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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:48 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:48 -0700
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initial commit of ebook 29567HEADmain
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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
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+ <title>As obras dos Jeronymos</title>
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+ <meta name="AUTHOR" content="Luciano Cordeiro" />
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+</head>
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of As obras dos Jeronymos, by Luciano Cordeiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As obras dos Jeronymos
+ parecer apresentado à Commissão dos Monumentos Nacionaes
+ em sessão de 7 de Novembro de 1895
+
+Author: Luciano Cordeiro
+
+Release Date: August 3, 2009 [EBook #29567]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS OBRAS DOS JERONYMOS ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Ago. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h4>VESPERAS DO CENTENARIO
+</h4>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<h2>
+AS OBRAS DOS JERONYMOS
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4>PARECER<br />
+
+<br />
+
+Apresentado &aacute; Commiss&atilde;o dos Monumentos Nacionaes<br />
+
+<br />
+
+Em sess&atilde;o de 7 de Novembro de 1895<br />
+
+</h4>
+
+<h5><span class="smallcaps">pelo seu Vice-Presidente</span></h5>
+
+<br />
+
+<h3>LUCIANO CORDEIRO</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 143px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+Typographia&#8213;CASA PORTUGUEZA&#8213;Papelaria</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>139&#8213;Rua de S. Roque&#8213;141<br />
+
+1895</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>VESPERAS DO CENTENARIO
+</h4>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<div class="bbreak">
+<hr /></div>
+
+<h2>
+AS OBRAS DOS JERONYMOS
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4>PARECER<br />
+
+<br />
+
+Apresentado &aacute; Commiss&atilde;o dos Monumentos Nacionaes<br />
+
+<br />
+
+Em sess&atilde;o de 7 de Novembro de 1895<br />
+
+</h4>
+
+<h5><span class="smallcaps">pelo seu Vice-Presidente</span></h5>
+
+<br />
+
+<h3>LUCIANO CORDEIRO</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 143px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<h4>
+LISBOA<br />
+
+Typographia&#8213;CASA PORTUGUEZA&#8213;Papelaria</h4>
+
+<div class="breaks">
+<hr /></div>
+
+<h4>139&#8213;Rua de S. Roque&#8213;141<br />
+
+1895</h4>
+
+<h4></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>I
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Destinada, em 28 de dezembro de 1833, a parte conventual do
+edificio dos Jeronymos &aacute; installa&ccedil;&atilde;o
+da chamada <em>Casa Pia de Lisboa</em>,
+vinte annos passados um Provedor benemerito, de quem todos
+nos lembramos ainda:&#8213;Jos&eacute; Maria Eugenio
+d'Almeida,&#8213;entendeu
+dever acompanhar a radical reforma d'aquella
+institui&ccedil;&atilde;o
+asylar com a das velhas e desconcertadas casarias em que ella
+pouco confortavelmente se alojava.
+<br />
+
+<br />
+
+Parallelamente com as necessidades hygienicas e disciplinares
+do pio internado, determinava-lhe o generoso impulso outra idea,
+n&atilde;o menos generosa, decerto, mas antes recebida do que
+germinada,
+talvez, n'aquelle espirito caracteristicamente pratico:&#8213;a de
+melhor conformar e adaptar &aacute; grandesa e &aacute;
+fei&ccedil;&atilde;o esthetica da
+parte primitiva do Monumento, pelo menos o aspecto architectonico
+e decorativo do resto da vasta edifica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Da extraordinaria associa&ccedil;&atilde;o d'estas ideias,&#8213;mal
+definidas e
+reflectidas, ent&atilde;o, nem mais definidas, nem reflectidas
+melhor at&eacute;
+hoje,&#8213;derivaram as <em>obras</em> que se
+teem ido fazendo e desfazendo
+desde 1863, sob as denomina&ccedil;&otilde;es improprias
+at&eacute; ao absurdo, de
+&laquo;restaura&ccedil;&atilde;o&raquo; e de
+&laquo;reconstruc&ccedil;&atilde;o&raquo; dos
+Jeronymos:&#8213;t&atilde;o pouco
+&laquo;<a href="#e1">reconstruc&ccedil;&atilde;o</a>&raquo;
+que
+come&ccedil;aram por desfazer a continuidade do
+Monumento;&#8213;t&atilde;o pouco
+&laquo;restaura&ccedil;&atilde;o&raquo; que demolindo
+grande parte
+do que existia, e at&eacute; do que era mais que provavel que
+existisse
+desde a funda&ccedil;&atilde;o primeira, foram essas obras
+ensaiando, sem estudo
+e por phantasia, o que n&atilde;o podera ser a tra&ccedil;a e o
+aspecto
+originario, nem, em tempo algum, a fabrica integral e harmoniosa
+do edificio na sua inten&ccedil;&atilde;o e na sua
+significa&ccedil;&atilde;o singular.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p4">[4]</a></span>
+Disparatavam, irrecusavelmente, desde a ras&atilde;o e
+inspira&ccedil;&atilde;o inicial,
+os dois objectivos que se pretendia fazer mais do que paralellos,
+convergentes, &aacute; for&ccedil;a de engenho e sem olhar a
+despesas:&#8213;o
+de uma installa&ccedil;&atilde;o asylar para um milheiro de
+crean&ccedil;as orphanadas
+e desvalidas, e o de uma suposta restitui&ccedil;&atilde;o
+artistica da
+grandiosa e historica construc&ccedil;&atilde;o em que
+continuasse a habitar
+e a affirmar-se a idea que n'ella fundira a f&eacute; e a arte
+nacional no
+seculo XVI.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas desde o come&ccedil;o se aggravou, ainda, esta manifesta
+irreflex&atilde;o
+e inaptid&atilde;o de propositos, no impeto indisciplinado, e
+depois
+na malograda teimosia da execu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Podera supp&ocirc;r-se, creio at&eacute; que muita gente
+supp&otilde;e, realmente,
+que o Monumento se achava truncado ou ficara incompleto;&#8213;que
+nada mais existia do que o Templo, ou que al&eacute;m d'elle,
+n'essa
+extensa linha de fachada onde <a href="#e2">principalmente</a>
+se teem feito e desfeito
+as <em>obras</em>, s&oacute;mente
+existiriam, quando ellas come&ccedil;aram, ruinas
+incaracteristicas, dispersas, inuteis.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal n&atilde;o era, por&eacute;m.
+<br />
+
+<br />
+
+Independentemente de muitas outras memorias graphicas ao
+alcance de todos, ha juncto da collec&ccedil;&atilde;o de
+documentos que supre
+ou representa o processo official das
+construc&ccedil;&otilde;es novas, um desenho
+de planta e al&ccedil;ado immediatamente anterior &aacute;
+inicia&ccedil;&atilde;o
+d'ellas em 1863.<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Essa inicia&ccedil;&atilde;o consistiu, at&eacute;, em
+demolir a maior parte do que
+existia a occidente do Templo, em natural
+continua&ccedil;&atilde;o d'elle, e o
+que existia era o complemento, a conclus&atilde;o original,
+necessaria,
+historica do Monumento:&#8213;o Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que o Mosteiro abandonado e arruinado; mutilado,
+aqui; deformado, alem; cheio de entumecencias ridiculas e de tapumes
+ignobeis; esfuracado por janell&ecirc;tas banaes; remendado a
+retalhos
+de classicismo pedante; muito differente, naturalmente do
+que f&ocirc;ra,&#8213;e quem sabia e quem pensou o que f&ocirc;ra?
+<br />
+
+<br />
+
+Em summa: uma agglomera&ccedil;&atilde;o de casarias como
+succede, e
+qualquer p&oacute;de ver, ainda, em quasi todas as
+edifica&ccedil;&otilde;es conventuaes
+que as gera&ccedil;&otilde;es fradescas, as conveniencias de
+occasi&atilde;o, o
+gosto e as ideas dominantes das diversas epocas v&atilde;o
+successiva e
+<span class="pagenum">[5]</span>
+arbitrariamente truncando, sobrepondo, adaptando &aacute; sua
+imagem
+e semelhan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas tambem,&#8213;e &eacute; sempre o mesmo facto que todos teem
+tido occasi&atilde;o de observar,&#8213;atravez d'essa massa confusa,
+d'essa
+especie de estratifica&ccedil;&atilde;o secular, rompem aqui ou
+ali; resistem
+n'um ou n'outro lan&ccedil;o; triumpham e imp&otilde;em-se,
+at&eacute;, n'algumas
+linhas, com uma authenticidade soffrivelmente nitida, flagrante, os
+elementos, os membros da primeira construc&ccedil;&atilde;o ou
+das mais antigas
+e genuinas fei&ccedil;&otilde;es architectonicas e decorativas.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto devia succeder, e realmente succedia nos Jeronymos.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo no simples relance do conjuncto,&#8213;pois que felizmente
+possuimos o al&ccedil;ado anterior &aacute;s obras,&#8213;os vinte e
+oito gigantes
+eguaes e equidistantes que se alongam e trepam a cortar as linhas
+superiores da fachada, terminando em pinaculos que parecem
+enormes busios estylisados;&#8213;as vinte e sete largas arcadas de
+ogiva que podemos chamar abatida;&#8213;os altos corpos de
+passadi&ccedil;o
+ladeados pelos mais elevados d'esses gigantes e quebrando
+graciosamente a linha geral da platibanda;&#8213;os proprios
+tro&ccedil;os
+rendados d'esta ultima: p&oacute;de bem dizer-se que nos obrigam,
+apezar
+de todos os cortes e remendos, a reconhecer e reconstruir
+idealmente a velha e forte carca&ccedil;a d'aquella parte do enorme
+edificio.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa parte, especial theatro das novas
+construc&ccedil;&otilde;es fantasistas,
+era evidentemente constituida por uma especie de extensissima
+galilea<sup><a href="#2">[2]</a></sup>
+em arcaria ogival abatida, seguindo o eixo E. O. da nave
+central do Templo, como que continuando esta, e sustentando, em
+<span class="pagenum">[6]</span>
+toda a extens&atilde;o, a casaria conventual, caracteristicamente
+uniforme e simples.
+<br />
+
+<br />
+
+Refor&ccedil;avam e dividiam toda a
+edifica&ccedil;&atilde;o os gigantes mais altos,
+em cinco grandes corpos que outros menos largos e mais elevados
+ligavam, n'um mesmo plano, recortando superiormente, em grega
+simples, a estructura geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Para a singular galilea ou alpendre abria a porta ou portico
+considerado pela architectura official, a entrada principal do Templo,
+e n'ella ajoelhava o Regio Par,&#8213;Dom Manoel e a mulher, que
+la est&atilde;o ainda,&#8213;como se tivessem vindo &aacute; frente
+dos Descobridores
+regressados dos longicuos horisontes do mar, por aquellas
+arcarias dentro, trazer &aacute; Virgem do Restello a nova e o
+agradecimento
+do desencanto da India.<sup><a href="#3">[3]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Ali junto, no angulo sul, erguia-se a Torre dos sinos que havia
+de chamar os Jeronymos &aacute;s ora&ccedil;&otilde;es do
+ritual; lembrar aos mareantes
+que partiam a confian&ccedil;a em Deus e na Patria; saudal-os
+alegremente
+na chegada das asperas navega&ccedil;&otilde;es e campanhas:
+uma
+torre singella e pratica, t&atilde;o tradiccional e symbolica como
+toda esta
+disposi&ccedil;&atilde;o architectonica, em
+edifica&ccedil;&otilde;es monasticas do seculo XVI.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto &eacute; que era. Isto &eacute; que devia ser.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; claro que tudo isto f&ocirc;ra violado, invadido, mais
+ou menos
+mascarado pelas reconstruc&ccedil;&otilde;es e
+sobreposi&ccedil;&otilde;es successivas, como
+ficou dito j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+As arcadas haviam sido entaipadas, abrindo-se no tapume pequenas
+janellas quadradas e cerrando-se o recinto da galilea; deformara-se
+a liga&ccedil;&atilde;o superior do Mosteiro com o Templo, como
+a
+estupida obsess&atilde;o do
+<em>classico</em> substituira, pouco depois
+da funda&ccedil;&atilde;o
+d'elle, a Capella m&oacute;r; diversos membros e lavores haviam
+sido
+truncados ou substituidos nas adapta&ccedil;&otilde;es novas, e
+as janellas pretenciosamente
+ornamentaes, palacianas, dos corpos de passadi&ccedil;o
+ou de liga&ccedil;&atilde;o estavam accusando um enxerto
+innintelligente.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas tambem outra observa&ccedil;&atilde;o parecera que
+immediatamente
+deveria imp&ocirc;r-se: a de que a edifica&ccedil;&atilde;o
+conventual n&atilde;o podia, n&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p7">[7]</a></span>
+havia de hombrar <a href="#e3">soberbamente</a>, em
+grandesa e
+opulencia architectonica
+e decorativa, com o Templo, antes pela sua singelesa austera
+e humilde,&#8213;consoante com <a href="#e4">o proprio
+destino</a>,&#8213;pela sua uniformidade
+aceada e sobria de decora&ccedil;&atilde;o e de estructura
+faria destacar
+gloriosamente o corpo primario, capital.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria de simples bom senso a id&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todas estas vastas edifica&ccedil;&otilde;es monasticas
+&eacute; no Templo que
+se concentra, na mais natural inten&ccedil;&atilde;o e
+significa&ccedil;&atilde;o devota, a
+inspira&ccedil;&atilde;o
+e o esfor&ccedil;o da Arte.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada d'isto, por&eacute;m; nada do que era natural e pratico, se
+reflectiu
+e estudou, e ha de ver-se que nem esta ultima circumstancia
+se tem ponderado at&eacute; hoje. De o n&atilde;o ter sido tem
+resultado,
+exactamente, um dos maiores embara&ccedil;os &aacute;
+conclus&atilde;o das <em>obras</em>,
+pois que em vez de a procurar, rasoavel e modestamente, n'uma
+reconstruc&ccedil;&atilde;o subordinada &aacute; parte
+principal do Monumento e reconstitutiva
+da integridade e da harmonia historica e plastica d'elle,
+tem-se pretendido petulantemente accrescental-o, a bem dizer:
+<em>duplical-o</em>, em esfor&ccedil;os e
+primores de
+uma&#8213;&laquo;imagin&aacute;ria&raquo;&#8213;esculptural
+de sobreposse.
+<br />
+
+<br />
+
+Com essas obras come&ccedil;ou a aventura e com esta nos
+encontramos
+ainda, em face d'ellas e dos ultimos projectos propostos para
+a sua conclus&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava, ent&atilde;o, em Portugal ao servi&ccedil;o do Estado,
+um architecto
+francez, Colson.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo curioso privilegio de ingenua confian&ccedil;a que entre
+n&oacute;s disfructam
+os aventureiros estranhos, foi este individuo incumbido de
+elaborar um plano e projecto geral das
+<em>obras</em>, certamente por arbitrio
+do Provedor da Casa Pia, mas, em todo o caso, com
+approva&ccedil;&atilde;o
+governativa em portaria de 16 de abril de 1860.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco ou nada conheceria Colson, da historia do Monumento
+e do estylo e caracter d'elle. Fez, comtudo, esse projecto pois que
+lh'o pagavam por 2:243$166 r&eacute;is, e que n&atilde;o foi
+approvado, diz
+seccamente um relatorio official:&#8213;&laquo;em consequencia de
+n&atilde;o satisfazer
+ao fim proposto&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o logrei ver esse projecto, nem sei, at&eacute;, se
+existe.<sup><a href="#4">[4]</a></sup>
+Devia
+estar no processo official e n&atilde;o est&aacute;, como
+n&atilde;o est&atilde;o outros documentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a circumstancia d'elle n&atilde;o ter satisfeito ao fim que lhe
+impunham,
+<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span>
+d&aacute;-me naturalmente rebate de que Colson tivesse
+conscienciosamente
+ensaiado corrigir a irreflex&atilde;o e inaptid&atilde;o
+d'esse&#8213;&laquo;fim.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois,&raquo;&#8213;continua o
+documento,&#8213;<em>depois n&atilde;o houve projecto
+geral, e a obra foi come&ccedil;ada e progrediu</em>
+mediante projectos parciaes
+elaborados pelos architectos encarregados de a dirigir.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+O Provedor da Casa Pia, certamente o melhor dos Provedores,
+escolhia e nomeava os architectos (?) que haviam dirigir as
+<em>obras</em>; como estas para ser dirigidas
+precisavam... fazer-se, e para
+fazer-se n&atilde;o era inteiramente dispensavel que se
+projectassem, o
+Provedor ia encommendando a esses architectos os projectos das
+obras que se havia de ir fazendo para que elles as dirigissem;
+consultava
+as pessoas das suas rela&ccedil;&otilde;es que tinha por mais
+competentes,
+e mandava executar os projectos que approvava.
+<br />
+
+<br />
+
+Cinjo-me, quasi litteralmente, aos textos officiaes.<sup><a href="#5">[5]</a></sup> Se elles
+n&atilde;o existissem ou n&atilde;o me reportasse singellamente
+a elles n&atilde;o poderia
+queixar-me de que me n&atilde;o acreditassem, pois que tambem me
+parecera inacreditavel, isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Os primeiros architectos escolhidos, para assim, aos retalhos,
+por tentativa, a capricho, ir projectando, cirzindo, dirigindo esta
+teia de Penelope que dura ha bons 32 annos, foram os seguintes:&#8213;de
+novembro de 1863, quando as obras come&ccedil;aram, at&eacute;
+mar&ccedil;o
+de 1865, em que teve de ceder o logar ao privilegio dos
+forasteiros:&#8213;Valentim
+Jos&eacute; Correia, realmente um architecto diplomado
+e reconhecido pelo Estado, que honradamente mostrara n&atilde;o ser
+homem para taes emprezas, embora fosse muito s&eacute;rio e digno,
+em
+outras mais modestas;&#8213;de abril de 1865 a mar&ccedil;o de 1867 um
+architecto inglez, J. Samuel Bennet, que viera dirigir os trabalhos
+d'aquella excentricidade architectonica de Monserrate que se apegou
+&aacute; lenda dos encantos de Cintra, na memoria de todos os
+<em>touristes</em>;&#8213;de
+abril de 1867 a dezembro de 1878, os habeis scenographos
+Rambois e Cinatti que durante muitos annos fizeram a
+justa admira&ccedil;&atilde;o dos frequentadores de
+<em>S. Carlos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o seria equitativo calar os nomes dos mestres de
+pedreiros.
+Representavam estes personagens um papel importante no processo
+adoptado, ora supprindo, ora <a href="#e5">substituindo</a>
+os architectos, sendo at&eacute;
+os primeiros e directos responsaveis pelas
+<em>obras</em>, como parece ter-se
+<span class="pagenum">[9]</span>
+querido fazel-os n'uma especie de inquerito do primeiro mallogro
+d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Alem de que, sendo o melhor que ellas nos offerecem, o trabalho
+de pedra, justo seria o registo dos obscuros operarios que o
+teem feito, n&atilde;o sem perigo de ficar sepultados n'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Foram, pois, esses primeiros mestres de pedreiro, at&eacute; 1878,
+Francisco Dias, e depois Fructuoso de Figueiredo.
+<br />
+
+<br />
+
+Poupemos aos vindouros a impertinencia de complicadas theorias
+sobre os Boytacas do nosso tempo, j&aacute; que t&atilde;o
+desconsolados
+nos teem deixado as engenhadas sobre o Boytaca verdadeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim podessemos averbar a cada um dos
+&laquo;imaginadores&raquo; e
+executores das obras a parcella da sua sciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o podemos: Deve entender-se que ao primeiro para
+pouco mais daria o tempo, sen&atilde;o tambem a competencia, do que
+para demolir. Segundo informa&ccedil;&atilde;o que me parece
+auctorisada, a
+elle se deve a demoli&ccedil;&atilde;o da chamada
+&laquo;Sala dos Reis&raquo;, parte ou
+corpo superior da liga&ccedil;&atilde;o do Templo com o
+Mosteiro, e a correspondente
+scis&atilde;o da galilea:&#8213;consequentemente o inicial e
+inconsciente
+attentado da scis&atilde;o do Monumento, em dois.
+<br />
+
+<br />
+
+Do inglez sabemos, e facil seria de perceber, que s&atilde;o as
+portas
+lateraes da fachada sul e a do nascente que olha para a Igreja:
+uma decora&ccedil;&atilde;o bonitamente artificiosa, impropria,
+muida.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos artistas italianos pertenceram as
+reconstruc&ccedil;&otilde;es e decora&ccedil;&otilde;es
+mais importantes e arrojadas:&#8213;os miranetes, a torre mitrada,
+o imponente &laquo;corpo central&raquo; desapparecido: uma
+scenographia em
+pedra rebuscada na conven&ccedil;&atilde;o oriental, na
+phantasia gothica, at&eacute;
+na motiva&ccedil;&atilde;o moderna dos bastidores da Opera.<sup><a href="#6">[6]</a></sup><br />
+
+<br />
+
+Em 18 de dezembro de 1878, este singular processo de
+&laquo;restaurar&raquo;
+ou de &laquo;reconstruir&raquo; um dos nossos primeiros
+monumentos
+nacionaes que &eacute; um dos monumentos historicos e artisticos
+mais
+notaveis do Mundo, resolveu-se naturalmente, logicamente, n'um
+desabamento tragicamente ridiculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos retalhos, um dos &laquo;projectos parciaes&raquo;,&#8213;o
+mais importante
+d'elles, imaginado pelos illustres scenographos, sanccionado
+pelo benemerito Provedor, certamente approvado e admirado
+<span class="pagenum"><a name="p10">[10]</a></span>
+pelas pessoas mais competentes das suas
+rela&ccedil;&otilde;es;&#8213;em summa:
+o famoso &laquo;corpo central&raquo; que se erguia
+j&aacute; arrogantemente acima
+da massa escura e rude do velho Templo Manuelino, bojou, rompeu-se
+e ruiu em terra, sepultando algumas desenas de contos de
+r&eacute;is, uns poucos d'annos de trabalho e por bem pouco
+deixando de
+sepultar tambem um grande numero de vidas.
+<br />
+
+<br />
+
+A forma demasiadamente abatida das abobadas superiores, projectando
+a curva das press&otilde;es f&ocirc;ra da prumada das paredes
+mal
+fabricadas e delgadas; os alicerces inteiramente banhados d'agua,
+sem pozzolana nem cimento, assentando sobre uma camada de
+1,<sup>m</sup>50 de terreno de alluvi&atilde;o que o
+separava da rocha
+basaltica inferior:&#8213;taes
+foram as causas immediatas, ostensivas, technicas
+do desastre.
+<br />
+
+<br />
+
+A causa primaria e geral era o processo adoptado e teimosa e
+desabusadamente <a href="#e6">seguido</a>:&#8213;inacreditavel,
+repito, se n&atilde;o estivesse
+denunciado, confessado, authenticado, formalmente, pelos mais
+insuspeitos
+documentos officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava encerrado o primeiro periodo das
+<em>obras</em> que custara 15
+annos de trabalho e 358 contos de boa moeda.
+<br />
+
+<br />
+
+Intencionalmente indico a verba.
+<br />
+
+<br />
+
+Teem, tambem, os algarismos uma especial eloquencia e um
+legitimo logar n'estas cousas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ser&aacute;, pois, inutil saber-se quanto haviam
+custado j&aacute; essas
+obras.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; official e directa a informa&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Projecto
+primeiro</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2:246$166</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Demoli&ccedil;&otilde;es</td>
+
+ <td style="text-align: right;">2:644$100</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Desaterros
+e
+aterros</td>
+
+ <td style="text-align: right;">17:738$868</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Obras
+na
+Igreja</td>
+
+ <td style="text-align: right;">49:742$626</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Obras
+&laquo;<em>no novo edificio da Casa
+Pia</em>&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: right;">286:265$684</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">358:628$444</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E como se creou e subsiste a lenda de que essa Casa Pia principalmente
+tem corrido com a despeza,&#8213;o que n&atilde;o honraria muito
+a administra&ccedil;&atilde;o de um estabelecimento de
+caridade,&#8213;ou que esta
+despeza em pouco ou nada tem sobrecarregado o E
+E como se creou e subsiste a lenda de que essa Casa Pia principalmente
+tem corrido com a despeza,&#8213;o que n&atilde;o honraria muito
+a administra&ccedil;&atilde;o de um estabelecimento de
+caridade,&#8213;ou que esta
+despeza em pouco ou nada tem sobrecarregado o Estado, parece-me
+tambem n&atilde;o ser inopportuno, indicar como e de onde essa
+enorme somma proveio:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;">Donativo do Rei D.
+Fernando</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">26:866$664</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;">Subscrip&ccedil;&atilde;o
+no
+Brazil</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">4:853$332</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;">Donativos
+particulares</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">6:000$500
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;">Juros de emprestimos ao
+Estado e
+particulares</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">16:881$358</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Juros
+de depositos nos
+Bancos</td>
+
+ <td style="text-align: right;">251$754</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Venda
+de diversos
+objectos</td>
+
+ <td style="text-align: right;">903$052</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Suprimentos
+feitos pelo <em>Cofre da Casa
+Pia</em></td>
+
+ <td style="text-align: right;">20:000$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Loterias
+extraordinarias <em>auctorisadas pelo
+Estado</em></td>
+
+ <td style="text-align: right;">135:672$284</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;">Directamente <em>fornecido
+pelo
+Estado</em></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">146:200$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">
+ <hr /></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 439px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 153px;">358:628$444</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; muito arriscado duplicar esta somma para nos
+approximar-mos
+da despeza feita at&eacute; hoje?
+<br />
+
+<br />
+
+E pensar a gente que tudo se gastou e consumiu para n&atilde;o ver
+o Monumento concluido, nem saber sequer, e ainda, como
+dever&aacute;
+concluir-se melhor; para n&atilde;o ter a Casa Pia convenientemente
+alojada,
+nem pensar at&eacute; em removel-a d'ahi e collocal-a e installal-a
+mais rasoavelmente!...
+<br />
+
+<br />
+
+Quem de boa f&eacute; e de regular senso deixar&aacute; de ver
+que a simples
+e consideravel verba despendida para obter a derrocada providencial
+de 1878, nos podera ter dado o Monumento restaurado,
+e a Casa Pia installada nas condi&ccedil;&otilde;es
+fundamentaes e praticas de
+um internado asylar moderno, muito f&oacute;ra ou muito longe
+d'ahi, &eacute;
+claro?
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto se gasta annualmente; quanto se tem gasto at&eacute; hoje,
+s&oacute;mente em apropriar e conservar a essa mesma Casa Pia
+aquelle
+alojamento improprio?
+<br />
+
+<br />
+
+A 295:118$834 r&eacute;is se elevava j&aacute; essa despeza em
+1892.<sup><a href="#7">[7]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>II
+</h3>
+
+<br />
+
+Pondo em evidencia as <em>obras</em> e a
+descoberto as ideias que a
+ellas presidiam, a incompetencia que as dirigia e os processos
+adoptados na concep&ccedil;&atilde;o e
+execu&ccedil;&atilde;o d'ellas, parecera que veriamos
+abrir logar e tempo &aacute; reflex&atilde;o, ao estudo,
+&aacute; critica conscienciosa e idonea.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+Pagaramos um ensaio mal pensado, precipitadamente preparado,
+executado desalmada e aventurosamente. Ha males que
+veem por bem.
+<br />
+
+<br />
+
+O desastre era uma lic&ccedil;&atilde;o cruel, mas era uma
+lic&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia isto natural, rasoavel, pratico.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foi, por&eacute;m, o que succedeu.
+<br />
+
+<br />
+
+Passadas as primeiras sugest&otilde;es, a bem dizer instinctivas
+dos
+erros ou das illus&otilde;es incorridas; retrahidos e vexados, por
+algum
+tempo, os primeiros impetos irreflectidos e mallogrados, reabriu-se
+a mesma situa&ccedil;&atilde;o e reincidiram as mesmas ideas e
+processos,
+aproximadamente, de maneira que passados 32 annos depois do
+come&ccedil;o das <em>obras</em>, e 17,
+depois da derrocada, continuamos a ter
+<em>obras</em> e a n&atilde;o ter o
+Monumento reconstituido, ou a fazel-as e desfazel-as,
+apenas mais recatadamente, um pouco, sem plano, sem
+pensamento, sem destino definitivo e s&eacute;rio.<sup><a href="#8">[8]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+Posto de parte o primeiro ou o unico plano geral,&#8213;o de Colson,&#8213;todos
+os projectos parcelares mais ou menos desenvolvidos
+teem um caracter de fantasista apparato, obdecendo evidentemente
+&aacute; idea de uma construc&ccedil;&atilde;o nova que
+possa hombrear com a grandesa
+e o aspecto da parte primitiva do Templo, que exceda at&eacute;
+essa grandesa ou dispute a ac&ccedil;&atilde;o esthetica e
+impressionista d'esse
+aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez adoptada ou imposta tal idea, nada mais natural do
+que perder-se de vista e da vontade a simples
+reconstitui&ccedil;&atilde;o ou
+repara&ccedil;&atilde;o harmonica do velho Monumento, para, em
+vez d'isto,
+p&ocirc;r a aspira&ccedil;&atilde;o e o esfor&ccedil;o
+na fabrica de um monumento novo ou
+de uma remodela&ccedil;&atilde;o imaginaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha uma circumstancia que por si basta para comprovar de
+maneira irrecusavel e decisiva a obsess&atilde;o que s&oacute;
+o desejo leal de
+a ninguem offender nos obriga a n&atilde;o chamar estupida, d'este
+proposito
+monotonamente repetido.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a reincidencia no chamado &laquo;corpo
+central&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Central, como?
+<br />
+
+<br />
+
+Central, de que?
+<br />
+
+<br />
+
+Central, porque?
+<br />
+
+<br />
+
+Porque se projecta e separa petulantemente em monumento
+novo, em edificio authonomo, a nova construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p13">[13]</a></span>
+Mas, ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; o verdadeiro, o
+genuino Monumento que se
+quer honradamente, sensatamente, restituir, reparar, conservar!
+Quebra-se, mutila-se a sua estructura e o seu caracter. Interrompe-se
+com a sua integridade material, a sua ras&atilde;o, a sua
+inten&ccedil;&atilde;o
+historica, at&eacute; a sua unidade esthetica.
+<br />
+
+<br />
+
+Se ao menos, se contentassem, modestamente, com exhibir e
+ensaiar <a href="#e7">a luxuosa</a> fantasia dos
+porticos de
+apparato ou dos torre&otilde;es
+de conven&ccedil;&atilde;o, na fachada occidental, apenas, onde
+devera ser e
+era a entrada da galilea, longe, por conseguinte, do grande portal
+<em>manuelino</em> e sem contraste immediato
+com a fachada longitudinal
+da edifica&ccedil;&atilde;o, uma certa attenuante podera
+encontrar-se &aacute; desastrada
+id&eacute;a. Seria a de querer dotar com uma entrada de
+ostenta&ccedil;&atilde;o
+e de luxo, sem prejuizo ou sem quebra do aspecto
+geral do edificio, a parte d'elle que n&atilde;o podendo
+j&aacute; destinar-se
+a Convento, teria de alojar privativamente uma
+institui&ccedil;&atilde;o differente.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o. A fachada meridional &eacute; que seduz e
+prende a preten&ccedil;&atilde;o
+vaidosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo no come&ccedil;o das obras, dizem os documentos officiaes que
+se demoliram&#8213;&laquo;janellas magnificas&raquo;,&#8213;e demoliu-se
+a &laquo;sala dos
+Reis,&raquo;&#8213;e o primeiro lan&ccedil;o da galilea,
+j&aacute; deturpado, &eacute; certo, mas,
+em todo o caso, liga&ccedil;&atilde;o historica, necessaria do
+Templo com o
+Mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Cortou-se, depois, este ultimo, a meio da fachada, para dar logar
+a um forte&#8213;&laquo;corpo central&raquo;,&#8213;uma entrada e
+escadaria privativa,
+apparatosa; um torre&atilde;o altaneiro, inexplicavel, que
+dominasse
+toda a vasta tra&ccedil;a do Monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Setenta e dois metros de altura attingira o que desabou como
+um castello de cartonagem, em 1878.
+<br />
+
+<br />
+
+E poucos annos decorridos depois da catastrophe, quando ao
+abrigo do mais extraordinario abandono official, se ensaiava novamente
+o proseguimento das <em>obras</em>, a
+obsess&atilde;o do &laquo;corpo central&raquo;
+retoma a dianteira d'ellas, o principal logar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 13 de outubro de 1882, o director da Casa Pia de Lisboa,
+apresenta e prop&otilde;e o projecto de uma nova torre e portico
+central,
+de 60 metros d'altura, e prevenindo divergencias de gosto ou
+procurando satisfazer todos os paladares bureaucraticos que tivessem
+de sentenciar no assumpto, d&aacute;-se ao curioso incommodo de
+esbo&ccedil;ar <em>onze</em> torres ou
+porticos &laquo;centraes&raquo; diversos. Onze!
+<br />
+
+<br />
+
+Que n&atilde;o se averbe a conta de censura individual, o reparo,
+que o n&atilde;o &eacute;, e tanto que tomo o projecto
+Valladas, por exemplo, como podera tomar qualquer outro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p14">[14]</a></span>
+Com o mais authorisado me poupo &aacute; referencia e &aacute;
+critica dos
+outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta facilidade, esta prodigalidade de concep&ccedil;&atilde;o
+artistica do
+membro principal, da edifica&ccedil;&atilde;o imaginada, para
+conclus&atilde;o condigna
+e harmoniosa do grande monumento, corresponde perfeitamente
+&aacute; geral ausencia de um estudo s&eacute;rio e de uma
+segura e nitida
+percep&ccedil;&atilde;o do caracter, do estylo, da
+significa&ccedil;&atilde;o d'elle, da
+sua integridade historica.
+<br />
+
+<br />
+
+E que admira isto?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o vemos e ouvimos todos os dias confundir o gothico
+portuguez,
+o <em>Manuelino</em>, com o gothico florido;
+at&eacute; com o gothico simples;
+quando muito imaginal-o mal definida ou barbara variante
+decorativa, esquecidas ou desdenhadas as mais evidentes
+differencia&ccedil;&otilde;es
+e fei&ccedil;&otilde;es architectonicas?
+<br />
+
+<br />
+
+Parecendo ter o instincto d'essa desorientada
+situa&ccedil;&atilde;o, a Junta
+Consultiva de Obras Publicas, objecta, em 22 de maio de 1883, o
+que chama o&#8213;&laquo;gosto pyramidal&raquo;&#8213;da nova torre
+proposta, gosto
+ou forma similar &aacute; dos scenographicos miranetes dos angulos
+da
+reconstruc&ccedil;&atilde;o ensaiada;&#8213;reconhece que
+simplesmente se procura
+n'uma engenhosa combina&ccedil;&atilde;o de arcos botantes e
+<a href="#e8">botareus</a>,&#8213;como
+se elles fossem meros elementos decorativos,&#8213;&laquo;mascarar
+o esguio e n&uacute; que se notava na
+construc&ccedil;&atilde;o anterior&raquo;,&#8213;mas
+condescende infelizmente com a ideia d'esse &laquo;corpo
+central&raquo;, aconselhando
+que elle adopte, de preferencia, a forma de uma&#8213;&laquo;torre
+quadrangular&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ent&atilde;o podera orgulhar-se aquella illustre
+corpora&ccedil;&atilde;o, de
+achar-se isempta de responsabilidades n'esta longa e picaresca
+historia das <em>obras</em> de Belem,
+tendo-se recusado a authorisar ou
+approvar quaesquer projectos anteriores.
+<br />
+
+<br />
+
+E se a substitui&ccedil;&atilde;o que aconselha no projecto
+Valladas parece
+&aacute; primeira vista comprometter um pouco esta feliz
+isemp&ccedil;&atilde;o, tem
+pelo menos o valor de ser o primeiro rebate, a primeira nota suggestiva
+de um facto capital que mal se comprehende que tenha sido
+teimosamente inobservado e desattendido por quantos teem projectado
+e
+engenhado&#8213;&laquo;concluir&raquo;&#8213;ou&#8213;&laquo;restaurar&raquo;&#8213;o
+longo e
+formoso Monumento, alteando-lhe o aspecto e a estructura n'uma
+florescencia aeria de botareus brincados e de arrojadas agulhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Consiste esse facto em que a linha ascencional, as curvas
+apertadas, as formas esguias, hieraticas, pyramidaes do velho gothico,
+n&atilde;o s&atilde;o j&aacute; as
+fei&ccedil;&otilde;es, as tendencias predominantes do
+<em>Manuelino</em>
+que se objectiva e desenvolve em fortes massas longitudinaes,
+como arcabou&ccedil;os de gale&otilde;es, sob o simultaneo
+influxo da
+<span class="pagenum"><a name="p15">[15]</a></span>
+Descoberta oriental que impulsa os espiritos para as grandesas
+terrenas e da Renascen&ccedil;a greco-romana que incendeia a Arte
+no
+idealismo pag&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; certamente o instincto, e nem admira que n&atilde;o
+seja a doutrina
+segura e nitida, d'este facto, o que move aquelle tribunal de
+consulta technica a contrap&ocirc;r o&#8213;&laquo;typo rectangular
+e pouco elevado&raquo;,&#8213;como
+diz, ao que qualifica de&#8213;&laquo;typo pyramidal&raquo;,&#8213;das
+<em>obras</em>, por mais conforme e
+harmonioso com o typo primitivo,
+<em>manuelino</em>, do
+Monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, encontrando, a bem dizer, separada e authonoma a
+construc&ccedil;&atilde;o nova que devera ser simples
+continua&ccedil;&atilde;o da antiga,
+comprehende se que uma junta official de engenheiros,&#8213;e n&atilde;o
+de
+artistas ou de criticos d'arte,&#8213;transigisse com a idea de dotar
+essa construc&ccedil;&atilde;o com um portico, com uma entrada
+apparatosa,
+com um &laquo;corpo central&raquo;, privativo e imponente.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas que esse &laquo;corpo central&raquo;,
+recommenda&#8213;n&atilde;o siga o typo
+pyramidal dos miranetes j&aacute; infelizmente construidos.
+<br />
+
+<br />
+
+E tanto, realmente, a quest&atilde;o insensivelmente se deslocara
+da
+idea inicial e geral das <em>obras</em> para
+a d'aquelle monumento novo,
+que sobre os projectos de conclus&atilde;o d'elle n&atilde;o
+tardou em incidir a
+senten&ccedil;a official, technica, por aquelle mesmo tribunal
+formulada
+de que o &laquo;corpo central&raquo; haveria de elevar-se
+alguns metros acima
+dos miranetes angulares, especie de balisas e enfeites terminaes
+d'esse monumento novo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podendo, pois, considerar-se approvado o projecto
+Valladas,
+nem tendo sido fixada em outro a substitui&ccedil;&atilde;o
+indicada pela
+Junta Consultiva, continuaram as cousas no mesmo estado de incerteza
+e de arbitrio, aggravado ainda por novas irreflex&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o mesmo desceremonioso criterio, ou com a mesma falta
+d'elle, com que se destinara o historico edificio a
+institui&ccedil;&atilde;o asylar
+de crean&ccedil;as, projectando-se restituil-o &aacute; sua
+integridade monumental,
+formou-se e realisou-se a idea de o ir aproveitando e adaptando,
+aos peda&ccedil;os, para asylo de outras
+institui&ccedil;&otilde;es que pelas
+suas proprias exigencias fundamentaes desparatavam com essa
+installa&ccedil;&atilde;o
+ali, e nenhuma rela&ccedil;&atilde;o de consonancia e de
+harmonia critica
+poderiam ter com o Monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim foi que um pseudo Museu Industrial, especie de Cabe&ccedil;a
+de Pau de rebotalhos esmolados, sem caracter nem
+lic&ccedil;&atilde;o que de
+longe lembre os bellos e instructivos Museus Industriaes de Vienna
+ou Berlim, p&ocirc;de petulantemente pregar um lettreiro garrafal e
+reles
+sobre <a href="#e9">a graciosa</a> e rendada
+archeologia de
+uma parte da fachada
+interrompida; como nas paredes do formosissimo e magestoso
+<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span>
+claustro se exhibem os desenhos e aguadas dos collegiaes, e ferem
+importunos e irreverentes, as fortes e velhas abobodas destinadas
+a abrigar a paz dos cora&ccedil;&otilde;es e a
+devo&ccedil;&atilde;o dos espiritos, os toques
+da corneta e as voses da ordenan&ccedil;a n'um simulacro de
+caserna.
+<br />
+
+<br />
+
+Ultimamente se alojou l&aacute;, tambem, um outro
+servi&ccedil;o, um outro
+pseudo-museu, com o apendice de uma esta&ccedil;&atilde;o
+chimico agricola,
+se bem me lembro.
+<br />
+
+<br />
+
+Decerto, na impress&atilde;o immediata e geral o escandalo
+n&atilde;o ser&aacute;
+tal ou tamanho como o do gazometro que defuma mais adiante a
+joia manuelina da Torre, aquelle bruto aventesma que parece
+propositadamente
+postado l&aacute; para justificar a phrase que Garrett punha
+na bocca dos extranhos quando entrassem o Tejo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Aqui moram barbaros!...</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Mas pelo que tenho tido mais de uma vez occasi&atilde;o de
+observar,
+o visitante, o forasteiro culto, o observador educado, o pensador
+delicado que tenha o culto, o amor, o fino sentimento da
+harmonia, da ordem, da consonancia ideal das cousas, dir&aacute;
+que a
+Casa Pia &eacute; uma excellente institui&ccedil;&atilde;o,
+dedicada e intelligentemente
+servida e dirigida; que o Museu &eacute; bonito e poderia ser util,
+que
+&eacute; lamentavel at&eacute;, que lhe n&atilde;o
+d&ecirc; o Estado mais <a href="#e10">recursos</a>
+para
+melhor valer, mas que tudo isso fica mal ali; que disparata
+irritantemente
+com o caracter, com a significa&ccedil;&atilde;o, com a propria
+estructura
+do Monumento; que interrompe ou affronta a integridade,
+a dignidade d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Se esse visitante f&ocirc;r um medico, um hygienista ou um
+pedagogista
+serio, dir&aacute; que &aacute; propria
+institui&ccedil;&atilde;o asylar, &aacute;s
+condi&ccedil;&otilde;es e &aacute;s
+conveniencias da sua natureza e destino repugna aquelle alojamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Se pensar, e souber, seriamente, o que s&atilde;o museus; o que
+s&atilde;o,
+especialmente, museus industriaes; porque e para que se querem
+e se fazem; se os tiver visto
+<em>funccionando</em>, frequentados, todos os
+dias, por artistas, por operarios, por mestres e patr&otilde;es das
+grandes
+e pequenas industrias que v&atilde;o ali beber a
+li&ccedil;&atilde;o directa, pratica
+immediata dos modelos, da m&atilde;o d'obra, do fabrico, dos
+pre&ccedil;os, e
+n&atilde;o apenas, em desenfadamentos de domingos e feriados por
+curiosos
+burguezes: esse visitante observar&aacute; que o museu
+est&aacute; mal,
+deslocado, pouco menos que inutilisado ali, f&oacute;ra das grandes
+correntes
+de circula&ccedil;&atilde;o, dos centros mais activos do
+trabalho industrial.
+<br />
+
+<br />
+
+Se f&ocirc;r ent&atilde;o um artista...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas para que procurar novos exemplos?
+<br />
+
+<br />
+
+A impress&atilde;o ser&aacute; commum.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+Esse visitante dir&aacute;:&#8213;&laquo;Esta gente ou este Estado
+n&atilde;o tem a
+comprehens&atilde;o, a vontade, a disciplina, <em>a
+medida</em> exacta, racional,
+das cousas bellas, uteis, praticas da vida nacional. Mistura tudo:
+um asylo de pobreza, com um monumento d'Arte; um padr&atilde;o de
+Historia com um museu de Industrias; a archeologia, a beneficiencia,
+a fabrica; a descoberta da India, a infancia desvalida, o trabalho
+manual e mechanico. Na Torre de Belem, pozeram um pharol,
+alguns postes telegraphicos, e a formar-lhe o fundo um gazometro,
+e montanhas de carv&atilde;o; qualquer dia d&atilde;o o
+Convento de
+Christo de arrendamento a um fabricante de pannos; j&aacute; uma
+vez
+derrubaram um lan&ccedil;o do Castello de Leiria para offerecer uma
+pequena orgia pyrotechnica a uma visita regia. N&atilde;o fizeram
+ha
+pouco da celebre estatua do Terreiro do Pa&ccedil;o, centro
+ornamental
+de uma barraca de feira, e da columna do Rocio, poste de
+illumina&ccedil;&atilde;o
+chineza? E o mais e o mais...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Voltemos, por&eacute;m, aos Jeronymos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora &eacute; claro que independentemente das
+adapta&ccedil;&otilde;es com que
+os hospedes alludidos ir&atilde;o alterando e deformando, mais ou
+menos
+disfar&ccedil;adamente, o Monumento, n&atilde;o pode ser
+indifferente ao
+caracter e &aacute; integridade d'elle se lealmente se pretende
+restaurar ou
+restituir, o seu destino, a sua applica&ccedil;&atilde;o
+actual, at&eacute; porque tal circumstancia
+ou tal elemento pode quebrar ou pode completar essa
+integridade; pode affrontar ou pode enaltecer esse caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o fica a bem dizer, completa e perfeita a
+restitui&ccedil;&atilde;o monumental
+somente com affei&ccedil;oar mais ou menos o plano e a pedra
+&aacute;
+f&oacute;rma primativa.
+<br />
+
+<br />
+
+No Monumento fundiu-se uma idea; reside e perpetua-se
+n'elle uma inten&ccedil;&atilde;o, um culto, uma
+consagra&ccedil;&atilde;o historica que
+se quer respeitar desde que se quer conservar e restaurar o
+Monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+Se n&atilde;o se comprehende, se n&atilde;o se sente, se
+n&atilde;o se respeita
+isto, parece hypocrisia o empenho e o cuidado da
+conserva&ccedil;&atilde;o material.
+<br />
+
+<br />
+
+O monumento commemorativo de um feito que synthetisa e
+glorifica o nome, o esfor&ccedil;o, a miss&atilde;o historica
+de um povo atravez
+das idades e das na&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o
+p&oacute;de ser vasadouro ou asylo eventual
+de servi&ccedil;os e institui&ccedil;&otilde;es avulsas sem
+caracter nem significa&ccedil;&atilde;o
+que com a d'elle condiga n'uma expontanea e nobre consonancia
+moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Santa Maria de Belem &eacute; o
+<em>Te-Deum</em> que agradece e celebra a
+victoria da idea, da f&eacute; e do esfor&ccedil;o que
+alargaram o nome e a terra
+da Patria portugueza, como Santa Maria da Victoria canta e celebra
+<span class="pagenum">[18]</span>
+o triumpho do direito, da vontade, da ras&atilde;o das
+gera&ccedil;&otilde;es que
+fizeram essa Patria, independente e soberana.
+<br />
+
+<br />
+
+Completam-se e continuam como padr&otilde;es do desenvolvimento
+de um povo no tempo e no espa&ccedil;o, na sua solidariedade
+historica
+e na sua individualidade politica.
+<br />
+
+<br />
+
+Pertencem &aacute; historia d'esse paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o monumentos religiosos, menos j&aacute; porque o
+sejam de uma
+cren&ccedil;a mystica do que porque o s&atilde;o da honra e do
+nome commum.
+<br />
+
+<br />
+
+Guardar, conservar, reparar, amoravelmente, devotamente, taes
+monumentos,&#8213;estes como tantos;&#8213;restituir aos Jeronymos,&#8213;que
+&eacute; o caso especial, opportuno, que nos preoccupa,&#8213;a
+continuidade,
+a integridade, a conclus&atilde;o panoramica, esthetica,
+monumental:
+nada mais honesto, mais digno, mais affirmativo da nossa
+dignidade civica e da nossa cultura moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o &eacute; tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um elemento d'essa restitui&ccedil;&atilde;o &eacute; hoje
+irrestituivel. Perdeu-se;
+n&atilde;o pode restaurar-se; porque n&atilde;o era, como os
+outros ou como
+a Arte, necessario e eterno. Ha de sempre succeder isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas como n&atilde;o ha Jeronymos a alojar, nem poder&aacute;
+resuscitar-se
+a institui&ccedil;&atilde;o que desappareceu na
+evolu&ccedil;&atilde;o do tempo, das necessidades,
+do modo de ser social, para vir de novo povoar a monumental
+fabrica, outra ter&aacute; de escolher-se e outra se escolha que se
+conforme com a significa&ccedil;&atilde;o, com a finalidade,
+com o caracter historico,
+fundamental e perenne, do Monumento; com a
+inten&ccedil;&atilde;o,
+com a affirma&ccedil;&atilde;o subsistente e actual d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; bem de ver que assim como n&atilde;o se teria feito
+o Convento
+se n&atilde;o houvesse frades, n&atilde;o se ha de
+reconstituil-o para o deixar
+vasio e inutil &aacute;s necessidades da vida e da
+administra&ccedil;&atilde;o nacional
+moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+Teve j&aacute; uma certa voga o pensamento de destinar o Templo, a
+jazida dos restos de cidad&atilde;os benemeritos e illustres; a
+Pantheon
+Civico, como costuma dizer-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Arriscada e difficil na execu&ccedil;&atilde;o, a idea era ao
+primeiro aspecto
+perfeitamente pratica e sympathica: restricta aos nomes ou aos
+personagens sobre os quaes passou j&aacute; o juizo da Historia,
+tinha
+at&eacute; a vantagem de nos redimir de muitas vergonhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Melhor, talvez do que no Templo, propriamente dito, na vasta
+gallilea, poderiam recolher-se, em sarcophagos de pedra, os restos
+dispersos dos heroes da Descoberta, dando-lhe assim o destino historico
+de <em>Campo Santo</em> que t&atilde;o
+naturalmente se harmonisaria, at&eacute;,
+com a tradic&ccedil;&atilde;o d'aquella especie de
+construc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Com rela&ccedil;&atilde;o &aacute; parte conventual, n'uma
+commiss&atilde;o official de
+<span class="pagenum">[19]</span>
+que fiz parte, ha annos, foi lembrado que ficaria ahi adquadamente
+installado o museu de Bellas-Artes, esse pobre nomada que
+n&atilde;o
+obteve ainda alojamento proprio, e a Escola correspondente que
+talvez podesse chamar-se assim do seu feiticismo academico e
+extrangeirista
+&aacute; contempla&ccedil;&atilde;o e ao amor da Arte
+nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas os Museus e as Escolas tem condi&ccedil;&otilde;es
+especiaes de installa&ccedil;&atilde;o
+que n&atilde;o poderiam facilmente realisar-se no edificio de
+Belem, sem prejuizo da estructura d'elle, al&eacute;m de convir aos
+primeiros,
+especialmente, quando dotados de um caracter e destino
+de applica&ccedil;&atilde;o actual, uma
+situa&ccedil;&atilde;o mais central e accessivel, &aacute;
+beira das grandes correntes de circula&ccedil;&atilde;o urbana.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora succede que uma institui&ccedil;&atilde;o existe de um
+capital e universal
+interesse social e historico, e de um caracter que perfeitamente
+se harmonisa com o do monumento, tanto que logo na
+funda&ccedil;&atilde;o
+delle podera ter-se-lhe associado, e n&atilde;o offerece, hoje
+ainda, exigencias
+de adapta&ccedil;&atilde;o que o contrariem.
+<br />
+
+<br />
+
+Acresce que essa institui&ccedil;&atilde;o impropriamente
+installada, n&atilde;o tem
+j&aacute; alojamento que em boas e seguras
+condi&ccedil;&otilde;es lhe comporte o
+continuo e necessario desenvolvimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o Archivo Nacional, a tradiccionaria
+<em>Torre do Tombo</em>, o riquissimo
+e genuino repositorio da vida da Na&ccedil;&atilde;o em todos
+os seus
+elementos e em todas as suas evolu&ccedil;&otilde;es;
+j&aacute; se v&ecirc;: o Archivo Nacional
+reformado, ampliado, restituido &aacute; sua nobre e justa
+authonomia,
+recolhendo e reunindo todas as folhas dispersas da Historia
+Portugueza, desde os humildes codices dos conventos, das freguezias,
+dos bispados, que apodrecem por esse paiz f&oacute;ra armazenados
+nas Camaras Ecclesiasticas, at&eacute; aos mais graduados diplomas
+da vida do Estado, cuja ordena&ccedil;&atilde;o, cuja
+authenticidade at&eacute;,
+anda arriscada, de ha muito, na falta de um registamento central
+e alheio ao simples expediente vario das
+reparti&ccedil;&otilde;es bureaucraticas.
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o s&oacute; recolhendo e colligindo as folhas de
+pergaminho e de
+papel, mas as de pedra e de bronze em que essa Historia se fixa:
+Archivo e museu archeologico portuguez, ao mesmo tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Onde poder&aacute; encontrar-se mais propria e grandiosa arca para
+encerrar taes thesouros?
+<br />
+
+<br />
+
+Que mais condigno deposito poder&aacute; confiar-se
+&aacute;quellas fortes
+e venerandas muralhas e abobodas impregnadas da
+tradi&ccedil;&atilde;o gloriosa
+da Na&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Como se ajustariam conteudo e continente n'uma imponente e
+sugestiva harmonia de estimulos e de saudades; n'um mesmo culto
+e n'um mesmo testemunho de honra e de nobreza?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p20">[20]</a></span>
+E depois, seria talvez o caso unico em que n&atilde;o tivesse de
+sacrificar
+se o Monumento &aacute;
+institui&ccedil;&atilde;o hospedada ou de prejudicar
+esta para poupar aquelle.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>III
+</h3>
+
+<br />
+
+Conveniencias occasionaes de administra&ccedil;&atilde;o ou de
+politica entregando
+ultimamente as <em>obras</em> de Belem a uma
+Reparti&ccedil;&atilde;o regularmente
+official e technica:&#8213;a da conserva&ccedil;&atilde;o dos
+edificios publicos,&#8213;pareceram
+encerrar, em fim, a historia aventurosa e tumultuaria
+d'essas <em>obras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 17 de mar&ccedil;o de 1894 essa
+Reparti&ccedil;&atilde;o, expondo ao Governo
+a conveniencia de concluir as <em>obras</em>
+e de as ter terminadas
+por occasi&atilde;o do Centenario da India, propoz que se abrisse
+um
+concurso entre architectos nacionaes para se fixar definitivamente
+o caracter e projecto d'essa conclus&atilde;o. Concordando, o
+Conselho
+d'obras publicas aconselhava, em 7 de maio, que o Director dos
+edificios
+<a href="#e11">publicos</a> procedesse &aacute;
+elabora&ccedil;&atilde;o do programma do concurso
+no sentido de obter um projecto de conclus&atilde;o expedita e
+economica,
+&laquo;t&atilde;o simples quando o permitisse o estylo
+Manuelino&raquo;, e em
+21 do mesmo mez mandava o Ministro que esse Director desse seguimento
+&aacute; proposta e parecer alludidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas sobrecarregado com outros encargos, hesitando, talvez, na
+defini&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es
+fundamentaes do concurso ou na propria
+idea e conveniencia d'elle, este funccionario apresenta, um anno
+depois,
+em 21 e 27 de maio de maio de 1895, n&atilde;o o programma do
+concurso que proposera, mas um projecto de conclus&atilde;o
+elaborado
+pelo architecto Parente da Silva que lhe annuncia a remessa proxima
+de quatro ou cinco projectos ou variantes em
+prepara&ccedil;&atilde;o
+ainda;&#8213;outro projecto de um habil desenhador da
+Reparti&ccedil;&atilde;o e
+n'ella elaborado,&#8213;finalmente a idea propria, tambem transferida
+para um projecto,&#8213;de se prescindir da
+construc&ccedil;&atilde;o de um &laquo;corpo
+central&raquo;, completando a fachada na f&oacute;rma e estylo
+uniforme dos dois
+lan&ccedil;os d'ella que subsistem, idea e projecto que alem de
+preferir
+por mais expedita e barata, acabara por intransigentemente considerar
+a mais adquada e racional.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;A melhor, a unica solu&ccedil;&atilde;o que o
+proprio sentimento patriotico
+e artistico recommendam&raquo;,&#8213;diz,
+ent&atilde;o,&#8213;&laquo;&eacute;, para mim, indiscutivelmente
+a construc&ccedil;&atilde;o seguida dos mesmos membros e
+v&atilde;os
+ja construidos, rigorosamente identicos, <em>sem corpo
+algum central</em>.&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p21">[21]</a></span>
+E tendo entendido dever amparar a sua idea na opini&atilde;o de
+alguns
+consultores avulsos, um d'estes o architecto Jos&eacute; Maria
+Nepomuceno
+mais accentuadamente a explica observando que a circumstancia
+do eixo longitudinal das arcadas coincidir com o eixo
+maior do Templo e a de todos os pilares dos arcos serem egualmente
+distanceados, provam a uni&atilde;o entre a galilea e aquelle, e
+confirmam a indica&ccedil;&atilde;o historica de que a serie
+dos arcos era desempedida
+e desafrontada, sem obstaculo algum, at&eacute; &aacute; porta
+occidental
+da Igreja: conclue, pois, por considerar contrario ao caracter
+primitivo da construc&ccedil;&atilde;o, o famoso
+&laquo;corpo central&raquo; tantas vezes
+imaginado.
+<br />
+
+<br />
+
+Manda a justi&ccedil;a dizer que este teimoso disparate do
+&laquo;corpo
+central&raquo;, agora mais doutrinariamente frisado pelo architecto
+Nepomuceno,
+parecera ter sido j&aacute; percebido antes, pois que de uma
+allus&atilde;o do processo official se depreende que pouco depois
+da derrocada
+de 1878 um engenheiro, o Sr. Cabral Couceiro, proposera
+que se prescindisse de vez d'essa excrecencia phantasista e impropria.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto aos dois outros projectos elogiosamente apresentados
+pelo Director dos edificios publicos, visando ambos &aacute;
+construc&ccedil;&atilde;o
+de um &laquo;corpo central&raquo; mais ou menos aparatoso,
+dispenso-me de
+occupar-me d'elles, depois do que deixei escripto atraz, relativamente
+a esta deploravel idea de scindir o Monumento em dois, ou
+a esta extraordinaria incomprehens&atilde;o historica e
+<a href="#e12">artistica</a> da estructura
+e do typo do grande monumento Manuelino. Mas n&atilde;o ficaria
+bem com a minha consciencia deixando de reconhecer que se
+esse &laquo;corpo central&raquo; n&atilde;o fosse
+fundamentalmente uma deforma&ccedil;&atilde;o,
+o imaginado pelo desenhador Bemvindo A. Ceia, n'um dos dois projectos
+alludidos, seria de quantos at&eacute; hoje teem sido propostos, o
+que menos brigaria com o typo e com o caracter <a href="#e13">architectonico</a>
+e
+esthetico do Monumento, pela sua f&oacute;rma geral e pelas suas
+linhas
+e fei&ccedil;&otilde;es de decora&ccedil;&atilde;o e
+estructura.
+<br />
+
+<br />
+
+Evidentemente, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; a uma
+reparti&ccedil;&atilde;o de simples expediente
+technico de conserva&ccedil;&atilde;o e
+repara&ccedil;&atilde;o dos edificios do Estado
+que pertence prop&ocirc;r ou deliberar qual seja a melhor,&#8213;quanto
+mais a &laquo;unica&raquo;,&#8213;solu&ccedil;&atilde;o de
+obras da natureza e com o fim d'aquellas
+que se pretendem concluir no Monumento de Belem.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde a sua recente reorganisa&ccedil;&atilde;o se occupara
+d'ellas a Commiss&atilde;o
+dos Monumentos Nacionaes, e justamente apprehensiva
+pela lic&ccedil;&atilde;o do passado e pelos exemplos do
+presente com esta manifesta
+tendencia de absorp&ccedil;&atilde;o bureaucratica do assumpto,
+j&aacute; em
+officio de 29 de julho de 1894 e em conferencias verbaes com os
+<span class="pagenum"><a name="p22">[22]</a></span>
+Ministros das Obras Publicas, exposera a necessidade de que elle
+fosse larga e competentemente estudado, reividicando, mesmo, o
+direito que pelo seu regulamento lhe era attribuido, quando
+n&atilde;o
+lh'o fosse pelo proprio facto da sua institui&ccedil;&atilde;o
+official, de ser ouvida
+sobre quaesquer projectos que t&atilde;o grave e intimamente
+interessavam
+um dos nossos mais notaveis Monumentos.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este pensamento t&atilde;o simples e justo, naturalmente nos
+encontr&aacute;mos
+com o criterio illustrado e patriotico do actual <a href="#e14">Ministro</a>,
+que fazendo sobrestar em todas as propostas e instancias recebidas,
+ordenou, em 29 de maio ultimo, que nos fosse enviado o processo
+para que sobre elle podessemos proferir o parecer e voto do
+nosso estudo e da competencia que a lei nos attribuiu.
+<br />
+
+<br />
+
+A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; clara e simples.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos achamos a contas com o problema aberto de uma
+construc&ccedil;&atilde;o, de uma
+restaura&ccedil;&atilde;o, de uma
+restitui&ccedil;&atilde;o monumental.
+<br />
+
+<br />
+
+Achamo-nos em face de umas certas obras de
+construc&ccedil;&atilde;o emprehendidas
+inteiramente f&oacute;ra da nossa responsabilidade, com o
+fim de substituir edifica&ccedil;&otilde;es demolidas e de
+continuar e completar
+o Monumento dos Jeronymos por uma f&oacute;rma que se entendeu
+melhor conformar-se com o caracter d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Como essas obras n&atilde;o obedeceram a um plano geral definido
+e certo, pergunta-se como terminal-as e concluil-as n'uma mais
+proxima e mais segura harmonia com o aspecto, o caracter, a
+significa&ccedil;&atilde;o
+historica e artistica do Monumento.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; s&oacute; isto, mas n&atilde;o &eacute; menos
+do que isto.
+<br />
+
+<br />
+
+Porque a quest&atilde;o hoje creio que s&oacute;
+p&oacute;de ser ou que &eacute; s&oacute;,
+esta:&#8213;concluir essas <em>obras</em>, como
+quem dissera: trancar e resgatar
+esse escandalo, procurando restituir o Monumento, tanto e
+como possivel ainda, &aacute; sua intrigridade architectonica,
+panoramica
+critica, por maneira que corresponda ao objectivo moral e ao objectivo
+pratico que podem authorisar um Estado regularmente administrado
+e um povo authenticamente culto a emprehender e fazer
+uma obra d'esta natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de j&aacute;, &eacute; claro,
+corrigir-se todos os erros; expurgar o
+trabalho feito de todos os aleij&otilde;es; desagravar a Historia e
+a Arte
+de todas as violencias, de todos os attentados soffridos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha de deitar-se abaixo quanto se fez.
+<br />
+
+<br />
+
+A brutalidade de um segundo desabamento poderia ser util,
+podera parecer providencial, como foi irrecusavelmente o primeiro,
+mas o Estado n&atilde;o faz derrocadas e n&atilde;o pode
+proceder brutalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim de contas, est&atilde;o gastos ali mais talvez de 500 contos
+de
+<span class="pagenum">[23]</span>
+r&eacute;is;&#8213;358 vimos j&aacute; que se tinham gasto
+at&eacute; 1878, em 15 annos,&#8213;e
+todos estes algarismos s&oacute; podem deixar de imp&ocirc;r-se
+a espiritos
+desiquilibrados, irresponsaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Consumiu-se muito trabalho e fez-se e existe,&#8213;&eacute;
+justi&ccedil;a dizel-o,&#8213;muito
+trabalho primoroso.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas grandes edifica&ccedil;&otilde;es monumentaes tem
+sempre de ficar
+o rasto e o cunho das gera&ccedil;&otilde;es que se succedem ou
+que por ellas
+passam: do seu gosto, da sua educa&ccedil;&atilde;o, da sua
+ac&ccedil;&atilde;o, da sua
+obra material ou da sua obra moral. N&atilde;o temos, ali mesmo, em
+Belem, todo o vasto corpo da Capella M&oacute;r e uma grande parte
+do
+claustro, por exemplo, a apregoar uma
+remodela&ccedil;&atilde;o, um enxerto,
+uma invas&atilde;o irreverente, sacrilega, at&eacute;, da
+esthesia e do trabalho
+originario?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o seria um attentado maior, um absurdo, um disparate
+collossal
+derrubar tudo isto sob pretexto de uma
+restitui&ccedil;&atilde;o que seria
+apenas um artificio pretencioso e ridiculo?
+<br />
+
+<br />
+
+Fiquem pois os minaretes inexplicaveis, mais
+levianos que ligeiros,
+fique at&eacute; a irritante torre mitrada, se a sua estabilidade
+est&aacute;
+garantida; fiquem as phantasias que custaram muito dinheiro e
+muito trabalho, quando a sua supress&atilde;o correctiva possa
+prejudicar,
+mais do que o seu disparate incidental, o que deve ser e &eacute; o
+commum interesse e empenho d'agora.
+<br />
+
+<br />
+
+Fiquem, que ficam attestando a situa&ccedil;&atilde;o social
+que as tornou
+possiveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Os factos consumados n&atilde;o se supprimem. Derrubadas essas
+phantasias inscientes n&atilde;o se teria suprimido o processo
+extravagante
+que as produziu, nas suas rela&ccedil;&otilde;es e nas suas
+revela&ccedil;&otilde;es
+historicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Aproveite-se e emende-se, tanto e o melhor que f&ocirc;r possivel,
+o
+que est&aacute; feito; embarguem-se e tranquem-se, de vez, as
+tendencias
+tumultuarias e vaidosas para uma construc&ccedil;&atilde;o
+monumental nova,
+de sobreposse, em competencia com o corpo principal do Monumento;
+recomponha-se a liga&ccedil;&atilde;o com este, ineptamente
+cortada;
+abra-se, de par em par e de lez em lez, a formosissima e singular
+gallilea; imponham-se os restos da vasta carca&ccedil;a para a
+reconstruc&ccedil;&atilde;o
+da parte interrompida e derrubada da fachada, vedando em
+fim aquella brecha &aacute; insolente
+preten&ccedil;&atilde;o de um &laquo;corpo e portico
+central&raquo; de &laquo;imaginaria&raquo; scenographica e
+reconstituindo o lan&ccedil;o
+graciosamente uniforme e modesto das arcarias e casaria primitiva.
+<br />
+
+<br />
+
+E feito isto, ou mais exactamente, &aacute; medida que se
+fa&ccedil;a isto,
+desafronte-se o Monumento das edifica&ccedil;&otilde;es reles e
+do jardim pelintra
+que lhe interrompem e afogam, do lado do Rio, o vasto e
+<span class="pagenum">[24]</span>
+formosissimo aspecto;&#8213;desobstruam se as suas imponentes gallarias
+e sal&otilde;es, das installa&ccedil;&otilde;es improprias
+que os teem ido invadindo:
+do asylo da Casa Pia que melhor e mais adquada
+colloca&ccedil;&atilde;o
+encontrar&aacute; facilmente f&oacute;ra da cidade;&#8213;do pseudo
+Museu industrial
+que, se comprehende o seu rasoavel papel, deve procurar
+as grandes correntes de circula&ccedil;&atilde;o urbana e os
+bairros onde se
+concentra o movimento das industrias, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+E desobstruida, e desafrontada, e concluida a monumental
+edifica&ccedil;&atilde;o,
+complete-se a sua integridade historica, nacional; por um
+lado: alojando no Mosteiro o Archivo da Na&ccedil;&atilde;o;
+por outro lado:
+removendo do Templo o exercicio e a administra&ccedil;&atilde;o
+do culto parochial.
+<br />
+
+<br />
+
+Este &eacute; o meu parecer e o meu voto.
+<br />
+
+<br />
+
+Muito propositadamente o quiz ir explicando e definindo n'esta
+summaria nota, tanto para que a responsabilidade individual d'elle
+mais desafogada deixe a da resolu&ccedil;&atilde;o que os meus
+collegas entendam
+dever preferir, como para escusar delongas de discuss&atilde;o
+em assumpto e id&eacute;as que reclamam realmente uma
+resolu&ccedil;&atilde;o
+prompta e sobre as quaes, pela minha parte, considero inutil voltar.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se v&ecirc;, em rela&ccedil;&atilde;o &aacute;
+forma ou processo material da conclus&atilde;o
+das obras, as minhas id&eacute;as, de ha muito definidas e
+affirmadas,
+coincidem, geralmente, com o projecto apresentado pelo Director
+dos edificios publicos, e excluem todos os outros, e todos
+ainda que possam reincidir na excrecencia que considero historica
+e artisticamente absurda de um chamado &laquo;corpo
+central&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas propoz tambem esse funccionario, embora n&atilde;o
+pare&ccedil;a ter
+presistido na id&eacute;a, a abertura de um concurso para apurar o
+projecto
+da conclus&atilde;o desejada. Comprehendo que o
+&laquo;concurso&raquo; encontre
+uma corrente favoravel e sympathica, mais ou menos artificiosamente
+sugerida, na opini&atilde;o geral.
+<br />
+
+<br />
+
+O &laquo;concurso&raquo; n&atilde;o deixou inteiramente de
+ser, ainda, uma especie
+de feiti&ccedil;o nacional, por mais que tenha mostrado ser,
+apenas,
+um processo embusteiro de dissolver e esconder responsabilidades,
+quantas vezes tambem, de arredar merecimentos reaes, de
+elevar insignificancias, de esmagar direitos.
+<br />
+
+<br />
+
+O bom, o genuino, o pratico concurso &eacute; a livre concorrencia
+do trabalho, das aptid&otilde;es, da
+affirma&ccedil;&atilde;o positiva dos merecimentos
+de cada qual, perante este juiz difficilmente corruptivel que se
+chama Toda-a-gente, ou este Tribunal implacavel e permanente
+que se chama a Historia.
+<br />
+
+<br />
+
+O &laquo;concurso&raquo;, no caso pendente, ou ha de ter uma
+base extremamente
+restricta de applica&ccedil;&atilde;o que o torna inutil, ou
+alargada
+<span class="pagenum">[25]</span>
+essa base sobre o thema da melhor conclus&atilde;o, n&atilde;o
+apenas das
+<em>obras</em>, mas do Monumento,
+ir-nos-hemos envolver em novos embara&ccedil;os
+e em novas delongas, se &eacute; que n&atilde;o tivermos de
+reconhecer
+que se perdeu muito tempo e muito trabalho para n&atilde;o obter
+um projecto viavel.
+<br />
+
+<br />
+
+No come&ccedil;o das obras o concurso podera ter tido, ao menos, a
+vantagem de suscitar o estudo detido e serio da
+reconstruc&ccedil;&atilde;o ou
+da restaura&ccedil;&atilde;o a fazer; dos elementos e
+caracteres do estylo a seguir;
+das condi&ccedil;&otilde;es e circumstancias da obra a
+realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje daria, naturalmente, apenas, o resultado de mais demorar
+a conclus&atilde;o e de mais a affastar, ainda, do caracter e
+estructura
+primitiva,&#8213;modesta e simples,&#8213;da parte que se quiz reconstruir.
+<br />
+
+<br />
+
+A emula&ccedil;&atilde;o e a prosapia dos concorrentes
+for&ccedil;ar-lhes-hia a imagina&ccedil;&atilde;o;
+cada qual procuraria produzir um projecto do que mais
+e melhor se affirmassem os seus recursos, as suas aptid&otilde;es,
+a sua
+originalidade de constructor e de artista.
+<br />
+
+<br />
+
+E se a isto juntarmos as influencias perturbadoras da indisciplina
+intellectual e educativa que enfraquece e desmoralisa por
+egual a nossa produc&ccedil;&atilde;o e a nossa critica
+artistica; se contar-mos
+com a press&atilde;o das consagra&ccedil;&otilde;es
+forjadas e impostas pelas pequenas
+camarilhas num meio mal organisado para que o publico pense
+e julgue por si, n'estas cousas da Historia e da Arte, facil
+&eacute; de
+prever, a quem n&atilde;o f&ocirc;r inteiramente inexperiente e
+ingenuo, que o
+concurso longe de ser um processo expedito e seguro ser&aacute; o
+mais
+arriscado e menos pratico, nas circumstancias ou nas
+condi&ccedil;&otilde;es,
+pelo menos, em que o problema tem de ser posto e resolvido.
+<br />
+
+<br />
+
+O exemplo,&#8213;um pequeno mas significativo exemplo,&#8213;do
+concurso para a pintura do tecto do Theatro <em>D.
+Maria</em>, n&atilde;o &eacute;
+muito antigo.
+<br />
+
+<br />
+
+E eu sei bem quanto se viu atormentado um jury firmemente
+consciencioso e s&eacute;rio para dar a preferencia ao projecto do
+monumento
+a Affonso de Albuquerque que mais estudo, mais caracter,
+mais originalidade intelligente e san possuia, mas que f&ocirc;ra
+pensado
+e elaborado por um artista sem nome, sobretudo sem camarilha.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, o que se pretende e precisa &eacute; menos um trabalho de
+concep&ccedil;&atilde;o, que de direc&ccedil;&atilde;o
+e execu&ccedil;&atilde;o architectonica. Quanto menos
+esfor&ccedil;o conceptivo ou inventivo se despender, mais garantido
+fica o caracter restitutivo da construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Temos no paiz pouco mais,&#8213;se tanto,&#8213;de meia duzia de
+architectos authenticos. Para o que entendo que deve ser ou que
+s&oacute; pode ser hoje a conclus&atilde;o das obras, nos
+termos praticos que
+<span class="pagenum">[26]</span>
+todas as circumstancias indicam, p&oacute;de antecipadamente
+affirmar-se
+que qualquer d'esses architectos &eacute; apto e competente.
+<br />
+
+<br />
+
+Por estas e por muitas outras ras&otilde;es ainda, concluo, pois,
+por
+julgar mais do que dispensavel, inconveniente, o concurso, e direi
+at&eacute; que uma d'essas ras&otilde;es &eacute;
+exactamente n&atilde;o ver explicada a necessidade
+d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Resumindo e terminando, o que tenho a honra de prop&ocirc;r
+&eacute; que
+se aconselhe ao Governo, o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm;&#8213;A conclus&atilde;o das obras deve consistir na
+uni&atilde;o do Templo
+com a Galilea; no desobstruimento completo d'esta desde o
+seu extremo occidental at&eacute; &aacute; porta da nave
+principal do Templo,
+e na reconstruc&ccedil;&atilde;o da parte interrompida da mesma
+galilea e da
+casaria sobreposta, em perfeita e uniforme continuidade dos
+membros e v&atilde;os existentes, com absoluta exclus&atilde;o
+de qualquer
+corpo central,&#8213;real ou simulado,&#8213;por contrario ao caracter primitivo
+da edifica&ccedil;&atilde;o e &aacute; unidade monumental
+d'ella. As sec&ccedil;&otilde;es
+posteriores das obras dever&atilde;o concluir-se com a maior
+sobriedade
+architectonica e decorativa tendo s&oacute;mente em vista
+completal-as e
+ligal-as n'uma tra&ccedil;a geral no menor praso e com a maior
+economia.
+<br />
+
+<br />
+
+Dever&atilde;o ser aproveitadas e conservadas, quanto possivel, as
+construc&ccedil;&otilde;es feitas, e poder&aacute; servir
+de base &aacute; conclus&atilde;o indicada
+e projecto apresentado pelo Director dos edificios publicos com as
+variantes approvadas por uma commiss&atilde;o que ter&aacute; a
+seu cargo a
+inspec&ccedil;&atilde;o da obra at&eacute; final.
+<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm;&#8213;A obra dever&aacute; ser mantida na
+administra&ccedil;&atilde;o directa do
+Estado, e feita pela Reparti&ccedil;&atilde;o dos edificios
+publicos, tendo a inspec&ccedil;&atilde;o
+superior e permanente d'ella, at&eacute; &aacute;
+conclus&atilde;o, uma commiss&atilde;o
+composta de um engenheiro, de um architecto e de um critico
+d'Arte, respectivamente escolhidos pelo Conselho Superior
+d'Obras Publicas, pela Academia de Bellas Artes e pela
+Commiss&atilde;o
+dos Monumentos Nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm;&#8213;Dever&atilde;o ser e estar removidos at&eacute; o
+dia 31
+de dezembro
+de 1896, todos os estabelecimentos que actualmente occupam diversas
+sec&ccedil;&otilde;es do Monumento, e bem assim transferida
+para outro
+Templo a s&eacute;de parochial.
+<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm;&#8213;At&eacute; &aacute; mesma data dever&aacute;
+ser o
+Monumento desafrontado
+das edifica&ccedil;&otilde;es de qualquer especie que se
+intercallem entre
+elle e o Rio ou o caes marginal.
+<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm;&#8213;O Templo deve ficar destinado, s&oacute;mente,
+&aacute;s grandes celebra&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[27]</span>
+religiosas do Estado, e a Galilea a
+jazida dos restos dos
+Descobridores e Navegadores portuguezes.
+<br />
+
+<br />
+
+6.&ordm;&#8213;Todo o resto do monumental edificio deve ser destinado
+a alojamento e installa&ccedil;&atilde;o do Archivo Nacional,
+convindo que essa
+installa&ccedil;&atilde;o se ache concluida at&eacute; o
+mez de Maio de 1897.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">Lisboa, 2 de Novembro de 1895.
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="signature">
+<em>Luciano Cordeiro.</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<a name="1"></a><sup>[1]</sup>
+&laquo;Copia. Fachada geral do edificio tal qual
+existia antes de se proceder
+&aacute; reconstruc&ccedil;&atilde;o&raquo;. (Escala
+1:100) Tem a rubrica:&#8213;&laquo;Manuel Raymundo
+Valladas, major d'engenheria, director da Casa Pia, encarregado dos
+trabalhos
+de reconstruc&ccedil;&otilde;es&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Consta-me que o original existe no cartorio da Casa Pia.<br />
+
+<br />
+
+<a name="2"></a><sup>[2]</sup><em>
+Galilaeum</em> porticum hoc
+interpretatur, quam nostri Galerie vocant;
+etc. (<em>Ducange</em>).
+<br />
+
+<br />
+
+Ha quem prefira ainda a f&oacute;rma barbara e obsoleta de
+<em>galil&eacute;</em>, e escusado
+&eacute;
+dizer que as duas s&atilde;o indifferentemente adoptadas pelos
+melhores lexicographos.
+Mas o que tem gra&ccedil;a &eacute; o debique que a
+f&oacute;rma culta e portuguesissima de
+<em>galilea</em>, desde que eu a adoptei, de
+preferencia, soffreu na propria commiss&atilde;o
+dos monumentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que galil&eacute; &eacute; que era, porque...
+assim escreviam as
+<em>chronicas</em>&raquo;, e ainda
+por este apendice jovial da ras&atilde;o: &laquo;que Galilea
+era uma terra, uma regi&atilde;o bem
+conhecida&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+E se fosse exactamente do nome classico da provincia da Judea, theatro
+e
+ber&ccedil;o dos primeiros mysterios christ&atilde;os, que
+devesse extrahir-se a etymologia
+melhor do termo indicativo d'aquelle membro da architectura sacra?
+<br />
+
+<br />
+
+Vale talvez a pena pensar n'isto, se n&atilde;o acham mais commodo
+contentar-se
+com as deriva&ccedil;&otilde;es etymologicas de
+<em>galea</em>,
+<em>leae</em>; de
+<em>galeatus</em> (<em>galea
+indutus</em>);
+de <em>galerus</em>,
+<em>ri</em>, etc. em que n&atilde;o sei
+se teem alguma vez pensado.<br />
+
+<br />
+
+<a name="3"></a><sup>[3]</sup><em></em>
+&Eacute;
+extraordinario como se perdeu a
+no&ccedil;&atilde;o facil e pratica da
+disposi&ccedil;&atilde;o
+geral da edifica&ccedil;&atilde;o, da sua
+orienta&ccedil;&atilde;o, ou como mais exactamente se
+p&oacute;de
+dizer, da sua
+<em>occidenta&ccedil;&atilde;o</em>,
+a ponto de se obstruir e afogar a sec&ccedil;&atilde;o
+occidental,
+a entrada da galilea, que se tivesse sido reconhecida e mantida
+n&atilde;o teria deixado
+pensar em corpos ou entradas &laquo;centraes&raquo; na fachada
+do sul. N'um parecer
+juncto ao processo lembra Nepomuceno a indica&ccedil;&atilde;o
+de Carvalho da Costa
+de &laquo;que em certos dias <em>o sol ao
+cahir</em> entrava pelo arco onde estava a fonte e
+ia bater na porta do sacrario&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="4"></a><sup>[4]</sup><em></em>
+Depois
+de ter escripto este parecer disse-me o meu amigo e
+dedicado
+director da Casa Pia, F. Margiochi, que o projecto original existe
+ali.<br />
+
+<br />
+
+<a name="5"></a><sup>[5]</sup><em></em>
+&laquo;Cadernos
+dos esclarecimentos pedidos pela
+commiss&atilde;o nomeada por
+portaria de 19 de dezembro de 1878&raquo;...
+<br />
+
+<br />
+
+No processo official do Ministerio das Obras Publicas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="6"></a><sup>[6]</sup><em></em>
+Tenho
+idea, e mais alguem a ter&aacute;, de
+que na decora&ccedil;&atilde;o do famoso
+corpo ou torre&atilde;o central que ruiu, apparecia
+at&eacute;... o escudo da Saboia, cortez&atilde;
+allus&atilde;o, naturalmente, ao recente consorcio Regio. Tambem
+n'uma reconstruc&ccedil;&atilde;o
+(sic) da Madre de Deus, p&oacute;de ver-se, ainda, torneando o
+capitel d'um
+columnello gothico... um comboio de caminho de ferro! Homenagem
+&aacute; visinhan&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+<a name="7"></a><sup>[7]</sup><em></em>
+Relatorio
+da adm. da R. Casa Pia de Lisboa, relat. ao anno
+econ. de
+1891-1892.&#8213;Lisboa, 1895.<br />
+
+<br />
+
+<a name="8"></a><sup>[8]</sup><em></em>
+&laquo;As
+obras teem tido andamento consideravel sob a
+direc&ccedil;&atilde;o do Sr.
+architecto Domingos Parente da Silva.&raquo; <em>Rel. da
+adm. da R. Casa Pia,
+relativo
+ao anno de 1891-1892</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#c1">#p&aacute;g. 3</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">resconstruc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">reconstruc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p4">#p&aacute;g.
+4</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">pripcipalmente</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">principalmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3"></a><a href="#p7">#p&aacute;g.
+7</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">soberbamento</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">soberbamente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p7">#p&aacute;g. 7</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o propria destino</td>
+
+ <td>...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o proprio destino</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p8">#p&aacute;g.
+8</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">substituido</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">substituindo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p10">#p&aacute;g. 10</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">seguida</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">seguido</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p13">#p&aacute;g. 13</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o luxuosa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a luxuosa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p14">#p&aacute;g. 14</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">boratareus</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">botareus</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p15">#p&aacute;g.
+15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a
+gracioso</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a
+graciosa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p16">#p&aacute;g.
+16</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">recurssos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">recursos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p20">#p&aacute;g.
+20</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">publisos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">publicos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p21">#p&aacute;g.
+21</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">artistico</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">artistica</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p21">#p&aacute;g.
+21</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">architetonico</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">architectonico</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p22">#p&aacute;g.
+22</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Miuistro</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Ministro</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's As obras dos Jeronymos, by Luciano Cordeiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS OBRAS DOS JERONYMOS ***
+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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