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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:49 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:54:49 -0700
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+<head>
+ <title>Amôres d'um deputado, por Hipolito Buffenoir</title>
+ <meta name="Author" content="Hipolito Buffenoir">
+ <meta name="Publisher" content="Guimarães e C.ª">
+ <meta name="Date" content="1911">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
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+</head>
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+<body>
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Amôres d'um deputado
+
+Author: Hippolyte Buffenoir
+
+Translator: A. Ferreira
+
+Release Date: January 12, 2010 [EBook #30946]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>IV - Colecção Diamante</p>
+
+<p>HIPOLITO BUFFENOIR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-right: 10%;color:#ff0000">Amôres</p>
+
+<p style="color:#ff0000"><small>D'UM</small></p>
+
+<p
+style="font-size: 3em; margin: 0; margin-left: 10%;color:#ff0000">deputado</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Guimarães &amp; C.ª editores&mdash;Lisboa</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">Amôres d'um deputado</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 40%;text-align:center;">
+ <em>Composto e imprenso na Imprensa<br>
+ de Manuel Lucas Torres<br>
+ Rua do Diario de Noticias, 93</em></blockquote>
+
+<p><span class="pn">{2}<br>
+{3}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p>COLECÇÃO DIAMANTE</p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:right; margin-right: 20%;"><em>Hipolito Buffenoir</em></p>
+
+<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-right: 10%;">Amôres</p>
+
+<p><small>D'UM</small></p>
+
+<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-left: 10%;">deputado</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;"><em>Trad. de A. Ferreira</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1911<br>
+Guimarães &amp; C.ª&mdash;Editores<br>
+68, R. do Mundo, 70<br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{4}<br>
+{5}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001000">I.<br>
+<em>O café Tabourey</em></a></h1>
+
+<p>&mdash;Paga oito «sous»! gritou Carlos, o moço do café Tabourey,
+dirigindo-se á menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento,
+exercendo o logar de «caixa», e acompanhando o grito do lançamento d'uma moeda
+de cincoenta centimos sobre o marmore d'um pequeno balcão.</p>
+
+<p>A rapariga guardou a moeda e deu-lhe o troco de dois «sous», que Carlos fez
+cahir sobre uma meza do fundo onde um freguez se achava escrevendo uma carta.
+</p>
+
+<p>&mdash;Oito e dois dez! resmungou o moço do botequim, tirando um prato e uma
+chavena que se achavam sobre a meza.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem, guarda o resto para ti! retorquiu suave e tristemente o
+freguez, mal erguendo os olhos da carta que estava terminando.</p>
+
+<p>O relogio collocado quasi junto do tecto da casa, embutido mesmo nos ornatos
+da cimalha marcava dez horas e vinte e cinco<span class="pn">{6}</span> minutos
+e o freguez do café Tabourey olhando-o, melancholicamente, suspirou e pensou:
+</p>
+
+<p>&mdash;Decididamente, não veem esta noite; levanto a sessão!</p>
+
+<p>Ainda se demorou alguns minutos procurando na meza do centro, entre um monte
+de jornaes, o «Soir» e não o encontrando, dirigiu-se á menina Amelia Dufer,
+entregando-lhe a carta que acabava de escrever.</p>
+
+<p>&mdash;Se esses senhores vierem, a menina faz-me o favor de entregar esta
+carta a Maupertuis, sim?</p>
+
+<p>&mdash;Com todo o gosto, sr. Ronquerolle, respondeu, amavelmente, a joven
+Amelia, esboçando um gracioso sorriso, completamente perdido, porque o seu
+interlocutor havia já desapparecido na rua Vaugirard.</p>
+
+<p>N'aquella noite, Ronquerolle, que se sentira invadido por um aborrecimento
+maior que de costume, tomara uma importante resolução. Decidira voltar á sua
+terra natal, ha tanto tempo esquecida, e a carta que elle entregara á menina
+Amelia Dufer, ao sahir do café Tabourey, dizia o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right">«Meus amigos:</p>
+
+<p>Porque não vieram esta noite? Esperei-os durante muito tempo. Tenho
+necessidade de os ver. Vou partir para a Borgonha.</p>
+
+<p>«Estou cheio de tristeza.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right">«Vosso amigo, </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right">«Maximo Ronquerolle». </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ás onze horas, os amigos de Ronquerolle<span class="pn">{7}</span> aos quaes
+aquella carta era dirigida e que, após o jantar tinham resolvido dar um passeio
+pelos «boulevards» voltavam ao Bairro Latino, entrando no seu café predilecto,
+pensando, e com razão, que Ronquerolle, se já ali não estivesse, lhes teria
+deixado o que elles vulgarmente chamavam as suas «instrucções».</p>
+
+<p>Entretanto, o que mais desejavam era vel-o porque tinham a dar-lhe uma
+importante noticia.</p>
+
+<p>Estes rapazes chamavam-se Jayme Maupertuis, Feliciano Didier e Emilio
+Branche. Eram, como Maximo Ronquerolle, poetas, jornalistas e politicos.
+Pobres, quasi desconhecidos, procuravam ser alguma coisa e para esse fim
+corriam em busca da fortuna e da gloria. Todos os quatro eram republicanos.</p>
+
+<p>Tinham feito excellentes estudos na provincia, e aos vinte e vinte e cinco
+annos haviam partido para Paris, com grandes receios das suas familias, que os
+consideravam perdidos, no movimento e confusão da grande capital.</p>
+
+<p>Socegados na apparencia, eram quatro enthusiastas. A imaginação junta a uma
+clara intelligencia, eram as qualidades predominantes de todos elles.</p>
+
+<p>A sua conducta era irreprehensivel. A amizade que os unia era profunda.
+Estimavam-se, adoravam-se mutuamente.</p>
+
+<p>Ronquerolle e Maupertuis tinham-se conhecido na provincia, na sua terra
+natal, na Borgonha. Travando relações, de creanças, aos quinze annos, durante
+os dez que se seguiram tinham-se perdido de vista até<span
+class="pn">{8}</span> que se haviam reencontrado em Paris, graças á «Revue des
+Poétes», que publicava versos de ambos.</p>
+
+<p>Didier e Branche eram do norte. Viviam como dois irmãos. Uma bella manhã,
+juntos haviam deixado Lille, e juraram á sua entrada em Paris, de sempre ahi
+continuarem a viver juntos e de juntos tambem seguirem a carreira, que a sorte
+a qualquer d'elles deparasse.</p>
+
+<p>Hospedados no hotel «Lisbonne» da rua Vaugirard, em pleno Bairro Latino, ali
+encontraram á mesma meza, Ronquerolle e Maupertuis. Uma grande sympathia se
+estabeleceu rapidamente entre esses quatro rapazes, que em poucos minutos
+comprehenderam que os movia o mesmo pensamento, a ambição e o desejo vehemente
+d'uma absoluta independencia.</p>
+
+<p>Na occasião em que o leitor trava conhecimento com os quatro mancebos,
+conheciam-se elles ha dois annos. Os primeiros tempos da sua franca e leal
+camaradagem, tinham sido encantadores. Haviam comunicado os seus pensamentos,
+os seus projectos de futuro, enthusiasmando-se mutuamente, lendo os seus versos
+e conversando sobre os seus amôres, pois que cada um d'elles tinha a sua
+amante.</p>
+
+<p>Chegados ao café os tres amigos de Ronquerolle, receberam a carta que este
+ali lhes deixara encarregando-se da sua leitura Maupertuis, que do seu
+contheudo deu conhecimento aos seus companheiros Didier e Branche.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos depressa! disse Branche, que tinha por Maximo uma verdadeira
+adoração.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>Um quarto de hora depois, os quatro amigos achavam-se reunidos em casa de
+Maximo Ronquerolle, que habitava no «boulevard» Montparnasse.</p>
+
+<p>&mdash;Já sabes da novidade? perguntou Maupertuis.</p>
+
+<p>&mdash;Qual novidade?! disse Ronquerolle surprehendido.</p>
+
+<p>&mdash;Sahiu o decreto.</p>
+
+<p>&mdash;Um decreto!?</p>
+
+<p>&mdash;Pergunta a Didier e a Branche!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! ajuntaram estes.</p>
+
+<p>&mdash;Trouxe-te o numero do «Soir», que trata do assumpto, disse Branche.
+Aqui tens, lê, nas ultimas noticias.</p>
+
+<p>Com effeito Ronquerolle leu um decreto do Presidente da Republica,
+convocando os eleitores para reunirem em 15 de julho.</p>
+
+<p>Ronquerolle, pallido de commoção, conservou-se um momento ancioso.</p>
+
+<p>É que elle sabia que aquella data, marcada para as eleições de deputados,
+poderia ter grande importancia na sua vida. Para elle esse dia seria decisivo,
+na sua existencia, d'aquelles cuja aproximação faz tremer o homem mais
+corajoso, causando-lhe calafrios.</p>
+
+<p>&mdash;E então, que me dizes do decreto? perguntou Maupertuis.</p>
+
+<p>&mdash;Digo-te, respondeu Ronquerolle, que elle me indica, que tenho a
+dizer-lhes coisas muito graves. Assentem-se que temos que conversar.</p>
+
+<p>Os trez amigos de Maximo acceitaram o convite e emquanto Ronquerolle foi
+buscar uns papeis guardados n'um movel proximo, esperaram anciosos que elle
+falasse.<span class="pn">{10}</span></p>
+
+<p>De volta para junto da mesa perto da qual se achavam os seus amigos
+Ronquerolle lançou os papeis sobre a sua secretaria e aproximando o seu
+candieiro de trabalho e tomando uma cadeira, disse rindo:</p>
+
+<p>&mdash;Está aberta a sessão!</p>
+
+<p>Então Ronquerolle contou aos seus amigos que havia algum tempo estava em
+relações com o «comité» republicano de Saint-Martin, na Borgonha; que os
+membros d'esse «comité» lhe tinham offerecido a candidatura por aquelle
+districto, e que elle havia demorado a resposta até ao dia em que o decreto
+relativo ás eleições fosse publicado.</p>
+
+<p>&mdash;Explendido! gritaram ao mesmo tempo os trez amigos. Bello! O decreto
+sahiu. Não ha que hesitar, acceitas!</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu hesito ainda; e se lhes pedi para virem aqui esta noite, foi
+na intenção de lhes falar d'este negocio e de lhes pedir conselho.</p>
+
+<p>E Ronquerolle tornou conhecidos dos seus amigos os documentos relativos á
+futura eleição por Saint-Martin. Tratava-se de lutar, em nome da Republica,
+contra o marquez de la Tournelle, que representava ali as ideias reaccionarias,
+e que seria approvado por todos os fanaticos do throno e do altar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso é encantador, exclamou Maupertuis, farás desapparecer o tal
+marquez como uma simples bolinha de prestidigitador; e entrarás na Camara como
+uma bala de canhão.</p>
+
+<p>&mdash;Não me embriaguem com palavras, disse Ronquerolle desenhando-se-lhe
+no<span class="pn">{11}</span> rosto uma nuvem de tristeza. Não vá eu contar
+com a victoria e me aguardem as desillusões. A lucta será encarniçada,
+terrivel. O marquez possue influencia, é rico, pode vencer...</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! interrompeu Didier. Todo o districto de Saint-Martin se
+impressionará com a tua embriagadora eloquencia, inflamarás todas as
+intelligencias com os teus discursos, e no dia da votação, o teu nome
+victorioso sahirá das urnas.</p>
+
+<p>&mdash;E depois, accrescentou Branche, que amava mais Ronquerolle do que a
+um irmão, tu imaginas que vamos deixar-te combater sósinho?! Reclamamos tambem
+a nossa parte na lucta; proponho que partamos comtigo para a Borgonha, tomando
+a cidade de Saint-Martin, como nosso quartel-general, da qual faremos fogo, de
+quatro barricadas, afim de reduzir á expressão mais simples sua excellencia o
+marquez de la Tournelle e todas as jovens e velhas devotas, que, estou certo,
+correm já por montes e valles trabalhando a favor da candidatura de tão alta
+personagem!</p>
+
+<p>Uma formidavel gargalhada saudou a arrogante phrase de Emilio Branche, e o
+proprio Ronquerolle foi obrigado a acompanhal-a olhando o seu amigo.</p>
+
+<p>Depois de duas horas de discussão, ora calma ora ruidosa, ficou decidido que
+Ronquerolle acceitaria a candidatura que lhe era offerecida, que Branche,
+Didier e Maupertuis deixariam Paris durante o periodo eleitoral, e que iriam a
+Saint-Martin auxiliar o seu amigo, e que, sendo necessario fundariam um jornal
+de combate.<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>Ronquerolle mais pallido ainda que do costume, estremecia de satisfação ao
+pensar que o seu nome ia sahir da obscuridade, e que ia achar-se envolvido nas
+luctas politicas do seu paiz. Assaltava-o já o desejo, de se encontrar, elle,
+filho d'um humilde artista borgonhez, em frente d'esse arrogante marquez de la
+Tournelle, provando-lhe que os filhos dos proletarios tinham mais sangue nas
+veias, que os filhos e os netos dos emigrados de Coblentz, entrados em França
+nos carros de mercadorias do estrangeiro.</p>
+
+<p>Provava assim possuir o legitimo orgulho dos homens seguros da sua
+consciencia e do seu valor e o desejo de ajudar generosamente os seus amigos,
+fazendo-os saltar os obstaculos, que os impediam de obter uma posição que lhes
+permitisse chegarem até onde a sua justa ambição os attrahia.</p>
+
+<p>Não era só por si que Ronquerolle ambicionava uma situação, era por
+Maupertuis, Branche e Didier. O primeiro a chegar ao ponto desejado devia
+estender a mão aos outros, e, decerto, não era Ronquerolle dos que poderia
+esquecer os companheiros dos dias difficeis da mocidade.</p>
+
+<p>Era uma hora da manhã quando os quatro rapazes se separaram.</p>
+
+<p>Encontrando-se no «boulevard» Montparnasse, os amigos do poeta, preocupados
+com os acontecimentos que iriam dar-se, guardaram silencio.</p>
+
+<p>A noite estava magnifica. Uma brisa suave trazia á grande cidade os
+vivificantes perfumes dos bosques de Ville-d'Avray, de Sèvres, de Meudon e de
+Clamart. Alguns<span class="pn">{13}</span> trens percorriam ainda os
+arruamentos e só elles turbavam o socego d'aquelle bairro de Paris.</p>
+
+<p>Chegados á encruzilhada do Observatorio, Maupertuis, Didier e Branche
+voltaram a conversar animadamente.</p>
+
+<p>Intimamente, porém, sentiam-se tristes.</p>
+
+<p>&mdash;Uma nova existencia vae começar para nós, disse Maupertuis, uma vida
+de discordias, de combates, de lucta. Podemos dizer adeus á bella tranquilidade
+dos nossos vinte annos!</p>
+
+<p>&mdash;E o que faremos das nossas amantes? acrescentou subitamente
+Didier.</p>
+
+<p>&mdash;Daremos a liberdade a essas gentis avesitas, disse Branche, e não as
+lamentemos que ellas saberão orientar-se no paiz do amôr. Voces bem
+comprehendem, que não podemos preocupar-nos com saias durante o periodo
+eleitoral.</p>
+
+<p>&mdash;Poderiamos talvez, interrompeu Maupertuis, envial-as para casa de
+seus paes!</p>
+
+<p>&mdash;Tu falas bem! tornou Branche; infelizmente ignoramos a sua morada.</p>
+
+<p>&mdash;Porém, Ronquerolle, accrescentou Maupertuis, não poderá, tão
+facilmente como nós, desfazer-se da sua amante. Trata-se d'uma ligação séria. O
+que será de Emilia sem elle?</p>
+
+<p>&mdash;Meus filhos, disse Branche com ares paternaes, guardemos para amanhã
+a continuação da palestra, e vamos deitar-nos. A discussão fica suspensa.</p>
+
+<p>E os trez amigos separaram-se.</p>
+
+<p>Entretanto Ronquerolle, após a sahida dos seus amigos, encontrando-se no seu
+modesto gabinete de trabalho apressou-se<span class="pn">{14}</span> a tomar
+algumas notas, sobre o que se passava, e entrou no seu quarto.</p>
+
+<p>Julgando encontrar a amante adormecida, avançou com precaução para não a
+despertar. Qual não foi porém o seu espanto, quando a encontrou embrulhada n'um
+«robe de chambre», sentada n'uma cadeira e chorando copiosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que tens tu? disse Ronquerolle, aproximando-se e tomando-a nos
+braços.</p>
+
+<p>A pobre rapariga soluçava perdidamente, e não podia articular palavra.</p>
+
+<p>Comtudo, como o amante a enchia de perguntas e a envolvia em caricias,
+acabou por dizer-lhe que tinha ouvido toda a conversação que elle tivera com os
+seus amigos, e que bem reconhecia que a legitima ambição de Ronquerolle, era
+uma ameaça á sua felicidade, que seria a separação de ambos, para sempre
+talvez.</p>
+
+<p>E essa incerteza, era terrivel para ella, que apenas podia receiar e chorar.
+</p>
+
+<p>&mdash;Creança, disse ternamente Ronquerolle, porque duvidas de meu carinho?
+Não sou o teu amante, o teu melhor amigo? Por ventura, depois de trez annos,
+que vivemos juntos, alguma vez te menti, te enganei, te abandonei um dia, uma
+hora?...</p>
+
+<p>Tentava animal-a, mas a duvida e o receio haviam ferido a alma sensivel da
+pobre Emilia, e tornar-se-hiam mais vivos á medida que se fossem desenrolando
+os acontecimentos, que tão fortemente interessavam a Ronquerolle.</p>
+
+<p>A amante do novo candidato a deputado, era uma rapariga de vinte e trez
+annos, de cabellos louros, olhos azues, d'um azul encantador,<span
+class="pn">{15}</span> figura insinuante, bem talhada, seio proeminente mas sem
+exageração.</p>
+
+<p>Adorava a Ronquerolle a encantadora Emilinha.</p>
+
+<p>Tinham-se conhecido por forma um tanto ou quanto original.</p>
+
+<p>Haviam frequentado ambos o curso d'um professor celebre da Sorbonne.</p>
+
+<p>A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha, á qual os seus parentes,
+que viviam na provincia, a tinham confiado.</p>
+
+<p>Os amôres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham começado com o
+aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim do Luxembourg.
+</p>
+
+<p>Que de encantadores passeios não realizaram Ronquerolle e a linda
+rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Médicis!</p>
+
+<p>Que de ternas discussões elles não prolongaram percorrendo a Avenida do
+Observatorio!</p>
+
+<p>Que de alegres pensamentos, não os assaltaram ao atravessarem o arvoredo,
+por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de marmore, onde
+ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus projectos, dos seus
+sonhos de felicidade!</p>
+
+<p>Toda a força da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de vida,
+perpassava por elles.</p>
+
+<p>Um dia juntaram-se as mãos e apertaram-se com transporte. Depois,
+Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e
+finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no<span
+class="pn">{16}</span> proprio dia em que elle, eloquentemente, dissertava
+sobre os encantos dos amôres platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia á sua
+habitação e fazia da pobre pequena sua amante.</p>
+
+<p>Desgostos, inquietações e lagrimas tinham já acompanhado essa ligação
+durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle e de
+Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as angustias da
+pobreza, os tormentos da ambição, e as calumnias dos vis e dos preversos.</p>
+
+<p>Agora porém Emilia, conforme avançavam os dias e os mezes, sentia
+avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por circunstancias
+imperiosas, a deixar o amante.</p>
+
+<p>Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como
+Ronquerolle seria envolvido no turbilhão do mundo, que a sua ambição o
+prenderia completamente, e que ella, pobre flôr colhida de passagem, no caminho
+da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada á sua dôr, ao seu
+desespero.</p>
+
+<p>Empallidecia e estremecia de commoção quando ao passar por uma egreja, via
+descêr, ou subir, para uma carruagem uma noiva toda casta e lindamente vestida
+de branco, coroada de flôres de larangeira. Tambem á pobre Emilia seria grato,
+transpor assim as naves do templo, e ali receber o sagrado annel de casamento.
+</p>
+
+<p>Ronquerolle podia esposal-a, é verdade, a mais ninguem ella havia
+pertencido. Para elle era ella uma mulher honesta; para elle<span
+class="pn">{17}</span> devia ella ser digna de usar o seu nome.</p>
+
+<p>Por vezes ella tinha a illusão de que a sua ligação seria santificada, mas
+pouco depois o seu intelligente espirito abraçava tristes ideias e tinha então
+o presentimento do futuro, glorioso para Ronquerolle, obscuro e desgraçado para
+ella. E esse devotado coração de mulher, verdadeiramente amante, preparava-se
+já para o sacrificio, em favor d'aquelle a quem tanto amava.</p>
+
+<p>Emilia tinha ouvido toda a conversação de Ronquerolle com os seus amigos
+Maupertuis, Didier e Branche. Soubera que o amante ia deixar Paris, partindo
+para a Borgonha, e o seu coração palpitara com mais força, com violencia.</p>
+
+<p>Tinha visto com as mais sombrias côres o futuro que a sorte lhe reservava e
+por isso chorava.</p>
+
+<p>&mdash;Não chores assim, supplico-te! disse-lhe Ronquerolle, olhando-a
+ternamente. Commoves-me profundamente com as tuas lagrimas. O que pode
+affligir-te assim?!</p>
+
+<p>&mdash;Julgavas-me adormecida e no entanto eu estava acordada, respondeu
+Emilia. </p>
+
+<p>Conheço os teus projectos e os dos teus amigos. Ouvi o que disseram ha
+pouco.</p>
+
+<p>O que te causa tanta alegria, entristece-me, porque é o fim d'esta nossa
+ligação que surjirá dos acontecimentos aos quaes vaes entregar todos os teus
+pensamentos, a tua existencia.</p>
+
+<p>&mdash;Creança! retorquiu Ronquerolle, pois é esse o motivo da tua tristeza
+e das tuas lagrimas! Tu bem sabes que nunca te abandonarei! Vamos, socega!</p>
+
+<p>Pensa na tua bella mocidade: e dize bem<span class="pn">{18}</span> alto que
+te amo e que te hei de amar sempre com toda a força do meu coração!</p>
+
+<p>Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convicção, abrandaram um pouco
+as inquietações de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem de amargura e
+de pezar.</p>
+
+<p>Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua
+poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos,
+realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraçar, que, a todo o
+custo, precisava vencer.</p>
+
+<p>A amante cançada por fim das commoções soffridas, adormecera. E elle,
+sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e á luz, d'uma lampada, tendo
+a cabeça encostada ás mãos, parecia recolhido n'uma dolorosa meditação. O seu
+olhar brilhava e não mudava de direcção Relembrava as palavras do grande poeta
+inglez Shelley;</p>
+
+<p>«O mundo é feio e mau.» Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de
+Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos cidadãos, aos
+trabalhadores, aos homems do campo.</p>
+
+<p>N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a amante
+adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado do amante.
+Transportes d'amôr enchiam então o coração do joven republicano e pensava,
+recordando ainda Shelley:</p>
+
+<p>«Não, não! Nem tudo é feio! Nem tudo é mau n'este mundo! Tomo por testemunha
+esta creança, que dorme aqui perto de mim, este seio que se eleva e abaixa,
+respirando<span class="pn">{19}</span> vida, estes bellos cabellos louros
+soltos lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada dão reflexos
+dourados...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION002000">II<br>
+<em>O marquez e a marqueza de Tournelle</em></a></h1>
+
+<p>A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil habitantes. É
+uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares de praça forte, com as
+suas antigas muralhas, a sua guarnição e sobretudo pelo seu velho castello,
+dominando a cidade e recordando os tempos do feudalismo. Este castello é
+habitado desde tempos immemoriaes pela familia «de la Tournelle», que tem nos
+seus brazões a corôa de marquez.</p>
+
+<p>Os «de la Tournelle», durante muito tempo, foram os senhores da região. No
+tempo da Revolução, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder decahiu
+muitissimo; porém quando Bonaparte se apoderou do throno e se fez imperador,
+readquiriram o seu antigo prestigio, graças ás habeis generosidades diffundidas
+na região e mais especialmente na circunscripção de Saint-Martin.</p>
+
+<p>No momento em que se desenrolam os<span class="pn">{20}</span> factos que
+relatamos, o marquez Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta
+circunscripção de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe
+pertencia. «Maire» da cidade, conselheiro geral e deputado da direita, não
+poderia affrontar os seus inimigos?</p>
+
+<p>Além d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de
+republicanos que se agitava na sua circunscripção. Chamava a esses bravos
+democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para Cayenna, canalha
+sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e insultando os padres.
+</p>
+
+<p>No entanto, as ultimas eleições municipaes tinham mandado trez d'estes
+«assassinos» a tomar o seu logar na «mairie», ao lado do sr. marquez, e o
+senhor «de la Tournelle» tinha d'isso um vivo despeito.</p>
+
+<p>A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma
+mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos, sendo
+mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo sempre a
+cabeça arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente desenvolvido
+nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura. Os cabellos
+castanhos claros, os olhos azues, as mãos finas com os dedos alongados, os
+pequeninos pés, completavam o arsenal das suas graças femininas. Além d'isso,
+amava os perfumes, a «toilette» e dava leis ás grandes elegantes como as
+adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era amavel<span class="pn">{21}</span> para
+todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos.</p>
+
+<p>Finalmente, não se poderia vêl-a sem logo a amar. A bella Carlota não tinha
+um inimigo, exceptuando talvez o barão de Quérelles, um conquistador
+desprezado, que tinha jurado não morrer sem se vingar dos desdens da altiva
+aristocrata. O barão vinha rarissimas vezes a Saint-Martin, mas estava ao
+corrente de todos os acontecimentos da pequena cidade.</p>
+
+<p>A marqueza tinha no coração, ou antes na cabeça, uma paixão deveras rara
+entre as mulheres. Era ambiciosa.</p>
+
+<p>Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o prestigio
+superior da vontade e da energia. Porém o marquez «de la Toumelle» pertencia á
+raça dos mediocres, terminando a marqueza por ter compaixão d'elle. O marquez
+era um bello homem, muito elegante no seu porte, muito bom cavalleiro, bom
+valsista, bom caçador, conversador agradavel ainda que futil, mas incapaz de
+empregar, por seu proprio esforço, a actividade necessaria, e de seguir a um
+fim com tenacidade. Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma
+grande confiança em sua mulher e não tomava qualquer resolução sem a consultar.
+Elle era só quem dispunha dos altos cargos da circunscripção, só elle se
+offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a victoria?
+Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um jornal, tendo ás
+suas ordens um «comité» das pessoas mais elevadas da cidade, batia o seu
+concorrente completamente, se acaso<span class="pn">{22}</span> um se
+apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia tão tolo que
+contra elle aceitasse uma candidatura.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu
+castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu
+«comité»: Elles que nada teem, que são pobres como Job, fallam em ser senhores!
+Pois bem! onde está o seu candidato? Que appareça! Vamos, mostrae-m'o raça de
+biltres!</p>
+
+<p>Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braços no espaço,
+ameaçando com um gesto o café da «Poule-Blanche», logar da reunião habitual dos
+republicanos de Saint-Martin.</p>
+
+<p>A noite cahia lentamente. Lá em baixo, um ultimo raio de sol dourava
+melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que enervam
+a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos, as aldeias
+perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade insaciavel lhe subiam ao
+coração ao pensar que o seu nome dominava na região, como as torres do seu
+castello dominavam as choupanas da visinhança. Um sorriso de satisfação lhe
+animou o rosto e teve palavras d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando
+estava completamente absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu
+creado de quarto, Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que
+acabavam de chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia
+o «Figaro» e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as
+noticias dos departamentos e das eleições.<span class="pn">{23}</span> Os seus
+olhos cairam immediatamente sobre estas palavras em normando:
+<strong>Borgonha</strong>, «circunscripção de Saint-Martin.»</p>
+
+<p>Leu soffregamente a seguinte noticia:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois «candidatos se propõem por aquelle
+circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado, representando o
+partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle publicista, candidato do
+«comité» republicano. A lucta, diz-se, será violenta. Temos, porém, todas as
+razões para acreditar que «o sr. Marquez de «la Tournelle» baterá o seu
+adversario.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Ah! ah! ah! riu o marquez; a graça não está má.</p>
+
+<p>Em seguida, dirigindo-se á galeria, chamou muitos dos seus amigos que
+estavam no salão e leu-lhes a noticia que acabava de ler no «Figaro».</p>
+
+<p>&mdash;Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do «comité» realista, esse
+Ronquerolle ousa apresentar-se aqui! É um homem sem valor, escoria de Paris, um
+revolucionario, um escrevinhador. Conhecêmol-o creança a esse senhor! Usava uma
+blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam...</p>
+
+<p>&mdash;Não, disse o marquez, tornando-se sério, o pae Ronquerolle era pobre,
+mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos fieis
+eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e fui eu quem em
+tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem<span
+class="pn">{24}</span> recompensado! O creançola cresceu e é elle quem nos vae
+dar combate, meus senhores!</p>
+
+<p>&mdash;Mas não é um adversario sério, replicou o conde d'Orgefin; é uma
+creancice! Quem é o senhor Maximo Rouquerolle? Não existe. Os republicanos de
+Saint-Martin deviam pelo menos oppôr-nos um homem de valor e não um fedelho, um
+ninguem, um cidadão Ronquerolle!</p>
+
+<p>Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta
+scena, esperando ordens do seu senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes
+senhores sairemos hoje para fóra da cidade, para Sennevel... Ah! espera,
+Lapierre, leva o «Figaro» á senhora marqueza. O criado tomou o jornal e retirou
+depois de saudar o marquez.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre Maximo! murmurava por entre os dentes, atravessando um
+corredor, como estes tratantes te tratam! Está descançado, que eu te ajudarei
+com as minhas fôrças a destruir esta nobreza. E isto simplesmente porque
+outr'ora fômos camaradas na escola...</p>
+
+<p>Lapierre foi interrompido no seu monologo pela campainha electrica. Ao mesmo
+tempo, a marqueza atravessava a galeria que confinava com a escada d'honra do
+castello. Ia passear um pouco pelo jardim antes que a noite descesse
+completamente. O criado entregou-lhe o jornal. Apenas o abriu os seus olhos
+cairam sobre a nota relativa á eleição de Saint-Martin.</p>
+
+<p>Ao lêr o nome de Maximo Ronquerolle,<span class="pn">{25}</span> publicista,
+a marqueza empallideceu, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! seria elle? será possivel: Sim, sim, chama-se Maximo, como
+eu Maximiliana, recordo-me. É elle que vae chegar?</p>
+
+<p>A commoção da marqueza era tão forte, que as suas mãos finas se humedeceram,
+como se tivesse febre; em logar de ir passear, como tencionava, no jardim,
+voltou aos seus aposentos onde se deixou cair n'um «fauteuil».</p>
+
+<p>Passado um instante, levantou-se sem fazer ruido e offegante, como uma
+criminosa, temendo que qualquer dos seus criados a viesse surprehender, abriu
+uma pequena secretaria e tomou um cofre de que só ella possuia a chave, indo
+sentar-se junto da janella. A tarde tinha caido completamente. Um ultimo raio,
+como diz André Chenier, animava ainda o fim da tarde, mas as trevas do
+crepusculo invadiam toda a natureza. A marqueza affastou as cortinas da
+janella; á luz do ultimo raio de sol que desapparecia, pôde reler uma carta que
+estava no cofre e que tinha esta assignatura: «Maximo Ronquerolle.»</p>
+
+<p>Era uma carta d'amôr e d'amôr apaixonado. Os versos misturavam-se com a
+prosa e o signatario falava d'uma tarde, d'um baile parisiense onde tinha
+dançado com madame de la Tournelle...</p>
+
+<p>«Oh! porque vos vi eu? dizia a carta. Porque senti eu bater o vosso peito
+junto ao meu n'esse baile onde me levou o destino, esse Deus do mundo, segundo
+o pensamento de Schiller? Penso constantemente<span class="pn">{26}</span> em
+vós, é a saudade por vós que me alenta. Não vivo, não aspiro senão á vossa
+belleza».</p>
+
+<p>Depois, impellido pelo lyrismo da sua paixão, Ronquerolle, ia até á
+intimidade da marqueza, cantando a sua formosura hellenica em estrophes d'oiro.
+</p>
+
+<p>Os seus lindos olhos azues o seu porte altivo e distincto d'uma plastica
+impecavel, o seu amôr ardente, tudo alli cantava em arrobos d'amôr e
+d'enthusiasmo.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de «la Tournelle» teve um estremecimento ao lêr de novo
+esses versos. Com effeito, lembrava-se d'um rapaz com quem uma vez tinha
+dançado, havia quatro anos e que, no dia seguinte, ousara escrevêr-lhe,
+fazendo-lhe uma declaração d'amôr ardente... Porque guardara ella essa carta
+que a podia comprometter? Porque a não rasgara e lançára ao fogo como fizera a
+tantas outras produzidas pela sua belleza explendorosa? Porque tremia, ao lêr
+de novo uns versos, escriptos outr'ora por um desconhecido que perdêra de vista
+no grande mar da vida parisiense?</p>
+
+<p>Mysterios do coração que nem mesmo os grandes sabios descobrem.</p>
+
+<p>Enigmas do sentimento que zombam das investigações mais cuidadosas. Talvez,
+no fundo da sua alma, a bella Carlota sentisse uma alegria intima, e como que
+occulta, de ter inspirado uma paixão tão violenta e tão sincera como a que
+sentia Ronquerolle! Talvez que os versos do joven poeta, com o seu rythmo
+harmonioso, lhe recordassem o doce encanto d'uma valsa preferida! Talvez que a
+audacia de Ronquerolle lhe não<span class="pn">{27}</span> tivesse desagradado,
+e admirasse a sua temeridade corajosa, o enthusiasmo da sua juventude!</p>
+
+<p>A noite espalhava-se por toda a parte e ella ficara recostada no seu
+«fauteuil», com a luz apagada.</p>
+
+<p>A escuridão favorecia o seu sonho e, apertando entre as mãos a carta,
+murmurava, distraida, os versos de Ronquerolle.</p>
+
+<p>E era elle, esse terrivel democrata, cuja canditadura os jornaes anunciavam
+em opposição á de seu marido! Era elle que vinha á circumscripção de
+Saint-Martin arvorar a bandeira da Republica contra a nobreza contra a sua
+raça, contra a sua familia, contra ella mesma?</p>
+
+<p>Ia voltar a vêl-o e a fallar d'elle a cada momento!</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! Meu Deus! dizia, que singular aventura. Se meu marido
+soubesse! Mas porque estou eu assim perturbada? Quem é, afinal, esse sr.
+Ronquerolle?</p>
+
+<p>Guardou de novo e com cuidado a carta amorosa no cofre que fechou em
+seguida, e que foi encerrar n'um dos esconderijos mais occultos da secretaria.
+</p>
+
+<p>N'esta occasião, o marquez de «la Tournelle» voltava do logar de Senneval
+aonde tinha ido levar a nova da candidatura republicana a um amigo da sua
+familia. Acompanhavam-o conde d'Orgefin e os srs. de Trimolet e de Nipostte,
+pessoas da mais alta distinção na cidade e em todo o departamento.</p>
+
+<p>Os cavallos do marquez passavam estrepitosamente na calçada da rua principal
+de<span class="pn">{28}</span> Saint-Martin. Tinham já passado o theatro e o
+café da Bolsa. Um minuto mais e a carruagem estaria em frente da «Poule
+Blanche», o café dos vermelhos, dos assassinos dos «democs», como costumava
+dizer o marquez de la Tournelle.</p>
+
+<p>&mdash;Que ruido vem d'este lado! disse o sr. Trimolet, indicando a «Poule
+Blanche»; ouvem meus senhores? De quem é esta voz? Ha alli uma reunião?
+Escutem! Applaudem!</p>
+
+<p>O marquez deu ordem ao seu cocheiro para demorar o andamento e os cavallos
+começaram a andar a passo. A porta da «Poule Blanche» que dava para a rua
+estava completamente aberta. O café via-se cheio de gente, empregados de
+paletot, taberneiros de blusa, operarios em mangas de camisa e com o avental do
+trabalho. Sobre o bilhar viam-se muitos garotos. Em cima d'uma cadeira junto do
+espelho do fundo, um orador fallava. A sua voz sonora fazia tremer tudo e
+ouvia-se até da praça junto á fonte. A multidão escutava-o religiosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Queridos concidadãos, dizia o orador, accorri ao vosso appelo.
+Agradeço-vos o não vos terdes esquecido de mim. Trabalhadores, sou dos vossos!
+Republicanos, podeis contar commigo como eu conto comvosco!</p>
+
+<p>... De que tratamos nós? Tratamos apenas de dezenraizar d'esta cidade,
+d'este departamento, a arvore pôdre da reacção monarchica e clerical; trata-se
+de bater no proximo escrutinio legislativo, o senhor de «la Tournelle», esse
+marquez da<span class="pn">{29}</span> idade media perdido nos tempos
+modernos!... Pois bem! nós o alcançaremos, cidadãos!...</p>
+
+<p>Applausos freneticos acolheram estas palavras, ouvindo-se immensos gritos
+de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! Nunca a «Poule Blanche» tinha
+abrigado egual gritaria popular. N'esta occasião a carruagem do marquez, que
+caminhava a passo, chegava deante do café republicano.</p>
+
+<p>Aos gritos repetidos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! o
+candidato realista empallideceu de colera. Não havia que duvidar, os democratas
+de Saint-Martin apresentavam realmente um candidato para lhe fazerem opposição.
+</p>
+
+<p>&mdash;Cidadãos, continuava Ronquerolle enthusiasmado com os applausos,
+faremos tremer os de «la Tournelle» no seu castello feudal e
+desembaraçar-nos-emos do seu jugo. O povo, libertado pela Revolução, não quer
+nobres para o representar. É de cidadãos saidos das suas fileiras que deve fiar
+os seus destinos...</p>
+
+<p>Ronquerolle pronunciava estas palavras com uma voz estrondosa e o auditorio
+tremia d'enthusiasmo.</p>
+
+<p>&mdash;Como, dizia o conde d'Orgefin, é este tratante quem nos trata assim!
+E applaudem-no. Mas, meus senhores, é necessario desembaraçarmo-nos d'este
+canalha!</p>
+
+<p>A carruagem do marquez de «la Tournelle» transpunha a porta do castello e
+ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidadãos reunidos na «Poule
+Blanche» para festejar a chegada de Ronquerolle e<span class="pn">{30}</span>
+dos seus tres amigos Branche, Didier e Maupertuis.</p>
+
+<p>A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta, estava
+sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de Saint-Martin. Toda a
+população estava impressionada. Viam-se pelas portas as mulheres ou faziam
+grupos nas ruas; os homens tinham invadido todos os cafés na cidade e fallavam
+com animação da lucta eleitoral.</p>
+
+<p>Na «Poule Blanche» a multidão augmentava a cada instante. Os discursos
+tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impressões acêrca dos oradores
+que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de Ronquerolle.
+Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios d'espirito parisiense,
+tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois de Maupertuis, o presidente
+do «comité» republicano, Kolri, desenvolvêra um pequeno discurso cheio de bom
+senso e d'energia. Tinha posto o marquez de «la Tournelle» nas peores condições
+e os exaltados não fallavam já senão em ir cantar a «Marselhesa» debaixo das
+janellas do castello.</p>
+
+<p>Pouco a pouco, porém, a «Poule Blanche» ficou sem ninguem. A hora de fechar
+tinha chegado. Kolri, «o bravo Kolri» ficara com os parisienses,
+acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal.
+Organisou-se então, uma pequena sessão onde foi elaborado um plano de campanha.
+</p>
+
+<p>&mdash;Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que
+avisar-vos<span class="pn">{31}</span> de que vamos fundar um jornal. O
+primeiro numero sairá depois d'amanhã. Chamar-se-ha «Reveil de Saint-Martin».
+</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, será o suficiente para
+destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha muito
+faltava aqui! Ah! a imprensa! É a alavanca do progresso!...</p>
+
+<p>O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente á
+porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a scena do
+castello quando o marquez de «la Tournelle» lêra no «Figaro» a noticia da sua
+candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os termos humilhantes com que
+o conde d'Orgefin fallara a seu respeito.</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da
+«delicadeza» da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente uma
+resposta á mensagem d'esse canalha.</p>
+
+<p>Os clarões do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar
+perfeitamente calmo e a sua voz não traduzia emoção alguma extraordinaria.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e
+escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de nós! Guerra, guerra
+implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda antes de 89...
+antes de 93!</p>
+
+<p>Ao pronunciar esta data, Ronquerolle exaltou-se dando um valente murro sobre
+a mesa, o que atemorisou Lapierre.</p>
+
+<p>A meia noite approximava-se. Lapierre<span class="pn">{32}</span>
+retirou-se, promettendo a Ronquerolle trazêl-o ao corrente de tudo o que
+passasse no Castello.</p>
+
+<p>Kolri retirou, tambem, por sua vez.</p>
+
+<p>Tinha de convocar o comité republicano para o dia seguinte ás oito horas da
+noite e, sem perder um minuto, todos os cidadãos convictos deviam collocar-se
+nos seus postos. A primeira reunião publica effectuar-se-ia mesmo em
+Saint-Martin. O marquez seria convidado por elle a fim de defender as suas
+ideias e o seu programma. Outras reuniões seriam organisadas em todos os
+logares dos districtos do departamento.</p>
+
+<p>Os quatro amigos, quando se encontraram sós, riram extraordinariamente. A
+sua mocidade tinha necessidade de despertar; o imprevisto da situação encantava
+sobretudo Branche, Didier e Maupertuis.</p>
+
+<p>Ronquerolle, esse era mais grave, porque todos os ataques iam cair sobre o
+seu nome. Por outro lado a sua companheira, a Emilinha, preocupava-o. Deixara-a
+em Paris mas á partida tinha havido uma scena pungente.</p>
+
+<p>A pobre rapariga que não queria ficar só, queria por força acompanhal-o. Que
+lhe importava a politica? Ella não comprehendia cousa alguma da eleição a não
+ser que ia ficar separada do homem que amava, do homem que para ella
+representava tudo n'este mundo.<span class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION003000">III<br>
+<em>Trava-se a lucta</em></a></h1>
+
+<p>Ainda que fatigados pela viagem de Paris a Saint-Martin, pelos discursos e
+conversações enthusiasticas do «Poule Blanche» e se bem que era uma hora da
+madrugada, os quatro alegres rapazes não pensavam em deitar-se.</p>
+
+<p>Não obstante as graves preocupações da occasião os amigos de Ronquerolle
+conversavam da maneira como se tinham despedido das suas apaixonadas
+companheiras. Estavam ainda na edade feliz em que a bella despreoccupação da
+juventude cobre todas as cousas com a sua aza protectora; em que os dias e as
+noites não teem horas bastantes para pensar nos projectos do espirito e nos
+encantos do coração, nas confidencias d'amizade e nas caricias da alma.</p>
+
+<p>&mdash;Meus meninos, disse Branche, para terminar a conversa, é muito bonito
+fallarmos das nossas amantes, contar as suas phantasias, mas nós não viemos
+aqui para nos divertirmos.</p>
+
+<p>&mdash;Temos ainda trabalho a fazer, interrompeu Ronquerolle. Venham pennas,
+papel e tinta e appareça o que ha de melhor no nosso cerebro. O primeiro numero
+do<span class="pn">{34}</span> nosso jornal, o «Reveil de Saint-Martin», deve
+apparecer depois d'amanhã.</p>
+
+<p>É tempo de descrevermos a nossa chegada. Tu, Maupertuis, redige um curto
+artigo, descrevendo a recepção que nos foi feita, resume os nossos discursos e
+retrata bem o enthusiasmo da multidão. Tu, Didier, ridicularisa o marquez «de
+la Tournelle,» sê implacavel, calca-lhe sem piedade a sua vaidade... Tu,
+Branche, convida os eleitores a saccudirem o jugo da nobreza, critica as flôres
+de liz e proclama os direitos do homem!... Vamos; preparae essas pennas! Cravae
+os ferros até fazerem sangue! Fazei fustigar o chicote do ridiculo!...</p>
+
+<p>Os quatro jornalistas pozeram mãos á obra. Ronquerolle, esse encarregou-se
+de responder ás palavras injuriosas do conde d'Orgefin. Ás duas horas da manhã
+uma carta volumosa era lançada na caixa do correio por Branche dirigida á
+empresa do «Reveil», em Paris, visto que o impressor da localidade não ousava
+encarregar-se d'imprimir um jornal republicano, por causa do sr. marquez,
+«maire», conselheiro geral e deputado.</p>
+
+<p>Antes de se deitar Ronquerolle abriu a janella do seu quarto que ocupava só.
+A noite estava serena e bella. As estrellas brilhavam no céo, os perfumes das
+flôres espalhavam no ar, uma frescura deliciosa vinha da terra e um silencio
+profundo reinava pela cidade adormecida. Á claridade discreta da lua
+Ronquerolle via a praça de Saint-Martin e a fonte decorativa. Só o murmurio da
+agua, caindo, perturbava o silencio da noite, ouvindo-se de vez em quando<span
+class="pn">{35}</span> o vento silvar por entre as folhas das arvores, nos
+telhados visinhos da egreja e nos ulmeiros dos ribeiros.</p>
+
+<p>Perante este espectaculo de paz, n'esta noite de junho tão harmoniosa e tão
+encantadora, o homem politico desapparecia em Ronquerolle e não ficava mais do
+que o poeta seduzido pelas bellezas da natureza immortal. O mancebo não se
+cançava de sentir a brisa refrescar-lhe a fronte, de admirar esse espectaculo
+nocturno, vivo, que lhe recordava as scenas de opera onde vivessem amôres,
+subindo, de noite, á janella da bem amada a depôr um beijo.</p>
+
+<p>Levado pela sua poderosa e febril imaginação o ousado filho da Borgonha
+deixava-se guiar pelos pensamentos do amôr e versos ardentes lhe occorriam á
+memoria.</p>
+
+<p>Ronquerolle contemplava a egreja de Saint-Martin. Uma fachada estava toda
+illuminada pelo luar emquanto que a opposta mergulhava na sombra. O seu olhar
+ficou preso ao portico junto do qual em creança tantas vezes tinha brincado com
+os seus pequenos camaradas e revia-se correndo em volta da «mairie» nos muros
+cobertos de cartazes e em frente do mercado fechado por uma grade de ferro. Os
+seus olhos de repente fixaram-se sobre a collina que dominava a villa,
+reconhecendo a torre feudal, o velho castello dos «de la Tournelle». Pensou um
+momento no seu adversario, do que o distraiu uma luz que se via n'um dos lados
+do castello.</p>
+
+<p>&mdash;Quem velará a esta hora na habitação do marquez? pensou Ronquerolle.
+Será o meu inimigo a quem a minha presença impede<span class="pn">{36}</span>
+de descançar? Será alguem doente a quem a febre e a insomnia impedem de dormir?
+Será alguma linda mulher que lê, com a cabeça repousando no travesseiro, um
+romance de Balzac ou um poema de Alfredo de Musset? Será uma mulher
+linda?&mdash;Fazendo a si mesmo esta pergunta Ronquerolle bateu na fronte como
+que recordando-se. Lembrava-se que outr'ora em Paris, fôra apresentado n'uma
+tarde, a uma mulher soberba que se chamava marqueza «de la Tournelle» com quem
+tinha dançado e a quem chegára mesmo a escrever uma carta apaixonada.
+Acontecera isto ha trez ou quatro annos, não sabia ao certo, mas recordava-se
+claramente d'essa tarde, do baile e da sua carta insensata. Quanto á mulher não
+se esquecera que era loira, que tinha uns seios opulentos, olhos azues e,
+quando caminhava uns ares de deusa.</p>
+
+<p>Os acontecimentos da vida parisiense são tão accidentados e tantos, as
+sensações succedem-se tão rapidamente, as paixões são postas tantas vezes em
+jogo, sobre tudo para um mancebo que faz os seus inicios na vida e na
+sociedade, que não é para admirar o ver Maximo Ronquerolle recordar, por acaso,
+uma das suas aventuras, que, depois de tanto tempo, encontrava perdida na sua
+memoria.</p>
+
+<p>Essa luz, que brilhava na escuridão da noite em uma janella do castello do
+seu inimigo vinha lançar um clarão na sua memoria obscurecida e, occorrendo não
+sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou que a pessoa que
+trabalhava lá em cima, na habitação luxuosa do marquez<span
+class="pn">{37}</span> «de la Tournelle», era a linda e elegante mulher que em
+tempo lhe perturbara a cabeça e o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não! murmurou Ronquerolle. Não é possivel! Estas cousas só
+acontecem nos romances e não na vida real!... No emtanto, essa loira divina
+d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza «de la Tournelle».
+Revejo-a ainda na occasião em que dançava commigo e encostava o seu peito
+desolado contra o meu... Pouco a pouco as recordações reviviam. Tornara-se
+nervoso, o seu coração batera fortemente, querendo esclarecer a duvida em que
+se debatia. Os «de la Tournelle» eram numerosos. Havia-os no Norte, no
+Meio-dia, na Borgonha. Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle
+conhecera outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! disse fechando a janella, são horas de dormir. Sei bem a quem
+hei-de recorrer, interrogarei Lapierre.</p>
+
+<p>Quando adormeceu, a aurora começava a apparecer. O seu ultimo pensamento
+fôra de que seria bem extraordinario que ao marquez «de la Tournelle» alem da
+cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher.</p>
+
+<p>Ronquerolle não se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava no
+castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina Carlota. Não
+lia, porém, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O seu espirito estava
+demasiado agitado para se entreter com os doces e consoladores devaneios
+litterarios. Trabalhava<span class="pn">{38}</span> pelo triumpho da sua causa,
+escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu jornal, um
+artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma maneira encantadora e
+em que fustigava o cidadão Ronquerolle com toda a malicia e crueldade d'uma
+mulher. Tambem ella espetava as esporas até fazerem sangue.</p>
+
+<p>O marquez «de la Tournelle», dissemol-o já, tinha um jornal o «Echo de la
+Bourgogne», velha folha monarchica, assignada por todos os curas da
+circunscripção de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza não se
+dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um elegante
+artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido realista e em que
+zombava dos democratas.</p>
+
+<p>Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia, quem
+fosse o seu auctor.</p>
+
+<p>Quando o marquez entrou na sua habitação, após o passeio a Semeval, contou
+toda a scena de que fôra testemunha em frente ao «Poule Blanche».</p>
+
+<p>&mdash;Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos dão-vos o
+exemplo; trabalham, estão no seu direito e teem razão. Vivemos n'um tempo em
+que é necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raça, do nascimento não é
+mais do que uma lembrança longinqua. É necessario trabalhar-se, é necessario
+descer á arena para se vencer. O poder, o futuro não pertence senão aos homens
+d'acção.</p>
+
+<p>O marquez «de la Tournelle» achou este<span class="pn">{39}</span> discurso
+de sua mulher um pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objecção. Convinha
+voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por intermedio
+dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe n'uma reunião publica,
+expôr-se a ser interrompido, a ter diante de si por adversario de tribuna um
+atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de trovão, e que saido do povo, lhe
+conhecia as emoções e as coleras, ser um homem d'acção, n'uma palavra, no
+sentido em que o entendia a marqueza; todo este papel, toda esta tarefa não se
+apresentava ao espirito do castellão de Saint-Martin sob uma perspectiva muito
+attrahente.</p>
+
+<p>Depois que fôra eleito deputado, não fallara uma só vez na camara.
+Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco,
+limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda tomava
+a palavra. Quando, porém, nas galerias reservadas ao publico appareciam algumas
+elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus sorrisos como nos
+camarotes d'um theatro, não se esquecia nunca de as requestar, lançando
+amiudadamente o seu monoculo.</p>
+
+<p>O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do
+Parlamento.</p>
+
+<p>Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por não possuir mais que a
+apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarçar sob uma fraqueza
+fingida as alegrias intimas do mando.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que se eu fosse homem! disse a<span class="pn">{40}</span>
+marqueza, ao concluir o seu artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com
+despeito a penna; ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel, imaginando a
+maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe traiçoeiro, a marqueza
+deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito Luiz XV, coberto com um
+baldaquino que amôres gorduchos seguravam.</p>
+
+<p>Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de
+Ronquerolle.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir
+d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre o
+castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche» onde estavam
+hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se apostas. Agitaram-se
+todas as paixões em Saint-Martin.</p>
+
+<p>As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se
+mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um bonito
+rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não organizava uma
+conferencia publica no theatro, um domingo, depois do meio-dia? Ellas iriam lá.
+E depois, não era só isso. Tinham simpathisado com os «tres parisienses». Eram
+d'este modo que designavam Maupertuis, Branche e Didier. Estes cavalheiros
+diziam ellas, teem muito espirito; conhecem a alta vida de Paris. Porque
+se<span class="pn">{41}</span> não convidam? É necessario deixal-os abandonados
+na «Poule Blanche?»</p>
+
+<p>Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho,
+appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle. Principiava
+por uma apologia vigorosa do regimen republicano, seguindo-se-lhe um pequeno
+artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin».</p>
+
+<p>N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando as
+injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a redacção
+do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado como um tolo e
+convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo na quinta feira, 28
+de junho á reunião publica que se ha de effectuar em Saint-Martin. Por sua vez,
+reservamos uma queda honrosa para o nosso elegante adversario, o marquez «de la
+Tournelle», cujo papel na camara tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores
+julgarão depois de ter escutado os dois concorrentes».</p>
+
+<p>O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava esta
+bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da marqueza,
+brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix». Ronquerolle era ali
+martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com habilidade o seu talento
+d'escriptor, os inicios da sua carreira litteraria, considerando-o apenas como
+um estudante.</p>
+
+<p>«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos dignos
+de censura se o fizessemos chorar e tomar a<span class="pn">{42}</span> serio
+os seus brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de
+Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje perdoam-lhe
+os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão. Em todo o caso
+seria bom que lhe impozessem silencio».</p>
+
+<p>Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca se
+alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o. Separou o
+estylo e as ideias como homem de «metier».</p>
+
+<p>&mdash;Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o
+medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e fraqueza Ah!
+bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei quem tu és!</p>
+
+<p>No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica
+annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde d'Orgefin
+acceitassem o desafio dos republicanos.</p>
+
+<p>O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os
+republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era por
+outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era necessario
+operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação encolerizou-se
+extraordinariamente.</p>
+
+<p>&mdash;Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas
+desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a
+Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides. Ainda uma
+vez lembrai-vos da<span class="pn">{43}</span> minha advertencia, dizei adeus á
+eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias!</p>
+
+<p>A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as simpathias
+iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido conquistada por
+Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno commercio e a burguezia,
+indifferentes até então, davam coragem ao candidato republicano. Na sua colera
+a marqueza agarrava-se a seu marido sem piedade, e perguntava a si mesma porque
+casara com esse homem, só bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée».
+</p>
+
+<p>&mdash;Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu
+fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem da
+mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o ataquei com
+colera! eu que tentei envergonhal-o!</p>
+
+<p>É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome
+d'adversarios. M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á
+phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!</p>
+
+<p>Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se sempre
+attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente na vida, podem
+ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais diversas, que se
+assemelham sempre pela honestidade superior da conducta, pelo respeito do que é
+verdadeiramente grande e bello e pelo desprezo soberano<span
+class="pn">{44}</span> de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e baixo.
+</p>
+
+<p>Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem nunca
+terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual, nas suas
+acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque só ellas se podem
+comprehender. É isto que explica muitas vezes o segredo d'essas melancholias
+profundas que absorvem o pensamento completamente, d'esses sentimentos, d'essas
+ligações, d'esses amôres que o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que
+um observador de paixões considera naturaes e fataes.</p>
+
+<p>A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o
+republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era novo,
+porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho das suas
+obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga. Tudo entretanto os
+separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna, as relações e a sociedade
+em que viviam; mas á lei mysteriosa que preside aos sentimentos humanos, agrada
+vencer os obstaculos e acaba sempre por ligar os que se procuram, os que sentem
+a necessidade de se amarem.</p>
+
+<p>A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a
+vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando bater
+para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão. Agitada,
+contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu<span
+class="pn">{45}</span> marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do
+campo, de descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos
+bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo galope
+rapido dos seus cavallos.</p>
+
+<p>O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares de
+Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O rio,
+parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado opposto uma
+cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo tocar o ceu azul. Os
+«Passeios» são formados por tres avenidas magnificas, com castanheiros e tilias
+centenarias. No fundo da avenida central levanta-se uma estatua em marmore,
+datada do XVIII seculo e representando Cybele. Alguns metros distante corre uma
+fonte rustica mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.</p>
+
+<p>É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a ambição.
+Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso, abandonado durante a
+revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As pedras amontoaram-se, as
+silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas invadiram-as, mas as arvores
+resistiram á acção do tempo.</p>
+
+<p>A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de
+quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás ruinas do
+castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas suas economias.
+</p>
+
+<p>Aos domingos, durante o verão os «Passeios»<span class="pn">{46}</span> eram
+muito frequentados. Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes
+davam alli «rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara
+de marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario, era
+um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de
+Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.</p>
+
+<p>A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das suas
+margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe sentir um
+encanto mysterioso.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! como isto é bello! murmurava.</p>
+
+<p>Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello
+carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um barco
+preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou sentar-se
+alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma palavra, toda a
+sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em presença d'essas florestas
+voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa verdura que a sombra torna mais
+attrahente.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio
+da grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as
+tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar o
+frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem para
+regressar a Saint-Martin.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada contra
+seu marido.</p>
+
+<p>Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo
+exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava arrogantemente,
+levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando para diante com uma
+elegante arrogancia.</p>
+
+<p>Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova e
+bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias, no meio
+do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que de costume. A
+solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza fazia murmurar
+docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel voluptuosidade.</p>
+
+<p>Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco um
+homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços cruzados
+sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma meditação de tal modo
+que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem dera pela sua presença. Tinha a
+cabeça um pouco inclinada sobre o hombro e poder-se-hia acreditar que dormitava
+se não fosse o seu olhar vivo e expressivo.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais
+longe. Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava
+só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou, portanto;
+mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a sombrinha<span
+class="pn">{48}</span> o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou
+saudando-a.</p>
+
+<p>Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos, para
+meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do seu futuro,
+sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á superficie e nos põem em
+evidencia como nos deixam na sombra e nos lançam no nada.</p>
+
+<p>Quando reconheceu M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» sonhava com a poesia da
+natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das solidões
+e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás agitações da vida
+publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma existencia pacifica em
+qualquer humilde habitação do seu paiz natal.</p>
+
+<p>Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava
+junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura que a
+sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos loiros nunca os
+esquecera!</p>
+
+<p>&mdash;A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me
+deseja?</p>
+
+<p>Ao dizer isto, M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a
+carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a folhagem do
+arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza temia ser vista
+pelos seus criados<span class="pn">{49}</span> que acreditariam facilmente n'um
+«rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o
+desconhecido que lhe dirigira a palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou
+para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho a
+confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!</p>
+
+<p>&mdash;Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso
+inimigo!</p>
+
+<p>&mdash;O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como
+já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis immovel
+debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados perceberão que não
+estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa, onde ninguem nos poderá ver
+e vos direi todo o meu pensamento.</p>
+
+<p>A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e
+tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de todas as
+vistas.</p>
+
+<p>&mdash;Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a
+perder-me por vós.</p>
+
+<p>Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco, contemplava-a e
+sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella mulher. Não via n'ella a
+marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata que desejava a volta da realesa e
+que sonhava uma côrte brilhante em que triumphasse; não, ella não era para
+elle, n'essa hora, mais do que a incarnação da elegancia,<span
+class="pn">{50}</span> da juventude, da vida, do amôr, da paixão incandescente,
+que queima, que devóra.</p>
+
+<p>Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o homem
+que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os infelizes que
+se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis e os imperadores.
+Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do pobre contra os rico, do
+humilde contra o poderoso, do opprimido contra o oppressor. O que n'elle via
+era o talento promettedor, o enthusiasmo da sua linda edade, a coragem do homem
+que luta, a poesia do ideal e da acção, o encanto emfim d'um espirito superior
+e d'um coração preso ao destino.</p>
+
+<p>Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções
+imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a natureza
+boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si mesma, tem a sua
+eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem singularmente as
+distancias.</p>
+
+<p>&mdash;Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei
+para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha energia e
+não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que viveis na minha
+saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde vos tive junto do meu
+peito!... Recordai-vos...</p>
+
+<p>&mdash;Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o
+apologista do Terror!<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia,
+paternal e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a
+occultava.</p>
+
+<p>Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O seu
+busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.</p>
+
+<p>&mdash;Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia
+lagrimas. Se vos amo!</p>
+
+<p>Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia desejos de
+tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e pensava: como
+convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua nobre intelligencia;
+era a arma mais digna para conquistar uma mulher como aquella.</p>
+
+<p>&mdash;Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a
+este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha paixão
+as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas questões, para
+almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se encontram os grandes
+corações n'esta esphera superior onde veem acabar as disputas dos homens? Vêde!
+tenho um orgulho que por vezes me arrasta e que resistencia alguma fará
+dobrar... appareceis-me, e estou prompto a cair de joelhos deante de vós. Está
+domado o meu orgulho? Certamente não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos
+e parece-me que lá nos amaremos.</p>
+
+<p>... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal a
+que aspira a vossa alma não tem nada de<span class="pn">{52}</span> commum com
+as infamias, com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e
+dos partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade?</p>
+
+<p>Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza.
+Appoiava-se, como ella, á velha tilia e esperava resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias
+parecem-se ás flôres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o
+respiram.</p>
+
+<p>&mdash;Não me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada.</p>
+
+<p>&mdash;Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo.</p>
+
+<p>Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mão que uma luva finissima
+calçava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz escapar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos
+voltarei a ver?</p>
+
+<p>A marqueza hesitou, sentia-se embaraçada para responder. N'este momento os
+cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente fugiu a
+Ronquerolle, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui, d'hoje a tres dias, ás dez horas da noite.</p>
+
+<p>Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o
+«frou-frou» harmonioso de toda a sua «toilette», custava-lhe a acreditar na sua
+felicidade.</p>
+
+<p>Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario fechava,
+quando viu a carruagem desapparecer a caminho<span class="pn">{53}</span> de
+Saint-Martin entre uma nuvem de pó, pareceu-lhe que a terra girava por todos os
+lados e que o ceu ia sair-lhe do peito.</p>
+
+<p>Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis arrastavam.
+Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho, voltou a sentar-se sobre
+o banco solitario em que M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» o tinha
+surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas doces illusões.</p>
+
+<p>&mdash;Dentro em tres dias voltarei a vêl-a; dentro em tres dias será minha.
+Ó delicia! Ó felicidade inesperada! E já antecipadamente, escutava os
+transportes da sua paixão, a alegria dos novos amôres. De repente bateu na
+testa e empallideceu.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, d'aqui a tres dias, á noite, ha uma reunião eleitoral em
+Saint-Martin. Não posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os
+eleitores... Que fazer?</p>
+
+<p>Ronquerolle acreditou por momentos que M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» lhe
+tivesse pregado uma peça. Ella conhecia a data e a hora da reunião publica já
+publicadas no «Reveil». Quereria ella d'esta fórma pôr á prova o amôr de
+Ronquerolle, forçando-o a sacrificar a sua palavra de homem politico? Quereria
+ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar destruir a sua influencia em
+proveito da sua causa? Emfim, terá fallado sem calculo algum e o «rendez-vous»
+que lhe marcou, na sua coindencia com a reunião de Saint-Martin, não passaria
+d'um acaso que por vezes tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna
+um obstaculo ás vontades do homem?</p>
+
+<p>Ronquerolle não sabia que pensar.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION004000">IV<br>
+<em>O barão de Quérelles</em></a></h1>
+
+<p>Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão de
+Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da marqueza por
+causa do despreso a que ella votara a sua paixão.</p>
+
+<p>Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á
+escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe enchia o
+cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente até conseguir o
+seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o poderia conseguir.</p>
+
+<p>Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão
+louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.<sup>elle</sup>
+Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes, o seu
+maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e inteligente mulher
+por esposa.</p>
+
+<p>A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava
+em conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão baixo
+que se torna ridiculo.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um
+contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os homens não
+se mediam aos palmos.</p>
+
+<p>Infelizmente para elle, M.<sup>elle</sup> de Champeautey não se via obrigada
+a debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la
+Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A repugnancia
+d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica personagem que era
+«Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do marquez.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.<sup>elle</sup> de Champeautey
+quer desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.</p>
+
+<p>O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu
+departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos.
+Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para Saint-Martin
+onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des Quérelles» tinham
+sido até então conservadoras se bem que com uma certa tendencia liberal. A côr
+de conservador era uma tradicção na sua casa de fidalgo, mas o seu espirito,
+moderno e liberal, não desdenhava em admittir as modernas theorias
+democraticas.</p>
+
+<p>Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se fazia,
+reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer dos
+republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se desprezava em comer
+á mesa dos<span class="pn">{56}</span> operarios quando para isso se
+offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.</p>
+
+<p>Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os
+seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e deputado.
+</p>
+
+<p>&mdash;É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um
+estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em como
+não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito de
+ortographia é um ignorante.</p>
+
+<p>A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr proprio
+e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira de se vingar
+d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha acalentado durante
+tantos annos.</p>
+
+<p>&mdash;Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que
+eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos que vão
+ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao novo deputado
+Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa isso. É necessario a
+todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la Tournelle» perca a
+eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! sr.ª marqueza,
+despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta vez virá implorar a
+paz e então entabolaremos as condicções.</p>
+
+<p>Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, ainda,
+á<span class="pn">{57}</span> sua ultima esperança em commover o coração da
+mulher que elle tão extraordinariamente amara.</p>
+
+<p>Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda a
+esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez podesse um dia
+fazer d'ella sua amante.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe
+dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após o seu
+casamento com esse estupido marquez.</p>
+
+<p>Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se sobre os
+elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos.
+Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias em
+campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha treguas na
+lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será finalmente o
+resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus desejos. Quanto aos
+candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o caso como entenderem. Se
+porém ainda assim a marqueza continuar a mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o
+novo deputado por Saint-Martin.</p>
+
+<p>Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos
+eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo n'uma pia
+d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os operarios, pagava-lhes
+de beber, comia com<span class="pn">{58}</span> elles, acabando sempre as suas
+conversas pela politica.</p>
+
+<p>Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão advogava
+a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. O conde
+d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que se devia tomar
+uma medida energica, e em plena reunião de todos os marechaes do partido
+reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no castello do marquez «de la
+Tournelle», a reunião dos oitenta a cem proprietarios influentes da
+circunscripção; coroaria a reunião um grande banquete.</p>
+
+<p>&mdash;Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o
+conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a população
+contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as tradições da sua
+familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, se o barão fôr contra
+nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo muitissimos votos.</p>
+
+<p>&mdash;É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des
+Quérelles» é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a
+frente commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis
+por que elle nos odeia a este ponto?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar
+a marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do coração da
+marqueza, calcando assim os seus caprichos.<span class="pn">{59}</span>
+Tratemos, antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á
+margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.</p>
+
+<p>Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu procedimento
+e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de gosar deliciosamente os
+golpes que desapiedadamente despedia sobre os seus adversarios.</p>
+
+<p>Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus
+cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas mais
+avançados.</p>
+
+<p>N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem,
+encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano,
+disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:</p>
+
+<p>&mdash;Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o
+favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de Paris, que
+lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica na quinta-feira á
+tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos homens intelligentes e
+nada de deputados sem valor!</p>
+
+<p>O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um
+influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil
+eleitores.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando
+bebia cognac em companhia dos seus amigos.</p>
+
+<p>No fundo da sua consciencia pensava:</p>
+
+<p>&mdash;Serei o senhor da soberba Carlota que<span class="pn">{60}</span> sem
+duvida capitulará por ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem
+despresado!</p>
+
+<p>Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua
+reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des
+Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao serviço
+das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle, Branche, Didier e
+Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes, arrojados para as mulheres,
+como todos os jornalistas, produziam estragos terriveis nos corações das
+burguezinhas de Saint-Martin.</p>
+
+<p>Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena
+«soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade, que não
+temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso, possuia uma bella
+fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant» amando os prazeres da
+mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente fornecida. Recordava muito as
+suas travessuras de rapaz no tempo em que vivera na capital. Havia muito tempo
+que isto accontecera, ha pouco mais ou menos vinte annos. Que praser sentiria,
+ao receber em sua casa os quatro parisienses com os quaes conversaria dos
+tempos passados e das suas loucas amantes.</p>
+
+<p>Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua entrada
+no salão de M.<sup>me</sup> Desbroutin, uma senhora loira, pequena e nutrida,
+muito amavel, muito<span class="pn">{61}</span> simples e muito mais nova que
+seu marido.</p>
+
+<p>&mdash;Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está
+preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes d'uma hora
+tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.</p>
+
+<p>Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de
+Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não podiam
+por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os continuassem
+a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.</p>
+
+<p>As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por todos
+os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a quem uma
+pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para ser servido o
+chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o gabinete de trabalho do
+notario, que se seguia ao salão e onde fumando, se entretinham a fallar das
+eleições.</p>
+
+<p>Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto das
+mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris e como ella
+era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem d'isso, Branche
+testemunhava uma sympathia particular a M.<sup>me</sup> Desbroutin, emquanto
+que Didier fazia evidentemente a côrte a M.<sup>me</sup> Beaumenard, a mulher
+do banqueiro Beaumenard. Esta<span class="pn">{62}</span> tinha um espirito
+romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser heroina
+ideal das mais ternas aventuras.</p>
+
+<p>&mdash;A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um
+deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o quanto tenho
+soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde faço carreira e que
+me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem mais infeliz da terra.</p>
+
+<p>A graciosa M.<sup>me</sup> Beaumenard estava encantada com esta linguagem.
+Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas apaixonadas
+que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu lado, tinha levado
+a linda mulher do notario até ao precipicio encantador mas perigoso das
+confidencias amorosas.</p>
+
+<p>Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin tinha-o
+convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e viera com o fim
+d'excitar os espiritos contra o marquez «de la Tournelle». Pretendia ao mesmo
+tempo conhecer de perto e assegurar-se por si proprio se o joven deputado
+republicano era realmente o homem intelligente de que lhe tinham fallado. A
+presença do barão interrompeu por momentos a interessante conversação de
+Branche com M.<sup>me</sup> Desbroutin. Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem
+dos convidados e a curiosidade que se fizera em volta do barão, para apertar
+docemente a mão de M.<sup>me</sup> Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas
+sem muito esforço.</p>
+
+<p>Ronquerolle entrou finalmente no salão.<span class="pn">{63}</span>
+Apresentou as desculpas da sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin
+apresentou-o ao barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante.
+A pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo o
+mundo o invejaria.</p>
+
+<p>Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo
+desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa
+republicana.</p>
+
+<p>&mdash;Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que
+desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario?
+Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um mobil
+occulto. Qual será? </p>
+
+<p>E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á
+cabeça.</p>
+
+<p>Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle; abordou
+successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia confiar n'elle.
+</p>
+
+<p>Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões
+politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des
+Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato:</p>
+
+<p>&mdash;Conheceis a marqueza «de la Tournelle?»</p>
+
+<p>Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um
+instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio,
+respondeu com uma soberana indifferença.</p>
+
+<p>&mdash;A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda
+a gente,<span class="pn">{64}</span> e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu
+tempo para me occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus
+eleitores e procurando bater o meu adversario.</p>
+
+<p>O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a historia
+da sua paixão por M.<sup>elle</sup> de Champeautey. Não receava tomal-o para
+seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo castello «de la
+Tournelle».</p>
+
+<p>A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle.
+Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a minha
+loucura pela loura e adoravel Carlota?</p>
+
+<p>Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim?</p>
+
+<p>Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia
+seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram
+discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e a
+malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e algumas
+más linguas começaram a insinuar que a gentil M.<sup>me</sup> Desbroutin não
+era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu marido.<span
+class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION005000">V<br>
+<em>Os infortunios do marquez</em></a></h1>
+
+<p>A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas á
+ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa reunião veiu
+avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do soalho e que seria,
+a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao preço estabelecido, porque
+um particular tinha pedido cincoenta francos pelo aluguer.</p>
+
+<p>A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram ter
+com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha, no
+primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e quinhentas a
+duas mil pessoas.</p>
+
+<p>Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os seus
+amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de signal pelo
+aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia um copo de cognac.
+</p>
+
+<p>&mdash;Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o
+seu o copo de Ronquerolle.</p>
+
+<p>Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez
+francos do signal.<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>&mdash;Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a
+vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor Baliverne,
+tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes do logar veem
+bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso, descalçarem-se no
+vestibulo, afim de dançarem descalços para não prejudicar a solidez das vossas
+salas?! Basta de gracejos, senhor Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e
+ha dias comemos juntos, por isso é preciso fallarmos com toda a franqueza.
+Vamos, dizei-nos qual a verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a
+sala que já nos havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe,
+deixae em paz o vosso soalho.</p>
+
+<p>Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que
+responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a
+verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a sala?
+Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, como necessitaes
+da sua auctorisação para conservardes o vosso baile aberto até ás 5 horas da
+manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora avante vos recusará essa
+licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa aos meus eleitores!</p>
+
+<p>Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o escutava,
+respondeu a Ronquerolle:</p>
+
+<p>&mdash;Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me,<span class="pn">{67}</span>
+eu sou um homem energico mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo
+obrigado a agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós.
+Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire que me
+fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião se realisasse
+em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me recusasse licença para os
+meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o sustento, privava os rapazes de se
+divertirem.</p>
+
+<p>Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois do
+que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de Baliverne e
+encerrou-se no seu quarto.</p>
+
+<p>N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a reunião
+devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.<sup>me</sup> de la
+Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.</p>
+
+<p>Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que julgava
+não poder assistir, tornava-se agora possivel.</p>
+
+<p>Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a bella,
+a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o como rival,
+temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que fallasse em publico e que
+conquistasse a popularidade que lhe dava a sua eloquencia. O infeliz! Impedindo
+Ronquerolle de n'essa noite subir á tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era
+elle mesmo o causador da sua infelicidade.<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&mdash;Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a
+marqueza n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».</p>
+
+<p>A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais
+tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel «maire»
+de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo tempo que as lindas
+raparigas da cidade se divertissem com os seus namorados, mas que pouco
+importava a sua ridicula e idiota firmeza pois que breve teria de se recolher
+ao seu castello socegadamente a tratar da sua vida particular.</p>
+
+<p>Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la
+Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente a sua
+«toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, pegou no
+chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e as botas mais
+elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.</p>
+
+<p>Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara,
+recordando as tempestades da sua juventude.</p>
+
+<p>O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o
+arvoredo.</p>
+
+<p>Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e o
+canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma
+indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e descia
+dos céus.</p>
+
+<p>&mdash;Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto
+que ella<span class="pn">{69}</span> venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto
+que se aproxima! E poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto
+de mim? Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os
+meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu idolo?
+</p>
+
+<p>O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua
+impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma
+herdade, parou.</p>
+
+<p>&mdash;Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos?
+Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda
+passando na areia da avenida?</p>
+
+<p>E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite, mas
+não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se passou, hora
+d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez não tivesse podido
+deixar o castello, e que tivessem surgido difficuldades imprevistas que a
+impedissem de cumprir a sua palavra. Resolveu esperar toda a noite. Nuvens
+pesadas pairavam no céu, occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão
+da noite tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma
+da tarde.</p>
+
+<p>D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão, Ronquerolle
+espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a impacientemente,
+queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da meia-noite, uma fórma occulta e
+mobil appareceu lá no fundo d'um caminho orlado de macieiras.<span
+class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios».</p>
+
+<p>&mdash;Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha
+emfim! </p>
+
+<p>O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz d'uma
+sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, murmurou
+docemente:</p>
+
+<p>&mdash;Sois vós, minha querida?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?</p>
+
+<p>Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto com um
+espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se tranquilisada com a
+presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, abandonando-se-lhe. Ronquerolle
+tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar,
+arrastando-a quasi.</p>
+
+<p>&mdash;Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.</p>
+
+<p>&mdash;Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós
+imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me amaes
+verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!</p>
+
+<p>Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia
+destruir. «M.<sup>me</sup> de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se
+sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com
+attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.</p>
+
+<p>Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos
+romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca<span class="pn">{71}</span>
+Ronquerolle, pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão
+ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão favoravel
+se lhe offerecera.</p>
+
+<p>Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as
+horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento acalmara-se
+e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.</p>
+
+<p>Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e
+contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, admirava-o
+intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia ao pensar na
+aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção commovente do
+remorso e da felicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso,
+sem restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A
+fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos amemos.
+Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem conhecerá a lei que
+preside ás preferencias do coração humano? Quem nos explicará como é que nos
+achamos aqui reunidos na calma d'esta noite linda, devorados pelo fogo da
+paixão, decididos a tudo vencer antes do que deixarmos de nos amar, de que nos
+separarmos?... Oh! como sois bella! E como vos amo!</p>
+
+<p>E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto
+sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se<span
+class="pn">{72}</span> decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que
+era digno da sua ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na
+minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a
+marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um dia me
+mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes que talvez
+tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa lembrança? Porque
+foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se me gravou na memoria?
+Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas e de vos amar?...</p>
+
+<p>«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas
+altas espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus
+pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se comprehendiam, e
+que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza d'outro, que por mais alto
+que fosse o amante mais alto iria a mulher amada.</p>
+
+<p>Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições humanas
+se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo dinheiro, pela
+vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso pouco tempo duram e
+se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.</p>
+
+<p>Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as
+barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, dois
+entes se atraem,<span class="pn">{73}</span> se encontram e se amam, este amôr
+profundo, é tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida
+d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo o
+destruirá.</p>
+
+<p>Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza e o
+republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e intelligencia
+e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a existencia de
+«M.<sup>me</sup> de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que elle a
+amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É a planta que
+se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.</p>
+
+<p>Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica
+marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, separa
+as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja d'outros, desapparecia
+aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se entretinha a approximar e a
+unir n'um beijo.</p>
+
+<p>Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada
+«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.</p>
+
+<p>Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura
+adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um homem
+que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.</p>
+
+<p>O mesmo acontecia a Ronquerolle.</p>
+
+<p>Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada
+tinha,<span class="pn">{74}</span> n'este momento, do vingador dos soffrimentos
+populares. Todo entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava
+d'amôr, a sua juventude brilhava, não vendo em «M.<sup>me</sup> de la
+Tournelle» mais do que a formosa personalidade da belleza e da vida.</p>
+
+<p>Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais
+desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e se
+adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno!</p>
+
+<p>&mdash;Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza.</p>
+
+<p>&mdash;E eu, respondia ella, amo-te até morrer!</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se devia
+realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha sido
+convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna politica do
+sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado o senhor bispo de
+Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de Saint-Martin. Não se tinham
+esquecido dos grandes industriaes da circunscripção, que dirigiam numerosos
+operarios e que convinha prender por qualquer delicadeza.</p>
+
+<p>Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam
+chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda a
+nobreza.</p>
+
+<p>Mancebos em «breaks» de caça, sorriam ás condessas, viscondessas, baronezas
+e ás<span class="pn">{75}</span> velhas donas de castellos que vinham cooperar
+na manifestação contra a Republica.</p>
+
+<p>Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin, transpunham
+a pé o portão do castello, e, ás onze horas e meia, o grande salão estava
+completamente cheio. Não se esperava mais que o sr. bispo de Dijon que tinha
+promettido vir e que, como se sabia, se encontrava justamente nas visinhanças
+do castello n'uma viagem pastoral.</p>
+
+<p>Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os
+lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo vinha
+acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario particular. A
+carruagem parou em frente do perystilo do castello e, sorrindo, de bom humor, o
+prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas de admiradores, de mulheres
+elegantes e de lindos rapazes, levando, quasi todos, nas suas gravatas em forma
+d'alfinete uma flôr de liz.</p>
+
+<p>O marquez «de la Tournelle» adiantou-se para receber o principe da egreja,
+dando-lhe as boas vindas.</p>
+
+<p>O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude da
+marqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse o marquez, é o unico contratempo que temos em tão bello
+dia. A marqueza está um pouco adoentada e não poderá assistir ao banquete de
+que tenho a honra de vos offerecer a presidencia.</p>
+
+<p>O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento,
+perguntava o porquê e a causa d'esta ausencia<span class="pn">{76}</span> da
+dona da casa. As dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios,
+bispos, arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias.
+Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados; querem
+conhecer o fundo, a rasão, segundo a expressão popular, dos pequenos e dos
+grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos lares, na choupana do
+pobre, como nos palacios dos ricos.</p>
+
+<p>&mdash;«M.<sup>me</sup> de la Tournelle», disse o bispo de si para si, é uma
+mulher que vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos,
+quando tudo a está convidando a apparecer?</p>
+
+<p>Não obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do coração o
+prelado estava longe de conhecer a verdade.</p>
+
+<p>Acreditava em alguma discussão por amôr proprio entre marido e mulher,
+qualquer disputa interna, mas a supposição de que uma adultera estava em casa
+dos «de la Tournelle» não passára ainda pelo seu espirito.</p>
+
+<p>«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» recusára-se abertamente a comparecer ao
+banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem
+violencia, sem longas explicações, mas mais do que significativa.</p>
+
+<p>Fôra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discussão. A bella
+Carlota fôra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe era
+inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem.</p>
+
+<p>A marqueza não cuidou mais da agitação politica do seu partido. O amôr
+vencera-a;<span class="pn">{77}</span> Jamais tinha pensado em que semelhantes
+tempestades se desencadeassem na sua alma. Quasi que se não conhecia. A paixão
+que sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e
+tudo aquillo que até então constituira o seu ideal submergira-se,
+obliterara-se, aniquilara-se quasi.</p>
+
+<p>Começava a amar a solidão dos seus aposentos. Estava impaciente, febril.
+Tentava entregar-se á leitura mas a sua attenção divagava. Tomava rapidamente
+um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lançava para o lado sem o ter
+lido.</p>
+
+<p>O amôr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma doente.
+Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que experimentava era uma
+«melange» de dôr e de alegria, de inquietação e de esperança, d'orgulho e de
+medo. Louca d'amôr, passeava febrilmente no seu quarto quasi que fallando em
+voz alta, aproximando-se de vez em quando da janella e contemplando os prados,
+a relva e, lá no fundo, a pequena cidade de Saint-Martin.</p>
+
+<p>&mdash;Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haverá em ti
+para assim me esquecer do que sou? Já não pertenço a mim mesma desde a nossa
+entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei feliz... Tua!
+Tua para sempre!</p>
+
+<p>E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creança, beijos
+ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma.</p>
+
+<p>O banquete realista! A lucta dos partidos<span class="pn">{78}</span> O
+triumpho d'uns e a perda d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a
+interessava no momento em que o imperioso delirio da paixão se apoderava d'ella
+e a torturava.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A
+principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado toda a
+gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar.</p>
+
+<p>A sua cadeira vasia lá estava e cada conviva lançava muitas vezes um olhar
+involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios mais
+maliciosos.</p>
+
+<p>Presidia o bispo, tendo sentado «vis-á-vis» o conde d'Orgefin. Ao todo os
+convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calção, com as armas dos «de
+la Tournelle» bordadas nas fardas, faziam um serviço irreprehensivel sob todos
+os pontos de vista.</p>
+
+<p>Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os cerebros,
+destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin observáva os
+convidados e tirava um bom presagio das suas felizes disposições. D'uma
+sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, conservando o seu sangue
+frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de «champagne» para levantar um brinde
+ao triumpho dos principios monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao
+governo republicano.</p>
+
+<p>Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro
+bisnau, não convinha comprometter-se muito com<span class="pn">{79}</span> o
+partido conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas
+ideias; via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas
+os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do lado do
+cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro estivesse mais
+conhecido, elle cuidaria do seu caminho.</p>
+
+<p>Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os habitantes
+da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente preocupados. Este banquete
+era um acontecimento que entretinha todas as conversações.</p>
+
+<p>Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e em
+frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe appetecia.</p>
+
+<p>Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de
+Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente Kolri
+discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, Didier e
+Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a cada instante se
+ouvia copos tocando o do candidato republicano.</p>
+
+<p>Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre n'um
+paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender que, na
+maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho do pobre.</p>
+
+<p>O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre da
+ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras<span class="pn">{80}</span> de ha
+dois dias com a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão.
+Todos os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.</p>
+
+<p>A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu rosto,
+não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança.</p>
+
+<p>Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. Não
+suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella Carlota.
+</p>
+
+<p>Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais
+violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo republicano
+uma amizade mais profunda.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando
+poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos alfim
+reunidos, sós, no silencio da natureza e fóra do ruido das cidades?</p>
+
+<p>E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graça das suas longas
+tranças, a sua mão tão fina, os seus seios incomparaveis, o perfume da sua
+«toilette».</p>
+
+<p>Separando-se, após a sua entrevista nos «Passeios», Ronquerolle e a marqueza
+prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleição de 15 de julho.
+</p>
+
+<p>&mdash;Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo, é impossivel, disse a
+marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida, expulsa,
+vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido, tornar-te-ias suspeito a
+todos os que defendes<span class="pn">{81}</span> e pezar-te-ia sempre o
+teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns dias antes
+de ti. Virás então juntar-te a mim e lá construiremos um ninho para o nosso
+amôr.</p>
+
+<p>Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava as
+datas.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso
+Paris, quando partir.</p>
+
+<p>Já elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleição quer vencesse
+ou não o marquez.</p>
+
+<p>O amôr e a ambição confundiam-se no seu espirito e no seu coração. No
+coração da marqueza só o amôr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se reunia
+tudo para si. Ronquerolle pagava em amôr, amando-a tambem, mas, dotado de
+faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e com esse fim
+esperava elle construir o pedestal do seu amôr.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION006000">VI<br>
+<em>Momentos decisivos</em></a></h1>
+
+<p>O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar
+confiança e serenidade.</p>
+
+<p>O banquette do castello de «la Tournelle»<span class="pn">{82}</span>
+produzira um grande alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde
+d'Orgefin appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os
+eleitores.</p>
+
+<p>A presença do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr o
+boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto de se
+dizer que renunciaria á sua candidatura.</p>
+
+<p>Ronquerolle, porém, não perdia o seu sangue frio. Sem descançar percorria a
+circumscripção, reunindo os eleitores nas salas da estalagem onde repousava. O
+seu «comité» trabalhava na expedição das profissões de fé, boletins para votos
+e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis redigiam os numeros do «Reveil»
+que saía agora tres vezes por semana.</p>
+
+<p>Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio subito
+do barão «de Quérelles». No principio da campanha eleitoral, viram-no lançar-se
+abertamente na lucta e tomar o partido, senão, por Ronquerolle, ao menos contra
+o marquez «de la Tournelle»; passados, porém, quinze dias o barão emudeceu e
+tornou-se quasi invisivel. Áquelles que se lhe approximavam e que o
+interrogavam respondia que era necessario esperar para a ultima hora para poder
+inclinar-se definitivamente para um dos partidos.</p>
+
+<p>Uma colera estranha se apoderara do barão. Sentia-se indisposto com todo o
+mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e até contra si
+proprio. As suas manobras não tinham dado resultado algum e conhecia que afinal
+era<span class="pn">{83}</span> mais do que o tolo da farça. O seu zelo na
+lucta afrouxava por isso, não saindo, quasi, do seu castello.</p>
+
+<p>Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleições, o barão
+levantou-se uma manhã com mais mau humor do que o do costume. Maltratava os
+criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos, passeando com impaciencia e
+anciedade n'uma galeria, contigua aos seus aposentos, e que dava sobre o
+jardim.</p>
+
+<p>Quando um dia estava assim preso da irresolução e do desgosto de vêr que a
+bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que uma
+deputação d'eleitores o procurava para lhe fallar.</p>
+
+<p>Feliz por ter essa nova distração no meio dos seus desgostos internos,
+desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se assentados uns
+quinze homens.</p>
+
+<p>Viam-se muitos «maires» influentes dos arredores da cidade e lavradores de
+blusa que esperavam de chapeu na mão.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos, senhor barão, disse o mais velho dos eleitores presentes,
+por quem devemos votar nas proximas eleições? Vimos pedir-vos este conselho.
+Faremos o que o senhor barão nos ordenar.</p>
+
+<p>Estas palavras envaideceram o amôr proprio do barão «des Quérelles». Sabia
+bem que a delegação que se encontrava na sua frente representava bem umas vinte
+communas importantes.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e
+vós, senhor repuplicano, tendes a vossa eleição na minha mão.<span
+class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>Após este discurso mental, o barão voltou a ter o bom humor antigo.</p>
+
+<p>&mdash;Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente
+envaidecido com a vossa resolução. Dar-vos-hei, sinceramente o meu conselho.
+Mas a questão merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos para almoçardes
+commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas resoluções energicas.</p>
+
+<p>Na realidade, o barão não sabia que responder aos eleitores que o vinham
+consultar. Como todos que se veem embaraçados pediu tempo para reflectir. Se
+por um lado, odiava de morte o marquez por que fôra o rival que
+«m.<sup>elle</sup> de Champeautey» lhe preferira, por outro lado custava-lhe
+favorecer a eleição de Ronquerolle.</p>
+
+<p>Não comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas o
+certo era que o aborrecia.</p>
+
+<p>Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um obstaculo
+aos seus desejos, porque o arrebatado barão não renunciara á esperança de
+possuir mais tarde ou mais cedo o coração da bella Carlota.</p>
+
+<p>Durante os preparativos do almoço, os homens da delegação foram passear para
+o parque do barão, que por sua vez se retirou para o seu gabinete de trabalho,
+preso d'uma perplexidade inquietadora.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que
+votem por esse tolo do marquez «de la Tournelle» saberá a marqueza reconhecer
+que é a mim que deve o não ver o seu orgulho e o seu<span
+class="pn">{85}</span> nome humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista
+pelo Ronquerolle quem me assegura que a sua eleição não vem pôr uma barreira
+invencivel entre mim e a minha paixão?</p>
+
+<p>Torturado pela duvida o infeliz barão não sabia para que lado se havia de
+voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do «Echo da Borgonha», o
+jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de vermelho que estava,
+tornou-se pallido como cêra. Na primeira pagina do jornal destacava-se em
+normando um suelto ironico que lhe dizia respeito. O auctor do pequenino artigo
+troçava do barão pela sua pequena estatura e fazia insinuar que a pequenez da
+sua intelligencia estava na proporção da do seu corpo.</p>
+
+<p>Era ferir a corôa sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um punhal,
+pôz fim ás suas hesitações e decidiu da eleição do circulo de Saint-Martin.</p>
+
+<p>Ah! é isso? Pois bem! disse o barão. Senhor «de la Tournelle», meu amigo,
+ficarás fóra da lucta, serás vencido, assim o espero. Feliz Ronquerolle, um bom
+genio te protege!</p>
+
+<p>O barão «des Quérelles» desconhecia por completo a grande verdade que
+dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha para
+elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificára assim a vaidade
+d'um barão? Quem tanta sorte dera a Maximo?</p>
+
+<p>Quem? A propria marqueza «de la Tournelle». Louca pelo seu amante, capaz de
+fazer por elle todos os sacrificios, não pensando<span class="pn">{86}</span>
+senão na sua fortuna e na sua gloria começou a por ao seu serviço toda a
+artilharia dos seus ardis femeninos.</p>
+
+<p>«Des Quérelles» estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma
+resolução. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante o
+almoço que offerecêra aos eleitores inflúentes que tinham vindo consultal-o.
+</p>
+
+<p>&mdash;Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos,
+finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Está entendido, não é
+assim, no proximo domingo votaremos como um só homem no bello Ronquerolle. Eis
+um que têm sorte.</p>
+
+<p>Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo
+constantemente e rindo á vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrião. A
+conversação foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos que
+corriam na cidade e na região. Fallou-se da marqueza, de «M.<sup>me</sup> de
+Beaumenard», a mulher do banqueiro; de «M.<sup>me</sup> Desbroutin», a mulher
+do notario.</p>
+
+<p>&mdash;Parece que esses senhores, dizia o barão, não teem muito que se
+queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses não vem
+para aqui só para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porém, o melhor. O que
+está nas boas graças da gentil «M.<sup>me</sup> de Beaumenard» é um finório.
+Ah! que linda coisa é a mocidade!</p>
+
+<p>O almoço terminou alegremente, como havia começado. Tomou-se café no jardim,
+onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres horas da tarde.
+O<span class="pn">{87}</span> barão fez a ultima recommendação aos seus
+hospedes:</p>
+
+<p>O «mot d'ordre» é que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e
+levae por toda a parte a boa nova!</p>
+
+<p>Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A
+intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo contra
+o barão, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua reserva.</p>
+
+<p>Ficou louca d'alegria e louca d'amôr quando soube da resolução de «des
+Quérelles». Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado.</p>
+
+<p>&mdash;Ó meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da
+fortuna e da gloria. Serás tu fiel, ao menos?</p>
+
+<p>O caracteristico do verdadeiro amôr foi sempre o sacrificio pela pessoa
+amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a morte,
+por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o somno e se é
+feliz com este tormento, com esta dôr, com este mal implacavel que invade todo
+o nosso ser.</p>
+
+<p>A soberba Carlota estava no paroxismo da paixão. Calma na apparencia
+sentia-se devorada pelo frenesi do amôr. Passeando no seu jardim, sentia-se tão
+dominada pela imagem e recordação do seu amante que a custo caminhava. Uma
+languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por uma d'essas deusas antigas
+que atravessavam os bosques sagrados da Grecia e que desappareciam n'uma nuvem
+azul. Jámais visão tão bella podia inspirar um poeta. Jámais<span
+class="pn">{88}</span> a incarnação da vida se tinha manifestado n'uma mais
+nobre creatura!</p>
+
+<p>Ronquerolle sentia-se falto de energia.</p>
+
+<p>No ultimo sabbado, vespera da eleição, esteve dominado por um febre ardente.
+A inquietação devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria de novo passar á
+obscuridade? Além d'isto o amôr de «M.<sup>me</sup> de la Tournelle», como uma
+ferida incuravel, invadia-o, torturava-o, dominava-o. Elle, um homem forte, o
+cidadão inflexivel, sentia-se vencido por essa mulher, por essa sereia de
+cabellos loiros.</p>
+
+<p>&mdash;O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde
+está o meu sacrificio?</p>
+
+<p>Uma agitação extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu á
+abertura do escrutinio.</p>
+
+<p>Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo
+promessas a uns, ameaçando outros, espalhando profusamente por toda a parte as
+listas.</p>
+
+<p>Por seu lado os partidarios de Ronquerole não ficaram inertes.</p>
+
+<p>Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia sem
+igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato republicano.
+Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem suprema que tem o
+soldado quando está prestes a derrotar o inimigo.</p>
+
+<p>Quando, no domingo de manhã, o escrutinio se abriu, os dois partidos estavam
+perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se grupos
+formados na praça publica e que depois se dirigiam<span class="pn">{89}</span>
+a votar á mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam
+o marquez de «la Tournelle», outros riam-se de Ronquerolle.</p>
+
+<p>Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoçego não abandonou
+o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte. Victima da ambição,
+debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha censurado o seu procedimento e só
+o seu amigo fiel, Branche, estava junto d'elle absorvido pela mesma incerteza
+pelas luctas do futuro.</p>
+
+<p>O escrutinio fechou-se ás seis horas, começando immediatamente o apuramento
+de votos. A sala da «mairie» estava completamente cheia. Os eleitores presentes
+escutavam silenciosamente a contagem dos votos.</p>
+
+<p>Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. de la Tournelle!</p>
+
+<p>&mdash;Sr. Ronquerolle!</p>
+
+<p>Cêrca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se já entre os operarios.
+Vencia o cidadão Ronquerolle, segundo todas as probabilidades. Tinha a maioria
+de 1500 votos só na cidade de Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como
+uma bomba de dynamite.</p>
+
+<p>Uma multidão compacta que esperava as noticias em frente á casa da camara,
+gritou instinctivamente: Viva a Republica!</p>
+
+<p>Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu
+ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e gelou de
+terror os realistas que se encontravam reunidos no salão.<span
+class="pn">{90}</span></p>
+
+<p>&mdash;A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes
+gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!</p>
+
+<p>De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem
+interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano saía
+vitorioso.</p>
+
+<p>Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada.
+Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um
+delirio entre os republicanos.</p>
+
+<p>O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas
+ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu triumpho. Tinha
+os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado pela febre.</p>
+
+<p>Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras
+tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez silencio
+pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações e fazem
+transbordar os corações d'enthusiasmo.</p>
+
+<p>Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira a
+mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes e
+valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao seu
+quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, Ronquerolle
+encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a febre; tinha
+passado a hora d'angustia.</p>
+
+<p>Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto<span class="pn">{91}</span>
+ambicionava. Os obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma
+nuvem ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos.
+Estava satisfeita a sua ambição.</p>
+
+<p>&mdash;Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da
+noite a escrever-lhe.</p>
+
+<p>Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu
+livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.</p>
+
+<p>&mdash;«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da
+minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste immensamente
+corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua raça; porque, afinal, tu
+sacrificaste-te... Que farei eu para recompensar o teu amôr que tão alto vae?
+Ah! no inicio da minha carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha
+mocidade para te dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel
+Carlota, a ti, cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a
+ti cujo ser me enebria!...</p>
+
+<p>«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre
+destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!</p>
+
+<p>«Ninguem saberá que nos amamos, ninguem advinhará o segredo da nossa
+amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios merecimentos e
+não para obedecer ás convenções sociaes, não para nos conformarmos com
+interesses pueris.</p>
+
+<p>«... Para ti toda a minha alma, para ti<span class="pn">{92}</span> o melhor
+do meu pensamento, para ti a minha vida»!</p>
+
+<p>Ronquerolle não podia de maneira alguma terminar a carta. O seu coração
+transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua existencia: o
+passado, o presente e o futuro.</p>
+
+<p>Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a ponto
+de a si mesmo perguntar se não estaria preso d'uma allucinação.</p>
+
+<p>E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION007000">VII<br>
+<em>Vida nova</em></a></h1>
+
+<p>Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a
+cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume. O sol
+de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já asphyxiante. Quinhentas
+a seiscentas pessoas estacionavam em frente do edificio da Camara, onde acabava
+de chegar uma fanfarra com o seu estandarte, e ia formar-se o cortejo.</p>
+
+<p>Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos de
+ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris.<span class="pn">{93}</span>
+</p>
+
+<p>Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador prespicaz
+teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás outras pareciam
+tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu sorriso era contrafeito.
+</p>
+
+<p>Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher do
+banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e finalmente
+da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das contribuições.</p>
+
+<p>Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras.</p>
+
+<p>Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de Didier;
+Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis conseguira fazer
+sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.</p>
+
+<p>Ai, como são rapidos os dias felizes!</p>
+
+<p>Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da
+provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres.</p>
+
+<p>De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres amigos,
+de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos cidadãos,
+pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido, quasi livido e
+uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez, resultante da fadiga e
+das commoções soffridas. A fanfarra executou a «Marselheza» e o cortejo poz-se
+em marcha.</p>
+
+<p>Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres amantes,
+trocaram-se<span class="pn">{94}</span> rapidos olhares e as tres mulheres não
+puderam conter as lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard.</p>
+
+<p>&mdash;Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.</p>
+
+<p>&mdash;Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.</p>
+
+<p>Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer:
+</p>
+
+<p>&mdash;Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia,
+o amôr a paixão.</p>
+
+<p>A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao das
+eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali chegou.</p>
+
+<p>A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira já
+para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo. Apenas ficára a
+população que as necessidades da vida prendiam em Paris. O calor tornava-se
+mais violento dia a dia.</p>
+
+<p>A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido entre
+um pateo e um jardim.</p>
+
+<p>Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu
+regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido pelo
+marquez seu esposo.</p>
+
+<p>O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de sua
+mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o continuar em
+Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por<span class="pn">{95}</span>
+isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.</p>
+
+<p>Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação perto
+dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu secretario e
+rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier installar-se-hiam nas
+immediações.</p>
+
+<p>A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam
+ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas
+parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar
+inteiramente á sua amante.</p>
+
+<p>Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram
+completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade
+augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais adivinhado
+do que conhecido. E que alegria foi para elles o reconhecerem, mutuamente, que
+eram ainda superiores á ideia que se haviam formado de sentimentos, de
+intelligencia e da elevada concepção do amôr.</p>
+
+<p>Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza de
+Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua mocidade,
+simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso espirito, e tambem
+pela sua insaciavel ambição.</p>
+
+<p>Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus
+projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se deixar
+seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da corrupção, da
+ignorancia ou do<span class="pn">{96}</span> embuste; mas sim para representar
+verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de apoio...
+</p>
+
+<p>Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e
+quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz repetia
+á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras seguirem o curso
+do seu fogoso temperamento.</p>
+
+<p>Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de la
+Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço ao pensar
+que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais provocantes sorrisos
+te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então, eu não seja a unica a possuir
+toda a tua alma!</p>
+
+<p>&mdash;Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que
+este amôr é de vida e de morte.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para
+a vida e para a morte!</p>
+
+<p>Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes passeavam
+juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais afastados e
+solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse reconhecida nos seus
+passeios em companhia do joven deputado republicano.</p>
+
+<p>N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua desviada
+da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo ao cruzarem-se
+com um individuo que seguia em sentido contrario.<span class="pn">{97}</span>
+</p>
+
+<p>Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não poude
+por isso ser reconhecida.</p>
+
+<p>O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu
+turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a marqueza.
+</p>
+
+<p>Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo reconheceu
+Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la Tournelle.</p>
+
+<p>&mdash;Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os
+passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres.</p>
+
+<p>Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o
+impressionou.</p>
+
+<p>Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe escrevia.
+</p>
+
+<p>Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do seu
+regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o fim
+dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para ti, meu
+adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada á tua ambição,
+que uma nova paixão exige.</p>
+
+<p>«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico
+amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes morrêr a
+descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas<span class="pn">{98}</span>
+mas pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem,
+depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te, antes a
+morte!</p>
+
+<p>«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo abraçar-me
+logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu estás aqui ha
+quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e todas as tardes.</p>
+
+<p>«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos meus
+braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de fechar os meus
+olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao cemiterio e coberta
+com algumas pás de terra?</p>
+
+<p>«A tua querida toutinegra d'outros tempos</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right">«Emilia.» </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio lhe
+banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre creança
+companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia á qual jurara
+eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no seu coração e no seu
+cerebro pela visão estonteante da marqueza de la Tournelle.</p>
+
+<p>E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre
+rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os seus
+desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr d'outros
+tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira que
+lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.</p>
+
+<p>Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa immensa
+Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua juventude, e a sua
+fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.</p>
+
+<p>Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes, Emilia
+comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido Maximo, e
+então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se abateram de um só
+golpe.</p>
+
+<p>Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.</p>
+
+<p>A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo já
+não me ama, pois bem, só me resta morrêr.</p>
+
+<p>Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em
+Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e decidiu-se
+por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao menos uma vez antes
+de morrer.</p>
+
+<p>Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da carta
+da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e dirigiu-se a casa da
+pobre rapariga.</p>
+
+<p>Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta, abriu-lh'a
+com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de esperança.</p>
+
+<p>Foi tal a violencia da commoção recebida,<span class="pn">{100}</span> que a
+pobrezinha, cahindo nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos
+não poude articular palavra.</p>
+
+<p>O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina
+Emilia não era mais que uma sombra do que fôra.</p>
+
+<p>Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e pelas
+noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um phantasma.</p>
+
+<p>&mdash;Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado
+tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe causei, e a
+sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.</p>
+
+<p>Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma
+alegria verdadeiramente infantil exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.</p>
+
+<p>Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!</p>
+
+<p>Como eu te esperava!</p>
+
+<p>Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez!</p>
+
+<p>Como eu te amo!</p>
+
+<p>Se tu soubesses como eu te amo!</p>
+
+<p>Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma.</p>
+
+<p>Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva
+como a pobre Emilia...</p>
+
+<p>Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a percorrer.
+Tens que alcançar a gloria.</p>
+
+<p>Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua.<span
+class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer o
+teu immenso orgulho...</p>
+
+<p>Eu conheço-te bem!</p>
+
+<p>Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira
+d'outros tempos tinha razão.</p>
+
+<p>Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava sempre a
+reconhecer o fatal abandono a que fôra votada.</p>
+
+<p>Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover as
+recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus amôres, dos
+seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a Mendon, a Montmorency,
+a Ermenonville.</p>
+
+<p>&mdash;Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.</p>
+
+<p>&mdash;Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes
+crêr. Sentia-te perto de mim.</p>
+
+<p>Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam.</p>
+
+<p>Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.</p>
+
+<p>A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu não
+estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e Maupertuis.
+</p>
+
+<p>O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.</p>
+
+<p>Um extranho encanto havia em volta d'ella.</p>
+
+<p>Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da
+janella. Lembrava uma convalescente que procurava<span class="pn">{102}</span>
+cobrar fôrças, e a quem o menor esforço enfraquecia.</p>
+
+<p>&mdash;Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem
+coragem. A tua vida terá ainda dias felizes.</p>
+
+<p>&mdash;Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!</p>
+
+<p>Pois não reparas?</p>
+
+<p>Não vês que eu não te faço a menor pergunta?</p>
+
+<p>Nem sequer me queixo!</p>
+
+<p>É a suprema resignação do condemnado.</p>
+
+<p>Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para o
+«boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a janella onde
+outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da pobre creança. A sua dôr
+tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente, envenenava a sua felicidade.</p>
+
+<p>Aguardou assim a hora em que M.<sup>me</sup> de la Tournelle o esperava.</p>
+
+<p>A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante tinha
+qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o. Perguntou-lhe a causa da
+sua dôr.</p>
+
+<p>Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso que
+tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com a pobre
+Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida,
+disse-lhe elle.</p>
+
+<p>O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o
+primeiro da minha vida!</p>
+
+<p>Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre
+abandonada.<span class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim:
+estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver n'este
+mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate da primeira
+amargura.</p>
+
+<p>Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma n'este
+mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não pode viver.
+</p>
+
+<p>A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o seu
+perfume.</p>
+
+<p>Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.</p>
+
+<p>Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a outra a
+pobre florinha morreu e não ressuscitará.</p>
+
+<p>E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo!</p>
+
+<p>Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da Sorbonne
+e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado, sob as sombras de
+Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras de amôr, quando tu apenas
+ousavas apertar-me a mão?</p>
+
+<p>Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha juventude,
+porque tão depressa me fugiste?</p>
+
+<p>Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade?</p>
+
+<p>E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração?</p>
+
+<p>Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo
+terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo
+morrer!<span class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não
+descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para mim,
+essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude apreciar. É
+essa a minha suprema consolação.&mdash;A tua pequenina amiga d'outros
+tempos&mdash;Emilia».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu
+remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e morrendo de
+desgosto não o deixava um instante.</p>
+
+<p>Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não tinha
+a força para supportar as brutalidades da existencia e que o primeiro abalo
+derrubava.</p>
+
+<p>Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que
+possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os heroismos. Nada
+as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas os seus olhos se fecham
+sobre a visão pura que vive na sua alma e a perversidade jámais as alcançará.
+</p>
+
+<p>A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu ideal
+como a hera em volta da arvore.</p>
+
+<p>É esse todo o seu destino.</p>
+
+<p>E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos palacios
+dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos pobres. O
+observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos elles são, tão
+simples, tanto se occultam<span class="pn">{105}</span> na sombra; mas por
+pouco que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida
+dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o heroismo do
+coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona, sem colorido e sem
+perfume.</p>
+
+<p>As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que
+toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas é
+objecto não suppôe toda a grandesa.</p>
+
+<p>É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já não
+existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.</p>
+
+<p>É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se reconhece
+a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz verdadeiramente
+justiça.</p>
+
+<p>Mas então, é já tarde!</p>
+
+<p>Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado
+desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um thesouro
+de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar dois lindos olhos,
+de ter feito o desespero d'um inexperiente coração.</p>
+
+<p>Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora apenas
+essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi comprehendida e que é
+amada.</p>
+
+<p>Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos.</p>
+
+<p>A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo, chama-nos e
+attrahe-nos com os seus risos, as suas canções,<span class="pn">{106}</span> o
+ruido das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.</p>
+
+<p>Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem amantes,
+se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á paixão pela cruz.</p>
+
+<p>Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais humildade
+que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta.</p>
+
+<p>Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do que
+uma.</p>
+
+<p>Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da joven
+que ama perdidamente.</p>
+
+<p>Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.</p>
+
+<p>Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz
+tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella para elle
+erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.</p>
+
+<p>D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse
+acompanhado.</p>
+
+<p>Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o mal
+fazia constantes progressos.</p>
+
+<p>Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e
+prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz rapariga.
+</p>
+
+<p>Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra chamado a
+tractar da joven Emilia.</p>
+
+<p>Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a<span class="pn">{107}</span> e
+ficava surprehendido dos progressos da doença, e resumia por estas palavras as
+suas impressões: uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.</p>
+
+<p>Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da
+doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre rapariga.
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!</p>
+
+<p>«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o equilibrio
+das fôrças é incompleto.</p>
+
+<p>«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.</p>
+
+<p>«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.</p>
+
+<p>«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse numero,
+reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes verdadeiramente fortes, são
+talvez mais feridos pela desillusão do que essa infeliz creança, mas vivem, não
+soffrem materialmente, sorriem até quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem
+que elles são felizes.</p>
+
+<p>«Olhae, por exemplo, para mim!</p>
+
+<p>«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?</p>
+
+<p>«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande
+ferimento moral, me atormenta.»</p>
+
+<p>Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico. Esse
+homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e comtudo devia
+ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu espirito.<span
+class="pn">{108}</span></p>
+
+<p>E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados, todos
+os carinhos a Emilia.</p>
+
+<p>Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os dias, de
+manhã e á noite informar-se do estado da doente.</p>
+
+<p>Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo
+Branche, para distrahir a infeliz rapariga.</p>
+
+<p>Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.</p>
+
+<p>Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de salvar
+a terna creaturinha.</p>
+
+<p>Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.</p>
+
+<p>Não podia já deixar o leito.</p>
+
+<p>Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr.</p>
+
+<p>E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as bellas
+paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas noites de inverno.
+</p>
+
+<p>Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de
+deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e outros.
+</p>
+
+<p>Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos poetas
+e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa e a
+felicidade que se aguarda.</p>
+
+<p>E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida pela
+dôr, agarrada pela morte.</p>
+
+<p>Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.<span
+class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro
+sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e perdia-se
+n'um mundo de recordações.</p>
+
+<p>Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua mãe,
+que tambem bem cêdo a morte arrebatara.</p>
+
+<p>Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.</p>
+
+<p>Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os seus
+modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava a Deus e á
+Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.</p>
+
+<p>Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua santa
+mãe.</p>
+
+<p>Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para ser
+quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.</p>
+
+<p>Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma;
+sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica.</p>
+
+<p>E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e seguir
+até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.</p>
+
+<p>Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu
+caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.</p>
+
+<p>Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda.
+</p>
+
+<p>Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do
+mundo<span class="pn">{110}</span> sem ter visto acabar a primavera, sem ter
+colhido as flôres d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos,
+sem ter conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!...</p>
+
+<p>Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.</p>
+
+<p>Ronquerolle foi admiravel de dedicação.</p>
+
+<p>Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia morrer,
+Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.</p>
+
+<p>Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos,
+accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.</p>
+
+<p>Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de felicidade
+lhe tivessem sido promettidos.</p>
+
+<p>&mdash;Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido
+Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre!</p>
+
+<p>Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade?</p>
+
+<p>A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua
+mulher.</p>
+
+<p>Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua esposa. Se
+soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante!</p>
+
+<p>Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza, sobre
+o teu braço, e de cabeça erguida, sem receio!</p>
+
+<p>Pois bem, o meu sonho, está realisado, não é verdade? E eu sou feliz. Já
+posso<span class="pn">{111}</span> acompanhar-te sem córar. Agora dizem ao
+vêr-nos passar em Luxemburgo: ahi vão dois jovens noivos; e como elles vão
+contentes, como se amam!</p>
+
+<p>Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua «querida
+toutinegra» d'outros tempos, como elle tinha por costume chamar-lhe, brincando
+com ella como duas creanças.</p>
+
+<p>E o deputado de agora tapava o rosto com o lenço e soluçava.</p>
+
+<p>Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis, d'uma
+simplicidade encantadora.</p>
+
+<p>&mdash;Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu
+levar-me-has para o campo, não é assim?</p>
+
+<p>Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques e
+das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus de verão,
+que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem.</p>
+
+<p>N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presença d'um sacerdote e
+recebeu os sacramentos com a devoção e recolhimento d'uma creança na sua
+primeira communhão.</p>
+
+<p>Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e
+receber a hostia sagrada das mãos do sacerdote, a impressão n'elle produzida
+foi tão violenta, que não poude conservar-se ali por mais tempo e sahiu a
+respirar por um momento no boulevard Montparnasse.</p>
+
+<p>Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava.<span
+class="pn">{112}</span></p>
+
+<p>Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava.</p>
+
+<p>Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do que
+se passava.</p>
+
+<p>&mdash;A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrerá mal chegue a noite, são
+estas ás palavras do medico. Parte-se-me o coração e soffro muito por vêl-a
+assim desfallecer.</p>
+
+<p>«Não quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella.</p>
+
+<p>Eram umas quatro horas da tarde.</p>
+
+<p>A marqueza quiz acompanhar Maximo até á cabeceira da moribunda.</p>
+
+<p>Emilia já mal respirava.</p>
+
+<p>A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a
+cabeça.</p>
+
+<p>O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era como
+uma phrase completa e fatal.</p>
+
+<p>A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar,
+aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar.</p>
+
+<p>Madame de la Tournelle collocára-se ao lado do medico.</p>
+
+<p>O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de
+Emilia.</p>
+
+<p>A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava que
+durante muitos annos a infeliz que ia morrer fôra a amante de Ronquerolle.</p>
+
+<p>Este, sentado aos pés do leito da pobre creaturinha sentia a mais violenta
+das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de coração.</p>
+
+<p>E olhava essa figura magra, descarnada,<span class="pn">{113}</span> que
+elle amara nos dias da sua irrequieta mocidade.</p>
+
+<p>Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem côr,
+n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador!</p>
+
+<p>E não podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que elle
+amára, e gelar aquelle coração que lhe pertencêra.</p>
+
+<p>Emilia fez ainda um esforço para se sentar no leito. Ronquerolle correu a
+ajudal-a.</p>
+
+<p>A infeliz voltou-se então para o lado onde se encontrava madame de la
+Tournelle, e poude ainda dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle!</p>
+
+<p>Depois pondo a mão fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Não tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu
+teria querido viver apenas para ti...</p>
+
+<p>«Tu não sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenderás e sinto que não
+poderás esquecer-me!...</p>
+
+<p>E nada mais poude dizer. A sua linda cabeça cahiu novamente sobre a
+almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava.</p>
+
+<p>No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flôres, dirigia-se
+lentamente, pelas dez horas da manhã, para os lados do cemiterio do Père
+Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario.</p>
+
+<p>Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz soluçava,
+immerso na dôr, aniquilado.</p>
+
+<p>Uma dama com o rosto coberto por um<span class="pn">{114}</span> espesso
+véu, tentava inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um
+homem, com o queixo encostado ao castão dourado da sua bengala, embrenhava-se
+em mysteriosos pensamentos.</p>
+
+<p>Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o medico
+que tratara Emilia.</p>
+
+<p>Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha á ultima morada, tanto do
+rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do fraco.</p>
+
+<p>Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear.
+</p>
+
+<p>A manhã estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus reflexos
+de ouro e aquecia os boulevards.</p>
+
+<p>Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de flôres e
+seguido apenas por uma carruagem.</p>
+
+<p>E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris
+possue em tão grande numero.</p>
+
+<p>Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedêra o logar á tristeza,
+conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da ambição
+fôra dominada pela da dôr.</p>
+
+<p>Passou os dias a evocar a tocante recordação d'essa rapariga que elle tinha
+amado, que a elle se havia dado com todo o seu coração, que elle possuira e que
+morrêra por elle. De noite não podia dormir, erguia-se e ia contemplar o
+retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes da sua habitação.</p>
+
+<p>Quando olhava para essa figurinha tão<span class="pn">{115}</span> graciosa,
+de olhar tão singello e tão suave, o seu coração estremecia com as recordações
+do passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu
+rosto varonil de tribuno popular e de poeta.</p>
+
+<p>Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as.</p>
+
+<p>Sabia-as de cór, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da
+mocidade, era para elle motivo de intima consolação.</p>
+
+<p>Eram já de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as datas
+traziam recordações a Ronquerolle.</p>
+
+<p>&mdash;Que fatalidade! exclamava elle.</p>
+
+<p>Tudo se acabou.</p>
+
+<p>O luto entrou no meu pensamento e jámais o amôr me dará uma alegria sem uma
+triste recordação. Encantadora e bôa creança, com a tua mocidade levaste tambem
+a minha para o tumulo. Os tempos de illusão acabaram-se, as horas tranquillas
+não voltarão mais. Agora só vejo na minha vida sombras e tempestades.</p>
+
+<p>Para acalmar as suas apprehensões, para procurar serenar os seus nervos,
+Ronquerolle começou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia.</p>
+
+<p>Compoz um verdadeiro poéma em sua honra e fêl-o publicar n'uma revista
+litteraria.</p>
+
+<p>Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos.</p>
+
+<p>A marqueza de la Tournelle respeitou a dôr do seu amante.</p>
+
+<p>Ella sentia uma infinita e deliciosa commoção ao pensar que tambem seria
+adorada por aquelle homem, e mais ainda que a<span class="pn">{116}</span> bôa,
+mas simples creaturinha que acabava de morrer.</p>
+
+<p>Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle sahiu
+como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto presidencial, e
+recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o Parlamento ia recomeçar
+os seus trabalhos. Estava como um homem que após um longo e profundo somno,
+desperta com a impressão de que tem um rude trabalho a desempenhar, e um grande
+caminho a percorrer. Experimentado pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle
+ia entrar na vida politica como um verdadeiro athleta, treinado por violentas
+luctas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION008000">VIII </a><br>
+</h1>
+
+<p><em>Policia dupla</em></p>
+
+<p>As tribunas da Camara estavam cheias de gente.</p>
+
+<p>Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a Paris,
+mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias, politicos de varios
+matizes, alguns más linguas e intriguistas e parentes e amigos dos deputados,
+de tudo ali havia.</p>
+
+<p>As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel assistir
+á<span class="pn">{117}</span> sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente
+em regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.</p>
+
+<p>N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres
+novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e agitavam
+habilmente os seus leques.</p>
+
+<p>De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros de
+ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas impressões.
+</p>
+
+<p>Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade sem
+procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não podessem
+passar despercebidas.</p>
+
+<p>A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a acompanhava
+era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita, madame de Fleurus.
+</p>
+
+<p>O ministro da guerra acabava de dar á camara explicações sobre as despezas
+não previstas pelo orçamento, e das bancadas do Centro ouviam-se ainda
+appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou gravemente estas
+palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Na ordem do dia figura uma interpellação do sr. Ronquerolle sobre a
+politica geral do governo.</p>
+
+<p>&mdash;Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle.</p>
+
+<p>Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema esquerda,
+ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se dirigiu lentamente
+até á tribuna dos oradores.<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns
+papeis.</p>
+
+<p>Depois lançou um rapido olhar sobre o auditorio e começou a falar n'um tom
+muito baixo.</p>
+
+<p>Tinha deante de si os ministros aos quaes não perdia de vista. Pouco a
+pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em todo o
+ambito do Parlamento.</p>
+
+<p>Ronquerolle passava á fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a
+hypocrisia d'alguns dos membros do governo.</p>
+
+<p>Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder só para adquirirem
+fortuna, não considerando o povo senão como uma machina util ás suas ambições.
+</p>
+
+<p>Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a sua
+amante.</p>
+
+<p>Ao clarão d'esse olhar apaixonado, á visão rapida d'essa bella figura,
+d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado n'um
+delicioso corpete, á vista d'essa mão fina e bem desenhada agitando o leque
+finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma forte commoção
+electrica, e encontrou para as suas palavras uma dicção e uma accentuação de
+tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio.</p>
+
+<p>Ronquerolle, porém, nem via a Assembleia, esquecêra os seus collegas, os
+seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; não via mais
+ninguem pelo espirito, senão a sua bella Carlota, a<span
+class="pn">{119}</span> sua conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua
+vida.</p>
+
+<p>Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como já havia
+conquistado o seu coração e os seus beijos.</p>
+
+<p>Queria unir-se a ella pelos laços indestrutiveis da estima, e do respeito
+pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro.</p>
+
+<p>A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar.</p>
+
+<p>Respondia ligeiramente á sua amiga, que lhe dava conta das suas impressões:
+</p>
+
+<p>&mdash;Que pena, dizia ella á marqueza, que este homem não seja dos nossos!
+Desejaria vêr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com este
+vigor.</p>
+
+<p>A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoção de
+felicidade.</p>
+
+<p>Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante.</p>
+
+<p>Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligação com Ronquerolle.</p>
+
+<p>Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua
+superior concepção do amôr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria vaidade,
+n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu coração.</p>
+
+<p>Essa sessão da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade de
+traços, que jámais se apagariam.</p>
+
+<p>Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e
+teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos já, e que se
+assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem flôres.<span
+class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>O discurso de Ronquerolle causou enorme impressão.</p>
+
+<p>Foi discutido por toda a imprensa.</p>
+
+<p>Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as suas
+doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel eloquencia.
+</p>
+
+<p>Na quinzena que se seguiu, o novo deputado não teve mãos a medir.</p>
+
+<p>Era uma alluvião de solicitadores.</p>
+
+<p>Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegações, ou convidavam-n'o para
+conferencias e banquetes.</p>
+
+<p>Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas que a
+noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso.</p>
+
+<p>N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a pé para sua
+casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras as pessoas
+que andavam pelas ruas.</p>
+
+<p>Chegado á altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou um
+momento para deixar passar uma fila de carruagens...</p>
+
+<p>Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou á sua
+esquerda, um individuo cuja figura não lhe era desconhecida.</p>
+
+<p>Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o
+observava, alargou o passo e passou adeante do deputado.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Já sei, disse Maximo, este homem é um agente da policia. Depois
+da minha interpellação ao ministerio, este honesto espião não me deixa um
+segundo.<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>Não se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia secreta. O
+discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso, temivel para um
+ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse facto era fazel-o submetter
+a uma rigorosa espionagem.</p>
+
+<p>Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de que
+naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa eloquencia
+que vinha de nascêr e que se apresentava implacavel para com a traição.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa
+vergonhosa e ignobil observação dos agentes da policia secreta, o inimigo da
+marqueza de la Tournelle não dormia tambem.</p>
+
+<p>Mais enraivecido que nunca, o barão de Quérelles tinha resolvido, elle
+tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua.</p>
+
+<p>Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria elle
+conhecêl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura.</p>
+
+<p>O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo coração não vivia
+senão para o amôr e pelo amôr, cujo espirito jámais conhecêra o que fosse uma
+baixeza.</p>
+
+<p>É assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiçosas attacam a belleza, a
+generosidade, a coragem, a franqueza que lucta á luz do sol, a franqueza que
+procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu caminho claro e leal.<span
+class="pn">{122}</span></p>
+
+<p>Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos silenciosos e
+invejosos. Não teem senão um fim, incommodar, prejudicar; senão um pensamento,
+infeccionar, macular; não teem mais que um desejo, um empenho, buscar trazer
+até elles, até á lama que os envolve, as creaturas de eleição, que lhes fazem
+sombra, e das quaes elles não podem imitar as qualidades e as virtudes.</p>
+
+<p>E assim é que, n'um jardim, se vê muitas vezes uma lagarta repellente
+instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as petalas da
+flôr.</p>
+
+<p>O barão de Quérelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas não era
+um imbecil.</p>
+
+<p>Comprehendia que só uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em
+campo para descobrir esse cumulo da infamia.</p>
+
+<p>Á uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos
+Elyseos, após um copioso almoço, quando subitamente deu uma palmada na testa,
+como se fôra illuminado por uma inspiração celestial e apressou o passo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.<sup>me</sup> William
+tratará perfeitamente do negocio. Como não havia eu pensado n'ella ainda?!
+Oxalá que ella não tenha mudado de rezidencia!</p>
+
+<p>E Dominique, sem se envolver n'outras meditações, cortou á esquerda, seguiu
+ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao «boulevard» Malesherbes,
+onde outr'ora M.<sup>me</sup> William occupava uma vasta habitação em que dava
+soirées muito concorridas<span class="pn">{123}</span> de jovens ricaços,
+jornalistas, romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com
+maridos velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogão, ou o
+leito, ás seducções d'um baile, que começa ás onze da noite, para terminar ás
+seis horas da manhã. </p>
+
+<p>&mdash;M.<sup>me</sup> William! perguntou Dominique timidamente ao
+porteiro.</p>
+
+<p>&mdash;No segundo andar, á esquerda, respondeu o homem.</p>
+
+<p>Podeis subir, madame está em casa.</p>
+
+<p>O barão respirou.</p>
+
+<p>Havia bem uns cinco annos que elle não visitava a mulher, cuja recordação
+lhe viera tão aproposito.</p>
+
+<p>Receava não a encontrar, pois que M.<sup>me</sup> William era pessoa que se
+mudava a miudo e que viajava mais a miudo ainda.</p>
+
+<p>&mdash;Que milagre! pensou de Quérelles. O quê! Depois de cinco annos, ella
+não deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez!</p>
+
+<p>Terá renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos!</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William era de origem ingleza.</p>
+
+<p>Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas.</p>
+
+<p>Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito britannico?
+Ninguem ao certo, o sabia.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão
+para a abandonar e todos fingiam acredital-a.</p>
+
+<p>Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões frequentados
+pela alta sociedade.<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<p>Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe
+protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia
+indulgencias ao seu procedimento.</p>
+
+<p>Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e
+especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o dinheiro, a
+intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de fazer propostas
+deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher cubiçada, procurava-se para
+esse fim M.<sup>me</sup> William.</p>
+
+<p>Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu
+alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim como as
+suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros serviçaes.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para
+satisfazer os seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.</p>
+
+<p>Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie coberta
+de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame podridão, merecendo ser
+lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada debaixo dos pés. Era a lagarta
+sem nome, de corpo repellente, devastando esse immenso jardim humano que se
+chama Paris.</p>
+
+<p>Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a missão
+de perder a marqueza de la Tournelle.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era
+bastante formosa; e<span class="pn">{125}</span> só por vêl-a e ouvil-a ninguem
+podia jámais suppôr as torpezas da sua vida.</p>
+
+<p>Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação
+estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi isso, barão, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe
+até aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem
+singularmente?! </p>
+
+<p>De Quérelles mostrava-se embaraçado. Não sabia como abordar o assumpto pelo
+qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo sem ter dito
+cousa alguma.</p>
+
+<p>Mas M.<sup>me</sup> William é que comprehendia claramente que se elle
+voltara a procural-a após tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no
+seu espirito existia qualquer preocupação grave.</p>
+
+<p>Tinha a impressão de que era preciso manobrar com toda a astucia dos dias
+solemnes e dispunha já em linha de ataque todas as suas baterias. Fez assentar
+o barão n'um sophá, perto d'ella, e interrogou-o sobre os assumptos mais
+extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis estratagemas para
+facilitar a confissão a um penitente, para o obrigar a confessar qualquer
+grande peccado dos que não se ousam contar em voz alta, de que só se fala na
+meia escuridão d'um fim da tarde e fechando os olhos.</p>
+
+<p>Após duas horas de conversação o barão descarregára do coração um grande
+fardo.</p>
+
+<p>A sua confissão fôra completa.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William soubera que Dominique gostava da marqueza de la
+Tournelle, que<span class="pn">{126}</span> elle tinha sido alvo dos desdens
+d'essa dama da aristocracia, que elle desejava vingar-se humilhando a altiva
+fidalga; que era preciso portanto, descobrir á marqueza qualquer amante
+verdadeiro ou falso, fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em bôa
+ordem, algumas excellentes notas de mil francos na sua bolsa.</p>
+
+<p>A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia achar-se em
+frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha ingleza não envolvia nos
+fios da sua teia tão bella presa. Detestava por natureza as mulheres d'um mundo
+superior ao seu, e reservava-lhes as suas mais crueis ciladas.</p>
+
+<p>Começou por encommendar duas soberbas «toilettes» n'uma modista da moda, no
+«boulevard» Haussmann.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pequeno De Quérelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o
+seu coupé, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os
+vestidos que encommendára, serás tu quem pagará a factura como inicio do
+negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade.</p>
+
+<p>Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir emissões
+para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para satisfazeres na caixa
+as obrigações contrahidas.</p>
+
+<p>E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire.
+M.<sup>me</sup> William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua
+ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas queria
+obter dados precisos, exactos, constatados<span class="pn">{127}</span> por
+ella tanto quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança
+e firmeza de pulso.</p>
+
+<p>Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar seriamente,
+no que ella chamava o negocio do barãosinho.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa
+formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o possue,
+trata-se de descobrir quem elle é.</p>
+
+<p>Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a qualquer
+entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A marqueza ama o
+grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o theatro e tem um camarote
+na Opera.</p>
+
+<p>Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.</p>
+
+<p>É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os olhares; e
+d'isso me encarrego eu, M.<sup>me</sup> de la Tournelle!</p>
+
+<p>A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra, elles
+teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos as scenas
+harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações litterarias e
+artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a emoção produzida attinge a
+sua maior intensidade.</p>
+
+<p>O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como
+quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á
+lei commum, doce<span class="pn">{128}</span> lei que ordena áquelles que se
+amam que tudo sintam em commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.</p>
+
+<p>Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de deputado
+republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a marqueza
+frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas comprehendiam que a
+sua ligação era impossivel se não observassem a cada instante a maior
+prudencia.</p>
+
+<p>O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu palacete
+havia readquirido a animação de todos os invernos.</p>
+
+<p>O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse visto a
+conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados,
+afim de vêr ali o seu amante.</p>
+
+<p>Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira,
+escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo os
+oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua actividade, e a
+marqueza era feliz vendo-o assim.</p>
+
+<p>Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella
+apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza todas as
+outras mulheres...</p>
+
+<p>&mdash;Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa
+sublime mulher!<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso
+segredo.</p>
+
+<p>E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle atravez a
+sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota.</p>
+
+<p>Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares, transmitia-lhe
+tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as varetas do seu lindo
+leque beijos discretos.</p>
+
+<p>Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de orchestra
+interrogarem-se.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo
+camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa
+estrella de diamantes?</p>
+
+<p>&mdash;É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor
+informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.</p>
+
+<p>Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...</p>
+
+<p>Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade,
+belleza e espirito.</p>
+
+<p>Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua deliciosa
+amante.</p>
+
+<p>Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos ouvidos
+essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:</p>
+
+<p>&mdash;Amo-te! Amo-te!</p>
+
+<p>Invejava e tinha ciumes de todos os que<span class="pn">{130}</span>
+visitavam o camarote da marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das
+flôres e dos canticos que enchiam o theatro.</p>
+
+<p>As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se
+apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão na
+intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha organisado com
+uma arte consummada.</p>
+
+<p>Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações e
+mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam menos, por
+não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as mesmas emoções, os
+mesmos prazeres.</p>
+
+<p>Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.<sup>me</sup> de la
+Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro do
+pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da sala, chamou
+a attenção da amante.</p>
+
+<p>Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:</p>
+
+<p>&mdash;Que imprudencia!</p>
+
+<p>E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.</p>
+
+<p>Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma
+embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.</p>
+
+<p>Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.<sup>me</sup> William, a
+aranha ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza
+estando só, tinha-se affastado<span class="pn">{131}</span> por alguns minutos
+da frente do camarote.</p>
+
+<p>&mdash;Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse
+comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o?</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William havia já começado a sua sombria tarefa de
+espionagem. Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o
+palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a perplexa. Não
+podera ainda achar um facto preciso, que podesse collocal-a n'uma pista que
+devesse seguir. </p>
+
+<p>Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas suas
+piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu partido uma
+noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin interpellará
+proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da perfeitura da policia.
+Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes infamias dos agentes secretos. O
+sr. Ronquerolle apresentará factos, não baterá ao acaso. Desejamos que o
+ministro seja d'esta vez, um pouco mais feliz do que na sua ultima derrota.»
+</p>
+
+<p>O ministro havia comprehendido a intenção e a ordem fôra revogada, ou fôra
+suspensa por algum tempo a observação secreta de que Ronquerolle era alvo. Este
+não poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus adversarios.</p>
+
+<p>Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as apparencias
+de legitima defeza politica.</p>
+
+<p>Quanto mais penetrava no exame dos<span class="pn">{132}</span> actos e dos
+homens do poder, maior numero de ignominias encontrava.</p>
+
+<p>A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam
+honestos e dignos.</p>
+
+<p>&mdash;De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. Não são
+phrases que é preciso lançar-lhes ao rosto, o que é preciso é cuspir-lhes na
+cara.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William reconheceu a necessidade de realizar uma larga
+entrevista com o barão de Quérelles.</p>
+
+<p>N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleição de deputados
+em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de Ronquerolle, o candidato
+republicano, e a parte que elle proprio tomára nos acontecimentos.</p>
+
+<p>&mdash;Não faço ideia, interrompeu M.<sup>me</sup> William, como seja o
+aspecto d'esse tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e cá fóra,
+e que derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle?</p>
+
+<p>&mdash;É um homem alto e delgado, disse o barão, e elegante como um
+principe. Mas porque me faz essa pergunta?</p>
+
+<p>&mdash;Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando
+uma attitude de denguice.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos
+deputados.</p>
+
+<p>Occupava logar n'uma tribuna não distanciada d'aquella onde M.<sup>me</sup>
+de la Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares,
+deliciando-se com a vista do amante.</p>
+
+<p>A esperta ingleza reparou em que a loura<span class="pn">{133}</span>
+Carlota não desviava os olhos do joven deputado.</p>
+
+<p>&mdash;Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente
+senhora marqueza é necessario que eu vos faça seguir durante os vossos passeios
+atravez a cidade de Paris!</p>
+
+<p>As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se
+alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados uns dos
+outros.</p>
+
+<p>Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas
+reuniões.</p>
+
+<p>Além d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a
+Ronquerolle, de fórma a estabelecer a duvida na espionagem de que podesse ser
+alvo.</p>
+
+<p>Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos é facil fazer falar os
+creados e os cocheiros.</p>
+
+<p>Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita.</p>
+
+<p>Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente
+deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de manhã e
+d'outras vezes á tarde ou á noite.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fóra de
+seu palacete sem se comprometter.</p>
+
+<p>Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia.</p>
+
+<p>Em geral as pessoas que vivem na grande cidade não se occupam dos visinhos.
+</p>
+
+<p>Nas casas habitadas por pessoas de alta posição só se exige uma qualidade
+aos locatarios,<span class="pn">{134}</span> e essa qualidade consiste em não
+fazer ruido nas escadas.</p>
+
+<p>O socego e algumas peças de cinco francos lançadas de tempos a tempos nas
+mãos dos porteiros auxiliam efficazmente os amôres illicitos nos ninhos
+dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos predios teem duas
+entradas, e portanto duas sahidas.</p>
+
+<p>Este systema aperfeiçoado permitte ás pessoas que teem motivos para se
+envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo
+contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das pessôas
+que se occultam nas mysteriosas habitações.</p>
+
+<p>Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para
+n'aquelle jogo de amôr obter todos os trumphos.</p>
+
+<p>De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da mãe commum, a natureza,
+serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida.</p>
+
+<p>Que prodigios de imaginação não teriam os amantes, para se vêrem a miudo.
+</p>
+
+<p>Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas
+preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher casada,
+pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a perdêr, se o
+segredo da sua ligação viesse a ser desvendado.</p>
+
+<p>O marquez de la Tournelle não tinha a menor suspeita sobre a virtude e a
+fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um cão ao dono e nem sequer
+discutia os seus menores caprichos.<span class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de
+devoção, como se ama e se venera uma divindade.</p>
+
+<p>Depois do chéque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos olhos
+da marqueza, porque não seguira os seus conselhos.</p>
+
+<p>Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da frieza
+que sua mulher lhe testemunhava.</p>
+
+<p>Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphára, M.<sup>me</sup> de
+Tournelle apenas permittia ao marido que a beijasse na testa.</p>
+
+<p>Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater á porta do
+quarto de sua mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Sois vós, Sergio? perguntou ella com voz irritada.</p>
+
+<p>E como elle lhe respondesse affirmativamente:</p>
+
+<p>&mdash;Tende paciencia, mas não vos posso attender. Voltae para os vossos
+aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain.</p>
+
+<p>Effectivamente estava vestindo uma elegantissima «toilette» depois de se ter
+perfumado dos pés á cabeça.</p>
+
+<p>Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amôr; mas para
+salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em
+Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por isso,
+para ir cahir nos braços do seu adorado, do seu querido Ronquerolle.</p>
+
+<p>&mdash;Fui eu que errei, dizia Sergio de la<span class="pn">{136}</span>
+Tournelle dirigindo-se para os seus aposentos.</p>
+
+<p>Devia ter escutado os seus conselhos e obedecêr-lhe escrupulosamente... Oh!
+A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa engrenagem?
+</p>
+
+<p>Carlota! Carlota!</p>
+
+<p>Se tu soubesses como eu te amo!</p>
+
+<p>Morreria por ti se m'o ordenasses!</p>
+
+<p>E o desgraçado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua
+esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era
+verdade, que jámais a podia reconquistar.</p>
+
+<p>O pobre marquez devorava a sós o seu profundo desgosto, porque as suas dôres
+eram d'aquellas que não se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um amigo
+intimo.</p>
+
+<p>N'essa noite o marquez de la Tournelle não dormiu.</p>
+
+<p>Ouviu dar todas as horas até ás quatro da madrugada.</p>
+
+<p>A essa hora a marqueza entrava em casa.</p>
+
+<p>Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a porta da
+rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada da escadaria
+abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois tudo voltára á
+tranquilidade e ao silencio.</p>
+
+<p>&mdash;E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que
+acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como uma
+Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse ella me
+acolheria com um sorriso de piedade!<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<p>E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se
+estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza, mordia
+as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.</p>
+
+<p>No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a importancia
+da sua desgraça.</p>
+
+<p>A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso
+«rendez-vous» de amôr.</p>
+
+<p>Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se vagarosamente,
+lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado, sobre uma poltrona.</p>
+
+<p>Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso
+republicano.</p>
+
+<p>E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar
+apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem senão a
+elle.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION009000">IX </a><br>
+</h1>
+
+<p><em>Drama sangrento</em></p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem,
+não podia penetrar nos segredos da vida privada da bella<span
+class="pn">{138}</span> Carlota. Dispunha-se ella a organisar uma espionagem
+especial e astuciosa, quando uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual
+era convidada a apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito
+da policia.</p>
+
+<p>Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o timbre
+da Prefeitura.</p>
+
+<p>No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo que
+chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu gabinete, conforme
+o aviso que lhe enviara, M.<sup>me</sup> William tomou um trem e fez-se
+conduzir para a Prefeitura.</p>
+
+<p>Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla ao
+subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na consciencia
+uma serie de acções más, que suppunha terem sido descobertas, e achava singular
+que a policia viesse metter o nariz nos seus negocios.</p>
+
+<p>Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas
+personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como ella,
+chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.</p>
+
+<p>Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta ergueu-se
+rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete, e passou a um
+gabinete onde esperou apenas um instante.</p>
+
+<p>Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não
+havia reparado.</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro senhor, exclamou logo ella,<span class="pn">{139}</span> é
+extraordinario! Ha sem duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não
+comprehendo que a policia me faça comparecer aqui, obrigando-me a...</p>
+
+<p>E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o
+individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de morte, lhe
+fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Vós sois madame William, disse elle; madame William do «boulevard»
+Malesherbes; não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Effectivamente, respondeu a criminosa mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha
+de serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes a
+fazer por mais tempo concorrencia á Prefeitura de policia, vêr-nos-hêmos
+obrigados a reconduzir-vos á fronteira.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William quiz ainda balbuciar algumas explicações, e tentou
+ainda enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas
+foi trabalho perdido. O homem não se desmanchou e disse-lhe ainda:</p>
+
+<p>&mdash;Madame, sabemos tudo. Não viestes aqui para fazer phrases
+sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia já vol-a dei.
+Fazei por não a esquecerdes.</p>
+
+<p>E, como M.<sup>me</sup> William se erguesse, o homem accrescentou ainda,
+pondo a mão sobre um masso de papeis.</p>
+
+<p>&mdash;Madame, estão aqui documentos que<span class="pn">{140}</span> vos
+dizem respeito. Como vêdes o masso é bastante volumoso. Devo prevenir-vos de
+que estaes sob a vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a
+vossa.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> William regressou á sua habitação fortemente impressionada
+com o que se passára.</p>
+
+<p>Não se entendia já dentro dos acontecimentos.</p>
+
+<p>Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao barão de
+Quérelles, pedindo-lhe para ir vêl-a sem demora.</p>
+
+<p>A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das suas
+pequenas intrigas, mas não soube explicar como tinham esperado tanto tempo para
+a advertirem de que tivesse cuidado nos seus «negocios». Havia annos que ella
+intrigava a sociedade parisiense, e sempre a tinham deixado «trabalhar» á
+vontade. Mas apenas dirigira as suas baterias contra M.<sup>me</sup> de la
+Tournelle logo a policia intervinha no caso. Realmente a maldita Prefeitura
+queria tirar-lhe o pão da bocca. Afinal, pensava M.<sup>me</sup> William,
+aquelle trabalho a que ella se entregava era como outro qualquer; era um meio
+de ganhar a vida «honestamente».</p>
+
+<p>O que se tinha passado, perguntará o leitor, para que a policia se
+intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que velava
+sobre a sua amante, como uma mãe vela pelo seu filho, havia tido a suspeita de
+que a marqueza estava ameaçada d'um grande perigo; e redobrando<span
+class="pn">{141}</span> de vigilancia, havia sabido da existencia de
+M.<sup>me</sup> William.</p>
+
+<p>Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os ataques
+na Camara, do joven deputado, déra immediatamente as ordens mais severas
+relativamente á aranha ingleza tão compromettedôra.</p>
+
+<p>E foi assim que M.<sup>me</sup> de la Tournelle, sem o saber, foi
+desembaraçada d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais
+deploraveis consequencias. </p>
+
+<p>O marquez, porém, começava a sentir algumas suspeitas. Era tão
+desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua
+intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a causa
+unica da repulsão que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a bella Carlota
+fôra mais attrahente e digna de ser adorada.</p>
+
+<p>Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais
+aristocraticos de Saint-Germain, não faltava ás sextas-feiras da Opera, nem a
+uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as interessantes sessões
+parlamentares.</p>
+
+<p>Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes elegantes da
+vida parisiense vêem ali apresentar os seus maravilhosos encantos e as suas
+deliciosas frivolidades.</p>
+
+<p>Nas secções mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle nos
+termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom tom e
+da<span class="pn">{142}</span> verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o
+estandarte da belleza no batalhão das formosas louras.</p>
+
+<p>A sua amiga, M.<sup>me</sup> de Fleurus, era rainha na côrte das morenas.</p>
+
+<p>Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que
+muitas mulheres desejariam possuir.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado,
+por um adoravel e quasi imperceptivel buçosinho.</p>
+
+<p>&mdash;É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas
+vezes sorrindo, para M.<sup>me</sup> de la Tournelle. E devemos tirar todo o
+partido possivel do que a natureza nos concedeu.</p>
+
+<p>Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia
+constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade parisiense. Ella
+bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo os mais fortes e os
+mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir falar nos encantos, na
+elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.</p>
+
+<p>Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.</p>
+
+<p>Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era tambem, o
+seu orgulho.</p>
+
+<p>Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do
+«Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a abraçar o
+mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que haviam redigido
+essas noticias tão simples, mas para elle tão encantadoras, afim de<span
+class="pn">{143}</span> lhes offerecer opiparos jantares na «Maison d'Or», em
+que o Champagne corresse a rôdo.</p>
+
+<p>Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se
+falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção.</p>
+
+<p>Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se a
+sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria esposa, como
+se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos olhos sonhos
+voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel intensidade o tão
+falado supplicio de Tantalo. O divino licôr mostrava-se deante dos seus labios
+febris, mas o marquez não podia mitigar a sêde que o devorava. E não tentava
+sequer aproximar o calice que brilhava como faiscas de diamantes.</p>
+
+<p>Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma corrente
+que cae no fundo d'um precipicio.</p>
+
+<p>Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral que
+quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la Tournelle teria
+falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a replica, e teria arrombado
+sem difficuldade a porta do quarto de dormir onde a marqueza se encerrava
+pretextando a fadiga ou o arranjo da sua toilette.</p>
+
+<p>É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que indicam o
+dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais fechado a porta;
+viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado na<span
+class="pn">{144}</span> fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.</p>
+
+<p>A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela fraqueza. É
+feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal, feroz ou louco, mas
+por uma força intelligente, bella e harmoniosa.</p>
+
+<p>O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe.</p>
+
+<p>Para M.<sup>me</sup> de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com
+elle sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do
+talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava ligada
+ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida, augmentando
+dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação.</p>
+
+<p>O marquez estava preso da maior angustia.</p>
+
+<p>Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu os
+aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de dormir, o seu
+«boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de perfumes. Reinava
+ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do grande mundo, quando acaba de
+se preparar para ir a um baile, a um theatro, ou a uma entrevista de amôr.</p>
+
+<p>Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que
+concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle cahiu
+sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero impossivel de
+descrevêr.</p>
+
+<p>Uma extranha recordação invadiu todo o<span class="pn">{145}</span> seu sêr,
+e lagrimas ardentes queimaram as suas palpebras.</p>
+
+<p>No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre comsigo
+nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin e de
+Saint-Martin para Paris.</p>
+
+<p>Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir.</p>
+
+<p>Veiu até junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava fechado
+á chave.</p>
+
+<p>&mdash;É singular! disse o marquez. Porquê este mysterio?!</p>
+
+<p>E o seu ávido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre.</p>
+
+<p>Poz-se a sacudil-o.</p>
+
+<p>Nenhum som se fez ouvir.</p>
+
+<p>Então a colera atravessou o coração d'aquelle desgraçado homem.</p>
+
+<p>Tomou o cofre entre as duas mãos, acima da altura da cabeça, e lançou-o
+violentamente contra o marmore branco do fogão.</p>
+
+<p>O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle.</p>
+
+<p>O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as
+cartas.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim nos
+segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido, lançava-o de
+encontro ás catastrophes.</p>
+
+<p>Com mão tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha apenas
+alguns versos, e respirou.</p>
+
+<p>A julgar pelo amarellado da tinta, havia já bastante tempo que esses versos
+tinham<span class="pn">{146}</span> sido escriptos. Olhou para a assignatura:
+«Maximo Ronquerolle».</p>
+
+<p>&mdash;O quê, pensou elle, o nome d'esse homem!</p>
+
+<p>Mas é uma infamia! Oh que fatalidade!</p>
+
+<p>A outra carta não continha assignatura.</p>
+
+<p>Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia.</p>
+
+<p>Á medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a
+atravessar-lhe o coração.</p>
+
+<p>Comprehendeu emfim todo o seu infortunio.</p>
+
+<p>Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse
+republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle a quem
+tinham por habito chamar o cidadão Ronquerolle. As duas cartas que haviam
+saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado á sua amante.</p>
+
+<p>Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expressão de amôr.</p>
+
+<p>A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleição, após o
+apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso.</p>
+
+<p>A carta dizia:</p>
+
+<p>«Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sêde bemdita, pois
+haveis secundado os meus esforços, tendo a coragem de me sacrificardes os
+preconceitos da vossa raça, e a vossa posição.</p>
+
+<p>Que hei de eu fazer para chegar até á altura do vosso amôr, que se affirma
+tão poderosamente»!</p>
+
+<p>E mais adeante lia-se: «Que bello destino<span class="pn">{147}</span>
+antevejo, para ti e para mim, deliciosa amante! Ninguem saberá que nos amâmos,
+ninguem advinhará o segredo da nossa paixão...</p>
+
+<p>Amar-nos-hêmos, adorar-nos-hêmos por nós mesmos, e não em obdiencia a tôlas
+convenções sociaes, não por nos conformarmos com pequenas cousas ou interesses
+pueris!»</p>
+
+<p>A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o
+infeliz marquez de la Tournelle.</p>
+
+<p>Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse espirito
+fraco, comprehendêra de quanta magia dispunha sua mulher.</p>
+
+<p>E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia ter
+aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as verdadeiras
+conquistas do amôr.</p>
+
+<p>Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado á sua amante que queimasse os
+seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amôr.</p>
+
+<p>Ella sempre o promettera fazer mas jámais tivera coragem para cumprir a sua
+promessa.</p>
+
+<p>Essas lettras do amante eram para ella deliciosas recordações do inicio dos
+seus amôres, e sentia uma extranha voluptuosidade em relêl-as.</p>
+
+<p>É tão agradavel conservar os objectos que hão acompanhado o nascer e o
+desenvolver d'uma paixão sincera!</p>
+
+<p>As palavras escriptas pela pessôa amada, quer sejam receosas, prudentes,
+conselheiras<span class="pn">{148}</span> ou loucas e irreflectidas; as
+pequenas lembranças ou recordações, um annel um lenço, um livro; uma simples
+flôr que secca mas que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo,
+mesmo na sua pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais
+eloquente testemunha do nosso amôr.</p>
+
+<p>Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que são tudo para quem amou, e que
+não trocaria essas recordações d'um dia, d'uma hora, ou d'um instante feliz na
+sua vida, por uma perola, um diamante, uma corôa, um reino.</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle não daria por um imperio aquelles dois
+papeis escriptos pelo seu amante.</p>
+
+<p>Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle.
+Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria
+Ronquerolle.</p>
+
+<p>Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela sua
+parte, não a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo.</p>
+
+<p>No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas cartas de
+Ronquerolle como um thezouro de alto preço.</p>
+
+<p>O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu
+pensamento.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem! exclamou elle com resolução.</p>
+
+<p>E tornou a collocar as duas cartas no cofre.</p>
+
+<p>O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada.<span
+class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pôl-o no
+mesmo logar onde o encontrára.</p>
+
+<p>Não queria que sua mulher percebesse o que se passára e principalmente que
+elle tinha conhecimento da sua falta.</p>
+
+<p>A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle começou de apparentar
+uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria com satisfação e
+mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados pequenas lembranças.</p>
+
+<p>Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas de
+conversação, teria dito: Que homem tão feliz! E, no emtanto o desgraçado estava
+ferido de morte.</p>
+
+<p>Durante um mez occupou-se em pôr os seus negocios em ordem. Todas as manhãs
+o seu secretario vinha trabalhar com elle.</p>
+
+<p>Algumas dependencias de sua casa, que estavam em más condições foram
+arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez receberam
+a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis.</p>
+
+<p>A marqueza não sabia que pensar do procedimento de seu marido.</p>
+
+<p>Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares
+perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida tratava de
+assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros.</p>
+
+<p>E no emtanto o marquez não tinha no cerebro qualquer projecto definitivo.
+</p>
+
+<p>Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas
+qual?<span class="pn">{150}</span></p>
+
+<p>Não teria podido dizêl-o.</p>
+
+<p>&mdash;Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle?
+Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para quê? É uma loucura. Elle
+está no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella mulher a quem sorriu e
+que se lhe entregou... Eu é que deveria ter feito com que ella me amasse. Devo
+matal-a, a ella, á culpada, ou pôl-a fóra de minha casa? E seria eu menos
+desgraçado, após essas violencias? Não, não. O golpe está dado, a minha vida
+está envenenada e o meu destino traçado.</p>
+
+<p>Não posso confiar a minha dôr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo. Sou eu
+quem deve morrêr!</p>
+
+<p>Ah! Se eu não a amasse!...</p>
+
+<p>E o desgraçado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte.</p>
+
+<p>Era o seu unico refugio.</p>
+
+<p>N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo o
+seu costume, indo a uma «soirée» que dava a sua amiga, M.<sup>me</sup> de
+Fleurus.</p>
+
+<p>Era nos fins de maio. A estação dos bailes e recepções estava a terminar.
+M.<sup>me</sup> de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia, para
+voar para os braços de Ronquerolle.</p>
+
+<p>Estava prestes a deixar os salões da sua amiga, quando esta se aproximou
+d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe áparte, e immediatamente.
+</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de Fleurus estava pallida e a sua apressada respiração
+denotava grande emoção.<span class="pn">{151}</span></p>
+
+<p>&mdash;Minha querida Carlota, disse-lhe ella; é preciso que voltes já a tua
+casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei.</p>
+
+<p>Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido
+encontra-se muito mal... Partamos depressa.</p>
+
+<p>Por sua vez a marqueza se tornou pallida.</p>
+
+<p>Suppoz logo que uma desgraça irreparavel acabava de se passar.</p>
+
+<p>Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma confusão
+enorme.</p>
+
+<p>Á porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos, corriam
+d'um lado para o outro falando e gesticulando.</p>
+
+<p>Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos agentes
+descia pela escadaria principal.</p>
+
+<p>Ao vêr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se
+respeitosamente e ahi mesmo participou a M.<sup>me</sup> de la Tournelle o que
+se passára.</p>
+
+<p>Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do marquez
+tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado entrára nos
+aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrára morto sobre um tapete, no seu
+quarto de dormir. Tinha-se suicidado; não restava duvida.</p>
+
+<p>Na manhã seguinte, Ronquerolle, que em vão esperára pela amante até ás 2
+horas, ao pegar no «Figaro», deparou com estas linhas:</p>
+
+<p>«Á ultima hora acabâmos de receber uma triste noticia:</p>
+
+<p>«O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba<span class="pn">{152}</span> de
+fallecer. Tinha quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem,
+e um amigo dedicado dos principes da casa de França.</p>
+
+<p>O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo
+triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido nas
+ultimas eleições.</p>
+
+<p>A sua morte é atiribuida á ruptura d'uma aneurisma. A marqueza está
+inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam com os
+seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas respeitosas homenagens.»
+</p>
+
+<p>&mdash;Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxalá que esta
+desgraça não venha a recahir tambem sobre ella!</p>
+
+<p>A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente commentada,
+menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era uma das senhoras
+mais conhecidas de mundo parisiense.</p>
+
+<p>Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos olhos do
+publico por ter succumbido á ruptura d'uma aneurisma, como o «Figaro»,
+habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade não guardou menos o
+segredo.</p>
+
+<p>Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas
+precisavam da marqueza e calaram-se.</p>
+
+<p>Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passára. Quando os dois
+amantes se encontraram após a catastrophe e depois dos funeraes do marquez,
+estavam inquietos e tremendo.</p>
+
+<p>Abraçaram-se fechando os olhos, e conservaram-se<span
+class="pn">{153}</span> assim algum tempo sem proferirem uma palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Saberia elle da nossa ligação? perguntou, por fim, Ronquerolle.</p>
+
+<p>«Porque se matou elle?</p>
+
+<p>«Teremos sido nós os culpados d'essa morte?</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu M.<sup>me</sup> de la Tournelle. Meu marido de cousa
+alguma suspeitou.</p>
+
+<p>&mdash;Estás certa d'isso? interrompeu o deputado republicano.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, estou certa, replicou a bella Carlota.</p>
+
+<p>Ronquerolle respirou mais á vontade.</p>
+
+<p>Elle não explicava o suicidio do marquez senão pela descoberta da verdade.
+</p>
+
+<p>M.<sup>me</sup> de Tournelle era sincera, nas suas affirmações.</p>
+
+<p>Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella
+encontrára sobre a sua meza de trabalho.</p>
+
+<p>Essa carta não encerrava a menor reprehensão, qualquer allusão que a podesse
+ferir. Pelo contrario, era ella uma expressão do mais violento amôr.</p>
+
+<p>O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica motivos
+politicos.</p>
+
+<p>Lendo essa carta d'um homem que ao escrevêl-a resolvêra já fazer saltar os
+miolos, Ronquerolle demonstrára um sentimento de piedade.</p>
+
+<p>&mdash;O desgraçado, exclamou elle, não estava á altura da sua missão.
+Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que descance
+em paz.</p>
+
+<p>A marqueza nunca suppoz que seu marido<span class="pn">{154}</span> tinha
+lido as cartas de Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero,
+comprehendendo que nunca seria amado por ella.</p>
+
+<p>Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle tiveram
+conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a sua derrota
+politica.</p>
+
+<p>Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava
+partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado cahir, e
+como encontrára dentro d'elle a poesia e a carta de Ronquerolle, que tanto
+amava, nunca lhe veiu á ideia que se passára em sua casa um grande drama, que
+determinára a morte d'um homem.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0010000"><em>Epilogo</em></a></h1>
+
+<p>Um anno é decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade
+parisiense não se fala d'outra coisa, senão do casamento da marqueza de la
+Tournelle com o deputado Ronquerolle.</p>
+
+<p>O bairro de Saint-Germain considéra como uma escandalosa união a d'uma
+mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado orador, o
+inimigo do throno e do altar.</p>
+
+<p>Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos
+conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram.<span
+class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria
+occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior silencio.
+</p>
+
+<p>Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa união nos seus labios
+brincou um sorriso singular.</p>
+
+<p>Monsenhor acabava de almoçar, e saboreava uma chavena de café tomado a
+pequenos golos, no seu gabinete de trabalho.</p>
+
+<p>O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino
+Moka.</p>
+
+<p>&mdash;Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete
+que ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Nós ali
+estivemos os dois.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza não
+assistiu a esse banquete politico.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não assistiu ao jantar a formosissima Carlota?</p>
+
+<p>E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e em
+voz quasi afflautada.</p>
+
+<p>&mdash;O cidadão Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor,
+retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mão esquerda e
+fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalhão.</p>
+
+<p>O prelado ficou um momento pensativo.</p>
+
+<p>Depois enchendo um calice com finissimo licôr offereceu-o ao seu
+interlocutor e tomou um outro calice para si.</p>
+
+<p>Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e
+levaram-os em seguida aos labios.<span class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo.</p>
+
+<p>&mdash;Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe
+o reino dos céus.</p>
+
+<p>&mdash;E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo.</p>
+
+<p>&mdash;Ella! replicou o travesso vigario, é uma deusa do Olympo, que desceu
+até nós.</p>
+
+<p>Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de Dijon,
+uma outra scena não menos interessante se dava em Paris entre Ronquerolle e os
+seus tres amigos.</p>
+
+<p>Tinham n'essa manhã almoçado juntos em casa do deputado republicano, e
+depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio de
+belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo.</p>
+
+<p>Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordações dos primeiros
+annos da sua mocidade na grande Paris.</p>
+
+<p>Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Café Tabourey,
+onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amôr e de ambição.</p>
+
+<p>Lá estava ainda, esse café attrahente, esse cantinho parisiense tão propicio
+aos homens de lettras e aos poetas.</p>
+
+<p>Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram.</p>
+
+<p>Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro da
+casa, lá estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de copos.</p>
+
+<p>A menina Amelia Dufer, a filha do dono<span class="pn">{157}</span> do
+estabelecimento estava um pouco mais nutrida.</p>
+
+<p>Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar o
+café.</p>
+
+<p>A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou estabelecidos e
+elle precisava descançar. A edade assim lh'o exigia.</p>
+
+<p>Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios de
+melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta:</p>
+
+<p>«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.»</p>
+
+<p>Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da
+adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem fama,
+tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel orgulho. Que
+de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados áquella meza,
+sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo versos, imaginando
+romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas vezes a todos reanimava e
+que d'outras se desesperava sentindo-se tambem vencido pela adversidade. Como
+parecia que esse tempo já ia longe!</p>
+
+<p>&mdash;Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os
+nervos, vamos.</p>
+
+<p>«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao pescoço
+e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!</p>
+
+<p>«Merecem bem que as recordêmos, essas<span class="pn">{158}</span> loucas,
+mas lindas e alegres companheiras dos tempos que não voltam.»</p>
+
+<p>Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.</p>
+
+<p>Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.</p>
+
+<p>Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal rapido
+aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para onde a desviára
+Maupertuis.</p>
+
+<p>Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para os
+seus amigos:</p>
+
+<p>&mdash;Acompanhem-me.</p>
+
+<p>E encaminhou-os para o cemiterio do Père-Lachaise, até junto do tumulo da
+infeliz Emilia.</p>
+
+<p>O excellente rapaz não podia evocar os dias da sua primeira mocidade, sem
+pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que morrêra por
+elle.</p>
+
+<p>Quando essa lembrança lhe invadia o cerebro, o coração soffria e Ronquerolle
+sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava.</p>
+
+<p>Avançou sósinho até ao tumulo da sua amante.</p>
+
+<p>Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia.</p>
+
+<p>Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali se
+conservou algum tempo, como que petrificado.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre creança, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida
+pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida.<span
+class="pn">{159}</span> </p>
+
+<p>«A primeira dôr quebrou o teu debil coração; os rigôres do destino hão
+encontrado em ti uma presa facil.</p>
+
+<p>«Como tu me adoraste!</p>
+
+<p>«Ah! Tinhas razão quando no teu leito de agonia, me disseste que eu nunca te
+poderia esquecer.</p>
+
+<p>«Tu foste a poesia e a flôr da minha juventude e viverás eternamente no meu
+pensamento.»</p>
+
+<p>Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o marmore
+da lapide tumular:</p>
+
+<blockquote>
+ Appareces-me sempre, oh candida Visão!<br>
+ E choro-te saudoso, oh minha Primavera!<br>
+ Se não soffrêra assim seria ingratidão.<br>
+ Furtar-te á morte, amôr, eu bem quizéra,<br>
+ Mas sempre viverás na minha adoração. </blockquote>
+
+<p>Muito tempo ainda decorreu.</p>
+
+<p>Branche, Didier e Maupertuis, começaram a inquietar-se.</p>
+
+<p>&mdash;É preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dôr pode matal-o.</p>
+
+<p>Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um braço, afastou-o d'ali.
+Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creança. Pararam depois um instante nas
+immediações do Père-Lachaise e d'ali contemplaram Paris que se desenrolava
+deante d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desçâmos ao
+turbilhão, e esqueçâmos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa obra de
+justiça... A nós a fortuna e a gloria! A nós a vida!</p>
+
+<p>Ronquerolle apertou a mão do seu companheiro de luctas e sorriu
+tristemente.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na immensa
+cidade, na grande capital.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Em cada anno, pelo começo do mez de agôsto, se vê chegar ao lago de Côme um
+par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de cascatas
+emolduradas de flôres. Dir-se-hia que se trata de dois namorados que fugiram de
+casa de seus paes, e que ali se occultam, para furtarem a sua alegria e o seu
+amôr a olhares indiscretos. Nunca dois entes mais sympathicos pela harmonia da
+sua mocidade, appareceram por aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo
+do lago, volta-se a gente para os admirar na sua encantadora marcha.</p>
+
+<p>Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas.</p>
+
+<p>Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que hão conquistado
+a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae essas felizes
+creaturas!</p>
+
+<p>É a marqueza de la Tournelle que passa pelo braço do seu adorado e
+apaixonado marido, o deputado Ronquerolle.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{161}</span></p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO ***
+
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+
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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