summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:49 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:49 -0700
commitc85d4037aaae38d7756479e67008cc9c6930cb3c (patch)
tree3a5117a4753d548a85d2dad6d866dad3887ccc13
initial commit of ebook 30947HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--30947-8.txt4926
-rw-r--r--30947-8.zipbin0 -> 84583 bytes
-rw-r--r--30947-h.zipbin0 -> 88115 bytes
-rw-r--r--30947-h/30947-h.htm4978
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
7 files changed, 9920 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/30947-8.txt b/30947-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..d198ead
--- /dev/null
+++ b/30947-8.txt
@@ -0,0 +1,4926 @@
+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas da Aldeia
+
+Author: A. Augusto de Miranda
+
+Release Date: January 12, 2010 [EBook #30947]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+A. Augusto de Miranda
+
+
+SCENAS DA ALDEIA
+
+
+
+Editor
+
+A. Augusto de Miranda
+
+ 1909
+
+
+
+
+SCENAS DA ALDEIA
+
+Compos. e impres.--Typ. Universal
+54, Trav. de Cedofeita, 56
+e Rua das Oliveiras, 75, 77 Porto
+
+
+
+
+A. Augusto de Miranda
+
+
+SCENAS DA ALDEIA
+
+
+
+PORTO
+Typographia Universal, a vapor
+75, Rua das Oliveiras, 77
+1909
+
+
+
+
+_Ao Ill.mo e Ex.mo Snr._
+
+Conselheiro Albano de Mello
+
+ _Permitta-me V. Ex.ª, confidente das vicissitudes que tem agitado a
+ minha vida de ha sete annos a esta parte, que eu colloque o seu nome
+ illustre nesta pagina d'esta insignificante producção litteraria,
+ que para V. Ex.ª só tem o merecimento de ser um testemunho de
+ gratidão._
+
+ _A. A. Miranda._
+
+
+
+
+AOS MEUS PROFESSORES
+
+
+Aos meus Condiscipulos
+
+
+AOS MEUS AMIGOS
+
+
+
+
+ _Meu amigo:_
+
+_As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura
+do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a
+que, nas nossas lettras, se chama--um prefacio. Serão apenas uma ligeira
+carta sem subtilezas de critica profunda--a critica que nunca soube
+formular, porque os criticos são personalidades todos de intellecto
+raciocinado e frio e eu sou um homem todo de emoções._
+
+_Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte
+annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que
+primeiro os seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da
+vida, completamente afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que
+o seu temperamento esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para
+que depois, já em pleno triumpho, não se arrependessem dos
+inconsiderados impulsos da juventude. Eu, pelo contrario, digo-lhe que
+nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua actividade artistica dos
+primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia do seu talento um
+dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os trabalhos da
+iniciação representam até um documento essencial para o estudo das
+intelligencias evolutivas e ascendentes..._
+
+_Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a
+vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para
+ser-lhe agradavel--e isto pela viva sympathia que me inspirou. A
+novella, para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e
+de realisação, da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da
+analyse psychologica, de dextreza na modelação das figuras, da
+diversidade dos coloridos na pintura dos scenarios: e estes dons apenas
+advêm da tenacidade disciplinada e do estudo, porque ninguem nasce com
+um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo comprehender._
+
+_Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo
+prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que
+enternece algumas paginas--que é o sentimento d'uma alma pura e com
+finas delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora
+começa, um evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente
+deseja orientar-se e que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado
+por uma vontade sem desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria
+futura que desde já calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que
+para a sua apresentação se houvesse lembrado do meu nome humilde e sem
+auctoridade para estas ceremonias solemnes._
+
+_Porto, 5 d'Abril de 1909._
+
+ _Amigo muito affectuoso_
+
+ João Grave.
+
+
+
+
+PROLOGO
+
+Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente
+estudante mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes
+de trabalho para a consecução do qual tirei instantes preciosos
+destinados á ardua tarefa de que depende a minha vida futura--tarefa
+tanto mais ardua, quanto mais consideradas sejam as minhas escassas
+luzes intellectuaes.
+
+Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor
+por ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom
+mez, uma parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É
+appellando para essa attenuante que espero merecer a complacencia do
+publico em geral--tanto dos que convivem commigo de perto e que, vendo
+em mim um individuo sem aptidões para qualquer ramo do saber humano, vão
+ficar admirados da ousadia de semelhante passo, como dos que, sem nunca
+sequer me terem visto, esperam encontrar neste pequeno livro a summula
+do valor d'uma intelligencia promettedora que começa a manifestar a sua
+tendencia.
+
+Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres
+annos; e assim é que o meu livro, fatalmente eivado de todas as especies
+de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo para uma
+extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que
+inconscientemente commetti.
+
+Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos
+meus collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as
+difficuldades com que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.
+
+Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no _Correio d'Albergaria_ um
+artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que
+eu declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha
+mente. Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e
+publiquei então no mesmo jornal um excerpto sobre a transformação
+psychica de Maria Luiza.
+
+Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me
+preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres
+quotidianos, e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar
+sem prejuizo das minhas obrigações.
+
+Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a
+devoção, esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de
+caracter inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.
+
+O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor
+religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o
+sentimento religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a
+d'essa graça original e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor;
+julguei que era arrancar á vida da aldeia a sua alma.
+
+Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu
+pae--um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do
+seu coração quando me perfilhou--os desvelos que um filho recebe de seu
+pae carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria
+ter colhido da minha reclusão de alguns annos num seminario.
+
+D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os
+annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito
+com que os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes
+fica em caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos
+alumnos: finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer,
+uns criminosos inconscientes.
+
+D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a
+minha terra--Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da
+hypocrisia.
+
+Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença--quando se discutia no
+parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga--que todos
+os que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja
+de brutos--palavras textuaes--porque a variante da linha ferrea que
+então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia,
+prejudicava immenso, por causa d'uma terra _que não prestava para nada,
+sem valôr nenhum_, toda esta região que anceava pela execução do caminho
+de ferro do Valle do Vouga.
+
+Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram,
+com o culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças]
+que levava arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga
+que actualmente já se não fazem milagres, ou nunca houve quem os
+fizesse, engana-se.
+
+Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou,
+talvez, catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua
+totalidade.
+
+Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar ao _Index_.
+
+Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma
+vez do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que
+expuz, não deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a
+minha petição não será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo
+aqui consignado tambem o meu agradecimento pelos preciosos momentos que
+o leitor haja de dispender na leitura d'este ensaio.
+
+
+Aveiro, março de 1909.
+
+
+
+
+SCENAS da ALDEIA
+
+
+I
+
+Na margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz,
+espreguiça-se indolentemente, numa série de formosos outeiros e encostas
+de suave declive, uma aldeia.
+
+A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o
+verde das arvores e dos pinheiraes numa extensão de mais de quatro
+kilometros, suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da
+verdura d'aquellas collinas, como o lavrador atira a mão-cheia da
+semeadura á terra fecundante.
+
+Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam
+proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que
+uma mulher, conscia da sua formosura, lança áquellas que não receberam
+da natureza os dons com que ella foi dotada.
+
+Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doçura de um ar
+diaphano, as suas melênas são brandamente agitadas pelo sopro suave duma
+aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde puro da
+vegetação do campo, é banhada pelas aguas transparentes do meigo e terno
+Vouga.
+
+Eis, em simples bosquejo, o que é essa aldeia que se chama Alquerubim.
+
+Alquerubim!
+
+Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante
+ao de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!
+
+Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do
+sentimento que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me
+viu nascer.
+
+Não.
+
+Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta
+aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando
+pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos
+no mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no
+seio materno.
+
+Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a
+minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando
+por um prado tapetado de boninas e violetas.
+
+É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do
+meu peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura
+inexprimivel--a saudade.
+
+Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada
+arvore; em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por
+uma pedra desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga,
+um pedaço da minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a,
+invade-me a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de ter, em
+manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de
+verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.
+
+Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo
+inverno. Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama--Vida. E,
+ainda que na primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado
+por vendavaes ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de
+me assaltar, que eu procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração
+nas dôces recordações da minha juventude.
+
+Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas
+madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo
+se eleva um não sei quê parecido com um fumosinho que vem
+condensar-se-me nos olhos. Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um
+nevoeiro que me tolda a vista, mas muito tenue, que eu considero o
+chorar da alma. Porque a alma tambem chora.
+
+Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte,
+percorro com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas
+vezes andei horas esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na
+caminha de ferro que minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos,
+ao ouvir o badalar do sino logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava,
+e minha mãe ia ajudar-me a vestir a roupa nova para ir á missa; e eu lá
+ia, muito serio, ao lado de minha mãe, com uma bengalinha de bambú que
+me tinham dado, e depois da missa voltavamos para casa, eu almoçava e em
+seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o campo, com os meus
+companheiros. Recordo-me d'estes com saudade, alguns dos quaes, talvez
+mais felizes do que eu, já morreram, e outros, andam muito longe, alguns
+nem eu sei por onde, luctando com a vida, abreviando os annos da
+existencia...
+
+E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me,
+attenuam os dissabores da minha vida presente.
+
+Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica
+felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu
+movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle
+tambem não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves
+murmurios, a beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares
+das camponêsas em dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos
+apaixonados...............................................................
+..........................................................................
+
+Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia
+da cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o
+Dante e eu serei Beatriz.
+
+Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos
+de espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da
+natureza que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.
+
+Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições;
+serás testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas
+de paz, socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a
+chuva fustiga as folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da
+choupana, a sua canção monótona; assistirás ás festas intimas dos
+simples, ao seu labôr quotidiano, aos seus regosijos, ás suas alegrias,
+aos seus pezares; palrarás com a gente do campo e estudarás a sua bôa
+indole; espraiarás a vista por horisontes muito extensos, por sobre
+montanhas longinquas; aspirarás a largos sôrvos o ar purificado pela
+folhagem de centenares de arvores, cruzado pelo esvoaçar de milhares de
+avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de myriades de florinhas
+espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá as côres
+róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.
+
+Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades;
+a tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a
+mesma commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta,
+vendo-se sem a tranquillidado dos campos, disse--_ó rus, quando te
+aspicio!_--oh! campo, quando te tornarei a vêr!
+
+
+II
+
+O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para
+vêr nascer o sol.
+
+Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da
+aldeia. O ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as
+arvores em completo repouso.
+
+O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era
+uma d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e
+frescas. Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da
+madrugada.
+
+Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de
+heras, cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os
+seus trinados.
+
+Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados
+garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um
+tão grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle
+silencio--apenas entrecortado pela voz do rouxinol--que pairava em volta
+de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava
+um massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno--mais
+pequeno que o rouxinol.
+
+Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma
+vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella
+casa que, talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de felicidade
+e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e amargurada,
+debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do rouxinol,
+eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um
+rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam
+repassadas de pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a
+solidão em que aquellas paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a
+sua historia, como a casa da Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.
+
+Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem
+profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na
+pratica da virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa
+das resignações, palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um
+d'esses santuarios, e o rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo
+destino de acompanhar e realçar com as suas melodias sentimentaes
+aquelle quadro de saudade...
+
+Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de
+bois.
+
+O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo
+estendia-se já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.
+
+Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase
+de Vieira.
+
+O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.
+
+O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.
+
+Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle,
+arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus
+14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não
+mais de 7 annos, encostado á sebe de vimes, as mãositas mettidas
+profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não
+era cortado segundo as dimensões do seu corpo.
+
+--Eh! Tio Luiz! Bom dia.
+
+--Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?--Oh! Pára ahi,
+_loura_! Oh! _castanha_!--Isso é que foi madrugar, hein?
+
+--Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da
+madrugada.
+
+--Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para
+semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi
+por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no
+trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me
+aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a
+puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!
+
+--Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos
+de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de
+laboriosa, é a melhor que ha! Diga...
+
+--Ai! ai! ai! Se vamos...
+
+--Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é
+uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora
+a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias;
+preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado
+mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as
+ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito--do
+espirito, que é o melhor socêgo!--e dormir a somno solto a noite
+inteira! Você sabe lá quanto isso vale?
+
+--Tambem não sei, mas calculo... Mas, se quer que lhe falle com
+franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está
+pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões
+por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a
+levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma
+vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E
+vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe
+chama...
+
+--Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem
+ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não
+aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino
+que assim determinou...
+
+--Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a
+gente...
+
+--Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco
+tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar
+com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois
+tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e
+a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as
+eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu.
+Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gente
+_fidalga_, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito
+bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de
+vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico.
+Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais
+rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os
+empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho
+dão. Você ia-se habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada
+vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da
+inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma
+doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio.
+La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar
+uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem
+d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!
+
+--Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...
+
+--Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de
+lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.
+
+--Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?
+
+A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude
+tartamudear:
+
+--É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos
+encaminham...
+
+--Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que
+está o sol quasi a nascer. Para esta vida--acrescentou elle, rindo-se
+zombeteiro ainda do meu enleio--de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah!
+Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?
+
+--É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o
+seu tempo.
+
+--Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter
+lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.
+
+Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio
+Luiz, tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das
+vacas, exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino em
+andamento:
+
+--Eixe!
+
+O carro poz-se em movimento.
+
+--Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta
+casa, que alli está em ruinas?
+
+--Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou,
+por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.
+
+--Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é
+muito interessante.
+
+--Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas
+arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.
+
+--Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca
+reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou
+capaz de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?
+
+-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem,
+e olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o
+principal!
+
+--Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem,
+depressa ou devagar, ella ha-de sair!
+
+--Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...
+
+--Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta
+freguesia ha-de têl-a.
+
+--E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?
+
+--Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo
+para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo.
+Depois...
+
+--Sim, sim! É preciso tambem depois _imprensal-a_, e tudo leva tempo.
+
+--Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.
+
+--Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe
+que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?
+
+--Está dito.
+
+O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de
+orvalho, que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina
+transparencia.
+
+O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas
+semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os
+passaritos, esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a
+alvorada.
+
+Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão--era o
+sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.
+
+O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:
+
+--Agora vamos á nossa lida.
+
+Emquanto saltei, respondi:
+
+--Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras
+lavradas.
+
+--Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de pôr
+as vaccas á charrua!
+
+--Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno que,
+lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não
+podia ter ficado a dormir?
+
+--Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma
+prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que
+lhe faça?
+
+ * * * * *
+
+Quando me retirei--já o sol ia alto--o tio Luiz lá andava a revolver a
+terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo esforço.
+
+Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se
+multiplicou em dezenas d'elles.
+
+Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados
+alguns dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi
+sachado, mondado, arrendado e, por fim, cortado.
+
+Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e
+caricias verdadeiramente filiaes.
+
+Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na
+sua fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...--A
+esperança de quê?
+
+Nem elle o sabe, o lavrador.
+
+Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições,
+idolatrando os torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte,
+colhendo os fructos das arvores que elles plantaram, e plantando outras
+de que seus filhos depois colherão os fructos.
+
+E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano
+com instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de
+espirito, no dôce convivio da familia reunida em volta da lareira nas
+noites amenas do outomno.
+
+Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso
+repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias,
+a sua cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma
+robusta fogueira, transforma-se em um cenaculo onde reina a paz e o
+amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da
+noite sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha
+de estopa, senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do
+Nazareno na noite da ultima ceia.
+
+Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo
+luar ou pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa
+a dobrar ás almas, segundo o tradicional costume da aldeia,
+repercutindo-se o som de valle em valle, pelos campos além, penetrando
+os limites da freguezia visinha, até se perder na solidão da noite...
+
+
+III
+
+O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.
+
+Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu
+peito rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se
+derramava em obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma
+candida que logo se manifestava na ternura do olhar com que a todos
+envolvia.
+
+Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho,
+mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e
+bondoso, a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma
+rapariga de dezoito annos--o terceiro filho do casamento do tio Alameda
+com a sr.ª Maria das Dôres--chamada Helena, possuidora de uns olhos
+que--não é por eu gostar de olhos escuros em rosto moreno--lhe diziam
+tão bem, naquelle seu troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz
+nenhum na aldeia que não desejasse andar toda a vida perdido na
+escuridão d'aquelles olhos. E quando ria, deixava vêr, por detraz de
+dois labios nacarados que deviam ser dôces como favos de mel, duas filas
+de dentes brancos como a neve pura.
+
+A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de
+um creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que
+para alli tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma
+pupilla que, orphã de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda
+os carinhos paternaes que tão cedo lhe faltaram.
+
+Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade
+vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da
+adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.
+
+Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque
+o moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no
+mundo, mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa
+voz apagada e apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:
+
+--Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem
+no mundo...
+
+--Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e
+limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua
+Julia fica na minha companhia.
+
+O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que
+caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas
+faces mortalmente pallidas.
+
+Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.
+
+--Olha o que te digo, pequena--dizia-lhe elle carinhosamente uns dias
+depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu
+tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu
+não has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as
+saudades dos paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso
+vêr ninguem a chorar.
+
+E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.
+
+--Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o
+mundo. Mas depois que comecei a tomar conhecimento d'este mundo todo de
+enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as vezes que tinha
+motivo para isso, então não fazia outra vida.
+
+A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.
+
+--Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a
+ceia, e espairecer.
+
+E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.
+
+--Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o
+Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo
+que vá vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas
+chalaças, para distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.
+
+Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos
+annos?
+
+Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que
+contava cerca de cem annos quando morreu?
+
+Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma
+tigella de caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca
+de reduzir a achas o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia
+austera e encarquilhada debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou
+tres barretes sobrepostos e enterrados na cabeça.
+
+Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque
+trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço,
+embora vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de
+uma boa acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?
+
+O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira significação da palavra.
+Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem motivo, como
+succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica em
+equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei
+algumas. E elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de
+conservação, pegava tambem numa pedra ou num pau, e atirava-o, com
+phrenesi, pela estrada adeante, não reparando nos estragos que podia
+causar se viesse algum incauto. Era o unico indicio vago de loucura que
+lhe conheci.
+
+Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dão _sorte_ têm
+para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.
+
+Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a
+estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além
+d'isso, uma testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes
+tomou parte.
+
+Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões.
+Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida
+regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes--e ás
+vezes nem isso!--, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem
+escarnecidos--sómente porque eram pobres--homens que, outrora, no vigor
+da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes
+corria nas veias.
+
+O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos
+farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por
+habitação o ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes,
+entre dois lençoes de neve.
+
+Limitando o campo da sua vida de vagabundo á área d'esta aldeia, o
+Belbuth era um typo popular de genio differente do de Luiz de Paus--um
+outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao acaso por esse
+mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a tempos
+no logar de Paus, d'onde era natural.
+
+Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante
+originalidade, revelando o mau instincto do seu agente.
+
+Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria
+crise o combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de
+cavallaria 10 em Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe
+matavam a fome com uma parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.
+
+Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O
+Luiz de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada--pois a sentinella
+estava a dormir--pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre
+soldado do responder a um conselho de guerra.
+
+Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no
+quartel.
+
+Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia
+qualquer, alvoroçando o povo todo.........................................
+..........................................................................
+..........................................................................
+
+--Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?
+
+--Se eu namorei alguma vez? O quê?
+
+--O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?
+
+--Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!
+
+--Porquê? Fizeram-te algum mal?
+
+--A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança. Depois que vi o que
+succedeu a alguns companheiros meus por causa de taes mafarricos, nunca
+as pude vêr. Quer saber, tio José, o que succedeu um dia a um camarada
+meu por causa d'uma rapariga?
+
+--Conta lá.
+
+--Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu
+regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer;
+quando veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses,
+acolá para uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo
+ordem para ser procurado antes do regimento partir, por esses campos e
+montes. Partiram umas poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz
+parte d'uma.
+
+«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para
+os lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um
+homem assim, assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras
+nos apontou um pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar,
+poz-se de joelhos deante de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!
+
+«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a
+tal desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.
+
+--«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.
+
+--«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em
+terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e
+abandonou-me.
+
+«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos
+não fugiria.
+
+«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos fugiu; mas, quando
+passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não tornamos a
+apanhar senão morto.
+
+«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos
+castigados.
+
+«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá
+olhar com bons olhos uma mulher?
+
+--Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.
+
+--Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê
+corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de
+mulheres, perde-se quasi sempre!..........................................
+..........................................................................
+
+
+IV
+
+Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja
+capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo
+santo, domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado
+pela encosta de Travassô--uma encosta de aspecto taciturno, que olha com
+melancholia toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se
+estende, beijada desde a manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre
+Alquerubim.
+
+D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte
+da Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa
+páteira de Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre
+o extenso planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe,
+desenhando-se nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do
+Caramulo, com punhados de casinhas brancas a luzir no pardacento do
+sopé.
+
+Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente
+revestido de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um
+bando de pombas.
+
+O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos
+beijos, raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João,
+disposta em circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por
+sobre montes e valles, a uma grande distancia.
+
+Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma viola a tiracolo, encostado a
+um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo de moças.
+
+Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.
+
+Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao
+seu bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita
+pelas cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra
+caravêlha para afinar o instrumento, começar a dedilhar um
+acompanhamento de fado. Punha-se a cantar e, entretanto, já cercado de
+curiosos, não tardava que uma voz feminina lhe respondesse de entre o
+circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para dar passagem á
+atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento bater-se com
+o João do tio Alameda.
+
+A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida:
+era uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e
+expansiva. Era a Maria Luiza.
+
+Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella;
+e com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a
+envolvia, tão differente do que lançava ás outras, via-se
+claramente--porque o amôr não pode estar em segredo--que ella não lhe
+era indifferente.
+
+--Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do
+arraial.
+
+Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas
+uma por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.
+
+Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam--homens e
+mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do
+«rei dos cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival... Porque ella lá
+estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma papoila, em
+frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:
+
+ --Se tu soubesses, menina,
+ Quantas 'strellas ha no ceu,
+ Saberias quantos suspiros
+ Dá por ti o peito meu.
+
+A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a
+ser ouvido pelo grupo todo.
+
+A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe
+sorridente:
+
+ --Que importa o que diz um louco,
+ Se falla sem sentimento?
+ Cartas d'amor são papeis,
+ Palavras leva-as o vento.
+
+--Bravo! exclamaram do grupo.
+
+--Sim, senhor!
+
+--Responde-lhe agora, ó João!
+
+--Essa chegou p'ra ti! Hein?
+
+Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.
+
+ --P'ra que vaes, pois, ao sermão,
+ Ouvir o padre prégar!
+ Palavras leva-as o vento,
+ Acabaste de o affirmar.
+
+--Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!
+
+Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:
+
+ --Palavras santas, eu ouço-as
+ Com amôr e devoção;
+ As que Satanaz profere
+ Não me entram na coração.
+
+..........................................................................
+
+Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.
+
+O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham
+retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.
+
+O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou
+mais uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo,
+exultava com estas derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á
+sua reputação de eximio cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.
+
+Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do
+ardôr da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com
+as bandeiras esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado
+pelo frouxo luar que parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle
+ditoso dia que só se repetiria d'ahi a um anno...
+
+
+V
+
+Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes
+carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar,
+dos fins de setembro.
+
+O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu
+optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no
+logar.
+
+Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas
+com o monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de
+folguedo.
+
+Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das
+raparigas.
+
+Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada.
+Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas
+encruzilhadas. Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das
+vozes nas desfolhadas, ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do
+coelho até lhe dar com a cama.
+
+--Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre
+a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma
+ou duas horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol
+fóra!
+
+--Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse
+momento encafuado num gabão.
+
+--Viva! gritaram todos.
+
+--Obrigado! obrigado! dizia com bondade o João. Mas olha lá, ó tu do
+gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira o capuz da cabeça e
+senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás nossas
+desfolhadas, só se vem de cara descoberta.
+
+--E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.
+
+--Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por
+onde vieste.
+
+Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:
+
+--Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!
+
+O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos
+circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela
+jaqueta.
+
+Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no
+dispostos a expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.
+
+O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a
+dois passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:
+
+--Olá, patrão?
+
+O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma
+visão lhe houvesse de repente apparecido.
+
+Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos
+inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.
+
+--Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.
+
+--Olha o espertalhão do rapaz!
+
+O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a
+sua brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.
+
+O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das
+raparigas, continuou alegremente a sua tarefa.
+
+O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local,
+elevava-se já a algumas dezenas.
+
+O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de
+mãos, desapparecia a olhos vistos.
+
+--Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.
+
+Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla,
+trazendo numa das mãos uma tripeça.
+
+--Viva, sr. José!
+
+--Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova, hein?
+
+--Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.
+
+Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara
+junto a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:
+
+--Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde
+fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima,
+do que alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados,
+fingindo-se ainda nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o
+ultimo, quem sabe?...--ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.
+
+--Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente,
+Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha
+alli ao pae com uma cantiga das tuas, ó João!
+
+Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente,
+submeteu-se.
+
+--Sim, sim! Uma cantiga! diziam.
+
+--Muitas cantigas, muitas, ó João!
+
+--Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com uma
+das tuas!
+
+O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação,
+preparou-se para cantar.
+
+Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar
+simultaneo das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a
+cair nos cestos de vime.
+
+O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza,
+e cantou na sua voz sonora:
+
+ --De tantas estrellas que ha
+ Por'hi além nesses ceus,
+ Eu não encontro nenhuma
+ Comparada aos olhos teus.
+
+E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada
+em falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os
+dois ultimos versos da quadra:
+
+ Eu não encontro nenhuma
+ Comparada aos olhos teus.
+
+Elle continuou:
+
+ --Ás ondas dos teus cabellos
+ Gostava de me atirar;
+ Teus olhos, faróes de esp'rança,
+ Haviam de me salvar.
+
+E o côro repetiu:
+
+ Teus olhos, faroes de esp'rança,
+ Haviam de me salvar.
+
+--Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.
+
+--É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella
+deve estar.
+
+ --E do que morrer amando
+ Se não ha nada mais bello,
+ Queria amando morrer
+ Nas ondas do teu cabello.
+ Queria amando morrer
+ Nas ondas do teu cabello.
+
+ --Amei um dia uma estrella
+ Que vi lá no ceu brilhar:
+ --Serei tua, me disse ella,
+ Mas has-de vir-me abraçar.
+ Serei tua, me disse ella,
+ Mas has-de vir-me abraçar.
+
+ --Dia de Natal hei-de ir
+ Ao menino perguntar
+ Qual será a rapariga
+ Com quem eu hei-de casar.
+ Qual será a rapariga
+ Com quem eu hei-de casar.
+
+ --E se não me responder,
+ Pedirei a S. Joaquim
+ Me dê a Maria Luiza
+ Tão babadinha por mim.
+
+O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos
+circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á
+luz do dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.
+
+Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local
+da desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos
+seus improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e
+appareceram juntando ao alarido as suas exclamações e motejos
+inoffensivos dirigidos á Maria Luiza que, na opinião d'elles,
+encavacara.
+
+--Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero que
+se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.
+
+Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava
+reduzido a metade.
+
+No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas
+gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de
+parte todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do
+ardor que d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze
+annos, amavel como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de
+cambraia fina.
+
+Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o
+enthusiasmo que reinava em volta de si.
+
+Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio
+folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.
+
+--Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora
+se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve
+um dia em que estivesse alegre!
+
+Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar
+agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma
+umas vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais
+sentira, baixou os olhos como uma creança envergonhada. Á luz da lua,
+que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas
+lagrimas, e nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e
+na expressão desse rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso
+angelico desse rosto encantador, Paulo esqueceu-se de si, do logar onde
+estava, do mundo onde entrara pela porta da infelicidade, e julgou ouvir
+dentro de si uma musica celeste, de harmonias extranhas; pareceu-lhe
+que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez pelas nuvens, e que
+só via deante de si esse rosto...
+
+Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle,
+muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando
+como fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus
+pequeninos toldados de nevoas.
+
+--Oh! a menina chora?... pôde elle articular.
+
+--Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que
+tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você
+ainda tem pae e mãe?
+
+--Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente
+triste.
+
+--Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.
+
+--Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para
+elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão
+de verdadeiro pezar, perguntou:
+
+--Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?
+
+--Não sei!...
+
+--Você quando para aqui veio que edade tinha?
+
+--Doze annos.
+
+--E até então onde esteve?
+
+--Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus
+paes me tinham abandonado quando nasci...
+
+--Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando
+ella lhe disse isso?
+
+--Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe
+e outra não conheço.
+
+--E você gostava de conhecer seus paes?
+
+--Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que Julia
+não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.
+
+A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou
+uma expressão resoluta e disse:
+
+--Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais
+infeliz, e comtudo não choro!
+
+--É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora
+esforçar-me por ser alegre como você.
+
+--Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé,
+empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada
+uma!
+
+Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma
+maçaroca ás mãos do João.
+
+Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo,
+preparavam-se para receber o seu abraço.
+
+Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo
+João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante
+e com um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois,
+juntava a todos estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e
+outras tantas que o pae lhe havia de deixar.
+
+Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona,
+sem um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.
+
+As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A
+materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do
+quadrado das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a
+differença porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do
+que resultaria algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das
+riquezas ha as suas excepções, de quando em quando.
+
+Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre,
+embora inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si.
+Nas mulheres, pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais
+impetuosa, o amôr pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um
+capricho que se evola ao embate das primeiras reflexões em que a vaidade
+serviu de juiz.
+
+Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração,
+submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de
+encontrar como as perolas no oceano Atlantico.
+
+Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse
+ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em
+que a rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus
+pensamentos, aguardando a desillusão da sua _doidice_, como lhe
+chamavam.
+
+Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do
+João da Alameda, disse eu.
+
+Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:
+
+--Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que
+vão esperando.
+
+E depois cantarolou:
+
+ --Chuchem agora no dedo,
+ Mas é tudo sem maldade:
+ São apenas brincadeiras,
+ Tudo proprio d'esta edade.
+
+E voltou para o seu logar.
+
+Os rapazes acclamaram e bateram palmas.
+
+--«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os
+hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem
+importancia ao caso.
+
+No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a
+desfolhada terminou.
+
+ * * * * *
+
+O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos
+antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.
+
+Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se
+alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor
+da mocidade.
+
+A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a
+seguir-lhe o exemplo.
+
+Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando
+pela estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á
+maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da
+Maria Luiza.
+
+--E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa e
+admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima
+do João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle
+preferisse esta a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um
+mocetão d'aquelles, gostar d'uma delambida assim!
+
+--Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!
+
+--Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?
+
+--O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.
+
+--Sim?!
+
+--É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande
+descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?
+
+--Sério?!
+
+--Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle
+se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...
+
+--Pois decerto!
+
+--E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!
+
+--Que grande descarada!
+
+--Cara sem vergonha!
+
+
+VI
+
+Natal, eu te saúdo!
+
+Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as
+oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e
+innocentes camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e
+benefico paire no firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á
+noite um docél azul marchetado de meigas estrellas se desenrole por
+sobre a minha fronte--eu amo-te, óh! Natal!
+
+Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que
+saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos
+annos e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no
+regaço, lagrimas de saudade!
+
+És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é
+triste: e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.
+
+És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras,
+são o desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma
+doçura tão intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.
+
+Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo
+por entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de
+folhagem destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias,
+e na atmosphera tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a
+familia reunida em volta da lareira; amo-te, finalmente, em tudo o que,
+inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil
+poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!
+
+Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia
+que desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa
+alma incauta e offegante não vê.
+
+Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por
+assim dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem
+alento para novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella
+expressão pérfida que nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta
+do rozario das nossas recordações que a nossa alma alanceada percorre
+orando e offerece ao Creador.
+
+E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver
+celeste!
+
+Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os
+nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os
+raios da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras
+palhas onde nasceu essa creança--tão pobre como a mais pobre de todas as
+creanças, podendo, se quizesse, ser a mais opulenta--tu nasceste tambem:
+tiveste o mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito
+vivificante da sua bocca divina.
+
+E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste
+sempre a frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu
+nome, envolvido duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com
+amôr por todos que têm no peito um coração que soffre.
+
+E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que
+beije com ternura o pimpolho fecundado no seu ventre e existir um
+infeliz; que chore uma lagrima!
+
+ * * * * *
+
+O dia de Natal amanhecera triste e soturno.
+
+Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão
+se desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito
+velho já, com uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de
+misericordia.
+
+Era a egreja com a sua torre.
+
+Que velhinha! Que velhinha!...
+
+Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as
+innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada,
+profundamente abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens
+ingratos não tem conseguido obter...
+
+O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.
+
+Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o
+ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.
+
+Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que
+sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia
+elevar-se muito alta.
+
+Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar,
+em pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia
+repercutiam-se, com maior intensidade para o norte, as ondulações
+sonoras que partiam do sino que chamava os fieis para a missa da manhã.
+
+Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das portas da loja, olhou
+sombrio para o ceu pardacento e resmungou:
+
+--Hum!... Temos mais môlho!...
+
+Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que
+puxava a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma
+ração de pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a
+carroça, deixando a descoberto uma parte da sua mercadoria, que
+consistia em hortaliças.
+
+Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no
+chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num
+pedregulho, á espera de freguezes.
+
+O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo,
+embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas
+penadas, depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos
+figos, mastigarem, numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom
+dia!», entraram, benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.
+
+Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos
+altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um
+sorriso infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio
+todo engalanado e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os
+braços, n'uma alvura de jaspe, como querendo abraçar a humanidade
+inteira num amplexo de amôr divino e paternal.
+
+Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas
+de pequeno lóte.
+
+Os fieis começaram a affluir ao templo.
+
+O velho prior...
+
+--Que bom homem que elle era! Que candura d'alma se reflectia sempre
+naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos cheias de amôr e
+affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era eu
+pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe
+pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na
+contemplação das tres perfeições naturaes--creanças, musica e flores!
+
+Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar
+carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e
+ajoelhou na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a
+cabeça encanecida.
+
+Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja
+estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o
+povo que enchia a capella-mór.
+
+Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar
+onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.
+
+O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o
+povo começou a entoar o Bemdito.
+
+Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr,
+acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa
+pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas
+mãos, acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».
+
+Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de
+gente que aguardava o leilão das offertas.
+
+Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma
+das extremidades do muro que veda o recinto em volta da egreja, e,
+pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:
+
+--Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e
+deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!
+
+--O dia das filhoses foi hontem.
+
+--Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete
+vintens!...
+
+--Oito! gritou um do lado.
+
+--Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?...
+Oito!...
+
+--Nove!
+
+--Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove
+mil reis!
+
+--Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!
+
+--Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove... uma.
+Nove... duas. No...
+
+--Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.
+
+--Cento e oit...--Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem dá
+mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...
+
+--Abóboras?
+
+--...tres!--Vá p'rá missa.--Assentem alli ao snr. Manuel da Silveira.
+
+Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de
+inoffensivas zombarias do mesmo theor.
+
+Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no
+leilão.
+
+--Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a comprar
+fico eu com ella.
+
+--Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...
+
+--Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!
+
+--Seis!
+
+--Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!
+
+--Sete tostões.
+
+--Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!
+
+--Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.
+
+--Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões! Sete!
+Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio
+Manuel Joaquim.
+
+Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha
+coberta de setim, fechada.
+
+--Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados.
+Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões.
+Está fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!
+
+--Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!
+
+--Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e... tres--vá
+lá!--pelo que tiver.
+
+--Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.
+
+--Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove
+tostões!... Nove tostões!...
+
+--E meio, disse o snr. Silveira.
+
+--Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira
+a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...
+
+--Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.
+
+--Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares,
+hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!
+
+--Mais um vintem, disse o snr. Silveira.
+
+--Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para
+todos os lados.
+
+--Onze tostões! gritou de novo a rapariga.
+
+--Estás desesperada! Onze tostões!...
+
+--E meio!
+
+--Onze tostões e meio!
+
+--Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.
+
+--Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh!
+rapariga? Então tu?
+
+--Um quartinho! disse ella.
+
+--Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter
+amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho,
+uma. Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para
+as tuas mãos, rapariga! Um quartinho...
+
+--Tres!
+
+--...tres!--Não preciso cá de ponto.--Acolá para aquella cachópa.
+
+A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.
+
+Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se
+em volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.
+
+Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos,
+em bicos de pés, aguardavam a surpreza.
+
+A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma
+coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.
+
+Era um rato.
+
+ * * * * *
+
+Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada--a noite
+tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo
+sangue e pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã,
+offerecerem em holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante
+prestes a descer á terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus
+corações transbordando do mais acendrado amôr divino.
+
+Penetremos em casa do tio José da Alameda.
+
+Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala,
+para contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um
+presepio onde um Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de
+camelias brancas, tão brancas, tão puras, como pura era a alma de quem
+com tanto carinho e desvelo as collocou alli.
+
+Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas
+horas.
+
+Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as
+camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e
+alli, naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um
+angelico sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a
+candura da sua alma.
+
+Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar
+todos os da casa para verem a sua obra.
+
+--Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe
+paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por
+teres tanta habilidade.
+
+--Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou,
+radiante, Julia.
+
+--Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia
+noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a
+cosinha, emquanto a ceia se faz.
+
+E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.
+
+O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes
+ainda, tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...
+
+É que Paulo e Julia amam-se.
+
+Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes
+que se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas,
+compadeceram-se mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos,
+acalentaram-se, amaram-se e proseguiram juntas, não já pelo caminho
+agreste que as martyrisava, mas por uma vereda em que os espinhos tem a
+suavidade das rosas, em que já não ha agruras, onde tudo são madresilvas
+e violetas rescendendo um aroma inebriante. Esqueceram as desditas
+passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova phase que a
+Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios, transportados
+d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma
+trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo,
+transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o
+leva ao seio de Deus...
+
+Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr
+dos corações predestinados que amam uma só vez na vida.
+
+Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os
+anima um para o outro, esses corações, quando sós, estudam-se
+mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas que
+não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural
+retrahimento, nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem
+ousarem quebrar o encanto que sentem na contemplação mutua das suas
+almas, durante esse silencio em que cada um d'elles só ouve o ruido do
+pulsar do seu coração, as suas almas fallam, entendem-se, estudam-se,
+amam-se cada vez mais...
+
+Penetremos tambem na cosinha.
+
+A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses;
+com as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados
+braços até ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.
+
+Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão
+sentados o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.
+
+O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos,
+excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio
+ao que se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua
+abstracção, olha para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a
+mergulhar-se nas suas reflexões.
+
+--Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto
+está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto
+as faço, o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos
+contou o anno passado.
+
+--Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...
+
+--Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que,
+tendo ido a casa d'umas pessoas que eram muito bôa gente, teve de fugir,
+porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais rilhado que um
+torresmo. Lembra-se?
+
+--Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha
+avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o
+principio? Lembras-te?
+
+--Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?
+
+O João pareceu despertar d'um sonho.
+
+--O quê?!...
+
+--Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho
+e bondoso.
+
+--Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de
+levar ao Menino Jesus--disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.
+
+--Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora _menina_ e duas ou
+tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.
+
+--Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia.
+Não é bonita, Helena?
+
+--Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa
+dentro. Amêndoas, por exemplo.
+
+--Ah! É verdade! Não me lembrava!
+
+--Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse
+do canto Paulo.
+
+--O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.
+
+--A caixa é muito linda, ou é assim, assim?
+
+--Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito
+chics! Helena que diga.
+
+--A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde ir
+parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.
+
+--Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse caso mais graça tem a
+brincadeira. É uma coisa que vou metter dentro da caixa amanhã de manhã,
+e que vae fazer rir ás bandeiras despregadas toda a gente que estiver no
+leilão. Porque, indo fechada, hão-de ter a curiosidade de vêr o que vae
+dentro. Ella tem chave?
+
+--Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?
+
+--É um rato!
+
+--Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...
+
+Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto
+aldrabada chamou de fóra:
+
+--Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?
+
+--Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se
+pressurosa a abrir-lhe a porta.
+
+Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram
+jubilosamente.
+
+Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com
+narrações de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na
+casinha modesta da Maria Luiza, que está triste e pensativa...
+
+Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!
+
+Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do
+Santo Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a
+mesma da desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso
+momentaneo que foi a origem de mil dissabores.
+
+Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a
+Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de
+sessenta annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre
+os dedos com facilidade.
+
+As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um
+tom de tristeza áquella mansão de paz e socego.
+
+No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos
+estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.
+
+--Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.
+
+Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o
+almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de
+anciedade para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um
+suspiro.
+
+Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor,
+para a entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar,
+que ao expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em
+suave murmurinho, as espigas maduras d'uma ceára?
+
+E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites
+serenas, para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as
+estrellas, procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas
+que suffocam o teu peito?
+
+Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora,
+sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como
+uma flôr odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?
+
+Segredos do coração.
+
+Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria
+Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco
+na ordem dos impossiveis.
+
+Pois o impossivel realisa-se?
+
+Realisa. É um exclusivo do coração.
+
+O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha
+enamorada. Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca,
+juntamente com a do portão, debaixo da sua cabeceira.
+
+Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o
+gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.
+
+O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e
+penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que
+accorda e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu
+thesouro.
+
+--Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.
+
+--E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais
+chocarreiro do sol.
+
+Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear,
+descançado, o somno da manhã.
+
+Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado
+de avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...
+
+Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da
+escuridão, por esses ares fóra!
+
+É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?
+
+É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a
+humanidade são obra sua.
+
+Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe
+a fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de
+penedo tantas vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a
+qualquer artista.
+
+Polir uma alma... só o coração.
+
+A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como
+a peccadora de Magdalo differe da penitente que está osculando e
+orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.
+
+Mas... quem espera ella?
+
+O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr,
+se compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que
+ella tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das
+companheiras que tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria
+Luiza começou de ser envolvida numa mephitica atmosphera de
+maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a inveja começa por sua vez
+quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da inferioridade.
+
+Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?»
+elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».
+
+Mas o invejoso não fica por aqui.
+
+Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.
+
+Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella
+purificada, sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e
+consecutivas virtudes, assim um espirito maligno, um coração embotado
+pelas acções vis, sente um infernal prazer em percorrer a escala das
+depravações.
+
+_Abyssus abyssum invocat._
+
+Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas
+gôttas d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia
+dar a vida a quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das
+propriedades mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi
+affectar, com o seu terrivel contacto, o puro liquido.
+
+Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da
+maledicencia as linguas restantes da freguezia; e a honestidade da Maria
+Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento cortante da
+tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça conspurcar
+as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante
+d'essa maledicencia.
+
+João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao
+abrigo do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao
+rigôr das intempéries.
+
+--Maria--disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio; são
+horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não
+deixe sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida
+em volta de si.
+
+--Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além
+d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...
+
+Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!
+
+Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como
+penosa deve ser a deseperança num coração que idolatramos.
+
+João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que
+melhor leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a
+mulher sabe, por instincto, que um homem não tem a habilidade com que
+ella finge um sentimento que está longe de possuir.
+
+O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em
+vir ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não
+desesperar de viver?
+
+Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas
+promessas e juramentos que no auge da sua paixão, elle lhe fizera,
+traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o peito?...
+
+Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á
+sua profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em
+volta, viu-se só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a
+retirada de sua mãe.
+
+O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a
+porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.
+
+No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas
+que Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.
+
+--Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...
+
+Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres
+leves pancadas na porta.
+
+Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia,
+porque o coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se
+levantar, perguntou, entre admirada e sobresaltada:
+
+--Quem bate a esta hora?!
+
+Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça
+d'um homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que
+se perseguem.
+
+E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado
+e o sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros
+sobranceiros ao Vouga.
+
+
+VII
+
+Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra.
+Joaquina das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia,
+frequentava diariamente a egreja na _perfeita_ observancia dos preceitos
+do Divino Mestre.
+
+Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja,
+tanto se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do
+proximo, assoalhando tôrpemente a vida intima de cada um. Não
+distinguindo, atravez da imbecilidade que lhes turva o cerebro, o grau
+de torpeza e abjecção que encerra o procedimento de vasculhar os actos
+menos meritorios que outrem pratique, não alcançam ao mesmo tempo a
+quanta belleza de virtude encerraria o seu procedimento se, em vez de
+auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe tecessem louvores, ainda
+que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas sob o pó bemdito da
+caridade.
+
+A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera
+soffrer que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo,
+e sem necessidade, ao bando dos renegados.
+
+--Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do
+tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o
+filho do caminho do peccado em que anda!
+
+E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um
+acto dum _valôr altamente humanitario e divino_, como era o de conduzir
+uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso de que, para o
+conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada ao
+desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa
+do tio Alameda.
+
+--Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o seu
+sorriso de bondade á beata.
+
+--Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita
+importancia que lhe quero communicar.
+
+--Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos oiça.
+
+Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço
+tabaqueiro, tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a
+um signal do velho, cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:
+
+--Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem,
+prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para
+nos salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram
+escriptas e foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até
+nós e continuará seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar
+de dar geração. Muitos acereditam nas palavras dos santos padres, a quem
+Deus encarregou de o representar no mundo e de fazer respeitar a sua
+religião. Outros não acreditam em nada d'isso, e esses são os réprobos
+condemnados ás penas eternas. Mas o nosso dever, o dever de todo o bom
+christão, é, por meio das boas obras e dos bons conselhos, chamar ao
+caminho do ceu esses perdidos na escuridão do peccado.
+
+E quando nós temos obrigação de chamar ao caminho do dever esses que
+nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra. Joaquina fez o
+signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao caminho da
+bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram seduzir
+pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais
+inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).
+
+O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata
+queria chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada,
+continuou, mais moderada:
+
+--O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o caso...
+
+--Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...
+
+--Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas
+palavras, pois que, tratando-se de seu filho...
+
+--De meu filho?!... Que fez elle?
+
+--O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe fará
+perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não
+oppusér...
+
+--Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!
+
+--Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria Luiza
+que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?
+
+--Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!
+
+--Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso
+fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a
+Deus. Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se
+perde. Além d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as
+noites lá a casa...
+
+--O meu filho?! O meu João?!
+
+--É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que
+consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida,
+que já anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus
+lençóes, porque, na vespera do Natal do Redemptor--aqui baixou a voz,
+fallando com calôr e vehemencia, e meneando os braços nuns gestos
+disparatados--espancou um rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria
+Luiza!
+
+--Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça isso!
+
+--Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito
+socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o
+ia matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que
+seu filho ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher
+perdida.
+
+O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da
+beata.
+
+Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado
+da mais revoltante hypocrisia:
+
+--Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior o
+saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma
+excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas
+eternas.
+
+O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces;
+e, meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as
+mãos num gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com
+amargura:
+
+--Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me
+restam sejam manchados nos ultimos dias da minha vida pela deshonra de
+meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim primeiro!
+
+ * * * * *
+
+--Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr
+retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo _dever de consciencia_
+que acabava de cumprir.
+
+--Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com as
+lagrimas nos olhos.
+
+--O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.
+
+O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio
+Alameda.
+
+Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma
+profunda angustia que lhe opprimia a alma.
+
+--Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.
+
+--E o João onde está?
+
+--Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.
+
+Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão
+de contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão
+alegre. Depois da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e
+disse-lhe:
+
+--Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o
+que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de
+vida que me restam.
+
+Fallava com uma tão pronunciada amargura, que João, prevendo o fim que
+elle queria attingir, e commovido mais pelas más impressões que seu pae
+teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem trazido (porque
+não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do pae,
+respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:
+
+--Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um
+cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo
+obediente...
+
+--Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na
+tua bôa fé.
+
+--O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?
+
+--Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu,
+que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos
+filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida,
+filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha
+velhice!
+
+--Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no
+chão. Pois isso são contos do mundo, que...
+
+--Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um
+grande peccado!
+
+João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:
+
+--Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia
+tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa,
+por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia
+porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha
+sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?
+
+--Soccorria-a...
+
+--E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?
+
+--Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?
+
+--É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe
+com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu
+tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae
+idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a
+verdade.
+
+O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho
+continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das
+suas palavras:
+
+--Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa
+ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram,
+e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria
+Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se
+do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na
+muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei
+de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr
+a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a
+Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer,
+achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas
+linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre
+rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade,
+tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar
+por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que
+conheço ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto,
+não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram
+nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!
+
+«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a
+quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me
+muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma
+certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando
+fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a
+recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não
+podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me
+disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar
+outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu,
+meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os
+olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.
+
+«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito
+desejava fazer-lhe, mas...--e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu
+procedimento:--eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres
+alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não
+morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a
+soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!
+
+O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito,
+disse:
+
+--Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não
+devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido
+ha mais tempo para commigo, que me não opporia a isso. Mas tambem é
+preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu
+coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim,
+é preciso sempre raciocinar e vêr...
+
+--Meu pae! A Maria Luiza é honesta!--interrompeu o filho com vehemencia.
+Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a
+defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a
+minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha
+resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram
+maltratal-a!
+
+--Que dizes?! Pois tu queres...
+
+--Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia
+jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.
+
+--Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara
+debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum
+casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha
+honra acima de tudo...
+
+--A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se.
+Cumpro um dever de consciencia e do coração.
+
+O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente,
+disse:
+
+--Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava
+ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?
+
+--Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito,
+quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da
+sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um
+individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de
+Maria Luiza. Eu todas as noites lá vou, e ella preveniu-me de que,
+depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de
+mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz
+mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal
+noite--foi na vespera de Natal--fui pôr-me de novo á espreita. Passado
+muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu
+devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto
+sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar
+uma bastonada, que é para lá não tornar.
+
+--Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode
+ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te
+certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da
+Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos
+certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem
+um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a
+verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.
+Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é
+muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado
+muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.
+
+E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o
+que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes
+que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com
+quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e
+felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.
+
+--Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas,
+radiante de alegria e ao mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons
+conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como
+attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua
+bondade!
+
+E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.
+
+O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que
+lhe bailavam nos olhos.
+
+
+VIII
+
+Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam
+no adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual,
+emquanto outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades,
+entravam religiosamente na egreja.
+
+Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do
+evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado
+por um sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada
+para a missa.
+
+O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á
+quadra invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre:
+parecia que se tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era
+desmentido apenas por algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam
+tristes e graves como esqueletos, como querendo lembrar á natureza que
+não era aquella a epocha de ostentar as suas galhardias.
+
+Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de
+crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria
+ficticia para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico,
+lembravam os sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.
+
+O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda
+chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja
+espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas do sino, e foi
+adejando para os lados do campo.
+
+Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por
+tres alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.
+
+Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos,
+typo de brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir--fato claro de
+casimira, e calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar
+sem difficuldade com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar
+pela quantidade de bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia
+de oiro que lhe bamboleava no collete cuja abertura lhe abrangia quasi
+toda a altura do peito, que era um brazileiro rico.
+
+Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita
+gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a
+sua imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas
+e as coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.
+
+Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios á _pose_ do pedaço
+d'asno--de que logo o apodaram--no qual os mais velhos reconheceram o
+filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a _bisnaga_.
+
+--Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos aos
+quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade--d'aquelle
+garotêlho que a Quiteria _bisnaga_ tinha?
+
+--Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!
+
+--Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo
+esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido
+pae do Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá
+uns dois annos, se tanto, até que um dia pede dinheiro emprestado ao
+patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o
+ganhasse. O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o
+ganhares, manda-m'o; e se o não ganhares, fica por intenção da minha
+alma.
+
+--E ganhou-o bem, logo se vê!
+
+--Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e
+mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto
+ou mais rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!
+
+--Ora vejam o que é a sorte!
+
+--É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.
+
+--Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira
+dos cinco a comprar e vender creação!
+
+--Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.
+
+--É verdade! Olha a _bisnaga_! Se ella não tivesse tido a habilidade de
+arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão mimosa.
+
+--Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco
+mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...
+
+--Ora vejam!
+
+--Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de estar
+bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter
+alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois
+dizem que tem uma bôa fortuna.
+
+--Meu amigo:
+
+ «Se fôres ao mar pescar,
+ Que a fortuna te não deixe.»
+
+--Isso, isso! Ah! Ah! Ah!
+
+ «Lança as redes, vem-te embora,
+ Quanto mais burro, mais peixe.»
+
+E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:
+
+--Vamos para a missa, que deve estar a começar.
+
+ * * * * *
+
+Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a
+digestão do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello,
+saboreando um aromatico charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente
+em espiraes na atmosphera, elle contemplava com os olhos indolentemente
+semi-cerrados.
+
+Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a
+cosinha não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar
+apropriado para isso.
+
+A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos
+serviços domesticos d'esse dia--dia de gala em casa da tia
+Quiteria--ultimava as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um
+frango, uma posta de vitella e outra de carneiro e mais uns guisados,
+deram ás paredes denegridas a honra de as mimosear com um fumo mais
+agradavel, impregnado de aromas recendentes que espantaram metade da
+visinhança.
+
+--Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e
+cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura
+com o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem cá o seu filho...
+
+--É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos
+annos o não via?
+
+--Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre de
+vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me
+não conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que
+eu, sempre...
+
+--Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para
+alli, que lá o encontras.
+
+O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é
+necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era
+um antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na
+procura de ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que
+corrêra logo a dar os parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho,
+a quem achou muito desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que
+não parecia até vir de terras brazileiras.
+
+Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio
+perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:
+
+--Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!
+
+--Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o
+brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.
+
+--Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha
+chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um
+rapaz com quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando
+jogavamos o pião?...
+
+--Ah! sim! sim! interrompeu o _bisnaga_ com expressão de desdem.
+
+--Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda,
+embora eu seja pobre e elle esteja rico...
+
+--Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.
+
+--Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para
+isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos,
+acolá por...
+
+--Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?
+
+--Fumo...
+
+E, puxando por um _kentuk_, ajuntou:
+
+--É que eu não queria... faltar ao respeito...
+
+--Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do
+bolso do casaco.
+
+O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no
+charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso
+mixto de parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na
+bôcca.
+
+--Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que
+saisse o fumo?
+
+E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que
+tirou da boquilha de aros de oiro.
+
+O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o
+metter na bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se
+chamam de _espera gallego_ por causa da grande demora do enxofre entrar
+em combustão, e, raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o
+charuto.
+
+Entretanto, a _bisnaga_ recebe a visita, na cosinha, de varias visinhas
+que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio
+dar.
+
+Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo
+companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de
+rapaz:
+
+--Olha lá uma coisa: a respeito de _pequenas_, como vae isso por ahi?
+
+E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.
+
+--Ha por ahi uns peixões bem bons!
+
+--Sim?
+
+--Conheceu a tia Joanna Maneta?
+
+--A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria...
+Bem sei, bem sei. Então?
+
+--Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois annos!
+
+--E será facil de...
+
+--Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!--e esfregava, um de encontro ao
+outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi
+um par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os
+rapazes lhes fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de
+muito trabalho. Isto de mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é
+uma é outra. Porque ha por ahi bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz
+da orelha, tem lá o tio Alameda!
+
+--Alguma filha geitosa, hein?
+
+--Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas
+está nova!...
+
+--Que edade tem?
+
+--Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande
+desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos
+olhos.
+
+--Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.
+
+--Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda! Não sei se vossa
+senhoria sabe que elle, além d'essa rapariga, tem um filho ahi dos seus
+vinte e quatro a vinte e cinco annos?
+
+--Não sabia, mas fico sabendo.
+
+--E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?
+
+--Hum! Não me reccordo, não.
+
+--Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga
+toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um
+gosto ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até
+chamado o rei dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não
+ha ninguem que se lhe compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era
+derrota certa. Ora essa tal filha da Serôdia, e que se chama Maria
+Luiza, deu em ir cantar sempre com elle; em todas as festas onde
+appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro! Até algumas vezes
+ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de proposito. Mas
+mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella, tanto que
+se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com ella,
+e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada
+n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz,
+estimado de todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz
+ideia. Ora por estas razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz
+d'alli. Isto de mulheres, vossa senhoria sabe-o melhor do que eu, porque
+tem corrido mundo, em lhe cheirando a riqueza, illudem-se como ratos!
+
+--Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e
+outras tantas promessas...
+
+--Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda inchada
+por o rapaz andar assim pela beiça, sabendo toda a gente o que ella foi,
+era bem feito.
+
+--Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer
+alguma...
+
+--Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do
+rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a
+cabeça com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e,
+finalmente, quando vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com
+certeza, não resiste, e então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi
+ella até que se entregou a vossa senhoria. Verá depois como elle até me
+agradece o cuidado que tive em lhe abrir os olhos.
+
+--Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a
+rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira
+vender uma propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em
+abundancia, e onde se possa fazer uma casa?
+
+--Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que
+fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da
+Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se
+vê o campo todo...
+
+--Pois isso é que me convinha comprar.
+
+--Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver
+resolvido...
+
+--Paga-se-lhe bem e...
+
+--E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.
+
+--Pois é isso. Vamos então lá.
+
+
+IX
+
+Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo
+a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a
+vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só
+inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e
+tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando,
+cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados
+com tanta doçura.
+
+Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã--uma manhã de
+agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de
+vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da
+atmosphera d'uma extrema limpidez--uma d'estas manhãs cheia de vida que,
+gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um
+desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.
+
+O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com
+um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo
+de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas
+por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados,
+recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para
+nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um
+homem que, por detraz de si, o chama.
+
+--Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?
+
+Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus,
+de arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de
+orvalho.
+
+--É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe
+parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então
+anda caçando, logo de manhã?
+
+--Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli
+pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para
+me entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao
+almoço. Entrei por aqui dentro sem pedir licença...
+
+--Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas
+ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o
+receber.
+
+--Muito obrigado! Muito obrigado!
+
+--Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço
+e...
+
+--Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!
+
+--Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que
+me fique obrigado...
+
+--Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa, e...
+
+--Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve
+trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...
+
+--Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...
+
+--Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de
+almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe
+fallo...
+
+--Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer
+de almoçar na sua amavel companhia.
+
+--Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.
+
+E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a
+cerca de cem metros.
+
+Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da
+agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca
+novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um
+anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá
+el-rei o carro e o carril».
+
+--Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o
+maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a
+queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».
+
+O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas
+considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com
+monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo.
+Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como
+quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia
+deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus
+haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus
+capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na
+aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde
+andava já a construir uma casa, etc., etc.
+
+Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.
+
+--Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O sr. Velloso almoça hoje
+comnosco. Prepara-lhe o almoço.
+
+Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador
+sorriso o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com
+uma mesura envolvendo-a num olhar de sympathia.
+
+O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena,
+coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e
+linguiça.
+
+Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as
+calças empoeiradas.
+
+--Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está
+prompto o almoço?
+
+--Sim senhor.--E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede para
+almoçar.
+
+--Um hospede? E quem é?
+
+--O brazileiro, o sr. Velloso.
+
+--O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!
+
+--Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás
+zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.
+
+--Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito
+com elle?
+
+--Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma
+leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido
+ao irmão, affastou-se, dizendo:
+
+--Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!
+
+Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo
+angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto
+entre as mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza......................
+..........................................................................
+
+Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se cortezmente e muito
+reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente gente o
+tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com
+que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por
+outra, fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem
+egualmente á sua casa nova, logo que estivesse concluida.
+
+--Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae
+ficar uma obra bôa, e...
+
+--Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!
+
+--Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou
+merecimentos para isso.
+
+O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e,
+estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.
+
+--Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me
+entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do
+brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima
+sempre que lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr.
+Velloso.
+
+--Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro
+partiu--dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho!
+Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter
+muito bom coração. Parece muito bom sujeito.
+
+--Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como
+num echo, Helena.
+
+Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares
+incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e
+João, pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho,
+precedido de Paulo, murmurava comsigo:
+
+--Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á
+minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da
+minha irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e
+verá quanto peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no
+Brazil? Experimenta! Experimenta, que o cacete t'o dirá!...
+
+E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num
+intelligivel crescendo:
+
+--Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem
+se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então
+uns pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para
+cá com as tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem
+então lá um palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro,
+que--Ah! Ah! Ah! até dá vontade de rir!--me vem dizer «que tome conta na
+Maria Luiza, que anda tôla pelo _bisnaga_! Que era só elle fazer um
+gesto, que a rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a
+peito fazer-me alguma desfeita!» Que grande bruto me saiste,
+Francisquinho das Neves! Que se livre mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria
+Luiza! Que dois brutos me sairam o _bisnaga_ e o Neves! Este, embruteceu
+com o dinheiro; o outro, embruteceu talvez pela grande vontade d'elle!
+Ah! Ah! Ah!
+
+--Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!
+
+--Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem.
+Não digas do que ouviste, percebes?
+
+--Sim senhor.
+
+--Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...
+
+--Não ha duvida, patrão.
+
+
+X
+
+O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de
+Jesus.
+
+Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam
+áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um
+individuo, com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da
+tia Maria das Neves passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um
+cão fiel, prompto a defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem.
+Com uma differença, porém: o cão serve seu amo a troco do alimento que
+lhe dá, e o Neves dedicou-se ao Velloso de corpo e alma, imbecilmente,
+com a dedicação dos espiritos boçaes que se inclinam, sem mesmo saberem
+nem procurarem saber o motivo, a uma causa.
+
+Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das
+ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.
+
+--Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após o
+que foi logo procurar o visinho--parece-me que estou apaixonado pela
+filha do Alameda.
+
+--Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?
+
+--Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um
+bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras!
+E é por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no
+negocio.
+
+--Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da
+rapariga, ainda tem coragem de...
+
+--És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a
+valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de
+pugnar pela honra da minha futura noiva. Percebes?
+
+--Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...
+
+--Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a
+tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!--E, fallando mais
+confidencialmente, continuou--Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a
+Helena. Não sei se me comprehendes...
+
+--Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!
+
+--Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste.
+Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para
+elle não andar de pé atraz commigo.
+
+--Percebo muito bem.
+
+--Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o
+que has-de fazer.--E ajuntou com um sorriso malicioso:--E é mais uma
+sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...
+
+--Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de
+as levar todas a fio!...
+
+--Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais
+bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que
+a minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto
+em questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais
+um pio dás sobre o caso: só dizes ao filho do Alameda que aquillo foi um
+gracejo da tua parte...
+
+--Sei muito bem.
+
+--Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.
+
+--Já está mais que percebido.
+
+--Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a
+rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando
+uma certa amizade... um certo amôr... até que...
+
+--Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...
+
+Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia--ou talvez o
+dissesse instinctivamente!--a cathegoria do seu baixo mister.
+
+
+XI
+
+Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de
+chuva, decorria garbosa e sorridente como uma creança.
+
+Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das
+estrellas.
+
+Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco
+adeantada da noite--eram nove e meia.
+
+Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e
+recolher com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes
+estonteante dos grandes centros, com os seus pontos de reunião e
+cavaqueira nos cafés, casinos e theatros. Chegada a noite, cada lar é um
+cenaculo de alegria, paz e amôr, e sómente ás vezes, quando nas noites
+longas de inverno podem dispôr de algum tempo de distracção, juntam-se,
+até ao toque das almas, meia duzia de homens numa ou noutra loja, onde
+ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites dão para tudo»,
+dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao sabbado, que
+se estabelecem os principaes pontos de reunião--os nucleos da ingenua
+cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos
+que mais impressionaram a curiosidade publica.
+
+Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as
+folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de
+estrellas, parecia um immenso campo cheio de flôres.
+
+A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se
+cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na
+sombra.
+
+Em seguida um outro vulto--o vulto d'um homem encapotado--se deslocou do
+escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.
+
+--Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao
+approximar-se.
+
+--Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de Helena.
+
+--Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos
+desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que
+ha tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o
+apoquenta e que só tenho podido exprimir por olhares!
+
+--Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo
+que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é
+insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me
+parece ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não
+tenho experiencia do mundo...
+
+--Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que
+da sua parte houvesse para commigo egual affecto!
+
+--Ha! Talvez mais...
+
+--Oh! Não diga isso!--E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor
+crescente--É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem
+limites!...
+
+--Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar
+este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a
+razão, em que esta ficou vencida por aquelle...
+
+--Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha a felicidade de poder
+mostrar-lhe o meu reconhecimento de forma que possa satisfazer as
+aspirações do meu coração!
+
+--Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez
+sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o
+poder de fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha
+felicidade, que consiste em gozar, na companhia do ente por quem o meu
+coração suspira, a vida inteira.
+
+--É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi
+muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas
+agora, Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!
+
+--Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um
+sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas
+essas...
+
+--Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha
+transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!
+
+E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco,
+transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão
+candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava
+nos ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo
+sensações até ahi desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.
+
+--Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris
+as mãos tremulas d'ella.
+
+--Acredito. Eu tambem o amo muito...
+
+--Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um
+sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!
+
+--Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo. Mas peço-lhe que falle
+mais baixo, porque Deus me livre que alguem ouvisse!
+
+--Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha
+mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos
+vissem?
+
+--Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos
+livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!
+
+--Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.--E,
+baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe
+palavras ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio
+dulcissimo.--Helena, meu amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta
+felicidade, que o julgo quasi impossivel! Se eu fosse pobre, talvez
+acreditasse no que dizes. Ahi está para que serve o dinheiro! Para nos
+lançar o coração no desespero! Helena! Juras que me amas?
+
+--Juro!...
+
+A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do
+pescoço, com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com
+meiguice:
+
+--E juras amar-me sempre?
+
+--Sempre!...
+
+--E muito? Tanto como eu a ti?
+
+--Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por
+aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.
+
+Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava
+inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um
+salpico de lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.
+
+E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da
+portaria que se fechava occultando á exigua claridade da estrada as
+sombras unidas d'aquelles dois seres apaixonados--um, com um sentimento
+todo ideal, todo celeste; outro, com um sentimento todo terreno, todo
+lubrico...................................................................
+..........................................................................
+..........................................................................
+
+A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se
+abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.
+
+Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:
+
+--O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha,
+Joaquim?!
+
+--Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos
+annunciando um paraiso de felicidades.
+
+--Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de
+tamanha melancholia!
+
+--Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa--a nossa
+casa!--d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá
+juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha;
+e havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de
+mandar fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.
+
+--Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha felicidade?
+
+--Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por
+esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!
+
+E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:
+
+--Adeus. Até ámanhã.
+
+--Adeus Joaquim!
+
+Helena conservou-se á porta até ver desapparecer o vulto do seu
+bem-amado numa curva da estrada.
+
+Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o
+piar lugubre d'uma ave nocturna.
+
+Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:
+
+--Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...
+
+
+XII
+
+E Maria Luiza?
+
+Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua
+casinha, aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu
+coração o balsamo suavissimo da esperança.
+
+Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos
+dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das
+intemperies?
+
+Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram
+affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é
+para ella d'um prazer indefinivel.
+
+«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre
+que ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras
+refrigerio para as mágoas que a affligiam.
+
+E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão
+diaria, já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos
+polida lhe feria os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de
+lagrimas os olhos. A torrente do enxurro foi affrouxando de
+impetuosidade; e agora, já de quando em quando lhe sôa ao ouvido um
+«adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com uma especie de
+arrependimento.
+
+Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando--á tempestade segue-se a
+bonança; a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas.
+
+Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos
+retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que,
+longe de se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou
+obedecendo aos principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se,
+vergonhosa e torpe, no vil sentimento da inveja.
+
+Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a
+occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um
+proximo regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das
+suas amigas em cujo olhar já lia o arrependimento.
+
+E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de
+delicias, muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de
+gigante. No dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe
+toldam o horisonte, ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu
+azul, outr'ora carrancudo e tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso
+despretencioso e ingenuo, como que annunciando-lhe não sómente o
+regresso á vida de outr'ora, mas um mundo desconhecido, uma vida de
+fausto...
+
+Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na
+meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida,
+porque foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a...
+Sim! Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias
+do sr. Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento,
+seis mezes de dedicações, seis mezes que são todo um protesto
+eloquentissimo d'um coração apaixonado? Não! Maria Luiza não póde
+ouvir-te, ó novo Creso da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos
+com que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar
+ingenuo e inexperiente d'este santo povo!
+
+Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo
+chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!
+
+Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu
+futuro--o futuro de ambos!--risonho como o sol ao nascer, lindo e
+aromatico como um campo coberto de flôres.
+
+E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem
+da bocca d'um profeta.
+
+--Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu
+João--Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram
+assoprar. Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal
+empregado em ti. Convenci-o de que o enganaram. E elle--que coração
+d'oiro!--acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu
+casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a
+tempestade, que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda.
+Beijei-lhe as mãos em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas
+lagrimas! Que coração aquelle!
+
+--É como o teu, João!
+
+--É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os
+sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me
+perdoou, mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae
+assim, não devemos pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas
+malvadas deixarem de fallar, então... verás! verás!
+
+ * * * * *
+
+Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha.
+Era á tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os
+balidos dos cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas
+jungidas á canga puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e
+as vozes dos lavradores incitando os animaes ao trabalho, e os cantares
+alegres das creanças que guardavam as ovelhas.
+
+Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem
+prestar attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um
+rouxinol que canta em frente da sua janella.
+
+Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo
+desprezo da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento
+estremeceu, cortando o fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um
+homem que a saudava da rua.
+
+--Olá! menina! Boa tarde!
+
+Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo
+para ella.
+
+Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma
+expressão sorridente:
+
+--Boa tarde, sr. Velloso!
+
+--Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!
+
+--Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico
+é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos
+labios.
+
+--Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de
+formosuras.
+
+--Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um tanto
+embaraçada.
+
+--Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte
+alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga
+bonita! Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli,
+outra mais bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais
+bonita que todas as outras!
+
+--E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...
+
+--É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui.
+É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento
+com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...
+
+--Oh! senhor! Não tem nada que...
+
+--Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de
+contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei
+impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e
+perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.
+
+--Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor,
+que...
+
+--Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas
+as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não!
+Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir
+á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a
+todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar
+pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo
+então o motivo da minha admiração.
+
+--É uma questão de pachôrra...
+
+--Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma
+simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua
+belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha
+não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais
+captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a
+vida.
+
+--Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella
+sempre com o mesmo sorriso.
+
+--Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se
+de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu
+agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!--E
+accrescentou, com expressão ficticia de pezar--Mas não admira, porque,
+segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e
+comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande
+criminoso...
+
+--Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr.
+Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de
+verdade--atreveu-se ella a dizer--não deixavam comtudo de ter os seus
+enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...
+
+--Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos. Alguma
+justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...
+
+--É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque
+sinto que minha mãe chegou agora a casa e...
+
+--Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das
+minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe
+humildemente perdão... e adeus!...
+
+--Adeus, sr. Velloso.
+
+--Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus botões.
+
+E, sorrindo, continuou:
+
+--Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o
+demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em
+embeiçar com ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,..
+Nem parece o que dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo.
+Nem que eu as não conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo!
+Ou talvez melhor, porque muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas
+querem sei eu muito bem... Com mais duas ou tres palestras, sônda-se a
+coisa; por demais é fingir-me apaixonado e prometter-lhe uma vida de
+fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com ella, pois que duvida ha
+n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com uma mulher pobre
+de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella ideia! E o
+rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem d'elle... e
+meu!--accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso! Velloso! Não ha
+mulher que te resista!...
+
+E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se
+sósinho, como um idiota.
+
+O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a
+inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando,
+eram apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao
+hombro, se punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo
+os rebanhos.
+
+--Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o
+sr. Velloso, espraiando a vista pela planicie, empertigando-se e
+affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.
+
+Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios
+de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo
+brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:
+
+--Adeus!
+
+O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um
+quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:
+
+--Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem
+as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não
+se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de
+costume!
+
+O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa;
+uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.
+
+O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso
+salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que
+accendeu, e retrocedeu.
+
+Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e
+as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.
+
+--«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha
+remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.
+
+Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou
+alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes
+distinctas que se alternaram.
+
+Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.
+
+
+XIII
+
+Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...
+
+Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes
+bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca
+d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca
+symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos
+chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se
+garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e
+pittoresco scenario--o magnificente scenario pintado pela mão da
+natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e
+frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.
+
+Tudo era poesia, tudo era amôr.
+
+O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que
+se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie
+polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de
+despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre
+elle se debruçava com carinho.
+
+E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava
+o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!
+
+Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...
+
+ * * * * *
+
+O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de
+enygmas.
+
+Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o
+anjo tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por
+pensamentos lhe tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara
+d'um coração bondoso quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta
+dedicação se pode prestar a um ente que vê deante de si o cháos
+horripilante da desgraça e da miseria--Maria Luiza cedeu ás insidias do
+brazileiro, vergou á logica revoltante das suas palavras maleficas como
+a tenra açucena da encosta vergada ao sopro do Aquilão.
+
+Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho,
+que o rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte
+da sua janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos,
+balando em volta das mães que pastam no campo, já não retoiçam como
+costumavam.
+
+O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi
+contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao
+chegar a casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a
+lembrança que o visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.
+
+Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a
+quem continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na
+sua casa nova.
+
+Nessa noite, porém, a demora foi curta.
+
+Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia,
+retirou-se e recolheu a casa onde, fincando os cotovellos sobre a meza,
+metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.
+
+Parece que não tirou resultado da sua meditação--que era antes uma
+catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro--porque,
+levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de
+pavimento terreo.
+
+Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam
+para cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.
+
+Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo
+Neves.
+
+--Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre
+do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado,
+com que escavacava uma acha, levantado no ar--diabos te levem mais a
+lembrança que tu tiveste!
+
+O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando
+sobre o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar,
+como quem não comprehendia nada do que ouvia; até que, passados
+momentos, perguntou, meio parvo, ao brazileiro que passeava apressado
+d'um lado para o outro no alpendre, retorcendo com uma das mãos o
+bigode:
+
+--Que lembrança?!
+
+O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.
+
+--Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa rapariga
+que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa canalha
+que dizia mal d'ella!
+
+E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.
+
+O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e,
+depois de seguir machinalmente com a vista, durante um bom meio minuto,
+os movimentos do brazileiro, gaguejou:
+
+--Mas... Vossa senhoria falla sério?!...
+
+--Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e
+collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.
+
+Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos
+do brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.
+
+O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:
+
+--De maneira que a rapariga... não...
+
+--A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!
+
+Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma
+especie de lamuria, muito pausado e sentencioso:
+
+--Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem
+havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se
+portava assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que
+se diga!
+
+--Pois se tu assim tivesses feito!...
+
+O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.
+
+«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em
+contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se
+dizia! Sou culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo
+de mal tem isso?»
+
+Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o
+silencio, dizendo resoluto:
+
+--Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por
+causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga,
+acabou-se! Uma coisa muito natural! Vossa senhoria tambem ficou
+deshonrado?
+
+O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:
+
+--Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já
+não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a
+nenhuma fiz promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a
+encontrasse pura, senão a esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a
+minha palavra. Depois, ainda que não fosse isto, bastava só o remorso de
+lançar no desespero esse bello rapaz, sem necessidade nenhuma. Tudo por
+causa d'essas malditas linguas, que precisavam ser arrancadas, todas as
+vezes que se põem a fallar da vida alheia!
+
+--Oh! senhor! Mas então...
+
+--Então, o quê?
+
+--Quero eu dizer que...--replicou o Neves coçando na cabeça,
+contrariado--que, se não quer faltar á sua palavra...
+
+--Sim: e a outra?
+
+E voltou a passear.
+
+--A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?
+
+--Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia de
+dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter
+no seu passeio. E accrescentou--Além d'isso, a essa amo-a devéras!
+
+O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no
+cabo do machado.
+
+--Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa
+senhoria fazer?
+
+--Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não
+endoideci. Esta noite, quasi que nem preguei ôlho. Se pudesse casar com
+ellas ambas, casava.
+
+--Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...
+
+--Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não
+tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era
+o cabo dos trabalhos.
+
+--Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo...
+Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o
+rapaz da deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria
+está contra isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado.
+Porque, combinadas as coisas, tudo ficava em casa, e...
+
+O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:
+
+--Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É
+uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é
+para o contar ao irmão. É capaz de matar a outra.
+
+--Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!
+
+--Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!
+
+--Não foi das melhores, não, sr. Velloso.
+
+--Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a
+saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa.
+Foste o culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia,
+perdôo-te. Senão, tinhas de desemaranhar a meada.
+
+--Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E
+ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se
+conteve, indo lá a casa todas as noites... Tareco impossivel! Mas... ó
+senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?
+
+O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve
+uma objecção; e, retirando-se, observou:
+
+--Pensas que nasci hontem...
+
+O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á
+observação do Velloso:
+
+--Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...
+
+E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.
+
+
+XIV
+
+No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra
+que, durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com
+a grade, á cobertura dos grãos.
+
+Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa
+das mãos.
+
+O tempo continuava claro e sereno.
+
+O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de
+onde a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida,
+sobresaía no meio d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma
+ou outra nuvem pardacenta.
+
+É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas,
+em substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas
+brizas, nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente
+encrespado pelo vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de
+verdura--permittam-me a expressão--apparecem, de onde a onde, como
+bandos de cysnes, ranchos alegres de rapazes e raparigas; elles,
+despidos dos casacos, com as camisas brancas a lusir entre o verde dos
+milharaes; ellas, de lenços garridos amarrados graciosamente em volta da
+nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos cantando, sacham o milho
+pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao crepusculo da tarde.
+Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á sombra
+deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se para dormitar sobre a relva
+mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam qualquer jogo de regaço,
+sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros, mais irrequietos e
+folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a cada passo
+atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.
+
+O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a
+charrúa e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a
+caminho de casa, Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.
+
+Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella,
+todas as tardes, costumava estar, e não a viu.
+
+--Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma
+surpreza!
+
+E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á
+casa, pé ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.
+
+Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no
+pequeno quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta,
+e dispunha-se a entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes
+vindo d'um pequeno alpendre que estava ao lado do quintal.
+
+--Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.
+
+E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.
+
+O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do
+fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao
+formado por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os
+vãos entre o pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira.
+Num destes havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao vel-a
+fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito,
+percebeu que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu
+coração começou a pulsar precipitadamente.
+
+Avançou até junto da porta, e escutou.
+
+Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:
+
+--Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá,
+tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não
+devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que
+não me deixa socegar o espirito.
+
+João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra
+esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não
+sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a
+mesma voz que proseguia:
+
+--Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver
+piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!
+
+--Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a
+outra voz, a do brazileiro.
+
+--Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu
+intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e
+infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a
+cabeça, cambaleando, murmurava:
+
+--É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?!
+Tanta dedicação, tanto amôr?!...
+
+E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre.
+Depois, como tomando uma resolução, continuou:
+
+--Não! Não quero manchar as mãos no sangue d'um bandido! Que ganho com
+isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.
+
+Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja
+saudação não ouviu.
+
+Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas
+mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não
+retribuia.
+
+Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um
+sorriso; e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante
+e apressado.
+
+Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os
+hombros, continuavam o seu caminho.
+
+João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se
+o gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido
+nesse dia estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu
+sorumbaticamente as boas noites, pediu que lhe levassem ao quarto uma
+escudella de agua mórna para lavar os pés, e, allegando uma violenta dôr
+de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á alcova.
+
+--Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi
+levar a agua.
+
+--Não; não quero. Não me appetece comer.
+
+--Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado no
+campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho:
+que ficaste atraz...
+
+--Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não
+seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...
+
+--Que é? perguntou Helena com anciedade.
+
+--É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és
+tu só quem pode fazer o que te peço.
+
+E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:
+
+--Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que
+nunca mais aqui appareça!
+
+--Ah! pois tu...--perguntou Helena, meia aterrada. Não queres que...
+
+--Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!
+
+--Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!--E, entre a anciedade e a
+surpreza, repetiu--Como o soubeste?!
+
+--Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o, e...
+
+--Então vistel-o sair?!...
+
+--Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!
+
+--O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar alguma
+desgraça...
+
+--Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!
+
+--Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!
+
+--Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair.
+D'onde?
+
+--D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias
+tudo e que tinhas visto...
+
+--Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que,
+contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:
+
+--E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te embora,
+que não paro da cabeça.
+
+--Passa bem a noite, João. Até ámanhã.
+
+--Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.
+
+--Descança.
+
+João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.
+
+Atravez das suas ideias em desordem, só dois vultos divisava distinctos:
+Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva, o roubador da
+felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o
+pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima
+observação saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o
+abalo que sentiu dentro em si.
+
+--Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de
+tanta malvadez! Miseravel!...
+
+E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão
+desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema,
+atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma
+creança.
+
+ * * * * *
+
+Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita
+cautella com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.
+
+--Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com
+uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...
+
+E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos
+que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente
+addiar a confidencia.
+
+--Mas quando hei-de voltar, Helena?
+
+--Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim,
+era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a
+tua irmã vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!
+
+--Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia em
+Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.
+
+--Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim?
+Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para
+metteres a mão na tua consciencia, e...
+
+--És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no cumprimento
+do meu juramento.
+
+--Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que
+peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?
+
+--Quero.
+
+--Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão
+tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!
+
+--Se Deus o consentir, has-de ser!
+
+--Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...
+
+--Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de
+teu irmão?
+
+--Sim; mas...
+
+--Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo.
+Ámanhã, venho cá e...
+
+--Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te
+approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.
+
+--Bem. Boa noite, Helena.
+
+--Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!
+
+
+XV
+
+No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu
+capote e, pegando no marmeleiro--seu inseparavel companheiro
+nocturno--saiu de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um
+quarto d'hora, e, na volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse
+affirmado bem para um ponto do escuro das arvores, teria notado uma
+negrura mais densa. Fôra o Velloso que escolhera aquelle ponto para seu
+posto de observação, donde se descortinava, atravez da negrura daquella
+noite sem luar, o vulto da casa de Helena, divisando-se no seguimento da
+estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu allumiado pelas estrellas.
+
+João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro
+fronteiro.
+
+O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.
+
+Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas
+folhas das arvores.
+
+Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi
+imperceptiveis, na torre de Eiról.
+
+Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.
+
+Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada
+mais se ouviu na estrada deserta.
+
+ * * * * *
+
+O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes
+acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que
+resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca
+do succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia
+seguinte a Maria Luiza.
+
+Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o
+remorso lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades,
+attribuindo a causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não
+comprehendia.
+
+Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se
+faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á
+hora das Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do
+campo, e não respondera á sua salvação.
+
+--Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.
+
+--A mãe que diz?! Encontrou-o...
+
+--Encontrei-o alli acima.
+
+--Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel
+anciedade.
+
+--Ao toque das Ave-Marias.
+
+E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o
+coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.
+
+A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para
+Maria Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de
+quem se recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo
+remorso.
+
+Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a
+João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar
+a ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava
+interrogar ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso
+ironico; e, não achando outro remedio que pudesse alliviar a afflicção
+em que a via, resolveu, sem o communicar á filha, ir a casa do tio
+Alamêda saber da saude de João, pois outro motivo não podia haver que o
+impedisse de sair, senão a doença.
+
+Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não
+oppunha obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e
+foi no mais firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas
+que obrigavam o seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro
+dia, se dirigiu para lá, eram dez horas da manhã.
+
+Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de
+sobreiro para uma chavêlha.
+
+--Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!
+
+--Muito bom dia, sr.ª Rita.
+
+--Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?
+
+--Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha
+que tempos tambem que a não vejo!
+
+--Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para
+cima...
+
+--E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu
+aido, porque já não posso, estou velho.
+
+--Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em
+socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.
+
+--Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por
+elles o que pude...
+
+--Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns
+bons filhos.
+
+--Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.
+
+--Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou
+dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...
+
+--Dirá...
+
+--Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João
+pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para
+comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom
+coração...
+
+--Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe
+isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que
+não reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso,
+apezar do que para ahi diziam...
+
+--Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e
+por isso...
+
+--Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um
+rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um
+pobre...
+
+--Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou uma
+grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só
+tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de
+Natal--na noite de ceia--e hontem e ante-hontem. Como faltou estes dois
+ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em
+chorar, que até me retalha o coração.
+
+--Pois olhe que eu não sei o motivo...
+
+--Então elle não está doente?!
+
+--Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas
+fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de
+manhã, levantou-se e foi para o trabalho.
+
+--Sim?!
+
+--É verdade.
+
+E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que
+viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade
+de sua filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.
+
+Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do
+trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de
+Maria Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito
+contristada, saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si
+á filha que outra vida não fazia senão chorar.
+
+--Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que quanto
+mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou?
+Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!
+
+--Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar
+por contos...
+
+--Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu
+logar, procederia d'outra fórma.
+
+E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do
+filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer
+acontecimento grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois
+seres que tanto se amavam.
+
+Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a
+Helena.
+
+Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de
+fallar com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle,
+cuja significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por
+uma terrivel angustia, tinha emmagrecido.
+
+O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a
+dôr que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a
+phisicamente. Uma unica consolação encontrara para a mágua: as
+lagrimas--esse terno confidente dos infelizes--que vertia a sós na
+reclusão da sua alcova, que lhe alliviavam as amarguras do coração mas
+lhe desbotavam as côres do rosto e tarjavam de roxo as cavidades dos
+olhos.
+
+Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo
+a carta, vinda da parte de Velloso.
+
+Correu ao seu quarto e leu:
+
+«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de
+tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as
+noites vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa
+portaria que é para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr
+apparecer como o meu anjo salvador, vejo teu irmão, que me espia,
+esconder-se na escuridão do muro fronteiro, e, depois de, durante cerca
+de duas horas de cruel espectativa, me conservar no meu posto de
+observação, vejo-o retirar-se.
+
+Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho
+de te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena,
+e vae, com certeza, ferir de tal modo o teu coração bondoso, que até
+receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta
+chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de
+communicar-t'o, principio, pedindo-te que conserves a maior presença de
+espirito e confies em Deus para que não te faça desanimar á vista do que
+vaes lêr.
+
+Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a
+respeito de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria
+Luiza, que eu não conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e
+que por isso não era digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e
+estimado de toda a freguezia; que este perdia muito no seu conceito se
+casava com ella, segundo constava. Como não me interessava com o caso,
+apenas lamentei a sorte de teu irmão, com quem eu não tinha relações.
+
+Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco
+que te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra
+d'elle e minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho
+errado que trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador.
+Convencido como estava, pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza
+tinha sido uma fraca mulher, e que agora se mostrava outra para
+conservar teu irmão na illusão em que andava, resolvi que ella
+resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo os olhos,
+visse a desgraça que estivera imminente de si.
+
+Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento.
+Jurei-lhe até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas
+de que a accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão
+pura como tu, minha Helena, quando...»
+
+Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto,
+sentiu uma nuvem toldar-lhe a vista e, amarfanhando a carta, caiu de
+bruços sobre o leito num chôro convulsivo, murmurando em delirio, a voz
+cada vez mais apagada:
+
+--A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me
+calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito
+feliz!....................................................................
+..........................................................................
+
+Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade,
+tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar
+ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:
+
+--Pae?... A carta?...
+
+--Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade,
+sr. doutor?
+
+--É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que
+lhe receito.
+
+--É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o
+velho.
+
+--Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar muito
+socegadinha hoje, ouviste?
+
+Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:
+
+--Leu essa carta, meu pae?
+
+--Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te
+preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...
+
+--Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em
+sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas
+que era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é
+aqui. Já vê que não agito o espirito a modos de me fazer mal.
+
+--Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...
+
+--O pae leu a carta toda?
+
+--Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o
+João.
+
+--O João?! E que disse?!
+
+--O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus
+que não falles mais nisso hoje.
+
+E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas
+nos olhos, dizia:
+
+--Faz-me a vontade, sim, filha?...
+
+Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja
+leitura não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.
+
+
+XVI
+
+Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de
+toda a gente, era um seductor de donzellas.
+
+Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o
+brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a
+freguezia, conhecedora dos successos que elle causara, augmentados,
+naturalmente, pela phantasia popular, murmurava indignada contra esse
+homem que viera, com a presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o
+socego da aldeia e lançar a desgraça no seio d'uma tão boa e santa
+gente.
+
+A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre
+avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.
+
+Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de
+Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos
+eucalyptos, na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o
+perseguir, apparecesse á porta.
+
+Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi
+indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco
+Helena dava signal de si.
+
+--Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.
+
+Os dias passava-os em sua casa e na do visinho, que lhe communicava as
+impressões que a seu respeito occupavam o espirito popular.
+
+Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor:
+nem sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus
+queixumes da vida lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe
+tocar nesse ponto.
+
+Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.
+
+Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo
+devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos
+obreiros que se occupavam na construcção da sua nova habitação.
+
+--Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do
+terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem
+filho nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que
+lá tem, filha do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para
+ficar na companhia do velho...
+
+Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para
+as paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos
+calcanhares, e, como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho
+embasbacado a olhar para elle, fallando comsigo:
+
+--Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a
+tempo! Onde irão elles já!
+
+E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de
+presumpção:
+
+--Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre como
+eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho
+dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito
+a perder ninguem! Nem me perco a mim!...
+
+ * * * * *
+
+O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.
+
+Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só
+n'aquelle recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma
+saudade do dia em que pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu
+coração uma gotta de sangue que lhe assomava aos olhos transformada
+n'uma lagrima.
+
+A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação
+do seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido
+no pateo. Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe
+affluiam aos olhos........................................................
+..........................................................................
+..........................................................................
+
+Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.
+
+Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um
+olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.
+
+Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os
+joelhos, proferindo estas palavras com desalento:
+
+--Perdão! Perdão para um infeliz!
+
+O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces
+enrugadas:
+
+--Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.
+
+O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:
+
+--Helena para onde foi?!
+
+--Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar.
+Morreu para mim e para o mundo.
+
+--Para um convento?!...
+
+--É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de
+embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que
+prometteu internal-a n'um recolhimento.
+
+--Oh! Isto e cruel!
+
+--Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê privado
+da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar.
+Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem
+voltar a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!
+
+Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do
+velho, que proseguia:
+
+--O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o
+braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira
+continuar na sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode
+compensar uma parte d'esta serie de infelicidades que causou.
+Arrependa-se do passado, e faça por esquecel-o com um futuro glorioso.
+Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena, que tem um coração d'oiro,
+tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira. Falta só Deus. Para
+conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve o passado com
+o futuro.
+
+--Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...
+
+--Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para lançar
+sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores
+criminosos.
+
+O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução, disse:
+
+--Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.
+
+E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho,
+continuou, com voz pausada:
+
+--Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor
+me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro
+regenerar-me do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado
+como um instrumento criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e
+deshonestos e como uma base tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar
+para o berço pobre onde nasci, o meu castello de opulencia, quero que
+para o futuro seja olhado como um maná celeste que, descendo ao seio da
+miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero que elle seja a
+alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu, nascido
+na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas
+na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar
+para baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da
+miseria, eu quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos
+tugurios pestilentos, nas espeluncas, para alimentar quem tem fome,
+aquecer quem tirita de frio, e seccar as lagrimas de quem chora.
+
+O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:
+
+--E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá mais
+alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima,
+não lançam um olhar de misericordia cá para baixo!
+
+
+CONCLUSÃO
+
+Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma
+casa de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie
+que, semeada de casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua
+frente.
+
+O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes
+de vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que
+estremecia sob o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um
+pinheiral de pinheiros miudos e distanciados que cresciam por entre um
+tapete de urzes floridas, dando, visto de longe, a ideia de um jardim
+suspenso de Babylonia.
+
+Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã
+pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do
+Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava,
+parecia uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos
+pequenos, anteviamos atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela
+narração d'um conto de fadas ou de princezas encantadas que nossa avó
+nos contava ao serão.
+
+Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera
+limpida, e o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía
+d'aquella vivenda e ia passear pelas veredas do outeiro, contemplando,
+ditoso, as varzeas sorridentes por onde serpéa o poetico Vouga.
+
+Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de
+acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás
+vezes ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o
+verem desapparecer na curva de um atalho.
+
+Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto
+sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.
+
+--São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se.
+Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!
+
+Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a
+fome, a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a
+noite estendia o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e
+caritativa saía a ministrar o alento aos infelizes que, por vergonha ou
+impossibilidade, não ousavam sair do seu tugurio onde se debatiam com os
+horrores da miseria.
+
+Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos
+infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria
+Luiza, a esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que
+distribuia santamente os rendimentos da sua riqueza.
+
+O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos
+antes, circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a
+alma popular, e o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado
+dos infelizes, respeitado por todos os que o conhecem.
+
+Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de
+cabeça calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi
+todos os dias passar alguns momentos com elles.
+
+Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais
+que em todo o resto da vida.
+
+Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua
+companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam
+esses dois seres--Paulo e Julia--que a Providencia lhe atirara pela
+porta dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes
+faltara.
+
+Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua
+Mãe: «ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso,
+conserve-os na sua companhia».
+
+E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a
+necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.
+
+Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e
+perguntou-lhe:
+
+--Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente
+fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha
+companhia abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia
+para ella. Convém que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da
+minha vida. Vou perfilhar Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia
+que, se concordares com ella, dispensa isso. Queres casar com Julia?
+
+O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos,
+sem poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.
+
+--Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com Julia?
+
+--Se quero!...
+
+Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a
+paixão da sua alma, manifestou quanto amôr occultara durante dois
+annos no seu peito.
+
+--Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta,
+vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou
+contente com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar
+comtigo. Vae chamal-a.
+
+E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.
+
+Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues
+cheios de doçura e de submissão:
+
+--Que quer, pae?
+
+--Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com
+Paulo, fazias-me a vontade?
+
+Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a
+resposta mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.
+
+O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica
+felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e
+poisando paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com
+extrema bondade, pondo-se em pé:
+
+--E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que o
+amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?
+
+Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a
+contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com
+candura.
+
+--Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que não
+ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua
+chegada com o vosso casamento; e...
+
+O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria, onde estava um
+homem, com uma porção de cartas numa das mãos e um sacco de couro a
+tiracóllo.
+
+--Ill.mo senhor José Nunes da Alamêda!
+
+E estendeu um braço com uma carta na mão.
+
+Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto,
+estremeceu. Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil,
+occultou o rosto no avental, soluçando.
+
+O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:
+
+--Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...
+
+Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces
+banhadas de lagrimas, estendendo a carta para o velho.
+
+--Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade
+de Deus!
+
+E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos,
+meneava dolorosamente a cabeça.
+
+Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e
+desdobrou a carta.
+
+Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma
+palavra, collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça
+á d'ella e olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as
+lettras que não entendia, porque não sabia lêr.
+
+Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e,
+deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.
+
+Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:
+
+--Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.
+
+E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente
+semelhando os conjuges em frente do padre, disse:
+
+--Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora
+avante sereis meus filhos.
+
+Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada
+pelos soluços:
+
+--E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA ***
+
+***** This file should be named 30947-8.txt or 30947-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/9/4/30947/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/30947-8.zip b/30947-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..1877dbb
--- /dev/null
+++ b/30947-8.zip
Binary files differ
diff --git a/30947-h.zip b/30947-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..cbb825f
--- /dev/null
+++ b/30947-h.zip
Binary files differ
diff --git a/30947-h/30947-h.htm b/30947-h/30947-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..8297c89
--- /dev/null
+++ b/30947-h/30947-h.htm
@@ -0,0 +1,4978 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Scenas da Aldeia, por A. Augusto de Miranda</title>
+ <meta name="Author" content="A. Augusto de Miranda">
+ <meta name="Publisher" content="Typographia Universal">
+ <meta name="Date" content="1909">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;}
+ h1, h2 {text-align: center; margin-top: 4em; margin-bottom: 4em;}
+ h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ blockquote { margin-left: 20%;}
+ .direita {position: absolute; right: 10%;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas da Aldeia
+
+Author: A. Augusto de Miranda
+
+Release Date: January 12, 2010 [EBook #30947]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">A. Augusto de Miranda</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 2em;">SCENAS <small>DA</small> ALDEIA</p>
+
+<div style="margin: 20%;">
+<p>Editor</p>
+
+<p>A. Augusto de Miranda</p>
+
+<p style="text-align:right;">1909</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">SCENAS DA ALDEIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">Compos. e impres.&mdash;Typ.
+Universal <br>
+54, Trav. de Cedofeita, 56 <br>
+e Rua das Oliveiras, 75, 77 Porto</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.5em;">A. Augusto de Miranda</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS <small>DA</small> ALDEIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: small;">PORTO<br>
+<strong>Typographia Universal, a vapor</strong> <br>
+75, Rua das Oliveiras, 77 <br>
+<strong>1909</strong></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Ao Ill.<sup>mo</sup> e Ex.<sup>mo</sup>
+Snr.</em></p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">Conselheiro Albano de Mello</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Permitta-me V. Ex.ª, confidente das vicissitudes que tem agitado a minha
+ vida de ha sete annos a esta parte, que eu colloque o seu nome illustre nesta
+ pagina d'esta insignificante producção litteraria, que para V. Ex.ª só tem o
+ merecimento de ser um testemunho de gratidão.</em></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><em>A. A. Miranda.</em> </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">AOS MEUS PROFESSORES</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">Aos meus Condiscipulos</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">AOS MEUS AMIGOS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right"><em>Meu amigo:</em></p>
+
+<p><em>As resumidas linhas em que eu condensarei as impressões que da leitura
+do seu livro me ficaram não podem constituir, de fórma alguma, isso a que, nas
+nossas lettras, se chama&mdash;um prefacio. Serão apenas uma ligeira carta sem
+subtilezas de critica profunda&mdash;a critica que nunca soube formular, porque
+os criticos são personalidades todos de intellecto raciocinado e frio e eu sou
+um homem todo de emoções.</em></p>
+
+<p><em>Esses criticos diriam ao meu amigo que as obras realisadas aos vinte
+annos não deviam ser atiradas aos alaridos da publicidade sem que primeiro os
+seus auctores tivessem, além de um exacto conhecimento da vida, completamente
+afinadas as suas faculdades d'observação, e sem que o seu temperamento
+esthetico adquirisse uma perfeita sagacidade, para que depois, já em pleno
+triumpho, não se arrependessem dos inconsiderados impulsos da juventude. Eu,
+pelo contrario, digo-lhe que nenhum escriptor deve envergonhar-se da sua
+actividade artistica dos primeiros annos, mesmo quando na superior florescencia
+do seu talento um dia sentir a viva anciedade de vêr como principiou. Os
+trabalhos da iniciação representam até um documento essencial para o estudo das
+intelligencias evolutivas e ascendentes...</em></p>
+
+<p><em>Não affirmarei que o seu livro seja impeccavel. Nem o meu amigo terá a
+vaidade d'assim o julgar nem eu desfiguraria a verdade simplesmente para
+ser-lhe agradavel&mdash;e isto pela viva sympathia que me inspirou. A novella,
+para que a illumine a belleza, carece de unidade de concepção e de realisação,
+da plasticidade e do vigor da fórma, da perspicacia da analyse psychologica, de
+dextreza na modelação das figuras, da diversidade dos coloridos na pintura dos
+scenarios: e estes dons apenas advêm da tenacidade disciplinada e do estudo,
+porque ninguem nasce com um quinto sentido capaz de tudo adivinhar e tudo
+comprehender.</em></p>
+
+<p><em>Não lhe esconderei, no emtanto, que o seu livro me communicou um certo
+prazer espiritual pela sua candura, pelo poetico sentimento que enternece
+algumas paginas&mdash;que é o sentimento d'uma alma pura e com finas
+delicadezas emotivas. Ora isto indica, no escriptor que agora começa, um
+evidente talento ainda balbuciante mas que ardentemente deseja orientar-se e
+que virá a impôr-se ás admirações se fôr animado por uma vontade sem
+desfalecimentos. E tão certo estou d'essa victoria futura que desde já
+calorosamente o applaudo, lamentando no emtanto que para a sua apresentação se
+houvesse lembrado do meu nome humilde e sem auctoridade para estas ceremonias
+solemnes.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Porto, 5 d'Abril de 1909.</em></p>
+
+<p style="text-align: right"><em>Amigo muito affectuoso</em></p>
+
+<p style="text-align: right">João Grave.</p>
+
+<h2 style="text-align:right;"><a name="SECTION00010">PROLOGO</a></h2>
+
+<p>Ex-alumno de um dos seminarios da diocese do Porto e actualmente estudante
+mediocre do lyceu, dou á luz o producto de tres longos mezes de trabalho para a
+consecução do qual tirei instantes preciosos destinados á ardua tarefa de que
+depende a minha vida futura&mdash;tarefa tanto mais ardua, quanto mais
+consideradas sejam as minhas escassas luzes intellectuaes.</p>
+
+<p>Eis aqui, pois, uma obra que, apreciada por todos os lados, só tem valor por
+ser o fructo de um trabalho em que gastei, mórmente durante um bom mez, uma
+parte do tempo precioso destinado ás minhas lições. É appellando para essa
+attenuante que espero merecer a complacencia do publico em geral&mdash;tanto
+dos que convivem commigo de perto e que, vendo em mim um individuo sem aptidões
+para qualquer ramo do saber humano, vão ficar admirados da ousadia de
+semelhante passo, como dos que, sem nunca sequer me terem visto, esperam
+encontrar neste pequeno livro a summula do valor d'uma intelligencia
+promettedora que começa a manifestar a sua tendencia.</p>
+
+<p>Á minha inaptidão vem juntar-se a inexperiencia dos meus vinte e tres annos;
+e assim é que<span class="pn">{16}</span> o meu livro, fatalmente eivado de
+todas as especies de imperfeições, só por uma disposição do leitor benevolo
+para uma extraordinaria condescendencia, poderá ser absolvido das faltas que
+inconscientemente commetti.</p>
+
+<p>Abstenho-me de appellar para a complacencia dos meus companheiros e dos meus
+collegas em geral, porque elles, mais que ninguem, avaliam as difficuldades com
+que eu deveria luctar para conseguir o meu intento.</p>
+
+<p>Ha seis mezes, approximadamente, publiquei no <em>Correio d'Albergaria</em>
+um artigo sobre a vida do Belbuth, que subordinei ás Scenas da Aldeia, que eu
+declarei em preparação, mas que ainda existiam em projecto na minha mente.
+Passados perto de dois mezes dei principio ao meu trabalho e publiquei então no
+mesmo jornal um excerpto sobre a transformação psychica de Maria Luiza.</p>
+
+<p>Por varias vezes hesitei se deveria continuar esta empreitada que me
+preoccupava o espirito, desviando-o do cuidado dos meus affazeres quotidianos,
+e absorvia o melhor do meu tempo que eu não podia dispensar sem prejuizo das
+minhas obrigações.</p>
+
+<p>Mas, quando no meu espirito se travava a lucta da obrigação com a devoção,
+esta acabava por triumphar, coadjuvada por uma promessa que, de caracter
+inteiramente intimo, eu tinha feito um dia.</p>
+
+<p>O meu livro está impregnado, na sua essencia, de um pronunciado sabor
+religioso, porque julguei que, tirar á simplicidade da vida aldeã o sentimento
+religioso, que caracterisa os seus costumes, era despil-a d'essa graça original
+e tão cheia de poesia que lhe dá todo o seu valor; julguei que era arrancar á
+vida da aldeia a sua alma.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>Obedeci a esse principio, e não á gratidão com que retribuo a meu
+pae&mdash;um padre catholico que obedeceu ao dever da sua consciencia e do seu
+coração quando me perfilhou&mdash;os desvelos que um filho recebe de seu pae
+carinhoso. Nem tão pouco obedeci á doçura dos fructos que deveria ter colhido
+da minha reclusão de alguns annos num seminario.</p>
+
+<p>D'este só me lembro com mágua, quando considero a falta que me fazem os
+annos que lá gastei inutilmente. De resto, repressões, o pouco respeito com que
+os padres tratam um homem de vinte annos, etc., tudo isso lhes fica em
+caracter, e é tudo com o fim de amoldar ao seu o caracter dos alumnos:
+finalmente, cumprem o seu dever, porque são, por assim dizer, uns criminosos
+inconscientes.</p>
+
+<p>D'elles só conservo um resentimento: alimentarem animadversão contra a minha
+terra&mdash;Aveiro, talvez por causa das suas tradições de inimiga da
+hypocrisia. </p>
+
+<p>Um, chegou a dizer numa aula, na minha presença&mdash;quando se discutia no
+parlamento o projecto do caminho de ferro do Valle do Vouga&mdash;que todos os
+que se deixaram levar pelas palavras de José Estevam foram uma corja de
+brutos&mdash;palavras textuaes&mdash;porque a variante da linha ferrea que
+então se construiu, além de acarretar enormes dispendios á companhia,
+prejudicava immenso, por causa d'uma terra <em>que não prestava para nada, sem
+valôr nenhum</em>, toda esta região que anceava pela execução do caminho de
+ferro do Valle do Vouga.</p>
+
+<p>Tirado d'isso, não tenho d'elles resentimento nennum. Apenas tiveram, com o
+culto das suas virtudes, o poder de me abalar algumas [crenças] que levava
+arreigadas no coração, e de apagar outras. Se ha quem diga que actualmente já
+se não fazem<span class="pn">{18}</span> milagres, ou nunca houve quem os
+fizesse, engana-se.</p>
+
+<p>Já vê, pois, o leitor, que sou religioso e sou christão; não sou, talvez,
+catholico, mas isso dá-se na maioria dos padres, se não na sua totalidade.</p>
+
+<p>Ponto final sobre este assumpto. Não vá o meu livréco parar ao
+<em>Index</em>.</p>
+
+<p>Terminando este prologo, nada mais tenho a fazer que impetrar mais uma vez
+do leitor benevolo a sua complacencia que, em vista das razões que expuz, não
+deixo de merecer com alguma justiça; e, confiado em que a minha petição não
+será infructifera, agradeço-a antecipadamente, e deixo aqui consignado tambem o
+meu agradecimento pelos preciosos momentos que o leitor haja de dispender na
+leitura d'este ensaio.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Aveiro, março de 1909.<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00100">SCENAS da ALDEIA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00110">I</a></h2>
+
+<p>Na margem direita do Vouga, a cerca de doze kilometros da sua foz,
+espreguiça-se indolentemente, numa série de formosos outeiros e encostas de
+suave declive, uma aldeia.</p>
+
+<p>A vista das casas disseminadas, como que em monticulos, por entre o verde
+das arvores e dos pinheiraes numa extensão de mais de quatro kilometros,
+suggere-nos a ideia de que Deus as atirara para cima da verdura d'aquellas
+collinas, como o lavrador atira a mão-cheia da semeadura á terra fecundante.
+</p>
+
+<p>Mirando com galhardia do alto dos seus outeiros os logares que lhe ficam
+proximos, ella parece sorrir-se com aquelle sorriso de superioridade que uma
+mulher, conscia da sua formosura, lança áquellas que não receberam da natureza
+os dons com que ella foi dotada.</p>
+
+<p>Bafejada pela amenidade do clima e pela limpidez e doçura de um ar diaphano,
+as suas melênas são brandamente agitadas pelo sopro suave duma<span
+class="pn">{20}</span> aragem fagueira, e a fimbria do seu vestido, d'um verde
+puro da vegetação do campo, é banhada pelas aguas transparentes do meigo e
+terno Vouga.</p>
+
+<p>Eis, em simples bosquejo, o que é essa aldeia que se chama Alquerubim.</p>
+
+<p>Alquerubim!</p>
+
+<p>Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante ao
+de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!</p>
+
+<p>Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do sentimento
+que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me viu nascer.</p>
+
+<p>Não.</p>
+
+<p>Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta
+aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando
+pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos no
+mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no seio
+materno.</p>
+
+<p>Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a
+minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando por um
+prado tapetado de boninas e violetas.</p>
+
+<p>É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do meu
+peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura
+inexprimivel&mdash;a saudade.</p>
+
+<p>Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada arvore;
+em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por uma pedra
+desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga, um pedaço da
+minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a, invade-me<span
+class="pn">{21}</span> a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de
+ter, em manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de
+verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.</p>
+
+<p>Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo inverno.
+Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama&mdash;Vida. E, ainda que na
+primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado por vendavaes
+ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de me assaltar, que eu
+procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração nas dôces recordações da
+minha juventude.</p>
+
+<p>Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas
+madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo se eleva
+um não sei quê parecido com um fumosinho que vem condensar-se-me nos olhos.
+Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um nevoeiro que me tolda a vista, mas
+muito tenue, que eu considero o chorar da alma. Porque a alma tambem chora.</p>
+
+<p>Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte, percorro
+com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas vezes andei horas
+esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na caminha de ferro que
+minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos, ao ouvir o badalar do sino
+logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava, e minha mãe ia ajudar-me a vestir
+a roupa nova para ir á missa; e eu lá ia, muito serio, ao lado de minha mãe,
+com uma bengalinha de bambú que me tinham dado, e depois da missa voltavamos
+para casa, eu almoçava e em seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o
+campo, com os meus companheiros. Recordo-me d'estes com saudade,<span
+class="pn">{22}</span> alguns dos quaes, talvez mais felizes do que eu, já
+morreram, e outros, andam muito longe, alguns nem eu sei por onde, luctando com
+a vida, abreviando os annos da existencia...</p>
+
+<p>E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me,
+attenuam os dissabores da minha vida presente.</p>
+
+<p>Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica
+felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu
+movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle tambem
+não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves murmurios, a
+beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares das camponêsas em
+dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos
+apaixonados.................</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia da
+cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o Dante e eu
+serei Beatriz.</p>
+
+<p>Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos de
+espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da natureza
+que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.</p>
+
+<p>Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições; serás
+testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas de paz,
+socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a chuva fustiga as
+folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da choupana, a sua canção
+monótona; assistirás ás festas intimas dos simples, ao seu labôr quotidiano,
+aos seus regosijos, ás suas alegrias, aos seus pezares; palrarás com a gente
+do<span class="pn">{23}</span> campo e estudarás a sua bôa indole; espraiarás a
+vista por horisontes muito extensos, por sobre montanhas longinquas; aspirarás
+a largos sôrvos o ar purificado pela folhagem de centenares de arvores, cruzado
+pelo esvoaçar de milhares de avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de
+myriades de florinhas espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá
+as côres róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.</p>
+
+<p>Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades; a
+tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a mesma
+commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta, vendo-se sem
+a tranquillidado dos campos, disse&mdash;<em>ó rus, quando te
+aspicio!</em>&mdash;oh! campo, quando te tornarei a vêr!<span
+class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00120">II</a></h2>
+
+<p>O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr
+nascer o sol.</p>
+
+<p>Uma tenue claridade, precursôra do dia, innundava já o ambiente da aldeia. O
+ar, sem um movimento, sem a mais leve aragem, conservava as arvores em completo
+repouso.</p>
+
+<p>O mez de maio é um bouquet formado de trinta e uma flores. Este dia era uma
+d'essas flores, das mais formosas, de petalas mais coloridas e frescas.
+Desabrochava garbosamente, acariciado pelo dôce orvalho da madrugada.</p>
+
+<p>Em frente das ruinas d'uma casa pequena, envolvida n'um massiço de heras,
+cantava um rouxinol, pousado n'um sabugueiro. Parei, a ouvir os seus trinados.
+</p>
+
+<p>Nos requebros das suas melodias, nas inflexões dos seus variados
+garganteios, havia um tão expressivo influxo de dôce sensibilidade, um tão
+grande sentimento, que, sob a poderosa influencia d'aquelle
+silencio&mdash;apenas entrecortado pela voz do rouxinol&mdash;que pairava em
+volta de mim, eu, em frente d'aquellas paredes derruidas pelas quaes trepava um
+massiço de verdes heras, sentia-me infinitamente pequeno&mdash;mais pequeno que
+o rouxinol.</p>
+
+<p>Absorvido na audição d'aquellas melodias que arrancavam á minha alma
+vibrações d'uma indizivel doçura, e contemplando as ruinas d'aquella casa que,
+talvez, outr'ora, tivesse sido uma mansão ditosa de<span class="pn">{25}</span>
+felicidade e amôr ou, quem sabe? de expiação para uma alma desditosa e
+amargurada, debaixo da ascendencia que sobre a minha alma exercia a voz do
+rouxinol, eu tive o desejo de saber a historia d'aquella casa; porque, com um
+rouxinol ao pé a cantar melopêas tão sentimentaes que pareciam repassadas de
+pungente saudade, a entoar canções tão tristes como a solidão em que aquellas
+paredes estavam mergulhadas, ella devia ter a sua historia, como a casa da
+Menina dos Rouxinoes de Almeida Garrett.</p>
+
+<p>Parece que o acaso capricha em deixar ao abandono, para não serem
+profanados, os santuarios onde uma alma apaixonada, ou edificada na pratica da
+virtude, passou as horas tristes da soledade na mais santa das resignações,
+palpitou-me que aquella casa devia tambem ter sido um d'esses santuarios, e o
+rouxinol o musico, o cantor incumbido pelo destino de acompanhar e realçar com
+as suas melodias sentimentaes aquelle quadro de saudade...</p>
+
+<p>Fui arrancado á minha meditação pelo ruido do rodar pesado d'um carro de
+bois.</p>
+
+<p>O dia aclarava progressivamente; por detraz da serra do Caramulo estendia-se
+já uma faixa afogueada, que cada vez se ia alastrando mais.</p>
+
+<p>Era a «bellissima aurora, coroada de resplendores e lirios», na phrase de
+Vieira.</p>
+
+<p>O rouxinol interrompeu a sua melopêa e fugiu do arbusto.</p>
+
+<p>O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.</p>
+
+<p>Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle,
+arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14
+annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7
+annos, encostado á sebe<span class="pn">{26}</span> de vimes, as mãositas
+mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois
+não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.</p>
+
+<p>&mdash;Eh! Tio Luiz! Bom dia.</p>
+
+<p>&mdash;Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?&mdash;Oh!
+Pára ahi, <em>loura</em>! Oh! <em>castanha</em>!&mdash;Isso é que foi madrugar,
+hein?</p>
+
+<p>&mdash;Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da
+madrugada. </p>
+
+<p>&mdash;Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra
+para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por
+volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os
+senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr
+vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um
+calôr de rachar!</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os
+modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de
+laboriosa, é a melhor que ha! Diga...</p>
+
+<p>&mdash;Ai! ai! ai! Se vamos...</p>
+
+<p>&mdash;Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é
+uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr
+que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso
+agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente,
+dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva
+muito bem, deitar-se socegado do espirito&mdash;do espirito, que é o melhor
+socêgo!&mdash;e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso
+vale?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não sei, mas calculo... Mas, se<span class="pn">{27}</span>
+quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que
+vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis
+tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a
+levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa!
+Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente
+assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...</p>
+
+<p>&mdash;Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem
+ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a
+outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim
+determinou...</p>
+
+<p>&mdash;Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a
+gente... </p>
+
+<p>&mdash;Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco
+tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com
+olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões
+mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros
+influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de
+ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse
+adquirido uma certa convivencia com essa gente <em>fidalga</em>, como vocês lhe
+chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as
+despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar
+decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais
+vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não
+saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos
+trabalho dão. Você ia-se<span class="pn">{28}</span> habituando a ganhar cada
+vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do
+torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz
+atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por
+desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não
+apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem
+d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!</p>
+
+<p>&mdash;Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...</p>
+
+<p>&mdash;Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a
+de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?</p>
+
+<p>A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear:
+</p>
+
+<p>&mdash;É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos
+encaminham... </p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que
+está o sol quasi a nascer. Para esta vida&mdash;acrescentou elle, rindo-se
+zombeteiro ainda do meu enleio&mdash;de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah!
+Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o
+seu tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! A grande coisa! Suba! Suba! Eu é que me devia de ter
+lembrado d'este offerecimento ha mais tempo.</p>
+
+<p>Saltei para cima do carro, segurei-me com uma das mãos á sebe e o tio Luiz,
+tocando levemente com a extremidade da aguilhada no lombo das vacas,<span
+class="pn">{29}</span> exclamou, na palavra consagrada para pôr o gado bovino
+em andamento:</p>
+
+<p>&mdash;Eixe!</p>
+
+<p>O carro poz-se em movimento.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me cá uma coisa, ó tio Luiz: de quem foi ou quem viveu nesta
+casa, que alli está em ruinas?</p>
+
+<p>&mdash;Esta casa? Aqui foi onde viveu, em solteira, aquella brasileira, ou,
+por outra, a mulher do brasileiro que móra acolá em cima na Herdade.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Bem sei! Por signal que até a vida d'essa mulher em solteira é
+muito interessante.</p>
+
+<p>&mdash;Coitada! Foi infeliz e causou bastantes infelicidades. Mas
+arrependeu-se, e depois o que soffreu e fez soffrer foi bem descontado.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que acho esquisito é eu ter aqui passado tantas vezes e nunca
+reparar para a casa senão hoje. E estou meio impressionado. Diabo! Estou capaz
+de escrever a historia da casa. Você que diz, ó tio Luiz?</p>
+
+<p>-Ah! Ah! Ah! A historia da Maria Luiza, que morou nella! Faz muito bem, e
+olhe que é uma historia bem bôa, além de ser verdadeira, que é o principal!</p>
+
+<p>&mdash;Pois está dito. Não descansarei emquanto a não escrever. Mal ou bem,
+depressa ou devagar, ella ha-de sair!</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhor Antonio! olhe que eu depois quero tambem...</p>
+
+<p>&mdash;Descance, que ha-de ser você talvez a primeira pessôa que nesta
+freguesia ha-de têl-a.</p>
+
+<p>&mdash;E isso levará muito tempo, ó sr. Antonio?</p>
+
+<p>&mdash;Leva, leva! Vê que a minha vida não me permitte dispôr de muito tempo
+para isso. Com certeza que antes de tres ou quatro mezes não a escrevo.
+Depois...<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim! É preciso tambem depois <em>imprensal-a</em>, e tudo leva
+tempo. </p>
+
+<p>&mdash;Pois é isso. Antes de meio anno ou mais, você não a vê.</p>
+
+<p>&mdash;Seja lá quando fôr! Mas que Deus não me mate sem a ouvir lêr. E olhe
+que ha-de ser vocemecê que m'a ha-de lêr, ouviu?</p>
+
+<p>&mdash;Está dito.</p>
+
+<p>O carro seguia por entre duas alas de salgueiros viçosos, cheios de orvalho,
+que rolava das suas folhas verdes como perolas da mais fina transparencia.</p>
+
+<p>O Vouga, a uns duzentos passos, deslisava silencioso. Nas suas ribas
+semelhantes a dous grossos cordões que tarjavam o seu leito, os passaritos,
+esvoaçando e chilreando, numa alegria infantil, cantavam a alvorada.</p>
+
+<p>Numa encosta proxima, a vidraça duma janella reflectiu um clarão&mdash;era o
+sol que emergia por detraz da serra, cujo dorso gigante parecia em fogo.</p>
+
+<p>O tio Luiz fez parar as vaccas, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Agora vamos á nossa lida.</p>
+
+<p>Emquanto saltei, respondi:</p>
+
+<p>&mdash;Vão, vão; que se não fosse eu, já vocês tinham um bom par de leiras
+lavradas.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem lá isso! retrucou elle bondosamente. Mal tinhamos tempo de
+pôr as vaccas á charrua!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe lá! Que vem cá fazer o petiz? perguntei, indicando o pequeno
+que, lesto, saltara do carro e se preparava para fazer algum trabalho; não
+podia ter ficado a dormir?</p>
+
+<p>&mdash;Quer vir, deixal-o vir! É para se ir acostumando. Como já chega a uma
+prateleira que lá tenho na cozinha, diz que já é um homem. Que quer que lhe
+faça?<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Quando me retirei&mdash;já o sol ia alto&mdash;o tio Luiz lá andava a
+revolver a terra, agarrado á rabiça do arado, o dorso meio curvado pelo
+esforço.</p>
+
+<p>Preparava a terra para lhe lançar os grãos, cada um dos quaes se multiplicou
+em dezenas d'elles.</p>
+
+<p>Semeado naquella manhã formosissima de maio, o milho nasceu, passados alguns
+dias, lindo e verde: lançou raizes, cresceu, desenvolveu-se; foi sachado,
+mondado, arrendado e, por fim, cortado.</p>
+
+<p>Durante os mezes que esteve na terra, mereceu ao lavrador cuidados e
+caricias verdadeiramente filiaes.</p>
+
+<p>Trabalhos e fadigas, chuva e calôr, tudo soffreu resignado, sempre na sua
+fronte estampada a alegria e no seu coração a esperança...&mdash;A esperança de
+quê? </p>
+
+<p>Nem elle o sabe, o lavrador.</p>
+
+<p>Amando religiosamente a sua aldeia, alli vegeta sem ambições, idolatrando os
+torrões que seus paes regaram com o suor da sua fronte, colhendo os fructos das
+arvores que elles plantaram, e plantando outras de que seus filhos depois
+colherão os fructos.</p>
+
+<p>E, sem o saber, vive feliz. Deus compensa-lhe as horas de labor insano com
+instantes de suprema ventura, passados, sem preoccupação de espirito, no dôce
+convivio da familia reunida em volta da lareira nas noites amenas do outomno.
+</p>
+
+<p>Todos os dias, á hora crepuscular da tarde, quando um socêgo religioso
+repousa sobre a aldeia depois do toque cheio de ternura das Avè-Marias, a sua
+cozinha denegrida, mas alegrada pela claridade intensa duma robusta fogueira,
+transforma-se em um cenaculo<span class="pn">{32}</span> onde reina a paz e o
+amôr; a familia inteira, collocada a magra mas abundante refeição da noite
+sobre a tosca mesa de pau de pinho coberta por uma grossa toalha de estopa,
+senta-se em volta radiante, semelhando os discipulos do Nazareno na noite da
+ultima ceia.</p>
+
+<p>Entretanto, cá fóra, cortando o socêgo da noite allumiada pelo meigo luar ou
+pela claridade das longiquas estrellas, o sino da egreja começa a dobrar ás
+almas, segundo o tradicional costume da aldeia, repercutindo-se o som de valle
+em valle, pelos campos além, penetrando os limites da freguezia visinha, até se
+perder na solidão da noite...<span class="pn">{33}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00130">III</a></h2>
+
+<p>O tio José da Alameda era uma bom velhote de perto de setenta annos.</p>
+
+<p>Curvado pela dureza do trabalho de mais de meio seculo, dentro do seu peito
+rijo existia um coração sempre jovial e bondoso, cuja ternura se derramava em
+obras caridosas com que accudia aos infelizes, e uma alma candida que logo se
+manifestava na ternura do olhar com que a todos envolvia.</p>
+
+<p>Enviuvara antes dos sessenta annos e possuia dois filhos: o mais velho,
+mocetão de vinte e quatro annos, era um rapaz cheio de vida, alegre e bondoso,
+a flôr dos mancebos da freguezia. O segundo filho era uma rapariga de dezoito
+annos&mdash;o terceiro filho do casamento do tio Alameda com a sr.ª Maria das
+Dôres&mdash;chamada Helena, possuidora de uns olhos que&mdash;não é por eu
+gostar de olhos escuros em rosto moreno&mdash;lhe diziam tão bem, naquelle seu
+troso trigueiro e encantador, que não havia rapaz nenhum na aldeia que não
+desejasse andar toda a vida perdido na escuridão d'aquelles olhos. E quando
+ria, deixava vêr, por detraz de dois labios nacarados que deviam ser dôces como
+favos de mel, duas filas de dentes brancos como a neve pura.</p>
+
+<p>A familia do tio Alameda, além d'elle e dos dois filhos, compunha-se de um
+creado, rapazote de 17 annos, chamado Paulo, fallador e alegre, que para alli
+tinha ido aos doze annos; e de uma rapariga de quinze, uma pupilla que, orphã
+de pae e de mãe, encontrara nos braços do tio Alameda os carinhos paternaes que
+tão cedo lhe faltaram.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>Chamava-se Julia. Tendo ficado sem mãe aos cinco annos, a infelicidade
+vibrara-lhe novo e mais profundo golpe arrebatando-lhe, no principio da
+adolescencia, o pae que a estremecia e que era o seu unico amparo.</p>
+
+<p>Foi então que a misericordia do tio Alameda se patenteou devéras; porque o
+moribundo, reconhecendo que a sua pobre Julia não podia ficar só no mundo,
+mandou, na hora extrema, chamar o tio Alameda e disse-lhe numa voz apagada e
+apertando nas suas mãos febris as do bondoso velho:</p>
+
+<p>&mdash;Tio José... esse anjo, que ahi está a chorar... vae ficar sem ninguem
+no mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Descança, João; dizia-lhe o tio Alameda com as lagrimas nos olhos e
+limpando-lhe o suor que escorria da fronte ardente; descança, que a tua Julia
+fica na minha companhia.</p>
+
+<p>O moribundo, em agradecimento, apertou-lhe a mão que segurava na sua que
+caiu pezada sobre o leito, e duas grossas lagrimas rolaram-lhe pelas faces
+mortalmente pallidas.</p>
+
+<p>Desde esse dia, Julia ficou fazendo parte da familia do tio Alameda.</p>
+
+<p>&mdash;Olha o que te digo, pequena&mdash;dizia-lhe elle carinhosamente uns
+dias depois da morte do pae. Tu agora és minha filha. Deus levou uma que eu
+tinha e mandou-te a ti em seu logar: voltei a ter tres filhos. Mas tu não
+has-de andar sempre a chorar! Isso são saudades, é certo, e as saudades dos
+paes nunca se acabam. Mas faze-me a vontade; eu não posso vêr ninguem a
+chorar.</p>
+
+<p>E o bom velho passava-lhe com carinho a mão pela cabecita loira.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes? Eu tambem chorei quando era novo, quando não conhecia ainda o
+mundo. Mas depois<span class="pn">{35}</span> que comecei a tomar conhecimento
+d'este mundo todo de enganos, deixei-me d'isso. Se fosse a chorar todas as
+vezes que tinha motivo para isso, então não fazia outra vida.</p>
+
+<p>A contradizer as suas palavras, duas lagrimas lhe assomaram aos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Olha: vem para a cozinha. Vem para junto da Helena que está a fazer a
+ceia, e espairecer.</p>
+
+<p>E pegando-lhe docemente na mão, obrigou-a a seguil-o.</p>
+
+<p>&mdash;Helena? chamou elle ao transpor a porta da cozinha; é preciso que o
+Belbuth venha cá hoje. Quando os rapazes voltarem do trabalho, o Paulo que vá
+vêr se o encontra. Precisamos de nos rir um pouco com as suas chalaças, para
+distrahir esta pequena, que não faz senão chorar.</p>
+
+<p>Quem não conheceu o Belbuth, em toda a freguezia, ainda não ha muitos annos?
+</p>
+
+<p>Quem ha ahi que se não recorde d'esse velho, rijo como um pêro, e que
+contava cerca de cem annos quando morreu?</p>
+
+<p>Apparecia em todas as casas onde lhe podessem dar uma côdea e uma tigella de
+caldo, ou um ninho no palheiro para passar a noite, em troca de reduzir a achas
+o tronco duma arvore, sempre com aquella physionomia austera e encarquilhada
+debaixo d'um chapeu velho que cobria dois ou tres barretes sobrepostos e
+enterrados na cabeça.</p>
+
+<p>Chamavam-lhe tolo. Eu direi que era um «tolo com juizo». Sim; porque
+trabalhava. Um homem que, para receber uma esmola, offerece o braço, embora
+vacillante pela decrepitude, ao seu bemfeitor, tem o instincto de uma boa
+acção. E que melhor acção pode haver que o trabalho?</p>
+
+<p>O Belbuth não era, pois, um tolo na verdadeira<span class="pn">{36}</span>
+significação da palavra. Não fazia diabruras. Não se ria frequentemente e sem
+motivo, como succede tantas vezes com quem se arroga de ter a massa encephalica
+em equilibrio. Os garotos atiravam-lhe pedras; eu tambem lhe atirei algumas. E
+elle que lhes fazia? Por instincto de defeza e de conservação, pegava tambem
+numa pedra ou num pau, e atirava-o, com phrenesi, pela estrada adeante, não
+reparando nos estragos que podia causar se viesse algum incauto. Era o unico
+indicio vago de loucura que lhe conheci.</p>
+
+<p>Os garotos, em regra, embirram com os velhos. Se estes dão <em>sorte</em>
+têm para pêras. Era o que se dava com o Belbuth.</p>
+
+<p>Tirado d'isso, era um velho austero que devia gosar, porque a merecia, a
+estima de toda a gente, em vista da sua edade avançada, e era, além d'isso, uma
+testemunha das guerras peninsulares, em algumas das quaes tomou parte.</p>
+
+<p>Era para estes homens que os governos deviam tambem estabelecer pensões.
+Dando frequentemente um ordenado supérfluo a um glutão, que passa a vida
+regaladamente, em paga de meia duzia de assignaturas semanaes&mdash;e ás vezes
+nem isso!&mdash;, deixam morrer na miseria, depois de em vida serem
+escarnecidos&mdash;sómente porque eram pobres&mdash;homens que, outrora, no
+vigor da mocidade, perderam, por amor da patria, o amor ao sangue que lhes
+corria nas veias.</p>
+
+<p>O Belbuth era apenas um miseravel, sem eira nem beira, possuidor dos
+farrapos que o cobriam e ganhos a trabalhar, tendo muitas vezes por habitação o
+ceu estrellado, sob o qual dormia, muitas outras vezes, entre dois lençoes de
+neve.</p>
+
+<p>Limitando o campo da sua vida de vagabundo<span class="pn">{37}</span> á
+área d'esta aldeia, o Belbuth era um typo popular de genio differente do de
+Luiz de Paus&mdash;um outro vagabundo de espirito irrequieto, que vagueava ao
+acaso por esse mundo como um cometa errando no espaço, apparecendo de tempos a
+tempos no logar de Paus, d'onde era natural.</p>
+
+<p>Sobre este contam-se vários episodios, alguns com bastante originalidade,
+revelando o mau instincto do seu agente.</p>
+
+<p>Conta-se que o Luiz de Paus apparecia com frequencia, quando soffria crise o
+combustivel do seu apparelho digestivo, pelo quartel de cavallaria 10 em
+Aveiro, onde era muito conhecido dos soldados, que lhe matavam a fome com uma
+parcella que cada um tirava á sua lata de rancho.</p>
+
+<p>Um dia passou por uma guarita onde um soldado estava de sentinella. O Luiz
+de Paus approximou-se, e, vendo a arma encostada&mdash;pois a sentinella estava
+a dormir&mdash;pegou nella e apresentou-se no quartel, tendo o pobre soldado do
+responder a um conselho de guerra.</p>
+
+<p>Desde esse dia o Luiz de Paus nunca mais tornou a ter entrada no quartel.
+</p>
+
+<p>Uma outra occasião, foi elle tocar os sinos a rebate numa freguezia
+qualquer, alvoroçando o povo todo.................</p>
+<hr class="dotted">
+<hr class="dotted">
+
+<p>&mdash;Olha lá, ó Belbuth! Tu namoraste alguma vez?</p>
+
+<p>&mdash;Se eu namorei alguma vez? O quê?</p>
+
+<p>&mdash;O quê! Uma mulher! Pois que havia de ser, homem?</p>
+
+<p>&mdash;Nada! Tive sempre mêdo desses demonios!</p>
+
+<p>&mdash;Porquê? Fizeram-te algum mal?</p>
+
+<p>&mdash;A mim não, porque eu nunca lhes dei confiança.<span
+class="pn">{38}</span> Depois que vi o que succedeu a alguns companheiros meus
+por causa de taes mafarricos, nunca as pude vêr. Quer saber, tio José, o que
+succedeu um dia a um camarada meu por causa d'uma rapariga?</p>
+
+<p>&mdash;Conta lá.</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo, andam de combinação com o demonio! Um companheiro do meu
+regimento arranjou conhecimento lá com um d'esses demonios qualquer; quando
+veio ordem para o regimento partir outra vez contra os francêses, acolá para
+uma terra que já me não lembra, o rapaz desappareceu. Logo ordem para ser
+procurado antes do regimento partir, por esses campos e montes. Partiram umas
+poucas de patrulhas para diversos lados, e eu fiz parte d'uma.</p>
+
+<p>«No segundo dia, foi a minha patrulha encontral-o num pinhal, alli para os
+lados de S. Pedro do Sul. Nós iamos perguntando se tinham visto um homem assim,
+assim: até que uma mulher, que andava a guardar umas cabras nos apontou um
+pinhal. Quando viu que não havia meio de nos escapar, poz-se de joelhos deante
+de nós, a chorar tanto, que era uma dôr d'alma!</p>
+
+<p>«Prendémol-o e trouxemol-o, e elle contou-nos então pelo caminho que a tal
+desavergonhada é que tinha feito com que elle desertasse.</p>
+
+<p>&mdash;«E então que é d'ella? perguntamos-lhe nós.</p>
+
+<p>&mdash;«Essa maldita, como eu tinha de andar escondido, emquanto andasse em
+terras de Portugal, para me não conhecerem, enfastiou-se de tal vida e
+abandonou-me.</p>
+
+<p>«Pediu-nos então elle que o deixassemos vir á vontade, jurando que nos não
+fugiria.</p>
+
+<p>«Fizemos-lhe a vontade, e, na verdade, não nos<span class="pn">{39}</span>
+fugiu; mas, quando passavamos por uma ponte, atirou-se abaixo, e já o não
+tornamos a apanhar senão morto.</p>
+
+<p>«Tivemos de dizer que o encontramos já assim, para não sermos castigados.
+</p>
+
+<p>«E agora, diga lá, tio Alameda; eu, depois de uma coisa assim, podia lá
+olhar com bons olhos uma mulher?</p>
+
+<p>&mdash;Mas ellas não hão-de ser todas assim! disse, a rir, Helena.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim: não serão todas. Mas, como a gente vê caras e não vê
+corações, devemos jogar sempre pelo seguro; e quando se trata de mulheres,
+perde-se quasi sempre!....................................</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p> <span class="pn">{40}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00140">IV</a></h2>
+
+<p>Era em setembro, num domingo em que se festejava o santo Estevam, cuja
+capella, assente na lomba do cabeço que se designa pelo nome do mesmo santo,
+domina, para o sul e nascente, um panorama gracioso entrecortado pela encosta
+de Travassô&mdash;uma encosta de aspecto taciturno, que olha com melancholia
+toda a região opposta simetricamente, sobre a qual se estende, beijada desde a
+manhã á tarde pelos raios do sol, a alegre Alquerubim.</p>
+
+<p>D'essa lomba vê-se espreitar, por uma clareira entre Alumiar e a ponte da
+Rata, a região paludosa de que faz parte a magnifica e extensa páteira de
+Fermentellos. E para a esquerda, estendendo a vista por sobre o extenso
+planalto onde poisa a branca Mourisca, vê-se ao longe, desenhando-se
+nitidamente sobre o fundo azul celeste, a serra do Caramulo, com punhados de
+casinhas brancas a luzir no pardacento do sopé.</p>
+
+<p>Nesse dia, o cabeço do Santo Estevam apresentava-se galhardamente revestido
+de alegres bandeiras que fluctuavam á viração da tarde como um bando de pombas.
+</p>
+
+<p>O sol, declinando no horisonte, despedia-se, atirando, como ternos beijos,
+raios de calôr frouxo sobre o arraial onde a musica de S. João, disposta em
+circulo, lançava aos ares harmonias que eram levadas, por sobre montes e
+valles, a uma grande distancia.</p>
+
+<p>Junto á capella, um rapaz de 24 annos, uma<span class="pn">{41}</span> viola
+a tiracolo, encostado a um varapau, ria e conversava alegremente com um grupo
+de moças.</p>
+
+<p>Era o João do tio Alameda, o rei dos cantadores d'estes sitios.</p>
+
+<p>Causava gosto vêl-o chegar a um arraial, viola em punho, encostar-se ao seu
+bordão, e, depois de passar levemente o dedo pollegar da mão direita pelas
+cordas da viola e ter dado tres ou quatro puxões numa ou noutra caravêlha para
+afinar o instrumento, começar a dedilhar um acompanhamento de fado. Punha-se a
+cantar e, entretanto, já cercado de curiosos, não tardava que uma voz feminina
+lhe respondesse de entre o circulo que o rodeava, e que logo se quebrava para
+dar passagem á atrevida cantadeira. Porque, na verdade, era um atrevimento
+bater-se com o João do tio Alameda.</p>
+
+<p>A derrota era certa. Só havia uma que algumas vezes o levara de vencida: era
+uma rapariga tronchuda, com um palmo de cara regular, muito alegre e expansiva.
+Era a Maria Luiza.</p>
+
+<p>Havia quem dissesse que o João se deixava algumas vezes vencer por ella; e
+com certo fundamento se dizia isto, porque, no olhar com que a envolvia, tão
+differente do que lançava ás outras, via-se claramente&mdash;porque o amôr não
+pode estar em segredo&mdash;que ella não lhe era indifferente.</p>
+
+<p>&mdash;Olhae! lá acabou a musica! exclamou elle desandando para o meio do
+arraial.</p>
+
+<p>Arrimou-se ao cajado, collocou a viola em attitude, dedilhou as cordas uma
+por uma, e, dando uma ultima demão á afinação, tirou um accorde.</p>
+
+<p>Entretanto, uma compacta massa de espectadores o rodeavam&mdash;homens e
+mulheres, novos e velhos, anciosos todos por presenciarem o debate do «rei dos
+cantadores» com a Maria Luiza, a sua rival...<span class="pn">{42}</span>
+Porque ella lá estava, fresca como uma alface e risonha e purpúrea como uma
+papoila, em frente d'elle que a envolvia num olhar todo affectuso e terno:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Se tu soubesses, menina, <br>
+ Quantas 'strellas ha no ceu, <br>
+ Saberias quantos suspiros <br>
+ Dá por ti o peito meu. </blockquote>
+
+<p>A sua voz era sonora e forte e elle cantava moderadamente, de maneira a ser
+ouvido pelo grupo todo.</p>
+
+<p>A Maria Luiza, fitando nelle um olhar de victoria, respondeu-lhe sorridente:
+</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Que importa o que diz um louco, <br>
+ Se falla sem sentimento? <br>
+ Cartas d'amor são papeis, <br>
+ Palavras leva-as o vento. </blockquote>
+
+<p>&mdash;Bravo! exclamaram do grupo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor!</p>
+
+<p>&mdash;Responde-lhe agora, ó João!</p>
+
+<p>&mdash;Essa chegou p'ra ti! Hein?</p>
+
+<p>Elle sorria, como congratulando-se com a victoria do adversario.</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;P'ra que vaes, pois, ao sermão, <br>
+ Ouvir o padre prégar! <br>
+ Palavras leva-as o vento, <br>
+ Acabaste de o affirmar. </blockquote>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Salvou-se, o maganão!</p>
+
+<p>Mas ella não se atemorisou, e replicou, sempre no mesmo tom:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Palavras santas, eu ouço-as <br>
+ Com amôr e devoção; <br>
+ As que Satanaz profere <br>
+ Não me entram na coração. </blockquote>
+<hr class="dotted">
+
+<p> <span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>Quando terminou o debate, já o luar inundava o cabeço de Santo Estevam.</p>
+
+<p>O arraial limitava-se ao grupo de curiosos, dos quaes muitos tinham
+retirado, que rodeava os nossos joviaes contendores.</p>
+
+<p>O João da Alameda rendeu-se mais uma vez, isto é, Maria Luiza alcançou mais
+uma victoria sobre o invencivel cantador que, no seu intimo, exultava com estas
+derrotas que, se lhe faziam perder terreno quanto á sua reputação de eximio
+cantador, lh'o faziam ganhar por outro lado.</p>
+
+<p>Quando todos se retiraram, aos bandos, cantando, em alegre expansão do ardôr
+da mocidade, o cabeço lá ficou, na solidão da noite, triste, com as bandeiras
+esmorecidas e a capella branca a luzir no alto, allumiado pelo frouxo luar que
+parecia querer minorar-lhe as saudades d'aquelle ditoso dia que só se repetiria
+d'ahi a um anno...<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00150">V</a></h2>
+
+<p>Na vasta eira do tio José da Alameda haviam-se despejado quatro enormes
+carradas de milho para ser desfolhado numa bella noite, cheia de luar, dos fins
+de setembro.</p>
+
+<p>O Paulo tinha sido encarregado de convidar as raparigas, do que se saiu
+optimamente, pois que affluiu alli o que de melhor havia no genero no logar.
+</p>
+
+<p>Eram oito horas, e já uma boa duzia de alegres moças estavam a contas com o
+monte, numa satisfação propria da mocidade em occasiões de folguedo.</p>
+
+<p>Alguns rapazes iam chegando tambem, chamados pelas gargalhadas das
+raparigas.</p>
+
+<p>Não é uso convidal-os. «Elles cá virão ter» é a phrase consagrada.
+Effectivamente, elles, de ouvido á escuta, collocam-se nas encruzilhadas.
+Ouvindo cantar ou chegando-lhes ao ouvido o alarido das vozes nas desfolhadas,
+ahi vão como o cão de caça farejando o rasto do coelho até lhe dar com a cama.
+</p>
+
+<p>&mdash;Eia! vamos lá a isto! gritava o João da Alameda, alapardando-se entre
+a Maria Luiza e a Joanna Mulata. Isto é dar-lhe! Isto é dar-lhe! Em uma ou duas
+horas está tudo prompto! Havemos de bailar ahi hoje até ao sol fóra!</p>
+
+<p>&mdash;Viva o rei dos cantadores da nossa terra! gritou um que chegou nesse
+momento encafuado num gabão.</p>
+
+<p>&mdash;Viva! gritaram todos.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado! obrigado! dizia com bondade o<span class="pn">{45}</span>
+João. Mas olha lá, ó tu do gabão! Nós aqui não queremos caras encobertas. Tira
+o capuz da cabeça e senta-te p'rahi como os outros. Já todos sabem que aqui, ás
+nossas desfolhadas, só se vem de cara descoberta.</p>
+
+<p>&mdash;E se eu não quizer? perguntou com falla ventriloqua o disfarçado.</p>
+
+<p>&mdash;Se não quizeres, replicou o João meio azedo, vaes já pelo caminho por
+onde vieste.</p>
+
+<p>Todas as vozes se haviam calado, e o individuo retrucou, meio insolente:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Sempre gostava de vêr isso!</p>
+
+<p>O João da Alameda levantou-se colerico sem attender aos rogos dos
+circumstantes nem ao gesto da Maria Luiza que, a tremer, lhe puxou pela
+jaqueta.</p>
+
+<p>Os rapazes imitaram-no levantando-se promptamente, e seguiram-no dispostos a
+expulsar o insolente para evitar algum dissabôr maior.</p>
+
+<p>O João dirigiu-se ao atrevido e este, na occasião em que elle estava a dois
+passos, atirou o gabão ao chão, dizendo risonho:</p>
+
+<p>&mdash;Olá, patrão?</p>
+
+<p>O João da Alameda, vendo na sua frente Paulo, deteve-se como se uma visão
+lhe houvesse de repente apparecido.</p>
+
+<p>Ficou-se a olhar para elle, e todos com palmas, gargalhadas e motejos
+inoffensivos, o decidiram a voltar para o seu logar.</p>
+
+<p>&mdash;Boa partida! Ah! Ah! Ah! gritavam de todos os lados.</p>
+
+<p>&mdash;Olha o espertalhão do rapaz!</p>
+
+<p>O Paulo ria-se e foi-se sentar junto do monte de milho, contente com a sua
+brincadeira que fez «ir á serra» o filho de seu amo.<span
+class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>O alarido restabelecera-se, e o João, fuzilado pelas chufas das raparigas,
+continuou alegremente a sua tarefa.</p>
+
+<p>O numero dos desfolhadores, augmentado pelos que iam affluindo ao local,
+elevava-se já a algumas dezenas.</p>
+
+<p>O montão de milho, ripado de todos os lados por aquellas dezenas de mãos,
+desapparecia a olhos vistos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora Deus vos ajude, disse uma voz pausada e trémula.</p>
+
+<p>Era o tio José que chegava, acompanhado de Helena e da sua pupilla, trazendo
+numa das mãos uma tripeça.</p>
+
+<p>&mdash;Viva, sr. José!</p>
+
+<p>&mdash;Então tambem vem tomar parte na desfolhada ao pé da gente nova,
+hein?</p>
+
+<p>&mdash;Com'assim!... É para me recordar dos meus tempos passados.</p>
+
+<p>Entretanto ia-se ageitando na tripeça, entre Helena e Julia que ficara junto
+a Paulo, e proseguiu, puxando por um pé de milho:</p>
+
+<p>&mdash;Porque um homem, quando chega á minha edade, que outra coisa póde
+fazer, para se não entristecer e não pensar na morte que se approxima, do que
+alimentar o seu espirito com recordações dos tempos passados, fingindo-se ainda
+nesses tempos que foram e não voltam?... E será este o ultimo, quem
+sabe?...&mdash;ajuntou num tom contristado, dando um suspiro.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi vem o pae com coisas tristes! disse do lado, estouvadamente,
+Helena. Não se quer cá tristezas! Quer-se alegria! Ora tapa a boquinha alli ao
+pae com uma cantiga das tuas, ó João!</p>
+
+<p>Todos approvaram a ideia de Helena, e o tio José, sorrindo bondosamente,
+submeteu-se.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim! Uma cantiga! diziam.</p>
+
+<p>&mdash;Muitas cantigas, muitas, ó João!</p>
+
+<p>&mdash;Haja animação! Viva a mocidade! Eh! rei dos cantadores! Sae-te com
+uma das tuas!</p>
+
+<p>O bondoso rapaz, encolhendo os hombros em signal de resignação, preparou-se
+para cantar.</p>
+
+<p>Todos se calaram. Só se ouvia o murmurio produzido pelo rasgar simultaneo
+das camisas de dezenas de espigas e o som monotono d'estas a cair nos cestos de
+vime.</p>
+
+<p>O João pegou num pé de milho, deitou um olhar de soslaio á Maria Luiza, e
+cantou na sua voz sonora:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;De tantas estrellas que ha <br>
+ Por'hi além nesses ceus, <br>
+ Eu não encontro nenhuma <br>
+ Comparada aos olhos teus. </blockquote>
+
+<p>E todos, unindo as suas vozes, d'entre as quaes sobresaía uma esganiçada em
+falsete, repetiram em côro, que se repercutia de valle era valle, os dois
+ultimos versos da quadra:</p>
+
+<blockquote>
+ Eu não encontro nenhuma <br>
+ Comparada aos olhos teus. </blockquote>
+
+<p>Elle continuou:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Ás ondas dos teus cabellos <br>
+ Gostava de me atirar; <br>
+ Teus olhos, faróes de esp'rança, <br>
+ Haviam de me salvar. </blockquote>
+
+<p>E o côro repetiu:</p>
+
+<blockquote>
+ Teus olhos, faroes de esp'rança, <br>
+ Haviam de me salvar.<span class="pn">{48}</span> </blockquote>
+
+<p>&mdash;Isto é com a Maria Luiza, cochichou uma á sua visinha da direita.</p>
+
+<p>&mdash;É, é! Se fosse de dia, havias de vêr a cara de malaguêta com que ella
+deve estar.</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;E do que morrer amando <br>
+ Se não ha nada mais bello, <br>
+ Queria amando morrer <br>
+ Nas ondas do teu cabello. <br>
+      Queria amando morrer <br>
+      Nas ondas do teu cabello. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Amei um dia uma estrella <br>
+ Que vi lá no ceu brilhar: <br>
+ &mdash;Serei tua, me disse ella, <br>
+ Mas has-de vir-me abraçar. <br>
+      Serei tua, me disse ella, <br>
+      Mas has-de vir-me abraçar. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Dia de Natal hei-de ir <br>
+ Ao menino perguntar <br>
+ Qual será a rapariga <br>
+ Com quem eu hei-de casar. <br>
+      Qual será a rapariga <br>
+      Com quem eu hei-de casar. </blockquote>
+
+<blockquote>
+ &mdash;E se não me responder, <br>
+ Pedirei a S. Joaquim <br>
+ Me dê a Maria Luiza <br>
+ Tão babadinha por mim. </blockquote>
+
+<p>O ultimo verso foi quasi abafado por palmas e gargalhadas e dictos dos
+circumstantes. A Maria Luiza baixou a cabeça, e, com effeito, se fosse á luz do
+dia, vêr-se-lhe-ia o rosto tingir-se de uma côr purpurina.<span
+class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>Na mesma occasião, um bando de rapazes que, ao approximarem-se do local da
+desfolhada, se occultaram a ouvir o cantador, aguardando o final dos seus
+improvisos para o acclamarem, sairam do seu esconderijo e appareceram juntando
+ao alarido as suas exclamações e motejos inoffensivos dirigidos á Maria Luiza
+que, na opinião d'elles, encavacara.</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixem-se d'isso! deixem-se d'isso! Dizia o tio Alameda. Quero
+que se divirtam, cantem e riam, mas nada de fazer «ir á serra» a ninguem.</p>
+
+<p>Os recem-chegados dispozeram-se todos em volta do monte que já estava
+reduzido a metade.</p>
+
+<p>No meio da confusão d'aquellas vozes em que sohresaiam as estridulas
+gargalhadas das raparigas, entre tantos corações jovens que, pondo de parte
+todas as preoccupações, só cuidavam de dar curso ás catadupas do ardor que
+d'elles dimanava, havia um coração joven, um coração de quinze annos, amavel
+como o de um anjo e puro e sensivel como uma camelia de cambraia fina.</p>
+
+<p>Julia, desde o principio da desfolhada, parecera estar alheia a todo o
+enthusiasmo que reinava em volta de si.</p>
+
+<p>Paulo notou essa abstracção e, pondo de parte as attenções ao seu genio
+folgazão, perguntou a Julia, com voz terna e compassiva.</p>
+
+<p>&mdash;Então a menina para que está sempre assim triste? Nem ao menos agora
+se alegra? Ha já mais de um mez que está nesta casa, e ainda não houve um dia
+em que estivesse alegre!</p>
+
+<p>Julia respondeu ás palavras compassivas e ternas de Paulo com um olhar
+agradecido e ao mesmo tempo tão dôce, que elle, sentindo na sua alma umas
+vibrações extranhas e no coração umas palpitações que jámais sentira, baixou os
+olhos como uma creança<span class="pn">{50}</span> envergonhada. Á luz da lua,
+que dera em cheio no rosto de Julia, elle vira-lhe nos olhos duas lagrimas, e
+nos labios brincar um sorriso candido de reconhecimento; e na expressão desse
+rosto, no conjuncto das lagrimas com o sorriso angelico desse rosto encantador,
+Paulo esqueceu-se de si, do logar onde estava, do mundo onde entrara pela porta
+da infelicidade, e julgou ouvir dentro de si uma musica celeste, de harmonias
+extranhas; pareceu-lhe que, num sonho, vagueava sem saber por onde, talvez
+pelas nuvens, e que só via deante de si esse rosto...</p>
+
+<p>Despertou do seu curto êxtase, e olhou para Julia, que sorria para elle,
+muito mais bella do que d'antes, com os seus cabellos loiros brilhando como
+fios d'oiro e com os seus olhos azues que pareciam dois ceus pequeninos
+toldados de nevoas.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! a menina chora?... pôde elle articular.</p>
+
+<p>&mdash;Você, Paulo, parece ter muito bom coração; por isso deve entender que
+tenho razão para estar triste, quando todos aqui riem e cantam. Você ainda tem
+pae e mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei!... murmurou elle quasi imperceptivelmente e profundamente
+triste. </p>
+
+<p>&mdash;Não sabe?!... disse ella verdadeiramente admirada.</p>
+
+<p>&mdash;Não, porque nunca os conheci... Julia, intrigada, ficou a olhar para
+elle. Julgou que estaria gracejando com ella, mas, vendo a sua expressão de
+verdadeiro pezar, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Então é porque lhe morreram quando você era pequeno?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei!...</p>
+
+<p>&mdash;Você quando para aqui veio que edade tinha?</p>
+
+<p>&mdash;Doze annos.</p>
+
+<p>&mdash;E até então onde esteve?<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estive em casa da mulher que me criou. Essa é que me disse que meus
+paes me tinham abandonado quando nasci...</p>
+
+<p>&mdash;Abandonaram-n'o?!... Que corações tão duros! E você não chorou quando
+ella lhe disse isso?</p>
+
+<p>&mdash;Não, porque nunca os tinha conhecido. A ella me habituei a chamar mãe
+e outra não conheço.</p>
+
+<p>&mdash;E você gostava de conhecer seus paes?</p>
+
+<p>&mdash;Gostava!... disse elle num murmurio, tão intimamente triste, que
+Julia não se atreveu a fazer-lhe mais perguntas.</p>
+
+<p>A animação em volta d'elles continuava. Passados momentos, Paulo tomou uma
+expressão resoluta e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Já vê a menina que eu tenho mais motivos para chorar, porque sou mais
+infeliz, e comtudo não choro!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, Paulo. Você tem razão. Não torno a chorar! Hei-de agora
+esforçar-me por ser alegre como você.</p>
+
+<p>&mdash;Ena! cá está uma! gritou, vibrante, a voz de João que, em pé,
+empunhava uma espiga vermelha. Um abraço! Vou já dar um abraço a cada uma!</p>
+
+<p>Fôra a Maria Luiza que atirara, a occultas das suas companheiras, uma
+maçaroca ás mãos do João.</p>
+
+<p>Este dispunha-se a abraçal-as e ellas, com intenso gaudio intimo,
+preparavam-se para receber o seu abraço.</p>
+
+<p>Porque, afinal, não havia alli nenhuma que não sentisse o seu fraco pelo
+João do tio Alameda. Pois se elle era um rapaz forte que nem um tirante e com
+um coração como o de uma pomba! E que bem elle cantava! Depois, juntava a todos
+estes dotes um bom par de geiras que já herdara da mãe e outras tantas que o
+pae lhe havia de deixar.<span class="pn">{52}</span></p>
+
+<p>Ora, um rapaz assim não era mal empregado na Maria Luiza, uma pobretona, sem
+um palmo de terra? As outras assim pensavam, e com alguma razão.</p>
+
+<p>As leis da attracção da riqueza são as mesmas dos corpos celestes. «A
+materia attrae a materia na razão directa das massas e na inversa do quadrado
+das distancias» disse Newton. Esta lei rege as riquezas, com a differença
+porém, que na gravitação universal não ha excepção alguma do que resultaria
+algum cataclysmo que nos dava que contar; e na lei das riquezas ha as suas
+excepções, de quando em quando.</p>
+
+<p>Antes as não houvesse, porque se evitariam grande desgraças. O pobre, embora
+inspire paixão ao rico, nunca este o olha como um ser egual a si. Nas mulheres,
+pelo menos, que é onde a vaidade humana se concentrou mais impetuosa, o amôr
+pelo pobre não é mais que um passatempo ephemero, um capricho que se evola ao
+embate das primeiras reflexões em que a vaidade serviu de juiz.</p>
+
+<p>Póde ella, em virtude duma mais pronunciada sensibilidade do coração,
+submetter-se a esse capricho. Mas um coração d'esses é tão difficil de
+encontrar como as perolas no oceano Atlantico.</p>
+
+<p>Não admira, pois, que a affeição do João pela Maria Luiza não inspirasse
+ciumes ás suas companheiras. Ellas riam-se no seu intimo da illusão em que a
+rapariga parecia andar, e, maliciosamente, occultavam-lhe os seus pensamentos,
+aguardando a desillusão da sua <em>doidice</em>, como lhe chamavam.</p>
+
+<p>Todas com intenso gaudio intimo, se preparavam para receber o abraço do João
+da Alameda, disse eu.</p>
+
+<p>Elle dirigiu-se á Maria Luiza, emquanto ia dizendo:<span
+class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>&mdash;Começo por ti, rapariga, já que estás aqui mais perto. As outras que
+vão esperando.</p>
+
+<p>E depois cantarolou:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Chuchem agora no dedo, <br>
+ Mas é tudo sem maldade: <br>
+ São apenas brincadeiras, <br>
+ Tudo proprio d'esta edade. </blockquote>
+
+<p>E voltou para o seu logar.</p>
+
+<p>Os rapazes acclamaram e bateram palmas.</p>
+
+<p>&mdash;«Bella partida!» diziam de todos os lados. Ellas, encolhendo os
+hombros desdenhosamente, ruminavam o seu despeito, fingindo não darem
+importancia ao caso.</p>
+
+<p>No rosto de algumas deslisou um sorriso contrafeito, e, entretanto, a
+desfolhada terminou.</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O sol, no hemispherio opposto, tinha já brilhado no zenit dos nossos
+antipodas quando começou a retirada dos nossos personagens.</p>
+
+<p>Na eira, desoccupada com presteza depois da desfolhada, dançara-se
+alegremente na mais dôce expansão d'aquellas almas inflammadas do ardor da
+mocidade.</p>
+
+<p>A lua, recolhendo ao seu leito, convidou o nosso jovial bando a seguir-lhe o
+exemplo.</p>
+
+<p>Na retirada, formaram-se varios grupos alguns dos quaes foram cantando pela
+estrada fóra; outros, cedendo o logar do enthusiasmo da mocidade á
+maledicencia, ventilavam, atravez o fôsco prisma da inveja, o caso da Maria
+Luiza.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que vos parece?! dizia, contraindo os labios em signal de surpresa
+e admiração, ás suas tres companheiras a Joanna Mulata, que, tão proxima do
+João como a Maria Luiza, não podera levar em paciencia que elle preferisse esta
+a si. E a lambisgoia d'aquella Maria Luiza, hein? Um mocetão d'aquelles, gostar
+d'uma delambida assim!</p>
+
+<p>&mdash;Ora! Vocês tambem fiam-se em boas!</p>
+
+<p>&mdash;Pois decerto! dizia a terceira. Que pretende ella d'elle?</p>
+
+<p>&mdash;O que pretendeu, segundo ouvi dizer, inventou a quarta.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! E vocês não viram, inventou ella de novo, aquella grande
+descarada dar-lhe um beijo quando elle a abraçou?</p>
+
+<p>&mdash;Sério?!</p>
+
+<p>&mdash;Deu! Eu vi! Não admira, pois, que, segundo as famas que correm, elle
+se mostre assim para com ella. São rapazes! o que querem é...</p>
+
+<p>&mdash;Pois decerto!</p>
+
+<p>&mdash;E faz elle muito bem! Quando ellas são assim, é bem feito!</p>
+
+<p>&mdash;Que grande descarada!</p>
+
+<p>&mdash;Cara sem vergonha!<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00160">VI</a></h2>
+
+<p>Natal, eu te saúdo!</p>
+
+<p>Quer a tempestade ruja lá fóra com indomavel fúria ameaçando prostrar as
+oliveiras tristes e a chuva fustigue e amarelleça as brancas e innocentes
+camelias do meu jardim; quer um sol claro e resplandecente e benefico paire no
+firmamento alegrando a natureza durante o dia, e á noite um docél azul
+marchetado de meigas estrellas se desenrole por sobre a minha fronte&mdash;eu
+amo-te, óh! Natal!</p>
+
+<p>Amo-te, quer rias como uma creança loira perseguindo uma borbolêta que
+saltita de flôr em flôr, quer chores como um velhinho, acabrunhado pelos annos
+e de dorso curvado, chorando, sobre o netinho que acaricia no regaço, lagrimas
+de saudade!</p>
+
+<p>És bello quando ris; mas o teu sorrir é forçado porque a tua alma é triste:
+e a tristeza encanta-me. Por isso eu amo-te.</p>
+
+<p>És meigo e terno quando choras, porque as tuas lagrimas são sinceras, são o
+desabafo de mil amarguras, de mil saudades. E as lagrimas são uma doçura tão
+intima, e tão celeste! Por isso eu adoro-te.</p>
+
+<p>Amo-te nas aguas frias do Vouga que corre melancholicamente lá em baixo por
+entre os salgueiros entristecidos; amo-te nas arvores despidas de folhagem
+destas collinas; na monotonia destas varzeas e destas lezirias, e na atmosphera
+tépida da cosinha do bom lavrador que olha com carinho a familia reunida em
+volta da lareira; amo-te, finalmente, em<span class="pn">{56}</span> tudo o
+que, inspirando tristeza e melancholia, segreda á minha alma attribulada mil
+poêmas de amôr, mil recordações da minha infancia!</p>
+
+<p>Viver de esperanças é um viver de incertezas e de decepções; cada dia que
+desponta é um sorrir velhaco e traiçoeiro cuja hypocrisia a nossa alma incauta
+e offegante não vê.</p>
+
+<p>Viver de saudades e um viver mais suave, mais santo; é um viver, por assim
+dizer, morto, porque a nossa alma, com o ultimo golpe, já não tem alento para
+novas esperanças e decepções; o sol já não tem aquella expressão pérfida que
+nos ludibriava, e cada dia que passa é uma conta do rozario das nossas
+recordações que a nossa alma alanceada percorre orando e offerece ao Creador.
+</p>
+
+<p>E tu vives de recordações e de saudades. Oh! Natal! Viver santo, viver
+celeste!</p>
+
+<p>Ha mil novecentos e oito annos que uma creança, tenra e mimosa como os
+nenuphares do poetico Jordão, veio lançar sobre a humanidade obcecada os raios
+da luz vivissima que jorrava de seus olhos celestes. Nas miseras palhas onde
+nasceu essa creança&mdash;tão pobre como a mais pobre de todas as creanças,
+podendo, se quizesse, ser a mais opulenta&mdash;tu nasceste tambem: tiveste o
+mesmo leito, e o recem-nascido bafejou-te com o halito vivificante da sua bocca
+divina.</p>
+
+<p>E desde esse momento, não obstante o rolar dos seculos, conservaste sempre a
+frescura innata que recebeste d'esse halito sacrosanto. O teu nome, envolvido
+duma auréola fulgente de luz divina, é proferido com amôr por todos que têm no
+peito um coração que soffre.</p>
+
+<p>E tu viverás sempre, oh! Natal! emquanto no mundo houver uma mãe que beije
+com ternura o<span class="pn">{57}</span> pimpolho fecundado no seu ventre e
+existir um infeliz; que chore uma lagrima!</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O dia de Natal amanhecera triste e soturno.</p>
+
+<p>Atravez da escuridão que desapparecia lentamente, o vulto d'um casarão se
+desenhava ao fundo do adro, semelhante a um gigante enorme, muito velho já, com
+uma das mãos levantada para o ceu, numa attitude de misericordia.</p>
+
+<p>Era a egreja com a sua torre.</p>
+
+<p>Que velhinha! Que velhinha!...</p>
+
+<p>Nas suas paredes, cobertas de lichens, ella está recordando com mágoa as
+innumeras intempéries que têm zurzido o seu dorso, e, extenuada, profundamente
+abatida, parece impetrar do céu a piedade que dos homens ingratos não tem
+conseguido obter...</p>
+
+<p>O dia amanheceu triste e sombrio, ia eu a dizer.</p>
+
+<p>Durante a noite tinham caido grandes e consecutivas bátegas de agua, e o
+ceu, como que cançado, apresentava um aspecto soturno.</p>
+
+<p>Ao longe, para o oriente, a serra do Caramulo, na negrura das nuvens que
+sobre ella se encastellavam num espesso e elevado nimbo, parecia elevar-se
+muito alta.</p>
+
+<p>Os eucalyptos da alameda contigua ao adro eram encrespados pelo soprar, em
+pequenas lufadas, do vento do sul, e por sobre a aldeia repercutiam-se, com
+maior intensidade para o norte, as ondulações sonoras que partiam do sino que
+chamava os fieis para a missa da manhã.</p>
+
+<p>Á esquina do adro, o Facca, abrindo uma das<span class="pn">{58}</span>
+portas da loja, olhou sombrio para o ceu pardacento e resmungou:</p>
+
+<p>&mdash;Hum!... Temos mais môlho!...</p>
+
+<p>Uma mulher, encafuada num mantelête, conduzia uma pacifica vacca que puxava
+a uma carroça. Acampou no adro e, depois de ministrar á vacca uma ração de
+pasto, affastou uma das extremidades do tolde que cobria a carroça, deixando a
+descoberto uma parte da sua mercadoria, que consistia em hortaliças.</p>
+
+<p>Á entrada do recinto que cerca a egreja, uma outra mulher, collocando no
+chão um cêsto de castanhas cosidas e uma ceira de figos, sentou-se num
+pedregulho, á espera de freguezes.</p>
+
+<p>O sachristão abriu a porta principal da egreja, e d'ahi a pouco tempo,
+embrulhadas em chales pretos, duas beatas, semelhantes a duas almas penadas,
+depois de, ao passarem pelas vendedeiras da hortaliça e dos figos, mastigarem,
+numa linguagem cantarolada, um «Deus vos dê muito bom dia!», entraram,
+benzendo-se seraphicamente, com o pé direito na egreja.</p>
+
+<p>Dentro d'esta, encantadoramente recostado num presepio collocado num dos
+altares do lado direito, o Menino Jesus sorria, pequenino e nú, com um sorriso
+infinitamente bom e amavel. Deitada graciosamente num presepio todo engalanado
+e alumiado, essa pequenina estatua divina estendia os braços, n'uma alvura de
+jaspe, como querendo abraçar a humanidade inteira num amplexo de amôr divino e
+paternal.</p>
+
+<p>Ao lado do altar estava um grande cesto destinado a receber as offertas de
+pequeno lóte.</p>
+
+<p>Os fieis começaram a affluir ao templo.</p>
+
+<p>O velho prior...</p>
+
+<p>&mdash;Que bom homem que elle<span class="pn">{59}</span> era! Que candura
+d'alma se reflectia sempre naquellas pupillas que se fixavam nos nossos olhos
+cheias de amôr e affabilidade! Com que bondade me pousava a mão na cabeça, era
+eu pequeno, afagando-me com palavras de indizivel doçura que só as sabe
+pronunciar quem tem uma alma predestinada que encontra o bello ideal na
+contemplação das tres perfeições naturaes&mdash;creanças, musica e flores!</p>
+
+<p>Elle appareceu, com a expressão jovial de sempre, envolvendo num olhar
+carinhoso todo o ambito da egreja com as pessoas que já lá estavam, e ajoelhou
+na escada do altar-mór, inclinando humilde e religiosamente a cabeça
+encanecida.</p>
+
+<p>Assim permaneceu um quarto d'hora; depois, o capellão veio, já a egreja
+estava cheia de gente, paramentado e abrindo alas docemente por entre o povo
+que enchia a capella-mór.</p>
+
+<p>Depois da missa, elle revestiu-se d'um pluvial e dirigiu-se para o altar
+onde o Menino Jesus estava reclinado no seu presepio.</p>
+
+<p>O sachristão abriu a umbella emquanto o sacerdote pegava no Menino, e o povo
+começou a entoar o Bemdito.</p>
+
+<p>Todos então, homens e mulheres, affluiam a depositar um osculo de amôr,
+acompanhada d'uma genuflexão, nos pésinhos, que pareciam pinhões, d'essa
+pequenina estatua que o padre segurava cautelosamente e com respeito nas mãos,
+acompanhando cada genuflexão que faziam d'um «Natus est nobis».</p>
+
+<p>Finda a adoração, que durou cerca de meia hora, o adro regorgitava de gente
+que aguardava o leilão das offertas.</p>
+
+<p>Um homem dos seus quarenta annos, de aspecto agradavel, subiu para uma das
+extremidades do<span class="pn">{60}</span> muro que veda o recinto em volta da
+egreja, e, pegando numa abóbora, exclamou, sorridente:</p>
+
+<p>&mdash;Vale bem sete vintens! Para mais, e não para menos!... É massiça e
+deve ter pouca pevide! Isto para filhoses, é de estalo!</p>
+
+<p>&mdash;O dia das filhoses foi hontem.</p>
+
+<p>&mdash;Todos os dias e todas as noites se fazem filhoses. Eia! Está em sete
+vintens!...</p>
+
+<p>&mdash;Oito! gritou um do lado.</p>
+
+<p>&mdash;Oito vintens! repetiu o pregoeiro. Oito! Oito! Oito! quem dá mais?...
+Oito!...</p>
+
+<p>&mdash;Nove!</p>
+
+<p>&mdash;Nove vintens! Não ha coisa mais barata! Eu não a fazia nem por nove
+mil reis!</p>
+
+<p>&mdash;Mas comial-a de graça, mesmo assim crúa!</p>
+
+<p>&mdash;Coma-a você. Não sou seu irmão. Nove vintens!... Nove!... Nove...
+uma. Nove... duas. No...</p>
+
+<p>&mdash;Cento e oitenta reis! gritou um, meio chocarreiro.</p>
+
+<p>&mdash;Cento e oit...&mdash;Vá p'r'ó diabo! São os mesmos nove vintens. Quem
+dá mais? Nove... uma. Nove... duas. Nove...</p>
+
+<p>&mdash;Abóboras?</p>
+
+<p>&mdash;...tres!&mdash;Vá p'rá missa.&mdash;Assentem alli ao snr. Manuel da
+Silveira.</p>
+
+<p>Vieram depois mais aboboras, cujo leilão decorreu sempre no meio de
+inoffensivas zombarias do mesmo theor.</p>
+
+<p>Cebôlas, borôas, garrafas de vinho fino, pés de porco, tudo appareceu no
+leilão.</p>
+
+<p>&mdash;Ora até uma gallinha cá appareceu! Cinco tostões! Se ninguem a
+comprar fico eu com ella.</p>
+
+<p>&mdash;Para comer, ainda hoje, mais a sua Francisca, hein?...<span
+class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tomaria você que eu o convidasse tambem. Cinco tostões!</p>
+
+<p>&mdash;Seis!</p>
+
+<p>&mdash;Seis tostões! Está pezadinha. Seis tostões e meio a mim!</p>
+
+<p>&mdash;Sete tostões.</p>
+
+<p>&mdash;Sete! Mau! Já não fico com a gallinha!</p>
+
+<p>&mdash;Veja se tem ovo. Se tiver, dou mais dez reis.</p>
+
+<p>&mdash;Não metto o dedo onde você costuma metter o nariz. Sete tostões!
+Sete! Sete tostões, uma. Sete... duas. Sete... sete... tres! Acolá ao tio
+Manuel Joaquim.</p>
+
+<p>Chegou a voz ás quinquilharias e brinquedos. Appareceu um caixinha coberta
+de setim, fechada.</p>
+
+<p>&mdash;Que linda caixinha! dizia o pregoeiro mirando-a por todos os lados.
+Parece que foi feita por mãos de fada! Não vale menos de cinco tostões. Está
+fechada e deve ter qualquer coisa bôa cá dentro!</p>
+
+<p>&mdash;Abra! Abra! Queremos saber o que tem dentro!</p>
+
+<p>&mdash;Querem saber?! Comprem-na! Vale bem cinco tostões e... e...
+tres&mdash;vá lá!&mdash;pelo que tiver.</p>
+
+<p>&mdash;Nove tostões! gritou de longe uma rapariga.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Estás com o olho nella? Não que ella é bonita, lá isso é! Nove
+tostões!... Nove tostões!...</p>
+
+<p>&mdash;E meio, disse o snr. Silveira.</p>
+
+<p>&mdash;Nove tostões e meio! Só o setim vale o dinheiro. Depois, isto cheira
+a... cheira a não sei ao quê que tem cá dentro...</p>
+
+<p>&mdash;Dez tostões! repetiu a mesma rapariga.</p>
+
+<p>&mdash;Estás morta por ella, diabo! Deixa estar, que se a não comprares,
+hei-de dar-te uma caixinha mais linda que esta. Dez tostões!</p>
+
+<p>&mdash;Mais um vintem, disse o snr. Silveira.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>&mdash;Dez tostões e um vintem! berrava o pregoeiro, mostrando a caixa para
+todos os lados.</p>
+
+<p>&mdash;Onze tostões! gritou de novo a rapariga.</p>
+
+<p>&mdash;Estás desesperada! Onze tostões!...</p>
+
+<p>&mdash;E meio!</p>
+
+<p>&mdash;Onze tostões e meio!</p>
+
+<p>&mdash;Mil cento e cincoenta! gritou outro zombeteiramente.</p>
+
+<p>&mdash;Falle claro, se quizer que o entenda. Onze tostões e meio! Eh!
+rapariga? Então tu?</p>
+
+<p>&mdash;Um quartinho! disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Um quartinho. Vá lá! Um quartinho! Quem mais dá? Isto deve ter
+amendoas dentro. Pelo cheiro... com certeza. Um quartinho! Um quartinho, uma.
+Um quartinho... duas! Que linda! Que linda! Até é uma pena ir para as tuas
+mãos, rapariga! Um quartinho...</p>
+
+<p>&mdash;Tres!</p>
+
+<p>&mdash;...tres!&mdash;Não preciso cá de ponto.&mdash;Acolá para aquella
+cachópa.</p>
+
+<p>A linda caixinha passou de mão em mão até á compradora.</p>
+
+<p>Todos admiravam as côres garridas do setim que a cobria, e apinhavam-se em
+volta da rapariga, anciosos por saber o que encerraria a caixa.</p>
+
+<p>Presa a uma fita estava uma chave que foi applicada á fechadura. Todos, em
+bicos de pés, aguardavam a surpreza.</p>
+
+<p>A chave deu volta... A rapariga levantou a tampa e de dentro saltou uma
+coisa que poz em murmurinho todos os que se apinhavam em redor.</p>
+
+<p>Era um rato.<span class="pn">{63}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Retrocedamos á vespera do Natal, á noite da conçoada&mdash;a noite
+tradicional da confraternisação de todos os corações que, ligados pelo sangue e
+pelo amor, se reunem para, na santa simplicidade aldeã, offerecerem em
+holocausto a Deus, concretisado na pessoa d'um infante prestes a descer á
+terra, o que de mais puro e sincero ha nos seus corações transbordando do mais
+acendrado amôr divino.</p>
+
+<p>Penetremos em casa do tio José da Alameda.</p>
+
+<p>Antes de passarmos á cosinha, detenhamo-nos alguns momentos na sala, para
+contemplarmos um pequeno altar, profusamente allumiado, com um presepio onde um
+Menino Jesus parece estar suspenso numa nuvem de camelias brancas, tão brancas,
+tão puras, como pura era a alma de quem com tanto carinho e desvelo as collocou
+alli.</p>
+
+<p>Fôra Julia quem se encarregára da confecção do altar, em que gastou duas
+horas.</p>
+
+<p>Colhêra, no pequeno jardim que estava entregue aos seus cuidados, as
+camelias mais brancas e menos damnificadas pela frieza das chuvas, e alli,
+naquelle altar, as collocára uma por uma, pacientemente, com um angelico
+sorriso nos labios e nos olhos uma ternura em que se traduzia a candura da sua
+alma.</p>
+
+<p>Ao terminar a sua tarefa, corrêra, cheia de contentamento, a chamar todos os
+da casa para verem a sua obra.</p>
+
+<p>&mdash;Muito lindo! Está muito lindo! dizia-lhe o tio José, passando-lhe
+paternalmente a mão pela cabecita loira. Dou-te os meus parabens por teres
+tanta habilidade.<span class="pn">{64}</span></p>
+
+<p>&mdash;Logo, depois de ceia, vimos para aqui fazer serão? perguntou,
+radiante, Julia.</p>
+
+<p>&mdash;Decerto! Havemos de vir fazer companhia ao Menino Jesus até á meia
+noite, que é para elle ser sempre muito nosso amigo! Agora vamos para a
+cosinha, emquanto a ceia se faz.</p>
+
+<p>E ella deitou a correr aos saltinhos, adeante d'elle.</p>
+
+<p>O coração sempre é um grande artista! Aquella creança, ha tres mezes ainda,
+tão triste, tão pensativa... Oh! o amôr! o amôr!...</p>
+
+<p>É que Paulo e Julia amam-se.</p>
+
+<p>Lançadas no berço da orphandade, essas duas almas, como dois infelizes que
+se encontram no mesmo caminho, contaram as suas maguas, compadeceram-se
+mutuamente, comprehenderam-se, deram-se as mãos, acalentaram-se, amaram-se e
+proseguiram juntas, não já pelo caminho agreste que as martyrisava, mas por uma
+vereda em que os espinhos tem a suavidade das rosas, em que já não ha agruras,
+onde tudo são madresilvas e violetas rescendendo um aroma inebriante.
+Esqueceram as desditas passadas para gozarem, juntos, os beneficios d'esta nova
+phase que a Providencia lhes deparou; e, junto d'esses dois lyrios,
+transportados d'uma encosta arida para a beira d'um fresco arroio, nasceu uma
+trepadeira de flores odoriferas, que os enleou, ás quaes flores um anjo,
+transformado em uma abelha, vem diariamente haurir o dôce nectar e o leva ao
+seio de Deus...</p>
+
+<p>Paulo e Julia amam-se com um amôr todo ideal; amam-se com aquelle amôr dos
+corações predestinados que amam uma só vez na vida.</p>
+
+<p>Occultando, o mais possivel, aos olhares estranhos a impulsão que os anima
+um para o outro, esses<span class="pn">{65}</span> corações, quando sós,
+estudam-se mutuamente, em conversas banaes, conversas de creanças apaixonadas
+que não se atrevem a manifestar-se o seu amôr; mas nesse natural retrahimento,
+nessa timidez que os retem muitas vezes em silencio sem ousarem quebrar o
+encanto que sentem na contemplação mutua das suas almas, durante esse silencio
+em que cada um d'elles só ouve o ruido do pulsar do seu coração, as suas almas
+fallam, entendem-se, estudam-se, amam-se cada vez mais...</p>
+
+<p>Penetremos tambem na cosinha.</p>
+
+<p>A formosa Helena prepara, sobre a meza tôsca, a massa para as filhoses; com
+as mangas do vestido arregaçadas deixando vêr os seus bem torneados braços até
+ao cotovello, falla e ri com a sua peculiar jovialidade.</p>
+
+<p>Na lareira, em volta d'uma fogueira onde arde um grande cepo, estão sentados
+o tio José, Julia, João, e, na extremidade do banco, Paulo.</p>
+
+<p>O tio José entretem a familia com historias alegres que fazem rir todos,
+excepto o João que, com o olhar fito num ponto do brazido, parece alheio ao que
+se passa em volta de si. De vez em quando, despertando da sua abstracção, olha
+para o pae, passeia o olhar em roda, e volta a mergulhar-se nas suas reflexões.
+</p>
+
+<p>&mdash;Ó paesinho! diz Helena ao pae, que acaba a narração d'um conto; isto
+está quasi prompto: agora é preparar a certã e fazêl-as. Mas, emquanto as faço,
+o pae ha-de contar aquella historia tão engraçada que nos contou o anno
+passado. </p>
+
+<p>&mdash;Que historia?... Eu já me não lembro do que contei hontem...</p>
+
+<p>&mdash;Aquella de um demonio que andava ás almas na noite do Natal e que,
+tendo ido a casa d'umas<span class="pn">{66}</span> pessoas que eram muito bôa
+gente, teve de fugir, porque se arriscava a ficar na certã das filhoses mais
+rilhado que um torresmo. Lembra-se?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Bem sei! Bem sei! Essa historia ouviu-a eu contar á minha
+avó, era eu pequeno. Ha que tempo lá vae isso!... Mas como era o principio?
+Lembras-te?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem já não sei! Tu sábel-o, ó João?</p>
+
+<p>O João pareceu despertar d'um sonho.</p>
+
+<p>&mdash;O quê?!...</p>
+
+<p>&mdash;Em que estavas tu para ahi a scismar, homem? perguntou o pae, risonho
+e bondoso.</p>
+
+<p>&mdash;Eu?... Estava a pensar em... que... Esava a vêr o que amanhã hei-de
+levar ao Menino Jesus&mdash;disse elle sorrindo, admirado da sua inspiração.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! O que lhe has-de levar? Leva-lhe uma abobora <em>menina</em> e
+duas ou tres linguiças. Têm muito bôa venda no leilão.</p>
+
+<p>&mdash;Eu é que arranjei uma caixinha linda para lhe dar; acrescentou Julia.
+Não é bonita, Helena?</p>
+
+<p>&mdash;Gosto muito d'ella. Mas olha que é preciso metter-lhe qualquer coisa
+dentro. Amêndoas, por exemplo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! É verdade! Não me lembrava!</p>
+
+<p>&mdash;Esperem! Eu encarrego-me de arranjar uma coisa para lhe metter, disse
+do canto Paulo.</p>
+
+<p>&mdash;O que é? O que é? perguntou com curiosidade Julia.</p>
+
+<p>&mdash;A caixa é muito linda, ou é assim, assim?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! é toda coberta a setim de duas côres! E com fitas de seda muito
+chics! Helena que diga.</p>
+
+<p>&mdash;A caixinha até é mal empregada no leilão, disse Helena, porque póde
+ir parar ás mãos de quem a não saiba apreciar e a não estime.</p>
+
+<p>&mdash;Bom! disse Paulo com resolução. Pois nesse<span
+class="pn">{67}</span> caso mais graça tem a brincadeira. É uma coisa que vou
+metter dentro da caixa amanhã de manhã, e que vae fazer rir ás bandeiras
+despregadas toda a gente que estiver no leilão. Porque, indo fechada, hão-de
+ter a curiosidade de vêr o que vae dentro. Ella tem chave?</p>
+
+<p>&mdash;Tem; vae presa a uma fita. Mas o que é, Paulo?</p>
+
+<p>&mdash;É um rato!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Tiveste bôa lembrança, e...</p>
+
+<p>Na porta da cosinha soaram duas pancadas surdas, e uma voz um tanto
+aldrabada chamou de fóra:</p>
+
+<p>&mdash;Ó tio Alameda! Você não dá um caldo e dormida ao Belbuth?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o Belbuth! exclamou Julia batendo as palmas, e erguendo-se
+pressurosa a abrir-lhe a porta.</p>
+
+<p>Elle entrou, tartamudeando umas «boas noites» e todos o acolheram
+jubilosamente.</p>
+
+<p>Deixemos o Belbuth conçoando com esta bôa gente e alegrando-a com narrações
+de episodios da sua longa vida de miseravel, e entremos na casinha modesta da
+Maria Luiza, que está triste e pensativa...</p>
+
+<p>Triste e pensativa?! A Maria Luiza de ha tres mezes?!</p>
+
+<p>Sim. Essa mesma rapariga, desembaraçada e alegre, que, no arraial do Santo
+Estevam, supplantara o João da Alameda, o cantador invencivel; a mesma da
+desfolhada, em que ella gosara o exclusivo do seu abraço, goso momentaneo que
+foi a origem de mil dissabores.</p>
+
+<p>Na lareira da sua cosinha arde uma pequena fogueira, a cuja claridade a
+Maria Luiza costura debruçada: e a mãe, já velha, talvez de mais de sessenta
+annos, com uma roca a tira-colo, faz ainda girar o fuso entre os dedos com
+facilidade.<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>As telhas, denegridas do fumo, e as paredes, de egual aspecto, dão um tom de
+tristeza áquella mansão de paz e socego.</p>
+
+<p>No poste da chaminé, está dependurada uma candeia de lata, cuja luz, nos
+estertores da agonia, bruxoleante, augmenta a taciturnidade do aposento.</p>
+
+<p>&mdash;Vae deitar petróleo naquella candeia, Maria, disse a mãe.</p>
+
+<p>Ella levantou-se, deitou um olhar para a porta, ministrou á candeia o
+almejado liquido que fez soluçar a luz, tornou a olhar com olhos de anciedade
+para a porta da cosinha, e voltou á sua costura, dando um suspiro.</p>
+
+<p>Porque olha ella tão insistentemente, perguntará lá para si o leitor, para a
+entrada do seu tugurio, e porque toma ás vezes no peito tanto ar, que ao
+expelil-o, semelha a aragem da tarde a agitar brandamente, em suave murmurinho,
+as espigas maduras d'uma ceára?</p>
+
+<p>E porque é que tu, leitor ou leitora, vaes algumas vezes, em noites serenas,
+para a tua varanda ou para o aido, sósinho, a contemplar as estrellas,
+procurando espalhar, na immensidade do infinito, as mágoas que suffocam o teu
+peito?</p>
+
+<p>Impressiona-te a concentração do espirito d'essa rapariga que, outrora,
+sempre de expressão radiante, espalhava em volta de si a alegria, como uma flôr
+odorifera espalha o aroma pelo ambiente dum jardim?</p>
+
+<p>Segredos do coração.</p>
+
+<p>Sim: o coração, pequeno como é, pratica obras estupendas. Fazer de Maria
+Luiza de ha tres mezes a Maria Luiza de hoje, é uma obra que eu colloco na
+ordem dos impossiveis.</p>
+
+<p>Pois o impossivel realisa-se?</p>
+
+<p>Realisa. É um exclusivo do coração.<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>O pae severo impõe as mais terminantes ordens de reclusão á filha enamorada.
+Fecha-a na alcôva, e volta com a chave, que colloca, juntamente com a do
+portão, debaixo da sua cabeceira.</p>
+
+<p>Dorme descançado, porque a janella é alta e, a dar-se a evasão, o
+gradeamento, difficil de transpôr, torna impossivel a fuga.</p>
+
+<p>O sol, de manhãsinha, ergue-se sorridente de sarcasmo no horisonte e
+penetra, pelas portadas entre-abertas da janella, na alcova do pae que accorda
+e leva a mão ao sitio onde guardara, na vespera, a chave do seu thesouro.</p>
+
+<p>&mdash;Cá estão! monologa somnolento e carrancudo.</p>
+
+<p>&mdash;E ella? a tua andorinha?..., murmura-lhe ao ouvido um raio mais
+chocarreiro do sol.</p>
+
+<p>Elle despreza a chufa e volta-se para o outro lado, a saborear, descançado,
+o somno da manhã.</p>
+
+<p>Quando accorda, já o sol vae alto, esfrega os olhos, levanta-se pezado de
+avareza e vae abrir a porta á sua andorinha...</p>
+
+<p>Oh! decepção cruel! A linda andorinha voou de noite, atravez da escuridão,
+por esses ares fóra!</p>
+
+<p>É que o coração vôa quando quer. Não tem elle azas?</p>
+
+<p>É um grande artista. Os maiores prodigios que têm assombrado a humanidade
+são obra sua.</p>
+
+<p>Pegar numa pedra muito tosca e muito dura, desbastal-a a cinzel, dar-lhe a
+fórma de um homem, polil-a e collocal-a num altar, tornando-a de penedo tantas
+vezes maltratado em um santo que se venéra, é possivel a qualquer artista.</p>
+
+<p>Polir uma alma... só o coração.</p>
+
+<p>A Maria Luiza d'outr'ora e a Maria Luiza d'hoje, differem entre si como a
+peccadora de Magdalo<span class="pn">{70}</span> differe da penitente que está
+osculando e orvalhando de lagrimas os pés do Nazareno.</p>
+
+<p>Mas... quem espera ella?</p>
+
+<p>O João do tio Alameda. Aquelle que, num rasgo de generosidade e de amôr, se
+compadeceu d'ella; porque, desde a noite d'aquella desfolhada em que ella
+tivera o privilegio de ser abraçada por elle na presença das companheiras que
+tentaram disfarçar a inveja que lhes causára, a Maria Luiza começou de ser
+envolvida numa mephitica atmosphera de maledicencia. Esta nasceu da inveja, e a
+inveja começa por sua vez quando se tem o reconhecimento da inaptidão ou da
+inferioridade.</p>
+
+<p>Se se podesse obter de um invejoso resposta á pergunta «porque invejas?»
+elle diria inevitavelmente «invejo porque valho menos».</p>
+
+<p>Mas o invejoso não fica por aqui.</p>
+
+<p>Dado o primeiro passo na senda das depravações, prosegue.</p>
+
+<p>Assim como uma alma cultivada na pratica da virtude e por ella purificada,
+sente um ineffavel e celeste prazer em praticar novas e consecutivas virtudes,
+assim um espirito maligno, um coração embotado pelas acções vis, sente um
+infernal prazer em percorrer a escala das depravações.</p>
+
+<p><em>Abyssus abyssum invocat.</em></p>
+
+<p>Imagine-se um vaso cheio de agua pura, em que se lhe deitam algumas gôttas
+d'um liquido venenoso. A agua crystallina, que até então poderia dar a vida a
+quem se debatesse nas ardencias da sêde, affectou-se das propriedades
+mortiferas da peçonha que, de mollecula em mollecula, foi affectar, com o seu
+terrivel contacto, o puro liquido.</p>
+
+<p>Meia duzia de linguas depravadas infectaram tambem com a peçonha da
+maledicencia as linguas<span class="pn">{71}</span> restantes da freguezia; e a
+honestidade da Maria Luiza, como a flôr branca da açucena açoutada pelo vento
+cortante da tempestade que não consegue prostral-a no lodaçal que ameaça
+conspurcar as suas petalas de pura cambraia, foi maltratada pelo vento cortante
+d'essa maledicencia.</p>
+
+<p>João comprehendeu a situação de Maria, e não hesitou em collocar ao abrigo
+do seu peito essa flôr que, por sua causa, tinha sido exposta ao rigôr das
+intempéries.</p>
+
+<p>&mdash;Maria&mdash;disse-lhe a mãe depois de um muito prolongado silencio;
+são horas de deitar. O João não vem cá hoje decerto, o pae talvez o não deixe
+sair, porque, nesta noite, todos os paes querem a familia reunida em volta de
+si.</p>
+
+<p>&mdash;Mas vá a mãe deitar-se, que eu espero ainda um pouco. Falta-me além
+d'isso ainda aqui uma bainha, e entretanto acabo-a. Talvez não falte...</p>
+
+<p>Como deve ser ditoso ter esperança num coração que nos ama!</p>
+
+<p>Deve ser tão ditoso esperarmos num coração que nos estremece, como penosa
+deve ser a deseperança num coração que idolatramos.</p>
+
+<p>João amava Maria Luiza; ella bem o sabia, porque não ha ninguem que melhor
+leia nos olhos do homem apaixonado do que a mulher amada. E a mulher sabe, por
+instincto, que um homem não tem a habilidade com que ella finge um sentimento
+que está longe de possuir.</p>
+
+<p>O João não havia, pois, de faltar. Não tinha elle sido sempre pontual em vir
+ministrar ao seu coração o alento de que tanto necessitava para não desesperar
+de viver?</p>
+
+<p>Que significavam tres mezes de constantes provas de amôr, de tantas
+promessas e juramentos que<span class="pn">{72}</span> no auge da sua paixão,
+elle lhe fizera, traduzindo no olhar incendiado todo o fogo que lhe devorava o
+peito?...</p>
+
+<p>Uma lufada mais forte de vento soprando nas arvores da rua arrancou-a á sua
+profunda meditação e fel-a olhar para a porta. Olhando depois em volta, viu-se
+só. Engolfada nos seus dôces pensamentos, nem notara a retirada de sua mãe.</p>
+
+<p>O vento continuava sussurrando lá fóra, semelhante ao gemer do mar, e a
+porta já gasta da choupana rangia ao embate de cada rajada mais forte.</p>
+
+<p>No sino da egreja de Eirol soaram onze longinquas e monótonas badaladas que
+Maria Luiza contou em crescente anciedade do seu coração impaciente.</p>
+
+<p>&mdash;Onze horas!... Já tão tarde!... E elle sem vir!...</p>
+
+<p>Ficou perplexa, a olhar para o sobrado, e estremeceu ao som de tres leves
+pancadas na porta.</p>
+
+<p>Com certeza que não era o bater de João que ella tão bem conhecia, porque o
+coração começou a pulsar-lhe violentamente e ella, sem se levantar, perguntou,
+entre admirada e sobresaltada:</p>
+
+<p>&mdash;Quem bate a esta hora?!</p>
+
+<p>Em resposta, ouviu o ruido de uma bastonada applicada talvez á cabeça d'um
+homem, a seguir um gemido, e após isso a fuga de duas pessoas que se perseguem.
+</p>
+
+<p>E nada mais ouviu, que as pulsações agitadas do seu coração sobresaltado e o
+sussurro do vento a soprar nas arvores do caminho e nos salgueiros sobranceiros
+ao Vouga.<span class="pn">{73}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00170">VII</a></h2>
+
+<p>Tres dias depois, o tio José da Alameda recebia a visita da snra. Joaquina
+das Dôres, uma creatura, que, á semelhança de mais meia duzia, frequentava
+diariamente a egreja na <em>perfeita</em> observancia dos preceitos do Divino
+Mestre.</p>
+
+<p>Estas creaturas, umas verdadeiras corujas sempre mettidas pela egreja, tanto
+se servem da lingua para orar a Deus como para murmurar do proximo, assoalhando
+tôrpemente a vida intima de cada um. Não distinguindo, atravez da imbecilidade
+que lhes turva o cerebro, o grau de torpeza e abjecção que encerra o
+procedimento de vasculhar os actos menos meritorios que outrem pratique, não
+alcançam ao mesmo tempo a quanta belleza de virtude encerraria o seu
+procedimento se, em vez de auxiliarem a conspurcação da vida alheia, lhe
+tecessem louvores, ainda que immerecidos, tratando de occultar-lhe as manchas
+sob o pó bemdito da caridade.</p>
+
+<p>A snra. Joaquina das Dôres era uma d'essas creaturas, que não pudera soffrer
+que um rapaz tão bom, tão sympathico, fosse arrastado tão cedo, e sem
+necessidade, ao bando dos renegados.</p>
+
+<p>&mdash;Nada! dizia ella comsigo, tomando a resolução de se dirigir a casa do
+tio Alameda; isto não póde ser! O pae precisa de sabel-o, para desviar o filho
+do caminho do peccado em que anda!</p>
+
+<p>E fôra com a consciencia em vias de satisfazer-se por ir praticar um acto
+dum <em>valôr altamente humanitario<span class="pn">{74}</span> e divino</em>,
+como era o de conduzir uma ovelha ao redil, não lhe pezando, porém, o remorso
+de que, para o conseguir, tinha de sobrecarregar de injurias outra alma lançada
+ao desprezo pelo sopro horripilante da maledicencia, que se dirigiu a casa do
+tio Alameda. </p>
+
+<p>&mdash;Em que posso ser-lhe util, snra. Joaquina? perguntou o velho com o
+seu sorriso de bondade á beata.</p>
+
+<p>&mdash;Quero fallar-lhe em particular, snr. José. É um negocio de muita
+importancia que lhe quero communicar.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?! Queira então vir aqui para a sala, para que ninguem nos
+oiça.</p>
+
+<p>Entraram, e a beata, limpando o nariz adunco a um enorme lenço tabaqueiro,
+tomou uma expressão de affectada piedade, e, sentando-se, a um signal do velho,
+cruzou as mãos sobre os joelhos, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Snr. José! Deus Nosso Senhor, quando andou pelo mundo feito homem,
+prégou a sua religião e indicou o caminho que nós deviamos seguir para nos
+salvarmos. Com os seus exemplos e as suas palavras que ficaram escriptas e
+foram passando de bôcca em bôcca, a sua religião chegou até nós e continuará
+seguindo emquanto no mundo o espirito do mal não deixar de dar geração. Muitos
+acereditam nas palavras dos santos padres, a quem Deus encarregou de o
+representar no mundo e de fazer respeitar a sua religião. Outros não acreditam
+em nada d'isso, e esses são os réprobos condemnados ás penas eternas. Mas o
+nosso dever, o dever de todo o bom christão, é, por meio das boas obras e dos
+bons conselhos, chamar ao caminho do ceu esses perdidos na escuridão do
+peccado.</p>
+
+<p>E quando nós temos obrigação de chamar ao<span class="pn">{75}</span>
+caminho do dever esses que nasceram já debaixo da protecção do demonio (a snra.
+Joaquina fez o signal da cruz,) muito maior obrigação temos de conduzir ao
+caminho da bemaventurança os que, tendo sido bons christãos, se deixaram
+seduzir pelas imposturas do demonio (aqui fez outra cruz e a sua voz, mais
+inflammada, dava fifias como uma corda de rebeca mal calcada pelo arco).</p>
+
+<p>O tio Alameda ouvia-a muito attento, não comprehendendo onde a beata queria
+chegar. Não a interrompeu, e ella, sorvendo uma pitada, continuou, mais
+moderada:</p>
+
+<p>&mdash;O snr. José desculpe-me de eu não começar logo a expôr-lhe o
+caso...</p>
+
+<p>&mdash;Eu, na verdade, não sei onde quer chegar, senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Eu me explico. Espero que tomará na devida consideração as minhas
+palavras, pois que, tratando-se de seu filho...</p>
+
+<p>&mdash;De meu filho?!... Que fez elle?</p>
+
+<p>&mdash;O seu filho, snr. José, vae numa vida muito má! Numa vida que lhe
+fará perder a sua alma se vocemecê, com a auctoridade de pae, se não
+oppusér...</p>
+
+<p>&mdash;Mas explique-se, por Deus, sr.ª Joaquina!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, snr. José: o senhor conhece aquella rapariga chamada Maria
+Luiza que, segundo as famas que tem, não é das mais honestas?</p>
+
+<p>&mdash;Conheço! Eu conheço a Maria Luiza!</p>
+
+<p>&mdash;Pois o seu filho anda mettido com ella já vae para tres mezes; e isso
+fica muito mal a um rapaz como elle, filho d'um homem tão temente a Deus.
+Reprehenda-o, snr. José, reprehenda-o! É uma bella alma que se perde. Além
+d'isso, dizem que anda tão cégo por ella, que vae todas as noites lá a
+casa...<span class="pn">{76}</span></p>
+
+<p>&mdash;O meu filho?! O meu João?!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, sr. José. E tão desavergonhada é a filha como é a mãe, que
+consente poucas vergonhas lá em casa. É preciso que elle mude de vida, que já
+anda muito nas bôccas do mundo! E anda tambem em muito maus lençóes, porque, na
+vespera do Natal do Redemptor&mdash;aqui baixou a voz, fallando com calôr e
+vehemencia, e meneando os braços nuns gestos disparatados&mdash;espancou um
+rapaz que ia a passar á porta dessa tal Maria Luiza!</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade, sr.ª Joaquina, custa-me acreditar que meu filho faça
+isso!</p>
+
+<p>&mdash;Pois é verdade, sr. José. O pobresinho de Christo ia a passar muito
+socegado da sua vida, quando sentiu uma forte bordoada na cabeça, que o ia
+matando. E matava-o, se não foge. Ora vocemecê não ha-de querer que seu filho
+ande assim nas bôccas do mundo por causa de uma mulher perdida.</p>
+
+<p>O tio Alameda ouvia, pensativo, e extremamente penalisado, a narração da
+beata.</p>
+
+<p>Esta continuou, dando ás suas palavras um tom mais mellifluo e repassado da
+mais revoltante hypocrisia:</p>
+
+<p>&mdash;Reprehenda-o, sr. José, reprehenda-o! Deus nos livre que o sr. prior
+o saiba, que é capaz de mandar dizel-o para o bispo, que lhe lança alguma
+excommunhão! E o peor mal é d'elle, que condemna a sua alma ás penas eternas.
+</p>
+
+<p>O tio José da Alameda limpou duas lagrimas que lhe rolavam pelas faces; e,
+meneando tristemente e com desalento a cabeça encanecida, e pondo as mãos num
+gesto de supplica, levantou os olhos para o ceu, exclamando com amargura:</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! Não permittaes que estes poucos cabellos brancos que me
+restam sejam manchados<span class="pn">{77}</span> nos ultimos dias da minha
+vida pela deshonra de meu filho! Levae-m'o antes, meu Deus! ou levae-me a mim
+primeiro!</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>&mdash;Que viria cá fazer aquella beata? perguntou Paulo a Julia, ao vêr
+retirar-se a sr.ª Joaquina, muito satisfeita pelo <em>dever de consciencia</em>
+que acabava de cumprir.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei. Esteve na sala a fallar com o patrão, e este appareceu com
+as lagrimas nos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;O diabo da velha! Não veio fazer coisa bôa, pela certa.</p>
+
+<p>O curto dialogo foi interrompido pelo ruido do passo cadenciado do tio
+Alameda.</p>
+
+<p>Elle appareceu, a physionomia contristada, o olhar velado por uma profunda
+angustia que lhe opprimia a alma.</p>
+
+<p>&mdash;Pae? chamou Helena. O jantar está prompto.</p>
+
+<p>&mdash;E o João onde está?</p>
+
+<p>&mdash;Está no alpendre. Vae chamal-o, Paulo.</p>
+
+<p>Durante o jantar, o tio Alameda esforçou-se por conservar uma expressão de
+contentamento; pela sua parte, João parecia nunca ter estado tão alegre. Depois
+da refeição, o pae chamou-o a occultas da familia, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Meu filho: tenho um pedido a fazer-te. E é de tamanha importancia o
+que te quero pedir, que a tua desobediencia abreviaria os poucos dias de vida
+que me restam.</p>
+
+<p>Fallava com uma tão pronunciada amargura,<span class="pn">{78}</span> que
+João, prevendo o fim que elle queria attingir, e commovido mais pelas más
+impressões que seu pae teria colhido de quaesquer mexericos que lhe houvessem
+trazido (porque não lhe escapára a vinda da beata) do que pelas palavras do
+pae, respondeu, resoluto como o homem que espera o golpe que lhe vão vibrar:</p>
+
+<p>&mdash;Sabe, meu pae, quanto o amo; e sabe tambem que tenho sido sempre um
+cumpridor fiel dos deveres de um filho para com seu pae, em tudo obediente...
+</p>
+
+<p>&mdash;Sei tudo isso, meu filho; e sei tambem que o erro que praticas é na
+tua bôa fé.</p>
+
+<p>&mdash;O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu,
+que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos,
+quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha
+alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no
+chão. Pois isso são contos do mundo, que...</p>
+
+<p>&mdash;Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um
+grande peccado!</p>
+
+<p>João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia
+tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua
+causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem
+lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de
+toda aquella desgraça, o que fazia?<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>&mdash;Soccorria-a...</p>
+
+<p>&mdash;E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?</p>
+
+<p>&mdash;Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?</p>
+
+<p>&mdash;É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe
+com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto
+queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite
+as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.</p>
+
+<p>O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou,
+com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa
+ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e
+quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza?
+As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco
+sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu
+então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e
+ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a
+cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram
+todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso
+o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos
+á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade,
+tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por
+esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço<span
+class="pn">{80}</span> ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre
+honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram
+nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!</p>
+
+<p>«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a
+via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me
+as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a
+vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais
+satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento
+para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as
+lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta
+terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as
+duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer
+os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.</p>
+
+<p>«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito
+desejava fazer-lhe, mas...&mdash;e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu
+procedimento:&mdash;eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres
+alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á
+fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas
+infelizes com o pão de cada dia!</p>
+
+<p>O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito,
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo,
+não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha
+mais tempo para commigo, que me não opporia<span class="pn">{81}</span> a isso.
+Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu
+coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é
+preciso sempre raciocinar e vêr...</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae! A Maria Luiza é honesta!&mdash;interrompeu o filho com
+vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação
+de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha
+estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é
+salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!</p>
+
+<p>&mdash;Que dizes?! Pois tu queres...</p>
+
+<p>&mdash;Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia
+jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.</p>
+
+<p>&mdash;Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara
+debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum
+casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra
+acima de tudo... </p>
+
+<p>&mdash;A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se.
+Cumpro um dever de consciencia e do coração.</p>
+
+<p>O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente,
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava
+ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito,
+quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua
+honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou
+mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu
+todas<span class="pn">{82}</span> as noites lá vou, e ella preveniu-me de que,
+depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á
+porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e
+passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite&mdash;foi na vespera
+de Natal&mdash;fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado
+approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a
+retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a
+espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.</p>
+
+<p>&mdash;Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso
+pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te
+certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria
+Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas
+ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a
+maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que
+dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido
+como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao
+tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.</p>
+
+<p>E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que
+a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que,
+possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha
+outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a
+felicidade não se alcança com a riqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas,
+radiante de alegria e ao<span class="pn">{83}</span> mesmo tempo commovido.
+Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela
+maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava
+da sua bondade!</p>
+
+<p>E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.</p>
+
+<p>O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe
+bailavam nos olhos.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00180">VIII</a></h2>
+
+<p>Era n'um domingo do mez de janeiro; varios grupos d'homens estacionavam no
+adro, depois da primeira chamada do sino para a missa conventual, emquanto
+outros, já velhos, e algumas mulheres, de todas as idades, entravam
+religiosamente na egreja.</p>
+
+<p>Dentro d'esta, o velho prior, sentado na sua cadeira, fazia a pratica do
+evangelho do dia, emquanto no adro, gosando a amenidade do dia alegrado por um
+sol resplandecente, os outros fieis aguardavam a segunda chamada para a missa.
+</p>
+
+<p>O tempo deslisava, havia já uma semana, sereno e cheio de doçura. Á quadra
+invernosa do Natal seguira-se uma quadra toda jovial e alegre: parecia que se
+tinha antecipado n'aquelle anno a primavera, o que era desmentido apenas por
+algumas arvores de folhagem caduca que se elevavam tristes e graves como
+esqueletos, como querendo lembrar á natureza que não era aquella a epocha de
+ostentar as suas galhardias.</p>
+
+<p>Os dias succediam-se serenos, limpidos e transparentes como taças de
+crystal, doces como favos de mel; e as noites, tomando uma alegria ficticia
+para occultar a sua melancholia, pejadas d'um luar magnifico, lembravam os
+sorrisos repassados de amargura d'uma viuva inconsolavel.</p>
+
+<p>O sino, agitando-se n'um crescente movimento oscillatorio, fez a segunda
+chamada, e um bando de pombas que estava poisado no espinhaço da egreja<span
+class="pn">{85}</span> espreitando o sol, levantou vôo, ás primeiras badaladas
+do sino, e foi adejando para os lados do campo.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo um carro de quatro rodas, carregado de malas, puxado por tres
+alazões, atravessava o adro, absorvendo a attenção de todos.</p>
+
+<p>Ao lado do cocheiro ia sentado um outro homem de trinta e tal annos, typo de
+brasileiro, a avaliar pelo modo de vestir&mdash;fato claro de casimira, e
+calças d'uma largura de pernas que lh'as permittiria enfiar sem difficuldade
+com as botas calçadas; parecia alem d'isso, a avaliar pela quantidade de
+bagagem que o precedia e pela grossura d'uma cadeia de oiro que lhe bamboleava
+no collete cuja abertura lhe abrangia quasi toda a altura do peito, que era um
+brazileiro rico.</p>
+
+<p>Deitou, ao passar, um olhar de relance, um d'estes olhares com que muita
+gente, affectando um ar de superioridade, em que transparece, comtudo, a sua
+imbecilidade recalcada, geralmente, pelo pezo do ouro, vê as pessoas e as
+coisas que julga n'uma esphera inferior á sua.</p>
+
+<p>Cada grupo ficou fazendo os seus commentarios á <em>pose</em> do pedaço
+d'asno&mdash;de que logo o apodaram&mdash;no qual os mais velhos reconheceram o
+filho da tia Quiteria de Jesus, por alcunha a <em>bisnaga</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Então vocês não se lembram, dizia um homem dos seus sessenta annos
+aos quatro do seu grupo todos regulando pela mesma edade&mdash;d'aquelle
+garotêlho que a Quiteria <em>bisnaga</em> tinha?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim! Dá uns ares d'elle, dá!</p>
+
+<p>&mdash;Pois é este figurão que ahi vae. Andava por ahi á maçã do chão, todo
+esfarrapado e ranhoso. A mãe pôl-o a servir alli em casa do fallecido pae do
+Silveira, que era um lavrador rico, como vocês sabem. Esteve lá uns dois annos,
+se tanto, até que um<span class="pn">{86}</span> dia pede dinheiro emprestado
+ao patrão para ir para o Brazil, na condição de lh'o mandar quando o ganhasse.
+O patrão disse-lhe: nunca o diabo mais leve; olha, se o ganhares, manda-m'o; e
+se o não ganhares, fica por intenção da minha alma.</p>
+
+<p>&mdash;E ganhou-o bem, logo se vê!</p>
+
+<p>&mdash;Ai! teve sorte! No fim de dois mezes mandou-lhe o dinheiro, e
+mandou-lhe tambem dizer que só voltaria á terra quando estivesse tanto ou mais
+rico do que elle; que, do contrario, não punha cá mais os pés!</p>
+
+<p>&mdash;Ora vejam o que é a sorte!</p>
+
+<p>&mdash;É assim! Deu em enriquecer, e mandava sempre uma mezada á mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Por isso ella anda por ahi muito gaiteira, e já não apparece na feira
+dos cinco a comprar e vender creação!</p>
+
+<p>&mdash;Já não tem necessidade d'isso. Até parece que anda mais nova.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! Olha a <em>bisnaga</em>! Se ella não tivesse tido a
+habilidade de arranjar aquelle filho, não tinha agora uma velhice tão
+mimosa.</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro... é a sorte. Pois foi para o Brazil ha vinte annos, pouco
+mais ou menos, pobre como Job, sem saber lêr nem escrever...</p>
+
+<p>&mdash;Ora vejam!</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer... elle aprendeu lá a lêr, mas isso foi já depois de
+estar bastante rico. E fez bem. Um homem, com riqueza, sempre precisa de ter
+alguma instrucção. Mas, quando foi, era um perfeito miseravel. Pois dizem que
+tem uma bôa fortuna.</p>
+
+<p>&mdash;Meu amigo:</p>
+
+<blockquote>
+ «Se fôres ao mar pescar, <br>
+ Que a fortuna te não deixe.»<span class="pn">{87}</span> </blockquote>
+
+<p>&mdash;Isso, isso! Ah! Ah! Ah!</p>
+
+<blockquote>
+ «Lança as redes, vem-te embora, <br>
+ Quanto mais burro, mais peixe.» </blockquote>
+
+<p>E, batendo-lhe no hombro, disse para os do grupo:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para a missa, que deve estar a começar.</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Nesse mesmo dia, á tarde, o filho da tia Quiteria de Jesus fazia a digestão
+do jantar, preguiçosamente espernegado num escabello, saboreando um aromatico
+charuto, cujo fumo, desenrolando-se serenamente em espiraes na atmosphera, elle
+contemplava com os olhos indolentemente semi-cerrados.</p>
+
+<p>Estava só, na saleta terrea que lhe servia de triclinio, pois que a cosinha
+não era, segundo o seu modo de vêr de homem rico, logar apropriado para isso.
+</p>
+
+<p>A mãe, na companhia d'outra mulher que convidara para a ajudar nos serviços
+domesticos d'esse dia&mdash;dia de gala em casa da tia Quiteria&mdash;ultimava
+as arrumações da sua cosinha onde n'esse dia um frango, uma posta de vitella e
+outra de carneiro e mais uns guisados, deram ás paredes denegridas a honra de
+as mimosear com um fumo mais agradavel, impregnado de aromas recendentes que
+espantaram metade da visinhança.</p>
+
+<p>&mdash;Viva, sr.ª Quiteria! disse da porta da cosinha um homem de trinta e
+cinco annos, com a sua roupa domingueira de saragoça, fazendo uma mesura
+com<span class="pn">{88}</span> o chapéu na mão. Então está contente, hein? Tem
+cá o seu filho...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, Francisco. Como não hei-de estar contente, se ha tantos
+annos o não via?</p>
+
+<p>&mdash;Decerto, decerto! Pois eu queria vê-lo, porque a gente gosta sempre
+de vêr as pessoas do nosso tempo de rapaz... Elle é capaz de fazer que me não
+conhece... Deus Nosso Senhor deu-lhe sorte; enriqueceu, emquanto que eu,
+sempre...</p>
+
+<p>&mdash;Não digas isso, homem! O meu Joaquim não é d'esses. Olha: entra para
+alli, que lá o encontras.</p>
+
+<p>O nosso novo personagem era o visinho mais proximo da sr.ª Quiteria (é
+necessario agora dar-lhe senhoria, em honra do dinheiro do filho); era um
+antigo companheiro do brazileiro, inseparaveis no jogo do pião e na procura de
+ninhos. Vivia só com sua mãe, a tia Maria das Neves, que corrêra logo a dar os
+parabens á sua visinha e as boas vindas ao filho, a quem achou muito
+desconhecido mas muito bom, com muito boa côr, que não parecia até vir de
+terras brazileiras.</p>
+
+<p>Elle abriu a porta que dava para a salita, e, lançando um olhar meio
+perscrutador, meio timido, para dentro, perguntou da porta:</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhor Joaquim! Que bons olhos o vejam!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! és tu, Francisco? perguntou phleugmaticamente, sem se mexer, o
+brazileiro. Entra, homem. Entra, e senta-te ahi mesmo nessa mala.</p>
+
+<p>&mdash;Ora então, com sua licença. Pois eu, sabendo que vossa senhoria tinha
+chegado, mal parecia que não viesse visital-o, porque, sempre foi um rapaz com
+quem brinquei muitas vezes; lembra-se, sr. Joaquim, quando jogavamos o pião?...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim! sim! interrompeu o <em>bisnaga</em> com expressão de
+desdem.<span class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>&mdash;Depois, pensei lá commigo: elle sempre se ha-de lembrar de mim ainda,
+embora eu seja pobre e elle esteja rico...</p>
+
+<p>&mdash;Arranjei uns patacos, é verdade. Não é muito, mas... contentar.</p>
+
+<p>&mdash;Teve sorte! Teve sorte! É porque Deus lhe achou merecimentos para
+isso. Ah! quem o viu e quem o vê! Quando nós iamos á cata de ninhos, acolá
+por...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim! sim! Olha lá uma coisa: tu não fumas?</p>
+
+<p>&mdash;Fumo...</p>
+
+<p>E, puxando por um <em>kentuk</em>, ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;É que eu não queria... faltar ao respeito...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim! Deixa lá isso; fuma este charuto. E deu-lhe um que tirou do
+bolso do casaco.</p>
+
+<p>O filho da tia Maria das Neves pegou cautelosamente com dois dêdos no
+charuto que o brazileiro lhe offerecia, contemplou-o com um sorriso mixto de
+parvoice e de contentamento, e metteu uma das extremidades na bôcca.</p>
+
+<p>&mdash;Espera lá, homem! É preciso aparal-o. Por onde diabo querias tu que
+saisse o fumo?</p>
+
+<p>E deu-lhe um canivete, mostrando-lhe, para exemplo, o seu charuto, que tirou
+da boquilha de aros de oiro.</p>
+
+<p>O Francisco cortou uma das extremidades ao charuto, e, depois de o metter na
+bôcca, puxou d'um phosphoro de pau, dos que vulgarmente se chamam de <em>espera
+gallego</em> por causa da grande demora do enxofre entrar em combustão, e,
+raspando-o nas calças de saragoça, com elle accendeu o charuto.</p>
+
+<p>Entretanto, a <em>bisnaga</em> recebe a visita, na cosinha, de varias
+visinhas que a vêm felicitar pelo alegrão que a vinda do seu Joaquim lhe veio
+dar.<span class="pn">{90}</span></p>
+
+<p>Este, abrindo a bôcca n'um cantarolado bocejo, pergunta ao seu antigo
+companheiro, que mais parece um servo que um antigo amigo dos tempos de rapaz:
+</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá uma coisa: a respeito de <em>pequenas</em>, como vae isso por
+ahi? </p>
+
+<p>E ao dizer isto, piscava velhacamente um olho.</p>
+
+<p>&mdash;Ha por ahi uns peixões bem bons!</p>
+
+<p>&mdash;Sim?</p>
+
+<p>&mdash;Conheceu a tia Joanna Maneta?</p>
+
+<p>&mdash;A tia Joanna Maneta?... Ah! aquella mulher que uma vez nos queria...
+Bem sei, bem sei. Então?</p>
+
+<p>&mdash;Então, tem lá uma cachopa de estalo, ahi dos seus vinte e dois
+annos!</p>
+
+<p>&mdash;E será facil de...</p>
+
+<p>&mdash;Ai! Ai! Ai! Isso é só chegar-lhe!&mdash;e esfregava, um de encontro
+ao outro, os dêdos pollegar e index. Fazem-se finas, os diabos! Ha por ahi um
+par d'ellas que não vão assim com duas razões! Querem só que os rapazes lhes
+fallem em casorio. Mas vossa senhoria não precisará de muito trabalho. Isto de
+mulheres, cheirando-lhe a dinheiro... se não é uma é outra. Porque ha por ahi
+bastantes! Mas obra fina, d'aqui de traz da orelha, tem lá o tio Alameda!</p>
+
+<p>&mdash;Alguma filha geitosa, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! de estalo! Isso é o que ha de melhor por estas redondezas. Mas
+está nova!...</p>
+
+<p>&mdash;Que edade tem?</p>
+
+<p>&mdash;Deve andar pelos seus desenove. Se tanto! Além d'isso, era uma grande
+desfeita ao velho, que é muito respeitado, e quer-lhe como á luz dos olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Isso de desfeita é o menos. O diabo é ella ser menor.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é isso... Ah! a proposito do tio Alamêda!<span
+class="pn">{91}</span> Não sei se vossa senhoria sabe que elle, além d'essa
+rapariga, tem um filho ahi dos seus vinte e quatro a vinte e cinco annos?</p>
+
+<p>&mdash;Não sabia, mas fico sabendo.</p>
+
+<p>&mdash;E vossa senhoria lembra-se da tia Rita Serôdia?</p>
+
+<p>&mdash;Hum! Não me reccordo, não.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, é a mesma coisa. Pois uma filha d'essa tal Serôdia, uma rapariga
+toda espevitada e geitosa, cantava ao desafio com qualquer, que era um gosto
+ouvil-a! O tal filho do tio Alameda tambem canta muito bem; é até chamado o rei
+dos cantadores, porque por estes sitios e arredores, não ha ninguem que se lhe
+compare. Qualquer que se fosse bater com elle, era derrota certa. Ora essa tal
+filha da Serôdia, e que se chama Maria Luiza, deu em ir cantar sempre com elle;
+em todas as festas onde appareciam os dois, ahi estavam em frente um do outro!
+Até algumas vezes ella vencia-o, mas dizia-se que era elle que o fazia de
+proposito. Mas mais tarde é que se soube que o rapaz dava o cavaco por ella,
+tanto que se tem feito os esforços para o retirar, porque dizem que casa com
+ella, e não ha meio; e é porque, segundo consta, a rapariga é mal empregada
+n'elle, porque se portava mal, e, além de elle ser um bello rapaz, estimado de
+todos, dá um desgosto ao pobre velho do pae, que não faz ideia. Ora por estas
+razões, é uma obra de caridade desviar o rapaz d'alli. Isto de mulheres, vossa
+senhoria sabe-o melhor do que eu, porque tem corrido mundo, em lhe cheirando a
+riqueza, illudem-se como ratos!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Ah! Ah! Queres então dizer que, com duas arrastaduras de aza e
+outras tantas promessas...</p>
+
+<p>&mdash;Ora nem mais! Além d'isso, não é mau petisco! E como anda toda
+inchada por o rapaz andar<span class="pn">{92}</span> assim pela beiça, sabendo
+toda a gente o que ella foi, era bem feito.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! diabo! Mas é preciso fazer isso com geito. Não vá o rapaz fazer
+alguma...</p>
+
+<p>&mdash;Isso fica por minha conta! Com geito tudo se arranja. Sou amigo do
+rapaz, começarei a metter-lhe em cabeça que a rapariga anda a perder a cabeça
+com vossa senhoria, que nem sequer ainda pensou n'ella, e, finalmente, quando
+vossa senhoria começar a entrar em combate, ella, com certeza, não resiste, e
+então eu direi ao rapaz se fôr preciso, que foi ella até que se entregou a
+vossa senhoria. Verá depois como elle até me agradece o cuidado que tive em lhe
+abrir os olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Bem. Arranja lá as coisas, e, quando fôr occasião, mostra-me a
+rapariga. Agora ouve lá uma outra coisa: não ha por ahi quem queira vender uma
+propriedade bem situada, que seja fertil, isto é, com agua em abundancia, e
+onde se possa fazer uma casa?</p>
+
+<p>&mdash;Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que
+fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É
+um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo
+todo... </p>
+
+<p>&mdash;Pois isso é que me convinha comprar.</p>
+
+<p>&mdash;Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver
+resolvido...</p>
+
+<p>&mdash;Paga-se-lhe bem e...</p>
+
+<p>&mdash;E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é isso. Vamos então lá.<span class="pn">{93}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00190">IX</a></h2>
+
+<p>Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a
+melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se
+de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza,
+começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos,
+passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á
+alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.</p>
+
+<p>Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã&mdash;uma manhã de
+agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e
+sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma
+extrema limpidez&mdash;uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia,
+teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela
+vida de que estivesse prestes a desfazer-se.</p>
+
+<p>O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um
+sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de
+encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus
+paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga
+saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua
+profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o
+chama.<span class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>&mdash;Viva, sr. José! Está gosando a frescura da manhã, hein?</p>
+
+<p>Elle voltou-se, e viu na sua frente o filho da sr.ª Quiteria de Jesus, de
+arma ao hombro, trajo de caçador, chapéu molle derrubado e cheio de orvalho.
+</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, sr. Joaquim Velloso. (O Velloso, tomou-o elle por lhe
+parecer um nome pomposo que se casava bem com a sua situação). Então anda
+caçando, logo de manhã?</p>
+
+<p>&mdash;Saí a dar um passeio matutino, eram cinco horas. Dei uma volta alli
+pelas Chans, e matei dois melros, que trago aqui na bolsa. Apenas para me
+entreter e gosar a manhã que está muito linda, e fazer vontade ao almoço.
+Entrei por aqui dentro sem pedir licença...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Não precisa! Quando quizer, não só o meu aido está ás suas
+ordens para passear, mas tambem a minha casa está sempre aberta para o receber.
+</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado! Muito obrigado!</p>
+
+<p>&mdash;Olhe: vamos até lá e descança um pouco. Entretanto faz-se o almoço
+e... </p>
+
+<p>&mdash;Oh! sr. José! Muito obrigado pela franqueza!</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado pela franqueza! Essa não é má! Nem pelo almoço eu quero que
+me fique obrigado...</p>
+
+<p>&mdash;Mas deve comprehender que tambem devo ter o meu á espera em casa,
+e...</p>
+
+<p>&mdash;Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve
+trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz
+de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe
+fallo...<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>&mdash;Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o
+prazer de almoçar na sua amavel companhia.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.</p>
+
+<p>E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca
+de cem metros.</p>
+
+<p>Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da
+agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade,
+pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome;
+applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o
+carril».</p>
+
+<p>&mdash;Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o
+maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e
+ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».</p>
+
+<p>O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas
+considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos,
+acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa
+incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos
+que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e
+voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus
+negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura
+que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade
+ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.</p>
+
+<p>Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.</p>
+
+<p>&mdash;Helena! chamou o velho ao chegar a casa. O<span
+class="pn">{96}</span> sr. Velloso almoça hoje comnosco. Prepara-lhe o
+almoço.</p>
+
+<p>Helena viera lesta ao chamamento do pae e recebeu com um encantador sorriso
+o seu hospede que, levando a mão ao chapeu, a cumprimentou com uma mesura
+envolvendo-a num olhar de sympathia.</p>
+
+<p>O tio Alameda conduziu-o á sala, onde conversaram emquanto Helena,
+coadjuvada por Julia, prepara um succulento fricassé com ovos e linguiça.</p>
+
+<p>Ás oito e meia chegavam João e Paulo do trabalho, jaqueta ao hombro, as
+calças empoeiradas.</p>
+
+<p>&mdash;Helenasinha, perguntou João entrando alegremente na cosinha; está
+prompto o almoço?</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor.&mdash;E acrescentou a meia voz: temos cá hoje um hospede
+para almoçar.</p>
+
+<p>&mdash;Um hospede? E quem é?</p>
+
+<p>&mdash;O brazileiro, o sr. Velloso.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Velloso?! E a que proposito vem esse homem almoçar hoje cá?!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! parece que não ficaste contente! respondeu contristada. Estás
+zangado com elle, João? perguntou com visivel anciedade.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não estou. Mas parece que tu... parece que te preoccupas muito
+com elle?</p>
+
+<p>&mdash;Ora! Isto é geito meu, respondeu com um sorriso; e, para occultar uma
+leve vermelhidão que lhe tingiu as faces, o que não passou despercebido ao
+irmão, affastou-se, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que já me ia esquecendo o estrugido!</p>
+
+<p>Entretanto, Julia ia estendendo sobre a mesa a toalha, sorrindo
+angelicamente para Paulo que a contemplava apaixonadamente com o rosto entre as
+mãos e os cotovellhos apoiados sobre a meza.........</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Terminado o almoço, o sr. Velloso despedindo-se<span class="pn">{97}</span>
+cortezmente e muito reconhecido pelas deferencias com que aquella excellente
+gente o tractara, e intimamente jubiloso pela retribuição de olhares ternos com
+que galanteara disfarçadamente Helena prometteu voltar uma vez por outra,
+fazendo ao mesmo tempo com antecipação o convite para irem egualmente á sua
+casa nova, logo que estivesse concluida.</p>
+
+<p>&mdash;Isso ainda leva uns mêzitos, dizia o tio José. Segundo dizem, vae
+ficar uma obra bôa, e...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me custa a modica quantia de tres ou quatro contos!</p>
+
+<p>&mdash;Meu amigo! Trabalhou, para agora gozar. É porque Deus lhe achou
+merecimentos para isso.</p>
+
+<p>O sr. Velloso encolheu ou com modestia ou com desdem os hombros, e,
+estendendo a mão ao velho, cumprimentou com uma venia a familia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois faz-me um grande favor em vir por aqui bastantes vezes para me
+entreter, dizia-lhe o velho, apertando na sua mão rugosa a mão macia do
+brazileiro. Um velho como eu, que já não pode ir trabalhar, estima sempre que
+lhe façam companhia, mórmente pessoas delicadas como o sr. Velloso.</p>
+
+<p>&mdash;Afinal, continuou, voltando para dentro depois que o brazileiro
+partiu&mdash;dizem que é muito cheio de presumpção e vaidade. Não acho!
+Parece-me até muito boa pessoa! Muito cortez, delicado e parece ter muito bom
+coração. Parece muito bom sujeito.</p>
+
+<p>&mdash;Parece muito bom sujeito, parece! repetiu quasi machinalmente, como
+num echo, Helena.</p>
+
+<p>Paulo e Julia, a quem não passaram de todo despercebidos os olhares
+incendiados que o sr. Velloso deitava a Helena, trocaram um sorriso; e João,
+pegando no casaco, pôl-o ao hombro, e pondo-se a caminho, precedido de Paulo,
+murmurava comsigo:<span class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>&mdash;Será muito boa pessoa, será! Pode até ser um santo! Mas... não vae á
+minha missa! Aquelle olhar não indica coisa boa!... E então a lôrpa da minha
+irmã a modos de... Isto de mulheres!... Ora faça elle alguma, e verá quanto
+peza um marmelleiro!... Pensa talvez que ainda está no Brazil? Experimenta!
+Experimenta, que o cacete t'o dirá!...</p>
+
+<p>E caminhando alguns momentos silencioso, continuou, monologando, num
+intelligivel crescendo:</p>
+
+<p>&mdash;Vêm para ahi com uns poucos de contos, ganhos sabe Deus como, e, sem
+se lembrarem que já foram uns pelintras, uns miseraveis, fazem-se então uns
+pedaços d'asnos que pensam terem o rei na barriga!... Ora vem para cá com as
+tuas basófias, que eu te ensino como se bate um lombo!... Tem então lá um
+palerma d'um visinho, mais chapado que um portão de ferro, que&mdash;Ah! Ah!
+Ah! até dá vontade de rir!&mdash;me vem dizer «que tome conta na Maria Luiza,
+que anda tôla pelo <em>bisnaga</em>! Que era só elle fazer um gesto, que a
+rapariga era d'elle! Que Deus me livrasse de elle tomar a peito fazer-me alguma
+desfeita!» Que grande bruto me saiste, Francisquinho das Neves! Que se livre
+mas é elle! Ah! Ah! Ah! A Maria Luiza! Que dois brutos me sairam o
+<em>bisnaga</em> e o Neves! Este, embruteceu com o dinheiro; o outro,
+embruteceu talvez pela grande vontade d'elle! Ah! Ah! Ah!</p>
+
+<p>&mdash;Ó patrão! Então o tio Francisco das Neves disse-lhe essas coisas?!</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu vinhas ahi, rapaz?!... Diabo! Nem me lembrava de ti, homem.
+Não digas do que ouviste, percebes?</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo aquillo que eu vinha a dizer, é como se ninguem o ouvisse...</p>
+
+<p>&mdash;Não ha duvida, patrão.<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001100">X</a></h2>
+
+<p>O Francisco da Neves tornou-se o confidente do filho da sr.ª Quiteria de
+Jesus.</p>
+
+<p>Com uma dedicação quasi servil que, geralmente, todos os imbecis prestam
+áquelles que, graças á plutocracia, têm o dom de os fascinar como um individuo,
+com o poder soporifero, hypnotisa a sua victima, o filho da tia Maria das Neves
+passou, por assim dizer, a exercer as funcções d'um cão fiel, prompto a
+defendel-o na primeira arremetida que lhe fizessem. Com uma differença, porém:
+o cão serve seu amo a troco do alimento que lhe dá, e o Neves dedicou-se ao
+Velloso de corpo e alma, imbecilmente, com a dedicação dos espiritos boçaes que
+se inclinam, sem mesmo saberem nem procurarem saber o motivo, a uma causa.</p>
+
+<p>Confidente dos seus mais importantes negocios, elle estava ao facto das
+ninharias mais abjectas da vida intima do brazileiro.</p>
+
+<p>&mdash;Francisco, disse-lhe este apenas chegou de casa do tio Alameda, após
+o que foi logo procurar o visinho&mdash;parece-me que estou apaixonado pela
+filha do Alameda.</p>
+
+<p>&mdash;Vossa senhoria falla serio?! Onde a viu?</p>
+
+<p>&mdash;Estive lá em casa esta manhã, e até me deram de almoçar. O velho é um
+bello homem, coitado. Mas o filho é que me parece pouco de brincadeiras! E é
+por isso que venho prevenir-te para que haja toda a cautela no negocio.<span
+class="pn">{100}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois então vossa senhoria, gostando assim, como acaba de dizer, da
+rapariga, ainda tem coragem de...</p>
+
+<p>&mdash;És pateta! Mais motivos ha para desviar o rapaz. Eu gosto da irmã a
+valer. Sou até capaz de casar com ella: por isso tenho a obrigação de pugnar
+pela honra da minha futura noiva. Percebes?</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente. Diz vossa senhoria que...</p>
+
+<p>&mdash;Digo que vou empregar os esforços para que o filho do Alameda deixe a
+tal Maria Luiza. Mas agora é preciso tento no jogo!&mdash;E, fallando mais
+confidencialmente, continuou&mdash;Eu vou, primeiro que tudo, vêr se engano a
+Helena. Não sei se me comprehendes...</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem. Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria sempre tem uma arte!</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto, vae vendo se despersuades o rapaz do que lhe disseste.
+Dize-lhe agora que fizeste aquillo, sómente para o rallar, que é para elle não
+andar de pé atraz commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Percebo muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Depois... eu te direi, quando as coisas estiverem em bom caminho, o
+que has-de fazer.&mdash;E ajuntou com um sorriso malicioso:&mdash;E é mais uma
+sôpa que se molha... Porque a Maria Luiza ainda não é má de todo!...</p>
+
+<p>&mdash;Eh! Eh! Eh! Vossa senhoria tem uma arte! Tem uma arte!... É capaz de
+as levar todas a fio!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu não sabes, homem, que o dinheiro faz tudo? Acaso serei mais
+bonito do que os outros? Não! Ha até por ahi caras muito melhores do que a
+minha. Mas... bem vês que hoje o mundo não olha a formosuras... Isto em
+questões d'esta ordem. Mas, como te ia dizendo, tu, agora, nem mais um pio dás
+sobre<span class="pn">{101}</span> o caso: só dizes ao filho do Alameda que
+aquillo foi um gracejo da tua parte...</p>
+
+<p>&mdash;Sei muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Que é para eu cá dispôr as coisas á minha vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Já está mais que percebido.</p>
+
+<p>&mdash;Eu agora vou fazendo umas visitas a miudo lá a casa do Alameda, e a
+rapariga, que não parece desgostar de me lá vêr, ir-me-ha assim ganhando uma
+certa amizade... um certo amôr... até que...</p>
+
+<p>&mdash;Vossa senhoria lá arranja! E, quando fôr preciso farejar...</p>
+
+<p>Ainda bem que o filho da tia Maria das Neves reconhecia&mdash;ou talvez o
+dissesse instinctivamente!&mdash;a cathegoria do seu baixo mister.<span
+class="pn">{102}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001110">XI</a></h2>
+
+<p>Fins d'abril, em plena primavera que, depois d'uma pequena quadra de chuva,
+decorria garbosa e sorridente como uma creança.</p>
+
+<p>Era uma noite serena e sem luar, apenas allumiada pela luz tibia das
+estrellas.</p>
+
+<p>Um socêgo religioso repousava sobre a aldeia, apezar da hora pouco adeantada
+da noite&mdash;eram nove e meia.</p>
+
+<p>Na aldeia, os homens têm por norma a natureza: levantar com o sol e recolher
+com elle. Não ha o bulicio nocturno confuso e ás vezes estonteante dos grandes
+centros, com os seus pontos de reunião e cavaqueira nos cafés, casinos e
+theatros. Chegada a noite, cada lar é um cenaculo de alegria, paz e amôr, e
+sómente ás vezes, quando nas noites longas de inverno podem dispôr de algum
+tempo de distracção, juntam-se, até ao toque das almas, meia duzia de homens
+numa ou noutra loja, onde ouvem lêr o jornal que o lojista assigna. «As noites
+dão para tudo», dizem então. É ahi, nas lojas, e nas casas de barbeiro, ao
+sabbado, que se estabelecem os principaes pontos de reunião&mdash;os nucleos da
+ingenua cavaqueira do povo d'aldeia, onde se ventilam os successos occorridos
+que mais impressionaram a curiosidade publica.</p>
+
+<p>Era uma noite serena e sem luar, e nem a mais leve aragem fazia mover as
+folhas das arvores. A amplidão do ceu, recamado de myriades de estrellas,
+parecia um immenso campo cheio de flôres.<span class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>A portaria do alpendre da casa do tio José da Alamêda abriu-se
+cautelosamente, e um vulto, espreitando para a rua, se desenhou na sombra.</p>
+
+<p>Em seguida um outro vulto&mdash;o vulto d'um homem encapotado&mdash;se
+deslocou do escuro do cômoro fronteiro, e approximou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Boa noite, menina Helena, disse, a meia-voz, o homem, ao
+approximar-se. </p>
+
+<p>&mdash;Boa noite, sr. Joaquim, respondeu timidamente a voz dôce de
+Helena.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabe, não pode calcular a satisfação que me dá, accedendo aos
+desejos do meu coração, que ha tanto tempo ambicionava expandir-se, que ha
+tanto tempo suspirava por traduzir por palavras o fogo que o apoquenta e que só
+tenho podido exprimir por olhares!</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Joaquim, deve tambem calcular, attendendo á gravidade do passo
+que dei comparecendo á entrevista que prometti, que o meu coração não é
+insensivel aos sentimentos que vossa senhoria diz ter por mim, e que me parece
+ter lido nos seus olhos: a não ser que eu me engane, porque não tenho
+experiencia do mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Helena da minha alma! Oh! eu amo-a muito, muito! Prouvera a Deus que
+da sua parte houvesse para commigo egual affecto!</p>
+
+<p>&mdash;Ha! Talvez mais...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Não diga isso!&mdash;E, tomando-lhe as mãos, continuou com ardor
+crescente&mdash;É fazer uma injustiça ao meu amôr por si, que não tem
+limites!... </p>
+
+<p>&mdash;Será o que diz... não duvido. Mas deve attender a que, para eu dar
+este passo, devia haver da minha parte uma grande lucta do coração com a razão,
+em que esta ficou vencida por aquelle...</p>
+
+<p>&mdash;Sim: comprehendo isso, e oxalá que eu tenha<span
+class="pn">{104}</span> a felicidade de poder mostrar-lhe o meu reconhecimento
+de forma que possa satisfazer as aspirações do meu coração!</p>
+
+<p>&mdash;Isso, senhor, só depende de si. Eu, uma mulher que pela primeira vez
+sente o perfume das flôres do amôr que o calôr dos seus olhos teve o poder de
+fazer desabrochar, outra coisa não desejo que a minha felicidade, que consiste
+em gozar, na companhia do ente por quem o meu coração suspira, a vida
+inteira.</p>
+
+<p>&mdash;É esse tambem o meu desejo, Helena. Por esse mundo por onde andei, vi
+muitas mulheres, muitas das quaes algumas extremamente formosas. Mas agora,
+Helena da minha alma, daria todas ellas, todas, por si só!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Nunca ha-de ser tanto assim, respondeu ella candidamente, com um
+sorriso. Eu, uma simples mulher do campo, valerei mais que todas essas...</p>
+
+<p>&mdash;Vale, para mim! Nem eu mesmo sei explicar o motivo d'esta minha
+transformação. Acredite-me, Helena! Eu amo-a muito, muito!</p>
+
+<p>E, com as mãos d'ella enleadas nas suas ia dominando, a pouco e pouco,
+transmittindo-lhe o calôr que o inflammava, aquelle anjo tão bello e tão
+candido, que pela primeira vez ouvia aquelle linguagem que lhe echoava nos
+ouvidos como uma musica celeste, causando-lhe no seu intimo sensações até ahi
+desconhecidas, d'uma indizivel suavidade.</p>
+
+<p>&mdash;Não acredita, Helena? perguntava elle, apertando nas suas mãos febris
+as mãos tremulas d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Acredito. Eu tambem o amo muito...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! muito!... muito!... Vós, as mulheres, sabeis tão bem fingir um
+sentimento que não tendes, que não sei se a hei-de acreditar!</p>
+
+<p>&mdash;Pode acreditar. Por Deus lhe juro que o amo.<span
+class="pn">{105}</span> Mas peço-lhe que falle mais baixo, porque Deus me livre
+que alguem ouvisse!</p>
+
+<p>&mdash;Não tinha duvida! Que me importa o mundo? Helena hade ser a minha
+mulher, em breve o mundo o verá! Sim! Nesse caso, que importa que nos
+vissem?</p>
+
+<p>&mdash;Falle mais baixo, senhor. Pode vir meu irmão, e pensar... Deus nos
+livre que elle viesse dar comnosco a estas horas a fallar!</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Tem razão. Podia formar máus juizos e seria perigoso.&mdash;E,
+baixando a voz e approximando do rosto d'ella o seu, murmurava-lhe palavras
+ternas ao ouvido, que ella ouvia como num cicio dulcissimo.&mdash;Helena, meu
+amôr! Dizes que me amas! Isso dar-me-ia tanta felicidade, que o julgo quasi
+impossivel! Se eu fosse pobre, talvez acreditasse no que dizes. Ahi está para
+que serve o dinheiro! Para nos lançar o coração no desespero! Helena! Juras que
+me amas? </p>
+
+<p>&mdash;Juro!...</p>
+
+<p>A sua voz era trémula; e elle, tendo-lhe lançado um braço á roda do pescoço,
+com os labios collocados ao ouvido d'ella, murmurava-lhe com meiguice:</p>
+
+<p>&mdash;E juras amar-me sempre?</p>
+
+<p>&mdash;Sempre!...</p>
+
+<p>&mdash;E muito? Tanto como eu a ti?</p>
+
+<p>&mdash;Sim! respondia ella com a voz apagada, completamente dominada por
+aquelle braço que lhe paralisava as forças d'animo e as physicas.</p>
+
+<p>Elle então depositou numa das faces d'aquelle anjo que se lhe abandonava
+inconscientemente, um beijo ardente de impudicicia, semelhante a um salpico de
+lama que caisse numa das pétalas dum alvissimo lyrio.</p>
+
+<p>E nada mais se ouviu, senão o arrastar surdo e quasi imperceptivel da
+portaria que se fechava occultando<span class="pn">{106}</span> á exigua
+claridade da estrada as sombras unidas d'aquelles dois seres
+apaixonados&mdash;um, com um sentimento todo ideal, todo celeste; outro, com um
+sentimento todo terreno, todo lubrico.......</p>
+<hr class="dotted">
+<hr class="dotted">
+
+<p>A lua erguia-se no horisonte melancholica e triste, quando a portaria se
+abriu, inundando o alpendre um jorro de luar.</p>
+
+<p>Helena estremeceu, e, apertando fortemente o braço de Joaquim, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;O luar não te parece hoje mais sombrio e a lua mais tristonha,
+Joaquim?! </p>
+
+<p>&mdash;Tontinha! Até me parece mais alegre! Olha como ella sorri! Está-nos
+annunciando um paraiso de felicidades.</p>
+
+<p>&mdash;Deus te ouça. Mas parece-me vêr no rosto da lua uma expressão de
+tamanha melancholia!</p>
+
+<p>&mdash;Ora! Havemos de ser muito felizes. Olha: a minha casa&mdash;a nossa
+casa!&mdash;d'aqui a tres ou quatro mezes fica prompta. Depois viveremos lá
+juntinhos; iremos passear por aquelles caminhos do outeiro, á tardinha; e
+havemos de ir, á noite, para a janella ou para o jardim, que hei-de mandar
+fazer, vêr nascer a lua a sorrir-se para nós.</p>
+
+<p>&mdash;Oxalá que sim! Deus te ouça! E juras-me que farás a minha
+felicidade?</p>
+
+<p>&mdash;Helena! Juro-te, pelo Deus que me protegeu durante muitos annos por
+esse mundo além, que hei-de fazer a tua felicidade!</p>
+
+<p>E, depositando-lhe um beijo na fronte, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus. Até ámanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus Joaquim!</p>
+
+<p>Helena conservou-se á porta até ver desapparecer<span
+class="pn">{107}</span> o vulto do seu bem-amado numa curva da estrada.</p>
+
+<p>Suspirou, olhou outra vez para a lua, e, ao voltar para dentro, ouviu o piar
+lugubre d'uma ave nocturna.</p>
+
+<p>Estremeceu, e, fechando a portaria, murmurou estarrecida:</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! Não sei o que o coração me adivinha!...<span
+class="pn">{108}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001120">XII</a></h2>
+
+<p>E Maria Luiza?</p>
+
+<p>Maria Luiza vive feliz na companhia de sua mãe, na reclusão da sua casinha,
+aonde, todas as noites, o João da Alamêda vae levar ao seu coração o balsamo
+suavissimo da esperança.</p>
+
+<p>Que importa que o vento sopre frigido e impertinente lá fóra, se temos
+dentro de casa o lume acariciador que nos salvaguarda do rigor das intemperies?
+</p>
+
+<p>Mas, como succede a tudo neste mundo, as linguas maledicentes foram
+affrouxando, e Maria Luiza começa a ser envolvida no esquecimento, que é para
+ella d'um prazer indefinivel.</p>
+
+<p>«Elles tanto hão-de fallar, que hão-de cançar!» dizia-lhe o João, sempre que
+ella, contristada, procurava na doçura das suas palavras animadoras refrigerio
+para as mágoas que a affligiam.</p>
+
+<p>E com effeito, ella, ao sair de manhã a buscar á loja a sua provisão diaria,
+já não ouve os dichotes com que a principio alguma bôcca menos polida lhe feria
+os ouvidos e que muitas vezes lhe faziam marejar de lagrimas os olhos. A
+torrente do enxurro foi affrouxando de impetuosidade; e agora, já de quando em
+quando lhe sôa ao ouvido um «adeus» pronunciado com um certo acanhamento, com
+uma especie de arrependimento.</p>
+
+<p>Os vaticinios do tio Alamêda iam-se realisando&mdash;á<span
+class="pn">{109}</span> tempestade segue-se a bonança; a verdade é como o sol
+que dissipa as trevas mais espessas. </p>
+
+<p>Mas a verdade ainda se não patenteava e apenas se iam notando uns certos
+retrahimentos de animo nos emprehendedores d'essa nefasta cruzada que, longe de
+se inspirar em sentimentos humanitarios e altruistas ou obedecendo aos
+principios dum dever e virtude civicos, inspirava-se, vergonhosa e torpe, no
+vil sentimento da inveja.</p>
+
+<p>Comtudo era já um symptoma de justiça. Esta viria, no tempo devido, a
+occupar o seu logar, e Maria Luiza começava a sentir as delicias de um proximo
+regresso á vida alegre, de um lento resurgimento ao convivio das suas amigas em
+cujo olhar já lia o arrependimento.</p>
+
+<p>E Maria, neste desanuviar do horisonte, antevê já um paraizo de delicias,
+muito distante, mas para o qual ella se encaminha a passos de gigante. No
+dissipar, ainda que lento, dos densos nevoeiros que lhe toldam o horisonte,
+ella sente nascer em si uma alma nova, e no ceu azul, outr'ora carrancudo e
+tempestuoso, ella pensa vêr um sorriso despretencioso e ingenuo, como que
+annunciando-lhe não sómente o regresso á vida de outr'ora, mas um mundo
+desconhecido, uma vida de fausto...</p>
+
+<p>Ella afugenta da sua imaginação taes devaneios, e refugia-se então na
+meditação das palavras do seu João, a sua unica esperança, a sua vida, porque
+foi elle, durante seis mezes, a sua vida, e continuará a sêl-a... Sim!
+Continuará a ser a vida de Maria Luiza! Que importa as fanfarrias do sr.
+Velloso com o seu dinheiro? Poderá ella olvidar, num momento, seis mezes de
+dedicações, seis mezes que são todo um protesto eloquentissimo d'um coração
+apaixonado? Não! Maria Luiza não póde ouvir-te, ó novo Creso<span
+class="pn">{110}</span> da modesta aldeia, onde dardeias mundos e fundos com
+que pretendes fascinar, com o brilho das tuas libras, o olhar ingenuo e
+inexperiente d'este santo povo!</p>
+
+<p>Maria Luiza repudiar-te-ha! Olha como ella recebe, com a alma querendo
+chispar-se em jactos de luz pelos olhos, o seu João!</p>
+
+<p>Elle delinéa, em palavras animadas da mais firme esperança, o seu
+futuro&mdash;o futuro de ambos!&mdash;risonho como o sol ao nascer, lindo e
+aromatico como um campo coberto de flôres.</p>
+
+<p>E ella ouve, extasiada, essas palavras que para si valem como se viessem da
+bocca d'um profeta.</p>
+
+<p>&mdash;Maria! tinha-lhe dito ha tres mezes, radiante de jubilo, o seu
+João&mdash;Meu pae pediu-me hoje explicação d'uns ditos que lhe foram assoprar.
+Disseram-lhe que eu te amava apaixonadamente, e que era mal empregado em ti.
+Convenci-o de que o enganaram. E elle&mdash;que coração
+d'oiro!&mdash;acreditou-me; prometteu-me até dar o seu consentimento para eu
+casar comtigo. Mas disse-me que deixassemos passar primeiramente a tempestade,
+que havia de serenar como serena o mau tempo que Deus manda. Beijei-lhe as mãos
+em signal de reconhecimento; e vi-lhe nos olhos duas lagrimas! Que coração
+aquelle!</p>
+
+<p>&mdash;É como o teu, João!</p>
+
+<p>&mdash;É melhor, é melhor que o meu. Depois, contei-lhe tambem que todos os
+sabbados ia ao celleiro buscar o milho que te trago; e elle, não só me perdoou,
+mas ainda elogiou o meu procedimento. Já vês que, com um pae assim, não devemos
+pensar senão em sermos felizes. Quando essas linguas malvadas deixarem de
+fallar, então... verás! verás!<span class="pn">{111}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Maria Luiza estava um dia sentada a costurar á janella da sua casinha. Era á
+tardinha, principios de maio. Pelo campo ouviam-se aqui e além os balidos dos
+cordeiros retoiçando em volta das mães, e o mugir das vaccas jungidas á canga
+puxando pacientemente a charrua que rasgava a terra, e as vozes dos lavradores
+incitando os animaes ao trabalho, e os cantares alegres das creanças que
+guardavam as ovelhas.</p>
+
+<p>Maria Luiza está mergulhada no turbilhão dos seus pensamentos, sem prestar
+attenção a toda esta harmonia do campo, nem ás melodias d'um rouxinol que canta
+em frente da sua janella.</p>
+
+<p>Mas o rouxinol interrompeu a sua cantilena. Seria despeitado pelo desprezo
+da Maria Luiza? Não; porque esta tambem d'ahi a momento estremeceu, cortando o
+fio aos seus pensamentos. Estremeceu á voz de um homem que a saudava da rua.
+</p>
+
+<p>&mdash;Olá! menina! Boa tarde!</p>
+
+<p>Olhou e viu na sua frente um homem bem vestido, sympathico, sorrindo para
+ella.</p>
+
+<p>Ella reconheceu-o, porque respondeu, um tanto admirada, mas com a mesma
+expressão sorridente:</p>
+
+<p>&mdash;Boa tarde, sr. Velloso!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! conhece-me, e eu não tenho a honra de a conhecer!</p>
+
+<p>&mdash;Quem o não conhece nesta terra, senhor? Numa terra de pobres, um rico
+é bem conhecido, respondeu ella sempre com o sorriso a brincar-lhe nos labios.
+</p>
+
+<p>&mdash;Numa terra de pobres!... Sim! Terra pobre de dinheiro, mas rica de
+formosuras.<span class="pn">{112}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não percebo bem o que vossa senhoria quer dizer..., respondeu um
+tanto embaraçada.</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer que tenho aqui encontrado mulheres formosas como em parte
+alguma por onde tenho andado. Vou para um lado, encontro uma rapariga bonita!
+Vou para outro, encontro uma ainda mais bonita! Vou para alli, outra mais
+bonita ainda! Venho para aqui, e encontro a menina, mais bonita que todas as
+outras!</p>
+
+<p>&mdash;E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou
+aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com
+que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor! Não tem nada que...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de
+contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado
+com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com
+a minha franqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor,
+que... </p>
+
+<p>&mdash;Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas
+as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que
+realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de
+contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que
+quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho,
+a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.</p>
+
+<p>&mdash;É uma questão de pachôrra...<span class="pn">{113}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma
+simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter
+despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que
+captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me
+então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella
+sempre com o mesmo sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se
+de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora,
+dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!&mdash;E
+accrescentou, com expressão ficticia de pezar&mdash;Mas não admira, porque,
+segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi
+castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lhe perdão, se o offendi; eu não queria chamar-lhe impostôr.
+Queria sómente dizer que, embora as suas palavras tivessem um fundo de
+verdade&mdash;atreveu-se ella a dizer&mdash;não deixavam comtudo de ter os seus
+enfeites para... para se tornar talvez mais agradavel...</p>
+
+<p>&mdash;Ora ainda bem que faz um pouco de justiça aos meus sentimentos.
+Alguma justiça... não toda a que elles têm direito. Mas...</p>
+
+<p>&mdash;É melhor mudarmos de conversa, ou retirar-se, sr. Velloso, porque
+sinto que minha mãe chegou agora a casa e...</p>
+
+<p>&mdash;Eu retiro-me. E peço-lhe que não fique fazendo fraco conceito das
+minhas palavras. Se sympathisar com uma pessoa é crime, peço-lhe humildemente
+perdão... e adeus!...<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>&mdash;Adeus, sr. Velloso.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! Isto não correu mal! ia o brazileiro dizendo com os seus
+botões.</p>
+
+<p>E, sorrindo, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Isto de mulheres!... Pellam-se porque as gabem! E, com franqueza, o
+demonio da rapariga não é peste nenhuma! Por isso o rapaz deu em embeiçar com
+ella! Tem uns modos agradaveis, um sorriso muito ingenuo,.. Nem parece o que
+dizem. Mas... as mulheres são impostôras como o diabo. Nem que eu as não
+conhecesse! Oh! conheço-as tão bem como a mim mesmo! Ou talvez melhor, porque
+muitas vezes não sei o que quero, e o que ellas querem sei eu muito bem... Com
+mais duas ou tres palestras, sônda-se a coisa; por demais é fingir-me
+apaixonado e prometter-lhe uma vida de fidalga. Prometter-lhe-hei até casar com
+ella, pois que duvida ha n'isso? Dir-lhe-hei que fiz uma promessa de casar com
+uma mulher pobre de quem gostasse, se a sorte me ajudasse. Valeu! Que bella
+ideia! E o rapaz, quando o souber, que se cale com a roupa. É para bem
+d'elle... e meu!&mdash;accrescentou com um sorriso velhaco. Ah! Velloso!
+Velloso! Não ha mulher que te resista!...</p>
+
+<p>E caminhava cheio de contentamento, em direcção ao campo, rindo-se sósinho,
+como um idiota.</p>
+
+<p>O sol declinava, quasi a submergir-se. Uma dôce penumbra começava já a
+inundar o campo, e aqui e alli, bandos de meigas ovelhas, barregando, eram
+apartadas em manadas por pequenos guardadores que, de chibata ao hombro, se
+punham a caminho de casa, assobiando ou cantando, precedendo os rebanhos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o
+sr. Velloso, espraiando a<span class="pn">{115}</span> vista pela planicie,
+empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.</p>
+
+<p>Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de
+vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro,
+interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus!</p>
+
+<p>O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi
+imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:</p>
+
+<p>&mdash;Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem
+as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se
+esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!</p>
+
+<p>O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma
+suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.</p>
+
+<p>O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso
+salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e
+retrocedeu.</p>
+
+<p>Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as
+Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.</p>
+
+<p>&mdash;«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha
+remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.</p>
+
+<p>Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns
+instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se
+alternaram.</p>
+
+<p>Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.<span
+class="pn">{116}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001130">XIII</a></h2>
+
+<p>Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...</p>
+
+<p>Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas
+por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada
+despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada
+por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças.
+Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do
+mais colorido e pittoresco scenario&mdash;o magnificente scenario pintado pela
+mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e
+frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.</p>
+
+<p>Tudo era poesia, tudo era amôr.</p>
+
+<p>O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se
+bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das
+aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando
+ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com
+carinho.</p>
+
+<p>E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o
+teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!</p>
+
+<p>Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...<span
+class="pn">{117}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de
+enygmas.</p>
+
+<p>Maria Luiza, a flôr predilecta do jardim do amôr do João da Alamêda, o anjo
+tutelar dos sonhos doirados d'esse mancebo que nem talvez por pensamentos lhe
+tivesse profanado a candura, essa mulher que alcançara d'um coração bondoso
+quanto amôr se pode dedicar a um ideal e quanta dedicação se pode prestar a um
+ente que vê deante de si o cháos horripilante da desgraça e da
+miseria&mdash;Maria Luiza cedeu ás insidias do brazileiro, vergou á logica
+revoltante das suas palavras maleficas como a tenra açucena da encosta vergada
+ao sopro do Aquilão. </p>
+
+<p>Desde então, parece que até a sua casa ficou com um aspecto tristonho, que o
+rouxinol que, de madrugada e á tardinha, ia cantar para defronte da sua
+janella, já não sabia canções alegres, e que os cordeirinhos, balando em volta
+das mães que pastam no campo, já não retoiçam como costumavam.</p>
+
+<p>O triumpho, porém, que o sr. Velloso alcançou, longe de o contentar, foi
+contra a sua espectativa e contra a nossa, leitor, porque de noite, ao chegar a
+casa, o sr. Velloso encommendava ao diabo tal triumpho mais a lembrança que o
+visinho Neves teve quando lhe aconselhou tal coisa.</p>
+
+<p>Nessa noite, ás horas do costume, compareceu á entrevista com Helena, a quem
+continuava a acalentar com a esperança de dias felizes passados na sua casa
+nova.</p>
+
+<p>Nessa noite, porém, a demora foi curta.</p>
+
+<p>Allegando uma forte enxaqueca que o tinha apoquentado todo o dia, retirou-se
+e recolheu a casa<span class="pn">{118}</span> onde, fincando os cotovellos
+sobre a meza, metteu a cabeça entre as mãos, e scismou mais de uma hora.</p>
+
+<p>Parece que não tirou resultado da sua meditação&mdash;que era antes uma
+catadupa de pensamentos que se amontoavam no seu cerebro&mdash;porque,
+levantando-se mal humorado, pôz-se a passear agitado na sua sala de pavimento
+terreo.</p>
+
+<p>Outra hora assim passou n'estes curtos passeios que, ligados, dariam para
+cima de uma boa legua, até que resolveu deitar-se.</p>
+
+<p>Se dormiu ou não, é que ainda não sei. Elle o dirá ámanhã ao seu amigo
+Neves.</p>
+
+<p>&mdash;Diabos te levem, dizia elle entrando, logo de manhã cêdo, no alpendre
+do visinho que, ao vêl-o entrar assim esbafurido, ficou com o machado, com que
+escavacava uma acha, levantado no ar&mdash;diabos te levem mais a lembrança que
+tu tiveste!</p>
+
+<p>O filho da tia Maria das Neves poisou o machado no chão, e, appoiando sobre
+o cabo as mãos, ficou a olhar para o brazileiro, sem pestanejar, como quem não
+comprehendia nada do que ouvia; até que, passados momentos, perguntou, meio
+parvo, ao brazileiro que passeava apressado d'um lado para o outro no alpendre,
+retorcendo com uma das mãos o bigode:</p>
+
+<p>&mdash;Que lembrança?!</p>
+
+<p>O brazileiro parou, e, olhando para o Neves, respondeu mal humorado.</p>
+
+<p>&mdash;Essa lembrança maldita que tu tiveste de eu ir perseguir essa
+rapariga que, afinal, estava mais pura que a tua lingua e as de toda essa
+canalha que dizia mal d'ella!</p>
+
+<p>E continuou a passear agitado d'um lado para o outro.</p>
+
+<p>O Neves abriu os olhos e a bocca de espantado, meio aparvalhado, e, depois
+de seguir machinalmente<span class="pn">{119}</span> com a vista, durante um
+bom meio minuto, os movimentos do brazileiro, gaguejou:</p>
+
+<p>&mdash;Mas... Vossa senhoria falla sério?!...</p>
+
+<p>&mdash;Antes não fallasse! resmungou o sr. Velloso, como fallando comsigo, e
+collocando, sem interromper a sua marcha, as mãos atraz das costas.</p>
+
+<p>Seguiu-se um silencio egual, em que apenas se ouvia o ruido dos passos do
+brazileiro caminhando no pavimento terreo do alpendre.</p>
+
+<p>O Neves tornou a interromper o silencio, perguntando:</p>
+
+<p>&mdash;De maneira que a rapariga... não...</p>
+
+<p>&mdash;A rapariga estava honrada como as mais honradas! É o que é!</p>
+
+<p>Novo silencio. Foi ainda o Neves quem o interrompeu, dizendo n'uma especie
+de lamuria, muito pausado e sentencioso:</p>
+
+<p>&mdash;Ora vejam vocês como ás vezes uma pessoa padece injustamente!... Quem
+havia de dizer!... Que ella tinha sido esta, tinha sido aquella, que se portava
+assim, se portava assado!... Já me não torno a fiar em nada que se diga!</p>
+
+<p>&mdash;Pois se tu assim tivesses feito!...</p>
+
+<p>O Neves calou-se áquella observação, feita á maneira de censura.</p>
+
+<p>«Effectivamente, pensava elle comsigo, eu é que fiz mal em o metter em
+contradanças! Mas... sêbo! Eu não sabia! Nem tenho culpa do que se dizia! Sou
+culpado e não sou!... Mas... que raio de historia! Que diabo de mal tem isso?»
+</p>
+
+<p>Foi sob a influencia d'esta ultima reflexão, que quebrou de novo o silencio,
+dizendo resoluto:</p>
+
+<p>&mdash;Afinal... vossa senhoria está para ahi com uns taes incommodos por
+causa d'uma coisa que não presta para nada! Deshonrou a rapariga,
+acabou-se!<span class="pn">{120}</span> Uma coisa muito natural! Vossa senhoria
+tambem ficou deshonrado?</p>
+
+<p>O sr. Velloso parou, e, olhando para o visinho, retrucou:</p>
+
+<p>&mdash;Tu é que não sabes as coisas. Não é a deshonra que me incommoda! Já
+não é a primeira, nem a segunda, nem... eu sei lá! O diabo é que a nenhuma fiz
+promessa, sob minha palavra d'honra, de casar, caso a encontrasse pura, senão a
+esta. E eu, o que mais prezo neste mundo, é a minha palavra. Depois, ainda que
+não fosse isto, bastava só o remorso de lançar no desespero esse bello rapaz,
+sem necessidade nenhuma. Tudo por causa d'essas malditas linguas, que
+precisavam ser arrancadas, todas as vezes que se põem a fallar da vida alheia!
+</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor! Mas então...</p>
+
+<p>&mdash;Então, o quê?</p>
+
+<p>&mdash;Quero eu dizer que...&mdash;replicou o Neves coçando na cabeça,
+contrariado&mdash;que, se não quer faltar á sua palavra...</p>
+
+<p>&mdash;Sim: e a outra?</p>
+
+<p>E voltou a passear.</p>
+
+<p>&mdash;A outra?! Tambem lhe deu a palavra d'honra?</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe dei a palavra d'honra, mas jurei-lhe por Deus que lhe havia
+de dar a felicidade, respondeu o brazileiro com voz abafada, sem se deter no
+seu passeio. E accrescentou&mdash;Além d'isso, a essa amo-a devéras!</p>
+
+<p>O Neves, perplexo, olhava para o chão, sempre com as mãos appoiadas no cabo
+do machado.</p>
+
+<p>&mdash;Na verdade, foi uma dos diabos!... E agora, que tenciona vossa
+senhoria fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei lá! Tenho dado voltas á mioleira, que nem sei como não
+endoideci. Esta noite, quasi que<span class="pn">{121}</span> nem preguei ôlho.
+Se pudesse casar com ellas ambas, casava.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o melhor é chamal-as a um accôrdo, e não casar com nenhuma...</p>
+
+<p>&mdash;Qual accôrdo, nem meio accôrdo! És pateta, homem! Bem se vê que não
+tens pratica nenhuma de mulheres. Engalfinhavam-se uma na outra, que era o cabo
+dos trabalhos.</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo! Se se pudesse chamar essa gente toda a um accôrdo...
+Contar-lhe tudo, a bôa intenção que vossa senhoria tinha de salvar o rapaz da
+deshonra... finalmente, um accôrdo é que servia. Vossa senhoria está contra
+isso, mas é cá a minha ideia, e talvez désse resultado. Porque, combinadas as
+coisas, tudo ficava em casa, e...</p>
+
+<p>O sr. Velloso parou, e reflectiu; depois respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Parece que dizes bem. Contarei primeiramente á Helena o succedido. É
+uma facada que lhe dou no coração, mas que se ha-de fazer? O diabo é para o
+contar ao irmão. É capaz de matar a outra.</p>
+
+<p>&mdash;Levando-o por bem, não faz nada. É um pobre diabo!</p>
+
+<p>&mdash;Bem. Não ha remedio senão fazer isso. Esta só pelos demonios!</p>
+
+<p>&mdash;Não foi das melhores, não, sr. Velloso.</p>
+
+<p>&mdash;Porque afinal, mesmo que eu deixasse a Maria Luiza, o rapaz, vindo a
+saber depois a traição d'ella, levava-se dos diabos! Bom: vou até casa. Foste o
+culpado de tudo isto; mas, como foi na tua ignorancia, perdôo-te. Senão, tinhas
+de desemaranhar a meada.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor! Pois eu... estava convencido, porque era tudo cheio! E
+ainda estou a pensar num caso: como diabo é que o João da Alamêda se
+conteve,<span class="pn">{122}</span> indo lá a casa todas as noites... Tareco
+impossivel! Mas... ó senhor Velloso! Vossa senhoria não se enganaria?</p>
+
+<p>O brazileiro sorriu-se como um individuo que, perito num assumpto, ouve uma
+objecção; e, retirando-se, observou:</p>
+
+<p>&mdash;Pensas que nasci hontem...</p>
+
+<p>O Neves riu-se por sua vez; e, já sósinho, monologou, respondendo á
+observação do Velloso:</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Deves estar mais pratico nessas coisas do que eu...</p>
+
+<p>E, levantando o machado, continuou a sua tarefa.<span
+class="pn">{123}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001140">XIV</a></h2>
+
+<p>No mesmo dia, á tardinha, no campo, o João da Alamêda gradava uma terra que,
+durante o dia, tinha lavrado. Lançara-lhe a semente e procedia, com a grade, á
+cobertura dos grãos.</p>
+
+<p>Á frente do gado andava Paulo, de aguilhada ao hombro, com a sóga numa das
+mãos.</p>
+
+<p>O tempo continuava claro e sereno.</p>
+
+<p>O immenso tapete de flôres que se estendia no campo apresentava já, de onde
+a onde, uma interrupção: aqui e alli, uma terra, resolvida, sobresaía no meio
+d'aquella superficie florida como no azul do ceu uma ou outra nuvem pardacenta.
+</p>
+
+<p>É neste mez que o campo se despe do seu variegado tapete de flôres: mas, em
+substituição, cobre-se d'uma camada de milho verde que, agitado pelas brizas,
+nos dá a ideia d'um extenso e placidissimo lago mansamente encrespado pelo
+vento brando. E no meio d'esse pittoresco lago de verdura&mdash;permittam-me a
+expressão&mdash;apparecem, de onde a onde, como bandos de cysnes, ranchos
+alegres de rapazes e raparigas; elles, despidos dos casacos, com as camisas
+brancas a lusir entre o verde dos milharaes; ellas, de lenços garridos
+amarrados graciosamente em volta da nuca fluctuando ao sopro da aragem; todos
+cantando, sacham o milho pequenino e tenro, desde o despontar do sol até ao
+crepusculo da tarde. Á hora da sesta, depois da refeição do meio dia sorvida á
+sombra deliciosa dos salgueiraes, uns estiram-se<span class="pn">{124}</span>
+para dormitar sobre a relva mimosa, outros, collocando-se em circulo, jogam
+qualquer jogo de regaço, sempre em alegria e folgança honesta; e ainda outros,
+mais irrequietos e folgazões, saltam para um d'esses bateis que se encontram a
+cada passo atracados ás margens do Vouga, e vão passear pelo rio.</p>
+
+<p>O João da Alamêda terminou a sua tarefa ao pôr do sol. Collocaram a charrúa
+e a grade sobre o carro, jungiram as vaccas, e pozéram-se a caminho de casa,
+Paulo á frente, guiando o carro, e João atraz.</p>
+
+<p>Ao passar á porta da Maria Luiza, João olhou para a janella onde ella, todas
+as tardes, costumava estar, e não a viu.</p>
+
+<p>&mdash;Está talvez lá para o quintal, pensou. Pois vou fazer-lhe uma
+surpreza! </p>
+
+<p>E, com um sorriso do satisfação, metteu por uma cancella contigua á casa, pé
+ante pé, esperando encontral-a e rir-se de a vêr surprehendida.</p>
+
+<p>Espreitou para dentro e não viu ninguem. Machinalmente, entrou no pequeno
+quintal, e parou. Viu a porta, que dava para a cozinha, aberta, e dispunha-se a
+entrar, quando lhe pareceu ouvir um sussurro de vozes vindo d'um pequeno
+alpendre que estava ao lado do quintal.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Está ali mais a mãe. Pois vou metter-lhes um sustosinho.</p>
+
+<p>E dirigiu-se para lá, com precaução, para não ser presentido.</p>
+
+<p>O alpendre era constituido por um telheiro formado de duas paredes: a do
+fundo, e a lateral, que era a mesma da cozinha, e no angulo opposto ao formado
+por estas duas paredes havia um pilar construido de lages. Os vãos entre o
+pilar e as paredes estavam vedados por taipaes de madeira. Num destes<span
+class="pn">{125}</span> havia uma porta, e João ficou um tanto surprehendido ao
+vel-a fechada, devendo ser mãe e filha que lá estavam. Mas, de subito, percebeu
+que uma das vozes era de homem, ao mesmo tempo que o seu coração começou a
+pulsar precipitadamente. </p>
+
+<p>Avançou até junto da porta, e escutou.</p>
+
+<p>Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá,
+tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia
+fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa
+socegar o espirito.</p>
+
+<p>João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra
+esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava.
+Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que
+proseguia:</p>
+
+<p>&mdash;Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver
+piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a
+outra voz, a do brazileiro.</p>
+
+<p>&mdash;Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu
+intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame
+mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça,
+cambaleando, murmurava:</p>
+
+<p>&mdash;É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?!
+Tanta dedicação, tanto amôr?!...</p>
+
+<p>E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois,
+como tomando uma resolução, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Não! Não quero manchar as mãos no sangue<span class="pn">{126}</span>
+d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que
+tinha tomado.</p>
+
+<p>Era quasi noite, e perto da casa de Maria passou pela mãe d'esta, cuja
+saudação não ouviu.</p>
+
+<p>Alguns homens que, de volta do trabalho, recolhiam a casa, e algumas
+mulheres, de cantaro á cabeça, davam-lhe as boas noites, que elle não
+retribuia.</p>
+
+<p>Tinha sempre, para cada saudação, um dito gracioso acompanhado d'um sorriso;
+e d'aquella vez passava como um desvairado, o passo vacillante e apressado.</p>
+
+<p>Ficavam-se a olhar para elle por momentos; depois, encolhendo os hombros,
+continuavam o seu caminho.</p>
+
+<p>João, quando chegou a casa, não tratou de vêr, como era seu costume, se o
+gado estava recolhido e os utensilios de lavoura que tinham servido nesse dia
+estavam acondicionados. Entrou na cozinha, deu sorumbaticamente as boas noites,
+pediu que lhe levassem ao quarto uma escudella de agua mórna para lavar os pés,
+e, allegando uma violenta dôr de cabeça, despediu-se do pae e recolheu á
+alcova.</p>
+
+<p>&mdash;Queres que te traga a ceia, João? perguntou-lhe Helena quando lhe foi
+levar a agua.</p>
+
+<p>&mdash;Não; não quero. Não me appetece comer.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei o que tens, João! O Paulo diz que não te tinhas queixado
+no campo de incommodo nenhum. Diz que só se foi que te désse pelo caminho: que
+ficaste atraz...</p>
+
+<p>&mdash;Pois foi no caminho. Olha, vou dizer-te uma coisa, que talvez te não
+seja muito agradavel, embora pretendas negal-o...</p>
+
+<p>&mdash;Que é? perguntou Helena com anciedade.</p>
+
+<p>&mdash;É o seguinte: mas digo-to só a ti, para não causar barulho, porque és
+tu só quem pode fazer o que te peço.<span class="pn">{127}</span></p>
+
+<p>E, esforçando-se por dar serenidade á voz que lhe tremia, proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Esse brazileiro, esse maldito brazileiro que ahi costuma vir, que
+nunca mais aqui appareça!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! pois tu...&mdash;perguntou Helena, meia aterrada. Não queres
+que...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Que não volte cá mais, para evitar alguma desgraça!</p>
+
+<p>&mdash;Ó João! Mas... dize lá: como o soubeste?!&mdash;E, entre a anciedade
+e a surpreza, repetiu&mdash;Como o soubeste?!</p>
+
+<p>&mdash;Como o soube?! Oh! Essa é boa! Então, pelo que vejo, tu sabial-o,
+e...</p>
+
+<p>&mdash;Então vistel-o sair?!...</p>
+
+<p>&mdash;Diabo! Estás a modos... Mas se eu vi o quê?!</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Velloso... Como não queres que elle cá volte, para evitar
+alguma desgraça...</p>
+
+<p>&mdash;Pois vi! E tu sabial-o, e não m'o tinhas dito!</p>
+
+<p>&mdash;Se eu o sabia?! Mas eu não te percebo nem tu percebes a mim!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me parece. Mas tu perguntaste-me se eu o tinha visto sair.
+D'onde? </p>
+
+<p>&mdash;D'alli, do alpendre. Pois tu ainda agora disseste tambem que sabias
+tudo e que tinhas visto...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Era isso o que eu queria dizer... E, abafando a colera que,
+contra o brazileiro, a revelação da irmã lhe suscitara, disse:</p>
+
+<p>&mdash;E é por isso que eu não quero que elle aqui volte mais. Vae-te
+embora, que não paro da cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Passa bem a noite, João. Até ámanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Até ámanhã. E não digas nada disto a ninguem.</p>
+
+<p>&mdash;Descança.</p>
+
+<p>João, ao ficar só, sentiu que tinha febre.</p>
+
+<p>Atravez das suas ideias em desordem, só dois<span class="pn">{128}</span>
+vultos divisava distinctos: Velloso e Maria Luisa. Elle, o ladrão da sua noiva,
+o roubador da felicidade do seu coração, e, para epilogo de tanta malvadez, o
+pretendente roubador da... O Pretendente?! Quem sabe?! E esta ultima observação
+saiu-lhe distinctamente expressa por palavras, tal foi o abalo que sentiu
+dentro em si. </p>
+
+<p>&mdash;Ah! Infame! Não! Tu não has-de ficar impune! Hei-de castigar-te de
+tanta malvadez! Miseravel!...</p>
+
+<p>E, fazendo depois incidir o pensamento sobre a ingrata que calcara tão
+desapiedadamente aos pés o seu verdadeiro amôr, a sua dedicação extrema,
+atirou-se, soluçando convulsivamente, sobre a cama, chorando como uma creança.
+</p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Nessa noite, Helena prevenia o brazileiro de que era preciso muita cautella
+com o irmão, que o tinha visto sair d'alli.</p>
+
+<p>&mdash;Temo até que elle venha por ahi ainda hoje, Joaquim! Diz que está com
+uma forte dôr de cabeça; mas, ainda assim...</p>
+
+<p>E o sr. Velloso, que vinha disposto a relatar a Helena os acontecimentos
+que, desde a véspera, tanto o apoquentavam, achou mais conveniente addiar a
+confidencia.</p>
+
+<p>&mdash;Mas quando hei-de voltar, Helena?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei... É melhor deixarmos passar dias... O melhor, até, Joaquim,
+era tu chegares ao pé de meu irmão e dizer-lhe: «descança, João, que a tua irmã
+vae ser minha mulher». Oh! Joaquim! Quanto eu seria feliz!<span
+class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>&mdash;Por estes dias, não, Helena. O motivo, depois t'o direi. Mas confia
+em Deus, e pede-lhe que nos auxilie para alcançarmos a felicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Pedir a Deus? Pois Deus póde lá oppôr-se á nossa felicidade, Joaquim?
+Deus deseja-o, e por isso não precisa que lhe peçam! Só se fôr para metteres a
+mão na tua consciencia, e...</p>
+
+<p>&mdash;És louquiuha, meu anjo. Jureit'o. E que Deus me auxilie no
+cumprimento do meu juramento.</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Juraste-me que me havias de dar a felicidade. Queres então que
+peça a Deus para que te auxilie no cumprimento de tal juramento?</p>
+
+<p>&mdash;Quero.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: pedir-lhe-hei... O coração, porém, annuncia-me coisas tão
+tristes!... Parece-me que nuuca serei feliz a teu lado, Joaquim!</p>
+
+<p>&mdash;Se Deus o consentir, has-de ser!</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não comprehendo bem as tuas palavras!...</p>
+
+<p>&mdash;Não disseste tu que era conveniente que eu me retirasse por causa de
+teu irmão?</p>
+
+<p>&mdash;Sim; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é que o que te quero dizer, só poderei dizert'o com mais socêgo.
+Ámanhã, venho cá e...</p>
+
+<p>&mdash;Não venhas... Ou antes: esconde-te ahi pela rua, ao largo, e só te
+approximas se eu abrir a portaria. Então, é porque meu irmão não saiu.</p>
+
+<p>&mdash;Bem. Boa noite, Helena.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, Joaquim! Até... quando Deus quizer!<span
+class="pn">{130}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001150">XV</a></h2>
+
+<p>No dia seguinte, ao toque das almas, João da Alamêda envergava o seu capote
+e, pegando no marmeleiro&mdash;seu inseparavel companheiro nocturno&mdash;saiu
+de casa. Deu a volta á Herdade, no que gastou cerca de um quarto d'hora, e, na
+volta, na estrada dos eucalyptos, se se tivesse affirmado bem para um ponto do
+escuro das arvores, teria notado uma negrura mais densa. Fôra o Velloso que
+escolhera aquelle ponto para seu posto de observação, donde se descortinava,
+atravez da negrura daquella noite sem luar, o vulto da casa de Helena,
+divisando-se no seguimento da estrada esbranquiçada e sobre o fundo do ceu
+allumiado pelas estrellas.</p>
+
+<p>João passou e, proximo de sua casa, coseu-se com a escuridão do cômoro
+fronteiro.</p>
+
+<p>O brazileiro, no seu posto, não ousava respirar mais fortemente.</p>
+
+<p>Um silencio sepulchral se seguiu. Nem um sussuro de vento se ouvia nas
+folhas das arvores.</p>
+
+<p>Passou-se meia hora, e mais outra. As dez horas soaram, lentas e quasi
+imperceptiveis, na torre de Eiról.</p>
+
+<p>Ás dez e meia, João saía do seu esconderijo e mettia-se em casa.</p>
+
+<p>Um quarto d'hora depois, o brazileiro punha-se tambem a caminho, e nada mais
+se ouviu na estrada deserta.<span class="pn">{131}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O sr. Velloso, com a preoccupação de espirito que lhe causaram estes
+acontecimentos imprevistos, e consummido no seu intimo por não saber que
+resolução havia de tomar, pois, emquanto não entrevistasse Helena acerca do
+succedido, nada poderia resolvêr, faltou á entrevista na tarde do dia seguinte
+a Maria Luiza.</p>
+
+<p>Esta que, no dia antecedente, occultava a sua mãe as lagrimas que o remorso
+lhe fazia verter, chorava agora com ella as suas infelicidades, attribuindo a
+causa das suas lagrimas á ausencia de João, cuja causa não comprehendia.</p>
+
+<p>Sua mãe acalentava-a, insuflando-lhe esperança no amôr de João que, se
+faltara um dia, algum incommodo lhe sobreviera, porque na vespera, á hora das
+Ave-Marias, encontrara-o proximo d'alli, quando elle voltava do campo, e não
+respondera á sua salvação.</p>
+
+<p>&mdash;Sentia-se talvez incommodado..., accrescentava.</p>
+
+<p>&mdash;A mãe que diz?! Encontrou-o...</p>
+
+<p>&mdash;Encontrei-o alli acima.</p>
+
+<p>&mdash;Hontem?! E a que horas?... perguntou Maria com expressão de terrivel
+anciedade.</p>
+
+<p>&mdash;Ao toque das Ave-Marias.</p>
+
+<p>E Maria, alanceada por uma suspeita que lhe opprimiu dolorosamente o
+coração, occultou o rosto nas mãos, debulhando-se em lagrimas.</p>
+
+<p>A esse dia seguiu-se outro de crescente anciedade e soffrimento para Maria
+Luiza, durante o qual nem fallar ouvia de Velloso, nem de João, de quem se
+recordava com o coração amargurado e a alma mortificada pelo remorso.<span
+class="pn">{132}</span> </p>
+
+<p>Sua mãe, que ignorava por completo a traição que sua filha perpetrara a
+João, attribuia as lagrimas de Maria ao soffrimento que lhe devia causar a
+ausencia de quem não tinha a menor noticia, porque não ousava interrogar
+ninguem a seu respeito, para se não expor a algum riso ironico; e, não achando
+outro remedio que pudesse alliviar a afflicção em que a via, resolveu, sem o
+communicar á filha, ir a casa do tio Alamêda saber da saude de João, pois outro
+motivo não podia haver que o impedisse de sair, senão a doença.</p>
+
+<p>Custava-lhe muito isso, mas, como João tinha já dito que seu pae não oppunha
+obstaculo algum á affeição do seu coração, encheu-se de animo, e foi no mais
+firme proposito de expôr ao tio Alamêda as razões imperiosas que obrigavam o
+seu coração de mãe a dar aquelle passo, que ao terceiro dia, se dirigiu para
+lá, eram dez horas da manhã.</p>
+
+<p>Encontrou o velho sentado no alpendre a aparar um pedaço de páu de sobreiro
+para uma chavêlha.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. José, Deus vos dê muito bom dia!</p>
+
+<p>&mdash;Muito bom dia, sr.ª Rita.</p>
+
+<p>&mdash;Deve admirar-se de me vêr por aqui, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Com effeito, é uma novidade. Ha que annos vocemecê cá não vem! E ha
+que tempos tambem que a não vejo!</p>
+
+<p>&mdash;Não admira... Eu, passo a vida lá em baixo, quasi nunca venho cá para
+cima...</p>
+
+<p>&mdash;E, nem que viesse, tambem me não veria facilmente. Eu não saio do meu
+aido, porque já não posso, estou velho.</p>
+
+<p>&mdash;Está acabado. Velho não. Mas ao menos tem a consolação de viver em
+socêgo, com os filhos ao pé de si, que lhe querem muito.<span
+class="pn">{133}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois elles, coitados, não têm motivo para me quererem mal. Fiz por
+elles o que pude...</p>
+
+<p>&mdash;Decerto. Foi sempre bom pae para elles. E elles, tambem, têm sido uns
+bons filhos.</p>
+
+<p>&mdash;Graças a Deus... Não sairam dos peores, não senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, sr. José: com'assim, para o não estar a maçar mais, vou
+dizer-lhe o motivo que me trouxe aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Dirá...</p>
+
+<p>&mdash;Sei que o sr. José não é desconhecedor da affeição do seu filho João
+pela minha filha, e da grande generosidade que elle tem praticado para
+comnosco, que Deus sabe o que seriamos agora se não fosse o seu bom
+coração...</p>
+
+<p>&mdash;Sei. Elle, coitado, tem um bom coração, lá isso tem! Mas admitto-lhe
+isso, porque, emfim, parece que a sua filha não é nenhuma ingrata que não
+reconheça a dedicação d'elle, e não deixa de ser digna d'isso, apezar do que
+para ahi diziam...</p>
+
+<p>&mdash;Linguas do mundo, sr. José! Linguas do mundo! Sabe como é o mundo, e
+por isso...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! O mundo inveja sempre a pouca sorte que um pobre tenha! Se é um
+rico, quanto mais favorecido da sorte, mais venerado é. Emquanto que um
+pobre...</p>
+
+<p>&mdash;Pois é isso mesmo. Ora, como eu lhe ia dizendo, o seu filho ganhou
+uma grande affeição á minha Maria, e, até hoje, ha já sete mezes, faltou só
+tres vezes á noite em minha casa, onde a vae visitar: foi na noite de
+Natal&mdash;na noite de ceia&mdash;e hontem e ante-hontem. Como faltou estes
+dois ultimos dias sem nós sabermos o motivo, a rapariga tem-se lá desfeito em
+chorar, que até me retalha o coração.<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois olhe que eu não sei o motivo...</p>
+
+<p>&mdash;Então elle não está doente?!</p>
+
+<p>&mdash;Não. Ante-hontem á noite é que, ao chegar do campo, queixou-se d'umas
+fortes dôres de cabeça, e foi-se deitar sem ceia. Mas hontem, logo de manhã,
+levantou-se e foi para o trabalho.</p>
+
+<p>&mdash;Sim?!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade.</p>
+
+<p>E a mãe de Maria Luiza teve de retirar-se, mais preoccupada ainda do que
+viera, não comtudo sem pedir ao velho que expozésse ao filho a anciedade de sua
+filha, que não podia adivinhar a causa de tal procedimento.</p>
+
+<p>Quando, ao meio dia, João e Paulo chegaram, de enxada ao hombro, do
+trabalho, o pae chamou João ao alpendre e participou-lhe que a mãe de Maria
+Luiza tinha ido havia pouco tempo d'alli, onde tinha vindo, muito contristada,
+saber a razão porque ha dois dias elle não dava parte de si á filha que outra
+vida não fazia senão chorar.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? perguntou, ironicamente João. Coitada! Pois que chore, que
+quanto mais chorar menos urina! A mãe quer saber a razão porque lá não vou?
+Pois que o pergunte á filha, que o sabe tão bem, ou melhor, que eu!</p>
+
+<p>&mdash;Vê lá, João! Não sejas injusto. Deixar-te-hias agora por ultimo levar
+por contos...</p>
+
+<p>&mdash;Não, meu pae. Tenho muita razão para assim proceder, e outro, no meu
+logar, procederia d'outra fórma.</p>
+
+<p>E o tio José, por sua vez, ficou tambem impressionado com as palavras do
+filho, sem outra conclusão ter tirado que a suspeita de qualquer acontecimento
+grave que viesse transtornar a felicidade d'aquelles dois seres que tanto se
+amavam.<span class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>Nesse dia, á tardinha, um mendigo entregava occultamente uma carta a Helena.
+</p>
+
+<p>Esta, em virtude dos acontecimentos que a impediam ha tres dias de fallar
+com Velloso, e preoccupada, além d'isso, com as palavras d'elle, cuja
+significação não alcançava e traziam o seu coração amargurado por uma terrivel
+angustia, tinha emmagrecido.</p>
+
+<p>O corpo resente-se do soffrimento da alma. Recalcando no seu intimo a dôr
+que a pungia, esse esforço ia a pouco e pouco affectando-a phisicamente. Uma
+unica consolação encontrara para a mágua: as lagrimas&mdash;esse terno
+confidente dos infelizes&mdash;que vertia a sós na reclusão da sua alcova, que
+lhe alliviavam as amarguras do coração mas lhe desbotavam as côres do rosto e
+tarjavam de roxo as cavidades dos olhos.</p>
+
+<p>Foi num mal dissimulado alvoroço intimo que recebeu das mãos do mendigo a
+carta, vinda da parte de Velloso.</p>
+
+<p>Correu ao seu quarto e leu:</p>
+
+<p>«Minha querida Helena: Ha tres dias que passo uma vida tão cheia de
+tristezas, que não podes imaginar. Na esperança de te fallar, todas as noites
+vou pôr-me á espreita da tua casa, a vêr se vejo abrir-se essa portaria que é
+para mim a porta do ceu. Em vez, porém, de te vêr apparecer como o meu anjo
+salvador, vejo teu irmão, que me espia, esconder-se na escuridão do muro
+fronteiro, e, depois de, durante cerca de duas horas de cruel espectativa, me
+conservar no meu posto de observação, vejo-o retirar-se.</p>
+
+<p>Á minha tristeza motivada por te não vêr, junta-se a anciedade que tenho de
+te communicar um segredo. Este é de tanta importancia, minha Helena, e vae, com
+certeza, ferir de tal modo o teu coração<span class="pn">{136}</span> bondoso,
+que até receio de o confiar a uma carta. Mas farei as diligencias para que esta
+chegue ao seu destino; e, visto que não tenho outro meio de communicar-t'o,
+principio, pedindo-te que conserves a maior presença de espirito e confies em
+Deus para que não te faça desanimar á vista do que vaes lêr.</p>
+
+<p>Quando cheguei do Brazil a esta terra, corriam por ahi uns boatos a respeito
+de teu irmão que se apaixonara por uma rapariga chamada Maria Luiza, que eu não
+conhecia. Dizia-se que ella fôra uma mulher leviana, e que por isso não era
+digna da dedicação de teu irmão, um rapaz querido e estimado de toda a
+freguezia; que este perdia muito no seu conceito se casava com ella, segundo
+constava. Como não me interessava com o caso, apenas lamentei a sorte de teu
+irmão, com quem eu não tinha relações.</p>
+
+<p>Depois, porém, que te conheci, que te comecei a amar com este amôr louco que
+te dedico, pensei no caso, e achei que era necessario, para honra d'elle e
+minha, porque era irmão da minha noiva, affastal-o do caminho errado que
+trilhava. Resolvi eu proprio ser o seu anjo salvador. Convencido como estava,
+pelos boatos que corriam, de que Maria Luiza tinha sido uma fraca mulher, e que
+agora se mostrava outra para conservar teu irmão na illusão em que andava,
+resolvi que ella resvalasse ao lodoçal d'outrora, para que teu irmão, abrindo
+os olhos, visse a desgraça que estivera imminente de si.</p>
+
+<p>Consegui, com effeito, graças ás minhas promessas, o meu intento. Jurei-lhe
+até que casaria com ella, se ella estivesse isenta das manchas de que a
+accusavam. E... cruel decepção! Maria Luiza estava pura, tão pura como tu,
+minha Helena, quando...»</p>
+
+<p>Helena, que com difficuldade levara a leitura da carta até este ponto,
+sentiu uma nuvem toldar-lhe<span class="pn">{137}</span> a vista e,
+amarfanhando a carta, caiu de bruços sobre o leito num chôro convulsivo,
+murmurando em delirio, a voz cada vez mais apagada:</p>
+
+<p>&mdash;A lua estava tão triste!... Um môcho, a piar mais triste, fez-me
+calafrios... E elle jurou-me que eu havia de ser feliz, muito
+feliz!...............</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Quando voltou a si, o medico, com a sua peculiar expressão de bondade,
+tacteava-lhe o pulso, e ella, deitada no leito, olhou em roda, com olhar
+ancioso, e perguntou ao pae, sentado á cabeceira da sua cama:</p>
+
+<p>&mdash;Pae?... A carta?...</p>
+
+<p>&mdash;Está aqui, minha filha. Socéga. A agitação faz-te mal; não é verdade,
+sr. doutor?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade. Ella quer muito socêgo de espirito. É o unico remedio que
+lhe receito.</p>
+
+<p>&mdash;É coisa de cuidado, sr. doutor? perguntou, profundamente commovido, o
+velho.</p>
+
+<p>&mdash;Não. Não vale de nada. Ámanhã pode levantar-se. Mas has-de estar
+muito socegadinha hoje, ouviste?</p>
+
+<p>Quando o medico se retirou, Helena perguntou ao pae:</p>
+
+<p>&mdash;Leu essa carta, meu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Filha da minha alma, não ouviste o que disse o senhor doutor? Não te
+preoccupes com a carta, porque te faz mal. Socéga...</p>
+
+<p>&mdash;Estou boa, meu pae. Alem d'isso estou resignada. Pareceu-me ouvir em
+sonhos uma voz que me animava e que me dizia que ia ser muito feliz: mas que
+era preciso abandonar o mundo, porque a verdadeira felicidade não é aqui. Já vê
+que não agito o espirito a modos de me fazer mal.<span
+class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas não falles mais n'isso. Ámanhã fallaremos e...</p>
+
+<p>&mdash;O pae leu a carta toda?</p>
+
+<p>&mdash;Li... Quiz saber o motivo do teu desmaio... e até quem a leu foi o
+João. </p>
+
+<p>&mdash;O João?! E que disse?!</p>
+
+<p>&mdash;O João está socegado. Está na cozinha. Mas peço-te por amôr de Deus
+que não falles mais nisso hoje.</p>
+
+<p>E, pegando-lhe numa das mãos, acariciou-lh'a, emquanto, com as lagrimas nos
+olhos, dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Faz-me a vontade, sim, filha?...</p>
+
+<p>Helena prometteu: mas pediu-lhe ainda que queimasse a carta, cuja leitura
+não queria terminar. O pae fez-lhe a vontade.<span class="pn">{139}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001160">XVI</a></h2>
+
+<p>Levantou-se na aldeia uma celeuma contra o brazileiro, que, no dizer de toda
+a gente, era um seductor de donzellas.</p>
+
+<p>Dois dias volvidos sobre os ultimos acontecimentos, durante os quaes o
+brazileiro não abandonara á noite o seu posto de observação, toda a freguezia,
+conhecedora dos successos que elle causara, augmentados, naturalmente, pela
+phantasia popular, murmurava indignada contra esse homem que viera, com a
+presumpção do seu dinheiro, interromper a paz e o socego da aldeia e lançar a
+desgraça no seio d'uma tão boa e santa gente.</p>
+
+<p>A propria Maria Luiza, o espirito do mal até ahi, passou a ser a pobre
+avesinha da silveira arrebatada nas garras do gavião.</p>
+
+<p>Nos dois dias que se seguiram áquelle em que Helena recebeu a carta de
+Velloso, este, á mesma hora, fôra para o mesmo ponto da alameda dos eucalyptos,
+na esperança de que Helena, quando o irmão desistisse de o perseguir,
+apparecesse á porta.</p>
+
+<p>Porém, naquellas duas noites seguintes, a decepção do brazileiro foi
+indizivel, quando não viu apparecer João a vigial-o, nem tão pouco Helena dava
+signal de si.</p>
+
+<p>&mdash;Que se terá passado?... pensava, ao retirar-se.</p>
+
+<p>Os dias passava-os em sua casa e na do visinho,<span class="pn">{140}</span>
+que lhe communicava as impressões que a seu respeito occupavam o espirito
+popular.</p>
+
+<p>Era a unica pessoa com quem o brazileiro tinha conversas d'este theor: nem
+sua propria mãe, que ás vezes lhe queria manifestar os seus queixumes da vida
+lamentavel que elle levava, obtinha licença para lhe tocar nesse ponto.</p>
+
+<p>Elle começou a sentir remorsos da sua conducta.</p>
+
+<p>Receando os olhares estranhos como se ejaculassem raios de um fogo
+devorador, elle não se atrevia mesmo já a apparecer na presença dos obreiros
+que se occupavam na construcção da sua nova habitação.</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhor Velloso! dizia-lhe o Neves chegando esbafurido na manhã do
+terceiro dia. Uma novidade de alta importancia: o Alamêda ficou sem filho
+nenhum em casa! Ficou com elle o moço, mais aquella rapariga que lá tem, filha
+do fallecido João da Junqueira, e dizem que vão casar para ficar na companhia
+do velho...</p>
+
+<p>Mas o Neves achou inutil continuar, a não ser que quizesse fallar para as
+paredes, porque o brazileiro, a meio do discurso, rodou nos calcanhares, e,
+como um ébrio, sem dizer palavra, deixou o visinho embasbacado a olhar para
+elle, fallando comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Mas onde diabo irá elle?... Pois sim! Vae depressa que ainda vaes a
+tempo! Onde irão elles já!</p>
+
+<p>E depois, como um individuo que reflexiona com acerto, disse com ar de
+presumpção:</p>
+
+<p>&mdash;Ora ahi está para que diabo serve o dinheiro! Se elle fosse pobre
+como eu, succedia-lhe isto? Olha lá se eu me incommodo com nada! Não tenho
+dinheiro; assim, as mulheres não esperam nada de mim, por isso não deito a
+perder ninguem! Nem me perco a mim!...<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p style="text-align: center; text-indent: 0;">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O brazileiro, como um allucinado, penetrou no páteo do tio Alamêda.</p>
+
+<p>Parou, olhou em roda, e não viu ninguem. Chorou então ao vêr-se só n'aquelle
+recinto, onde cada objecto despertava na sua memoria uma saudade do dia em que
+pela primeira vez alli entrou, e arrancava ao seu coração uma gotta de sangue
+que lhe assomava aos olhos transformada n'uma lagrima.</p>
+
+<p>A porta da casa estava fechada; e elle, não podendo resistir á desolação do
+seu coração, sentou-se no tronco d'uma oliveira que estava estendido no pateo.
+Appoiou a fronte sobre as mãos e deu curso ás lagrimas que lhe affluiam aos
+olhos..............</p>
+<hr class="dotted">
+<hr class="dotted">
+
+<p>Meia hora depois, sentia que lhe tocavam n'um hombro.</p>
+
+<p>Olhou, e viu na sua frente, ao pé de si, o tio Alamêda, a olhal-o com um
+olhar velado por uma profunda angustia e cheio de ternura.</p>
+
+<p>Instinctivamente, estendeu para o velho os braços e cingiu-lhe os joelhos,
+proferindo estas palavras com desalento:</p>
+
+<p>&mdash;Perdão! Perdão para um infeliz!</p>
+
+<p>O velho, tentando erguel-o, disse, com as lagrimas rolando pelas faces
+enrugadas:</p>
+
+<p>&mdash;Levante-se! Que Deus lhe perdôe, assim como eu lhe perdôo.</p>
+
+<p>O brazileiro ergueu-se, e, com voz trémula o angustiada, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Helena para onde foi?!<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>&mdash;Helena foi procurar a felicidade que o senhor lhe não podia dar.
+Morreu para mim e para o mundo.</p>
+
+<p>&mdash;Para um convento?!...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! E meu filho partiu na companhia d'ella com tenção de
+embarcar para o Brazil. Acompanhou-os o nosso bom e santo prior, que prometteu
+internal-a n'um recolhimento.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Isto e cruel!</p>
+
+<p>&mdash;Sim! É cruel, para um pae que, d'um instante para outro, se vê
+privado da companhia de seus dois queridos filhos. Um, para nunca mais voltar.
+Outro... quem sabe?! Talvez tambem para nunca mais me tornar a vêr, nem voltar
+a esta casa onde viveu vinte e cinco annos tão feliz e contente!</p>
+
+<p>Os dois choravam. O brazileiro não ousou interromper as lamentações do
+velho, que proseguia:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor está vivo graças ás minhas lagrimas que puderam conter o
+braço armado de meu filho. Agora, que Deus o reservou, não queira continuar na
+sua senda de opprobios por onde tem caminhado. Ainda pode compensar uma parte
+d'esta serie de infelicidades que causou. Arrependa-se do passado, e faça por
+esquecel-o com um futuro glorioso. Eu, pela minha parte, perdôo-lhe; Helena,
+que tem um coração d'oiro, tambem lhe perdoará, e meu filho da mesma maneira.
+Falta só Deus. Para conquistar o seu perdão, faça o que eu já lhe disse: salve
+o passado com o futuro.</p>
+
+<p>&mdash;Mas Helena... como poderei obter o seu perdão, se...</p>
+
+<p>&mdash;Deus lhe transmittirá a sua prece. Não precisa de o ouvir, para
+lançar sobre a sua memoria o perdão que se concede ainda aos maiores
+criminosos.</p>
+
+<p>O brazileiro estendeu ao velho a mão, e, com firmeza e resolução,
+disse:<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aperte esta mão: é a mão de um rehabilitado.</p>
+
+<p>E, conservando apertada na sua mão mimosa a mão rugosa do velho, continuou,
+com voz pausada:</p>
+
+<p>&mdash;Fui criminoso; mas fui um criminoso inconsciente. Farei como o senhor
+me diz e como me dicta a minha consciencia, procurando no futuro regenerar-me
+do passado. Se, até aqui, o meu dinheiro tem sido olhado como um instrumento
+criminoso para eu conseguir fins vergonhosos e deshonestos e como uma base
+tôsca sobre a qual eu edificava, sem olhar para o berço pobre onde nasci, o meu
+castello de opulencia, quero que para o futuro seja olhado como um maná celeste
+que, descendo ao seio da miseria, vá mitigar a angustia dos necessitados. Quero
+que elle seja a alavanca que me erga do lodaçal em que me sepultei. Já que eu,
+nascido na pobreza, tive a sorte de me elevar de modo a poder estender as azas
+na mesma camada atmospherica onde os ricos se libram sem lançar um olhar para
+baixo a contemplar, com olhos de piedade, as luctas cruciantes da miseria, eu
+quero, então, descer d'essa altura para penetrar nos tugurios pestilentos, nas
+espeluncas, para alimentar quem tem fome, aquecer quem tirita de frio, e seccar
+as lagrimas de quem chora.</p>
+
+<p>O velho abraçou-o commovido, e accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;E d'esse modo será amado dos homens e abençoado de Deus; e subirá
+mais alto, muito mais alto do que aquelles que, conservando-se lá em cima, não
+lançam um olhar de misericordia cá para baixo!<span class="pn">{144}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION001170">CONCLUSÃO</a></h2>
+
+<p>Tres annos depois erguia-se, no sopé d'um outeiro de suave declive, uma casa
+de apparencia sumptuosa, dominando, como uma rainha, a planicie que, semeada de
+casinhas pobres de lavradores, se estendia na sua frente.</p>
+
+<p>O outeiro era revestido em toda a volta do seu sopé por pampanos verdes de
+vides que o engrinaldavam como uma immensa corôa de verdura que estremecia sob
+o sopro da viração; e no seu planalto estendia-se um pinheiral de pinheiros
+miudos e distanciados que cresciam por entre um tapete de urzes floridas,
+dando, visto de longe, a ideia de um jardim suspenso de Babylonia.</p>
+
+<p>Edificada na face oriental da falda, aquella casa, afagada logo de manhã
+pelos raios alegres do sol despontando ao longe por detraz da serra do
+Caramulo, bafejada pela amenidade da natureza sorridente que a cercava, parecia
+uma d'aquellas vivendas phantasticas que nós, quando fomos pequenos, anteviamos
+atravez da nossa imaginação infantil, excitada pela narração d'um conto de
+fadas ou de princezas encantadas que nossa avó nos contava ao serão.</p>
+
+<p>Todos os dias, á tardinha, quando o ceu era claro e a atmosphera limpida, e
+o sol pendia esmorecendo para o ocaso, um casal saía d'aquella vivenda e ia
+passear pelas veredas do outeiro, contemplando, ditoso, as varzeas sorridentes
+por onde serpéa o poetico Vouga.<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>Ao passar por elle, os aldeãos descobriam-se respeitosos e cheios de
+acatamento, envolvendo-o n'um olhar dôce de sympathia e veneração, e ás vezes
+ficavam-se a contemplal-o com expressão de intimo jubilo até o verem
+desapparecer na curva de um atalho.</p>
+
+<p>Nunca um mendigo se lhes approximava que não voltasse com aspecto
+sorridente, pronunciando palavras de agradecimento.</p>
+
+<p>&mdash;São uns santos! São uns santos! murmuravam sempre ao affastarem-se.
+Deus lhes pague no ceu o bem que fazem, cá no mundo!</p>
+
+<p>Egualmente a porta da casa se conservava sempre aberta para mitigar a fome,
+a sede ou o frio dos necessitados, e muitas vezes, depois que a noite estendia
+o seu manto negro sobre a aldeia, uma mão esmoler e caritativa saía a ministrar
+o alento aos infelizes que, por vergonha ou impossibilidade, não ousavam sair
+do seu tugurio onde se debatiam com os horrores da miseria.</p>
+
+<p>Essa mão que se estendia misericordiosa a acalentar o infortunio dos
+infelizes e se subtraía modesta aos ósculos de gratidão, era de Maria Luiza, a
+esposa do dôno d'aquella casa, tão rico como caritativo, que distribuia
+santamente os rendimentos da sua riqueza.</p>
+
+<p>O tempo passou uma esponja sobre os acontecimentos que, tres annos antes,
+circulando em volta d'aquelles dois sêres, tanto emocionaram a alma popular, e
+o sr. Velloso é agora a caridade personificada, amado dos infelizes, respeitado
+por todos os que o conhecem.</p>
+
+<p>Um velho, alquebrado e arrimando-se a um cajado, de andar pezado e de cabeça
+calva, com o olhar velado por uma tristeza profunda, vem quasi todos os dias
+passar alguns momentos com elles.<span class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>Esse velho é o tio Alamêda, que nos ultimos tres annos envelheceu mais que
+em todo o resto da vida.</p>
+
+<p>Privado dos affagos dos filhos que a infelicidade arrebatou da sua
+companhia, minora o seu soffrimento com os carinhos que lhe prestam esses dois
+seres&mdash;Paulo e Julia&mdash;que a Providencia lhe atirara pela porta
+dentro, para encontrarem no seu coração o que tão cêdo lhes faltara.</p>
+
+<p>Seus filhos, ao partirem, tinham-lhe dito, como Cristo, da cruz, á sua Mãe:
+«ahi lhe ficam os seus filhos. São dignos do seu amôr; por isso, conserve-os na
+sua companhia».</p>
+
+<p>E o tio Alamêda, amando, aquelles entes como seus filhos, sentiu a
+necessidade dessa companhia. Resolveu, no seu intimo, casal-os.</p>
+
+<p>Chamou um dia Paulo á parte, tinha elle já desenove annos, e perguntou-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Paulo, eu amo-te como a um filho. Amo tambem Julia como se egualmente
+fosse minha filha. A separação dos meus verdadeiros filhos da minha companhia
+abriu-me a sepultura, e a vossa separação agora atirar-me-hia para ella. Convém
+que vós vos não separeis de mim nos ultimos dias da minha vida. Vou perfilhar
+Julia; a ti talvez não, porque tenho uma ideia que, se concordares com ella,
+dispensa isso. Queres casar com Julia?</p>
+
+<p>O pobre rapaz, como não querendo acreditar no que ouvia, abriu os olhos, sem
+poder responder á pergunta que o velho lhe fazia.</p>
+
+<p>&mdash;Responde. Parece que ficaste espantado? Queres ou não casar com
+Julia?</p>
+
+<p>&mdash;Se quero!...</p>
+
+<p>Nestas palavras, proferidas quasi instinctivamente, traduziu toda a paixão
+da sua alma, manifestou<span class="pn">{147}</span> quanto amôr occultara
+durante dois annos no seu peito.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! disse o tio Alamêda cheio de contentamento. Pela tua resposta,
+vejo que gostas d'ella a valer, não é verdade? Não sabes quanto estou contente
+com isso. É preciso agora saber se é do gosto d'ella casar comtigo. Vae
+chamal-a. </p>
+
+<p>E Paulo, não cabendo em si de alegre, correu a chamar Julia.</p>
+
+<p>Esta veio, e perguntou, fitando nos olhos do velho os seus olhos azues
+cheios de doçura e de submissão:</p>
+
+<p>&mdash;Que quer, pae?</p>
+
+<p>&mdash;Perguntar-te simplesmente uma coisa: se eu quizesse que casasses com
+Paulo, fazias-me a vontade?</p>
+
+<p>Julia fitou os olhos no chão, ruborisada, dando naquelle silencio a resposta
+mais eloquente que lhe podia dictar o seu coração apaixonado.</p>
+
+<p>O velho, comprehendendo então nesse momento que o seu desejo era a unica
+felicidade que aquellas duas almas anhelavam, sorriu-se jubiloso, e poisando
+paternalmente a mão na cabeça loira da creança, disse com extrema bondade,
+pondo-se em pé:</p>
+
+<p>&mdash;E tiveste a coragem de me não revelares esse segredo, hein? Vejo que
+o amas a valer, e não me tinhas dito nada, minha másinha?</p>
+
+<p>Julia levantou para elle os olhos castos, depois olhou para Paulo que a
+contemplava apaixonadamente, e, tornando a baixar os olhos, sorriu com candura.
+</p>
+
+<p>&mdash;Está bem; continuou o tio Alamêda. Quando o nosso João vier, o que
+não ha-de tardar, segundo elle diz, nenhum anno, ha-de festejar-se a sua
+chegada com o vosso casamento; e...</p>
+
+<p>O som d'uma buzina fez olhar todos para a portaria,<span
+class="pn">{148}</span> onde estava um homem, com uma porção de cartas numa das
+mãos e um sacco de couro a tiracóllo. </p>
+
+<p>&mdash;Ill.<sup>mo</sup> senhor José Nunes da Alamêda!</p>
+
+<p>E estendeu um braço com uma carta na mão.</p>
+
+<p>Julia correu ao alpendre; e, ao receber a carta tarjada de luto, estremeceu.
+Olhou para o sello, e reconhecendo que provinha do Brazil, occultou o rosto no
+avental, soluçando.</p>
+
+<p>O velho, por sua vez, estremeceu, e perguntou com a voz trémula:</p>
+
+<p>&mdash;Que é, Julia?! Alguma nova desgraça que nos sobreveio?!...</p>
+
+<p>Julia tirou o avental de deante do rosto, e approximou-se, as faces banhadas
+de lagrimas, estendendo a carta para o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Seja o que Deus quizer! Lê, filha, lê. Estou resignado com a vontade
+de Deus!</p>
+
+<p>E, appoiando-se, curvado, sobre o bastão que segurava com ambas as mãos,
+meneava dolorosamente a cabeça.</p>
+
+<p>Julia, em frente d'elle, pallida como um cadaver, rasgou o enveloppe e
+desdobrou a carta.</p>
+
+<p>Paulo tinha-se approximado, egualmente pállido, e, sem proferir uma palavra,
+collocou-se ao lado esquerdo de Julia, encostando a sua cabeça á d'ella e
+olhando, machinalmente, numa enorme anciedade, para as lettras que não
+entendia, porque não sabia lêr.</p>
+
+<p>Julia lêu para si a primeira linha, a participação do óbito de João, e,
+deixando cair os braços, olhou, banhada em pranto, para o velho.</p>
+
+<p>Este ergueu os olhos para o ceu, e exclamou com indiscriptivel cummoção:</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! Levastes-me os filhos. Seja feita a vossa vontade.<span
+class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>E, estendendo as mãos para os jovens, que estavam na sua frente semelhando
+os conjuges em frente do padre, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Levou-me os filhos, e deixou-me a vós. Sois os meus pupillos, e d'ora
+avante sereis meus filhos.</p>
+
+<p>Abraçou-os n'um demorado amplexo, continuando com a voz entrecortada pelos
+soluços:</p>
+
+<p>&mdash;E que Deus abençoe o vosso amôr, como eu o abençôo!</p>
+
+<h2><a name="SECTION001180">FIM</a></h2>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Scenas da Aldeia, by A. Augusto de Miranda
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ALDEIA ***
+
+***** This file should be named 30947-h.htm or 30947-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/9/4/30947/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from BibRia)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..a9ca88b
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #30947 (https://www.gutenberg.org/ebooks/30947)