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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:18 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Astucias de Namorada e Um melodrama em Santo Thyrso + +Author: Manuel Pinheiro Chagas + +Release Date: July 7, 2009 [EBook #29342] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + ASTUCIAS DE NAMORADA + + E + + UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO + + + + + ASTUCIAS + + DE + + NAMORADA + + E + + Um melodrama em Santo Thyrso + + ORIGINAL + + DE + + M. PINHEIRO CHAGAS + + + + + LISBOA + TYPOGRAPHIA PROGRESSO + 40--Rua do Alecrim--40 + 1873 + + + + +PROLOGO + + +Este livro é um livro de verão. Fez-se para ser lido á sombra de uma +arvore copada, á hora do meio dia, quando póde prestar-se apenas á +leitura uma vaga attenção, e quando portanto se querem livros de enredo +ligeiro e risonho, que nem resolvam problemas, nem arripiem os nervos. + +As _Astucias de Namorada_ estão escriptas ha largo tempo. As aventuras +do seu manuscripto davam assumpto a outro romance; Teem de curioso o ser +o seu entrecho baseado sobre um facto succedido realmente em Lisboa. Ha +de haver leitores que o taxem de inverosimil, pois saibam que é +verdadeiro. Mais uma vez tem razão Boileau + + _Le vrai peut quelquefois n'etre pas vraisemblable._ + +O romance que fecha o volume, e que se intitula _Um melodrama em Santo +Thyrso_, ponho-o aqui a titulo de curiosidade archeologica. Foi a minha +estreia no jornalismo. Fundára-se a _Gazeta de Portugal_. Eu tinha +conhecimento pessoal do seu proprietario, Teixeira de Vasconcellos. +Procurei-o para lhe lêr o romance. Elle ia sair. + +--Deixe-me vêr alguma coisa que lhe pareça melhor, disse-me elle. + +Li-lhe tremendo a scena em que Eduardo descreve as physionomias dos +litteratos lisbonenses; Teixeira de Vasconcellos rio-se, e tirou-me das +mãos o manuscripto. + +--_Il y a quelque chose lá_, continuou elle, isto para estreia basta. O +seu romance ha de ser publicado. + +E foi. Estava eu baptisado folhetinista. + +Hoje, relendo o romance, sorrio-me das ingenuidades do principiante, e, +para conseguir desculpa do leitor, vejo que não tenho remedio senão +dizer-lhe retrospectivamente com Alfredo de Musset + + _Surtout considérez, illustres seigneuries + Comme l'auteur est jeune, et c'est son premier pas._ + + PINHEIRO CHAGAS + + + + +ASTUCIAS DE NAMORADA + + +I + +Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada. + +N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos +pendurados sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um +pouco das polkas e das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo +delicioso panorama do Tejo, em cujas aguas traçava a lua como que uma +estrada argentea. De quando em quando enchia-se o jardim de risos, de +segredinhos; a lua illuminava por entre as folhas roupas alvejantes, +que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; depois pelas janellas +abertas da sala saía uma bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros +compassos d'uns lanceiros, os grupos dispersavam-se e engolphavam-se em +turbilhão pelas portas de vidraças, e o jardim ficava de novo solitario, +mas não silencioso; porque n'elle se escutava o rumorejar da brisa, o +echo da musica do baile, e o murmurio do rio que gemia docemente em +baixo nas fragas. + +N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo +com os fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, +veio sentar-se n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade +do jardim, mais proximo da orla do rochedo, e por conseguinte quasi +suspenso, como um ninho de gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o +que disse; não foram ambas as pessoas indispensaveis para formarem um +par, não foram ambas as pessoas, que se sentaram; só o fez uma senhora +de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, morena e viva, de olhos +rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o ébano á luz +brilhante da lua cheia. + +O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil companheira lhe ter +visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se podia deduzir do +modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o menos espaço +possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o seu +braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda +que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando +esta o não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia +de aproveitar o favor que se lhe queria conceder. + +E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se +ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de +ministro, estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando +ao sopro das auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores +aventurosos, mil perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma +flor, uma palavra, na idade feliz em que se inveja Leandro só ao pensar +quantas vezes se teria accendido o pharol de Hero antes da terrivel +noite, em que a morte, _envolta em horrendas vagas_, segundo a admiravel +expressão de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em +que ainda não expirára o echo dos beijos da antecedente noite. + +E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma +palavra qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa +senhora, cujos pés desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não +seria a sua, se em vez de estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante +d'ella, estivesse na outra margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a +nado para cair offegante e exanime junto d'esse adorado vulto. Então não +seria necessario fallar; a sua pallidez, os seus olhos cheios d'amor +diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, vendo-o ensopado por +causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe desembaraçasse a +lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a dois +corações, que anciavam por se unir. + +A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso +meio despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva +branca ainda não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com +um gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, e que +espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo +timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão +enluvada, e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico. + +A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as +envia aos paizes meridionaes. No céu d'um azul suavissimo, algumas +nuvens, volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela +brisa nocturna, embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, +pareciam as maravilhosas rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo +firmamento, em noites assim languidas e serenas. O Tejo desenrolava a +sua immensa toalha liquida, prateada no centro pelo luar, e negra junto +do caes, ou á sombra dos mastros dos navios immoveis nos ancoradoiros. +Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á beira do rio, e +pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos seus +candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas. +Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando ao +sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, que só tem rivaes +na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia fascinar quem +o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do caramanchão +d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos d'uma +valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os +luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas. + +Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a +voz tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez +estremecer. + +Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras: + +--Que... linda... noite! + +--Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o +rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para +elle sem levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão +voluptuosa, que encerra um encanto irresistivel, um magnetismo +fascinador... Como que parecem fluctuar na atmosphera todos os sonhos +dos poetas! Sabe no que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que +resvala á flor das aguas, como um cysne da noite? Pensava se seria esse +o barco de Lamartine, e se levaria tambem dois amantes, que fossem +murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as doces palavras que +tanto nos encantam, quando o auctor do _Lago_ as traduz na melodiosa +linguagem da sua poesia. + +--Ah! bem sei, respondeu o desastrado: + + _Ainsi toujours poussés vers de nouveaux rivages..._ + +--Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os +versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe +que me acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar +á lua e ao Tejo as inspirações de Lamartine. + +E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do +seu interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada +apostrophe, e que debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo. + +Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, +d'uma gentileza verdadeiramente notavel, d'um espirito intelligente e +cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez +invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na +sala, podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o +conversar desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu +acanhamento não tivera motivo para se revelar. Deslumbrada por esse +esplendido conjuncto de predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do +gentil moço, e a _coquette_ conseguira-o em breve, mas, quando se +tratára de dar o passo decisivo, manifestára-se toda a timidez do +espirito virginal de Frederico. Era o seu primeiro amor, e só os tolos +conseguem atravessar affoitamente essas columnas d'Hercules. Lucinda, +experimentada n'essas questões, comprehendera primeiramente o embaraço +do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera tambem que o devia +auxiliar. Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda mais, se me +permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda fosse +uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como +elle tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as palpebras mesmo, +abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, que afinal +os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo idioma. +Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de +Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla +superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com +o receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa +esplendida mulher?! + +O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que +avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, +assustando Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando +elle para lhe fugir retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido +olhar, que lhe dizia: «Ávante.» O pobre rapaz, vendo assim de subito +desfeitos em pó os seus planos estrategicos, preferiria um abysmo +abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as palavras friamente zombeteiras +de Lucinda. + +Entretanto o baile findára, e os lisbonenses preparavam-se para +atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as unicas +pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma +hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás +delicias do whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se +embrulhar em dez mantas e de ter perdido dez _rob_ consecutivos, +Frederico, depois da scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a +mãe de Lucinda, sabendo que era elle o unico dos cavalheiros presentes +que regressava a Lisboa, reclamou sem ceremonia o auxilio do seu braço +para descer a ingreme calçada. Assim, Frederico viu-se obrigado a pegar +no chapéu, e a seguir, supportando o peso da sua volumosa braceira, o +pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe explicar durante o +caminho as infernaes combinações que tinham dado em resultado a derrota +memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes de jogador +de whist. + +As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao +caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas +aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se +pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se +levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os +venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a +insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente +na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao +relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o +seu bote. Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o +barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se +obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem +ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou +silenciosamente á flor das aguas. + +Os dois velhos tinham-se sentado na popa do barco. O vento, sem ser +forte, era sufficiente para infunar a vela e para dar ao bote um leve +balanço, que foi suavemente acalentando os dois esposos. Estes +principiaram a bocejar alternadamente; depois foram deixando pender as +cabeças até que tocaram quasi nos joelhos. Levantaram-se a um tempo, +e olharam espantados, com os olhos meio abertos, para o céu azul. Depois +os olhos fecharam-se de todo, e os comprimentos recomeçaram. Pareciam +dois mandarins _d'étagére_. Frederico e Lucinda a custo soffreavam o +riso, e trocavam entre si olhares de intelligencia, que presagiavam uma +reconciliação. Os dois velhos resmungavam palavras inintelligiveis, e +recostavam a cabeça para traz, de fórma que a cabeça, em vez de lhes +descair de pôpa a prôa, descaia-lhes de bombordo a estibordo, e de +estibordo a bombordo, movimento bem combinado, que produziu um +abalroamento, que os despertou a ambos. + +--Senhor Azevedo, bradou a matrona indignada, não tem vergonha de vir a +dormir no bote? Já me estragou as flores da cabeça. + +--Senhora D. Leocadia, respondeu o velho com dignidade, veja se dorme +com mais cautella para não amarrotar o chapéu das pessoas, que vão +acordadas a scismar nos seus negocios. + +Estas apostrophes promoveram a explosão das gargalhadas, já muito +reprimidas, de Frederico e de Lucinda. O velho mirou-os com espanto, +embrulhou-se mais na manta, encostou-se para traz e principiou a resonar. + +--Este Azevedo sempre foi assim, disse a velha esposa fazendo côro com +os dois, dorme em toda a parte... Como elle resona! + +E dizendo isto, a boa senhora olhou com despreso para seu marido, deixou +descahir a cabeça, e entrou no duetto resonando egualmente. + +A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um +lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de +Lucinda. + +Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas. + +Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a +sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da +antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas +pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma +fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os +nossos heroes. Os remos, sulcando a agua, erguendo-se e recaindo de +novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o +matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. +Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente +embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas +cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções +populares. Muito tempo a corda fremente da guitarra enviou de longe aos +ouvidos de Frederico e de Lucinda, a sua melodia toda impregnada n'uma +vaga tristeza, e expirou ao longe n'uns quebros de indizivel suavidade. +Frederico suspirou. + +--Pensa nos seus amores? perguntou Lucinda sorrindo. + +--Amores, balbuciou elle, como, se os não tenho? + +--Não os tem? Quem não tem amores aos vinte e dois annos? + +--Eu que sou um desherdado da fortuna, eu para quem a natureza, mãe +benefica de todos, sempre se tem mostrado implacavel madrasta, eu para +quem as flores não tem aroma, nem luz brilhante o sol, nem suavidade +melancholica o luar. + +--Oh! meu Deus, exclamou Lucinda, quererá imitar esses Obermans da moda, +que se declaram scepticos, quando ainda não tiveram nem sequer uma +illusão, quanto mais as decepções que alardeiam? + +--Não, minha senhora, tornou Frederico, tenho muitos ridiculos, mas +d'esse livrou-me Deus. Porém sou um d'estes entes malfadados, que nunca +ousam levar aos labios a taça que se lhes apresenta cheia a trasbordar; +uma d'essas abelhas, a quem as rosas mostram o calice entre-aberto, e +que volteiam em torno d'ellas, sem ousarem ir delibar o seu mel na +redoma fragante que se lhes apresenta. Sou como Rousseau, deitando as +cerejas no avental de mademoiselle Galley, sem ousar ver os labios mais +vermelhos do que os fructos, convidando-o e attrahindo-o. E o que fez +mademoiselle Galley ao desastrado philosopho? voltou-lhe as costas, e +foi zombar d'elle com as suas companheiras, deixando esse Tantalo d'amor +a amaldiçoar a sua falta de audacia. Esse riso argentino, que Rousseau +ouviu talvez trepado ainda na ceregeira, oiço-o eu a cada instante +nos labios, que poderiam matar com duas palavras meigas esta sêde que me +devora. + +--E essas duas palavras ainda ninguem as proferio? + +--Ninguem, respondeu Frederico suspirando. + +--E com tudo, tornou Lucinda, conheço eu uma pessoa em cujos labios +ellas fermem. + +--E quem é essa pessoa? perguntou elle ancioso. + +Lucinda estacou. Decididamente o proprio selvagem Rousseau perceberia +melhor. + +--Alguem, cujo nome lhe não posso dizer. + +--Oh! diga ao menos a primeira letra. + +Lucinda fez-se vermelha de colera, e mordeu os labios impaciente. Subito +uma idéa qualquer, travessa de certo, illuminou-lhe o espirito, porque +os labios, que mordera para occultar o despeito, mordeu-os afinal para +suffocar o riso. Depois respondeu com ar de mysteriosa confidencia: + +--Diga-me; não passa frequentes vezes pela rua de...? + +--Porque? perguntou Frederico espantado. + +--E, levando os olhos baixos até ao meio do comprimento da rua, quando +chega a este ponto não os levanta instinctivamente, e não os crava n'uma +varanda onde não ha só flores nos vasos? + +--Assevero-lhe, minha senhora... tornou Frederico estupefacto a mais não +poder ser. + +--Oh! eu sou discreta. + +--Juro-lhe... + +--Não jure, mas prometta-me apenas uma cousa. + +--Qual é? + +--Escolher-me para confidente dos seus primeiros amores. + +--Mas, minha senhora... bradou Frederico, desesperado por ver fugir-lhe +o momento que tanto ambicionára, e que julgára já tão proximo. + +--Silencio, respondeu Lucinda pondo-lhe a mão alva e tepida no braço, +não vê que estamos em Lisboa? + +Frederico não sabia se havia de beijar ou morder essa mão travessa, que +lhe approximava da boca a taça do philtro suave do amor, para lh'o +furtar depois aos labios calcinados. Afinal não fez nem uma nem outra +cousa. + +Mas effectivamente estavam em Lisboa. Nas aguas negras do Tejo, aqui e +ali ainda prateadas por um raio da lua, que se insinuava por entre a +intrincada floresta dos mastros das embarcações, ondeava o reflexo +trémulo dos candieiros do gaz. Ao choque do barco parando de subito, +acordaram estremunhados os progenitores de Lucinda. Frederico ainda +esperava ao menos poder sentir o doce peso da gentil menina, ajudando-a +a saltar em terra. Mas a volumosa mamã offereceu-lhe o braço, e em medos +e tremores reteve-o tempo bastante, para que Lucinda, ligeira como uma +gazella, saltasse para o caes, poisando apenas ao de leve os dedos finos +e alvos no braço d'um dos remeiros. + +Frederico despediu-se pouco amavelmente dos seus companheiros de viagem, +e teve vontade de mandar passeiar Lucinda, quando esta lhe disse ao ouvido: + +--Não se esqueça do que prometteu. + +É verdade que o pobre rapaz, voltando a cara com um gesto de amuo, +não poude ver o longo olhar, apenas levemente malicioso, com que Lucinda +o seguia. + + +II + +Na vespera d'esse dia, em que se passára a scena que narrámos recebera +Lucinda d'uma sua amiga de collegio a seguinte carta: + + + Minha querida amiga + +Que saudades eu tenho do nosso tempo de collegio! d'aquelles bons +serões, que passavamos juntas, quando todas já estavam adormecidas, +emquanto nós deixavamos divagar a nossa imaginação por todos os +assumptos, por todos os sonhos, por todas as phantasias d'este mundo! +como eu tenho impressa na memoria a tua palavra eloquente e colorida, e +a audacia com que tu, com a superioridade da tua intelligencia, +julgavas tudo e te arrojavas aos devaneios mais longos, chegando a +assustares-me a mim, pobre criança, timida e fragil, que não ousava +seguir-te nos teus vôos, e que ficava, pallida, vendo-te pairar por +esses espaços desconhecidos, e contemplando na chamma da tua pupilla um +reflexo do fogo intimo, que te devorava. + +Creio que foi mesmo essa differença de genio, que tornou mais forte a +nossa ligação. Tu consagraste á pobre orphã a amizade protectora das +mães, eu tive por ti a veneração e os extremos de filha. Eras o roble e +eu o vime, ou antes a hera que me enroscava a ti. + +Mais velha do que eu, saiste primeiro do collegio, e deixaste a pobre +criança, isolada no meio de companheiras com as quaes sempre me ligára +pouco. Ah! como o collegio então me pareceu triste e sombrio, como a +regente me pareceu insupportavel, como olhei com raiva e frenesi para os +altos muros do jardim, e que odio tive á hora do recreio, outr'ora tão +alegre, porque eu, fugindo ás brincadeiras das meninas mais novas, tu +ás frivolas conversações das da tua idade, procuravamo-nos uma á +outra, e passavamos horas infinitas a contarmos as nossas impressões, e +a explicarmos o sentido dos sonhos da nossa noite. + +Depois, os meus dias de jubilo foram aquelles em que recebia as tuas +cartas; mettia-as no seio, e esperava com impaciencia a hora de descer +ao jardim para as poder ler á vontade, longe do frivolo ruido dos jogos +das educandas. Assim que resoavam na pendula as bemaventuradas +vibrações, ahi descia eu toda jubilosa a escada, e ia esconder-me +n'aquelle caramanchão tão nosso favorito, que ficava junto d'aquella +fresta gradeada por onde ás vezes espreitavamos os raros passeiantes que +atravessavam a nossa rua solitaria, tu achando sempre no teu espirito +fertil um epigramma para arrojares aos pobres homens que passavam sem +suspeitarem a rapida analyse a que n'um dado instante ficavam sujeitos, +eu rindo, como uma louca, das tuas chistosas malicias. + +Ahi lia pois, as tuas cartas, d'ahi te seguia n'esse mundo que me +pintavas tão bello, como o espaço immenso assusta a avesinha apenas +emplumada, que lança a cabeça fóra do ninho, e que segue em parte +com inveja, em parte com receio os graciosos vôos que a mãe descreve nos +ares, para a convidar a seguil-a. Mas a fascinação do teu espirito +vencia, como sempre, os receios do meu, e ficava com a tua carta nas +mãos, pensando nos bailes, de que tu eras rainha, nos amores, que +volteiavam em torno de ti, como as borboletas em torno da luz, e a que +tu, incorrigivel _coquette_, te comprazias tanto em requeimar as azas. + +D'ahi resultou que esperei anciosa, bem que timidamente, a minha saida +do collegio, e que os prismas das tuas cartas me fizeram sonhar um mundo +côr de rosa, que está bem longe, devo confessal-o, da realidade tal como +ella se me tem mostrado nos quinze dias que já passei fóra do ninho da +nossa infancia. + +Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me +para a sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não +porque ella me não tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima +senhora no fundo, tem um terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda +inspirar amor, e combate, com uma energia desesperada, as asserções +da sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha +d'uma sua irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra +os cabellos d'um ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto +de minha tia. + +Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha +edade, e de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a +dançar com sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das +supplentes das contradanças, que só se convidam quando falta algum par +para fazer a quadrilha completa, não me leva aos bailes, porque são, diz +ella, perigosos para as meninas da minha edade, e até comtigo mesma, +perdôa-lhe, minha boa amiga, se não quer relacionar, dando para isso +razões frivolas, mas sendo o verdadeiro motivo os teus vinte e cinco +annos que não podem ficar bem á amiga de collegio d'uma menina tão nova +como eu devo ser, segundo os seus calculos. + +Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no +collegio, depois da tua partida, sem chegar uma unica vez á janella, +lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto +minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos +imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e +apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda +se colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro +passeiante ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite +as homenagens. + +O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim, +cheio de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as +tardes, e onde muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu +largas horas scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender +pelos primeiros clarões da alvorada. + +Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho +razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos, +já que minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir +a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me, porque só as +tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia. + + Tua boa amiga + + Adelaide. + + +Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a +Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da +maliciosa rapariga. + + +III + +Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova +da completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se +fazia interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um +pretexto para desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e +louvou-se de não ter avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição +ridicula com pessoa que a aproveitaria com tão boa vontade. A todos +estes sentimentos, que primeiro lhe tumultuaram no cerebro, succedeu o +amor proprio offendido, «Pois que! dizia elle, é de marmore esta mulher? +Está junto de mim n'aquella noite voluptuosa, toda impregnada de +languidas emanações, de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, +sente a minha respiração abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta +as minhas mãos trementes, deixa-se embalar commigo, commigo como uma +creoula na rede, pelo movimento lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada +d'isso a commove, e lhe faz perder por um instante ao menos, os seus +habitos de _coquetterie_? A propria Leonora Falconieri de Feuillet +sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle bote que resvalava ao lume +d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um sulco phosphorescente, e +Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o fogo infernal das +suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do amor d'uma +das suas amigas? Oh! _coquette_. + +«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar +essa mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, +quando não tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente +desastrado, então serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, +far-lhe-hei sentir bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não +com os espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, +triumpharei... e talvez conseguirei d'essa fórma attrahil-a e +fascinal-a, como ella me fascinou a mim.» + +E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e +saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de... + +Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar +as janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a +idéa de que se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não +era cousa que muito custasse á sua timidez rebelde. + +Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. +Frederico fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou +por causa d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo +os olhos da galante menina, que logo os desviou o mais depressa que +pôde, mas sem que podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante +delicto. Frederico affastou-se triumphantemente. + +Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse +passar d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o +seu passeio diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os +seus novos amores. A sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e +convidou-o para jantar. + +Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um +pequeno mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em +grupos, e Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante. + +A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade +baixa, e do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre +uma porção do rio, que se prolongava até ao extremo horisonte. + +Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um +resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o +Tejo, rodeando co mum nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais +além uma sombra tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, +devia ser o vago perfil da torre de Belem. + +A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando +brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de +perfumes. Frederico scismava. + +--Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda. + +--Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente. + +Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora. + +--Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel. + +--Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço +sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha +existencia. + +--Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente? + +--Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina que +tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim. +Oh! mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a +invejam. + +Lucinda mal podia soffrear o riso. + +--E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para a +pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por +conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva. + +--Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado. + +Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio. + +--Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder +apreciar o seu talento de pintor. + +Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu +pensamento. Lucinda desviou os seus. + +Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico. + +--Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe +era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus +olhos ao rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa, +permitta-me que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente +deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus +olhos o amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella +estava com a face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos +seus olhos negros parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os +cabellos, arfando suavemente com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte +alva e limpida, tão limpida, que de vez em quando parecia que n'essa +testa innundada de luz se via passar a vaga sombra do pensamento. +Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma profunda +moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e +meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema +seria viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar, +votei-lhe um affecto, profundo e ardente como os seus negros olhos. + +Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra +isso mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem +d'amor da velha tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a +miragem, de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o +areial... dos cincoenta annos. + +Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e +levantasse um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua +declaração, Lucinda poderia auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e +quebrando d'essa forma o gelo. Mas infelizmente a maliciosa rapariga, um +instante docemente perturbada pela eloquencia de Frederico, pensou de +subito, quando elle findou o seu trecho, na ficticia inspiradora d'esse +memoravel discurso, e deu aos seus labios uma expressão de riso +reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de Frederico logo se +retraisse, e tremesse de ter avançado tanto. + +Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico +retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A +_coquette_ ia-se enleiando nas suas proprias redes. + +--É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas nos +olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida; +porque sinto agora essa commoção desconhecida, de que tanto me +fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo. + + +IV + +Não conhecem os leitores o caracter de Lucinda, se supposeram que ella +se importasse um instante só com o desejo que a tia d'Adelaide +manifestára de não se relacionar com a amiga de collegio de sua +sobrinha. Foi ella mesma que tomou a iniciativa; apresentou-se em casa +da sua antiga companheira, não pareceu reparar na frieza da dona da +casa, lisongeiou-a na sua mania de combater a velhice, declarou alto e +bom som que Adelaide era no collegio uma creancinha, de que ella fôra +não a companheira, mas a protectora, a segunda mãe. Esteve quasi dizendo +que a sua amiguinha entrára para o collegio ainda de mama. Estas +asserções illuminaram n'um momomento o rosto da tia, dissiparam como por +encanto a sua frieza, e deram a Lucinda o logar d'amiga intima. Esta, +affectava sempre tratar D. Marianna com familiaridade, fazia-lhe +confidencias imaginaveis, e pedia-lhe egual franqueza. A boa senhora +caiu no laço, e, córando pudicamente, principiou a narrar-lhe aventuras +não menos suppostas, porque os namoros que obtinha desfaziam-se sempre á +luz traidora do dia, quando o desgraçado pretendente, fazendo sentinella +á porta da casa, via a dois passos de distancia os encantos que o haviam +fascinado da altura d'um segundo andar. + +D. Marianna devia ter sido formosissima; e d'essa formosura extincta +conservava olhos, onde ainda se não apagára de todo o sacro fogo. Eram +elles o nucleo em torno do qual se agrupavam os feitiços artificiaes. + +Notava, comtudo, Lucinda, uma extraordinaria tristeza em Adelaide. +Preoccupada e melancholica, a loira creança, em vez de procurar a +companhia da sua amiga de collegio, evitava-a pelo contrario, e parecia +estar cada vez mais affeiçoada á solidão do seu jardim. Debalde +Lucinda tentava penetrar o segredo d'esta preoccupação. Adelaide era +impenetravel. Lucinda, devemos confessal-o, não insistiu muito, e, +pensando unicamente no meio de deslindar a comedia, cuja teia +imprudentemente urdira, depois de scismar alguns instantes na +extraordinaria melancholia da sua amiga, não fez mais esforços para +penetrar o mysterio. + +Os seus amores é que progrediam maravilhosamente, Frederico fallava-lhe +do seu amor tão fervidamente, acompanhava as suas confidencias com tão +ardentes olhares, que não se podia duvidar que, apesar de toda a sua +timidez, um levissimo impulso bastava para quebrar os cordões da +mascara, e transformar n'uma declaração franca e discreta, as confissões +que se trocavam enygmaticamente, por meio d'essas bemaventuradas +confidencias e que se commentavam e explicavam pelo fogo das pupillas. + +Comtudo o momento decisivo approximava-se, estava já por tal fórma +retezada a corda do arco, que por muito que Frederico hesitasse em +despedir a frecha inflammada, ella partiria expontaneamente, n'um +instante de exaltação. Vinte vezes Lucinda julgára que esse momento +cubiçado era chegado emfim, vinte vezes vira Frederico apertar-lhe a mão +convulso, e mover os labios como se fosse a proferir a palavra que +rasgaria o véu transparente, que encobria esses amores, e vinte vezes a +mão lhe descaira gelida, e vinte vezes os labios se tinham cerrado sem +balbuciarem um som. E comtudo não era a timidez de Frederico o +obstaculo; n'esses instantes estava elle n'esse estado d'ebriedade +doida, em que se não pensa, em que os sentidos, o espirito, a +imaginação, tudo se acha exaltado a tal ponto que o mais timido se +arroja a audacias que depois o fazem estremecer. É como esse instante +rapido, em que nas batalhas o fumo da polvora, o troar da artilheria, os +gritos de victoria, o clangor das trombetas exaltam os proprios covardes +e os arrojam, momentaneamente intrepidos, ao centro das fileiras +inimigas. Lucinda estava tambem demasiadamente commovida para que +podesse gelar esse enthusiasmo fervente com um sorriso ironico, uma +palavra mordaz. Mas parecia que uma voz desconhecida, uma sombra +fatal vinha murmurar ao ouvido de Frederico algumas palavras sinistras, +e, remorso ou receio, Frederico ficava melancholico e sombrio, como os +convivas de Lucrecia Borgia, ouvindo no meio dos seus cantos bachicos +resoarem as notas funebres do côro dos monges. + +Lucinda não percebia esta hesitação de nova especie, e receiando +vagamente um novo perigo, resolvera dar á comedia o seu desenlace. + +Duas palavras de Frederico decidiram-n'a de todo. + +Um dia, depois de terem feito mil floreados sobre o amor a proposito ou +antes a desproposito de intangivel, da vaporosa Laura d'aquelle +Petrarcha inconstante, Frederico deixou pender a fronte melancholica, e +murmurou: + +--Pobre criança! + +Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á +quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom +sentimental do romantico mancebo. + +Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase +queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos meus +pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que me serve para +conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.» Assim, +essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na +sua alma; encerravam em si a chave do enygma. + +Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse +indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da +distancia, o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D. +Marianna. A pretenciosa tia podia parecer uma galante senhora, bem +conservada, nunca uma formosa rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico +cumplice do seu amoroso artificio. Vira que elle precisava d'um meio, +por mais tenue que fosse, para fallar sem receio, proporciona-lhe a +occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque realmente a amava. +Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o véu, além de +ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar. + +Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante +que nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava +correspondido, se podia acreditar nos ternos olhares com que da +janella o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da +intimidade de Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua +amiga uma entrevista, em que lhe podesse declarar o seu affecto e o +desejo que alimentava de o ver coroado por um feliz hymineu. D. Marianna +caíu das nuvens. Tinha distribuido os seus olhares ternos com tanta +prodigalidade que não sabia qual dos felizes mortaes contemplados na +distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma ventura raras +vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor. + +Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D. +Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque +D. Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade +para não ter que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio +obstinadamente que fosse a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria +a chave do jardim ao aventuroso namorado, e que passaria aquella noite +em sua casa para entreter Adelaide, e velar assim para que não fosse +perturbada a amorosa entrevista. + +Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a +Frederico. Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe, +que o encarregava de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma +entrevista que a obrigava a pôr de parte a modestia feminina, e a +dirigir-se a elle, fiando-se na sua honra de cavalheiro. Demais uma +senhora respeitavel assistirá á entrevista. Concluiu dizendo-lhe que era +na seguinte noite que devia realisar-se a entrevista, ensinando-lhe a +topographia da casa e dando-lhe a chave do jardim. + +Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde +tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser +esse o instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o +susto que teria, elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma +mulher, apressaria o desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo. + +Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro +impeto Frederico ia arrojar-se aos pés de Lucinda, atirando para +longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o extranho +rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz firme: + +--Irei. É um dever d'honra. + +Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino +obstinava-se; a comedia tinha de se representar até ao fim. + + +V + +Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D. +Marianna. Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um +redobramento de tristeza que se tornava bem visivel no rosto da sua +amiga Adelaide, de quem ella se esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira +a escolhel-a para confidente, porque bem conhecia a sua indole +sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos dos seus sonhos a +terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda. + +Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa +amiga era tão completamente indifferente o estado do seu espirito. +Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo; +tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente +ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella +se engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava, +ennegrecera tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse +devaneiara-o ella bem dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e +fragrante atravessara-lhe, e perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem +ligeiro como sonho que era, tornando apenas com a sua luz fugitiva mais +espessas as trevas, que voltaram de novo a enlutar-lhe a mocidade. + +A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda +tristeza que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de +conservar secreto tudo o que se passava no seu espirito, e o receio que +tinha dos sarcasmos de Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse +mais do que todos os seus motejos. Mas Lucinda andava preoccupada, +Lucinda nem reparava na pallidez da sua amiga. Vir ella passar um dia a +sua casa, prometter ficar á noute, e não lhe dirigir durante esse +tempo todo, mais de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre +Adelaidesinha não podia perceber, e ainda menos, a intimidade subita que +se estabelecera entre sua tia e a sua amiga. N'esse dia andou aquella +toda azafamada a enfeitar-se, a pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor +_coquettemente_ a sala de visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e +trocava com ella em voz baixa palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide, +espantada de ver tantos preparativos, se se esperava alguem nessa noute, +recebeu uma resposta secca das duas senhoras; e a pobre menina, +suffocada em soluços, e não podendo conter as lagrimas, refugiou-se, +levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi desaffogou, derramou +prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais infeliz de +todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que, +orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo. + +Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa. +Lucinda, vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das +palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do jardim, Lucinda +conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos dizer) para +suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta. Embebida +n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do +encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D. +Marianna, enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas +de modo, que se conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por +Garrett, a penumbra tão util aos amantes, e duplamente util, a quem só +dispõe d'esse recurso para combater, com mais ou menos vantagem, os +inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que já podia entrar na classe +honrosa dos documentos historicos. + +Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na +escuridão, procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez +em quando ia espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no +canapé, vestida com o fato mais fresco e juvenil, esperava +magestosamente a visita d'aquelle a quem os seus encantos tinham +rendido. + +Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura, +para a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração +indicaram-lhe, mais depressa do que a vista, que era esse o vulto de +Frederico. + +A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a +porta do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de +Frederico. Viu-o hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e +affastar-se. Lucinda sorriu-se. + +--Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella. + +Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva, +tornou rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou +no jardim. + +--Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus +tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do +ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a +quinquagenaria formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os +remorsos. + +E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão veiu, e uma sombra de +melancholia se lhe espalhou no semblante. + +--Esta minha indole zombeteira, murmurou ella, ha de ser sempre um +obstaculo á minha felicidade. Devo fazer penitencia. O ridiculo, a que +expuz os dois actores da scena que se vae passar na sala, é enorme. Eu +não o perdoava. Perdoal-o-ha Frederico? Perdôa de certo, perdôa e com +que jubilo, em sabendo o motivo que me guiou! Mas não devo deixar passar +uma noute sobre o seu resentimento. Agora mesmo, agora quando esse D. +Quixote de donzellas cincoentonas voltar mal-ferido da sua justa cortez, +farei como Altisidora, ousarei pôr de parte o pudor feminino para lhe +dizer «Amo-te» e para o consolar com essa palavra só do encantamento da +nova Dulcinéa. + +E a travessa rapariga, desatando a rir, desceu a escada que ia ter ao +jardim. + +Não havia ainda luar como dissémos, porém, emquanto não surgia a rainha +da noute no seu carro triumphal de madre-perola, as estrellas +scintillavam com vivissima luz no ceu azul, e insinuavam os seus raios +d'ouro pallido por entre a folhagem das arvores, que a brisa meneava. + +Lucinda esteve alguns instantes scismando tristemente. A _coquette_ +lamentava talvez o ter-se enleiado, para conseguir o seu fim, n'esse tão +complicado enredo, que afinal a nada remedeiára, porque se via obrigada +a dar o primeiro passo, exactamente como se não tivesse ideado tantas +combinações machiavelicas para obrigar esse timido Cesar, que podia +chegar, ver e vencer, a passar o Rubicon. + +N'isto um vulto de homem appareceu, vindo do lado da habitação, +cosendo-se com os troncos d'arvores, mas fugindo ligeiramente. Devia ser +Frederico. + +Lucinda avançou para elle, com o coração a pulsar-lhe violentamente. + +--Frederico! balbuciou ella. + +O homem parou. + +--Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais +timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a +confissão que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de +immodesta: «Amo-o». + +E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos +d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á +mulher de Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos. + +Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso +violento que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro, +e ouviu uma voz grosseira e avinhada, que lhe dizia: + +--Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha +Phylis, mas larga os timidos volateis. + +Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de +casa. A esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo +do jardim. Um outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de +Lucinda, e uma outra voz juvenil de senhora começou a bradar por soccorro. + +A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim +innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida _toilette_ á +porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro, +deixando os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda, que +ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro, +pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena: + +Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos, +como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava +Adelaide escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que +petrificada, os criados riam e segredavam. + + +VI + +Voltemos agora ao instante em que vimos Frederico desapparecer no jardim. + +Os calculos de Lucinda peccavam pela base. A auctora d'este enredo não +podia costumar-se a considerar Adelaide, que tinha menos seis annos do +que ella, como uma mulher capaz de amar e de ser amada, não suspeitára +que por baixo da varanda do segundo andar, onde estava Marianna, havia +uma janella de peitos, que n'essa janella, por maior que fosse a +reclusão em que Adelaide vivesse, ia esta espairecer por alguns +instantes, que seria exactamente n'uma dessas occasiões que Frederico +passaria, e que o vulto elegante e nobre d'este moço não produziria +menos impressão na creança de dezenove annos, do que produzira na mulher +de vinte e cinco. + +Frederico amava realmente Lucinda, e aproveitára com avidez a occasião +que se lhe offerecia de vencer a sua timidez, e de ter com a esplendida +_coquette_ essas longas conversações d'amor, que nunca ousaria encetar +se esse pretexto se lhe não proporcionasse. Mas a suave figura +d'Adelaide não deixára de lhe fazer impressão, e a tristeza que +principiava a ver na physionomia d'ella, á medida que os dias iam +correndo, sem que essa troca de olhares tivesse resultados, causára-lhe +um vago remorso. Parecia-lhe que essa formosa menina merecia mais do que +servir de pretexto á poesia, de que era outra o objecto verdadeiro; +parecia-lhe que elle commettia um crime, povoando de sonhos d'ouro +aquella juvenil imaginação, para depois só os esmagar com a massa brutal +do desdem. + +Portanto aceitára a entrevista, como se acceita o calice d'amargura, que +um dever nobre e elevado nos impõe a obrigação de bebermos. Queria +fallar com Adelaide, confessar-lhe tudo, mostrar-lhe uma franqueza +tal, humilhar-se tanto, que, se não lhe podesse amortecer a dôr, lhe +lisongeasse pelo menos o amor-proprio e o impedisse de se ferir no +doloroso espinho, que lhe ia fazer brotar na tenra haste d'essa namorada +flor da phantasia. No mesmo dia da entrevista (era um domingo) entrava +elle n'uma egreja. Acabava a missa, e no templo solitario estavam apenas +duas mulheres, uma, elegante e airosa, parecia absorvida n'uma prece +fervente, a outra, que era uma criada velha, mostrava impaciencia +visivel de se retirar. + +Finalmente a devota senhora ergueu-se, e os seus olhos encontraram os +olhos de Frederico, que reconheceu com espanto a mulher, cuja imagem o +perseguia como um remorso. Estava pallida, os olhos azues languidos e +tristes denunciavam lagrimas enxutas de pouco. Fitou um longo olhar em +Frederico; este pallido e trémulo curvou-se respeitosamente, levando a +mão ao coração, como se uma dôr subita o ferisse, e desviando os olhos +d'ella, affastou-se rapidamente. + +N'essa noite, como vimos, estava elle á porta do jardim. Entrou, e, +apenas dera dez passos n'uma pequena alameda, encontrou um vulto +feminino, que se dirigia vagarosamente para casa. Á luz do candieiro de +gaz, que illuminava uma pequena porção da alameda, os dois +reconheceram-se. Adelaide recuou um passo, e soltou um pequeno grito. + +--O senhor aqui! bradou ella com voz que debalde procurava tornar firme +e austera. Ah! percebo, continuou ella como que ferida por uma idéa, e +desatando a chorar, julga talvez que sou uma d'essas mulheres levianas, +com as quaes basta empregar a audacia... + +Não pôde dizer mais. Os soluços suffocaram-a. Audacia! Era a primeira +vez que Frederico ouvia uma mulher dirigir-lhe similhante accusação. + +--Oh! juro-lhe que se engana, exclamou elle caindo-lhe aos pés e não +reparando até no incomprehensivel espanto d'essa mulher, que, segundo +elle julgava, fôra a primeira a conceder-lhe um _rendez-vous_, a ninguem +n'este mundo merece mais respeito. Sou culpado, bem o sei, mas tudo vou +resgatar com a minha franqueza extrema e sem limites. + +Adelaide não o ouvia; pendia-lhe desfallecida nos braços; não ousamos +dizer que fosse completamente involuntario esse desfalecimento. + +Frederico, consternado, olhou em torno de si, e vio um banco ao fundo da +alameda. Segurando com o braço na cintura de Adelaide, foi-a levando +para esse lado. + +Adelaide caiu sentada no banco, e escondeu o rosto entre as mãos. + +Frederico ficou silencioso junto d'ella. Sentia d'elle uma desconhecida +perturbação. Aquelle encontro inesperado, a solidão e a noute, o perfume +das flores, combinado com essas vagas e voluptuosas emanações das noites +d'estio, esse vulto flexivel e airoso de mulher que lhe pendera nos +braços, tudo isso, sobrevindo d'um modo tão imprevisto, o enebriava e +entontecia. + +Vendo aquella mulher tão linda, com o rosto banhado de lagrimas, o animo +desfalleceu-lhe; como havia elle de dizer a essa creatura do ceu, quando +estava elle mesmo sujeito ao indizivel magnetismo, á fascinação do seu +olhar, como havia elle de lhe dizer: «Illudi-a, sacrifiquei-a a uma +_coquette_, fiz do seu vulto gracioso e angelico, anteparo, que me +resguardasse do fogo d'uns olhos audazes, que me fascinavam e me +queimavam?» + +Impossivel! completamente impossivel! + +Por isso Frederico pôde apenas balbuciar: + +--Perdoa-me?... + +Ella abaixou para elle os olhos, em que atravez das lagrimas +transparecia um amor immenso, e com voz suave, tremente, doce e +suavissima, como vibração longiqua d'harpa eolia, murmurou: + +--Perdoar-lhe! como lhe não hei de perdoar, se por este momento anciava, +se o meu desejo era vel-o ahi onde está, e ouvir a sua voz? Oh! meu Deus +bem sei que me vae julgar mal, bem sei que o devia repellir, que devia +estranhar o seu proceder? Que quer? Não tenho animo. Ha tanto tempo que +a ventura me foge, que não posso fugir-lhe agora que ella me surge de +subito! Depois eu sei que é cavalheiro, sei que me ama, li-o no seu +olhar, e esse livro mysterioso para nós outras mulheres não tem +segredos. Confio na sua honra, e sequiosa ha tanto d'esta suprema +felicidade, ouso dizer-lhe: «Obrigada por ter vindo, obrigada por +ter prevenido o meu secreto desejo, obrigada por ter lido nas minhas +faces pallidas, nos meus olhos amortecidos a anciedade que me devorava, +por ter adivinhado que morria longe de si, como a flor, a que falta o +orvalho, como a arvore a que falta o sol.» + +Frederico, arrastado por esta eloquencia ardente, fascinadora, auxiliada +por uma indescriptivel melodia de voz, pelos murmurios dulcissimos do +jardim, sentia abrazar-se-lhe a imaginação, e o vulto de Lucinda, que +por momentos fluctuava diante d'elle, esvaía-se ao longe como um sonho +ao romper da alvorada, e as palavras d'ella, que primeiro se haviam +interposto ao seu ouvido, e á voz d'Adelaide, pareciam-lhe agora tão +frias e descoradas, comparando-as com essas phrases vehementes, que lhe +iam ferir o coração, porque do coração partiam!... + +--Minha senhora... balbuciou elle. + +--Oh! chame-me Adelaide, tornou ella, apertando-lhe as mãos com impeto +febril, e diga-me o seu nome para que os meus sonhos o saibam, e mo +venham repetir á noite, depois de eu adormecer balbuciando-o. + +--Adelaide, que me enlouquece, bradou o mancebo com a cabeça em fogo. + +--O seu nome, o seu nome! + +--Frederico! murmurou elle e tão proximo d'ella, que os labios +d'Adelaide pareceram aspirar essa palavra, assim que saiu da bocca do +seu amado, como se temesse que a surprehendesse a brisa. + +As arvores meneavam as suas folhudas copas impellidas pelo sopro da +viração; a luz das estrellas tremia no ceu azul, e os seus pallidos +raios, coando-se por entre os ramos, illuminavam frouxamente a alva +fronte de Adelaide. + +Subito soou um grito de mulher ancioso e dilacerante. + +Frederico levantou-se d'um impeto, e correu para o sitio d'onde partia o +brado; na escuridão topou um homem que fugia, estendeu as mãos e +afferrou-se-lhe ao pescoço. + +O resto sabem-n'o os leitores. + +......................................................................... + +D. Marianna, que, sentada no sophá, vestida, enfeitada, e collocada +na sombra, debalde esperava a promettida visita, correu ao jardim, +ouvindo o grito, e já lá encontrou os criados. + +Viu então o ladrão das gallinhas fugir por cima do muro, deixando os +seus despojos no campo de batalha, Frederico empunhando os volateis, e +junto d'elle Adelaide. + +A tia ficou fula de colera, notando que sua sobrinha estava n'um +_rendez-vous_, emquanto ella esperava debalde o seu. Era possivel mesmo +que os dois não fizessem senão um. + +--O que é isto? bradou ella. A menina com um homem no quintal! + +--Minha senhora, disse Frederico abandonando as gallinhas, confesso que +fomos culpados occultando a v. ex.ª os nossos amores, mas estamos a +tempo de reparar essa culpa, porque tenho a honra de pedir a v. ex.ª a +mão de sua sobrinha. + +--O logar é improprio bastante, respondeu seccamente D. Marianna, queira +portanto sair. E a menina recolha-se ao seu quarto e seja mais prudente. + +Debalde a pobre tia pedia explicações a Lucinda. Esta furiosa +declarou-lhe que nada percebia, e no dia seguinte retirou-se para sua casa. + +D'ahi a quinze dias recebia uma carta de Adelaide, a qual, como podem +suppôr, ignorava tudo o que se passára. + +A carta dizia o seguinte: + + + «Minha boa amiga. + +«Caso-me daqui a um mez. Não podes imaginar como sou feliz. Quero fallar +comtigo muito, muito e muito.» + + +Lucinda rasgou a carta, e pizou-a aos pés com lagrimas de raiva. Ao +outro dia tanto instou com seu pae, tão doente disse que estava que o +resolveu, apesar da extrema repugnancia da sr.ª D. Leocadia em deixar +Lisboa, a irem passar o resto do verão n'uma quinta que possuiam no +Ribatejo. + + +FIM + + + + +UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO + + + + +UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO + + +I + +Estou embirrando solemnemente com o titulo do meu romance. Um melodrama +em Santo Thyrso, n'uma terra pacifica e bem morigerada, cujos habitantes +mais notaveis pela sua respeitabilidade, lêem o _Flos Sanctorum_, e +suspiram pelo tempo dos frades, d'esses incançaveis moralisadores e +bemfeitores da população! + +Eu podia inventar um enredo terrivel, e tornar editores responsaveis das +peripecias mais criminosas do meu entrecho, alguns habitantes de quem eu +tivesse tido razão de queixa, quando estive em Santo Thyrso (porque eu +estive em Santo Thyrso, oh! patricios alfacinhas) mas n'aquella boa +terra não fui offendido senão pelas pulgas da estalagem, e, a respeito +de pulgas, nem mesmo as industriosas são proprias para personagens de +melodrama. + +Mas eu não quero inventar, quero apenas ser chronista da muito veridica +historia (chavão infallivel) que passo a contar a quem tiver paciencia +de me ler, e declaro desde já aos Santo Thyrsenses, que, se os factos, +que historio, teem uma apparencia melodramatica, a culpa não é minha... +é dos acontecimentos. + +Anoitecia; a tarde, apesar do outono ir já adiantado (a acção do meu +romance passa-se em novembro), tinha estado linda, e até mesmo quente; +mas ao pôr do sol levantára-se um vento fino e glacial que ameaçára os +prudentes frequentadores da botica com um diluvio de catarrhos e +constipações, e os narizes dos veneraveis minhotos, victimas d'um abuso +de confiança atmospherico, tinham obrigado os seus donos a procurarem um +abrigo nos lares domésticos, para não apanharem o ar humido da noite, +quando, segundo o seu costume, abandonassem o gamão, para voltarem para +casa a horas mortas. + +A horas mortas?! Sim, não posso deixar de confessar que a perversão dos +costumes tinha chegado a Santo Thyrso! Uma roda de jovens extravagantes, +todos de menos de sessenta annos de edade, haviam instituido, com grave +escandalo das pessoas sérias, o costume de se recolherem ás dez horas!!! +Ás dez horas! Ás dez horas, raça degenerada! Quando, no quintal +fronteiro á botica, as gallinhas se recolhiam á capoeira, não vos +parecia ver passar d'envolta com ellas as sombras venerandas dos vossos +avós, aconselhando-vos o regresso a casa?! Netos degenerados, as cinzas +dos vossos antepassados tremem de indignação, não vos sentindo ressonar +ás oito horas da noite... Horror! + +Fataes consequencias do progresso! E por toda a parte vae lavrando este +contagio funesto. Tudo está impregnado de immoralidade; a litteratura +mesmo está viciada. Ó adoradores do passado, compadecei-vos de nós! +Actualmente lêem-se os romances de Alexandre Dumas, filho. No vosso +tempo lia-se o _Cavalheiro de Faublas_, e a _Justina_ do marquez de +Sade. Ó tempos felizes d'outr'ora! Ó moral das passadas éras! + +Começo eu a perder-me em digressões. É um defeito, que confesso +humildemente; prometto emendar-me d'elle, e vou entrar immediatamente na +minha narração. + +Começava pois a anoitecer, quando á porta de uma das melhores casas de +Santo Thyrso um moço e esbelto official de caçadores se apeava de um +cavallo, que mereceria uma descripção especial, se o meu protesto de me +deixar de digressões não fosse ainda tão recente. Basta dizer-se que o +sendeiro de Nicolau Tolentino era um prodigio d'obesidade, comparado com +o ente (rebelde a toda a classificação zoologica), em que vinha montado +o nosso joven official. + +A casa, junto á qual tinha parado o intrepido rocinante d'aquelle D. +Quixote arregimentado, tinha uma apparencia seductora para um lisboeta +desterrado na provincia. Via-se que o proprietario attendera ás +condições de elegancia e conforto, quando mandou construir a casa. Duas +senhoras novas ainda, soffrivelmente feias, um tanto pardas, e ambas de +luneta, adornavam ou desadornavam uma das sacadas. Os sons d'um +piano desafinado, (como qualquer piano d'um terceiro andar da baixa, e +tocado com a mestria com que o poderia tocar em Lisboa a menina da casa, +filha d'um negociante rico, em funcção de annos com enthusiasticos +applausos dos convidados... se o serviço ao chá foi bom) chegaram aos +ouvidos do official de caçadores, e vieram demonstrar-lhe que os +instinctos phildesharmonicos da nova geração feminina se revelavam em +Santo Thyrso com tanto vigor, como na terra das alfaces. + +O nosso lisboeta (o rapaz effectivamente era de Lisboa) comprimentou +aquelles dois exemplares do sexo feminino, tirados em papel pardo, e +perguntou: + +--V. ex.as teem a bondade de me dizer se mora aqui o sr. Bernardo da +Fonseca Guimarães, antigo negociante? + +--Sim, senhor, respondeu uma das interpelladas, é meu pae. + +--N'esse caso tem a bondade de lhe dizer que lhe trago uma carta do seu +amigo de Lisboa o sr. Antonio Ricardo de Sousa. + +--Ó _paesinho_, tornou a rapariga, voltando-se para dentro, está +aqui um senhor official, que o procura. + +--Manda subir, Adelaide. + +Ao mesmo tempo abriu-se a porta, e o nosso amigo, depois de ter atado á +aldrava a redea do rocinante (o arrieiro chamava-lhe redea, com o mesmo +direito com que o governo chama barão a um lapuz opulento), subiu a +escada, no patamar da qual encontrou o nosso Bernardo Guimarães, em +chinellos de moiro, na mão um barrete conico, em fórma de apagador, e +prompto a receber diplomaticamente a visita inesperada. + +--_Antão bossenhoria_ traz-me uma carta do meu amigo Antonio Ricardo? +Ora pois, muito estimo, muito estimo. Como está aquelle maganão? + +--Menos mal! + +--Elle d'antes padecia muito de callos! + +--Ainda hoje. + +--Ora bom, entre aqui para a sala... como se chama _bossenhoria_? Quero +apresental-o a minhas filhas, a quem dei uma educação, que não a teem +melhor as fidalgas de Lisboa! Como é a sua graça? + +--Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira. + +--Vá entrando, vá entrando que eu vou ler a carta do meu Antonio Ricardo. + +Eduardo Teixeira entrou na sala, e achou-se em frente das duas pardas, +que já tinha visto, e d'uma terceira, que estava sentada ao piano, +bonita fallando em absoluto, e formosissima comparando-a com as outras. +Lindos olhos pretos rasgados, um pouco morena, grande a bocca, mas não +muito desgraciosa,--tal é o retrato da desalmada pianista. + +Eduardo comprimentou-as; ellas responderam com um comprimento +ceremonioso, e ficaram todos em silencio. + +As raparigas olhavam para Eduardo, como olhariam para um objecto de +curiosidade; e o nosso alfacinha, que não gostava de ser contemplado +como se fosse um macaco de especie rarissima, ou um embaixador japonez, +entendeu que devia sair d'aquella posição embaraçosa, lançando mão da +primeira banalidade, que lhe occorresse. Lembrou-se que ao subir a +escada tinha ouvido o _La dona é mobile_ desfigurado com a maior bulha +possivel pela pianista provinciana. + +Foi uma idéa salvadora! Eduardo, por conseguinte, puxou os punhos da +camisa, torceu o bigode com toda a affabilidade, tossiu agradavelmente, +esboçou no sorriso o prologo de uma fineza, e disse com o tom mais +mellifluo que pôde encontrar: + +--Minha senhora, eu assim que entrei n'esta casa, tive uma surpresa +muito agradavel. + +--Sim, então qual foi? tornou a martyrisadora de Verdi. + +--Ouvi tocar admiravelmente no piano um trecho do _Rigoletto_. + +As tres meninas olharam umas para as outras boquiabertas. Finalmente a +pianista desfez provisoriamente o ponto d'admiração em que tinha +transformado a cara, e exclamou: + +--É espantoso! Como conheceu! + +--Mas, minha senhora... observou Eduardo. + +--Não admira, é de Lisboa, interrompeu uma das pardas. + +--Mas, minha senhora... acudiu o lisboeta. + +--Frequenta muito o theatro lyrico, tornou a parda n.º 2. + +--Mas, minha senhora... continuou Eduardo já atterrado por aquella +insistencia. + +--Oh! o theatro lyrico, acudia a pianista em tom inspirado, e +arregalando muito os olhos, o sanctuario do prazer. Como deve ser bello! +Vio a Lotti, sr. alferes? Tem ouvido o _Rigoletto_? Como elle conheceu! + +Eduardo escandalisou-se; o espantarem-se de que elle conhecesse _La dona +é mobile_ era a maior offensa que se podia fazer aos seus conhecimentos +musicaes, por isso não poude deixar de responder: + +--Mas, minha senhora, em Lisboa não ha um só gaiato, que não conheça +este trecho. + +--Ah! é vulgar! + +--Sim, minha senhora, é do dominio do realejo. + +N'este momento entrava na sala o sr. Bernardo Guimarães. Vinha com uma +cara prazenteira, oculos no nariz, e sorvendo com delicia uma pitada de +simonte. + +--_Antão_ já se conhecem, bradou elle, olhem que este senhor é afilhado +do nosso Antonio Ricardo. _Antão_ está agora em caçadores 7, e tem +licença de um mez? Anda a ver o nosso Minho. Isto para quem vem de +Lisboa, não tem que ver. + +--Ora se tem, sr. Guimarães! é um torrão abençoado. Que deliciosas +paisagens, que magnificos panoramas! É realmente uma provincia muito +pittoresca, e muito curiosa até pelas suas recordações historicas. +Guimarães possue reliquias archeologicas importantissimas, e é pena que +as não saibam avaliar devidamente, e que profanem os venerandos +monumentos do berço da monarchia, sarapintando de verde e azul, por +exemplo, a pia do baptismo de D. Affonso Henrique. + +--Ora, não me venha com lerias. Os conegos fizeram muito bem. Estava a +pia suja, que mettia medo, e envergonhava a collegiada. Ha mais tempo +que o deviam ter feito. Vejam como agora está bonita. Ninguem ha de +dizer que tem oitocentos annos a tal pia. Vão lá adivinhal-o. Agora nem +o mais pintado. + +E o bom do negociante confirmava a sua dissertação artistica com o silvo +estrondoso d'uma pitada. + +--_Bossenhoria_ agora fica comnosco alguns dias, tenha paciencia. Hei de +lhe dar agua da fonte da Maria Velha, que tem a virtude de fazer que +quem a bebe só com muito custo saia de Santo Thyrso. Já tem um quarto +preparado, vá descançar um pouco, depois ceia comnosco ás sete horas, +sem ceremonia, sem ceremonia. + +--Ó _paesinho_, observou a mais bonita das filhas, este senhor póde ser +que esteja costumado a tomar chá e _tostas_, veja lá não lhe faça mal +ceiar. + +--Oh! não, minha senhora, muitissimo obrigado; o meu estômago é d'uma +flexibilidade espantosa, presta-se a todos os usos gastronomicos das +differentes terras. Isto para um militar é essencial. + +--Bem dito, bem dito, tornou o sr. Bernardo, até d'aqui a pedaço, hein? + +--Até já, minhas senhoras; um creado de vv. ex.as + +E Eduardo Teixeira saiu da sala, guiado pelo seu hospedeiro. + + +II + +Vamos nós, amigo leitor, assistir á ceia do sr. Bernardo Guimarães. O +digno negociante não se deve zangar comnosco; eu pelo menos vou com o +proposito firme de não lhe acceitar cousa alguma; porque ao amaldiçoado +caldo verde, e ao detestavel vinho verde tenho um odio particular. Venho +simplesmente, como grande curioso que sou, espreitar o aspecto da mesa, +e ver se pesco a conversa dos convivas, que deve estar interessante. + +Ao pé do respeitavel sr. Bernardo, está sentado o nosso alferes de +caçadores, a cair de somno, segundo parece; porque as palpebras +cerram-se-lhe a miudo, e os bocejos, apesar dos esforços incriveis que +faz para os reprimir, tornam-se cada vez mais frequentes. + +Á esquerda do nosso Eduardo Teixeira senta-se a veneranda metade do +venerando Bernardo. Cincoenta vezes tem florido a amendoeira desde, que +Santo Thyrso teve a gloria de produzir um dos mais feios especimens da +fealdade humana. Apesar d'isso, rosnavam os maldizentes que um certo +mestre de meninos da villa se encarregára do papel de Cyrineu, que +ajudasse o sr. Bernardo a levar aquella cruz desdentada ao Calvario +matrimonial. Linguas damnadas, que não poupam nem a virtude... nem os +mestres de meninos. + +Defronte estava sentado o sobredito sr. Themudo (que este era o nome do +chichisbéo) homem rubicundo, e de proporções herculeas, capaz de levar +trinta cruzes, principalmente carunchosas como aquella, ao Golgotha mais +elevado. + +Este senhor estava flanqueado pelas tres meninas da casa, e felizmente +para o equilibrio gastronomico, ficava elle d'esse lado da mesa, porque +as filhas do negociante, donzellas vaporosas e ideaes, achavam feio +comer diante de gente; mas o nosso amigo tratava com muito cuidado do +seu estomago, do coração de D. Belizaria Guimarães, e da cabeça do +ex-negociante, porque comia como quatro, deitava olhos ternos á +respeitavel matrona, e aconselhava o uso do chinó ao marido, que se +queixava de frequentes constipações na cabeça. + +No momento em que eu e o leitor começámos a espreitar aquella scena +domestica, tinha um formidavel prato de arroz doce entrado em scena, e o +nosso Eduardo Teixeira, apreciador d'esses doçuras gastronomicas, +atacava-o com um denodo, que honrava sobremaneira o valor do seu... +appetite. + +As meninas da casa entretanto apoquentavam-n'o com perguntas ácerca de +Lisboa, do casamento do rei, dos theatros, dos litteratos, emfim, de +todas as cousas da capital, d'esse eldorado das donzellas pretenciosas +das provincias. + +--Então, diga-me uma cousa, sr. Teixeira, como ia vestida a rainha no +dia do casamento? + +Eduardo, que em questões de _toilettes_ femininos era perfeitamente um +selvagem, e que demais estava saboreando com delicias uma colher d'arroz +doce, respondeu com toda a serenidade: + +--Ia vestida de verde, branco e escarlate. + +--Uma noiva! + +--Sim, minha senhora, trajava as côres italianas, para mostrar o affecto +que tem á sua patria! + +--Mas os jornaes não fallavam em tal cousa! + +--Ora, os jornaes sabem lá o que dizem,--respondeu Eduardo cortando com +a colher a questão, e um castello d'arroz doce, que se formára ao canto +do prato,--os jornaes estão sempre pessimamente informados. + +Ninguem ousou replicar; fallára o oraculo lisbonense, emmudeciam os +profanos da provincia. + +--Ó sr. Eduardo, exclamou a menina Adelaide, que era uma das pardas, já +leu o _D. Jayme_? + +--Já, sim, minha senhora; v. ex.ª tambem o leu, segundo vejo. É um +bonito poema. + +--O que é isso do D. Jayme? perguntou o sr. Bernardo. + +--O meu amigo nunca leu aquella sandice, observou o mestre de meninos em +tom... de mestre de meninos, fez bem, fez bem; é um pessimo livro; tem +um erro de grammatica, e meia cacophonia; e demais a mais é +revoltantemente immoral, accrescentou elle, lançando um olhar terno para +a mulher do seu amigo. + +--O sr. Themudo deve ser muito enthusiasta da _Historia da Imperatriz +Porcina_, observou Eduardo com a maior gravidade. + +--Não desgosto, não desgosto; mas lá o _D. Jayme_, não presta para nada; +e aquelle pateta do Castilho a elogial-o... Ora o Castilho sempre é +homem, que quer ensinar as creanças com um methodo racional! Como se, +para ensinar meninos, fosse necessario ser racional! Aqui estou eu para +prova do contrario. Ensino os pequenos com a cartilha do mestre Ignacio, +e no fim de quatro annos estão promptos. Eu cá sou assim. + +--Diga-me uma cousa, sr. Teixeira, conhece o Thomaz Ribeiro? perguntou a +pianista. + +--Se conheço o Thomaz Ribeiro? Perfeitamente, minha senhora, tornou +Eduardo, que tinha adormecido quasi, ouvindo o discurso do sr. Themudo. + +--Então diga-nos como é a physionomia do poeta? + +--Cabellos louros, e olhos azues! + +--Ah! é! logo vi que havia de ser assim, e o Julio Machado, conhece-o? + +--Ora essa... minha senhora... se conheço o Machado, conheço-o como os +meus dedos. + +--Descreva-o lá. + +--Cabellos louros, e olhos azues. + +--Ah! tambem?! + +--Tambem, sim, minha senhora, estatura ordinaria, e bocca regular! + +--E o nariz, e o nariz? + +--O nariz, tornou Eduardo surprehendido em flagrante delicto de +contemplação diante d'um copo de vinho do Porto, que estava observando á +luz; o nariz arrebitado! + +--Arrebitado, tornaram as raparigas em côro, e depois voltando-se umas +para as outras accrescentaram em _rezza-voce_: O auctor das _Scenas da +minha terra_ tem o nariz arrebitado! + +--Já se vê, minhas senhoras, observou Eduardo, nariz de folhetinista! +Todos os folhetinistas teem o nariz arrebitado! + +--Ora essa, então a mana Emilia, respondeu uma das pardas apontando para +a pianista, a mana Emilia deve escrever folhetins, tem o nariz arrebitado. + +--Exactamente, minha senhora, se tivesse o nariz aquilino, +aconselhava-lhe que escrevesse poemas epicos, ou tragedias em cinco actos! + +Eduardo, julgando-se livre de interrogatorios, dispunha-se a pedir +licença para se retirar, quando a mana Emilia accrescentou: + +--Gostou do _Prato d'arroz doce_? + +--Muito, minha senhora; os ovos estavam em muito boa conta, o assucar +magistralmente distribuido, e a canella dizia-lhe muito bem! + +--Mas eu fallo do romance de Antonio Augusto. + +--Ah! o romance está muito bem escripto, é uma bella obra! + +--Conhece o Teixeira de Vasconcellos! + +--Ora essa, n'isso nem se falla... sou intimo amigo d'elle. Inda v. +ex.ª me pergunta se conheço o Teixeira de Vasconcellos! + +--Descreva-nos lá a cara d'elle. Nós temos muita curiosidade de conhecer +a physionomia dos litteratos notaveis! + +--Oh! o Antonio Augusto! Tem cabellos louros e olhos azues! + +--Então todos os litteratos de Lisboa teem cabellos louros e olhos azues? + +--Todos, minha senhora, exceptuando os ultra-romanticos, que esses teem +olhos verdes e cabello ruivo, e se me dão licença, minhas senhoras, +retiro-me; porque estou caindo de somno e de cansaço. + +E saiu, deixando ficar os seus hospedeiros, como se vê, perfeitamente +conhecedores da physionomia dos litteratos lisbonenses. + + +III + +No dia seguinte acordou Eduardo sobresaltado, ouvindo o piano +revoltar-se em guinchos desafinados contra os incriveis tormentos, com +que uma das meninas martyrisava o inoffensivo teclado. + +Eduardo julgou que seria pelo menos meio dia; saltou fóra da cama, e +correu á janella. Um nevoeiro densissimo não deixava calcular as horas +pela altura do sol. O nosso alferes tinha vindo na vespera com tanto +somno, que nem reparára que havia um relogio em cima da mesa; quando +voltava da janella, deu com elle, e viu que ainda não eram oito horas! + +Com effeito, pouco depois da aurora ter vindo abrir com os dedos +rosados as portas do Oriente, viera a menina Feliciana (parda n.º 2) +abrir o piano com os dedos côr de cobre, e sobresaltar Eduardo com +aquella desafinação matutina. + +O nosso heroe arranjou-se á pressa, e abriu a porta do quarto. Apenas o +ex-negociante o sentiu, veiu ter com elle rindo muito. + +--Ora viva o nosso mandrião; vá almoçar, ande que lá tem guardado o +almoço. Como passou a noute? + +--Perfeitamente; eu peço mil desculpas do incommodo involuntario que lhe +dei; mas vinha tão cansado, e com tanto somno, que, por melhores tenções +que formasse, não consegui levantar-me a horas, mas protesto que será a +ultima vez, que isto me ha de succeder. + +--Nada... não incommoda, vá almoçar, ande, e volte depois para a sala +ouvir as pequenas tocar piano. + +Quando d'ahi a dez minutos o nosso heroe fez a sua entrada na sala, a +menina Emilia, que estava sentada junto á janella em attitude +melancolica e romanticamente scismadora, cumprimentou-o suspirando +plangentemente; a menina Adelaide fez esforços incriveis para +substituir a camada de secia que lhe cobria as faces, pela camada +carminica indicativa de modestia; e a menina Feliciana, sacerdotisa do +deus _Charivari_, sacrificou o _Miserere_ do _Trovador_, para solemnisar +a entrada de Eduardo Teixeira. + +O sr. Bernardo, querendo mostrar ao seu hospede, que conhecia +perfeitamente a musica que a filha estava tocando, assobiava +ingenuamente o _Pirolito_. Eduardo, muito longe de suppôr que aquillo +era musica de Verdi, inclinava-se para a interpretação musical do +honrado negociante. + +O nosso alferes foi sentar-se ao pé da menina Emilia, ouviu primeiro em +silencio o _pseudo-Miserere_, e depois, inclinando-se para a +provinciana, que suspirava amiudadamente, disse-lhe a meia voz: + +--Está hoje um dia triste, não acha, minha senhora? + +--Ah! não me falle n'isso; dias assim esmagam-me o coração. Estes dias +_chubosos_ são horriveis para os soffrimentos interiores! + +--V. ex.ª padece do interior... azias de estomago, talvez?! + +--Ah! não, senhor, sou excessivamente _nerbosa_; o espirito domina o que +ha em mim de material! + +--Hade-lhe fazer muito mal o café, minha senhora, aconselho-lhe os +banhos do mar. + +--Para os soffrimentos da alma não tem a medicina _valsamos_, respondeu +a provinciana suspirando ruidosamente. + +--Na sua idade, minha senhora, tornou Eduardo, vendo que não havia +remedio senão afinar a conversa no tom de Emilia, na sua idade, só uma +paixão infeliz produz grandes infortunios. Ora v. ex.ª póde inspirar, +mas não sentir uma paixão infeliz, não julgo os santo-thyrsenses tão +faltos de gosto, que algum d'elles recusasse a felicidade invejada por +todos. Só se a morte lhe veiu truncar nas primeiras paginas algum +romance da juventude... + +E Eduardo, ufano (com rasão) do romanticismo da sua linguagem, +recostou-se na cadeira com gravidade igual á d'um illustre orador, que, +ao acabar um discurso monumental ácerca do sino da sua parochia, é +cumprimentado por varios senhores deputados de todos os lados da camara, +e de todas as côres politicas. + +--Oh! mas vêr as illusões desfolharem-se pouco a pouco, observou a sr.ª +D. Emilia, e ver trocar-se o amor ideal, que sonhámos, pela vil +realidade d'este mundo prosaico... é atroz, não é? + +--Soffrer tormentos horriveis... eis a fatal predestinação das almas +privilegiadas, tornou Eduardo, abanando a cabeça lugubremente. + +--Diz bem, diz. Ah! não encontrar eu no mundo uma alma irmã da minha, +que comprehenda e avalie o meu affecto! Oh! + +--Ih! que massadora, disse Eduardo com os seus botões; tem curso +completo de romances sentimentaes. E o caso é que não é feia. Vou-me +propor a candidato ao throno do seu affecto. + +--Ó Feliciana, dizia entretanto o sr. Bernardo á menina que tocava +piano, toca-me aquelle bocadinho do _Ernani_, de que eu gosto tanto. + +--Qual é? + +O illustre Bernardo começou a assobiar a _Maria Cachucha_ aproximadamente. + +--Ah! já sei, é a _cabatina_ do soprano. Já toco. + +--Eu, minha senhora, dizia Eduardo em voz cavernosa á sua interlocutora, +tambem por muito tempo vaguei errante no mundo, sem encontrar a mulher +que a Providencia me destinava, aquella que devia realisar os sonhos +mais arrojados da minha phantasia. Nenhuma comprehendeu o amor santo e +puro que eu lhe queria offertar... escarneceram-me e passaram.--Isto não +vae mau, dizia elle lá de si para si; mas eu d'aqui a pedaço +engasgo-me.--Sim, minha senhora, continuava Eduardo enthusiasmando-se, +só agora posso dizer: _Eureka!_ achei no mundo o anjo que eu sonhava... +achei... sim, encontrei... sim, minha senhora, quero dizer que +sympathisei com v. ex.ª desde que a vi, e que serei o mais feliz dos +homens, se corresponder ao meu ardente amor.--Lá estraguei o effeito, +concluiu elle em _áparte_, parece-me que este final é do _Secretario dos +Amantes_. + +--Eu, sr. Teixeira, respondeu a menina, procurando córar, eu +acceitaria o seu amor, mas os homens são tão lisongeiros... + +--Eu sou uma excepção, creia, minha senhora... + +--A mim agradam-me os seus sentimentos, e sympathisei com o senhor +tambem, logo que o vi; mas... + +--Ó Emiliasinha, bradou o negociante, vem tocar tambem. + +--Lá vou, _paesinho_.--Cale-se, continuou ella, dirigindo-se a Eduardo. + +--Mas eu desejava tanto fallar-lhe mais em particular... + +--Pois sim, logo ás onze horas da noite, desça ao quintal, que eu lhe +fallo da janella do meu quarto, que deita para lá. + +--Oh! quanto lhe agradeço! + +--Silencio! + +--Então, que lhe parecem as pianistas, exclamou o sr. Bernardo, sorvendo +uma pitada, ha-as melhores em Lisboa? + +--Qual historia! Suas filhas tocam admiravelmente! Se as levasse a +Lisboa, haviam de ser muito admiradas. + +--A Lisboa? Nada, isso é muito longe, lá esteve agora o meu +Dyonisio; por signal que hade estar a chegar. Elle é rapaz, pode ir; mas +eu e a minha Belizaria, já estamos velhos para essas danças. + +--É verdade, o mano Dyonisio temol-o cá um dia d'estes... muito se +divertiu elle por lá provavelmente, observou a menina Adelaide com um +suspiro. + +--Deus queira que o Dyonisio se não esqueça de me trazer a musica, que +lhe pedi. Ó sr. Eduardo quer ouvir a aria final da _Lucia_? perguntou a +romantica Emilia. + +--Pois não, minha senhora, com todo o gosto, respondeu Eduardo +aproximando-se do piano. + +--Como a musica exprime bem os sentimentos da alma! observou Emilia, +quando o viu sentado ao pé de si--eu adoro as musicas tristes! + +--Tambem eu, minha senhora, tambem eu. + +--Acho prazer em derramar lagrimas, quando oiço algum trecho pathetico. + +--Tambem eu, minha senhora, tambem eu. + +--Que doce conformidade de sentimentos! + +--Tambem eu, minha senhora, tanbem eu, tornou Eduardo distraidamente. + +--Que diz? + +--Que tambem me enleva, emendou elle, essa conformidade de sentimentos! +Estou ancioso por ouvir a _Lucia_. + +N'este ponto vejo-me obrigado a estygmatisar o meu heroe. Tornou-se +cumplice de um assassinio. Para se salvar da entalação, em que a sua +distracção o tinha collocado, sacrificou Donizetti, e a sua opera +magistral. É imperdoavel! + +--Quando o crime de lesa-harmonia se consummou, e foi devidamente +applaudido por todos os circumstantes,o nosso Bernardo Guimarães, +dirigindo-se ao moço alferes, convidou-o a ir dar um giro pela villa. +Eduardo acceitou o convite com o enthusiasmo que os seus ouvidos +magoados lhe inspiravam. + +E, depois de ter trocado um olhar amoroso com a romantica donzella, saiu +para ir admirar a villa de Santo Thyrso, e o seu convento. + +N'essa mesma noite, pouco depois das onze horas, estava Eduardo Teixeira +collocado no quintal da casa do sr. Guimarães, ao pé de uma janella +pouco elevada, janella que servia de tribuna, onde a joven provinciana, +declamava emphaticamente os seus discursos sentimentaes. + +Infelizmente para a romantica oradora, a noite estava fria e humida, o +que tinha por tal fórma congelado a pouca doze de sentimentalismo, de +que Eduardo podia dispôr, que respondia a uns protestos d'amor ardentes, +com uns queixumes sobre a frialdade dos pés, e a um trecho sublime +ácerca da lua argentea, da rainha da noite, com um espirro acompanhado +por uma dissertação scientifica sobre o perigo das constipações desprezadas. + +Estavam pois aquelles dois entes poeticos embebidos em tão suaves +colloquios, quando de repente no quintal se sentiram passos apressados. + +--Que será? bradou Emilia bastante assustada, retire-se depressa, não +quero que ninguem o veja aqui. + +--N'esse caso é impossivel safar-me, porque estão interceptadas as +communicações! + +--Mas como ha de ser isto, meu Deus! + +--Como quem quer que fôr não se dirige ao seu quarto, conceda-me v. +ex.ª por um instante licença que me esconda n'elle, porque lhe dou a +minha palavra de honra, que saio, apenas o perigo tenha cessado. + +E, juntando a acção á palavra, Eduardo lançou as mãos ao parapeito da +janella, e n'um pulo se achou dentro do quarto. + +Com grande espanto dos dois, um outro vulto appareceu junto da janella, +e, repetindo a manobra de Eduardo, entrou logo atraz d'elle no quarto da +sr.ª D. Emilia Guimarães. + +--Dyonisio! bradou aterrada a romantica donzella. + +--Querem vêr que é o irmão, murmurou Eduardo. + +--_Enbiou-me a Probidencia_, regougou o recem-chegado com intonação +irreprehensivelmente melodramatica, é grande o crime, sr.ª D. Emilia da +Fonseca Guimarães; a vingança ha de ser tremenda, senhor desconhecido! + + +IV + +Os meus leitores, se forem imparciaes, hão de confessar, que nunca leram +scena de tanto effeito, nem de interesse tão palpitante. + +O sr. Dyonisio, tyranno interino, typo de janota portuense (vide +romances de Camillo Castello Branco) vinha embuçado n'um capote de +camellão. Ora sabido é, que todos os embuçados, mesmo em chales-mantas, +são terriveis; mas os embuçados em capotes de camellão attingem as raias +da sublimidade melodramatica! + +A victima masculina é Eduardo Teixeira, que um defluxo, complicado por +uma grande frialdade de pés, torna duplamente interessante aos +olhos de todos os leitores compassivos. A victima feminina é D. Emilia +Guimarães, a qual, comprehendendo a situação n'um abrir e fechar +d'olhos, _elevou-se_ rapidamente á altura do seu papel, _caindo_ +artisticamente em cima d'uma poltrona, á falta de confidente, a quem +dissesse como nas tragedias classicas: + + Desmaiar vou! Recebe-me em teus braços. + +--Então quem é _bossenhoria_? Que fazia o senhor n'este quarto? +perguntou o sr. Dyonisio, tirando o chapéu desabado com gesto magestoso, +e armando-se de luneta, á falta de punhal. + +--Eu... senhor... eu, tornou Eduardo, convencido que era o irmão, e +conscio por conseguinte do direito que elle tinha para fazer a pergunta. + +--Dyonisio, juro-te que sou innocente, exclamou a menina Emilia, +levantando-se rapidamente, e correndo a ajoelhar-se aos pés do homem de +capote de camellão, acredita-me Dyonisio. + +--Levantai-vos, senhora, vós não sois culpada; mas o infame seductor... + +--Oh! senhor eu não seduzi ninguem. + +--Calai-vos. + +--Dyonisio, peço-te justiça, e não indulgencia. Eu não trahi os meus +deveres, juro-o perante o ceu, que estende sobre as nossas cabeças o seu +manto azul, puro como a minha alma. + +Exageração de metaphora. Sobre as suas cabeças estava apenas o tecto, +que nem era azul, nem puro; porque estava muito sujo das moscas. + +--Póde acreditar o que sua irmã lhe diz, atalhou Eduardo, posso +asseverar-lh'o debaixo da minha palavra de honra. + +--Minha irmã? As filhas da casa de Val-de-Camellos portam-se d'um modo +mui differente do d'esta menina, indigna mesmo de sustentar o nome +honrado de seu pae, o sr. Bernardo Guimarães. + +--Não lhe admitto mais insultos, sr. Dyonisio Antunes de +Val-de-Camellos, tenho a honra de lhe apresentar meu marido, o sr. +Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira. + +--Perdão, perdão, minha senhora, interrompeu com vivacidade o moço +alferes, eu não hesitaria um momento em a chamar minha esposa, se +devesse a v. ex.ª uma reparação, mas não ha coisa alguma que a isso se +assimelhe, e, visto este senhor não ser seu irmão, vou ter com elle uma +explicação mais corrente. Direi pois ao sr. Dyonisio de Val-de-Camellos, +que está perfeitamente equivocado a meu respeito. Esta senhora lhe +explicará, se a isso quizer descer, o motivo porque entrei no quarto +d'ella. Poder-lhe-ia eu perguntar tambem o motivo porque veio cá metter +o nariz. Comtudo, dir-lhe-hei unicamente que não tenho que lhe dar +satisfações, a não ser n'um sitio mais conveniente do que este a +explicações da natureza, das que hão de ter logar entre nós. O modo +insolente com que me tratou a principio, merece uma correcção, e hade +tel-a. Estou ás suas ordens. + +--Um duello, e por minha causa, bradou Emilia, despenteando-se e +procurando arranjar um olhar desvairado, oh! não façaes com que o sangue +venha manchar as minhas vestes virginaes. + +--Vamos embora, sr. Dyonisio. + +--Vamos lá, respondeu o homem de capote de camellão, em tom um pouco +menos arrogante. + +--Suspendei! Dyonisio, sr. Eduardo, horror! Meu Deus, valei-me! + +E desmaiou. + +«Bravo!»--diria um espectador do theatro normal, enthusiasta da _Dama de +S. Tropez_. + +Eu e o leitor applaudimos silenciosamente, e vamos seguir os nossos dois +heroes, que sairam pela janella, perdendo-se assim todo o effeito de uma +saida solemne pela porta de fundo, cujos batentes de papelão se abrissem +de par em par. + +Dyonisio e Eduardo atravessaram o quintal silenciosos; chegando a uma +portinha que deitava para a estrada, o sr. de Val-de-Camellos tirou uma +chave que trazia na algibeira, abriu a porta, e os dois contendores sairam. + +--O sangue de um de nós ha de ser hoje derramado, vociferou o illustre +janota do Porto, com tetrica intonação. + +--Está dito; mas, a proposito, parece-me que não temos remedio +senão jogar o sôcco; parque não temos armas, nem padrinhos, de sorte que +o nosso duello tem todas as condições d'irregularidade. + +--Ora diga-me uma cousa, tornou Dyonisio, descendo das regiões +melodramaticas ao terreno das explicações prosaicas, isto não se poderia +conciliar amigavelmente? + +--Oh! homem, isso é impossivel, o senhor descompoz-me atrozmente, +abusando da identidade do seu nome com o do irmão d'Emilia, e realmente +eu não vim ao Minho para receber descomposturas. + +--Oh! senhor, tenha paciencia, a Emilia gosta d'essas cousas, e eu não +tive remedio senão fazer aquella scena. Eu não tinha intenção offensiva. +Mas que relações tem o senhor com a rapariga? + +--Um simples namorico. + +--Olhe, tornou Dyonisio coçando a cabeça, a D. Emilia Guimarães é uma +senhora muita estimavel. + +--Não duvido. + +--Muito prendada! + +--Apoiado. + +--Formosissima, continuou o sr. de Val-de-Camellos animando-se pouco a +pouco. + +--Pois não! + +--Espirituosa! bradou o homem encaixando a luneta magestosamente no +rubicundo nanz. + +--Oh! + +--Senhora, a quem amo delirantemente! + +--Muitos parabens, sr. Dyonisio, muitos parabens! + +--Unica mulher, que me pode tornar feliz. + +--Oh! sr. Dyonisio, não me commova! + +--Adoro-a, senhor, adoro-a como a uma estrella, que reluz nas trevas do +meu viver. + +--Bravo, ia-me arrancando lagrimas. + +--E tem um dote de vinte contos de reis! concluiu o homem do capote de +camellão com sublime expressão d'enthusiasmo. + +--Muito bem, sr. Dyonisio, muito bem. Permitta-me que o abrace. Que +rasgos de sentimento! Commoveu-me profundamente. Foi o coração quem lhe +dictou essas phrases enthusiasticas. Esse argumento dos vinte contos +revela claramente a pureza dos seus sentimentos. Ó patriarchal +Dyonisio, cedo-vos Emilia. Não serei eu quem vá perturbar a felicidade +conjugal, tão solidamente baseada. O amor, fugindo das grandes cidades, +vem, segundo vejo, aninhar-se á sombra de vinte contos nos corações +desinteressados dos jovens provincianos. Sr. Dyonisio Antunes de +Val-de-Camellos, não servirei de obstaculo á sua felicidade. Adeus, seja +venturoso! + +--Oh! muito obrigado, generoso desconhecido! volveu Dyonisio, que estava +decididamente infectado de romanticismo sombrio. + +--Ámanhã parto para o Porto. Deixo-lhe o campo livre. + +--Espero que me perdoe a involuntaria offensa. + +--Não fallemos n'isso. O que lá vae, lá vae. Adeus. + +--Adeus. Disponha do meu fraco prestimo. + +Se os nossos dois amigos estivessem em Lisboa, tinham ido juntos a uma +ceia no Matta, ceia, que (se elles fossem bem conhecedores dos costumes +portuguezes em materia de duello) deveriam ter encommendado antes do +desafio. + +Assim, Dyonisio embuçou-se simplesmente no capote de camellão, e voltou +para a cama, onde resonou pacificamente o resto da noite, sonhando que +tinha comprado, com o dote de Emilia, uma junta de bois, e dois pedaços +de terra, em que semeára milho, obtendo uma colheita formidavel, e +grangeando deste modo tal consideração em Santo Thyrso, que tinha sido +nomeado por unanimidade de votos... juiz eleito. + +Eduardo meteu-se na cama, aqueceu os pés, transpirou muito, e no outro +dia estava quasi livre do defluxo teimoso, que o apoquentára tanto. + +Apesar de ter tido a felicidade de se curar com rapidez, o nosso +alferes, que era um rapaz prudente, jurou nunca mais ter namoro com +raparigas romanticas em noites de novembro + + +V + +Ainda que as intenções madrugadoras de Eduardo Teixeira fossem as mais +sinceras deste mundo, passou segunda vez pelo desgosto de não assistir +ao almoço da familia. O nosso alferes chegou a convencer-se de que o +almoço em Santo Thyrso, como a _tremenda_ nos conventos dos monges +negros, era lá por alta noite. + +Quando entrou na sala achou a menina Emilia sósinha sentada ao piano. O +vestido branco, que tinha envergado apesar do intenso frio, o cabello +muito de proposito em desalinho, as olheiras, que supponho tinham origem +identica á das do Silvestre da Silva, de Camillo Castello Branco, +mostravam que Emilia se tinha caracterisado convenientemente para +representar a ultima scena de um melodrama. + +Quando viu Eduardo, levantou-se, e caminhou a encontral-o, hirta e +vagarosa. O joven official estacou á porta pasmado. + +--Qual dos dois morreu? perguntou ella solemne e lugubremente. + +--Fui eu, minha senhora! + +Seguiu-se um curto silencio. + +--O senhor está zombando de mim? tornou Emilia. + +--Não, minha senhora, estou respondendo á pergunta de v. ex.ª Com +effeito, morri para o seu amor, sr.ª D. Emilia. Interroguei o meu +coração, achei-o frio de mais para sentir uma d'essas paixões ardentes, +que v. ex.ª deve inspirar. Não acontece o mesmo com Dyonisio. Minha +senhora, vim descobrir um vulcão em Santo Thyrso, desmentindo por esta +fórma a geographia. Esse Vesuvio desconhecido é o coração do sr. de +Val-de-Camellos... Hontem os discursos de Dyonisio, se não me aqueceram +os pés, que tinha muito frios, como v. ex.ª sabe, pelo menos +aqueceram-me... o coração. Na lava candente, que brotou espontanea +do peito d'aquelle joven, accendi eu o lume prompto da generosidade. +Entendi que devia aconselhal-a a visitar essa cratera de paixão. +Asseguro-lhe que se ha de abrazar. Digo-lh'o eu. + +--Não zombe tanto de mim, sr. Eduardo. Se tive ligeiro namoro com esse +rapaz, o amor verdadeiro, que sinto agora, dissipou completamente esse +frivolo galanteio. + +--Mas, minha senhora, v. ex.ª deve fazer a felicidade d'um Dyonisio. +Attenda, por amor de Deus, á influencia dos nomes nos destinos dos +individuos. O nome de Dyonisio dá logo a conhecer que o possuidor deve +ter um caracter patriarchal. Ora casem, casem, meus pombinhos, tenham +muitos filhos, e sejam muito felizes. + +--Assim me despresa, sabendo que o amo! + +--Não, minha senhora, não creia tal. Hei de ser sempre o maior dos seus +admiradores. + +--E mais nada? + +--E de v. ex.ª o mais attento venerador. + +--Ingrato, perfido! Disse-lhe que o amava, menti-lhe, detesto-o! + +E a romantica menina ia aproveitar a situação, e a proximidade d'uma +poltrona para desmaiar, quando felizmente entraram as duas manas. + +Acabados os comprimentos preliminares: + +--Que pena tenho, minhas senhoras, de as ter conhecido, disse Eduardo; +os momentos deliciosos, que aqui passei, servem apenas para tornar mais +pungente a saudade, que me vae atormentar. + +--Porque, deixa-nos? bradaram em côro as tres provincianas. + +--Sim, minhas senhoras, recebi hontem noticia de ter obtido passagem +para um regimento da capital, de forma que hoje mesmo tenciono partir +para o Porto. + +--Partir, quem falla aqui em partir? bradou o sr. Bernardo que entrava +n'esse instante. + +--Eu, sr. Guimarães, replicou Eduardo, que, depois de lhe agradecer +immenso o modo amabilissimo com que me recebeu, lhe peço agora as suas +ordens para o Porto e para Lisboa. + +--Mas porque não se demora pelo menos alguns dias? + +--Sou militar, sr. Guimarães, e devo cumprir á risca a ordem que recebi. + +--Esta é que eu não esperava! + +--Ingrato, e eu amava-o tanto, murmurou Emilia, recostando-se na poltrona. + +--Então, minha senhora, cá fica Dyonisio para a consolar. É um bello +rapaz, d'um caracter excellente, e com alguma applicação póde-se tornar +um heroe de romance. Dê-lhe v. ex.ª vinagre todos os dias, e receite-lhe +uma dose forte de Visconde d'Arlincourt, e verá como faz do sr. de +Val-de-Camellos um rapaz ideial. Vou para Lisboa formar votos pela sua +felicidade. + +......................................................................... +......................................................................... + +N'essa mesma tarde, Eduardo Teixeira empoleirado no seu fiel rocinante, +dizia adeus a Santo Thyrso, depois de ter aturado uma scena pathetica de +despedida, tal como a poderia imaginar o mais lamuriento auctor de +melodramas. + +O sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, veiu com grato coração, e com +um jumento chibante, em que montava, acompanhar o nosso heroe á +Travage, onde se despediu de Eduardo, protestando-lhe eterno +agradecimento, e amisade constante. + +Dyonisio Antunes continua serenamente o namoro com Emilia, sujeitando-se +comtudo a uma dieta rigorosa, a ver se abate um pouco a sua nutrição +anti-romantica. + +O sr. Themudo cada vez embirra mais com o _D. Jayme_; e quando, em doces +colloquios amorosos com D. Belizaria Guimarães, interrompe a conversação +intima para fallar da depravação do seculo, cita o enredo do _D. Jayme_, +e véla o rosto pudicamente com uma toalha de mãos. Belizaria sorve com +indignação uma pitada de simonte. + +Eduardo Teixeira, diz-nos pessoa fidedigna, que passa bem de saude, +sendo comtudo muito sujeito a ataques de nervos, que o assaltam sempre +que ouve... um piano!... + + +FIM + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Astucias de Namorada e Um melodrama em +Santo Thyrso, by Manuel Pinheiro Chagas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA *** + +***** This file should be named 29342-8.txt or 29342-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/3/4/29342/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/29342-8.zip b/29342-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..96bb992 --- /dev/null +++ b/29342-8.zip diff --git a/29342-h.zip b/29342-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..6af4107 --- /dev/null +++ b/29342-h.zip diff --git a/29342-h/29342-h.htm b/29342-h/29342-h.htm new file mode 100644 index 0000000..d08ed76 --- /dev/null +++ b/29342-h/29342-h.htm @@ -0,0 +1,2615 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Astucias de Namorada e Um Melodrama em Santo Thyrso, por Pinheiro + Chagas</title> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <meta name="author" content="Pinheiro Chagas"> + <meta name="date" content="1873"> + <meta name="publisher" content="Typographia Progresso, Lisboa"> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: #cccccc; + } + hr {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #corpo sup {font-size: 70%;} + h1, h2 {text-align:center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p{ + line-height: 1em; + text-align: justify; + text-indent: 1em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Astucias de Namorada e Um melodrama em +Santo Thyrso, by Manuel Pinheiro Chagas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Astucias de Namorada e Um melodrama em Santo Thyrso + +Author: Manuel Pinheiro Chagas + +Release Date: July 7, 2009 [EBook #29342] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p><span class="pn">{I}</span></p> + +<div +style="text-align:center; border-top: solid 3px #000;border-bottom: solid 3px #000; padding: 1em; margin: 10%;"> +<p style="font-size: 1.5em;">ASTUCIAS DE NAMORADA</p> + +<p>E</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</p> +</div> + +<p><span class="pn">{II}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{III}</span></p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px;"> +<p style="font-size: 2.4em;">ASTUCIAS</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">NAMORADA</p> + +<p>E</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">Um melodrama em Santo Thyrso</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">ORIGINAL</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">M. PINHEIRO CHAGAS</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p>LISBOA<br> + +TYPOGRAPHIA PROGRESSO<br> + +40—Rua do Alecrim—40<br> + +1873</p> +</div> + +<p><span class="pn">{IV}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{V}</span></p> + +<div id="corpo"> +<h1>PROLOGO</h1> + +<p>Este livro é um livro de verão. Fez-se para ser lido á sombra de uma arvore +copada, á hora do meio dia, quando póde prestar-se apenas á leitura uma vaga +attenção, e quando portanto se querem livros de enredo ligeiro e risonho, que +nem resolvam problemas, nem arripiem os nervos.</p> + +<p>As <em>Astucias de Namorada</em> estão escriptas ha largo tempo. As +aventuras do seu manuscripto davam assumpto a outro romance; Teem de curioso o +ser o seu entrecho baseado sobre um facto succedido realmente em Lisboa. Ha de +haver leitores que o taxem de inverosimil, pois saibam que é verdadeiro. Mais +uma vez tem razão Boileau</p> + +<blockquote> + <em>Le vrai peut quelquefois n'etre pas vraisemblable.</em><span + class="pn">{VI}</span> </blockquote> + +<p>O romance que fecha o volume, e que se intitula <em>Um melodrama em Santo +Thyrso</em>, ponho-o aqui a titulo de curiosidade archeologica. Foi a minha +estreia no jornalismo. Fundára-se a <em>Gazeta de Portugal</em>. Eu tinha +conhecimento pessoal do seu proprietario, Teixeira de Vasconcellos. Procurei-o +para lhe lêr o romance. Elle ia sair.</p> + +<p>—Deixe-me vêr alguma coisa que lhe pareça melhor, disse-me elle.</p> + +<p>Li-lhe tremendo a scena em que Eduardo descreve as physionomias dos +litteratos lisbonenses; Teixeira de Vasconcellos rio-se, e tirou-me das mãos o +manuscripto.</p> + +<p>—<em>Il y a quelque chose lá</em>, continuou elle, isto para estreia +basta. O seu romance ha de ser publicado.</p> + +<p>E foi. Estava eu baptisado folhetinista.</p> + +<p>Hoje, relendo o romance, sorrio-me das ingenuidades do principiante, e, para +conseguir desculpa do leitor, vejo que não tenho remedio senão dizer-lhe +retrospectivamente com Alfredo de Musset</p> + +<blockquote> + <em>Surtout considérez, illustres seigneuries<br> + Comme l'auteur est jeune, et c'est son premier pas.</em> </blockquote> + +<p style="text-align: right">P<small>INHEIRO</small> C<small>HAGAS</small><span +class="pn">{1}</span></p> + +<h1>ASTUCIAS DE NAMORADA</h1> + +<h2>I</h2> + +<p>Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.</p> + +<p>N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos pendurados +sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um pouco das polkas e +das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo delicioso panorama do Tejo, em +cujas aguas traçava a lua como que uma estrada argentea. De quando em quando +enchia-se o jardim de risos, de segredinhos; a lua illuminava por entre as +folhas roupas alvejantes, que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; +depois pelas janellas<span class="pn">{2}</span> abertas da sala saía uma +bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros compassos d'uns lanceiros, os +grupos dispersavam-se e engolphavam-se em turbilhão pelas portas de vidraças, e +o jardim ficava de novo solitario, mas não silencioso; porque n'elle se +escutava o rumorejar da brisa, o echo da musica do baile, e o murmurio do rio +que gemia docemente em baixo nas fragas.</p> + +<p>N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo com os +fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, veio sentar-se +n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade do jardim, mais proximo +da orla do rochedo, e por conseguinte quasi suspenso, como um ninho de +gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o que disse; não foram ambas as +pessoas indispensaveis para formarem um par, não foram ambas as pessoas, que se +sentaram; só o fez uma senhora de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, +morena e viva, de olhos rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o +ébano á luz brilhante da lua cheia.</p> + +<p>O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil<span class="pn">{3}</span> +companheira lhe ter visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se +podia deduzir do modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o +menos espaço possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o +seu braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda +que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando esta o +não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia de +aproveitar o favor que se lhe queria conceder.</p> + +<p>E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se +ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de ministro, +estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando ao sopro das +auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores aventurosos, mil +perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma flor, uma palavra, na idade +feliz em que se inveja Leandro só ao pensar quantas vezes se teria accendido o +pharol de Hero antes da terrivel noite, em que a morte, <em>envolta em +horrendas vagas</em>, segundo a admiravel expressão<span class="pn">{4}</span> +de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em que ainda não +expirára o echo dos beijos da antecedente noite.</p> + +<p>E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma palavra +qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa senhora, cujos pés +desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não seria a sua, se em vez de +estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante d'ella, estivesse na outra +margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a nado para cair offegante e exanime +junto d'esse adorado vulto. Então não seria necessario fallar; a sua pallidez, +os seus olhos cheios d'amor diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, +vendo-o ensopado por causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe +desembaraçasse a lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a +dois corações, que anciavam por se unir.</p> + +<p>A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso meio +despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva branca ainda +não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com um<span +class="pn">{5}</span> gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, +e que espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo +timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão enluvada, +e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.</p> + +<p>A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as +envia aos paizes meridionaes. No céu d'um azul suavissimo, algumas nuvens, +volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela brisa nocturna, +embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, pareciam as maravilhosas +rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo firmamento, em noites assim +languidas e serenas. O Tejo desenrolava a sua immensa toalha liquida, prateada +no centro pelo luar, e negra junto do caes, ou á sombra dos mastros dos navios +immoveis nos ancoradoiros. Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á +beira do rio, e pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos +seus candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas. +Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando<span +class="pn">{6}</span> ao sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, +que só tem rivaes na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia +fascinar quem o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do +caramanchão d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos +d'uma valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os +luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.</p> + +<p>Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a voz +tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez estremecer.</p> + +<p>Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:</p> + +<p>—Que... linda... noite!</p> + +<p>—Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o +rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para elle sem +levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão voluptuosa, que encerra +um encanto irresistivel, um magnetismo fascinador... Como que parecem fluctuar +na atmosphera todos os sonhos dos poetas! Sabe<span class="pn">{7}</span> no +que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que resvala á flor das aguas, como um +cysne da noite? Pensava se seria esse o barco de Lamartine, e se levaria tambem +dois amantes, que fossem murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as +doces palavras que tanto nos encantam, quando o auctor do <em>Lago</em> as +traduz na melodiosa linguagem da sua poesia.</p> + +<p>—Ah! bem sei, respondeu o desastrado:</p> + +<blockquote> + <em>Ainsi toujours poussés vers de nouveaux rivages...</em> </blockquote> + +<p>—Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os +versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe que me +acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar á lua e ao +Tejo as inspirações de Lamartine.</p> + +<p>E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do seu +interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada apostrophe, e que +debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.</p> + +<p>Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, d'uma +gentileza<span class="pn">{8}</span> verdadeiramente notavel, d'um espirito +intelligente e cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez +invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na sala, +podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o conversar +desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu acanhamento não tivera +motivo para se revelar. Deslumbrada por esse esplendido conjuncto de +predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do gentil moço, e a +<em>coquette</em> conseguira-o em breve, mas, quando se tratára de dar o passo +decisivo, manifestára-se toda a timidez do espirito virginal de Frederico. Era +o seu primeiro amor, e só os tolos conseguem atravessar affoitamente essas +columnas d'Hercules. Lucinda, experimentada n'essas questões, comprehendera +primeiramente o embaraço do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera +tambem que o devia auxiliar. Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda +mais, se me permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda +fosse uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como +elle<span class="pn">{9}</span> tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as +palpebras mesmo, abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, +que afinal os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo +idioma. Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de +Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla +superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com o +receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa esplendida +mulher?!</p> + +<p>O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que +avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, assustando +Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando elle para lhe fugir +retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido olhar, que lhe dizia: +«Ávante.» O pobre rapaz, vendo assim de subito desfeitos em pó os seus planos +estrategicos, preferiria um abysmo abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as +palavras friamente zombeteiras de Lucinda.</p> + +<p>Entretanto o baile findára, e os lisbonenses<span class="pn">{10}</span> +preparavam-se para atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as +unicas pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma +hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás delicias do +whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se embrulhar em dez +mantas e de ter perdido dez <em>rob</em> consecutivos, Frederico, depois da +scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a mãe de Lucinda, sabendo que +era elle o unico dos cavalheiros presentes que regressava a Lisboa, reclamou +sem ceremonia o auxilio do seu braço para descer a ingreme calçada. Assim, +Frederico viu-se obrigado a pegar no chapéu, e a seguir, supportando o peso da +sua volumosa braceira, o pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe +explicar durante o caminho as infernaes combinações que tinham dado em +resultado a derrota memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes +de jogador de whist.</p> + +<p>As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de +Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas<span +class="pn">{11}</span> aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da +escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando +estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os +venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a +insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na +dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento +nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote. Não +era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante +para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se +defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se +a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas.</p> + +<p>Os dois velhos tinham-se sentado na popa do barco. O vento, sem ser forte, +era sufficiente para infunar a vela e para dar ao bote um leve balanço, que foi +suavemente acalentando os dois esposos. Estes principiaram a bocejar +alternadamente; depois foram deixando pender as cabeças até que tocaram quasi +nos joelhos.<span class="pn">{12}</span> Levantaram-se a um tempo, e olharam +espantados, com os olhos meio abertos, para o céu azul. Depois os olhos +fecharam-se de todo, e os comprimentos recomeçaram. Pareciam dois mandarins +<em>d'étagére</em>. Frederico e Lucinda a custo soffreavam o riso, e trocavam +entre si olhares de intelligencia, que presagiavam uma reconciliação. Os dois +velhos resmungavam palavras inintelligiveis, e recostavam a cabeça para traz, +de fórma que a cabeça, em vez de lhes descair de pôpa a prôa, descaia-lhes de +bombordo a estibordo, e de estibordo a bombordo, movimento bem combinado, que +produziu um abalroamento, que os despertou a ambos.</p> + +<p>—Senhor Azevedo, bradou a matrona indignada, não tem vergonha de vir a +dormir no bote? Já me estragou as flores da cabeça.</p> + +<p>—Senhora D. Leocadia, respondeu o velho com dignidade, veja se dorme +com mais cautella para não amarrotar o chapéu das pessoas, que vão acordadas a +scismar nos seus negocios.</p> + +<p>Estas apostrophes promoveram a explosão das gargalhadas, já muito +reprimidas, de Frederico<span class="pn">{13}</span> e de Lucinda. O velho +mirou-os com espanto, embrulhou-se mais na manta, encostou-se para traz e +principiou a resonar.</p> + +<p>—Este Azevedo sempre foi assim, disse a velha esposa fazendo côro com +os dois, dorme em toda a parte... Como elle resona!</p> + +<p>E dizendo isto, a boa senhora olhou com despreso para seu marido, deixou +descahir a cabeça, e entrou no duetto resonando egualmente.</p> + +<p>A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado. +Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.</p> + +<p>Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.</p> + +<p>Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua +placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga +Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração. +Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um +bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos, +sulcando a<span class="pn">{14}</span> agua, erguendo-se e recaindo de novo, +pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a +lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro, +recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no +firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas +d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares. Muito tempo a corda +fremente da guitarra enviou de longe aos ouvidos de Frederico e de Lucinda, a +sua melodia toda impregnada n'uma vaga tristeza, e expirou ao longe n'uns +quebros de indizivel suavidade. Frederico suspirou.</p> + +<p>—Pensa nos seus amores? perguntou Lucinda sorrindo.</p> + +<p>—Amores, balbuciou elle, como, se os não tenho?</p> + +<p>—Não os tem? Quem não tem amores aos vinte e dois annos?</p> + +<p>—Eu que sou um desherdado da fortuna, eu para quem a natureza, mãe +benefica de todos, sempre se tem mostrado implacavel madrasta, eu para quem as +flores não tem aroma,<span class="pn">{15}</span> nem luz brilhante o sol, nem +suavidade melancholica o luar.</p> + +<p>—Oh! meu Deus, exclamou Lucinda, quererá imitar esses Obermans da +moda, que se declaram scepticos, quando ainda não tiveram nem sequer uma +illusão, quanto mais as decepções que alardeiam?</p> + +<p>—Não, minha senhora, tornou Frederico, tenho muitos ridiculos, mas +d'esse livrou-me Deus. Porém sou um d'estes entes malfadados, que nunca ousam +levar aos labios a taça que se lhes apresenta cheia a trasbordar; uma d'essas +abelhas, a quem as rosas mostram o calice entre-aberto, e que volteiam em torno +d'ellas, sem ousarem ir delibar o seu mel na redoma fragante que se lhes +apresenta. Sou como Rousseau, deitando as cerejas no avental de mademoiselle +Galley, sem ousar ver os labios mais vermelhos do que os fructos, convidando-o +e attrahindo-o. E o que fez mademoiselle Galley ao desastrado philosopho? +voltou-lhe as costas, e foi zombar d'elle com as suas companheiras, deixando +esse Tantalo d'amor a amaldiçoar a sua falta de audacia. Esse riso argentino, +que Rousseau ouviu talvez<span class="pn">{16}</span> trepado ainda na +ceregeira, oiço-o eu a cada instante nos labios, que poderiam matar com duas +palavras meigas esta sêde que me devora.</p> + +<p>—E essas duas palavras ainda ninguem as proferio?</p> + +<p>—Ninguem, respondeu Frederico suspirando.</p> + +<p>—E com tudo, tornou Lucinda, conheço eu uma pessoa em cujos labios +ellas fermem.</p> + +<p>—E quem é essa pessoa? perguntou elle ancioso.</p> + +<p>Lucinda estacou. Decididamente o proprio selvagem Rousseau perceberia +melhor.</p> + +<p>—Alguem, cujo nome lhe não posso dizer.</p> + +<p>—Oh! diga ao menos a primeira letra.</p> + +<p>Lucinda fez-se vermelha de colera, e mordeu os labios impaciente. Subito uma +idéa qualquer, travessa de certo, illuminou-lhe o espirito, porque os labios, +que mordera para occultar o despeito, mordeu-os afinal para suffocar o riso. +Depois respondeu com ar de mysteriosa confidencia:</p> + +<p>—Diga-me; não passa frequentes vezes pela rua de...?<span +class="pn">{17}</span></p> + +<p>—Porque? perguntou Frederico espantado.</p> + +<p>—E, levando os olhos baixos até ao meio do comprimento da rua, quando +chega a este ponto não os levanta instinctivamente, e não os crava n'uma +varanda onde não ha só flores nos vasos?</p> + +<p>—Assevero-lhe, minha senhora... tornou Frederico estupefacto a mais +não poder ser.</p> + +<p>—Oh! eu sou discreta.</p> + +<p>—Juro-lhe...</p> + +<p>—Não jure, mas prometta-me apenas uma cousa.</p> + +<p>—Qual é?</p> + +<p>—Escolher-me para confidente dos seus primeiros amores.</p> + +<p>—Mas, minha senhora... bradou Frederico, desesperado por ver fugir-lhe +o momento que tanto ambicionára, e que julgára já tão proximo.</p> + +<p>—Silencio, respondeu Lucinda pondo-lhe a mão alva e tepida no braço, +não vê que estamos em Lisboa?</p> + +<p>Frederico não sabia se havia de beijar ou morder essa mão travessa, que lhe +approximava da boca a taça do philtro suave do<span class="pn">{18}</span> +amor, para lh'o furtar depois aos labios calcinados. Afinal não fez nem uma nem +outra cousa.</p> + +<p>Mas effectivamente estavam em Lisboa. Nas aguas negras do Tejo, aqui e ali +ainda prateadas por um raio da lua, que se insinuava por entre a intrincada +floresta dos mastros das embarcações, ondeava o reflexo trémulo dos candieiros +do gaz. Ao choque do barco parando de subito, acordaram estremunhados os +progenitores de Lucinda. Frederico ainda esperava ao menos poder sentir o doce +peso da gentil menina, ajudando-a a saltar em terra. Mas a volumosa mamã +offereceu-lhe o braço, e em medos e tremores reteve-o tempo bastante, para que +Lucinda, ligeira como uma gazella, saltasse para o caes, poisando apenas ao de +leve os dedos finos e alvos no braço d'um dos remeiros.</p> + +<p>Frederico despediu-se pouco amavelmente dos seus companheiros de viagem, e +teve vontade de mandar passeiar Lucinda, quando esta lhe disse ao ouvido:</p> + +<p>—Não se esqueça do que prometteu.</p> + +<p>É verdade que o pobre rapaz, voltando a<span class="pn">{19}</span> cara com +um gesto de amuo, não poude ver o longo olhar, apenas levemente malicioso, com +que Lucinda o seguia.<span class="pn">{20}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{21}</span></p> + +<h2>II</h2> + +<p>Na vespera d'esse dia, em que se passára a scena que narrámos recebera +Lucinda d'uma sua amiga de collegio a seguinte carta:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">Minha querida amiga</p> + +<p> </p> + +<p>Que saudades eu tenho do nosso tempo de collegio! d'aquelles bons serões, +que passavamos juntas, quando todas já estavam adormecidas, emquanto nós +deixavamos divagar a nossa imaginação por todos os assumptos, por todos os +sonhos, por todas as phantasias d'este mundo! como eu tenho impressa na memoria +a tua palavra eloquente e colorida, e a audacia<span class="pn">{22}</span> com +que tu, com a superioridade da tua intelligencia, julgavas tudo e te arrojavas +aos devaneios mais longos, chegando a assustares-me a mim, pobre criança, +timida e fragil, que não ousava seguir-te nos teus vôos, e que ficava, pallida, +vendo-te pairar por esses espaços desconhecidos, e contemplando na chamma da +tua pupilla um reflexo do fogo intimo, que te devorava.</p> + +<p>Creio que foi mesmo essa differença de genio, que tornou mais forte a nossa +ligação. Tu consagraste á pobre orphã a amizade protectora das mães, eu tive +por ti a veneração e os extremos de filha. Eras o roble e eu o vime, ou antes a +hera que me enroscava a ti.</p> + +<p>Mais velha do que eu, saiste primeiro do collegio, e deixaste a pobre +criança, isolada no meio de companheiras com as quaes sempre me ligára pouco. +Ah! como o collegio então me pareceu triste e sombrio, como a regente me +pareceu insupportavel, como olhei com raiva e frenesi para os altos muros do +jardim, e que odio tive á hora do recreio, outr'ora tão alegre, porque eu, +fugindo ás brincadeiras das meninas mais novas, tu ás<span +class="pn">{23}</span> frivolas conversações das da tua idade, procuravamo-nos +uma á outra, e passavamos horas infinitas a contarmos as nossas impressões, e a +explicarmos o sentido dos sonhos da nossa noite.</p> + +<p>Depois, os meus dias de jubilo foram aquelles em que recebia as tuas cartas; +mettia-as no seio, e esperava com impaciencia a hora de descer ao jardim para +as poder ler á vontade, longe do frivolo ruido dos jogos das educandas. Assim +que resoavam na pendula as bemaventuradas vibrações, ahi descia eu toda +jubilosa a escada, e ia esconder-me n'aquelle caramanchão tão nosso favorito, +que ficava junto d'aquella fresta gradeada por onde ás vezes espreitavamos os +raros passeiantes que atravessavam a nossa rua solitaria, tu achando sempre no +teu espirito fertil um epigramma para arrojares aos pobres homens que passavam +sem suspeitarem a rapida analyse a que n'um dado instante ficavam sujeitos, eu +rindo, como uma louca, das tuas chistosas malicias.</p> + +<p>Ahi lia pois, as tuas cartas, d'ahi te seguia n'esse mundo que me pintavas +tão bello, como o espaço immenso assusta a avesinha apenas emplumada,<span +class="pn">{24}</span> que lança a cabeça fóra do ninho, e que segue em parte +com inveja, em parte com receio os graciosos vôos que a mãe descreve nos ares, +para a convidar a seguil-a. Mas a fascinação do teu espirito vencia, como +sempre, os receios do meu, e ficava com a tua carta nas mãos, pensando nos +bailes, de que tu eras rainha, nos amores, que volteiavam em torno de ti, como +as borboletas em torno da luz, e a que tu, incorrigivel <em>coquette</em>, te +comprazias tanto em requeimar as azas.</p> + +<p>D'ahi resultou que esperei anciosa, bem que timidamente, a minha saida do +collegio, e que os prismas das tuas cartas me fizeram sonhar um mundo côr de +rosa, que está bem longe, devo confessal-o, da realidade tal como ella se me +tem mostrado nos quinze dias que já passei fóra do ninho da nossa infancia.</p> + +<p>Effectivamente minha tia deu a minha educação por acabada, e levou-me para a +sua companhia, muito contra vontade, segundo me parece. Não porque ella me não +tenha affecto e pelo contrario; mas minha tia, optima senhora no fundo, tem um +terrivel sestro; aos cincoenta annos quer ainda inspirar amor, e<span +class="pn">{25}</span> combate, com uma energia desesperada, as asserções da +sua certidão de baptismo. Ora, uma sobrinha de dezenove annos, filha d'uma sua +irmã mais nova, é um terrivel documento, que protesta contra os cabellos d'um +ébano artificial, e contra a rebocada lisura do rosto de minha tia.</p> + +<p>Ah! que vida vae ser a minha, se não acho meio de diminuir a minha edade, e +de usar de novo fato curto. Minha tia, que ainda aspira a dançar com +sufficiente ligeireza, e que não deseja entrar no numero das supplentes das +contradanças, que só se convidam quando falta algum par para fazer a quadrilha +completa, não me leva aos bailes, porque são, diz ella, perigosos para as +meninas da minha edade, e até comtigo mesma, perdôa-lhe, minha boa amiga, se +não quer relacionar, dando para isso razões frivolas, mas sendo o verdadeiro +motivo os teus vinte e cinco annos que não podem ficar bem á amiga de collegio +d'uma menina tão nova como eu devo ser, segundo os seus calculos.</p> + +<p>Aqui vivo, pois, n'esta casa da rua de... mais triste do que no collegio, +depois da tua<span class="pn">{26}</span> partida, sem chegar uma unica vez á +janella, lendo, bordando, desenhando, ou conversando com o meu piano, emquanto +minha tia, preparada, enfeitada e auxiliada por todos os cosmesticos +imaginaveis, passa o tempo á janella, travando cem namoros por dia, e +apresentando, da altura do seu quarto no segundo andar, a cuja varanda se +colloca de preferencia, um rosto juvenil, que illude um ou outro passeiante +ocioso, que ande procurando pelas janellas quem lhe acceite as homenagens.</p> + +<p>O que me consola um pouco da minha vida insipida é um grande jardim, cheio +de sombra e de mysterio, de flores e de aromas, onde passo as tardes, e onde +muitas vezes me esqueço e me esquecem á noite, ficando eu largas horas +scismando ao luar, e deixando-me ás vezes surprehender pelos primeiros clarões +da alvorada.</p> + +<p>Ahi tens a vida que eu passo, minha querida Lucinda; não achas que tenho +razão para me lembrar com saudades do collegio? Escreve-me tu ao menos, já que +minha tia se obstina em me ter reclusa, e em não me permittir<span +class="pn">{27}</span> a doce consolação de te vêr e de te abraçar; escreve-me, +porque só as tuas cartas me ajudarão a supportar o fastio d'esta existencia.</p> + +<p style="text-align: right;">Tua boa amiga</p> + +<p style="text-align: right;">Adelaide.</p> + +<p> </p> + +<p>Comparem os leitores o que n'esta carta se diz com as indicações dadas a +Frederico por Lucinda, e perceberão qual era a travêssa idéa da maliciosa +rapariga.<span class="pn">{28}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{29}</span></p> + +<h2>III</h2> + +<p>Renunciemos a descrever o despeito de Frederico, quando teve uma prova da +completa indifferença de Lucinda no desprendimento com que ella se fazia +interprete d'um outro amor. Depois folgou de ter encontrado um pretexto para +desculpar comsigo mesmo a sua desastrada timidez, e louvou-se de não ter +avançado a ponto de se vêr collocado n'uma posição ridicula com pessoa que a +aproveitaria com tão boa vontade. A todos estes sentimentos, que primeiro lhe +tumultuaram no cerebro, succedeu o amor proprio offendido, «Pois que! dizia +elle, é de marmore esta mulher? Está junto de mim n'aquella noite +voluptuosa,<span class="pn">{30}</span> toda impregnada de languidas emanações, +de vagos murmurios, de maviosissimos fulgores, sente a minha respiração +abrazada, crava os seus olhos nos meus, aperta as minhas mãos trementes, +deixa-se embalar commigo, commigo como uma creoula na rede, pelo movimento +lascivo das ondasinhas do Tejo, e nada d'isso a commove, e lhe faz perder por +um instante ao menos, os seus habitos de <em>coquetterie</em>? A propria +Leonora Falconieri de Feuillet sentiria uma vaga impressão amorosa n'aquelle +bote que resvalava ao lume d'agua, todo banhado de luar, abrindo no rio um +sulco phosphorescente, e Lucinda, depois de me ter abrazado toda a noite com o +fogo infernal das suas pupillas, acaba por me fazer friamente a confidencia do +amor d'uma das suas amigas? Oh! <em>coquette</em>.</p> + +<p>«Pois bem, continuava elle, hei de lhe fazer a vontade, hei de namorar essa +mulher desconhecida, e será Lucinda a minha confidente? Oh! então, quando não +tiver o receio do ridiculo que accommette um pretendente desastrado, então +serei audacioso, então fallarei com eloquencia, então, far-lhe-hei sentir<span +class="pn">{31}</span> bem tudo o que ella perdeu, tortural-a-hei se não com os +espinhos do ciume, pelo menos com os da vaidade ferida, triumpharei... e talvez +conseguirei d'essa fórma attrahil-a e fascinal-a, como ella me fascinou a +mim.»</p> + +<p>E o modesto moço, acabando este longo monologo, vestiu-se, alindou-se, e +saiu com uns modos conquistadores, para passar pela rua de...</p> + +<p>Logo no principio da rua elle ergueu a cabeça, e principiou a revistar as +janellas; o coração pulsava-lhe com violencia, mas animou-se com a idéa de que +se não veria obrigado a dizer uma só palavra, e um olhar não era cousa que +muito custasse á sua timidez rebelde.</p> + +<p>Effectivamente no sitio designado estava uma senhora á janella. Frederico +fitou os olhos n'ella, e achou-a linda, apesar da distancia ou por causa +d'ella; voltou a cabeça depois de passar, e encontrou de novo os olhos da +galante menina, que logo os desviou o mais depressa que pôde, mas sem que +podesse evitar o ter sido surprehendida em flagrante delicto. Frederico +affastou-se triumphantemente.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>Uns poucos de dias se repetio esta manobra, sem que Frederico ousasse passar +d'essas demonstrações visuaes, mas continuando com intrepidez o seu passeio +diario. Afinal chegou a occasião de ir contar a Lucinda os seus novos amores. A +sr.ª D. Leocadia d'Azevedo encontrou-o na rua, e convidou-o para jantar.</p> + +<p>Á tarde desceram todos ao jardim, que tinha muro para a rua, e um pequeno +mirante cercado de madresilvas. Os convidados dispersaram-se em grupos, e +Lucinda e Frederico acharam-se sós no mirante.</p> + +<p>A vista que d'alli se gozava era linda; via-se uma parte da cidade baixa, e +do lado do Occidente a vista estendia-se desassombrada, sobre uma porção do +rio, que se prolongava até ao extremo horisonte.</p> + +<p>Era ao cair da tarde; o sol atufava-se nas aguas, e illuminava com um +resplendor d'oiro e purpura o horisonte, semeando de aureas palhetas o Tejo, +rodeando com um nimbo luminoso o vulto distante da Ajuda, e mais além uma sombra +tenue, uma especie de vapor doirado, que, pela posição, devia ser o vago perfil +da torre de Belem.<span class="pn">{33}</span></p> + +<p>A brisa fresca da tarde, ondeiando os cabellos de Lucinda, e meneiando +brandamente os ramos e as folhas da madresilva, enchia os ares de perfumes. +Frederico scismava.</p> + +<p>—Esqueceu-se da sua promessa? perguntou Lucinda.</p> + +<p>—Ainda se lembra d'ella? tornou Frederico amargamente.</p> + +<p>Um relampago d'alegria illuminou os olhos da gentil senhora.</p> + +<p>—Se lembro, tornou ella, sou uma credora inflexivel.</p> + +<p>—Pois bem, respondeu Frederico, córando muito, e fazendo um esforço +sobre si mesmo, deixe-me agradecer-lhe o ter feito a felicidade da minha +existencia.</p> + +<p>—Sim? tornou ella ironicamente. Então ama-a loucamente?</p> + +<p>—Se a amo! tornou elle cravando os olhos ardentes na formosa menina +que tinha diante de si, tanto que nem eu suppunha que se podia amar assim. Oh! +mas é que tambem é uma creatura celestial, tão bella que os anjos a +invejam.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>Lucinda mal podia soffrear o riso.</p> + +<p>—E essa belleza, é provavelmente como a de Marilia, tornou ella, para +a pintarem não bastam as tintas da terra, são necessarias as do céu. Por +conseguinte nem ouso pedir-lhe que m'a descreva.</p> + +<p>—Porque? Não a conhece! perguntou Frederico espantado.</p> + +<p>Lucinda embaraçou-se, mas promptamente recuperou o sangue-frio.</p> + +<p>—Somos amigas intimas, como sabe; comtudo não desgostaria de poder +apreciar o seu talento de pintor.</p> + +<p>Frederico fitou os olhos nos d'ella, como se tentasse prescrutar o seu +pensamento. Lucinda desviou os seus.</p> + +<p>Uma idéa, que elle julgou louca, passou pela mente de Frederico.</p> + +<p>—Vou tentar, disse o timido rapaz, com mais animação do que a que lhe +era habitual, e cravando pela primeira vez com firmeza e ardor os seus olhos ao +rosto de Lucinda; e para me ser mais facil a tarefa, permitta-me<span +class="pn">{35}</span> que lhe narre como e onde me senti verdadeiramente +deslumbrado pela sua rara belleza, e como ousei dizer-lhe com os meus olhos o +amor immenso que me enchia a alma. Era a hora do sol posto; ella estava com a +face encostada á mão e como v. ex.ª n'este momento. Nos seus olhos negros +parecia fluctuar a vaga tristeza do crepusculo; os cabellos, arfando suavemente +com a brisa, enquadravam-lhe uma fronte alva e limpida, tão limpida, que de vez +em quando parecia que n'essa testa innundada de luz se via passar a vaga sombra +do pensamento. Rodeiava-se de flores, que formavam ao seu doce vulto uma +profunda moldura. Ao vel-a assim, melancholica como o anjo da tarde, suave e +meiga, como a anjo dos celestes amores, pensei que a ventura suprema seria +viver a seus pés, e enviando-lhe a minha alma n'um olhar, votei-lhe um affecto, +profundo e ardente como os seus negros olhos.</p> + +<p>Lucinda ouvia-o arrebatada; fôra isso mesmo o que ella desejára, fôra isso +mesmo o que ella tivera em vista acenando-lhe com essa miragem d'amor da velha +tia, amor nada perigoso, porque, da mesma fórma que a miragem,<span +class="pn">{36}</span> de longe podia fascinar, mas de perto conhecia-se o +areial... dos cincoenta annos.</p> + +<p>Se Frederico se deixasse arrastar pelo demonio da inspiração, e levantasse +um pouco mais o véu de gaze com que encobrira a sua declaração, Lucinda poderia +auxilial-o, confessando-lhe o seu ardil, e quebrando d'essa forma o gelo. Mas +infelizmente a maliciosa rapariga, um instante docemente perturbada pela +eloquencia de Frederico, pensou de subito, quando elle findou o seu trecho, na +ficticia inspiradora d'esse memoravel discurso, e deu aos seus labios uma +expressão de riso reprimido, que bastou para que o espirito sensitivo de +Frederico logo se retraisse, e tremesse de ter avançado tanto.</p> + +<p>Lucinda percebeu o erro, e quiz remedial-o. Já era tarde. Frederico +retirou-se desgostoso. Ella, vendo-o partir, bateu o pé com despeito. A +<em>coquette</em> ia-se enleiando nas suas proprias redes.</p> + +<p>—É necessario que esta comedia acabe, murmurou ella com as lagrimas +nos olhos, ainda que eu tenha de me lançar nos seus braços, como uma doida; +porque sinto agora<span class="pn">{37}</span> essa commoção desconhecida, de +que tanto me fallavam, e de que eu tanto zombava. Amo.<span +class="pn">{38}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{39}</span></p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Não conhecem os leitores o caracter de Lucinda, se supposeram que ella se +importasse um instante só com o desejo que a tia d'Adelaide manifestára de não +se relacionar com a amiga de collegio de sua sobrinha. Foi ella mesma que tomou +a iniciativa; apresentou-se em casa da sua antiga companheira, não pareceu +reparar na frieza da dona da casa, lisongeiou-a na sua mania de combater a +velhice, declarou alto e bom som que Adelaide era no collegio uma creancinha, +de que ella fôra não a companheira, mas a protectora, a segunda mãe. Esteve +quasi dizendo que a sua amiguinha entrára para o collegio ainda de<span +class="pn">{40}</span> mama. Estas asserções illuminaram n'um momomento o rosto +da tia, dissiparam como por encanto a sua frieza, e deram a Lucinda o logar +d'amiga intima. Esta, affectava sempre tratar D. Marianna com familiaridade, +fazia-lhe confidencias imaginaveis, e pedia-lhe egual franqueza. A boa senhora +caiu no laço, e, córando pudicamente, principiou a narrar-lhe aventuras não +menos suppostas, porque os namoros que obtinha desfaziam-se sempre á luz +traidora do dia, quando o desgraçado pretendente, fazendo sentinella á porta da +casa, via a dois passos de distancia os encantos que o haviam fascinado da +altura d'um segundo andar.</p> + +<p>D. Marianna devia ter sido formosissima; e d'essa formosura extincta +conservava olhos, onde ainda se não apagára de todo o sacro fogo. Eram elles o +nucleo em torno do qual se agrupavam os feitiços artificiaes.</p> + +<p>Notava, comtudo, Lucinda, uma extraordinaria tristeza em Adelaide. +Preoccupada e melancholica, a loira creança, em vez de procurar a companhia da +sua amiga de collegio, evitava-a pelo contrario, e parecia estar cada vez<span +class="pn">{41}</span> mais affeiçoada á solidão do seu jardim. Debalde Lucinda +tentava penetrar o segredo d'esta preoccupação. Adelaide era impenetravel. +Lucinda, devemos confessal-o, não insistiu muito, e, pensando unicamente no +meio de deslindar a comedia, cuja teia imprudentemente urdira, depois de +scismar alguns instantes na extraordinaria melancholia da sua amiga, não fez +mais esforços para penetrar o mysterio.</p> + +<p>Os seus amores é que progrediam maravilhosamente, Frederico fallava-lhe do +seu amor tão fervidamente, acompanhava as suas confidencias com tão ardentes +olhares, que não se podia duvidar que, apesar de toda a sua timidez, um +levissimo impulso bastava para quebrar os cordões da mascara, e transformar +n'uma declaração franca e discreta, as confissões que se trocavam +enygmaticamente, por meio d'essas bemaventuradas confidencias e que se +commentavam e explicavam pelo fogo das pupillas.</p> + +<p>Comtudo o momento decisivo approximava-se, estava já por tal fórma retezada +a corda do arco, que por muito que Frederico hesitasse em despedir a frecha +inflammada, ella partiria<span class="pn">{42}</span> expontaneamente, n'um +instante de exaltação. Vinte vezes Lucinda julgára que esse momento cubiçado +era chegado emfim, vinte vezes vira Frederico apertar-lhe a mão convulso, e +mover os labios como se fosse a proferir a palavra que rasgaria o véu +transparente, que encobria esses amores, e vinte vezes a mão lhe descaira +gelida, e vinte vezes os labios se tinham cerrado sem balbuciarem um som. E +comtudo não era a timidez de Frederico o obstaculo; n'esses instantes estava +elle n'esse estado d'ebriedade doida, em que se não pensa, em que os sentidos, +o espirito, a imaginação, tudo se acha exaltado a tal ponto que o mais timido +se arroja a audacias que depois o fazem estremecer. É como esse instante +rapido, em que nas batalhas o fumo da polvora, o troar da artilheria, os gritos +de victoria, o clangor das trombetas exaltam os proprios covardes e os arrojam, +momentaneamente intrepidos, ao centro das fileiras inimigas. Lucinda estava +tambem demasiadamente commovida para que podesse gelar esse enthusiasmo +fervente com um sorriso ironico, uma palavra mordaz. Mas parecia que uma voz +desconhecida, uma sombra<span class="pn">{43}</span> fatal vinha murmurar ao +ouvido de Frederico algumas palavras sinistras, e, remorso ou receio, Frederico +ficava melancholico e sombrio, como os convivas de Lucrecia Borgia, ouvindo no +meio dos seus cantos bachicos resoarem as notas funebres do côro dos monges.</p> + +<p>Lucinda não percebia esta hesitação de nova especie, e receiando vagamente +um novo perigo, resolvera dar á comedia o seu desenlace.</p> + +<p>Duas palavras de Frederico decidiram-n'a de todo.</p> + +<p>Um dia, depois de terem feito mil floreados sobre o amor a proposito ou +antes a desproposito de intangivel, da vaporosa Laura d'aquelle Petrarcha +inconstante, Frederico deixou pender a fronte melancholica, e murmurou:</p> + +<p>—Pobre criança!</p> + +<p>Lucinda ia desatando a rir; a frase «pobre criança» applicada á +quinquagenaria tia era d'um effeito comico, ainda realçado pelo tom sentimental +do romantico mancebo.</p> + +<p>Mas, ao mesmo tempo, Lucinda sentiu um inexprimivel jubilo. Essa frase +queria dizer: «Pobre victima, que julgas ser o alvo dos<span +class="pn">{44}</span> meus pensamentos, e que não és mais do que o escudo, que +me serve para conquistar, com mais resguardo, o amor da mulher a quem adoro.» +Assim, essas suas palavras eram uma confissão explicita do que se passava na +sua alma; encerravam em si a chave do enygma.</p> + +<p>Porém, Lucinda não desejava que esse sentimento de compaixão soasse +indefinidamente no peito de Frederico Nunes; julgára que, apesar da distancia, +o seu namorado chegasse a tomar a sério o amor de D. Marianna. A pretenciosa +tia podia parecer uma galante senhora, bem conservada, nunca uma formosa +rapariga. Lucinda sempre julgára Frederico cumplice do seu amoroso artificio. +Vira que elle precisava d'um meio, por mais tenue que fosse, para fallar sem +receio, proporciona-lhe a occasião de o obter. Se elle a acceitasse, é porque +realmente a amava. Assim succedeu, e como, nos termos a que tinham chegado, o +véu, além de ser inutil, era tambem prejudicial, tratou de o dilacerar.</p> + +<p>Para isso dirigiu-se a D. Marianna, e disse-lhe que um mancebo elegante que +nutria por ella a mais violenta paixão, que se julgava correspondido,<span +class="pn">{45}</span> se podia acreditar nos ternos olhares com que da janella +o favorecera, sabendo a amisade que as ligava, e sendo da intimidade de +Lucinda, se dirigira a esta para que obtivesse da sua amiga uma entrevista, em +que lhe podesse declarar o seu affecto e o desejo que alimentava de o ver +coroado por um feliz hymineu. D. Marianna caíu das nuvens. Tinha distribuido os +seus olhares ternos com tanta prodigalidade que não sabia qual dos felizes +mortaes contemplados na distribuição, queria dar ao crepusculo da sua vida uma +ventura raras vezes reservada para essa idade, a d'um casamento por amor.</p> + +<p>Escusamos de dizer que, depois da resistencia pudica e indispensavel, D. +Marianna consentio na entrevista. Marcou-se dia, ou antes noite, porque D. +Marianna, allegando a maledicencia das visinhas, mas na realidade para não ter +que affrontar senão a luz mentirosa das vellas, exigio obstinadamente que fosse +a essa hora. Convencionou-se que Lucinda daria a chave do jardim ao aventuroso +namorado, e que passaria aquella noite em sua casa para entreter Adelaide, e +velar assim<span class="pn">{46}</span> para que não fosse perturbada a amorosa +entrevista.</p> + +<p>Combinado por este lado o plano estrategico, Lucinda dirigiu-se a Frederico. +Disse-lhe que a sua amiga desejava ardentemente fallar-lhe, que o encarregava +de lhe dizer que era tão urgente a necessidade d'uma entrevista que a obrigava +a pôr de parte a modestia feminina, e a dirigir-se a elle, fiando-se na sua +honra de cavalheiro. Demais uma senhora respeitavel assistirá á entrevista. +Concluiu dizendo-lhe que era na seguinte noite que devia realisar-se a +entrevista, ensinando-lhe a topographia da casa e dando-lhe a chave do +jardim.</p> + +<p>Lucinda dissera isto com voz artisticamente suspensa, como se debalde +tentasse reprimir os soluços. Estava preparando uma explosão. Podia ser esse o +instante supremo. Frederico devia talvez cair-lhe aos pés, e o susto que teria, +elle o timido moço, de ter uma entrevista com uma mulher, apressaria o +desenlace. Teria nesse caso a coragem do medo.</p> + +<p>Effectivamente era esse o caminho que iam tomando as coisas. No primeiro +impeto Frederico<span class="pn">{47}</span> ia arrojar-se aos pés de Lucinda, +atirando para longe de si a chave do jardim. Mas a reflexão sobreveio, e o +extranho rapaz apanhou a chave, e passando a mão pela testa, disse com voz +firme:</p> + +<p>—Irei. É um dever d'honra.</p> + +<p>Lucinda amaldiçoou os escrupulos do seu namorado. O destino obstinava-se; a +comedia tinha de se representar até ao fim.<span class="pn">{48}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{49}</span></p> + +<h2>V</h2> + +<p>Chegou finalmente o dia marcado, e esperado com impaciencia por D. Marianna. +Lucinda andava perturbada, e tanto que nem deu por um redobramento de tristeza +que se tornava bem visivel no rosto da sua amiga Adelaide, de quem ella se +esquecia tanto. Adelaide primeiro fugira a escolhel-a para confidente, porque +bem conhecia a sua indole sarcastica, e não queria expor os pobres passarinhos +dos seus sonhos a terem a aza magoada por algum epigramma de Lucinda.</p> + +<p>Mas pouco a pouco Adelaide sentiu-se despeitada, por vêr que á sua boa amiga +era tão completamente indifferente o estado do seu<span class="pn">{50}</span> +espirito. Adelaide, vendo isto, julgou-se a pessoa mais infeliz d'este mundo; +tinha na vida, negro o presente, o passado, e o futuro; o presente +ensombrava-lh'o a ciosa preoccupação da sua vida, o passado, onde ella se +engolphava com jubilo quando a realidade da existencia a torturava, ennegrecera +tambem com a indifferença de Lucinda, o futuro, esse devaneiara-o ella bem +dourado, e bem cheio de luz, um sonho rapido e fragrante atravessara-lhe, e +perfumára-lhe o viver.... mas esvaíra-se bem ligeiro como sonho que era, +tornando apenas com a sua luz fugitiva mais espessas as trevas, que voltaram de +novo a enlutar-lhe a mocidade.</p> + +<p>A amisade, que votava á sua companheira de collegio, e a profunda tristeza +que a salteiára, venceriam a resolução em que estava de conservar secreto tudo +o que se passava no seu espirito, e o receio que tinha dos sarcasmos de +Lucinda, se a indifferença d'esta não a ferisse mais do que todos os seus +motejos. Mas Lucinda andava preoccupada, Lucinda nem reparava na pallidez da +sua amiga. Vir ella passar um dia a sua casa, prometter ficar á<span +class="pn">{51}</span> noute, e não lhe dirigir durante esse tempo todo, mais +de quatro ou cinco palavras, era uma cousa que a pobre Adelaidesinha não podia +perceber, e ainda menos, a intimidade subita que se estabelecera entre sua tia +e a sua amiga. N'esse dia andou aquella toda azafamada a enfeitar-se, a +pintar-se, a lustrar o cabello, a dispor <em>coquettemente</em> a sala de +visitas; Lucinda ajudava-a n'este trabalho, e trocava com ella em voz baixa +palavras mysteriosas. Perguntou Adelaide, espantada de ver tantos preparativos, +se se esperava alguem nessa noute, recebeu uma resposta secca das duas +senhoras; e a pobre menina, suffocada em soluços, e não podendo conter as +lagrimas, refugiou-se, levando um livro, no seu caramanchão favorito. Ahi +desaffogou, derramou prantos copiosos, nomeou-se, por decreto proprio, a mais +infeliz de todas as mulheres, e pensou que estava abandonada por todos, e que, +orphã desde a infancia, era destino seu caminhar solitaria no mundo.</p> + +<p>Entretanto, descia a noute, e ella não pensava em voltar para casa. Lucinda, +vagamente inquieta, não se tirava da janella. Apezar das<span +class="pn">{52}</span> palavras que Frederico dissera, ao receber a chave do +jardim, Lucinda conhecia bastante a sua timidez organica (se assim podemos +dizer) para suppôr que elle não ousaria nunca transpor o limiar da porta. +Embebida n'esses pensamentos, esquecera-se completamente de Adelaide, e do +encargo que recebera de a entreter, emquanto durasse a entrevista. D. Marianna, +enebriada por aquella inesperada aventura, collocava as vellas de modo, que se +conservasse na sala a tibia luz, aconselhada por Garrett, a penumbra tão util +aos amantes, e duplamente util, a quem só dispõe d'esse recurso para combater, +com mais ou menos vantagem, os inconvenientes d'uma certidão de baptismo, que +já podia entrar na classe honrosa dos documentos historicos.</p> + +<p>Lucinda, encostada á janella do seu quarto, cravava os olhos na escuridão, +procurando distinguir o vulto elegante de Frederico. De vez em quando ia +espreitar á porta da sala e ria-se. D. Marianna, sentada no canapé, vestida com +o fato mais fresco e juvenil, esperava magestosamente a visita d'aquelle a quem +os seus encantos tinham rendido.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>Afinal, Lucinda viu um homem que se dirigia, envolto n'uma capa escura, para +a porta do jardim. As pulsações febris do seu coração indicaram-lhe, mais +depressa do que a vista, que era esse o vulto de Frederico.</p> + +<p>A noute estava negra; mas um candieiro de gaz, illuminando em cheio a porta +do jardim, permittia a Lucinda seguir todos os movimentos de Frederico. Viu-o +hesitar, metter a chave na fechadura, tiral-a e affastar-se. Lucinda +sorriu-se.</p> + +<p>—Deita-a por cima do muro, e foge, murmurou ella.</p> + +<p>Mas enganava-se; Frederico pareceu tomar uma resolução definitiva, tornou +rapidamente a metter a chave na fechadura, abriu a porta e entrou no jardim.</p> + +<p>—Está predestinado, murmurou Lucinda affastando-se da janella. Os seus +tolos escrupulos obrigam-n'o a enterrar-se até á cintura no tremedal do +ridiculo. E depois quem sabe? Talvez depois de reconhecer a quinquagenaria +formosura da Calypso que vae abandonar, o punjam mais os remorsos.</p> + +<p>E Lucinda desatou a rir. Mas a reflexão<span class="pn">{54}</span> veiu, e +uma sombra de melancholia se lhe espalhou no semblante.</p> + +<p>—Esta minha indole zombeteira, murmurou ella, ha de ser sempre um +obstaculo á minha felicidade. Devo fazer penitencia. O ridiculo, a que expuz os +dois actores da scena que se vae passar na sala, é enorme. Eu não o perdoava. +Perdoal-o-ha Frederico? Perdôa de certo, perdôa e com que jubilo, em sabendo o +motivo que me guiou! Mas não devo deixar passar uma noute sobre o seu +resentimento. Agora mesmo, agora quando esse D. Quixote de donzellas +cincoentonas voltar mal-ferido da sua justa cortez, farei como Altisidora, +ousarei pôr de parte o pudor feminino para lhe dizer «Amo-te» e para o consolar +com essa palavra só do encantamento da nova Dulcinéa.</p> + +<p>E a travessa rapariga, desatando a rir, desceu a escada que ia ter ao +jardim.</p> + +<p>Não havia ainda luar como dissémos, porém, emquanto não surgia a rainha da +noute no seu carro triumphal de madre-perola, as estrellas scintillavam com +vivissima luz no ceu azul, e insinuavam os seus raios d'ouro pallido<span +class="pn">{55}</span> por entre a folhagem das arvores, que a brisa +meneava.</p> + +<p>Lucinda esteve alguns instantes scismando tristemente. A <em>coquette</em> +lamentava talvez o ter-se enleiado, para conseguir o seu fim, n'esse tão +complicado enredo, que afinal a nada remedeiára, porque se via obrigada a dar o +primeiro passo, exactamente como se não tivesse ideado tantas combinações +machiavelicas para obrigar esse timido Cesar, que podia chegar, ver e vencer, a +passar o Rubicon.</p> + +<p>N'isto um vulto de homem appareceu, vindo do lado da habitação, cosendo-se +com os troncos d'arvores, mas fugindo ligeiramente. Devia ser Frederico.</p> + +<p>Lucinda avançou para elle, com o coração a pulsar-lhe violentamente.</p> + +<p>—Frederico! balbuciou ella.</p> + +<p>O homem parou.</p> + +<p>—Sou eu, sou Lucinda, continuou a ousada menina n'esse momento mais +timida do que elle, eu que venho expiar a minha culpa, e fazer-lhe a confissão +que me absolve. Sim dil-o-hei, sem temer que me accusem de immodesta: +«Amo-o».<span class="pn">{56}</span></p> + +<p>E as suas mãos procuravam as de Frederico. Mas coisa notavel, ou as mãos +d'este se lhe esquivavam, ou D. Marianna, arranjando uma variante á mulher de +Putiphar, em vez de lhe arrancar a capa, lhe arrancara as mãos.</p> + +<p>Mas quando Lucinda passava do espanto á colera, recebeu um impulso violento +que a fez ir, cambaleando, segurar-se a um ramo de jasmineiro, e ouviu uma voz +grosseira e avinhada, que lhe dizia:</p> + +<p>—Você, além de ser descarada, é ladra tambem? Dize-me ternuras, minha +Phylis, mas larga os timidos volateis.</p> + +<p>Lucinda soltou um grito horrivel, e fugiu como louca na direcção de casa. A +esse grito sentiram-se passos precipitados, que vinham do fundo do jardim. Um +outro homem lançou-se ás guellas do interlocutor de Lucinda, e uma outra voz +juvenil de senhora começou a bradar por soccorro.</p> + +<p>A este barulho correram os criados e destrancaram-se as portas, o jardim +innundou-se de luz. D. Marianna appareceu com esplendida <em>toilette</em> á +porta de casa, o causador d'este tumulto fugiu por cima do muro, deixando<span +class="pn">{57}</span> os seus despojos nas mãos do seu contendor, e Lucinda, +que ficára offegante á sombra de uma alta figueira que se afferrava ao muro, +pôde vêr, com doloroso espanto, a seguinte scena:</p> + +<p>Frederico victorioso, mas vermelho de colera e vergonha, tinha nas mãos, +como tropheus da sua gloria, duas gallinhas. A pouca distancia estava Adelaide +escondendo o rosto nas mãos. D. Marianna ficára como que petrificada, os +criados riam e segredavam.<span class="pn">{58}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{59}</span></p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Voltemos agora ao instante em que vimos Frederico desapparecer no jardim.</p> + +<p>Os calculos de Lucinda peccavam pela base. A auctora d'este enredo não podia +costumar-se a considerar Adelaide, que tinha menos seis annos do que ella, como +uma mulher capaz de amar e de ser amada, não suspeitára que por baixo da +varanda do segundo andar, onde estava Marianna, havia uma janella de peitos, +que n'essa janella, por maior que fosse a reclusão em que Adelaide vivesse, ia +esta espairecer por alguns instantes, que seria exactamente n'uma dessas +occasiões que Frederico passaria, e que o vulto<span class="pn">{60}</span> +elegante e nobre d'este moço não produziria menos impressão na creança de +dezenove annos, do que produzira na mulher de vinte e cinco.</p> + +<p>Frederico amava realmente Lucinda, e aproveitára com avidez a occasião que +se lhe offerecia de vencer a sua timidez, e de ter com a esplendida +<em>coquette</em> essas longas conversações d'amor, que nunca ousaria encetar +se esse pretexto se lhe não proporcionasse. Mas a suave figura d'Adelaide não +deixára de lhe fazer impressão, e a tristeza que principiava a ver na +physionomia d'ella, á medida que os dias iam correndo, sem que essa troca de +olhares tivesse resultados, causára-lhe um vago remorso. Parecia-lhe que essa +formosa menina merecia mais do que servir de pretexto á poesia, de que era +outra o objecto verdadeiro; parecia-lhe que elle commettia um crime, povoando +de sonhos d'ouro aquella juvenil imaginação, para depois só os esmagar com a +massa brutal do desdem.</p> + +<p>Portanto aceitára a entrevista, como se acceita o calice d'amargura, que um +dever nobre e elevado nos impõe a obrigação de bebermos. Queria fallar com +Adelaide, confessar-lhe<span class="pn">{61}</span> tudo, mostrar-lhe uma +franqueza tal, humilhar-se tanto, que, se não lhe podesse amortecer a dôr, lhe +lisongeasse pelo menos o amor-proprio e o impedisse de se ferir no doloroso +espinho, que lhe ia fazer brotar na tenra haste d'essa namorada flor da +phantasia. No mesmo dia da entrevista (era um domingo) entrava elle n'uma +egreja. Acabava a missa, e no templo solitario estavam apenas duas mulheres, +uma, elegante e airosa, parecia absorvida n'uma prece fervente, a outra, que +era uma criada velha, mostrava impaciencia visivel de se retirar.</p> + +<p>Finalmente a devota senhora ergueu-se, e os seus olhos encontraram os olhos +de Frederico, que reconheceu com espanto a mulher, cuja imagem o perseguia como +um remorso. Estava pallida, os olhos azues languidos e tristes denunciavam +lagrimas enxutas de pouco. Fitou um longo olhar em Frederico; este pallido e +trémulo curvou-se respeitosamente, levando a mão ao coração, como se uma dôr +subita o ferisse, e desviando os olhos d'ella, affastou-se rapidamente.</p> + +<p>N'essa noite, como vimos, estava elle á porta<span class="pn">{62}</span> do +jardim. Entrou, e, apenas dera dez passos n'uma pequena alameda, encontrou um +vulto feminino, que se dirigia vagarosamente para casa. Á luz do candieiro de +gaz, que illuminava uma pequena porção da alameda, os dois reconheceram-se. +Adelaide recuou um passo, e soltou um pequeno grito.</p> + +<p>—O senhor aqui! bradou ella com voz que debalde procurava tornar firme +e austera. Ah! percebo, continuou ella como que ferida por uma idéa, e +desatando a chorar, julga talvez que sou uma d'essas mulheres levianas, com as +quaes basta empregar a audacia...</p> + +<p>Não pôde dizer mais. Os soluços suffocaram-a. Audacia! Era a primeira vez +que Frederico ouvia uma mulher dirigir-lhe similhante accusação.</p> + +<p>—Oh! juro-lhe que se engana, exclamou elle caindo-lhe aos pés e não +reparando até no incomprehensivel espanto d'essa mulher, que, segundo elle +julgava, fôra a primeira a conceder-lhe um <em>rendez-vous</em>, a ninguem +n'este mundo merece mais respeito. Sou culpado, bem o sei, mas tudo vou +resgatar com a minha franqueza extrema e sem limites.<span +class="pn">{63}</span></p> + +<p>Adelaide não o ouvia; pendia-lhe desfallecida nos braços; não ousamos dizer +que fosse completamente involuntario esse desfalecimento.</p> + +<p>Frederico, consternado, olhou em torno de si, e vio um banco ao fundo da +alameda. Segurando com o braço na cintura de Adelaide, foi-a levando para esse +lado.</p> + +<p>Adelaide caiu sentada no banco, e escondeu o rosto entre as mãos.</p> + +<p>Frederico ficou silencioso junto d'ella. Sentia d'elle uma desconhecida +perturbação. Aquelle encontro inesperado, a solidão e a noute, o perfume das +flores, combinado com essas vagas e voluptuosas emanações das noites d'estio, +esse vulto flexivel e airoso de mulher que lhe pendera nos braços, tudo isso, +sobrevindo d'um modo tão imprevisto, o enebriava e entontecia.</p> + +<p>Vendo aquella mulher tão linda, com o rosto banhado de lagrimas, o animo +desfalleceu-lhe; como havia elle de dizer a essa creatura do ceu, quando estava +elle mesmo sujeito ao indizivel magnetismo, á fascinação do seu olhar, como +havia elle de lhe dizer: «Illudi-a,<span class="pn">{64}</span> sacrifiquei-a a +uma <em>coquette</em>, fiz do seu vulto gracioso e angelico, anteparo, que me +resguardasse do fogo d'uns olhos audazes, que me fascinavam e me queimavam?»</p> + +<p>Impossivel! completamente impossivel!</p> + +<p>Por isso Frederico pôde apenas balbuciar:</p> + +<p>—Perdoa-me?...</p> + +<p>Ella abaixou para elle os olhos, em que atravez das lagrimas transparecia um +amor immenso, e com voz suave, tremente, doce e suavissima, como vibração +longiqua d'harpa eolia, murmurou:</p> + +<p>—Perdoar-lhe! como lhe não hei de perdoar, se por este momento +anciava, se o meu desejo era vel-o ahi onde está, e ouvir a sua voz? Oh! meu +Deus bem sei que me vae julgar mal, bem sei que o devia repellir, que devia +estranhar o seu proceder? Que quer? Não tenho animo. Ha tanto tempo que a +ventura me foge, que não posso fugir-lhe agora que ella me surge de subito! +Depois eu sei que é cavalheiro, sei que me ama, li-o no seu olhar, e esse livro +mysterioso para nós outras mulheres não tem segredos. Confio na sua honra, e +sequiosa ha tanto d'esta suprema felicidade,<span class="pn">{65}</span> ouso +dizer-lhe: «Obrigada por ter vindo, obrigada por ter prevenido o meu secreto +desejo, obrigada por ter lido nas minhas faces pallidas, nos meus olhos +amortecidos a anciedade que me devorava, por ter adivinhado que morria longe de +si, como a flor, a que falta o orvalho, como a arvore a que falta o sol.»</p> + +<p>Frederico, arrastado por esta eloquencia ardente, fascinadora, auxiliada por +uma indescriptivel melodia de voz, pelos murmurios dulcissimos do jardim, +sentia abrazar-se-lhe a imaginação, e o vulto de Lucinda, que por momentos +fluctuava diante d'elle, esvaía-se ao longe como um sonho ao romper da +alvorada, e as palavras d'ella, que primeiro se haviam interposto ao seu +ouvido, e á voz d'Adelaide, pareciam-lhe agora tão frias e descoradas, +comparando-as com essas phrases vehementes, que lhe iam ferir o coração, porque +do coração partiam!...</p> + +<p>—Minha senhora... balbuciou elle.</p> + +<p>—Oh! chame-me Adelaide, tornou ella, apertando-lhe as mãos com impeto +febril, e diga-me o seu nome para que os meus sonhos<span +class="pn">{66}</span> o saibam, e mo venham repetir á noite, depois de eu +adormecer balbuciando-o.</p> + +<p>—Adelaide, que me enlouquece, bradou o mancebo com a cabeça em +fogo.</p> + +<p>—O seu nome, o seu nome!</p> + +<p>—Frederico! murmurou elle e tão proximo d'ella, que os labios +d'Adelaide pareceram aspirar essa palavra, assim que saiu da bocca do seu +amado, como se temesse que a surprehendesse a brisa.</p> + +<p>As arvores meneavam as suas folhudas copas impellidas pelo sopro da viração; +a luz das estrellas tremia no ceu azul, e os seus pallidos raios, coando-se por +entre os ramos, illuminavam frouxamente a alva fronte de Adelaide.</p> + +<p>Subito soou um grito de mulher ancioso e dilacerante.</p> + +<p>Frederico levantou-se d'um impeto, e correu para o sitio d'onde partia o +brado; na escuridão topou um homem que fugia, estendeu as mãos e +afferrou-se-lhe ao pescoço.</p> + +<p>O resto sabem-n'o os leitores.</p> +<hr> + +<p>D. Marianna, que, sentada no sophá, vestida,<span class="pn">{67}</span> +enfeitada, e collocada na sombra, debalde esperava a promettida visita, correu +ao jardim, ouvindo o grito, e já lá encontrou os criados.</p> + +<p>Viu então o ladrão das gallinhas fugir por cima do muro, deixando os seus +despojos no campo de batalha, Frederico empunhando os volateis, e junto d'elle +Adelaide.</p> + +<p>A tia ficou fula de colera, notando que sua sobrinha estava n'um +<em>rendez-vous</em>, emquanto ella esperava debalde o seu. Era possivel mesmo +que os dois não fizessem senão um.</p> + +<p>—O que é isto? bradou ella. A menina com um homem no quintal!</p> + +<p>—Minha senhora, disse Frederico abandonando as gallinhas, confesso que +fomos culpados occultando a v. ex.ª os nossos amores, mas estamos a tempo de +reparar essa culpa, porque tenho a honra de pedir a v. ex.ª a mão de sua +sobrinha.</p> + +<p>—O logar é improprio bastante, respondeu seccamente D. Marianna, +queira portanto sair. E a menina recolha-se ao seu quarto e seja mais +prudente.</p> + +<p>Debalde a pobre tia pedia explicações a<span class="pn">{68}</span> Lucinda. +Esta furiosa declarou-lhe que nada percebia, e no dia seguinte retirou-se para +sua casa.</p> + +<p>D'ahi a quinze dias recebia uma carta de Adelaide, a qual, como podem +suppôr, ignorava tudo o que se passára.</p> + +<p>A carta dizia o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">«Minha boa amiga.</p> + +<p>«Caso-me daqui a um mez. Não podes imaginar como sou feliz. Quero fallar +comtigo muito, muito e muito.»</p> + +<p> </p> + +<p>Lucinda rasgou a carta, e pizou-a aos pés com lagrimas de raiva. Ao outro +dia tanto instou com seu pae, tão doente disse que estava que o resolveu, +apesar da extrema repugnancia da sr.ª D. Leocadia em deixar Lisboa, a irem +passar o resto do verão n'uma quinta que possuiam no Ribatejo.</p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> + +<p><span class="pn">{69}</span></p> + +<h1>UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</h1> + +<p><span class="pn">{70}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{71}</span></p> + +<h1>UM MELODRAMA EM SANTO THYRSO</h1> + +<h2>I</h2> + +<p>Estou embirrando solemnemente com o titulo do meu romance. Um melodrama em +Santo Thyrso, n'uma terra pacifica e bem morigerada, cujos habitantes mais +notaveis pela sua respeitabilidade, lêem o <em>Flos Sanctorum</em>, e suspiram +pelo tempo dos frades, d'esses incançaveis moralisadores e bemfeitores da +população!</p> + +<p>Eu podia inventar um enredo terrivel, e tornar editores responsaveis das +peripecias mais criminosas do meu entrecho, alguns habitantes de quem eu +tivesse tido razão de queixa, quando estive em Santo Thyrso (porque eu estive +em Santo Thyrso, oh! patricios alfacinhas)<span class="pn">{72}</span> mas +n'aquella boa terra não fui offendido senão pelas pulgas da estalagem, e, a +respeito de pulgas, nem mesmo as industriosas são proprias para personagens de +melodrama.</p> + +<p>Mas eu não quero inventar, quero apenas ser chronista da muito veridica +historia (chavão infallivel) que passo a contar a quem tiver paciencia de me +ler, e declaro desde já aos Santo Thyrsenses, que, se os factos, que historio, +teem uma apparencia melodramatica, a culpa não é minha... é dos +acontecimentos.</p> + +<p>Anoitecia; a tarde, apesar do outono ir já adiantado (a acção do meu romance +passa-se em novembro), tinha estado linda, e até mesmo quente; mas ao pôr do +sol levantára-se um vento fino e glacial que ameaçára os prudentes +frequentadores da botica com um diluvio de catarrhos e constipações, e os +narizes dos veneraveis minhotos, victimas d'um abuso de confiança atmospherico, +tinham obrigado os seus donos a procurarem um abrigo nos lares domésticos, para +não apanharem o ar humido da noite, quando, segundo o seu costume, abandonassem +o gamão, para voltarem para casa a horas mortas.<span class="pn">{73}</span></p> + +<p>A horas mortas?! Sim, não posso deixar de confessar que a perversão dos +costumes tinha chegado a Santo Thyrso! Uma roda de jovens extravagantes, todos +de menos de sessenta annos de edade, haviam instituido, com grave escandalo das +pessoas sérias, o costume de se recolherem ás dez horas!!! Ás dez horas! Ás dez +horas, raça degenerada! Quando, no quintal fronteiro á botica, as gallinhas se +recolhiam á capoeira, não vos parecia ver passar d'envolta com ellas as sombras +venerandas dos vossos avós, aconselhando-vos o regresso a casa?! Netos +degenerados, as cinzas dos vossos antepassados tremem de indignação, não vos +sentindo ressonar ás oito horas da noite... Horror!</p> + +<p>Fataes consequencias do progresso! E por toda a parte vae lavrando este +contagio funesto. Tudo está impregnado de immoralidade; a litteratura mesmo +está viciada. Ó adoradores do passado, compadecei-vos de nós! Actualmente +lêem-se os romances de Alexandre Dumas, filho. No vosso tempo lia-se o +<em>Cavalheiro de Faublas</em>, e a <em>Justina</em> do marquez de Sade. Ó +tempos felizes d'outr'ora! Ó moral das passadas éras!<span +class="pn">{74}</span></p> + +<p>Começo eu a perder-me em digressões. É um defeito, que confesso +humildemente; prometto emendar-me d'elle, e vou entrar immediatamente na minha +narração.</p> + +<p>Começava pois a anoitecer, quando á porta de uma das melhores casas de Santo +Thyrso um moço e esbelto official de caçadores se apeava de um cavallo, que +mereceria uma descripção especial, se o meu protesto de me deixar de digressões +não fosse ainda tão recente. Basta dizer-se que o sendeiro de Nicolau Tolentino +era um prodigio d'obesidade, comparado com o ente (rebelde a toda a +classificação zoologica), em que vinha montado o nosso joven official.</p> + +<p>A casa, junto á qual tinha parado o intrepido rocinante d'aquelle D. Quixote +arregimentado, tinha uma apparencia seductora para um lisboeta desterrado na +provincia. Via-se que o proprietario attendera ás condições de elegancia e +conforto, quando mandou construir a casa. Duas senhoras novas ainda, +soffrivelmente feias, um tanto pardas, e ambas de luneta, adornavam ou +desadornavam uma das sacadas. Os sons d'um<span class="pn">{75}</span> piano +desafinado, (como qualquer piano d'um terceiro andar da baixa, e tocado com a +mestria com que o poderia tocar em Lisboa a menina da casa, filha d'um +negociante rico, em funcção de annos com enthusiasticos applausos dos +convidados... se o serviço ao chá foi bom) chegaram aos ouvidos do official de +caçadores, e vieram demonstrar-lhe que os instinctos phildesharmonicos da nova +geração feminina se revelavam em Santo Thyrso com tanto vigor, como na terra +das alfaces.</p> + +<p>O nosso lisboeta (o rapaz effectivamente era de Lisboa) comprimentou +aquelles dois exemplares do sexo feminino, tirados em papel pardo, e +perguntou:</p> + +<p>—V. ex.<sup>as</sup> teem a bondade de me dizer se mora aqui o sr. +Bernardo da Fonseca Guimarães, antigo negociante?</p> + +<p>—Sim, senhor, respondeu uma das interpelladas, é meu pae.</p> + +<p>—N'esse caso tem a bondade de lhe dizer que lhe trago uma carta do seu +amigo de Lisboa o sr. Antonio Ricardo de Sousa.</p> + +<p>—Ó <em>paesinho</em>, tornou a rapariga, voltando-se<span +class="pn">{76}</span> para dentro, está aqui um senhor official, que o +procura.</p> + +<p>—Manda subir, Adelaide.</p> + +<p>Ao mesmo tempo abriu-se a porta, e o nosso amigo, depois de ter atado á +aldrava a redea do rocinante (o arrieiro chamava-lhe redea, com o mesmo direito +com que o governo chama barão a um lapuz opulento), subiu a escada, no patamar +da qual encontrou o nosso Bernardo Guimarães, em chinellos de moiro, na mão um +barrete conico, em fórma de apagador, e prompto a receber diplomaticamente a +visita inesperada.</p> + +<p>—<em>Antão bossenhoria</em> traz-me uma carta do meu amigo Antonio +Ricardo? Ora pois, muito estimo, muito estimo. Como está aquelle maganão?</p> + +<p>—Menos mal!</p> + +<p>—Elle d'antes padecia muito de callos!</p> + +<p>—Ainda hoje.</p> + +<p>—Ora bom, entre aqui para a sala... como se chama +<em>bossenhoria</em>? Quero apresental-o a minhas filhas, a quem dei uma +educação, que não a teem melhor as fidalgas de Lisboa! Como é a sua graça?<span +class="pn">{77}</span></p> + +<p>—Eduardo Augusto d'Almeida Teixeira.</p> + +<p>—Vá entrando, vá entrando que eu vou ler a carta do meu Antonio +Ricardo.</p> + +<p>Eduardo Teixeira entrou na sala, e achou-se em frente das duas pardas, que +já tinha visto, e d'uma terceira, que estava sentada ao piano, bonita fallando +em absoluto, e formosissima comparando-a com as outras. Lindos olhos pretos +rasgados, um pouco morena, grande a bocca, mas não muito desgraciosa,—tal +é o retrato da desalmada pianista.</p> + +<p>Eduardo comprimentou-as; ellas responderam com um comprimento ceremonioso, e +ficaram todos em silencio.</p> + +<p>As raparigas olhavam para Eduardo, como olhariam para um objecto de +curiosidade; e o nosso alfacinha, que não gostava de ser contemplado como se +fosse um macaco de especie rarissima, ou um embaixador japonez, entendeu que +devia sair d'aquella posição embaraçosa, lançando mão da primeira banalidade, +que lhe occorresse. Lembrou-se que ao subir a escada tinha ouvido o <em>La dona +é mobile</em> desfigurado com a maior bulha possivel pela pianista +provinciana.<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>Foi uma idéa salvadora! Eduardo, por conseguinte, puxou os punhos da camisa, +torceu o bigode com toda a affabilidade, tossiu agradavelmente, esboçou no +sorriso o prologo de uma fineza, e disse com o tom mais mellifluo que pôde +encontrar:</p> + +<p>—Minha senhora, eu assim que entrei n'esta casa, tive uma surpresa +muito agradavel.</p> + +<p>—Sim, então qual foi? tornou a martyrisadora de Verdi.</p> + +<p>—Ouvi tocar admiravelmente no piano um trecho do +<em>Rigoletto</em>.</p> + +<p>As tres meninas olharam umas para as outras boquiabertas. Finalmente a +pianista desfez provisoriamente o ponto d'admiração em que tinha transformado a +cara, e exclamou:</p> + +<p>—É espantoso! Como conheceu!</p> + +<p>—Mas, minha senhora... observou Eduardo.</p> + +<p>—Não admira, é de Lisboa, interrompeu uma das pardas.</p> + +<p>—Mas, minha senhora... acudiu o lisboeta.</p> + +<p>—Frequenta muito o theatro lyrico, tornou a parda n.º 2.</p> + +<p>—Mas, minha senhora... continuou Eduardo já atterrado por aquella +insistencia.<span class="pn">{79}</span></p> + +<p>—Oh! o theatro lyrico, acudia a pianista em tom inspirado, e +arregalando muito os olhos, o sanctuario do prazer. Como deve ser bello! Vio a +Lotti, sr. alferes? Tem ouvido o <em>Rigoletto</em>? Como elle conheceu!</p> + +<p>Eduardo escandalisou-se; o espantarem-se de que elle conhecesse <em>La dona +é mobile</em> era a maior offensa que se podia fazer aos seus conhecimentos +musicaes, por isso não poude deixar de responder:</p> + +<p>—Mas, minha senhora, em Lisboa não ha um só gaiato, que não conheça +este trecho.</p> + +<p>—Ah! é vulgar!</p> + +<p>—Sim, minha senhora, é do dominio do realejo.</p> + +<p>N'este momento entrava na sala o sr. Bernardo Guimarães. Vinha com uma cara +prazenteira, oculos no nariz, e sorvendo com delicia uma pitada de simonte.</p> + +<p>—<em>Antão</em> já se conhecem, bradou elle, olhem que este senhor é +afilhado do nosso Antonio Ricardo. <em>Antão</em> está agora em caçadores 7, e +tem licença de um mez? Anda a ver o nosso Minho. Isto para quem vem de Lisboa, +não tem que ver.<span class="pn">{80}</span></p> + +<p>—Ora se tem, sr. Guimarães! é um torrão abençoado. Que deliciosas +paisagens, que magnificos panoramas! É realmente uma provincia muito +pittoresca, e muito curiosa até pelas suas recordações historicas. Guimarães +possue reliquias archeologicas importantissimas, e é pena que as não saibam +avaliar devidamente, e que profanem os venerandos monumentos do berço da +monarchia, sarapintando de verde e azul, por exemplo, a pia do baptismo de D. +Affonso Henrique.</p> + +<p>—Ora, não me venha com lerias. Os conegos fizeram muito bem. Estava a +pia suja, que mettia medo, e envergonhava a collegiada. Ha mais tempo que o +deviam ter feito. Vejam como agora está bonita. Ninguem ha de dizer que tem +oitocentos annos a tal pia. Vão lá adivinhal-o. Agora nem o mais pintado.</p> + +<p>E o bom do negociante confirmava a sua dissertação artistica com o silvo +estrondoso d'uma pitada.</p> + +<p>—<em>Bossenhoria</em> agora fica comnosco alguns dias, tenha +paciencia. Hei de lhe dar agua da fonte da Maria Velha, que tem a virtude +de<span class="pn">{81}</span> fazer que quem a bebe só com muito custo saia de +Santo Thyrso. Já tem um quarto preparado, vá descançar um pouco, depois ceia +comnosco ás sete horas, sem ceremonia, sem ceremonia.</p> + +<p>—Ó <em>paesinho</em>, observou a mais bonita das filhas, este senhor +póde ser que esteja costumado a tomar chá e <em>tostas</em>, veja lá não lhe +faça mal ceiar.</p> + +<p>—Oh! não, minha senhora, muitissimo obrigado; o meu estômago é d'uma +flexibilidade espantosa, presta-se a todos os usos gastronomicos das +differentes terras. Isto para um militar é essencial.</p> + +<p>—Bem dito, bem dito, tornou o sr. Bernardo, até d'aqui a pedaço, +hein?</p> + +<p>—Até já, minhas senhoras; um creado de vv. ex.<sup>as</sup></p> + +<p>E Eduardo Teixeira saiu da sala, guiado pelo seu hospedeiro.<span +class="pn">{82}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{83}</span></p> + +<h2>II</h2> + +<p>Vamos nós, amigo leitor, assistir á ceia do sr. Bernardo Guimarães. O digno +negociante não se deve zangar comnosco; eu pelo menos vou com o proposito firme +de não lhe acceitar cousa alguma; porque ao amaldiçoado caldo verde, e ao +detestavel vinho verde tenho um odio particular. Venho simplesmente, como +grande curioso que sou, espreitar o aspecto da mesa, e ver se pesco a conversa +dos convivas, que deve estar interessante.</p> + +<p>Ao pé do respeitavel sr. Bernardo, está sentado o nosso alferes de +caçadores, a cair de somno, segundo parece; porque as palpebras<span +class="pn">{84}</span> cerram-se-lhe a miudo, e os bocejos, apesar dos esforços +incriveis que faz para os reprimir, tornam-se cada vez mais frequentes.</p> + +<p>Á esquerda do nosso Eduardo Teixeira senta-se a veneranda metade do +venerando Bernardo. Cincoenta vezes tem florido a amendoeira desde, que Santo +Thyrso teve a gloria de produzir um dos mais feios especimens da fealdade +humana. Apesar d'isso, rosnavam os maldizentes que um certo mestre de meninos +da villa se encarregára do papel de Cyrineu, que ajudasse o sr. Bernardo a +levar aquella cruz desdentada ao Calvario matrimonial. Linguas damnadas, que +não poupam nem a virtude... nem os mestres de meninos.</p> + +<p>Defronte estava sentado o sobredito sr. Themudo (que este era o nome do +chichisbéo) homem rubicundo, e de proporções herculeas, capaz de levar trinta +cruzes, principalmente carunchosas como aquella, ao Golgotha mais elevado.</p> + +<p>Este senhor estava flanqueado pelas tres meninas da casa, e felizmente para +o equilibrio gastronomico, ficava elle d'esse lado da mesa, porque as filhas do +negociante, donzellas<span class="pn">{85}</span> vaporosas e ideaes, achavam +feio comer diante de gente; mas o nosso amigo tratava com muito cuidado do seu +estomago, do coração de D. Belizaria Guimarães, e da cabeça do ex-negociante, +porque comia como quatro, deitava olhos ternos á respeitavel matrona, e +aconselhava o uso do chinó ao marido, que se queixava de frequentes +constipações na cabeça.</p> + +<p>No momento em que eu e o leitor começámos a espreitar aquella scena +domestica, tinha um formidavel prato de arroz doce entrado em scena, e o nosso +Eduardo Teixeira, apreciador d'esses doçuras gastronomicas, atacava-o com um +denodo, que honrava sobremaneira o valor do seu... appetite.</p> + +<p>As meninas da casa entretanto apoquentavam-n'o com perguntas ácerca de +Lisboa, do casamento do rei, dos theatros, dos litteratos, emfim, de todas as +cousas da capital, d'esse eldorado das donzellas pretenciosas das +provincias.</p> + +<p>—Então, diga-me uma cousa, sr. Teixeira, como ia vestida a rainha no +dia do casamento?<span class="pn">{86}</span></p> + +<p>Eduardo, que em questões de <em>toilettes</em> femininos era perfeitamente +um selvagem, e que demais estava saboreando com delicias uma colher d'arroz +doce, respondeu com toda a serenidade:</p> + +<p>—Ia vestida de verde, branco e escarlate.</p> + +<p>—Uma noiva!</p> + +<p>—Sim, minha senhora, trajava as côres italianas, para mostrar o +affecto que tem á sua patria!</p> + +<p>—Mas os jornaes não fallavam em tal cousa!</p> + +<p>—Ora, os jornaes sabem lá o que dizem,—respondeu Eduardo +cortando com a colher a questão, e um castello d'arroz doce, que se formára ao +canto do prato,—os jornaes estão sempre pessimamente informados.</p> + +<p>Ninguem ousou replicar; fallára o oraculo lisbonense, emmudeciam os profanos +da provincia.</p> + +<p>—Ó sr. Eduardo, exclamou a menina Adelaide, que era uma das pardas, já +leu o <em>D. Jayme</em>?</p> + +<p>—Já, sim, minha senhora; v. ex.ª tambem o leu, segundo vejo. É um +bonito poema.<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>—O que é isso do D. Jayme? perguntou o sr. Bernardo.</p> + +<p>—O meu amigo nunca leu aquella sandice, observou o mestre de meninos +em tom... de mestre de meninos, fez bem, fez bem; é um pessimo livro; tem um +erro de grammatica, e meia cacophonia; e demais a mais é revoltantemente +immoral, accrescentou elle, lançando um olhar terno para a mulher do seu +amigo.</p> + +<p>—O sr. Themudo deve ser muito enthusiasta da <em>Historia da +Imperatriz Porcina</em>, observou Eduardo com a maior gravidade.</p> + +<p>—Não desgosto, não desgosto; mas lá o <em>D. Jayme</em>, não presta +para nada; e aquelle pateta do Castilho a elogial-o... Ora o Castilho sempre é +homem, que quer ensinar as creanças com um methodo racional! Como se, para +ensinar meninos, fosse necessario ser racional! Aqui estou eu para prova do +contrario. Ensino os pequenos com a cartilha do mestre Ignacio, e no fim de +quatro annos estão promptos. Eu cá sou assim.</p> + +<p>—Diga-me uma cousa, sr. Teixeira, conhece o Thomaz Ribeiro? perguntou +a pianista.</p> + +<p>—Se conheço o Thomaz Ribeiro? Perfeitamente,<span +class="pn">{88}</span> minha senhora, tornou Eduardo, que tinha adormecido +quasi, ouvindo o discurso do sr. Themudo.</p> + +<p>—Então diga-nos como é a physionomia do poeta?</p> + +<p>—Cabellos louros, e olhos azues!</p> + +<p>—Ah! é! logo vi que havia de ser assim, e o Julio Machado, +conhece-o?</p> + +<p>—Ora essa... minha senhora... se conheço o Machado, conheço-o como os +meus dedos.</p> + +<p>—Descreva-o lá.</p> + +<p>—Cabellos louros, e olhos azues.</p> + +<p>—Ah! tambem?!</p> + +<p>—Tambem, sim, minha senhora, estatura ordinaria, e bocca regular!</p> + +<p>—E o nariz, e o nariz?</p> + +<p>—O nariz, tornou Eduardo surprehendido em flagrante delicto de +contemplação diante d'um copo de vinho do Porto, que estava observando á luz; o +nariz arrebitado!</p> + +<p>—Arrebitado, tornaram as raparigas em côro, e depois voltando-se umas +para as outras accrescentaram em <em>rezza-voce</em>: O auctor das <em>Scenas +da minha terra</em> tem o nariz arrebitado!<span class="pn">{89}</span></p> + +<p>—Já se vê, minhas senhoras, observou Eduardo, nariz de folhetinista! +Todos os folhetinistas teem o nariz arrebitado!</p> + +<p>—Ora essa, então a mana Emilia, respondeu uma das pardas apontando +para a pianista, a mana Emilia deve escrever folhetins, tem o nariz +arrebitado.</p> + +<p>—Exactamente, minha senhora, se tivesse o nariz aquilino, +aconselhava-lhe que escrevesse poemas epicos, ou tragedias em cinco actos!</p> + +<p>Eduardo, julgando-se livre de interrogatorios, dispunha-se a pedir licença +para se retirar, quando a mana Emilia accrescentou:</p> + +<p>—Gostou do <em>Prato d'arroz doce</em>?</p> + +<p>—Muito, minha senhora; os ovos estavam em muito boa conta, o assucar +magistralmente distribuido, e a canella dizia-lhe muito bem!</p> + +<p>—Mas eu fallo do romance de Antonio Augusto.</p> + +<p>—Ah! o romance está muito bem escripto, é uma bella obra!</p> + +<p>—Conhece o Teixeira de Vasconcellos!</p> + +<p>—Ora essa, n'isso nem se falla... sou intimo<span +class="pn">{90}</span> amigo d'elle. Inda v. ex.ª me pergunta se conheço o +Teixeira de Vasconcellos!</p> + +<p>—Descreva-nos lá a cara d'elle. Nós temos muita curiosidade de +conhecer a physionomia dos litteratos notaveis!</p> + +<p>—Oh! o Antonio Augusto! Tem cabellos louros e olhos azues!</p> + +<p>—Então todos os litteratos de Lisboa teem cabellos louros e olhos +azues?</p> + +<p>—Todos, minha senhora, exceptuando os ultra-romanticos, que esses teem +olhos verdes e cabello ruivo, e se me dão licença, minhas senhoras, retiro-me; +porque estou caindo de somno e de cansaço.</p> + +<p>E saiu, deixando ficar os seus hospedeiros, como se vê, perfeitamente +conhecedores da physionomia dos litteratos lisbonenses.<span +class="pn">{91}</span></p> + +<h2>III</h2> + +<p>No dia seguinte acordou Eduardo sobresaltado, ouvindo o piano revoltar-se em +guinchos desafinados contra os incriveis tormentos, com que uma das meninas +martyrisava o inoffensivo teclado.</p> + +<p>Eduardo julgou que seria pelo menos meio dia; saltou fóra da cama, e correu +á janella. Um nevoeiro densissimo não deixava calcular as horas pela altura do +sol. O nosso alferes tinha vindo na vespera com tanto somno, que nem reparára +que havia um relogio em cima da mesa; quando voltava da janella, deu com elle, +e viu que ainda não eram oito horas!</p> + +<p>Com effeito, pouco depois da aurora ter<span class="pn">{92}</span> vindo +abrir com os dedos rosados as portas do Oriente, viera a menina Feliciana +(parda n.º 2) abrir o piano com os dedos côr de cobre, e sobresaltar Eduardo +com aquella desafinação matutina.</p> + +<p>O nosso heroe arranjou-se á pressa, e abriu a porta do quarto. Apenas o +ex-negociante o sentiu, veiu ter com elle rindo muito.</p> + +<p>—Ora viva o nosso mandrião; vá almoçar, ande que lá tem guardado o +almoço. Como passou a noute?</p> + +<p>—Perfeitamente; eu peço mil desculpas do incommodo involuntario que +lhe dei; mas vinha tão cansado, e com tanto somno, que, por melhores tenções +que formasse, não consegui levantar-me a horas, mas protesto que será a ultima +vez, que isto me ha de succeder.</p> + +<p>—Nada... não incommoda, vá almoçar, ande, e volte depois para a sala +ouvir as pequenas tocar piano.</p> + +<p>Quando d'ahi a dez minutos o nosso heroe fez a sua entrada na sala, a menina +Emilia, que estava sentada junto á janella em attitude melancolica e +romanticamente scismadora, cumprimentou-o suspirando plangentemente;<span +class="pn">{93}</span> a menina Adelaide fez esforços incriveis para substituir +a camada de secia que lhe cobria as faces, pela camada carminica indicativa de +modestia; e a menina Feliciana, sacerdotisa do deus <em>Charivari</em>, +sacrificou o <em>Miserere</em> do <em>Trovador</em>, para solemnisar a entrada +de Eduardo Teixeira.</p> + +<p>O sr. Bernardo, querendo mostrar ao seu hospede, que conhecia perfeitamente +a musica que a filha estava tocando, assobiava ingenuamente o +<em>Pirolito</em>. Eduardo, muito longe de suppôr que aquillo era musica de +Verdi, inclinava-se para a interpretação musical do honrado negociante.</p> + +<p>O nosso alferes foi sentar-se ao pé da menina Emilia, ouviu primeiro em +silencio o <em>pseudo-Miserere</em>, e depois, inclinando-se para a +provinciana, que suspirava amiudadamente, disse-lhe a meia voz:</p> + +<p>—Está hoje um dia triste, não acha, minha senhora?</p> + +<p>—Ah! não me falle n'isso; dias assim esmagam-me o coração. Estes dias +<em>chubosos</em> são horriveis para os soffrimentos interiores!<span +class="pn">{94}</span></p> + +<p>—V. ex.ª padece do interior... azias de estomago, talvez?!</p> + +<p>—Ah! não, senhor, sou excessivamente <em>nerbosa</em>; o espirito +domina o que ha em mim de material!</p> + +<p>—Hade-lhe fazer muito mal o café, minha senhora, aconselho-lhe os +banhos do mar.</p> + +<p>—Para os soffrimentos da alma não tem a medicina <em>valsamos</em>, +respondeu a provinciana suspirando ruidosamente.</p> + +<p>—Na sua idade, minha senhora, tornou Eduardo, vendo que não havia +remedio senão afinar a conversa no tom de Emilia, na sua idade, só uma paixão +infeliz produz grandes infortunios. Ora v. ex.ª póde inspirar, mas não sentir +uma paixão infeliz, não julgo os santo-thyrsenses tão faltos de gosto, que +algum d'elles recusasse a felicidade invejada por todos. Só se a morte lhe veiu +truncar nas primeiras paginas algum romance da juventude...</p> + +<p>E Eduardo, ufano (com rasão) do romanticismo da sua linguagem, recostou-se +na cadeira com gravidade igual á d'um illustre orador, que, ao acabar um +discurso monumental<span class="pn">{95}</span> ácerca do sino da sua parochia, +é cumprimentado por varios senhores deputados de todos os lados da camara, e de +todas as côres politicas.</p> + +<p>—Oh! mas vêr as illusões desfolharem-se pouco a pouco, observou a sr.ª +D. Emilia, e ver trocar-se o amor ideal, que sonhámos, pela vil realidade +d'este mundo prosaico... é atroz, não é?</p> + +<p>—Soffrer tormentos horriveis... eis a fatal predestinação das almas +privilegiadas, tornou Eduardo, abanando a cabeça lugubremente.</p> + +<p>—Diz bem, diz. Ah! não encontrar eu no mundo uma alma irmã da minha, +que comprehenda e avalie o meu affecto! Oh!</p> + +<p>—Ih! que massadora, disse Eduardo com os seus botões; tem curso +completo de romances sentimentaes. E o caso é que não é feia. Vou-me propor a +candidato ao throno do seu affecto.</p> + +<p>—Ó Feliciana, dizia entretanto o sr. Bernardo á menina que tocava +piano, toca-me aquelle bocadinho do <em>Ernani</em>, de que eu gosto tanto.</p> + +<p>—Qual é?<span class="pn">{96}</span></p> + +<p>O illustre Bernardo começou a assobiar a <em>Maria Cachucha</em> +aproximadamente.</p> + +<p>—Ah! já sei, é a <em>cabatina</em> do soprano. Já toco.</p> + +<p>—Eu, minha senhora, dizia Eduardo em voz cavernosa á sua +interlocutora, tambem por muito tempo vaguei errante no mundo, sem encontrar a +mulher que a Providencia me destinava, aquella que devia realisar os sonhos +mais arrojados da minha phantasia. Nenhuma comprehendeu o amor santo e puro que +eu lhe queria offertar... escarneceram-me e passaram.—Isto não vae mau, +dizia elle lá de si para si; mas eu d'aqui a pedaço engasgo-me.—Sim, +minha senhora, continuava Eduardo enthusiasmando-se, só agora posso dizer: +<em>Eureka!</em> achei no mundo o anjo que eu sonhava... achei... sim, +encontrei... sim, minha senhora, quero dizer que sympathisei com v. ex.ª desde +que a vi, e que serei o mais feliz dos homens, se corresponder ao meu ardente +amor.—Lá estraguei o effeito, concluiu elle em <em>áparte</em>, parece-me +que este final é do <em>Secretario dos Amantes</em>.</p> + +<p>—Eu, sr. Teixeira, respondeu a menina,<span class="pn">{97}</span> +procurando córar, eu acceitaria o seu amor, mas os homens são tão +lisongeiros...</p> + +<p>—Eu sou uma excepção, creia, minha senhora...</p> + +<p>—A mim agradam-me os seus sentimentos, e sympathisei com o senhor +tambem, logo que o vi; mas...</p> + +<p>—Ó Emiliasinha, bradou o negociante, vem tocar tambem.</p> + +<p>—Lá vou, <em>paesinho</em>.—Cale-se, continuou ella, +dirigindo-se a Eduardo.</p> + +<p>—Mas eu desejava tanto fallar-lhe mais em particular...</p> + +<p>—Pois sim, logo ás onze horas da noite, desça ao quintal, que eu lhe +fallo da janella do meu quarto, que deita para lá.</p> + +<p>—Oh! quanto lhe agradeço!</p> + +<p>—Silencio!</p> + +<p>—Então, que lhe parecem as pianistas, exclamou o sr. Bernardo, +sorvendo uma pitada, ha-as melhores em Lisboa?</p> + +<p>—Qual historia! Suas filhas tocam admiravelmente! Se as levasse a +Lisboa, haviam de ser muito admiradas.</p> + +<p>—A Lisboa? Nada, isso é muito longe, lá<span class="pn">{98}</span> +esteve agora o meu Dyonisio; por signal que hade estar a chegar. Elle é rapaz, +pode ir; mas eu e a minha Belizaria, já estamos velhos para essas danças.</p> + +<p>—É verdade, o mano Dyonisio temol-o cá um dia d'estes... muito se +divertiu elle por lá provavelmente, observou a menina Adelaide com um +suspiro.</p> + +<p>—Deus queira que o Dyonisio se não esqueça de me trazer a musica, que +lhe pedi. Ó sr. Eduardo quer ouvir a aria final da <em>Lucia</em>? perguntou a +romantica Emilia.</p> + +<p>—Pois não, minha senhora, com todo o gosto, respondeu Eduardo +aproximando-se do piano.</p> + +<p>—Como a musica exprime bem os sentimentos da alma! observou Emilia, +quando o viu sentado ao pé de si—eu adoro as musicas tristes!</p> + +<p>—Tambem eu, minha senhora, tambem eu.</p> + +<p>—Acho prazer em derramar lagrimas, quando oiço algum trecho +pathetico.</p> + +<p>—Tambem eu, minha senhora, tambem eu.</p> + +<p>—Que doce conformidade de sentimentos!<span class="pn">{99}</span></p> + +<p>—Tambem eu, minha senhora, tanbem eu, tornou Eduardo +distraidamente.</p> + +<p>—Que diz?</p> + +<p>—Que tambem me enleva, emendou elle, essa conformidade de sentimentos! +Estou ancioso por ouvir a <em>Lucia</em>.</p> + +<p>N'este ponto vejo-me obrigado a estygmatisar o meu heroe. Tornou-se cumplice +de um assassinio. Para se salvar da entalação, em que a sua distracção o tinha +collocado, sacrificou Donizetti, e a sua opera magistral. É imperdoavel!</p> + +<p>—Quando o crime de lesa-harmonia se consummou, e foi devidamente +applaudido por todos os circumstantes,o nosso Bernardo Guimarães, dirigindo-se +ao moço alferes, convidou-o a ir dar um giro pela villa. Eduardo acceitou o +convite com o enthusiasmo que os seus ouvidos magoados lhe inspiravam.</p> + +<p>E, depois de ter trocado um olhar amoroso com a romantica donzella, saiu +para ir admirar a villa de Santo Thyrso, e o seu convento.</p> + +<p>N'essa mesma noite, pouco depois das onze horas, estava Eduardo Teixeira +collocado no quintal da casa do sr. Guimarães, ao pé de<span +class="pn">{100}</span> uma janella pouco elevada, janella que servia de +tribuna, onde a joven provinciana, declamava emphaticamente os seus discursos +sentimentaes.</p> + +<p>Infelizmente para a romantica oradora, a noite estava fria e humida, o que +tinha por tal fórma congelado a pouca doze de sentimentalismo, de que Eduardo +podia dispôr, que respondia a uns protestos d'amor ardentes, com uns queixumes +sobre a frialdade dos pés, e a um trecho sublime ácerca da lua argentea, da +rainha da noite, com um espirro acompanhado por uma dissertação scientifica +sobre o perigo das constipações desprezadas.</p> + +<p>Estavam pois aquelles dois entes poeticos embebidos em tão suaves +colloquios, quando de repente no quintal se sentiram passos apressados.</p> + +<p>—Que será? bradou Emilia bastante assustada, retire-se depressa, não +quero que ninguem o veja aqui.</p> + +<p>—N'esse caso é impossivel safar-me, porque estão interceptadas as +communicações!</p> + +<p>—Mas como ha de ser isto, meu Deus!</p> + +<p>—Como quem quer que fôr não se dirige<span class="pn">{101}</span> ao +seu quarto, conceda-me v. ex.ª por um instante licença que me esconda n'elle, +porque lhe dou a minha palavra de honra, que saio, apenas o perigo tenha +cessado.</p> + +<p>E, juntando a acção á palavra, Eduardo lançou as mãos ao parapeito da +janella, e n'um pulo se achou dentro do quarto.</p> + +<p>Com grande espanto dos dois, um outro vulto appareceu junto da janella, e, +repetindo a manobra de Eduardo, entrou logo atraz d'elle no quarto da sr.ª D. +Emilia Guimarães.</p> + +<p>—Dyonisio! bradou aterrada a romantica donzella.</p> + +<p>—Querem vêr que é o irmão, murmurou Eduardo.</p> + +<p>—<em>Enbiou-me a Probidencia</em>, regougou o recem-chegado com +intonação irreprehensivelmente melodramatica, é grande o crime, sr.ª D. Emilia +da Fonseca Guimarães; a vingança ha de ser tremenda, senhor desconhecido!<span +class="pn">{102}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{103}</span></p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Os meus leitores, se forem imparciaes, hão de confessar, que nunca leram +scena de tanto effeito, nem de interesse tão palpitante.</p> + +<p>O sr. Dyonisio, tyranno interino, typo de janota portuense (vide romances de +Camillo Castello Branco) vinha embuçado n'um capote de camellão. Ora sabido é, +que todos os embuçados, mesmo em chales-mantas, são terriveis; mas os embuçados +em capotes de camellão attingem as raias da sublimidade melodramatica!</p> + +<p>A victima masculina é Eduardo Teixeira, que um defluxo, complicado por uma +grande<span class="pn">{104}</span> frialdade de pés, torna duplamente +interessante aos olhos de todos os leitores compassivos. A victima feminina é +D. Emilia Guimarães, a qual, comprehendendo a situação n'um abrir e fechar +d'olhos, <em>elevou-se</em> rapidamente á altura do seu papel, <em>caindo</em> +artisticamente em cima d'uma poltrona, á falta de confidente, a quem dissesse +como nas tragedias classicas:</p> + +<blockquote> + Desmaiar vou! Recebe-me em teus braços. </blockquote> + +<p>—Então quem é <em>bossenhoria</em>? Que fazia o senhor n'este quarto? +perguntou o sr. Dyonisio, tirando o chapéu desabado com gesto magestoso, e +armando-se de luneta, á falta de punhal.</p> + +<p>—Eu... senhor... eu, tornou Eduardo, convencido que era o irmão, e +conscio por conseguinte do direito que elle tinha para fazer a pergunta.</p> + +<p>—Dyonisio, juro-te que sou innocente, exclamou a menina Emilia, +levantando-se rapidamente, e correndo a ajoelhar-se aos pés do homem de capote +de camellão, acredita-me Dyonisio.<span class="pn">{105}</span></p> + +<p>—Levantai-vos, senhora, vós não sois culpada; mas o infame +seductor...</p> + +<p>—Oh! senhor eu não seduzi ninguem.</p> + +<p>—Calai-vos.</p> + +<p>—Dyonisio, peço-te justiça, e não indulgencia. Eu não trahi os meus +deveres, juro-o perante o ceu, que estende sobre as nossas cabeças o seu manto +azul, puro como a minha alma.</p> + +<p>Exageração de metaphora. Sobre as suas cabeças estava apenas o tecto, que +nem era azul, nem puro; porque estava muito sujo das moscas.</p> + +<p>—Póde acreditar o que sua irmã lhe diz, atalhou Eduardo, posso +asseverar-lh'o debaixo da minha palavra de honra.</p> + +<p>—Minha irmã? As filhas da casa de Val-de-Camellos portam-se d'um modo +mui differente do d'esta menina, indigna mesmo de sustentar o nome honrado de +seu pae, o sr. Bernardo Guimarães.</p> + +<p>—Não lhe admitto mais insultos, sr. Dyonisio Antunes de +Val-de-Camellos, tenho a honra de lhe apresentar meu marido, o sr. Eduardo +Augusto d'Almeida Teixeira.<span class="pn">{106}</span></p> + +<p>—Perdão, perdão, minha senhora, interrompeu com vivacidade o moço +alferes, eu não hesitaria um momento em a chamar minha esposa, se devesse a v. +ex.ª uma reparação, mas não ha coisa alguma que a isso se assimelhe, e, visto +este senhor não ser seu irmão, vou ter com elle uma explicação mais corrente. +Direi pois ao sr. Dyonisio de Val-de-Camellos, que está perfeitamente +equivocado a meu respeito. Esta senhora lhe explicará, se a isso quizer descer, +o motivo porque entrei no quarto d'ella. Poder-lhe-ia eu perguntar tambem o +motivo porque veio cá metter o nariz. Comtudo, dir-lhe-hei unicamente que não +tenho que lhe dar satisfações, a não ser n'um sitio mais conveniente do que +este a explicações da natureza, das que hão de ter logar entre nós. O modo +insolente com que me tratou a principio, merece uma correcção, e hade tel-a. +Estou ás suas ordens.</p> + +<p>—Um duello, e por minha causa, bradou Emilia, despenteando-se e +procurando arranjar um olhar desvairado, oh! não façaes com que o sangue venha +manchar as minhas vestes virginaes.<span class="pn">{107}</span></p> + +<p>—Vamos embora, sr. Dyonisio.</p> + +<p>—Vamos lá, respondeu o homem de capote de camellão, em tom um pouco +menos arrogante.</p> + +<p>—Suspendei! Dyonisio, sr. Eduardo, horror! Meu Deus, valei-me!</p> + +<p>E desmaiou.</p> + +<p>«Bravo!»—diria um espectador do theatro normal, enthusiasta da +<em>Dama de S. Tropez</em>.</p> + +<p>Eu e o leitor applaudimos silenciosamente, e vamos seguir os nossos dois +heroes, que sairam pela janella, perdendo-se assim todo o effeito de uma saida +solemne pela porta de fundo, cujos batentes de papelão se abrissem de par em +par.</p> + +<p>Dyonisio e Eduardo atravessaram o quintal silenciosos; chegando a uma +portinha que deitava para a estrada, o sr. de Val-de-Camellos tirou uma chave +que trazia na algibeira, abriu a porta, e os dois contendores sairam.</p> + +<p>—O sangue de um de nós ha de ser hoje derramado, vociferou o illustre +janota do Porto, com tetrica intonação.</p> + +<p>—Está dito; mas, a proposito, parece-me<span class="pn">{108}</span> +que não temos remedio senão jogar o sôcco; parque não temos armas, nem +padrinhos, de sorte que o nosso duello tem todas as condições +d'irregularidade.</p> + +<p>—Ora diga-me uma cousa, tornou Dyonisio, descendo das regiões +melodramaticas ao terreno das explicações prosaicas, isto não se poderia +conciliar amigavelmente?</p> + +<p>—Oh! homem, isso é impossivel, o senhor descompoz-me atrozmente, +abusando da identidade do seu nome com o do irmão d'Emilia, e realmente eu não +vim ao Minho para receber descomposturas.</p> + +<p>—Oh! senhor, tenha paciencia, a Emilia gosta d'essas cousas, e eu não +tive remedio senão fazer aquella scena. Eu não tinha intenção offensiva. Mas +que relações tem o senhor com a rapariga?</p> + +<p>—Um simples namorico.</p> + +<p>—Olhe, tornou Dyonisio coçando a cabeça, a D. Emilia Guimarães é uma +senhora muita estimavel.</p> + +<p>—Não duvido.</p> + +<p>—Muito prendada!</p> + +<p>—Apoiado.<span class="pn">{109}</span></p> + +<p>—Formosissima, continuou o sr. de Val-de-Camellos animando-se pouco a +pouco.</p> + +<p>—Pois não!</p> + +<p>—Espirituosa! bradou o homem encaixando a luneta magestosamente no +rubicundo nanz.</p> + +<p>—Oh!</p> + +<p>—Senhora, a quem amo delirantemente!</p> + +<p>—Muitos parabens, sr. Dyonisio, muitos parabens!</p> + +<p>—Unica mulher, que me pode tornar feliz.</p> + +<p>—Oh! sr. Dyonisio, não me commova!</p> + +<p>—Adoro-a, senhor, adoro-a como a uma estrella, que reluz nas trevas do +meu viver.</p> + +<p>—Bravo, ia-me arrancando lagrimas.</p> + +<p>—E tem um dote de vinte contos de reis! concluiu o homem do capote de +camellão com sublime expressão d'enthusiasmo.</p> + +<p>—Muito bem, sr. Dyonisio, muito bem. Permitta-me que o abrace. Que +rasgos de sentimento! Commoveu-me profundamente. Foi o coração quem lhe dictou +essas phrases enthusiasticas. Esse argumento dos vinte contos revela claramente +a pureza dos seus sentimentos.<span class="pn">{110}</span> Ó patriarchal +Dyonisio, cedo-vos Emilia. Não serei eu quem vá perturbar a felicidade +conjugal, tão solidamente baseada. O amor, fugindo das grandes cidades, vem, +segundo vejo, aninhar-se á sombra de vinte contos nos corações desinteressados +dos jovens provincianos. Sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, não servirei +de obstaculo á sua felicidade. Adeus, seja venturoso!</p> + +<p>—Oh! muito obrigado, generoso desconhecido! volveu Dyonisio, que +estava decididamente infectado de romanticismo sombrio.</p> + +<p>—Ámanhã parto para o Porto. Deixo-lhe o campo livre.</p> + +<p>—Espero que me perdoe a involuntaria offensa.</p> + +<p>—Não fallemos n'isso. O que lá vae, lá vae. Adeus.</p> + +<p>—Adeus. Disponha do meu fraco prestimo.</p> + +<p>Se os nossos dois amigos estivessem em Lisboa, tinham ido juntos a uma ceia +no Matta, ceia, que (se elles fossem bem conhecedores dos costumes portuguezes +em materia de duello) deveriam ter encommendado antes do desafio.<span +class="pn">{111}</span></p> + +<p>Assim, Dyonisio embuçou-se simplesmente no capote de camellão, e voltou para +a cama, onde resonou pacificamente o resto da noite, sonhando que tinha +comprado, com o dote de Emilia, uma junta de bois, e dois pedaços de terra, em +que semeára milho, obtendo uma colheita formidavel, e grangeando deste modo tal +consideração em Santo Thyrso, que tinha sido nomeado por unanimidade de +votos... juiz eleito.</p> + +<p>Eduardo meteu-se na cama, aqueceu os pés, transpirou muito, e no outro dia +estava quasi livre do defluxo teimoso, que o apoquentára tanto.</p> + +<p>Apesar de ter tido a felicidade de se curar com rapidez, o nosso alferes, +que era um rapaz prudente, jurou nunca mais ter namoro com raparigas romanticas +em noites de novembro<span class="pn">{112}</span></p> +<p> </p> +<p><span class="pn">{113}</span></p> + +<h2>V</h2> + +<p>Ainda que as intenções madrugadoras de Eduardo Teixeira fossem as mais +sinceras deste mundo, passou segunda vez pelo desgosto de não assistir ao +almoço da familia. O nosso alferes chegou a convencer-se de que o almoço em +Santo Thyrso, como a <em>tremenda</em> nos conventos dos monges negros, era lá +por alta noite.</p> + +<p>Quando entrou na sala achou a menina Emilia sósinha sentada ao piano. O +vestido branco, que tinha envergado apesar do intenso frio, o cabello muito de +proposito em desalinho, as olheiras, que supponho tinham origem identica á das +do Silvestre da Silva, de Camillo Castello<span class="pn">{114}</span> Branco, +mostravam que Emilia se tinha caracterisado convenientemente para representar a +ultima scena de um melodrama.</p> + +<p>Quando viu Eduardo, levantou-se, e caminhou a encontral-o, hirta e vagarosa. +O joven official estacou á porta pasmado.</p> + +<p>—Qual dos dois morreu? perguntou ella solemne e lugubremente.</p> + +<p>—Fui eu, minha senhora!</p> + +<p>Seguiu-se um curto silencio.</p> + +<p>—O senhor está zombando de mim? tornou Emilia.</p> + +<p>—Não, minha senhora, estou respondendo á pergunta de v. ex.ª Com +effeito, morri para o seu amor, sr.ª D. Emilia. Interroguei o meu coração, +achei-o frio de mais para sentir uma d'essas paixões ardentes, que v. ex.ª deve +inspirar. Não acontece o mesmo com Dyonisio. Minha senhora, vim descobrir um +vulcão em Santo Thyrso, desmentindo por esta fórma a geographia. Esse Vesuvio +desconhecido é o coração do sr. de Val-de-Camellos... Hontem os discursos de +Dyonisio, se não me aqueceram os pés, que tinha muito frios, como v. ex.ª sabe, +pelo menos aqueceram-me... o coração.<span class="pn">{115}</span> Na lava +candente, que brotou espontanea do peito d'aquelle joven, accendi eu o lume +prompto da generosidade. Entendi que devia aconselhal-a a visitar essa cratera +de paixão. Asseguro-lhe que se ha de abrazar. Digo-lh'o eu.</p> + +<p>—Não zombe tanto de mim, sr. Eduardo. Se tive ligeiro namoro com esse +rapaz, o amor verdadeiro, que sinto agora, dissipou completamente esse frivolo +galanteio.</p> + +<p>—Mas, minha senhora, v. ex.ª deve fazer a felicidade d'um Dyonisio. +Attenda, por amor de Deus, á influencia dos nomes nos destinos dos individuos. +O nome de Dyonisio dá logo a conhecer que o possuidor deve ter um caracter +patriarchal. Ora casem, casem, meus pombinhos, tenham muitos filhos, e sejam +muito felizes.</p> + +<p>—Assim me despresa, sabendo que o amo!</p> + +<p>—Não, minha senhora, não creia tal. Hei de ser sempre o maior dos seus +admiradores.</p> + +<p>—E mais nada?</p> + +<p>—E de v. ex.ª o mais attento venerador.</p> + +<p>—Ingrato, perfido! Disse-lhe que o amava, menti-lhe, detesto-o!<span +class="pn">{116}</span></p> + +<p>E a romantica menina ia aproveitar a situação, e a proximidade d'uma +poltrona para desmaiar, quando felizmente entraram as duas manas.</p> + +<p>Acabados os comprimentos preliminares:</p> + +<p>—Que pena tenho, minhas senhoras, de as ter conhecido, disse Eduardo; +os momentos deliciosos, que aqui passei, servem apenas para tornar mais +pungente a saudade, que me vae atormentar.</p> + +<p>—Porque, deixa-nos? bradaram em côro as tres provincianas.</p> + +<p>—Sim, minhas senhoras, recebi hontem noticia de ter obtido passagem +para um regimento da capital, de forma que hoje mesmo tenciono partir para o +Porto.</p> + +<p>—Partir, quem falla aqui em partir? bradou o sr. Bernardo que entrava +n'esse instante.</p> + +<p>—Eu, sr. Guimarães, replicou Eduardo, que, depois de lhe agradecer +immenso o modo amabilissimo com que me recebeu, lhe peço agora as suas ordens +para o Porto e para Lisboa.</p> + +<p>—Mas porque não se demora pelo menos alguns dias?<span +class="pn">{117}</span></p> + +<p>—Sou militar, sr. Guimarães, e devo cumprir á risca a ordem que +recebi.</p> + +<p>—Esta é que eu não esperava!</p> + +<p>—Ingrato, e eu amava-o tanto, murmurou Emilia, recostando-se na +poltrona.</p> + +<p>—Então, minha senhora, cá fica Dyonisio para a consolar. É um bello +rapaz, d'um caracter excellente, e com alguma applicação póde-se tornar um +heroe de romance. Dê-lhe v. ex.ª vinagre todos os dias, e receite-lhe uma dose +forte de Visconde d'Arlincourt, e verá como faz do sr. de Val-de-Camellos um +rapaz ideial. Vou para Lisboa formar votos pela sua felicidade.</p> +<hr> +<hr> + +<p>N'essa mesma tarde, Eduardo Teixeira empoleirado no seu fiel rocinante, +dizia adeus a Santo Thyrso, depois de ter aturado uma scena pathetica de +despedida, tal como a poderia imaginar o mais lamuriento auctor de +melodramas.</p> + +<p>O sr. Dyonisio Antunes de Val-de-Camellos, veiu com grato coração, e com um +jumento chibante, em que montava, acompanhar o<span class="pn">{118}</span> +nosso heroe á Travage, onde se despediu de Eduardo, protestando-lhe eterno +agradecimento, e amisade constante.</p> + +<p>Dyonisio Antunes continua serenamente o namoro com Emilia, sujeitando-se +comtudo a uma dieta rigorosa, a ver se abate um pouco a sua nutrição +anti-romantica.</p> + +<p>O sr. Themudo cada vez embirra mais com o <em>D. Jayme</em>; e quando, em +doces colloquios amorosos com D. Belizaria Guimarães, interrompe a conversação +intima para fallar da depravação do seculo, cita o enredo do <em>D. Jayme</em>, +e véla o rosto pudicamente com uma toalha de mãos. Belizaria sorve com +indignação uma pitada de simonte.</p> + +<p>Eduardo Teixeira, diz-nos pessoa fidedigna, que passa bem de saude, sendo +comtudo muito sujeito a ataques de nervos, que o assaltam sempre que ouve... um +piano!...</p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Astucias de Namorada e Um melodrama em +Santo Thyrso, by Manuel Pinheiro Chagas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ASTUCIAS DE NAMORADA *** + +***** This file should be named 29342-h.htm or 29342-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/3/4/29342/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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