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diff --git a/29567-h/29567-h.htm b/29567-h/29567-h.htm new file mode 100644 index 0000000..1f1ceec --- /dev/null +++ b/29567-h/29567-h.htm @@ -0,0 +1,3387 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>As obras dos Jeronymos</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Luciano Cordeiro" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.bbreak { +width: 80%; +margin-left:10%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of As obras dos Jeronymos, by Luciano Cordeiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As obras dos Jeronymos + parecer apresentado à Commissão dos Monumentos Nacionaes + em sessão de 7 de Novembro de 1895 + +Author: Luciano Cordeiro + +Release Date: August 3, 2009 [EBook #29567] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS OBRAS DOS JERONYMOS *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Ago. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4>VESPERAS DO CENTENARIO +</h4> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<h2> +AS OBRAS DOS JERONYMOS +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4>PARECER<br /> + +<br /> + +Apresentado á Commissão dos Monumentos Nacionaes<br /> + +<br /> + +Em sessão de 7 de Novembro de 1895<br /> + +</h4> + +<h5><span class="smallcaps">pelo seu Vice-Presidente</span></h5> + +<br /> + +<h3>LUCIANO CORDEIRO</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 143px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +Typographia―CASA PORTUGUEZA―Papelaria</h4> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4>139―Rua de S. Roque―141<br /> + +1895</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>VESPERAS DO CENTENARIO +</h4> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<div class="bbreak"> +<hr /></div> + +<h2> +AS OBRAS DOS JERONYMOS +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4>PARECER<br /> + +<br /> + +Apresentado á Commissão dos Monumentos Nacionaes<br /> + +<br /> + +Em sessão de 7 de Novembro de 1895<br /> + +</h4> + +<h5><span class="smallcaps">pelo seu Vice-Presidente</span></h5> + +<br /> + +<h3>LUCIANO CORDEIRO</h3> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 143px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<h4> +LISBOA<br /> + +Typographia―CASA PORTUGUEZA―Papelaria</h4> + +<div class="breaks"> +<hr /></div> + +<h4>139―Rua de S. Roque―141<br /> + +1895</h4> + +<h4></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>I +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Destinada, em 28 de dezembro de 1833, a parte conventual do +edificio dos Jeronymos á installação +da chamada <em>Casa Pia de Lisboa</em>, +vinte annos passados um Provedor benemerito, de quem todos +nos lembramos ainda:―José Maria Eugenio +d'Almeida,―entendeu +dever acompanhar a radical reforma d'aquella +instituição +asylar com a das velhas e desconcertadas casarias em que ella +pouco confortavelmente se alojava. +<br /> + +<br /> + +Parallelamente com as necessidades hygienicas e disciplinares +do pio internado, determinava-lhe o generoso impulso outra idea, +não menos generosa, decerto, mas antes recebida do que +germinada, +talvez, n'aquelle espirito caracteristicamente pratico:―a de +melhor conformar e adaptar á grandesa e á +feição esthetica da +parte primitiva do Monumento, pelo menos o aspecto architectonico +e decorativo do resto da vasta edificação. +<br /> + +<br /> + +Da extraordinaria associação d'estas ideias,―mal +definidas e +reflectidas, então, nem mais definidas, nem reflectidas +melhor até +hoje,―derivaram as <em>obras</em> que se +teem ido fazendo e desfazendo +desde 1863, sob as denominações improprias +até ao absurdo, de +«restauração» e de +«reconstrucção» dos +Jeronymos:―tão pouco +«<a href="#e1">reconstrucção</a>» +que +começaram por desfazer a continuidade do +Monumento;―tão pouco +«restauração» que demolindo +grande parte +do que existia, e até do que era mais que provavel que +existisse +desde a fundação primeira, foram essas obras +ensaiando, sem estudo +e por phantasia, o que não podera ser a traça e o +aspecto +originario, nem, em tempo algum, a fabrica integral e harmoniosa +do edificio na sua intenção e na sua +significação singular. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p4">[4]</a></span> +Disparatavam, irrecusavelmente, desde a rasão e +inspiração inicial, +os dois objectivos que se pretendia fazer mais do que paralellos, +convergentes, á força de engenho e sem olhar a +despesas:―o +de uma installação asylar para um milheiro de +creanças orphanadas +e desvalidas, e o de uma suposta restituição +artistica da +grandiosa e historica construcção em que +continuasse a habitar +e a affirmar-se a idea que n'ella fundira a fé e a arte +nacional no +seculo XVI. +<br /> + +<br /> + +Mas desde o começo se aggravou, ainda, esta manifesta +irreflexão +e inaptidão de propositos, no impeto indisciplinado, e +depois +na malograda teimosia da execução. +<br /> + +<br /> + +Podera suppôr-se, creio até que muita gente +suppõe, realmente, +que o Monumento se achava truncado ou ficara incompleto;―que +nada mais existia do que o Templo, ou que além d'elle, +n'essa +extensa linha de fachada onde <a href="#e2">principalmente</a> +se teem feito e desfeito +as <em>obras</em>, sómente +existiriam, quando ellas começaram, ruinas +incaracteristicas, dispersas, inuteis. +<br /> + +<br /> + +Tal não era, porém. +<br /> + +<br /> + +Independentemente de muitas outras memorias graphicas ao +alcance de todos, ha juncto da collecção de +documentos que supre +ou representa o processo official das +construcções novas, um desenho +de planta e alçado immediatamente anterior á +iniciação +d'ellas em 1863.<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +Essa iniciação consistiu, até, em +demolir a maior parte do que +existia a occidente do Templo, em natural +continuação d'elle, e o +que existia era o complemento, a conclusão original, +necessaria, +historica do Monumento:―o Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +É claro que o Mosteiro abandonado e arruinado; mutilado, +aqui; deformado, alem; cheio de entumecencias ridiculas e de tapumes +ignobeis; esfuracado por janellêtas banaes; remendado a +retalhos +de classicismo pedante; muito differente, naturalmente do +que fôra,―e quem sabia e quem pensou o que fôra? +<br /> + +<br /> + +Em summa: uma agglomeração de casarias como +succede, e +qualquer póde ver, ainda, em quasi todas as +edificações conventuaes +que as gerações fradescas, as conveniencias de +occasião, o +gosto e as ideas dominantes das diversas epocas vão +successiva e +<span class="pagenum">[5]</span> +arbitrariamente truncando, sobrepondo, adaptando á sua +imagem +e semelhança. +<br /> + +<br /> + +Mas tambem,―e é sempre o mesmo facto que todos teem +tido occasião de observar,―atravez d'essa massa confusa, +d'essa +especie de estratificação secular, rompem aqui ou +ali; resistem +n'um ou n'outro lanço; triumpham e impõem-se, +até, n'algumas +linhas, com uma authenticidade soffrivelmente nitida, flagrante, os +elementos, os membros da primeira construcção ou +das mais antigas +e genuinas feições architectonicas e decorativas. +<br /> + +<br /> + +Isto devia succeder, e realmente succedia nos Jeronymos. +<br /> + +<br /> + +Logo no simples relance do conjuncto,―pois que felizmente +possuimos o alçado anterior ás obras,―os vinte e +oito gigantes +eguaes e equidistantes que se alongam e trepam a cortar as linhas +superiores da fachada, terminando em pinaculos que parecem +enormes busios estylisados;―as vinte e sete largas arcadas de +ogiva que podemos chamar abatida;―os altos corpos de +passadiço +ladeados pelos mais elevados d'esses gigantes e quebrando +graciosamente a linha geral da platibanda;―os proprios +troços +rendados d'esta ultima: póde bem dizer-se que nos obrigam, +apezar +de todos os cortes e remendos, a reconhecer e reconstruir +idealmente a velha e forte carcaça d'aquella parte do enorme +edificio. +<br /> + +<br /> + +Essa parte, especial theatro das novas +construcções fantasistas, +era evidentemente constituida por uma especie de extensissima +galilea<sup><a href="#2">[2]</a></sup> +em arcaria ogival abatida, seguindo o eixo E. O. da nave +central do Templo, como que continuando esta, e sustentando, em +<span class="pagenum">[6]</span> +toda a extensão, a casaria conventual, caracteristicamente +uniforme e simples. +<br /> + +<br /> + +Reforçavam e dividiam toda a +edificação os gigantes mais altos, +em cinco grandes corpos que outros menos largos e mais elevados +ligavam, n'um mesmo plano, recortando superiormente, em grega +simples, a estructura geral. +<br /> + +<br /> + +Para a singular galilea ou alpendre abria a porta ou portico +considerado pela architectura official, a entrada principal do Templo, +e n'ella ajoelhava o Regio Par,―Dom Manoel e a mulher, que +la estão ainda,―como se tivessem vindo á frente +dos Descobridores +regressados dos longicuos horisontes do mar, por aquellas +arcarias dentro, trazer á Virgem do Restello a nova e o +agradecimento +do desencanto da India.<sup><a href="#3">[3]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +Ali junto, no angulo sul, erguia-se a Torre dos sinos que havia +de chamar os Jeronymos ás orações do +ritual; lembrar aos mareantes +que partiam a confiança em Deus e na Patria; saudal-os +alegremente +na chegada das asperas navegações e campanhas: +uma +torre singella e pratica, tão tradiccional e symbolica como +toda esta +disposição architectonica, em +edificações monasticas do seculo XVI. +<br /> + +<br /> + +Isto é que era. Isto é que devia ser. +<br /> + +<br /> + +É claro que tudo isto fôra violado, invadido, mais +ou menos +mascarado pelas reconstrucções e +sobreposições successivas, como +ficou dito já. +<br /> + +<br /> + +As arcadas haviam sido entaipadas, abrindo-se no tapume pequenas +janellas quadradas e cerrando-se o recinto da galilea; deformara-se +a ligação superior do Mosteiro com o Templo, como +a +estupida obsessão do +<em>classico</em> substituira, pouco depois +da fundação +d'elle, a Capella mór; diversos membros e lavores haviam +sido +truncados ou substituidos nas adaptações novas, e +as janellas pretenciosamente +ornamentaes, palacianas, dos corpos de passadiço +ou de ligação estavam accusando um enxerto +innintelligente. +<br /> + +<br /> + +Mas tambem outra observação parecera que +immediatamente +deveria impôr-se: a de que a edificação +conventual não podia, não +<span class="pagenum"><a name="p7">[7]</a></span> +havia de hombrar <a href="#e3">soberbamente</a>, em +grandesa e +opulencia architectonica +e decorativa, com o Templo, antes pela sua singelesa austera +e humilde,―consoante com <a href="#e4">o proprio +destino</a>,―pela sua uniformidade +aceada e sobria de decoração e de estructura +faria destacar +gloriosamente o corpo primario, capital. +<br /> + +<br /> + +Seria de simples bom senso a idéa. +<br /> + +<br /> + +Em todas estas vastas edificações monasticas +é no Templo que +se concentra, na mais natural intenção e +significação devota, a +inspiração +e o esforço da Arte. +<br /> + +<br /> + +Nada d'isto, porém; nada do que era natural e pratico, se +reflectiu +e estudou, e ha de ver-se que nem esta ultima circumstancia +se tem ponderado até hoje. De o não ter sido tem +resultado, +exactamente, um dos maiores embaraços á +conclusão das <em>obras</em>, +pois que em vez de a procurar, rasoavel e modestamente, n'uma +reconstrucção subordinada á parte +principal do Monumento e reconstitutiva +da integridade e da harmonia historica e plastica d'elle, +tem-se pretendido petulantemente accrescental-o, a bem dizer: +<em>duplical-o</em>, em esforços e +primores de +uma―«imaginária»―esculptural +de sobreposse. +<br /> + +<br /> + +Com essas obras começou a aventura e com esta nos +encontramos +ainda, em face d'ellas e dos ultimos projectos propostos para +a sua conclusão. +<br /> + +<br /> + +Estava, então, em Portugal ao serviço do Estado, +um architecto +francez, Colson. +<br /> + +<br /> + +Pelo curioso privilegio de ingenua confiança que entre +nós disfructam +os aventureiros estranhos, foi este individuo incumbido de +elaborar um plano e projecto geral das +<em>obras</em>, certamente por arbitrio +do Provedor da Casa Pia, mas, em todo o caso, com +approvação +governativa em portaria de 16 de abril de 1860. +<br /> + +<br /> + +Pouco ou nada conheceria Colson, da historia do Monumento +e do estylo e caracter d'elle. Fez, comtudo, esse projecto pois que +lh'o pagavam por 2:243$166 réis, e que não foi +approvado, diz +seccamente um relatorio official:―«em consequencia de +não satisfazer +ao fim proposto». +<br /> + +<br /> + +Não logrei ver esse projecto, nem sei, até, se +existe.<sup><a href="#4">[4]</a></sup> +Devia +estar no processo official e não está, como +não estão outros documentos. +<br /> + +<br /> + +Mas a circumstancia d'elle não ter satisfeito ao fim que lhe +impunham, +<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span> +dá-me naturalmente rebate de que Colson tivesse +conscienciosamente +ensaiado corrigir a irreflexão e inaptidão +d'esse―«fim.» +<br /> + +<br /> + +«Depois,»―continua o +documento,―<em>depois não houve projecto +geral, e a obra foi começada e progrediu</em> +mediante projectos parciaes +elaborados pelos architectos encarregados de a dirigir.» +<br /> + +<br /> + +O Provedor da Casa Pia, certamente o melhor dos Provedores, +escolhia e nomeava os architectos (?) que haviam dirigir as +<em>obras</em>; como estas para ser dirigidas +precisavam... fazer-se, e para +fazer-se não era inteiramente dispensavel que se +projectassem, o +Provedor ia encommendando a esses architectos os projectos das +obras que se havia de ir fazendo para que elles as dirigissem; +consultava +as pessoas das suas relações que tinha por mais +competentes, +e mandava executar os projectos que approvava. +<br /> + +<br /> + +Cinjo-me, quasi litteralmente, aos textos officiaes.<sup><a href="#5">[5]</a></sup> Se elles +não existissem ou não me reportasse singellamente +a elles não poderia +queixar-me de que me não acreditassem, pois que tambem me +parecera inacreditavel, isto. +<br /> + +<br /> + +Os primeiros architectos escolhidos, para assim, aos retalhos, +por tentativa, a capricho, ir projectando, cirzindo, dirigindo esta +teia de Penelope que dura ha bons 32 annos, foram os seguintes:―de +novembro de 1863, quando as obras começaram, até +março +de 1865, em que teve de ceder o logar ao privilegio dos +forasteiros:―Valentim +José Correia, realmente um architecto diplomado +e reconhecido pelo Estado, que honradamente mostrara não ser +homem para taes emprezas, embora fosse muito sério e digno, +em +outras mais modestas;―de abril de 1865 a março de 1867 um +architecto inglez, J. Samuel Bennet, que viera dirigir os trabalhos +d'aquella excentricidade architectonica de Monserrate que se apegou +á lenda dos encantos de Cintra, na memoria de todos os +<em>touristes</em>;―de +abril de 1867 a dezembro de 1878, os habeis scenographos +Rambois e Cinatti que durante muitos annos fizeram a +justa admiração dos frequentadores de +<em>S. Carlos</em>. +<br /> + +<br /> + +Não seria equitativo calar os nomes dos mestres de +pedreiros. +Representavam estes personagens um papel importante no processo +adoptado, ora supprindo, ora <a href="#e5">substituindo</a> +os architectos, sendo até +os primeiros e directos responsaveis pelas +<em>obras</em>, como parece ter-se +<span class="pagenum">[9]</span> +querido fazel-os n'uma especie de inquerito do primeiro mallogro +d'ellas. +<br /> + +<br /> + +Alem de que, sendo o melhor que ellas nos offerecem, o trabalho +de pedra, justo seria o registo dos obscuros operarios que o +teem feito, não sem perigo de ficar sepultados n'elle. +<br /> + +<br /> + +Foram, pois, esses primeiros mestres de pedreiro, até 1878, +Francisco Dias, e depois Fructuoso de Figueiredo. +<br /> + +<br /> + +Poupemos aos vindouros a impertinencia de complicadas theorias +sobre os Boytacas do nosso tempo, já que tão +desconsolados +nos teem deixado as engenhadas sobre o Boytaca verdadeiro. +<br /> + +<br /> + +Assim podessemos averbar a cada um dos +«imaginadores» e +executores das obras a parcella da sua sciencia. +<br /> + +<br /> + +Mas não podemos: Deve entender-se que ao primeiro para +pouco mais daria o tempo, senão tambem a competencia, do que +para demolir. Segundo informação que me parece +auctorisada, a +elle se deve a demolição da chamada +«Sala dos Reis», parte ou +corpo superior da ligação do Templo com o +Mosteiro, e a correspondente +scisão da galilea:―consequentemente o inicial e +inconsciente +attentado da scisão do Monumento, em dois. +<br /> + +<br /> + +Do inglez sabemos, e facil seria de perceber, que são as +portas +lateraes da fachada sul e a do nascente que olha para a Igreja: +uma decoração bonitamente artificiosa, impropria, +muida. +<br /> + +<br /> + +Aos artistas italianos pertenceram as +reconstrucções e decorações +mais importantes e arrojadas:―os miranetes, a torre mitrada, +o imponente «corpo central» desapparecido: uma +scenographia em +pedra rebuscada na convenção oriental, na +phantasia gothica, até +na motivação moderna dos bastidores da Opera.<sup><a href="#6">[6]</a></sup><br /> + +<br /> + +Em 18 de dezembro de 1878, este singular processo de +«restaurar» +ou de «reconstruir» um dos nossos primeiros +monumentos +nacionaes que é um dos monumentos historicos e artisticos +mais +notaveis do Mundo, resolveu-se naturalmente, logicamente, n'um +desabamento tragicamente ridiculo. +<br /> + +<br /> + +Um dos retalhos, um dos «projectos parciaes»,―o +mais importante +d'elles, imaginado pelos illustres scenographos, sanccionado +pelo benemerito Provedor, certamente approvado e admirado +<span class="pagenum"><a name="p10">[10]</a></span> +pelas pessoas mais competentes das suas +relações;―em summa: +o famoso «corpo central» que se erguia +já arrogantemente acima +da massa escura e rude do velho Templo Manuelino, bojou, rompeu-se +e ruiu em terra, sepultando algumas desenas de contos de +réis, uns poucos d'annos de trabalho e por bem pouco +deixando de +sepultar tambem um grande numero de vidas. +<br /> + +<br /> + +A forma demasiadamente abatida das abobadas superiores, projectando +a curva das pressões fôra da prumada das paredes +mal +fabricadas e delgadas; os alicerces inteiramente banhados d'agua, +sem pozzolana nem cimento, assentando sobre uma camada de +1,<sup>m</sup>50 de terreno de alluvião que o +separava da rocha +basaltica inferior:―taes +foram as causas immediatas, ostensivas, technicas +do desastre. +<br /> + +<br /> + +A causa primaria e geral era o processo adoptado e teimosa e +desabusadamente <a href="#e6">seguido</a>:―inacreditavel, +repito, se não estivesse +denunciado, confessado, authenticado, formalmente, pelos mais +insuspeitos +documentos officiaes. +<br /> + +<br /> + +Estava encerrado o primeiro periodo das +<em>obras</em> que custara 15 +annos de trabalho e 358 contos de boa moeda. +<br /> + +<br /> + +Intencionalmente indico a verba. +<br /> + +<br /> + +Teem, tambem, os algarismos uma especial eloquencia e um +legitimo logar n'estas cousas. +<br /> + +<br /> + +Não será, pois, inutil saber-se quanto haviam +custado já essas +obras. +<br /> + +<br /> + +É official e directa a informação: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td>Projecto +primeiro</td> + + <td style="text-align: right;">2:246$166</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Demolições</td> + + <td style="text-align: right;">2:644$100</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Desaterros +e +aterros</td> + + <td style="text-align: right;">17:738$868</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Obras +na +Igreja</td> + + <td style="text-align: right;">49:742$626</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Obras +«<em>no novo edificio da Casa +Pia</em>»</td> + + <td style="text-align: right;">286:265$684</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">358:628$444</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +E como se creou e subsiste a lenda de que essa Casa Pia principalmente +tem corrido com a despeza,―o que não honraria muito +a administração de um estabelecimento de +caridade,―ou que esta +despeza em pouco ou nada tem sobrecarregado o E +E como se creou e subsiste a lenda de que essa Casa Pia principalmente +tem corrido com a despeza,―o que não honraria muito +a administração de um estabelecimento de +caridade,―ou que esta +despeza em pouco ou nada tem sobrecarregado o Estado, parece-me +tambem não ser inopportuno, indicar como e de onde essa +enorme somma proveio:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 439px;">Donativo do Rei D. +Fernando</td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">26:866$664</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;">Subscripção +no +Brazil</td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">4:853$332</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;">Donativos +particulares</td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">6:000$500 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;">Juros de emprestimos ao +Estado e +particulares</td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">16:881$358</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Juros +de depositos nos +Bancos</td> + + <td style="text-align: right;">251$754</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Venda +de diversos +objectos</td> + + <td style="text-align: right;">903$052</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Suprimentos +feitos pelo <em>Cofre da Casa +Pia</em></td> + + <td style="text-align: right;">20:000$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Loterias +extraordinarias <em>auctorisadas pelo +Estado</em></td> + + <td style="text-align: right;">135:672$284</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;">Directamente <em>fornecido +pelo +Estado</em></td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">146:200$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;"> + <hr /></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 439px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 153px;">358:628$444</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +Será muito arriscado duplicar esta somma para nos +approximar-mos +da despeza feita até hoje? +<br /> + +<br /> + +E pensar a gente que tudo se gastou e consumiu para não ver +o Monumento concluido, nem saber sequer, e ainda, como +deverá +concluir-se melhor; para não ter a Casa Pia convenientemente +alojada, +nem pensar até em removel-a d'ahi e collocal-a e installal-a +mais rasoavelmente!... +<br /> + +<br /> + +Quem de boa fé e de regular senso deixará de ver +que a simples +e consideravel verba despendida para obter a derrocada providencial +de 1878, nos podera ter dado o Monumento restaurado, +e a Casa Pia installada nas condições +fundamentaes e praticas de +um internado asylar moderno, muito fóra ou muito longe +d'ahi, é +claro? +<br /> + +<br /> + +Quanto se gasta annualmente; quanto se tem gasto até hoje, +sómente em apropriar e conservar a essa mesma Casa Pia +aquelle +alojamento improprio? +<br /> + +<br /> + +A 295:118$834 réis se elevava já essa despeza em +1892.<sup><a href="#7">[7]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>II +</h3> + +<br /> + +Pondo em evidencia as <em>obras</em> e a +descoberto as ideias que a +ellas presidiam, a incompetencia que as dirigia e os processos +adoptados na concepção e +execução d'ellas, parecera que veriamos +abrir logar e tempo á reflexão, ao estudo, +á critica conscienciosa e idonea. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Pagaramos um ensaio mal pensado, precipitadamente preparado, +executado desalmada e aventurosamente. Ha males que +veem por bem. +<br /> + +<br /> + +O desastre era uma licção cruel, mas era uma +licção. +<br /> + +<br /> + +Parecia isto natural, rasoavel, pratico. +<br /> + +<br /> + +Não foi, porém, o que succedeu. +<br /> + +<br /> + +Passadas as primeiras sugestões, a bem dizer instinctivas +dos +erros ou das illusões incorridas; retrahidos e vexados, por +algum +tempo, os primeiros impetos irreflectidos e mallogrados, reabriu-se +a mesma situação e reincidiram as mesmas ideas e +processos, +aproximadamente, de maneira que passados 32 annos depois do +começo das <em>obras</em>, e 17, +depois da derrocada, continuamos a ter +<em>obras</em> e a não ter o +Monumento reconstituido, ou a fazel-as e desfazel-as, +apenas mais recatadamente, um pouco, sem plano, sem +pensamento, sem destino definitivo e sério.<sup><a href="#8">[8]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +Posto de parte o primeiro ou o unico plano geral,―o de Colson,―todos +os projectos parcelares mais ou menos desenvolvidos +teem um caracter de fantasista apparato, obdecendo evidentemente +á idea de uma construcção nova que +possa hombrear com a grandesa +e o aspecto da parte primitiva do Templo, que exceda até +essa grandesa ou dispute a acção esthetica e +impressionista d'esse +aspecto. +<br /> + +<br /> + +Uma vez adoptada ou imposta tal idea, nada mais natural do +que perder-se de vista e da vontade a simples +reconstituição ou +reparação harmonica do velho Monumento, para, em +vez d'isto, +pôr a aspiração e o esforço +na fabrica de um monumento novo ou +de uma remodelação imaginaria. +<br /> + +<br /> + +Ha uma circumstancia que por si basta para comprovar de +maneira irrecusavel e decisiva a obsessão que só +o desejo leal de +a ninguem offender nos obriga a não chamar estupida, d'este +proposito +monotonamente repetido. +<br /> + +<br /> + +É a reincidencia no chamado «corpo +central». +<br /> + +<br /> + +Central, como? +<br /> + +<br /> + +Central, de que? +<br /> + +<br /> + +Central, porque? +<br /> + +<br /> + +Porque se projecta e separa petulantemente em monumento +novo, em edificio authonomo, a nova construcção. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p13">[13]</a></span> +Mas, então, não é o verdadeiro, o +genuino Monumento que se +quer honradamente, sensatamente, restituir, reparar, conservar! +Quebra-se, mutila-se a sua estructura e o seu caracter. Interrompe-se +com a sua integridade material, a sua rasão, a sua +intenção +historica, até a sua unidade esthetica. +<br /> + +<br /> + +Se ao menos, se contentassem, modestamente, com exhibir e +ensaiar <a href="#e7">a luxuosa</a> fantasia dos +porticos de +apparato ou dos torreões +de convenção, na fachada occidental, apenas, onde +devera ser e +era a entrada da galilea, longe, por conseguinte, do grande portal +<em>manuelino</em> e sem contraste immediato +com a fachada longitudinal +da edificação, uma certa attenuante podera +encontrar-se á desastrada +idéa. Seria a de querer dotar com uma entrada de +ostentação +e de luxo, sem prejuizo ou sem quebra do aspecto +geral do edificio, a parte d'elle que não podendo +já destinar-se +a Convento, teria de alojar privativamente uma +instituição differente. +<br /> + +<br /> + +Mas não. A fachada meridional é que seduz e +prende a pretenção +vaidosa. +<br /> + +<br /> + +Logo no começo das obras, dizem os documentos officiaes que +se demoliram―«janellas magnificas»,―e demoliu-se +a «sala dos +Reis,»―e o primeiro lanço da galilea, +já deturpado, é certo, mas, +em todo o caso, ligação historica, necessaria do +Templo com o +Mosteiro. +<br /> + +<br /> + +Cortou-se, depois, este ultimo, a meio da fachada, para dar logar +a um forte―«corpo central»,―uma entrada e +escadaria privativa, +apparatosa; um torreão altaneiro, inexplicavel, que +dominasse +toda a vasta traça do Monumento. +<br /> + +<br /> + +Setenta e dois metros de altura attingira o que desabou como +um castello de cartonagem, em 1878. +<br /> + +<br /> + +E poucos annos decorridos depois da catastrophe, quando ao +abrigo do mais extraordinario abandono official, se ensaiava novamente +o proseguimento das <em>obras</em>, a +obsessão do «corpo central» +retoma a dianteira d'ellas, o principal logar. +<br /> + +<br /> + +Em 13 de outubro de 1882, o director da Casa Pia de Lisboa, +apresenta e propõe o projecto de uma nova torre e portico +central, +de 60 metros d'altura, e prevenindo divergencias de gosto ou +procurando satisfazer todos os paladares bureaucraticos que tivessem +de sentenciar no assumpto, dá-se ao curioso incommodo de +esboçar <em>onze</em> torres ou +porticos «centraes» diversos. Onze! +<br /> + +<br /> + +Que não se averbe a conta de censura individual, o reparo, +que o não é, e tanto que tomo o projecto +Valladas, por exemplo, como podera tomar qualquer outro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p14">[14]</a></span> +Com o mais authorisado me poupo á referencia e á +critica dos +outros. +<br /> + +<br /> + +Esta facilidade, esta prodigalidade de concepção +artistica do +membro principal, da edificação imaginada, para +conclusão condigna +e harmoniosa do grande monumento, corresponde perfeitamente +á geral ausencia de um estudo sério e de uma +segura e nitida +percepção do caracter, do estylo, da +significação d'elle, da +sua integridade historica. +<br /> + +<br /> + +E que admira isto? +<br /> + +<br /> + +Não vemos e ouvimos todos os dias confundir o gothico +portuguez, +o <em>Manuelino</em>, com o gothico florido; +até com o gothico simples; +quando muito imaginal-o mal definida ou barbara variante +decorativa, esquecidas ou desdenhadas as mais evidentes +differenciações +e feições architectonicas? +<br /> + +<br /> + +Parecendo ter o instincto d'essa desorientada +situação, a Junta +Consultiva de Obras Publicas, objecta, em 22 de maio de 1883, o +que chama o―«gosto pyramidal»―da nova torre +proposta, gosto +ou forma similar á dos scenographicos miranetes dos angulos +da +reconstrucção ensaiada;―reconhece que +simplesmente se procura +n'uma engenhosa combinação de arcos botantes e +<a href="#e8">botareus</a>,―como +se elles fossem meros elementos decorativos,―«mascarar +o esguio e nú que se notava na +construcção anterior»,―mas +condescende infelizmente com a ideia d'esse «corpo +central», aconselhando +que elle adopte, de preferencia, a forma de uma―«torre +quadrangular». +<br /> + +<br /> + +Até então podera orgulhar-se aquella illustre +corporação, de +achar-se isempta de responsabilidades n'esta longa e picaresca +historia das <em>obras</em> de Belem, +tendo-se recusado a authorisar ou +approvar quaesquer projectos anteriores. +<br /> + +<br /> + +E se a substituição que aconselha no projecto +Valladas parece +á primeira vista comprometter um pouco esta feliz +isempção, tem +pelo menos o valor de ser o primeiro rebate, a primeira nota suggestiva +de um facto capital que mal se comprehende que tenha sido +teimosamente inobservado e desattendido por quantos teem projectado +e +engenhado―«concluir»―ou―«restaurar»―o +longo e +formoso Monumento, alteando-lhe o aspecto e a estructura n'uma +florescencia aeria de botareus brincados e de arrojadas agulhas. +<br /> + +<br /> + +Consiste esse facto em que a linha ascencional, as curvas +apertadas, as formas esguias, hieraticas, pyramidaes do velho gothico, +não são já as +feições, as tendencias predominantes do +<em>Manuelino</em> +que se objectiva e desenvolve em fortes massas longitudinaes, +como arcabouços de galeões, sob o simultaneo +influxo da +<span class="pagenum"><a name="p15">[15]</a></span> +Descoberta oriental que impulsa os espiritos para as grandesas +terrenas e da Renascença greco-romana que incendeia a Arte +no +idealismo pagão. +<br /> + +<br /> + +É certamente o instincto, e nem admira que não +seja a doutrina +segura e nitida, d'este facto, o que move aquelle tribunal de +consulta technica a contrapôr o―«typo rectangular +e pouco elevado»,―como +diz, ao que qualifica de―«typo pyramidal»,―das +<em>obras</em>, por mais conforme e +harmonioso com o typo primitivo, +<em>manuelino</em>, do +Monumento. +<br /> + +<br /> + +De resto, encontrando, a bem dizer, separada e authonoma a +construcção nova que devera ser simples +continuação da antiga, +comprehende se que uma junta official de engenheiros,―e não +de +artistas ou de criticos d'arte,―transigisse com a idea de dotar +essa construcção com um portico, com uma entrada +apparatosa, +com um «corpo central», privativo e imponente. +<br /> + +<br /> + +Mas que esse «corpo central», +recommenda―não siga o typo +pyramidal dos miranetes já infelizmente construidos. +<br /> + +<br /> + +E tanto, realmente, a questão insensivelmente se deslocara +da +idea inicial e geral das <em>obras</em> para +a d'aquelle monumento novo, +que sobre os projectos de conclusão d'elle não +tardou em incidir a +sentença official, technica, por aquelle mesmo tribunal +formulada +de que o «corpo central» haveria de elevar-se +alguns metros acima +dos miranetes angulares, especie de balisas e enfeites terminaes +d'esse monumento novo. +<br /> + +<br /> + +Não podendo, pois, considerar-se approvado o projecto +Valladas, +nem tendo sido fixada em outro a substituição +indicada pela +Junta Consultiva, continuaram as cousas no mesmo estado de incerteza +e de arbitrio, aggravado ainda por novas irreflexões. +<br /> + +<br /> + +Com o mesmo desceremonioso criterio, ou com a mesma falta +d'elle, com que se destinara o historico edificio a +instituição asylar +de creanças, projectando-se restituil-o á sua +integridade monumental, +formou-se e realisou-se a idea de o ir aproveitando e adaptando, +aos pedaços, para asylo de outras +instituições que pelas +suas proprias exigencias fundamentaes desparatavam com essa +installação +ali, e nenhuma relação de consonancia e de +harmonia critica +poderiam ter com o Monumento. +<br /> + +<br /> + +Assim foi que um pseudo Museu Industrial, especie de Cabeça +de Pau de rebotalhos esmolados, sem caracter nem +licção que de +longe lembre os bellos e instructivos Museus Industriaes de Vienna +ou Berlim, pôde petulantemente pregar um lettreiro garrafal e +reles +sobre <a href="#e9">a graciosa</a> e rendada +archeologia de +uma parte da fachada +interrompida; como nas paredes do formosissimo e magestoso +<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span> +claustro se exhibem os desenhos e aguadas dos collegiaes, e ferem +importunos e irreverentes, as fortes e velhas abobodas destinadas +a abrigar a paz dos corações e a +devoção dos espiritos, os toques +da corneta e as voses da ordenança n'um simulacro de +caserna. +<br /> + +<br /> + +Ultimamente se alojou lá, tambem, um outro +serviço, um outro +pseudo-museu, com o apendice de uma estação +chimico agricola, +se bem me lembro. +<br /> + +<br /> + +Decerto, na impressão immediata e geral o escandalo +não será +tal ou tamanho como o do gazometro que defuma mais adiante a +joia manuelina da Torre, aquelle bruto aventesma que parece +propositadamente +postado lá para justificar a phrase que Garrett punha +na bocca dos extranhos quando entrassem o Tejo: +<br /> + +<br /> + +―<em>Aqui moram barbaros!...</em> +<br /> + +<br /> + +Mas pelo que tenho tido mais de uma vez occasião de +observar, +o visitante, o forasteiro culto, o observador educado, o pensador +delicado que tenha o culto, o amor, o fino sentimento da +harmonia, da ordem, da consonancia ideal das cousas, dirá +que a +Casa Pia é uma excellente instituição, +dedicada e intelligentemente +servida e dirigida; que o Museu é bonito e poderia ser util, +que +é lamentavel até, que lhe não +dê o Estado mais <a href="#e10">recursos</a> +para +melhor valer, mas que tudo isso fica mal ali; que disparata +irritantemente +com o caracter, com a significação, com a propria +estructura +do Monumento; que interrompe ou affronta a integridade, +a dignidade d'elle. +<br /> + +<br /> + +Se esse visitante fôr um medico, um hygienista ou um +pedagogista +serio, dirá que á propria +instituição asylar, ás +condições e ás +conveniencias da sua natureza e destino repugna aquelle alojamento. +<br /> + +<br /> + +Se pensar, e souber, seriamente, o que são museus; o que +são, +especialmente, museus industriaes; porque e para que se querem +e se fazem; se os tiver visto +<em>funccionando</em>, frequentados, todos os +dias, por artistas, por operarios, por mestres e patrões das +grandes +e pequenas industrias que vão ali beber a +lição directa, pratica +immediata dos modelos, da mão d'obra, do fabrico, dos +preços, e +não apenas, em desenfadamentos de domingos e feriados por +curiosos +burguezes: esse visitante observará que o museu +está mal, +deslocado, pouco menos que inutilisado ali, fóra das grandes +correntes +de circulação, dos centros mais activos do +trabalho industrial. +<br /> + +<br /> + +Se fôr então um artista... +<br /> + +<br /> + +Mas para que procurar novos exemplos? +<br /> + +<br /> + +A impressão será commum. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +Esse visitante dirá:―«Esta gente ou este Estado +não tem a +comprehensão, a vontade, a disciplina, <em>a +medida</em> exacta, racional, +das cousas bellas, uteis, praticas da vida nacional. Mistura tudo: +um asylo de pobreza, com um monumento d'Arte; um padrão de +Historia com um museu de Industrias; a archeologia, a beneficiencia, +a fabrica; a descoberta da India, a infancia desvalida, o trabalho +manual e mechanico. Na Torre de Belem, pozeram um pharol, +alguns postes telegraphicos, e a formar-lhe o fundo um gazometro, +e montanhas de carvão; qualquer dia dão o +Convento de +Christo de arrendamento a um fabricante de pannos; já uma +vez +derrubaram um lanço do Castello de Leiria para offerecer uma +pequena orgia pyrotechnica a uma visita regia. Não fizeram +ha +pouco da celebre estatua do Terreiro do Paço, centro +ornamental +de uma barraca de feira, e da columna do Rocio, poste de +illuminação +chineza? E o mais e o mais...» +<br /> + +<br /> + +Voltemos, porém, aos Jeronymos. +<br /> + +<br /> + +Ora é claro que independentemente das +adaptações com que +os hospedes alludidos irão alterando e deformando, mais ou +menos +disfarçadamente, o Monumento, não pode ser +indifferente ao +caracter e á integridade d'elle se lealmente se pretende +restaurar ou +restituir, o seu destino, a sua applicação +actual, até porque tal circumstancia +ou tal elemento pode quebrar ou pode completar essa +integridade; pode affrontar ou pode enaltecer esse caracter. +<br /> + +<br /> + +Não fica a bem dizer, completa e perfeita a +restituição monumental +somente com affeiçoar mais ou menos o plano e a pedra +á +fórma primativa. +<br /> + +<br /> + +No Monumento fundiu-se uma idea; reside e perpetua-se +n'elle uma intenção, um culto, uma +consagração historica que +se quer respeitar desde que se quer conservar e restaurar o +Monumento. +<br /> + +<br /> + +Se não se comprehende, se não se sente, se +não se respeita +isto, parece hypocrisia o empenho e o cuidado da +conservação material. +<br /> + +<br /> + +O monumento commemorativo de um feito que synthetisa e +glorifica o nome, o esforço, a missão historica +de um povo atravez +das idades e das nações, não +póde ser vasadouro ou asylo eventual +de serviços e instituições avulsas sem +caracter nem significação +que com a d'elle condiga n'uma expontanea e nobre consonancia +moral. +<br /> + +<br /> + +Santa Maria de Belem é o +<em>Te-Deum</em> que agradece e celebra a +victoria da idea, da fé e do esforço que +alargaram o nome e a terra +da Patria portugueza, como Santa Maria da Victoria canta e celebra +<span class="pagenum">[18]</span> +o triumpho do direito, da vontade, da rasão das +gerações que +fizeram essa Patria, independente e soberana. +<br /> + +<br /> + +Completam-se e continuam como padrões do desenvolvimento +de um povo no tempo e no espaço, na sua solidariedade +historica +e na sua individualidade politica. +<br /> + +<br /> + +Pertencem á historia d'esse paiz. +<br /> + +<br /> + +São monumentos religiosos, menos já porque o +sejam de uma +crença mystica do que porque o são da honra e do +nome commum. +<br /> + +<br /> + +Guardar, conservar, reparar, amoravelmente, devotamente, taes +monumentos,―estes como tantos;―restituir aos Jeronymos,―que +é o caso especial, opportuno, que nos preoccupa,―a +continuidade, +a integridade, a conclusão panoramica, esthetica, +monumental: +nada mais honesto, mais digno, mais affirmativo da nossa +dignidade civica e da nossa cultura moral. +<br /> + +<br /> + +Mas não é tudo. +<br /> + +<br /> + +Um elemento d'essa restituição é hoje +irrestituivel. Perdeu-se; +não pode restaurar-se; porque não era, como os +outros ou como +a Arte, necessario e eterno. Ha de sempre succeder isto. +<br /> + +<br /> + +Mas como não ha Jeronymos a alojar, nem poderá +resuscitar-se +a instituição que desappareceu na +evolução do tempo, das necessidades, +do modo de ser social, para vir de novo povoar a monumental +fabrica, outra terá de escolher-se e outra se escolha que se +conforme com a significação, com a finalidade, +com o caracter historico, +fundamental e perenne, do Monumento; com a +intenção, +com a affirmação subsistente e actual d'elle. +<br /> + +<br /> + +Está bem de ver que assim como não se teria feito +o Convento +se não houvesse frades, não se ha de +reconstituil-o para o deixar +vasio e inutil ás necessidades da vida e da +administração nacional +moderna. +<br /> + +<br /> + +Teve já uma certa voga o pensamento de destinar o Templo, a +jazida dos restos de cidadãos benemeritos e illustres; a +Pantheon +Civico, como costuma dizer-se. +<br /> + +<br /> + +Arriscada e difficil na execução, a idea era ao +primeiro aspecto +perfeitamente pratica e sympathica: restricta aos nomes ou aos +personagens sobre os quaes passou já o juizo da Historia, +tinha +até a vantagem de nos redimir de muitas vergonhas. +<br /> + +<br /> + +Melhor, talvez do que no Templo, propriamente dito, na vasta +gallilea, poderiam recolher-se, em sarcophagos de pedra, os restos +dispersos dos heroes da Descoberta, dando-lhe assim o destino historico +de <em>Campo Santo</em> que tão +naturalmente se harmonisaria, até, +com a tradicção d'aquella especie de +construcções. +<br /> + +<br /> + +Com relação á parte conventual, n'uma +commissão official de +<span class="pagenum">[19]</span> +que fiz parte, ha annos, foi lembrado que ficaria ahi adquadamente +installado o museu de Bellas-Artes, esse pobre nomada que +não +obteve ainda alojamento proprio, e a Escola correspondente que +talvez podesse chamar-se assim do seu feiticismo academico e +extrangeirista +á contemplação e ao amor da Arte +nacional. +<br /> + +<br /> + +Mas os Museus e as Escolas tem condições +especiaes de installação +que não poderiam facilmente realisar-se no edificio de +Belem, sem prejuizo da estructura d'elle, além de convir aos +primeiros, +especialmente, quando dotados de um caracter e destino +de applicação actual, uma +situação mais central e accessivel, á +beira das grandes correntes de circulação urbana. +<br /> + +<br /> + +Ora succede que uma instituição existe de um +capital e universal +interesse social e historico, e de um caracter que perfeitamente +se harmonisa com o do monumento, tanto que logo na +fundação +delle podera ter-se-lhe associado, e não offerece, hoje +ainda, exigencias +de adaptação que o contrariem. +<br /> + +<br /> + +Acresce que essa instituição impropriamente +installada, não tem +já alojamento que em boas e seguras +condições lhe comporte o +continuo e necessario desenvolvimento. +<br /> + +<br /> + +É o Archivo Nacional, a tradiccionaria +<em>Torre do Tombo</em>, o riquissimo +e genuino repositorio da vida da Nação em todos +os seus +elementos e em todas as suas evoluções; +já se vê: o Archivo Nacional +reformado, ampliado, restituido á sua nobre e justa +authonomia, +recolhendo e reunindo todas as folhas dispersas da Historia +Portugueza, desde os humildes codices dos conventos, das freguezias, +dos bispados, que apodrecem por esse paiz fóra armazenados +nas Camaras Ecclesiasticas, até aos mais graduados diplomas +da vida do Estado, cuja ordenação, cuja +authenticidade até, +anda arriscada, de ha muito, na falta de um registamento central +e alheio ao simples expediente vario das +repartições bureaucraticas. +<br /> + +<br /> + +E não só recolhendo e colligindo as folhas de +pergaminho e de +papel, mas as de pedra e de bronze em que essa Historia se fixa: +Archivo e museu archeologico portuguez, ao mesmo tempo. +<br /> + +<br /> + +Onde poderá encontrar-se mais propria e grandiosa arca para +encerrar taes thesouros? +<br /> + +<br /> + +Que mais condigno deposito poderá confiar-se +áquellas fortes +e venerandas muralhas e abobodas impregnadas da +tradição gloriosa +da Nação? +<br /> + +<br /> + +Como se ajustariam conteudo e continente n'uma imponente e +sugestiva harmonia de estimulos e de saudades; n'um mesmo culto +e n'um mesmo testemunho de honra e de nobreza? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p20">[20]</a></span> +E depois, seria talvez o caso unico em que não tivesse de +sacrificar +se o Monumento á +instituição hospedada ou de prejudicar +esta para poupar aquelle. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III +</h3> + +<br /> + +Conveniencias occasionaes de administração ou de +politica entregando +ultimamente as <em>obras</em> de Belem a uma +Repartição regularmente +official e technica:―a da conservação dos +edificios publicos,―pareceram +encerrar, em fim, a historia aventurosa e tumultuaria +d'essas <em>obras</em>. +<br /> + +<br /> + +Em 17 de março de 1894 essa +Repartição, expondo ao Governo +a conveniencia de concluir as <em>obras</em> +e de as ter terminadas +por occasião do Centenario da India, propoz que se abrisse +um +concurso entre architectos nacionaes para se fixar definitivamente +o caracter e projecto d'essa conclusão. Concordando, o +Conselho +d'obras publicas aconselhava, em 7 de maio, que o Director dos +edificios +<a href="#e11">publicos</a> procedesse á +elaboração do programma do concurso +no sentido de obter um projecto de conclusão expedita e +economica, +«tão simples quando o permitisse o estylo +Manuelino», e em +21 do mesmo mez mandava o Ministro que esse Director desse seguimento +á proposta e parecer alludidos. +<br /> + +<br /> + +Mas sobrecarregado com outros encargos, hesitando, talvez, na +definição das condições +fundamentaes do concurso ou na propria +idea e conveniencia d'elle, este funccionario apresenta, um anno +depois, +em 21 e 27 de maio de maio de 1895, não o programma do +concurso que proposera, mas um projecto de conclusão +elaborado +pelo architecto Parente da Silva que lhe annuncia a remessa proxima +de quatro ou cinco projectos ou variantes em +preparação +ainda;―outro projecto de um habil desenhador da +Repartição e +n'ella elaborado,―finalmente a idea propria, tambem transferida +para um projecto,―de se prescindir da +construcção de um «corpo +central», completando a fachada na fórma e estylo +uniforme dos dois +lanços d'ella que subsistem, idea e projecto que alem de +preferir +por mais expedita e barata, acabara por intransigentemente considerar +a mais adquada e racional. +<br /> + +<br /> + +―«A melhor, a unica solução que o +proprio sentimento patriotico +e artistico recommendam»,―diz, +então,―«é, para mim, indiscutivelmente +a construcção seguida dos mesmos membros e +vãos +ja construidos, rigorosamente identicos, <em>sem corpo +algum central</em>.». +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p21">[21]</a></span> +E tendo entendido dever amparar a sua idea na opinião de +alguns +consultores avulsos, um d'estes o architecto José Maria +Nepomuceno +mais accentuadamente a explica observando que a circumstancia +do eixo longitudinal das arcadas coincidir com o eixo +maior do Templo e a de todos os pilares dos arcos serem egualmente +distanceados, provam a união entre a galilea e aquelle, e +confirmam a indicação historica de que a serie +dos arcos era desempedida +e desafrontada, sem obstaculo algum, até á porta +occidental +da Igreja: conclue, pois, por considerar contrario ao caracter +primitivo da construcção, o famoso +«corpo central» tantas vezes +imaginado. +<br /> + +<br /> + +Manda a justiça dizer que este teimoso disparate do +«corpo +central», agora mais doutrinariamente frisado pelo architecto +Nepomuceno, +parecera ter sido já percebido antes, pois que de uma +allusão do processo official se depreende que pouco depois +da derrocada +de 1878 um engenheiro, o Sr. Cabral Couceiro, proposera +que se prescindisse de vez d'essa excrecencia phantasista e impropria. +<br /> + +<br /> + +Quanto aos dois outros projectos elogiosamente apresentados +pelo Director dos edificios publicos, visando ambos á +construcção +de um «corpo central» mais ou menos aparatoso, +dispenso-me de +occupar-me d'elles, depois do que deixei escripto atraz, relativamente +a esta deploravel idea de scindir o Monumento em dois, ou +a esta extraordinaria incomprehensão historica e +<a href="#e12">artistica</a> da estructura +e do typo do grande monumento Manuelino. Mas não ficaria +bem com a minha consciencia deixando de reconhecer que se +esse «corpo central» não fosse +fundamentalmente uma deformação, +o imaginado pelo desenhador Bemvindo A. Ceia, n'um dos dois projectos +alludidos, seria de quantos até hoje teem sido propostos, o +que menos brigaria com o typo e com o caracter <a href="#e13">architectonico</a> +e +esthetico do Monumento, pela sua fórma geral e pelas suas +linhas +e feições de decoração e +estructura. +<br /> + +<br /> + +Evidentemente, porém, não é a uma +repartição de simples expediente +technico de conservação e +reparação dos edificios do Estado +que pertence propôr ou deliberar qual seja a melhor,―quanto +mais a «unica»,―solução de +obras da natureza e com o fim d'aquellas +que se pretendem concluir no Monumento de Belem. +<br /> + +<br /> + +Desde a sua recente reorganisação se occupara +d'ellas a Commissão +dos Monumentos Nacionaes, e justamente apprehensiva +pela licção do passado e pelos exemplos do +presente com esta manifesta +tendencia de absorpção bureaucratica do assumpto, +já em +officio de 29 de julho de 1894 e em conferencias verbaes com os +<span class="pagenum"><a name="p22">[22]</a></span> +Ministros das Obras Publicas, exposera a necessidade de que elle +fosse larga e competentemente estudado, reividicando, mesmo, o +direito que pelo seu regulamento lhe era attribuido, quando +não +lh'o fosse pelo proprio facto da sua instituição +official, de ser ouvida +sobre quaesquer projectos que tão grave e intimamente +interessavam +um dos nossos mais notaveis Monumentos. +<br /> + +<br /> + +N'este pensamento tão simples e justo, naturalmente nos +encontrámos +com o criterio illustrado e patriotico do actual <a href="#e14">Ministro</a>, +que fazendo sobrestar em todas as propostas e instancias recebidas, +ordenou, em 29 de maio ultimo, que nos fosse enviado o processo +para que sobre elle podessemos proferir o parecer e voto do +nosso estudo e da competencia que a lei nos attribuiu. +<br /> + +<br /> + +A situação é clara e simples. +<br /> + +<br /> + +Não nos achamos a contas com o problema aberto de uma +construcção, de uma +restauração, de uma +restituição monumental. +<br /> + +<br /> + +Achamo-nos em face de umas certas obras de +construcção emprehendidas +inteiramente fóra da nossa responsabilidade, com o +fim de substituir edificações demolidas e de +continuar e completar +o Monumento dos Jeronymos por uma fórma que se entendeu +melhor conformar-se com o caracter d'elle. +<br /> + +<br /> + +Como essas obras não obedeceram a um plano geral definido +e certo, pergunta-se como terminal-as e concluil-as n'uma mais +proxima e mais segura harmonia com o aspecto, o caracter, a +significação +historica e artistica do Monumento. +<br /> + +<br /> + +É só isto, mas não é menos +do que isto. +<br /> + +<br /> + +Porque a questão hoje creio que só +póde ser ou que é só, +esta:―concluir essas <em>obras</em>, como +quem dissera: trancar e resgatar +esse escandalo, procurando restituir o Monumento, tanto e +como possivel ainda, á sua intrigridade architectonica, +panoramica +critica, por maneira que corresponda ao objectivo moral e ao objectivo +pratico que podem authorisar um Estado regularmente administrado +e um povo authenticamente culto a emprehender e fazer +uma obra d'esta natureza. +<br /> + +<br /> + +Não póde já, é claro, +corrigir-se todos os erros; expurgar o +trabalho feito de todos os aleijões; desagravar a Historia e +a Arte +de todas as violencias, de todos os attentados soffridos. +<br /> + +<br /> + +Não ha de deitar-se abaixo quanto se fez. +<br /> + +<br /> + +A brutalidade de um segundo desabamento poderia ser util, +podera parecer providencial, como foi irrecusavelmente o primeiro, +mas o Estado não faz derrocadas e não pode +proceder brutalmente. +<br /> + +<br /> + +No fim de contas, estão gastos ali mais talvez de 500 contos +de +<span class="pagenum">[23]</span> +réis;―358 vimos já que se tinham gasto +até 1878, em 15 annos,―e +todos estes algarismos só podem deixar de impôr-se +a espiritos +desiquilibrados, irresponsaveis. +<br /> + +<br /> + +Consumiu-se muito trabalho e fez-se e existe,―é +justiça dizel-o,―muito +trabalho primoroso. +<br /> + +<br /> + +N'estas grandes edificações monumentaes tem +sempre de ficar +o rasto e o cunho das gerações que se succedem ou +que por ellas +passam: do seu gosto, da sua educação, da sua +acção, da sua +obra material ou da sua obra moral. Não temos, ali mesmo, em +Belem, todo o vasto corpo da Capella Mór e uma grande parte +do +claustro, por exemplo, a apregoar uma +remodelação, um enxerto, +uma invasão irreverente, sacrilega, até, da +esthesia e do trabalho +originario? +<br /> + +<br /> + +Não seria um attentado maior, um absurdo, um disparate +collossal +derrubar tudo isto sob pretexto de uma +restituição que seria +apenas um artificio pretencioso e ridiculo? +<br /> + +<br /> + +Fiquem pois os minaretes inexplicaveis, mais +levianos que ligeiros, +fique até a irritante torre mitrada, se a sua estabilidade +está +garantida; fiquem as phantasias que custaram muito dinheiro e +muito trabalho, quando a sua supressão correctiva possa +prejudicar, +mais do que o seu disparate incidental, o que deve ser e é o +commum interesse e empenho d'agora. +<br /> + +<br /> + +Fiquem, que ficam attestando a situação social +que as tornou +possiveis. +<br /> + +<br /> + +Os factos consumados não se supprimem. Derrubadas essas +phantasias inscientes não se teria suprimido o processo +extravagante +que as produziu, nas suas relações e nas suas +revelações +historicas. +<br /> + +<br /> + +Aproveite-se e emende-se, tanto e o melhor que fôr possivel, +o +que está feito; embarguem-se e tranquem-se, de vez, as +tendencias +tumultuarias e vaidosas para uma construcção +monumental nova, +de sobreposse, em competencia com o corpo principal do Monumento; +recomponha-se a ligação com este, ineptamente +cortada; +abra-se, de par em par e de lez em lez, a formosissima e singular +gallilea; imponham-se os restos da vasta carcaça para a +reconstrucção +da parte interrompida e derrubada da fachada, vedando em +fim aquella brecha á insolente +pretenção de um «corpo e portico +central» de «imaginaria» scenographica e +reconstituindo o lanço +graciosamente uniforme e modesto das arcarias e casaria primitiva. +<br /> + +<br /> + +E feito isto, ou mais exactamente, á medida que se +faça isto, +desafronte-se o Monumento das edificações reles e +do jardim pelintra +que lhe interrompem e afogam, do lado do Rio, o vasto e +<span class="pagenum">[24]</span> +formosissimo aspecto;―desobstruam se as suas imponentes gallarias +e salões, das installações improprias +que os teem ido invadindo: +do asylo da Casa Pia que melhor e mais adquada +collocação +encontrará facilmente fóra da cidade;―do pseudo +Museu industrial +que, se comprehende o seu rasoavel papel, deve procurar +as grandes correntes de circulação urbana e os +bairros onde se +concentra o movimento das industrias, etc. +<br /> + +<br /> + +E desobstruida, e desafrontada, e concluida a monumental +edificação, +complete-se a sua integridade historica, nacional; por um +lado: alojando no Mosteiro o Archivo da Nação; +por outro lado: +removendo do Templo o exercicio e a administração +do culto parochial. +<br /> + +<br /> + +Este é o meu parecer e o meu voto. +<br /> + +<br /> + +Muito propositadamente o quiz ir explicando e definindo n'esta +summaria nota, tanto para que a responsabilidade individual d'elle +mais desafogada deixe a da resolução que os meus +collegas entendam +dever preferir, como para escusar delongas de discussão +em assumpto e idéas que reclamam realmente uma +resolução +prompta e sobre as quaes, pela minha parte, considero inutil voltar. +<br /> + +<br /> + +Como se vê, em relação á +forma ou processo material da conclusão +das obras, as minhas idéas, de ha muito definidas e +affirmadas, +coincidem, geralmente, com o projecto apresentado pelo Director +dos edificios publicos, e excluem todos os outros, e todos +ainda que possam reincidir na excrecencia que considero historica +e artisticamente absurda de um chamado «corpo +central». +<br /> + +<br /> + +Mas propoz tambem esse funccionario, embora não +pareça ter +presistido na idéa, a abertura de um concurso para apurar o +projecto +da conclusão desejada. Comprehendo que o +«concurso» encontre +uma corrente favoravel e sympathica, mais ou menos artificiosamente +sugerida, na opinião geral. +<br /> + +<br /> + +O «concurso» não deixou inteiramente de +ser, ainda, uma especie +de feitiço nacional, por mais que tenha mostrado ser, +apenas, +um processo embusteiro de dissolver e esconder responsabilidades, +quantas vezes tambem, de arredar merecimentos reaes, de +elevar insignificancias, de esmagar direitos. +<br /> + +<br /> + +O bom, o genuino, o pratico concurso é a livre concorrencia +do trabalho, das aptidões, da +affirmação positiva dos merecimentos +de cada qual, perante este juiz difficilmente corruptivel que se +chama Toda-a-gente, ou este Tribunal implacavel e permanente +que se chama a Historia. +<br /> + +<br /> + +O «concurso», no caso pendente, ou ha de ter uma +base extremamente +restricta de applicação que o torna inutil, ou +alargada +<span class="pagenum">[25]</span> +essa base sobre o thema da melhor conclusão, não +apenas das +<em>obras</em>, mas do Monumento, +ir-nos-hemos envolver em novos embaraços +e em novas delongas, se é que não tivermos de +reconhecer +que se perdeu muito tempo e muito trabalho para não obter +um projecto viavel. +<br /> + +<br /> + +No começo das obras o concurso podera ter tido, ao menos, a +vantagem de suscitar o estudo detido e serio da +reconstrucção ou +da restauração a fazer; dos elementos e +caracteres do estylo a seguir; +das condições e circumstancias da obra a +realisar. +<br /> + +<br /> + +Hoje daria, naturalmente, apenas, o resultado de mais demorar +a conclusão e de mais a affastar, ainda, do caracter e +estructura +primitiva,―modesta e simples,―da parte que se quiz reconstruir. +<br /> + +<br /> + +A emulação e a prosapia dos concorrentes +forçar-lhes-hia a imaginação; +cada qual procuraria produzir um projecto do que mais +e melhor se affirmassem os seus recursos, as suas aptidões, +a sua +originalidade de constructor e de artista. +<br /> + +<br /> + +E se a isto juntarmos as influencias perturbadoras da indisciplina +intellectual e educativa que enfraquece e desmoralisa por +egual a nossa producção e a nossa critica +artistica; se contar-mos +com a pressão das consagrações +forjadas e impostas pelas pequenas +camarilhas num meio mal organisado para que o publico pense +e julgue por si, n'estas cousas da Historia e da Arte, facil +é de +prever, a quem não fôr inteiramente inexperiente e +ingenuo, que o +concurso longe de ser um processo expedito e seguro será o +mais +arriscado e menos pratico, nas circumstancias ou nas +condições, +pelo menos, em que o problema tem de ser posto e resolvido. +<br /> + +<br /> + +O exemplo,―um pequeno mas significativo exemplo,―do +concurso para a pintura do tecto do Theatro <em>D. +Maria</em>, não é +muito antigo. +<br /> + +<br /> + +E eu sei bem quanto se viu atormentado um jury firmemente +consciencioso e sério para dar a preferencia ao projecto do +monumento +a Affonso de Albuquerque que mais estudo, mais caracter, +mais originalidade intelligente e san possuia, mas que fôra +pensado +e elaborado por um artista sem nome, sobretudo sem camarilha. +<br /> + +<br /> + +De resto, o que se pretende e precisa é menos um trabalho de +concepção, que de direcção +e execução architectonica. Quanto menos +esforço conceptivo ou inventivo se despender, mais garantido +fica o caracter restitutivo da construcção. +<br /> + +<br /> + +Temos no paiz pouco mais,―se tanto,―de meia duzia de +architectos authenticos. Para o que entendo que deve ser ou que +só pode ser hoje a conclusão das obras, nos +termos praticos que +<span class="pagenum">[26]</span> +todas as circumstancias indicam, póde antecipadamente +affirmar-se +que qualquer d'esses architectos é apto e competente. +<br /> + +<br /> + +Por estas e por muitas outras rasões ainda, concluo, pois, +por +julgar mais do que dispensavel, inconveniente, o concurso, e direi +até que uma d'essas rasões é +exactamente não ver explicada a necessidade +d'elle. +<br /> + +<br /> + +Resumindo e terminando, o que tenho a honra de propôr +é que +se aconselhe ao Governo, o seguinte: +<br /> + +<br /> + +1.º―A conclusão das obras deve consistir na +união do Templo +com a Galilea; no desobstruimento completo d'esta desde o +seu extremo occidental até á porta da nave +principal do Templo, +e na reconstrucção da parte interrompida da mesma +galilea e da +casaria sobreposta, em perfeita e uniforme continuidade dos +membros e vãos existentes, com absoluta exclusão +de qualquer +corpo central,―real ou simulado,―por contrario ao caracter primitivo +da edificação e á unidade monumental +d'ella. As secções +posteriores das obras deverão concluir-se com a maior +sobriedade +architectonica e decorativa tendo sómente em vista +completal-as e +ligal-as n'uma traça geral no menor praso e com a maior +economia. +<br /> + +<br /> + +Deverão ser aproveitadas e conservadas, quanto possivel, as +construcções feitas, e poderá servir +de base á conclusão indicada +e projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos com as +variantes approvadas por uma commissão que terá a +seu cargo a +inspecção da obra até final. +<br /> + +<br /> + +2.º―A obra deverá ser mantida na +administração directa do +Estado, e feita pela Repartição dos edificios +publicos, tendo a inspecção +superior e permanente d'ella, até á +conclusão, uma commissão +composta de um engenheiro, de um architecto e de um critico +d'Arte, respectivamente escolhidos pelo Conselho Superior +d'Obras Publicas, pela Academia de Bellas Artes e pela +Commissão +dos Monumentos Nacionaes. +<br /> + +<br /> + +3.º―Deverão ser e estar removidos até o +dia 31 +de dezembro +de 1896, todos os estabelecimentos que actualmente occupam diversas +secções do Monumento, e bem assim transferida +para outro +Templo a séde parochial. +<br /> + +<br /> + +4.º―Até á mesma data deverá +ser o +Monumento desafrontado +das edificações de qualquer especie que se +intercallem entre +elle e o Rio ou o caes marginal. +<br /> + +<br /> + +5.º―O Templo deve ficar destinado, sómente, +ás grandes celebrações +<span class="pagenum">[27]</span> +religiosas do Estado, e a Galilea a +jazida dos restos dos +Descobridores e Navegadores portuguezes. +<br /> + +<br /> + +6.º―Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado +a alojamento e installação do Archivo Nacional, +convindo que essa +installação se ache concluida até o +mez de Maio de 1897.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Lisboa, 2 de Novembro de 1895. +</div> + +<br /> + +<div class="signature"> +<em>Luciano Cordeiro.</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="1"></a><sup>[1]</sup> +«Copia. Fachada geral do edificio tal qual +existia antes de se proceder +á reconstrucção». (Escala +1:100) Tem a rubrica:―«Manuel Raymundo +Valladas, major d'engenheria, director da Casa Pia, encarregado dos +trabalhos +de reconstrucções». +<br /> + +<br /> + +Consta-me que o original existe no cartorio da Casa Pia.<br /> + +<br /> + +<a name="2"></a><sup>[2]</sup><em> +Galilaeum</em> porticum hoc +interpretatur, quam nostri Galerie vocant; +etc. (<em>Ducange</em>). +<br /> + +<br /> + +Ha quem prefira ainda a fórma barbara e obsoleta de +<em>galilé</em>, e escusado +é +dizer que as duas são indifferentemente adoptadas pelos +melhores lexicographos. +Mas o que tem graça é o debique que a +fórma culta e portuguesissima de +<em>galilea</em>, desde que eu a adoptei, de +preferencia, soffreu na propria commissão +dos monumentos. +<br /> + +<br /> + +―«Que galilé é que era, porque... +assim escreviam as +<em>chronicas</em>», e ainda +por este apendice jovial da rasão: «que Galilea +era uma terra, uma região bem +conhecida». +<br /> + +<br /> + +E se fosse exactamente do nome classico da provincia da Judea, theatro +e +berço dos primeiros mysterios christãos, que +devesse extrahir-se a etymologia +melhor do termo indicativo d'aquelle membro da architectura sacra? +<br /> + +<br /> + +Vale talvez a pena pensar n'isto, se não acham mais commodo +contentar-se +com as derivações etymologicas de +<em>galea</em>, +<em>leae</em>; de +<em>galeatus</em> (<em>galea +indutus</em>); +de <em>galerus</em>, +<em>ri</em>, etc. em que não sei +se teem alguma vez pensado.<br /> + +<br /> + +<a name="3"></a><sup>[3]</sup><em></em> +É +extraordinario como se perdeu a +noção facil e pratica da +disposição +geral da edificação, da sua +orientação, ou como mais exactamente se +póde +dizer, da sua +<em>occidentação</em>, +a ponto de se obstruir e afogar a secção +occidental, +a entrada da galilea, que se tivesse sido reconhecida e mantida +não teria deixado +pensar em corpos ou entradas «centraes» na fachada +do sul. N'um parecer +juncto ao processo lembra Nepomuceno a indicação +de Carvalho da Costa +de «que em certos dias <em>o sol ao +cahir</em> entrava pelo arco onde estava a fonte e +ia bater na porta do sacrario».<br /> + +<br /> + +<a name="4"></a><sup>[4]</sup><em></em> +Depois +de ter escripto este parecer disse-me o meu amigo e +dedicado +director da Casa Pia, F. Margiochi, que o projecto original existe +ali.<br /> + +<br /> + +<a name="5"></a><sup>[5]</sup><em></em> +«Cadernos +dos esclarecimentos pedidos pela +commissão nomeada por +portaria de 19 de dezembro de 1878»... +<br /> + +<br /> + +No processo official do Ministerio das Obras Publicas.<br /> + +<br /> + +<a name="6"></a><sup>[6]</sup><em></em> +Tenho +idea, e mais alguem a terá, de +que na decoração do famoso +corpo ou torreão central que ruiu, apparecia +até... o escudo da Saboia, cortezã +allusão, naturalmente, ao recente consorcio Regio. Tambem +n'uma reconstrucção +(sic) da Madre de Deus, póde ver-se, ainda, torneando o +capitel d'um +columnello gothico... um comboio de caminho de ferro! Homenagem +á visinhança...<br /> + +<br /> + +<a name="7"></a><sup>[7]</sup><em></em> +Relatorio +da adm. da R. Casa Pia de Lisboa, relat. ao anno +econ. de +1891-1892.―Lisboa, 1895.<br /> + +<br /> + +<a name="8"></a><sup>[8]</sup><em></em> +«As +obras teem tido andamento consideravel sob a +direcção do Sr. +architecto Domingos Parente da Silva.» <em>Rel. da +adm. da R. Casa Pia, +relativo +ao anno de 1891-1892</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#c1">#pág. 3</a></td> + + <td style="text-align: center;">resconstrucção</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">reconstrucção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p4">#pág. +4</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">pripcipalmente</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">principalmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#p7">#pág. +7</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">soberbamento</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">soberbamente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p7">#pág. 7</a></td> + + <td style="text-align: center;">o propria destino</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">o proprio destino</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p8">#pág. +8</a></td> + + <td style="text-align: center;">substituido</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">substituindo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p10">#pág. 10</a></td> + + <td style="text-align: center;">seguida</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">seguido</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p13">#pág. 13</a></td> + + <td style="text-align: center;">o luxuosa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a luxuosa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p14">#pág. 14</a></td> + + <td style="text-align: center;">boratareus</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">botareus</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p15">#pág. +15</a></td> + + <td style="text-align: center;">a +gracioso</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a +graciosa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p16">#pág. +16</a></td> + + <td style="text-align: center;">recurssos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">recursos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p20">#pág. +20</a></td> + + <td style="text-align: center;">publisos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">publicos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p21">#pág. +21</a></td> + + <td style="text-align: center;">artistico</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">artistica</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p21">#pág. +21</a></td> + + <td style="text-align: center;">architetonico</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">architectonico</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p22">#pág. +22</a></td> + + <td style="text-align: center;">Miuistro</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Ministro</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's As obras dos Jeronymos, by Luciano Cordeiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS OBRAS DOS JERONYMOS *** + +***** This file should be named 29567-h.htm or 29567-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/5/6/29567/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/29567-h/images/fig01.png b/29567-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..752b5f3 --- /dev/null +++ b/29567-h/images/fig01.png |
