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+The Project Gutenberg EBook of Bases para a unificação da ortografia que
+deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais, by Anonymous
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Bases para a unificação da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais
+
+Author: Anonymous
+
+Release Date: March 20, 2009 [EBook #28364]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO ***
+
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos
+ neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão
+ final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Mar. 2009)
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+
+
+MINISTÉRIO DO INTERIOR
+
+DIRECÇÃO GERAL DE INSTRUÇÃO SECUNDÁRIA, SUPERIOR E ESPECIAL
+
+1.^a REPARTIÇÃO
+
+
+
+BASES PARA A UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA
+
+QUE DEVE SER ADOPTADA NAS ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS
+
+
+RELATÓRIO DA COMISSÃO
+
+
+NOMEADA POR
+
+PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911
+
+NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR
+
+
+
+LISBOA
+
+IMPRENSA NACIONAL
+
+1911
+
+
+
+
+MINISTÉRIO DO INTERIOR
+
+DIRECÇÃO GERAL DE INSTRUÇÃO SECUNDÁRIA, SUPERIOR E ESPECIAL
+
+1.^a REPARTIÇÃO
+
+
+
+BASES PARA A UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA
+
+QUE DEVE SER ADOPTADA NAS ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS
+
+
+RELATÓRIO DA COMISSÃO
+
+
+NOMEADA POR
+
+PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911
+
+NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR
+
+
+PREÇO 50 RÉIS
+
+
+LISBOA
+
+IMPRENSA NACIONAL
+
+1911
+
+
+
+
+Imprensa Nacional de Lisboa--Gabinete da Revisão.--Ex.^{mo} Sr.--Julgo
+do meu dever chamar a atenção de V. Ex.^a para o que passo a expor.
+
+As publicações saídas da Imprensa Nacional, quer oficiais, quer de
+particulares, apresentam grafias diferentes, umas discutíveis, outras
+porêm grosseiras e vergonhosas. O próprio _Diário do Govêrno_, que
+deveria ter ortografia uniforme, emprega diversas, conforme o capricho
+de quem envia os originais, geralmente pessoas indoutas.
+
+Tais variedades de grafias trazem para a Imprensa não só descrédito mas
+tambêm prejuízos pecuniários, porquanto a composição de todos os
+diplomas saídos no _Diário_ tem de transitar para outras publicações
+periódicas, tais como _Boletins_, _Ordens_, _Separatas_, etc., sofrendo
+então cada um dêsses diplomas mais emendas, ao sabor de quem tem de lhes
+fazer nova revisão.
+
+Tantas emendas, alêm de estabelecerem confusão no espirito do
+compositor, avolumam de uma maneira assombrosa a despesa da composição,
+e impedem a rapidez na impressão pelo muito tempo que se perde a fazer
+alterações.
+
+Com esta anarquia ortográfica os compositores hesitam e cometem novos
+erros, e aos revisores se torna tambêm impossível fixar, para cada obra,
+as divergências de tanta grafia.
+
+Urge, portanto, acabar com êste estado de cousas. Fácil me parece o
+remédio. Se cada qual se tem julgado até aqui com direito a impor a sua
+maneira de escrever, porque razão o Govêrno da República não ha de impor
+tambêm a sua, e no que é seu?
+
+Sujeite, pois, o Govêrno a uma única ortografia todas as publicações
+oficiais ou por êle subsidiadas.
+
+E qual deverá ser essa ortografia?
+
+Em meu entender deverá adoptar-se a que no seu livro A ORTOGRAFIA
+NACIONAL preconiza a maior autoridade no assunto, o doutíssimo filólogo
+Gonçalves Viana. Essa obra tem o aplauso de todos os que modernamente se
+tem dedicado ao estudo profundo da sciência da linguagem; e a ortografia
+simplificada defendida naquele livro é já seguida por grande número de
+professores e escritores de valor, e adoptada em muitos livros
+escolares, revistas, etc.
+
+Desnecessário se torna, pois, encarecer as vantagens da adopção de um
+único sistema ortográfico a quem, como V. Ex.^a, de sobejo as conhece e
+aprecia. Pelo lado económico tem a Imprensa muito a ganhar. Tampouco é
+para desprezar o louvor que a V. Ex.^a caberá por contribuir, com a
+adopção da ortografia simplificada, para a maior facilidade no ensino da
+leitura da nossa bela língua.
+
+Expondo, embora imperfeitamente, a minha opinião acêrca do que julgo ser
+melhoramento de um dos serviços da Imprensa, confio em que V. Ex.^a se
+dignará tomar na devida consideração o alvitre que neste oficio ouso
+apresentar a V. Ex.^a.
+
+Lisboa, 17 do Dezembro de 1910.--Ex.^{mo} Sr. Luís Carlos Guedes
+Derouet, Digníssimo Administrador Geral da Imprensa Nacional.--_José
+António Dias Coelho_, chefe do serviço da revisão.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Imprensa Nacional de Lisboa--Administração Geral--N.^o 238.--Tenho a
+honra de levar ao conhecimento de V. Ex.^a o oficio que recebi do chefe
+do serviço da revisão, relativamente à necessidade de se adoptar uma
+ortografia uniforme nos trabalhos desta Imprensa e principalmente no
+_Diário ao Govêrno_.
+
+Estou perfeitamente de acôrdo com as considerações que faz o aludido
+funcionário, pois que não pode nem deve continuar a anarquia que
+presentemente existe. Embora o problema ortográfico não se resolva por
+completo de momento, pelo menos que nos trabalhos oficiais se mantenha a
+uniformidade.
+
+Chamo para o facto a devida atenção de V. Ex.^a, certo de que o assunto
+lhe merecerá toda a solicitude.
+
+Saúde e Fraternidade.
+
+Lisboa, 14 de Janeiro de 1911.--Ex.^{mo} Sr. Director Geral da Instrução
+Secundária, Superior e Especial.--O Administrador Geral, _Luís Derouet_.
+
+
+ * * * * *
+
+
+Ministério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior
+e Especial.--1.^a Repartição.--O Govêrno Provisório da República
+Portuguesa, atendendo ao que lhe foi representado pelo Administrador
+Geral da Imprensa Nacional, no sentido de serem tomadas providências
+tendentes a uniformizar a ortografia oficial, por forma a evitar que nas
+publicações emanadas daquele estabelecimento do Estado continuem a
+adoptar-se, paralelamente, as mais desencontradas formas ortográficas;
+
+Conformando-se com o parecer da secção permanente do Conselho Superior
+de Instrução Pública:
+
+Manda, pelo Ministro do Interior, que seja nomeada uma comissão,
+composta de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Aniceto dos Reis
+Gonçalves Víana, António Cândido de Figueiredo, Francisco Adolfo Coelho
+e José Leite de Vasconcelos, encarregada de fixar as bases da ortografia
+que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos e publicações
+oficiais, e bem assim de organizar uma lista ou vocabulário das palavras
+que possam oferecer qualquer dificuldade quanto à maneira como devem ser
+escritas.
+
+Paços do Govêrno da República, em 15 de Fevereiro de 1911.--O Ministro
+do Interior, _António José de Almeida_.
+
+
+ (_Diário do Govêrno_ n.^o 39, de 17 de Fevereiro de 1911).
+
+
+ * * * * *
+
+Ministério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior
+e Especial--1.^a Repartição.--Manda o Govêrno Provisório da República
+Portuguesa, pelo Ministro do Interior, que à comissão encarregada de
+uniformizar a ortografia oficial, nomeada por portaria de 15 de
+Fevereiro último, sejam agregados os seguintes vogais: Dr. António José
+Gonçalves Guimarães, Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Augusto
+Epifânio da Silva Dias, Júlio Moreira, José Joaquim Nunes e Manuel
+Borges Grainha.
+
+Paços do Govêrno da República, em 16 de Março de 1911.--O Ministro do
+Interior, _António José de Almeida_.
+
+
+ (_Diário do Govêrno_ n.^o 64, do 20 de Março de 1911).
+
+
+ * * * * *
+
+
+Mistério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior e
+Especial--1.^a Repartição.--Conformando-se com o parecer da comissão
+encarregada, por portaria de 15 de Fevereiro de 1911, de estabelecer as
+bases para a unificação da ortografia que deve ser adoptada nas escolas
+e nos documentos e publicações oficiais:
+
+Manda o Govêrno da República Portuguesa, pelo Ministro do Interior:
+
+1.^o Que o relatório da referida comissão seja publicado no _Diário do
+Govêrno_, devendo ser para o futuro adoptada em todas as escolas, e bem
+assim nos documentos e publicações oficiais, a ortografia proposta pela
+comissão;
+
+2.^o Que se dê a tolerância máxima de três anos, a contar da data da
+publicação da presente portaria, para a conservação das grafias
+existentes nos livros didácticos actualmente em uso, a fim de não
+prejudicar os respectivos autores ou editores;
+
+3.^o Que se promova a rápida organização e publicação, pelo preço mais
+módico possível, de um vocabulário ortográfico e de uma cartilha,
+especialmente destinada a vulgarizar e exemplificar o sistema de
+ortografia adoptado;
+
+4.^o Que a comissão nomeada por portaria de 15 de Fevereiro de 1911
+continue em exercício pelo tempo que se julgar conveniente, a fim de ser
+ouvida sobre quaisquer dúvidas que se suscitem relativamente à execução
+da reforma proposta, podendo a referida comissão reùnir-se por
+iniciativa própria, ou convocada pela Direcção Geral da Instrução
+Secundária, Superior e Especial, por intermédio da qual serão feitas
+quaisquer reclamações sôbre o assunto.
+
+Paços do Govêrno da República, em 1 de Setembro de 1911.--O Ministro do
+Interior, _António José de Almeida_.
+
+
+ (_Diário do Govêrno_ n.^o 206, de 4 de Setembro de 1911).
+
+
+
+
+ Ex.^{mo} Sr. Ministro do Interior:
+
+
+A Comissão, nomeada por portaria de 15 de Fevereiro do corrente ano para
+fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos
+documentos oficiais e outras publicações feitas por conta do Estado, vem
+hoje apresentar a V. Ex.^a os resultados do estudo a que procedeu, bem
+como as decisões que, por grande maioria ou por unanimidade de votos dos
+indivíduos que a compõem, entendeu ser oportuno propor, tomando por
+elementos principais dessas decisões a história da língua portuguesa, e
+a da sua escrita tradicional até época muito recente.
+
+Logo na sessão inaugural, celebrada em 15 de Março último, julgou a
+Comissão que seria vantajoso para a absoluta independência e
+imparcialidade das suas resoluções, como corpo consultivo, propor a
+agregação de mais alguns conhecidos filólogos portugueses; e essa
+conveniência reconheceu-a V. Ex.^a nomeando, por portaria de 16 do
+referido mês, alêm dos indivíduos já anteriormente nomeados, mais seis;
+ficando a Comissão composta de onze pessoas, uma das quais, porêm, o
+Professor Augusto Epifânio da Silva Dias, se escusou, declinando o
+encargo. Ficou assim a Comissão constituída por dez membros, e, em razão
+de ser par êste número, teve o presidente eleito por ela de resolver com
+voto de desempate algumas questões de secundária importância, em que
+divergiram as opiniões, expressas depois de discussão por votações
+diferentes, equivalentes em número.
+
+Quatro dos membros da Comissão, isto é, a Sr.^a D. Carolina Michaëlis de
+Vasconcelos, que a Comissão elegeu Presidente honorária, os Drs. António
+José Gonçalves Guimarães e António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, e o
+Professor Júlio Moreira, não puderam comparecer às sessões semanais, em
+razão de residirem longe de Lisboa, localidade em que a Comissão se
+reuniu: foram porêm sempre consultados em todas as questões em que não
+houve unanimidade de votos por parte dos indivíduos presentes; havendo
+sido os votos dêsses ausentes tomados em consideração, e dando-se-lhes
+oportuno conhecimento das resoluções adoptadas pelos membros presentes
+às sessões, que não foram mais amiudadas, porque outras funções oficiais
+dos membros da Comissão o não permitiram, e assim se explica a relativa
+morosidade dos seus trabalhos.
+
+Logo nas duas primeiras sessões foi unânime o parecer de, seguindo-se
+uma tendência já manifestada no espírito público, se simplificarem as
+grafias correntes, entre si contraditórias, regularizando-as em
+obediência ao princípio capital de simplificação. Por proposta,
+unânimemente aprovada, do Presidente adoptou-se para base da discussão o
+Questionário ortográfico em tempos apresentado por um dos seus membros à
+Academia das Sciências de Lisboa, e pela mesma Academia mandado imprimir
+na sua tipografia, em 1902, com as respostas do autor dêsse
+Questionário, em um volume de 183 páginas, cujo título é AS ORTOGRAFIAS
+PPRTUGUESAS. Esta obra foi ao depois reeditada pelo referido autor em
+outro volume, acrescentada e com maior cópia de abonações e diferente
+economia de texto, volume que é do conhecimento do público e se intitula
+ORTOGRAFIA NACIONAL. Teve a Comissão igualmente em atenção o VOCABULÁRIO
+ORTOGRÁFICO E ORTOÉPICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, ainda do mesmo autor,
+impresso em Lisboa no ano passado, e no qual o sistema ortográfico dêsse
+autor se encontra larga e minuciosamente exemplificado. Pode êle, com
+efeito, ser desde já utilizado, emquanto outro se não publique, em que
+as pequenas alterações, que sofreram os princípios em que se baseou,
+sejam incluídas e atendidas de preferência na seqùência alfabética dos
+vocábulos.
+
+Poucas e de pequena importância relativa foram as modificações que a
+Comissão entendeu conveniente que se fizessem no sistema ortográfico ali
+proposto e seguido, e essas foram adoptadas para que êle ficasse mais em
+harmonia com modos de escrever que, conquanto menos conseqùentes, se
+tornaram já, a bem dizer, habituais; e tais modificações em preceitos,
+que o autor daquelas obras defendera com razões históricas cuja valia a
+Comissão reconheceu, tiveram por causa o considerar a Comissão que
+alguns dêles eram em demasia prematuros, e um ou outro já extemporâneo,
+em virtude de usos ortográficos radicados e que se não devem considerar
+absolutamente como erros scientíficos.
+
+Teve pois a Comissão em atenção que a estranheza, que poderiam ocasionar
+no público certas innovações ou renovações gráficas, não viesse
+prejudicar a aceitação dos demais preceitos, que parecerão a todos
+exeqùiveis.
+
+O autor, membro da Comissão, concordou com todas essas modificações, e
+votou com a maioria da Comissão em todas elas. À primeira espécie
+pertencem a manutenção do _h_ inicial, de _ge_, _gi_, mediais de
+vocábulos, em concorrência com _je_, _ji_, e todos os valores actuais
+dados à letra _x_, que o mesmo autor reduzira a dois únicos, o inicial,
+como em _xadrez_, e o do prefixo _ex-_ valendo por _eis_ ou _is_, como
+em _expor_, _exército_, etc. Os preceitos da segunda espécie, que, se
+bem que perfeitamente motivados nas propostas do autor do Questionário,
+a Comissão julgou já de há muito fora do uso comum, são principalmente o
+emprêgo de _ç_ inicial, e o do _z_ final, com o valor actual de _s_, em
+sílaba átona, que sobretudo figura na última sílaba de muitos nomes
+patronímicos, como _Gonçálvez_, _Núnez_, que presentemente se escrevem
+_Gonçalves_, _Nunes_, com _-es_, em oposição à sua etimologia, a
+desinência latina _ici_, de genetivo. Esses nomes e vocábulos, como
+_ourives_, _simples_, _mesquinho_, continuarão pois a escrever-se com
+_s_ final de sílaba, na ortografia comum.
+
+Entendeu tambêm a Comissão que seria inoportuno suprimir o _s_ inicial
+do grupo _sce_, _sci_, que figura etimológicamente em algumas palavras,
+tais como _sciência_, _scetro_, _scéptico_, _scelerado_, _scena_,
+_scisão_, _scisma_ e seus derivados e afins, principalmente, com relação
+ao primeiro dêstes vocábulos, porque no sul de Portugal se profere êsse
+_s_ separado do _c_, em formas compostas, como _presciência_,
+_consciência_, _insciência_, _cônscio_, etc. Comparem-se tambêm
+_en(s)cenação_, e _proscénio_, com _s_ proferido êste último.
+
+¿Quais são as bases da ortografia portuguesa que a Comissão propõe?
+
+Havia, logo desde o início dos trabalhos, dois sistemas a que se
+atendesse, um dêles a ortografia francesa, que, mais ou menos
+coerentemente se tem há certo tempo imitado em Portugal; o outro, as
+ortografias espanhola e italiana, muito mais simples, racionais, lógicas
+e fáceis de aprender, muito mais conformes com a evolução natural e
+mesmo literária dêsses idiomas, em muitos pontos análoga à do português.
+O que radicalmente diferença a ortografia dêsses dois idiomas oficiais,
+e bem assim as de outros congéneres entre si, com êles e com o nosso,
+falados quer em Espanha, quer em Itália, é a modificação da ortografia
+latina dos inúmeros vocábulos gregos romanizados, para outras mais
+conformes com o valor das letras de tais vocábulos nessas línguas
+modernas.
+
+Facilitando o ensino da leitura e da escrita, a Comissão julgou que já
+era tempo de se desterrarem por uma vez da escrita portuguesa, como há
+muito o estão da espanhola e da italiana, para não mencionar as de
+outros idiomas mais desviados do latim, os símbolos _ph_, _th_, _rh_, e
+_y_, por _f_, _t_, _r_, _i_, e o _ch_ com o valor de _k_, o qual ficará
+substituído por _qu_ antes de _e_, _i_, e por _c_ em qualquer outra
+situação, como se fêz em castelhano. Com esta simplificação muito
+ganhará a língua escrita e o seu aprendizado e exercício, pois mais se
+aproximará da realidade dos factos constantes da sua pronúncia, que
+aqueles estranhos símbolos disfarçam, e ao mesmo passo se acercará das
+ortografias espanhola e italiana, consideradas universalmente, e por
+todos os filólogos, como das mais perfeitas entre as que adoptaram o
+abecedário romano, e o apropriaram às conveniências nacionais. Com
+efeito, pode afoutamente dizer-se que a ortografia francesa e as actuais
+portuguesas que a imitam são escrita de eruditos e para eruditos, ou que
+presumem sê-lo; as ortografias italiana e espanhola são escrita para
+todos os indivíduos que nessas nações sabem ler e escrever. Deseja a
+Comissão que em Portugal aconteça outro tanto, e nesse intuito se
+inspirou.
+
+Outra simplificação igualmente importante, que a Comissão sugere como
+absolutamente necessária, consiste na abolição de consoantes dobradas,
+as quais ficam reduzidas, como em castelhano, a simples, com excepção de
+_rr_, _ss_, _mm_, _nn_ mediais, quando acusem diferença de pronunciação,
+o que se dá, por exemplo, nos vocábulos _cassa_, _carro_, _emmalar_,
+_ennovelar_, comparados a _casa_, _caro_, _emanar_, _enervar_.
+
+Estas duas simplificações, sós por si, acabam definitivamente com dois
+dos maiores tropeços com que se encontra estorvada a escrita nacional, e
+que já poucos defensores conscienciosos, conscientes e autorizados
+lograrão obter. Todos, ou quási todos os que lêem ou escrevem,
+aplaudirão de certo estas simplificações há tanto tempo desejadas e
+sugeridas.
+
+Alêm da inutilidade prática, e mesmo teórica, que oferece actualmente a
+duplicação de consoantes na escrita, como _cc_, _dd_, _ff_, _gg_, _ll_,
+_mm_, _nn_, _pp_, _tt_, outro estôrvo apresentam ainda as nossas
+escritas, relativamente modernas, e consiste êste no emprêgo de _c_ ou
+_p_ antes de _t_, formando os grupos _ct_, _pt_, e ainda _pç_, _cç_,
+como em _producto_, _restricto_, _corrupto_, _escripto_, _assumpção_,
+_funcção_, etc., nos quais tanto o _c_ como o _p_ são de todo inúteis
+para a pronunciação. A Comissão preceitua que essas letras escusadas
+desapareçam da escrita portuguesa, onde vieram enxertar-se por
+influência estranha. Casos, porêm, há, e muitíssimos, em que tais
+consoantes ou são ainda facultativamente proferidas, ou a sua influência
+subsiste no valor das vogais _a_, _e_, _o_ que as precedem, as quais, em
+vez de se obscurecerem, como é de regra, nas sílabas antetónicas,
+conservam os seus valores, relativamente _à_, _è_, _ò_, que tinham
+quando essas consoantes, hoje mudas, se proferiam. Dêste modo, a
+Comissão entendeu ser de necessidade a conservação delas, quer quando a
+vogal, _a_, _e_ ou _o_ precedente é átona, quer em vocábulos
+aparentados, quando é tónica; por exemplo: _direcção_, _directo_,
+_acção_, _activo_, _acto_, _tracção_, _tracto_, _excepção_, _exceptuar_,
+_excepto_, _adopção_, _adoptar_, _adopto_, comparados estes últimos
+vocábulos com _opção_, _optar_, _opto_, em que o _p_ se profere. Com
+esta excepção aos princípios simplificadores que a Comissão observou no
+sistema ortográfico que propõe, conseguiu não demudar o aspecto de
+centenas de palavras relativamente modernas, mas de uso constante; e com
+tanto maior razão o fêz, quanto é certo que em muitas destas palavras as
+letras _c_ e _p_ por muitas pessoas são ainda proferidas, tais como
+_facção_, _recepção_, _espectador_, a par de _espe(c)taculo_, etc.
+Quanto ao _g_ que precede _m_ ou _n_, ou ainda outras letras, entendeu a
+Comissão dever eliminá-lo nas palavras em que se não profere, como
+_assinar_, _Inácio_, _aumentar_, _Madalena_, comparadas com _designar_,
+_Agnelo_, _fragmento_, o que já há quatro séculos Duarte Nunes do Lião
+aconselhara; só modernamente êle aí foi introduzido, quando se
+implantaram artificialmente entre nós ortografias servil e
+inconseqùentemente etimológicas, quási todas por influência da escrita
+francesa. Outro tanto acontece com _damno_, _solemne_, que se
+escreverão, como dantes, _dano_, _solene_.
+
+Efectivamente, se na leitura de livros estrangeiros houvesse predominado
+em Portugal a de italianos ou espanhóis, nunca tais complicações
+ortográficas se haveriam enraizado na escrita literária do idioma
+pátrio, avêsso a tais arrebiques, e ao qual é de toda a conveniência
+restituir a simplicidade e coerência da antiga escrita.
+
+Outra feição essencial numa ortografia, que seja, quanto possível,
+imagem dos fenómenos que se observam na linguagem falada, é a
+regularização da sua acentuação gráfica, por meio da qual se diferencem
+palavras que se escrevam com as mesmas letras, mas tenham pronunciação e
+significação diversas; e ainda que seja por tal modo combinada e
+aplicada, que nenhuma dúvida possa subsistir com relação a qual seja a
+sílaba predominante de qualquer palavra ou forma, em idiomas em que,
+como acontece em português, a acentuação tónica pode afectar uma
+qualquer das três sílabas finais. Nesta condição é muitíssimo superior à
+italiana usual a ortografia castelhana, que assinala sistemáticamente
+com o acento agudo (') todos os vocábulos esdrúxulos e todos os
+terminados em consoante, se a sílaba predominante é a penúltima, ou
+terminados em vogal, se ela é a última. A Comissão atendeu a essa
+condição essencial da leitura, e suposto a não preceitue já como
+obrigatória em todos os casos em que seria necessária, aconselha-a e
+fixa-lhe as regras que a determinarão, quando rigorosamente empregada,
+como convirá que o seja em todos os livros de ensino e consulta.
+
+Sabe a Comissão que esta parte da reforma ortográfica será aquela que
+maiores dificuldades encontrará na sua execução, principalmente a
+acentuação distintiva de tantíssimos homógrafos, como os que existem em
+português, muitos mais do que em castelhano, ou mesmo em italiano. Essas
+distinções obrigarão quem escreve para o público a ser um tanto mais
+cauteloso na ortografia das palavras, do que usualmente o é na
+actualidade. Em compensação, porêm, o escritor já não terá futilidades
+etimológicas a respeitar por costume, e o bom ensino da leitura em breve
+habituará as gerações novas à acentuação rigorosa.
+
+Não foi condescendência com a inércia que imperou no ânimo da Comissão,
+ao deixar em certo modo facultativo, por emquanto, o uso pontual da
+acentuação gráfica em todas as suas minúcias, como o é o da castelhana,
+e com a mais estrita coerência; mas sim o reconhecimento de que as
+condições naturais do idioma português exigem que essa acentuação
+gráfica seja muito mais copiosa e diferencial do que o é a castelhana,
+em si modelar na sua simplicidade. Na realidade, em castelhano não há a
+diferençar _e_, _o_ fechados de _e_, _o_ abertos, o que dispensa o uso
+do acento circunflexo nesse idioma, no qual não existe o considerável
+número de homógrafos que se observa em português; e alêm disto não se
+dão em castelhano os constantes acidentes de variação de valor em _e_,
+_o_, que no português se produzem e determinam um sem número de
+vocábulos entre si diferentes fonéticamente, conquanto nas letras com
+que se escrevem sejam iguais, e que nenhum ouvido português confundirá,
+como é conveniente que a escrita os não confunda, tais como _entêrro_,
+_almôço_, substantivos, e _entérro_, _almóço_, verbos; _sôbre_,
+preposição e _sóbre_, verbo; _sêde_ e _séde_; _pêlo_ substantivo _pélo_,
+verbo, a par de _pelo_ (_p'lu_) contracção de _per lo_, preposição e
+artigo; _pâra_, preposição, e _pára_, verbo; _dêmos_, presente, e
+_démos_, pretérito, etc.
+
+Nestes homógrafos, porêm, para se evitar acentuação dispensável, o que
+cumpre é assinalar-se no _e_ e no _o_ o seu valor de _ê_, _ô_, visto que
+os nomes destas letras em português se proferem com vogais abertas, _è_,
+_ò_, devendo pois considerar-se êsse valor como o seu normal quando são
+tónicas. Por êste motivo, o que convêm em tais homógrafos é marcar-se
+com o acento circunflexo as vogais fechadas, omitindo-se o acento agudo
+em _e_ e _o_ abertos, e escrevendo-se portanto as palavras citadas, e
+outras análogas, _sôbre_ e _sobre_, _almôço_ e _almoço_, _entêrro_ e
+_enterro_, _sêde_ e _sede_, _pêlo_, _pélo_ e _pelo_, _pára_ e _para_,
+_dêmos_ e _demos_. E necessário que _pélo_, _pára_, _pólo_ sejam porêm
+marcados com o acento agudo, pois as contracções _pelo_, _polo_ (arcaica
+esta) e a preposição _para_ são sempre átonas. A forma da 1.^a pessoa do
+plural do pretérito perfeito dos verbos em _-ar_, como _louvámos_,
+receberá, o que é já uso corrente, o acento agudo, para se diferençar da
+do presente, _louvamos_, por isso que o _a_ antes de consoante nasal, é
+normalmente fechado, isto é, proferido _â_, e a distinção se observa em
+quási todo o domínio português.
+
+Algumas considerações consagrará ainda a Comissão ao sistema de
+acentuação gráfica.
+
+Como é já uso estabelecido, o acento agudo (') é o sinal, por
+excelência, da sílaba predominante de todo o vocábulo que não seja
+átono, com excepção de _e_, _o_ fechados, que serão, aceitando-se o
+costume que em português se foi lentamente fixando, assinalados com o
+acento circunflexo (^). Fixa a Comissão o uso, mais ou menos vagamente
+seguido, de marcar com outro acento disponível, o grave (`), as vogais
+_a_, _e_, _o_, abertas, de sílabas pretónicas, quando haja homógrafos a
+diferençar entre si. Nesta conformidade escrever-se hão: _à_, contracção
+de _a_ artigo e _a_ preposição, de que se diferençará; _àquela_,
+diferente de _aquela_; _prègar_, diverso de _pregar_; _mòlhada_, e
+_molhada_, particípio femenino de _molhar_. Preceitua pois a Comissão
+que o acento grave indique o valor alfabético das vogais _a_, _e_, _i_,
+_o_, _u_ (_à_, _è_, _ì_, _ò_, _ù_), e dêste preceito se deduzem todas as
+aplicações que dá ao acento grave. Essas outras aplicações são as
+seguintes:
+
+1.^a Distinguir homógrafos, _aquela_, _àquela_, _pregar_, _prègar_,
+quando a vogal distintiva seja átona; 2.^a, marcar as vogaes _a_, _e_,
+_o_, abertas, em palavras que tenham dois acentos tónicos, o último dos
+quais seja o predominante, como é de regra em português, _chapèuzinho_,
+_avòzinha_, _màzona_; 3.^a, dissolver ditongos átonos, _saìmento_,
+_paìsagem_, _saùdar_, a par de _saída_, _país_, _saúde_, em que _i_, _u_
+são tónicos; 4.^a, diferençar o _u_ proferido, dos grupos _qu_, _gu_, do
+_u_ mudo dos mesmos grupos, _freqùente_, comparado a _quente_, _argùir_,
+comparado a _seguir_. Quando o _u_ passe a ser tónico, o acento grave
+mudar-se há em agudo; ex.: _argúi_, diferente de _argùi_.
+
+Como a Comissão fixou que a subjuntiva fraca dos ditongos seja sempre
+escrita com _i_, _u_ e nunca _e_, _o_ é inútil o emprêgo de qualquer
+sinal diacrítico nestas duas letras, para denotar que não formam ditongo
+com a vogal precedente, como em _moeda_, _neófito_, _cooperar_, etc.
+
+A escrita dos ditongos orais será portanto a seguinte, na qual _éi_,
+_éu_, _ói_, com a vogal dominante aberta, se diferençam de _ei_, _eu_,
+_oi_, em que ela é fechada: _ai_ (_ài_, _âi_), _éi_, _ei_, _ói_, _oi_,
+_ui_, _au_, _éu_, _eu_, _ou_, _iu_, do que são exemplos estes vocábulos:
+_pai_, _caiar_, _réis_, _reis_, _sóis_, _sois_ (verbo), _fui_, _pau_,
+_céu_, _seu_, _riu_, _levou_. Preferíu-se acentuar as vogais abertas de
+_éi_, _éu_, _ói_, visto serem elas sempre tónicas; êsse acento mudar-se
+há no grave, quando acidentalmente elas sejam em certo modo átonas, como
+em _vèuzinho_, _painèizinhos_, _heròicidade_. Os dois valores da escrita
+_ai_ (_ài_ e _âi_) como em _ensaio_, _ensaiar_, é desnecessário
+acusá-los, por isso que o ditongo _âi_ átono só se manifesta antes de
+vogal, pois quando tónico se escreve _ei_.
+
+No Formulário de regras de ortografia, que a Comissão submete à
+apreciação do Govêrno, ficarão consignados os principais preceitos da
+acentuação escrita, que se encontram postos em prática no VOCABULÁRIO
+ORTOGRÁFICO, a que já se referiu, e completamente expostos de páginas
+155 a 200 da ORTOGRAFIA NACIONAL, tambêm já citada, a qual tem um
+copiosíssimo índice alfabético e remissivo, que facilita a sua consulta
+nos casos duvidosos. Exemplos rigorosos dêste sistema de acentuação
+oferece-os igualmente todo êste relatório, bem como de toda a ortografia
+que se propõe.
+
+Aludiu agora mesmo a Comissão à distinção, que é mester deixar retratada
+na escrita, entre _e_ e _o_ fechados e _e_ e _o_ abertos, quando entre
+si distinguem inúmeras palavras e formas gramaticais. Outra não menor
+dificuldade oferece a língua portuguesa, comparada às suas congéneres: é
+a atonia de certas vogais, que adquirem timbres especiais, e lhe é
+peculiar, só tendo paralelo na catalã, e em muito menor grau, e de certo
+modo, na francesa e na provençal moderna, mas em qualquer delas sujeita
+a menor número de excepções. Neste ponto é o português só comparável,
+ainda que vagamente, ao inglês. Com efeito, ao _a_ tónico, geralmente
+proferido _à_, corresponde um _a_ átono, quási sempre surdo, _â_; ao _ò_
+ou _ô_ tónicos, um _o_ que se profere como _u_ na grande maioria dos
+casos; ao _è_ ou _ê_, um _e_ surdo átono, mais ou menos perceptível na
+pronúncia, conforme os sons com que está em contacto e lhe influem no
+timbre. Se êsse _e_ átono é seguido de vogal, ou é inicial de vocábulo,
+vale por _i_, ex.: _veado_, _evitar_; se se lhe segue consoante palatal,
+_ch_, _x_, _j_, _s_, _lh_, _nh_, equivale a _i_ surdo, e com êste se
+confunde no falar usual e desafectado. Comparem-se, com efeito, entre si
+vocábulos tais como _ferro_, _ferreiro_; _grêlo_, _grelar_; _fecho_,
+_fechar_; _cereja_, _cerejeira_; _telha_, _telhado_; _desenho_,
+_desenhar_; _pesca_, _pescar_, e _pisco_, _piscar_; _esteira_ e
+_história_; _testar_ e _distar_; _distinto_, de _distinguir_; e
+_destinto_ de _destingir_; atente-se igualmente na pronúncia do vocábulo
+_privilegiado_ que é _preveligiado_, muitas vezes erróneamente assim
+escrito, e ver-se há quanto é difícil a nossa escrita.
+
+Por outra parte, e o último vocábulo o comprova, numa seqùência de
+sílabas, todas as quais tenham _i_ por vogal antes da predominante, êsse
+_i_ escrito, quando átono, profere-se quási sempre como _e_ surdo, em
+pronúncia desafectada. Há excepções que as gramáticas devem explicar.
+
+Desta série de fenómenos, que tornam o português o mais delicado e
+interessante dos idiomas neo-latinos, originam-se constantes erros e
+hesitações na sua escrita, a que não é possível obviar, a não ser por
+uma transcrição absolutamente fonética, a qual reproduza fielmente todos
+êsses acidentes, e que seria inadmissível em ortografia corrente e
+usual, pois sómente um ouvido exercitado e um tirocínio especial a
+poderiam aplicar.
+
+Não se pense, portanto, que a fixação de uma ortografia regularizada e
+simplificada possa remover todas as dificuldades, sem um suficiente
+preparo gramatical, em que a derivação e formação das palavras, e os
+resultantes acidentes na variação dos sons que as compõem, conforme a
+sua situação, hajam sido estudados.
+
+A consulta oportuna de um vocabulário, como o já indicado, feito em
+harmonia com os preceitos estabelecidos, será tambêm indispensável, não
+só em razão do emprêgo de _o_ ou _u_ e tambêm _e_ ou _i_ átonos, quer
+antes de consoante, quer antes de vogal, mas ainda com relação ao uso de
+_ç_ ou _ss_ mediais, de _ce_, _ci_, _s(s)e_, _s(s)i_, _z_ ou _s_ entre
+vogais, e quando finais, e em menor escala o de _ch_ e _x_, de _ge_,
+_gi_ ou _je_, _ji_.
+
+O VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO indicado remove todas as dúvidas, visto
+encontrar-se nele a etimologia dos vocábulos, quando necessária a essas
+distinções ortográficas, a comparação vocabular e formal com a
+ortografia denominada etimológica, e a conjugação dos verbos,
+exemplificada em todas as suas diferentes modalidades. É um livro que se
+pode considerar adequado ao período de transição, que há-de decorrer
+antes que se vulgarize a ortografia regularizada oficial.
+
+A Comissão não hesitou, respeitando a história do idioma pátrio, as suas
+origens e a sua evolução no tempo e no espaço, em conservar a distinção
+gráfica entre _ç_ e _s(s)_, entre _z_ e _s_ mediais, pôsto que nenhuma
+diferença se observe já na sua pronúncia do Mondego para o sul, e a
+distinção se vá obliterando cada vez mais nos centros urbanos das
+províncias do norte.
+
+A diferenciação gráfica, conforme a sua origem, entre _se_, _si_, e
+_ce_, _ci_, iniciais, entre _ç_ e _ss_ mediais, bem como a que ainda
+dialectalmente subsiste entre _z_ e _s_ intervocálicos, ou _x_ e _ch_ ou
+_ô_ e _ou_, pertencem à história da língua, e a Comissão conserva-as,
+regulando-as com o maior rigor; pois ficaria em contradição com essa
+história se, o que fôra relativamente fácil, optasse por escrever sempre
+_z_ entre vogais, e sempre _s_ em finais de vocábulos; porque não seria
+licito, nem ninguêm lhe aceitaria, substituir _ce_, _ci_, _ç_, por _s_
+ou _ss_, em milhares de vocábulos e formas, que sempre se tem conservado
+diferentes na sua escrita, e com bons fundamentos.
+
+Neste pressuposto, prescreve que _ce_, _ci_, _ç_, ou _z_ final de
+vocábulos correspondam a _ci_, _ti_ latinos, a _ss_ arábicos; e _s_,
+_ss_ a _s_ ou _ss_ latinos; e, por outra parte, que _z_ corresponda a
+_z_, ou _ce_ ou _ci_, _ti_ latinos, ou a _zz_ arábicos; _s_ entre
+vogais, ou final, a _s_ latino. Nos vocábulos de origem americana
+indígena _ce_, _ci_, _ç_ são preferíveis a _s_, seguindo-se nisso a
+escrita tradicional. Para quem não esteja preparado com umas noções,
+rudimentares que sejam, de latim, a consulta ao VOCABULÁRIO é
+indispensável em casos duvidosos, e muitas vezes é conveniente a
+comparação com as correspondentes formas ou palavras castelhanas, pois
+no idioma do centro de Espanha a confusão entre _s_ e _c_ ou _ç_
+(modernamente escrito _z_) é impossível, pois bem se diferençam na
+pronúncia, como antes acontecia em Portugal e no resto da Península
+Hispánica.
+
+Muito menor dificuldade apresenta a diferenciação entre _ch_ e _x_, e o
+VOCABULÁRIO, bem como a escrita castelhana, em que _x_ é modernamente
+representado por _j_, fácilmente a indicam. Bastará aqui dizer-se que,
+em geral, _ch_ corresponde a _cl_, _fl_, _pl_ latinos, e que em
+vocábulos de origem arábica o emprêgo de _x_ é de regra. Com respeito à
+selecção entre _ô_ e _ou_, deve considerar-se que o digrama _ou_
+corresponde a _au_ ou _al_ latinos, às vezes a _oc_, _ap_, e ao _au_
+arábico: a diferença é intuìtiva para todos os portugueses do norte e
+das duas Beìras, pois _ou_ para êles é ditongo, e não simplesmente _o_
+fechado, como o é no sul do país.
+
+A escrita dos ditongos nasais será, como é já uso radicado, _ãe_, _õe_,
+_em_, _ens_, _ão_ como em _mãe(s)_, _botões_, _bem_, _bens_, _mão(s)_;
+e, conforme tambêm há muito se usa, nas terminações átonas dos verbos o
+ditongo _ão_ será escrito _am_; assim teremos, por exemplo, _louvam_,
+_louvaram_, presente e pretérito, _louvarão_, futuro, sem precisarmos de
+indicar por acentos a diferença. Nos substantivos, porêm, o acento na
+sílaba predominante diferenciará _cóvão_ de _covão_, designando o acento
+a atonia do ditongo final, como em _órfão_, _órgão_, _Estêvão_, etc.,
+visto que a escrita _orfams_ seria uma novidade inútil, e _órfans_ daria
+causa a equívoco, conquanto o respectivo femenino se escreva _órfã(s)_.
+O ditongo _em_, quando predominante em polissílabos, receberá o acento
+circunflexo, como em _armazêm_, _armazêns_, _porêm_, a par de _margem_,
+_porem_, cuja escrita indicará a acentuação _márgem_, _pôrem_, mesmo sem
+ser marcada. O ditongo _[~u]i_ de um único vocábulo actualmente,
+_muito_, e sua abreviatura proclítica _mui_, hoje em dia só literária,
+continuará, como até aqui, sem sinal especial que indique a nasalização;
+e _ruim_, que dialectalmente se profere _r[~u]i_, será dissílabo, e não
+monossílabo.
+
+À vogal _â_, nasal, fixa-se a escrita _ã_, final; às demais vogais, e a
+_ã_ quando no comêço ou interior do vocábulo não se alterará a escrita
+já adoptada, _am_, _an_, _em_, _en_, _im_, _in_, _om_, _on_, _um_, _un_.
+
+Em obras didácticas, porêm, é licito indicá-las, com maior exactidão,
+por _ã_, _[~e]_, _[~i]_, _õ_, _[~u]_, e ao ditongo nasal _em_ por
+_[~e]i_, quando a clareza da exposição o exija.
+
+O sinal (") ou cimalhas, ápices, cuja função em várias ortografias a
+maioria da Comissão atribui ao acento grave (`), fica reservado para
+denotar, em obras da espécie designada, o valor do ou dialectal (_öu_,
+_ö_, _[o:]_) e o do _u_ igualmente dialectal (_ü_); o _ë_ servirá para
+representar em especial o _e_ fechado, antes de palatal, que varia de
+valor, entre _ê_ e _â_, dos estremos para o centro de Portugal, como em
+_seja_, _fecho_, _selha_, _senha_, etc. São sinais êstes que nenhuma
+aplicação tem na escrita comum, na qual, portanto, palavras com _exodo_,
+_exito_ serão acentuadas _êxito_, _êxodo_, e não _ëxito_, _ëxodo_, ou
+_ëisito_, _ëisodo_, como é a sua pronunciação.
+
+A acentuação gráfica tem como primeiro fim acusar a sílaba tónica,
+considerando-se que o til (~) vale por acento tónico, se outro não
+existe marcado no vocábulo ou forma; acusa ainda êsse acento a tónica
+predominante, se há mais de uma, e ainda, em monossílabos, que estes não
+são átonos. Esta acentuação denomina-se p r o s ó d i c a, e compreende
+não só oa dois casos indicados, mas igualmente outros acidentes
+vocabulares, como a desunião de vogais que geralmente formam ditongos.
+
+Um bom sistema de acentuação deve ser tal que, ou a sílaba predominante
+se assinale na escrita, ou não, quem lê nenhuma hesitação possa ter
+sôbre qual seja essa sílaba. Com o sistema proposto pela Comissão é
+satisfeito êste preceito fundamental com tanta pontualidade, quanta
+observamos na ortografia castelhana, ou na toscana, segundo o plano de
+Petròcchi. O sinal do acento tónico é o agudo nas vogais _a_, _i_, _u_,
+_e_ e _o_ abertos, o circunflexo em _a_, _e_, _o_ fechados, e o til na
+vogal final _ã_, e nos ditongos nasais _ãe_, _õe_, _ão_.
+
+Na vogal nasal _ã_, ou em _a_ antes de consoante nasal, adopta a
+Comissão igualmente o acento circunflexo, _ânsia_, _ânimo_, em atenção a
+que êsse _a_ se profere fechado na maioria do país. O VOCABULÁRIO marcou
+as vogais nasais ou antes de nasal com o acento agudo, como sinal geral
+da sílaba predominante, e deve ter isso em consideração quem o
+consultar.
+
+Outra acentuação gráfica se propõe, generalizando e fixando usos mais ou
+menos estabelecidos, e esta pode denominar-se d i s t i n t i v a.
+Consiste no emprêgo do circunflexo (^) sôbre todos os _ee_ e _oo_
+fechados de monossílabos, ou de vocábulos polissilábicos inteiros, isto
+é, com a penúltima sílaba predominante, quando outros existam em que
+tais vogais sejam abertas, como já ficou indicado: _rêgo_, _rego_;
+_rôgo_, _rogo_.
+
+Deve ter-se em atenção que, sendo toda a acentuação vocabular, e sempre
+fonética, quando um qualquer vocábulo, na sua flexão, ou nos seus
+derivados, muda de estrutura com relação à acentuação que exigia, esta
+mantêm-se, perde-se ou adquíre-se, conforme as novas condições a que a
+forma, ou o derivado, ficam sujeitos. Dêste modo, a palavra _cortês_, no
+plural dispensa o acento, _corteses_; _batéis_, muda o agudo para grave
+em _batèizinhos_; _fugira_, será, na 2.^a pessoa do plural, _fugíreis_.
+
+Regulou a Comissão tambêm o emprêgo do hífen, o dos pontos de
+interrogação e exclamação, o das letras maiúsculas, e o do apóstrofo
+('), que recomenda seja o mais parcimonioso possível, pois o abuso que
+dêste sinal se tem feito, onde é erróneo ou desnecessário, nenhuma
+vantagem traz à fácil leìtura, antes a embaraça, e é uma desastrada
+imitação da ortografia francesa, que muito desfeia a escrita,
+complicando-a, bem como à composição tipográfica. A maioria das elisões
+de vogais átonas, e a bem dizer todas as crases de vogais consecutivas
+são evidentes, e portanto desnecessário é indicá-las na escrita usual.
+No emtanto, fixa a Comissão a união em uma só dição para os seguintes
+pronomes e advérbios acompanhados de preposição, quando os primeiros não
+rejam orações de infinito: _dêle_, _nele_, _dela_, _nela_, _dêste_,
+_neste_, _desta_, _dessa_, _daquela_, _nesta_, _nessa_, _naquela_,
+_àquele_, _àquela_, _dum_, _num_, _daqui_, _daí_, _dali_, _aonde_,
+_donde_, e para os plurais dêsses pronomes, em harmonia com as formas já
+empregadas _do(s)_, _da(s)_, _no(s)_, _na(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_,
+(_em-no_, _per-lo_), onde a elisão se não indicou jàmais; assim tambêm,
+_doutro_, _noutro_.
+
+Efectivamente, a indicação por apóstrofo em formas tais como _d'um_,
+_d'êle_, para não falar nos erros crassíssimos _n'um_, _n'êle_, é tam
+inútil, como o seria escrevermos _vint'e um_, _géner'humano_,
+_vic'-almirante_, em vez de _vinte e um_, _género humano_,
+_vice-almirante_, conquanto o _e_ de _vinte_ e o de _vice_, assim como o
+_o_ de _género_ se elidam na pronunciação dessas dições.
+
+Ninguêm ainda julgou necessário indicar-se por apóstrofo a crase de _ao_
+em _dezóito_ por _dezaoito_; confrontem-se _dezasseis_, _dezassete_,
+_dezanove_, e as formas toscanas _diciassette_, _diciannove_. As formas
+escritas, moderníssimas, _dezeseis_, _dezesete_, _dezenove_ são erróneas
+e não correspondem por modo algum à sua pronúncia, pois ninguêm profere
+_dèzisseis_, _dèzissete_, _dèsinove_, como o exigiria esta formação, se
+nela entrasse a conjunção _e_, que se pronuncia _i_. O povo diz, e muito
+bem, e dantes sempre assim se escreveram, _dezasseis_, _dezassete_,
+_dezanove_, única escrita legitima, perfeitamente concorde com a toscana
+acima citada, e com a pronúncia quer italiana, quer portuguesa.
+
+Fora dos casos indicados, a preposição _de_ assim se escreverá, seja, ou
+não, elidido o _e_ na enunciação.
+
+Aconselha a Comissão o emprêgo dos pontos de interrogação e exclamação
+invertidos (¿¡) no comêço das orações dessa espécie, quando sejam muito
+longas, como se faz na ortografia espanhola; e com tanto maior empenho,
+quanto é certo que, sem tal indicação prévia, muitas vezes será errada a
+leitura, ou ficará incerto o sentido. As duas interrogações
+distintas--_Queres vinho ou água?_, e _¿Queres vinho, ou água?_ não se
+equivalem nem no sentido, nem na entoação.
+
+O hífen ou linha divisória (-) utiliza-o e preceitua-o a Comissão nos
+seguintes casos:
+
+a) Separar de uma linha para a outra as sílabas de um vocábulo,
+repetindo-se na linha imediata o sinal, se o vocábulo já de si contêm a
+linha divisória, por ser composto.
+
+b) Unir entre si os dois elementos de uma dição composta, quando cada um
+dêles tem existência independente em português, e conserva a sua
+acentuação própria.
+
+c) Unir às formas _hei_, _hás_, _há_, _hão_, do verbo _haver_, a
+preposição _de_, enclítica: _hei-de_, _hás-de_, _há-de_, _hão-de_.
+
+d) Separar nos vocábulos compostos com _bem_, _mal_ o _m_ e o _l_ para
+evitar erros de leitura; ex.: _bem-aventurado_, _mal-aventurado_.
+
+
+São estes os principais fundamentos e preceitos da projectada reforma
+ortográfica, pela Comissão julgada oportuna e de fácil execução, para
+que de ora em diante seja recomendada como obrigatória em publicações
+oficiais e no ensino público, e por isso a propõe. As simplificações e a
+regularização apontadas já tem sido empregadas em parte em muitos livros
+e alguns periódicos, se bem que quási sempre com menor coerência e rigor
+do que a Comissão as preceitua, e sem formarem corpo de doutrina
+explicada e motivada, como formam no Formulário e no Prontuário
+ortográficos com que termina esta exposição e que vão em seguimento. Se
+exceptuarmos o VOCABULÁRIO e a ORTOGRAFIA NACIONAL já mencionados, e
+cujo sistema só pequenas alterações sofreu, são êsse Formulário e êsse
+Prontuário os primeiros trabalhos metódicos e completos sôbre êste
+assunto.
+
+A Comissão nem por um momento perdeu de vista que a primacial vantagem
+de uma ortografia oficial é favorecer o ensino fácil da leitura e da
+escrita, tanto quanto um idioma secularmente literário o permite,
+tomando-se por base a história do idioma pátrio, para que êle se
+perpetue no futuro, como do passado até o presente perdurou, sempre
+idêntico a si próprio, apesar da sua inevitável evolução.
+
+
+
+
+FORMULÁRIO ORTOGRÁFICO
+
+CONFORME O PLANO DE
+
+REGULARIZAÇÃO E SIMPLIFICAÇÃO DA ESCRITA PORTUGUESA
+
+
+I. São proscritas de todas as palavras portuguesas, ou aportuguesadas,
+as letras _k_, _w_, _y_, as quais serão respectivamente substituídas
+pelas seguintes: _k_ por _qu_ antes de _e_, _i_, por _c_ em qualquer
+outra situação; _w_ por _u_, ou por _v_, conforme fôr a sua pronúncia;
+_y_ por _i_. Escreveremos, pois, _caleidoscópio_, _quermes_,
+_neutoniano_, _Venceslau_, _valsa_, _tipo_, _lira_, _fisiologia_, etc.
+
+Excepções: 1.^a Poderão usar-se essas letras em vocábulos derivados de
+nomes próprios estrangeiros, em que sejam legítimamente empregadas; ex.:
+_kantismo_, _darwinismo_, _byroniano_ (Kant, Darwin, Byron), os quais,
+porêm, será lícito escrever, em harmonia com a pronunciação, _cantismo_,
+_daruìnismo_, _baironiano_. Confrontem-se _Copérnico_, de _Kopernik_,
+_Antuérpia_, de _Antwerp_, _(h)iate_, de _yacht_.
+
+2.^a Continuam em uso os símbolos _W_, para denotar o _Oeste_, e _K_
+como abreviatura de unidade métrica, e tambêm na forma internacional
+_kilo..._, que todavia se poderá escrever _quilo..._; tanto mais, que o
+_k_ é um grosseiro êrro nesta palavra, pois o correspondente termo grego
+se escreve com [Grego: _ch_] e não [Grego: _k_].
+
+II. O abecedário empregado em português ficará consistindo nas seguintes
+letras, e suas combinações, e portanto sómente com umas ou com outras se
+escreverão todas as palavras portuguesas, ou aportuguesadas. Essas
+letras e combinações são: _a b c ç ch d e f g h i j l lh m n nh o p qu r
+(rr) s (ss) t u v x z_.
+
+III. É eliminada a letra _h_ do interior de todos os vocábulos
+portugueses, com excepção do seu emprêgo, como sinal diacrítico, nas
+combinações _ch_, _lh_, _nh_, com os valores que as seguintes palavras
+exemplificam, e únicamente para êles: _chave_, _malha_, _manha_.
+Portanto, escrever-se hão, sem _h_, _inibir_, _exortar_, etc., e,
+semelhantemente, _saír_, _coerente_, _proìbir_, etc.
+
+IV. É conservado o _h_ inicial, quando a etimologia o justifique, como
+em _homem_, _humano_, _honra_, _hoje_; mas abolido onde é erróneo, como
+em _hontem_, _hir_, _hombro_, que se escreverão _ontem_, _ir_, _ombro_.
+
+Quando a uma qualquer palavra com _h_ inicial etimológico se acrescentar
+prefixo, suprimir-se há o _h_; ex.: _desumano_, _inumano_, _desonra_,
+_filarmónica_, _desistória_, etc.
+
+V. É lícito escrever _h_ final, como sinal de interjeição, _ah!_ _oh!_;
+mas é proscrita esta letra final em todos os mais vocábulos; ex.:
+_Sara_, _Judá_, _raja_ ou _rajá_, etc.
+
+VI. Em harmonia com a cláusula III é eliminado o _h_ dos grupos _rh_,
+_th_, ou outros quaisquer, inexactamente denominados etimológicos, e
+portanto escrever-se há _teatro_, _retórica_, _aderir_, _aborrecer_,
+_sirgo_, _sorgo_, _caridade_, _cristão_, _Cristo_, _monarca_, _técnica_,
+_cloro_, etc. O grupo _ch_, com o valor de _k_ antes de _e_, _i_, será
+substituído por _qu_; ex.: _monarquia_, _arquitecto_, _química_,
+_querubim_. O grupo _ph_ será expresso por _f_; ex.: _filosofia_,
+_frase_, _fenício_, _farol_, _física_, _fisiologia_, _ninfa_, _profeta_,
+etc. Assim tambêm escreveremos _ditongo_, _tísica_, _apotegma_, etc.
+
+VII. Nenhuma consoante se duplicará no interior ou fim de vocábulo,
+senão quando a pronunciação assim o exija, o que só acontece com _rr_,
+_ss_, _mm_, _nn_, como nas seguintes palavras: _carro_, _cassa_,
+_emmalar_, _ennegrecer_.
+
+Nesta conformidade, escrever-se hão com letras singelas as seguintes
+palavras, e outras que é hábito escrever com letras dobradas: _abade_,
+_acusar_, _adição_, _afecto_, _sugerir_, _agravo_, _êle_, _ela_,
+_aludir_, _chama_, _pano_, _anexo_, _aparecer_, _atribuir_, _meter_,
+_atitude_, etc. As letras _r_ e _s_ dobram-se, se a pronúncia o exije,
+quando a qualquer vocábulo se antepõe prefixo terminado em vogal; ex.:
+_pressentir_, _prorrogar_, _ressuscitar_: cf. _arrasar_, de _raso_,
+_assegurar_, de _seguro_.
+
+VIII. São suprimidas as consoantes mudas, quando não influam no valor
+das vogais que as precedem; ex.: _autor_, _restrito_, _produto_,
+_produção_, _pronto_, _presunção_, _satisfação_, _praticar_, _tratar_,
+_retratar_, _sinal_, _Madalena_, _aumento_, _Inácio_, _Inês_, _assunto_,
+_assinar_, _sono_, _dano_, _condenar_, etc.
+
+IX. São conservadas as consoantes, usualmente mudas, quando
+facultativamente se profiram, ou quando influam no valor da vogal que as
+precede; ex.: _contracção_, _reacção_, _direcção_, _excepção_,
+_adoptar_, _adopção_, _espectáculo_, _carácter_, _rectidão_.
+
+Neste caso os vocábulos aparentados, em que essas vogais pertençam à
+sílaba predominante do vocábulo, conservarão, por analogia, a consoante
+muda; ex.; _contracto_, _directo_, _excepto_, _adopto_, _caracterizar_,
+_recto_, _acto_, em razão de _activo_, _acção_, etc.
+
+X. O emprêgo acertado das letras _ce_, _ci_, alternando com _(s)se_,
+_(s)si_, ou no interior do vocábulo o de _ç_, alternando com _ss_,
+depende da origem dêsses vocábulos e do valor que as ditas letras
+indicavam, quando a pronunciação delas diferia, como ainda hoje difere
+dialectalmente em várias regiões do norte de Portugal. A consulta ao
+VOCABULÁRIO é indispensável para decidir da escolha. Como regra geral,
+_ce_, _ci_, _-ç-_ correspondem a _ce_, _ci_, _ti_ latinos, a _ce_, _ci_,
+_za_, _zo_, _zu_ do castelhano actual, a _ss_ arábicos, ou pertencem a
+vocábulos de origem americana indígena, transcritos pelos autores
+peninsulares.
+
+Fica banido o _ç_ inicial, que será substituído por _s_ nos poucos
+vocábulos em que etimológicamente figuraria; ex.: _sapato_, _sarça_, e
+não _çapato_, _çarça_, como antes se escrevia, e ainda uma ou outra vez
+se escreve.
+
+XI. É conservado o grupo inicial _sc_, das seguintes palavras e seus
+derivados e afins, em que o _s_ é mudo: _scena_, _sciência_, _scetro_,
+_scéptico_, _scisma_, _scisão_, _sciático_, _scintilar_, _scelerado_, e
+algum outro menos usual.
+
+XII. O emprêgo de _ch_ ou de _x_, os quais histórica e ainda
+dialectalmente não eram nem são idênticos no valor fonético, regula-se
+pela sua origem, e a consulta ao VOCABULÁRIO torna-se necessária. Deve
+ter-se em atenção que _ch_ corresponde a _cl_, _fl_, _pl_, _t'l_
+latinos, e a _ch_ francês nas palavras desta origem; _x_ corresponde a
+_x_ e a _s_ latinos. Nos vocábulos de origem arábica o emprêgo de _x_, e
+não de _ch_, é de rigor; assim, _xeque_, e não _che(i)k_.
+
+XIII. A escrita dos ditongos orais é a seguinte: _ai_, _éi_, _ei_, _ói_,
+_oi_, _ui_, _au_, _éu_, _eu_, _iu_, _ou_, como em _ensaio_, _ensaiar_,
+_batéis_, _bateis_ (de _bater_), _sóis_ (de _sol_), _sois_ (verbo),
+_fui_, _pau_, _céu_, _seu_, _viu_, _grou_, e portanto _pai(s)_,
+_amai(s)_, _gerais_, _réis_, _rei(s)_, _faróis_, _róis_ (nome plural e
+verbo), _azuis_, etc. Ficam abolidas as escritas _ae_, _oe_, _ue_, _ao_,
+_eo_, para estes ditongos, quer em nomes, quer em formas verbais.
+
+XIV. A escrita dos ditongos nasais é: _ãe_, _em_ (_ens_), _õe_, _ão_,
+como em _mãe(s)_, _bem_, _bens_, _põe(s)_, _botões_, _cães_, _mão(s)_,
+_órfão(s)_, _cidadão(s)_.
+
+Escrever-se hão com _am_ final, em vez de _ão_, as formas verbais em que
+essa terminação seja átona, como _louvam_, _louvaram_ (presente e
+pretérito), diferente de _louvarão_ (futuro).
+
+Os vocábulos terminados no ditongo _em_ (equivalente a _[~e]i_)
+receberão o acento circunflexo quando forem polissílabos com a última
+sílaba predominante. Dêste modo _porem_, do verbo _pôr_, diferençar-se
+há de _porêm_, conjunção; _contêm_, do verbo _conter_, de _contem_, do
+verbo _contar_; assim igualmente, _armazêm_, _vintêm_, _vintêns_,
+_alguêm_, mas _viagem_, _origem_. (=_viágem_, _orígem_).
+
+Os monossílabos com esta terminação dispensam a acentuação gráfica, por
+ser ociosa, e para que fiquem em harmonia com outros monossílabos
+terminados em vogal, nasal; ex.: _bem_, _bens_, _tem_, _tens_;
+comparem-se _fim_, _som_, _um_; _fins_, _sons_, _uns_.
+
+O ditongo _[~u]i_ de _muito_, _mui_ dispensa igualmente o til na escrita
+usual.
+
+XV. A grafia das vogais nasais finais será a seguinte, já consagrada:
+_ã(s)_, _im_, _ins_, _om_, _ons_, _um_, _uns_, como em _lã(s)_,
+_irmã(s)_, _órfã(s)_, _fim_, _fins_, _marfim_, _marfins_, _som_, _sons_,
+_jejum_, _jejuns_.
+
+No interior dos vocábulos é a nasalidade da vogal expressa por _m_ antes
+de _b_, _p_, _m_, e por _n_ em qualquer outra situação, o que é já uso
+estabelecido, mas ao qual convêm não se fazerem excepções; assim
+escreveremos _circunstância_, _circunscrever_, _conquanto_, com _n_, e
+não com _m_.
+
+XVI. É conservado ao _e_ inicial átono o valor que tem de _i_ em muitos
+vocábulos, como _erguer_, _herdeiro_, _evitar_, _elogio_; sendo porêm
+substituído por _i_ nas palavras _igual_, _idade_, _igreja_ e seus
+derivados, ortografia anterior que se lhes restabelece. É
+semelhantemente conservado o _e_ com o valor de _i_ átono antes de
+vogal, quando a analogia ou a etimologia o recomendem; ex.: _fealdade_,
+_desfear_, de _feio_ (cf. _desfiar_, de _fio_), _ideal_, _meada_,
+_reagente_, etc. Restabelece-se porêm a verdadeira ortografia de _pior_,
+_lial_, _rial_ (antes _peior_, _leial_, _reial_), em que um _ei_
+anterior se condensou em _i_, como aconteceu com _igreja_ (forma antiga
+_eigreja_) e como ainda hoje acontece com o prefixo _eis-_ (_ex-_), que
+é usualmente pronunciado _is_. O último exemplo citado, _rial_, de
+_rei_, fica assim diferençado de _real_, procedente do latim r_e_s.
+
+O verbo _criar_ será semelhantemente escrito com _i_, pois a sua
+conjugação é _crio_, _crias_, e não _creio_, _creias_, e portanto
+escreveremos tambêm _criador_, _criatura_, _criança_, qualquer que seja
+a acepção em que se tomem tais palavras. O verbo _recrear_, todavia,
+escrever-se há com _e_, porque a sua conjugação é com _ei_, _recreio_,
+_recreias_; devendo ter-se em atenção que o _i_ intercalar, para evitar
+o hiato _recreo_, só tem cabimento quando o _e_ do radical é
+predominante, e conseguintemente escreveremos _passear_, _cear_,
+_desfear_, _passeio_, _ceio_, _desfeio_, e não _passeiar_, _ceiar_, etc.
+
+Há considerável número de verbos, como _alumiar_, _gloriar_, _aviar_,
+que se conjugam _alumio_, _glorio_, _avio_, sendo portanto a vogal final
+do seu radical _i_ e não _e_. Todavia, por influência daqueles em que
+essa vogal radical é, pelo contrário, _e_, que átono se profere _i_,
+alguns verbos em _iar_ confundiram-se com êsses, e é já hoje
+impraticável a correcção. Os principais dêstes verbos são os seguintes,
+e convêm que não se traslade a outros a irregularidade que se manifesta
+neles: _ansiar_, _anseio_; _negociar_, _negoceio_; _obsequiar_,
+_obsequeio_; _premiar_, _premeio_; _odiar_, _odeio_; _remediar_,
+_remedeio_. Em outros, menos triviais, é duvidoso o modo de os conjugar,
+como _licenciar_, _presenciar_, _sentenciar_, que muitos preferem
+conjugar _licencio_, _presencio_, _sentencio_, conquanto as formas
+_licenceio_, _presenceio_, _sentenceio_ sejam muito mais usuais. É claro
+que a irregularidade se não deve trasladar aos substantivos
+correspondentes, e que portanto escreveremos _ánsia_ (e não _âncea_ ou
+_ância_), _negócio_, _obséquio_, _ódio_, _prémio_, _remédio_, e assim
+tambêm com i os derivados, _odioso_, _obsequioso_, etc.
+
+XVII. Na pronúncia do sul de Portugal o _s_ antes de consoante surda, e
+quando é final, profere-se como _x_ atenuado, e sendo a consoante
+sonora, como _j_, igualmente atenuado. Se em tais condições está
+precedido de _e_ surdo, êste _e_, por assimilação, palataliza-se e fica
+sendo igual a _i_ na mesma situação, de modo que os dois vocábulos
+_pescar_ e _piscar_ só artificialmente se distinguem; assim tambêm a
+primeira sílaba de _esteira_ confunde-se com a primeira sílaba de
+_história_, e tanto, que antigamente se escrevia _estórea_ (com _ea_,
+para se evitar a leitura _estorja_, pois nenhuma diferença gráfica se
+fazia entre _i_ e _j_). Para quem profira do mesmo modo _es_ e _is_,
+átonos, é necessário recomendar que se regule pelas formas em que _e_ ou
+_i_ sejam predominantes, a fim de acertar com a devida escrita. No
+exemplo citado, _pescar_ procede de _pesca_, e portanto com _e_ se
+escreverá; _piscar_, de _pisco_, ortografar-se há com _i_.
+
+A confusão entre _es_ e _is_ mais freqùente, e que dá margem a inúmeros
+erros de ortografia, ocorre com os prefixos _des-_ e _dis-_. É
+usualíssimo ver-se escrito _destribuição_, por exemplo. Cumpre advertir
+que o valor dêstes dois prefixos, assim confundidos na pronúncia
+meridional, é diverso: _des-_, é privativo, _dis-_ indica «repartição,
+divisão». Escreveremos pois _destinto_ com _e_, de _destingir_, de
+_tingir_, _distinto_ com _i_ de _distinguir_, e assim tambêm
+_dispersar_, _discrição_ (que se não deve confundir com _descrição_, de
+_descrever_), _discórdia_, _discorrer_, etc.
+
+XVIII. Sendo o _e_ átono, antes de consoante palatal, _ch_, _x_, _j_,
+_lh_, _nh_, por assimilação igual a _i_ surdo, dá-se freqùentemente a
+dúvida sobre a escrita com _e_ ou com _i_, em sílabas átonas. Convêm, do
+mesmo modo, recorrer ás formas em que a vogal duvidosa seja
+predominante; assim, _lenheiro_, de _lenha_, escrever-se há com _e_,
+_linheiro_, de _linho_, com _i_.
+
+XIX. Por outra parte, no centro de Portugal o _e_ fechado antes das
+mencionadas consoantes palatais _ch_, _x_, _j_, _lh_, _nh_ profere-se
+como _â_, e esta pronúncia vai-se difundindo cada vez mais no país:
+_fecho_, _cereja_, _selha_, _senha_ são pronunciados _fâxo_, _cerâja_,
+_sâlha_, _sânha_. Valendo o _a_ antes de consoante nasal, _m_, _n_, _nh_
+por _â_ fechado, em geral, produz-se, pela concorrência destas duas leis
+fonéticas, onde elas predominam, a confusão entre _senha_, «sinal», e
+_sanha_, «ira», entre _lenho_, «madeiro», e _lanho_, «golpe».
+
+Para não se deformar a língua pátria, torna-se essencial a devida
+distinção gráfica, ainda quando se não observe na fala, e é fácil
+acertar-se com a escrita, se se atender à pronúncia dessa vogal,
+duvidosa quando tónica, em formas nas quais ela seja átona: _sanha_,
+«ira», escreve-se com _a_, porque dizemos _assanhar_, e não _assenhar_,
+ao passo que um verbo derivado de _senha_ (s_i_g_n_a, latino)
+_desenhar_, se não profere _desanhar_; _lanho_, «golpe», tem um derivado
+_alanhar_, que não é _alenhar_, e conseguintemente deve escrever-se com
+_a_.
+
+XX. Continua o emprêgo tradicional de _o_ átono valendo por _u_, quer
+final, quer medial, quer inicial, ou êle seja analógico, como em
+_formosura_, de _formoso_, de _forma_, _porteiro_, de _porta_, _correr_,
+_côrro_, _corres_, ou etimológico como em _monumento_, latim
+_monumentum_, _governar_, castelhano _gobernar_, latim popular
+_g o b e r n a r e_, latim clássico g [)u] b e r n a r e. Na escrita
+será indispensável atender-se á forma primitiva, portuguesa ou latina,
+ou recorrer-se ao competente VOCABULÁRIO, pois os casos duvidosos, para
+os indoutos, são aos milhares.
+
+Antes de vogal como em _mágoa_, _nódoa_, a conjugação dos respectivos
+verbos, _magoar_, _magôa_, _ennodoar_, _ennodôa_, como em _soar_, _sôa_,
+indica a escrita correcta. Com verbos como _aguar_, cuja conjugação é
+incerta, é preferível escrevê-los com _u_, e assim tambêm _água_,
+_régua_, _légua_, visto que a razão da escrita com _o_ era
+principalmente o evitar-se que _u_ fosse lido como _v_, quando nenhuma
+distinção fixa e assente existia, para se determinar quando as duas
+formas _u_, _v_ eram consoantes ou vogais. Feita a distinção, como há
+mais de um século se faz, quer na escrita, quer na imprensa, deixaram de
+ser necessários êsse e outros expedientes gráficos, como a adjunção de
+_h_ a _u_ ou a _i_, para indicar serem vogais, e não consoantes, o que
+motivou as grafias _hiate_, _huivar_, _hia_, para que _uivar_, _iate_,
+_ia_ se não lessem _vivar_, _jate_, _já_. Alguns _hh_ e alguns _oo_ teem
+essa origem a explicá-los.
+
+XXI. No centro de Portugal o digrama _ou_, quando tónico, confunde-se na
+pronunciação com _ô_, fechado. A diferença entre os dois símbolos, _ô_,
+_ou_, é de rigor que se mantenha, não só porque, histórica e
+tradicionalmente, êles sempre foram e continuam a ser diferençados na
+escrita, mas tambêm porque a distinção de valor se observa em grande
+parte do país, do Mondego para norte. Outra razão se deve apontar ainda,
+e essa é que _ou_ átono ou conserva o valor que lhe é próprio, ou,
+popularmente, se profere _ò_; ao passo que _ô_ vale por _u_ nas sílabas
+átonas; assim, por exemplo, _roubar_, de _roubo_, não altera o valor do
+_ou_ do radical, o que não acontece, por exemplo, com _rogar_, de
+_rôgo_, em que _o_ vale por _u_, se não é predominante. Duas excepções,
+pelo menos, existem modernamente: _apoquentar_, de _pouco_, e
+_aposentar_, de _pouso_, que antes eram _apouquentar_, _apousentar_. A
+redução deve ter tido origem no sul, em que _ou_ se confunde com _ô_.
+
+Êste ditongo _ou_ alterna em quási todos os vocábulos com o ditongo
+_oi_, ao qual muitos dão a preferência, exceptuando porêm certos
+vocábulos como _outro_, _roubo_, etc. A alternância dá-se principalmente
+antes de _r_, _s_, como em _ouro_, _cousa_; _oiro_, _coisa_.
+
+Quem prefira _oi_ a _ou_ assim escreverá, pois qualquer das formas é
+lícita na maioria dos vocábulos, como se disse. Nas formas verbais,
+porêm, como a 3.^a pessoa do singular do pretérito _louvou_, não é
+admitido o ditongo _oi_ por _ou_, nem tampouco em _coube_, _soube_,
+_trouxe_, etc.
+
+Advertir-se há que é errónea a forma _poude_ em vez de _pude_, 1.^a
+pessoa, e _pôde_, 3.^a pessoa do presente do verbo _poder_, que tem
+origem diferente (p o t u i, p o t u i t, latinos) da que vemos em
+_coube_, _soube_ (lat. c a p u i (t), s a p u i (t)), comum à 1.^a e
+3.^a pessoas do mesmo tempo verbal dos verbos _caber_ e _saber_. Um
+qualquer indivíduo, originário das regiões em que _ou_ é diferente de
+_ô_ no valor, não conjugará jamais assim erradamente o verbo _poder_,
+nas duas formas citadas, nas quais não há o ditongo _ou_, como em
+_coube_, _soube_, _trouxe_, mas sim _u_ e _ô_ fechado.
+
+XXII. Acentuação gráfica.
+
+Como é uso corrente, marcam-se com o devido acento, agudo ou
+circunflexo, os vocábulos terminados em _a_, _e_, _o_ tónicos, seguidos,
+ou não, de _s_, e por analogia os terminados em _em_, _ens_; ex.:
+_alvará(s)_, _louvará(s)_, _maré(s)_, _mercê(s)_, _portaló(s)_,_
+avô(s)_, e bem assim os monossílabos, como _pá(s)_, _sé(s)_, _sê(s)_,
+_só(s)_; _vintêm_, _vintêns_, _contêm_, _contêns_; os monossílabos em
+_em_, _ens_, dispensam a acentuação: _bem_, _bens_, _tem_, _tens_.
+
+XXIII. O sinal denominado til (~) vale por acento tónico quando não haja
+outro acento gráfico a designar a sílaba predominante do vocábulo; ex.:
+_cidadão(s)_, _escrivão_, _escrivães_, _nação_, _nações_, _mão(s)_,
+_mãe(s)_; mas, _ourégão(s)_, _rábão(s)_, _Estêvão_, _Cristóvão_, etc.
+
+XXIV. As palavras terminadas em _i_, _u_, vogal nasal ou ditongo,
+seguidos ou não de _s_, ou em outras consoantes, excepto na terminação
+_em_, _ens_, entende-se terem como sílaba predominante a última, não se
+acentuando portanto gráficamente senão as excepções a esta regra; ex.:
+_javali(s)_, _peru(s)_, _maçã(s)_, _atum_, _atuns_, _marau(s)_,
+_arrais_, _esqueceu_, _judeu(s)_, _painel_, _farei(s)_, _mulher_,
+_vencer_, _timidez_, _feliz_, _arroz_, _alcaçuz_, _lioz_, _alcatruz_;
+mas, _quási_, _Vénus_, _órfã(s)_, _álbum_, _amáveis_, _fácil_, _fáceis_,
+_sável_, _sáveis_, _faríeis_, _alcáçar_, _carácter_ (plural
+_caracteres_), _mártir_, _sóror_, _cônsul_.
+
+XXV. Os nomes terminados em _em_, _ens_, e as formas verbais em _am_,
+_em_, entende-se terem como sílaba predominante a penúltima, que se não
+assinala com acento gráfico; ex. _louvam_, _louvaram_ (cf. _louvarão_,
+futuro), _porem_, _contem_ (dos verbos _pôr_, _contar_), marcando-se o
+acento gráfico quando a sílaba predominante seja a última; ex.: _porêm_,
+_contêm_ (de _conter_), _armazêm_, _armazêns_, _Jerusalêm_, _Belêm_.
+
+XXVI. Todos os vocábulos cuja sílaba predominante seja a antepenúltima
+terão essa sílaba marcada com o competente acento escrito; ex.:
+_sábado(s)_, _câmara(s)_, _cédula(s)_, _pêssego(s)_, _sêmola(s)_,
+_concêntrico(s)_, _título(s)_, _íntimo(s)_, _pródigo(s)_, _cómodo(s)_,
+_lôbrego(s)_, _lúgrube(s)_,_ único(s)_; _área(s)_, _ária(s)_,
+_árduo(s)_, _mágoa(s)_, _contemporâneo(s)_, _Libânio_, _ânuo_,
+_proscénio(s)_, _gémeo(s)_, _ingénuo(s)_, _sêmea(s)_, _virgíneo(s)_,
+_insónia(s)_, _fúria(s)_, _facúndia(s)_, _ândito(s)_, _argênteo(s)_,
+_fímbria(s)_, _vergôntea(s)_, _núncio(s)_, _demónio(s)_, _António_,
+_Antónia_, _infortúnio_, _farmacêutico_, etc.
+
+XXVII. O acento marcado nos esdrúxulos é diferencial com relação aos
+vocábulos que, escritos com as mesmas letras, tenham por sílaba
+predominante a penúltima, ou a última; ex.: _fábrica_, substantivo, e
+_fabrica_, verbo; _réplica_, substantivo, e _replica_, verbo: _índico_,
+adjectivo, e _indico_, verbo; _história_, substantivo, e _historia_
+(_rí_), verbo; _telégrafo_, substantivo, e _telegrafo_ (_grá_), verbo,
+etc.
+
+XXVIII. Quando um qualquer vocábulo que tenha por sílaba predominante a
+penúltima, e cuja vogal nessa sílaba seja _e_ ou _o_ abertos, fôr
+homógrafo com outro em que êsse _e_ ou _o_ seja fechado, marcar-se hão
+êstes com o acento circunflexo. Assim se diferençarão _rêgo_,
+substantivo, e _rego_, verbo: _pêgo_, ave, e _pego_, abismo, ou forma do
+verbo _pegar_; _rôgo_, substantivo, e _rogo_, verbo; _sôbre_,
+preposição, e _sobre_, verbo; _mêdo_, susto, e _medo_, nome étnico;
+_dêmos_, presente do subjuntivo, e _demos_, pretérito (do verbo _dar_).
+
+XXIX. Diferençar-se hão pelo acento agudo os seguintes vocábulos:
+_pára_, verbo, de _para_, preposição; _pélo_, _péla_, de _pêlo_
+substantivo, e de _pelo_, _pela_ (_per lo_, _per la_, _per o_, _per a_);
+_pólo_, substantivo, de _polo_ (forma antiquada, em vez de _pelo_); e
+pelo circunflexo, _pêra_, de _pera_, forma antiga e popular da
+proposição _para_; _quê_, de _que_ proclítico, átono; _cômo_, verbo, de
+_como_, partícula. Pelo agudo se diferençará a forma do pretérito,
+_louvámos_, da do presente, _louvamos_.
+
+XXX. As formas verbais _dêem_, _lêem_, _vêem_, _crêem_ (de _dar_, _ler_,
+_ver_, _crer_) receberão o acento circunflexo, ficando assim distintas
+de outras como _te(e)m_, _ve(e)m_, de _ter_, _vir_.
+
+XXXI. Quando a segunda de duas vogais consecutivas seja _i_ ou _u_, que
+não forme ditongo com a vogal precedente, marcar-se há com o acento
+agudo, se fôr tónica; ex.: _saí_, _saída_, _faísca_, _saúde_,
+_balaústre_, _raízes_, _baú(s)_. Se fôr átona pode assinalar-se com o
+acento grave; ex.: _saìmento_, _faìscar_, _saùdar_, _enraìzado_,
+_abaùlado_. É licito dispensar-se o agudo se a consoante seguinte não
+fôr _s_; ex.: _ainda_, _raiz_, _sair_, contanto que não inicie outra
+sílaba. Podem, portanto, escrever-se _Coimbra_, _raiz_, _sair_, sem
+acento, mas exigem-no _saída_, _saíra_, _saúde_, _raízes_, _ataúde_,
+etc.
+
+XXXII. Os ditongos _éi_, _ói_, _éu_, sempre finais tónicos, receberão o
+acento agudo, que os diferença de _ei_, _oi_, _eu_, fechados; ex.:
+_painéis_, _heróis_, _chapéus_; em _réis_, _batéis_, _papéis_, _sóis_
+êsse acento distingue tais vocábulos dos seus homógrafos _reis_ (de
+_rei_), _bateis_, _papeis_ (de _bater_, _papar_), _sois_ (do verbo
+_ser_). Outros exemplos são _bóia_, _jóia_ (cf. _joio_, com _o_
+fechado), _gibóia_, _herói(s)_, etc.
+
+XXXIII. Hífen.
+
+Os vocábulos compostos cujos elementos conservam a aua independência
+fonética unem-se por hífen (-) e conservam igualmente a sua acentuação;
+ex.: _água-pé_, _pára-raios_, _guarda-pó_. O hífen repetir-se há na
+linha imediata, quando por êle se faça a separação silábica de linha
+para linha; ex.: _pára-/-raios_. Quando um dos termos do vocábulo
+composto não existe independente em português, na sua forma integral,
+unem-se os dois elementos sem hífen; ex.: _clarabóia_, _fidalgo_. Outro
+tanto se fará quando a noção do composto se haja perdido, como em
+_solfa_, _dezoito_ (_dez-a-oito_).
+
+XXXIV. O hífen será utilizado tambêm nos seguintes casos:
+
+a) Unir os pronomes pessoais enclíticos aos respectivos verbos, de que
+são complemento; ex.: _louvá-lo_, _devê-lo_, _puni-lo_, _dá-nos_,
+_dou-vos_, _falo-lhes_, etc. A acentuação do verbo mantêm-se, como se
+não se lhes unissem êsses complementos. São erros inadmissíveis, mas
+muito freqùentes, _louval-o_, _devel-o_, _punil-o_, etc.
+
+b) Os advérbios _mal_, _bem_, formando o primeiro elemento de um
+composto, unem-se ao segundo elemento por hífen, quando sem êle a
+soletração seria errada; ex.: _bem-aventurança_, _mal-logrado_, para que
+se não leiam _be maventurança_, _ma logrado_. Este último, todavia, pode
+ler-se tambêm _malogrado_, pois dizemos _malograr_, _malôgro_.
+
+A palavra _aguardente_ formará o seu plural como _aguardentes_; se porém
+se preferir separar os dois elementos, _água-ardente_, o plural será
+_águas-ardentes_.
+
+XXXV. Há vocábulos que, sendo derivados, seguem a analogia dos vocábulos
+compostos, com os seus elementos unidos por hífen, em terem dois acentos
+tónicos dos quais é predominante o segundo; são êles os aumentativos e
+deminutivos formados com o infixo _z_, e os advérbios derivados com o
+sufixo _-mente_. Se os adjectivos ou substantivos de que se formam
+terminam em vogal com acento agudo, muda-se êste em acento grave, ex.:
+_sòzinho_, _cafèzinho_, _màzona_, etc. Esta mudança tem por causa o
+evitar-se que, escrevendo-se _mázona_, por exemplo, se entenda ser a
+primeira a sílaba predominante. Nos advérbios, porêm, formados com o
+referido sufixo _-mente_, que antes era um substantivo, a acentuação com
+o agudo, ou o circunflexo mantêm-se, por não poder dar-se a confusão
+apontada: _fácilmente_, _cortêsmente_, _sómente_.
+
+XXXVI. Apóstrofo.
+
+É quasi abolido êste sinal ortográfico, absolutamente inútil para a
+leitura, e de introdução relativamente moderna. O seu emprêgo limitar-se
+há a indicar, principalmente na poesia, a supressão de uma letra, que
+usualmente se escreve na prosa, como em _esp'rança_, _mer'cer_,
+_par'cer_, _c'roa_, _p'ra_, _'star_, etc. Pode, tambêm, usar-se no
+interior das dições compostas, quando nelas se faça elisão do _e_ da
+preposição _de_, como em _mãe-d'água_.
+
+XXXVII. Os pronomes complementos enclíticos de verbos escrever-se hão
+como nos exemplos seguintes: _tenho-o_, _tem-lo_, _tem-no_, _temo-lo_,
+_tende-lo_; _louvá-los_, _devê-los_, _uni-los_; _louva-los_, _deve-los_,
+_une-los_; _vê-mo_, _vê-to_, _vê-lho_, _vê-no-lo_, _dava-vo-lo_,
+_vêem-se-lhe_, _comprámo-la_, sem se indicar por apóstrofo a supressão
+de _e_ e de _s_, que é de regra; _tem-lo_, está por _tens-lo_, _vê-mo_,
+por _vê-me-o_. O verbo conserva a acentuação marcada que lhe competiria
+sem complementos, e assim é a sua pronunciação.
+
+XXXVIII. Reúnem-se em uma só dição, sem apóstrofo ou hífen, os seguintes
+pronomes, precedidos das preposições _a_, _de_, _em_, _por_; _ao(s)_,
+_à(s)_, _do(s)_, _da(s)_, _àquele(s)_, _àquela(s)_, _dele(s)_,
+_dela(s)_, _dêste(s)_, _desta(s)_; _daquele(s)_, _daquela(s)_,
+_dêsse(s)_, _dessa(s)_; _naquele(s)_, _naquela(s)_, _neste(s)_,
+_nesta(s)_, _nesse(s)_, _nessa(s)_; _disto_, _disso_, _daquilo_,
+_nisto_, _nisso_, _naquilo_, _noutro_.
+
+Outro tanto acontece com os artigos _o(s)_, _a(s)_, _um_, _uns_,
+_uma(s)_, e os advérbios _aqui_, _aí_, _ali_, _acolá_, _alêm_, _onde_;
+ex.: _do(s)_, _da(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_, _no(s)_, _na(s)_, _aonde_,
+_donde_, _dali_, _daí_, _dali_, _dacolá_, _dalém_, etc.
+
+Quando porêm esses pronomes rejam orações de infinito, a preposição
+conservar-se há inteira e separada; ex.: _por causa de êles não
+quererem_; _em razão de os não ter visto_.
+
+As demais elisões, que no decurso da fala ou da leitura se costumam
+fazer, não são indicadas na escrita; não se escreverá pois: _d'idade_,
+_d'entrada_, mas sim _de idade_, _de entrada_; pelo mesmo motivo por que
+se não escreve _vint'e um_, conquanto o _e_ de _vinte_ aí se não
+profira. São elisões e crases que é escusado representar na escrita, e
+algumas das quais são facultativas, quer individual, quer
+ocasionalmente.
+
+XXXIX. Divisão silábica.
+
+A divisão de um vocábulo qualquer simples em sílabas far-se há
+fonéticamente pela soletração e não pela separação dos seus elementos de
+derivação, composição ou formação, contanto que a dição composta não
+tenha os seus elementos apartados por hífen (-). Desta maneira
+dividir-se há, por exemplo, _subscrever_, como _subs cre ver_, do mesmo
+modo por que a palavra _escrever_ se não divide como _e scre ver_; e
+_vezes_, _pastora_, como _vez es_, _pastor a_, mas sim como _ve zes_,
+_pasto ra_. Assim, tambêm, _di rec ção_, _a dop tar_, _su búr bios_, _de
+sas tra do_, _de sar mar_, _i ná bil_, _bi sa vô_, _pres tan te_, _cir
+cuns tân cia_, etc., etc.
+
+Para a segunda linha e para a soletração pertencem à vogal que se lhes
+segue as consoantes que podem começar palavra; assim teremos _co bra_,
+_am plo_, porque temos _bra ço_, _pla ga_; _ecli pse_ (cf.
+_psicologia_).
+
+XL. Quando o _s_ dos prefixos _des-_, _dis-_, é seguido de consoante
+separa-se dela; se depois se lhe segue vogal, pertence a esta, e com ela
+forma sílaba; ex.: _des fa zer_, _dis tri buir_, mas _de sen ga nar_,
+_de sen vol ver_.
+
+XLI. Duas consoantes iguais separam-se; ex.: _ar rastar_, _as sistir_,
+_em malar_, _en nastrar_.
+
+XLII. As palavras compostas dividem-se pelos seus componentes; ex.:
+_porta-voz_, _vice-almirante_, repetindo-se na linha inferior o hífen.
+
+XLIII. Nos vocábulos formados com o prefixo _ex-_, fica êste separado do
+segundo elemento, ao dividir-se ou soletrar-se a palavra; ex.: _ex ér ci
+to_, _ex ce der_.
+
+XLIV. São inseparáveis as letras dos seguintes grupos de consoantes:
+_bl_, _cl_, _dl_, _fl_,_gl_, _pl_, _tl_, _vl_; _br_, _cr_, _dr_, _fr_,
+_gr_, _pr_, _tr_, _vr_; _ch_, _lh_, _nh_; _sc_, _ps_.
+
+Se, porêm, o _s_ se lê separado do _c_ no interior do vocábulo, separado
+se divide; ex.: _des cer_, _côns ci o_, _pros cé nio_; mas _en sce na
+ção_.
+
+XLV. São igualmente inseparáveis duas vogais consecutivas, formem ou não
+ditongo; ex.: _ai po_, _cau sa_, _rai nha_, _proe mio_, _goe la_, _poei
+ra_, _pro nún cia_, _voar_, _voo_, _á gua_, _moi nho_, _é gua_, _i
+guais_, _con ti nua_, _con tí nua_, _fa mí lia_, _se ria_, _sé ria_,
+_rea lidade_, _veí culo_.
+
+XLVI. O _u_ depois de _q_ ou _g_ é dêle inseparável, quer seja mudo,
+quer se profira; ex.: _quin ta_, _guer ra_; _fre qùente_, _a gùentar_,
+_ar gùir_.
+
+
+
+
+PRONTUÁRIO ORTOGRÁFICO
+
+
+Súmula das principais regras que se hão de observar na escrita das
+palavras e formas vocabulares portuguesas:
+
+1. O alfabeto português consta das seguintes vinte e quatro letras, e de
+mais três, que sómente em circunstâncias especiais se empregam e aqui
+vão incluídas em parêntese curvilíneo:
+
+a b c ç d e f g h i j (k) l m n o p q[u] r s t u v (w) x (y) z.
+
+2. Alêm destas letras, há outros caracteres, que ora são figurados por
+duas letras emparceiradas, ora por sinais diacríticos, sobrepostos a
+várias dessas letras. Assim aumentado, o sistema de escrita portuguesa
+compõe-se de 53 símbolos:
+
+a, á, à, â, ã; b; c, ç, ce (ci), ch; d; e, é, è, ê; f; ge (gi), g, gu,
+gù; h; i, í, ì; j; (k); l, lh; m; n, nh; o, ó, ò, ô, õ; p; qu, qù; r,
+rr, s, ss, sc; t; u, ú, ù; v; (w); x; (y); z.
+
+O valor dêstes caracteres, excluídas as letras _k_, _w_, _y_, está
+exemplificado nas palavras seguintes: _par_, _pá_, _àquela_, _câda_,
+_lã_; _bobo_; _cá_; _praça_, _cela_, _cinta_, _chá_; _dado_; _de_, _sé_,
+_prègar_, _sê_; _foz_; _gema_, _giz_, _gágo_, _guerra_, _agùentar_;
+_há_; _li_, _fígado_, _faìscar_; _já_; _lá_; _lhe_; _mó_; _nó_, _lenha_;
+_lado_, _copa_, _pó_, _mòlhada_, _avô_, _põe_; _que_, _freqùente_,
+_caro_, _ré_, _carro_; _só_, _passo_, _scena_, _casa_; _tu_; _fuga_,
+_último_, _saùdar_; _véu_; _xadrez_, _exame_, _sexo_, _próximo_,
+_texto_; _zêlo_.
+
+3. Dêstes caracteres tem um único valor e emprêgo os nove seguintes:
+_b_, _d_, _f_, _j_, _l_, _p_, _qu_, _t_, _v_.
+
+Os outros caracteres variam de valor.
+
+4. _a_: Designa o _a_ aberto quando está na sílaba tónica
+principalmente, e em sílaba átona se está seguido de _l_; ex.: _cabo_,
+_faltou_.
+
+5. Fora da sílaba tónica denota em geral o _a_ surdo, como _boca_,
+_parede_, _camarote_.
+
+O _a_ surdo pode ser tónico, se está antes de consoante nasal, _m_, _n_,
+_nh_; ex.: _cama_, _cana_, _manha_, _louvamos_.
+
+6. _á_: Emprega-se com o valor de _a_ aberto quando seja necessário
+marcar _a_ tónico, isto é: na última sílaba, seguido ou não de _s_; na
+penúltima, se a última não termina em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_, _m_, e na
+antepenúltima; ex.: _lá_, _será(s)_, _fácil_, _fáceis_, _carácter_,
+_sável_, _prática_. Emprega-se tambêm para diferençar _pára_ de _para_,
+preposição, e na forma verbal do pretérito, 1.^a pessoa do plural,
+_louvámos_, para a diferençar da do presente, _louvamos_.
+
+7. _à_: Designa o _a_ aberto átono em vocábulos que se escrevem com as
+mesmas letras, que outros que tem _a_ surdo, e tambêm para denotar o
+acento secundário em derivados; ex.: _àbada_ (de _aba_; cf. _abada_,
+«animal»), _pàzada_, _desàbar_.
+
+8. _â_: Indica o _a_ surdo tónico em vocábulos esdrúxulos; ex.: _ânimo_,
+_câmara_; ou em inteiros terminados em _i_, _u_, vogal nasal, ditongo ou
+consoante diferente de _s_; ex.: _cânon_, _âmbar_, etc.
+
+9. _ã_: _â_ nasal em fim de vocábulo, seguido ou não de _s_, e nos
+ditongos _ãe_, _ão_; ex.: _lã(s)_, _mãe(s)_; _mão(s)_.
+
+Se não há outro acento no vocábulo, vale por acento tónico; ex.:
+_rabão_, a par de _rábão(s)_.
+
+O ditongo _ão_ átono, final de formas verbais, escreve-se _am_; ex.:
+_louvam_, _louvaram_; cf. _louvarão_, futuro.
+
+Antes de _b_, _p_ e _m_, a vogal nasal _ã_ escreve-se _am_, e antes de
+outra consoante, _an_; ex.: _campo_, _lamber_, _emmalar_; _banco_,
+_frango_, _canto_, _quando_, _lança_, _ânsia_, _rancho_, _laranja_, etc.
+
+
+10. _ce_, _ci_, _ça_, _ço_, _cu_: _ç_ escreve-se antes de _a_, _o_, _u_,
+_c_ sem cedilha, antes de _e_, _i_; ex.: _faça_, _faço_, _cabeçudo_;
+_face_, _fácil_, _paço_, _palácio_, _palacete_.
+
+No interior dos vocábulos, corresponde a _ci_, _ti_ latinos, e a _ss_
+arábicos, e nisto se diferença do _s_, o qual corresponde a _s_ latino;
+ex.: _alçar_ (lat. a l t i a r e), _razão_ (lat. r a t i o n e m),
+_faço_ (lat. f a c i o), _açafate_, _açafrão_, _refece_, _açúcar_
+(arábicos); _paço_, a par de _passo_.
+
+No comêço da palavra usa-se _s_ por _ç_; ex.: _sapato_.
+
+Em fim de palavra escreve-se _z_ e não _ç_; ex.: _vez_ (lat. u i c e m),
+diferente de _vês_ (lat. u i d e s), _arroz_ (arábico).
+
+11. _ch_: Emprega-se como inicial e medial, e nunca como final. Na
+pronunciação do idioma culto, e bem assim nos vernáculos meridionais,
+confunde-se no valor há mais de dois séculos com o _x_ inicial, do qual
+se diferença pela origem. Corresponde o _ch_, em geral, a _cl_, _fl_,
+_pl_, latinos, e a _ch_ francês nas palavras desta proveniência; ex.:
+_chave_ (lat. c l a u e m), _chama_ (lat. f l a m m a), _chuva_ (lat.
+p l u u i a), _chapéu_ (fr. _chapeau_). Corresponde a _ll_ e a _ch_
+castelhanos.
+
+O _ch_ com valor de _k_ é substituído por _qu_ antes de _e_, _i_, e por
+_c_ em qualquer outra situação; ex.: _monarca_, _monarquia_, _querubim_,
+_côro_, _cloro_, _corografia_, _catecúmeno_, _crisol_.
+
+12. _c_: Esta letra emprega-se antes de _a_, _o_, _u_, consoante, ou
+como final, rara; ex.: _cá_, _côr_, _cume_, _claro_, _cravo_, _facção_,
+_Abimélec_, etc.
+
+13. Antes de _e_, _i_, é substituída por _qu_; ex.: _sequeiro_,
+_ressequido_, de _sêco_. É mudo o _c_ actualmente em muitos vocábulos em
+que antes se proferia, e conserva-se quando _a_, _e_, _o_ precedentes
+permanecem abertos, e por analogia ainda mesmo que essas vogais sejam
+tónicas; ex.: _secção_, _acção_, _activo_, _acto_; _espectáculo_,
+_espectador_; mas _autor_, _junção_, _junto_, _sanção_, _santo_, etc.
+
+
+14. _e_: Designa em sílabas átonas _e_ surdo; ex.: _se_, _de_, _me_,
+_te_, _lhe(s)_, _secar_, _remediar_, _lume_, _úbere_, _cadáveres_, etc.
+
+Vale por _i_ átono antes de vogal, ou de consoante palatal; ex.:
+_fealdade_, _teatro_, _beato_, _teor_, _areeiro_, _feíssimo_,
+_conteúdo_; _fechar_, _telhal_, _lenhador_, _desejar_. Cumpre recorrer à
+etimologia do vocábulo, ou a uma forma primitiva dêle, em que o _e_ seja
+tónico, para assim o diferençar de _i_; _fealdade_, de _feio_;
+_areeiro_, de _areia_; _fechar_, de _fecho_; _telhal_, de _telha_;
+_lenhador_ de _lenha_; _desejar_, de _desejo_; _teatro_, _beato_,
+_teor_, _conteúdo_, do lat. t h e a t r u m, b e a t u m, t e n e r e.
+Tem tambêm êsse valor de _i_, como inicial átona; ex.: _evitar_,
+_erguer_, _herói_.
+
+15. _e_: vale por _e_ aberto, ou por _e_ fechado, sendo tónico; ex.:
+_neve_, _certo_, _der_, _perda_, _ver_; e por _e_ aberto ou fechado,
+átono, _relveiro_, _sável_, _carácter_, _cadáver_, _secção_, _abdómen_.
+
+16. Vale por _â_ no sul do país, antes de consoante palatal e no ditongo
+_ei_; ex.: _igreja_, _fecho_, _telha_, _senha_, _lei_.
+
+Em várias regiões êste _e_ é proferido como fechado em tal situação;
+ex.: _igrêja_, _fêcho_, _têlha_, _sênha_, _lêi_.
+
+17. _é_: Denota o _e_ aberto tónico, quando haja de marcar-se a sílaba
+predominante, isto é, como final, seguido ou não de _s_, e nos
+esdrúxulos; ex.: _maré(s)_, _cédula_. Marca-se igualmente o acento agudo
+no _e_ quando a sílaba predominante é a penúltima e a palavra não
+termina em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_, _am_, _em_, e bem assim nos ditongos
+_éi_, _éu_, sempre tónicos; ex.: _éter_, _Vénus_, _fértil_, _férteis_;
+_céu_, _escarcéu_, _papéis_. Sem acento, porêm, escreveremos _levam_,
+_levem_.
+
+18. _è_: Indica o _e_ aberto átono, quando se torne necessário
+diferençar homógrafos; ex.: _pègada_, diferente de _pegada_; _prègar_,
+de _pregar_.
+
+19. _ê_: Designa o _e_ fechado tónico, quando seja de regra marcá-lo com
+acento; ex.: _mercê(s)_, _vê(s)_, _sêmea_, _Zêzere_, _pêssego_,
+_concêntrico_, _Estêvão_, etc.
+
+20. O _e_ nasal nunca termina vocábulo no idioma comum, em que é
+substituído pelo ditongo nasal _em_, _ens_ (_[~e]i)s)_, o qual se
+acentua quando é tónico final de polissílabos; ex.: _vintêm_, _vintêns_;
+_contêm_, _contêns_; _parabêns_.
+
+21. No princípio e meio das palavras o _e_ nasal escreve-se com _em_
+antes de _b_, _p_, _m_, e com _en_, em qualquer outra situação; inicial
+átono profere-se como _im_, _in_; ex.: _membro_, _tempo_; _encher_,
+_entrar_, _encho_, _entro_; _entender_, _entendo_; _empregar_,
+_emprêgo_.
+
+22. _g_: O _g_, para designar a consoante sonora correspondente ao _c_,
+escreve-se em qualquer situação, excepto antes de _e_, _i_; ex.: _gago_,
+_glaciário_, _grade_, _digno_, _fragmento_, e raras vezes como final,
+_Gog_, _Magog_. Suprime-se quando se não profere; dêste modo,
+escreveremos: _assinar_, _Inácio_, _Inês_, _aumento_, etc.
+
+Antes de _e_, _i_ acrescenta-se-lhe _u_ (_gu_); ex.: _seguir_, _guerra_,
+_ligue_, _aguilhoar_.
+
+Se êsse _u_ se profere átono, marca-se com acento grave: _agùentar_,
+_argùir_, _argùente_; se é tónico, com o acento agudo, _argúi_.
+
+
+23. _ge_, _gi_: tem o mesmo valor que o _j_ e escreve-se em lugar dêste,
+quando a etimologia ou a analogia o pedem; ex.: _gente_, _lógica_. Nos
+derivados de primitivos em _ja_, _jo_, _ju_ permanece o _j_ antes de
+_e_, _i_; ex.: _laranja_, _laranjeira_; _loja_, _lojista_.
+
+O _g_ etimológico muda-se em _j_ antes de _a_, _o_, _u_; ex.: _reger_,
+_rejo_, _reja_; _fugir_, _fujo_, _fuja_.
+
+
+24. _h_: É mudo quando inicial, e escreve-se quando a etimologia do
+vocábulo o justifica; ex.: _homem_, _humano_, _herdar_, e portanto
+_ombro_, _ontem_, em que a etimologia o não explica; _iate_, e não
+_hiate_.
+
+O _h_ medial desaparece, mesmo nos vocábulos em que êle como inicial
+figura; ex.: _desumano_, _deserdar_, e com maior razão em _inibir_,
+_inábil_, _filarmónica_, em que daria causa a sua presença a errada
+leitura; outros exemplos são _coìbir_, _sair_, _compreender_, _desonra_,
+_exibir_, etc.
+
+25. O _h_, como sinal diacrítico, junta-se a _c_, _l_ e _n_ para
+designar os sons que as palavras seguintes exemplificam: _chave_,
+_frecha_, _selha_, _moinho_.
+
+26. O _h_, depois de _t_, _r_ ou _c_ com o valor de _k_ é proscrito;
+dêste modo escreveremos _teatro_, _retórica_, _corografia_. Suprimido é
+igualmente o _h_ final, como em _Sara_, _raja_, ou _rajá_, e só se
+admite em tal situação nas interjeições, como _ah!_ _oh!_, etc.
+
+
+27. _i_: Emprega-se como átono, e como tónico; ex.: _finíssimo_,
+_quási_, _virar_, _vira_, etc.
+
+28. Numa série de sílabas, cuja vogal seja sempre _i_, e o vocábulo não
+seja imperfeito ou condicional de verbo, superlativo, ou deminutivo,
+sómente o último _i_ conserva, em geral, na pronúncia desafectada, o seu
+valor; os mais que o precedem proferem-se como _e_ mudo, se a consoante
+seguinte não é palatal (_x_, _j_, _lh_, _nh_, _s_ + consoante); ex.:
+_dividir_, _dividia_, _dividiria_, que se pronunciam _devedir_,
+_devedia_, _devediria_; _ministro_, que se pronuncia _menistro_;
+_ministério_, que se pronuncia _menistério_; _militar_, que se pronuncia
+_melitar_. Para se evitarem erros de ortografia, é preciso atender á
+etimologia dos vocábulos, e, quando possível, a uma forma em que o _i_
+seja tónico, como em _divide_.
+
+29. Há dois prefixos de valor diferente, que cumpre diversificar na
+escrita: _des-_ e _dis-_. O primeiro é negativo ou privativo, como em
+_desfazer_, _destingir_, _destinto_; o segundo distributivo, como em
+_dispersar_, _distinguir_, _distinto_, _disjungir_, _discernimento_,
+_distúrbio_, etc.
+
+30. _í_: Designa o _i_ tónico, quando as regras de acentuação gráfica
+exijam a marcação; ex.: _frígido_, _Vítor_, _físsil_, _difícil_,
+_difíceis_, _fugíeis_, _tínheis_, _fugiríamos_, _fugíreis_, _fugiríeis_,
+etc.
+
+31. Com acento agudo se marca o _i_ tónico que não forma ditongo com a
+vogal anterior; ex.: _saída_, _saí_, _aí_, _país_, _países_, _raízes_.
+
+Antes de _nh_, _nd_, _mb_, pode dispensar-se o acento; ex.: _raínha_,
+_aínda_, _Coímbra_, ou _rainha_, _ainda_, _Coimbra_; pode tambêm
+dispensar-se antes de consoante final que não seja _s_; ex.: _raiz_,
+_sair_; mas _raízes_, _saíres_, porque o _z_ e o _r_ pertencem a outra
+sílaba.
+
+32. _ì_: Quando o _i_ que não forma ditongo com a vogal antecedente é
+átono, pode marcar-se com o acento grave; ex.: _saìmento_, _proìbir_,
+_paìsagem_.
+
+33. O _i_ nasal escreve-se com _im_ antes de _b_, _p_, _m_, ou quando
+final, _in_ em qualquer outra situação; ex.; _limbo_, _limpar_, _fim_,
+_fins_, _findar_, _afinco_, _linfa_, _ninfa_, etc.
+
+
+34. _j_: O _j_ escreve-se antes de _a_, _o_, _u_, _e_, _i_, e antes
+destas duas últimas vogais, quando a etimologia não justifica o emprêgo
+de _g_; ex.: _já_, _jóia_, _júbilo_; _veja_, _vejo_; _lojista_,
+_laranjeira_, _arranjar_, _arranje_; _Jerusalêm_, _Jesus_.
+
+
+35. _m_: Alêm do seu valor como inicial, ex.: _mal_, _tomar_, etc., o
+_m_ designa as vogais nasais finais _im_, _om_, _um_, por exemplo, em
+_marfim_, _som_, _jejum_, e o ditongo nasal _em_, como em _cecêm_,
+_bem_, _devem_, _margem_. O _m_ muda-se em _n_ ao acrescentar-se _s_;
+ex.: _marfins_, _sons_, _jejuns_, _cecêns_, _bens_, _margens_.
+
+36. _m_: Expressa com _a_ (_am_) o ditongo _ão_ átono de formas verbais;
+ex.: _louvam_, _louvaram_.
+
+37. _m_: Denota qualquer vogal nasal inicial ou medial antes de _b_,
+_p_, _m_; ex.: _embora_, _empada_, _emmalar_, _bambo_, _êmbolo_,
+_campo_, _sempre_, _limpo_, _comprar_, _sumptuoso_.
+
+
+38. _n_: Alêm do seu valor como inicial de sílaba, como em _nau_,
+_neve_, _nitro_, _nove_, _nuvem_, _cana_, _pena_, _bonito_, _nono_,
+_canudo_, etc., designa as vogais nasais, quando está seguido de
+consoante que não seja _b_, _p_, _m_, ou a vogal não é final de
+vocábulo; ex.: _lança_, _lenço_, _cinto_, _onça_, _funcho_, _fins_,
+_sons_, _jejuns_. Com _e_ designa tambêm o ditongo nasal _[~e]i_, quando
+se lhe segue _s_ final: ex.: _nuvens_, _armazêns_, _tens_, _bens_.
+
+39. _nn_: Emprega-se no prefixo _en_, antes de _n_ do vocábulo a que se
+junta; ex.: _ennodoar_, de _nódoa_, _ennastrar_, de _nastro_.
+
+40. _nh_: Denota únicamente a nasal palatal que se observa em _manhã_,
+_lenha_, _linho_, _vergonha_, _pezunho_; e conseguintemente escrever-se
+há _inábil_, _inumano_, _inibir_, sem _h_.
+
+
+41. _o_: Esta letra tem os seguintes valores.
+
+Átona vale por _u_; ex.: _lado_, _dolo_, _faro_, _proteger_, _comum_,
+_fortuna_. A escolha entre _o_ e _u_, para expressar êste som, depende
+da origem; assim escreve-se _formosura_, de _formoso_, de _forma_;
+_portaria_, de _porta_; _monumento_ (do lat. m o n u m e n t u m;
+_govêrno_ (do lat. pop. g o b e r n u m, lit. g [)u] b e r n _u m);
+rotunda (lat. r o t u n d a); _goraz_ (lat. u o r a c e m); etc.
+
+42. _o_: Expressa o _o_ aberto, como em _toca_, _volta_, _poste_, etc.,
+quando é tónico, e átono em certas condições, como _adoptar_,
+_nocturno_, isto é, seguido de _p_ ou _c_ na mesma sílaba, quer essas
+consoantes se profiram, como em _optar_, _cocção_, quer sejam mudas.
+
+43. _o_: Designa _o_ fechado tónico, como em _bolo_, _boca_, ou átono
+como em _horrível_, _cânon_, e _o_ átono antes de _l_, como em _voltar_,
+_soldado_.
+
+44. _ó_: Denota o _o_ aberto, quando a acentuação gráfica é de regra;
+ex.: _avó_, _hipódromo_, _órfão(s)_, _sós_, _vós_, _móvel_, _móveis_,
+_móbil_, _cómodo_, etc.
+
+45. _ò_: Serve para designar _o_ aberto átono em homógrafos, como
+_mòlhada_, diferente de _molhada_, e ainda para expressar o acento
+secundário de palavras que tenham dois, como _pòzinho_, _sòzinho_, etc.
+
+46. _ô_; Designa o _o_ fechado tónico, quando as regras de acentuação
+gráfica o exijam; ex.: _avô(s)_, _côr_ (cf. _cor_), _pôde_ (cf. _pode_),
+_sôbre_ (cf. _sobre_), _fôrma_ (cf. _forma_), _lôgro_ (cf. _logro_),
+_lôbrego_, _sôfrego_.
+
+
+47. Cumpre não confundir na escrita _o_ fechado com o ditongo _ou_, que
+se mantêm distinto nos falares provinciais; assim _osso_ substantivo
+escrever-se há com _o_, mas _ouço_ verbo, com _ou_.
+
+48. _ou_: Este ditongo tem por origem _au_ arábico, como em _açougue_,
+_au_ latino, como em _touro_, _oc_, _ap_, _al_, latinos, como em
+_noute_, _toutiço_, _outeiro_. Em geral alterna com o ditongo _oi_,
+sendo lícito, em grande número de vocábulos, empregar-se um ou o outro.
+
+49. _õ_: Esta letra usa-se únicamente no ditongo nasal _õe_, como
+_põe(s)_, _lições_. O _o_ nasal, fora dêste caso único, é escrito com
+_om_, se é final ou está antes de _b_, _p_, _m_, e com _on_ em qualquer
+outra condição; ex.: _som_, _romper_, _rombo_, _emmolhar_; _sons_,
+_contar_, _confiar_, _conchegar_, _esponja_, _fonte_, _bondade_,
+_cônscio_, _Ônfale_, etc.
+
+
+50. _p_: Esta letra não se duplica. Conserva-se o _p_ mudo depois das
+vogais _a_, _e_, _o_ átonas, quando essas vogais permanecem abertas,
+como em _adopção_, _recepção_, _exceptuar_. Conserva-se ainda o _p_, se
+essas vogais são tónicas, em vocábulos aparentados, como _excepto_,
+_adopto_. Depois de outra qualquer vogal suprime-se o _p_ etimológico,
+se não é proferido; ex.: _pronto_, _assunto_, _assunção_, _cinto_.
+
+51. O _ph_ etimológico é em todas as circunstâncias substituído por _f_;
+ex.: _física_, _tifo_, _filtro_, _profeta_.
+
+
+52. _qu_: A letra _q_ é sempre seguida de _u_, o qual é marcado com
+acento grave (_ù_) antes de _e_, _i_, se é proferido; ex.: _quente_,
+_quinta_; _freqùência_, _eqùestre_, _eqùidade_. Antes de _a_, _o_, _u_,
+se o _u_ de _qu_ é mudo, substitui-se êste grupo por _c_; ex.:
+_catorze_, de q u a t o r d e c i m, como _caderno_, de
+q u a t e r n u m; _cota_, de q u o t a, como _licor_, de
+l i q u o r e m. Se o _u_ é proferido antes de _a_, _o_, _u_,
+conserva-se o grupo _qu_, sem acento no _u_; _quatro_, _aquoso_.
+
+
+53. _r_, _rr_: o _r_ forte escreve-se com _r_ simples quando é inicial
+de palavra, ou de sílaba depois de consoante; ex.: _rã_, _ré_, _rio_,
+_rol_, _rumo_, _honra_, _pilriteiro_, _Israel_, etc. Entre vogais
+duplica-se; ex.: _carrada_, _carreta_, _carril_, _carro_, _arrumar_,
+_farrusca_.
+
+54. Quando a um vocábulo começado por _r_ se acrescenta um prefixo
+terminado em vogal, dobra-se o _r_, por ficar entre vogais, para se lhe
+manter o valor de inicial; ex.: _arrasar_, de _raso_; _arrostar_, de
+_rosto_; _prorrogar_, _derrogar_, de _rogar_; _corroer_, de _roer_.
+
+55. O _r_ brando, que sómente se manifesfa em fim de sílaba, ou entre
+vogais, ou depois de consoante pertencente à mesma sílaba, escreve-se
+com _r_ simples; ex.: _dar_, _pôr_, _ver_, _vir_, _virtude_, _verdade_,
+_vórtice_, _louvar_, _dever_, _punir_, _cravo_, _fresco_, _frigir_,
+_crótalo_, _frustrar_; _cara_, _fera_, _lira_, _amora_, _parada_,
+_sereno_, _sarilho_, _caroço_, _caruma_.
+
+
+56. O _s_ surdo assim se escreve como inicial de palavra, ou depois de
+consoante, se é inicial de sílaba; ex.: _saco_, _sé_, _sirga_, _só_,_
+sul_, _ânsia_, _falso_, _farsa_, _lapso_, _psicologia_, _absorver_.
+Inicial antes de _e_, _i_, e depois da consoante, nas mesmas condições,
+alterna com _ce_, _ci_, e sómente a etimologia dos vocábulos, ou um
+vocabulário, ensinam a verdadeira escrita. O _s_ corresponde a _s_
+latino, o _c(e)_,_ c(i_) a _ti_, _ci_ latinos, e a _ss_ arábicos; ex.:
+_sela_, _silvo_, _selha_, _persistir_, _canseira_, _alicerce_,
+_Alcácer_, etc.
+
+57. Entre vogais o _s_ surdo duplica-se, _ss_, e neste caso alterna com
+_ç_ cedilhado, e com _ce_, _ci_, nas mesmas circunstâncias de
+proveniência dos vocábulos; ex.: _assar_, _assente_, _assíduo_, _posso_,
+_assumir_, _sossêgo_, _passo_, de p a s s u m (cf. _paço_, de
+p a l a t i u m), etc.
+
+58. O _s_ sonoro só se manifesta entre vogais, usualmente, e nesta
+posição alterna com _z_, correspondendo porêm sempre a _s_ latino; ex.:
+_casa_, _César_, _mês(es)_, _residir_, _formoso_, _uso_. Conquanto
+depois de consoante, o _s_ é sonoro no prefixo _trans-_ seguido de
+vogal, como em _transeúnte_, _transacção_, em _obséquio_ e seus
+derivados, e num ou noutro vocábulo, precedido de consoante sonora.
+
+59. Há duas terminações de substantivos que não devem confundir-se:
+_-eza_, do lat. _-itia_, e _-esa_, do lat. _-ensa_; é esta que se
+escreve com _s_, como em _defesa_, _devesa_, _presa_, _despesa_,
+_portuguesa_, etc. Semelhantemente, escreveremos _asa_, do lat. a n s a,
+_brasa_, em castelhano _brasa_.
+
+60. Quando a um radical, ou a um vocábulo, começados por _s_, se
+acrescenta um prefixo terminado em vogal, duplica-se o _s_ se êle se
+profere surdo, escreve-se simples, se é pronunciado sonoro; ex:
+_assistir_, _assombrar_, _assumir_, _ressurgir_, _pressentir_; mas
+_residir_, _presente_, _resumir_, _resignação_, _presunção_, etc.
+
+61. O _s_ final de sílaba, seja como for proferido, escreve-se com _s_;
+ex.: _custa_, _cesta_, _resma_, _abismo_, _hóspede_, _fosco_,
+_balaústre_, _lustre_, _musgo_.
+
+62. O _s_ final de sílaba, em monossílabos e em polissílabos que tenham
+como predominante a última sílaba, alterna com _z_, correspondendo porêm
+sempre a _s_ latino, e permanece ainda quando, pela derivação ou flexão
+do vocábulo, se lhe acrescenta uma sílaba, de que fica sendo inicial;
+ex.: _português_, _portuguesa_, _portugueses_, _cortês_, _corteses_,
+_cortesia_, _atrás_, _vês_ (verbo), _vós_, _nós_ (pronomes), _pus_
+(substantivo e verbo), _pôs_ (verbo), _pós_ (substantivo), _pusera_,
+_puser_, _pusesse_, etc. Em um único vocábulo arábico, rês, é o _s_
+final árabe representado por _s_, como em castelhano (_res_).
+
+A consulta a vocabulário é indispensável e muito favorece o acêrto na
+escrita a comparação com as correspondentes formas castelhanas.
+
+63. O _s_ inicial surdo é seguido de _c_ nos seguintes vocábulos e seus
+derivados: _scena_, _scetro_, _scéptico_, _scelerado_, _sciente_,
+_scisma_, _scintila_, _scisso_, _scisão_, _scissura_, _scissíparo_,
+_sciático_, e um ou outro mais, pouco usados.
+
+
+64. _t_: o _t_ nunca se duplica, expressa constantemente o mesmo som, e
+substitui em todos os casos o _th_ etimológico; ex.: _ter_, _atitude_,
+_meter_, _teto_; _teatro_, _patológico_, _simpatia_, _etnografia_, etc.
+
+
+65. _u_: Esta letra expressa sempre o mesmo som, mais ou menos atenuado
+antes e depois de vogal, como elemento fraco dos ditongos; ex.: _tu_,
+_pueril_, _auto_. Antes de vogal alterna, átono, com _o_ nas mesmas
+condições e só a analogia e a etimologia doa vocábulos decidem da
+escrita correcta; ex.: _suar_ (e _soar_), _muar_, _ruína_, etc. Depois
+de consoantes alterna igualmente com _o_ átono; ex.: _mural_ de _muro_,
+a par de _moral_ do lat. m o r e s; _tunante_, de _tuna_, _tonante_,
+lat. t o n a n t e m.
+
+66. _ú_: Representa esta letra acentuada o _u_ tónico, quando as regras
+de acentuação gráfica o exigem; ex.: _único_, _núncio_, _saúde_,
+_útil_,_argúi_.
+
+67. _ù_: O _u_ com acento grave indica não fazer ditongo com a vogal
+anterior, sendo átono; ex.: _saùdar_. Designa tambêm o _u_ proferido dos
+grupos _qu_, _gu_; ex.: _argùir_, _freqùente_.
+
+68. _x_: Esta letra tem cinco valores no idioma comum e literário; são
+os seguintes:
+
+1.^o Como inicial--_xadrez_, _caixa_.
+
+2.^o Como _ss_--_auxílio_, _próximo_.
+
+3.^o Como _s_--_mixto_, _Félix_.
+
+4.^o Como _cs_; _cx_--_fixo_, _sexo_; _córtex_, _sílex_.
+
+5.^o Como _(e)is_--_exame_, _êxito_, _texto_.
+
+Nas palavras de origem arábica, e quando é inicial, tem sempre o
+primeiro valor; ex.: _xabouco_, _axorca_, _xarope_, _elixir_; _Xerxes_,
+_Xenofonte_, etc.
+
+69. Alêm desta multiplicidade de valores, alterna, com relação ao
+primeiro, com o grupo _ch_, o qual, como já se disse, representa _cl_,
+_fl_, _pl_ latinos; assim, temos; _xá_ (rei) e _chá_ (planta), _xeque_
+(regedor) e _cheque_ (bilhete de banco), _buxo_, lat. b u x u m
+(planta), e _bucho_, lat. m u s c ' l u m (estômago e músculo).
+
+A consulta ao VOCABULÁRIO é indispensável para o emprêgo de qualquer
+dêstes dois símbolos, actualmente equivalentes no valor.
+
+
+70. _z_: Como inicial, ou depois de consoante, expressa o mesmo som que
+se ouve em _zêlo_, _azeite_, _zurzir_. Os vocábulos formados com o
+prefixo _trans-_, e a palavra _obséquio_ e seus derivados, todavia,
+escrevem-se com _s_, que representa _s_ latino, como em _transir_,
+_trânsito_, _transacção_.
+
+71. O _z_ entre vogais corresponde a _z_, a _ti_, e a _ce_, _ci_
+latinos, como em _baptisar_, _razão_, _fazer_, _vazio_, e nisto se
+diferença do _s_ entre vogais que a _s_ latino corresponde. Os sufixos
+_-izar_, _-izante_, etc., escrevem-se sempre com _z_, como em
+_anarquizar_, _judaìzante_; _analisar_, porêm, porque provêm de
+_análise_, tem _s_ e não _z_; _horizonte z_ e não _s_. Em palavras de
+origem arábica é _z_ e não _s_ que se escreve; ex.: _azarola_, _azeite_,
+_azougue_. O sufixo _-eza_, como proveniente de _-itia_ latino, tem _z_;
+mas das terminações _ansa_, _ensa_, latinas, procedem os vocábulos e as
+formas _asa_, _defesa_, _presa_, etc.
+
+O recurso ao VOCABULÁRIO é de necessidade para os casos duvidosos, como
+o é para a hipótese seguinte.
+
+72. O _z_ final de palavra cuja última sílaba seja a predominante, bem
+como o de vários monossílabos, alterna com _s_, e tem o valor dêste no
+idioma literário e comum.
+
+Deve ter-se em atenção que o _s_ corresponde sempre a _s_ latino, e o
+_z_ a _c_ latino e a _ss_ ou _zz_ arábicos; assim teremos: _luz_, _voz_,
+_falaz_, _feliz_, _atroz_, _vez_, _capuz_, _faz_, _fêz_, de origem
+latina, _algoz_, _alcatraz_, _albornoz_, de origem arábica; a única
+excepção é _rês_, como já se disse.
+
+73. Nos patronímicos as terminações _es_, _s_, conquanto provenientes de
+_ici_ latino, escrever-se hão com _s_, porque na sua maioria o sufixo
+português é átono; ex.: _Rodrigues_, _Nunes_, _Gonçalves_; _Dias_;
+_Martins_, _Miguéis_; etc. Semelhantemente, é substituído por _s_ um
+antigo _z_ final de sílaba, como em _mesquinho_, _mesquita_, _visconde_,
+etc.
+
+
+74. _k_, _w_, _y_. Estas tres letras, proscritas do abecedário
+português, sómente são admitidas na escrita de vocábulos estrangeiros,
+como _Kant_, _Darwin_, _Byron_, e nos seus derivados portugueses, como
+_kantismo_, _darwinismo_, byroniano, que podem todavia ser escritos
+_cantismo_, _daruìnismo_, _baironiano_.
+
+
+75. Escrever-se hão iniciais maiúsculas em meio de períodos ou orações
+gramaticais, nos seguintes casos:
+
+a) Nomes próprios de pessoas ou lugares, ruas, etc.;
+
+b) Nomes colectivos designando cargos, em substituição das pessoas que
+os desempenham; ex.: _Estado_, _Govêrno_, _Companhia das Águas_, _Centro
+Comercial_, _Patriarcado_, _Cúria_, etc.;
+
+c) Individualidades que exercem importantes cargos: _Ministro da
+Marinha_, _Presidente_, _Juiz_, etc.;
+
+d) Repartições públicas: _Direcção Geral das Colónias_, _Ministério da
+Guerra_, etc.;
+
+e) Nomes de astros, divindades: _Vénus_, _Terra_, _Sol_, etc.;
+
+f) Nomes dos meses, nas datas;
+
+g) Títulos de livros, excepto as partículas monossilábicas, que se
+escreverão com minúsculas.
+
+
+76. Hifen (-).
+
+Êste sinal prende os vocábulos compostos, quando os seus elementos,
+conservando a acentuação própria, perdem em parte a sua significação
+primordial; ex.: _mãe-d'agua_, _porta-bandeira_, _água-forte_,
+_franco-russo_, _madre-pérola_, etc.
+
+77. O hífen une tambêm os pronomes complementos átonos aos verbos de que
+dependem, quando são colocados depois dêstes; ex.: _dou-te_, _dou-to_,
+_dás-mo_, _louvá-lo_, _louva-lo_, _louvam-no_, _louva-o_, _tenho-o_,
+_tem-lo_, _tem-no_, _dávamovo-lo_, _deram-se_, _deu-se-lhes_, etc.
+
+78. Quando, em fim de linha, se parte um vocábulo inteiro, parte-se
+igualmente o hífen, isto é, repete-se na linha seguinte, se unia os
+elementos de uma dição composta; ex.: _porta-/-voz_, _dou-/-to_.
+
+79. O hifen (-), com o nome de linha divisória, divide, de uma para
+outra linha, as sílabas de uma palavra; ex.: _pas-/ta_, _do-/res_,
+_ve-/zes_, _parti-/cular_, _di-/gnidade_, _subs-/tância_.
+
+
+80. Pontos de interrogação (?) e exclamação (!).
+
+À imitação da ortografia espanhola, é conveniente assinalar com êstes
+pontos o principio de uma oração interrogativa ou exclamativa,
+invertendo-os, todas as vezes que ela excede quatro ou cinco palavras,
+para que essa oração seja logo devidamente entoada; ex.: _¿Quando
+soubeste que a tua família chegava de fora hoje?_
+
+
+81. Acentuação gráfica.
+
+A rigorosa acentuação gráfica das palavras portuguesas deve satisfazer
+às condições seguintes:
+
+1.^a Indicar, com a maior segurança para quem lê, quais são os vocábulos
+átonos e quais os tónicos, e nestes qual seja a sílaba predominante,
+quando tenham mais de uma;
+
+2.^a Diferençar entre si vocábulos que se escrevem com as mesmas letras,
+mas divergem na pronúncia e na significação, ou função gramatical,
+
+82. Os vocábulos portugueses são: de uma sílaba, monossílabos; de duas,
+dissílabos; de mais de duas, polissílabos; ex.: _pá_, _pára_, _parada_.
+
+83. Há nos monossílabos e dissílabos vocábulos tónicos, _dá_, _pára_, e
+vocábulos átonos, _da_, _para_.
+
+84. Os dissilabos tónicos podem ter como sílaba predominante a primeira,
+_mares_, ou a segunda, _marés_; os polissílabos podem ter como
+predominante a última, _falará_, a penúltima, _falara_, ou
+antepenúltima, _faláramos_. Os vocábulos cuja última silaba é a
+predominante denominam-se agudos ou oxítonos; se a silaba predominante é
+a penúltima, dizem-se graves, inteiros, ou paroxítonos; se a
+predominante é antepenúltima, recebem o nome de esdrúxulos, ou
+proparoxítonos.
+
+85. Nenhum vocábulo português, de per si, pode ter como sílaba
+predominante qualquer outra antes da antepenúltima, conquanto haja
+dições formadas por linguagens verbais acompanhadas de pronomes, a elas
+unidos por hífen (-), em que a sílaba predominante, que é a da forma
+verbal, fica sendo a quarta ou a quinta a contar do fim; ex.:
+_dávamos-to_, _dávamo-vo-lo_. Tais dições em nada modificam na escrita a
+acentuação gráfica da forma verbal, a qual permanece.
+
+86. A sílaba tónica, quando se torna necessário indicá-la na escrita,
+assinala-se com o acento agudo (') sôbre a vogal dominante dela, se esta
+é _a_, _e_, _o_ abertos, _i_ ou _u_; com o acento circunflexo (^), se é
+_a_, _e_, _o_ fechados. O til vale por acento tónico, se outro não está
+marcado no vocábulo; ex.: _fará_, _maré_, _portaló_, _difícil_, _útil_;
+_câmara_, _mercê_, _avô_, _ânsia_, _indulgência_, _brônzeo_, _fímbria_,
+_núncio_; _varão_, _maçã_, _capitães_; _órgão_, _órfã_; _munícipe_.
+
+87. Outro acento, o grave (`), serve para designar, quando seja
+necessário ou conveniente à correcta pronunciação de um vocábulo ou
+forma verbal, o valor alfabético de qualquer das vogais _a_, _e_, _o_,
+_i_, _u_, independentemente de serem tónicas, e principalmente quando o
+não são; ex.: _à_, _pègada_, _mòlhada_, _faìscar_, _saùdar_.
+
+
+88. Estabelecidas estas premissas, pode preceituar-se uma rigorosa
+acentuação gráfica, inteiramente sistemática, a qual, sem ser profusa ou
+ociosa, deixe bem patentes os factos apontados, quer seja expressa, quer
+omissa a sua notação.
+
+
+89. Vocábulos não acentuados gráficamente.
+
+a) Monossílabos e dissílabos átonos: _o(s)_, _a(s)_, _lo(s)_, _la(s)_,
+_no(s)_, _na(s)_, _do(s)_, _da(s)_, _ao(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_,
+_polo(s)_, _pola(s)_, _me_, _mo(s)_, _ma(s)_, _te_, _to(s)_, _ta(s)_,
+_lhe(s)_, _nos_, _no-lo(s)_, _no-la(s)_, _vo-lo(s)_, _vo-la(s)_,
+_lho(s)_, _lha(s)_; _se_, _de_, _por_, _sem_, _sob_, _com_, _ma_s,
+_que_, _porque_, _tam_ (abreviatura de _tanto_), _sam_ (abreviatura de
+_santo_), etc.
+
+b) Monossílabos tónicos terminados em _em_, _ens_: _bem_, _bens_, _tem_,
+_tens_, _cem_.
+
+c) Formas verbais em _am_, _em_, com a penúltima sílaba como
+predominante, e substantivos dissilábicos e polissilábicos em _em_,
+_ens_, nas mesmas condições: _louvam_, _louvaram_, _louvem_, _contem_
+(do verbo _contar_); _viagem_, _viagens_, _ferrugem_, _ferrugens_, etc.
+
+d) Monossílabos e dissílabos tónicos, e polissílabos, terminados em _i_,
+_u_, vogal nasal, ditongo, seguidos, ou não, de _s_, e os terminados em
+outra qualquer consoante, todos êles oxítonos: _vi(s)_, _javali(s)_,
+_cru(s)_, _peru(s)_, _lã(s)_, _maçã(s)_, _sai(s)_, _arrais_, _mau(s)_,
+_sarau(s)_; _som_, _sons_, _atum_, _atuns_; _mar_, _der_, _ser_, _dor_,
+_mal_, _canal_, _painel_, _funil_, _farol_, _azul_; _mão(s)_, _varão_,
+_varões_, _cruz_, _Artur_, etc.
+
+e) Os dissílabos e polissílabos terminados em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_,
+cuja penúltima sílaba seja a predominante; ex.: _casa(s)_, _camada(s)_,
+_camarada(s)_, _trave(s)_, _parede(s)_, vicissitude(s), _desaire(s)_,
+_modo(s)_, _devoto(s)_, _lume(s)_, etc.
+
+Estas espécies compreendem a maioria dos vocábulos portugueses,
+incluindo-se tambêm nelas as mais das formas verbais, como _louvo_,
+_louva(s)_, _louve(s)_, _louvava(s)_, _louvara(s)_, _louvaria(s)_,
+_louvares_, _louvarei(s)_.
+
+90. Vocábulos acentuados gráficamente, _cantar_, _cantai_, fazer, fazei,
+fazendo sentir, sentirão, sentis, etc.
+
+a) Monossílabos, dissílabos e polissílabos terminados em _a(s)_, _e(s)_
+e _o(s)_, como sílaba predominante, isto é, agudos, oxítonos; ex.:
+_pá(s)_, _sé(s)_, _vê(s)_, _mês_, _pó(s)_, _pôs_, _fará(s)_, _maré(s)_,
+_mercê(s)_, _avó(s)_, _avô(s)_, _alvará(s)_, _jacaré(s)_, _português_,
+_portaló(s)_, etc.
+
+b) Dissílabos e polissílabos terminados em _em_, _ens_, cuja sílaba
+predominante seja a última; ex.: _vintêm_, _armazêm_, _vintêns_,
+_armazêns_, _contêm_, _contêns_ (do verbo _conter_), _porêm_,
+_Jerusalêm_, Belêm, etc.
+
+c) Dissílabos e polissílabos terminados em _i_, _u_, vogal nasal,
+ditongo, seguidos, ou não, de _s_, ou em outra qualquer consoante,
+quando a sílaba predominante seja a penúltima; ex: _quási_, _Vénus_,
+_órfã(s)_, _órfão(s)_, _louváveis_, _louváreis_, _fácil_, _fáceis_,
+_têxtil_, _têxteis_, _cônsul_, _sável_, _sáveis_, _cadáver_, _éter_,
+_mártir_, _sóror_, _alcáçar_, _Sófar_, _açúcar_, _gérmen_, _líquen_,
+_Félix_, _córtex_, _sílex_, etc.
+
+d) Os ditongos, sempre tónicos, _éi_, _éu_, _ói_, com _e_, _o_ abertos;
+ex.: _réis_, _batéis_ (cf. _reis_, _bateis_), _véu(s)_, _chapéu(s)_,
+_sóis_ (cf. _sois_, verbo), _róis_, _herói(s)_, _jóia_, _gibóia_, etc.
+
+e) O _a_ da terminação _-ámos_ da 1.^a pessoa do plural do pretérito,
+para a diferençar de igual pessoa do presente; ex.: _louvámos_ (cf.
+_louvamos_=_louvâmos_).
+
+f) Os seguintes monossílabos e dissílabos tónicos, para se diferençarem
+de outros homógrafos átonos: _quê_, _porquê_, _pôr_ (cf. _por_
+preposição), _pára_ (cf. _para_, preposição); _pêra_ (cf. _pera_,
+_p'ra_, preposição), _péla_, _pélo_, _pêlo_ (cf. _pelo_, _pela_,
+preposição _per_ e artigo _lo_, _la_), _pólo_ (cf. _polo_, preposição
+_por_ e artigo _lo_).
+
+g) Todos os vocábulos esdrúxulos, isto é, que tenham como sílaba
+predominante a antepenúltima; ex.: _prática_; _ânimo_, _ânsia_;
+_férvido_, _género_, _gémeo_, _génio_; _pêssego_, _fêmea_,
+_concêntrico_, _tísico_, _tirocínio_, _fímbria_; _próximo_, _próprio_,
+_antimónio_; _lôbrego_, _brônzeo_; _úbere_, _lúgubre_, _único_,
+_núncio_; _cadáveres_, _árvore(s)_, _multíplice(s)_, _múltiplo(s)_,
+_quádruplo(s)_, etc.
+
+Assim tambêm as formas verbais esdrúxulas, tais como _louvávamos_,
+_louváramos_, _louvaríamos_, _devíamos_, _devêramos_, _deveríamos_,
+_puníamos_, _puníramos_, _puniríamos_, _louvássemos_, _devêssemos_,
+_puníssemos_, _saíssemos_, _fizéssemos_, etc.
+
+h) Marcam-se com o acento circunflexo os _ee_ e _oo_ fechados de
+vocábulos paroxítonos terminados em _o(s)_, _e(s)_, _o(s)_ fechados,
+quando haja outros, escritos com as mesmas letras, em que essas vogais
+sejam abertas; ex.: _rêgo_, _rôgo_, substantivos, a par de _rego_,
+_rogo_, verbos; _dêmos_, presente, a par de _demos_, pretérito, _sêde_,
+_côrte_, _côr_, _mêdo_, a par de _sede_, _corte_, _cor_, _medo_, com
+_e_, _o_ abertos, etc.
+
+i) Marcam-se com o acento agudo (') o _i_ e o _u_ que não formem ditongo
+com a vogal anterior; ex.: _país_, _saída_, _faísca_, _Taígeto_,
+_saúde_, _balaústre_, _baú_, etc.
+
+j) Se o _i_ ou _u_, que não forma ditongo com a vogal precedente, é
+átono, em vez do acento agudo, usa-se o grave (`); ex.: _saìmento_,
+_paìsagem_, _saùdar_, _abaùlado_;
+
+l) O acento grave designa tambêm o _u_ dos grupos _qu_, _gu_, se é
+proferido; ex.: _conseqùência_, _agùentar_, _argùir_. Muda-se em agudo
+se êsse _u_ é a vogal predominante, _argúi_; cf. _argùi_, pretérito;
+
+m) Emprega-se igualmente o acento grave para denotar que _a_, _e_, _o_
+átonos são abertos, quando haja homógrafos, em que eles sejam surdos;
+ex. _à_, e _a_; _àquele(s)_, _àquela(s)_, e _aquele(s)_, _aquela(s)_;
+_àparte_, substantivo, e _aparte_, verbo; _prègar_, e _pregar_, de
+_prego_; _mòlhada_, de _molho_, e _molhada_, de _molhar_.
+
+
+91. O acento distintivo (^), que assinala as vogais fechadas _ê_, _ô_,
+só tem aplicação, tanto nos monossílabos, como nos dissílabos ou
+polissílabos, se existe homógrafo, isto é, vocábulo escrito com as
+mesmas letras, de que haja de diferençar-se; pode portanto omitir-se em
+_dor_, _poço_, _cera_, por exemplo, porque não existem, as palavras
+_dór_, _céra_, e _pósso_, verbo, já se diferença de _poço_ em
+escrever-se com _ss_.
+
+92. Semelhantemente, a acentuação gráfica omite-se logo que, pela flexão
+dos vocábulos, deixam de existir as condições que a determinaram. Dêste
+modo, se temos de acentuar graficamente _sêco_, _sêca_, _lôgro_ para os
+diferençar das correspondentes formas verbais _seco_, _seca_, _logro_,
+com _e_, _o_ abertos, a acentuação torna-se inútil no plural daqueles
+nomes masculinos, _secos_, _logros_, mas terá de manter-se em _sêcas_,
+em razão da forma verbal _secas_. Assim, tambêm, escreveremos
+_vaidoso(s)_, _vaidosa(s)_, sem sinal de acento no _o_ da penúltima
+sílaba, conquanto a pronúncia seja _vaidôso_, _vaidósos_, _vaidósa(s)_.
+Outro tanto sucederá com relação ao _o_ aberto de vários substantivos no
+plural, correspondente a _o_ fechado no singular; assim teremos _tejolo_
+(_tejôlo_), _tejolos_ (_tejólos_), sem acento gráfico, mas _trôco_,
+_trocos_, e _troco_, verbo.
+
+As palavras _espôso_, _espôsa(s)_, terão acento marcado, em virtude de
+existirem as formas verbáis _esposa_, _esposa(s)_, com _o_ aberto; mas o
+plural _esposos_ dispensa a acentuação por não haver homógrafo a
+diferençar. Escreveremos _pôr_, com acento circunflexo, para o
+diferençar de _por_, preposição; porêm _dispor_, _propor_, _expor_,
+etc., ortografam-se sem acento distintivo; _português_, _cortês_ tem o
+acento circunflexo no _e_ por este pertencer à última sílaba,
+predominante; em _portugueses_, _portuguesa(s)_, _corteses_ omite-se o
+acento por ser desnecessário, visto os vocábulos haverem passado de
+oxítonos a paroxítonos em _-esa(s)_,_-ese(s)_.
+
+Por outra parte, _árvore(s)_ terá acento marcado, por ser esdrúxulo,
+_arvore(s)_; verbo, não o tem por ser paroxítono em _(e)s_.
+
+93. A conjugação de um imperfeito ou condicional de verbo, como
+_louvaria_, _deveria_, _puniria_, _louvava_, _devia_, _punia_, receberá
+acento nas formas esdrúxulas _louvaríamos_, _louvávamos_, _deveríamos_,
+_devíamos_, _puniríamos_, e nas paroxítonas terminadas em ditongo,
+_louváveis_, _louvaríeis_, _devíeis_, _deveríeis_, _puníeis_,
+_puniríeis_; mas _saía_ tê-lo há em todas as pessoas do imperfeito,
+_saía_, _saías_, _saía_, _saíamos_, _saíeis_, _saíam_, porque o _i_ não
+forma ditongo com o _a_ que o precede.
+
+94. Os nomes próprios acentuam-se graficamente como os nomes comuns;
+assim escreveremos _Pôrto_, como _pôrto_, diferençado de _porto_, verbo;
+_Setúbal_, _Pontével_, _Pedrógão_, _António_, _Tomás_, _Tomé_, _Nazaré_,
+_Belêm_, _Águeda_, etc.
+
+É em virtude desta regra que teremos de acentuar a forma verbal _lêmos_,
+para que se diference de _Lemos_, na escrita, como se diferença na
+pronúncia.
+
+95. Os vocábulos compostos cujos elementos são unidos por hífen (-)
+conservam os seus acentos gráficos; ex.: _mãe-d'agua_, _pára-raios_,
+_pesa-papéis_.
+
+O mesmo se observará com os advérbios formados com o sufixo _-mente_,
+dantes independente, como substantivo que era, o que ainda se reconhece
+na locução _de boa mente_; ex.: _sómente_, _cortêsmente_, _rápidamente_,
+_cristãmente_.
+
+96. Nos vocábulos derivados, aumentativos e deminutivos formados com o
+infixo _z_, o acento agudo converte-se em acento grave, para que se
+evitem leituras erróneas; ex.: _má_, _màzinha_, _màzona_; _avó_,
+_avòzinha_.
+
+
+97. Na escrita comum parte desta acentuação rigorosa e sistemática
+poderá, em algumas das suas minúcias, ser dispensada; não porêm em
+livros didácticos, como gramáticas, dicionários, compêndios de qualquer
+natureza que sejam, nos quais por todas as razões, mas principalmente
+para que se não difundam e propaguem erros na pronúncia, convêm que seja
+fielmente aplicada; podendo mesmo ser ampliada com a marcação, mediante
+o acento circunflexo, de todos os _ee_ e _oo_ fechados tónicos. Em
+qualquer caso, todavia, cumpre que outros sistemas arbitrários não
+substituam esta acentuação gráfica, metódica e harmónica, prejudicando-a
+na sua coerência e regularidade, a qual se baseia no exame escrupuloso
+dos factos.
+
+
+ * * * * *
+
+
+A Comissão termina esta exposição expressando o voto de que, se merecer
+aprovação o sistema proposto, êle se propague por meio de cartilhas e
+gramáticas, que minuciosamente o exemplifiquem, independentemente do
+VOCABULÁRIO.
+
+
+Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior e Especial, 23 de
+Agosto de 1911.--_Francisco Adolfo Coelho_, Presidente.--_José Leite de
+Vasconcelos_, Vogal.--_Cândido de Figueiredo_, Vogal.--_Manuel Borges
+Grainha_, Vogal.--_Aniceto dos Reis Gonçalves Viana_, Relator.--_José
+Joaquim Nunes_, Secretário.
+
+
+ (Diário do Govêrno n.^o 213, de 12 de Setembro de 1911).
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 31| _dessas(s)_ | _dessa(s)_ |
+ |#pág. 41| síbala | sílaba |
+ |#pág. 43| _falar_ | _falaz_ |
+ |#pág. 46| _(as)_ | _a(s)_ |
+ |#pág. 46| _joia_ | _jóia_ |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Bases para a unificação da ortografia
+que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais, by Anonymous
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO ***
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
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+
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+electronic work or group of works on different terms than are set
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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