fernando de
+Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o cardeal
+Mendoza.</p>
+
+<p>Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
+rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois
+que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem
+finalmente de infanteria mais numerosa.</p>
+
+<p>Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma de
+infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e uniformidade de seus
+movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á cavallaria, olvidando-se a maxima
+dos antigos, prudentemente restaurada pela illustração militar dos nossos
+tempos, de que a infanteria é o agente principal do combate, ou, como<a
+class="pn" name="pg_65">{65}</a> poeticamente dizem alguns, a rainha das
+batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de nobreza valente e
+déstra, mas pouco subordinada, bem como dos contingentes tumultuarios das
+cidades, era incompativel com a disciplina e outros requisitos essenciaes da
+sua organisação. N'este encontro de Toro, comtudo, os castelhanos empregaram
+com proveito a sua infanteria ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora
+aguerrido, não soube mostrar-se disciplinado.</p>
+
+<p>Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois
+exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol têr-se
+posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva miuda e
+persistente.</p>
+
+<p>Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o
+convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do
+adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado pelas
+trombetas, fosse o primeiro a romper.</p>
+
+<p>Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, <em>por S. Jorge e S. Christovão</em>,
+invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza, clamando
+com os seus por <em>S. Thiago e S. Lazaro</em>.</p>
+
+<p>Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas
+obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora
+D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa
+cavallaria,<a class="pn" name="pg_66">{66}</a> como se fôra uma forte
+muralha de lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa,
+irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram
+quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos, com o
+principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais completa
+debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á carnificina, que
+em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito moral d'esse choque
+violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por isso Fernando de
+Aragão&mdash;um moço de vinte e seis annos!&mdash;que, para não expor a vida á
+contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa
+distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas
+de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a
+pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos
+cavalleiros, que correram sobre elle.</p>
+
+<p>Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei
+da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la
+embainhada, e lança-se no combate.</p>
+
+<p>Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria;
+rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com
+furia; retingem-se de sangue as<a class="pn" name="pg_67">{67}</a>
+espadas nos crébros golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha,
+alliviados do peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes;
+resoam, similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de
+dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e servindo
+antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida, desesperada, horrivel a
+refréga. Não cessa do ardor, com que começou de accender-se, e a victoria
+duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á do esforço.</p>
+
+<p>Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo
+em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo&mdash;o que
+para a nossa hoste era uma novidade&mdash;dão uma descarga, que fez hesitar um
+momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado
+aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo
+recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.</p>
+
+<p>Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no
+ultimo choque.</p>
+
+<p>D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás
+contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte
+ou a gloria o escopo unico d'aquelle</p>
+
+<blockquote>
+ «Que a suberba do barbaro fronteiro <br>
+ Tornou em baixa, e humillima miseria.» </blockquote>
+
+<p>Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias,<a class="pn"
+name="pg_68">{68}</a> mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que
+junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel,
+detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do
+denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais
+fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na
+bainha.</p>
+
+<p>Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos
+nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a
+Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada
+resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o
+inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de
+Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.</p>
+
+<p>Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das
+cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa
+quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança
+tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por
+isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um
+acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era
+dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe
+real fosse derrotado, tal era a confiança<a class="pn"
+name="pg_69">{69}</a> que depositava no valor de seu filho e no dos
+companheiros, que lhe deu.</p>
+
+<p>Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um
+porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou
+victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os
+prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de
+Aragão.</p>
+
+<p>Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava
+fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe,
+vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle
+ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a
+corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe,
+e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando <a href="#nota_E">a bandeira
+real, que por instantes tremulára na mão de um castelhano</a>.</p>
+
+<p>Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que
+tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram
+depois de uma lucta titanica.</p>
+
+<p>Singulares contrastes!</p>
+
+<p>Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,
+onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para
+immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de
+<em>Bandeira</em>; a<a class="pn" name="pg_70">{70}</a> outra, o cognome
+de <em>Decepado</em> a Duarte de Almeida.</p>
+
+<blockquote>
+ «Cercado por toda a parte <br>
+ Sua espada se partiu. <br>
+ Por guardar seu estandarte, <br>
+ D'arma o estandarte serviu: <br>
+ A dextra mão jaz por terra, <br>
+ O seu guante a não guardou; <br>
+ O pendão na sextra aferra, <br>
+ E a mão perdida vingou: <br>
+ Outro golpe lhe sepára <br>
+ A sextra mão que segura <br>
+ A bandeira, que jurára <br>
+ Conservar intacta e pura: <br>
+ Nem assim perde a bandeira, <br>
+ N'hastea dura os dentes crava, <br>
+ Quando lança traiçoeira <br>
+ Seu ginete lhe prostava: <br>
+ Cahe no chão o cavalleiro <br>
+ Sem vida, quasi expirando, <br>
+ E ficou prisioneiro <br>
+ D'illustre rey Dom Fernando. <br>
+ Mas a bandeira regada <br>
+ Pelo sangue portuguez, <br>
+ Por Goncal'Pires livrada <br>
+ Breve foi, logo outra vez.» </blockquote>
+
+<p>Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de
+Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga
+porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro
+resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas
+se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço
+tão desusado.<a class="pn" name="pg_71">{71}</a></p>
+
+<p>A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois <em>per força e
+como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a
+levava</em> (a bandeira), <em>e o prendeo sobre sua menagem</em>,<a
+name="tex2html5" href="#foot255"><sup>[5]</sup></a> abrindo a golpes de espada
+caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em
+direcção a Zamora.</p>
+
+<p>Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias,
+ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou
+accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.</p>
+
+<p>O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação.
+</p>
+
+<p>Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem
+mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas
+pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.</p>
+
+<p>&mdash;Cães de portuguezes!&mdash;grunhia um.&mdash;Por causa d'elles fizeram de nós
+morcêgos!...</p>
+
+<p>&mdash;Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de
+Malaga!&mdash;tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o
+cavallo á mão.</p>
+
+<p>&mdash;Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar&mdash;observou o outro,
+sem nenhuma<a class="pn" name="pg_72">{72}</a> curiosidade de saber, quem
+era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.</p>
+
+<p>&mdash;Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!&mdash;exclamou
+o cavalleiro.&mdash;Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a
+fazer?&mdash;perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o
+entendimento.</p>
+
+<p>&mdash;Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...</p>
+
+<p>&mdash;Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.
+</p>
+
+<p>&mdash;Fugiu, não direi... Retirou...</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo
+sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da
+<em>Beltraneja</em>, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois
+tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que
+levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, é o mais certo;&mdash;replicou em tom indifferente o cavalleiro.</p>
+
+<p>Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os
+biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a
+cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.</p>
+
+<p>Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se
+concentravam no acampamento<a class="pn" name="pg_73">{73}</a> sem
+apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com
+o exercito para Zamora.</p>
+
+<p>D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres
+dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de
+Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D.
+Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na
+marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.</p>
+
+<p>Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o
+interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que
+pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo
+Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar
+o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua
+liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Não merece&mdash;exclamou alto e bom som&mdash;o nome de cavalleiro, quem abandona o
+seu rei, e o não segue na vida ou na morte!</p>
+
+<p>E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?</p>
+
+<p>Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu
+Pero da Covilhan, e disse ao principe:<a class="pn" name="pg_74">{74}</a>
+</p>
+
+<p>&mdash;El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são
+está, por isso sejais tranquillo.</p>
+
+<p>&mdash;E onde está el-rei, nosso senhor?!...&mdash;perguntou com alvoroço o principe
+real.</p>
+
+<p>&mdash;Em Castro Nunho.</p>
+
+<p>&mdash;Quem nos trouxe tão bom recado?</p>
+
+<p>&mdash;El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.</p>
+
+<p>A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de
+trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria,
+feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para
+Castro Nunho uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de
+acompanharem D. Affonso V a Toro.</p>
+
+<p>Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei,
+pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe,
+havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que
+conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.</p>
+
+<p>Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:</p>
+
+<p>&mdash;Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?</p>
+
+<p>&mdash;Facilmente, meu senhor&mdash;respondeu Pero da Covilhan com a maior
+naturalidade.&mdash;Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em
+nosso campo não havia de el-rei novas, nem<a class="pn"
+name="pg_75">{75}</a> mandados. Ancioso de buscar sua alteza, era dominado
+por um triste presentimento. As trévas da noite, e a confusão que reinava no
+campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu
+tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os
+dialectos de Hespanha, e fui á ventura.</p>
+
+<p>&mdash;Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a
+vida&mdash;atalhou o principe.</p>
+
+<p>&mdash;Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava
+unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.&mdash;A poucos
+passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem
+do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do
+inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me
+naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um
+d'elles affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho.
+Corri logo a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já
+voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do
+acampamento sem licença de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se
+alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que
+pelejastes a meu lado.<a class="pn" name="pg_76">{76}</a></p>
+
+<p>&mdash;Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...</p>
+
+<p>Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da
+Covilhan, como veremos.</p>
+
+<p>O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada
+guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e
+o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra
+o occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no
+caminho de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão
+prodiga, não fosse para o seu competidor tão adversa.</p>
+
+<p>Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a
+morte.</p>
+
+<p>Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser
+instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação.
+Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do
+sangue derramado em Alfarrobeira.</p>
+
+<p>Justiça da Providencia!<a class="pn" name="pg_77">{77}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000700">V</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000710"><em>ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA</em></a> </h2>
+
+<p>Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos
+meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria
+empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João
+d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI.
+Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não
+fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França.
+Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com
+sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por
+maxima: <em>quem não sabe dissimular, não sabe reinar</em>; e que, por elle ser
+assás astucioso e perfido, lhe chamavam <em>a raposa</em>.</p>
+
+<p>Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro<a class="pn"
+name="pg_78">{78}</a> de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França
+se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e
+Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e
+amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma
+parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.</p>
+
+<p>O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as
+estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as
+probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente
+com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de
+Borgonha.</p>
+
+<p>Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o
+maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe
+o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da
+affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua
+reputação.</p>
+
+<p>Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França
+o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na
+conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.</p>
+
+<p>A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi
+arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,<a
+class="pn" name="pg_79">{79}</a> que Luiz XI lhe enviára por um official de
+sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os
+navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia
+parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.
+</p>
+
+<p>Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e
+teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte
+de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.</p>
+
+<p>De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de
+notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam
+conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu
+por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de
+tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de
+Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que
+por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto
+viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,
+fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a
+mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e
+antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o <em>Lancelote
+do Lago</em>, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura<a
+class="pn" name="pg_80">{80}</a> do qual os paladinos dos seculos
+<small>XII</small> e <small>XIII</small> aprendiam com enthusiasmo a imitar
+algum dos fabulosos cavalleiros da <em>Tavola Redonda</em>. Poderia inflammar
+tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por
+si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o
+levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.</p>
+
+<p>Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves
+da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da
+côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os
+aposentos, que lhe estavam destinados.</p>
+
+<p>Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours,
+onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que
+elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio
+recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado
+adeante para regularem o ceremonial da entrevista.</p>
+
+<p>A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha
+com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes
+carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada
+d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
+jaez da espada, e ao pescoço uma<a class="pn" name="pg_81">{81}</a> béca
+de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas
+calças brancas entretalhadas de muitas côres.</p>
+
+<p>«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos
+muito baixos.</p>
+
+<p>«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos
+no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a
+um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa
+o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e
+ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino
+estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e
+serviço, como nos de Portugal.</p>
+
+<p>«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se
+cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»<a
+name="tex2html6" href="#foot275"><sup>[6]</sup></a></p>
+
+<p>Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se
+humilde até á repugnancia!</p>
+
+<p>Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para
+Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com
+o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha,
+a princeza D. Joanna.<a class="pn" name="pg_82">{82}</a></p>
+
+<p>Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração
+do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha,
+então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em
+guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli
+mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era
+congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz
+XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais
+facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das
+tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.
+</p>
+
+<p>O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe
+apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem
+sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a
+vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de
+Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na
+defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de
+Nancy para lhe dar batalha.</p>
+
+<p>Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á
+concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim
+fez.<a class="pn" name="pg_83">{83}</a></p>
+
+<p>Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo
+mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o
+momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e
+apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas
+perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o
+problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão
+de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha
+ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos
+de seus agentes.</p>
+
+<p>Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de
+Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica,
+adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros
+principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das
+promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a
+morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar
+a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de
+Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo
+assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz
+XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,<a class="pn"
+name="pg_84">{84}</a> que tratassem com essa potencia; e não os delegados de
+Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás
+diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre
+habil e cautelosa a curia romana.</p>
+
+<p>A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle
+a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro
+dos dois monarchas em Arras.</p>
+
+<p>Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a
+sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos
+regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma
+resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.</p>
+
+<p>Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para
+Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até
+que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á
+sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro.
+Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios
+religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado
+logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.</p>
+
+<p>Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:<a class="pn"
+name="pg_85">{85}</a></p>
+
+<p>&mdash;Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho
+por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.</p>
+
+<p>Ao que Pero da Covilhan respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu
+cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi,
+concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu
+rei e Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa,
+dando-me algum allivio o desabafo.&mdash;Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e
+metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de
+reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo
+eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza,
+minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de
+França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras,
+movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido...
+Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus
+negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de
+haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes,
+que vivem e morrem na regencia de seus<a class="pn" name="pg_86">{86}</a>
+estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a
+resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz,
+pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não
+deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco
+honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de
+desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para
+a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus
+dias em uma clausura.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!</p>
+
+<p>&mdash;Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos
+filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes
+proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes,
+mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os
+dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de
+Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...</p>
+
+<p>D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
+impressionado:</p>
+
+<p>&mdash;Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos
+da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro
+experimentou já a rija tempera da sua<a class="pn" name="pg_87">{87}</a>
+espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que
+pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em
+grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem
+elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a
+Castro Nunho.</p>
+
+<p>Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que
+seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.</p>
+
+<p>Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
+peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com
+facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas,
+não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso
+preferiu deixa-lo ao serviço do principe.</p>
+
+<p>Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei
+saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de
+estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia
+legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez
+voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que
+continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua
+comitiva estivesse presente.<a class="pn" name="pg_88">{88}</a></p>
+
+<p>Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI
+acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em
+regressar do seu passeio.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que
+elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento.
+Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto
+ou palavra, que o trahissem.</p>
+
+<p>Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram
+encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual
+pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes,
+que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao
+ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da
+sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada
+instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao
+reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o
+proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual
+nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.</p>
+
+<p>Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao
+principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou
+mais tarde no seu reinado, e que tinha<a class="pn" name="pg_89">{89}</a>
+vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude
+d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de
+S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.</p>
+
+<p>Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e
+não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio
+fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de
+Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar
+a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes,
+pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.</p>
+
+<p>Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um
+cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da
+Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o
+reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir
+a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a
+pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes,
+que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova.
+E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu
+prisioneiro.</p>
+
+<p>O conde de Penamacor, que era o primeiro<a class="pn"
+name="pg_90">{90}</a> camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não
+voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui
+pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou
+pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem.
+Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta
+muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em
+Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue,
+para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia
+sobre brasas.</p>
+
+<p>Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur
+desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a
+comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado <em>o
+Grego</em>.</p>
+
+<p>O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de
+respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E
+D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo
+resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até
+alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro
+para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que
+recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...</p>
+
+<p><a href="#nota_F">D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande
+predilecção pelos que cultivavam as lettras</a>;<a
+class="pn" name="pg_91">{91}</a> por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da
+Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella;
+com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil
+soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar,
+aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel
+nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de
+Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.</p>
+
+<p>Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a
+conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia
+de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido
+em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo
+este aportou á mesma bahia.</p>
+
+<p>Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir
+a Oeiras.</p>
+
+<p>No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que
+mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por
+obediencia havia empunhado.</p>
+
+<p>A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O
+arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça.
+O proprio Beltran de La Cueva<a class="pn" name="pg_92">{92}</a> recebia
+mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de
+Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de
+Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se
+afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de
+França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi
+affrontosa a victoria para o exercito sitiante.</p>
+
+<p>Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de
+1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer
+confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal,
+assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.</p>
+
+<p>Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns
+magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com
+elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o
+casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava
+despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam
+as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e
+manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas,
+e n'isto convieram emfim as partes interessadas.</p>
+
+<p>Para entabolar as negociações, avistaram-se na<a class="pn"
+name="pg_93">{93}</a> villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e
+sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as
+quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4
+de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre
+D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o
+principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por
+palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a
+qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos
+necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar
+n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para
+poder dispôr de si.</p>
+
+<p>Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de
+Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.</p>
+
+<p>Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na
+villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar
+em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi
+o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela
+terçaria.</p>
+
+<p>No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D.
+João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D.
+Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,<a class="pn"
+name="pg_94">{94}</a> devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria
+nas mãos da infanta D. Beatriz.</p>
+
+<p>Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos
+os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de
+conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na
+reciproca offensa dos interesses nacionaes.</p>
+
+<p>Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes
+successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a
+innocente princeza D. Joanna:</p>
+
+<p>«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua
+liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com
+dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou
+o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e
+vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa
+real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus
+cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe
+deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse
+imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da
+dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de
+outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe;
+porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado<a class="pn"
+name="pg_95">{95}</a> e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as
+deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei
+n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no
+cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por
+ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela
+gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não
+desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a
+desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela
+culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal
+apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados,
+sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
+Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se
+tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois
+de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte
+do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo
+vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo
+morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e
+innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva,
+privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e
+hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e<a class="pn"
+name="pg_96">{96}</a> grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por
+cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo
+apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios,
+comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando
+n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de
+ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança
+d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar
+estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento,
+que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com
+o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento
+seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por
+castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe
+innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta
+senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com
+madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de
+nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta
+esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os
+succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais
+chegados».</p>
+
+<p>Depois da profissão da <em>Excellente Senhora</em>&mdash;tratamento dado a D.
+Joanna tanto que vestiu o<a class="pn" name="pg_97">{97}</a> habito de
+clarista&mdash;D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do
+Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo
+designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do
+paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.</p>
+
+<p>A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a
+sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de
+ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.</p>
+
+<p>Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com
+Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,
+rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar
+deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a
+legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as
+propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se
+solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.</p>
+
+<p>Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a
+quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o
+terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram
+misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.</p>
+
+<p>Malfadada condição a sua!<a class="pn" name="pg_98">{98}</a></p>
+
+<p>Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao
+filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para
+realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha
+monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo
+<small>VIII</small> pela batalha de Guadalete.</p>
+
+<p>Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
+patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se
+serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas
+as dynastias podiam considerar-se problematicas.</p>
+
+<p>O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e
+torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde,
+com que ella conspurcou o seu nome para sempre.</p>
+
+<p>Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de
+Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola,
+realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao
+mais alto grau de prosperidade.</p>
+
+<p>Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da
+realeza.<a class="pn" name="pg_99">{99}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000800">VI</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000810"><em>PESQUIZAS</em></a> </h2>
+
+<p>Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para
+si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da
+Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em
+Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo
+ascendeu esta á quasi intimidade de valido.</p>
+
+<p>Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros
+particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra
+estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e
+menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por
+carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na
+melhor conta os seus companheiros de armas<a class="pn"
+name="pg_100">{100}</a> em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e
+valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
+sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
+<em>vassallos d'el-rei</em>, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas
+em Evora a 12 de setembro de 1481.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua
+guarda.</p>
+
+<p>Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O
+rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de
+achar-se rodeado de <a href="#nota_G">cortezãos dotados de boas prendas</a>, e
+com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras
+insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.</p>
+
+<p>Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr
+dançar com primor a <em>retorta mourisca</em> pelas damas trajando ao uso
+arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a
+lembrar os desafios poeticos, as <em>côrtes de amôr</em>, o <em>jogo dos
+naipes</em>, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de
+cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.</p>
+
+<p>Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
+educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real
+<em>jardim de formosura</em>, como depois Gil Vicente<a class="pn"
+name="pg_101">{101}</a> chamou ao estrado das damas de D. Leonor.</p>
+
+<p>Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso.
+Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os
+apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba,
+despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos
+d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão
+esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da
+mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
+linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta o
+<em>Cancioneiro Geral</em>, de Garcia de Rezende.</p>
+
+<p>Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:</p>
+
+<p>&mdash;Amo-vos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular
+uma palavra.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
+comsigo mesma:</p>
+
+<p>&mdash;Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria
+o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por
+elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...</p>
+
+<p>Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa
+alguma para o<a class="pn" name="pg_102">{102}</a> seu silencio. Até pelo
+seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava
+convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é
+sempre facil de responder.</p>
+
+<p>Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas
+retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a
+cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de
+subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a
+faisca sagrada.</p>
+
+<p>Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a
+dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os
+olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos,
+que lá guardamos.</p>
+
+<p>Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a
+novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu,
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis...
+Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha
+Senhora?...</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha
+occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a
+bem...&mdash;respondeu Pero da Covilhan,<a class="pn" name="pg_103">{103}</a>
+ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria
+Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:</p>
+
+<p>&mdash;Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha
+real ama...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
+supplicando.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?!...&mdash;perguntou Thereza meio admirada.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não vos mereço ainda...</p>
+
+<p>&mdash;Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...</p>
+
+<p>&mdash;Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que
+espereis...</p>
+
+<p>&mdash;Esperarei.</p>
+
+<p>&mdash;Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei
+offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade...
+Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...</p>
+
+<p>&mdash;Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D.
+João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os
+melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas
+de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras...
+</p>
+
+<p>&mdash;Assim é; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não
+tendes a nobreza<a class="pn" name="pg_104">{104}</a> por herança e
+patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença minha.</p>
+
+<p>&mdash;Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
+peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós
+envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas
+raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!...
+Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que
+muitos lá ficaram...</p>
+
+<p>&mdash;Morreram no seu posto...</p>
+
+<p>&mdash;Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi
+sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres...
+Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A
+vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já,
+enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o
+rei de Tremecem?...</p>
+
+<p>&mdash;Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço...
+Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza
+ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!...
+Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!...
+</p>
+
+<p>&mdash;E eu de ser por vós amada!...<a class="pn"
+name="pg_105">{105}</a></p>
+
+<p>&mdash;Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de
+elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...</p>
+
+<p>&mdash;Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois
+já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu
+saiba corresponder ás vossas esperanças!</p>
+
+<p>&mdash;Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de
+Deus, Thereza!...</p>
+
+<p>&mdash;Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
+minha Senhora. Adeus.</p>
+
+<p>Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas
+soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:</p>
+
+<p>&mdash;Encantadora!...</p>
+
+<p>E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo
+abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol
+em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito
+perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito,
+invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava,
+que<a class="pn" name="pg_106">{106}</a> geralmente o interesse era o
+verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas,
+senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições,
+que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu
+nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém,
+aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da
+pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto;
+porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais
+egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua
+privação irreparavel.</p>
+
+<p>A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o
+deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a
+sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu
+espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe
+roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que
+justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e
+primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e
+recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe
+deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da
+honra.</p>
+
+<p>Que mãe de familia com taes dotes!<a class="pn"
+name="pg_107">{107}</a> </p>
+
+<p>Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
+paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem
+prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo
+encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe,
+que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe
+religião, que se avigóre.</p>
+
+<p>Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
+pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que
+uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas
+alegrias e pelos pezáres communs da familia.</p>
+
+<p>Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia
+a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo,
+tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os
+seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu
+olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as
+mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma
+reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor
+d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as
+vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao
+imagina-lo.<a class="pn" name="pg_108">{108}</a></p>
+
+<p>Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde
+que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros
+estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma
+paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de
+eleva-lo.</p>
+
+<p>O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
+nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola
+brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar,
+tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes
+murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos
+feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se
+unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais
+faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores
+interesseiros e faceis.</p>
+
+<p>Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Desinteressado amor!</p>
+
+<p>A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a
+burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da
+patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda
+mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava<a
+class="pn" name="pg_109">{109}</a> por isso de contentamento intimo, quando
+o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada
+o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa
+de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o
+coração.</p>
+
+<p>Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a
+Maria Thereza:</p>
+
+<p>&mdash;De novo passo á Barberia.</p>
+
+<p>&mdash;Deus vos guie!&mdash;respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.&mdash;Comvosco vae
+tambem o meu coração, que é vosso.</p>
+
+<p>Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria
+Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo
+apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre
+que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As
+despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.</p>
+
+<p>D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel
+e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos
+d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação
+real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca
+do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan,
+recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em
+1472 havia mandado a<a class="pn" name="pg_110">{110}</a> ossada de D.
+Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da
+viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja,
+a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan
+alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante
+á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais
+tarde rei.</p>
+
+<p>Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.</p>
+
+<p>Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro
+encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do
+plano politico de D. João II.</p>
+
+<p>Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos
+mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.</p>
+
+<p>&mdash;Bem o fizestes&mdash;disse-lhe o rei&mdash;; e agora&mdash;muito secretamente&mdash;espéro de
+vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso
+em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de
+sair já de nossos reinos?</p>
+
+<p>&mdash;Préstes estou, meu Senhor e rei&mdash;respondeu Pero da Covilhan.&mdash;Peza-me,
+porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
+voss'alteza...</p>
+
+<p>&mdash;Embóra, ireis, que Deus vos guardará.&mdash;A descobrir e saber do Preste João,
+e onde se acham<a class="pn" name="pg_111">{111}</a> a canella e as
+outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um
+homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a
+Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
+entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior
+incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e
+discernimento muito mais confio...</p>
+
+<p>&mdash;Mercê a voss'alteza, meu Senhor...</p>
+
+<p>&mdash;O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné
+podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se
+a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.</p>
+
+<p>&mdash;Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por
+que beijo a mão de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos
+dou para auxiliar-vos.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já
+sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava
+partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons
+serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu
+a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:<a class="pn"
+name="pg_112">{112}</a></p>
+
+<p>&mdash;Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...</p>
+
+<p>&mdash;A Virgem vos ouça!&mdash;exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
+radiante.&mdash;A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei
+esperando... de outro jámais serei!...</p>
+
+<p>E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
+revigóra.</p>
+
+<p>Nem um uma lagrima derramaram!</p>
+
+<p>As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se
+prova, com as que se deixam de chorar.</p>
+
+<p>Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor
+maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia
+para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando,
+para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de
+chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se
+queriam.</p>
+
+<p>No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu
+lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já
+com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova,
+pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o <em>Calçadilha</em>, depois bispo, e pelos
+physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o
+primeiro<a class="pn" name="pg_113">{113}</a> parte na <em>junta dos
+cosmographos</em>. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do
+senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.</p>
+
+<p>Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das
+despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da
+Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber
+em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito,
+dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos
+paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para
+o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o
+conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta
+de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma
+d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se
+poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse
+exalçada.</p>
+
+<p>E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.<a
+class="pn" name="pg_114">{114}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_115">{115}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000900">VII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000910"><em>EM RHODES</em></a> </h2>
+
+<p>Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a
+Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa
+commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho,
+em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.</p>
+
+<p>Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes
+uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram
+n'ella, pois.</p>
+
+<p>Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu,
+tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma
+natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas
+do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo<a class="pn"
+name="pg_116">{116}</a> a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a
+náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o
+destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com
+Thereza.</p>
+
+<p>Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais
+da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar
+ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da
+saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.</p>
+
+<p>A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas
+pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para
+Rhodes, surge n'este porto.</p>
+
+<p>Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.</p>
+
+<p>Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de
+Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria
+para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria,
+bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com
+galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos,
+roubando e fazendo captivos muitos d'elles.</p>
+
+<p>Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com
+que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só<a
+class="pn" name="pg_117">{117}</a> davam passagem segura e pousada franca
+aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos
+e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até
+ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás
+virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os
+infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.</p>
+
+<p>Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e
+frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante
+defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de
+frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes
+fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre
+todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter
+nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de
+tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando
+se topam em terra alheia.</p>
+
+<p>Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do
+assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este;
+reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas
+perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e
+restabelecer finalmente o importante commercio<a class="pn"
+name="pg_118">{118}</a> dos rhodios, que tão notavel incremento havia já
+tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das
+mais florescentes cidades da Asia.</p>
+
+<p>Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia,
+foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de
+haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava
+sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado
+fraguedo, que se erguia do seio das ondas.</p>
+
+<p>Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi
+podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem
+soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que
+n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com
+interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo,
+que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.</p>
+
+<p>Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra,
+por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos
+gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao
+esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso
+milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.</p>
+
+<p>&mdash;Depois de assalto á cidade fugiram para ella<a class="pn"
+name="pg_119">{119}</a> grande numero de turcos. Attestaram estes com
+juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo
+as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e
+de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo
+instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da
+côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos
+vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem
+vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um
+luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal
+ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão&mdash;diziam os
+desertores&mdash;ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em
+marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam
+interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas,
+e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.</p>
+
+<p>&mdash;Vencemos!&mdash;concluiu frei Fernão&mdash;. Mas sem aquelle celeste auxilio não
+podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos
+inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos
+christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar,
+que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção
+distrahida<a class="pn" name="pg_120">{120}</a> para Africa, e não nos
+auxilie em nossa empreza!...</p>
+
+<p>&mdash;Estou certo&mdash;retorquiu Pero da Covilhan&mdash;de que el-rei, meu Senhor, admira
+os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada
+milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não
+podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua
+alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e
+maldito?...</p>
+
+<p>&mdash;Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida
+obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o
+nosso dominio na Asia...</p>
+
+<p>&mdash;Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir
+á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões
+remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...</p>
+
+<p>&mdash;Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal
+proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...</p>
+
+<p>&mdash;Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que
+vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por
+indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante,
+posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que
+estejamos sempre<a class="pn" name="pg_121">{121}</a> anciosos de vencer
+esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os
+primeiros navegadores do mundo?!...</p>
+
+<p>&mdash;Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas...
+Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria
+fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem
+póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se
+podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...</p>
+
+<p>&mdash;Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...</p>
+
+<p>&mdash;Assim é...</p>
+
+<p>&mdash;Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no
+movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do
+Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro.
+Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além,
+uns retrocederam, outros ficaram...</p>
+
+<p>&mdash;Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é
+acredita-lo&mdash;interrompeu fr. Fernão.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre
+no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se
+transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...<a
+class="pn" name="pg_122">{122}</a></p>
+
+<p>&mdash;Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro
+razão sobeja me dá.</p>
+
+<p>&mdash;Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao
+Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...
+</p>
+
+<p>&mdash;Prouvéra a Deus, que assim fosse!...&mdash;exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.
+</p>
+
+<p>&mdash;Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é
+procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que
+me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa
+religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...</p>
+
+<p>&mdash;Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse
+afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.</p>
+
+<p>&mdash;Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um
+seculo, e até hoje&mdash;que eu saiba!&mdash;não tem constado cá, haver-se descoberto o
+reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.</p>
+
+<p>&mdash;Informação de pêso é essa...</p>
+
+<p>&mdash;Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum
+a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de
+Dario aos reis persas, o de Cesar<a class="pn" name="pg_123">{123}</a>
+aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa
+ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus
+em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da
+cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse
+imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia,
+de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se
+chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que
+desappareceu.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios
+o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não
+volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.</p>
+
+<p>O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe
+cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das
+Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel;
+serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.</p>
+
+<p>De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
+atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.<a
+class="pn" name="pg_124">{124}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_125">{125}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001000">VIII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001010"><em>BOAS NOVAS</em></a> </h2>
+
+<p>Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao
+porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do
+costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer,
+que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma
+feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais
+bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o
+Oriente.</p>
+
+<p>Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
+bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus
+monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
+gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no <small>VII</small> seculo.</p>
+
+<p>De todas essas preciosidades historicas restavam<a class="pn"
+name="pg_126">{126}</a> unicamente: a columna de Pompeu, denominada
+Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamados
+<em>Agulhas de Cleopatra</em>, e as catacumbas.</p>
+
+<p>A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo
+<em>Serapeion</em>, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos
+centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
+Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha
+sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou
+um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano, <em>genio tutelar
+da cidade</em>, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que
+soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado,
+em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.
+</p>
+
+<p>As <em>Agulhas</em> consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
+parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
+monumentos: um, o <em>Sebasteion</em>, em honra de Tiberio; o outro, á gloria
+de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor, e, por
+consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno, em que
+assentava a velha aldeia de Rakotis.</p>
+
+<p>No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle
+Pharaó.<a class="pn" name="pg_127">{127}</a></p>
+
+<p>Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do
+Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais
+especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para
+Rakotis.</p>
+
+<p>Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra
+firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado <em>Heptastadion</em>,
+campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das maravilhas do
+mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do Egypto grego.</p>
+
+<p>Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e
+que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore
+branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome
+sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o
+do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a
+descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.</p>
+
+<p>Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual
+Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos
+Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte
+surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.</p>
+
+<p>Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes,<a class="pn"
+name="pg_128">{128}</a> e pouco mais, pois que uma fébre maligna os prostou.
+</p>
+
+<p>Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver
+successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima
+parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres
+povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital
+do Egypto, a qual demorava na margem direita.</p>
+
+<p>Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
+encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden.
+Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór.
+D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de
+Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem,
+riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para
+Aden.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de
+Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais
+conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio
+das especiarias.</p>
+
+<p>Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a
+sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe
+arraigava no coração as suas crenças.<a class="pn"
+name="pg_129">{129}</a> O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a
+imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir
+audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma
+exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de
+que não fosse mercador ismaelita.</p>
+
+<p>Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia
+produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos
+dos tripulantes e mercadores que o cercavam.</p>
+
+<p>Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e
+picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada,
+lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella
+mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e
+largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.</p>
+
+<p>Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do
+mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de
+cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do
+outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros
+podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu
+cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro.
+Por duas<a class="pn" name="pg_130">{130}</a> portas, ambas juntas, se
+entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em
+um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas,
+protegida cada uma por sua fortificação.</p>
+
+<p>Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do
+clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da
+serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes
+tanques abertos na rocha.</p>
+
+<p>O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre
+estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus
+paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as
+caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo
+Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a
+Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.</p>
+
+<p>Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande
+rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou
+com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India,
+aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada
+época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.<a
+class="pn" name="pg_131">{131}</a></p>
+
+<p>Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
+costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a
+cidade de Calicut.</p>
+
+<p>Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
+Oceano Indico.</p>
+
+<p>A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro
+sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os
+ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes
+para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas
+cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de
+igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das
+pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.</p>
+
+<p>A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da
+amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar
+em melhor linha de bolina.</p>
+
+<p>Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para
+cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de
+rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.</p>
+
+<p>Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque,
+betumando as costuras do taboado com <em>quil</em>, e untando-as com azeite de
+peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim<a class="pn"
+name="pg_132">{132}</a> vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os
+quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou
+quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.</p>
+
+<p>O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da
+India para o mar Vermelho.</p>
+
+<p>Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
+particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem
+coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada
+em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de
+palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.</p>
+
+<p>Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros
+abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava
+muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma
+especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das
+esteiras de rotas, com que cobriam a carga.</p>
+
+<p>O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
+madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de
+trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da
+quotidiana alimentação.<a class="pn" name="pg_133">{133}</a></p>
+
+<p>E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a
+navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois
+varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.</p>
+
+<p>Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um
+movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em
+similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!</p>
+
+<p>Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação
+arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem
+tudo soffria resignado!</p>
+
+<p>A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que
+permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por
+elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou
+seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas,
+separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos
+vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de
+espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava
+igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel
+era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre
+si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes
+iracundas.<a class="pn" name="pg_134">{134}</a> A náu, sem governo,
+vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas
+serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo,
+equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em
+quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo
+lençól de espuma.</p>
+
+<p>Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas
+horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.</p>
+
+<p>Salvou-se!</p>
+
+<p>Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor,
+para fazer aguada e tomar lenha.</p>
+
+<p>A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por
+ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu
+rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.</p>
+
+<p>Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no
+seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a
+belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com
+as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o
+maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua
+imaginação havia sonhado.</p>
+
+<p>Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos<a class="pn"
+name="pg_135">{135}</a> arbitrariamente traçados, estava disseminada a
+casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras
+odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos.
+Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos
+pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
+resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e
+a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima
+distancia da praia.</p>
+
+<p>A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
+espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e
+frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir,
+quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas
+victimas.</p>
+
+<p>Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a
+tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos,
+consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento
+silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres
+fios, com a largura de dois dedos, como a correia.</p>
+
+<p>Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois
+ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado<a class="pn"
+name="pg_136">{136}</a> ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e
+resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os
+malabares chamavam <em>boi</em>.</p>
+
+<p>Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se
+approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador
+encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa
+distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E
+mantinha-se tanto esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o
+peccado original do nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.</p>
+
+<p>Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram
+por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia
+fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando
+d'ellas todo o proveito.</p>
+
+<p>Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz,
+o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa
+meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de
+Monomotapa.<a class="pn" name="pg_137">{137}</a></p>
+
+<p>Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que
+lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado
+de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu
+companheiro, soube alli, que este fallecera.</p>
+
+<p>Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os
+vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se
+animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os
+vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.</p>
+
+<p>&mdash;De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
+incumbira...&mdash;pensava Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria
+ao serviço de seu real amo.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes,
+que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta
+rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão
+embaraçosas situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de
+encontra-lo.</p>
+
+<p>Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
+outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.</p>
+
+<p>&mdash;Á procura de vós andavamos!&mdash;exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero
+da Covilhan.<a class="pn" name="pg_138">{138}</a></p>
+
+<p>Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou
+um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com
+portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...</p>
+
+<p>Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de
+D. João II, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas
+cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.</p>
+
+<p>&mdash;E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...&mdash;perguntou
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>&mdash;Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
+esquerda...&mdash;respondeu Abraham, apontando para ella.</p>
+
+<p>&mdash;Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu
+senhor!...&mdash;replicou Pero da Covilhan, sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia,
+que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.</p>
+
+<p>Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse
+mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido
+de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo
+voltar ao reino sem ter visto o Préste João.<a class="pn"
+name="pg_139">{139}</a></p>
+
+<p>Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar
+muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás
+cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a
+narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender
+esta nova viagem, que concertára com o rabbi.</p>
+
+<p>&mdash;De tudo estou inteirado&mdash;disse Pero da Covilhan.&mdash;A vós, Joseph, vou
+immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e&mdash;voltando-se
+para Abraham&mdash;comvosco tornarei a vêr Ormuz.</p>
+
+<p>N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
+fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que
+serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente
+d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu
+principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por
+tratado com o sultão do Egypto.</p>
+
+<p>A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as
+especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido
+áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do
+Malabar.</p>
+
+<p>Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
+valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.<a class="pn"
+name="pg_140">{140}</a></p>
+
+<p>A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de
+Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as
+espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.</p>
+
+<p>Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso,
+parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo
+brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com
+a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao
+termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa
+no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
+mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
+addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres
+da Guiné se póde navegar para a India».</p>
+
+<p>Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava
+tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no
+Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe
+mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que
+para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse
+rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da
+Covilhan muitas<a class="pn" name="pg_141">{141}</a> cousas do rei
+abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns
+mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar
+adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe
+diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia
+mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.</p>
+
+<p>Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as
+cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este
+porto sahiram para Ormuz.</p>
+
+<p>Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar
+largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte
+portugueza!...</p>
+
+<p>O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...</p>
+
+<p>Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
+esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados,
+era o melhor lenitivo da sua saudade.</p>
+
+<p>&mdash;Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei
+qual é o caminho da India pelo mar!...&mdash;repetiam os echos da sua alma radiante
+e apaixonada.</p>
+
+<p>E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar
+d'Oman.<a class="pn" name="pg_142">{142}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_143">{143}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001100">IX</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001110"><em>CONSTANCIA</em></a> </h2>
+
+<p>Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
+espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros
+nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição
+permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.</p>
+
+<p>Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma
+repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia,
+era unicamente por obediencia.</p>
+
+<p>Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga
+nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar
+na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a
+tudo estão attentos, reparavam, que a Maria<a class="pn"
+name="pg_144">{144}</a> Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu
+ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem
+sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.</p>
+
+<p>Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás
+suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um
+tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.</p>
+
+<p>Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá
+Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando
+maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso
+franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...</p>
+
+<p>&mdash;E o mais estranho&mdash;observou Pedro de Barcellos&mdash;é, que não occulta o seu
+mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...</p>
+
+<p>&mdash;Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
+insiste...&mdash;accrescentou Jorge da Silveira.</p>
+
+<p>&mdash;De experimentados fallais ambos!...&mdash;atalhou D. João de Menezes</p>
+
+<p>&mdash;Quem não hade gostar de Thereza!...&mdash;tornou Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>&mdash;Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza
+diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa
+menina!...&mdash;exclamou Gonçalo da Fonseca.<a class="pn"
+name="pg_145">{145}</a></p>
+
+<p>Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a
+convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe
+Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas
+porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter
+d'esse soberano, como o leitor vae vêr.</p>
+
+<p>Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na
+presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por
+gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós
+vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».</p>
+
+<p>Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos
+duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte
+Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.</p>
+
+<p>Voltemos, porém, ao ponto.</p>
+
+<p>A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca
+dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo
+Garcia de Rezende, se deu principio ao <em>jogo dos naipes</em>.</p>
+
+<p>Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma,
+os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais
+desagradaveis ainda, havia chegado a<a class="pn" name="pg_146">{146}</a>
+uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e
+esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava
+fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe
+agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella
+respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de
+alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais
+particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.</p>
+
+<p>Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a
+dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou
+rapidamente a seguinte exclamação:&mdash;infeliz lembrança!... E tenho de attender
+com fingido agrado este importuno!...</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de
+duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em
+ancias de tranzido amor.</p>
+
+<p>O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:&mdash;como
+sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia
+angelica!...&mdash;e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a
+saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.</p>
+
+<p>Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não
+logrando evitar,<a class="pn" name="pg_147">{147}</a> que fosse trahido
+pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu
+aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:</p>
+
+<p>&mdash;Não vos interessa o <em>jogo dos naipes</em>?</p>
+
+<p>&mdash;É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz
+tomar hoje parte n'essa diversão&mdash;respondeu Maria Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que
+mereceis...</p>
+
+<p>&mdash;Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...&mdash;retorquiu com certa
+intimativa Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!?... Grande poder me confiais!...</p>
+
+<p>&mdash;E não o quereis?...</p>
+
+<p>&mdash;Para quê?...</p>
+
+<p>&mdash;Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...</p>
+
+<p>&mdash;Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...</p>
+
+<p>&mdash;É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...</p>
+
+<p>&mdash;Devaneais, primo!</p>
+
+<p>&mdash;Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?&mdash;instou
+Pedro de Barcellos com forçado sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,<a class="pn"
+name="pg_148">{148}</a> e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de
+cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa
+pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...&mdash;redarguiu com
+reflexiva gravidade Maria Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro,
+porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não
+julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque nunca poderia corresponder-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...</p>
+
+<p>&mdash;Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.</p>
+
+<p>Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II,
+os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria
+Thereza:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de
+que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:</p>
+
+<blockquote>
+ «Por mais mal que me façais <br>
+ nunca mudar me fareis <br>
+ até que não me acabeis. <br>
+   <br>
+ Minha fé, minha firmeza <br>
+ Em vosso poder está; <br>
+ soffrerei minha tristeza, <br>
+ pois vossa mercê m'a dá.<a class="pn" name="pg_149">{149}</a> <br>
+   <br>
+ E meu bem nunca fará <br>
+ mudança, nem a vereis, <br>
+ até que não me acabeis.»<a name="tex2html7"
+ href="#foot375"><sup>[7]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>&mdash;Bello villancete, primo!...</p>
+
+<p>&mdash;Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me
+lembrei de recita-lo...</p>
+
+<p>&mdash;E não tendes prezente composição alguma vossa?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...</p>
+
+<p>&mdash;Não vos disse já, que vos estimo?...</p>
+
+<p>Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois
+de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria
+Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa
+d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais
+ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de
+bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou,
+perguntando-lhe com a maior formalidade:</p>
+
+<p>&mdash;Porque me não concedeis a vossa mão?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...&mdash;respondeu Maria
+Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo
+respeito a Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>Este, reconhecendo que seria importuna e pouco<a class="pn"
+name="pg_150">{150}</a> delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:
+</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais
+saberá, senão vós.</p>
+
+<p>E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
+villancete:</p>
+
+<blockquote>
+ Aqui, onde vou deixar-vos, <br>
+ esse vosso doce olhar <br>
+ nunca me verá tornar. <br>
+   <br>
+ Para o mar vou sem ventura, <br>
+ sendo mais vosso cativo! <br>
+ Serei morto, sendo vivo, <br>
+ sem ver vossa formosura, <br>
+ pois que a minha sorte dura <br>
+ de vós me quér apartar <br>
+ para nunca mais tornar. <br>
+   <br>
+ E se bem, que me confórte, <br>
+ esperar me não é dado, <br>
+ melhor é ditosa morte, <br>
+ que viver desesperado. <br>
+ Acabe assim o cuidado <br>
+ de sómente em vós cuidar, <br>
+ e no vosso doce olhar!... </blockquote>
+
+<p>&mdash;É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o
+divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito...
+Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que
+fico sendo-vos muito affeiçoada...</p>
+
+<p>Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado
+longo.<a class="pn" name="pg_151">{151}</a></p>
+
+<p>Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema
+bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua
+belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica,
+do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para
+ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a
+extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na
+possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no
+coração diamantino da sua filha adoptiva.</p>
+
+<p>D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
+primazia.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a
+sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao
+respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os
+perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio
+aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se
+reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á
+ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros
+povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.<a class="pn"
+name="pg_152">{152}</a></p>
+
+<p>Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa
+ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da
+cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da
+Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues
+das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e
+voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de
+Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos
+<em>Ricos-homens</em> de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e por consequencia
+tambem <em>rico-homem</em>.&mdash;No principio da monarchia era essa a maior
+dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamava
+<em>primos</em>, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e
+não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da
+guerra, sem o conselho d'elles.</p>
+
+<p>Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da
+Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro
+varão, que nasceu na Terceira.</p>
+
+<p>Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de
+sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com
+mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio
+de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se<a class="pn"
+name="pg_153">{153}</a> João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando
+Annes ou Joannes.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado,
+primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de
+visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram
+as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de
+apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.</p>
+
+<p>Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a
+quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de
+descobrir novas terras.</p>
+
+<p>Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo
+de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as
+canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude
+aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então
+pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não
+era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel
+ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
+muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o
+seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.<a
+class="pn" name="pg_154">{154}</a></p>
+
+<p>Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II,
+animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.</p>
+
+<p>Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua
+formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe
+havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que
+momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre
+attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus
+brios de homem digno.</p>
+
+<p>Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo
+recebido com particular carinho no solar de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e
+tornou logo para a Terceira.</p>
+
+<p>Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e
+tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou
+da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495, <a
+href="#nota_H">depois de ter descoberto a costa do Labrador</a>.</p>
+
+<p>Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3
+de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle
+a uma região do <em>Novo Mundo</em>. E assim succedeu, com effeito. O facto,
+porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do
+insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna
+superior<a class="pn" name="pg_155">{155}</a> ao nosso Pedr'Alvares
+Cabral, <a href="#nota_I">a quem a patria não fez ainda a devida
+justiça</a>.</p>
+
+<p>Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e
+penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços
+tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador,
+concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho
+de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por
+outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de
+armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras
+e privilegios de nobres e fidalgos, por procederem <a href="#nota_J">da geração
+e linhagem dos Machados</a>, por parte de sua mãe e avós.</p>
+
+<p>Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de
+Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho
+da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos
+preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da
+India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.</p>
+
+<p>Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas
+culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas
+maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as
+caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses
+dois problemas.<a class="pn" name="pg_156">{156}</a></p>
+
+<p>Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu
+Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da <em>Bôa Esperança</em>, e
+chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a
+recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois
+navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes
+vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que
+D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.</p>
+
+<p>Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da
+Covilhan, em Santarem?</p>
+
+<p>Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum
+interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?
+</p>
+
+<p>Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o
+successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario,
+quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais
+direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D.
+Manoel uma esphera por empreza, cuja <em>alma</em> era: <em>Spera in Deo</em>?
+Não parece ser um presentimento muito singular?...<a class="pn"
+name="pg_157">{157}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001200">X</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001210"><em>TENTANDO AS AZAS...</em></a> </h2>
+
+<p>Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan.
+Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente
+podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do
+monarcha.</p>
+
+<p>Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...</p>
+
+<p>Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a
+nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá
+credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão
+bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por
+Préste João da India o imperador da Ethiopia.</p>
+
+<p>Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações<a class="pn"
+name="pg_158">{158}</a> d'esse tempo&mdash;o apparecimento d'aquelle personagem
+legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar, excepto D. João II e
+Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.</p>
+
+<p>Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A
+esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora
+mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.</p>
+
+<p>Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
+catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração
+d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de
+seu tio o duque de Borgonha, em Lille.</p>
+
+<p>A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.
+</p>
+
+<p>No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para
+banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S.
+Francisco dava para tudo.</p>
+
+<p>Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus
+estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir
+grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella
+da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.</p>
+
+<p>Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão
+largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.<a class="pn"
+name="pg_159">{159}</a></p>
+
+<p>Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se
+fabricar a sala dos banquetes&mdash;aquella sala de madeira,</p>
+
+<blockquote>
+ «que ficara por memoria. <br>
+ Real em tanta maneira, <br>
+ de perfeição tão inteira, <br>
+ de tanta mundana gloria».<a name="tex2html8"
+ href="#foot401"><sup>[8]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do
+seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia
+em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S.
+Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que
+se hão de tornar em pranto!...»</p>
+
+<p>E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:&mdash;«Quem viver
+verá!...»</p>
+
+<p>A verdade é, que se não enganou.</p>
+
+<p>Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr
+côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do espoliado
+cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a sensibilisar-se com
+lamentações de frades.</p>
+
+<p>A construcção da <em>sala de madeira</em> foi dirigida por Andrea Contucci,
+a quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.<a class="pn"
+name="pg_160">{160}</a></p>
+
+<p>Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu
+nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D. João II
+pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.</p>
+
+<p>Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já revelado o
+seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira, iniciada depois de ter
+chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que tão merecida e distinctamente
+occupa na historia da Arte.</p>
+
+<p>Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns
+trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença, não o
+impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha a mais
+pronunciada vocação.</p>
+
+<p>O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de Domenico
+Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo, ainda ignorado
+na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo. Vê-se bem, qual foi, pois
+o móvel do crime.</p>
+
+<p>O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na
+pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis, seu
+patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo fundiu a bella
+medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual Lourenço o
+<em>Magnifico</em> se salvou milagrosamente.</p>
+
+<p>O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua<a class="pn"
+name="pg_161">{161}</a> poderosa influencia o triumpho simultaneo do
+Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo, na maioria dos productos da
+intelligencia humana; e, sem embargo de have-lo proclamado grande protector das
+lettras a universidade de Pisa, por elle fundada, o seu consulado fórma um
+periodo tristemente memoravel para a historia dos costumes, das artes e das
+proprias lettras.</p>
+
+<p>É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo
+determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D.
+João II.</p>
+
+<p>Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do
+seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia
+real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.</p>
+
+<p>D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de
+Evora, as recordações do periodo medieval.</p>
+
+<p>Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro,
+para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um
+sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham
+entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as
+mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real
+thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e
+cavallo; e os que<a class="pn" name="pg_162">{162}</a> entravam nos mômos
+e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado vestido e dinheiro
+aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais galantes raparigas e foliantes
+mocetões do Alemtejo, que vieram com suas danças, toques e descantes concorrer
+todos para o luzimento e alegria das festas.</p>
+
+<p>O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na <em>sala de madeira</em>,
+appareceu-lhe invencionado no phantastico <em>cavalleiro do cysne</em>, o
+poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou ler, e
+depois entregar á princeza, sua nora, um <em>bréve</em>, em que propunha a
+tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas
+conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para justar com
+seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.</p>
+
+<p>Singular caracter o d'este monarcha!</p>
+
+<p>Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os
+preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho;
+comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma
+enlevada e contemplativa&mdash;a fundação da misericordia de Lisboa.</p>
+
+<p>Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel
+de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.</p>
+
+<p>De visita ao seu mosteiro de Santarem havia<a class="pn"
+name="pg_163">{163}</a> chegado a Evora o douto e humilde trino, e veiu
+encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S. Matheus, cuja
+doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da devota rainha,
+para o purificar e tornar fecundo.</p>
+
+<p>&mdash;Embóra vindes, fr. Miguel!...&mdash;disse a rainha ao receber o trinitario, que
+com profunda reverencia lhe beijou a mão.&mdash;Sentae-vos que muito desejo
+ouvir-vos ácerca da <em>vossa</em> Misericordia...</p>
+
+<p>&mdash;Da de voss'alteza: quereis dizer...&mdash;ponderou Contreiras.</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja de ambos nós&mdash;tornou D. Leonor,&mdash;ou melhor: de Deus será esse
+arbusto, que vamos plantar, e que se fará&mdash;assim o espero da protecção
+divina&mdash;arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que
+váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la
+de melhores mãos...</p>
+
+<p>&mdash;Mãos de peccadora...</p>
+
+<p>&mdash;Purificadas nas boas obras...&mdash;atalhou Contreiras.</p>
+
+<p>&mdash;Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás
+miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não
+hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino
+Mestre?...</p>
+
+<p>&mdash;Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo
+interesse nas acções<a class="pn" name="pg_164">{164}</a> boas que
+praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão
+misericordia».</p>
+
+<p>&mdash;Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do
+Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...</p>
+
+<p>&mdash;E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado
+pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...</p>
+
+<p>&mdash;Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa
+instituição, que projectamos...</p>
+
+<p>&mdash;Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em
+nome da caridade christã vamos congregar...</p>
+
+<p>&mdash;Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de
+concluido, á censura e approvação de voss'alteza...</p>
+
+<p>&mdash;Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser
+traça vossa...</p>
+
+<p>&mdash;Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê
+me fazeis...</p>
+
+<p>A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de
+Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha,
+dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.</p>
+
+<p>Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas<a class="pn"
+name="pg_165">{165}</a> correu Maria Thereza para sua ama, foi ajoelhar
+junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:</p>
+
+<p>&mdash;Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...</p>
+
+<p>&mdash;Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...&mdash;volveu carinhosamente a
+rainha.</p>
+
+<p>&mdash;Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o
+cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum
+tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas...
+agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal
+fim?...</p>
+
+<p>A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe
+para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:</p>
+
+<p>&mdash;Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas
+do casamento.</p>
+
+<p>Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas,
+não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:</p>
+
+<p>&mdash;E se eu fosse já?...</p>
+
+<p>&mdash;Que trigança é essa?...</p>
+
+<p>&mdash;Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...</p>
+
+<p>&mdash;Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!...
+Olha, que não é bom, ser-se impaciente...</p>
+
+<p>&mdash;Se eu não agastasse a vossa'alteza!...<a class="pn"
+name="pg_166">{166}</a></p>
+
+<p>&mdash;O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e,
+todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo
+da minha alma... Eu, minha Senhora...</p>
+
+<p>Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais
+os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.</p>
+
+<p>D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...</p>
+
+<p>&mdash;Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...&mdash;perguntou a rainha,
+accentuando com grande admiração as suas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha Senhora&mdash;replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
+parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.</p>
+
+<p>&mdash;Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na
+differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
+casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...</p>
+
+<p>&mdash;O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um
+passo, que não<a class="pn" name="pg_167">{167}</a> seja do real agrado
+de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu
+coração o que consagro a voss'alteza, como do coração da esposa nunca se
+apaga&mdash;creio&mdash;o amor da filha. Até este mais santifica e robustece o outro...
+</p>
+
+<p>&mdash;Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu
+as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...</p>
+
+<p>&mdash;Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle
+não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas
+honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por
+onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não
+esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo
+cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado,
+que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores&mdash;affirmou
+gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as
+palavras, que docemente proferia, continuou:&mdash;pois bem... mandarei dizer a teu
+tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás
+festas... e faço-te a vontade...</p>
+
+<p>Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente<a class="pn"
+name="pg_168">{168}</a> Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma
+palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz
+do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava
+deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem
+tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:</p>
+
+<p>&mdash;Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum
+tempo a companhia de voss'alteza!...</p>
+
+<p>&mdash;Pobre creança!...&mdash;interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.
+Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela
+cara:</p>
+
+<p>&mdash;Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres,
+não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...<a
+class="pn" name="pg_169">{169}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001300">XI</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001310"><em>PEREGRINAÇÃO</em></a> </h2>
+
+<p>Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar
+em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente
+catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca,
+incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o
+recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os
+musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor
+fanatico.</p>
+
+<p>Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se
+considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la,
+porém, mórmente no seculo <small>XV</small>, embóra se tivesse envergado o
+<em>ihram</em> do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.</p>
+
+<p>Os raros europeus, que no seculo actual lográram<a class="pn"
+name="pg_170">{170}</a> vêr Mecca, dão testemunho do perigo, a que se expõem
+os christãos, que se afoitam a violar a lei que lhes prohibe, com pena de
+morte, o seu ingresso no velho santuario arabe.</p>
+
+<p>Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o Oceano
+indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e costumes, nada
+havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um dever, a cujo cumprimento
+sacrificava a propria vida.</p>
+
+<p>É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
+adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos labores
+improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e, no seu
+resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e robustecia cada
+vez mais a confiança, que em si proprio depositava.</p>
+
+<p>Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.</p>
+
+<p>O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia, tem
+importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela influencia, que
+recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A sua aridez, quasi
+geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha. Cortam a immensa solidão
+das suas planicies arenosas, que se extendem para a margem do mar Vermelho,
+pouquissimos valles cultivados e montanhas cobertas de rochedos, que se vão
+tornando cada vez mais abruptas á medida que os viandantes<a class="pn"
+name="pg_171">{171}</a> se internam no paiz. As estradas são regueiras
+enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se transformam em rios caudalosos.
+Caminha-se por esses <em>uâdis</em>, e na falta d'elles seguem-se as direcções
+rigorosamente determinadas pela situação de póços e cisternas, sem cuja agua a
+vida seria impossivel no deserto.</p>
+
+<p>Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
+percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
+<em>simoun</em>.</p>
+
+<p>Para combater o primeiro, iam os açacaes&mdash;<em>sakka</em>&mdash;encarregados de
+conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam novas
+provisões da dos depositos, que encontravam.</p>
+
+<p>Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
+exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em armas. Os
+nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes, pois que taes
+bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma caravana, como um general
+europeu de ter bombardeado e conquistado uma praça de guerra; e, se não erguiam
+uma estatua ao scheick, por elles muito venerado, e que os conduzia á victoria,
+é porque na Arabia, a ninguem se fazia essa consagração.</p>
+
+<p>O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.<a class="pn"
+name="pg_172">{172}</a></p>
+
+<p>Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois todo o
+Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então um aspecto
+sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia finissima,
+arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar embravecido, era preciso
+fugir a toda a pressa!</p>
+
+<p>Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!</p>
+
+<p>O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais
+turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos,
+os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes
+<em>navios do deserto</em>, desarvoravam, partiam á desfilada, zombando da
+vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de
+conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças.
+</p>
+
+<p>Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia
+abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a
+calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á
+mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a
+esperança de sobreviver os abandonava!</p>
+
+<p>Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
+desfalleciam, caíam inanimes<a class="pn" name="pg_173">{173}</a>
+n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e tumulo, até que
+novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas numerosissimas do
+implacavel e deshumano simoun!</p>
+
+<p>De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio
+fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.</p>
+
+<p>Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia,
+que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes,
+que cercavam a <em>mãe das cidades</em>, a Om-el-Kora dos arabes.</p>
+
+<p>A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
+pelo <em>propheta</em> a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
+para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.</p>
+
+<p>Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
+Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á
+roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.</p>
+
+<p>N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre
+de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de
+tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o
+caracteristico predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana
+fizeram uma ablução geral, chamada <em>ghort</em>, substituiram os seus trajos
+de viagem pelo <em>ihram</em>,<a class="pn" name="pg_174">{174}</a> o
+calçado pelas chinelas&mdash;<em>besmak</em>&mdash;, e perfumaram-se. As musulmanas
+tambem purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o
+<em>ihram</em>, e denominado <em>yaschmak</em>.</p>
+
+<p>Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de <em>hadji</em>, depois
+d'ella era tratado pelo de <em>mohrim</em>; e as suas vestes ficavam
+santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente
+guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.</p>
+
+<p>A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho&mdash;os
+homens em voz alta e as mulheres em voz baixa&mdash;muitas orações, terminando pelo
+<em>Tebiya</em> ou <em>Lebbeika</em>.</p>
+
+<p>Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando
+as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem
+atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas
+numerosas, pronunciaram o <em>tekbir</em> e o <em>tehlil</em>, que consistem em
+dizer: <em>Allah Akbar</em>&mdash;Deus é grande; <em>Lá lla illá lla</em>&mdash;não ha
+outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos
+pregoeiros&mdash;<em>almuadens</em> ou <em>muezzinos</em>, voltado para a <em>kaaba:
+observai, observai a casa de Deus, a prohibida!</em> E logo irromperam
+descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal,
+approximaram-se da <em>pedra-negra</em>&mdash;<em>Hadjar elaswad</em>, para fazer o
+<em>touaf</em>, isto é, para dar sete giros em volta da <em>kaaba</em>,
+offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario,<a class="pn"
+name="pg_175">{175}</a> que se elevava no meio do atrio, e, conforme a
+crença arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.</p>
+
+<p>A mesquita&mdash;<em>mesgid</em>, <em>guma'a</em>, lugar de reunião, e tambem
+<em>Beïttallah</em>, casa de Deus, reduzia-se a um
+claustro&mdash;<em>sakhn-el-gama</em>, ou pateo aberto, formando um parallelogrammo
+perfeitamente regular, ladeado de porticos levantados sobre quatrocentas e
+noventa e uma columnas, umas de granito outras de marmore, e para o qual davam
+accesso dezenove portas, destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem,
+irregulares emfim na sua construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em
+arco de volta inteira.</p>
+
+<p>As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram
+cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete
+minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um
+modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.</p>
+
+<p>A fórma e architectura da notabilissima <em>kaaba</em> não desmentiam, com
+effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de altura, com
+paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o Norte uma
+pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo. Este templo
+apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia guardado
+pelo muslim, ou de reunião&mdash;<em>iom el guma'a</em>, e tambem<a class="pn"
+name="pg_176">{176}</a> quando se celebrava o anniversario natalicio do
+propheta. Ao scheick dos anciãos, ou <em>xaibins</em>, pertencia abrir a porta.
+Para isto subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em
+que terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina,
+chamada <em>Albarcá</em>, especie de véo de purpura, que se extendia sobre a
+porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de prata.</p>
+
+<p>O povo, ao invadir a <em>kaaba</em>, rompia, de braços abertos e mãos
+erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua
+misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»</p>
+
+<p>O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
+pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
+pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por
+ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro
+bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O
+exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta, chamado
+<em>Kesoua</em>, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os
+primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda
+por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o
+véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta,
+nas quaes<a class="pn" name="pg_177">{177}</a> se liam inscripções
+piedosas e textos do Corão.</p>
+
+<p>Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
+dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas
+dos anjos, que voavam em torno da <em>kaaba</em>, e que levarão um dia o
+sagrado véo deante do throno de Allah.</p>
+
+<p>A <em>pedra-negra</em> era o unico ponto da <em>kaaba</em>, permanentemente
+offerecido á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para
+nórdéste, achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
+chapas de prata.</p>
+
+<p>Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de
+Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus
+arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada
+junto de Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho <em>páe dos
+crentes</em> estava construindo a <em>kaaba</em>. A Pero da Covilhan, porém,
+pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma substancia amarellada;
+ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um vermelho carregado, que
+podia passar por negro.</p>
+
+<p>Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento,
+em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de
+mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens
+maculados<a class="pn" name="pg_178">{178}</a> de iniquidades de toda a
+especie a tinham assim metamorphoseado.</p>
+
+<p>No páteo da mesquita, e pérto da <em>kaaba</em>, elevava-se outra
+construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que
+o santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e
+afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a
+tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço
+de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A
+sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos
+os lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a
+fonte, d'onde se tirava a agua santa para a purificação.</p>
+
+<p>Junto da <em>pedra-negra</em> começavam e terminavam os giros, durante os
+quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a pedra,
+se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois no caso
+contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios. Seguia-se
+beijar o nobre <em>Alcamamo</em> ou <em>maquam d'Ibrahim</em>, o qual consistia
+em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e, por ultima
+ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.</p>
+
+<p>Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este
+nome, voltavam-se para a <em>kaaba</em> e recomeçavam as suas orações.
+Desciam<a class="pn" name="pg_179">{179}</a> depois lentamente ao valle
+Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e a de Meroua, para executarem alli
+a marcha, chamada <em>saï</em>, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas
+palavras, voltados para a <em>kaaba</em>: «Ó meu Deus, sê misericordioso;
+perdôa os meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes
+direcções, para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por
+Abraham.</p>
+
+<p>Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa,
+com que terminava a peregrinação.</p>
+
+<p>Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de
+Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações
+quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se <em>Sabah
+Namazy</em>; a segunda, <em>Oilah Namazy</em>, ao meio-dia; a terceira,
+<em>Akindy Namazy</em>, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, <em>Acham
+Namazy</em>, ao sol posto; e a quinta <em>Yatzu Namazy</em>, ao serrar da
+noite.</p>
+
+<p>Precedia sempre as orações uma ablução
+parcial&mdash;<em>woudou'</em>, que consistia em lavar a cara, as
+mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o artelho. Antes de começar a reza,
+o crente extendia no chão o seu tapete quadrado, collocava-se de pé sobre elle,
+voltava-se para a <em>kaaba</em>, estando em Mecca, ou para esta, em outra
+parte, conforme a <em>quebla</em> estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de
+perdão&mdash;<em>istigfar</em>, elevava depois<a class="pn"
+name="pg_180">{180}</a> as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e
+quasi em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
+chamada <em>tekbir</em>. Passava ao <em>fatihah</em>, e pronunciava ao menos
+tres versiculos, ou <em>ayat</em>, d'esta oração, que é a primeira sura do
+Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
+e cravando os olhos no chão. Declamava o <em>tesbihk</em>, inclinando o corpo e
+a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a posição do
+<em>fatihah</em>, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
+prosternação&mdash;<em>soudjoud</em>, durante a qual repetia o <em>tekbir</em> e
+tres vezes o <em>tesbihk</em>, tendo a face voltada para a terra, os dedos das
+mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava
+um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos, e
+repetia o <em>tekbir</em>. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a
+direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a oração,
+estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.</p>
+
+<p>A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um <em>rick'ah</em>.</p>
+
+<p>Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente
+do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate
+contra o espirito das trevas.</p>
+
+<p>No mez de <em>schewal</em>, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro
+dos mezes da peregrinação,<a class="pn" name="pg_181">{181}</a>
+accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as velas da mesquita, bem como os
+candieiros das torres, illuminando-se igualmente o eirado do edificio, na noite
+do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte celebrava-se a oração da
+paschoa, pois que no mez anterior, o <em>ramadhan</em>, era a quaresma, durante
+a qual nenhum musulmano comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr
+do sol até o romper d'alva.</p>
+
+<p>Chegado o primeiro dia do mez de <em>doulkaadah</em>, que era o undecimo,
+tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
+abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao dia
+da subida a Arafat. No setimo dia o <em>iman</em> pronunciava do alto do mimbar
+na mesquita a <em>khotbat-el-hadjï</em>, isto é, uma allocução, em que
+explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
+celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de
+Miná. Este dia chamava-se de reflexão&mdash;<em>Ianm terwia</em>, alludindo á
+incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu
+filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão
+diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração
+matutina, a caravana subia á montanha de Arafat, onde existia uma
+capella&mdash;<em>turben</em>, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel
+fôra ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme<a
+class="pn" name="pg_182">{182}</a> o ritual, os crentes, depois de uma
+oração feita na propria <em>kubba</em>, armada no acampamento, iam esperar o
+pôr do sol, e entretanto o <em>iman</em> erguia os braços ao Céo, para invocar
+a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes
+unisonas; <em>Lebeïk Allahouma Lebeïk!</em> Nós estamos ás tuas ordens, ó Deus!
+</p>
+
+<p>Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a
+<em>Djebel Farkh</em>, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
+catarata de espuma!</p>
+
+<p>No segundo dia punha-se em marcha, atravessava
+<em>Elmeschar-el-haram</em>&mdash;o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em
+confusão enorme, o apertado valle <em>Onadi-monhassar</em>&mdash;o valle maldito, e
+chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas, junto do
+<em>Djamrat-el-Agabé</em>, sete pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em
+signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do arremesso:
+<em>Bismillah!</em>&mdash;Em nome de Deus!</p>
+
+<p>Os sete seixinhos, que tomavam o nome de <em>Hassiato-Aljemar</em>, eram
+expressamente apanhados em Monzdelifat.</p>
+
+<p>Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima,
+que trouxesse.</p>
+
+<p>A caravana regressava a Mecca para visitar a <em>kaaba</em>, fazia nova
+romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade <em>santa</em>, antes de
+commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar pela<a class="pn"
+name="pg_183">{183}</a> terceira e ultima vez á <em>kaaba</em>, a fim de
+celebrar os <em>Thonaf-wida</em>&mdash;procissões da despedida; ao pôço de Zemzem
+onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e retirava-se
+finalmente pela porta do adeus&mdash;<em>Bab-el-wida</em>.</p>
+
+<p>Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de
+um <em>uâdi</em>, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde raro
+corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes inundações, indo
+depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.</p>
+
+<p>As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam
+sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por
+singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios
+do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades
+arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa
+regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes
+suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto monotono.</p>
+
+<p>Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques,
+cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana
+Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid.
+</p>
+
+<p>Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio
+muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que<a
+class="pn" name="pg_184">{184}</a> em seus bazares accumulavam-se as
+producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e faziam-se negocios
+importantes.</p>
+
+<p>No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e
+carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que,
+mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
+<em>foluzes</em>, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
+duas alcôfas de differente tamanho, chamadas <em>Magtalá</em>, as compras
+feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.</p>
+
+<p>O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento,
+e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles,
+como pasta, a que chamavam <em>hops</em>.</p>
+
+<p>De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que
+verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.</p>
+
+<p>Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos,
+mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube,
+que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da
+peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas
+mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando
+ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da <em>kaaba</em>, o aroma
+expirado por seus vestidos<a class="pn" name="pg_185">{185}</a>
+predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que muito tempo depois de
+retirarem, permanecia alli o seu vestigio fragrantissimo.</p>
+
+<p>Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A
+muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os
+tingiam, velhas e moças, com o <em>kohl</em>, que do mesmo modo empregavam nas
+pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas ampleavam e
+arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás palpebras, esbatiam
+os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o
+<em>kohl</em> um verdadeiro collyrio, e um remedio soberano contra as
+ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e
+nas mãos com um certo pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha
+despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada,
+servindo-se para isso de uma erva denominada <em>elhene</em>.</p>
+
+<p>As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes
+um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma
+pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.</p>
+
+<p>Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do
+Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande
+similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa&mdash;o que<a
+class="pn" name="pg_186">{186}</a> sómente bastaria, á falta de outras
+provas, para demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.</p>
+
+<p>As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são
+o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu
+gosto.</p>
+
+<p>O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
+abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas,
+compunha-se geralmente de uma larga tunica&mdash;<em>farmla</em>, atada na cintura
+com o <em>samla</em> ou <em>foutah</em>, e um véo&mdash;<em>tarbah</em>, que cobria
+a cabeça e quasi todo o semblante.</p>
+
+<p>Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de
+espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o
+pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as
+quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros
+desempenados, as deusas da Grecia antiga.</p>
+
+<p>Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente
+um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam
+verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que,
+muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair
+artificiosamente o véo, regalando os olhos de quem as via.<a class="pn"
+name="pg_187">{187}</a></p>
+
+<p>Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
+esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér
+desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.</p>
+
+<p>Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita,
+gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser
+preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual
+ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma
+na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito
+do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.</p>
+
+<p>Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as
+cinzas de Mahomet. Os mercadores&mdash;<em>gellabys</em>, carregaram de provisões os
+seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os seus
+tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o <em>kyrba</em>, ou gancho
+indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por
+impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o caminho, nem
+de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de sobejo e não lhes faltava
+tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas necessidades occorriam as
+esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes viam-se grandes caldeirões
+de cobre, chamados <em>arraçuato</em>, para cozinhar a comida nos aduares, os
+quaes<a class="pn" name="pg_188">{188}</a> eram illuminados por lanternas
+immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite. Em varios
+<em>meharas</em> enfeitados com collares de sêda, e o <em>henné</em> ou
+apparelho coberto com magnificos brocados, sobresaíam os <em>attatouch</em>, ou
+palanquins, para commodamente se recostarem as mulheres opulentas.</p>
+
+<p>O alfange, o punhal&mdash;<em>khamtscher</em>, a faca,&mdash;<em>bitschak</em>, a
+lança, a alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.</p>
+
+<p>A cidade do propheta <em>Medinet-el-Nebi</em>, distava de Mecca onze dias de
+jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
+extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E a toda
+essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas Mecca e Medina,
+davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
+<em>houdoud-el-haram</em>.</p>
+
+<p>Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a
+sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento
+funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa
+mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por
+trezentas lampadas.</p>
+
+<p>O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os
+de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra.
+Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da
+altura<a class="pn" name="pg_189">{189}</a> por uma grade de ferro com
+intervallos estreitissimos.</p>
+
+<p>O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob
+um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de
+prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se
+sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata,
+em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua
+de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras
+preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.</p>
+
+<p>Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual
+paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do
+enviado.</p>
+
+<p>Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas
+tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do
+tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em
+que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo
+propheta, e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu
+filhinho. Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse,
+suspiraria inconsolavel até ao dia de juizo!»</p>
+
+<p>O pulpito era feito de tamargueira.<a class="pn"
+name="pg_190">{190}</a> </p>
+
+<p>Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
+faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
+sudoeste d'ella, no mar Vermelho.</p>
+
+<p>Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do
+propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de
+Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser
+transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria
+alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se
+tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes
+a morrer de sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul
+prolongava-se a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de
+palmeiras juntos de póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar,
+moderavam de longe em longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as
+argilas alternavam com as areias e a greda.</p>
+
+<p>Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando
+em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando
+a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.</p>
+
+<p>Chegou emfim ás portas da Abyssinia.<a class="pn"
+name="pg_191">{191}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001400">XII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001410"><em>NA ABYSSINIA</em></a> </h2>
+
+<p>Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente
+Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que
+Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia,
+para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem
+deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a
+mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam
+seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos
+olhos da Europa a historia da Abyssinia.</p>
+
+<p>Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade
+credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no
+seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o
+islamismo.<a class="pn" name="pg_192">{192}</a></p>
+
+<p>Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?&mdash;Ninguem sabia responder;
+pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez
+por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.</p>
+
+<p>Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado
+entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela
+Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a
+Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou o
+<em>Kolla</em>, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados,
+encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora
+especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media,
+ou o <em>Onaïna Déga</em>, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais
+fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou o <em>Déga</em>,
+cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas
+montanhas.</p>
+
+<p>As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece
+formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero
+d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta
+dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a
+quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade
+impreterivel de as collear e transpôr; por<a class="pn"
+name="pg_193">{193}</a> isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da
+Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão
+invios caminhos, voltassem para traz.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe
+afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o
+Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a
+desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham
+cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das
+chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os
+numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.
+</p>
+
+<p>Então o Tacazé ou <em>Nilo negro</em>, que na bacia hydrographica
+septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem
+banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado
+impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande
+lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou <em>Nilo azul</em>,
+atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e
+tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios
+indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o
+vertice das montanhas.<a class="pn" name="pg_194">{194}</a></p>
+
+<p>Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.</p>
+
+<p>Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos
+purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em
+mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das
+florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das
+aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das
+flores e dos fructos.</p>
+
+<p>Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido,
+aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía,
+determinada pelas grandes differenças de nivel!</p>
+
+<p>A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas
+as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios
+no mesmo solo.</p>
+
+<p>O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar
+insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas
+centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe
+mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das
+nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.</p>
+
+<p>Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa
+as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.<a class="pn"
+name="pg_195">{195}</a></p>
+
+<p>Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma
+extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções
+extraordinarias, bem como o <em>teff</em>, coberto de flôres purpurinas, e cujo
+grão oblongo dá uma farinha saborosa.</p>
+
+<p>O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do
+Sudão, devastam as ceáras, o <em>enséte</em>, que é uma especie de bananeira,
+cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja
+completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.</p>
+
+<p>Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero
+infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a
+vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente
+de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.</p>
+
+<p>O agigantado <em>baobah</em>, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a
+palmeira excelsa, o <em>kuara</em> com as suas bellas flôres coralinas, a
+<em>mimosa</em>, o <em>cusco</em>, o <em>wansey</em>, cujas flôres alvissimas
+abrem todas a um tempo, o <em>daro</em>, que escolhe, para os abrigar com a sua
+sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores
+egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros
+massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais
+singulares e formosos cambiantes.</p>
+
+<p>No mesmo solo humedecido, e alcatifado de<a class="pn"
+name="pg_196">{196}</a> flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos,
+emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas
+pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala,
+subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.</p>
+
+<p>E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu
+retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos
+do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena
+animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus
+movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça
+de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela
+immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho
+das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem
+das aves, mórmente da do <em>sonis-manga</em>, ou <em>cynnirus splendidus</em>,
+conforme a denominação scientifica moderna.</p>
+
+<p>Nas regiões mais aridas, o <em>cactus</em>, a especie de euphorbio,
+denominada <em>kolquall</em>, a palmeira anã, o <em>kautuffa</em> coberto de
+espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são
+testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas,
+corças, e outros antilopes, como o <em>beni-israil</em>, igualmente elegantes,
+que logram escapar, por causa da ligeireza dos<a class="pn"
+name="pg_197">{197}</a> movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis
+inimigos.</p>
+
+<p>Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de
+asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a
+todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.</p>
+
+<p>Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,
+garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes
+elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte
+bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios,
+em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.</p>
+
+<p>No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos
+se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras
+plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os
+montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o
+<em>Kousso-Brayera anthelmintica</em>, e o <em>Gibarra</em>&mdash;Rhynchopetalum,
+que se elevam descommunalmente.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de
+medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles
+tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da
+caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.<a class="pn"
+name="pg_198">{198}</a></p>
+
+<p>Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel,
+por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem
+a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as
+quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não
+só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as
+tinham dispostas.</p>
+
+<p>Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa
+distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados
+uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com
+symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados
+alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á
+mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e
+outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados,
+tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam
+duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro
+d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes
+colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com
+azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de
+um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande<a class="pn"
+name="pg_199">{199}</a> tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos
+arruamentos milhares de outras, todas brancas.</p>
+
+<p>Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu,
+por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada
+sensação no ajuntamento.</p>
+
+<p>Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que
+vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para
+o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico&mdash;já n'esse tempo a
+lingua da côrte&mdash;que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de
+entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso
+imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado.
+O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á
+presença d'elle Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um
+catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas
+barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado
+da sua côrte.</p>
+
+<p>Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao
+chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu
+pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do
+soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe.
+O Préste mandou-o<a class="pn" name="pg_200">{200}</a> levantar, fez-lhe
+algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João
+II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para
+mais tarde conversarem largamente, como desejava.</p>
+
+<p>Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os
+grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das
+cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia
+publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e
+a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.</p>
+
+<p>A côrte compunha-se do <em>Bellátimoche goytá</em>, mordomo-mór; do
+<em>Tecácase Bellátimoche-goytá</em>, pequeno mordomo-mór; dos dois
+<em>Betendet</em>, os validos do imperador; do <em>Titaurári</em>, que fazia o
+officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso
+frequentava diariamente a tenda imperial o <em>Abima</em>, que quer dizer páe,
+e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da
+Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha
+grande auctoridade, o <em>étch'égé</em>, prelado do numeroso clero regular, e
+officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado pelo
+<em>abima</em> Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do
+<em>abima</em>, havia o <em>Labeata</em>, padre de nomeação imperial. Junto do
+soberano funccionavam os <em>Azages</em> e <em>Umbares</em>, dezembargadores
+e<a class="pn" name="pg_201">{201}</a> ouvidores do imperio, sem
+escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na
+presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as
+sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo
+immenso de trapaças.</p>
+
+<p>O livro da lei, <em>Fitha Negoust</em>, compunha-se de textos mal traduzidos
+do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem
+ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na
+presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que
+jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e
+se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua
+alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim
+os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha,
+assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade
+disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com
+os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que
+jurava: amen.</p>
+
+<p>O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o
+juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que
+sobre tudo temia.</p>
+
+<p>As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias
+festivos e para as<a class="pn" name="pg_202">{202}</a> grandes
+recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco
+em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas
+sentinellas.</p>
+
+<p>Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta,
+na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras
+de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo
+metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia;
+sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar
+unicamente na direcção dos homens que o antecediam.</p>
+
+<p>Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a
+comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido,
+que fazia afastar a gente.</p>
+
+<p>Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de
+maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um
+cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de
+leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita
+pedraria falsa.</p>
+
+<p>O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por
+clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.</p>
+
+<p>O <em>Titaurári</em> escolhia o lugar do arraial, assignalando<a
+class="pn" name="pg_203">{203}</a> com uma lança cravada no terreno o centro
+da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que
+dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da
+qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em
+bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.</p>
+
+<p>Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente
+d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte.
+Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de
+duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil;
+tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma
+povoação em taes condições se tornava mister.</p>
+
+<p>As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.
+</p>
+
+<p>As pessoas pobres dormiam sobre o seu <em>Neté</em>, que era um coiro de
+boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como
+cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente
+uma pelle de carneiro, leão ou tigre.</p>
+
+<p>Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava
+voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver
+commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para
+evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á<a class="pn"
+name="pg_204">{204}</a> sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando
+a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,
+puniam-n'o sem julgamento prévio.</p>
+
+<p>Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as
+quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O
+travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada <em>bercutá</em>, onde
+não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não
+amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.</p>
+
+<p>Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais
+sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e
+não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás <em>ápas</em>, espécie de pão
+de varias farinhas, em que entravam a do <em>teraux</em> e a do
+<em>cousio</em>, e que tambem lhes servia de alimento.</p>
+
+<p>Sobre as <em>ápas</em> collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo
+estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de
+barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadas
+<em>escambiás</em>.</p>
+
+<p>Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,
+embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam <em>berindó</em> a este amargo
+manjar, um dos mais delicados da sua mesa.</p>
+
+<p>Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o
+hydromel; que<a class="pn" name="pg_205">{205}</a> constava de cinco ou
+seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia
+ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado
+<em>sardó</em>, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do
+mel.</p>
+
+<p>Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das
+mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com
+barro e selladas, e denominavam-se <em>gombos</em>. Os portadores d'ellas iam
+escoltados por muitos homens d'armas.</p>
+
+<p>Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que
+se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam
+da canna para alimento.</p>
+
+<p>Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do
+territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo
+escassa a producção de hortaliças.</p>
+
+<p>Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a
+quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos
+bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As
+perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das
+nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como
+gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas,
+differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.<a class="pn"
+name="pg_206">{206}</a></p>
+
+<p>Appareciam tambem coelhos e lebres.</p>
+
+<p>Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade,
+nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e
+unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos
+gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias
+lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.</p>
+
+<p>Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio.
+Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome de
+<em>gueddam</em> e seus governadores o de <em>alikas</em>.</p>
+
+<p>A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de
+algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes
+formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de
+telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra
+ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão
+unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de
+varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de
+pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe
+muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito
+delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel
+dos senhores.<a class="pn" name="pg_207">{207}</a></p>
+
+<p>Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os
+orientaes lhes chamam <em>hobesch</em>. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de
+rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente
+guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos
+aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias
+sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, do
+<em>foulah</em> ou <em>peulh</em>&mdash;raça vermelha, do arabe e do africano puro.
+N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos
+secundarios mais proximos, <em>bedjas</em>, <em>somali</em>, <em>galla</em> e o
+syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se
+o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça.
+</p>
+
+<p>Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e
+curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não
+occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e
+n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo,
+de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de
+egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de
+leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal
+cobria estas até ao joelho.</p>
+
+<p>Em geral a plebe não usava calçado, e o seu<a class="pn"
+name="pg_208">{208}</a> vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma
+capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.</p>
+
+<p>Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao
+artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e
+d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os
+calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos
+baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um
+collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem,
+tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia,
+consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles
+tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo,
+ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da
+terra ou de bofetá.</p>
+
+<p>Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto
+andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros,
+<em>ainda não estava na graça do Senhor</em>; mas logo que fallasse com o
+Préste, e saisse da sua tenda vestido, <em>já estava na graça do Senhor</em>.
+</p>
+
+<p>Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
+caprichosos. As mulheres<a class="pn" name="pg_209">{209}</a>
+encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam
+solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.</p>
+
+<p>O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois
+zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo,
+com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas
+<em>bolotás</em>; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças
+curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos
+estreitos, como se foram dardos.</p>
+
+<p>Os mais nobres cingiam espada&mdash;de que raras vezes se serviam&mdash;com
+empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns
+traziam tambem adaga.</p>
+
+<p>Os cavalleiros com sáia de malha&mdash;que poucos eram&mdash;não se curavam de
+rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.</p>
+
+<p>Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro
+choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.</p>
+
+<p>Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e
+bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham
+ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos
+estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.</p>
+
+<p>Além da gente de armas, era muita mais a que<a class="pn"
+name="pg_210">{210}</a> seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias
+inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as <em>ápas</em> e o
+hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros,
+não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações
+passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente
+selvagem.</p>
+
+<p>Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras
+effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados <em>amalé</em>,
+cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.</p>
+
+<p>Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e
+estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e
+aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras
+com a corrente das aguas.</p>
+
+<p>A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia,
+explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a
+natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos
+importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.</p>
+
+<p>A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em
+Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.<a
+class="pn" name="pg_211">{211}</a></p>
+
+<p>Junto de um immenso <em>daro</em> elevava-se o templo christão, que era de
+formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas
+abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
+denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.</p>
+
+<p>Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam
+hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces
+esculturas, que revelavam um cinzel grego.</p>
+
+<p>N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a
+christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os
+primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a
+prophecia de David.</p>
+
+<p>Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da
+sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de
+judaismo, com traços de budhismo.</p>
+
+<p>Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas
+egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.</p>
+
+<p>Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia
+com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e
+sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas
+portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se<a class="pn"
+name="pg_212">{212}</a> facilmente, que não deixaram discipulos os artistas,
+que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo
+attribuidas aos egypcios todas essas obras.</p>
+
+<p>Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro
+sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço
+comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos
+o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava
+á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe
+ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo
+sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em
+gheez, que era a lingua lithurgica.</p>
+
+<p>O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
+admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso.
+Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou
+insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle
+usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se
+affirmava.</p>
+
+<p>Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos
+tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.</p>
+
+<p>O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o
+contrahia com o tacito<a class="pn" name="pg_213">{213}</a> ou expresso
+consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso
+fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes
+asqueroso, das causas de divorcio.</p>
+
+<p>As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam
+indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a
+hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas,
+deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois,
+pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as
+vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola
+furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem
+cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o
+clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.</p>
+
+<p>Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a
+cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar,
+quando iam já distantes.</p>
+
+<p>A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser
+muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano
+não podia considerar-se completamente absoluto.</p>
+
+<p>E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:<a class="pn"
+name="pg_214">{214}</a> arcyprestes&mdash;<em>komosats</em>;
+conegos&mdash;<em>debterats</em>; curas&mdash;<em>kasis</em>;
+vigarios&mdash;<em>nefk-kasis</em>; diaconos&mdash;<em>diakons</em>; e
+sub-diaconos&mdash;<em>nefk-diakons</em>.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel
+moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se
+dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com
+repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a
+resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o
+mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa.
+E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia,
+prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e
+florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio
+immenso emfim.</p>
+
+<p>A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o
+soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e
+distrahi-lo do proposito de voltar á patria.</p>
+
+<p>Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente
+ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha
+de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da
+sua casa.</p>
+
+<p>Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se<a class="pn"
+name="pg_215">{215}</a> perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os
+ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres
+insensiveis que o cercavam!...</p>
+
+<p>Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um
+povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade
+tambem distante!...</p>
+
+<p>E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
+rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos
+ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas
+recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os
+segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos
+ardentes de a vêr!...</p>
+
+<p>Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...</p>
+
+<p>A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a
+miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de
+estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.</p>
+
+<p>Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez,
+a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem
+perspectiva.</p>
+
+<p>Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o
+alfabeto ethiopico do das<a class="pn" name="pg_216">{216}</a>
+inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo
+numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia
+estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da
+direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das
+semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.</p>
+
+<p>O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o
+amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado
+do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão
+aparentado com o egypcio antigo.</p>
+
+<p>Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios
+dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso
+alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe
+reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua
+modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz,
+conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que
+nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir o <em>novo senhor</em>.
+O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles
+povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto
+de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho
+ou filha,<a class="pn" name="pg_217">{217}</a> que nos deixeis em penhor,
+mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha;
+não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque
+tendes em nós um amigo.»</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu
+profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
+«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença
+pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»
+</p>
+
+<p>Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse
+passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou
+de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar
+os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se
+encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem
+por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes
+entregou.</p>
+
+<p>Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam;
+mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia
+do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente
+sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.</p>
+
+<p>Helena considerava-se a mais ditosa filha da<a class="pn"
+name="pg_218">{218}</a> Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre
+uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e
+fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou
+feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os
+corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que
+eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do
+<em>daro</em>, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que
+vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!...
+Amo-te muito!... muito!...»</p>
+
+<p>Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas
+lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...</p>
+
+<p>Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...</p>
+
+<p>&mdash;E porque chorava?!...</p>
+
+<p>Pobre coração humano!...<a class="pn" name="pg_219">{219}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001500">XIII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001510"><em>REMATE</em></a> </h2>
+
+<p>O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor
+de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se.
+Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir
+no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a
+vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe
+incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer,
+e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar
+a enfermidade d'esse amor.</p>
+
+<p>Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do
+amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a
+engrinardar-lhe o nome. Assim o<a class="pn" name="pg_220">{220}</a>
+esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.</p>
+
+<p>D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem
+de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas
+ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um
+espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo
+illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa
+Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua
+intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!</p>
+
+<p>Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
+qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já
+sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto
+plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com
+o fim de collaborar, no desenvolvimento da prosperidade nacional, e na
+exaltação da fé catholica.</p>
+
+<p>No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não
+olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria
+impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista
+eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes,
+para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.<a
+class="pn" name="pg_221">{221}</a></p>
+
+<p>Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle
+uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da
+sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para
+a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI,
+indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não
+houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.</p>
+
+<p>Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que
+fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.</p>
+
+<p>Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa,
+antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,<a name="tex2html9"
+href="#foot659"><sup>[9]</sup></a> a qual occupava as casas, de que lhe havia
+feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé,
+contra o muro velho da cidade.</p>
+
+<p>O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
+conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha
+fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte,
+era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do
+sitio sabiam já a hora, a que <em>elle</em> passava para as aulas, ou saía a
+passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os<a
+class="pn" name="pg_222">{222}</a> olhos no galante <em>moço</em>. Maria
+Thereza ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava
+a despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a
+sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez sorria-se
+maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.</p>
+
+<p>Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a
+Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até
+na graça da palestra.</p>
+
+<p>Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
+acto para licenciado, causou assombro aos mestres.</p>
+
+<p>Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico.
+</p>
+
+<p>Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente
+foi logo convida-la, para reger a cadeira,<a name="tex2html10"
+href="#foot663"><sup>[10]</sup></a> que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o
+convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não
+pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de
+que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
+se façam».</p>
+
+<p>Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria
+Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,<a
+class="pn" name="pg_223">{223}</a> durante quatro annos lectivos, cursou as
+aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou
+ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.</p>
+
+<p>D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
+Abyssinia por creados seus;<a name="tex2html11"
+href="#foot665"><sup>[11]</sup></a> como, porém, estivesse em preparativos de
+passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas
+de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria
+dar a Maria Thereza.</p>
+
+<p>Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha
+o escrinio, onde guardava aquellas cartas.</p>
+
+<p>Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença,
+que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor,
+desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de
+communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do
+throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de
+Alencastro&mdash;que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.</p>
+
+<p>Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver
+assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
+Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,<a class="pn"
+name="pg_224">{224}</a> d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e
+seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo.
+Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais
+commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra
+ás portas da morte.</p>
+
+<p>Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D.
+João II, ou <em>morreu o homem</em>, como sentenciosamente disse Isabel, a
+Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova
+certa do fallecimento.</p>
+
+<p>Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de
+vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr,
+que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão,
+que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso&mdash;quem
+sabe se nas festas de Evora!...</p>
+
+<p>No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez
+uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II
+havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns
+principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e
+documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.</p>
+
+<p>Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida
+os de maior transcendencia,<a class="pn" name="pg_225">{225}</a> que seu
+irmão praticou no começo do seu reinado.</p>
+
+<p>Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
+importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao
+novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas
+apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse
+junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia
+solicitasse a resposta.</p>
+
+<p>Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem
+gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas
+nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario
+apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares
+levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as
+buscaria.</p>
+
+<p>A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
+conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque
+já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo,
+agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de
+Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto
+d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.<a class="pn"
+name="pg_226">{226}</a></p>
+
+<p>Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia
+de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador
+Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a
+Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido
+na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.</p>
+
+<p>Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes,
+e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.</p>
+
+<p>Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham
+baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e
+por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua
+menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.</p>
+
+<p>As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos
+islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do
+imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados
+por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do
+Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se
+senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo
+o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente
+guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas
+n'esses<a class="pn" name="pg_227">{227}</a> paizes. A mosqueteria e
+artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.</p>
+
+<p>Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel
+vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção
+de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas
+victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se
+ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça,
+tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da
+India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe
+perguntava.</p>
+
+<p>Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
+fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do
+que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino,
+mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do
+Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na
+Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha,
+não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita
+honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na
+esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.</p>
+
+<p>A esquadra, composta de dez náus, largou do<a class="pn"
+name="pg_228">{228}</a> porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou
+tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D.
+Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do
+embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do
+rei.</p>
+
+<p>Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
+Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
+embaixada portugueza.</p>
+
+<p>Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu
+Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu
+destino, depois de longas e arduas jornadas.</p>
+
+<p>Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que
+exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se
+da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.</p>
+
+<p>Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito
+lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente
+sacrificou a vida pelo seu paiz.</p>
+
+<p>Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de
+Lima, dizia:</p>
+
+<p>«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até
+ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe
+como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».<a
+class="pn" name="pg_229">{229}</a></p>
+
+<p>Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah
+e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e
+aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim,
+lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam
+as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.</p>
+
+<p>Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...</p>
+
+<p>Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo <small>XVI</small>, sem
+comtudo irmos mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.
+</p>
+
+<p>Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
+seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e
+comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
+desejava, ou&mdash;porque não direi?&mdash;como nós ambos desejavamos.</p>
+
+<p>Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha
+Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu
+Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe
+conversar<a class="pn" name="pg_230">{230}</a> comvosco, condemnado, como
+estou a não mais vos vêr, nem ouvir.</p>
+
+<p>A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao
+lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a
+minha alma se fortaleça com tão duras provações!...</p>
+
+<p>De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem
+El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente
+dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o
+agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.</p>
+
+<p>Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei
+o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes
+portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á
+India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella
+cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os
+mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias,
+provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado.
+</p>
+
+<p>Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi
+Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar
+Vermelho.<a class="pn" name="pg_231">{231}</a></p>
+
+<p>Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
+visitar a <em>cidade santa</em>, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
+encorporei-me na sua caravana.</p>
+
+<p>Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
+senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto
+moveram mais as vossas orações do que as minhas.</p>
+
+<p>Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos
+meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.</p>
+
+<p>Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus
+lugares santos...</p>
+
+<p>Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive
+de tomar parte&mdash;perdôe-me Deus!&mdash;na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi,
+que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!</p>
+
+<p>É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
+variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos
+bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do
+<em>propheta</em>, e fazem-se negocios importantes.</p>
+
+<p>De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do <em>sancarrão</em>.
+Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e maninha.</p>
+
+<p>Terminada a peregrinação, retirei para Yambo,<a class="pn"
+name="pg_232">{232}</a> que é no mar Vermelho o porto, que abastece Medina,
+e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a Tor.</p>
+
+<p>Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O
+Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde
+vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na
+Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos
+hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com
+o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o
+propheta Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri
+emfim toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz
+biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de
+Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional,
+bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas,
+recebendo em troca os productos da Phenicia.</p>
+
+<p>Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar
+em Zeila.</p>
+
+<p>Tinha chegado ás portas da Abyssinia.</p>
+
+<p>A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e
+situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.</p>
+
+<p>Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma
+altissima serra,<a class="pn" name="pg_233">{233}</a> como se fôra
+inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual
+no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens
+a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á
+qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
+alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo com o
+prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e perdem-se
+totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis despenhadeiros
+abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da outra umas como
+portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam com tamanho
+risco de suas vidas.</p>
+
+<p>Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
+instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis
+vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?</p>
+
+<p>&mdash;Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por
+fiador, me mandaria a Portugal!</p>
+
+<p>Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!</p>
+
+<p>A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.</p>
+
+<p>Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
+perder-se-ia tudo quanto<a class="pn" name="pg_234">{234}</a> tenho
+feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre desconfiada, e em geral de pouca
+verdade, ficaria tendo-me na conta de um embusteiro; no que não perigava a
+minha consciencia, mas o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim
+tomariam por grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome
+de meu Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se
+com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
+respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não resolver
+o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.</p>
+
+<p>De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a
+natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo
+muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e
+conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as
+necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter
+as mais pacificas relações de amisade com o Préste.</p>
+
+<p>Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
+El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.</p>
+
+<p>Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a
+vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil
+admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias
+a<a class="pn" name="pg_235">{235}</a> este exilio, empregal-os-ei todos
+no serviço d'El-Rei, e da patria.</p>
+
+<p>Fui constrangido a constituir familia, e todavia&mdash;crêde-me, Thereza!&mdash;vivo
+em uma solidão immensa!...</p>
+
+<p>Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as
+suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar
+do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E,
+emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos
+juntar-se-hão no caminho do céo...</p>
+
+<p>Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser
+visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que
+repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe,
+experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...</p>
+
+<p>Não nos é dado realizar o impossivel!</p>
+
+<p>O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára,
+acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...</p>
+
+<p>Adeus.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida
+cecem das matutinas<a class="pn" name="pg_236">{236}</a> lagrimas
+rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os
+suspiros, que as entrecortavam.</p>
+
+<p>Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as
+coisas d'esta vida!...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem as ha certas&mdash;interrompeu D. Leonor com muito carinho&mdash;e uma
+d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me
+permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan:
+«de outro jámais serei!»</p>
+
+<p>&mdash;Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes&mdash;tornou a rainha&mdash;;
+mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!...
+Emfim é necessario, que penses no teu futuro...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr
+Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já
+não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde haver união mais santa&mdash;retorquiu com jubilo a rainha&mdash;; mas
+sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...</p>
+
+<p>&mdash;Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu
+proposito; anima-me,<a class="pn" name="pg_237">{237}</a> pelo contrario,
+a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser
+a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha
+fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois
+corações...</p>
+
+<p>&mdash;Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu
+coração de ouro!...</p>
+
+<p>Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
+regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça
+da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...</p>
+
+<p>Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
+mesmo affecto finissimo.</p>
+
+<p>Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente
+de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com
+sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e
+logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia
+de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria
+para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos
+esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com
+que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de
+candura.<a class="pn" name="pg_238">{238}</a></p>
+
+<p>Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada
+em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo
+para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se
+deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus
+primeiros ensaios em Portugal.</p>
+
+<p>Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais
+velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou
+edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.</p>
+
+<p>N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as
+asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se
+votou.</p>
+
+<p>Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos
+de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P.
+Francisco Alvarez:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
+sacrificios.</p>
+
+<p>Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado
+em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura,
+onde espéro servir melhor a<a class="pn" name="pg_239">{239}</a> Deus, do
+que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o
+Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção
+pura, com que lh'as dirijo.</p>
+
+<p>Elle vos acompanhe sempre!</p>
+
+<p>     Adeus.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas,
+onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa
+do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide,
+na qual se lia unicamente;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">A<small>QUI ESTÁ A RAINHA </small>D. L<small>EONOR.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua
+vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!</p>
+
+<p>As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre
+testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do
+glorificado.</p>
+
+<p>O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que
+tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.</p>
+
+<p>As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se<a class="pn"
+name="pg_240">{240}</a> definitivamente no seculo <small>XVI</small>, e
+conservaram-se até o seculo seguinte.</p>
+
+<p>Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento
+de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do
+mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah,
+abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto.
+D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do
+sultão ottomano.</p>
+
+<p>E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a
+9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de
+Zeila.</p>
+
+<p>D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o
+primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade
+acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o
+sentir.»</p>
+
+<p>Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes
+portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do
+seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.</p>
+
+<p>Aureos tempos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em
+latim,<a name="tex2html12" href="#foot704"><sup>[12]</sup></a> e sendo por<a
+class="pn" name="pg_241">{241}</a> isso aurora brilhantissima da renascença
+das lettras em Portugal.</p>
+
+<p>Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá
+contemplava o Tejo...</p>
+
+<p>Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com
+ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...</p>
+
+<p>E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar
+sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior
+recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!... <a class="pn"
+name="pg_242">{242}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_243">{243}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001600">NOTAS</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001610">A</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_3" name="nota_A" id="nota_A">P<small>AG. 3.</small></a>&mdash;«...
+<em>de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</em>». Como
+referimos no Cap. <small>XI</small>, o <em>tarbah</em> das musulmanas
+serve-lhes de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão
+um dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
+costume.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001620">B</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_26" name="nota_B" id="nota_B">P<small>AG.
+26.</small></a>&mdash;«...<em>a ponto de provocar a formação das Hermandades</em>».
+Estas confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por
+essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a segurança
+publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos fóros e liberdade
+dos povos e communidades que as formavam. Eram uma força importantissima, que
+os reis catholicos habilmente aproveitaram depois, fazendo depender do governo
+do Estado a disciplina e constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais
+tropas da <em>Hermandad</em>, aquelles principes lográram ter um corpo
+permanente de exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi
+um ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
+contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia da mais
+incommoda e turbulenta oligarchia.<a class="pn"
+name="pg_244">{244}</a></p>
+
+<p>Muito antes de conflicto do Toro já existia a «<em>santa hermandad</em>», e
+não foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se
+limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como erradamente
+affirma o Sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001630">C</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_33" name="nota_C" id="nota_C">P<small>AG.
+33.</small></a>&mdash;«<em>Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
+historia</em>». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas ácerca
+do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em assumpto de tanta
+monta, como a successão á corôa de Castella por morte de Henrique IV, diz: «o
+fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira e veridica do succedido podia
+offender a pessoas auctorisadas e poderosas».</p>
+
+<p>É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001640">D</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_47" name="nota_D" id="nota_D">P<small>AG. 47.</small></a>&mdash;«...
+<em>o principe D. João casasse com a princesa de Castella, D. Joanna</em>».
+Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro de Toro, e tão
+affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II, sendo principe, muito
+desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas «condemnou depois o máu
+conselho d'elle, em não haver acceitado os primeiros casamentos d'aquelle
+reino: que era casar el-rei com a Infante D. Isabel, e elle com a princeza D.
+Joanna». Zurita, Anales de Aragon, tom. <small>IV</small>, liv.
+<small>XIX</small>, cap. <small>XVIII</small>.</p>
+
+<p>Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis D.
+Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de Clemencin,
+Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. <small>VII</small>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001650">E</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_69" name="nota_E" id="nota_E">P<small>AG. 69.</small></a>&mdash;«...
+<em>a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de um castelhano</em>».
+O sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em> mostra, não dar crédito
+ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito, recobrado o estandarte
+real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o tomou. Ignorava de certo, que
+existe<a class="pn" name="pg_245">{245}</a> em Torre d'Eita, povoação
+pouco distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
+o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de
+Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico feito
+de Toro.</p>
+
+<p>É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada visse
+passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o estandarte real
+portuguez a varrer as ruas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001660">F</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_90" name="nota_F" id="nota_F">P<small>AG.
+90.</small></a>&mdash;«<em>D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande
+predilecção pelos que cultivavam as lettras</em>». O sr. Oliveira Martins
+amesquinha com tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um
+<em>genio incoherente e curto no alcance</em>, concede-lhe a primasia em
+organisar uma bibliotheca no paço, mas... unicamente <em>por seguir a
+móda</em>; e occulta o facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o
+primeiro rei, que tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia
+portugueza.</p>
+
+<p>Singular criterio!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001670">G</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_100" name="nota_G" id="nota_G">P<small>AG.
+100.</small></a>&mdash;«...<em>cortezãos dotados de bôas prendas</em>». Talvez o
+leitor compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
+seculo <small>XV</small>, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de
+Frederico III, imperador da Allemanha.</p>
+
+<p>Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou nos
+ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de insensatos tanto
+nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em geral, incapazes de bons
+costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os olhos negros e furiosos.</p>
+
+<p>Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que
+foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001680">H</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_154" name="nota_H" id="nota_H">P<small>AG.
+154.</small></a>&mdash;«...<em>depois de ter descoberto a costa do Labrador</em>».
+Quem primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
+michaelense, sr. Ernesto do Canto, no <em>Archivo dos Açores</em>,<a
+class="pn" name="pg_246">{246}</a> vol. <small>XII</small>, pag. 529; e
+confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo <em>Quem deu o nome á Terra
+do Labrador</em>.</p>
+
+<p>Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que foi
+extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo indefesso
+investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito Rebello.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001690">I</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_155" name="nota_I" id="nota_I">P<small>AG.
+155.</small></a>&mdash;«... <em>a quem a patria não fez ainda a devida
+justiça</em>». Em a<em> Noticia Preliminar</em>, que precede o
+<em>Esmeraldo de situ Orbis</em>, publicação dirigida pelo douto academico sr.
+Raphael Basto, para a commemoração do quarto centenario do descobrimento da
+America, mostra o sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e
+do Roteiro de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o
+descobrimento da terra de <em>Vera Cruz</em>. Como temos, ha muito, esta
+opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a cujas
+investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a historia
+portugueza.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00016100">J</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_155" name="nota_J" id="nota_J">P<small>AG.
+155.</small></a>&mdash;«... <em>da geração e linhagem dos Machados</em>». É digno de
+reparo que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha
+materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que seus
+maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente gravadas no seu
+escudo.</p>
+
+<p>A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só pela
+sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são accórdes todos
+os nossos genealogistas.</p>
+
+<p>Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos, os
+Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com os
+Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos, os
+Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de modo que
+se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o sangue das duas
+familias.</p>
+
+<p>A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem estes
+mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos<a class="pn"
+name="pg_247">{247}</a> os parentes d'aquelles procurariam contribuir, para
+perpetuar o nome, que muito os distinguia aos olhos de seus conterraneos. E
+tanto os Barcellos iam n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a
+honrosissima carta, com que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os
+serviços do navegador Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o
+valor particular d'essa mercê.</p>
+
+<p>D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e aquelles
+a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei pesaria a
+circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a uma familia, que
+tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto podia ser informado o
+monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.</p>
+
+<p>De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II, que
+Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D. Affonso,
+primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar direito civil e
+canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor <em>in utroque</em>.
+Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande entendimento, summa
+prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das lettras, e as suas muitas
+virtudes e qualidades o fizeram conciliar os affectos de todos os principes do
+seu tempo.</p>
+
+<p>Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de Bragança
+se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão imparcial e
+recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando regente, o chamou para
+seu lado.</p>
+
+<p>Seu páe, Estevam Annes, <em>o Môço</em>, fôra educado na casa do condestavel
+D. Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em todas
+as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos Atoleiros.</p>
+
+<p>Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro Pinheiro de
+Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o denomina a carta de D.
+Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista Machado, que, renunciando o morgado e
+casa de seus páes, entrou na Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em
+22 de maio de 1617.</p>
+
+<p>O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o
+antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt. D'este
+e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel Borges do Canto,
+era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto Bettencourt do Carvalhal
+Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a uma intelligencia e a uma
+illustração sãs, que se lhe serviram de ornamento proprio, tambem<a
+class="pn" name="pg_248">{248}</a> contribuiram, para honrar mais ainda a
+sua estirpe nobilissima.&mdash;Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de meus
+filhos.</p>
+
+<p>Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte de
+D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza lhe deu,
+não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os enthusiasmos.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot117" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Canc. Gen.</p>
+
+<p><a name="foot128" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Canc. Gen.</p>
+
+<p><a name="foot173" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Hist.</p>
+
+<p><a name="foot187" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Camões.</p>
+
+<p><a name="foot255" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Ruy de Pina.</p>
+
+<p><a name="foot275" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Ruy de Pina.</p>
+
+<p><a name="foot375" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Canc. ger.</p>
+
+<p><a name="foot401" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Misc., Garcia de
+Rezende.</p>
+
+<p><a name="foot659" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot663" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot665" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot704" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Historico.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<h3>Notas de transcrição:</h3>
+
+<p>O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os
+erros apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas
+durante a transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram
+corrigidos nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das
+correcções aplicadas.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Pero da Covilhan, by
+Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
+***** This file should be named 32296-h.htm or 32296-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/2/2/9/32296/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
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+1.F.
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
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