summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/29342-h
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:18 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:47:18 -0700
commit1e3be244fc1070f47f2f7348839980332e4532bd (patch)
tree744fdbe90e9d890df5e8e13c5aad96bc5dea2bbe /29342-h
initial commit of ebook 29342HEADmain
Diffstat (limited to '29342-h')
-rw-r--r--29342-h/29342-h.htm2615
1 files changed, 2615 insertions, 0 deletions
diff --git a/29342-h/29342-h.htm b/29342-h/29342-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..d08ed76
--- /dev/null
+++ b/29342-h/29342-h.htm
@@ -0,0 +1,2615 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Astucias de Namorada e Um Melodrama em Santo Thyrso, por Pinheiro
+ Chagas</title>
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <meta name="author" content="Pinheiro Chagas">
+ <meta name="date" content="1873">
+ <meta name="publisher" content="Typographia Progresso, Lisboa">
+ <style type="text/css">
+ @media print {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ @media handheld {
+ .pagenum { visibility: hidden;}
+ }
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: #cccccc;
+ }
+ hr {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;}
+ #corpo sup {font-size: 70%;}
+ h1, h2 {text-align:center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ #corpo p{
+ line-height: 1em;
+ text-align: justify;
+ text-indent: 1em;
+ }
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Astucias de Namorada e Um melodrama em
+Santo Thyrso, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Astucias de Namorada e Um melodrama em Santo Thyrso
+
+Author: Manuel Pinheiro Chagas
+
+Release Date: July 7, 2009 [EBook #29342]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p><span class="pn">{I}</span></p>
+
+<div
+style="text-align:center; border-top: solid 3px #000;border-bottom: solid 3px #000; padding: 1em; margin: 10%;">
+<p style="font-size: 1.5em;">ASTUCIAS DE NAMORADA</p>
+
+<p>E</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{II}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{III}</span></p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px;">
+<p style="font-size: 2.4em;">ASTUCIAS</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">NAMORADA</p>
+
+<p>E</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">Um melodrama em Santo Thyrso</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">ORIGINAL</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">M. PINHEIRO CHAGAS</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>LISBOA<br>
+
+TYPOGRAPHIA PROGRESSO<br>
+
+40&mdash;Rua do Alecrim&mdash;40<br>
+
+1873</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{IV}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{V}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>PROLOGO</h1>
+
+<p>Este livro é um livro de verão. Fez-se para ser lido á sombra de uma arvore
+copada, á hora do meio dia, quando póde prestar-se apenas á leitura uma vaga
+attenção, e quando portanto se querem livros de enredo ligeiro e risonho, que
+nem resolvam problemas, nem arripiem os nervos.</p>
+
+<p>As <em>Astucias de Namorada</em> estão escriptas ha largo tempo. As
+aventuras do seu manuscripto davam assumpto a outro romance; Teem de curioso o
+ser o seu entrecho baseado sobre um facto succedido realmente em Lisboa. Ha de
+haver leitores que o taxem de inverosimil, pois saibam que é verdadeiro. Mais
+uma vez tem razão Boileau</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Le vrai peut quelquefois n'etre pas vraisemblable.</em><span
+ class="pn">{VI}</span> </blockquote>
+
+<p>O romance que fecha o volume, e que se intitula <em>Um melodrama em Santo
+Thyrso</em>, ponho-o aqui a titulo de curiosidade archeologica. Foi a minha
+estreia no jornalismo. Fundára-se a <em>Gazeta de Portugal</em>. Eu tinha
+conhecimento pessoal do seu proprietario, Teixeira de Vasconcellos. Procurei-o
+para lhe lêr o romance. Elle ia sair.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-me vêr alguma coisa que lhe pareça melhor, disse-me elle.</p>
+
+<p>Li-lhe tremendo a scena em que Eduardo descreve as physionomias dos
+litteratos lisbonenses; Teixeira de Vasconcellos rio-se, e tirou-me das mãos o
+manuscripto.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Il y a quelque chose lá</em>, continuou elle, isto para estreia
+basta. O seu romance ha de ser publicado.</p>
+
+<p>E foi. Estava eu baptisado folhetinista.</p>
+
+<p>Hoje, relendo o romance, sorrio-me das ingenuidades do principiante, e, para
+conseguir desculpa do leitor, vejo que não tenho remedio senão dizer-lhe
+retrospectivamente com Alfredo de Musset</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Surtout considérez, illustres seigneuries<br>
+ Comme l'auteur est jeune, et c'est son premier pas.</em> </blockquote>
+
+<p style="text-align: right">P<small>INHEIRO</small> C<small>HAGAS</small><span
+class="pn">{1}</span></p>
+
+<h1>ASTUCIAS DE NAMORADA</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.</p>
+
+<p>N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos pendurados
+sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um pouco das polkas e
+das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo delicioso panorama do Tejo, em
+cujas aguas traçava a lua como que uma estrada argentea. De quando em quando
+enchia-se o jardim de risos, de segredinhos; a lua illuminava por entre as
+folhas roupas alvejantes, que passavam fluctuando como o véo dos sylphos;
+depois pelas janellas<span class="pn">{2}</span> abertas da sala saía uma
+bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros compassos d'uns lanceiros, os
+grupos dispersavam-se e engolphavam-se em turbilhão pelas portas de vidraças, e
+o jardim ficava de novo solitario, mas não silencioso; porque n'elle se
+escutava o rumorejar da brisa, o echo da musica do baile, e o murmurio do rio
+que gemia docemente em baixo nas fragas.</p>
+
+<p>N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo com os
+fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, veio sentar-se
+n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade do jardim, mais proximo
+da orla do rochedo, e por conseguinte quasi suspenso, como um ninho de
+gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o que disse; não foram ambas as
+pessoas indispensaveis para formarem um par, não foram ambas as pessoas, que se
+sentaram; só o fez uma senhora de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante,
+morena e viva, de olhos rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o
+ébano á luz brilhante da lua cheia.</p>
+
+<p>O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil<span class="pn">{3}</span>
+companheira lhe ter visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se
+podia deduzir do modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o
+menos espaço possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o
+seu braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda
+que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando esta o
+não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia de
+aproveitar o favor que se lhe queria conceder.</p>
+
+<p>E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se
+ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de ministro,
+estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando ao sopro das
+auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores aventurosos, mil
+perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma flor, uma palavra, na idade
+feliz em que se inveja Leandro só ao pensar quantas vezes se teria accendido o
+pharol de Hero antes da terrivel noite, em que a morte, <em>envolta em
+horrendas vagas</em>, segundo a admiravel expressão<span class="pn">{4}</span>
+de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em que ainda não
+expirára o echo dos beijos da antecedente noite.</p>
+
+<p>E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma palavra
+qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa senhora, cujos pés
+desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não seria a sua, se em vez de
+estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante d'ella, estivesse na outra
+margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a nado para cair offegante e exanime
+junto d'esse adorado vulto. Então não seria necessario fallar; a sua pallidez,
+os seus olhos cheios d'amor diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero,
+vendo-o ensopado por causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe
+desembaraçasse a lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a
+dois corações, que anciavam por se unir.</p>
+
+<p>A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso meio
+despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva branca ainda
+não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com um<span
+class="pn">{5}</span> gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras,
+e que espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo
+timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão enluvada,
+e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.</p>
+
+<p>A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as
+envia aos paizes meridionaes. No céu d'um azul suavissimo, algumas nuvens,
+volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela brisa nocturna,
+embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, pareciam as maravilhosas
+rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo firmamento, em noites assim
+languidas e serenas. O Tejo desenrolava a sua immensa toalha liquida, prateada
+no centro pelo luar, e negra junto do caes, ou á sombra dos mastros dos navios
+immoveis nos ancoradoiros. Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á
+beira do rio, e pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos
+seus candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas.
+Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando<span
+class="pn">{6}</span> ao sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama,
+que só tem rivaes na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia
+fascinar quem o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do
+caramanchão d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos
+d'uma valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os
+luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.</p>
+
+<p>Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a voz
+tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez estremecer.</p>
+
+<p>Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Que... linda... noite!</p>
+
+<p>&mdash;Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o
+rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para elle sem
+levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão voluptuosa, que encerra
+um encanto irresistivel, um magnetismo fascinador... Como que parecem fluctuar
+na atmosphera todos os sonhos dos poetas! Sabe<span class="pn">{7}</span> no
+que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que resvala á flor das aguas, como um
+cysne da noite? Pensava se seria esse o barco de Lamartine, e se levaria tambem
+dois amantes, que fossem murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as
+doces palavras que tanto nos encantam, quando o auctor do <em>Lago</em> as
+traduz na melodiosa linguagem da sua poesia.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! bem sei, respondeu o desastrado:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Ainsi toujours poussés vers de nouveaux rivages...</em> </blockquote>
+
+<p>&mdash;Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os
+versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe que me
+acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar á lua e ao
+Tejo as inspirações de Lamartine.</p>
+
+<p>E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do seu
+interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada apostrophe, e que
+debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.</p>
+
+<p>Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, d'uma
+gentileza<span class="pn">{8}</span> verdadeiramente notavel, d'um espirito
+intelligente e cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez
+invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na sala,
+podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o conversar
+desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu acanhamento não tivera
+motivo para se revelar. Deslumbrada por esse esplendido conjuncto de
+predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do gentil moço, e a
+<em>coquette</em> conseguira-o em breve, mas, quando se tratára de dar o passo
+decisivo, manifestára-se toda a timidez do espirito virginal de Frederico. Era
+o seu primeiro amor, e só os tolos conseguem atravessar affoitamente essas
+columnas d'Hercules. Lucinda, experimentada n'essas questões, comprehendera
+primeiramente o embaraço do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera
+tambem que o devia auxiliar. Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda
+mais, se me permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda
+fosse uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como
+elle<span class="pn">{9}</span> tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as
+palpebras mesmo, abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente,
+que afinal os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo
+idioma. Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de
+Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla
+superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com o
+receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa esplendida
+mulher?!</p>
+
+<p>O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que
+avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, assustando
+Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando elle para lhe fugir
+retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido olhar, que lhe dizia:
+«Ávante.» O pobre rapaz, vendo assim de subito desfeitos em pó os seus planos
+estrategicos, preferiria um abysmo abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as
+palavras friamente zombeteiras de Lucinda.</p>
+
+<p>Entretanto o baile findára, e os lisbonenses<span class="pn">{10}</span>
+preparavam-se para atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as
+unicas pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma
+hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás delicias do
+whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se embrulhar em dez
+mantas e de ter perdido dez <em>rob</em> consecutivos, Frederico, depois da
+scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a mãe de Lucinda, sabendo que
+era elle o unico dos cavalheiros presentes que regressava a Lisboa, reclamou
+sem ceremonia o auxilio do seu braço para descer a ingreme calçada. Assim,
+Frederico viu-se obrigado a pegar no chapéu, e a seguir, supportando o peso da
+sua volumosa braceira, o pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe
+explicar durante o caminho as infernaes combinações que tinham dado em
+resultado a derrota memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes
+de jogador de whist.</p>
+
+<p>As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de
+Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas<span
+class="pn">{11}</span> aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da
+escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando
+estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os
+venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a
+insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na
+dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento
+nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote. Não
+era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante
+para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se
+defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se
+a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas.</p>
+
+<p>Os dois velhos tinham-se sentado na popa do barco. O vento, sem ser forte,
+era sufficiente para infunar a vela e para dar ao bote um leve balanço, que foi
+suavemente acalentando os dois esposos. Estes principiaram a bocejar
+alternadamente; depois foram deixando pender as cabeças até que tocaram quasi
+nos joelhos.<span class="pn">{12}</span> Levantaram-se a um tempo, e olharam
+espantados, com os olhos meio abertos, para o céu azul. Depois os olhos
+fecharam-se de todo, e os comprimentos recomeçaram. Pareciam dois mandarins
+<em>d'étagére</em>. Frederico e Lucinda a custo soffreavam o riso, e trocavam
+entre si olhares de intelligencia, que presagiavam uma reconciliação. Os dois
+velhos resmungavam palavras inintelligiveis, e recostavam a cabeça para traz,
+de fórma que a cabeça, em vez de lhes descair de pôpa a prôa, descaia-lhes de
+bombordo a estibordo, e de estibordo a bombordo, movimento bem combinado, que
+produziu um abalroamento, que os despertou a ambos.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Azevedo, bradou a matrona indignada, não tem vergonha de vir a
+dormir no bote? Já me estragou as flores da cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Senhora D. Leocadia, respondeu o velho com dignidade, veja se dorme
+com mais cautella para não amarrotar o chapéu das pessoas, que vão acordadas a
+scismar nos seus negocios.</p>
+
+<p>Estas apostrophes promoveram a explosão das gargalhadas, já muito
+reprimidas, de Frederico<span class="pn">{13}</span> e de Lucinda. O velho
+mirou-os com espanto, embrulhou-se mais na manta, encostou-se para traz e
+principiou a resonar.</p>
+
+<p>&mdash;Este Azevedo sempre foi assim, disse a velha esposa fazendo côro com
+os dois, dorme em toda a parte... Como elle resona!</p>
+
+<p>E dizendo isto, a boa senhora olhou com despreso para seu marido, deixou
+descahir a cabeça, e entrou no duetto resonando egualmente.</p>
+
+<p>A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado.
+Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.</p>
+
+<p>Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.</p>
+
+<p>Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua
+placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga
+Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração.
+Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um
+bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos,
+sulcando a<span class="pn">{14}</span> agua, erguendo-se e recaindo de novo,
+pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a
+lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro,
+recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no
+firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas
+d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares. Muito tempo a corda
+fremente da guitarra enviou de longe aos ouvidos de Frederico e de Lucinda, a
+sua melodia toda impregnada n'uma vaga tristeza, e expirou ao longe n'uns
+quebros de indizivel suavidade. Frederico suspirou.</p>
+
+<p>&mdash;Pensa nos seus amores? perguntou Lucinda sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Amores, balbuciou elle, como, se os não tenho?</p>
+
+<p>&mdash;Não os tem? Quem não tem amores aos vinte e dois annos?</p>
+
+<p>&mdash;Eu que sou um desherdado da fortuna, eu para quem a natureza, mãe
+benefica de todos, sempre se tem mostrado implacavel madrasta, eu para quem as
+flores não tem aroma,<span class="pn">{15}</span> nem luz brilhante o sol, nem
+suavidade melancholica o luar.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! meu Deus, exclamou Lucinda, quererá imitar esses Obermans da
+moda, que se declaram scepticos, quando ainda não tiveram nem sequer uma
+illusão, quanto mais as decepções que alardeiam?</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, tornou Frederico, tenho muitos ridiculos, mas
+d'esse livrou-me Deus. Porém sou um d'estes entes malfadados, que nunca ousam
+levar aos labios a taça que se lhes apresenta cheia a trasbordar; uma d'essas
+abelhas, a quem as rosas mostram o calice entre-aberto, e que volteiam em torno
+d'ellas, sem ousarem ir delibar o seu mel na redoma fragante que se lhes
+apresenta. Sou como Rousseau, deitando as cerejas no avental de mademoiselle
+Galley, sem ousar ver os labios mais vermelhos do que os fructos, convidando-o
+e attrahindo-o. E o que fez mademoiselle Galley ao desastrado philosopho?
+voltou-lhe as costas, e foi zombar d'elle com as suas companheiras, deixando
+esse Tantalo d'amor a amaldiçoar a sua falta de audacia. Esse riso argentino,
+que Rousseau ouviu talvez<span class="pn">{16}</span> trepado ainda na
+ceregeira, oiço-o eu a cada instante nos labios, que poderiam matar com duas
+palavras meigas esta sêde que me devora.</p>
+
+<p>&mdash;E essas duas palavras ainda ninguem as proferio?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem, respondeu Frederico suspirando.</p>
+
+<p>&mdash;E com tudo, tornou Lucinda, conheço eu uma pessoa em cujos labios
+ellas fermem.</p>
+
+<p>&mdash;E quem é essa pessoa? perguntou elle ancioso.</p>
+
+<p>Lucinda estacou. Decididamente o proprio selvagem Rousseau perceberia
+melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Alguem, cujo nome lhe não posso dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! diga ao menos a primeira letra.</p>
+
+<p>Lucinda fez-se vermelha de colera, e mordeu os labios impaciente. Subito uma
+idéa qualquer, travessa de certo, illuminou-lhe o espirito, porque os labios,
+que mordera para occultar o despeito, mordeu-os afinal para suffocar o riso.
+Depois respondeu com ar de mysteriosa confidencia:</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me; não passa frequentes vezes pela rua de...?<span
+class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque? perguntou Frederico espantado.</p>
+
+<p>&mdash;E, levando os olhos baixos até ao meio do comprimento da rua, quando
+chega a este ponto não os levanta instinctivamente, e não os crava n'uma
+varanda onde não ha só flores nos vasos?</p>
+
+<p>&mdash;Assevero-lhe, minha senhora... tornou Frederico estupefacto a mais
+não poder ser.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! eu sou discreta.</p>
+
+<p>&mdash;Juro-lhe...</p>
+
+<p>&mdash;Não jure, mas prometta-me apenas uma cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Qual é?</p>
+
+<p>&mdash;Escolher-me para confidente dos seus primeiros amores.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora... bradou Frederico, desesperado por ver fugir-lhe
+o momento que tanto ambicionára, e que julgára já tão proximo.</p>
+
+<p>&mdash;Silencio, respondeu Lucinda pondo-lhe a mão alva e tepida no braço,
+não vê que estamos em Lisboa?</p>
+
+<p>Frederico não sabia se havia de beijar ou morder essa mão travessa, que lhe
+approximava da boca a taça do philtro suave do<span class="pn">{18}</span>
+amor, para lh'o furtar depois aos labios calcinados. Afinal não fez nem uma nem
+outra cousa.</p>
+
+<p>Mas effectivamente estavam em Lisboa. Nas aguas negras do Tejo, aqui e ali
+ainda prateadas por um raio da lua, que se insinuava por entre a intrincada
+floresta dos mastros das embarcações, ondeava o reflexo trémulo dos candieiros
+do gaz. Ao choque do barco parando de subito, acordaram estremunhados os
+progenitores de Lucinda. Frederico ainda esperava ao menos poder sentir o doce
+peso da gentil menina, ajudando-a a saltar em terra. Mas a volumosa mamã
+offereceu-lhe o braço, e em medos e tremores reteve-o tempo bastante, para que
+Lucinda, ligeira como uma gazella, saltasse para o caes, poisando apenas ao de
+leve os dedos finos e alvos no braço d'um dos remeiros.</p>
+
+<p>Frederico despediu-se pouco amavelmente dos seus companheiros de viagem, e
+teve vontade de mandar passeiar Lucinda, quando esta lhe disse ao ouvido:</p>
+
+<p>&mdash;Não se esqueça do que prometteu.</p>
+
+<p>É verdade que o pobre rapaz, voltando a<span class="pn">{19}</span> cara com
+um gesto de amuo, não poude ver o longo olhar, apenas levemente malicioso, com
+que Lucinda o seguia.<span class="pn">{20}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{21}</span></p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Na vespera d'esse dia, em que se passára a scena que narrámos recebera
+Lucinda d'uma sua amiga de collegio a seguinte carta:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: right;">Minha querida amiga</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Que saudades eu tenho do nosso tempo de collegio! d'aquelles bons serões,
+que passavamos juntas, quando todas já estavam adormecidas, emquanto nós
+deixavamos divagar a nossa imaginação por todos os assumptos, por todos os
+sonhos, por todas as phantasias d'este mundo! como eu tenho impressa na memoria
+a tua palavra eloquente e colorida, e a audacia<span class="pn">{22}</span> com
+que tu, com a superioridade da tua intelligencia, julgavas tudo e te arrojavas
+aos devaneios mais longos, chegando a assustares-me a mim, pobre criança,
+timida e fragil, que não ousava seguir-te nos teus vôos, e que ficava, pallida,
+vendo-te pairar por esses espaços desconhecidos, e contemplando na chamma da
+tua pupilla um reflexo do fogo intimo, que te devorava.</p>
+
+<p>Creio que foi mesmo essa differença de genio, que tornou mais forte a nossa
+ligação. Tu consagraste á pobre orphã a amizade protectora das mães, eu tive
+por ti a veneração e os extremos de filha. Eras o roble e eu o vime, ou antes a
+hera que me enroscava a ti.</p>
+
+<p>Mais velha do que eu, saiste primeiro do collegio, e deixaste a pobre
+criança, isolada no meio de companheiras com as quaes sempre me ligára pouco.
+Ah! como o collegio então me pareceu triste e sombrio, como a regente me
+pareceu insupportavel, como olhei com raiva e frenesi para os altos muros do
+jardim, e que odio tive á hora do recreio, outr'ora tão alegre, porque eu,
+fugindo ás brincadeiras das meninas mais novas, tu ás<span
+class="pn">{23}</span> frivolas conversações das da tua idade, procuravamo-nos
+uma á outra, e passavamos horas infinitas a contarmos as nossas impressões, e a
+explicarmos o sentido dos sonhos da nossa noite.</p>
+
+<p>Depois, os meus dias de jubilo foram aquelles em que recebia as tuas cartas;
+mettia-as no seio, e esperava com impaciencia a hora de descer ao jardim para
+as poder ler á vontade, longe do frivolo ruido dos jogos das educandas. Assim
+que resoavam na pendula as bemaventuradas vibrações, ahi descia eu toda
+jubilosa a escada, e ia esconder-me n'aquelle caramanchão tão nosso favorito,
+que ficava junto d'aquella fresta gradeada por onde ás vezes espreitavamos os
+raros passeiantes que atravessavam a nossa rua solitaria, tu achando sempre no
+teu espirito fertil um epigramma para arrojares aos pobres homens que passavam
+sem suspeitarem a rapida analyse a que n'um dado instante ficavam sujeitos, eu
+rindo, como uma louca, das tuas chistosas malicias.</p>
+
+<p>Ahi lia pois, as tuas cartas, d'ahi te seguia n'esse mundo que me pintavas
+tão bello, como o espaço immenso assusta a avesinha apenas emplumada,<span
+class="pn">{24}</span> que lança a cabeça fóra do ninho, e que segue em parte
+com inveja, em parte com receio os graciosos vôos que a mãe descreve nos ares,
+para a convidar a seguil-a. Mas a fascinação do teu espirito vencia, como
+sempre, os receios do meu, e ficava com a tua carta nas mãos, pensando nos
+bailes, de que tu eras rainha, nos amores, que volteiavam em torno de ti, como
+as borboletas em torno da luz, e a que tu, incorrigivel <em>coquette</em>, te
+comprazias tanto em requeimar as azas.</p>
+
+<p>D'ahi resultou que esperei anciosa, bem que timidamente, a minha saida do
+collegio, e que os prismas das tuas cartas me fizeram sonhar um mundo côr de
+rosa, que está bem longe, devo confessal-o, da realidade tal como ella se me
+tem mostrado nos quinze dias que já passei fóra do ninho da nossa infancia.</p>
+
+<p>Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me para a
+sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não porque ella me não
+tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima senhora no fundo, tem um
+terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda inspirar amor, e<span
+class="pn">{25}</span> combate, com uma energia desesperada, as asserções da
+sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha d'uma sua
+irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra os cabellos d'um
+ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto de minha tia.</p>
+
+<p>Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha edade, e
+de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a dançar com
+sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das supplentes das
+contradanças, que só se convidam quando falta algum par para fazer a quadrilha
+completa, não me leva aos bailes, porque são, diz ella, perigosos para as
+meninas da minha edade, e até comtigo mesma, perdôa-lhe, minha boa amiga, se
+não quer relacionar, dando para isso razões frivolas, mas sendo o verdadeiro
+motivo os teus vinte e cinco annos que não podem ficar bem á amiga de collegio
+d'uma menina tão nova como eu devo ser, segundo os seus calculos.</p>
+
+<p>Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no collegio,
+depois da tua<span class="pn">{26}</span> partida, sem chegar uma unica vez á
+janella, lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto
+minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos
+imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e
+apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda se
+colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro passeiante
+ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite as homenagens.</p>
+
+<p>O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim, cheio
+de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as tardes, e onde
+muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu largas horas
+scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender pelos primeiros clarões
+da alvorada.</p>
+
+<p>Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho
+razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos, já que
+minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir<span
+class="pn">{27}</span> a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me,
+porque só as tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia.</p>
+
+<p style="text-align: right;">Tua boa amiga</p>
+
+<p style="text-align: right;">Adelaide.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a
+Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da maliciosa
+rapariga.<span class="pn">{28}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{29}</span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova da
+completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se fazia
+interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um pretexto para
+desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e louvou-se de não ter
+avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição ridicula com pessoa que a
+aproveitaria com tão boa vontade. A todos estes sentimentos, que primeiro lhe
+tumultuaram no cerebro, succedeu o amor proprio offendido, «Pois que! dizia
+elle, é de marmore esta mulher? Está junto de mim n'aquella noite
+voluptuosa,<span class="pn">{30}</span> toda impregnada de languidas emanações,
+de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, sente a minha respiração
+abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta as minhas mãos trementes,
+deixa-se embalar commigo, commigo como uma creoula na rede, pelo movimento
+lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada d'isso a commove, e lhe faz perder por
+um instante ao menos, os seus habitos de <em>coquetterie</em>? A propria
+Leonora Falconieri de Feuillet sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle
+bote que resvalava ao lume d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um
+sulco phosphorescente, e Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o
+fogo infernal das suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do
+amor d'uma das suas amigas? Oh! <em>coquette</em>.</p>
+
+<p>«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar essa
+mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, quando não
+tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente desastrado, então
+serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, far-lhe-hei sentir<span
+class="pn">{31}</span> bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não com os
+espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, triumpharei... e talvez
+conseguirei d'essa fórma attrahil-a e fascinal-a, como ella me fascinou a
+mim.»</p>
+
+<p>E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e
+saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...</p>
+
+<p>Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar as
+janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a idéa de que
+se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não era cousa que
+muito custasse á sua timidez rebelde.</p>
+
+<p>Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. Frederico
+fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou por causa
+d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo os olhos da
+galante menina, que logo os desviou o mais depressa que pôde, mas sem que
+podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante delicto. Frederico
+affastou-se triumphantemente.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse passar
+d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o seu passeio
+diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os seus novos amores. A
+sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e convidou-o para jantar.</p>
+
+<p>Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um pequeno
+mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em grupos, e
+Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.</p>
+
+<p>A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade baixa, e
+do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre uma porção do
+rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.</p>
+
+<p>Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um
+resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o Tejo,
+rodeando com um nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais além uma sombra
+tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, devia ser o vago perfil
+da torre de Belem.<span class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando
+brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de perfumes.
+Frederico scismava.</p>
+
+<p>&mdash;Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente.</p>
+
+<p>Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço
+sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha
+existencia.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente?</p>
+
+<p>&mdash;Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina
+que tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim. Oh!
+mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a
+invejam.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>Lucinda mal podia soffrear o riso.</p>
+
+<p>&mdash;E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para
+a pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por
+conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado.</p>
+
+<p>Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio.</p>
+
+<p>&mdash;Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder
+apreciar o seu talento de pintor.</p>
+
+<p>Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu
+pensamento. Lucinda desviou os seus.</p>
+
+<p>Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico.</p>
+
+<p>&mdash;Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe
+era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus olhos ao
+rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa, permitta-me<span
+class="pn">{35}</span> que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente
+deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus olhos o
+amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella estava com a
+face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos seus olhos negros
+parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os cabellos, arfando suavemente
+com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte alva e limpida, tão limpida, que de vez
+em quando parecia que n'essa testa innundada de luz se via passar a vaga sombra
+do pensamento. Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma
+profunda moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e
+meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema seria
+viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar, votei-lhe um affecto,
+profundo e ardente como os seus negros olhos.</p>
+
+<p>Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra isso
+mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem d'amor da velha
+tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a miragem,<span
+class="pn">{36}</span> de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o
+areial... dos cincoenta annos.</p>
+
+<p>Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e levantasse
+um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua declaração, Lucinda poderia
+auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e quebrando d'essa forma o gelo. Mas
+infelizmente a maliciosa rapariga, um instante docemente perturbada pela
+eloquencia de Frederico, pensou de subito, quando elle findou o seu trecho, na
+ficticia inspiradora d'esse memoravel discurso, e deu aos seus labios uma
+expressão de riso reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de
+Frederico logo se retraisse, e tremesse de ter avançado tanto.</p>
+
+<p>Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico
+retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A
+<em>coquette</em> ia-se enleiando nas suas proprias redes.</p>
+
+<p>&mdash;É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas
+nos olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida;
+porque sinto agora<span class="pn">{37}</span> essa commoção desconhecida, de
+que tanto me fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo.<span
+class="pn">{38}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{39}</span></p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Não conhecem os leitores o caracter de Lucinda, se supposeram que ella se
+importasse um instante só com o desejo que a tia d'Adelaide manifestára de não
+se relacionar com a amiga de collegio de sua sobrinha. Foi ella mesma que tomou
+a iniciativa; apresentou-se em casa da sua antiga companheira, não pareceu
+reparar na frieza da dona da casa, lisongeiou-a na sua mania de combater a
+velhice, declarou alto e bom som que Adelaide era no collegio uma creancinha,
+de que ella fôra não a companheira, mas a protectora, a segunda mãe. Esteve
+quasi dizendo que a sua amiguinha entrára para o collegio ainda de<span
+class="pn">{40}</span> mama. Estas asserções illuminaram n'um momomento o rosto
+da tia, dissiparam como por encanto a sua frieza, e deram a Lucinda o logar
+d'amiga intima. Esta, affectava sempre tratar D. Marianna com familiaridade,
+fazia-lhe confidencias imaginaveis, e pedia-lhe egual franqueza. A boa senhora
+caiu no laço, e, córando pudicamente, principiou a narrar-lhe aventuras não
+menos suppostas, porque os namoros que obtinha desfaziam-se sempre á luz
+traidora do dia, quando o desgraçado pretendente, fazendo sentinella á porta da
+casa, via a dois passos de distancia os encantos que o haviam fascinado da
+altura d'um segundo andar.</p>
+
+<p>D. Marianna devia ter sido formosissima; e d'essa formosura extincta
+conservava olhos, onde ainda se não apagára de todo o sacro fogo. Eram elles o
+nucleo em torno do qual se agrupavam os feitiços artificiaes.</p>
+
+<p>Notava, comtudo, Lucinda, uma extraordinaria tristeza em Adelaide.
+Preoccupada e melancholica, a loira creança, em vez de procurar a companhia da
+sua amiga de collegio, evitava-a pelo contrario, e parecia estar cada vez<span
+class="pn">{41}</span> mais affeiçoada á solidão do seu jardim. Debalde Lucinda
+tentava penetrar o segredo d'esta preoccupação. Adelaide era impenetravel.
+Lucinda, devemos confessal-o, não insistiu muito, e, pensando unicamente no
+meio de deslindar a comedia, cuja teia imprudentemente urdira, depois de
+scismar alguns instantes na extraordinaria melancholia da sua amiga, não fez
+mais esforços para penetrar o mysterio.</p>
+
+<p>Os seus amores é que progrediam maravilhosamente, Frederico fallava-lhe do
+seu amor tão fervidamente, acompanhava as suas confidencias com tão ardentes
+olhares, que não se podia duvidar que, apesar de toda a sua timidez, um
+levissimo impulso bastava para quebrar os cordões da mascara, e transformar
+n'uma declaração franca e discreta, as confissões que se trocavam
+enygmaticamente, por meio d'essas bemaventuradas confidencias e que se
+commentavam e explicavam pelo fogo das pupillas.</p>
+
+<p>Comtudo o momento decisivo approximava-se, estava já por tal fórma retezada
+a corda do arco, que por muito que Frederico hesitasse em despedir a frecha
+inflammada, ella partiria<span class="pn">{42}</span> expontaneamente, n'um
+instante de exaltação. Vinte vezes Lucinda julgára que esse momento cubiçado
+era chegado emfim, vinte vezes vira Frederico apertar-lhe a mão convulso, e
+mover os labios como se fosse a proferir a palavra que rasgaria o véu
+transparente, que encobria esses amores, e vinte vezes a mão lhe descaira
+gelida, e vinte vezes os labios se tinham cerrado sem balbuciarem um som. E
+comtudo não era a timidez de Frederico o obstaculo; n'esses instantes estava
+elle n'esse estado d'ebriedade doida, em que se não pensa, em que os sentidos,
+o espirito, a imaginação, tudo se acha exaltado a tal ponto que o mais timido
+se arroja a audacias que depois o fazem estremecer. É como esse instante
+rapido, em que nas batalhas o fumo da polvora, o troar da artilheria, os gritos
+de victoria, o clangor das trombetas exaltam os proprios covardes e os arrojam,
+momentaneamente intrepidos, ao centro das fileiras inimigas. Lucinda estava
+tambem demasiadamente commovida para que podesse gelar esse enthusiasmo
+fervente com um sorriso ironico, uma palavra mordaz. Mas parecia que uma voz
+desconhecida, uma sombra<span class="pn">{43}</span> fatal vinha murmurar ao
+ouvido de Frederico algumas palavras sinistras, e, remorso ou receio, Frederico
+ficava melancholico e sombrio, como os convivas de Lucrecia Borgia, ouvindo no
+meio dos seus cantos bachicos resoarem as notas funebres do côro dos monges.</p>
+
+<p>Lucinda não percebia esta hesitação de nova especie, e receiando vagamente
+um novo perigo, resolvera dar á comedia o seu desenlace.</p>
+
+<p>Duas palavras de Frederico decidiram-n'a de todo.</p>
+
+<p>Um dia, depois de terem feito mil floreados sobre o amor a proposito ou
+antes a desproposito de intangivel, da vaporosa Laura d'aquelle Petrarcha
+inconstante, Frederico deixou pender a fronte melancholica, e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Pobre criança!</p>
+
+<p>Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á
+quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom sentimental
+do romantico mancebo.</p>
+
+<p>Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase
+queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos<span
+class="pn">{44}</span> meus pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que
+me serve para conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.»
+Assim, essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na
+sua alma; encerravam em si a chave do enygma.</p>
+
+<p>Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse
+indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da distancia,
+o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D. Marianna. A pretenciosa
+tia podia parecer uma galante senhora, bem conservada, nunca uma formosa
+rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico cumplice do seu amoroso artificio.
+Vira que elle precisava d'um meio, por mais tenue que fosse, para fallar sem
+receio, proporciona-lhe a occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque
+realmente a amava. Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o
+véu, além de ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar.</p>
+
+<p>Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante que
+nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava correspondido,<span
+class="pn">{45}</span> se podia acreditar nos ternos olhares com que da janella
+o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da intimidade de
+Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua amiga uma entrevista, em
+que lhe podesse declarar o seu affecto e o desejo que alimentava de o ver
+coroado por um feliz hymineu. D. Marianna caíu das nuvens. Tinha distribuido os
+seus olhares ternos com tanta prodigalidade que não sabia qual dos felizes
+mortaes contemplados na distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma
+ventura raras vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor.</p>
+
+<p>Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D.
+Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque D.
+Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade para não ter
+que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio obstinadamente que fosse
+a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria a chave do jardim ao aventuroso
+namorado, e que passaria aquella noite em sua casa para entreter Adelaide, e
+velar assim<span class="pn">{46}</span> para que não fosse perturbada a amorosa
+entrevista.</p>
+
+<p>Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a Frederico.
+Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe, que o encarregava
+de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma entrevista que a obrigava
+a pôr de parte a modestia feminina, e a dirigir-se a elle, fiando-se na sua
+honra de cavalheiro. Demais uma senhora respeitavel assistirá á entrevista.
+Concluiu dizendo-lhe que era na seguinte noite que devia realisar-se a
+entrevista, ensinando-lhe a topographia da casa e dando-lhe a chave do
+jardim.</p>
+
+<p>Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde
+tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser esse o
+instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o susto que teria,
+elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma mulher, apressaria o
+desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo.</p>
+
+<p>Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro
+impeto Frederico<span class="pn">{47}</span> ia arrojar-se aos pés de Lucinda,
+atirando para longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o
+extranho rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz
+firme:</p>
+
+<p>&mdash;Irei. É um dever d'honra.</p>
+
+<p>Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino obstinava-se; a
+comedia tinha de se representar até ao fim.<span class="pn">{48}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D. Marianna.
+Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um redobramento de tristeza
+que se tornava bem visivel no rosto da sua amiga Adelaide, de quem ella se
+esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira a escolhel-a para confidente, porque
+bem conhecia a sua indole sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos
+dos seus sonhos a terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda.</p>
+
+<p>Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa amiga
+era tão completamente indifferente o estado do seu<span class="pn">{50}</span>
+espirito. Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo;
+tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente
+ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella se
+engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava, ennegrecera
+tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse devaneiara-o ella bem
+dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e fragrante atravessara-lhe, e
+perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem ligeiro como sonho que era,
+tornando apenas com a sua luz fugitiva mais espessas as trevas, que voltaram de
+novo a enlutar-lhe a mocidade.</p>
+
+<p>A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda tristeza
+que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de conservar secreto tudo
+o que se passava no seu espirito, e o receio que tinha dos sarcasmos de
+Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse mais do que todos os seus
+motejos. Mas Lucinda andava preoccupada, Lucinda nem reparava na pallidez da
+sua amiga. Vir ella passar um dia a sua casa, prometter ficar á<span
+class="pn">{51}</span> noute, e não lhe dirigir durante esse tempo todo, mais
+de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre Adelaidesinha não podia
+perceber, e ainda menos, a intimidade subita que se estabelecera entre sua tia
+e a sua amiga. N'esse dia andou aquella toda azafamada a enfeitar-se, a
+pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor <em>coquettemente</em> a sala de
+visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e trocava com ella em voz baixa
+palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide, espantada de ver tantos preparativos,
+se se esperava alguem nessa noute, recebeu uma resposta secca das duas
+senhoras; e a pobre menina, suffocada em soluços, e não podendo conter as
+lagrimas, refugiou-se, levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi
+desaffogou, derramou prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais
+infeliz de todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que,
+orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo.</p>
+
+<p>Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa. Lucinda,
+vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das<span
+class="pn">{52}</span> palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do
+jardim, Lucinda conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos
+dizer) para suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta.
+Embebida n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do
+encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D. Marianna,
+enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas de modo, que se
+conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por Garrett, a penumbra tão util
+aos amantes, e duplamente util, a quem só dispõe d'esse recurso para combater,
+com mais ou menos vantagem, os inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que
+já podia entrar na classe honrosa dos documentos historicos.</p>
+
+<p>Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na escuridão,
+procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez em quando ia
+espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no canapé, vestida com
+o fato mais fresco e juvenil, esperava magestosamente a visita d'aquelle a quem
+os seus encantos tinham rendido.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura, para
+a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração indicaram-lhe, mais
+depressa do que a vista, que era esse o vulto de Frederico.</p>
+
+<p>A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a porta
+do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de Frederico. Viu-o
+hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e affastar-se. Lucinda
+sorriu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella.</p>
+
+<p>Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva, tornou
+rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou no jardim.</p>
+
+<p>&mdash;Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus
+tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do
+ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a quinquagenaria
+formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os remorsos.</p>
+
+<p>E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão<span class="pn">{54}</span> veiu, e
+uma sombra de melancholia se lhe espalhou no semblante.</p>
+
+<p>&mdash;Esta minha indole zombeteira, murmurou ella, ha de ser sempre um
+obstaculo á minha felicidade. Devo fazer penitencia. O ridiculo, a que expuz os
+dois actores da scena que se vae passar na sala, é enorme. Eu não o perdoava.
+Perdoal-o-ha Frederico? Perdôa de certo, perdôa e com que jubilo, em sabendo o
+motivo que me guiou! Mas não devo deixar passar uma noute sobre o seu
+resentimento. Agora mesmo, agora quando esse D. Quixote de donzellas
+cincoentonas voltar mal-ferido da sua justa cortez, farei como Altisidora,
+ousarei pôr de parte o pudor feminino para lhe dizer «Amo-te» e para o consolar
+com essa palavra só do encantamento da nova Dulcinéa.</p>
+
+<p>E a travessa rapariga, desatando a rir, desceu a escada que ia ter ao
+jardim.</p>
+
+<p>Não havia ainda luar como dissémos, porém, emquanto não surgia a rainha da
+noute no seu carro triumphal de madre-perola, as estrellas scintillavam com
+vivissima luz no ceu azul, e insinuavam os seus raios d'ouro pallido<span
+class="pn">{55}</span> por entre a folhagem das arvores, que a brisa
+meneava.</p>
+
+<p>Lucinda esteve alguns instantes scismando tristemente. A <em>coquette</em>
+lamentava talvez o ter-se enleiado, para conseguir o seu fim, n'esse tão
+complicado enredo, que afinal a nada remedeiára, porque se via obrigada a dar o
+primeiro passo, exactamente como se não tivesse ideado tantas combinações
+machiavelicas para obrigar esse timido Cesar, que podia chegar, ver e vencer, a
+passar o Rubicon.</p>
+
+<p>N'isto um vulto de homem appareceu, vindo do lado da habitação, cosendo-se
+com os troncos d'arvores, mas fugindo ligeiramente. Devia ser Frederico.</p>
+
+<p>Lucinda avançou para elle, com o coração a pulsar-lhe violentamente.</p>
+
+<p>&mdash;Frederico! balbuciou ella.</p>
+
+<p>O homem parou.</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais
+timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a confissão
+que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de immodesta:
+«Amo-o».<span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos
+d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á mulher de
+Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos.</p>
+
+<p>Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso violento
+que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro, e ouviu uma voz
+grosseira e avinhada, que lhe dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha
+Phylis, mas larga os timidos volateis.</p>
+
+<p>Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de casa. A
+esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo do jardim. Um
+outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de Lucinda, e uma outra voz
+juvenil de senhora começou a bradar por soccorro.</p>
+
+<p>A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim
+innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida <em>toilette</em> á
+porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro, deixando<span
+class="pn">{57}</span> os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda,
+que ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro,
+pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena:</p>
+
+<p>Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos,
+como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava Adelaide
+escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que petrificada, os
+criados riam e segredavam.<span class="pn">{58}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{59}</span></p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Voltemos agora ao instante em que vimos Frederico desapparecer no jardim.</p>
+
+<p>Os calculos de Lucinda peccavam pela base. A auctora d'este enredo não podia
+costumar-se a considerar Adelaide, que tinha menos seis annos do que ella, como
+uma mulher capaz de amar e de ser amada, não suspeitára que por baixo da
+varanda do segundo andar, onde estava Marianna, havia uma janella de peitos,
+que n'essa janella, por maior que fosse a reclusão em que Adelaide vivesse, ia
+esta espairecer por alguns instantes, que seria exactamente n'uma dessas
+occasiões que Frederico passaria, e que o vulto<span class="pn">{60}</span>
+elegante e nobre d'este moço não produziria menos impressão na creança de
+dezenove annos, do que produzira na mulher de vinte e cinco.</p>
+
+<p>Frederico amava realmente Lucinda, e aproveitára com avidez a occasião que
+se lhe offerecia de vencer a sua timidez, e de ter com a esplendida
+<em>coquette</em> essas longas conversações d'amor, que nunca ousaria encetar
+se esse pretexto se lhe não proporcionasse. Mas a suave figura d'Adelaide não
+deixára de lhe fazer impressão, e a tristeza que principiava a ver na
+physionomia d'ella, á medida que os dias iam correndo, sem que essa troca de
+olhares tivesse resultados, causára-lhe um vago remorso. Parecia-lhe que essa
+formosa menina merecia mais do que servir de pretexto á poesia, de que era
+outra o objecto verdadeiro; parecia-lhe que elle commettia um crime, povoando
+de sonhos d'ouro aquella juvenil imaginação, para depois só os esmagar com a
+massa brutal do desdem.</p>
+
+<p>Portanto aceitára a entrevista, como se acceita o calice d'amargura, que um
+dever nobre e elevado nos impõe a obrigação de bebermos. Queria fallar com
+Adelaide, confessar-lhe<span class="pn">{61}</span> tudo, mostrar-lhe uma
+franqueza tal, humilhar-se tanto, que, se não lhe podesse amortecer a dôr, lhe
+lisongeasse pelo menos o amor-proprio e o impedisse de se ferir no doloroso
+espinho, que lhe ia fazer brotar na tenra haste d'essa namorada flor da
+phantasia. No mesmo dia da entrevista (era um domingo) entrava elle n'uma
+egreja. Acabava a missa, e no templo solitario estavam apenas duas mulheres,
+uma, elegante e airosa, parecia absorvida n'uma prece fervente, a outra, que
+era uma criada velha, mostrava impaciencia visivel de se retirar.</p>
+
+<p>Finalmente a devota senhora ergueu-se, e os seus olhos encontraram os olhos
+de Frederico, que reconheceu com espanto a mulher, cuja imagem o perseguia como
+um remorso. Estava pallida, os olhos azues languidos e tristes denunciavam
+lagrimas enxutas de pouco. Fitou um longo olhar em Frederico; este pallido e
+trémulo curvou-se respeitosamente, levando a mão ao coração, como se uma dôr
+subita o ferisse, e desviando os olhos d'ella, affastou-se rapidamente.</p>
+
+<p>N'essa noite, como vimos, estava elle á porta<span class="pn">{62}</span> do
+jardim. Entrou, e, apenas dera dez passos n'uma pequena alameda, encontrou um
+vulto feminino, que se dirigia vagarosamente para casa. Á luz do candieiro de
+gaz, que illuminava uma pequena porção da alameda, os dois reconheceram-se.
+Adelaide recuou um passo, e soltou um pequeno grito.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor aqui! bradou ella com voz que debalde procurava tornar firme
+e austera. Ah! percebo, continuou ella como que ferida por uma idéa, e
+desatando a chorar, julga talvez que sou uma d'essas mulheres levianas, com as
+quaes basta empregar a audacia...</p>
+
+<p>Não pôde dizer mais. Os soluços suffocaram-a. Audacia! Era a primeira vez
+que Frederico ouvia uma mulher dirigir-lhe similhante accusação.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! juro-lhe que se engana, exclamou elle caindo-lhe aos pés e não
+reparando até no incomprehensivel espanto d'essa mulher, que, segundo elle
+julgava, fôra a primeira a conceder-lhe um <em>rendez-vous</em>, a ninguem
+n'este mundo merece mais respeito. Sou culpado, bem o sei, mas tudo vou
+resgatar com a minha franqueza extrema e sem limites.<span
+class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>Adelaide não o ouvia; pendia-lhe desfallecida nos braços; não ousamos dizer
+que fosse completamente involuntario esse desfalecimento.</p>
+
+<p>Frederico, consternado, olhou em torno de si, e vio um banco ao fundo da
+alameda. Segurando com o braço na cintura de Adelaide, foi-a levando para esse
+lado.</p>
+
+<p>Adelaide caiu sentada no banco, e escondeu o rosto entre as mãos.</p>
+
+<p>Frederico ficou silencioso junto d'ella. Sentia d'elle uma desconhecida
+perturbação. Aquelle encontro inesperado, a solidão e a noute, o perfume das
+flores, combinado com essas vagas e voluptuosas emanações das noites d'estio,
+esse vulto flexivel e airoso de mulher que lhe pendera nos braços, tudo isso,
+sobrevindo d'um modo tão imprevisto, o enebriava e entontecia.</p>
+
+<p>Vendo aquella mulher tão linda, com o rosto banhado de lagrimas, o animo
+desfalleceu-lhe; como havia elle de dizer a essa creatura do ceu, quando estava
+elle mesmo sujeito ao indizivel magnetismo, á fascinação do seu olhar, como
+havia elle de lhe dizer: «Illudi-a,<span class="pn">{64}</span> sacrifiquei-a a
+uma <em>coquette</em>, fiz do seu vulto gracioso e angelico, anteparo, que me
+resguardasse do fogo d'uns olhos audazes, que me fascinavam e me queimavam?»</p>
+
+<p>Impossivel! completamente impossivel!</p>
+
+<p>Por isso Frederico pôde apenas balbuciar:</p>
+
+<p>&mdash;Perdoa-me?...</p>
+
+<p>Ella abaixou para elle os olhos, em que atravez das lagrimas transparecia um
+amor immenso, e com voz suave, tremente, doce e suavissima, como vibração
+longiqua d'harpa eolia, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Perdoar-lhe! como lhe não hei de perdoar, se por este momento
+anciava, se o meu desejo era vel-o ahi onde está, e ouvir a sua voz? Oh! meu
+Deus bem sei que me vae julgar mal, bem sei que o devia repellir, que devia
+estranhar o seu proceder? Que quer? Não tenho animo. Ha tanto tempo que a
+ventura me foge, que não posso fugir-lhe agora que ella me surge de subito!
+Depois eu sei que é cavalheiro, sei que me ama, li-o no seu olhar, e esse livro
+mysterioso para nós outras mulheres não tem segredos. Confio na sua honra, e
+sequiosa ha tanto d'esta suprema felicidade,<span class="pn">{65}</span> ouso
+dizer-lhe: «Obrigada por ter vindo, obrigada por ter prevenido o meu secreto
+desejo, obrigada por ter lido nas minhas faces pallidas, nos meus olhos
+amortecidos a anciedade que me devorava, por ter adivinhado que morria longe de
+si, como a flor, a que falta o orvalho, como a arvore a que falta o sol.»</p>
+
+<p>Frederico, arrastado por esta eloquencia ardente, fascinadora, auxiliada por
+uma indescriptivel melodia de voz, pelos murmurios dulcissimos do jardim,
+sentia abrazar-se-lhe a imaginação, e o vulto de Lucinda, que por momentos
+fluctuava diante d'elle, esvaía-se ao longe como um sonho ao romper da
+alvorada, e as palavras d'ella, que primeiro se haviam interposto ao seu
+ouvido, e á voz d'Adelaide, pareciam-lhe agora tão frias e descoradas,
+comparando-as com essas phrases vehementes, que lhe iam ferir o coração, porque
+do coração partiam!...</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora... balbuciou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! chame-me Adelaide, tornou ella, apertando-lhe as mãos com impeto
+febril, e diga-me o seu nome para que os meus sonhos<span
+class="pn">{66}</span> o saibam, e mo venham repetir á noite, depois de eu
+adormecer balbuciando-o.</p>
+
+<p>&mdash;Adelaide, que me enlouquece, bradou o mancebo com a cabeça em
+fogo.</p>
+
+<p>&mdash;O seu nome, o seu nome!</p>
+
+<p>&mdash;Frederico! murmurou elle e tão proximo d'ella, que os labios
+d'Adelaide pareceram aspirar essa palavra, assim que saiu da bocca do seu
+amado, como se temesse que a surprehendesse a brisa.</p>
+
+<p>As arvores meneavam as suas folhudas copas impellidas pelo sopro da viração;
+a luz das estrellas tremia no ceu azul, e os seus pallidos raios, coando-se por
+entre os ramos, illuminavam frouxamente a alva fronte de Adelaide.</p>
+
+<p>Subito soou um grito de mulher ancioso e dilacerante.</p>
+
+<p>Frederico levantou-se d'um impeto, e correu para o sitio d'onde partia o
+brado; na escuridão topou um homem que fugia, estendeu as mãos e
+afferrou-se-lhe ao pescoço.</p>
+
+<p>O resto sabem-n'o os leitores.</p>
+<hr>
+
+<p>D. Marianna, que, sentada no sophá, vestida,<span class="pn">{67}</span>
+enfeitada, e collocada na sombra, debalde esperava a promettida visita, correu
+ao jardim, ouvindo o grito, e já lá encontrou os criados.</p>
+
+<p>Viu então o ladrão das gallinhas fugir por cima do muro, deixando os seus
+despojos no campo de batalha, Frederico empunhando os volateis, e junto d'elle
+Adelaide.</p>
+
+<p>A tia ficou fula de colera, notando que sua sobrinha estava n'um
+<em>rendez-vous</em>, emquanto ella esperava debalde o seu. Era possivel mesmo
+que os dois não fizessem senão um.</p>
+
+<p>&mdash;O que é isto? bradou ella. A menina com um homem no quintal!</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora, disse Frederico abandonando as gallinhas, confesso que
+fomos culpados occultando a v. ex.ª os nossos amores, mas estamos a tempo de
+reparar essa culpa, porque tenho a honra de pedir a v. ex.ª a mão de sua
+sobrinha.</p>
+
+<p>&mdash;O logar é improprio bastante, respondeu seccamente D. Marianna,
+queira portanto sair. E a menina recolha-se ao seu quarto e seja mais
+prudente.</p>
+
+<p>Debalde a pobre tia pedia explicações a<span class="pn">{68}</span> Lucinda.
+Esta furiosa declarou-lhe que nada percebia, e no dia seguinte retirou-se para
+sua casa.</p>
+
+<p>D'ahi a quinze dias recebia uma carta de Adelaide, a qual, como podem
+suppôr, ignorava tudo o que se passára.</p>
+
+<p>A carta dizia o seguinte:</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: right;">«Minha boa amiga.</p>
+
+<p>«Caso-me daqui a um mez. Não podes imaginar como sou feliz. Quero fallar
+comtigo muito, muito e muito.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Lucinda rasgou a carta, e pizou-a aos pés com lagrimas de raiva. Ao outro
+dia tanto instou com seu pae, tão doente disse que estava que o resolveu,
+apesar da extrema repugnancia da sr.ª D. Leocadia em deixar Lisboa, a irem
+passar o resto do verão n'uma quinta que possuiam no Ribatejo.</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+
+<p><span class="pn">{69}</span></p>
+
+<h1>UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</h1>
+
+<p><span class="pn">{70}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{71}</span></p>
+
+<h1>UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Estou embirrando solemnemente com o titulo do meu romance. Um melodrama em
+Santo Thyrso, n'uma terra pacifica e bem morigerada, cujos habitantes mais
+notaveis pela sua respeitabilidade, lêem o <em>Flos Sanctorum</em>, e suspiram
+pelo tempo dos frades, d'esses incançaveis moralisadores e bemfeitores da
+população!</p>
+
+<p>Eu podia inventar um enredo terrivel, e tornar editores responsaveis das
+peripecias mais criminosas do meu entrecho, alguns habitantes de quem eu
+tivesse tido razão de queixa, quando estive em Santo Thyrso (porque eu estive
+em Santo Thyrso, oh! patricios alfacinhas)<span class="pn">{72}</span> mas
+n'aquella boa terra não fui offendido senão pelas pulgas da estalagem, e, a
+respeito de pulgas, nem mesmo as industriosas são proprias para personagens de
+melodrama.</p>
+
+<p>Mas eu não quero inventar, quero apenas ser chronista da muito veridica
+historia (chavão infallivel) que passo a contar a quem tiver paciencia de me
+ler, e declaro desde já aos Santo Thyrsenses, que, se os factos, que historio,
+teem uma apparencia melodramatica, a culpa não é minha... é dos
+acontecimentos.</p>
+
+<p>Anoitecia; a tarde, apesar do outono ir já adiantado (a acção do meu romance
+passa-se em novembro), tinha estado linda, e até mesmo quente; mas ao pôr do
+sol levantára-se um vento fino e glacial que ameaçára os prudentes
+frequentadores da botica com um diluvio de catarrhos e constipações, e os
+narizes dos veneraveis minhotos, victimas d'um abuso de confiança atmospherico,
+tinham obrigado os seus donos a procurarem um abrigo nos lares domésticos, para
+não apanharem o ar humido da noite, quando, segundo o seu costume, abandonassem
+o gamão, para voltarem para casa a horas mortas.<span class="pn">{73}</span></p>
+
+<p>A horas mortas?! Sim, não posso deixar de confessar que a perversão dos
+costumes tinha chegado a Santo Thyrso! Uma roda de jovens extravagantes, todos
+de menos de sessenta annos de edade, haviam instituido, com grave escandalo das
+pessoas sérias, o costume de se recolherem ás dez horas!!! Ás dez horas! Ás dez
+horas, raça degenerada! Quando, no quintal fronteiro á botica, as gallinhas se
+recolhiam á capoeira, não vos parecia ver passar d'envolta com ellas as sombras
+venerandas dos vossos avós, aconselhando-vos o regresso a casa?! Netos
+degenerados, as cinzas dos vossos antepassados tremem de indignação, não vos
+sentindo ressonar ás oito horas da noite... Horror!</p>
+
+<p>Fataes consequencias do progresso! E por toda a parte vae lavrando este
+contagio funesto. Tudo está impregnado de immoralidade; a litteratura mesmo
+está viciada. Ó adoradores do passado, compadecei-vos de nós! Actualmente
+lêem-se os romances de Alexandre Dumas, filho. No vosso tempo lia-se o
+<em>Cavalheiro de Faublas</em>, e a <em>Justina</em> do marquez de Sade. Ó
+tempos felizes d'outr'ora! Ó moral das passadas éras!<span
+class="pn">{74}</span></p>
+
+<p>Começo eu a perder-me em digressões. É um defeito, que confesso
+humildemente; prometto emendar-me d'elle, e vou entrar immediatamente na minha
+narração.</p>
+
+<p>Começava pois a anoitecer, quando á porta de uma das melhores casas de Santo
+Thyrso um moço e esbelto official de caçadores se apeava de um cavallo, que
+mereceria uma descripção especial, se o meu protesto de me deixar de digressões
+não fosse ainda tão recente. Basta dizer-se que o sendeiro de Nicolau Tolentino
+era um prodigio d'obesidade, comparado com o ente (rebelde a toda a
+classificação zoologica), em que vinha montado o nosso joven official.</p>
+
+<p>A casa, junto á qual tinha parado o intrepido rocinante d'aquelle D. Quixote
+arregimentado, tinha uma apparencia seductora para um lisboeta desterrado na
+provincia. Via-se que o proprietario attendera ás condições de elegancia e
+conforto, quando mandou construir a casa. Duas senhoras novas ainda,
+soffrivelmente feias, um tanto pardas, e ambas de luneta, adornavam ou
+desadornavam uma das sacadas. Os sons d'um<span class="pn">{75}</span> piano
+desafinado, (como qualquer piano d'um terceiro andar da baixa, e tocado com a
+mestria com que o poderia tocar em Lisboa a menina da casa, filha d'um
+negociante rico, em funcção de annos com enthusiasticos applausos dos
+convidados... se o serviço ao chá foi bom) chegaram aos ouvidos do official de
+caçadores, e vieram demonstrar-lhe que os instinctos phildesharmonicos da nova
+geração feminina se revelavam em Santo Thyrso com tanto vigor, como na terra
+das alfaces.</p>
+
+<p>O nosso lisboeta (o rapaz effectivamente era de Lisboa) comprimentou
+aquelles dois exemplares do sexo feminino, tirados em papel pardo, e
+perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.<sup>as</sup> teem a bondade de me dizer se mora aqui o sr.
+Bernardo da Fonseca Guimarães, antigo negociante?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, respondeu uma das interpelladas, é meu pae.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso tem a bondade de lhe dizer que lhe trago uma carta do seu
+amigo de Lisboa o sr. Antonio Ricardo de Sousa.</p>
+
+<p>&mdash;Ó <em>paesinho</em>, tornou a rapariga, voltando-se<span
+class="pn">{76}</span> para dentro, está aqui um senhor official, que o
+procura.</p>
+
+<p>&mdash;Manda subir, Adelaide.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo abriu-se a porta, e o nosso amigo, depois de ter atado á
+aldrava a redea do rocinante (o arrieiro chamava-lhe redea, com o mesmo direito
+com que o governo chama barão a um lapuz opulento), subiu a escada, no patamar
+da qual encontrou o nosso Bernardo Guimarães, em chinellos de moiro, na mão um
+barrete conico, em fórma de apagador, e prompto a receber diplomaticamente a
+visita inesperada.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Antão bossenhoria</em> traz-me uma carta do meu amigo Antonio
+Ricardo? Ora pois, muito estimo, muito estimo. Como está aquelle maganão?</p>
+
+<p>&mdash;Menos mal!</p>
+
+<p>&mdash;Elle d'antes padecia muito de callos!</p>
+
+<p>&mdash;Ainda hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Ora bom, entre aqui para a sala... como se chama
+<em>bossenhoria</em>? Quero apresental-o a minhas filhas, a quem dei uma
+educação, que não a teem melhor as fidalgas de Lisboa! Como é a sua graça?<span
+class="pn">{77}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira.</p>
+
+<p>&mdash;Vá entrando, vá entrando que eu vou ler a carta do meu Antonio
+Ricardo.</p>
+
+<p>Eduardo Teixeira entrou na sala, e achou-se em frente das duas pardas, que
+já tinha visto, e d'uma terceira, que estava sentada ao piano, bonita fallando
+em absoluto, e formosissima comparando-a com as outras. Lindos olhos pretos
+rasgados, um pouco morena, grande a bocca, mas não muito desgraciosa,&mdash;tal
+é o retrato da desalmada pianista.</p>
+
+<p>Eduardo comprimentou-as; ellas responderam com um comprimento ceremonioso, e
+ficaram todos em silencio.</p>
+
+<p>As raparigas olhavam para Eduardo, como olhariam para um objecto de
+curiosidade; e o nosso alfacinha, que não gostava de ser contemplado como se
+fosse um macaco de especie rarissima, ou um embaixador japonez, entendeu que
+devia sair d'aquella posição embaraçosa, lançando mão da primeira banalidade,
+que lhe occorresse. Lembrou-se que ao subir a escada tinha ouvido o <em>La dona
+é mobile</em> desfigurado com a maior bulha possivel pela pianista
+provinciana.<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Foi uma idéa salvadora! Eduardo, por conseguinte, puxou os punhos da camisa,
+torceu o bigode com toda a affabilidade, tossiu agradavelmente, esboçou no
+sorriso o prologo de uma fineza, e disse com o tom mais mellifluo que pôde
+encontrar:</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora, eu assim que entrei n'esta casa, tive uma surpresa
+muito agradavel.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, então qual foi? tornou a martyrisadora de Verdi.</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi tocar admiravelmente no piano um trecho do
+<em>Rigoletto</em>.</p>
+
+<p>As tres meninas olharam umas para as outras boquiabertas. Finalmente a
+pianista desfez provisoriamente o ponto d'admiração em que tinha transformado a
+cara, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;É espantoso! Como conheceu!</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora... observou Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;Não admira, é de Lisboa, interrompeu uma das pardas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora... acudiu o lisboeta.</p>
+
+<p>&mdash;Frequenta muito o theatro lyrico, tornou a parda n.º 2.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora... continuou Eduardo já atterrado por aquella
+insistencia.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>&mdash;Oh! o theatro lyrico, acudia a pianista em tom inspirado, e
+arregalando muito os olhos, o sanctuario do prazer. Como deve ser bello! Vio a
+Lotti, sr. alferes? Tem ouvido o <em>Rigoletto</em>? Como elle conheceu!</p>
+
+<p>Eduardo escandalisou-se; o espantarem-se de que elle conhecesse <em>La dona
+é mobile</em> era a maior offensa que se podia fazer aos seus conhecimentos
+musicaes, por isso não poude deixar de responder:</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora, em Lisboa não ha um só gaiato, que não conheça
+este trecho.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é vulgar!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, é do dominio do realejo.</p>
+
+<p>N'este momento entrava na sala o sr. Bernardo Guimarães. Vinha com uma cara
+prazenteira, oculos no nariz, e sorvendo com delicia uma pitada de simonte.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Antão</em> já se conhecem, bradou elle, olhem que este senhor é
+afilhado do nosso Antonio Ricardo. <em>Antão</em> está agora em caçadores 7, e
+tem licença de um mez? Anda a ver o nosso Minho. Isto para quem vem de Lisboa,
+não tem que ver.<span class="pn">{80}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora se tem, sr. Guimarães! é um torrão abençoado. Que deliciosas
+paisagens, que magnificos panoramas! É realmente uma provincia muito
+pittoresca, e muito curiosa até pelas suas recordações historicas. Guimarães
+possue reliquias archeologicas importantissimas, e é pena que as não saibam
+avaliar devidamente, e que profanem os venerandos monumentos do berço da
+monarchia, sarapintando de verde e azul, por exemplo, a pia do baptismo de D.
+Affonso Henrique.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, não me venha com lerias. Os conegos fizeram muito bem. Estava a
+pia suja, que mettia medo, e envergonhava a collegiada. Ha mais tempo que o
+deviam ter feito. Vejam como agora está bonita. Ninguem ha de dizer que tem
+oitocentos annos a tal pia. Vão lá adivinhal-o. Agora nem o mais pintado.</p>
+
+<p>E o bom do negociante confirmava a sua dissertação artistica com o silvo
+estrondoso d'uma pitada.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Bossenhoria</em> agora fica comnosco alguns dias, tenha
+paciencia. Hei de lhe dar agua da fonte da Maria Velha, que tem a virtude
+de<span class="pn">{81}</span> fazer que quem a bebe só com muito custo saia de
+Santo Thyrso. Já tem um quarto preparado, vá descançar um pouco, depois ceia
+comnosco ás sete horas, sem ceremonia, sem ceremonia.</p>
+
+<p>&mdash;Ó <em>paesinho</em>, observou a mais bonita das filhas, este senhor
+póde ser que esteja costumado a tomar chá e <em>tostas</em>, veja lá não lhe
+faça mal ceiar.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! não, minha senhora, muitissimo obrigado; o meu estômago é d'uma
+flexibilidade espantosa, presta-se a todos os usos gastronomicos das
+differentes terras. Isto para um militar é essencial.</p>
+
+<p>&mdash;Bem dito, bem dito, tornou o sr. Bernardo, até d'aqui a pedaço,
+hein?</p>
+
+<p>&mdash;Até já, minhas senhoras; um creado de vv. ex.<sup>as</sup></p>
+
+<p>E Eduardo Teixeira saiu da sala, guiado pelo seu hospedeiro.<span
+class="pn">{82}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{83}</span></p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Vamos nós, amigo leitor, assistir á ceia do sr. Bernardo Guimarães. O digno
+negociante não se deve zangar comnosco; eu pelo menos vou com o proposito firme
+de não lhe acceitar cousa alguma; porque ao amaldiçoado caldo verde, e ao
+detestavel vinho verde tenho um odio particular. Venho simplesmente, como
+grande curioso que sou, espreitar o aspecto da mesa, e ver se pesco a conversa
+dos convivas, que deve estar interessante.</p>
+
+<p>Ao pé do respeitavel sr. Bernardo, está sentado o nosso alferes de
+caçadores, a cair de somno, segundo parece; porque as palpebras<span
+class="pn">{84}</span> cerram-se-lhe a miudo, e os bocejos, apesar dos esforços
+incriveis que faz para os reprimir, tornam-se cada vez mais frequentes.</p>
+
+<p>Á esquerda do nosso Eduardo Teixeira senta-se a veneranda metade do
+venerando Bernardo. Cincoenta vezes tem florido a amendoeira desde, que Santo
+Thyrso teve a gloria de produzir um dos mais feios especimens da fealdade
+humana. Apesar d'isso, rosnavam os maldizentes que um certo mestre de meninos
+da villa se encarregára do papel de Cyrineu, que ajudasse o sr. Bernardo a
+levar aquella cruz desdentada ao Calvario matrimonial. Linguas damnadas, que
+não poupam nem a virtude... nem os mestres de meninos.</p>
+
+<p>Defronte estava sentado o sobredito sr. Themudo (que este era o nome do
+chichisbéo) homem rubicundo, e de proporções herculeas, capaz de levar trinta
+cruzes, principalmente carunchosas como aquella, ao Golgotha mais elevado.</p>
+
+<p>Este senhor estava flanqueado pelas tres meninas da casa, e felizmente para
+o equilibrio gastronomico, ficava elle d'esse lado da mesa, porque as filhas do
+negociante, donzellas<span class="pn">{85}</span> vaporosas e ideaes, achavam
+feio comer diante de gente; mas o nosso amigo tratava com muito cuidado do seu
+estomago, do coração de D. Belizaria Guimarães, e da cabeça do ex-negociante,
+porque comia como quatro, deitava olhos ternos á respeitavel matrona, e
+aconselhava o uso do chinó ao marido, que se queixava de frequentes
+constipações na cabeça.</p>
+
+<p>No momento em que eu e o leitor começámos a espreitar aquella scena
+domestica, tinha um formidavel prato de arroz doce entrado em scena, e o nosso
+Eduardo Teixeira, apreciador d'esses doçuras gastronomicas, atacava-o com um
+denodo, que honrava sobremaneira o valor do seu... appetite.</p>
+
+<p>As meninas da casa entretanto apoquentavam-n'o com perguntas ácerca de
+Lisboa, do casamento do rei, dos theatros, dos litteratos, emfim, de todas as
+cousas da capital, d'esse eldorado das donzellas pretenciosas das
+provincias.</p>
+
+<p>&mdash;Então, diga-me uma cousa, sr. Teixeira, como ia vestida a rainha no
+dia do casamento?<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>Eduardo, que em questões de <em>toilettes</em> femininos era perfeitamente
+um selvagem, e que demais estava saboreando com delicias uma colher d'arroz
+doce, respondeu com toda a serenidade:</p>
+
+<p>&mdash;Ia vestida de verde, branco e escarlate.</p>
+
+<p>&mdash;Uma noiva!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, trajava as côres italianas, para mostrar o
+affecto que tem á sua patria!</p>
+
+<p>&mdash;Mas os jornaes não fallavam em tal cousa!</p>
+
+<p>&mdash;Ora, os jornaes sabem lá o que dizem,&mdash;respondeu Eduardo
+cortando com a colher a questão, e um castello d'arroz doce, que se formára ao
+canto do prato,&mdash;os jornaes estão sempre pessimamente informados.</p>
+
+<p>Ninguem ousou replicar; fallára o oraculo lisbonense, emmudeciam os profanos
+da provincia.</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. Eduardo, exclamou a menina Adelaide, que era uma das pardas, já
+leu o <em>D. Jayme</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Já, sim, minha senhora; v. ex.ª tambem o leu, segundo vejo. É um
+bonito poema.<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>&mdash;O que é isso do D. Jayme? perguntou o sr. Bernardo.</p>
+
+<p>&mdash;O meu amigo nunca leu aquella sandice, observou o mestre de meninos
+em tom... de mestre de meninos, fez bem, fez bem; é um pessimo livro; tem um
+erro de grammatica, e meia cacophonia; e demais a mais é revoltantemente
+immoral, accrescentou elle, lançando um olhar terno para a mulher do seu
+amigo.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Themudo deve ser muito enthusiasta da <em>Historia da
+Imperatriz Porcina</em>, observou Eduardo com a maior gravidade.</p>
+
+<p>&mdash;Não desgosto, não desgosto; mas lá o <em>D. Jayme</em>, não presta
+para nada; e aquelle pateta do Castilho a elogial-o... Ora o Castilho sempre é
+homem, que quer ensinar as creanças com um methodo racional! Como se, para
+ensinar meninos, fosse necessario ser racional! Aqui estou eu para prova do
+contrario. Ensino os pequenos com a cartilha do mestre Ignacio, e no fim de
+quatro annos estão promptos. Eu cá sou assim.</p>
+
+<p>&mdash;Diga-me uma cousa, sr. Teixeira, conhece o Thomaz Ribeiro? perguntou
+a pianista.</p>
+
+<p>&mdash;Se conheço o Thomaz Ribeiro? Perfeitamente,<span
+class="pn">{88}</span> minha senhora, tornou Eduardo, que tinha adormecido
+quasi, ouvindo o discurso do sr. Themudo.</p>
+
+<p>&mdash;Então diga-nos como é a physionomia do poeta?</p>
+
+<p>&mdash;Cabellos louros, e olhos azues!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! é! logo vi que havia de ser assim, e o Julio Machado,
+conhece-o?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa... minha senhora... se conheço o Machado, conheço-o como os
+meus dedos.</p>
+
+<p>&mdash;Descreva-o lá.</p>
+
+<p>&mdash;Cabellos louros, e olhos azues.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! tambem?!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem, sim, minha senhora, estatura ordinaria, e bocca regular!</p>
+
+<p>&mdash;E o nariz, e o nariz?</p>
+
+<p>&mdash;O nariz, tornou Eduardo surprehendido em flagrante delicto de
+contemplação diante d'um copo de vinho do Porto, que estava observando á luz; o
+nariz arrebitado!</p>
+
+<p>&mdash;Arrebitado, tornaram as raparigas em côro, e depois voltando-se umas
+para as outras accrescentaram em <em>rezza-voce</em>: O auctor das <em>Scenas
+da minha terra</em> tem o nariz arrebitado!<span class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>&mdash;Já se vê, minhas senhoras, observou Eduardo, nariz de folhetinista!
+Todos os folhetinistas teem o nariz arrebitado!</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa, então a mana Emilia, respondeu uma das pardas apontando
+para a pianista, a mana Emilia deve escrever folhetins, tem o nariz
+arrebitado.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente, minha senhora, se tivesse o nariz aquilino,
+aconselhava-lhe que escrevesse poemas epicos, ou tragedias em cinco actos!</p>
+
+<p>Eduardo, julgando-se livre de interrogatorios, dispunha-se a pedir licença
+para se retirar, quando a mana Emilia accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Gostou do <em>Prato d'arroz doce</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Muito, minha senhora; os ovos estavam em muito boa conta, o assucar
+magistralmente distribuido, e a canella dizia-lhe muito bem!</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu fallo do romance de Antonio Augusto.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! o romance está muito bem escripto, é uma bella obra!</p>
+
+<p>&mdash;Conhece o Teixeira de Vasconcellos!</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa, n'isso nem se falla... sou intimo<span
+class="pn">{90}</span> amigo d'elle. Inda v. ex.ª me pergunta se conheço o
+Teixeira de Vasconcellos!</p>
+
+<p>&mdash;Descreva-nos lá a cara d'elle. Nós temos muita curiosidade de
+conhecer a physionomia dos litteratos notaveis!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! o Antonio Augusto! Tem cabellos louros e olhos azues!</p>
+
+<p>&mdash;Então todos os litteratos de Lisboa teem cabellos louros e olhos
+azues?</p>
+
+<p>&mdash;Todos, minha senhora, exceptuando os ultra-romanticos, que esses teem
+olhos verdes e cabello ruivo, e se me dão licença, minhas senhoras, retiro-me;
+porque estou caindo de somno e de cansaço.</p>
+
+<p>E saiu, deixando ficar os seus hospedeiros, como se vê, perfeitamente
+conhecedores da physionomia dos litteratos lisbonenses.<span
+class="pn">{91}</span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>No dia seguinte acordou Eduardo sobresaltado, ouvindo o piano revoltar-se em
+guinchos desafinados contra os incriveis tormentos, com que uma das meninas
+martyrisava o inoffensivo teclado.</p>
+
+<p>Eduardo julgou que seria pelo menos meio dia; saltou fóra da cama, e correu
+á janella. Um nevoeiro densissimo não deixava calcular as horas pela altura do
+sol. O nosso alferes tinha vindo na vespera com tanto somno, que nem reparára
+que havia um relogio em cima da mesa; quando voltava da janella, deu com elle,
+e viu que ainda não eram oito horas!</p>
+
+<p>Com effeito, pouco depois da aurora ter<span class="pn">{92}</span> vindo
+abrir com os dedos rosados as portas do Oriente, viera a menina Feliciana
+(parda n.º 2) abrir o piano com os dedos côr de cobre, e sobresaltar Eduardo
+com aquella desafinação matutina.</p>
+
+<p>O nosso heroe arranjou-se á pressa, e abriu a porta do quarto. Apenas o
+ex-negociante o sentiu, veiu ter com elle rindo muito.</p>
+
+<p>&mdash;Ora viva o nosso mandrião; vá almoçar, ande que lá tem guardado o
+almoço. Como passou a noute?</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente; eu peço mil desculpas do incommodo involuntario que
+lhe dei; mas vinha tão cansado, e com tanto somno, que, por melhores tenções
+que formasse, não consegui levantar-me a horas, mas protesto que será a ultima
+vez, que isto me ha de succeder.</p>
+
+<p>&mdash;Nada... não incommoda, vá almoçar, ande, e volte depois para a sala
+ouvir as pequenas tocar piano.</p>
+
+<p>Quando d'ahi a dez minutos o nosso heroe fez a sua entrada na sala, a menina
+Emilia, que estava sentada junto á janella em attitude melancolica e
+romanticamente scismadora, cumprimentou-o suspirando plangentemente;<span
+class="pn">{93}</span> a menina Adelaide fez esforços incriveis para substituir
+a camada de secia que lhe cobria as faces, pela camada carminica indicativa de
+modestia; e a menina Feliciana, sacerdotisa do deus <em>Charivari</em>,
+sacrificou o <em>Miserere</em> do <em>Trovador</em>, para solemnisar a entrada
+de Eduardo Teixeira.</p>
+
+<p>O sr. Bernardo, querendo mostrar ao seu hospede, que conhecia perfeitamente
+a musica que a filha estava tocando, assobiava ingenuamente o
+<em>Pirolito</em>. Eduardo, muito longe de suppôr que aquillo era musica de
+Verdi, inclinava-se para a interpretação musical do honrado negociante.</p>
+
+<p>O nosso alferes foi sentar-se ao pé da menina Emilia, ouviu primeiro em
+silencio o <em>pseudo-Miserere</em>, e depois, inclinando-se para a
+provinciana, que suspirava amiudadamente, disse-lhe a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Está hoje um dia triste, não acha, minha senhora?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não me falle n'isso; dias assim esmagam-me o coração. Estes dias
+<em>chubosos</em> são horriveis para os soffrimentos interiores!<span
+class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª padece do interior... azias de estomago, talvez?!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não, senhor, sou excessivamente <em>nerbosa</em>; o espirito
+domina o que ha em mim de material!</p>
+
+<p>&mdash;Hade-lhe fazer muito mal o café, minha senhora, aconselho-lhe os
+banhos do mar.</p>
+
+<p>&mdash;Para os soffrimentos da alma não tem a medicina <em>valsamos</em>,
+respondeu a provinciana suspirando ruidosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Na sua idade, minha senhora, tornou Eduardo, vendo que não havia
+remedio senão afinar a conversa no tom de Emilia, na sua idade, só uma paixão
+infeliz produz grandes infortunios. Ora v. ex.ª póde inspirar, mas não sentir
+uma paixão infeliz, não julgo os santo-thyrsenses tão faltos de gosto, que
+algum d'elles recusasse a felicidade invejada por todos. Só se a morte lhe veiu
+truncar nas primeiras paginas algum romance da juventude...</p>
+
+<p>E Eduardo, ufano (com rasão) do romanticismo da sua linguagem, recostou-se
+na cadeira com gravidade igual á d'um illustre orador, que, ao acabar um
+discurso monumental<span class="pn">{95}</span> ácerca do sino da sua parochia,
+é cumprimentado por varios senhores deputados de todos os lados da camara, e de
+todas as côres politicas.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! mas vêr as illusões desfolharem-se pouco a pouco, observou a sr.ª
+D. Emilia, e ver trocar-se o amor ideal, que sonhámos, pela vil realidade
+d'este mundo prosaico... é atroz, não é?</p>
+
+<p>&mdash;Soffrer tormentos horriveis... eis a fatal predestinação das almas
+privilegiadas, tornou Eduardo, abanando a cabeça lugubremente.</p>
+
+<p>&mdash;Diz bem, diz. Ah! não encontrar eu no mundo uma alma irmã da minha,
+que comprehenda e avalie o meu affecto! Oh!</p>
+
+<p>&mdash;Ih! que massadora, disse Eduardo com os seus botões; tem curso
+completo de romances sentimentaes. E o caso é que não é feia. Vou-me propor a
+candidato ao throno do seu affecto.</p>
+
+<p>&mdash;Ó Feliciana, dizia entretanto o sr. Bernardo á menina que tocava
+piano, toca-me aquelle bocadinho do <em>Ernani</em>, de que eu gosto tanto.</p>
+
+<p>&mdash;Qual é?<span class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>O illustre Bernardo começou a assobiar a <em>Maria Cachucha</em>
+aproximadamente.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! já sei, é a <em>cabatina</em> do soprano. Já toco.</p>
+
+<p>&mdash;Eu, minha senhora, dizia Eduardo em voz cavernosa á sua
+interlocutora, tambem por muito tempo vaguei errante no mundo, sem encontrar a
+mulher que a Providencia me destinava, aquella que devia realisar os sonhos
+mais arrojados da minha phantasia. Nenhuma comprehendeu o amor santo e puro que
+eu lhe queria offertar... escarneceram-me e passaram.&mdash;Isto não vae mau,
+dizia elle lá de si para si; mas eu d'aqui a pedaço engasgo-me.&mdash;Sim,
+minha senhora, continuava Eduardo enthusiasmando-se, só agora posso dizer:
+<em>Eureka!</em> achei no mundo o anjo que eu sonhava... achei... sim,
+encontrei... sim, minha senhora, quero dizer que sympathisei com v. ex.ª desde
+que a vi, e que serei o mais feliz dos homens, se corresponder ao meu ardente
+amor.&mdash;Lá estraguei o effeito, concluiu elle em <em>áparte</em>, parece-me
+que este final é do <em>Secretario dos Amantes</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Eu, sr. Teixeira, respondeu a menina,<span class="pn">{97}</span>
+procurando córar, eu acceitaria o seu amor, mas os homens são tão
+lisongeiros...</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou uma excepção, creia, minha senhora...</p>
+
+<p>&mdash;A mim agradam-me os seus sentimentos, e sympathisei com o senhor
+tambem, logo que o vi; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Ó Emiliasinha, bradou o negociante, vem tocar tambem.</p>
+
+<p>&mdash;Lá vou, <em>paesinho</em>.&mdash;Cale-se, continuou ella,
+dirigindo-se a Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu desejava tanto fallar-lhe mais em particular...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, logo ás onze horas da noite, desça ao quintal, que eu lhe
+fallo da janella do meu quarto, que deita para lá.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! quanto lhe agradeço!</p>
+
+<p>&mdash;Silencio!</p>
+
+<p>&mdash;Então, que lhe parecem as pianistas, exclamou o sr. Bernardo,
+sorvendo uma pitada, ha-as melhores em Lisboa?</p>
+
+<p>&mdash;Qual historia! Suas filhas tocam admiravelmente! Se as levasse a
+Lisboa, haviam de ser muito admiradas.</p>
+
+<p>&mdash;A Lisboa? Nada, isso é muito longe, lá<span class="pn">{98}</span>
+esteve agora o meu Dyonisio; por signal que hade estar a chegar. Elle é rapaz,
+pode ir; mas eu e a minha Belizaria, já estamos velhos para essas danças.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, o mano Dyonisio temol-o cá um dia d'estes... muito se
+divertiu elle por lá provavelmente, observou a menina Adelaide com um
+suspiro.</p>
+
+<p>&mdash;Deus queira que o Dyonisio se não esqueça de me trazer a musica, que
+lhe pedi. Ó sr. Eduardo quer ouvir a aria final da <em>Lucia</em>? perguntou a
+romantica Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não, minha senhora, com todo o gosto, respondeu Eduardo
+aproximando-se do piano.</p>
+
+<p>&mdash;Como a musica exprime bem os sentimentos da alma! observou Emilia,
+quando o viu sentado ao pé de si&mdash;eu adoro as musicas tristes!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu, minha senhora, tambem eu.</p>
+
+<p>&mdash;Acho prazer em derramar lagrimas, quando oiço algum trecho
+pathetico.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu, minha senhora, tambem eu.</p>
+
+<p>&mdash;Que doce conformidade de sentimentos!<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu, minha senhora, tanbem eu, tornou Eduardo
+distraidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Que diz?</p>
+
+<p>&mdash;Que tambem me enleva, emendou elle, essa conformidade de sentimentos!
+Estou ancioso por ouvir a <em>Lucia</em>.</p>
+
+<p>N'este ponto vejo-me obrigado a estygmatisar o meu heroe. Tornou-se cumplice
+de um assassinio. Para se salvar da entalação, em que a sua distracção o tinha
+collocado, sacrificou Donizetti, e a sua opera magistral. É imperdoavel!</p>
+
+<p>&mdash;Quando o crime de lesa-harmonia se consummou, e foi devidamente
+applaudido por todos os circumstantes,o nosso Bernardo Guimarães, dirigindo-se
+ao moço alferes, convidou-o a ir dar um giro pela villa. Eduardo acceitou o
+convite com o enthusiasmo que os seus ouvidos magoados lhe inspiravam.</p>
+
+<p>E, depois de ter trocado um olhar amoroso com a romantica donzella, saiu
+para ir admirar a villa de Santo Thyrso, e o seu convento.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite, pouco depois das onze horas, estava Eduardo Teixeira
+collocado no quintal da casa do sr. Guimarães, ao pé de<span
+class="pn">{100}</span> uma janella pouco elevada, janella que servia de
+tribuna, onde a joven provinciana, declamava emphaticamente os seus discursos
+sentimentaes.</p>
+
+<p>Infelizmente para a romantica oradora, a noite estava fria e humida, o que
+tinha por tal fórma congelado a pouca doze de sentimentalismo, de que Eduardo
+podia dispôr, que respondia a uns protestos d'amor ardentes, com uns queixumes
+sobre a frialdade dos pés, e a um trecho sublime ácerca da lua argentea, da
+rainha da noite, com um espirro acompanhado por uma dissertação scientifica
+sobre o perigo das constipações desprezadas.</p>
+
+<p>Estavam pois aquelles dois entes poeticos embebidos em tão suaves
+colloquios, quando de repente no quintal se sentiram passos apressados.</p>
+
+<p>&mdash;Que será? bradou Emilia bastante assustada, retire-se depressa, não
+quero que ninguem o veja aqui.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso é impossivel safar-me, porque estão interceptadas as
+communicações!</p>
+
+<p>&mdash;Mas como ha de ser isto, meu Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Como quem quer que fôr não se dirige<span class="pn">{101}</span> ao
+seu quarto, conceda-me v. ex.ª por um instante licença que me esconda n'elle,
+porque lhe dou a minha palavra de honra, que saio, apenas o perigo tenha
+cessado.</p>
+
+<p>E, juntando a acção á palavra, Eduardo lançou as mãos ao parapeito da
+janella, e n'um pulo se achou dentro do quarto.</p>
+
+<p>Com grande espanto dos dois, um outro vulto appareceu junto da janella, e,
+repetindo a manobra de Eduardo, entrou logo atraz d'elle no quarto da sr.ª D.
+Emilia Guimarães.</p>
+
+<p>&mdash;Dyonisio! bradou aterrada a romantica donzella.</p>
+
+<p>&mdash;Querem vêr que é o irmão, murmurou Eduardo.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Enbiou-me a Probidencia</em>, regougou o recem-chegado com
+intonação irreprehensivelmente melodramatica, é grande o crime, sr.ª D. Emilia
+da Fonseca Guimarães; a vingança ha de ser tremenda, senhor desconhecido!<span
+class="pn">{102}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{103}</span></p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Os meus leitores, se forem imparciaes, hão de confessar, que nunca leram
+scena de tanto effeito, nem de interesse tão palpitante.</p>
+
+<p>O sr. Dyonisio, tyranno interino, typo de janota portuense (vide romances de
+Camillo Castello Branco) vinha embuçado n'um capote de camellão. Ora sabido é,
+que todos os embuçados, mesmo em chales-mantas, são terriveis; mas os embuçados
+em capotes de camellão attingem as raias da sublimidade melodramatica!</p>
+
+<p>A victima masculina é Eduardo Teixeira, que um defluxo, complicado por uma
+grande<span class="pn">{104}</span> frialdade de pés, torna duplamente
+interessante aos olhos de todos os leitores compassivos. A victima feminina é
+D. Emilia Guimarães, a qual, comprehendendo a situação n'um abrir e fechar
+d'olhos, <em>elevou-se</em> rapidamente á altura do seu papel, <em>caindo</em>
+artisticamente em cima d'uma poltrona, á falta de confidente, a quem dissesse
+como nas tragedias classicas:</p>
+
+<blockquote>
+ Desmaiar vou! Recebe-me em teus braços. </blockquote>
+
+<p>&mdash;Então quem é <em>bossenhoria</em>? Que fazia o senhor n'este quarto?
+perguntou o sr. Dyonisio, tirando o chapéu desabado com gesto magestoso, e
+armando-se de luneta, á falta de punhal.</p>
+
+<p>&mdash;Eu... senhor... eu, tornou Eduardo, convencido que era o irmão, e
+conscio por conseguinte do direito que elle tinha para fazer a pergunta.</p>
+
+<p>&mdash;Dyonisio, juro-te que sou innocente, exclamou a menina Emilia,
+levantando-se rapidamente, e correndo a ajoelhar-se aos pés do homem de capote
+de camellão, acredita-me Dyonisio.<span class="pn">{105}</span></p>
+
+<p>&mdash;Levantai-vos, senhora, vós não sois culpada; mas o infame
+seductor...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor eu não seduzi ninguem.</p>
+
+<p>&mdash;Calai-vos.</p>
+
+<p>&mdash;Dyonisio, peço-te justiça, e não indulgencia. Eu não trahi os meus
+deveres, juro-o perante o ceu, que estende sobre as nossas cabeças o seu manto
+azul, puro como a minha alma.</p>
+
+<p>Exageração de metaphora. Sobre as suas cabeças estava apenas o tecto, que
+nem era azul, nem puro; porque estava muito sujo das moscas.</p>
+
+<p>&mdash;Póde acreditar o que sua irmã lhe diz, atalhou Eduardo, posso
+asseverar-lh'o debaixo da minha palavra de honra.</p>
+
+<p>&mdash;Minha irmã? As filhas da casa de Val-de-Camellos portam-se d'um modo
+mui differente do d'esta menina, indigna mesmo de sustentar o nome honrado de
+seu pae, o sr. Bernardo Guimarães.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe admitto mais insultos, sr. Dyonisio Antunes de
+Val-de-Camellos, tenho a honra de lhe apresentar meu marido, o sr. Eduardo
+Augusto d'Almeida Teixeira.<span class="pn">{106}</span></p>
+
+<p>&mdash;Perdão, perdão, minha senhora, interrompeu com vivacidade o moço
+alferes, eu não hesitaria um momento em a chamar minha esposa, se devesse a v.
+ex.ª uma reparação, mas não ha coisa alguma que a isso se assimelhe, e, visto
+este senhor não ser seu irmão, vou ter com elle uma explicação mais corrente.
+Direi pois ao sr. Dyonisio de Val-de-Camellos, que está perfeitamente
+equivocado a meu respeito. Esta senhora lhe explicará, se a isso quizer descer,
+o motivo porque entrei no quarto d'ella. Poder-lhe-ia eu perguntar tambem o
+motivo porque veio cá metter o nariz. Comtudo, dir-lhe-hei unicamente que não
+tenho que lhe dar satisfações, a não ser n'um sitio mais conveniente do que
+este a explicações da natureza, das que hão de ter logar entre nós. O modo
+insolente com que me tratou a principio, merece uma correcção, e hade tel-a.
+Estou ás suas ordens.</p>
+
+<p>&mdash;Um duello, e por minha causa, bradou Emilia, despenteando-se e
+procurando arranjar um olhar desvairado, oh! não façaes com que o sangue venha
+manchar as minhas vestes virginaes.<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vamos embora, sr. Dyonisio.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos lá, respondeu o homem de capote de camellão, em tom um pouco
+menos arrogante.</p>
+
+<p>&mdash;Suspendei! Dyonisio, sr. Eduardo, horror! Meu Deus, valei-me!</p>
+
+<p>E desmaiou.</p>
+
+<p>«Bravo!»&mdash;diria um espectador do theatro normal, enthusiasta da
+<em>Dama de S. Tropez</em>.</p>
+
+<p>Eu e o leitor applaudimos silenciosamente, e vamos seguir os nossos dois
+heroes, que sairam pela janella, perdendo-se assim todo o effeito de uma saida
+solemne pela porta de fundo, cujos batentes de papelão se abrissem de par em
+par.</p>
+
+<p>Dyonisio e Eduardo atravessaram o quintal silenciosos; chegando a uma
+portinha que deitava para a estrada, o sr. de Val-de-Camellos tirou uma chave
+que trazia na algibeira, abriu a porta, e os dois contendores sairam.</p>
+
+<p>&mdash;O sangue de um de nós ha de ser hoje derramado, vociferou o illustre
+janota do Porto, com tetrica intonação.</p>
+
+<p>&mdash;Está dito; mas, a proposito, parece-me<span class="pn">{108}</span>
+que não temos remedio senão jogar o sôcco; parque não temos armas, nem
+padrinhos, de sorte que o nosso duello tem todas as condições
+d'irregularidade.</p>
+
+<p>&mdash;Ora diga-me uma cousa, tornou Dyonisio, descendo das regiões
+melodramaticas ao terreno das explicações prosaicas, isto não se poderia
+conciliar amigavelmente?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! homem, isso é impossivel, o senhor descompoz-me atrozmente,
+abusando da identidade do seu nome com o do irmão d'Emilia, e realmente eu não
+vim ao Minho para receber descomposturas.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! senhor, tenha paciencia, a Emilia gosta d'essas cousas, e eu não
+tive remedio senão fazer aquella scena. Eu não tinha intenção offensiva. Mas
+que relações tem o senhor com a rapariga?</p>
+
+<p>&mdash;Um simples namorico.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, tornou Dyonisio coçando a cabeça, a D. Emilia Guimarães é uma
+senhora muita estimavel.</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido.</p>
+
+<p>&mdash;Muito prendada!</p>
+
+<p>&mdash;Apoiado.<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&mdash;Formosissima, continuou o sr. de Val-de-Camellos animando-se pouco a
+pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não!</p>
+
+<p>&mdash;Espirituosa! bradou o homem encaixando a luneta magestosamente no
+rubicundo nanz.</p>
+
+<p>&mdash;Oh!</p>
+
+<p>&mdash;Senhora, a quem amo delirantemente!</p>
+
+<p>&mdash;Muitos parabens, sr. Dyonisio, muitos parabens!</p>
+
+<p>&mdash;Unica mulher, que me pode tornar feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! sr. Dyonisio, não me commova!</p>
+
+<p>&mdash;Adoro-a, senhor, adoro-a como a uma estrella, que reluz nas trevas do
+meu viver.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo, ia-me arrancando lagrimas.</p>
+
+<p>&mdash;E tem um dote de vinte contos de reis! concluiu o homem do capote de
+camellão com sublime expressão d'enthusiasmo.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, sr. Dyonisio, muito bem. Permitta-me que o abrace. Que
+rasgos de sentimento! Commoveu-me profundamente. Foi o coração quem lhe dictou
+essas phrases enthusiasticas. Esse argumento dos vinte contos revela claramente
+a pureza dos seus sentimentos.<span class="pn">{110}</span> Ó patriarchal
+Dyonisio, cedo-vos Emilia. Não serei eu quem vá perturbar a felicidade
+conjugal, tão solidamente baseada. O amor, fugindo das grandes cidades, vem,
+segundo vejo, aninhar-se á sombra de vinte contos nos corações desinteressados
+dos jovens provincianos. Sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, não servirei
+de obstaculo á sua felicidade. Adeus, seja venturoso!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! muito obrigado, generoso desconhecido! volveu Dyonisio, que
+estava decididamente infectado de romanticismo sombrio.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã parto para o Porto. Deixo-lhe o campo livre.</p>
+
+<p>&mdash;Espero que me perdoe a involuntaria offensa.</p>
+
+<p>&mdash;Não fallemos n'isso. O que lá vae, lá vae. Adeus.</p>
+
+<p>&mdash;Adeus. Disponha do meu fraco prestimo.</p>
+
+<p>Se os nossos dois amigos estivessem em Lisboa, tinham ido juntos a uma ceia
+no Matta, ceia, que (se elles fossem bem conhecedores dos costumes portuguezes
+em materia de duello) deveriam ter encommendado antes do desafio.<span
+class="pn">{111}</span></p>
+
+<p>Assim, Dyonisio embuçou-se simplesmente no capote de camellão, e voltou para
+a cama, onde resonou pacificamente o resto da noite, sonhando que tinha
+comprado, com o dote de Emilia, uma junta de bois, e dois pedaços de terra, em
+que semeára milho, obtendo uma colheita formidavel, e grangeando deste modo tal
+consideração em Santo Thyrso, que tinha sido nomeado por unanimidade de
+votos... juiz eleito.</p>
+
+<p>Eduardo meteu-se na cama, aqueceu os pés, transpirou muito, e no outro dia
+estava quasi livre do defluxo teimoso, que o apoquentára tanto.</p>
+
+<p>Apesar de ter tido a felicidade de se curar com rapidez, o nosso alferes,
+que era um rapaz prudente, jurou nunca mais ter namoro com raparigas romanticas
+em noites de novembro<span class="pn">{112}</span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p><span class="pn">{113}</span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Ainda que as intenções madrugadoras de Eduardo Teixeira fossem as mais
+sinceras deste mundo, passou segunda vez pelo desgosto de não assistir ao
+almoço da familia. O nosso alferes chegou a convencer-se de que o almoço em
+Santo Thyrso, como a <em>tremenda</em> nos conventos dos monges negros, era lá
+por alta noite.</p>
+
+<p>Quando entrou na sala achou a menina Emilia sósinha sentada ao piano. O
+vestido branco, que tinha envergado apesar do intenso frio, o cabello muito de
+proposito em desalinho, as olheiras, que supponho tinham origem identica á das
+do Silvestre da Silva, de Camillo Castello<span class="pn">{114}</span> Branco,
+mostravam que Emilia se tinha caracterisado convenientemente para representar a
+ultima scena de um melodrama.</p>
+
+<p>Quando viu Eduardo, levantou-se, e caminhou a encontral-o, hirta e vagarosa.
+O joven official estacou á porta pasmado.</p>
+
+<p>&mdash;Qual dos dois morreu? perguntou ella solemne e lugubremente.</p>
+
+<p>&mdash;Fui eu, minha senhora!</p>
+
+<p>Seguiu-se um curto silencio.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor está zombando de mim? tornou Emilia.</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, estou respondendo á pergunta de v. ex.ª Com
+effeito, morri para o seu amor, sr.ª D. Emilia. Interroguei o meu coração,
+achei-o frio de mais para sentir uma d'essas paixões ardentes, que v. ex.ª deve
+inspirar. Não acontece o mesmo com Dyonisio. Minha senhora, vim descobrir um
+vulcão em Santo Thyrso, desmentindo por esta fórma a geographia. Esse Vesuvio
+desconhecido é o coração do sr. de Val-de-Camellos... Hontem os discursos de
+Dyonisio, se não me aqueceram os pés, que tinha muito frios, como v. ex.ª sabe,
+pelo menos aqueceram-me... o coração.<span class="pn">{115}</span> Na lava
+candente, que brotou espontanea do peito d'aquelle joven, accendi eu o lume
+prompto da generosidade. Entendi que devia aconselhal-a a visitar essa cratera
+de paixão. Asseguro-lhe que se ha de abrazar. Digo-lh'o eu.</p>
+
+<p>&mdash;Não zombe tanto de mim, sr. Eduardo. Se tive ligeiro namoro com esse
+rapaz, o amor verdadeiro, que sinto agora, dissipou completamente esse frivolo
+galanteio.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, minha senhora, v. ex.ª deve fazer a felicidade d'um Dyonisio.
+Attenda, por amor de Deus, á influencia dos nomes nos destinos dos individuos.
+O nome de Dyonisio dá logo a conhecer que o possuidor deve ter um caracter
+patriarchal. Ora casem, casem, meus pombinhos, tenham muitos filhos, e sejam
+muito felizes.</p>
+
+<p>&mdash;Assim me despresa, sabendo que o amo!</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, não creia tal. Hei de ser sempre o maior dos seus
+admiradores.</p>
+
+<p>&mdash;E mais nada?</p>
+
+<p>&mdash;E de v. ex.ª o mais attento venerador.</p>
+
+<p>&mdash;Ingrato, perfido! Disse-lhe que o amava, menti-lhe, detesto-o!<span
+class="pn">{116}</span></p>
+
+<p>E a romantica menina ia aproveitar a situação, e a proximidade d'uma
+poltrona para desmaiar, quando felizmente entraram as duas manas.</p>
+
+<p>Acabados os comprimentos preliminares:</p>
+
+<p>&mdash;Que pena tenho, minhas senhoras, de as ter conhecido, disse Eduardo;
+os momentos deliciosos, que aqui passei, servem apenas para tornar mais
+pungente a saudade, que me vae atormentar.</p>
+
+<p>&mdash;Porque, deixa-nos? bradaram em côro as tres provincianas.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minhas senhoras, recebi hontem noticia de ter obtido passagem
+para um regimento da capital, de forma que hoje mesmo tenciono partir para o
+Porto.</p>
+
+<p>&mdash;Partir, quem falla aqui em partir? bradou o sr. Bernardo que entrava
+n'esse instante.</p>
+
+<p>&mdash;Eu, sr. Guimarães, replicou Eduardo, que, depois de lhe agradecer
+immenso o modo amabilissimo com que me recebeu, lhe peço agora as suas ordens
+para o Porto e para Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque não se demora pelo menos alguns dias?<span
+class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sou militar, sr. Guimarães, e devo cumprir á risca a ordem que
+recebi.</p>
+
+<p>&mdash;Esta é que eu não esperava!</p>
+
+<p>&mdash;Ingrato, e eu amava-o tanto, murmurou Emilia, recostando-se na
+poltrona.</p>
+
+<p>&mdash;Então, minha senhora, cá fica Dyonisio para a consolar. É um bello
+rapaz, d'um caracter excellente, e com alguma applicação póde-se tornar um
+heroe de romance. Dê-lhe v. ex.ª vinagre todos os dias, e receite-lhe uma dose
+forte de Visconde d'Arlincourt, e verá como faz do sr. de Val-de-Camellos um
+rapaz ideial. Vou para Lisboa formar votos pela sua felicidade.</p>
+<hr>
+<hr>
+
+<p>N'essa mesma tarde, Eduardo Teixeira empoleirado no seu fiel rocinante,
+dizia adeus a Santo Thyrso, depois de ter aturado uma scena pathetica de
+despedida, tal como a poderia imaginar o mais lamuriento auctor de
+melodramas.</p>
+
+<p>O sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, veiu com grato coração, e com um
+jumento chibante, em que montava, acompanhar o<span class="pn">{118}</span>
+nosso heroe á Travage, onde se despediu de Eduardo, protestando-lhe eterno
+agradecimento, e amisade constante.</p>
+
+<p>Dyonisio Antunes continua serenamente o namoro com Emilia, sujeitando-se
+comtudo a uma dieta rigorosa, a ver se abate um pouco a sua nutrição
+anti-romantica.</p>
+
+<p>O sr. Themudo cada vez embirra mais com o <em>D. Jayme</em>; e quando, em
+doces colloquios amorosos com D. Belizaria Guimarães, interrompe a conversação
+intima para fallar da depravação do seculo, cita o enredo do <em>D. Jayme</em>,
+e véla o rosto pudicamente com uma toalha de mãos. Belizaria sorve com
+indignação uma pitada de simonte.</p>
+
+<p>Eduardo Teixeira, diz-nos pessoa fidedigna, que passa bem de saude, sendo
+comtudo muito sujeito a ataques de nervos, que o assaltam sempre que ouve... um
+piano!...</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Astucias de Namorada e Um melodrama em
+Santo Thyrso, by Manuel Pinheiro Chagas
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA ***
+
+***** This file should be named 29342-h.htm or 29342-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/9/3/4/29342/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>