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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:54:49 -0700 |
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Ferreira + +Release Date: January 12, 2010 [EBook #30946] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +IV--Colecção Diamante + +HIPOLITO BUFFENOIR + +Amôres d'um deputado + +Guimarães & C.ª editores--Lisboa + + +Amôres d'um deputado + + +_Composto e imprenso na Imprensa +de Manuel Lucas Torres +Rua do Diario de Noticias, 93_ + + + + +COLECÇÃO DIAMANTE + + +_Hipolito Buffenoir_ + + +Amôres d'um deputado + + +_Trad. de A. Ferreira_ + + +1911 +Guimarães & C.ª--Editores +68, R. do Mundo, 70 +LISBOA + + + + +I + +_O café Tabourey_ + + +--Paga oito «sous»! gritou Carlos, o moço do café Tabourey, dirigindo-se +á menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento, exercendo o +logar de «caixa», e acompanhando o grito do lançamento d'uma moeda de +cincoenta centimos sobre o marmore d'um pequeno balcão. + +A rapariga guardou a moeda e deu-lhe o troco de dois «sous», que Carlos +fez cahir sobre uma meza do fundo onde um freguez se achava escrevendo +uma carta. + +--Oito e dois dez! resmungou o moço do botequim, tirando um prato e uma +chavena que se achavam sobre a meza. + +--Está bem, guarda o resto para ti! retorquiu suave e tristemente o +freguez, mal erguendo os olhos da carta que estava terminando. + +O relogio collocado quasi junto do tecto da casa, embutido mesmo nos +ornatos da cimalha marcava dez horas e vinte e cinco minutos e o +freguez do café Tabourey olhando-o, melancholicamente, suspirou e pensou: + +--Decididamente, não veem esta noite; levanto a sessão! + +Ainda se demorou alguns minutos procurando na meza do centro, entre um +monte de jornaes, o «Soir» e não o encontrando, dirigiu-se á menina +Amelia Dufer, entregando-lhe a carta que acabava de escrever. + +--Se esses senhores vierem, a menina faz-me o favor de entregar esta +carta a Maupertuis, sim? + +--Com todo o gosto, sr. Ronquerolle, respondeu, amavelmente, a joven +Amelia, esboçando um gracioso sorriso, completamente perdido, porque o +seu interlocutor havia já desapparecido na rua Vaugirard. + +N'aquella noite, Ronquerolle, que se sentira invadido por um +aborrecimento maior que de costume, tomara uma importante resolução. +Decidira voltar á sua terra natal, ha tanto tempo esquecida, e a carta +que elle entregara á menina Amelia Dufer, ao sahir do café Tabourey, +dizia o seguinte: + + «Meus amigos: + +Porque não vieram esta noite? Esperei-os durante muito tempo. Tenho +necessidade de os ver. Vou partir para a Borgonha. + +«Estou cheio de tristeza. + + «Vosso amigo, + + «Maximo Ronquerolle». + +Ás onze horas, os amigos de Ronquerolle aos quaes aquella carta era +dirigida e que, após o jantar tinham resolvido dar um passeio pelos +«boulevards» voltavam ao Bairro Latino, entrando no seu café predilecto, +pensando, e com razão, que Ronquerolle, se já ali não estivesse, lhes +teria deixado o que elles vulgarmente chamavam as suas «instrucções». + +Entretanto, o que mais desejavam era vel-o porque tinham a dar-lhe uma +importante noticia. + +Estes rapazes chamavam-se Jayme Maupertuis, Feliciano Didier e Emilio +Branche. Eram, como Maximo Ronquerolle, poetas, jornalistas e politicos. +Pobres, quasi desconhecidos, procuravam ser alguma coisa e para esse fim +corriam em busca da fortuna e da gloria. Todos os quatro eram republicanos. + +Tinham feito excellentes estudos na provincia, e aos vinte e vinte e +cinco annos haviam partido para Paris, com grandes receios das suas +familias, que os consideravam perdidos, no movimento e confusão da +grande capital. + +Socegados na apparencia, eram quatro enthusiastas. A imaginação junta a +uma clara intelligencia, eram as qualidades predominantes de todos elles. + +A sua conducta era irreprehensivel. A amizade que os unia era profunda. +Estimavam-se, adoravam-se mutuamente. + +Ronquerolle e Maupertuis tinham-se conhecido na provincia, na sua terra +natal, na Borgonha. Travando relações, de creanças, aos quinze annos, +durante os dez que se seguiram tinham-se perdido de vista até que se +haviam reencontrado em Paris, graças á «Revue des Poétes», que publicava +versos de ambos. + +Didier e Branche eram do norte. Viviam como dois irmãos. Uma bella +manhã, juntos haviam deixado Lille, e juraram á sua entrada em Paris, de +sempre ahi continuarem a viver juntos e de juntos tambem seguirem a +carreira, que a sorte a qualquer d'elles deparasse. + +Hospedados no hotel «Lisbonne» da rua Vaugirard, em pleno Bairro Latino, +ali encontraram á mesma meza, Ronquerolle e Maupertuis. Uma grande +sympathia se estabeleceu rapidamente entre esses quatro rapazes, que em +poucos minutos comprehenderam que os movia o mesmo pensamento, a ambição +e o desejo vehemente d'uma absoluta independencia. + +Na occasião em que o leitor trava conhecimento com os quatro mancebos, +conheciam-se elles ha dois annos. Os primeiros tempos da sua franca e +leal camaradagem, tinham sido encantadores. Haviam comunicado os seus +pensamentos, os seus projectos de futuro, enthusiasmando-se mutuamente, +lendo os seus versos e conversando sobre os seus amôres, pois que cada +um d'elles tinha a sua amante. + +Chegados ao café os tres amigos de Ronquerolle, receberam a carta que +este ali lhes deixara encarregando-se da sua leitura Maupertuis, que do +seu contheudo deu conhecimento aos seus companheiros Didier e Branche. + +--Vamos depressa! disse Branche, que tinha por Maximo uma verdadeira +adoração. + +Um quarto de hora depois, os quatro amigos achavam-se reunidos em casa +de Maximo Ronquerolle, que habitava no «boulevard» Montparnasse. + +--Já sabes da novidade? perguntou Maupertuis. + +--Qual novidade?! disse Ronquerolle surprehendido. + +--Sahiu o decreto. + +--Um decreto!? + +--Pergunta a Didier e a Branche! + +--É verdade! ajuntaram estes. + +--Trouxe-te o numero do «Soir», que trata do assumpto, disse Branche. +Aqui tens, lê, nas ultimas noticias. + +Com effeito Ronquerolle leu um decreto do Presidente da Republica, +convocando os eleitores para reunirem em 15 de julho. + +Ronquerolle, pallido de commoção, conservou-se um momento ancioso. + +É que elle sabia que aquella data, marcada para as eleições de +deputados, poderia ter grande importancia na sua vida. Para elle esse +dia seria decisivo, na sua existencia, d'aquelles cuja aproximação faz +tremer o homem mais corajoso, causando-lhe calafrios. + +--E então, que me dizes do decreto? perguntou Maupertuis. + +--Digo-te, respondeu Ronquerolle, que elle me indica, que tenho a +dizer-lhes coisas muito graves. Assentem-se que temos que conversar. + +Os trez amigos de Maximo acceitaram o convite e emquanto Ronquerolle foi +buscar uns papeis guardados n'um movel proximo, esperaram anciosos que +elle falasse. + +De volta para junto da mesa perto da qual se achavam os seus amigos +Ronquerolle lançou os papeis sobre a sua secretaria e aproximando o seu +candieiro de trabalho e tomando uma cadeira, disse rindo: + +--Está aberta a sessão! + +Então Ronquerolle contou aos seus amigos que havia algum tempo estava em +relações com o «comité» republicano de Saint-Martin, na Borgonha; que os +membros d'esse «comité» lhe tinham offerecido a candidatura por aquelle +districto, e que elle havia demorado a resposta até ao dia em que o +decreto relativo ás eleições fosse publicado. + +--Explendido! gritaram ao mesmo tempo os trez amigos. Bello! O decreto +sahiu. Não ha que hesitar, acceitas! + +--Mas eu hesito ainda; e se lhes pedi para virem aqui esta noite, foi na +intenção de lhes falar d'este negocio e de lhes pedir conselho. + +E Ronquerolle tornou conhecidos dos seus amigos os documentos relativos +á futura eleição por Saint-Martin. Tratava-se de lutar, em nome da +Republica, contra o marquez de la Tournelle, que representava ali as +ideias reaccionarias, e que seria approvado por todos os fanaticos do +throno e do altar. + +--Mas isso é encantador, exclamou Maupertuis, farás desapparecer o tal +marquez como uma simples bolinha de prestidigitador; e entrarás na +Camara como uma bala de canhão. + +--Não me embriaguem com palavras, disse Ronquerolle desenhando-se-lhe +no rosto uma nuvem de tristeza. Não vá eu contar com a victoria e me +aguardem as desillusões. A lucta será encarniçada, terrivel. O marquez +possue influencia, é rico, pode vencer... + +--Ora adeus! interrompeu Didier. Todo o districto de Saint-Martin se +impressionará com a tua embriagadora eloquencia, inflamarás todas as +intelligencias com os teus discursos, e no dia da votação, o teu nome +victorioso sahirá das urnas. + +--E depois, accrescentou Branche, que amava mais Ronquerolle do que a um +irmão, tu imaginas que vamos deixar-te combater sósinho?! Reclamamos +tambem a nossa parte na lucta; proponho que partamos comtigo para a +Borgonha, tomando a cidade de Saint-Martin, como nosso quartel-general, +da qual faremos fogo, de quatro barricadas, afim de reduzir á expressão +mais simples sua excellencia o marquez de la Tournelle e todas as jovens +e velhas devotas, que, estou certo, correm já por montes e valles +trabalhando a favor da candidatura de tão alta personagem! + +Uma formidavel gargalhada saudou a arrogante phrase de Emilio Branche, e +o proprio Ronquerolle foi obrigado a acompanhal-a olhando o seu amigo. + +Depois de duas horas de discussão, ora calma ora ruidosa, ficou decidido +que Ronquerolle acceitaria a candidatura que lhe era offerecida, que +Branche, Didier e Maupertuis deixariam Paris durante o periodo +eleitoral, e que iriam a Saint-Martin auxiliar o seu amigo, e que, sendo +necessario fundariam um jornal de combate. + +Ronquerolle mais pallido ainda que do costume, estremecia de satisfação +ao pensar que o seu nome ia sahir da obscuridade, e que ia achar-se +envolvido nas luctas politicas do seu paiz. Assaltava-o já o desejo, de +se encontrar, elle, filho d'um humilde artista borgonhez, em frente +d'esse arrogante marquez de la Tournelle, provando-lhe que os filhos dos +proletarios tinham mais sangue nas veias, que os filhos e os netos dos +emigrados de Coblentz, entrados em França nos carros de mercadorias do +estrangeiro. + +Provava assim possuir o legitimo orgulho dos homens seguros da sua +consciencia e do seu valor e o desejo de ajudar generosamente os seus +amigos, fazendo-os saltar os obstaculos, que os impediam de obter uma +posição que lhes permitisse chegarem até onde a sua justa ambição os +attrahia. + +Não era só por si que Ronquerolle ambicionava uma situação, era por +Maupertuis, Branche e Didier. O primeiro a chegar ao ponto desejado +devia estender a mão aos outros, e, decerto, não era Ronquerolle dos que +poderia esquecer os companheiros dos dias difficeis da mocidade. + +Era uma hora da manhã quando os quatro rapazes se separaram. + +Encontrando-se no «boulevard» Montparnasse, os amigos do poeta, +preocupados com os acontecimentos que iriam dar-se, guardaram silencio. + +A noite estava magnifica. Uma brisa suave trazia á grande cidade os +vivificantes perfumes dos bosques de Ville-d'Avray, de Sèvres, de Meudon +e de Clamart. Alguns trens percorriam ainda os arruamentos e só +elles turbavam o socego d'aquelle bairro de Paris. + +Chegados á encruzilhada do Observatorio, Maupertuis, Didier e Branche +voltaram a conversar animadamente. + +Intimamente, porém, sentiam-se tristes. + +--Uma nova existencia vae começar para nós, disse Maupertuis, uma vida +de discordias, de combates, de lucta. Podemos dizer adeus á bella +tranquilidade dos nossos vinte annos! + +--E o que faremos das nossas amantes? acrescentou subitamente Didier. + +--Daremos a liberdade a essas gentis avesitas, disse Branche, e não as +lamentemos que ellas saberão orientar-se no paiz do amôr. Voces bem +comprehendem, que não podemos preocupar-nos com saias durante o periodo +eleitoral. + +--Poderiamos talvez, interrompeu Maupertuis, envial-as para casa de seus +paes! + +--Tu falas bem! tornou Branche; infelizmente ignoramos a sua morada. + +--Porém, Ronquerolle, accrescentou Maupertuis, não poderá, tão +facilmente como nós, desfazer-se da sua amante. Trata-se d'uma ligação +séria. O que será de Emilia sem elle? + +--Meus filhos, disse Branche com ares paternaes, guardemos para amanhã a +continuação da palestra, e vamos deitar-nos. A discussão fica suspensa. + +E os trez amigos separaram-se. + +Entretanto Ronquerolle, após a sahida dos seus amigos, encontrando-se no +seu modesto gabinete de trabalho apressou-se a tomar algumas notas, +sobre o que se passava, e entrou no seu quarto. + +Julgando encontrar a amante adormecida, avançou com precaução para não a +despertar. Qual não foi porém o seu espanto, quando a encontrou +embrulhada n'um «robe de chambre», sentada n'uma cadeira e chorando +copiosamente. + +--Que tens tu? disse Ronquerolle, aproximando-se e tomando-a nos braços. + +A pobre rapariga soluçava perdidamente, e não podia articular palavra. + +Comtudo, como o amante a enchia de perguntas e a envolvia em caricias, +acabou por dizer-lhe que tinha ouvido toda a conversação que elle tivera +com os seus amigos, e que bem reconhecia que a legitima ambição de +Ronquerolle, era uma ameaça á sua felicidade, que seria a separação de +ambos, para sempre talvez. + +E essa incerteza, era terrivel para ella, que apenas podia receiar e +chorar. + +--Creança, disse ternamente Ronquerolle, porque duvidas de meu carinho? +Não sou o teu amante, o teu melhor amigo? Por ventura, depois de trez +annos, que vivemos juntos, alguma vez te menti, te enganei, te abandonei +um dia, uma hora?... + +Tentava animal-a, mas a duvida e o receio haviam ferido a alma sensivel +da pobre Emilia, e tornar-se-hiam mais vivos á medida que se fossem +desenrolando os acontecimentos, que tão fortemente interessavam a +Ronquerolle. + +A amante do novo candidato a deputado, era uma rapariga de vinte e trez +annos, de cabellos louros, olhos azues, d'um azul encantador, figura +insinuante, bem talhada, seio proeminente mas sem exageração. + +Adorava a Ronquerolle a encantadora Emilinha. + +Tinham-se conhecido por forma um tanto ou quanto original. + +Haviam frequentado ambos o curso d'um professor celebre da Sorbonne. + +A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha, á qual os seus +parentes, que viviam na provincia, a tinham confiado. + +Os amôres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham começado +com o aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim +do Luxembourg. + +Que de encantadores passeios não realizaram Ronquerolle e a linda +rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Médicis! + +Que de ternas discussões elles não prolongaram percorrendo a Avenida do +Observatorio! + +Que de alegres pensamentos, não os assaltaram ao atravessarem o +arvoredo, por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de +marmore, onde ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus +projectos, dos seus sonhos de felicidade! + +Toda a força da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de +vida, perpassava por elles. + +Um dia juntaram-se as mãos e apertaram-se com transporte. Depois, +Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e +finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no proprio +dia em que elle, eloquentemente, dissertava sobre os encantos dos amôres +platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia á sua habitação e fazia da pobre +pequena sua amante. + +Desgostos, inquietações e lagrimas tinham já acompanhado essa ligação +durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle +e de Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as +angustias da pobreza, os tormentos da ambição, e as calumnias dos vis e +dos preversos. + +Agora porém Emilia, conforme avançavam os dias e os mezes, sentia +avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por +circunstancias imperiosas, a deixar o amante. + +Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como +Ronquerolle seria envolvido no turbilhão do mundo, que a sua ambição o +prenderia completamente, e que ella, pobre flôr colhida de passagem, no +caminho da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada á sua +dôr, ao seu desespero. + +Empallidecia e estremecia de commoção quando ao passar por uma egreja, +via descêr, ou subir, para uma carruagem uma noiva toda casta e +lindamente vestida de branco, coroada de flôres de larangeira. Tambem á +pobre Emilia seria grato, transpor assim as naves do templo, e ali +receber o sagrado annel de casamento. + +Ronquerolle podia esposal-a, é verdade, a mais ninguem ella havia +pertencido. Para elle era ella uma mulher honesta; para elle devia +ella ser digna de usar o seu nome. + +Por vezes ella tinha a illusão de que a sua ligação seria santificada, +mas pouco depois o seu intelligente espirito abraçava tristes ideias e +tinha então o presentimento do futuro, glorioso para Ronquerolle, +obscuro e desgraçado para ella. E esse devotado coração de mulher, +verdadeiramente amante, preparava-se já para o sacrificio, em favor +d'aquelle a quem tanto amava. + +Emilia tinha ouvido toda a conversação de Ronquerolle com os seus amigos +Maupertuis, Didier e Branche. Soubera que o amante ia deixar Paris, +partindo para a Borgonha, e o seu coração palpitara com mais força, com +violencia. + +Tinha visto com as mais sombrias côres o futuro que a sorte lhe +reservava e por isso chorava. + +--Não chores assim, supplico-te! disse-lhe Ronquerolle, olhando-a +ternamente. Commoves-me profundamente com as tuas lagrimas. O que pode +affligir-te assim?! + +--Julgavas-me adormecida e no entanto eu estava acordada, respondeu Emilia. + +Conheço os teus projectos e os dos teus amigos. Ouvi o que disseram ha +pouco. + +O que te causa tanta alegria, entristece-me, porque é o fim d'esta nossa +ligação que surjirá dos acontecimentos aos quaes vaes entregar todos os +teus pensamentos, a tua existencia. + +--Creança! retorquiu Ronquerolle, pois é esse o motivo da tua tristeza e +das tuas lagrimas! Tu bem sabes que nunca te abandonarei! Vamos, socega! + +Pensa na tua bella mocidade: e dize bem alto que te amo e que te hei +de amar sempre com toda a força do meu coração! + +Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convicção, abrandaram um +pouco as inquietações de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem +de amargura e de pezar. + +Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua +poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos, +realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraçar, que, a +todo o custo, precisava vencer. + +A amante cançada por fim das commoções soffridas, adormecera. E elle, +sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e á luz, d'uma +lampada, tendo a cabeça encostada ás mãos, parecia recolhido n'uma +dolorosa meditação. O seu olhar brilhava e não mudava de direcção +Relembrava as palavras do grande poeta inglez Shelley; + +«O mundo é feio e mau.» Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de +Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos +cidadãos, aos trabalhadores, aos homems do campo. + +N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a +amante adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado +do amante. Transportes d'amôr enchiam então o coração do joven +republicano e pensava, recordando ainda Shelley: + +«Não, não! Nem tudo é feio! Nem tudo é mau n'este mundo! Tomo por +testemunha esta creança, que dorme aqui perto de mim, este seio que se +eleva e abaixa, respirando vida, estes bellos cabellos louros soltos +lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada dão reflexos dourados... + + + + +II + +_O marquez e a marqueza de Tournelle_ + + +A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil +habitantes. É uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares +de praça forte, com as suas antigas muralhas, a sua guarnição e +sobretudo pelo seu velho castello, dominando a cidade e recordando os +tempos do feudalismo. Este castello é habitado desde tempos immemoriaes +pela familia «de la Tournelle», que tem nos seus brazões a corôa de +marquez. + +Os «de la Tournelle», durante muito tempo, foram os senhores da região. +No tempo da Revolução, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder +decahiu muitissimo; porém quando Bonaparte se apoderou do throno e se +fez imperador, readquiriram o seu antigo prestigio, graças ás habeis +generosidades diffundidas na região e mais especialmente na +circunscripção de Saint-Martin. + +No momento em que se desenrolam os factos que relatamos, o marquez +Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta +circunscripção de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe +pertencia. «Maire» da cidade, conselheiro geral e deputado da direita, +não poderia affrontar os seus inimigos? + +Além d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de +republicanos que se agitava na sua circunscripção. Chamava a esses +bravos democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para +Cayenna, canalha sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e +insultando os padres. + +No entanto, as ultimas eleições municipaes tinham mandado trez d'estes +«assassinos» a tomar o seu logar na «mairie», ao lado do sr. marquez, e +o senhor «de la Tournelle» tinha d'isso um vivo despeito. + +A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma +mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos, +sendo mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo +sempre a cabeça arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente +desenvolvido nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura. +Os cabellos castanhos claros, os olhos azues, as mãos finas com os dedos +alongados, os pequeninos pés, completavam o arsenal das suas graças +femininas. Além d'isso, amava os perfumes, a «toilette» e dava leis ás +grandes elegantes como as adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era +amavel para todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos. + +Finalmente, não se poderia vêl-a sem logo a amar. A bella Carlota não +tinha um inimigo, exceptuando talvez o barão de Quérelles, um +conquistador desprezado, que tinha jurado não morrer sem se vingar dos +desdens da altiva aristocrata. O barão vinha rarissimas vezes a +Saint-Martin, mas estava ao corrente de todos os acontecimentos da +pequena cidade. + +A marqueza tinha no coração, ou antes na cabeça, uma paixão deveras rara +entre as mulheres. Era ambiciosa. + +Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o +prestigio superior da vontade e da energia. Porém o marquez «de la +Toumelle» pertencia á raça dos mediocres, terminando a marqueza por ter +compaixão d'elle. O marquez era um bello homem, muito elegante no seu +porte, muito bom cavalleiro, bom valsista, bom caçador, conversador +agradavel ainda que futil, mas incapaz de empregar, por seu proprio +esforço, a actividade necessaria, e de seguir a um fim com tenacidade. +Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma grande confiança +em sua mulher e não tomava qualquer resolução sem a consultar. Elle era +só quem dispunha dos altos cargos da circunscripção, só elle se +offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a +victoria? Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um +jornal, tendo ás suas ordens um «comité» das pessoas mais elevadas da +cidade, batia o seu concorrente completamente, se acaso um se +apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia tão tolo +que contra elle aceitasse uma candidatura. + +--Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu +castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu +«comité»: Elles que nada teem, que são pobres como Job, fallam em ser +senhores! Pois bem! onde está o seu candidato? Que appareça! Vamos, +mostrae-m'o raça de biltres! + +Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braços no espaço, +ameaçando com um gesto o café da «Poule-Blanche», logar da reunião +habitual dos republicanos de Saint-Martin. + +A noite cahia lentamente. Lá em baixo, um ultimo raio de sol dourava +melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que +enervam a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos, +as aldeias perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade +insaciavel lhe subiam ao coração ao pensar que o seu nome dominava na +região, como as torres do seu castello dominavam as choupanas da +visinhança. Um sorriso de satisfação lhe animou o rosto e teve palavras +d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando estava completamente +absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu creado de quarto, +Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que acabavam de +chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia o +«Figaro» e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as +noticias dos departamentos e das eleições. Os seus olhos cairam +immediatamente sobre estas palavras em normando: *Borgonha*, +«circunscripção de Saint-Martin.» + +Leu soffregamente a seguinte noticia: + +«Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois «candidatos se propõem por +aquelle circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado, +representando o partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle +publicista, candidato do «comité» republicano. A lucta, diz-se, será +violenta. Temos, porém, todas as razões para acreditar que «o sr. +Marquez de «la Tournelle» baterá o seu adversario.» + +--Ah! ah! ah! riu o marquez; a graça não está má. + +Em seguida, dirigindo-se á galeria, chamou muitos dos seus amigos que +estavam no salão e leu-lhes a noticia que acabava de ler no «Figaro». + +--Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do «comité» realista, esse +Ronquerolle ousa apresentar-se aqui! É um homem sem valor, escoria de +Paris, um revolucionario, um escrevinhador. Conhecêmol-o creança a esse +senhor! Usava uma blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam... + +--Não, disse o marquez, tornando-se sério, o pae Ronquerolle era pobre, +mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos +fieis eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e +fui eu quem em tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem +recompensado! O creançola cresceu e é elle quem nos vae dar combate, +meus senhores! + +--Mas não é um adversario sério, replicou o conde d'Orgefin; é uma +creancice! Quem é o senhor Maximo Rouquerolle? Não existe. Os +republicanos de Saint-Martin deviam pelo menos oppôr-nos um homem de +valor e não um fedelho, um ninguem, um cidadão Ronquerolle! + +Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta +scena, esperando ordens do seu senhor. + +--Está bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes +senhores sairemos hoje para fóra da cidade, para Sennevel... Ah! espera, +Lapierre, leva o «Figaro» á senhora marqueza. O criado tomou o jornal e +retirou depois de saudar o marquez. + +--Pobre Maximo! murmurava por entre os dentes, atravessando um corredor, +como estes tratantes te tratam! Está descançado, que eu te ajudarei com +as minhas fôrças a destruir esta nobreza. E isto simplesmente porque +outr'ora fômos camaradas na escola... + +Lapierre foi interrompido no seu monologo pela campainha electrica. Ao +mesmo tempo, a marqueza atravessava a galeria que confinava com a escada +d'honra do castello. Ia passear um pouco pelo jardim antes que a noite +descesse completamente. O criado entregou-lhe o jornal. Apenas o abriu +os seus olhos cairam sobre a nota relativa á eleição de Saint-Martin. + +Ao lêr o nome de Maximo Ronquerolle, publicista, a marqueza +empallideceu, murmurando: + +--Meu Deus! seria elle? será possivel: Sim, sim, chama-se Maximo, como +eu Maximiliana, recordo-me. É elle que vae chegar? + +A commoção da marqueza era tão forte, que as suas mãos finas se +humedeceram, como se tivesse febre; em logar de ir passear, como +tencionava, no jardim, voltou aos seus aposentos onde se deixou cair +n'um «fauteuil». + +Passado um instante, levantou-se sem fazer ruido e offegante, como uma +criminosa, temendo que qualquer dos seus criados a viesse surprehender, +abriu uma pequena secretaria e tomou um cofre de que só ella possuia a +chave, indo sentar-se junto da janella. A tarde tinha caido +completamente. Um ultimo raio, como diz André Chenier, animava ainda o +fim da tarde, mas as trevas do crepusculo invadiam toda a natureza. A +marqueza affastou as cortinas da janella; á luz do ultimo raio de sol +que desapparecia, pôde reler uma carta que estava no cofre e que tinha +esta assignatura: «Maximo Ronquerolle.» + +Era uma carta d'amôr e d'amôr apaixonado. Os versos misturavam-se com a +prosa e o signatario falava d'uma tarde, d'um baile parisiense onde +tinha dançado com madame de la Tournelle... + +«Oh! porque vos vi eu? dizia a carta. Porque senti eu bater o vosso +peito junto ao meu n'esse baile onde me levou o destino, esse Deus do +mundo, segundo o pensamento de Schiller? Penso constantemente em +vós, é a saudade por vós que me alenta. Não vivo, não aspiro senão á +vossa belleza». + +Depois, impellido pelo lyrismo da sua paixão, Ronquerolle, ia até á +intimidade da marqueza, cantando a sua formosura hellenica em estrophes +d'oiro. + +Os seus lindos olhos azues o seu porte altivo e distincto d'uma plastica +impecavel, o seu amôr ardente, tudo alli cantava em arrobos d'amôr e +d'enthusiasmo. + +M.me de «la Tournelle» teve um estremecimento ao lêr de novo esses +versos. Com effeito, lembrava-se d'um rapaz com quem uma vez tinha +dançado, havia quatro anos e que, no dia seguinte, ousara escrevêr-lhe, +fazendo-lhe uma declaração d'amôr ardente... Porque guardara ella essa +carta que a podia comprometter? Porque a não rasgara e lançára ao fogo +como fizera a tantas outras produzidas pela sua belleza explendorosa? +Porque tremia, ao lêr de novo uns versos, escriptos outr'ora por um +desconhecido que perdêra de vista no grande mar da vida parisiense? + +Mysterios do coração que nem mesmo os grandes sabios descobrem. + +Enigmas do sentimento que zombam das investigações mais cuidadosas. +Talvez, no fundo da sua alma, a bella Carlota sentisse uma alegria +intima, e como que occulta, de ter inspirado uma paixão tão violenta e +tão sincera como a que sentia Ronquerolle! Talvez que os versos do joven +poeta, com o seu rythmo harmonioso, lhe recordassem o doce encanto d'uma +valsa preferida! Talvez que a audacia de Ronquerolle lhe não tivesse +desagradado, e admirasse a sua temeridade corajosa, o enthusiasmo da sua +juventude! + +A noite espalhava-se por toda a parte e ella ficara recostada no seu +«fauteuil», com a luz apagada. + +A escuridão favorecia o seu sonho e, apertando entre as mãos a carta, +murmurava, distraida, os versos de Ronquerolle. + +E era elle, esse terrivel democrata, cuja canditadura os jornaes +anunciavam em opposição á de seu marido! Era elle que vinha á +circumscripção de Saint-Martin arvorar a bandeira da Republica contra a +nobreza contra a sua raça, contra a sua familia, contra ella mesma? + +Ia voltar a vêl-o e a fallar d'elle a cada momento! + +--Meu Deus! Meu Deus! dizia, que singular aventura. Se meu marido +soubesse! Mas porque estou eu assim perturbada? Quem é, afinal, esse sr. +Ronquerolle? + +Guardou de novo e com cuidado a carta amorosa no cofre que fechou em +seguida, e que foi encerrar n'um dos esconderijos mais occultos da +secretaria. + +N'esta occasião, o marquez de «la Tournelle» voltava do logar de +Senneval aonde tinha ido levar a nova da candidatura republicana a um +amigo da sua familia. Acompanhavam-o conde d'Orgefin e os srs. de +Trimolet e de Nipostte, pessoas da mais alta distinção na cidade e em +todo o departamento. + +Os cavallos do marquez passavam estrepitosamente na calçada da rua +principal de Saint-Martin. Tinham já passado o theatro e o café da +Bolsa. Um minuto mais e a carruagem estaria em frente da «Poule +Blanche», o café dos vermelhos, dos assassinos dos «democs», como +costumava dizer o marquez de la Tournelle. + +--Que ruido vem d'este lado! disse o sr. Trimolet, indicando a «Poule +Blanche»; ouvem meus senhores? De quem é esta voz? Ha alli uma reunião? +Escutem! Applaudem! + +O marquez deu ordem ao seu cocheiro para demorar o andamento e os +cavallos começaram a andar a passo. A porta da «Poule Blanche» que dava +para a rua estava completamente aberta. O café via-se cheio de gente, +empregados de paletot, taberneiros de blusa, operarios em mangas de +camisa e com o avental do trabalho. Sobre o bilhar viam-se muitos +garotos. Em cima d'uma cadeira junto do espelho do fundo, um orador +fallava. A sua voz sonora fazia tremer tudo e ouvia-se até da praça +junto á fonte. A multidão escutava-o religiosamente. + +--Queridos concidadãos, dizia o orador, accorri ao vosso appelo. +Agradeço-vos o não vos terdes esquecido de mim. Trabalhadores, sou dos +vossos! Republicanos, podeis contar commigo como eu conto comvosco! + +... De que tratamos nós? Tratamos apenas de dezenraizar d'esta cidade, +d'este departamento, a arvore pôdre da reacção monarchica e clerical; +trata-se de bater no proximo escrutinio legislativo, o senhor de «la +Tournelle», esse marquez da idade media perdido nos tempos +modernos!... Pois bem! nós o alcançaremos, cidadãos!... + +Applausos freneticos acolheram estas palavras, ouvindo-se immensos +gritos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! Nunca a «Poule +Blanche» tinha abrigado egual gritaria popular. N'esta occasião a +carruagem do marquez, que caminhava a passo, chegava deante do café +republicano. + +Aos gritos repetidos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! o +candidato realista empallideceu de colera. Não havia que duvidar, os +democratas de Saint-Martin apresentavam realmente um candidato para lhe +fazerem opposição. + +--Cidadãos, continuava Ronquerolle enthusiasmado com os applausos, +faremos tremer os de «la Tournelle» no seu castello feudal e +desembaraçar-nos-emos do seu jugo. O povo, libertado pela Revolução, não +quer nobres para o representar. É de cidadãos saidos das suas fileiras +que deve fiar os seus destinos... + +Ronquerolle pronunciava estas palavras com uma voz estrondosa e o +auditorio tremia d'enthusiasmo. + +--Como, dizia o conde d'Orgefin, é este tratante quem nos trata assim! E +applaudem-no. Mas, meus senhores, é necessario desembaraçarmo-nos d'este +canalha! + +A carruagem do marquez de «la Tournelle» transpunha a porta do castello +e ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidadãos reunidos na +«Poule Blanche» para festejar a chegada de Ronquerolle e dos seus +tres amigos Branche, Didier e Maupertuis. + +A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta, +estava sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de +Saint-Martin. Toda a população estava impressionada. Viam-se pelas +portas as mulheres ou faziam grupos nas ruas; os homens tinham invadido +todos os cafés na cidade e fallavam com animação da lucta eleitoral. + +Na «Poule Blanche» a multidão augmentava a cada instante. Os discursos +tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impressões acêrca dos +oradores que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de +Ronquerolle. Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios +d'espirito parisiense, tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois +de Maupertuis, o presidente do «comité» republicano, Kolri, desenvolvêra +um pequeno discurso cheio de bom senso e d'energia. Tinha posto o +marquez de «la Tournelle» nas peores condições e os exaltados não +fallavam já senão em ir cantar a «Marselhesa» debaixo das janellas do +castello. + +Pouco a pouco, porém, a «Poule Blanche» ficou sem ninguem. A hora de +fechar tinha chegado. Kolri, «o bravo Kolri» ficara com os parisienses, +acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal. +Organisou-se então, uma pequena sessão onde foi elaborado um plano de +campanha. + +--Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que +avisar-vos de que vamos fundar um jornal. O primeiro numero sairá +depois d'amanhã. Chamar-se-ha «Reveil de Saint-Martin». + +--Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, será o suficiente para +destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha +muito faltava aqui! Ah! a imprensa! É a alavanca do progresso!... + +O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente +á porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a +scena do castello quando o marquez de «la Tournelle» lêra no «Figaro» a +noticia da sua candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os +termos humilhantes com que o conde d'Orgefin fallara a seu respeito. + +--Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da +«delicadeza» da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente +uma resposta á mensagem d'esse canalha. + +Os clarões do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar +perfeitamente calmo e a sua voz não traduzia emoção alguma extraordinaria. + +--Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e +escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de nós! Guerra, +guerra implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda +antes de 89... antes de 93! + +Ao pronunciar esta data, Ronquerolle exaltou-se dando um valente murro +sobre a mesa, o que atemorisou Lapierre. + +A meia noite approximava-se. Lapierre retirou-se, promettendo a +Ronquerolle trazêl-o ao corrente de tudo o que passasse no Castello. + +Kolri retirou, tambem, por sua vez. + +Tinha de convocar o comité republicano para o dia seguinte ás oito horas +da noite e, sem perder um minuto, todos os cidadãos convictos deviam +collocar-se nos seus postos. A primeira reunião publica effectuar-se-ia +mesmo em Saint-Martin. O marquez seria convidado por elle a fim de +defender as suas ideias e o seu programma. Outras reuniões seriam +organisadas em todos os logares dos districtos do departamento. + +Os quatro amigos, quando se encontraram sós, riram extraordinariamente. +A sua mocidade tinha necessidade de despertar; o imprevisto da situação +encantava sobretudo Branche, Didier e Maupertuis. + +Ronquerolle, esse era mais grave, porque todos os ataques iam cair sobre +o seu nome. Por outro lado a sua companheira, a Emilinha, preocupava-o. +Deixara-a em Paris mas á partida tinha havido uma scena pungente. + +A pobre rapariga que não queria ficar só, queria por força acompanhal-o. +Que lhe importava a politica? Ella não comprehendia cousa alguma da +eleição a não ser que ia ficar separada do homem que amava, do homem que +para ella representava tudo n'este mundo. + + + + +III + +_Trava-se a lucta_ + + +Ainda que fatigados pela viagem de Paris a Saint-Martin, pelos discursos +e conversações enthusiasticas do «Poule Blanche» e se bem que era uma +hora da madrugada, os quatro alegres rapazes não pensavam em deitar-se. + +Não obstante as graves preocupações da occasião os amigos de Ronquerolle +conversavam da maneira como se tinham despedido das suas apaixonadas +companheiras. Estavam ainda na edade feliz em que a bella +despreoccupação da juventude cobre todas as cousas com a sua aza +protectora; em que os dias e as noites não teem horas bastantes para +pensar nos projectos do espirito e nos encantos do coração, nas +confidencias d'amizade e nas caricias da alma. + +--Meus meninos, disse Branche, para terminar a conversa, é muito bonito +fallarmos das nossas amantes, contar as suas phantasias, mas nós não +viemos aqui para nos divertirmos. + +--Temos ainda trabalho a fazer, interrompeu Ronquerolle. Venham pennas, +papel e tinta e appareça o que ha de melhor no nosso cerebro. O primeiro +numero do nosso jornal, o «Reveil de Saint-Martin», deve apparecer +depois d'amanhã. + +É tempo de descrevermos a nossa chegada. Tu, Maupertuis, redige um curto +artigo, descrevendo a recepção que nos foi feita, resume os nossos +discursos e retrata bem o enthusiasmo da multidão. Tu, Didier, +ridicularisa o marquez «de la Tournelle,» sê implacavel, calca-lhe sem +piedade a sua vaidade... Tu, Branche, convida os eleitores a saccudirem +o jugo da nobreza, critica as flôres de liz e proclama os direitos do +homem!... Vamos; preparae essas pennas! Cravae os ferros até fazerem +sangue! Fazei fustigar o chicote do ridiculo!... + +Os quatro jornalistas pozeram mãos á obra. Ronquerolle, esse +encarregou-se de responder ás palavras injuriosas do conde d'Orgefin. Ás +duas horas da manhã uma carta volumosa era lançada na caixa do correio +por Branche dirigida á empresa do «Reveil», em Paris, visto que o +impressor da localidade não ousava encarregar-se d'imprimir um jornal +republicano, por causa do sr. marquez, «maire», conselheiro geral e +deputado. + +Antes de se deitar Ronquerolle abriu a janella do seu quarto que ocupava +só. A noite estava serena e bella. As estrellas brilhavam no céo, os +perfumes das flôres espalhavam no ar, uma frescura deliciosa vinha da +terra e um silencio profundo reinava pela cidade adormecida. Á claridade +discreta da lua Ronquerolle via a praça de Saint-Martin e a fonte +decorativa. Só o murmurio da agua, caindo, perturbava o silencio da +noite, ouvindo-se de vez em quando o vento silvar por entre as +folhas das arvores, nos telhados visinhos da egreja e nos ulmeiros dos +ribeiros. + +Perante este espectaculo de paz, n'esta noite de junho tão harmoniosa e +tão encantadora, o homem politico desapparecia em Ronquerolle e não +ficava mais do que o poeta seduzido pelas bellezas da natureza immortal. +O mancebo não se cançava de sentir a brisa refrescar-lhe a fronte, de +admirar esse espectaculo nocturno, vivo, que lhe recordava as scenas de +opera onde vivessem amôres, subindo, de noite, á janella da bem amada a +depôr um beijo. + +Levado pela sua poderosa e febril imaginação o ousado filho da Borgonha +deixava-se guiar pelos pensamentos do amôr e versos ardentes lhe +occorriam á memoria. + +Ronquerolle contemplava a egreja de Saint-Martin. Uma fachada estava +toda illuminada pelo luar emquanto que a opposta mergulhava na sombra. O +seu olhar ficou preso ao portico junto do qual em creança tantas vezes +tinha brincado com os seus pequenos camaradas e revia-se correndo em +volta da «mairie» nos muros cobertos de cartazes e em frente do mercado +fechado por uma grade de ferro. Os seus olhos de repente fixaram-se +sobre a collina que dominava a villa, reconhecendo a torre feudal, o +velho castello dos «de la Tournelle». Pensou um momento no seu +adversario, do que o distraiu uma luz que se via n'um dos lados do +castello. + +--Quem velará a esta hora na habitação do marquez? pensou Ronquerolle. +Será o meu inimigo a quem a minha presença impede de descançar? Será +alguem doente a quem a febre e a insomnia impedem de dormir? Será alguma +linda mulher que lê, com a cabeça repousando no travesseiro, um romance +de Balzac ou um poema de Alfredo de Musset? Será uma mulher +linda?--Fazendo a si mesmo esta pergunta Ronquerolle bateu na fronte +como que recordando-se. Lembrava-se que outr'ora em Paris, fôra +apresentado n'uma tarde, a uma mulher soberba que se chamava marqueza +«de la Tournelle» com quem tinha dançado e a quem chegára mesmo a +escrever uma carta apaixonada. Acontecera isto ha trez ou quatro annos, +não sabia ao certo, mas recordava-se claramente d'essa tarde, do baile e +da sua carta insensata. Quanto á mulher não se esquecera que era loira, +que tinha uns seios opulentos, olhos azues e, quando caminhava uns ares +de deusa. + +Os acontecimentos da vida parisiense são tão accidentados e tantos, as +sensações succedem-se tão rapidamente, as paixões são postas tantas +vezes em jogo, sobre tudo para um mancebo que faz os seus inicios na +vida e na sociedade, que não é para admirar o ver Maximo Ronquerolle +recordar, por acaso, uma das suas aventuras, que, depois de tanto tempo, +encontrava perdida na sua memoria. + +Essa luz, que brilhava na escuridão da noite em uma janella do castello +do seu inimigo vinha lançar um clarão na sua memoria obscurecida e, +occorrendo não sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou +que a pessoa que trabalhava lá em cima, na habitação luxuosa do +marquez «de la Tournelle», era a linda e elegante mulher que em +tempo lhe perturbara a cabeça e o coração. + +--Mas não! murmurou Ronquerolle. Não é possivel! Estas cousas só +acontecem nos romances e não na vida real!... No emtanto, essa loira +divina d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza «de +la Tournelle». Revejo-a ainda na occasião em que dançava commigo e +encostava o seu peito desolado contra o meu... Pouco a pouco as +recordações reviviam. Tornara-se nervoso, o seu coração batera +fortemente, querendo esclarecer a duvida em que se debatia. Os «de la +Tournelle» eram numerosos. Havia-os no Norte, no Meio-dia, na Borgonha. +Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle conhecera +outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua. + +--Vamos! disse fechando a janella, são horas de dormir. Sei bem a quem +hei-de recorrer, interrogarei Lapierre. + +Quando adormeceu, a aurora começava a apparecer. O seu ultimo pensamento +fôra de que seria bem extraordinario que ao marquez «de la Tournelle» +alem da cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher. + +Ronquerolle não se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava +no castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina +Carlota. Não lia, porém, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O +seu espirito estava demasiado agitado para se entreter com os doces e +consoladores devaneios litterarios. Trabalhava pelo triumpho da sua +causa, escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu +jornal, um artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma +maneira encantadora e em que fustigava o cidadão Ronquerolle com toda a +malicia e crueldade d'uma mulher. Tambem ella espetava as esporas até +fazerem sangue. + +O marquez «de la Tournelle», dissemol-o já, tinha um jornal o «Echo de +la Bourgogne», velha folha monarchica, assignada por todos os curas da +circunscripção de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza não +se dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um +elegante artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido +realista e em que zombava dos democratas. + +Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia, +quem fosse o seu auctor. + +Quando o marquez entrou na sua habitação, após o passeio a Semeval, +contou toda a scena de que fôra testemunha em frente ao «Poule Blanche». + +--Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos dão-vos o exemplo; +trabalham, estão no seu direito e teem razão. Vivemos n'um tempo em que +é necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raça, do nascimento não +é mais do que uma lembrança longinqua. É necessario trabalhar-se, é +necessario descer á arena para se vencer. O poder, o futuro não pertence +senão aos homens d'acção. + +O marquez «de la Tournelle» achou este discurso de sua mulher um +pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objecção. Convinha +voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por +intermedio dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe +n'uma reunião publica, expôr-se a ser interrompido, a ter diante de si +por adversario de tribuna um atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de +trovão, e que saido do povo, lhe conhecia as emoções e as coleras, ser +um homem d'acção, n'uma palavra, no sentido em que o entendia a +marqueza; todo este papel, toda esta tarefa não se apresentava ao +espirito do castellão de Saint-Martin sob uma perspectiva muito attrahente. + +Depois que fôra eleito deputado, não fallara uma só vez na camara. +Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco, +limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda +tomava a palavra. Quando, porém, nas galerias reservadas ao publico +appareciam algumas elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus +sorrisos como nos camarotes d'um theatro, não se esquecia nunca de as +requestar, lançando amiudadamente o seu monoculo. + +O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do +Parlamento. + +Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por não possuir mais que a +apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarçar sob uma +fraqueza fingida as alegrias intimas do mando. + +--Ah! que se eu fosse homem! disse a marqueza, ao concluir o seu +artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com despeito a penna; +ensinaria a viver este senhor Ronquerolle. + +Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel, +imaginando a maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe +traiçoeiro, a marqueza deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito +Luiz XV, coberto com um baldaquino que amôres gorduchos seguravam. + +Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de +Ronquerolle. + +.......................................................................... + +Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir +d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre +o castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche» +onde estavam hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se +apostas. Agitaram-se todas as paixões em Saint-Martin. + +As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se +mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um +bonito rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não +organizava uma conferencia publica no theatro, um domingo, depois do +meio-dia? Ellas iriam lá. E depois, não era só isso. Tinham simpathisado +com os «tres parisienses». Eram d'este modo que designavam Maupertuis, +Branche e Didier. Estes cavalheiros diziam ellas, teem muito espirito; +conhecem a alta vida de Paris. Porque se não convidam? É necessario +deixal-os abandonados na «Poule Blanche?» + +Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho, +appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle. +Principiava por uma apologia vigorosa do regimen republicano, +seguindo-se-lhe um pequeno artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin». + +N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando +as injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a +redacção do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado +como um tolo e convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo +na quinta feira, 28 de junho á reunião publica que se ha de effectuar em +Saint-Martin. Por sua vez, reservamos uma queda honrosa para o nosso +elegante adversario, o marquez «de la Tournelle», cujo papel na camara +tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores julgarão depois de ter +escutado os dois concorrentes». + +O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava +esta bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da +marqueza, brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix». +Ronquerolle era ali martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com +habilidade o seu talento d'escriptor, os inicios da sua carreira +litteraria, considerando-o apenas como um estudante. + +«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos +dignos de censura se o fizessemos chorar e tomar a serio os seus +brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de +Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje +perdoam-lhe os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão. +Em todo o caso seria bom que lhe impozessem silencio». + +Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca +se alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o. +Separou o estylo e as ideias como homem de «metier». + +--Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o +medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e +fraqueza Ah! bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei +quem tu és! + +No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica +annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde +d'Orgefin acceitassem o desafio dos republicanos. + +O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os +republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era +por outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era +necessario operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação +encolerizou-se extraordinariamente. + +--Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas +desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a +Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides. +Ainda uma vez lembrai-vos da minha advertencia, dizei adeus á +eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias! + +A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as +simpathias iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido +conquistada por Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno +commercio e a burguezia, indifferentes até então, davam coragem ao +candidato republicano. Na sua colera a marqueza agarrava-se a seu marido +sem piedade, e perguntava a si mesma porque casara com esse homem, só +bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée». + +--Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu +fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem +da mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o +ataquei com colera! eu que tentei envergonhal-o! + +É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome +d'adversarios. M.me «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á +phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz! + +Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se +sempre attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente +na vida, podem ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais +diversas, que se assemelham sempre pela honestidade superior da +conducta, pelo respeito do que é verdadeiramente grande e bello e pelo +desprezo soberano de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e +baixo. + +Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem +nunca terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual, +nas suas acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque +só ellas se podem comprehender. É isto que explica muitas vezes o +segredo d'essas melancholias profundas que absorvem o pensamento +completamente, d'esses sentimentos, d'essas ligações, d'esses amôres que +o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que um observador de +paixões considera naturaes e fataes. + +A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o +republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era +novo, porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho +das suas obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga. +Tudo entretanto os separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna, +as relações e a sociedade em que viviam; mas á lei mysteriosa que +preside aos sentimentos humanos, agrada vencer os obstaculos e acaba +sempre por ligar os que se procuram, os que sentem a necessidade de se +amarem. + +A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a +vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando +bater para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão. +Agitada, contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu +marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do campo, de +descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos +bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo +galope rapido dos seus cavallos. + +O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares +de Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O +rio, parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado +opposto uma cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo +tocar o ceu azul. Os «Passeios» são formados por tres avenidas +magnificas, com castanheiros e tilias centenarias. No fundo da avenida +central levanta-se uma estatua em marmore, datada do XVIII seculo e +representando Cybele. Alguns metros distante corre uma fonte rustica +mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas. + +É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a +ambição. Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso, +abandonado durante a revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As +pedras amontoaram-se, as silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas +invadiram-as, mas as arvores resistiram á acção do tempo. + +A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de +quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás +ruinas do castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas +suas economias. + +Aos domingos, durante o verão os «Passeios» eram muito frequentados. +Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes davam alli +«rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara de +marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario, +era um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de +Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores. + +A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das +suas margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe +sentir um encanto mysterioso. + +--Meu Deus! como isto é bello! murmurava. + +Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello +carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um +barco preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou +sentar-se alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma +palavra, toda a sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em +presença d'essas florestas voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa +verdura que a sombra torna mais attrahente. + +M.me «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio da +grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as +tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar +o frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem +para regressar a Saint-Martin. + +Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada +contra seu marido. + +Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo +exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava +arrogantemente, levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando +para diante com uma elegante arrogancia. + +Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova +e bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias, +no meio do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que +de costume. A solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza +fazia murmurar docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel +voluptuosidade. + +Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco +um homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços +cruzados sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma +meditação de tal modo que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem +dera pela sua presença. Tinha a cabeça um pouco inclinada sobre o hombro +e poder-se-hia acreditar que dormitava se não fosse o seu olhar vivo e +expressivo. + +M.me «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais longe. +Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava +só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou, +portanto; mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a +sombrinha o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou +saudando-a. + +Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos, +para meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do +seu futuro, sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á +superficie e nos põem em evidencia como nos deixam na sombra e nos +lançam no nada. + +Quando reconheceu M.me «de la Tournelle» sonhava com a poesia da +natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das +solidões e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás +agitações da vida publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma +existencia pacifica em qualquer humilde habitação do seu paiz natal. + +Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava +junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura +que a sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos +loiros nunca os esquecera! + +--A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle. + +--Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me +deseja? + +Ao dizer isto, M.me «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a +carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a +folhagem do arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza +temia ser vista pelos seus criados que acreditariam facilmente n'um +«rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o +desconhecido que lhe dirigira a palavra. + +--Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou +para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho +a confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos! + +--Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso +inimigo! + +--O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como +já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis +immovel debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados +perceberão que não estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa, +onde ninguem nos poderá ver e vos direi todo o meu pensamento. + +A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e +tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de +todas as vistas. + +--Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a +perder-me por vós. + +Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco, +contemplava-a e sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella +mulher. Não via n'ella a marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata +que desejava a volta da realesa e que sonhava uma côrte brilhante em que +triumphasse; não, ella não era para elle, n'essa hora, mais do que a +incarnação da elegancia, da juventude, da vida, do amôr, da paixão +incandescente, que queima, que devóra. + +Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o +homem que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os +infelizes que se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis +e os imperadores. Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do +pobre contra os rico, do humilde contra o poderoso, do opprimido contra +o oppressor. O que n'elle via era o talento promettedor, o enthusiasmo +da sua linda edade, a coragem do homem que luta, a poesia do ideal e da +acção, o encanto emfim d'um espirito superior e d'um coração preso ao +destino. + +Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções +imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a +natureza boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si +mesma, tem a sua eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem +singularmente as distancias. + +--Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei +para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha +energia e não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que +viveis na minha saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde +vos tive junto do meu peito!... Recordai-vos... + +--Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o +apologista do Terror! + +M.me «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia, paternal +e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a occultava. + +Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O +seu busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa. + +--Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia +lagrimas. Se vos amo! + +Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia +desejos de tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e +pensava: como convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua +nobre intelligencia; era a arma mais digna para conquistar uma mulher +como aquella. + +--Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a +este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha +paixão as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas +questões, para almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se +encontram os grandes corações n'esta esphera superior onde veem acabar +as disputas dos homens? Vêde! tenho um orgulho que por vezes me arrasta +e que resistencia alguma fará dobrar... appareceis-me, e estou prompto a +cair de joelhos deante de vós. Está domado o meu orgulho? Certamente +não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos e parece-me que lá nos +amaremos. + +... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal +a que aspira a vossa alma não tem nada de commum com as infamias, +com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e dos +partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade? + +Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza. +Appoiava-se, como ella, á velha tilia e esperava resposta. + +--Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias +parecem-se ás flôres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o +respiram. + +--Não me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada. + +--Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo. + +Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mão que uma luva +finissima calçava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz +escapar-se. + +--Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos +voltarei a ver? + +A marqueza hesitou, sentia-se embaraçada para responder. N'este momento +os cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente +fugiu a Ronquerolle, dizendo: + +--Aqui, d'hoje a tres dias, ás dez horas da noite. + +Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o +«frou-frou» harmonioso de toda a sua «toilette», custava-lhe a acreditar +na sua felicidade. + +Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario +fechava, quando viu a carruagem desapparecer a caminho de +Saint-Martin entre uma nuvem de pó, pareceu-lhe que a terra girava por +todos os lados e que o ceu ia sair-lhe do peito. + +Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis +arrastavam. Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho, +voltou a sentar-se sobre o banco solitario em que M.me «de la +Tournelle» o tinha surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas +doces illusões. + +--Dentro em tres dias voltarei a vêl-a; dentro em tres dias será minha. +Ó delicia! Ó felicidade inesperada! E já antecipadamente, escutava os +transportes da sua paixão, a alegria dos novos amôres. De repente bateu +na testa e empallideceu. + +--Mas, d'aqui a tres dias, á noite, ha uma reunião eleitoral em +Saint-Martin. Não posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os +eleitores... Que fazer? + +Ronquerolle acreditou por momentos que M.me «de la Tournelle» lhe +tivesse pregado uma peça. Ella conhecia a data e a hora da reunião +publica já publicadas no «Reveil». Quereria ella d'esta fórma pôr á +prova o amôr de Ronquerolle, forçando-o a sacrificar a sua palavra de +homem politico? Quereria ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar +destruir a sua influencia em proveito da sua causa? Emfim, terá fallado +sem calculo algum e o «rendez-vous» que lhe marcou, na sua coindencia +com a reunião de Saint-Martin, não passaria d'um acaso que por vezes +tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna um obstaculo ás +vontades do homem? + +Ronquerolle não sabia que pensar. + + + + +IV + +_O barão de Quérelles_ + + +Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão +de Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da +marqueza por causa do despreso a que ella votara a sua paixão. + +Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á +escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe +enchia o cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente +até conseguir o seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o +poderia conseguir. + +Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão +louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.elle +Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes, +o seu maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e +inteligente mulher por esposa. + +A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções. + +--Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava em +conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão +baixo que se torna ridiculo. + +No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um +contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os +homens não se mediam aos palmos. + +Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey não se via obrigada a +debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la +Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A +repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica +personagem que era «Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do +marquez. + +--Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.elle de Champeautey quer +desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá. + +O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu +departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos. +Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para +Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des +Quérelles» tinham sido até então conservadoras se bem que com uma certa +tendencia liberal. A côr de conservador era uma tradicção na sua casa de +fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, não desdenhava em +admittir as modernas theorias democraticas. + +Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se +fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer +dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se +desprezava em comer á mesa dos operarios quando para isso se +offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral. + +Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os +seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e +deputado. + +--É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um +estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em +como não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito +de ortographia é um ignorante. + +A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr +proprio e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira +de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha +acalentado durante tantos annos. + +--Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que +eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos +que vão ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao +novo deputado Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa +isso. É necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la +Tournelle» perca a eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! +sr.ª marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta +vez virá implorar a paz e então entabolaremos as condicções. + +Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, +ainda, á sua ultima esperança em commover o coração da mulher que +elle tão extraordinariamente amara. + +Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda +a esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez +podesse um dia fazer d'ella sua amante. + +--Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe +dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após +o seu casamento com esse estupido marquez. + +Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se +sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro. + +--Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos. +Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias +em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha +treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será +finalmente o resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus +desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o +caso como entenderem. Se porém ainda assim a marqueza continuar a +mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin. + +Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos +eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo +n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os +operarios, pagava-lhes de beber, comia com elles, acabando sempre as +suas conversas pela politica. + +Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão +advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. +O conde d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que +se devia tomar uma medida energica, e em plena reunião de todos os +marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no +castello do marquez «de la Tournelle», a reunião dos oitenta a cem +proprietarios influentes da circunscripção; coroaria a reunião um grande +banquete. + +--Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o +conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a +população contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as +tradições da sua familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, +se o barão fôr contra nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo +muitissimos votos. + +--É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des Quérelles» +é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente +commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis +por que elle nos odeia a este ponto? + +--Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar a +marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do +coração da marqueza, calcando assim os seus caprichos. Tratemos, +antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á +margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja. + +Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu +procedimento e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de +gosar deliciosamente os golpes que desapiedadamente despedia sobre os +seus adversarios. + +Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus +cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas +mais avançados. + +N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem, +encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano, +disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem: + +--Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o +favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de +Paris, que lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica +na quinta-feira á tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos +homens intelligentes e nada de deputados sem valor! + +O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um +influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil +eleitores. + +--Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando +bebia cognac em companhia dos seus amigos. + +No fundo da sua consciencia pensava: + +--Serei o senhor da soberba Carlota que sem duvida capitulará por +ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem despresado! + +Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua +reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des +Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao +serviço das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle, +Branche, Didier e Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes, +arrojados para as mulheres, como todos os jornalistas, produziam +estragos terriveis nos corações das burguezinhas de Saint-Martin. + +Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena +«soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade, +que não temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso, +possuia uma bella fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant» +amando os prazeres da mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente +fornecida. Recordava muito as suas travessuras de rapaz no tempo em que +vivera na capital. Havia muito tempo que isto accontecera, ha pouco mais +ou menos vinte annos. Que praser sentiria, ao receber em sua casa os +quatro parisienses com os quaes conversaria dos tempos passados e das +suas loucas amantes. + +Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua +entrada no salão de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e +nutrida, muito amavel, muito simples e muito mais nova que seu marido. + +--Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem? + +--Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está +preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes +d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas. + +Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de +Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não +podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os +continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin. + +As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por +todos os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a +quem uma pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para +ser servido o chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o +gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salão e onde fumando, +se entretinham a fallar das eleições. + +Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto +das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris +e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem +d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me +Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a côrte a M.me +Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta tinha um espirito +romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser +heroina ideal das mais ternas aventuras. + +--A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um +deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o +quanto tenho soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde +faço carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem +mais infeliz da terra. + +A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem. +Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas +apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu +lado, tinha levado a linda mulher do notario até ao precipicio +encantador mas perigoso das confidencias amorosas. + +Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin +tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e +viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez «de la +Tournelle». Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se +por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem +intelligente de que lhe tinham fallado. A presença do barão interrompeu +por momentos a interessante conversação de Branche com M.me Desbroutin. +Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que +se fizera em volta do barão, para apertar docemente a mão de M.me +Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas sem muito esforço. + +Ronquerolle entrou finalmente no salão. Apresentou as desculpas da +sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao +barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A +pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo +o mundo o invejaria. + +Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo +desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa +republicana. + +--Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que +desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario? +Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um +mobil occulto. Qual será? + +E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á +cabeça. + +Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle; +abordou successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia +confiar n'elle. + +Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões +politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des +Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato: + +--Conheceis a marqueza «de la Tournelle?» + +Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um +instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio, +respondeu com uma soberana indifferença. + +--A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda a +gente, e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu tempo para me +occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus eleitores +e procurando bater o meu adversario. + +O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a +historia da sua paixão por M.elle de Champeautey. Não receava tomal-o +para seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo +castello «de la Tournelle». + +A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle. +Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a +minha loucura pela loura e adoravel Carlota? + +Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim? + +Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia +seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram +discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e +a malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e +algumas más linguas começaram a insinuar que a gentil M.me Desbroutin +não era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu +marido. + + + + +V + +_Os infortunios do marquez_ + + +A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas +á ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa +reunião veiu avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do +soalho e que seria, a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao +preço estabelecido, porque um particular tinha pedido cincoenta francos +pelo aluguer. + +A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram +ter com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha, +no primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e +quinhentas a duas mil pessoas. + +Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os +seus amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de +signal pelo aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia +um copo de cognac. + +--Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o +seu o copo de Ronquerolle. + +Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez +francos do signal. + +--Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a +vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor +Baliverne, tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes +do logar veem bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso, +descalçarem-se no vestibulo, afim de dançarem descalços para não +prejudicar a solidez das vossas salas?! Basta de gracejos, senhor +Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e ha dias comemos juntos, por +isso é preciso fallarmos com toda a franqueza. Vamos, dizei-nos qual a +verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a sala que já nos +havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe, deixae em paz +o vosso soalho. + +Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que +responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta. + +--Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a +verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a +sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, +como necessitaes da sua auctorisação para conservardes o vosso baile +aberto até ás 5 horas da manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora +avante vos recusará essa licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa +aos meus eleitores! + +Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o +escutava, respondeu a Ronquerolle: + +--Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me, eu sou um homem energico +mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a +agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós. +Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire +que me fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião +se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me +recusasse licença para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o +sustento, privava os rapazes de se divertirem. + +Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois +do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de +Baliverne e encerrou-se no seu quarto. + +N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a +reunião devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.me de la +Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite. + +Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que +julgava não poder assistir, tornava-se agora possivel. + +Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a +bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o +como rival, temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que +fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua +eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir á +tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua +infelicidade. + +--Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a marqueza +n'essa inolvidavel noite dos «Passeios». + +A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais +tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel +«maire» de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo +tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus +namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois +que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da +sua vida particular. + +Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la +Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente +a sua «toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, +pegou no chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e +as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista. + +Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara, +recordando as tempestades da sua juventude. + +O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o +arvoredo. + +Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e +o canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma +indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e +descia dos céus. + +--Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto que +ella venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto que se aproxima! E +poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto de mim? +Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os +meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu +idolo? + +O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua +impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma +herdade, parou. + +--Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos? +Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda +passando na areia da avenida? + +E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite, +mas não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se +passou, hora d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez +não tivesse podido deixar o castello, e que tivessem surgido +difficuldades imprevistas que a impedissem de cumprir a sua palavra. +Resolveu esperar toda a noite. Nuvens pesadas pairavam no céu, +occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão da noite +tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma +da tarde. + +D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão, +Ronquerolle espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a +impacientemente, queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da +meia-noite, uma fórma occulta e mobil appareceu lá no fundo d'um caminho +orlado de macieiras. + +Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios». + +--Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha emfim! + +O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz +d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, +murmurou docemente: + +--Sois vós, minha querida? + +--Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes? + +Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto +com um espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se +tranquilisada com a presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, +abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e +deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi. + +--Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle. + +--Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós +imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me +amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado! + +Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia +destruir. «M.me de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se +sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com +attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia. + +Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos +romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca Ronquerolle, +pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão +ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão +favoravel se lhe offerecera. + +Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as +horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento +acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso. + +Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e +contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, +admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia +ao pensar na aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção +commovente do remorso e da felicidade. + +--Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem +restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A +fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos +amemos. Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem +conhecerá a lei que preside ás preferencias do coração humano? Quem nos +explicará como é que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite +linda, devorados pelo fogo da paixão, decididos a tudo vencer antes do +que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois +bella! E como vos amo! + +E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto +sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se +decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que era digno da sua +ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo. + +--Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na +minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a +marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um +dia me mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes +que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa +lembrança? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se +me gravou na memoria? Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas +e de vos amar?... + +«M.me de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas +espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus +pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se +comprehendiam, e que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza +d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher +amada. + +Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições +humanas se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo +dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso +pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias. + +Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as +barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, +dois entes se atraem, se encontram e se amam, este amôr profundo, é +tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida +d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo +o destruirá. + +Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza +e o republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e +intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a +existencia de «M.me de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que +elle a amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É +a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre. + +Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica +marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, +separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja +d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se +entretinha a approximar e a unir n'um beijo. + +Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada +«M.me de la Tournelle» que alli estava, n'este momento. + +Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura +adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um +homem que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem. + +O mesmo acontecia a Ronquerolle. + +Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada +tinha, n'este momento, do vingador dos soffrimentos populares. Todo +entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava d'amôr, +a sua juventude brilhava, não vendo em «M.me de la Tournelle» mais do +que a formosa personalidade da belleza e da vida. + +Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais +desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e +se adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno! + +--Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza. + +--E eu, respondia ella, amo-te até morrer! + +.......................................................................... + +Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se +devia realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha +sido convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna +politica do sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado +o senhor bispo de Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de +Saint-Martin. Não se tinham esquecido dos grandes industriaes da +circunscripção, que dirigiam numerosos operarios e que convinha prender +por qualquer delicadeza. + +Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam +chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda +a nobreza. + +Mancebos em «breaks» de caça, sorriam ás condessas, viscondessas, +baronezas e ás velhas donas de castellos que vinham cooperar na +manifestação contra a Republica. + +Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin, +transpunham a pé o portão do castello, e, ás onze horas e meia, o grande +salão estava completamente cheio. Não se esperava mais que o sr. bispo +de Dijon que tinha promettido vir e que, como se sabia, se encontrava +justamente nas visinhanças do castello n'uma viagem pastoral. + +Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os +lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo +vinha acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario +particular. A carruagem parou em frente do perystilo do castello e, +sorrindo, de bom humor, o prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas +de admiradores, de mulheres elegantes e de lindos rapazes, levando, +quasi todos, nas suas gravatas em forma d'alfinete uma flôr de liz. + +O marquez «de la Tournelle» adiantou-se para receber o principe da +egreja, dando-lhe as boas vindas. + +O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude +da marqueza. + +--Senhor, disse o marquez, é o unico contratempo que temos em tão bello +dia. A marqueza está um pouco adoentada e não poderá assistir ao +banquete de que tenho a honra de vos offerecer a presidencia. + +O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento, +perguntava o porquê e a causa d'esta ausencia da dona da casa. As +dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios, bispos, +arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias. +Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados; +querem conhecer o fundo, a rasão, segundo a expressão popular, dos +pequenos e dos grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos +lares, na choupana do pobre, como nos palacios dos ricos. + +--«M.me de la Tournelle», disse o bispo de si para si, é uma mulher que +vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos, +quando tudo a está convidando a apparecer? + +Não obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do coração +o prelado estava longe de conhecer a verdade. + +Acreditava em alguma discussão por amôr proprio entre marido e mulher, +qualquer disputa interna, mas a supposição de que uma adultera estava em +casa dos «de la Tournelle» não passára ainda pelo seu espirito. + +«M.me de la Tournelle» recusára-se abertamente a comparecer ao +banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem +violencia, sem longas explicações, mas mais do que significativa. + +Fôra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discussão. A bella +Carlota fôra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe +era inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem. + +A marqueza não cuidou mais da agitação politica do seu partido. O amôr +vencera-a; Jamais tinha pensado em que semelhantes tempestades se +desencadeassem na sua alma. Quasi que se não conhecia. A paixão que +sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e +tudo aquillo que até então constituira o seu ideal submergira-se, +obliterara-se, aniquilara-se quasi. + +Começava a amar a solidão dos seus aposentos. Estava impaciente, febril. +Tentava entregar-se á leitura mas a sua attenção divagava. Tomava +rapidamente um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lançava para +o lado sem o ter lido. + +O amôr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma +doente. Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que +experimentava era uma «melange» de dôr e de alegria, de inquietação e de +esperança, d'orgulho e de medo. Louca d'amôr, passeava febrilmente no +seu quarto quasi que fallando em voz alta, aproximando-se de vez em +quando da janella e contemplando os prados, a relva e, lá no fundo, a +pequena cidade de Saint-Martin. + +--Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haverá em ti +para assim me esquecer do que sou? Já não pertenço a mim mesma desde a +nossa entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei +feliz... Tua! Tua para sempre! + +E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creança, +beijos ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma. + +O banquete realista! A lucta dos partidos O triumpho d'uns e a perda +d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a interessava no momento +em que o imperioso delirio da paixão se apoderava d'ella e a torturava. + +.......................................................................... + +O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A +principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado +toda a gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar. + +A sua cadeira vasia lá estava e cada conviva lançava muitas vezes um +olhar involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios +mais maliciosos. + +Presidia o bispo, tendo sentado «vis-á-vis» o conde d'Orgefin. Ao todo +os convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calção, com as +armas dos «de la Tournelle» bordadas nas fardas, faziam um serviço +irreprehensivel sob todos os pontos de vista. + +Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os +cerebros, destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin +observáva os convidados e tirava um bom presagio das suas felizes +disposições. D'uma sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, +conservando o seu sangue frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de +«champagne» para levantar um brinde ao triumpho dos principios +monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao governo republicano. + +Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro +bisnau, não convinha comprometter-se muito com o partido +conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas ideias; +via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas +os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do +lado do cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro +estivesse mais conhecido, elle cuidaria do seu caminho. + +Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os +habitantes da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente +preocupados. Este banquete era um acontecimento que entretinha todas as +conversações. + +Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e +em frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe +appetecia. + +Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de +Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente +Kolri discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, +Didier e Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a +cada instante se ouvia copos tocando o do candidato republicano. + +Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre +n'um paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender +que, na maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho +do pobre. + +O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre +da ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras de ha dois dias com +a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão. Todos +os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel. + +A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu +rosto, não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança. + +Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. +Não suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella +Carlota. + +Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais +violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo +republicano uma amizade mais profunda. + +--Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando +poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos +alfim reunidos, sós, no silencio da natureza e fóra do ruido das cidades? + +E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graça das suas +longas tranças, a sua mão tão fina, os seus seios incomparaveis, o +perfume da sua «toilette». + +Separando-se, após a sua entrevista nos «Passeios», Ronquerolle e a +marqueza prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleição +de 15 de julho. + +--Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo, é impossivel, disse a +marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida, +expulsa, vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido, +tornar-te-ias suspeito a todos os que defendes e pezar-te-ia sempre +o teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns +dias antes de ti. Virás então juntar-te a mim e lá construiremos um +ninho para o nosso amôr. + +Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava +as datas. + +--Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso +Paris, quando partir. + +Já elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleição quer +vencesse ou não o marquez. + +O amôr e a ambição confundiam-se no seu espirito e no seu coração. No +coração da marqueza só o amôr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se +reunia tudo para si. Ronquerolle pagava em amôr, amando-a tambem, mas, +dotado de faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e +com esse fim esperava elle construir o pedestal do seu amôr. + + + + +VI + +_Momentos decisivos_ + + +O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar +confiança e serenidade. + +O banquette do castello de «la Tournelle» produzira um grande +alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde d'Orgefin +appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os eleitores. + +A presença do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr +o boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto +de se dizer que renunciaria á sua candidatura. + +Ronquerolle, porém, não perdia o seu sangue frio. Sem descançar +percorria a circumscripção, reunindo os eleitores nas salas da estalagem +onde repousava. O seu «comité» trabalhava na expedição das profissões de +fé, boletins para votos e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis +redigiam os numeros do «Reveil» que saía agora tres vezes por semana. + +Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio +subito do barão «de Quérelles». No principio da campanha eleitoral, +viram-no lançar-se abertamente na lucta e tomar o partido, senão, por +Ronquerolle, ao menos contra o marquez «de la Tournelle»; passados, +porém, quinze dias o barão emudeceu e tornou-se quasi invisivel. +Áquelles que se lhe approximavam e que o interrogavam respondia que era +necessario esperar para a ultima hora para poder inclinar-se +definitivamente para um dos partidos. + +Uma colera estranha se apoderara do barão. Sentia-se indisposto com todo +o mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e até +contra si proprio. As suas manobras não tinham dado resultado algum e +conhecia que afinal era mais do que o tolo da farça. O seu zelo na +lucta afrouxava por isso, não saindo, quasi, do seu castello. + +Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleições, o +barão levantou-se uma manhã com mais mau humor do que o do costume. +Maltratava os criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos, +passeando com impaciencia e anciedade n'uma galeria, contigua aos seus +aposentos, e que dava sobre o jardim. + +Quando um dia estava assim preso da irresolução e do desgosto de vêr que +a bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que +uma deputação d'eleitores o procurava para lhe fallar. + +Feliz por ter essa nova distração no meio dos seus desgostos internos, +desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se +assentados uns quinze homens. + +Viam-se muitos «maires» influentes dos arredores da cidade e lavradores +de blusa que esperavam de chapeu na mão. + +--Vejamos, senhor barão, disse o mais velho dos eleitores presentes, por +quem devemos votar nas proximas eleições? Vimos pedir-vos este conselho. +Faremos o que o senhor barão nos ordenar. + +Estas palavras envaideceram o amôr proprio do barão «des Quérelles». +Sabia bem que a delegação que se encontrava na sua frente representava +bem umas vinte communas importantes. + +--Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e vós, +senhor repuplicano, tendes a vossa eleição na minha mão. + +Após este discurso mental, o barão voltou a ter o bom humor antigo. + +--Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente +envaidecido com a vossa resolução. Dar-vos-hei, sinceramente o meu +conselho. Mas a questão merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos +para almoçardes commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas +resoluções energicas. + +Na realidade, o barão não sabia que responder aos eleitores que o vinham +consultar. Como todos que se veem embaraçados pediu tempo para +reflectir. Se por um lado, odiava de morte o marquez por que fôra o +rival que «m.elle de Champeautey» lhe preferira, por outro lado +custava-lhe favorecer a eleição de Ronquerolle. + +Não comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas +o certo era que o aborrecia. + +Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um +obstaculo aos seus desejos, porque o arrebatado barão não renunciara á +esperança de possuir mais tarde ou mais cedo o coração da bella Carlota. + +Durante os preparativos do almoço, os homens da delegação foram passear +para o parque do barão, que por sua vez se retirou para o seu gabinete +de trabalho, preso d'uma perplexidade inquietadora. + +--Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que votem +por esse tolo do marquez «de la Tournelle» saberá a marqueza reconhecer +que é a mim que deve o não ver o seu orgulho e o seu nome +humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista pelo Ronquerolle quem +me assegura que a sua eleição não vem pôr uma barreira invencivel entre +mim e a minha paixão? + +Torturado pela duvida o infeliz barão não sabia para que lado se havia +de voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do «Echo da +Borgonha», o jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de +vermelho que estava, tornou-se pallido como cêra. Na primeira pagina do +jornal destacava-se em normando um suelto ironico que lhe dizia +respeito. O auctor do pequenino artigo troçava do barão pela sua pequena +estatura e fazia insinuar que a pequenez da sua intelligencia estava na +proporção da do seu corpo. + +Era ferir a corôa sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um +punhal, pôz fim ás suas hesitações e decidiu da eleição do circulo de +Saint-Martin. + +Ah! é isso? Pois bem! disse o barão. Senhor «de la Tournelle», meu +amigo, ficarás fóra da lucta, serás vencido, assim o espero. Feliz +Ronquerolle, um bom genio te protege! + +O barão «des Quérelles» desconhecia por completo a grande verdade que +dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha +para elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificára assim a +vaidade d'um barão? Quem tanta sorte dera a Maximo? + +Quem? A propria marqueza «de la Tournelle». Louca pelo seu amante, capaz +de fazer por elle todos os sacrificios, não pensando senão na sua +fortuna e na sua gloria começou a por ao seu serviço toda a artilharia +dos seus ardis femeninos. + +«Des Quérelles» estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma +resolução. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante +o almoço que offerecêra aos eleitores inflúentes que tinham vindo +consultal-o. + +--Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos, +finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Está entendido, +não é assim, no proximo domingo votaremos como um só homem no bello +Ronquerolle. Eis um que têm sorte. + +Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo +constantemente e rindo á vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrião. +A conversação foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos +que corriam na cidade e na região. Fallou-se da marqueza, de «M.me de +Beaumenard», a mulher do banqueiro; de «M.me Desbroutin», a mulher do +notario. + +--Parece que esses senhores, dizia o barão, não teem muito que se +queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses +não vem para aqui só para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porém, o +melhor. O que está nas boas graças da gentil «M.me de Beaumenard» é um +finório. Ah! que linda coisa é a mocidade! + +O almoço terminou alegremente, como havia começado. Tomou-se café no +jardim, onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres +horas da tarde. O barão fez a ultima recommendação aos seus hospedes: + +O «mot d'ordre» é que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e +levae por toda a parte a boa nova! + +Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A +intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo +contra o barão, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua +reserva. + +Ficou louca d'alegria e louca d'amôr quando soube da resolução de «des +Quérelles». Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado. + +--Ó meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da +fortuna e da gloria. Serás tu fiel, ao menos? + +O caracteristico do verdadeiro amôr foi sempre o sacrificio pela pessoa +amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a +morte, por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o +somno e se é feliz com este tormento, com esta dôr, com este mal +implacavel que invade todo o nosso ser. + +A soberba Carlota estava no paroxismo da paixão. Calma na apparencia +sentia-se devorada pelo frenesi do amôr. Passeando no seu jardim, +sentia-se tão dominada pela imagem e recordação do seu amante que a +custo caminhava. Uma languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por +uma d'essas deusas antigas que atravessavam os bosques sagrados da +Grecia e que desappareciam n'uma nuvem azul. Jámais visão tão bella +podia inspirar um poeta. Jámais a incarnação da vida se tinha +manifestado n'uma mais nobre creatura! + +Ronquerolle sentia-se falto de energia. + +No ultimo sabbado, vespera da eleição, esteve dominado por um febre +ardente. A inquietação devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria +de novo passar á obscuridade? Além d'isto o amôr de «M.me de la +Tournelle», como uma ferida incuravel, invadia-o, torturava-o, +dominava-o. Elle, um homem forte, o cidadão inflexivel, sentia-se +vencido por essa mulher, por essa sereia de cabellos loiros. + +--O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde +está o meu sacrificio? + +Uma agitação extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu +á abertura do escrutinio. + +Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo +promessas a uns, ameaçando outros, espalhando profusamente por toda a +parte as listas. + +Por seu lado os partidarios de Ronquerole não ficaram inertes. + +Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia +sem igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato +republicano. Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem +suprema que tem o soldado quando está prestes a derrotar o inimigo. + +Quando, no domingo de manhã, o escrutinio se abriu, os dois partidos +estavam perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se +grupos formados na praça publica e que depois se dirigiam a votar á +mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam o +marquez de «la Tournelle», outros riam-se de Ronquerolle. + +Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoçego não +abandonou o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte. +Victima da ambição, debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha +censurado o seu procedimento e só o seu amigo fiel, Branche, estava +junto d'elle absorvido pela mesma incerteza pelas luctas do futuro. + +O escrutinio fechou-se ás seis horas, começando immediatamente o +apuramento de votos. A sala da «mairie» estava completamente cheia. Os +eleitores presentes escutavam silenciosamente a contagem dos votos. + +Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos. + +--Sr. de la Tournelle! + +--Sr. Ronquerolle! + +Cêrca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se já entre os +operarios. Vencia o cidadão Ronquerolle, segundo todas as +probabilidades. Tinha a maioria de 1500 votos só na cidade de +Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como uma bomba de dynamite. + +Uma multidão compacta que esperava as noticias em frente á casa da +camara, gritou instinctivamente: Viva a Republica! + +Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu +ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e +gelou de terror os realistas que se encontravam reunidos no salão. + +--A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes +gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos! + +De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem +interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano +saía vitorioso. + +Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada. +Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um +delirio entre os republicanos. + +O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas +ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu +triumpho. Tinha os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado +pela febre. + +Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras +tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez +silencio pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações +e fazem transbordar os corações d'enthusiasmo. + +Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira +a mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes +e valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao +seu quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, +Ronquerolle encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a +febre; tinha passado a hora d'angustia. + +Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto ambicionava. Os +obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma nuvem +ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos. +Estava satisfeita a sua ambição. + +--Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da noite +a escrever-lhe. + +Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu +livremente e as palavras mais ternas sairam da pena. + +--«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da +minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste +immensamente corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua +raça; porque, afinal, tu sacrificaste-te... Que farei eu para +recompensar o teu amôr que tão alto vae? Ah! no inicio da minha +carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha mocidade para te +dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel Carlota, a ti, +cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a ti cujo +ser me enebria!... + +«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre +destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante! + +«Ninguem saberá que nos amamos, ninguem advinhará o segredo da nossa +amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios +merecimentos e não para obedecer ás convenções sociaes, não para nos +conformarmos com interesses pueris. + +«... Para ti toda a minha alma, para ti o melhor do meu pensamento, +para ti a minha vida»! + +Ronquerolle não podia de maneira alguma terminar a carta. O seu coração +transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua +existencia: o passado, o presente e o futuro. + +Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a +ponto de a si mesmo perguntar se não estaria preso d'uma allucinação. + +E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado. + + + + +VII + +_Vida nova_ + + +Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a +cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume. +O sol de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já +asphyxiante. Quinhentas a seiscentas pessoas estacionavam em frente do +edificio da Camara, onde acabava de chegar uma fanfarra com o seu +estandarte, e ia formar-se o cortejo. + +Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos +de ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris. + +Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador +prespicaz teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás +outras pareciam tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu +sorriso era contrafeito. + +Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher +do banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e +finalmente da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das +contribuições. + +Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras. + +Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de +Didier; Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis +conseguira fazer sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois. + +Ai, como são rapidos os dias felizes! + +Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da +provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres. + +De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres +amigos, de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos +cidadãos, pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido, +quasi livido e uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez, +resultante da fadiga e das commoções soffridas. A fanfarra executou a +«Marselheza» e o cortejo poz-se em marcha. + +Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres +amantes, trocaram-se rapidos olhares e as tres mulheres não puderam +conter as lagrimas. + +--Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard. + +--Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada. + +--Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois. + +Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer: + +--Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia, +o amôr a paixão. + +A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao +das eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali +chegou. + +A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira +já para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo. +Apenas ficára a população que as necessidades da vida prendiam em Paris. +O calor tornava-se mais violento dia a dia. + +A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido +entre um pateo e um jardim. + +Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu +regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido +pelo marquez seu esposo. + +O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de +sua mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o +continuar em Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por +isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin. + +Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação +perto dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu +secretario e rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier +installar-se-hiam nas immediações. + +A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam +ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas +parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar +inteiramente á sua amante. + +Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram +completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade +augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais +adivinhado do que conhecido. E que alegria foi para elles o +reconhecerem, mutuamente, que eram ainda superiores á ideia que se +haviam formado de sentimentos, de intelligencia e da elevada concepção +do amôr. + +Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza +de Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua +mocidade, simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso +espirito, e tambem pela sua insaciavel ambição. + +Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus +projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se +deixar seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da +corrupção, da ignorancia ou do embuste; mas sim para representar +verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de +apoio... + +Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e +quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz +repetia á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras +seguirem o curso do seu fogoso temperamento. + +Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de +la Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço +ao pensar que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais +provocantes sorrisos te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então, +eu não seja a unica a possuir toda a tua alma! + +--Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que +este amôr é de vida e de morte. + +--Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para +a vida e para a morte! + +Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes +passeavam juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais +afastados e solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse +reconhecida nos seus passeios em companhia do joven deputado republicano. + +N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua +desviada da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo +ao cruzarem-se com um individuo que seguia em sentido contrario. + +Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não +poude por isso ser reconhecida. + +O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu +turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a +marqueza. + +Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo +reconheceu Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la +Tournelle. + +--Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os +passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres. + +Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o +impressionou. + +Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe +escrevia. + +Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do +seu regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara. + +«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o +fim dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para +ti, meu adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada +á tua ambição, que uma nova paixão exige. + +«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico +amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes +morrêr a descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas mas +pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem, +depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te, +antes a morte! + +«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo +abraçar-me logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu +estás aqui ha quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e +todas as tardes. + +«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos +meus braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de +fechar os meus olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao +cemiterio e coberta com algumas pás de terra? + +«A tua querida toutinegra d'outros tempos + +«Emilia.» + +Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio +lhe banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre +creança companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia +á qual jurara eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no +seu coração e no seu cerebro pela visão estonteante da marqueza de la +Tournelle. + +E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre +rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os +seus desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr +d'outros tempos transformara-se n'uma affeição de irmão. + +Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira +que lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida. + +Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa +immensa Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua +juventude, e a sua fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade. + +Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes, +Emilia comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido +Maximo, e então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se +abateram de um só golpe. + +Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito. + +A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo +já não me ama, pois bem, só me resta morrêr. + +Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em +Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e +decidiu-se por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao +menos uma vez antes de morrer. + +Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da +carta da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e +dirigiu-se a casa da pobre rapariga. + +Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta, +abriu-lh'a com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de +esperança. + +Foi tal a violencia da commoção recebida, que a pobrezinha, cahindo +nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos não poude +articular palavra. + +O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina +Emilia não era mais que uma sombra do que fôra. + +Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e +pelas noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um +phantasma. + +--Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado +tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe +causei, e a sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo. + +Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma +alegria verdadeiramente infantil exclamou: + +--Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella. + +Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te! + +Como eu te esperava! + +Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez! + +Como eu te amo! + +Se tu soubesses como eu te amo! + +Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma. + +Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva +como a pobre Emilia... + +Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a +percorrer. Tens que alcançar a gloria. + +Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua. + +Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer +o teu immenso orgulho... + +Eu conheço-te bem! + +Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira +d'outros tempos tinha razão. + +Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava +sempre a reconhecer o fatal abandono a que fôra votada. + +Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover +as recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus +amôres, dos seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a +Mendon, a Montmorency, a Ermenonville. + +--Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo. + +--Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes +crêr. Sentia-te perto de mim. + +Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam. + +Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard. + +A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu +não estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e +Maupertuis. + +O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia. + +Um extranho encanto havia em volta d'ella. + +Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da +janella. Lembrava uma convalescente que procurava cobrar fôrças, e +a quem o menor esforço enfraquecia. + +--Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem +coragem. A tua vida terá ainda dias felizes. + +--Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou! + +Pois não reparas? + +Não vês que eu não te faço a menor pergunta? + +Nem sequer me queixo! + +É a suprema resignação do condemnado. + +Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para +o «boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a +janella onde outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da +pobre creança. A sua dôr tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente, +envenenava a sua felicidade. + +Aguardou assim a hora em que M.me de la Tournelle o esperava. + +A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante +tinha qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o. +Perguntou-lhe a causa da sua dôr. + +Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso +que tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com +a pobre Emilia. + +--Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida, +disse-lhe elle. + +O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o +primeiro da minha vida! + +Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre +abandonada. + +«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim: +estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver +n'este mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate +da primeira amargura. + +Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma +n'este mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não +pode viver. + +A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o +seu perfume. + +Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella. + +Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a +outra a pobre florinha morreu e não ressuscitará. + +E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo! + +Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da +Sorbonne e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado, +sob as sombras de Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras +de amôr, quando tu apenas ousavas apertar-me a mão? + +Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha +juventude, porque tão depressa me fugiste? + +Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade? + +E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração? + +Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo +terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo +morrer! + +Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não +descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para +mim, essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude +apreciar. É essa a minha suprema consolação.--A tua pequenina amiga +d'outros tempos--Emilia». + +Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu +remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e +morrendo de desgosto não o deixava um instante. + +Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não +tinha a força para supportar as brutalidades da existencia e que o +primeiro abalo derrubava. + +Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que +possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os +heroismos. Nada as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas +os seus olhos se fecham sobre a visão pura que vive na sua alma e a +perversidade jámais as alcançará. + +A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu +ideal como a hera em volta da arvore. + +É esse todo o seu destino. + +E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos +palacios dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos +pobres. O observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos +elles são, tão simples, tanto se occultam na sombra; mas por pouco +que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida +dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o +heroismo do coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona, +sem colorido e sem perfume. + +As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que +toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas +é objecto não suppôe toda a grandesa. + +É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já +não existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes. + +É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se +reconhece a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz +verdadeiramente justiça. + +Mas então, é já tarde! + +Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado +desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um +thesouro de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar +dois lindos olhos, de ter feito o desespero d'um inexperiente coração. + +Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora +apenas essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi +comprehendida e que é amada. + +Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos. + +A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo, +chama-nos e attrahe-nos com os seus risos, as suas canções, o ruido +das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres. + +Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem +amantes, se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á +paixão pela cruz. + +Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais +humildade que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta. + +Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do +que uma. + +Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da +joven que ama perdidamente. + +Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem. + +Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz +tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella +para elle erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes. + +D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse +acompanhado. + +Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o +mal fazia constantes progressos. + +Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e +prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz +rapariga. + +Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra +chamado a tractar da joven Emilia. + +Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a e ficava surprehendido dos +progressos da doença, e resumia por estas palavras as suas impressões: +uma saude delicada morta por um desgosto terrivel. + +Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da +doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre +rapariga. + +--Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza! + +«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o +equilibrio das fôrças é incompleto. + +«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania. + +«A sua fraqueza faz d'ella uma santa. + +«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse +numero, reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes +verdadeiramente fortes, são talvez mais feridos pela desillusão do que +essa infeliz creança, mas vivem, não soffrem materialmente, sorriem até +quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem que elles são felizes. + +«Olhae, por exemplo, para mim! + +«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações? + +«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande +ferimento moral, me atormenta.» + +Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico. +Esse homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e +comtudo devia ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu +espirito. + +E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados, +todos os carinhos a Emilia. + +Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os +dias, de manhã e á noite informar-se do estado da doente. + +Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo +Branche, para distrahir a infeliz rapariga. + +Mas o mal fazia os mais rapidos progressos. + +Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de +salvar a terna creaturinha. + +Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente. + +Não podia já deixar o leito. + +Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr. + +E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as +bellas paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas +noites de inverno. + +Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de +deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e +outros. + +Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos +poetas e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa +e a felicidade que se aguarda. + +E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida +pela dôr, agarrada pela morte. + +Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile. + +Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro +sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e +perdia-se n'um mundo de recordações. + +Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua +mãe, que tambem bem cêdo a morte arrebatara. + +Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos. + +Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os +seus modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava +a Deus e á Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si. + +Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua +santa mãe. + +Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para +ser quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne. + +Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma; +sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica. + +E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e +seguir até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria. + +Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu +caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta. + +Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda. + +Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do +mundo sem ter visto acabar a primavera, sem ter colhido as flôres +d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, sem ter +conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!... + +Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes. + +Ronquerolle foi admiravel de dedicação. + +Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia +morrer, Ronquerolle nunca mais abandonou a doente. + +Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos, +accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar. + +Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de +felicidade lhe tivessem sido promettidos. + +--Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido +Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre! + +Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade? + +A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua +mulher. + +Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua +esposa. Se soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante! + +Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza, +sobre o teu braço, e de cabeça erguida, sem receio! + +Pois bem, o meu sonho, está realisado, não é verdade? E eu sou feliz. Já +posso acompanhar-te sem córar. Agora dizem ao vêr-nos passar em +Luxemburgo: ahi vão dois jovens noivos; e como elles vão contentes, como +se amam! + +Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua +«querida toutinegra» d'outros tempos, como elle tinha por costume +chamar-lhe, brincando com ella como duas creanças. + +E o deputado de agora tapava o rosto com o lenço e soluçava. + +Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis, +d'uma simplicidade encantadora. + +--Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu levar-me-has +para o campo, não é assim? + +Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques +e das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus +de verão, que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem. + +N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presença d'um +sacerdote e recebeu os sacramentos com a devoção e recolhimento d'uma +creança na sua primeira communhão. + +Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e +receber a hostia sagrada das mãos do sacerdote, a impressão n'elle +produzida foi tão violenta, que não poude conservar-se ali por mais +tempo e sahiu a respirar por um momento no boulevard Montparnasse. + +Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava. + +Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava. + +Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do +que se passava. + +--A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrerá mal chegue a noite, são +estas ás palavras do medico. Parte-se-me o coração e soffro muito por +vêl-a assim desfallecer. + +«Não quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella. + +Eram umas quatro horas da tarde. + +A marqueza quiz acompanhar Maximo até á cabeceira da moribunda. + +Emilia já mal respirava. + +A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a +cabeça. + +O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era +como uma phrase completa e fatal. + +A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar, +aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar. + +Madame de la Tournelle collocára-se ao lado do medico. + +O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de +Emilia. + +A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava +que durante muitos annos a infeliz que ia morrer fôra a amante de +Ronquerolle. + +Este, sentado aos pés do leito da pobre creaturinha sentia a mais +violenta das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de coração. + +E olhava essa figura magra, descarnada, que elle amara nos dias da +sua irrequieta mocidade. + +Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem côr, +n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador! + +E não podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que +elle amára, e gelar aquelle coração que lhe pertencêra. + +Emilia fez ainda um esforço para se sentar no leito. Ronquerolle correu +a ajudal-a. + +A infeliz voltou-se então para o lado onde se encontrava madame de la +Tournelle, e poude ainda dizer: + +--Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle! + +Depois pondo a mão fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu: + +--Não tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu +teria querido viver apenas para ti... + +«Tu não sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenderás e sinto que +não poderás esquecer-me!... + +E nada mais poude dizer. A sua linda cabeça cahiu novamente sobre a +almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava. + +No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flôres, dirigia-se +lentamente, pelas dez horas da manhã, para os lados do cemiterio do Père +Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario. + +Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz +soluçava, immerso na dôr, aniquilado. + +Uma dama com o rosto coberto por um espesso véu, tentava +inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um homem, +com o queixo encostado ao castão dourado da sua bengala, embrenhava-se +em mysteriosos pensamentos. + +Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o +medico que tratara Emilia. + +Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha á ultima morada, tanto +do rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do +fraco. + +Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear. + +A manhã estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus +reflexos de ouro e aquecia os boulevards. + +Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de +flôres e seguido apenas por uma carruagem. + +E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris +possue em tão grande numero. + +Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedêra o logar á tristeza, +conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da +ambição fôra dominada pela da dôr. + +Passou os dias a evocar a tocante recordação d'essa rapariga que elle +tinha amado, que a elle se havia dado com todo o seu coração, que elle +possuira e que morrêra por elle. De noite não podia dormir, erguia-se e +ia contemplar o retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes +da sua habitação. + +Quando olhava para essa figurinha tão graciosa, de olhar tão +singello e tão suave, o seu coração estremecia com as recordações do +passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu +rosto varonil de tribuno popular e de poeta. + +Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as. + +Sabia-as de cór, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da +mocidade, era para elle motivo de intima consolação. + +Eram já de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as +datas traziam recordações a Ronquerolle. + +--Que fatalidade! exclamava elle. + +Tudo se acabou. + +O luto entrou no meu pensamento e jámais o amôr me dará uma alegria sem +uma triste recordação. Encantadora e bôa creança, com a tua mocidade +levaste tambem a minha para o tumulo. Os tempos de illusão acabaram-se, +as horas tranquillas não voltarão mais. Agora só vejo na minha vida +sombras e tempestades. + +Para acalmar as suas apprehensões, para procurar serenar os seus nervos, +Ronquerolle começou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia. + +Compoz um verdadeiro poéma em sua honra e fêl-o publicar n'uma revista +litteraria. + +Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos. + +A marqueza de la Tournelle respeitou a dôr do seu amante. + +Ella sentia uma infinita e deliciosa commoção ao pensar que tambem seria +adorada por aquelle homem, e mais ainda que a bôa, mas simples +creaturinha que acabava de morrer. + +Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle +sahiu como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto +presidencial, e recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o +Parlamento ia recomeçar os seus trabalhos. Estava como um homem que após +um longo e profundo somno, desperta com a impressão de que tem um rude +trabalho a desempenhar, e um grande caminho a percorrer. Experimentado +pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle ia entrar na vida politica +como um verdadeiro athleta, treinado por violentas luctas. + + + + +VIII + +_Policia dupla_ + + +As tribunas da Camara estavam cheias de gente. + +Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a +Paris, mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias, +politicos de varios matizes, alguns más linguas e intriguistas e +parentes e amigos dos deputados, de tudo ali havia. + +As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel +assistir á sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente em +regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado. + +N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres +novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e +agitavam habilmente os seus leques. + +De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros +de ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas +impressões. + +Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade +sem procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não +podessem passar despercebidas. + +A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a +acompanhava era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita, +madame de Fleurus. + +O ministro da guerra acabava de dar á camara explicações sobre as +despezas não previstas pelo orçamento, e das bancadas do Centro +ouviam-se ainda appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou +gravemente estas palavras: + +--Na ordem do dia figura uma interpellação do sr. Ronquerolle sobre a +politica geral do governo. + +--Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle. + +Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema +esquerda, ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se +dirigiu lentamente até á tribuna dos oradores. + +Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns +papeis. + +Depois lançou um rapido olhar sobre o auditorio e começou a falar n'um +tom muito baixo. + +Tinha deante de si os ministros aos quaes não perdia de vista. Pouco a +pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em +todo o ambito do Parlamento. + +Ronquerolle passava á fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a +hypocrisia d'alguns dos membros do governo. + +Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder só para adquirirem +fortuna, não considerando o povo senão como uma machina util ás suas +ambições. + +Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a +sua amante. + +Ao clarão d'esse olhar apaixonado, á visão rapida d'essa bella figura, +d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado +n'um delicioso corpete, á vista d'essa mão fina e bem desenhada agitando +o leque finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma +forte commoção electrica, e encontrou para as suas palavras uma dicção e +uma accentuação de tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio. + +Ronquerolle, porém, nem via a Assembleia, esquecêra os seus collegas, os +seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; não via +mais ninguem pelo espirito, senão a sua bella Carlota, a sua +conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua vida. + +Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como já +havia conquistado o seu coração e os seus beijos. + +Queria unir-se a ella pelos laços indestrutiveis da estima, e do +respeito pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro. + +A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar. + +Respondia ligeiramente á sua amiga, que lhe dava conta das suas impressões: + +--Que pena, dizia ella á marqueza, que este homem não seja dos nossos! +Desejaria vêr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com +este vigor. + +A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoção de +felicidade. + +Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante. + +Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligação com Ronquerolle. + +Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua +superior concepção do amôr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria +vaidade, n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu coração. + +Essa sessão da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade +de traços, que jámais se apagariam. + +Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e +teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos já, e +que se assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem +flôres. + +O discurso de Ronquerolle causou enorme impressão. + +Foi discutido por toda a imprensa. + +Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as +suas doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel +eloquencia. + +Na quinzena que se seguiu, o novo deputado não teve mãos a medir. + +Era uma alluvião de solicitadores. + +Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegações, ou convidavam-n'o +para conferencias e banquetes. + +Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas +que a noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso. + +N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a pé para +sua casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras +as pessoas que andavam pelas ruas. + +Chegado á altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou +um momento para deixar passar uma fila de carruagens... + +Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou á sua +esquerda, um individuo cuja figura não lhe era desconhecida. + +Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o +observava, alargou o passo e passou adeante do deputado. + +--Ah! Já sei, disse Maximo, este homem é um agente da policia. Depois da +minha interpellação ao ministerio, este honesto espião não me deixa um +segundo. + +Não se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia +secreta. O discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso, +temivel para um ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse +facto era fazel-o submetter a uma rigorosa espionagem. + +Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de +que naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa +eloquencia que vinha de nascêr e que se apresentava implacavel para com +a traição. + +Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa +vergonhosa e ignobil observação dos agentes da policia secreta, o +inimigo da marqueza de la Tournelle não dormia tambem. + +Mais enraivecido que nunca, o barão de Quérelles tinha resolvido, elle +tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua. + +Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria +elle conhecêl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura. + +O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo coração não +vivia senão para o amôr e pelo amôr, cujo espirito jámais conhecêra o +que fosse uma baixeza. + +É assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiçosas attacam a belleza, +a generosidade, a coragem, a franqueza que lucta á luz do sol, a +franqueza que procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu +caminho claro e leal. + +Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos +silenciosos e invejosos. Não teem senão um fim, incommodar, prejudicar; +senão um pensamento, infeccionar, macular; não teem mais que um desejo, +um empenho, buscar trazer até elles, até á lama que os envolve, as +creaturas de eleição, que lhes fazem sombra, e das quaes elles não podem +imitar as qualidades e as virtudes. + +E assim é que, n'um jardim, se vê muitas vezes uma lagarta repellente +instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as +petalas da flôr. + +O barão de Quérelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas não +era um imbecil. + +Comprehendia que só uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em +campo para descobrir esse cumulo da infamia. + +Á uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos +Elyseos, após um copioso almoço, quando subitamente deu uma palmada na +testa, como se fôra illuminado por uma inspiração celestial e apressou o +passo. + +--Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.me William tratará +perfeitamente do negocio. Como não havia eu pensado n'ella ainda?! Oxalá +que ella não tenha mudado de rezidencia! + +E Dominique, sem se envolver n'outras meditações, cortou á esquerda, +seguiu ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao «boulevard» +Malesherbes, onde outr'ora M.me William occupava uma vasta habitação em +que dava soirées muito concorridas de jovens ricaços, jornalistas, +romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com maridos +velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogão, ou o +leito, ás seducções d'um baile, que começa ás onze da noite, para +terminar ás seis horas da manhã. + +--M.me William! perguntou Dominique timidamente ao porteiro. + +--No segundo andar, á esquerda, respondeu o homem. + +Podeis subir, madame está em casa. + +O barão respirou. + +Havia bem uns cinco annos que elle não visitava a mulher, cuja +recordação lhe viera tão aproposito. + +Receava não a encontrar, pois que M.me William era pessoa que se mudava +a miudo e que viajava mais a miudo ainda. + +--Que milagre! pensou de Quérelles. O quê! Depois de cinco annos, ella +não deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez! + +Terá renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos! + +M.me William era de origem ingleza. + +Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas. + +Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito +britannico? Ninguem ao certo, o sabia. + +M.me William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão para a +abandonar e todos fingiam acredital-a. + +Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões +frequentados pela alta sociedade. + +Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe +protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia +indulgencias ao seu procedimento. + +Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e +especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o +dinheiro, a intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de +fazer propostas deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher +cubiçada, procurava-se para esse fim M.me William. + +Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu +alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim +como as suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros +serviçaes. + +M.me William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para satisfazer os +seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel. + +Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie +coberta de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame +podridão, merecendo ser lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada +debaixo dos pés. Era a lagarta sem nome, de corpo repellente, devastando +esse immenso jardim humano que se chama Paris. + +Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a +missão de perder a marqueza de la Tournelle. + +M.me William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era bastante +formosa; e só por vêl-a e ouvil-a ninguem podia jámais suppôr as +torpezas da sua vida. + +Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação +estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção. + +--Que foi isso, barão, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe +até aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem +singularmente?! + +De Quérelles mostrava-se embaraçado. Não sabia como abordar o assumpto +pelo qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo +sem ter dito cousa alguma. + +Mas M.me William é que comprehendia claramente que se elle voltara a +procural-a após tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no seu +espirito existia qualquer preocupação grave. + +Tinha a impressão de que era preciso manobrar com toda a astucia dos +dias solemnes e dispunha já em linha de ataque todas as suas baterias. +Fez assentar o barão n'um sophá, perto d'ella, e interrogou-o sobre os +assumptos mais extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis +estratagemas para facilitar a confissão a um penitente, para o obrigar a +confessar qualquer grande peccado dos que não se ousam contar em voz +alta, de que só se fala na meia escuridão d'um fim da tarde e fechando +os olhos. + +Após duas horas de conversação o barão descarregára do coração um grande +fardo. + +A sua confissão fôra completa. + +M.me William soubera que Dominique gostava da marqueza de la Tournelle, +que elle tinha sido alvo dos desdens d'essa dama da aristocracia, +que elle desejava vingar-se humilhando a altiva fidalga; que era preciso +portanto, descobrir á marqueza qualquer amante verdadeiro ou falso, +fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em bôa ordem, algumas +excellentes notas de mil francos na sua bolsa. + +A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia +achar-se em frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha +ingleza não envolvia nos fios da sua teia tão bella presa. Detestava por +natureza as mulheres d'um mundo superior ao seu, e reservava-lhes as +suas mais crueis ciladas. + +Começou por encommendar duas soberbas «toilettes» n'uma modista da moda, +no «boulevard» Haussmann. + +--Meu pequeno De Quérelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o seu +coupé, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os +vestidos que encommendára, serás tu quem pagará a factura como inicio do +negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade. + +Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir +emissões para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para +satisfazeres na caixa as obrigações contrahidas. + +E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire. +M.me William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua +ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas +queria obter dados precisos, exactos, constatados por ella tanto +quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança e +firmeza de pulso. + +Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar +seriamente, no que ella chamava o negocio do barãosinho. + +--Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa +formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o +possue, trata-se de descobrir quem elle é. + +Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a +qualquer entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A +marqueza ama o grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o +theatro e tem um camarote na Opera. + +Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama. + +É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os +olhares; e d'isso me encarrego eu, M.me de la Tournelle! + +A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra, +elles teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos +as scenas harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações +litterarias e artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a +emoção produzida attinge a sua maior intensidade. + +O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como +quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos. + +M.me de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á lei +commum, doce lei que ordena áquelles que se amam que tudo sintam em +commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas. + +Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de +deputado republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a +marqueza frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas +comprehendiam que a sua ligação era impossivel se não observassem a cada +instante a maior prudencia. + +O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu +palacete havia readquirido a animação de todos os invernos. + +O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse +visto a conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo. + +M.me de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados, afim +de vêr ali o seu amante. + +Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira, +escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo +os oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua +actividade, e a marqueza era feliz vendo-o assim. + +Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella +apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza +todas as outras mulheres... + +--Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa +sublime mulher! + +Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso +segredo. + +E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle +atravez a sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota. + +Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares, +transmitia-lhe tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as +varetas do seu lindo leque beijos discretos. + +Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de +orchestra interrogarem-se. + +--Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo +camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa +estrella de diamantes? + +--É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor +informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris. + +Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!... + +Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade, +belleza e espirito. + +Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua +deliciosa amante. + +Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos +ouvidos essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir: + +--Amo-te! Amo-te! + +Invejava e tinha ciumes de todos os que visitavam o camarote da +marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das flôres e dos canticos +que enchiam o theatro. + +As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se +apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão +na intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha +organisado com uma arte consummada. + +Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações +e mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam +menos, por não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as +mesmas emoções, os mesmos prazeres. + +Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.me de la +Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro +do pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da +sala, chamou a attenção da amante. + +Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa: + +--Que imprudencia! + +E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente. + +Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma +embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse. + +Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.me William, a aranha +ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza +estando só, tinha-se affastado por alguns minutos da frente do +camarote. + +--Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse +comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o? + +M.me William havia já começado a sua sombria tarefa de espionagem. +Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o +palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a +perplexa. Não podera ainda achar um facto preciso, que podesse +collocal-a n'uma pista que devesse seguir. + +Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas +suas piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu +partido uma noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin +interpellará proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da +perfeitura da policia. Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes +infamias dos agentes secretos. O sr. Ronquerolle apresentará factos, não +baterá ao acaso. Desejamos que o ministro seja d'esta vez, um pouco mais +feliz do que na sua ultima derrota.» + +O ministro havia comprehendido a intenção e a ordem fôra revogada, ou +fôra suspensa por algum tempo a observação secreta de que Ronquerolle +era alvo. Este não poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus +adversarios. + +Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as +apparencias de legitima defeza politica. + +Quanto mais penetrava no exame dos actos e dos homens do poder, +maior numero de ignominias encontrava. + +A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam +honestos e dignos. + +--De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. Não são +phrases que é preciso lançar-lhes ao rosto, o que é preciso é +cuspir-lhes na cara. + +M.me William reconheceu a necessidade de realizar uma larga entrevista +com o barão de Quérelles. + +N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleição de +deputados em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de +Ronquerolle, o candidato republicano, e a parte que elle proprio tomára +nos acontecimentos. + +--Não faço ideia, interrompeu M.me William, como seja o aspecto d'esse +tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e cá fóra, e que +derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle? + +--É um homem alto e delgado, disse o barão, e elegante como um principe. +Mas porque me faz essa pergunta? + +--Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando +uma attitude de denguice. + +M.me William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos +deputados. + +Occupava logar n'uma tribuna não distanciada d'aquella onde M.me de la +Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares, +deliciando-se com a vista do amante. + +A esperta ingleza reparou em que a loura Carlota não desviava os +olhos do joven deputado. + +--Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente +senhora marqueza é necessario que eu vos faça seguir durante os vossos +passeios atravez a cidade de Paris! + +As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se +alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados +uns dos outros. + +Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas +reuniões. + +Além d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a +Ronquerolle, de fórma a estabelecer a duvida na espionagem de que +podesse ser alvo. + +Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos é facil fazer falar os +creados e os cocheiros. + +Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita. + +Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente +deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de +manhã e d'outras vezes á tarde ou á noite. + +M.me de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fóra de seu +palacete sem se comprometter. + +Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia. + +Em geral as pessoas que vivem na grande cidade não se occupam dos visinhos. + +Nas casas habitadas por pessoas de alta posição só se exige uma +qualidade aos locatarios, e essa qualidade consiste em não fazer +ruido nas escadas. + +O socego e algumas peças de cinco francos lançadas de tempos a tempos +nas mãos dos porteiros auxiliam efficazmente os amôres illicitos nos +ninhos dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos +predios teem duas entradas, e portanto duas sahidas. + +Este systema aperfeiçoado permitte ás pessoas que teem motivos para se +envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo +contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das +pessôas que se occultam nas mysteriosas habitações. + +Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para +n'aquelle jogo de amôr obter todos os trumphos. + +De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da mãe commum, a +natureza, serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida. + +Que prodigios de imaginação não teriam os amantes, para se vêrem a miudo. + +Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas +preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher +casada, pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a +perdêr, se o segredo da sua ligação viesse a ser desvendado. + +O marquez de la Tournelle não tinha a menor suspeita sobre a virtude e a +fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um cão ao dono e nem +sequer discutia os seus menores caprichos. + +Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de +devoção, como se ama e se venera uma divindade. + +Depois do chéque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos +olhos da marqueza, porque não seguira os seus conselhos. + +Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da +frieza que sua mulher lhe testemunhava. + +Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphára, M.me de Tournelle +apenas permittia ao marido que a beijasse na testa. + +Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater á porta do +quarto de sua mulher. + +--Sois vós, Sergio? perguntou ella com voz irritada. + +E como elle lhe respondesse affirmativamente: + +--Tende paciencia, mas não vos posso attender. Voltae para os vossos +aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain. + +Effectivamente estava vestindo uma elegantissima «toilette» depois de se +ter perfumado dos pés á cabeça. + +Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amôr; mas +para salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em +Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por +isso, para ir cahir nos braços do seu adorado, do seu querido Ronquerolle. + +--Fui eu que errei, dizia Sergio de la Tournelle dirigindo-se para +os seus aposentos. + +Devia ter escutado os seus conselhos e obedecêr-lhe escrupulosamente... +Oh! A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa +engrenagem? + +Carlota! Carlota! + +Se tu soubesses como eu te amo! + +Morreria por ti se m'o ordenasses! + +E o desgraçado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua +esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era +verdade, que jámais a podia reconquistar. + +O pobre marquez devorava a sós o seu profundo desgosto, porque as suas +dôres eram d'aquellas que não se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um +amigo intimo. + +N'essa noite o marquez de la Tournelle não dormiu. + +Ouviu dar todas as horas até ás quatro da madrugada. + +A essa hora a marqueza entrava em casa. + +Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a +porta da rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada +da escadaria abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois +tudo voltára á tranquilidade e ao silencio. + +--E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que +acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como +uma Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse +ella me acolheria com um sorriso de piedade! + +E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se +estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza, +mordia as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril. + +No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a +importancia da sua desgraça. + +A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso +«rendez-vous» de amôr. + +Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se +vagarosamente, lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado, +sobre uma poltrona. + +Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso +republicano. + +E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar +apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem +senão a elle. + + + + +IX + +_Drama sangrento_ + + +M.me William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, não +podia penetrar nos segredos da vida privada da bella Carlota. +Dispunha-se ella a organisar uma espionagem especial e astuciosa, quando +uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual era convidada a +apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito da policia. + +Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o +timbre da Prefeitura. + +No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo +que chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu +gabinete, conforme o aviso que lhe enviara, M.me William tomou um trem +e fez-se conduzir para a Prefeitura. + +Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla +ao subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na +consciencia uma serie de acções más, que suppunha terem sido +descobertas, e achava singular que a policia viesse metter o nariz nos +seus negocios. + +Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas +personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como +ella, chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda. + +Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta +ergueu-se rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete, +e passou a um gabinete onde esperou apenas um instante. + +Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não +havia reparado. + +--Meu caro senhor, exclamou logo ella, é extraordinario! Ha sem +duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não comprehendo que a policia +me faça comparecer aqui, obrigando-me a... + +E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o +individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de +morte, lhe fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas +palavras. + +--Vós sois madame William, disse elle; madame William do «boulevard» +Malesherbes; não é assim? + +--Effectivamente, respondeu a criminosa mulher. + +--Está bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha de +serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes +a fazer por mais tempo concorrencia á Prefeitura de policia, +vêr-nos-hêmos obrigados a reconduzir-vos á fronteira. + +M.me William quiz ainda balbuciar algumas explicações, e tentou ainda +enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas +foi trabalho perdido. O homem não se desmanchou e disse-lhe ainda: + +--Madame, sabemos tudo. Não viestes aqui para fazer phrases +sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia já +vol-a dei. Fazei por não a esquecerdes. + +E, como M.me William se erguesse, o homem accrescentou ainda, pondo a +mão sobre um masso de papeis. + +--Madame, estão aqui documentos que vos dizem respeito. Como vêdes +o masso é bastante volumoso. Devo prevenir-vos de que estaes sob a +vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a vossa. + +M.me William regressou á sua habitação fortemente impressionada com o +que se passára. + +Não se entendia já dentro dos acontecimentos. + +Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao barão +de Quérelles, pedindo-lhe para ir vêl-a sem demora. + +A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das +suas pequenas intrigas, mas não soube explicar como tinham esperado +tanto tempo para a advertirem de que tivesse cuidado nos seus +«negocios». Havia annos que ella intrigava a sociedade parisiense, e +sempre a tinham deixado «trabalhar» á vontade. Mas apenas dirigira as +suas baterias contra M.me de la Tournelle logo a policia intervinha no +caso. Realmente a maldita Prefeitura queria tirar-lhe o pão da bocca. +Afinal, pensava M.me William, aquelle trabalho a que ella se entregava +era como outro qualquer; era um meio de ganhar a vida «honestamente». + +O que se tinha passado, perguntará o leitor, para que a policia se +intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que +velava sobre a sua amante, como uma mãe vela pelo seu filho, havia tido +a suspeita de que a marqueza estava ameaçada d'um grande perigo; e +redobrando de vigilancia, havia sabido da existencia de M.me William. + +Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os +ataques na Camara, do joven deputado, déra immediatamente as ordens mais +severas relativamente á aranha ingleza tão compromettedôra. + +E foi assim que M.me de la Tournelle, sem o saber, foi desembaraçada +d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais deploraveis +consequencias. + +O marquez, porém, começava a sentir algumas suspeitas. Era tão +desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua +intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a +causa unica da repulsão que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a +bella Carlota fôra mais attrahente e digna de ser adorada. + +Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais +aristocraticos de Saint-Germain, não faltava ás sextas-feiras da Opera, +nem a uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as +interessantes sessões parlamentares. + +Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes +elegantes da vida parisiense vêem ali apresentar os seus maravilhosos +encantos e as suas deliciosas frivolidades. + +Nas secções mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle +nos termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom +tom e da verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o estandarte da +belleza no batalhão das formosas louras. + +A sua amiga, M.me de Fleurus, era rainha na côrte das morenas. + +Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que +muitas mulheres desejariam possuir. + +M.me de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, por um +adoravel e quasi imperceptivel buçosinho. + +--É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas vezes +sorrindo, para M.me de la Tournelle. E devemos tirar todo o partido +possivel do que a natureza nos concedeu. + +Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia +constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade +parisiense. Ella bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo +os mais fortes e os mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir +falar nos encantos, na elegancia, e na belleza da mulher a quem amam. + +Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade. + +Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era +tambem, o seu orgulho. + +Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do +«Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a +abraçar o mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que +haviam redigido essas noticias tão simples, mas para elle tão +encantadoras, afim de lhes offerecer opiparos jantares na «Maison +d'Or», em que o Champagne corresse a rôdo. + +Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se +falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção. + +Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se +a sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria +esposa, como se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos +olhos sonhos voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel +intensidade o tão falado supplicio de Tantalo. O divino licôr +mostrava-se deante dos seus labios febris, mas o marquez não podia +mitigar a sêde que o devorava. E não tentava sequer aproximar o calice +que brilhava como faiscas de diamantes. + +Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma +corrente que cae no fundo d'um precipicio. + +Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral +que quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la +Tournelle teria falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a +replica, e teria arrombado sem difficuldade a porta do quarto de dormir +onde a marqueza se encerrava pretextando a fadiga ou o arranjo da sua +toilette. + +É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que +indicam o dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais +fechado a porta; viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado +na fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho. + +A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela +fraqueza. É feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal, +feroz ou louco, mas por uma força intelligente, bella e harmoniosa. + +O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe. + +Para M.me de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com elle +sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do +talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava +ligada ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida, +augmentando dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação. + +O marquez estava preso da maior angustia. + +Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu +os aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de +dormir, o seu «boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de +perfumes. Reinava ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do +grande mundo, quando acaba de se preparar para ir a um baile, a um +theatro, ou a uma entrevista de amôr. + +Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que +concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle +cahiu sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero +impossivel de descrevêr. + +Uma extranha recordação invadiu todo o seu sêr, e lagrimas ardentes +queimaram as suas palpebras. + +No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre +comsigo nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin +e de Saint-Martin para Paris. + +Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir. + +Veiu até junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava +fechado á chave. + +--É singular! disse o marquez. Porquê este mysterio?! + +E o seu ávido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre. + +Poz-se a sacudil-o. + +Nenhum som se fez ouvir. + +Então a colera atravessou o coração d'aquelle desgraçado homem. + +Tomou o cofre entre as duas mãos, acima da altura da cabeça, e lançou-o +violentamente contra o marmore branco do fogão. + +O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle. + +O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as +cartas. + +Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim +nos segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido, +lançava-o de encontro ás catastrophes. + +Com mão tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha +apenas alguns versos, e respirou. + +A julgar pelo amarellado da tinta, havia já bastante tempo que esses +versos tinham sido escriptos. Olhou para a assignatura: «Maximo +Ronquerolle». + +--O quê, pensou elle, o nome d'esse homem! + +Mas é uma infamia! Oh que fatalidade! + +A outra carta não continha assignatura. + +Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia. + +Á medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a +atravessar-lhe o coração. + +Comprehendeu emfim todo o seu infortunio. + +Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse +republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle +a quem tinham por habito chamar o cidadão Ronquerolle. As duas cartas +que haviam saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado +á sua amante. + +Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expressão de amôr. + +A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleição, +após o apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso. + +A carta dizia: + +«Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sêde bemdita, pois +haveis secundado os meus esforços, tendo a coragem de me sacrificardes +os preconceitos da vossa raça, e a vossa posição. + +Que hei de eu fazer para chegar até á altura do vosso amôr, que se +affirma tão poderosamente»! + +E mais adeante lia-se: «Que bello destino antevejo, para ti e para +mim, deliciosa amante! Ninguem saberá que nos amâmos, ninguem advinhará +o segredo da nossa paixão... + +Amar-nos-hêmos, adorar-nos-hêmos por nós mesmos, e não em obdiencia a +tôlas convenções sociaes, não por nos conformarmos com pequenas cousas +ou interesses pueris!» + +A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o +infeliz marquez de la Tournelle. + +Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse +espirito fraco, comprehendêra de quanta magia dispunha sua mulher. + +E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia +ter aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as +verdadeiras conquistas do amôr. + +Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado á sua amante que queimasse os +seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amôr. + +Ella sempre o promettera fazer mas jámais tivera coragem para cumprir a +sua promessa. + +Essas lettras do amante eram para ella deliciosas recordações do inicio +dos seus amôres, e sentia uma extranha voluptuosidade em relêl-as. + +É tão agradavel conservar os objectos que hão acompanhado o nascer e o +desenvolver d'uma paixão sincera! + +As palavras escriptas pela pessôa amada, quer sejam receosas, prudentes, +conselheiras ou loucas e irreflectidas; as pequenas lembranças ou +recordações, um annel um lenço, um livro; uma simples flôr que secca mas +que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo, mesmo na sua +pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais eloquente +testemunha do nosso amôr. + +Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que são tudo para quem amou, e +que não trocaria essas recordações d'um dia, d'uma hora, ou d'um +instante feliz na sua vida, por uma perola, um diamante, uma corôa, um +reino. + +M.me de la Tournelle não daria por um imperio aquelles dois papeis +escriptos pelo seu amante. + +Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle. +Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria +Ronquerolle. + +Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela +sua parte, não a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo. + +No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas +cartas de Ronquerolle como um thezouro de alto preço. + +O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu +pensamento. + +--Está bem! exclamou elle com resolução. + +E tornou a collocar as duas cartas no cofre. + +O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada. + +Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pôl-o no +mesmo logar onde o encontrára. + +Não queria que sua mulher percebesse o que se passára e principalmente +que elle tinha conhecimento da sua falta. + +A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle começou de +apparentar uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria +com satisfação e mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados +pequenas lembranças. + +Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas +de conversação, teria dito: Que homem tão feliz! E, no emtanto o +desgraçado estava ferido de morte. + +Durante um mez occupou-se em pôr os seus negocios em ordem. Todas as +manhãs o seu secretario vinha trabalhar com elle. + +Algumas dependencias de sua casa, que estavam em más condições foram +arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez +receberam a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis. + +A marqueza não sabia que pensar do procedimento de seu marido. + +Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares +perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida +tratava de assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros. + +E no emtanto o marquez não tinha no cerebro qualquer projecto definitivo. + +Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas +qual? + +Não teria podido dizêl-o. + +--Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle? +Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para quê? É uma +loucura. Elle está no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella +mulher a quem sorriu e que se lhe entregou... Eu é que deveria ter feito +com que ella me amasse. Devo matal-a, a ella, á culpada, ou pôl-a fóra +de minha casa? E seria eu menos desgraçado, após essas violencias? Não, +não. O golpe está dado, a minha vida está envenenada e o meu destino +traçado. + +Não posso confiar a minha dôr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo. +Sou eu quem deve morrêr! + +Ah! Se eu não a amasse!... + +E o desgraçado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte. + +Era o seu unico refugio. + +N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo +o seu costume, indo a uma «soirée» que dava a sua amiga, M.me de Fleurus. + +Era nos fins de maio. A estação dos bailes e recepções estava a +terminar. M.me de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia, +para voar para os braços de Ronquerolle. + +Estava prestes a deixar os salões da sua amiga, quando esta se aproximou +d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe áparte, e +immediatamente. + +M.me de Fleurus estava pallida e a sua apressada respiração denotava +grande emoção. + +--Minha querida Carlota, disse-lhe ella; é preciso que voltes já a tua +casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei. + +Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido +encontra-se muito mal... Partamos depressa. + +Por sua vez a marqueza se tornou pallida. + +Suppoz logo que uma desgraça irreparavel acabava de se passar. + +Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma +confusão enorme. + +Á porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos, +corriam d'um lado para o outro falando e gesticulando. + +Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos +agentes descia pela escadaria principal. + +Ao vêr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se +respeitosamente e ahi mesmo participou a M.me de la Tournelle o que se +passára. + +Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do +marquez tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado +entrára nos aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrára morto sobre +um tapete, no seu quarto de dormir. Tinha-se suicidado; não restava duvida. + +Na manhã seguinte, Ronquerolle, que em vão esperára pela amante até ás 2 +horas, ao pegar no «Figaro», deparou com estas linhas: + +«Á ultima hora acabâmos de receber uma triste noticia: + +«O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba de fallecer. Tinha +quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem, e um +amigo dedicado dos principes da casa de França. + +O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo +triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido +nas ultimas eleições. + +A sua morte é atiribuida á ruptura d'uma aneurisma. A marqueza está +inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam +com os seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas +respeitosas homenagens.» + +--Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxalá que esta +desgraça não venha a recahir tambem sobre ella! + +A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente +commentada, menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era +uma das senhoras mais conhecidas de mundo parisiense. + +Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos +olhos do publico por ter succumbido á ruptura d'uma aneurisma, como o +«Figaro», habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade não +guardou menos o segredo. + +Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas +precisavam da marqueza e calaram-se. + +Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passára. Quando os dois +amantes se encontraram após a catastrophe e depois dos funeraes do +marquez, estavam inquietos e tremendo. + +Abraçaram-se fechando os olhos, e conservaram-se assim algum tempo +sem proferirem uma palavra. + +--Saberia elle da nossa ligação? perguntou, por fim, Ronquerolle. + +«Porque se matou elle? + +«Teremos sido nós os culpados d'essa morte? + +--Não, respondeu M.me de la Tournelle. Meu marido de cousa alguma +suspeitou. + +--Estás certa d'isso? interrompeu o deputado republicano. + +--Sim, estou certa, replicou a bella Carlota. + +Ronquerolle respirou mais á vontade. + +Elle não explicava o suicidio do marquez senão pela descoberta da verdade. + +M.me de Tournelle era sincera, nas suas affirmações. + +Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella +encontrára sobre a sua meza de trabalho. + +Essa carta não encerrava a menor reprehensão, qualquer allusão que a +podesse ferir. Pelo contrario, era ella uma expressão do mais violento +amôr. + +O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica +motivos politicos. + +Lendo essa carta d'um homem que ao escrevêl-a resolvêra já fazer saltar +os miolos, Ronquerolle demonstrára um sentimento de piedade. + +--O desgraçado, exclamou elle, não estava á altura da sua missão. +Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que +descance em paz. + +A marqueza nunca suppoz que seu marido tinha lido as cartas de +Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero, comprehendendo +que nunca seria amado por ella. + +Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle +tiveram conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a +sua derrota politica. + +Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava +partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado +cahir, e como encontrára dentro d'elle a poesia e a carta de +Ronquerolle, que tanto amava, nunca lhe veiu á ideia que se passára em +sua casa um grande drama, que determinára a morte d'um homem. + + + + +_Epilogo_ + + +Um anno é decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade +parisiense não se fala d'outra coisa, senão do casamento da marqueza de +la Tournelle com o deputado Ronquerolle. + +O bairro de Saint-Germain considéra como uma escandalosa união a d'uma +mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado +orador, o inimigo do throno e do altar. + +Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos +conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram. + +A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria +occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior +silencio. + +Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa união nos seus labios +brincou um sorriso singular. + +Monsenhor acabava de almoçar, e saboreava uma chavena de café tomado a +pequenos golos, no seu gabinete de trabalho. + +O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino +Moka. + +--Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete que +ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Nós ali +estivemos os dois. + +--Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza não +assistiu a esse banquete politico. + +--E porque não assistiu ao jantar a formosissima Carlota? + +E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e +em voz quasi afflautada. + +--O cidadão Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor, +retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mão esquerda +e fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalhão. + +O prelado ficou um momento pensativo. + +Depois enchendo um calice com finissimo licôr offereceu-o ao seu +interlocutor e tomou um outro calice para si. + +Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e +levaram-os em seguida aos labios. + +--Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo. + +--Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe o +reino dos céus. + +--E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo. + +--Ella! replicou o travesso vigario, é uma deusa do Olympo, que desceu +até nós. + +Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de +Dijon, uma outra scena não menos interessante se dava em Paris entre +Ronquerolle e os seus tres amigos. + +Tinham n'essa manhã almoçado juntos em casa do deputado republicano, e +depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio +de belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo. + +Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordações dos +primeiros annos da sua mocidade na grande Paris. + +Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Café +Tabourey, onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amôr e +de ambição. + +Lá estava ainda, esse café attrahente, esse cantinho parisiense tão +propicio aos homens de lettras e aos poetas. + +Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram. + +Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro +da casa, lá estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de +copos. + +A menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento estava um +pouco mais nutrida. + +Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar +o café. + +A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou +estabelecidos e elle precisava descançar. A edade assim lh'o exigia. + +Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios +de melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta: + +«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.» + +Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da +adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem +fama, tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel +orgulho. Que de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados +áquella meza, sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo +versos, imaginando romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas +vezes a todos reanimava e que d'outras se desesperava sentindo-se tambem +vencido pela adversidade. Como parecia que esse tempo já ia longe! + +--Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os +nervos, vamos. + +«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao +pescoço e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria! + +«Merecem bem que as recordêmos, essas loucas, mas lindas e alegres +companheiras dos tempos que não voltam.» + +Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos. + +Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento. + +Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal +rapido aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para +onde a desviára Maupertuis. + +Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para +os seus amigos: + +--Acompanhem-me. + +E encaminhou-os para o cemiterio do Père-Lachaise, até junto do tumulo +da infeliz Emilia. + +O excellente rapaz não podia evocar os dias da sua primeira mocidade, +sem pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que +morrêra por elle. + +Quando essa lembrança lhe invadia o cerebro, o coração soffria e +Ronquerolle sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava. + +Avançou sósinho até ao tumulo da sua amante. + +Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia. + +Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali +se conservou algum tempo, como que petrificado. + +--Pobre creança, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida +pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida. + +«A primeira dôr quebrou o teu debil coração; os rigôres do destino hão +encontrado em ti uma presa facil. + +«Como tu me adoraste! + +«Ah! Tinhas razão quando no teu leito de agonia, me disseste que eu +nunca te poderia esquecer. + +«Tu foste a poesia e a flôr da minha juventude e viverás eternamente no +meu pensamento.» + +Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o +marmore da lapide tumular: + + Appareces-me sempre, oh candida Visão! + E choro-te saudoso, oh minha Primavera! + Se não soffrêra assim seria ingratidão. + Furtar-te á morte, amôr, eu bem quizéra, + Mas sempre viverás na minha adoração. + +Muito tempo ainda decorreu. + +Branche, Didier e Maupertuis, começaram a inquietar-se. + +--É preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dôr pode matal-o. + +Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um braço, afastou-o +d'ali. Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creança. Pararam depois +um instante nas immediações do Père-Lachaise e d'ali contemplaram Paris +que se desenrolava deante d'elles. + +--Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desçâmos ao +turbilhão, e esqueçâmos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa +obra de justiça... A nós a fortuna e a gloria! A nós a vida! + +Ronquerolle apertou a mão do seu companheiro de luctas e sorriu +tristemente. + +Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na +immensa cidade, na grande capital. + +.......................................................................... + +Em cada anno, pelo começo do mez de agôsto, se vê chegar ao lago de Côme +um par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de +cascatas emolduradas de flôres. Dir-se-hia que se trata de dois +namorados que fugiram de casa de seus paes, e que ali se occultam, para +furtarem a sua alegria e o seu amôr a olhares indiscretos. Nunca dois +entes mais sympathicos pela harmonia da sua mocidade, appareceram por +aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo do lago, volta-se a +gente para os admirar na sua encantadora marcha. + +Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas. + +Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que hão +conquistado a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae +essas felizes creaturas! + +É a marqueza de la Tournelle que passa pelo braço do seu adorado e +apaixonado marido, o deputado Ronquerolle. + +FIM + + + + + +End of Project Gutenberg's Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO *** + +***** This file should be named 30946-8.txt or 30946-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/9/4/30946/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/30946-8.zip b/30946-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..cadb3b7 --- /dev/null +++ b/30946-8.zip diff --git a/30946-h.zip b/30946-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..693dcfd --- /dev/null +++ b/30946-h.zip diff --git a/30946-h/30946-h.htm b/30946-h/30946-h.htm new file mode 100644 index 0000000..e173ec4 --- /dev/null +++ b/30946-h/30946-h.htm @@ -0,0 +1,5127 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Amôres d'um deputado, por Hipolito Buffenoir</title> + <meta name="Author" content="Hipolito Buffenoir"> + <meta name="Publisher" content="Guimarães e C.ª"> + <meta name="Date" content="1911"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + blockquote {margin-left: 20%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Amôres d'um deputado + +Author: Hippolyte Buffenoir + +Translator: A. Ferreira + +Release Date: January 12, 2010 [EBook #30946] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>IV - Colecção Diamante</p> + +<p>HIPOLITO BUFFENOIR</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-right: 10%;color:#ff0000">Amôres</p> + +<p style="color:#ff0000"><small>D'UM</small></p> + +<p +style="font-size: 3em; margin: 0; margin-left: 10%;color:#ff0000">deputado</p> + +<p> </p> + +<p>Guimarães & C.ª editores—Lisboa</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.5em;">Amôres d'um deputado</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%;text-align:center;"> + <em>Composto e imprenso na Imprensa<br> + de Manuel Lucas Torres<br> + Rua do Diario de Noticias, 93</em></blockquote> + +<p><span class="pn">{2}<br> +{3}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p>COLECÇÃO DIAMANTE</p> +<hr> + +<p style="text-align:right; margin-right: 20%;"><em>Hipolito Buffenoir</em></p> + +<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-right: 10%;">Amôres</p> + +<p><small>D'UM</small></p> + +<p style="font-size: 3em; margin: 0; margin-left: 10%;">deputado</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;"><em>Trad. de A. Ferreira</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1911<br> +Guimarães & C.ª—Editores<br> +68, R. do Mundo, 70<br> +LISBOA</p> +</div> + +<p><span class="pn">{4}<br> +{5}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001000">I.<br> +<em>O café Tabourey</em></a></h1> + +<p>—Paga oito «sous»! gritou Carlos, o moço do café Tabourey, +dirigindo-se á menina Amelia Dufer, a filha do dono do estabelecimento, +exercendo o logar de «caixa», e acompanhando o grito do lançamento d'uma moeda +de cincoenta centimos sobre o marmore d'um pequeno balcão.</p> + +<p>A rapariga guardou a moeda e deu-lhe o troco de dois «sous», que Carlos fez +cahir sobre uma meza do fundo onde um freguez se achava escrevendo uma carta. +</p> + +<p>—Oito e dois dez! resmungou o moço do botequim, tirando um prato e uma +chavena que se achavam sobre a meza.</p> + +<p>—Está bem, guarda o resto para ti! retorquiu suave e tristemente o +freguez, mal erguendo os olhos da carta que estava terminando.</p> + +<p>O relogio collocado quasi junto do tecto da casa, embutido mesmo nos ornatos +da cimalha marcava dez horas e vinte e cinco<span class="pn">{6}</span> minutos +e o freguez do café Tabourey olhando-o, melancholicamente, suspirou e pensou: +</p> + +<p>—Decididamente, não veem esta noite; levanto a sessão!</p> + +<p>Ainda se demorou alguns minutos procurando na meza do centro, entre um monte +de jornaes, o «Soir» e não o encontrando, dirigiu-se á menina Amelia Dufer, +entregando-lhe a carta que acabava de escrever.</p> + +<p>—Se esses senhores vierem, a menina faz-me o favor de entregar esta +carta a Maupertuis, sim?</p> + +<p>—Com todo o gosto, sr. Ronquerolle, respondeu, amavelmente, a joven +Amelia, esboçando um gracioso sorriso, completamente perdido, porque o seu +interlocutor havia já desapparecido na rua Vaugirard.</p> + +<p>N'aquella noite, Ronquerolle, que se sentira invadido por um aborrecimento +maior que de costume, tomara uma importante resolução. Decidira voltar á sua +terra natal, ha tanto tempo esquecida, e a carta que elle entregara á menina +Amelia Dufer, ao sahir do café Tabourey, dizia o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right">«Meus amigos:</p> + +<p>Porque não vieram esta noite? Esperei-os durante muito tempo. Tenho +necessidade de os ver. Vou partir para a Borgonha.</p> + +<p>«Estou cheio de tristeza.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right">«Vosso amigo, </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right">«Maximo Ronquerolle». </p> + +<p> </p> + +<p>Ás onze horas, os amigos de Ronquerolle<span class="pn">{7}</span> aos quaes +aquella carta era dirigida e que, após o jantar tinham resolvido dar um passeio +pelos «boulevards» voltavam ao Bairro Latino, entrando no seu café predilecto, +pensando, e com razão, que Ronquerolle, se já ali não estivesse, lhes teria +deixado o que elles vulgarmente chamavam as suas «instrucções».</p> + +<p>Entretanto, o que mais desejavam era vel-o porque tinham a dar-lhe uma +importante noticia.</p> + +<p>Estes rapazes chamavam-se Jayme Maupertuis, Feliciano Didier e Emilio +Branche. Eram, como Maximo Ronquerolle, poetas, jornalistas e politicos. +Pobres, quasi desconhecidos, procuravam ser alguma coisa e para esse fim +corriam em busca da fortuna e da gloria. Todos os quatro eram republicanos.</p> + +<p>Tinham feito excellentes estudos na provincia, e aos vinte e vinte e cinco +annos haviam partido para Paris, com grandes receios das suas familias, que os +consideravam perdidos, no movimento e confusão da grande capital.</p> + +<p>Socegados na apparencia, eram quatro enthusiastas. A imaginação junta a uma +clara intelligencia, eram as qualidades predominantes de todos elles.</p> + +<p>A sua conducta era irreprehensivel. A amizade que os unia era profunda. +Estimavam-se, adoravam-se mutuamente.</p> + +<p>Ronquerolle e Maupertuis tinham-se conhecido na provincia, na sua terra +natal, na Borgonha. Travando relações, de creanças, aos quinze annos, durante +os dez que se seguiram tinham-se perdido de vista até<span +class="pn">{8}</span> que se haviam reencontrado em Paris, graças á «Revue des +Poétes», que publicava versos de ambos.</p> + +<p>Didier e Branche eram do norte. Viviam como dois irmãos. Uma bella manhã, +juntos haviam deixado Lille, e juraram á sua entrada em Paris, de sempre ahi +continuarem a viver juntos e de juntos tambem seguirem a carreira, que a sorte +a qualquer d'elles deparasse.</p> + +<p>Hospedados no hotel «Lisbonne» da rua Vaugirard, em pleno Bairro Latino, ali +encontraram á mesma meza, Ronquerolle e Maupertuis. Uma grande sympathia se +estabeleceu rapidamente entre esses quatro rapazes, que em poucos minutos +comprehenderam que os movia o mesmo pensamento, a ambição e o desejo vehemente +d'uma absoluta independencia.</p> + +<p>Na occasião em que o leitor trava conhecimento com os quatro mancebos, +conheciam-se elles ha dois annos. Os primeiros tempos da sua franca e leal +camaradagem, tinham sido encantadores. Haviam comunicado os seus pensamentos, +os seus projectos de futuro, enthusiasmando-se mutuamente, lendo os seus versos +e conversando sobre os seus amôres, pois que cada um d'elles tinha a sua +amante.</p> + +<p>Chegados ao café os tres amigos de Ronquerolle, receberam a carta que este +ali lhes deixara encarregando-se da sua leitura Maupertuis, que do seu +contheudo deu conhecimento aos seus companheiros Didier e Branche.</p> + +<p>—Vamos depressa! disse Branche, que tinha por Maximo uma verdadeira +adoração.<span class="pn">{9}</span></p> + +<p>Um quarto de hora depois, os quatro amigos achavam-se reunidos em casa de +Maximo Ronquerolle, que habitava no «boulevard» Montparnasse.</p> + +<p>—Já sabes da novidade? perguntou Maupertuis.</p> + +<p>—Qual novidade?! disse Ronquerolle surprehendido.</p> + +<p>—Sahiu o decreto.</p> + +<p>—Um decreto!?</p> + +<p>—Pergunta a Didier e a Branche!</p> + +<p>—É verdade! ajuntaram estes.</p> + +<p>—Trouxe-te o numero do «Soir», que trata do assumpto, disse Branche. +Aqui tens, lê, nas ultimas noticias.</p> + +<p>Com effeito Ronquerolle leu um decreto do Presidente da Republica, +convocando os eleitores para reunirem em 15 de julho.</p> + +<p>Ronquerolle, pallido de commoção, conservou-se um momento ancioso.</p> + +<p>É que elle sabia que aquella data, marcada para as eleições de deputados, +poderia ter grande importancia na sua vida. Para elle esse dia seria decisivo, +na sua existencia, d'aquelles cuja aproximação faz tremer o homem mais +corajoso, causando-lhe calafrios.</p> + +<p>—E então, que me dizes do decreto? perguntou Maupertuis.</p> + +<p>—Digo-te, respondeu Ronquerolle, que elle me indica, que tenho a +dizer-lhes coisas muito graves. Assentem-se que temos que conversar.</p> + +<p>Os trez amigos de Maximo acceitaram o convite e emquanto Ronquerolle foi +buscar uns papeis guardados n'um movel proximo, esperaram anciosos que elle +falasse.<span class="pn">{10}</span></p> + +<p>De volta para junto da mesa perto da qual se achavam os seus amigos +Ronquerolle lançou os papeis sobre a sua secretaria e aproximando o seu +candieiro de trabalho e tomando uma cadeira, disse rindo:</p> + +<p>—Está aberta a sessão!</p> + +<p>Então Ronquerolle contou aos seus amigos que havia algum tempo estava em +relações com o «comité» republicano de Saint-Martin, na Borgonha; que os +membros d'esse «comité» lhe tinham offerecido a candidatura por aquelle +districto, e que elle havia demorado a resposta até ao dia em que o decreto +relativo ás eleições fosse publicado.</p> + +<p>—Explendido! gritaram ao mesmo tempo os trez amigos. Bello! O decreto +sahiu. Não ha que hesitar, acceitas!</p> + +<p>—Mas eu hesito ainda; e se lhes pedi para virem aqui esta noite, foi +na intenção de lhes falar d'este negocio e de lhes pedir conselho.</p> + +<p>E Ronquerolle tornou conhecidos dos seus amigos os documentos relativos á +futura eleição por Saint-Martin. Tratava-se de lutar, em nome da Republica, +contra o marquez de la Tournelle, que representava ali as ideias reaccionarias, +e que seria approvado por todos os fanaticos do throno e do altar.</p> + +<p>—Mas isso é encantador, exclamou Maupertuis, farás desapparecer o tal +marquez como uma simples bolinha de prestidigitador; e entrarás na Camara como +uma bala de canhão.</p> + +<p>—Não me embriaguem com palavras, disse Ronquerolle desenhando-se-lhe +no<span class="pn">{11}</span> rosto uma nuvem de tristeza. Não vá eu contar +com a victoria e me aguardem as desillusões. A lucta será encarniçada, +terrivel. O marquez possue influencia, é rico, pode vencer...</p> + +<p>—Ora adeus! interrompeu Didier. Todo o districto de Saint-Martin se +impressionará com a tua embriagadora eloquencia, inflamarás todas as +intelligencias com os teus discursos, e no dia da votação, o teu nome +victorioso sahirá das urnas.</p> + +<p>—E depois, accrescentou Branche, que amava mais Ronquerolle do que a +um irmão, tu imaginas que vamos deixar-te combater sósinho?! Reclamamos tambem +a nossa parte na lucta; proponho que partamos comtigo para a Borgonha, tomando +a cidade de Saint-Martin, como nosso quartel-general, da qual faremos fogo, de +quatro barricadas, afim de reduzir á expressão mais simples sua excellencia o +marquez de la Tournelle e todas as jovens e velhas devotas, que, estou certo, +correm já por montes e valles trabalhando a favor da candidatura de tão alta +personagem!</p> + +<p>Uma formidavel gargalhada saudou a arrogante phrase de Emilio Branche, e o +proprio Ronquerolle foi obrigado a acompanhal-a olhando o seu amigo.</p> + +<p>Depois de duas horas de discussão, ora calma ora ruidosa, ficou decidido que +Ronquerolle acceitaria a candidatura que lhe era offerecida, que Branche, +Didier e Maupertuis deixariam Paris durante o periodo eleitoral, e que iriam a +Saint-Martin auxiliar o seu amigo, e que, sendo necessario fundariam um jornal +de combate.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>Ronquerolle mais pallido ainda que do costume, estremecia de satisfação ao +pensar que o seu nome ia sahir da obscuridade, e que ia achar-se envolvido nas +luctas politicas do seu paiz. Assaltava-o já o desejo, de se encontrar, elle, +filho d'um humilde artista borgonhez, em frente d'esse arrogante marquez de la +Tournelle, provando-lhe que os filhos dos proletarios tinham mais sangue nas +veias, que os filhos e os netos dos emigrados de Coblentz, entrados em França +nos carros de mercadorias do estrangeiro.</p> + +<p>Provava assim possuir o legitimo orgulho dos homens seguros da sua +consciencia e do seu valor e o desejo de ajudar generosamente os seus amigos, +fazendo-os saltar os obstaculos, que os impediam de obter uma posição que lhes +permitisse chegarem até onde a sua justa ambição os attrahia.</p> + +<p>Não era só por si que Ronquerolle ambicionava uma situação, era por +Maupertuis, Branche e Didier. O primeiro a chegar ao ponto desejado devia +estender a mão aos outros, e, decerto, não era Ronquerolle dos que poderia +esquecer os companheiros dos dias difficeis da mocidade.</p> + +<p>Era uma hora da manhã quando os quatro rapazes se separaram.</p> + +<p>Encontrando-se no «boulevard» Montparnasse, os amigos do poeta, preocupados +com os acontecimentos que iriam dar-se, guardaram silencio.</p> + +<p>A noite estava magnifica. Uma brisa suave trazia á grande cidade os +vivificantes perfumes dos bosques de Ville-d'Avray, de Sèvres, de Meudon e de +Clamart. Alguns<span class="pn">{13}</span> trens percorriam ainda os +arruamentos e só elles turbavam o socego d'aquelle bairro de Paris.</p> + +<p>Chegados á encruzilhada do Observatorio, Maupertuis, Didier e Branche +voltaram a conversar animadamente.</p> + +<p>Intimamente, porém, sentiam-se tristes.</p> + +<p>—Uma nova existencia vae começar para nós, disse Maupertuis, uma vida +de discordias, de combates, de lucta. Podemos dizer adeus á bella tranquilidade +dos nossos vinte annos!</p> + +<p>—E o que faremos das nossas amantes? acrescentou subitamente +Didier.</p> + +<p>—Daremos a liberdade a essas gentis avesitas, disse Branche, e não as +lamentemos que ellas saberão orientar-se no paiz do amôr. Voces bem +comprehendem, que não podemos preocupar-nos com saias durante o periodo +eleitoral.</p> + +<p>—Poderiamos talvez, interrompeu Maupertuis, envial-as para casa de +seus paes!</p> + +<p>—Tu falas bem! tornou Branche; infelizmente ignoramos a sua morada.</p> + +<p>—Porém, Ronquerolle, accrescentou Maupertuis, não poderá, tão +facilmente como nós, desfazer-se da sua amante. Trata-se d'uma ligação séria. O +que será de Emilia sem elle?</p> + +<p>—Meus filhos, disse Branche com ares paternaes, guardemos para amanhã +a continuação da palestra, e vamos deitar-nos. A discussão fica suspensa.</p> + +<p>E os trez amigos separaram-se.</p> + +<p>Entretanto Ronquerolle, após a sahida dos seus amigos, encontrando-se no seu +modesto gabinete de trabalho apressou-se<span class="pn">{14}</span> a tomar +algumas notas, sobre o que se passava, e entrou no seu quarto.</p> + +<p>Julgando encontrar a amante adormecida, avançou com precaução para não a +despertar. Qual não foi porém o seu espanto, quando a encontrou embrulhada n'um +«robe de chambre», sentada n'uma cadeira e chorando copiosamente.</p> + +<p>—Que tens tu? disse Ronquerolle, aproximando-se e tomando-a nos +braços.</p> + +<p>A pobre rapariga soluçava perdidamente, e não podia articular palavra.</p> + +<p>Comtudo, como o amante a enchia de perguntas e a envolvia em caricias, +acabou por dizer-lhe que tinha ouvido toda a conversação que elle tivera com os +seus amigos, e que bem reconhecia que a legitima ambição de Ronquerolle, era +uma ameaça á sua felicidade, que seria a separação de ambos, para sempre +talvez.</p> + +<p>E essa incerteza, era terrivel para ella, que apenas podia receiar e chorar. +</p> + +<p>—Creança, disse ternamente Ronquerolle, porque duvidas de meu carinho? +Não sou o teu amante, o teu melhor amigo? Por ventura, depois de trez annos, +que vivemos juntos, alguma vez te menti, te enganei, te abandonei um dia, uma +hora?...</p> + +<p>Tentava animal-a, mas a duvida e o receio haviam ferido a alma sensivel da +pobre Emilia, e tornar-se-hiam mais vivos á medida que se fossem desenrolando +os acontecimentos, que tão fortemente interessavam a Ronquerolle.</p> + +<p>A amante do novo candidato a deputado, era uma rapariga de vinte e trez +annos, de cabellos louros, olhos azues, d'um azul encantador,<span +class="pn">{15}</span> figura insinuante, bem talhada, seio proeminente mas sem +exageração.</p> + +<p>Adorava a Ronquerolle a encantadora Emilinha.</p> + +<p>Tinham-se conhecido por forma um tanto ou quanto original.</p> + +<p>Haviam frequentado ambos o curso d'um professor celebre da Sorbonne.</p> + +<p>A joven Emilia ia ali acompanhada d'uma tia velha, á qual os seus parentes, +que viviam na provincia, a tinham confiado.</p> + +<p>Os amôres do joven republicano e da sensivel Emilinha, tinham começado com o +aspecto d'um idylio innocente, e havia tido por moldura o jardim do Luxembourg. +</p> + +<p>Que de encantadores passeios não realizaram Ronquerolle e a linda +rapariguinha sob as arvores que ensombram a fonte de Médicis!</p> + +<p>Que de ternas discussões elles não prolongaram percorrendo a Avenida do +Observatorio!</p> + +<p>Que de alegres pensamentos, não os assaltaram ao atravessarem o arvoredo, +por entre as aleas floridas, ou quando sentados nos bancos de marmore, onde +ficavam horas esquecidas, a falar do seu futuro, dos seus projectos, dos seus +sonhos de felicidade!</p> + +<p>Toda a força da juventude os aquecia. Um cantico de mocidade cheio de vida, +perpassava por elles.</p> + +<p>Um dia juntaram-se as mãos e apertaram-se com transporte. Depois, +Ronquerolle, era natural, atreveu-se a beijar a sua linda companheira, e +finalmente deixando o curso do tal professor da Sorbonne, no<span +class="pn">{16}</span> proprio dia em que elle, eloquentemente, dissertava +sobre os encantos dos amôres platonicos, Ronquerolle conduzia Emilia á sua +habitação e fazia da pobre pequena sua amante.</p> + +<p>Desgostos, inquietações e lagrimas tinham já acompanhado essa ligação +durante os seus trez annos de existencia. Mas nas edades de Ronquerolle e de +Emilia, esquecem-se facilmente as miserias da existencia, as angustias da +pobreza, os tormentos da ambição, e as calumnias dos vis e dos preversos.</p> + +<p>Agora porém Emilia, conforme avançavam os dias e os mezes, sentia +avolumarem-se, desenvolverem-se os receios de ser obrigada, por circunstancias +imperiosas, a deixar o amante.</p> + +<p>Previa, com o maravilhoso instincto da mulher que ama, que um homem como +Ronquerolle seria envolvido no turbilhão do mundo, que a sua ambição o +prenderia completamente, e que ella, pobre flôr colhida de passagem, no caminho +da vida, depois de quebrada, perdida, seria abandonada á sua dôr, ao seu +desespero.</p> + +<p>Empallidecia e estremecia de commoção quando ao passar por uma egreja, via +descêr, ou subir, para uma carruagem uma noiva toda casta e lindamente vestida +de branco, coroada de flôres de larangeira. Tambem á pobre Emilia seria grato, +transpor assim as naves do templo, e ali receber o sagrado annel de casamento. +</p> + +<p>Ronquerolle podia esposal-a, é verdade, a mais ninguem ella havia +pertencido. Para elle era ella uma mulher honesta; para elle<span +class="pn">{17}</span> devia ella ser digna de usar o seu nome.</p> + +<p>Por vezes ella tinha a illusão de que a sua ligação seria santificada, mas +pouco depois o seu intelligente espirito abraçava tristes ideias e tinha então +o presentimento do futuro, glorioso para Ronquerolle, obscuro e desgraçado para +ella. E esse devotado coração de mulher, verdadeiramente amante, preparava-se +já para o sacrificio, em favor d'aquelle a quem tanto amava.</p> + +<p>Emilia tinha ouvido toda a conversação de Ronquerolle com os seus amigos +Maupertuis, Didier e Branche. Soubera que o amante ia deixar Paris, partindo +para a Borgonha, e o seu coração palpitara com mais força, com violencia.</p> + +<p>Tinha visto com as mais sombrias côres o futuro que a sorte lhe reservava e +por isso chorava.</p> + +<p>—Não chores assim, supplico-te! disse-lhe Ronquerolle, olhando-a +ternamente. Commoves-me profundamente com as tuas lagrimas. O que pode +affligir-te assim?!</p> + +<p>—Julgavas-me adormecida e no entanto eu estava acordada, respondeu +Emilia. </p> + +<p>Conheço os teus projectos e os dos teus amigos. Ouvi o que disseram ha +pouco.</p> + +<p>O que te causa tanta alegria, entristece-me, porque é o fim d'esta nossa +ligação que surjirá dos acontecimentos aos quaes vaes entregar todos os teus +pensamentos, a tua existencia.</p> + +<p>—Creança! retorquiu Ronquerolle, pois é esse o motivo da tua tristeza +e das tuas lagrimas! Tu bem sabes que nunca te abandonarei! Vamos, socega!</p> + +<p>Pensa na tua bella mocidade: e dize bem<span class="pn">{18}</span> alto que +te amo e que te hei de amar sempre com toda a força do meu coração!</p> + +<p>Estas palavras, pronunciadas com uma sincera convicção, abrandaram um pouco +as inquietações de Emilia, mas no seu pensamento ficara uma nuvem de amargura e +de pezar.</p> + +<p>Ronquerolle, por seu lado, embora a sua audacia, a sua energia e a sua +poderosa vontade, estremecia ao pensar na brutal realidade dos factos, +realidade de que elle se queria aproximar, que precisava abraçar, que, a todo o +custo, precisava vencer.</p> + +<p>A amante cançada por fim das commoções soffridas, adormecera. E elle, +sentado perto do leito, perto d'uma pequena meza, e á luz, d'uma lampada, tendo +a cabeça encostada ás mãos, parecia recolhido n'uma dolorosa meditação. O seu +olhar brilhava e não mudava de direcção Relembrava as palavras do grande poeta +inglez Shelley;</p> + +<p>«O mundo é feio e mau.» Via-se a caminhar pelas estradas e atalhos, de +Saint-Martin, de aldeia em aldeia para fallar da Republica, aos cidadãos, aos +trabalhadores, aos homems do campo.</p> + +<p>N'alguns momentos, o seu pensamento mudava de objectivo e olhava a amante +adormecida. A cabecita loura de Emilia reclinara-se para o lado do amante. +Transportes d'amôr enchiam então o coração do joven republicano e pensava, +recordando ainda Shelley:</p> + +<p>«Não, não! Nem tudo é feio! Nem tudo é mau n'este mundo! Tomo por testemunha +esta creança, que dorme aqui perto de mim, este seio que se eleva e abaixa, +respirando<span class="pn">{19}</span> vida, estes bellos cabellos louros +soltos lindamente, e a que os raios da luz d'esta lampada dão reflexos +dourados...</p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION002000">II<br> +<em>O marquez e a marqueza de Tournelle</em></a></h1> + +<p>A pequena cidade de Saint-Martin, na Borgonha, conta seis mil habitantes. É +uma linda e graciosa sub-perfeitura que tem os seus ares de praça forte, com as +suas antigas muralhas, a sua guarnição e sobretudo pelo seu velho castello, +dominando a cidade e recordando os tempos do feudalismo. Este castello é +habitado desde tempos immemoriaes pela familia «de la Tournelle», que tem nos +seus brazões a corôa de marquez.</p> + +<p>Os «de la Tournelle», durante muito tempo, foram os senhores da região. No +tempo da Revolução, e nomeadamente durante o Terror, o seu poder decahiu +muitissimo; porém quando Bonaparte se apoderou do throno e se fez imperador, +readquiriram o seu antigo prestigio, graças ás habeis generosidades diffundidas +na região e mais especialmente na circunscripção de Saint-Martin.</p> + +<p>No momento em que se desenrolam os<span class="pn">{20}</span> factos que +relatamos, o marquez Sergio de la Tournelle considerava mais do que nunca, esta +circunscripção de Saint-Martin como um feudo que, sem duvida alguma, lhe +pertencia. «Maire» da cidade, conselheiro geral e deputado da direita, não +poderia affrontar os seus inimigos?</p> + +<p>Além d'isso, era digno de ouvir-se, quando fallava do pequeno grupo de +republicanos que se agitava na sua circunscripção. Chamava a esses bravos +democratas, assassinos, patifes, dignos de serem enviados para Cayenna, canalha +sempre embriagada, frequentando os antros do deboche e insultando os padres. +</p> + +<p>No entanto, as ultimas eleições municipaes tinham mandado trez d'estes +«assassinos» a tomar o seu logar na «mairie», ao lado do sr. marquez, e o +senhor «de la Tournelle» tinha d'isso um vivo despeito.</p> + +<p>A marqueza de la Tournelle, Carlota Maximiliana de Champeautey, era uma +mulher d'um bello aspecto e immensamente seductora. Tinha trinta annos, sendo +mais nova quinze annos que seu marido. Era bella e forte. Trazendo sempre a +cabeça arrogantemente erguida, o seu peito, extraordinariamente desenvolvido +nada tinha d'exagerado, por causa da sua elevada estatura. Os cabellos +castanhos claros, os olhos azues, as mãos finas com os dedos alongados, os +pequeninos pés, completavam o arsenal das suas graças femininas. Além d'isso, +amava os perfumes, a «toilette» e dava leis ás grandes elegantes como as +adoraveis mulheres do XVIII seculo. Era amavel<span class="pn">{21}</span> para +todos, ainda mesmo para os humildes e os pequenos.</p> + +<p>Finalmente, não se poderia vêl-a sem logo a amar. A bella Carlota não tinha +um inimigo, exceptuando talvez o barão de Quérelles, um conquistador +desprezado, que tinha jurado não morrer sem se vingar dos desdens da altiva +aristocrata. O barão vinha rarissimas vezes a Saint-Martin, mas estava ao +corrente de todos os acontecimentos da pequena cidade.</p> + +<p>A marqueza tinha no coração, ou antes na cabeça, uma paixão deveras rara +entre as mulheres. Era ambiciosa.</p> + +<p>Tinha tentado fazer de seu marido um alto personagem, dar-lhe o prestigio +superior da vontade e da energia. Porém o marquez «de la Toumelle» pertencia á +raça dos mediocres, terminando a marqueza por ter compaixão d'elle. O marquez +era um bello homem, muito elegante no seu porte, muito bom cavalleiro, bom +valsista, bom caçador, conversador agradavel ainda que futil, mas incapaz de +empregar, por seu proprio esforço, a actividade necessaria, e de seguir a um +fim com tenacidade. Era vaidoso, mas ignorava o poder do orgulho. Tinha uma +grande confiança em sua mulher e não tomava qualquer resolução sem a consultar. +Elle era só quem dispunha dos altos cargos da circunscripção, só elle se +offerecia aos suffragios dos eleitores. Quem ousaria disputar-lhe a victoria? +Deputado em evidencia, proprietario respeitado, dispondo d'um jornal, tendo ás +suas ordens um «comité» das pessoas mais elevadas da cidade, batia o seu +concorrente completamente, se acaso<span class="pn">{22}</span> um se +apresentasse, se bem que sabia, dizia elle, que ninguem havia tão tolo que +contra elle aceitasse uma candidatura.</p> + +<p>—Ah! os cobardes! os amotinadores! gritava uma tarde na janella do seu +castello, fallando dos republicanos, e dirigindo-se ao presidente do seu +«comité»: Elles que nada teem, que são pobres como Job, fallam em ser senhores! +Pois bem! onde está o seu candidato? Que appareça! Vamos, mostrae-m'o raça de +biltres!</p> + +<p>Ao pronunciar estas palavras, o marquez estendia os braços no espaço, +ameaçando com um gesto o café da «Poule-Blanche», logar da reunião habitual dos +republicanos de Saint-Martin.</p> + +<p>A noite cahia lentamente. Lá em baixo, um ultimo raio de sol dourava +melancholicamente o cume do monte. Era uma d'estas tardes de junho que enervam +a alma e os sentidos. O marquez olhava a cidade, os logarejos, as aldeias +perdidas no horizonte longinquo e ondas d'uma vaidade insaciavel lhe subiam ao +coração ao pensar que o seu nome dominava na região, como as torres do seu +castello dominavam as choupanas da visinhança. Um sorriso de satisfação lhe +animou o rosto e teve palavras d'espirito para se rir dos seus inimigos. Quando +estava completamente absorvido no pensamento da sua estrella feliz, o seu +creado de quarto, Lapierre, tomou a iniciativa de lhe levar os jornaes que +acabavam de chegar de Paris. Rasgou, com um gesto brusco, a cinta que envolvia +o «Figaro» e passou rapidamente para a segunda pagina para consultar as +noticias dos departamentos e das eleições.<span class="pn">{23}</span> Os seus +olhos cairam immediatamente sobre estas palavras em normando: +<strong>Borgonha</strong>, «circunscripção de Saint-Martin.»</p> + +<p>Leu soffregamente a seguinte noticia:</p> + +<p> </p> + +<p>«Escrevem-nos de Saint-Martin, que dois «candidatos se propõem por aquelle +circulo, o sr. marquez de la Tournelle conhecido deputado, representando o +partido conservador, e o sr. Maximo Ronquerolle publicista, candidato do +«comité» republicano. A lucta, diz-se, será violenta. Temos, porém, todas as +razões para acreditar que «o sr. Marquez de «la Tournelle» baterá o seu +adversario.»</p> + +<p> </p> + +<p>—Ah! ah! ah! riu o marquez; a graça não está má.</p> + +<p>Em seguida, dirigindo-se á galeria, chamou muitos dos seus amigos que +estavam no salão e leu-lhes a noticia que acabava de ler no «Figaro».</p> + +<p>—Como, diz o conde d'Orgefin, presidente do «comité» realista, esse +Ronquerolle ousa apresentar-se aqui! É um homem sem valor, escoria de Paris, um +revolucionario, um escrevinhador. Conhecêmol-o creança a esse senhor! Usava uma +blusa e tamancos. Creio mesmo que seus paes mendigavam...</p> + +<p>—Não, disse o marquez, tornando-se sério, o pae Ronquerolle era pobre, +mas ganhou sempre honradamente a sua vida. O bom homem era um dos nossos fieis +eleitores. Vinha algumas vezes ao casteilo pedir-me conselhos e fui eu quem em +tempos o levou a fazer instruir seu filho. Estou bem<span +class="pn">{24}</span> recompensado! O creançola cresceu e é elle quem nos vae +dar combate, meus senhores!</p> + +<p>—Mas não é um adversario sério, replicou o conde d'Orgefin; é uma +creancice! Quem é o senhor Maximo Rouquerolle? Não existe. Os republicanos de +Saint-Martin deviam pelo menos oppôr-nos um homem de valor e não um fedelho, um +ninguem, um cidadão Ronquerolle!</p> + +<p>Riram todos muito. Lapierre, o creado de quarto, tinha assistido a esta +scena, esperando ordens do seu senhor.</p> + +<p>—Está bem, diz-lhe o marquez, manda atrelar o break maior. Eu e estes +senhores sairemos hoje para fóra da cidade, para Sennevel... Ah! espera, +Lapierre, leva o «Figaro» á senhora marqueza. O criado tomou o jornal e retirou +depois de saudar o marquez.</p> + +<p>—Pobre Maximo! murmurava por entre os dentes, atravessando um +corredor, como estes tratantes te tratam! Está descançado, que eu te ajudarei +com as minhas fôrças a destruir esta nobreza. E isto simplesmente porque +outr'ora fômos camaradas na escola...</p> + +<p>Lapierre foi interrompido no seu monologo pela campainha electrica. Ao mesmo +tempo, a marqueza atravessava a galeria que confinava com a escada d'honra do +castello. Ia passear um pouco pelo jardim antes que a noite descesse +completamente. O criado entregou-lhe o jornal. Apenas o abriu os seus olhos +cairam sobre a nota relativa á eleição de Saint-Martin.</p> + +<p>Ao lêr o nome de Maximo Ronquerolle,<span class="pn">{25}</span> publicista, +a marqueza empallideceu, murmurando:</p> + +<p>—Meu Deus! seria elle? será possivel: Sim, sim, chama-se Maximo, como +eu Maximiliana, recordo-me. É elle que vae chegar?</p> + +<p>A commoção da marqueza era tão forte, que as suas mãos finas se humedeceram, +como se tivesse febre; em logar de ir passear, como tencionava, no jardim, +voltou aos seus aposentos onde se deixou cair n'um «fauteuil».</p> + +<p>Passado um instante, levantou-se sem fazer ruido e offegante, como uma +criminosa, temendo que qualquer dos seus criados a viesse surprehender, abriu +uma pequena secretaria e tomou um cofre de que só ella possuia a chave, indo +sentar-se junto da janella. A tarde tinha caido completamente. Um ultimo raio, +como diz André Chenier, animava ainda o fim da tarde, mas as trevas do +crepusculo invadiam toda a natureza. A marqueza affastou as cortinas da +janella; á luz do ultimo raio de sol que desapparecia, pôde reler uma carta que +estava no cofre e que tinha esta assignatura: «Maximo Ronquerolle.»</p> + +<p>Era uma carta d'amôr e d'amôr apaixonado. Os versos misturavam-se com a +prosa e o signatario falava d'uma tarde, d'um baile parisiense onde tinha +dançado com madame de la Tournelle...</p> + +<p>«Oh! porque vos vi eu? dizia a carta. Porque senti eu bater o vosso peito +junto ao meu n'esse baile onde me levou o destino, esse Deus do mundo, segundo +o pensamento de Schiller? Penso constantemente<span class="pn">{26}</span> em +vós, é a saudade por vós que me alenta. Não vivo, não aspiro senão á vossa +belleza».</p> + +<p>Depois, impellido pelo lyrismo da sua paixão, Ronquerolle, ia até á +intimidade da marqueza, cantando a sua formosura hellenica em estrophes d'oiro. +</p> + +<p>Os seus lindos olhos azues o seu porte altivo e distincto d'uma plastica +impecavel, o seu amôr ardente, tudo alli cantava em arrobos d'amôr e +d'enthusiasmo.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de «la Tournelle» teve um estremecimento ao lêr de novo +esses versos. Com effeito, lembrava-se d'um rapaz com quem uma vez tinha +dançado, havia quatro anos e que, no dia seguinte, ousara escrevêr-lhe, +fazendo-lhe uma declaração d'amôr ardente... Porque guardara ella essa carta +que a podia comprometter? Porque a não rasgara e lançára ao fogo como fizera a +tantas outras produzidas pela sua belleza explendorosa? Porque tremia, ao lêr +de novo uns versos, escriptos outr'ora por um desconhecido que perdêra de vista +no grande mar da vida parisiense?</p> + +<p>Mysterios do coração que nem mesmo os grandes sabios descobrem.</p> + +<p>Enigmas do sentimento que zombam das investigações mais cuidadosas. Talvez, +no fundo da sua alma, a bella Carlota sentisse uma alegria intima, e como que +occulta, de ter inspirado uma paixão tão violenta e tão sincera como a que +sentia Ronquerolle! Talvez que os versos do joven poeta, com o seu rythmo +harmonioso, lhe recordassem o doce encanto d'uma valsa preferida! Talvez que a +audacia de Ronquerolle lhe não<span class="pn">{27}</span> tivesse desagradado, +e admirasse a sua temeridade corajosa, o enthusiasmo da sua juventude!</p> + +<p>A noite espalhava-se por toda a parte e ella ficara recostada no seu +«fauteuil», com a luz apagada.</p> + +<p>A escuridão favorecia o seu sonho e, apertando entre as mãos a carta, +murmurava, distraida, os versos de Ronquerolle.</p> + +<p>E era elle, esse terrivel democrata, cuja canditadura os jornaes anunciavam +em opposição á de seu marido! Era elle que vinha á circumscripção de +Saint-Martin arvorar a bandeira da Republica contra a nobreza contra a sua +raça, contra a sua familia, contra ella mesma?</p> + +<p>Ia voltar a vêl-o e a fallar d'elle a cada momento!</p> + +<p>—Meu Deus! Meu Deus! dizia, que singular aventura. Se meu marido +soubesse! Mas porque estou eu assim perturbada? Quem é, afinal, esse sr. +Ronquerolle?</p> + +<p>Guardou de novo e com cuidado a carta amorosa no cofre que fechou em +seguida, e que foi encerrar n'um dos esconderijos mais occultos da secretaria. +</p> + +<p>N'esta occasião, o marquez de «la Tournelle» voltava do logar de Senneval +aonde tinha ido levar a nova da candidatura republicana a um amigo da sua +familia. Acompanhavam-o conde d'Orgefin e os srs. de Trimolet e de Nipostte, +pessoas da mais alta distinção na cidade e em todo o departamento.</p> + +<p>Os cavallos do marquez passavam estrepitosamente na calçada da rua principal +de<span class="pn">{28}</span> Saint-Martin. Tinham já passado o theatro e o +café da Bolsa. Um minuto mais e a carruagem estaria em frente da «Poule +Blanche», o café dos vermelhos, dos assassinos dos «democs», como costumava +dizer o marquez de la Tournelle.</p> + +<p>—Que ruido vem d'este lado! disse o sr. Trimolet, indicando a «Poule +Blanche»; ouvem meus senhores? De quem é esta voz? Ha alli uma reunião? +Escutem! Applaudem!</p> + +<p>O marquez deu ordem ao seu cocheiro para demorar o andamento e os cavallos +começaram a andar a passo. A porta da «Poule Blanche» que dava para a rua +estava completamente aberta. O café via-se cheio de gente, empregados de +paletot, taberneiros de blusa, operarios em mangas de camisa e com o avental do +trabalho. Sobre o bilhar viam-se muitos garotos. Em cima d'uma cadeira junto do +espelho do fundo, um orador fallava. A sua voz sonora fazia tremer tudo e +ouvia-se até da praça junto á fonte. A multidão escutava-o religiosamente.</p> + +<p>—Queridos concidadãos, dizia o orador, accorri ao vosso appelo. +Agradeço-vos o não vos terdes esquecido de mim. Trabalhadores, sou dos vossos! +Republicanos, podeis contar commigo como eu conto comvosco!</p> + +<p>... De que tratamos nós? Tratamos apenas de dezenraizar d'esta cidade, +d'este departamento, a arvore pôdre da reacção monarchica e clerical; trata-se +de bater no proximo escrutinio legislativo, o senhor de «la Tournelle», esse +marquez da<span class="pn">{29}</span> idade media perdido nos tempos +modernos!... Pois bem! nós o alcançaremos, cidadãos!...</p> + +<p>Applausos freneticos acolheram estas palavras, ouvindo-se immensos gritos +de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! Nunca a «Poule Blanche» tinha +abrigado egual gritaria popular. N'esta occasião a carruagem do marquez, que +caminhava a passo, chegava deante do café republicano.</p> + +<p>Aos gritos repetidos de: Viva a Republica! Viva o cidadão Ronquerolle! o +candidato realista empallideceu de colera. Não havia que duvidar, os democratas +de Saint-Martin apresentavam realmente um candidato para lhe fazerem opposição. +</p> + +<p>—Cidadãos, continuava Ronquerolle enthusiasmado com os applausos, +faremos tremer os de «la Tournelle» no seu castello feudal e +desembaraçar-nos-emos do seu jugo. O povo, libertado pela Revolução, não quer +nobres para o representar. É de cidadãos saidos das suas fileiras que deve fiar +os seus destinos...</p> + +<p>Ronquerolle pronunciava estas palavras com uma voz estrondosa e o auditorio +tremia d'enthusiasmo.</p> + +<p>—Como, dizia o conde d'Orgefin, é este tratante quem nos trata assim! +E applaudem-no. Mas, meus senhores, é necessario desembaraçarmo-nos d'este +canalha!</p> + +<p>A carruagem do marquez de «la Tournelle» transpunha a porta do castello e +ainda se ouviam os applausos e os gritos dos cidadãos reunidos na «Poule +Blanche» para festejar a chegada de Ronquerolle e<span class="pn">{30}</span> +dos seus tres amigos Branche, Didier e Maupertuis.</p> + +<p>A chegada do candidato republicano e dos seus companheiros de lucta, estava +sendo um acontecimento extraordinario na pequena cidade de Saint-Martin. Toda a +população estava impressionada. Viam-se pelas portas as mulheres ou faziam +grupos nas ruas; os homens tinham invadido todos os cafés na cidade e fallavam +com animação da lucta eleitoral.</p> + +<p>Na «Poule Blanche» a multidão augmentava a cada instante. Os discursos +tinham terminado e os ouvintes trocavam as suas impressões acêrca dos oradores +que tinham tomado a palavra. Maupertuis tinha fallado depois de Ronquerolle. +Recorreu para o tom ironico e os seus sarcasmos, cheios d'espirito parisiense, +tinham posto o auditorio n'um bello humor. Depois de Maupertuis, o presidente +do «comité» republicano, Kolri, desenvolvêra um pequeno discurso cheio de bom +senso e d'energia. Tinha posto o marquez de «la Tournelle» nas peores condições +e os exaltados não fallavam já senão em ir cantar a «Marselhesa» debaixo das +janellas do castello.</p> + +<p>Pouco a pouco, porém, a «Poule Blanche» ficou sem ninguem. A hora de fechar +tinha chegado. Kolri, «o bravo Kolri» ficara com os parisienses, +acompanhando-os a um quarto cujas janellas davam para a rua principal. +Organisou-se então, uma pequena sessão onde foi elaborado um plano de campanha. +</p> + +<p>—Em primeiro logar meu caro Korli, disse Ronquerolle, tenho que +avisar-vos<span class="pn">{31}</span> de que vamos fundar um jornal. O +primeiro numero sairá depois d'amanhã. Chamar-se-ha «Reveil de Saint-Martin». +</p> + +<p>—Vamos ter um jornal! gritou Korli; Pois bem, será o suficiente para +destruir o marquez. Um jornal! Um jornal independente! Era o que ha muito +faltava aqui! Ah! a imprensa! É a alavanca do progresso!...</p> + +<p>O bravo Kolri ia a continuar o seu discurso quando bateram discretamente á +porta. Didier abriu-a e appareceu Lapierre. Contou a Ronquerolle a scena do +castello quando o marquez de «la Tournelle» lêra no «Figaro» a noticia da sua +candidatura, e referiu quasi palavra por palavra os termos humilhantes com que +o conde d'Orgefin fallara a seu respeito.</p> + +<p>—Perfeitamente! disse Ronquerolle. Maupertuis, toma nota da +«delicadeza» da linguagem do conde d'Orgefin! Redigirei immediatamente uma +resposta á mensagem d'esse canalha.</p> + +<p>Os clarões do odio brilhavam nos seus olhos. No emtanto, tinha um ar +perfeitamente calmo e a sua voz não traduzia emoção alguma extraordinaria.</p> + +<p>—Ah! ah! somos homens sem valor, escorias de Paris, revolucionarios e +escrevinhadores! Ouvis, amigos, em que termos se falla de nós! Guerra, guerra +implacavel a esta nobreza que nada conhece e que se julga ainda antes de 89... +antes de 93!</p> + +<p>Ao pronunciar esta data, Ronquerolle exaltou-se dando um valente murro sobre +a mesa, o que atemorisou Lapierre.</p> + +<p>A meia noite approximava-se. Lapierre<span class="pn">{32}</span> +retirou-se, promettendo a Ronquerolle trazêl-o ao corrente de tudo o que +passasse no Castello.</p> + +<p>Kolri retirou, tambem, por sua vez.</p> + +<p>Tinha de convocar o comité republicano para o dia seguinte ás oito horas da +noite e, sem perder um minuto, todos os cidadãos convictos deviam collocar-se +nos seus postos. A primeira reunião publica effectuar-se-ia mesmo em +Saint-Martin. O marquez seria convidado por elle a fim de defender as suas +ideias e o seu programma. Outras reuniões seriam organisadas em todos os +logares dos districtos do departamento.</p> + +<p>Os quatro amigos, quando se encontraram sós, riram extraordinariamente. A +sua mocidade tinha necessidade de despertar; o imprevisto da situação encantava +sobretudo Branche, Didier e Maupertuis.</p> + +<p>Ronquerolle, esse era mais grave, porque todos os ataques iam cair sobre o +seu nome. Por outro lado a sua companheira, a Emilinha, preocupava-o. Deixara-a +em Paris mas á partida tinha havido uma scena pungente.</p> + +<p>A pobre rapariga que não queria ficar só, queria por força acompanhal-o. Que +lhe importava a politica? Ella não comprehendia cousa alguma da eleição a não +ser que ia ficar separada do homem que amava, do homem que para ella +representava tudo n'este mundo.<span class="pn">{33}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION003000">III<br> +<em>Trava-se a lucta</em></a></h1> + +<p>Ainda que fatigados pela viagem de Paris a Saint-Martin, pelos discursos e +conversações enthusiasticas do «Poule Blanche» e se bem que era uma hora da +madrugada, os quatro alegres rapazes não pensavam em deitar-se.</p> + +<p>Não obstante as graves preocupações da occasião os amigos de Ronquerolle +conversavam da maneira como se tinham despedido das suas apaixonadas +companheiras. Estavam ainda na edade feliz em que a bella despreoccupação da +juventude cobre todas as cousas com a sua aza protectora; em que os dias e as +noites não teem horas bastantes para pensar nos projectos do espirito e nos +encantos do coração, nas confidencias d'amizade e nas caricias da alma.</p> + +<p>—Meus meninos, disse Branche, para terminar a conversa, é muito bonito +fallarmos das nossas amantes, contar as suas phantasias, mas nós não viemos +aqui para nos divertirmos.</p> + +<p>—Temos ainda trabalho a fazer, interrompeu Ronquerolle. Venham pennas, +papel e tinta e appareça o que ha de melhor no nosso cerebro. O primeiro numero +do<span class="pn">{34}</span> nosso jornal, o «Reveil de Saint-Martin», deve +apparecer depois d'amanhã.</p> + +<p>É tempo de descrevermos a nossa chegada. Tu, Maupertuis, redige um curto +artigo, descrevendo a recepção que nos foi feita, resume os nossos discursos e +retrata bem o enthusiasmo da multidão. Tu, Didier, ridicularisa o marquez «de +la Tournelle,» sê implacavel, calca-lhe sem piedade a sua vaidade... Tu, +Branche, convida os eleitores a saccudirem o jugo da nobreza, critica as flôres +de liz e proclama os direitos do homem!... Vamos; preparae essas pennas! Cravae +os ferros até fazerem sangue! Fazei fustigar o chicote do ridiculo!...</p> + +<p>Os quatro jornalistas pozeram mãos á obra. Ronquerolle, esse encarregou-se +de responder ás palavras injuriosas do conde d'Orgefin. Ás duas horas da manhã +uma carta volumosa era lançada na caixa do correio por Branche dirigida á +empresa do «Reveil», em Paris, visto que o impressor da localidade não ousava +encarregar-se d'imprimir um jornal republicano, por causa do sr. marquez, +«maire», conselheiro geral e deputado.</p> + +<p>Antes de se deitar Ronquerolle abriu a janella do seu quarto que ocupava só. +A noite estava serena e bella. As estrellas brilhavam no céo, os perfumes das +flôres espalhavam no ar, uma frescura deliciosa vinha da terra e um silencio +profundo reinava pela cidade adormecida. Á claridade discreta da lua +Ronquerolle via a praça de Saint-Martin e a fonte decorativa. Só o murmurio da +agua, caindo, perturbava o silencio da noite, ouvindo-se de vez em quando<span +class="pn">{35}</span> o vento silvar por entre as folhas das arvores, nos +telhados visinhos da egreja e nos ulmeiros dos ribeiros.</p> + +<p>Perante este espectaculo de paz, n'esta noite de junho tão harmoniosa e tão +encantadora, o homem politico desapparecia em Ronquerolle e não ficava mais do +que o poeta seduzido pelas bellezas da natureza immortal. O mancebo não se +cançava de sentir a brisa refrescar-lhe a fronte, de admirar esse espectaculo +nocturno, vivo, que lhe recordava as scenas de opera onde vivessem amôres, +subindo, de noite, á janella da bem amada a depôr um beijo.</p> + +<p>Levado pela sua poderosa e febril imaginação o ousado filho da Borgonha +deixava-se guiar pelos pensamentos do amôr e versos ardentes lhe occorriam á +memoria.</p> + +<p>Ronquerolle contemplava a egreja de Saint-Martin. Uma fachada estava toda +illuminada pelo luar emquanto que a opposta mergulhava na sombra. O seu olhar +ficou preso ao portico junto do qual em creança tantas vezes tinha brincado com +os seus pequenos camaradas e revia-se correndo em volta da «mairie» nos muros +cobertos de cartazes e em frente do mercado fechado por uma grade de ferro. Os +seus olhos de repente fixaram-se sobre a collina que dominava a villa, +reconhecendo a torre feudal, o velho castello dos «de la Tournelle». Pensou um +momento no seu adversario, do que o distraiu uma luz que se via n'um dos lados +do castello.</p> + +<p>—Quem velará a esta hora na habitação do marquez? pensou Ronquerolle. +Será o meu inimigo a quem a minha presença impede<span class="pn">{36}</span> +de descançar? Será alguem doente a quem a febre e a insomnia impedem de dormir? +Será alguma linda mulher que lê, com a cabeça repousando no travesseiro, um +romance de Balzac ou um poema de Alfredo de Musset? Será uma mulher +linda?—Fazendo a si mesmo esta pergunta Ronquerolle bateu na fronte como +que recordando-se. Lembrava-se que outr'ora em Paris, fôra apresentado n'uma +tarde, a uma mulher soberba que se chamava marqueza «de la Tournelle» com quem +tinha dançado e a quem chegára mesmo a escrever uma carta apaixonada. +Acontecera isto ha trez ou quatro annos, não sabia ao certo, mas recordava-se +claramente d'essa tarde, do baile e da sua carta insensata. Quanto á mulher não +se esquecera que era loira, que tinha uns seios opulentos, olhos azues e, +quando caminhava uns ares de deusa.</p> + +<p>Os acontecimentos da vida parisiense são tão accidentados e tantos, as +sensações succedem-se tão rapidamente, as paixões são postas tantas vezes em +jogo, sobre tudo para um mancebo que faz os seus inicios na vida e na +sociedade, que não é para admirar o ver Maximo Ronquerolle recordar, por acaso, +uma das suas aventuras, que, depois de tanto tempo, encontrava perdida na sua +memoria.</p> + +<p>Essa luz, que brilhava na escuridão da noite em uma janella do castello do +seu inimigo vinha lançar um clarão na sua memoria obscurecida e, occorrendo não +sei que presentimento do destino, o pobre rapaz imaginou que a pessoa que +trabalhava lá em cima, na habitação luxuosa do marquez<span +class="pn">{37}</span> «de la Tournelle», era a linda e elegante mulher que em +tempo lhe perturbara a cabeça e o coração.</p> + +<p>—Mas não! murmurou Ronquerolle. Não é possivel! Estas cousas só +acontecem nos romances e não na vida real!... No emtanto, essa loira divina +d'olhos azues chamava-se, era com toda a certeza a marqueza «de la Tournelle». +Revejo-a ainda na occasião em que dançava commigo e encostava o seu peito +desolado contra o meu... Pouco a pouco as recordações reviviam. Tornara-se +nervoso, o seu coração batera fortemente, querendo esclarecer a duvida em que +se debatia. Os «de la Tournelle» eram numerosos. Havia-os no Norte, no +Meio-dia, na Borgonha. Nada poderia dizer a Ronquerolle que a mulher, que elle +conhecera outr'ora, estava alli, no seu castello batido pela lua.</p> + +<p>—Vamos! disse fechando a janella, são horas de dormir. Sei bem a quem +hei-de recorrer, interrogarei Lapierre.</p> + +<p>Quando adormeceu, a aurora começava a apparecer. O seu ultimo pensamento +fôra de que seria bem extraordinario que ao marquez «de la Tournelle» alem da +cadeira de deputado lhe conquistasse tambem a mulher.</p> + +<p>Ronquerolle não se enganara nos seus presentimentos. A pessoa que velava no +castello senhorial era a marqueza, a loira, a seductora, a divina Carlota. Não +lia, porém, nem romances de Balzac nem poesias de Musset. O seu espirito estava +demasiado agitado para se entreter com os doces e consoladores devaneios +litterarios. Trabalhava<span class="pn">{38}</span> pelo triumpho da sua causa, +escrevendo sobre um bello papel assetinado um artigo para o seu jornal, um +artigo em que envolvia os candidatos republicanos com uma maneira encantadora e +em que fustigava o cidadão Ronquerolle com toda a malicia e crueldade d'uma +mulher. Tambem ella espetava as esporas até fazerem sangue.</p> + +<p>O marquez «de la Tournelle», dissemol-o já, tinha um jornal o «Echo de la +Bourgogne», velha folha monarchica, assignada por todos os curas da +circunscripção de Saint-Martin. De vez em quando, a amavel marqueza não se +dedignava em publicar nas columnas do jornal, na primeira pagina, um elegante +artigo em que estimulava habilmente a indolencia do partido realista e em que +zombava dos democratas.</p> + +<p>Esses artigos, que agradavam, eram lidos por todos, mas ninguem sabia, quem +fosse o seu auctor.</p> + +<p>Quando o marquez entrou na sua habitação, após o passeio a Semeval, contou +toda a scena de que fôra testemunha em frente ao «Poule Blanche».</p> + +<p>—Meus senhores, disse a marqueza, esses republicanos dão-vos o +exemplo; trabalham, estão no seu direito e teem razão. Vivemos n'um tempo em +que é necessario arriscar-se a gente. O prestigio da raça, do nascimento não é +mais do que uma lembrança longinqua. É necessario trabalhar-se, é necessario +descer á arena para se vencer. O poder, o futuro não pertence senão aos homens +d'acção.</p> + +<p>O marquez «de la Tournelle» achou este<span class="pn">{39}</span> discurso +de sua mulher um pouco atrevido, mas temeu fazer qualquer objecção. Convinha +voluntariamente em se mostrar ao povo no seu trem, fallar-lhe por intermedio +dos seus criados ou dos seus secretarios; mas fallar-lhe n'uma reunião publica, +expôr-se a ser interrompido, a ter diante de si por adversario de tribuna um +atrevido como Ronquerolle, com a sua voz de trovão, e que saido do povo, lhe +conhecia as emoções e as coleras, ser um homem d'acção, n'uma palavra, no +sentido em que o entendia a marqueza; todo este papel, toda esta tarefa não se +apresentava ao espirito do castellão de Saint-Martin sob uma perspectiva muito +attrahente.</p> + +<p>Depois que fôra eleito deputado, não fallara uma só vez na camara. +Perfeitamente correcto nas suas maneiras, sempre barbeado de fresco, +limitara-se a soltar alguns gritos de quando qualquer orador da esquerda tomava +a palavra. Quando, porém, nas galerias reservadas ao publico appareciam algumas +elegantes, que vinham mostrar a sua vaidade e os seus sorrisos como nos +camarotes d'um theatro, não se esquecia nunca de as requestar, lançando +amiudadamente o seu monoculo.</p> + +<p>O marquez era, n'uma palavra, uma das mais brilhantes inutilidades do +Parlamento.</p> + +<p>Sua mulher que era ambiciosa, enfurecia-se por não possuir mais que a +apparencia do dominio e do poder. Teria preferido disfarçar sob uma fraqueza +fingida as alegrias intimas do mando.</p> + +<p>—Ah! que se eu fosse homem! disse a<span class="pn">{40}</span> +marqueza, ao concluir o seu artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com +despeito a penna; ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.</p> + +<p>Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel, imaginando a +maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe traiçoeiro, a marqueza +deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito Luiz XV, coberto com um +baldaquino que amôres gorduchos seguravam.</p> + +<p>Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de +Ronquerolle.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir +d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre o +castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche» onde estavam +hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se apostas. Agitaram-se +todas as paixões em Saint-Martin.</p> + +<p>As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se +mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um bonito +rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não organizava uma +conferencia publica no theatro, um domingo, depois do meio-dia? Ellas iriam lá. +E depois, não era só isso. Tinham simpathisado com os «tres parisienses». Eram +d'este modo que designavam Maupertuis, Branche e Didier. Estes cavalheiros +diziam ellas, teem muito espirito; conhecem a alta vida de Paris. Porque +se<span class="pn">{41}</span> não convidam? É necessario deixal-os abandonados +na «Poule Blanche?»</p> + +<p>Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho, +appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle. Principiava +por uma apologia vigorosa do regimen republicano, seguindo-se-lhe um pequeno +artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin».</p> + +<p>N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando as +injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a redacção +do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado como um tolo e +convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo na quinta feira, 28 +de junho á reunião publica que se ha de effectuar em Saint-Martin. Por sua vez, +reservamos uma queda honrosa para o nosso elegante adversario, o marquez «de la +Tournelle», cujo papel na camara tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores +julgarão depois de ter escutado os dois concorrentes».</p> + +<p>O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava esta +bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da marqueza, +brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix». Ronquerolle era ali +martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com habilidade o seu talento +d'escriptor, os inicios da sua carreira litteraria, considerando-o apenas como +um estudante.</p> + +<p>«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos dignos +de censura se o fizessemos chorar e tomar a<span class="pn">{42}</span> serio +os seus brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de +Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje perdoam-lhe +os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão. Em todo o caso +seria bom que lhe impozessem silencio».</p> + +<p>Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca se +alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o. Separou o +estylo e as ideias como homem de «metier».</p> + +<p>—Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o +medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e fraqueza Ah! +bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei quem tu és!</p> + +<p>No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica +annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde d'Orgefin +acceitassem o desafio dos republicanos.</p> + +<p>O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os +republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era por +outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era necessario +operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação encolerizou-se +extraordinariamente.</p> + +<p>—Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas +desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a +Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides. Ainda uma +vez lembrai-vos da<span class="pn">{43}</span> minha advertencia, dizei adeus á +eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias!</p> + +<p>A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as simpathias +iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido conquistada por +Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno commercio e a burguezia, +indifferentes até então, davam coragem ao candidato republicano. Na sua colera +a marqueza agarrava-se a seu marido sem piedade, e perguntava a si mesma porque +casara com esse homem, só bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée». +</p> + +<p>—Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu +fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem da +mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o ataquei com +colera! eu que tentei envergonhal-o!</p> + +<p>É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome +d'adversarios. M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á +phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!</p> + +<p>Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se sempre +attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente na vida, podem +ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais diversas, que se +assemelham sempre pela honestidade superior da conducta, pelo respeito do que é +verdadeiramente grande e bello e pelo desprezo soberano<span +class="pn">{44}</span> de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e baixo. +</p> + +<p>Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem nunca +terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual, nas suas +acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque só ellas se podem +comprehender. É isto que explica muitas vezes o segredo d'essas melancholias +profundas que absorvem o pensamento completamente, d'esses sentimentos, d'essas +ligações, d'esses amôres que o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que +um observador de paixões considera naturaes e fataes.</p> + +<p>A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o +republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era novo, +porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho das suas +obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga. Tudo entretanto os +separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna, as relações e a sociedade +em que viviam; mas á lei mysteriosa que preside aos sentimentos humanos, agrada +vencer os obstaculos e acaba sempre por ligar os que se procuram, os que sentem +a necessidade de se amarem.</p> + +<p>A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a +vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando bater +para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão. Agitada, +contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu<span +class="pn">{45}</span> marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do +campo, de descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos +bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo galope +rapido dos seus cavallos.</p> + +<p>O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares de +Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O rio, +parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado opposto uma +cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo tocar o ceu azul. Os +«Passeios» são formados por tres avenidas magnificas, com castanheiros e tilias +centenarias. No fundo da avenida central levanta-se uma estatua em marmore, +datada do XVIII seculo e representando Cybele. Alguns metros distante corre uma +fonte rustica mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.</p> + +<p>É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a ambição. +Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso, abandonado durante a +revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As pedras amontoaram-se, as +silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas invadiram-as, mas as arvores +resistiram á acção do tempo.</p> + +<p>A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de +quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás ruinas do +castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas suas economias. +</p> + +<p>Aos domingos, durante o verão os «Passeios»<span class="pn">{46}</span> eram +muito frequentados. Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes +davam alli «rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara +de marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario, era +um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de +Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.</p> + +<p>A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das suas +margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe sentir um +encanto mysterioso.</p> + +<p>—Meu Deus! como isto é bello! murmurava.</p> + +<p>Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello +carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um barco +preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou sentar-se +alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma palavra, toda a +sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em presença d'essas florestas +voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa verdura que a sombra torna mais +attrahente.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio +da grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as +tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar o +frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem para +regressar a Saint-Martin.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada contra +seu marido.</p> + +<p>Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo +exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava arrogantemente, +levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando para diante com uma +elegante arrogancia.</p> + +<p>Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova e +bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias, no meio +do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que de costume. A +solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza fazia murmurar +docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel voluptuosidade.</p> + +<p>Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco um +homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços cruzados +sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma meditação de tal modo +que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem dera pela sua presença. Tinha a +cabeça um pouco inclinada sobre o hombro e poder-se-hia acreditar que dormitava +se não fosse o seu olhar vivo e expressivo.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais +longe. Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava +só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou, portanto; +mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a sombrinha<span +class="pn">{48}</span> o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou +saudando-a.</p> + +<p>Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos, para +meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do seu futuro, +sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á superficie e nos põem em +evidencia como nos deixam na sombra e nos lançam no nada.</p> + +<p>Quando reconheceu M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» sonhava com a poesia da +natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das solidões +e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás agitações da vida +publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma existencia pacifica em +qualquer humilde habitação do seu paiz natal.</p> + +<p>Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava +junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura que a +sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos loiros nunca os +esquecera!</p> + +<p>—A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle.</p> + +<p>—Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me +deseja?</p> + +<p>Ao dizer isto, M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a +carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a folhagem do +arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza temia ser vista +pelos seus criados<span class="pn">{49}</span> que acreditariam facilmente n'um +«rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o +desconhecido que lhe dirigira a palavra.</p> + +<p>—Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou +para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho a +confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!</p> + +<p>—Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso +inimigo!</p> + +<p>—O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como +já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis immovel +debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados perceberão que não +estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa, onde ninguem nos poderá ver +e vos direi todo o meu pensamento.</p> + +<p>A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e +tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de todas as +vistas.</p> + +<p>—Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a +perder-me por vós.</p> + +<p>Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco, contemplava-a e +sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella mulher. Não via n'ella a +marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata que desejava a volta da realesa e +que sonhava uma côrte brilhante em que triumphasse; não, ella não era para +elle, n'essa hora, mais do que a incarnação da elegancia,<span +class="pn">{50}</span> da juventude, da vida, do amôr, da paixão incandescente, +que queima, que devóra.</p> + +<p>Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o homem +que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os infelizes que +se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis e os imperadores. +Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do pobre contra os rico, do +humilde contra o poderoso, do opprimido contra o oppressor. O que n'elle via +era o talento promettedor, o enthusiasmo da sua linda edade, a coragem do homem +que luta, a poesia do ideal e da acção, o encanto emfim d'um espirito superior +e d'um coração preso ao destino.</p> + +<p>Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções +imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a natureza +boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si mesma, tem a sua +eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem singularmente as +distancias.</p> + +<p>—Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei +para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha energia e +não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que viveis na minha +saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde vos tive junto do meu +peito!... Recordai-vos...</p> + +<p>—Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o +apologista do Terror!<span class="pn">{51}</span></p> + +<p>M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia, +paternal e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a +occultava.</p> + +<p>Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O seu +busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.</p> + +<p>—Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia +lagrimas. Se vos amo!</p> + +<p>Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia desejos de +tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e pensava: como +convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua nobre intelligencia; +era a arma mais digna para conquistar uma mulher como aquella.</p> + +<p>—Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a +este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha paixão +as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas questões, para +almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se encontram os grandes +corações n'esta esphera superior onde veem acabar as disputas dos homens? Vêde! +tenho um orgulho que por vezes me arrasta e que resistencia alguma fará +dobrar... appareceis-me, e estou prompto a cair de joelhos deante de vós. Está +domado o meu orgulho? Certamente não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos +e parece-me que lá nos amaremos.</p> + +<p>... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal a +que aspira a vossa alma não tem nada de<span class="pn">{52}</span> commum com +as infamias, com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e +dos partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade?</p> + +<p>Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza. +Appoiava-se, como ella, á velha tilia e esperava resposta.</p> + +<p>—Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias +parecem-se ás flôres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o +respiram.</p> + +<p>—Não me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada.</p> + +<p>—Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo.</p> + +<p>Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mão que uma luva finissima +calçava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz escapar-se.</p> + +<p>—Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos +voltarei a ver?</p> + +<p>A marqueza hesitou, sentia-se embaraçada para responder. N'este momento os +cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente fugiu a +Ronquerolle, dizendo:</p> + +<p>—Aqui, d'hoje a tres dias, ás dez horas da noite.</p> + +<p>Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o +«frou-frou» harmonioso de toda a sua «toilette», custava-lhe a acreditar na sua +felicidade.</p> + +<p>Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario fechava, +quando viu a carruagem desapparecer a caminho<span class="pn">{53}</span> de +Saint-Martin entre uma nuvem de pó, pareceu-lhe que a terra girava por todos os +lados e que o ceu ia sair-lhe do peito.</p> + +<p>Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis arrastavam. +Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho, voltou a sentar-se sobre +o banco solitario em que M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» o tinha +surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas doces illusões.</p> + +<p>—Dentro em tres dias voltarei a vêl-a; dentro em tres dias será minha. +Ó delicia! Ó felicidade inesperada! E já antecipadamente, escutava os +transportes da sua paixão, a alegria dos novos amôres. De repente bateu na +testa e empallideceu.</p> + +<p>—Mas, d'aqui a tres dias, á noite, ha uma reunião eleitoral em +Saint-Martin. Não posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os +eleitores... Que fazer?</p> + +<p>Ronquerolle acreditou por momentos que M.<sup>me</sup> «de la Tournelle» lhe +tivesse pregado uma peça. Ella conhecia a data e a hora da reunião publica já +publicadas no «Reveil». Quereria ella d'esta fórma pôr á prova o amôr de +Ronquerolle, forçando-o a sacrificar a sua palavra de homem politico? Quereria +ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar destruir a sua influencia em +proveito da sua causa? Emfim, terá fallado sem calculo algum e o «rendez-vous» +que lhe marcou, na sua coindencia com a reunião de Saint-Martin, não passaria +d'um acaso que por vezes tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna +um obstaculo ás vontades do homem?</p> + +<p>Ronquerolle não sabia que pensar.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION004000">IV<br> +<em>O barão de Quérelles</em></a></h1> + +<p>Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão de +Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da marqueza por +causa do despreso a que ella votara a sua paixão.</p> + +<p>Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á +escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe enchia o +cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente até conseguir o +seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o poderia conseguir.</p> + +<p>Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão +louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.<sup>elle</sup> +Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes, o seu +maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e inteligente mulher +por esposa.</p> + +<p>A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções.</p> + +<p>—Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava +em conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão baixo +que se torna ridiculo.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um +contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os homens não +se mediam aos palmos.</p> + +<p>Infelizmente para elle, M.<sup>elle</sup> de Champeautey não se via obrigada +a debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la +Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A repugnancia +d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica personagem que era +«Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do marquez.</p> + +<p>—Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.<sup>elle</sup> de Champeautey +quer desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.</p> + +<p>O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu +departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos. +Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para Saint-Martin +onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des Quérelles» tinham +sido até então conservadoras se bem que com uma certa tendencia liberal. A côr +de conservador era uma tradicção na sua casa de fidalgo, mas o seu espirito, +moderno e liberal, não desdenhava em admittir as modernas theorias +democraticas.</p> + +<p>Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se fazia, +reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer dos +republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se desprezava em comer +á mesa dos<span class="pn">{56}</span> operarios quando para isso se +offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.</p> + +<p>Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os +seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e deputado. +</p> + +<p>—É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um +estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em como +não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito de +ortographia é um ignorante.</p> + +<p>A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr proprio +e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira de se vingar +d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha acalentado durante +tantos annos.</p> + +<p>—Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que +eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos que vão +ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao novo deputado +Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa isso. É necessario a +todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la Tournelle» perca a +eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! sr.ª marqueza, +despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta vez virá implorar a +paz e então entabolaremos as condicções.</p> + +<p>Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, ainda, +á<span class="pn">{57}</span> sua ultima esperança em commover o coração da +mulher que elle tão extraordinariamente amara.</p> + +<p>Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda a +esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez podesse um dia +fazer d'ella sua amante.</p> + +<p>—Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe +dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após o seu +casamento com esse estupido marquez.</p> + +<p>Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se sobre os +elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.</p> + +<p>—Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos. +Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias em +campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha treguas na +lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será finalmente o +resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus desejos. Quanto aos +candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o caso como entenderem. Se +porém ainda assim a marqueza continuar a mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o +novo deputado por Saint-Martin.</p> + +<p>Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos +eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo n'uma pia +d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os operarios, pagava-lhes +de beber, comia com<span class="pn">{58}</span> elles, acabando sempre as suas +conversas pela politica.</p> + +<p>Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão advogava +a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. O conde +d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que se devia tomar +uma medida energica, e em plena reunião de todos os marechaes do partido +reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no castello do marquez «de la +Tournelle», a reunião dos oitenta a cem proprietarios influentes da +circunscripção; coroaria a reunião um grande banquete.</p> + +<p>—Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o +conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a população +contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as tradições da sua +familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, se o barão fôr contra +nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo muitissimos votos.</p> + +<p>—É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des +Quérelles» é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a +frente commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis +por que elle nos odeia a este ponto?</p> + +<p>—Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar +a marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do coração da +marqueza, calcando assim os seus caprichos.<span class="pn">{59}</span> +Tratemos, antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á +margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.</p> + +<p>Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu procedimento +e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de gosar deliciosamente os +golpes que desapiedadamente despedia sobre os seus adversarios.</p> + +<p>Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus +cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas mais +avançados.</p> + +<p>N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem, +encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano, +disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:</p> + +<p>—Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o +favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de Paris, que +lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica na quinta-feira á +tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos homens intelligentes e +nada de deputados sem valor!</p> + +<p>O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um +influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil +eleitores.</p> + +<p>—Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando +bebia cognac em companhia dos seus amigos.</p> + +<p>No fundo da sua consciencia pensava:</p> + +<p>—Serei o senhor da soberba Carlota que<span class="pn">{60}</span> sem +duvida capitulará por ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem +despresado!</p> + +<p>Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua +reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des +Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao serviço +das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle, Branche, Didier e +Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes, arrojados para as mulheres, +como todos os jornalistas, produziam estragos terriveis nos corações das +burguezinhas de Saint-Martin.</p> + +<p>Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena +«soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade, que não +temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso, possuia uma bella +fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant» amando os prazeres da +mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente fornecida. Recordava muito as +suas travessuras de rapaz no tempo em que vivera na capital. Havia muito tempo +que isto accontecera, ha pouco mais ou menos vinte annos. Que praser sentiria, +ao receber em sua casa os quatro parisienses com os quaes conversaria dos +tempos passados e das suas loucas amantes.</p> + +<p>Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua entrada +no salão de M.<sup>me</sup> Desbroutin, uma senhora loira, pequena e nutrida, +muito amavel, muito<span class="pn">{61}</span> simples e muito mais nova que +seu marido.</p> + +<p>—Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?</p> + +<p>—Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está +preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes d'uma hora +tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.</p> + +<p>Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de +Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não podiam +por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os continuassem +a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.</p> + +<p>As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por todos +os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a quem uma +pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para ser servido o +chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o gabinete de trabalho do +notario, que se seguia ao salão e onde fumando, se entretinham a fallar das +eleições.</p> + +<p>Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto das +mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris e como ella +era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem d'isso, Branche +testemunhava uma sympathia particular a M.<sup>me</sup> Desbroutin, emquanto +que Didier fazia evidentemente a côrte a M.<sup>me</sup> Beaumenard, a mulher +do banqueiro Beaumenard. Esta<span class="pn">{62}</span> tinha um espirito +romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser heroina +ideal das mais ternas aventuras.</p> + +<p>—A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um +deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o quanto tenho +soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde faço carreira e que +me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem mais infeliz da terra.</p> + +<p>A graciosa M.<sup>me</sup> Beaumenard estava encantada com esta linguagem. +Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas apaixonadas +que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu lado, tinha levado +a linda mulher do notario até ao precipicio encantador mas perigoso das +confidencias amorosas.</p> + +<p>Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin tinha-o +convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e viera com o fim +d'excitar os espiritos contra o marquez «de la Tournelle». Pretendia ao mesmo +tempo conhecer de perto e assegurar-se por si proprio se o joven deputado +republicano era realmente o homem intelligente de que lhe tinham fallado. A +presença do barão interrompeu por momentos a interessante conversação de +Branche com M.<sup>me</sup> Desbroutin. Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem +dos convidados e a curiosidade que se fizera em volta do barão, para apertar +docemente a mão de M.<sup>me</sup> Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas +sem muito esforço.</p> + +<p>Ronquerolle entrou finalmente no salão.<span class="pn">{63}</span> +Apresentou as desculpas da sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin +apresentou-o ao barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. +A pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo o +mundo o invejaria.</p> + +<p>Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo +desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa +republicana.</p> + +<p>—Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que +desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario? +Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um mobil +occulto. Qual será? </p> + +<p>E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á +cabeça.</p> + +<p>Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle; abordou +successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia confiar n'elle. +</p> + +<p>Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões +politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des +Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato:</p> + +<p>—Conheceis a marqueza «de la Tournelle?»</p> + +<p>Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um +instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio, +respondeu com uma soberana indifferença.</p> + +<p>—A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda +a gente,<span class="pn">{64}</span> e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu +tempo para me occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus +eleitores e procurando bater o meu adversario.</p> + +<p>O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a historia +da sua paixão por M.<sup>elle</sup> de Champeautey. Não receava tomal-o para +seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo castello «de la +Tournelle».</p> + +<p>A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle. +Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a minha +loucura pela loura e adoravel Carlota?</p> + +<p>Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim?</p> + +<p>Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia +seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram +discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e a +malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e algumas +más linguas começaram a insinuar que a gentil M.<sup>me</sup> Desbroutin não +era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu marido.<span +class="pn">{65}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION005000">V<br> +<em>Os infortunios do marquez</em></a></h1> + +<p>A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas á +ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa reunião veiu +avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do soalho e que seria, +a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao preço estabelecido, porque +um particular tinha pedido cincoenta francos pelo aluguer.</p> + +<p>A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram ter +com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha, no +primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e quinhentas a +duas mil pessoas.</p> + +<p>Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os seus +amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de signal pelo +aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia um copo de cognac. +</p> + +<p>—Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o +seu o copo de Ronquerolle.</p> + +<p>Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez +francos do signal.<span class="pn">{66}</span></p> + +<p>—Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a +vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor Baliverne, +tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes do logar veem +bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso, descalçarem-se no +vestibulo, afim de dançarem descalços para não prejudicar a solidez das vossas +salas?! Basta de gracejos, senhor Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e +ha dias comemos juntos, por isso é preciso fallarmos com toda a franqueza. +Vamos, dizei-nos qual a verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a +sala que já nos havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe, +deixae em paz o vosso soalho.</p> + +<p>Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que +responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.</p> + +<p>—Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a +verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a sala? +Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, como necessitaes +da sua auctorisação para conservardes o vosso baile aberto até ás 5 horas da +manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora avante vos recusará essa +licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa aos meus eleitores!</p> + +<p>Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o escutava, +respondeu a Ronquerolle:</p> + +<p>—Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me,<span class="pn">{67}</span> +eu sou um homem energico mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo +obrigado a agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós. +Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire que me +fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião se realisasse +em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me recusasse licença para os +meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o sustento, privava os rapazes de se +divertirem.</p> + +<p>Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois do +que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de Baliverne e +encerrou-se no seu quarto.</p> + +<p>N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a reunião +devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.<sup>me</sup> de la +Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.</p> + +<p>Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que julgava +não poder assistir, tornava-se agora possivel.</p> + +<p>Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a bella, +a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o como rival, +temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que fallasse em publico e que +conquistasse a popularidade que lhe dava a sua eloquencia. O infeliz! Impedindo +Ronquerolle de n'essa noite subir á tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era +elle mesmo o causador da sua infelicidade.<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>—Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a +marqueza n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».</p> + +<p>A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais +tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel «maire» +de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo tempo que as lindas +raparigas da cidade se divertissem com os seus namorados, mas que pouco +importava a sua ridicula e idiota firmeza pois que breve teria de se recolher +ao seu castello socegadamente a tratar da sua vida particular.</p> + +<p>Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la +Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente a sua +«toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, pegou no +chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e as botas mais +elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.</p> + +<p>Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara, +recordando as tempestades da sua juventude.</p> + +<p>O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o +arvoredo.</p> + +<p>Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e o +canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma +indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e descia +dos céus.</p> + +<p>—Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto +que ella<span class="pn">{69}</span> venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto +que se aproxima! E poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto +de mim? Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os +meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu idolo? +</p> + +<p>O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua +impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma +herdade, parou.</p> + +<p>—Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos? +Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda +passando na areia da avenida?</p> + +<p>E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite, mas +não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se passou, hora +d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez não tivesse podido +deixar o castello, e que tivessem surgido difficuldades imprevistas que a +impedissem de cumprir a sua palavra. Resolveu esperar toda a noite. Nuvens +pesadas pairavam no céu, occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão +da noite tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma +da tarde.</p> + +<p>D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão, Ronquerolle +espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a impacientemente, +queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da meia-noite, uma fórma occulta e +mobil appareceu lá no fundo d'um caminho orlado de macieiras.<span +class="pn">{70}</span></p> + +<p>Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios».</p> + +<p>—Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha +emfim! </p> + +<p>O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz d'uma +sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, murmurou +docemente:</p> + +<p>—Sois vós, minha querida?</p> + +<p>—Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?</p> + +<p>Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto com um +espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se tranquilisada com a +presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, abandonando-se-lhe. Ronquerolle +tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, +arrastando-a quasi.</p> + +<p>—Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.</p> + +<p>—Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós +imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me amaes +verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!</p> + +<p>Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia +destruir. «M.<sup>me</sup> de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se +sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com +attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.</p> + +<p>Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos +romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca<span class="pn">{71}</span> +Ronquerolle, pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão +ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão favoravel +se lhe offerecera.</p> + +<p>Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as +horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento acalmara-se +e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.</p> + +<p>Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e +contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, admirava-o +intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia ao pensar na +aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção commovente do +remorso e da felicidade.</p> + +<p>—Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, +sem restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A +fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos amemos. +Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem conhecerá a lei que +preside ás preferencias do coração humano? Quem nos explicará como é que nos +achamos aqui reunidos na calma d'esta noite linda, devorados pelo fogo da +paixão, decididos a tudo vencer antes do que deixarmos de nos amar, de que nos +separarmos?... Oh! como sois bella! E como vos amo!</p> + +<p>E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto +sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se<span +class="pn">{72}</span> decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que +era digno da sua ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.</p> + +<p>—Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na +minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a +marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um dia me +mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes que talvez +tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa lembrança? Porque +foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se me gravou na memoria? +Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas e de vos amar?...</p> + +<p>«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas +altas espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus +pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se comprehendiam, e +que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza d'outro, que por mais alto +que fosse o amante mais alto iria a mulher amada.</p> + +<p>Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições humanas +se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo dinheiro, pela +vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso pouco tempo duram e +se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.</p> + +<p>Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as +barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, dois +entes se atraem,<span class="pn">{73}</span> se encontram e se amam, este amôr +profundo, é tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida +d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo o +destruirá.</p> + +<p>Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza e o +republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e intelligencia +e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a existencia de +«M.<sup>me</sup> de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que elle a +amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É a planta que +se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.</p> + +<p>Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica +marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, separa +as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja d'outros, desapparecia +aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se entretinha a approximar e a +unir n'um beijo.</p> + +<p>Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada +«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.</p> + +<p>Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura +adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um homem +que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.</p> + +<p>O mesmo acontecia a Ronquerolle.</p> + +<p>Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada +tinha,<span class="pn">{74}</span> n'este momento, do vingador dos soffrimentos +populares. Todo entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava +d'amôr, a sua juventude brilhava, não vendo em «M.<sup>me</sup> de la +Tournelle» mais do que a formosa personalidade da belleza e da vida.</p> + +<p>Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais +desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e se +adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno!</p> + +<p>—Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza.</p> + +<p>—E eu, respondia ella, amo-te até morrer!</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se devia +realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha sido +convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna politica do +sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado o senhor bispo de +Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de Saint-Martin. Não se tinham +esquecido dos grandes industriaes da circunscripção, que dirigiam numerosos +operarios e que convinha prender por qualquer delicadeza.</p> + +<p>Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam +chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda a +nobreza.</p> + +<p>Mancebos em «breaks» de caça, sorriam ás condessas, viscondessas, baronezas +e ás<span class="pn">{75}</span> velhas donas de castellos que vinham cooperar +na manifestação contra a Republica.</p> + +<p>Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin, transpunham +a pé o portão do castello, e, ás onze horas e meia, o grande salão estava +completamente cheio. Não se esperava mais que o sr. bispo de Dijon que tinha +promettido vir e que, como se sabia, se encontrava justamente nas visinhanças +do castello n'uma viagem pastoral.</p> + +<p>Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os +lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo vinha +acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario particular. A +carruagem parou em frente do perystilo do castello e, sorrindo, de bom humor, o +prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas de admiradores, de mulheres +elegantes e de lindos rapazes, levando, quasi todos, nas suas gravatas em forma +d'alfinete uma flôr de liz.</p> + +<p>O marquez «de la Tournelle» adiantou-se para receber o principe da egreja, +dando-lhe as boas vindas.</p> + +<p>O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude da +marqueza.</p> + +<p>—Senhor, disse o marquez, é o unico contratempo que temos em tão bello +dia. A marqueza está um pouco adoentada e não poderá assistir ao banquete de +que tenho a honra de vos offerecer a presidencia.</p> + +<p>O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento, +perguntava o porquê e a causa d'esta ausencia<span class="pn">{76}</span> da +dona da casa. As dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios, +bispos, arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias. +Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados; querem +conhecer o fundo, a rasão, segundo a expressão popular, dos pequenos e dos +grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos lares, na choupana do +pobre, como nos palacios dos ricos.</p> + +<p>—«M.<sup>me</sup> de la Tournelle», disse o bispo de si para si, é uma +mulher que vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos, +quando tudo a está convidando a apparecer?</p> + +<p>Não obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do coração o +prelado estava longe de conhecer a verdade.</p> + +<p>Acreditava em alguma discussão por amôr proprio entre marido e mulher, +qualquer disputa interna, mas a supposição de que uma adultera estava em casa +dos «de la Tournelle» não passára ainda pelo seu espirito.</p> + +<p>«M.<sup>me</sup> de la Tournelle» recusára-se abertamente a comparecer ao +banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem +violencia, sem longas explicações, mas mais do que significativa.</p> + +<p>Fôra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discussão. A bella +Carlota fôra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe era +inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem.</p> + +<p>A marqueza não cuidou mais da agitação politica do seu partido. O amôr +vencera-a;<span class="pn">{77}</span> Jamais tinha pensado em que semelhantes +tempestades se desencadeassem na sua alma. Quasi que se não conhecia. A paixão +que sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e +tudo aquillo que até então constituira o seu ideal submergira-se, +obliterara-se, aniquilara-se quasi.</p> + +<p>Começava a amar a solidão dos seus aposentos. Estava impaciente, febril. +Tentava entregar-se á leitura mas a sua attenção divagava. Tomava rapidamente +um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lançava para o lado sem o ter +lido.</p> + +<p>O amôr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma doente. +Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que experimentava era uma +«melange» de dôr e de alegria, de inquietação e de esperança, d'orgulho e de +medo. Louca d'amôr, passeava febrilmente no seu quarto quasi que fallando em +voz alta, aproximando-se de vez em quando da janella e contemplando os prados, +a relva e, lá no fundo, a pequena cidade de Saint-Martin.</p> + +<p>—Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haverá em ti +para assim me esquecer do que sou? Já não pertenço a mim mesma desde a nossa +entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei feliz... Tua! +Tua para sempre!</p> + +<p>E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creança, beijos +ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma.</p> + +<p>O banquete realista! A lucta dos partidos<span class="pn">{78}</span> O +triumpho d'uns e a perda d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a +interessava no momento em que o imperioso delirio da paixão se apoderava d'ella +e a torturava.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A +principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado toda a +gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar.</p> + +<p>A sua cadeira vasia lá estava e cada conviva lançava muitas vezes um olhar +involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios mais +maliciosos.</p> + +<p>Presidia o bispo, tendo sentado «vis-á-vis» o conde d'Orgefin. Ao todo os +convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calção, com as armas dos «de +la Tournelle» bordadas nas fardas, faziam um serviço irreprehensivel sob todos +os pontos de vista.</p> + +<p>Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os cerebros, +destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin observáva os +convidados e tirava um bom presagio das suas felizes disposições. D'uma +sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, conservando o seu sangue +frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de «champagne» para levantar um brinde +ao triumpho dos principios monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao +governo republicano.</p> + +<p>Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro +bisnau, não convinha comprometter-se muito com<span class="pn">{79}</span> o +partido conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas +ideias; via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas +os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do lado do +cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro estivesse mais +conhecido, elle cuidaria do seu caminho.</p> + +<p>Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os habitantes +da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente preocupados. Este banquete +era um acontecimento que entretinha todas as conversações.</p> + +<p>Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e em +frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe appetecia.</p> + +<p>Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de +Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente Kolri +discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, Didier e +Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a cada instante se +ouvia copos tocando o do candidato republicano.</p> + +<p>Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre n'um +paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender que, na +maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho do pobre.</p> + +<p>O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre da +ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras<span class="pn">{80}</span> de ha +dois dias com a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão. +Todos os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.</p> + +<p>A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu rosto, +não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança.</p> + +<p>Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. Não +suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella Carlota. +</p> + +<p>Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais +violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo republicano +uma amizade mais profunda.</p> + +<p>—Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando +poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos alfim +reunidos, sós, no silencio da natureza e fóra do ruido das cidades?</p> + +<p>E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graça das suas longas +tranças, a sua mão tão fina, os seus seios incomparaveis, o perfume da sua +«toilette».</p> + +<p>Separando-se, após a sua entrevista nos «Passeios», Ronquerolle e a marqueza +prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleição de 15 de julho. +</p> + +<p>—Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo, é impossivel, disse a +marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida, expulsa, +vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido, tornar-te-ias suspeito a +todos os que defendes<span class="pn">{81}</span> e pezar-te-ia sempre o +teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns dias antes +de ti. Virás então juntar-te a mim e lá construiremos um ninho para o nosso +amôr.</p> + +<p>Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava as +datas.</p> + +<p>—Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso +Paris, quando partir.</p> + +<p>Já elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleição quer vencesse +ou não o marquez.</p> + +<p>O amôr e a ambição confundiam-se no seu espirito e no seu coração. No +coração da marqueza só o amôr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se reunia +tudo para si. Ronquerolle pagava em amôr, amando-a tambem, mas, dotado de +faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e com esse fim +esperava elle construir o pedestal do seu amôr.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION006000">VI<br> +<em>Momentos decisivos</em></a></h1> + +<p>O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar +confiança e serenidade.</p> + +<p>O banquette do castello de «la Tournelle»<span class="pn">{82}</span> +produzira um grande alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde +d'Orgefin appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os +eleitores.</p> + +<p>A presença do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr o +boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto de se +dizer que renunciaria á sua candidatura.</p> + +<p>Ronquerolle, porém, não perdia o seu sangue frio. Sem descançar percorria a +circumscripção, reunindo os eleitores nas salas da estalagem onde repousava. O +seu «comité» trabalhava na expedição das profissões de fé, boletins para votos +e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis redigiam os numeros do «Reveil» +que saía agora tres vezes por semana.</p> + +<p>Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio subito +do barão «de Quérelles». No principio da campanha eleitoral, viram-no lançar-se +abertamente na lucta e tomar o partido, senão, por Ronquerolle, ao menos contra +o marquez «de la Tournelle»; passados, porém, quinze dias o barão emudeceu e +tornou-se quasi invisivel. Áquelles que se lhe approximavam e que o +interrogavam respondia que era necessario esperar para a ultima hora para poder +inclinar-se definitivamente para um dos partidos.</p> + +<p>Uma colera estranha se apoderara do barão. Sentia-se indisposto com todo o +mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e até contra si +proprio. As suas manobras não tinham dado resultado algum e conhecia que afinal +era<span class="pn">{83}</span> mais do que o tolo da farça. O seu zelo na +lucta afrouxava por isso, não saindo, quasi, do seu castello.</p> + +<p>Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleições, o barão +levantou-se uma manhã com mais mau humor do que o do costume. Maltratava os +criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos, passeando com impaciencia e +anciedade n'uma galeria, contigua aos seus aposentos, e que dava sobre o +jardim.</p> + +<p>Quando um dia estava assim preso da irresolução e do desgosto de vêr que a +bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que uma +deputação d'eleitores o procurava para lhe fallar.</p> + +<p>Feliz por ter essa nova distração no meio dos seus desgostos internos, +desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se assentados uns +quinze homens.</p> + +<p>Viam-se muitos «maires» influentes dos arredores da cidade e lavradores de +blusa que esperavam de chapeu na mão.</p> + +<p>—Vejamos, senhor barão, disse o mais velho dos eleitores presentes, +por quem devemos votar nas proximas eleições? Vimos pedir-vos este conselho. +Faremos o que o senhor barão nos ordenar.</p> + +<p>Estas palavras envaideceram o amôr proprio do barão «des Quérelles». Sabia +bem que a delegação que se encontrava na sua frente representava bem umas vinte +communas importantes.</p> + +<p>—Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e +vós, senhor repuplicano, tendes a vossa eleição na minha mão.<span +class="pn">{84}</span></p> + +<p>Após este discurso mental, o barão voltou a ter o bom humor antigo.</p> + +<p>—Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente +envaidecido com a vossa resolução. Dar-vos-hei, sinceramente o meu conselho. +Mas a questão merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos para almoçardes +commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas resoluções energicas.</p> + +<p>Na realidade, o barão não sabia que responder aos eleitores que o vinham +consultar. Como todos que se veem embaraçados pediu tempo para reflectir. Se +por um lado, odiava de morte o marquez por que fôra o rival que +«m.<sup>elle</sup> de Champeautey» lhe preferira, por outro lado custava-lhe +favorecer a eleição de Ronquerolle.</p> + +<p>Não comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas o +certo era que o aborrecia.</p> + +<p>Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um obstaculo +aos seus desejos, porque o arrebatado barão não renunciara á esperança de +possuir mais tarde ou mais cedo o coração da bella Carlota.</p> + +<p>Durante os preparativos do almoço, os homens da delegação foram passear para +o parque do barão, que por sua vez se retirou para o seu gabinete de trabalho, +preso d'uma perplexidade inquietadora.</p> + +<p>—Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que +votem por esse tolo do marquez «de la Tournelle» saberá a marqueza reconhecer +que é a mim que deve o não ver o seu orgulho e o seu<span +class="pn">{85}</span> nome humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista +pelo Ronquerolle quem me assegura que a sua eleição não vem pôr uma barreira +invencivel entre mim e a minha paixão?</p> + +<p>Torturado pela duvida o infeliz barão não sabia para que lado se havia de +voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do «Echo da Borgonha», o +jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de vermelho que estava, +tornou-se pallido como cêra. Na primeira pagina do jornal destacava-se em +normando um suelto ironico que lhe dizia respeito. O auctor do pequenino artigo +troçava do barão pela sua pequena estatura e fazia insinuar que a pequenez da +sua intelligencia estava na proporção da do seu corpo.</p> + +<p>Era ferir a corôa sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um punhal, +pôz fim ás suas hesitações e decidiu da eleição do circulo de Saint-Martin.</p> + +<p>Ah! é isso? Pois bem! disse o barão. Senhor «de la Tournelle», meu amigo, +ficarás fóra da lucta, serás vencido, assim o espero. Feliz Ronquerolle, um bom +genio te protege!</p> + +<p>O barão «des Quérelles» desconhecia por completo a grande verdade que +dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha para +elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificára assim a vaidade +d'um barão? Quem tanta sorte dera a Maximo?</p> + +<p>Quem? A propria marqueza «de la Tournelle». Louca pelo seu amante, capaz de +fazer por elle todos os sacrificios, não pensando<span class="pn">{86}</span> +senão na sua fortuna e na sua gloria começou a por ao seu serviço toda a +artilharia dos seus ardis femeninos.</p> + +<p>«Des Quérelles» estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma +resolução. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante o +almoço que offerecêra aos eleitores inflúentes que tinham vindo consultal-o. +</p> + +<p>—Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos, +finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Está entendido, não é +assim, no proximo domingo votaremos como um só homem no bello Ronquerolle. Eis +um que têm sorte.</p> + +<p>Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo +constantemente e rindo á vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrião. A +conversação foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos que +corriam na cidade e na região. Fallou-se da marqueza, de «M.<sup>me</sup> de +Beaumenard», a mulher do banqueiro; de «M.<sup>me</sup> Desbroutin», a mulher +do notario.</p> + +<p>—Parece que esses senhores, dizia o barão, não teem muito que se +queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses não vem +para aqui só para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porém, o melhor. O que +está nas boas graças da gentil «M.<sup>me</sup> de Beaumenard» é um finório. +Ah! que linda coisa é a mocidade!</p> + +<p>O almoço terminou alegremente, como havia começado. Tomou-se café no jardim, +onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres horas da tarde. +O<span class="pn">{87}</span> barão fez a ultima recommendação aos seus +hospedes:</p> + +<p>O «mot d'ordre» é que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e +levae por toda a parte a boa nova!</p> + +<p>Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A +intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo contra +o barão, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua reserva.</p> + +<p>Ficou louca d'alegria e louca d'amôr quando soube da resolução de «des +Quérelles». Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado.</p> + +<p>—Ó meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da +fortuna e da gloria. Serás tu fiel, ao menos?</p> + +<p>O caracteristico do verdadeiro amôr foi sempre o sacrificio pela pessoa +amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a morte, +por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o somno e se é +feliz com este tormento, com esta dôr, com este mal implacavel que invade todo +o nosso ser.</p> + +<p>A soberba Carlota estava no paroxismo da paixão. Calma na apparencia +sentia-se devorada pelo frenesi do amôr. Passeando no seu jardim, sentia-se tão +dominada pela imagem e recordação do seu amante que a custo caminhava. Uma +languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por uma d'essas deusas antigas +que atravessavam os bosques sagrados da Grecia e que desappareciam n'uma nuvem +azul. Jámais visão tão bella podia inspirar um poeta. Jámais<span +class="pn">{88}</span> a incarnação da vida se tinha manifestado n'uma mais +nobre creatura!</p> + +<p>Ronquerolle sentia-se falto de energia.</p> + +<p>No ultimo sabbado, vespera da eleição, esteve dominado por um febre ardente. +A inquietação devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria de novo passar á +obscuridade? Além d'isto o amôr de «M.<sup>me</sup> de la Tournelle», como uma +ferida incuravel, invadia-o, torturava-o, dominava-o. Elle, um homem forte, o +cidadão inflexivel, sentia-se vencido por essa mulher, por essa sereia de +cabellos loiros.</p> + +<p>—O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde +está o meu sacrificio?</p> + +<p>Uma agitação extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu á +abertura do escrutinio.</p> + +<p>Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo +promessas a uns, ameaçando outros, espalhando profusamente por toda a parte as +listas.</p> + +<p>Por seu lado os partidarios de Ronquerole não ficaram inertes.</p> + +<p>Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia sem +igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato republicano. +Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem suprema que tem o +soldado quando está prestes a derrotar o inimigo.</p> + +<p>Quando, no domingo de manhã, o escrutinio se abriu, os dois partidos estavam +perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se grupos +formados na praça publica e que depois se dirigiam<span class="pn">{89}</span> +a votar á mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam +o marquez de «la Tournelle», outros riam-se de Ronquerolle.</p> + +<p>Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoçego não abandonou +o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte. Victima da ambição, +debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha censurado o seu procedimento e só +o seu amigo fiel, Branche, estava junto d'elle absorvido pela mesma incerteza +pelas luctas do futuro.</p> + +<p>O escrutinio fechou-se ás seis horas, começando immediatamente o apuramento +de votos. A sala da «mairie» estava completamente cheia. Os eleitores presentes +escutavam silenciosamente a contagem dos votos.</p> + +<p>Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos.</p> + +<p>—Sr. de la Tournelle!</p> + +<p>—Sr. Ronquerolle!</p> + +<p>Cêrca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se já entre os operarios. +Vencia o cidadão Ronquerolle, segundo todas as probabilidades. Tinha a maioria +de 1500 votos só na cidade de Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como +uma bomba de dynamite.</p> + +<p>Uma multidão compacta que esperava as noticias em frente á casa da camara, +gritou instinctivamente: Viva a Republica!</p> + +<p>Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu +ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e gelou de +terror os realistas que se encontravam reunidos no salão.<span +class="pn">{90}</span></p> + +<p>—A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes +gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!</p> + +<p>De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem +interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano saía +vitorioso.</p> + +<p>Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada. +Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um +delirio entre os republicanos.</p> + +<p>O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas +ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu triumpho. Tinha +os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado pela febre.</p> + +<p>Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras +tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez silencio +pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações e fazem +transbordar os corações d'enthusiasmo.</p> + +<p>Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira a +mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes e +valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao seu +quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, Ronquerolle +encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a febre; tinha +passado a hora d'angustia.</p> + +<p>Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto<span class="pn">{91}</span> +ambicionava. Os obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma +nuvem ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos. +Estava satisfeita a sua ambição.</p> + +<p>—Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da +noite a escrever-lhe.</p> + +<p>Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu +livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.</p> + +<p>—«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da +minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste immensamente +corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua raça; porque, afinal, tu +sacrificaste-te... Que farei eu para recompensar o teu amôr que tão alto vae? +Ah! no inicio da minha carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha +mocidade para te dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel +Carlota, a ti, cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a +ti cujo ser me enebria!...</p> + +<p>«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre +destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!</p> + +<p>«Ninguem saberá que nos amamos, ninguem advinhará o segredo da nossa +amizade; amar-nos-hemos, adorar-nos-hemos por nossos proprios merecimentos e +não para obedecer ás convenções sociaes, não para nos conformarmos com +interesses pueris.</p> + +<p>«... Para ti toda a minha alma, para ti<span class="pn">{92}</span> o melhor +do meu pensamento, para ti a minha vida»!</p> + +<p>Ronquerolle não podia de maneira alguma terminar a carta. O seu coração +transbordava de ternura, quizera encerrar n'esse papel toda a sua existencia: o +passado, o presente e o futuro.</p> + +<p>Antes de a fechar releu-a; lagrimas ardentes lhe marejaram os olhos, a ponto +de a si mesmo perguntar se não estaria preso d'uma allucinação.</p> + +<p>E lacrou a carta sentindo-se moralmente fatigado.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION007000">VII<br> +<em>Vida nova</em></a></h1> + +<p>Na quinta-feira seguinte ao dia da eleição, pelas dez horas da manhã, a +cidade de Saint-Martin apresentava um aspecto de festa fóra de costume. O sol +de julho brilhava n'um ceu purissimo, e o calor era já asphyxiante. Quinhentas +a seiscentas pessoas estacionavam em frente do edificio da Camara, onde acabava +de chegar uma fanfarra com o seu estandarte, e ia formar-se o cortejo.</p> + +<p>Os republicanos preparavam-se para acompanhar até á estação dos caminhos de +ferro o cidadão Ronquerolle que partia para Paris.<span class="pn">{93}</span> +</p> + +<p>Por entre os grupos que se viam formados pela praça, o observador prespicaz +teria notado tres mulheres novas, que muito chegadas umas ás outras pareciam +tristes e preocupadas. Entretanto sorriam mas o seu sorriso era contrafeito. +</p> + +<p>Esse grupo feminino compunha-se da graciosa Madame Beauménard, a mulher do +banqueiro, da buliçosa Madame Desbroutin, a mulher do tabellião, e finalmente +da elegante Madame Jolibois, a mulher do recebedor das contribuições.</p> + +<p>Todas tres muito amigas, não tinham segredos umas para as outras.</p> + +<p>Madame Beauménard deixara-se prender pelas declarações amorosas de Didier; +Madame Desbroutin adorava Branche, e, finalmente, Maupertuis conseguira fazer +sossobrar a virtude um pouco arisca de Madame Jolibois.</p> + +<p>Ai, como são rapidos os dias felizes!</p> + +<p>Os apaixonados retomavam o vôo em direcção a Paris, e a vida monotona da +provincia ia recomeçar para aquellas galantes mulheres.</p> + +<p>De repente, o deputado Ronquerolle appareceu seguido dos seus tres amigos, +de todos os membros do «comité» republicano e de numerosos cidadãos, +pertencentes ás diversas classes da sociedade. Estava pallido, quasi livido e +uma gravata vermelha fazia ainda resaltar essa pallidez, resultante da fadiga e +das commoções soffridas. A fanfarra executou a «Marselheza» e o cortejo poz-se +em marcha.</p> + +<p>Quando Branche, Didier e Maupertuis passaram junto das suas tres amantes, +trocaram-se<span class="pn">{94}</span> rapidos olhares e as tres mulheres não +puderam conter as lagrimas.</p> + +<p>—Amava-l'o muito? disse Madame Jolibois a Madame Beauménard.</p> + +<p>—Minha querida, era louca por elle! E tu? redarguiu a interrogada.</p> + +<p>—Eu, quereria partir com elle, respondeu Madame Jolibois.</p> + +<p>Quanto a Madame Desbroutin, estava tão commovida, que apenas poude dizer: +</p> + +<p>—Que ha de ser de nós, agora? Esses rapazes que partiam eram a poesia, +o amôr a paixão.</p> + +<p>A marqueza de Tournelle havia deixado Saint-Martin no dia seguinte ao das +eleições. Estava em Paris havia quatro dias, quando Ronquerolle ali chegou.</p> + +<p>A grande cidade estava n'essa occasião deserta. A alta sociedade partira já +para as estações de aguas, para os banhos do mar, para o campo. Apenas ficára a +população que as necessidades da vida prendiam em Paris. O calor tornava-se +mais violento dia a dia.</p> + +<p>A marqueza habitava um soberbo palacete na rua de Varennes, construido entre +um pateo e um jardim.</p> + +<p>Habitualmente demorava-se no campo até aos fins de novembro, mas o seu +regresso inesperado a Paris foi explicado pelo cheque eleitoral soffrido pelo +marquez seu esposo.</p> + +<p>O sr. de La Tournelle, sentindo-se envergonhado, humilhado, diante de sua +mulher, não ousava acompanhal-a á grande capital. Por outro lado o continuar em +Saint-Martin lhe parecia tambem insupportavel e por<span class="pn">{95}</span> +isso partira, sem demora, para a Suissa, em companhia do conde de Orgeffin.</p> + +<p>Ronquerolle, em vista da sua nova situação, alugara uma bôa habitação perto +dos Invalidos, ficando estabelecido que Branche seria seu secretario e +rezidiria com elle. Quanto a Maupertuis e a Didier installar-se-hiam nas +immediações.</p> + +<p>A abertura das camaras devia realizar-se em outubro, e por isso restavam +ainda ao novo deputado dois longos mezes para se preparar para as luctas +parlamentares, para se concentrar antes do combate, e para se entregar +inteiramente á sua amante.</p> + +<p>Durante esse espaço de tempo esses dois entes privilegiados foram +completamente felizes. Encontravam-se todos os dias e a sua intimidade +augmentando, augmentou a sua paixão. Até então elles tinham-se mais adivinhado +do que conhecido. E que alegria foi para elles o reconhecerem, mutuamente, que +eram ainda superiores á ideia que se haviam formado de sentimentos, de +intelligencia e da elevada concepção do amôr.</p> + +<p>Ronquerolle estava completamente fascinado, maravilhado da audaz belleza de +Madame de la Tournelle e a marqueza adorava o seu amante pela sua mocidade, +simplicidade, pela vehemencia da sua paixão e do seu formoso espirito, e tambem +pela sua insaciavel ambição.</p> + +<p>Ronquerolle comprazia-se em fazer-lhe longas confidencias sobre os seus +projectos de futuro. Não queria entrar na camara dos deputados para se deixar +seduzir pelo apparato do poder, para ser cumplice ou victima da corrupção, da +ignorancia ou do<span class="pn">{96}</span> embuste; mas sim para representar +verdadeiramente o papel de reformador, tomando o povo como ponto de apoio... +</p> + +<p>Uma tarde, quando o sol desapparecia por detraz do Arco do Triumpho, e +quando já descia o crepusculo sobre a grande cidade, o orgulhoso rapaz repetia +á sua amante os seus sonhos de esperança, deixando as palavras seguirem o curso +do seu fogoso temperamento.</p> + +<p>Electrisas-me, meu adorado, dizia-lhe a encantadora e loura Carlota de la +Tournelle; perdôa-me mas sou ciumenta como uma panthera, e estremeço ao pensar +que em breve te tornarás uma figura celebre, que os mais provocantes sorrisos +te vão ser dirigidos, e que, pode ser, que então, eu não seja a unica a possuir +toda a tua alma!</p> + +<p>—Tranquilisa-te, respondeu Ronquerolle; porventura não sentimos que +este amôr é de vida e de morte.</p> + +<p>—Sim, sim, retorquiu vivamente e apaixonadamente a marqueza, amôr para +a vida e para a morte!</p> + +<p>Algumas vezes, tambem pelas onze horas da noite, os dois amantes passeavam +juntos, a pé ou de carruagem, percorrendo os bairros mais afastados e +solitarios, pois que a marqueza ficaria perdida se fosse reconhecida nos seus +passeios em companhia do joven deputado republicano.</p> + +<p>N'um sabbado, pela meia noite, quando entravam por uma pequena rua desviada +da habitação de Ronquerolle, estremeceram ambos ao mesmo tempo ao cruzarem-se +com um individuo que seguia em sentido contrario.<span class="pn">{97}</span> +</p> + +<p>Felizmente para madame de la Tournelle ella usava um véu espesso e não poude +por isso ser reconhecida.</p> + +<p>O homem que passara perto d'elles era o barão de Quérelles, que, por seu +turno, acabara de chegar a Paris, com a firme rezolução de vigiar a marqueza. +</p> + +<p>Como seguia preoccupado e muito rapidamente, o barão nem mesmo reconheceu +Ronquerolle, mas fôra reconhecido por este e por madame de la Tournelle.</p> + +<p>—Diabo, exclamou Maximo, vamos ter este pequeno barão a seguir-nos os +passos. É preciso acautelarmo-nos até que d'elle estejamos livres.</p> + +<p>Por esta epocha, Ronquerolle recebeu uma carta que profundamente o +impressionou.</p> + +<p>Era a pobre, a pequena Emilia, sua amante d'outros tempos, que lhe escrevia. +</p> + +<p>Ronquerolle ainda não a tinha ido ver, e a infeliz rapariga sabendo do seu +regresso a Paris, lamentava-se do abandono a que elle a votara.</p> + +<p> </p> + +<p>«Eu bem sabia, lhe dizia ella, que a tua partida para a Borgonha era o fim +dos nossos amôres! Eu bem sabia que uma nova vida ia começar para ti, meu +adorado Maximo, e que eu, pobre flôr desfeita, seria sacrificada á tua ambição, +que uma nova paixão exige.</p> + +<p>«Bem sabia ao vêr-te partir que tudo era perdido para mim, o meu unico +amigo, o meu bem amado, o meu querido amante! Escuta, prefiro antes morrêr a +descêr pela escada fatal das raparigas bem educadas<span class="pn">{98}</span> +mas pobres. Tornar-me-hia a amante d'um outro, que me abandonaria tambem, +depois d'um terceiro, e depois, de todo o mundo! Não! Não! Repito-te, antes a +morte!</p> + +<p>«Não me digas que ainda me amas; se assim fosse não terias vindo abraçar-me +logo após a sahida do comboio que te conduziu a Paris? E tu estás aqui ha +quinze dias, e em vão te hei esperado todas as manhãs e todas as tardes.</p> + +<p>«Oh! Maximo! Meu querido Maximo! Não poderei eu ainda apertar-te nos meus +braços, antes de ser envolvida na mortalha dos pobres, antes de fechar os meus +olhos á doce claridade do sol, antes de ser conduzida ao cemiterio e coberta +com algumas pás de terra?</p> + +<p>«A tua querida toutinegra d'outros tempos</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right">«Emilia.» </p> + +<p> </p> + +<p>Ao ler esta impressionante carta, Ronquerolle sentiu que um suor frio lhe +banhava a fronte. Não tinha esquecido completamente aquella pobre creança +companheira dos dias de maior adversidade, essa sensivel Emilia á qual jurara +eterno amôr, mas da qual a imagem havia sido eclipsada no seu coração e no seu +cerebro pela visão estonteante da marqueza de la Tournelle.</p> + +<p>E comtudo, durante o periodo eleitoral, elle tinha-lhe escripto, á pobre +rapariga, jurando-lhe ainda que nunca a abandonaria, mas, mau grado os seus +desejos, a sua linguagem, as suas palavras eram sem calôr, e o amôr d'outros +tempos transformara-se n'uma affeição de irmão.<span class="pn">{99}</span></p> + +<p>Emilia havia comprehendido essa mudança, mulher de sentimento, sentira que +lhe fugia o amante a quem adorava, e ficou profundamente abatida.</p> + +<p>Ronquerolle era tudo para ella, sem parentes, sem familia, só n'essa immensa +Paris, ella só o tinha a elle no mundo para proteger a sua juventude, e a sua +fraqueza de mulher nas luctas contra a dura necessidade.</p> + +<p>Com esse instincto maravilhoso que possuem as verdadeiras amantes, Emilia +comprehendêra que uma outra paixão enchêra a alma do seu querido Maximo, e +então todas as suas esperanças, já de si tão frageis, se abateram de um só +golpe.</p> + +<p>Nem o pensamento de luctar contra a adversidade lhe assaltou o espirito.</p> + +<p>A pobre creatura, imagem fiel da resignação disse a si propria: Maximo já +não me ama, pois bem, só me resta morrêr.</p> + +<p>Quando soube da chegada de Ronquerolle, quando soube que elle estava em +Paris ha quinze dias e o esperou em vão, chorou lagrimas de sangue e decidiu-se +por fim a escrevêr-lhe, como unica esperança de vêl-o, ao menos uma vez antes +de morrer.</p> + +<p>Ronquerolle, tomado d'uma inquietação mortal, ao terminar a leitura da carta +da sua pobre Emilia, sahiu immediatamente, tomou um trem e dirigiu-se a casa da +pobre rapariga.</p> + +<p>Emilia reconheceu-lhe os passos, e quando elle lhe bateu á porta, abriu-lh'a +com o coração despedaçado, mas ainda com uma migalha de esperança.</p> + +<p>Foi tal a violencia da commoção recebida,<span class="pn">{100}</span> que a +pobrezinha, cahindo nos braços do seu adorado Maximo, durante bastantes minutos +não poude articular palavra.</p> + +<p>O triumphador não podia crêr no que os seus olhos viam. A sua pequenina +Emilia não era mais que uma sombra do que fôra.</p> + +<p>Pallida, magra, os olhos amortecidos pela angustia, pelas lagrimas, e pelas +noites de insomnias, davam áquella creaturinha o aspecto d'um phantasma.</p> + +<p>—Meu Deus! pensava Ronquerolle, oxalá que eu não chegasse demasiado +tarde! A pobre creança está ferida de morte pelo desgosto que lhe causei, e a +sua extrema sensibilidade attrahe-a para o tumulo.</p> + +<p>Passados os primeiros momentos Emilia retomou o seu doce sorriso e n'uma +alegria verdadeiramente infantil exclamou:</p> + +<p>—Eis-te emfim, meu querido Maximo! exclamou ella.</p> + +<p>Oh! Como eu sou feliz em tornar a ver-te!</p> + +<p>Como eu te esperava!</p> + +<p>Como eu receava morrer sem te abraçar ainda uma vez!</p> + +<p>Como eu te amo!</p> + +<p>Se tu soubesses como eu te amo!</p> + +<p>Tu, bem sei, tu não podes amar-me da mesma forma.</p> + +<p>Sei muito bem que tu não podes prender na tua vida uma simples sensitiva +como a pobre Emilia...</p> + +<p>Tu tens um grande destino a cumprir, tens uma vasta carreira a percorrer. +Tens que alcançar a gloria.</p> + +<p>Eu vejo bem a differença da minha vida para a tua.<span +class="pn">{101}</span></p> + +<p>Precisas de amôres enebriantes; desejas o explendôr que possa satisfazer o +teu immenso orgulho...</p> + +<p>Eu conheço-te bem!</p> + +<p>Ronquerolle, profundamente impressionado sentia que a sua companheira +d'outros tempos tinha razão.</p> + +<p>Elle procurava distrahil-a, animal-a, mas a pobre rapariga voltava sempre a +reconhecer o fatal abandono a que fôra votada.</p> + +<p>Entretanto sentia uma especie de melancholica voluptuosidade em remover as +recordações dos felizes dias passados, dos primeiros mezes dos seus amôres, dos +seus passeios de outr'ora nos bosques, a Saint-Cloud, a Mendon, a Montmorency, +a Ermenonville.</p> + +<p>—Como soubeste que eu voltara a Paris? perguntou Maximo.</p> + +<p>—Como o soube! retorquiu Emilia; muito simplesmente, adivinhei. Podes +crêr. Sentia-te perto de mim.</p> + +<p>Os que amam verdadeiramente teem presentimentos que jámais os enganam.</p> + +<p>Além d'isso, eu vi os teus amigos atravessarem a rua Vaugirard.</p> + +<p>A sua presença confirmou a tua. Eu sabia quanto sois inseparaveis. Tu não +estavas de certo longe, visto que me apparecia Branche, Didier e Maupertuis. +</p> + +<p>O novo deputado demorou-se bastante tempo junto de Emilia.</p> + +<p>Um extranho encanto havia em volta d'ella.</p> + +<p>Emilia vestia um penteador azul e estava sentada n'um canapé, perto da +janella. Lembrava uma convalescente que procurava<span class="pn">{102}</span> +cobrar fôrças, e a quem o menor esforço enfraquecia.</p> + +<p>—Voltarei a vêr-te muitas vezes, disse-lhe Ronquerolle deixando-a. Tem +coragem. A tua vida terá ainda dias felizes.</p> + +<p>—Não, meu amigo, respondeu ella. Tudo se acabou!</p> + +<p>Pois não reparas?</p> + +<p>Não vês que eu não te faço a menor pergunta?</p> + +<p>Nem sequer me queixo!</p> + +<p>É a suprema resignação do condemnado.</p> + +<p>Maximo affastou-se lentamente da casa de sua pequena amiga. Seguiu para o +«boulevard» de Vaugirard, voltando-se mais d'uma vez, para olhar a janella onde +outr'ora tantas vezes, elle vira o rosto sorridente da pobre creança. A sua dôr +tão verdadeira, tão sincera, tão eloquente, envenenava a sua felicidade.</p> + +<p>Aguardou assim a hora em que M.<sup>me</sup> de la Tournelle o esperava.</p> + +<p>A marqueza não teve muito trabalho para reconhecer que o seu amante tinha +qualquer pensamento que o fazia soffrer. Interrogou-o. Perguntou-lhe a causa da +sua dôr.</p> + +<p>Ronquerolle hesitou um momento, mas depois, para alliviar o enorme peso que +tinha sobre o coração, contou-lhe toda a historia da sua ligação com a pobre +Emilia.</p> + +<p>—Seria indigno de mim, o occultar-lhe o menor segredo da minha vida, +disse-lhe elle.</p> + +<p>O soffrimento d'essa pobre creança, cahe sobre mim como um remorso. É o +primeiro da minha vida!</p> + +<p>Dois dias depois o deputado republicano recebia nova carta da pobre +abandonada.<span class="pn">{103}</span></p> + +<p> </p> + +<p>«Eu bem te dizia Maximo, escrevia Emilia, que estava proximo o meu fim: +estou cada vez peor, meu amigo, vêm depressa. Eu não nasci para viver n'este +mundo demasiado brutal. O meu pobre coração quebrou-se ao embate da primeira +amargura.</p> + +<p>Tombou como uma flôr que a tempestade lança por terra, e cousa alguma n'este +mundo pode já reanimal-o, dar-lhe a alegria, sem a qual elle não pode viver. +</p> + +<p>A flôr arrancada da haste nunca mais pode readquirir a sua frescura e o seu +perfume.</p> + +<p>Vive um dia e morrre. Nada resta d'ella.</p> + +<p>Outras flôres vêem substituil-a, outros felizes dias vão nascer, e a outra a +pobre florinha morreu e não ressuscitará.</p> + +<p>E que bellos momentos nós tivemos na vida meu querido Maximo!</p> + +<p>Recordas-te de quando tu me esperavas ao terminar as tuas lições da Sorbonne +e do Collegio de França, quando iamos passear de braço dado, sob as sombras de +Luxemburgo, quando trocavamos ainda timidas palavras de amôr, quando tu apenas +ousavas apertar-me a mão?</p> + +<p>Abençoados tempos, dias felizes da minha adolescencia, da minha juventude, +porque tão depressa me fugiste?</p> + +<p>Porquê meu bem amado é tão rapida tão fugitiva a felicidade?</p> + +<p>E porque será que ha na vida fatalidades que nos quebram o coração?</p> + +<p>Conheci-te nas mais bellas horas da tua mocidade, meigo e ao mesmo tempo +terrivel amante pelo qual eu fui vencida e pelo qual eu vou bem cêdo +morrer!<span class="pn">{104}</span></p> + +<p>Entretanto a ambição vae devorar-te, mas as mulheres que te amarem não +descobrirão nos teus labios esse encantador sorriso que tu tinhas para mim, +essa bella alegria e esse enthusiasmo dos vinte annos, que eu pude apreciar. É +essa a minha suprema consolação.—A tua pequenina amiga d'outros +tempos—Emilia».</p> + +<p> </p> + +<p>Estas cartas preoccupavam sobremaneira Ronquerolle. Augmentava o seu +remorso, e a imagem da terna Emilia, doente, morrendo do peito e morrendo de +desgosto não o deixava um instante.</p> + +<p>Era um espectaculo commovedor o apresentado por aquella joven que não tinha +a força para supportar as brutalidades da existencia e que o primeiro abalo +derrubava.</p> + +<p>Ha no meio da corrupção das cidades, d'essas creaturas excepcionaes que +possuem todas as virtudes, todas as bellezas moraes e todos os heroismos. Nada +as mancha; ellas veem o mal que para ellas avança, mas os seus olhos se fecham +sobre a visão pura que vive na sua alma e a perversidade jámais as alcançará. +</p> + +<p>A sua innocencia conserva-se inalteravel. Vivem e morrem presas ao seu ideal +como a hera em volta da arvore.</p> + +<p>É esse todo o seu destino.</p> + +<p>E ha d'estes seres sublimes em todas as classes sociaes: tanto nos palacios +dos ricos, como nas habitações dos burguezes ou nas cabanas dos pobres. O +observador á primeira vista não os apercebe, tão modestos elles são, tão +simples, tanto se occultam<span class="pn">{105}</span> na sombra; mas por +pouco que o seu olhar investigador saiba lêr nas consciencias, analysar a vida +dos homens e o aspecto das coisas, elle não tarda a reconhecer o heroismo do +coração, onde, na apparencia só ha uma existencia monotona, sem colorido e sem +perfume.</p> + +<p>As mulheres mais do que os homens, teem d'essas dedicações obscuras, que +toda a gente ignora, de que ninguem falará e de que mesmo o que d'ellas é +objecto não suppôe toda a grandesa.</p> + +<p>É quando essas creaturas amantes e tão felizes por se sacrificarem já não +existem, que se adivinham todos os primores das suas virtudes.</p> + +<p>É quando o frio tumulo as occulta nas suas negras sombras, que se reconhece +a bondade do seu espirito e do seu coração e que se lhe faz verdadeiramente +justiça.</p> + +<p>Mas então, é já tarde!</p> + +<p>Esse arrependimento posthumo não consola do remorso de haver quebrado +desapiedadamente uma alma encantadora, franca, leal; de ter perdido um thesouro +de ineffavel ternura e de amôr sincero, de ter feito chorar dois lindos olhos, +de ter feito o desespero d'um inexperiente coração.</p> + +<p>Dar-se-hia então dez annos da existencia para tornar a vêr uma hora apenas +essa devotada creatura, para se lhe dizer que emfim foi comprehendida e que é +amada.</p> + +<p>Mas são já inuteis então os desesperos e estereis os votos.</p> + +<p>A morte não mais devolverá a sua presa, e o turbilhão do mundo, chama-nos e +attrahe-nos com os seus risos, as suas canções,<span class="pn">{106}</span> o +ruido das suas orgias, o estonteamento dos seus prazeres.</p> + +<p>Emilia era do numero d'essas pobres raparigas que, se não tivessem amantes, +se fariam irmãs de caridade, dedicando-se aos doentes e á paixão pela cruz.</p> + +<p>Dependia ella mais da poesia, que da vontade propria; possuia mais humildade +que orgulho, mais resignação que coragem para a lucta.</p> + +<p>Tinha sonhado o amôr como a juncção de duas vidas não formando mais do que +uma.</p> + +<p>Aos dezesseis annos, essa fragil creança realizava o typo perfeito da joven +que ama perdidamente.</p> + +<p>Nenhum halito impuro bafejava a superficie da sua alma de virgem.</p> + +<p>Inspirava respeito, e, instinctivamente, todo o homem, ou todo o rapaz +tirava o seu chapeu quando com ella se crusava nas ruas e quando ella para elle +erguia os seus grandes olhos ingenuos e leaes.</p> + +<p>D'uma delicada saude, ter-se-hia tornado robusta se a alegria a tivesse +acompanhado.</p> + +<p>Mas vindo os desgostos ella podia morrer, e morria effectivamente, e o mal +fazia constantes progressos.</p> + +<p>Ronquerolle não a abandonava. Sentava-se aos pés do seu leito e +prodigalisava tantos cuidados á doente como se fôra mãe da infeliz rapariga. +</p> + +<p>Graças a madame de la Tournelle, um dos principes da sciencia fôra chamado a +tractar da joven Emilia.</p> + +<p>Todas as manhãs esse medico vinha vêl-a<span class="pn">{107}</span> e +ficava surprehendido dos progressos da doença, e resumia por estas palavras as +suas impressões: uma saude delicada morta por um desgosto terrivel.</p> + +<p>Algumas vezes, Ronquerolle acompanhava-o quando elle sahia de ao pé da +doente, e ambos conversavam na casa de entrada da habitação da pobre rapariga. +</p> + +<p>—Ora vêde, dizia o medico, que de mysterios encerra a natureza!</p> + +<p>«Ahi está uma sublime rapariga que vae morrer, porque n'ella o equilibrio +das fôrças é incompleto.</p> + +<p>«É cortada pela dôr, como um fragil canniçado pela ventania.</p> + +<p>«A sua fraqueza faz d'ella uma santa.</p> + +<p>«Os entes verdadeiramente fortes (e vós pertenceis sem duvida a esse numero, +reconhece-se rapidamente no vosso olhar), os entes verdadeiramente fortes, são +talvez mais feridos pela desillusão do que essa infeliz creança, mas vivem, não +soffrem materialmente, sorriem até quando é preciso, teem-lhes inveja, crêem +que elles são felizes.</p> + +<p>«Olhae, por exemplo, para mim!</p> + +<p>«Tenho eu porventura o ar d'um homem digno de lamentações?</p> + +<p>«Possuo uma fortuna e goso d'um nome glorioso, entretanto um grande +ferimento moral, me atormenta.»</p> + +<p>Ronquerolle estava surprehendido pelas confidencias do notavel medico. Esse +homem parecia adivinhar o seu pensamento, via claro na sua vida e comtudo devia +ignorar em que mundo de emoções se encontrava agora o seu espirito.<span +class="pn">{108}</span></p> + +<p>E o amante da marqueza ia no entanto prodigalisando todos os cuidados, todos +os carinhos a Emilia.</p> + +<p>Installou juncto d'ella uma excellente enfermeira, e vinha todos os dias, de +manhã e á noite informar-se do estado da doente.</p> + +<p>Muitas vezes mesmo durante o dia elle enviava ali o seu dedicado amigo +Branche, para distrahir a infeliz rapariga.</p> + +<p>Mas o mal fazia os mais rapidos progressos.</p> + +<p>Os pulmões esphacellavam-se, o medico perdêra ja toda a esperança de salvar +a terna creaturinha.</p> + +<p>Emilia tinha uma tosse constante e uma febre ardente.</p> + +<p>Não podia já deixar o leito.</p> + +<p>Encostada a duas almofadas, ella tinha entretanto ainda fôrças para lêr.</p> + +<p>E satisfazia-se ainda, sentia um ineffavel prazer em voltar a lêr as bellas +paginas lidas n'outros tempos com Maximo, junto do fogão nas noites de inverno. +</p> + +<p>Qualquer soberbo romance de Balzac ou de Stendhal, qualquer livro de +deliciosos versos de Alfredo de Musset, de Lamartine, de Victor Hugo e outros. +</p> + +<p>Ah! Como ella agora comprehendia melhor os gritos de desesperação dos poetas +e o scepticismo dos grandes observadores ante a alegria que passa e a +felicidade que se aguarda.</p> + +<p>E a pobre Emilia sentia mesmo um extranho prazer em sentir-se abatida pela +dôr, agarrada pela morte.</p> + +<p>Envolvia-se no seu infortunio como em luxuosa e linda capa de baile.<span +class="pn">{109}</span></p> + +<p>Quando, após ter lido muito, a fadiga a prostrava, deixava cahir o livro +sobre o leito e a sua ainda bella cabeça tombava sobre o almofadão, e perdia-se +n'um mundo de recordações.</p> + +<p>Via-se então ainda muito creança; rodeada de carinhos, adorada por sua mãe, +que tambem bem cêdo a morte arrebatara.</p> + +<p>Como esses dias lhe pareciam estar ainda proximos.</p> + +<p>Recordava-se da egreja onde ia ouvir missa todos os domingos, com os seus +modestos mas lindos vestidinhos claros, e onde pondo as mãos rogava a Deus e á +Virgem toda a sorte de felicidades para a sua familia e para si.</p> + +<p>Depois viera para Paris, recolhida por uma tia, após a morte de sua santa +mãe.</p> + +<p>Tinha então quinze annos e o seu maior desejo era estudar, aprender para ser +quanto possivel independente. Seguira para isso o curso da Sorbonne.</p> + +<p>Foi ahi que ella conheceu o Maximo, que ella o amou com toda a sua alma; +sim, com toda a sua alma tão leal, tão enthusiastica.</p> + +<p>E quando apenas tocara na taça da vida era preciso deixar o festim e seguir +até lá baixo, ao cemiterio, a deitar-se na terra fria.</p> + +<p>Emilia não podia, mau grado a resignação do seu temperamento e do seu +caracter, olhar para o seu destino sem uma secreta revolta.</p> + +<p>Como a «Joven captiva», de André Chenier, ella desejaria não morrer ainda. +</p> + +<p>Pois quê! a sua vida estava terminada, ella ia desapparecer da scena do +mundo<span class="pn">{110}</span> sem ter visto acabar a primavera, sem ter +colhido as flôres d'essa estação, sem ter repousado sob os ridentes arvoredos, +sem ter conhecido o verão abrasador, nem o outomno fecundo!...</p> + +<p>Tres mezes decorreram n'estas angustias moraes.</p> + +<p>Ronquerolle foi admiravel de dedicação.</p> + +<p>Quando o fim se approximou, quando o medico declarou que Emilia ia morrer, +Ronquerolle nunca mais abandonou a doente.</p> + +<p>Sombrio ante a implacavel fatalidade que pesa sobre os sêres humanos, +accomodára-se juncto do leito da moribunda, sem ter a coragem de a animar.</p> + +<p>Emilia, no delirio da febre falava-lhe como se longos annos de felicidade +lhe tivessem sido promettidos.</p> + +<p>—Maximo, dizia ella no desvairamento da rasão, Maximo, meu querido +Maximo, nós vamos unirmo-nos para sempre!</p> + +<p>Coisa alguma nos poderá separar, não é verdade?</p> + +<p>A minha vida vae ficar unida á tua. Sou a tua mulhersinha! Sim! A tua +mulher.</p> + +<p>Ah meu adorado Maximo! Se tu soubesses como eu desejava ser a tua esposa. Se +soubesses como eu soffri por ser sómente a tua amante!</p> + +<p>Era o meu sonho chamar-te o meu marido, e poder caminhar com firmeza, sobre +o teu braço, e de cabeça erguida, sem receio!</p> + +<p>Pois bem, o meu sonho, está realisado, não é verdade? E eu sou feliz. Já +posso<span class="pn">{111}</span> acompanhar-te sem córar. Agora dizem ao +vêr-nos passar em Luxemburgo: ahi vão dois jovens noivos; e como elles vão +contentes, como se amam!</p> + +<p>Ronquerolle chorava ante o delirar da sua pequenina amiga, da sua «querida +toutinegra» d'outros tempos, como elle tinha por costume chamar-lhe, brincando +com ella como duas creanças.</p> + +<p>E o deputado de agora tapava o rosto com o lenço e soluçava.</p> + +<p>Emilia entretanto nos seus delirios febris, tinha projectos adoraveis, d'uma +simplicidade encantadora.</p> + +<p>—Dize, Maximo, exclamou ella, quando voltar a primavera tu +levar-me-has para o campo, não é assim?</p> + +<p>Iremos pelas veredas embalsamadas, pelos trigaes, pela beira dos bosques e +das vinhas... Vestir-me-hei como tu gostas; porei um d'esses chapeus de verão, +que tanto te agradam e que, dizes tu, me ficam muito bem.</p> + +<p>N'um dos seus momentos de lucidez, Emilia pediu a presença d'um sacerdote e +recebeu os sacramentos com a devoção e recolhimento d'uma creança na sua +primeira communhão.</p> + +<p>Quando Ronquerolle viu a sua pobre amiga erguer-se, aproximar o rosto e +receber a hostia sagrada das mãos do sacerdote, a impressão n'elle produzida +foi tão violenta, que não poude conservar-se ali por mais tempo e sahiu a +respirar por um momento no boulevard Montparnasse.</p> + +<p>Uma vez ali, reparou n'uma carruagem fechada que perto estacionava.<span +class="pn">{112}</span></p> + +<p>Aprumando-se viu que alguem de dentro da carruagem o chamava.</p> + +<p>Era madame de la Tournelle que inquieta, viera ali para informar-se do que +se passava.</p> + +<p>—A pobresinha, disse-lhe Ronquerolle, morrerá mal chegue a noite, são +estas ás palavras do medico. Parte-se-me o coração e soffro muito por vêl-a +assim desfallecer.</p> + +<p>«Não quero abandonal-a assim. Volto para junto d'ella.</p> + +<p>Eram umas quatro horas da tarde.</p> + +<p>A marqueza quiz acompanhar Maximo até á cabeceira da moribunda.</p> + +<p>Emilia já mal respirava.</p> + +<p>A garganta comprimia-se-lhe e apenas podia volver os olhos sem mover a +cabeça.</p> + +<p>O medico tambem estava perto d'ella. O seu aspecto grave e triste era como +uma phrase completa e fatal.</p> + +<p>A morte reclamava aquella pobre rapariga e elle tinha que se curvar, +aguardando apenas o momento em que aquella existencia teria que cessar.</p> + +<p>Madame de la Tournelle collocára-se ao lado do medico.</p> + +<p>O perfume a heliotrope da sua toilette enchia, embalsamava o quarto de +Emilia.</p> + +<p>A marqueza contemplava curiosamente aquella pobre moribunda e pensava que +durante muitos annos a infeliz que ia morrer fôra a amante de Ronquerolle.</p> + +<p>Este, sentado aos pés do leito da pobre creaturinha sentia a mais violenta +das punhaladas que pode atravessar o peito d'um homem de coração.</p> + +<p>E olhava essa figura magra, descarnada,<span class="pn">{113}</span> que +elle amara nos dias da sua irrequieta mocidade.</p> + +<p>Quantos beijos elle tinha deposto n'aquelles labios agora sem côr, +n'aquellas faces, n'aquelles olhos, sobre esse rosto outr'ora encantador!</p> + +<p>E não podia acreditar que a morte ia apagar a luz d'aquelles olhos que elle +amára, e gelar aquelle coração que lhe pertencêra.</p> + +<p>Emilia fez ainda um esforço para se sentar no leito. Ronquerolle correu a +ajudal-a.</p> + +<p>A infeliz voltou-se então para o lado onde se encontrava madame de la +Tournelle, e poude ainda dizer:</p> + +<p>—Oh! Minha senhora! Amae-o como eu o amei, apenas por elle!</p> + +<p>Depois pondo a mão fria de neve sobre o rosto de Ronquerolle, proseguiu:</p> + +<p>—Não tenhas remorsos, meu amigo, a minha vida estava condemnada! Eu +teria querido viver apenas para ti...</p> + +<p>«Tu não sabes como eu te amava! Mais tarde o comprehenderás e sinto que não +poderás esquecer-me!...</p> + +<p>E nada mais poude dizer. A sua linda cabeça cahiu novamente sobre a +almofada, e alguns instantes depois a pobre rapariga expirava.</p> + +<p>No dia seguinte um coche magnifico, coberto de flôres, dirigia-se +lentamente, pelas dez horas da manhã, para os lados do cemiterio do Père +Lachaise. Uma unica carruagem de luto seguia o coche funerario.</p> + +<p>Tres pessoas occupavam essa carruagem. A um dos cantos um rapaz soluçava, +immerso na dôr, aniquilado.</p> + +<p>Uma dama com o rosto coberto por um<span class="pn">{114}</span> espesso +véu, tentava inutilmente animal-o. Em frente d'elles, silencioso, sombrio, um +homem, com o queixo encostado ao castão dourado da sua bengala, embrenhava-se +em mysteriosos pensamentos.</p> + +<p>Estas tres personagens eram Ronquerolle, madame de la Tournelle e o medico +que tratara Emilia.</p> + +<p>Eram elles que acompanhavam a querida creaturinha á ultima morada, tanto do +rico como do pobre, do sabio como do ignorante, do valente como do fraco.</p> + +<p>Em volta d'elles o ruido, o movimento da grande cidade, eram de estontear. +</p> + +<p>A manhã estava bella, o sol de outubro era ainda lindo com os seus reflexos +de ouro e aquecia os boulevards.</p> + +<p>Alguns passeantes reparavam n'esse bello coche funerario coberto de flôres e +seguido apenas por uma carruagem.</p> + +<p>E pensavam que havia ali talvez um d'esses dramas patheticos, que Paris +possue em tão grande numero.</p> + +<p>Ronquerolle, do qual a superior intelligencia cedêra o logar á tristeza, +conservou-se muito tempo inconsolavel pela morte de Emilia. A febre da ambição +fôra dominada pela da dôr.</p> + +<p>Passou os dias a evocar a tocante recordação d'essa rapariga que elle tinha +amado, que a elle se havia dado com todo o seu coração, que elle possuira e que +morrêra por elle. De noite não podia dormir, erguia-se e ia contemplar o +retrato da querida defunta, pendente d'uma das paredes da sua habitação.</p> + +<p>Quando olhava para essa figurinha tão<span class="pn">{115}</span> graciosa, +de olhar tão singello e tão suave, o seu coração estremecia com as recordações +do passado, e grossas lagrimas cahiam dos seus olhos e rolavam sobre o seu +rosto varonil de tribuno popular e de poeta.</p> + +<p>Depois ia tirar d'uma gaveta um masso de cartas, e relia-as.</p> + +<p>Sabia-as de cór, mas o fixar a calligraphia da sua joven companheira da +mocidade, era para elle motivo de intima consolação.</p> + +<p>Eram já de longo tempo essas cartas. A tinta havia empallidecido e as datas +traziam recordações a Ronquerolle.</p> + +<p>—Que fatalidade! exclamava elle.</p> + +<p>Tudo se acabou.</p> + +<p>O luto entrou no meu pensamento e jámais o amôr me dará uma alegria sem uma +triste recordação. Encantadora e bôa creança, com a tua mocidade levaste tambem +a minha para o tumulo. Os tempos de illusão acabaram-se, as horas tranquillas +não voltarão mais. Agora só vejo na minha vida sombras e tempestades.</p> + +<p>Para acalmar as suas apprehensões, para procurar serenar os seus nervos, +Ronquerolle começou a escrever versos em memoria da sua adorada Emilia.</p> + +<p>Compoz um verdadeiro poéma em sua honra e fêl-o publicar n'uma revista +litteraria.</p> + +<p>Esses versos foram notados e commentados nos jornaes politicos.</p> + +<p>A marqueza de la Tournelle respeitou a dôr do seu amante.</p> + +<p>Ella sentia uma infinita e deliciosa commoção ao pensar que tambem seria +adorada por aquelle homem, e mais ainda que a<span class="pn">{116}</span> bôa, +mas simples creaturinha que acabava de morrer.</p> + +<p>Entretanto aproximara-se o dia da abertura das Camaras e Ronquerolle sahiu +como que d'um sonho quando leu no «Jornal Official,» o decreto presidencial, e +recebeu aviso, na sua qualidade de deputado, de que o Parlamento ia recomeçar +os seus trabalhos. Estava como um homem que após um longo e profundo somno, +desperta com a impressão de que tem um rude trabalho a desempenhar, e um grande +caminho a percorrer. Experimentado pela dôr, devorado pela paixão, Ronquerolle +ia entrar na vida politica como um verdadeiro athleta, treinado por violentas +luctas.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION008000">VIII </a><br> +</h1> + +<p><em>Policia dupla</em></p> + +<p>As tribunas da Camara estavam cheias de gente.</p> + +<p>Personagens officiaes, jornalistas, provincianos ha pouco chegados a Paris, +mulheres da moda, elegantes, avidas de emoções oratorias, politicos de varios +matizes, alguns más linguas e intriguistas e parentes e amigos dos deputados, +de tudo ali havia.</p> + +<p>As ordens eram severissimas relativamente á entrada; era impossivel assistir +á<span class="pn">{117}</span> sessão legislativa, sem um bilhete perfeitamente +em regra, e verificado mais d'uma vez com o maior cuidado.</p> + +<p>N'uma das primeiras tribunas, um pouco á esquerda, viam-se duas mulheres +novas, e notava-se mais que uma era trigueira e outra loura. Sorriam e agitavam +habilmente os seus leques.</p> + +<p>De quando em quando, percorriam com o olhar atravez o «lorgnon» de aros de +ouro, as bancadas dos deputados, e communicavam uma á outra as suas impressões. +</p> + +<p>Vestiam «toilettes» muito elegantes; no emtanto mostravam-se á vontade sem +procurarem attrahir a attenção da camara ou das galerias, embora não podessem +passar despercebidas.</p> + +<p>A loura era a marqueza de la Tournelle e a outra senhora que a acompanhava +era uma das suas amigas, a esposa d'um deputado da Direita, madame de Fleurus. +</p> + +<p>O ministro da guerra acabava de dar á camara explicações sobre as despezas +não previstas pelo orçamento, e das bancadas do Centro ouviam-se ainda +appoiados, quando o prezidente da Assembleia pronunciou gravemente estas +palavras:</p> + +<p>—Na ordem do dia figura uma interpellação do sr. Ronquerolle sobre a +politica geral do governo.</p> + +<p>—Tem a palavra o sr. deputado Ronquerolle.</p> + +<p>Estabeleceu-se silencio. Das bancadas mais distantes da extrema esquerda, +ergueu-se um homem novo, de excellente figura, que depois se dirigiu lentamente +até á tribuna dos oradores.<span class="pn">{118}</span></p> + +<p>Subiu os degraus com passo cadenciado e pousou sobre o marmore alguns +papeis.</p> + +<p>Depois lançou um rapido olhar sobre o auditorio e começou a falar n'um tom +muito baixo.</p> + +<p>Tinha deante de si os ministros aos quaes não perdia de vista. Pouco a +pouco, a sua voz foi-se avolumando, tornando-se mais forte, e resoou em todo o +ambito do Parlamento.</p> + +<p>Ronquerolle passava á fieira os actos do ministerio, e fazia resaltar a +hypocrisia d'alguns dos membros do governo.</p> + +<p>Fustigava todos os homens que ambicionavam o poder só para adquirirem +fortuna, não considerando o povo senão como uma machina util ás suas ambições. +</p> + +<p>Erguendo os olhos para o lado das tribunas reservadas, Ronquerolle viu a sua +amante.</p> + +<p>Ao clarão d'esse olhar apaixonado, á visão rapida d'essa bella figura, +d'esses cabellos dourados e abundantes, d'esse collo admiravel apertado n'um +delicioso corpete, á vista d'essa mão fina e bem desenhada agitando o leque +finissimo, o joven deputado sentiu como que uma vertigem, uma forte commoção +electrica, e encontrou para as suas palavras uma dicção e uma accentuação de +tanta eloquencia que fez estremecer todo o auditorio.</p> + +<p>Ronquerolle, porém, nem via a Assembleia, esquecêra os seus collegas, os +seus inimigos da direita da Camara e os seus amigos da esquerda; não via mais +ninguem pelo espirito, senão a sua bella Carlota, a<span +class="pn">{119}</span> sua conquista, a sua felicidade, o seu thesouro, a sua +vida.</p> + +<p>Queria conquistar a inteligencia d'aquella mulher que adorava, como já havia +conquistado o seu coração e os seus beijos.</p> + +<p>Queria unir-se a ella pelos laços indestrutiveis da estima, e do respeito +pela sua coragem e pelo poder do seu cerebro.</p> + +<p>A bella Carlota toda estremecia de prazer no seu logar.</p> + +<p>Respondia ligeiramente á sua amiga, que lhe dava conta das suas impressões: +</p> + +<p>—Que pena, dizia ella á marqueza, que este homem não seja dos nossos! +Desejaria vêr a causa dynastica, defendida assim com esta energia e com este +vigor.</p> + +<p>A marqueza fechou os olhos por um momento, n'uma grande commoção de +felicidade.</p> + +<p>Ella, positivamente, bebia soffregamente as palavras do amante.</p> + +<p>Gozava assim deliciosamente do mysterio da sua ligação com Ronquerolle.</p> + +<p>Tudo n'ella se satisfazia n'esse momento, o seu orgulho de mulher, a sua +superior concepção do amôr; o seu voluptuoso ideal, a sua propria vaidade, +n'uma palavra, a sua intelligencia e o seu coração.</p> + +<p>Essa sessão da Camara gravou-se na sua memoria com uma tal intensidade de +traços, que jámais se apagariam.</p> + +<p>Comprehendeu n'esse dia como a sua existencia estava ainda incompleta, e +teve como que um grande arrependimento de tantos annos perdidos já, e que se +assemelhavam a um campo arido sem arvores, sem verdura e sem flôres.<span +class="pn">{120}</span></p> + +<p>O discurso de Ronquerolle causou enorme impressão.</p> + +<p>Foi discutido por toda a imprensa.</p> + +<p>Uns encheram de elogios o joven orador, outros criticaram vivamente as suas +doutrinas, mas toda a gente se curvou perante a sua incontestavel eloquencia. +</p> + +<p>Na quinzena que se seguiu, o novo deputado não teve mãos a medir.</p> + +<p>Era uma alluvião de solicitadores.</p> + +<p>Ou vinham felicital-o, ou enviavam-lhe delegações, ou convidavam-n'o para +conferencias e banquetes.</p> + +<p>Janeiro estava a findar e os dias eram pequenos; desde as cinco horas que a +noite envolvia Paris, e o inverno era rigoroso.</p> + +<p>N'uma quinta-feira, Ronquerolle sahindo da Camara, dirigia-se a pé para sua +casa pela explanada dos Invalidos. Cahia gelo e por isso eram raras as pessoas +que andavam pelas ruas.</p> + +<p>Chegado á altura da rua de Grenelle, o deputado de Saint-Martin, parou um +momento para deixar passar uma fila de carruagens...</p> + +<p>Como olhasse em torno de si, antes de atravessar a rua, notou á sua +esquerda, um individuo cuja figura não lhe era desconhecida.</p> + +<p>Esse homem conservava-se a distancia, e quando viu que Ronquerolle o +observava, alargou o passo e passou adeante do deputado.</p> + +<p>—Ah! Já sei, disse Maximo, este homem é um agente da policia. Depois +da minha interpellação ao ministerio, este honesto espião não me deixa um +segundo.<span class="pn">{121}</span></p> + +<p>Não se enganava. O homem era effectivamente um agente da policia secreta. O +discurso de Ronquerolle tornara-o um deputado perigoso, temivel para um +ministerio na agonia. A consequencia natural d'esse facto era fazel-o submetter +a uma rigorosa espionagem.</p> + +<p>Chegariam com essa espionagem a colher elementos da sua vida privada, de que +naturalmente se serviriam no momento opportuno para entravar essa eloquencia +que vinha de nascêr e que se apresentava implacavel para com a traição.</p> + +<p>Ao mesmo tempo que os adversarios de Ronquerolle o submettiam a essa +vergonhosa e ignobil observação dos agentes da policia secreta, o inimigo da +marqueza de la Tournelle não dormia tambem.</p> + +<p>Mais enraivecido que nunca, o barão de Quérelles tinha resolvido, elle +tambem, fazer passar a bella Carlota por uma espionagem assidua.</p> + +<p>Adivinhava que ella tinha um segredo a occultar, e esse segredo queria elle +conhecêl-o, afim de a fazer estremecer ante a sua pequena estatura.</p> + +<p>O pygmeu, o tacanho, desejava humilhar a nobre mulher cujo coração não vivia +senão para o amôr e pelo amôr, cujo espirito jámais conhecêra o que fosse uma +baixeza.</p> + +<p>É assim que, na vida, as almas mesquinhas e cubiçosas attacam a belleza, a +generosidade, a coragem, a franqueza que lucta á luz do sol, a franqueza que +procura sempre a verdade e segue ousadamente no seu caminho claro e leal.<span +class="pn">{122}</span></p> + +<p>Em redor dos entes superiores e brilhantes giram os perversos silenciosos e +invejosos. Não teem senão um fim, incommodar, prejudicar; senão um pensamento, +infeccionar, macular; não teem mais que um desejo, um empenho, buscar trazer +até elles, até á lama que os envolve, as creaturas de eleição, que lhes fazem +sombra, e das quaes elles não podem imitar as qualidades e as virtudes.</p> + +<p>E assim é que, n'um jardim, se vê muitas vezes uma lagarta repellente +instalar-se na mais bella rosa deixando a sua nojenta baba sobre as petalas da +flôr.</p> + +<p>O barão de Quérelles era um ente odioso, desprezivel, abjecto, mas não era +um imbecil.</p> + +<p>Comprehendia que só uma mulher podia espionar outra mulher, e poz-se em +campo para descobrir esse cumulo da infamia.</p> + +<p>Á uma hora depois do meio dia vinha elle descendo a Avenida dos Campos +Elyseos, após um copioso almoço, quando subitamente deu uma palmada na testa, +como se fôra illuminado por uma inspiração celestial e apressou o passo.</p> + +<p>—Mas, sem duvida, exclamou elle comsigo mesmo, M.<sup>me</sup> William +tratará perfeitamente do negocio. Como não havia eu pensado n'ella ainda?! +Oxalá que ella não tenha mudado de rezidencia!</p> + +<p>E Dominique, sem se envolver n'outras meditações, cortou á esquerda, seguiu +ao longo do palacio do Elyseu e chegou rapidamente ao «boulevard» Malesherbes, +onde outr'ora M.<sup>me</sup> William occupava uma vasta habitação em que dava +soirées muito concorridas<span class="pn">{123}</span> de jovens ricaços, +jornalistas, romancistas mundanos, mulheres novas e bonitas, casadas com +maridos velhos ou de habitos sedentarios, preferindo o canto do fogão, ou o +leito, ás seducções d'um baile, que começa ás onze da noite, para terminar ás +seis horas da manhã. </p> + +<p>—M.<sup>me</sup> William! perguntou Dominique timidamente ao +porteiro.</p> + +<p>—No segundo andar, á esquerda, respondeu o homem.</p> + +<p>Podeis subir, madame está em casa.</p> + +<p>O barão respirou.</p> + +<p>Havia bem uns cinco annos que elle não visitava a mulher, cuja recordação +lhe viera tão aproposito.</p> + +<p>Receava não a encontrar, pois que M.<sup>me</sup> William era pessoa que se +mudava a miudo e que viajava mais a miudo ainda.</p> + +<p>—Que milagre! pensou de Quérelles. O quê! Depois de cinco annos, ella +não deixou esta casa, onde eu a vi pela ultima vez!</p> + +<p>Terá renunciado aos elegantes negocios d'outros tempos!</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William era de origem ingleza.</p> + +<p>Habitava em Paris ha uns dez annos com suas duas filhas.</p> + +<p>Porque a tinha deixado seu marido, official superior no exercito britannico? +Ninguem ao certo, o sabia.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William, no emtanto, dizia que seu marido não tivera razão +para a abandonar e todos fingiam acredital-a.</p> + +<p>Fôra recebida na sua qualidade de estrangeira, em muitos salões frequentados +pela alta sociedade.<span class="pn">{124}</span></p> + +<p>Entretanto o papel que ella dezempenhava no meio parisiense dava-lhe +protectores altamente collocados e a sua elegancia mundana attrahia +indulgencias ao seu procedimento.</p> + +<p>Tinha por pessoas da sua amizade, financeiros, homens politicos e +especuladores de negocios varios. O fundo da sua existencia era o dinheiro, a +intriga, a galanteria, o proprio vicio. Se se tratava de fazer propostas +deshonestas a uma consciencia recta, a uma mulher cubiçada, procurava-se para +esse fim M.<sup>me</sup> William.</p> + +<p>Por cada operação d'esse genero recebia ella os seus emolumentos. O seu +alojamento de seis mil francos era pago com toda a regularidade, assim como as +suas bellas «toilettes» e os ordenados dos seus innumeros serviçaes.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William era uma mulher sem pudôr e que dispunha para +satisfazer os seus vergonhosos compromissos d'uma actividade inacreditavel.</p> + +<p>Era, n'uma palavra, a encarnação poderosa e perigosa da immundicie coberta +de ouro, passeando de coche, adulada, procurada; infame podridão, merecendo ser +lançada ao monturo, depois de ter sido esmagada debaixo dos pés. Era a lagarta +sem nome, de corpo repellente, devastando esse immenso jardim humano que se +chama Paris.</p> + +<p>Tal era a immunda creatura á qual o barão de Quérelles ia confiar a missão +de perder a marqueza de la Tournelle.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William não tinha ainda attingido os quarenta annos. Era +bastante formosa; e<span class="pn">{125}</span> só por vêl-a e ouvil-a ninguem +podia jámais suppôr as torpezas da sua vida.</p> + +<p>Falava muito correctamente o francez, com uma ligeira accentuação +estrangeira, o que lhe dava mais uma linha de seducção.</p> + +<p>—Que foi isso, barão, disse ella a Dominique, que bom vento vos trouxe +até aqui? Julgava-vos casado. Sabeis que me haveis abandonado bem +singularmente?! </p> + +<p>De Quérelles mostrava-se embaraçado. Não sabia como abordar o assumpto pelo +qual ali viera, e sentia desejos de abreviar aquella visita mesmo sem ter dito +cousa alguma.</p> + +<p>Mas M.<sup>me</sup> William é que comprehendia claramente que se elle +voltara a procural-a após tel-a esquecido durante cinco annos, era porque no +seu espirito existia qualquer preocupação grave.</p> + +<p>Tinha a impressão de que era preciso manobrar com toda a astucia dos dias +solemnes e dispunha já em linha de ataque todas as suas baterias. Fez assentar +o barão n'um sophá, perto d'ella, e interrogou-o sobre os assumptos mais +extraordinarios. Jamais um confessor empregou mais habeis estratagemas para +facilitar a confissão a um penitente, para o obrigar a confessar qualquer +grande peccado dos que não se ousam contar em voz alta, de que só se fala na +meia escuridão d'um fim da tarde e fechando os olhos.</p> + +<p>Após duas horas de conversação o barão descarregára do coração um grande +fardo.</p> + +<p>A sua confissão fôra completa.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William soubera que Dominique gostava da marqueza de la +Tournelle, que<span class="pn">{126}</span> elle tinha sido alvo dos desdens +d'essa dama da aristocracia, que elle desejava vingar-se humilhando a altiva +fidalga; que era preciso portanto, descobrir á marqueza qualquer amante +verdadeiro ou falso, fazer estalar o escandalo, e depois recolher, em bôa +ordem, algumas excellentes notas de mil francos na sua bolsa.</p> + +<p>A intrigante experimentou uma alegria diabolica, pensando que ia achar-se em +frente da marqueza. Havia muito tempo que esta aranha ingleza não envolvia nos +fios da sua teia tão bella presa. Detestava por natureza as mulheres d'um mundo +superior ao seu, e reservava-lhes as suas mais crueis ciladas.</p> + +<p>Começou por encommendar duas soberbas «toilettes» n'uma modista da moda, no +«boulevard» Haussmann.</p> + +<p>—Meu pequeno De Quérelles, disse ella comsigo mesma, subindo para o +seu coupé, depois de ter escolhido os tecidos de que deviam ser feitos os +vestidos que encommendára, serás tu quem pagará a factura como inicio do +negocio, que em seguida realizaremos sob um aspecto de seriedade.</p> + +<p>Eu sou como o governo, tenho neccessidade n'esta occasião de abrir emissões +para fazer effeito, e conto comtigo, meu caro barão, para satisfazeres na caixa +as obrigações contrahidas.</p> + +<p>E desatou a rir, imaginando que tinha tanto espirito como Voltaire. +M.<sup>me</sup> William applicava uma certa consciencia no cumprimento da sua +ascorosa tarefa. Gostava de penetrar nos segredos das familias, mas queria +obter dados precisos, exactos, constatados<span class="pn">{127}</span> por +ella tanto quanto possivel, depois do que manobrava com uma espantosa segurança +e firmeza de pulso.</p> + +<p>Uma manhã, acabando de tomar o seu chocolate, começou a pensar seriamente, +no que ella chamava o negocio do barãosinho.</p> + +<p>—Vejamos, vejamos, dizia ella para comsigo, trata-se de saber se essa +formosa marqueza tem um amante, ou antes, como ella com certeza o possue, +trata-se de descobrir quem elle é.</p> + +<p>Devo seguil-a ou fazel-a seguir, quando ella sae, quando ella vae a qualquer +entrevista? Não, deixemos esses processos vulgares á policia. A marqueza ama o +grande mundo, os bailes, as «soirées»; adora tambem o theatro e tem um camarote +na Opera.</p> + +<p>Ora, é evidente, que ella deve encontrar ali o homem a quem ama.</p> + +<p>É necessario portanto seguir-lhe ahi os gestos, as expressões, os olhares; e +d'isso me encarrego eu, M.<sup>me</sup> de la Tournelle!</p> + +<p>A ingleza via bem as cousas. Desde que ha apaixonados sobre a terra, elles +teem sentido sempre uma volupia indifinivel em admirarem junctos as scenas +harmoniosas da natureza, em repartirem as mesmas sensações litterarias e +artisticas, em trocarem olhares de ternura, quando a emoção produzida attinge a +sua maior intensidade.</p> + +<p>O quadro onde se desenha a nossa vida nunca nos parece tão bello, como +quando n'elle apparece tambem um traço da vida d'aquella a quem amâmos.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle e Ronquerolle não fugiam á regra geral, á +lei commum, doce<span class="pn">{128}</span> lei que ordena áquelles que se +amam que tudo sintam em commum, prazeres, alegrias, desgostos e tristezas.</p> + +<p>Os dois amantes não podiam encontrar-se na sociedade. O logar de deputado +republicano não era, decerto, nos salões aristocraticos que a marqueza +frequentava. Era para elles esse facto motivo de pezar, mas comprehendiam que a +sua ligação era impossivel se não observassem a cada instante a maior +prudencia.</p> + +<p>O marquez regressara a Paris em companhia do conde Orgefim, e o seu palacete +havia readquirido a animação de todos os invernos.</p> + +<p>O que se diria se o seu adversario politico, o seu feliz rival fosse visto a +conversar com sua esposa n'uma «soirée» do grande mundo.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle assistia ás sessões da camara dos deputados, +afim de vêr ali o seu amante.</p> + +<p>Do seu logar na tribuna ella contemplava-o sentado á sua carteira, +escrevendo, gesticulando, discutindo com os seus collegas, interrompendo os +oradores da direita, n'uma palavra, dispondo de toda a sua actividade, e a +marqueza era feliz vendo-o assim.</p> + +<p>Quanto a Ronquerolle o seu prazer supremo era ir á Opera, onde ella +apparecia decotada, ornada de diamantes e eclipsando pela sua belleza todas as +outras mulheres...</p> + +<p>—Oh felicidade, pensava elle, o intrepido republicano, é minha essa +sublime mulher!<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Amâmo-nos, adorâmo-nos e ninguem no mundo, além de nós, conhece o nosso +segredo.</p> + +<p>E prolongando estes pensamentos, n'uma febre de amôr, Ronquerolle atravez a +sala do theatro enviava toda a sua alma á incomparavel Carlota.</p> + +<p>Ella via-o tambem, do seu camarote, seguia-lhe os olhares, transmitia-lhe +tambem os seus pensamentos e enviava-lhe por entre as varetas do seu lindo +leque beijos discretos.</p> + +<p>Algumas vezes Ronquerolle ouvia os seus visinhos dos fauteuils de orchestra +interrogarem-se.</p> + +<p>—Quem é, diziam elles, aquella linda mulher, que occupa o segundo +camarote do lado esquerdo, aquella que ostenta nos cabellos uma formosa +estrella de diamantes?</p> + +<p>—É a marqueza de la Tournelle! respondia um interlocutor melhor +informado. É na verdade uma das mais seductoras mulheres de Paris.</p> + +<p>Que altivez, e ao mesmo tempo que encanto na sua figura!...</p> + +<p>Ella tudo possue, mocidade, saude, riqueza, um nome illustre, dignidade, +belleza e espirito.</p> + +<p>Ronquerolle empallidecia de felicidade, ouvindo o elogio da sua deliciosa +amante.</p> + +<p>Desejaria estar juncto d'ella, no seu camarote, a murmurar-lhe aos ouvidos +essa palavra tão doce de pronunciar e mais doce ainda de ouvir:</p> + +<p>—Amo-te! Amo-te!</p> + +<p>Invejava e tinha ciumes de todos os que<span class="pn">{130}</span> +visitavam o camarote da marqueza, onde ella sorria em meio do perfume das +flôres e dos canticos que enchiam o theatro.</p> + +<p>As convenções sociaes não permittiam que aquelles dois amantes se +apaixonassem, que fallassem em publico. Não podiam trocar palavras senão na +intimidade, nas suas secretas entrevistas, que Ronquerolle tinha organisado com +uma arte consummada.</p> + +<p>Alli, sem duvida, elles se desforravam amplamente, de todas as privações e +mentiras a que os condemnava a sociedade, mas nem por isso soffriam menos, por +não poderem repartir as mesmas alegrias da vida exterior, as mesmas emoções, os +mesmos prazeres.</p> + +<p>Uma noite, na Opera, Ronquerolle não poude conter-se. M.<sup>me</sup> de la +Tournelle estava só. Dirigiu-se ao seu camarote, e erguendo o reposteiro do +pequeno salão interior, do mesmo camarote, sem poder ser visto da sala, chamou +a attenção da amante.</p> + +<p>Carlota veiu ao fundo e exclamou em voz baixa:</p> + +<p>—Que imprudencia!</p> + +<p>E deu-lhe os labios, onde elle depositou um beijo ardente.</p> + +<p>Apertou-a um momento nos seus braços e depois retirou-se com a alma +embriagada por esse vinho capitoso, o orgulho da posse.</p> + +<p>Esta rapida scena não teve testemunhas, comtudo M.<sup>me</sup> William, a +aranha ingleza, que assistia tambem ao espectaculo, notou que a marqueza +estando só, tinha-se affastado<span class="pn">{131}</span> por alguns minutos +da frente do camarote.</p> + +<p>—Por acaso o amante da marqueza não pertencerá á sua sociedade? disse +comsigo a perfida observadora. É um enygma então, e como decifral-o?</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William havia já começado a sua sombria tarefa de +espionagem. Sabia já o nome e a morada de todas as pessoas que frequentavam o +palacete da marqueza. Mas os apontamentos colhidos tornavam-n'a perplexa. Não +podera ainda achar um facto preciso, que podesse collocal-a n'uma pista que +devesse seguir. </p> + +<p>Quanto a Ronquerolle tinha-se desembaraçado dos agentes lançados nas suas +piugadas pelo ministerio, fazendo publicar nos jornaes do seu partido uma +noticia nos seguintes termos: «O deputado de Saint-Martin interpellará +proximamente o ministro do Interior sobre assumptos da perfeitura da policia. +Trata-se, ao que parece, de pequenas e grandes infamias dos agentes secretos. O +sr. Ronquerolle apresentará factos, não baterá ao acaso. Desejamos que o +ministro seja d'esta vez, um pouco mais feliz do que na sua ultima derrota.» +</p> + +<p>O ministro havia comprehendido a intenção e a ordem fôra revogada, ou fôra +suspensa por algum tempo a observação secreta de que Ronquerolle era alvo. Este +não poude deixar de sorrir-se da covardia dos seus adversarios.</p> + +<p>Comprehendia agora que ignobil procedimento se acoberta sob as apparencias +de legitima defeza politica.</p> + +<p>Quanto mais penetrava no exame dos<span class="pn">{132}</span> actos e dos +homens do poder, maior numero de ignominias encontrava.</p> + +<p>A colera invadia-o e teria querido desmascarar os homens que se fingiam +honestos e dignos.</p> + +<p>—De que valem os discursos contra a villanagem? dizia elle. Não são +phrases que é preciso lançar-lhes ao rosto, o que é preciso é cuspir-lhes na +cara.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William reconheceu a necessidade de realizar uma larga +entrevista com o barão de Quérelles.</p> + +<p>N'essa entrevista contou-lhe elle a historia da ultima eleição de deputados +em Saint-Martin, a queda do marquez e o triumpho de Ronquerolle, o candidato +republicano, e a parte que elle proprio tomára nos acontecimentos.</p> + +<p>—Não faço ideia, interrompeu M.<sup>me</sup> William, como seja o +aspecto d'esse tal sr. Ronquerolle, de quem tanto se fala na Camara e cá fóra, +e que derrotou com tanta felicidade o pobre de la Tournelle?</p> + +<p>—É um homem alto e delgado, disse o barão, e elegante como um +principe. Mas porque me faz essa pergunta?</p> + +<p>—Simples curiosidade de mulher! exclamou a descarada ingleza tomando +uma attitude de denguice.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William viu depois muitas vezes a Ronquerolle, na Camara dos +deputados.</p> + +<p>Occupava logar n'uma tribuna não distanciada d'aquella onde M.<sup>me</sup> +de la Tournelle tinha por costume assistir aos debates parlamentares, +deliciando-se com a vista do amante.</p> + +<p>A esperta ingleza reparou em que a loura<span class="pn">{133}</span> +Carlota não desviava os olhos do joven deputado.</p> + +<p>—Seria interessante, pensou ella. Aqui ha mysterio! Decididamente +senhora marqueza é necessario que eu vos faça seguir durante os vossos passeios +atravez a cidade de Paris!</p> + +<p>As entrevistas de Ronquerolle com a sua formosa amante, realizavam-se +alternadamente em tres logares differentes, em tres bairros affastados uns dos +outros.</p> + +<p>Era assim mais difficil surprehender os dois amantes nos locaes das suas +reuniões.</p> + +<p>Além d'isso a marqueza mudava de carruagem cada vez que ia juntar-se a +Ronquerolle, de fórma a estabelecer a duvida na espionagem de que podesse ser +alvo.</p> + +<p>Ella bem sabia que por uma moeda de vinte francos é facil fazer falar os +creados e os cocheiros.</p> + +<p>Assim nem mesmo estes podiam ter a mais leve suspeita.</p> + +<p>Esses agradaveis encontros tinham sido organisados pelo intelligente +deputado republicano com especial habilidade, uns dias realizavam-se de manhã e +d'outras vezes á tarde ou á noite.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle poderia mesmo passar a noite inteira fóra de +seu palacete sem se comprometter.</p> + +<p>Paris tem essa immensa vantagem sobre a provincia.</p> + +<p>Em geral as pessoas que vivem na grande cidade não se occupam dos visinhos. +</p> + +<p>Nas casas habitadas por pessoas de alta posição só se exige uma qualidade +aos locatarios,<span class="pn">{134}</span> e essa qualidade consiste em não +fazer ruido nas escadas.</p> + +<p>O socego e algumas peças de cinco francos lançadas de tempos a tempos nas +mãos dos porteiros auxiliam efficazmente os amôres illicitos nos ninhos +dourados, impenetraveis. Accresce que certas casas e certos predios teem duas +entradas, e portanto duas sahidas.</p> + +<p>Este systema aperfeiçoado permitte ás pessoas que teem motivos para se +envolverem em mysterios o rirem-se nas bochechas d'aquelles, que pelo +contrario, teem todo o interesse em conhecerem os nomes e as caras das pessôas +que se occultam nas mysteriosas habitações.</p> + +<p>Ronquerolle era bastante parisiense, pelo espirito e pelos habitos para +n'aquelle jogo de amôr obter todos os trumphos.</p> + +<p>De resto, a intelligencia que qualquer recebeu da mãe commum, a natureza, +serve-nos de auxiliar poderoso em todos os lances da vida.</p> + +<p>Que prodigios de imaginação não teriam os amantes, para se vêrem a miudo. +</p> + +<p>Ronquerolle por si nada tinha a recear, era livre como o ar; mas +preoccupava-se com o salvaguardar a honra da sua amante, uma mulher casada, +pertencendo a um mundo de apparato, de vista, e que teria tudo a perdêr, se o +segredo da sua ligação viesse a ser desvendado.</p> + +<p>O marquez de la Tournelle não tinha a menor suspeita sobre a virtude e a +fidelidade de sua esposa. Era-lhe submisso como um cão ao dono e nem sequer +discutia os seus menores caprichos.<span class="pn">{135}</span></p> + +<p>Sentia e sabia que ella lhe era superior, e amava-a com uma especie de +devoção, como se ama e se venera uma divindade.</p> + +<p>Depois do chéque eleitoral soffrido, elle considerava-se perdido aos olhos +da marqueza, porque não seguira os seus conselhos.</p> + +<p>Tremia deante d'ella e nem tentava explicar a si proprio as causas da frieza +que sua mulher lhe testemunhava.</p> + +<p>Por caricia unica, depois que Ronquerolle triumphára, M.<sup>me</sup> de +Tournelle apenas permittia ao marido que a beijasse na testa.</p> + +<p>Uma noite, pelas 11 horas, o infortunado marquez veiu bater á porta do +quarto de sua mulher.</p> + +<p>—Sois vós, Sergio? perguntou ella com voz irritada.</p> + +<p>E como elle lhe respondesse affirmativamente:</p> + +<p>—Tende paciencia, mas não vos posso attender. Voltae para os vossos +aposentos. Estou fazendo a minha toilette para ir ao baile a Saint-Germain.</p> + +<p>Effectivamente estava vestindo uma elegantissima «toilette» depois de se ter +perfumado dos pés á cabeça.</p> + +<p>Ronquerolle esperava-a n'essa noite n'um dos seus ninhos de amôr; mas para +salvar as apparencias a marqueza foi effectivamente a um baile em +Saint-Germain, d'onde rapidamente sahiu sem os outros convivas darem por isso, +para ir cahir nos braços do seu adorado, do seu querido Ronquerolle.</p> + +<p>—Fui eu que errei, dizia Sergio de la<span class="pn">{136}</span> +Tournelle dirigindo-se para os seus aposentos.</p> + +<p>Devia ter escutado os seus conselhos e obedecêr-lhe escrupulosamente... Oh! +A politica! Infernal politica! Para que me lancei eu n'essa odiosa engrenagem? +</p> + +<p>Carlota! Carlota!</p> + +<p>Se tu soubesses como eu te amo!</p> + +<p>Morreria por ti se m'o ordenasses!</p> + +<p>E o desgraçado desesperava-se suppondo que havia perdido a estima de sua +esposa apenas por uma serie de fraquezas suas, e acreditando, o que era +verdade, que jámais a podia reconquistar.</p> + +<p>O pobre marquez devorava a sós o seu profundo desgosto, porque as suas dôres +eram d'aquellas que não se confiam a pessoa alguma, nem mesmo a um amigo +intimo.</p> + +<p>N'essa noite o marquez de la Tournelle não dormiu.</p> + +<p>Ouviu dar todas as horas até ás quatro da madrugada.</p> + +<p>A essa hora a marqueza entrava em casa.</p> + +<p>Sergio ouviu tudo o que passou no seu palacete: o porteiro abrira a porta da +rua, a carruagem entrára no pateo, depois a porta envidraçada da escadaria +abrira-se para dar passagem á encantadora Carlota, e depois tudo voltára á +tranquilidade e ao silencio.</p> + +<p>—E dizer que minha mulher está aqui perto de mim, exclamava elle, que +acaba de entrar vinda d'um baile, perfumada como uma rosa e bella como uma +Venus, e que eu não ouso entrar no seu quarto, e que se tal ousasse ella me +acolheria com um sorriso de piedade!<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>E o senhor de la Tournelle virava-se e revirava-se sobre o leito como se +estivesse sobre um brazeiro, e de raiva, de desespero pela sua fraqueza, mordia +as almofadas e rangia os dentes como atacado d'um accesso febril.</p> + +<p>No emtanto o pobre marquez estava ainda longe de suppôr toda a importancia +da sua desgraça.</p> + +<p>A marqueza, como é sabido, vinha não só do baile como d'um delicioso +«rendez-vous» de amôr.</p> + +<p>Fatigada dos abraços estonteantes de Ronquerolle, despia-se vagarosamente, +lançando o seu vestido de baile, levemente amachucado, sobre uma poltrona.</p> + +<p>Tinha ainda nos labios vermelhos como que o calor dos beijos do fogoso +republicano.</p> + +<p>E adormeceu feliz recordando as phrases de amôr, o delirio do olhar +apaixonado de Ronquerolle; e jurando não amar no mundo mais ninguem senão a +elle.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION009000">IX </a><br> +</h1> + +<p><em>Drama sangrento</em></p> + +<p>M.<sup>me</sup> William, se bem que se entregasse a uma activa espionagem, +não podia penetrar nos segredos da vida privada da bella<span +class="pn">{138}</span> Carlota. Dispunha-se ella a organisar uma espionagem +especial e astuciosa, quando uma manhã recebeu um aviso muito secco, pelo qual +era convidada a apresentar-se das 8 ás 10 horas na repartição do sr. prefeito +da policia.</p> + +<p>Desconcertou-se, e estremeceu, á vista d'esse papel impresso e com o timbre +da Prefeitura.</p> + +<p>No emtanto resolveu não se preoccupar com essa nota inesperada e logo que +chegou o dia em que o prefeito da policia a esperava no seu gabinete, conforme +o aviso que lhe enviara, M.<sup>me</sup> William tomou um trem e fez-se +conduzir para a Prefeitura.</p> + +<p>Apezar da sua ousadia e da sua depravação não se sentia muito tranquilla ao +subir as escadas d'aquelle edificio policial. Tinha a pezar-lhe na consciencia +uma serie de acções más, que suppunha terem sido descobertas, e achava singular +que a policia viesse metter o nariz nos seus negocios.</p> + +<p>Esperou uma bôa meia hora n'uma ante-camara, em companhia de muitas +personagens de apparencia suspeita e de olhar equivoco, sem duvida, como ella, +chamadas ali, para receberem qualquer salutar reprimenda.</p> + +<p>Por fim um empregado chamou em voz alta: «Madame William»! Esta ergueu-se +rapidamente como se lhe tivessem dado uma picada de alfinete, e passou a um +gabinete onde esperou apenas um instante.</p> + +<p>Bem depressa um homem novo ainda appareceu por uma porta em que ella não +havia reparado.</p> + +<p>—Meu caro senhor, exclamou logo ella,<span class="pn">{139}</span> é +extraordinario! Ha sem duvida um engano, um lamentavel equivoco. Não +comprehendo que a policia me faça comparecer aqui, obrigando-me a...</p> + +<p>E ia proseguir n'aquella cadeia de protestos ou lamentações, quando o +individuo que se achava na sua presença, grave como uma sentença de morte, lhe +fez signal para se sentar, sem dar a menor attenção ás suas palavras.</p> + +<p>—Vós sois madame William, disse elle; madame William do «boulevard» +Malesherbes; não é assim?</p> + +<p>—Effectivamente, respondeu a criminosa mulher.</p> + +<p>—Está bem, accrescentou o empregado da policia, mantendo a sua linha +de serenidade e firmeza, tenho ordem de vos participar que se continuardes a +fazer por mais tempo concorrencia á Prefeitura de policia, vêr-nos-hêmos +obrigados a reconduzir-vos á fronteira.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William quiz ainda balbuciar algumas explicações, e tentou +ainda enternecer o empregado, que falava em nome do prefeito da policia. Mas +foi trabalho perdido. O homem não se desmanchou e disse-lhe ainda:</p> + +<p>—Madame, sabemos tudo. Não viestes aqui para fazer phrases +sentimentaes, mas para receber uma advertencia. Essa advertencia já vol-a dei. +Fazei por não a esquecerdes.</p> + +<p>E, como M.<sup>me</sup> William se erguesse, o homem accrescentou ainda, +pondo a mão sobre um masso de papeis.</p> + +<p>—Madame, estão aqui documentos que<span class="pn">{140}</span> vos +dizem respeito. Como vêdes o masso é bastante volumoso. Devo prevenir-vos de +que estaes sob a vigilancia da nossa policia e que ella vale bem mais de que a +vossa.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> William regressou á sua habitação fortemente impressionada +com o que se passára.</p> + +<p>Não se entendia já dentro dos acontecimentos.</p> + +<p>Teve um verdadeiro ataque de nervos e n'esse mesmo dia escreveu ao barão de +Quérelles, pedindo-lhe para ir vêl-a sem demora.</p> + +<p>A criminosa via bem que a Prefeitura de policia estava ao corrente das suas +pequenas intrigas, mas não soube explicar como tinham esperado tanto tempo para +a advertirem de que tivesse cuidado nos seus «negocios». Havia annos que ella +intrigava a sociedade parisiense, e sempre a tinham deixado «trabalhar» á +vontade. Mas apenas dirigira as suas baterias contra M.<sup>me</sup> de la +Tournelle logo a policia intervinha no caso. Realmente a maldita Prefeitura +queria tirar-lhe o pão da bocca. Afinal, pensava M.<sup>me</sup> William, +aquelle trabalho a que ella se entregava era como outro qualquer; era um meio +de ganhar a vida «honestamente».</p> + +<p>O que se tinha passado, perguntará o leitor, para que a policia se +intromettesse no assumpto? Uma coisa muito simples. Ronquerolle, que velava +sobre a sua amante, como uma mãe vela pelo seu filho, havia tido a suspeita de +que a marqueza estava ameaçada d'um grande perigo; e redobrando<span +class="pn">{141}</span> de vigilancia, havia sabido da existencia de +M.<sup>me</sup> William.</p> + +<p>Entretanto prevenira o prefeito da policia, e como este receava os ataques +na Camara, do joven deputado, déra immediatamente as ordens mais severas +relativamente á aranha ingleza tão compromettedôra.</p> + +<p>E foi assim que M.<sup>me</sup> de la Tournelle, sem o saber, foi +desembaraçada d'uma infame espionagem que poderia ter trazido as mais +deploraveis consequencias. </p> + +<p>O marquez, porém, começava a sentir algumas suspeitas. Era tão +desdenhosamente tratado por sua esposa de cada vez que tentava a sua +intimidade, que acabou por perguntar a si proprio se a politica seria a causa +unica da repulsão que a marqueza por elle demonstrava. E nunca a bella Carlota +fôra mais attrahente e digna de ser adorada.</p> + +<p>Vestia toileites encantadoras, estonteantes; apparecia nos bailes mais +aristocraticos de Saint-Germain, não faltava ás sextas-feiras da Opera, nem a +uma unica quinta-feira de Comedie; e viam-n'a em todas as interessantes sessões +parlamentares.</p> + +<p>Passeava tambem no Bois, nos dias e nas horas em que as grandes elegantes da +vida parisiense vêem ali apresentar os seus maravilhosos encantos e as suas +deliciosas frivolidades.</p> + +<p>Nas secções mundanas dos jornaes, falava-se da marqueza de la Tournelle nos +termos os mais elogiosos; era ali citada como uma das rainhas do bom tom e +da<span class="pn">{142}</span> verdadeira elegancia, e dava-se-lhe o +estandarte da belleza no batalhão das formosas louras.</p> + +<p>A sua amiga, M.<sup>me</sup> de Fleurus, era rainha na côrte das morenas.</p> + +<p>Esta possuia um particular encanto, que constava de bem pouco, mas que +muitas mulheres desejariam possuir.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de Fleurus tinha o labio superior ligeiramente ensombrado, +por um adoravel e quasi imperceptivel buçosinho.</p> + +<p>—É este o privilegio de nós outras as morenas, dizia ella algumas +vezes sorrindo, para M.<sup>me</sup> de la Tournelle. E devemos tirar todo o +partido possivel do que a natureza nos concedeu.</p> + +<p>Era para fazer o orgulho do seu amante que a marqueza apparecia +constantemente nas festas e nos logares de prazer da sociedade parisiense. Ella +bem sabia como os homens mesmo os menos vaidosos, mesmo os mais fortes e os +mais incorruptiveis, se sentem felizes de ouvir falar nos encantos, na +elegancia, e na belleza da mulher a quem amam.</p> + +<p>Ronquerolle, com effeito estava louco de felicidade.</p> + +<p>Não era só a sua vaidade que se achava plenamente satisfeita, era tambem, o +seu orgulho.</p> + +<p>Quando percorria com a vista as secções elegantes do «Figaro» ou do +«Gaulois», onde se falava da sua amante, elle sentia-se disposto a abraçar o +mundo inteiro, e teria querido conhecer os «reporters» que haviam redigido +essas noticias tão simples, mas para elle tão encantadoras, afim de<span +class="pn">{143}</span> lhes offerecer opiparos jantares na «Maison d'Or», em +que o Champagne corresse a rôdo.</p> + +<p>Tambem o marquez de la Tournelle lia essas noticias dos jornaes onde se +falava de sua mulher como d'uma maravilha de graça e de seducção.</p> + +<p>Esses elogios despertavam n'elle a paixão d'outros tempos. E tornava-se a +sua paixão mais ardente que a d'um rapaz. E desejava sua propria esposa, como +se inveja a mulher d'um outro. Passavam-lhe por deante dos olhos sonhos +voluptuosos, desejos insaciaveis e soffria na sua terrivel intensidade o tão +falado supplicio de Tantalo. O divino licôr mostrava-se deante dos seus labios +febris, mas o marquez não podia mitigar a sêde que o devorava. E não tentava +sequer aproximar o calice que brilhava como faiscas de diamantes.</p> + +<p>Soffria em silencio, e a sua dôr accumulava-se, como a agua d'uma corrente +que cae no fundo d'um precipicio.</p> + +<p>Se elle fôra verdadeiramente um homem, se elle tivera a energia moral que +quebra os obstaculos e consegue os seus fins, o marquez de la Tournelle teria +falado a sua mulher n'um tom que não permittiria a replica, e teria arrombado +sem difficuldade a porta do quarto de dormir onde a marqueza se encerrava +pretextando a fadiga ou o arranjo da sua toilette.</p> + +<p>É verdade que se elle tivesse sido capaz de tal procedimento, que indicam o +dominador, o conquistador, a marqueza não lhe teria jámais fechado a porta; +viria mesmo abril-a ao vencedor, e elle teria entrado na<span +class="pn">{144}</span> fortaleza com a serenidade e a alegria do triumpho.</p> + +<p>A mulher ama a força e despreza ou pelo menos sente piedade pela fraqueza. É +feliz em sentir-se martyrisada, não por um poder brutal, feroz ou louco, mas +por uma força intelligente, bella e harmoniosa.</p> + +<p>O papel d'um homem é na acção o que o da mulher é pela graciosidaoe.</p> + +<p>Para M.<sup>me</sup> de la Tournelle o homem de acção era Ronquerolle; com +elle sentia-se submettida pela unica supremacia que sabia reconhecer, a do +talento, a d'um grande caracter, a d'uma grande alma. Assim ella estava ligada +ao joven republicano por uma grande ternura cada vez mais solida, augmentando +dia a dia pela força adquirida e pelo encanto da recordação.</p> + +<p>O marquez estava preso da maior angustia.</p> + +<p>Uma noite, soffria com tal violencia, que, como machinalmente, invadiu os +aposentos de sua esposa. Ella acabava de sahir. O seu quarto de dormir, o seu +«boudoir», o seu gabinete de toilette estavam saturados de perfumes. Reinava +ali a deliciosa desordem que deixa uma mulher do grande mundo, quando acaba de +se preparar para ir a um baile, a um theatro, ou a uma entrevista de amôr.</p> + +<p>Estonteado por esses perfumes capitosos, por todos esses objectos que +concorrem para os attractivos d'uma mulher, o senhor de la Tournelle cahiu +sobre uma poltrona, e experimentou um sentimento de desespero impossivel de +descrevêr.</p> + +<p>Uma extranha recordação invadiu todo o<span class="pn">{145}</span> seu sêr, +e lagrimas ardentes queimaram as suas palpebras.</p> + +<p>No «boudoir», viu elle o pequeno cofre que a marqueza trazia sempre comsigo +nas suas viagens, e nas suas mudanças de Paris para Saint-Martin e de +Saint-Martin para Paris.</p> + +<p>Acudiu-lhe á mente a ideia de o abrir.</p> + +<p>Veiu até junto do cofre e tentou erguer-lhe a tampa. O cofre estava fechado +á chave.</p> + +<p>—É singular! disse o marquez. Porquê este mysterio?!</p> + +<p>E o seu ávido olhar envolvia o elegante e pequeno cofre.</p> + +<p>Poz-se a sacudil-o.</p> + +<p>Nenhum som se fez ouvir.</p> + +<p>Então a colera atravessou o coração d'aquelle desgraçado homem.</p> + +<p>Tomou o cofre entre as duas mãos, acima da altura da cabeça, e lançou-o +violentamente contra o marmore branco do fogão.</p> + +<p>O cofre abriu-se e duas cartas saltaram d'elle.</p> + +<p>O senhor de la Tournelle hesitou ainda um momento, antes de apanhar as +cartas.</p> + +<p>Parecia-lhe que commettia uma falta, que se deshonrava entrando assim nos +segredos de sua mulher, mas a angustia, de que se achava possuido, lançava-o de +encontro ás catastrophes.</p> + +<p>Com mão tremula, abriu uma das cartas, reconhecendo que ella continha apenas +alguns versos, e respirou.</p> + +<p>A julgar pelo amarellado da tinta, havia já bastante tempo que esses versos +tinham<span class="pn">{146}</span> sido escriptos. Olhou para a assignatura: +«Maximo Ronquerolle».</p> + +<p>—O quê, pensou elle, o nome d'esse homem!</p> + +<p>Mas é uma infamia! Oh que fatalidade!</p> + +<p>A outra carta não continha assignatura.</p> + +<p>Era escripta mais recentemente mas a lettra era a mesma que a da poesia.</p> + +<p>Á medida que proseguia na leitura o marquez sentia como que um punhal a +atravessar-lhe o coração.</p> + +<p>Comprehendeu emfim todo o seu infortunio.</p> + +<p>Sua mulher tinha um amante e esse amante era um republicano, e esse +republicano era o seu rival politico, o seu implacavel inimigo, aquelle a quem +tinham por habito chamar o cidadão Ronquerolle. As duas cartas que haviam +saltado do cofre eram as unicas que Ronquerolle tinha enviado á sua amante.</p> + +<p>Os versos datavam de longe, eram a sua primeira expressão de amôr.</p> + +<p>A outra missiva tinha-a elle escripto no proprio dia da sua eleição, após o +apuramento do escrutinio d'onde o seu nome sahira victorioso.</p> + +<p>A carta dizia:</p> + +<p>«Mulher adorada, devo-vos uma parte do meu triumpho. Sêde bemdita, pois +haveis secundado os meus esforços, tendo a coragem de me sacrificardes os +preconceitos da vossa raça, e a vossa posição.</p> + +<p>Que hei de eu fazer para chegar até á altura do vosso amôr, que se affirma +tão poderosamente»!</p> + +<p>E mais adeante lia-se: «Que bello destino<span class="pn">{147}</span> +antevejo, para ti e para mim, deliciosa amante! Ninguem saberá que nos amâmos, +ninguem advinhará o segredo da nossa paixão...</p> + +<p>Amar-nos-hêmos, adorar-nos-hêmos por nós mesmos, e não em obdiencia a tôlas +convenções sociaes, não por nos conformarmos com pequenas cousas ou interesses +pueris!»</p> + +<p>A leitura dos versos e da carta de Ronquerolle foi um martyrio para o +infeliz marquez de la Tournelle.</p> + +<p>Pela primeira vez na sua vida esse aristocrata de nascimento, esse espirito +fraco, comprehendêra de quanta magia dispunha sua mulher.</p> + +<p>E sentiu um duplo soffrimento reconhecendo, que nunca tivera nem podia ter +aos olhos da marqueza esse prestigio secreto, admiravel, que faz as verdadeiras +conquistas do amôr.</p> + +<p>Muitas vezes Ronquerolle tinha aconselhado á sua amante que queimasse os +seus versos e muito principalmente a sua longa carta de amôr.</p> + +<p>Ella sempre o promettera fazer mas jámais tivera coragem para cumprir a sua +promessa.</p> + +<p>Essas lettras do amante eram para ella deliciosas recordações do inicio dos +seus amôres, e sentia uma extranha voluptuosidade em relêl-as.</p> + +<p>É tão agradavel conservar os objectos que hão acompanhado o nascer e o +desenvolver d'uma paixão sincera!</p> + +<p>As palavras escriptas pela pessôa amada, quer sejam receosas, prudentes, +conselheiras<span class="pn">{148}</span> ou loucas e irreflectidas; as +pequenas lembranças ou recordações, um annel um lenço, um livro; uma simples +flôr que secca mas que assim se conserva durante muitos annos, tudo, tudo, +mesmo na sua pequenez e na sua apparente insignificancia, representa a mais +eloquente testemunha do nosso amôr.</p> + +<p>Ha quem conserve esses pequeninos nadas, que são tudo para quem amou, e que +não trocaria essas recordações d'um dia, d'uma hora, ou d'um instante feliz na +sua vida, por uma perola, um diamante, uma corôa, um reino.</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de la Tournelle não daria por um imperio aquelles dois +papeis escriptos pelo seu amante.</p> + +<p>Era supersticiosa a marqueza em tudo que dizia respeito a Ronquerolle. +Pensava que se desapparecessem aquellas cartas, com ellas lhe fugiria +Ronquerolle.</p> + +<p>Dava a maior importancia a tudo que lhe dizia respeito; e o amante, pela sua +parte, não a ligava menos a tudo que respeitasse ao seu idolo.</p> + +<p>No fundo do precioso cofre admiravelmente cinzelado jaziam as duas cartas de +Ronquerolle como um thezouro de alto preço.</p> + +<p>O marquez, perante a horrivel realidade, sentiu renascer a calma no seu +pensamento.</p> + +<p>—Está bem! exclamou elle com resolução.</p> + +<p>E tornou a collocar as duas cartas no cofre.</p> + +<p>O pequenino e lindo movel tinha a fechadura arrancada.<span +class="pn">{149}</span></p> + +<p>Reparou o melhor que poude os estragos causados no cofre e foi pôl-o no +mesmo logar onde o encontrára.</p> + +<p>Não queria que sua mulher percebesse o que se passára e principalmente que +elle tinha conhecimento da sua falta.</p> + +<p>A partir d'essa noite fatal, o senhor de la Tournelle começou de apparentar +uma grande tranquillidade em todas as suas palavras. Sorria com satisfação e +mostrava grande prazer em offerecer aos seus creados pequenas lembranças.</p> + +<p>Quem o visse pela primeira vez e quem com elle entretivesse duas horas de +conversação, teria dito: Que homem tão feliz! E, no emtanto o desgraçado estava +ferido de morte.</p> + +<p>Durante um mez occupou-se em pôr os seus negocios em ordem. Todas as manhãs +o seu secretario vinha trabalhar com elle.</p> + +<p>Algumas dependencias de sua casa, que estavam em más condições foram +arranjadas, alguns moveis foram renovados. As propriedades do marquez receberam +a sua visita e por toda a parte elle deu ordens uteis.</p> + +<p>A marqueza não sabia que pensar do procedimento de seu marido.</p> + +<p>Parecia que se preparava para emprehender uma grande viagem por mares +perigosos d'onde ignorava se voltaria, e que antes da sua partida tratava de +assegurar a sorte dos entes que lhe eram caros.</p> + +<p>E no emtanto o marquez não tinha no cerebro qualquer projecto definitivo. +</p> + +<p>Sentia que ia dar-se um acontecimento grave, um drama sem duvida. Mas +qual?<span class="pn">{150}</span></p> + +<p>Não teria podido dizêl-o.</p> + +<p>—Devo provocar, pensava elle, esse sinistro e fatidico Ronquerolle? +Devo cruzar o ferro, ou trocar uma bala com elle? Para quê? É uma loucura. Elle +está no seu papel. Encontrou no seu caminho uma bella mulher a quem sorriu e +que se lhe entregou... Eu é que deveria ter feito com que ella me amasse. Devo +matal-a, a ella, á culpada, ou pôl-a fóra de minha casa? E seria eu menos +desgraçado, após essas violencias? Não, não. O golpe está dado, a minha vida +está envenenada e o meu destino traçado.</p> + +<p>Não posso confiar a minha dôr a pessoa alguma sem me tornar ridiculo. Sou eu +quem deve morrêr!</p> + +<p>Ah! Se eu não a amasse!...</p> + +<p>E o desgraçado sentia uma alegria amarga ao pensar na morte.</p> + +<p>Era o seu unico refugio.</p> + +<p>N'uma quinta-feira, pelas onze horas da noite, a marqueza sahiu segundo o +seu costume, indo a uma «soirée» que dava a sua amiga, M.<sup>me</sup> de +Fleurus.</p> + +<p>Era nos fins de maio. A estação dos bailes e recepções estava a terminar. +M.<sup>me</sup> de la Tournelle via decorrer os minutos com impaciencia, para +voar para os braços de Ronquerolle.</p> + +<p>Estava prestes a deixar os salões da sua amiga, quando esta se aproximou +d'ella, e lhe fez signal de que precisava falar-lhe áparte, e immediatamente. +</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de Fleurus estava pallida e a sua apressada respiração +denotava grande emoção.<span class="pn">{151}</span></p> + +<p>—Minha querida Carlota, disse-lhe ella; é preciso que voltes já a tua +casa, e se me permittes, acompanhar-te-hei.</p> + +<p>Um creado teu acaba de trazer aqui uma triste noticia. Teu marido +encontra-se muito mal... Partamos depressa.</p> + +<p>Por sua vez a marqueza se tornou pallida.</p> + +<p>Suppoz logo que uma desgraça irreparavel acabava de se passar.</p> + +<p>Quando as duas amigas chegaram ao palacio de Tournelle ia ali uma confusão +enorme.</p> + +<p>Á porta encontrava-se immensa gente e os creados, muito afflictos, corriam +d'um lado para o outro falando e gesticulando.</p> + +<p>Um commissario de policia, acompanhado do seu secretario e de muitos agentes +descia pela escadaria principal.</p> + +<p>Ao vêr a marqueza e madame de Fleurus, o commissario descobriu-se +respeitosamente e ahi mesmo participou a M.<sup>me</sup> de la Tournelle o que +se passára.</p> + +<p>Varios tiros de revolver se tinham ouvido no palacete e um creado do marquez +tinha ido procural-o a elle commissario. Com o mesmo creado entrára nos +aposentos do sr. de Tournelle a quem encontrára morto sobre um tapete, no seu +quarto de dormir. Tinha-se suicidado; não restava duvida.</p> + +<p>Na manhã seguinte, Ronquerolle, que em vão esperára pela amante até ás 2 +horas, ao pegar no «Figaro», deparou com estas linhas:</p> + +<p>«Á ultima hora acabâmos de receber uma triste noticia:</p> + +<p>«O sr. marquez Sergio de Tournelle acaba<span class="pn">{152}</span> de +fallecer. Tinha quarenta e cinco annos, era um leal defensor da causa da ordem, +e um amigo dedicado dos principes da casa de França.</p> + +<p>O sr. de Tournelle tinha sido, ao que parece, fortemente affectado pelo +triumpho do partido republicano no seu circulo e pelo cheque soffrido nas +ultimas eleições.</p> + +<p>A sua morte é atiribuida á ruptura d'uma aneurisma. A marqueza está +inconsolavel. Todos os representantes do partido conservador lhe enviam com os +seus mais sinceros sentimentos de condolencia, as suas respeitosas homenagens.» +</p> + +<p>—Diabo! exclamou Ronquerolle, relendo ainda a noticia. Oxalá que esta +desgraça não venha a recahir tambem sobre ella!</p> + +<p>A morte do marquez de Tournelle fez grande ruido e foi vivamente commentada, +menos por elle talvez, que por causa, da marqueza, que era uma das senhoras +mais conhecidas de mundo parisiense.</p> + +<p>Nenhum jornal falou em suicidio, e o infortunado marquez passou aos olhos do +publico por ter succumbido á ruptura d'uma aneurisma, como o «Figaro», +habilmente tinha noticiado. A policia conhecendo a verdade não guardou menos o +segredo.</p> + +<p>Os intimos d'alguma cousa desconfiaram, assim como os creados, mas +precisavam da marqueza e calaram-se.</p> + +<p>Ronquerolle soube pela marqueza de tudo o que se passára. Quando os dois +amantes se encontraram após a catastrophe e depois dos funeraes do marquez, +estavam inquietos e tremendo.</p> + +<p>Abraçaram-se fechando os olhos, e conservaram-se<span +class="pn">{153}</span> assim algum tempo sem proferirem uma palavra.</p> + +<p>—Saberia elle da nossa ligação? perguntou, por fim, Ronquerolle.</p> + +<p>«Porque se matou elle?</p> + +<p>«Teremos sido nós os culpados d'essa morte?</p> + +<p>—Não, respondeu M.<sup>me</sup> de la Tournelle. Meu marido de cousa +alguma suspeitou.</p> + +<p>—Estás certa d'isso? interrompeu o deputado republicano.</p> + +<p>—Sim, estou certa, replicou a bella Carlota.</p> + +<p>Ronquerolle respirou mais á vontade.</p> + +<p>Elle não explicava o suicidio do marquez senão pela descoberta da verdade. +</p> + +<p>M.<sup>me</sup> de Tournelle era sincera, nas suas affirmações.</p> + +<p>Antes de se matar seu marido tinha-lhe escripto uma longa carta que ella +encontrára sobre a sua meza de trabalho.</p> + +<p>Essa carta não encerrava a menor reprehensão, qualquer allusão que a podesse +ferir. Pelo contrario, era ella uma expressão do mais violento amôr.</p> + +<p>O desespero que essa carta manifestava parecia ter por causa unica motivos +politicos.</p> + +<p>Lendo essa carta d'um homem que ao escrevêl-a resolvêra já fazer saltar os +miolos, Ronquerolle demonstrára um sentimento de piedade.</p> + +<p>—O desgraçado, exclamou elle, não estava á altura da sua missão. +Comprehendeu-o, por fim, e a vida tornou-se-lhe um pesado fardo. Que descance +em paz.</p> + +<p>A marqueza nunca suppoz que seu marido<span class="pn">{154}</span> tinha +lido as cartas de Ronquerolle, e que se havia suicidado louco de desespero, +comprehendendo que nunca seria amado por ella.</p> + +<p>Atribuiu realmente aquelle suicidio, como outras pessoas que d'elle tiveram +conhecimento, aos grandes aborrecimentos que lhe tinha causado a sua derrota +politica.</p> + +<p>Carlota de la Tournelle reconheceu um dia que o seu pequeno cofre estava +partido, mas acreditou que a sua creada particular o tinha deixado cahir, e +como encontrára dentro d'elle a poesia e a carta de Ronquerolle, que tanto +amava, nunca lhe veiu á ideia que se passára em sua casa um grande drama, que +determinára a morte d'um homem.</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION0010000"><em>Epilogo</em></a></h1> + +<p>Um anno é decorrido. As rosas de maio perfumam os jardins. Na sociedade +parisiense não se fala d'outra coisa, senão do casamento da marqueza de la +Tournelle com o deputado Ronquerolle.</p> + +<p>O bairro de Saint-Germain considéra como uma escandalosa união a d'uma +mulher da sua sociedade com o joven tribuno republicano, o arrojado orador, o +inimigo do throno e do altar.</p> + +<p>Se bem que os novos esposos desejassem que o seu casamento fosse o menos +conhecido possivel, todos os jornaes n'elle falaram.<span +class="pn">{155}</span></p> + +<p>A fama, a gloria, ia procurar Ronquerolle, mesmo quando elle desejaria +occultar-se na sombra e que em volta do seu nome se fizesse o maior silencio. +</p> + +<p>Quando o bispo de Dijon teve conhecimento d'essa união nos seus labios +brincou um sorriso singular.</p> + +<p>Monsenhor acabava de almoçar, e saboreava uma chavena de café tomado a +pequenos golos, no seu gabinete de trabalho.</p> + +<p>O seu secretario estava perto d'elle acompanhando-o no saborear do fino +Moka.</p> + +<p>—Recordaes-vos, meu caro Duboeuf, disse o bispo, d'aquelle banquete +que ha tres annos nos offereceu esse pobre marquez de la Tournelle? Nós ali +estivemos os dois.</p> + +<p>—Sim, monsenhor, bem me recordo, respondeu o vigario. A marqueza não +assistiu a esse banquete politico.</p> + +<p>—E porque não assistiu ao jantar a formosissima Carlota?</p> + +<p>E o bispo de Dijon fazia esta pergunta com um ar trocista e malicioso e em +voz quasi afflautada.</p> + +<p>—O cidadão Ronquerolle, poderia talvez responder-vos monsenhor, +retorquiu o padre, em voz baixa, acariciando o queixo com a mão esquerda e +fazendo os olhos mais pequenos, n'um grande ar de espertalhão.</p> + +<p>O prelado ficou um momento pensativo.</p> + +<p>Depois enchendo um calice com finissimo licôr offereceu-o ao seu +interlocutor e tomou um outro calice para si.</p> + +<p>Os dois homens tocaram amigavelmente os copos, trocando uma saude, e +levaram-os em seguida aos labios.<span class="pn">{156}</span></p> + +<p>—Pobre marquez de la Tournelle! disse o bispo.</p> + +<p>—Era um fraco de espirito, accrescentou o vigario. Deve pertencer-lhe +o reino dos céus.</p> + +<p>—E ella, a marqueza? disse o bispo piscando o olho esquerdo.</p> + +<p>—Ella! replicou o travesso vigario, é uma deusa do Olympo, que desceu +até nós.</p> + +<p>Emquanto esta scena se passava no gabinete de trabalho do bispo de Dijon, +uma outra scena não menos interessante se dava em Paris entre Ronquerolle e os +seus tres amigos.</p> + +<p>Tinham n'essa manhã almoçado juntos em casa do deputado republicano, e +depois como o tempo estava lindo, a temperatura agradavel e o sol cheio de +belleza e alegria, tinham ido passear ao jardim do Luxemburgo.</p> + +<p>Haviam posto de parte a politica, e evocavam as recordações dos primeiros +annos da sua mocidade na grande Paris.</p> + +<p>Instinctivamente, como n'outros tempos, se dirigiram para o Café Tabourey, +onde juntos tinham feito tantos projectos de gloria, de amôr e de ambição.</p> + +<p>Lá estava ainda, esse café attrahente, esse cantinho parisiense tão propicio +aos homens de lettras e aos poetas.</p> + +<p>Reconheceram a sua meza preferida e a ella se instalaram.</p> + +<p>Os mesmos freguezes liam os jornaes e as revistas. O aparador, ao centro da +casa, lá estava, como sempre, carregado de garrafas com cerveja e de copos.</p> + +<p>A menina Amelia Dufer, a filha do dono<span class="pn">{157}</span> do +estabelecimento estava um pouco mais nutrida.</p> + +<p>Annunciava-se o seu casamento para breve e seu pae tratava de trespassar o +café.</p> + +<p>A sua fortuna estava feita, os filhos estavam empregados ou estabelecidos e +elle precisava descançar. A edade assim lh'o exigia.</p> + +<p>Ronquerolle e os seus amigos entregaram-se ás suas recordações. E cheios de +melancholia reconheciam quanto é verdadeira a phrase do poeta:</p> + +<p>«Ha lagrimas nos objectos que nos rodeiam.»</p> + +<p>Ali encontravam a sua inquieta e desgraçada juventude, os dias da +adversidade; quando eram desconhecidos, sem fortuna, sem auxilio, sem fama, +tendo apenas por unica arma para as luctas da vida o seu indomavel orgulho. Que +de noites de invernia elles tinham passado, ali, encostados áquella meza, +sonhando com o futuro, escrevendo artigos, compondo versos, imaginando +romances, escutando a voz de Ronquerolle, que muitas vezes a todos reanimava e +que d'outras se desesperava sentindo-se tambem vencido pela adversidade. Como +parecia que esse tempo já ia longe!</p> + +<p>—Como estamos tristes e sombrios! disse Maupertuis. Sacudâmos os +nervos, vamos.</p> + +<p>«Bebamos um ponche em honra das bellas raparigas que nos saltavam ao pescoço +e nos beijavam apaixonadamente nos nossos dias de miseria!</p> + +<p>«Merecem bem que as recordêmos, essas<span class="pn">{158}</span> loucas, +mas lindas e alegres companheiras dos tempos que não voltam.»</p> + +<p>Ronquerolle estava mais triste que os seus amigos.</p> + +<p>Calava-se e absorvia-se n'um secreto pensamento.</p> + +<p>Branche comprehendeu o motivo da sua profunda tristeza. Fez um signal rapido +aos seus amigos e a conversação não proseguiu no caminho para onde a desviára +Maupertuis.</p> + +<p>Depois d'alguns minutos de silencio, Ronquerolle ergueu-se e disse para os +seus amigos:</p> + +<p>—Acompanhem-me.</p> + +<p>E encaminhou-os para o cemiterio do Père-Lachaise, até junto do tumulo da +infeliz Emilia.</p> + +<p>O excellente rapaz não podia evocar os dias da sua primeira mocidade, sem +pensar na pequenina e gentil creatura que tanto o tinha amado, que morrêra por +elle.</p> + +<p>Quando essa lembrança lhe invadia o cerebro, o coração soffria e Ronquerolle +sentia uma dolorosa tristeza que o acabrunhava.</p> + +<p>Avançou sósinho até ao tumulo da sua amante.</p> + +<p>Os seus amigos conservaram-se respeitosamente a alguma distancia.</p> + +<p>Ronquerolle curvou-se ante o marmore da lousa funeraria e descoberto ali se +conservou algum tempo, como que petrificado.</p> + +<p>—Pobre creança, exclamou elle com toda a sua alma, tu foste colhida +pela morte ao principiares a viagem tormentosa da vida.<span +class="pn">{159}</span> </p> + +<p>«A primeira dôr quebrou o teu debil coração; os rigôres do destino hão +encontrado em ti uma presa facil.</p> + +<p>«Como tu me adoraste!</p> + +<p>«Ah! Tinhas razão quando no teu leito de agonia, me disseste que eu nunca te +poderia esquecer.</p> + +<p>«Tu foste a poesia e a flôr da minha juventude e viverás eternamente no meu +pensamento.»</p> + +<p>Depois tirando um lapis da algibeira escreveu estes versos sobre o marmore +da lapide tumular:</p> + +<blockquote> + Appareces-me sempre, oh candida Visão!<br> + E choro-te saudoso, oh minha Primavera!<br> + Se não soffrêra assim seria ingratidão.<br> + Furtar-te á morte, amôr, eu bem quizéra,<br> + Mas sempre viverás na minha adoração. </blockquote> + +<p>Muito tempo ainda decorreu.</p> + +<p>Branche, Didier e Maupertuis, começaram a inquietar-se.</p> + +<p>—É preciso arrancal-o d'aqui, disse Maupertuis; a dôr pode matal-o.</p> + +<p>Branche aproximou-se e tomando o seu amigo por um braço, afastou-o d'ali. +Ronquerolle deixou-se conduzir como uma creança. Pararam depois um instante nas +immediações do Père-Lachaise e d'ali contemplaram Paris que se desenrolava +deante d'elles.</p> + +<p>—Vamos, disse Maupertuis, que era um homem de energia, desçâmos ao +turbilhão, e esqueçâmos as miserias d'este mundo, proseguindo na nossa obra de +justiça... A nós a fortuna e a gloria! A nós a vida!</p> + +<p>Ronquerolle apertou a mão do seu companheiro de luctas e sorriu +tristemente.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>Depois os quatro amigos seguiram no seu caminho e desappareceram na immensa +cidade, na grande capital.</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Em cada anno, pelo começo do mez de agôsto, se vê chegar ao lago de Côme um +par que se instala n'uma deliciosa vivenda, em meio da verdura e de cascatas +emolduradas de flôres. Dir-se-hia que se trata de dois namorados que fugiram de +casa de seus paes, e que ali se occultam, para furtarem a sua alegria e o seu +amôr a olhares indiscretos. Nunca dois entes mais sympathicos pela harmonia da +sua mocidade, appareceram por aquelles logares. Quando elles passeiam ao longo +do lago, volta-se a gente para os admirar na sua encantadora marcha.</p> + +<p>Sente-se, advinha-se, o maravilhoso accordo das suas almas.</p> + +<p>Uma aureola de voluptuosidade os envolve; e reconhece-se que hão conquistado +a unica felicidade que existe na terra: Adoram-se! Saudae essas felizes +creaturas!</p> + +<p>É a marqueza de la Tournelle que passa pelo braço do seu adorado e +apaixonado marido, o deputado Ronquerolle.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> +</div> + +<p><span class="pn">{161}</span></p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Amôres d'um deputado, by Hippolyte Buffenoir + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMÔRES D'UM DEPUTADO *** + +***** This file should be named 30946-h.htm or 30946-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/9/4/30946/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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