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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/28364-8.txt b/28364-8.txt new file mode 100644 index 0000000..3c6885b --- /dev/null +++ b/28364-8.txt @@ -0,0 +1,2674 @@ +The Project Gutenberg EBook of Bases para a unificação da ortografia que +deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais, by Anonymous + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Bases para a unificação da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais + +Author: Anonymous + +Release Date: March 20, 2009 [EBook #28364] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos + neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão + final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Mar. 2009) + + + + +MINISTÉRIO DO INTERIOR + +DIRECÇÃO GERAL DE INSTRUÇÃO SECUNDÁRIA, SUPERIOR E ESPECIAL + +1.^a REPARTIÇÃO + + + +BASES PARA A UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA + +QUE DEVE SER ADOPTADA NAS ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS + + +RELATÓRIO DA COMISSÃO + + +NOMEADA POR + +PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911 + +NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR + + + +LISBOA + +IMPRENSA NACIONAL + +1911 + + + + +MINISTÉRIO DO INTERIOR + +DIRECÇÃO GERAL DE INSTRUÇÃO SECUNDÁRIA, SUPERIOR E ESPECIAL + +1.^a REPARTIÇÃO + + + +BASES PARA A UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA + +QUE DEVE SER ADOPTADA NAS ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS + + +RELATÓRIO DA COMISSÃO + + +NOMEADA POR + +PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911 + +NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR + + +PREÇO 50 RÉIS + + +LISBOA + +IMPRENSA NACIONAL + +1911 + + + + +Imprensa Nacional de Lisboa--Gabinete da Revisão.--Ex.^{mo} Sr.--Julgo +do meu dever chamar a atenção de V. Ex.^a para o que passo a expor. + +As publicações saídas da Imprensa Nacional, quer oficiais, quer de +particulares, apresentam grafias diferentes, umas discutíveis, outras +porêm grosseiras e vergonhosas. O próprio _Diário do Govêrno_, que +deveria ter ortografia uniforme, emprega diversas, conforme o capricho +de quem envia os originais, geralmente pessoas indoutas. + +Tais variedades de grafias trazem para a Imprensa não só descrédito mas +tambêm prejuízos pecuniários, porquanto a composição de todos os +diplomas saídos no _Diário_ tem de transitar para outras publicações +periódicas, tais como _Boletins_, _Ordens_, _Separatas_, etc., sofrendo +então cada um dêsses diplomas mais emendas, ao sabor de quem tem de lhes +fazer nova revisão. + +Tantas emendas, alêm de estabelecerem confusão no espirito do +compositor, avolumam de uma maneira assombrosa a despesa da composição, +e impedem a rapidez na impressão pelo muito tempo que se perde a fazer +alterações. + +Com esta anarquia ortográfica os compositores hesitam e cometem novos +erros, e aos revisores se torna tambêm impossível fixar, para cada obra, +as divergências de tanta grafia. + +Urge, portanto, acabar com êste estado de cousas. Fácil me parece o +remédio. Se cada qual se tem julgado até aqui com direito a impor a sua +maneira de escrever, porque razão o Govêrno da República não ha de impor +tambêm a sua, e no que é seu? + +Sujeite, pois, o Govêrno a uma única ortografia todas as publicações +oficiais ou por êle subsidiadas. + +E qual deverá ser essa ortografia? + +Em meu entender deverá adoptar-se a que no seu livro A ORTOGRAFIA +NACIONAL preconiza a maior autoridade no assunto, o doutíssimo filólogo +Gonçalves Viana. Essa obra tem o aplauso de todos os que modernamente se +tem dedicado ao estudo profundo da sciência da linguagem; e a ortografia +simplificada defendida naquele livro é já seguida por grande número de +professores e escritores de valor, e adoptada em muitos livros +escolares, revistas, etc. + +Desnecessário se torna, pois, encarecer as vantagens da adopção de um +único sistema ortográfico a quem, como V. Ex.^a, de sobejo as conhece e +aprecia. Pelo lado económico tem a Imprensa muito a ganhar. Tampouco é +para desprezar o louvor que a V. Ex.^a caberá por contribuir, com a +adopção da ortografia simplificada, para a maior facilidade no ensino da +leitura da nossa bela língua. + +Expondo, embora imperfeitamente, a minha opinião acêrca do que julgo ser +melhoramento de um dos serviços da Imprensa, confio em que V. Ex.^a se +dignará tomar na devida consideração o alvitre que neste oficio ouso +apresentar a V. Ex.^a. + +Lisboa, 17 do Dezembro de 1910.--Ex.^{mo} Sr. Luís Carlos Guedes +Derouet, Digníssimo Administrador Geral da Imprensa Nacional.--_José +António Dias Coelho_, chefe do serviço da revisão. + + + * * * * * + + +Imprensa Nacional de Lisboa--Administração Geral--N.^o 238.--Tenho a +honra de levar ao conhecimento de V. Ex.^a o oficio que recebi do chefe +do serviço da revisão, relativamente à necessidade de se adoptar uma +ortografia uniforme nos trabalhos desta Imprensa e principalmente no +_Diário ao Govêrno_. + +Estou perfeitamente de acôrdo com as considerações que faz o aludido +funcionário, pois que não pode nem deve continuar a anarquia que +presentemente existe. Embora o problema ortográfico não se resolva por +completo de momento, pelo menos que nos trabalhos oficiais se mantenha a +uniformidade. + +Chamo para o facto a devida atenção de V. Ex.^a, certo de que o assunto +lhe merecerá toda a solicitude. + +Saúde e Fraternidade. + +Lisboa, 14 de Janeiro de 1911.--Ex.^{mo} Sr. Director Geral da Instrução +Secundária, Superior e Especial.--O Administrador Geral, _Luís Derouet_. + + + * * * * * + + +Ministério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior +e Especial.--1.^a Repartição.--O Govêrno Provisório da República +Portuguesa, atendendo ao que lhe foi representado pelo Administrador +Geral da Imprensa Nacional, no sentido de serem tomadas providências +tendentes a uniformizar a ortografia oficial, por forma a evitar que nas +publicações emanadas daquele estabelecimento do Estado continuem a +adoptar-se, paralelamente, as mais desencontradas formas ortográficas; + +Conformando-se com o parecer da secção permanente do Conselho Superior +de Instrução Pública: + +Manda, pelo Ministro do Interior, que seja nomeada uma comissão, +composta de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Aniceto dos Reis +Gonçalves Víana, António Cândido de Figueiredo, Francisco Adolfo Coelho +e José Leite de Vasconcelos, encarregada de fixar as bases da ortografia +que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos e publicações +oficiais, e bem assim de organizar uma lista ou vocabulário das palavras +que possam oferecer qualquer dificuldade quanto à maneira como devem ser +escritas. + +Paços do Govêrno da República, em 15 de Fevereiro de 1911.--O Ministro +do Interior, _António José de Almeida_. + + + (_Diário do Govêrno_ n.^o 39, de 17 de Fevereiro de 1911). + + + * * * * * + +Ministério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior +e Especial--1.^a Repartição.--Manda o Govêrno Provisório da República +Portuguesa, pelo Ministro do Interior, que à comissão encarregada de +uniformizar a ortografia oficial, nomeada por portaria de 15 de +Fevereiro último, sejam agregados os seguintes vogais: Dr. António José +Gonçalves Guimarães, Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Augusto +Epifânio da Silva Dias, Júlio Moreira, José Joaquim Nunes e Manuel +Borges Grainha. + +Paços do Govêrno da República, em 16 de Março de 1911.--O Ministro do +Interior, _António José de Almeida_. + + + (_Diário do Govêrno_ n.^o 64, do 20 de Março de 1911). + + + * * * * * + + +Mistério do Interior--Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior e +Especial--1.^a Repartição.--Conformando-se com o parecer da comissão +encarregada, por portaria de 15 de Fevereiro de 1911, de estabelecer as +bases para a unificação da ortografia que deve ser adoptada nas escolas +e nos documentos e publicações oficiais: + +Manda o Govêrno da República Portuguesa, pelo Ministro do Interior: + +1.^o Que o relatório da referida comissão seja publicado no _Diário do +Govêrno_, devendo ser para o futuro adoptada em todas as escolas, e bem +assim nos documentos e publicações oficiais, a ortografia proposta pela +comissão; + +2.^o Que se dê a tolerância máxima de três anos, a contar da data da +publicação da presente portaria, para a conservação das grafias +existentes nos livros didácticos actualmente em uso, a fim de não +prejudicar os respectivos autores ou editores; + +3.^o Que se promova a rápida organização e publicação, pelo preço mais +módico possível, de um vocabulário ortográfico e de uma cartilha, +especialmente destinada a vulgarizar e exemplificar o sistema de +ortografia adoptado; + +4.^o Que a comissão nomeada por portaria de 15 de Fevereiro de 1911 +continue em exercício pelo tempo que se julgar conveniente, a fim de ser +ouvida sobre quaisquer dúvidas que se suscitem relativamente à execução +da reforma proposta, podendo a referida comissão reùnir-se por +iniciativa própria, ou convocada pela Direcção Geral da Instrução +Secundária, Superior e Especial, por intermédio da qual serão feitas +quaisquer reclamações sôbre o assunto. + +Paços do Govêrno da República, em 1 de Setembro de 1911.--O Ministro do +Interior, _António José de Almeida_. + + + (_Diário do Govêrno_ n.^o 206, de 4 de Setembro de 1911). + + + + + Ex.^{mo} Sr. Ministro do Interior: + + +A Comissão, nomeada por portaria de 15 de Fevereiro do corrente ano para +fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos +documentos oficiais e outras publicações feitas por conta do Estado, vem +hoje apresentar a V. Ex.^a os resultados do estudo a que procedeu, bem +como as decisões que, por grande maioria ou por unanimidade de votos dos +indivíduos que a compõem, entendeu ser oportuno propor, tomando por +elementos principais dessas decisões a história da língua portuguesa, e +a da sua escrita tradicional até época muito recente. + +Logo na sessão inaugural, celebrada em 15 de Março último, julgou a +Comissão que seria vantajoso para a absoluta independência e +imparcialidade das suas resoluções, como corpo consultivo, propor a +agregação de mais alguns conhecidos filólogos portugueses; e essa +conveniência reconheceu-a V. Ex.^a nomeando, por portaria de 16 do +referido mês, alêm dos indivíduos já anteriormente nomeados, mais seis; +ficando a Comissão composta de onze pessoas, uma das quais, porêm, o +Professor Augusto Epifânio da Silva Dias, se escusou, declinando o +encargo. Ficou assim a Comissão constituída por dez membros, e, em razão +de ser par êste número, teve o presidente eleito por ela de resolver com +voto de desempate algumas questões de secundária importância, em que +divergiram as opiniões, expressas depois de discussão por votações +diferentes, equivalentes em número. + +Quatro dos membros da Comissão, isto é, a Sr.^a D. Carolina Michaëlis de +Vasconcelos, que a Comissão elegeu Presidente honorária, os Drs. António +José Gonçalves Guimarães e António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, e o +Professor Júlio Moreira, não puderam comparecer às sessões semanais, em +razão de residirem longe de Lisboa, localidade em que a Comissão se +reuniu: foram porêm sempre consultados em todas as questões em que não +houve unanimidade de votos por parte dos indivíduos presentes; havendo +sido os votos dêsses ausentes tomados em consideração, e dando-se-lhes +oportuno conhecimento das resoluções adoptadas pelos membros presentes +às sessões, que não foram mais amiudadas, porque outras funções oficiais +dos membros da Comissão o não permitiram, e assim se explica a relativa +morosidade dos seus trabalhos. + +Logo nas duas primeiras sessões foi unânime o parecer de, seguindo-se +uma tendência já manifestada no espírito público, se simplificarem as +grafias correntes, entre si contraditórias, regularizando-as em +obediência ao princípio capital de simplificação. Por proposta, +unânimemente aprovada, do Presidente adoptou-se para base da discussão o +Questionário ortográfico em tempos apresentado por um dos seus membros à +Academia das Sciências de Lisboa, e pela mesma Academia mandado imprimir +na sua tipografia, em 1902, com as respostas do autor dêsse +Questionário, em um volume de 183 páginas, cujo título é AS ORTOGRAFIAS +PPRTUGUESAS. Esta obra foi ao depois reeditada pelo referido autor em +outro volume, acrescentada e com maior cópia de abonações e diferente +economia de texto, volume que é do conhecimento do público e se intitula +ORTOGRAFIA NACIONAL. Teve a Comissão igualmente em atenção o VOCABULÁRIO +ORTOGRÁFICO E ORTOÉPICO DA LÍNGUA PORTUGUESA, ainda do mesmo autor, +impresso em Lisboa no ano passado, e no qual o sistema ortográfico dêsse +autor se encontra larga e minuciosamente exemplificado. Pode êle, com +efeito, ser desde já utilizado, emquanto outro se não publique, em que +as pequenas alterações, que sofreram os princípios em que se baseou, +sejam incluídas e atendidas de preferência na seqùência alfabética dos +vocábulos. + +Poucas e de pequena importância relativa foram as modificações que a +Comissão entendeu conveniente que se fizessem no sistema ortográfico ali +proposto e seguido, e essas foram adoptadas para que êle ficasse mais em +harmonia com modos de escrever que, conquanto menos conseqùentes, se +tornaram já, a bem dizer, habituais; e tais modificações em preceitos, +que o autor daquelas obras defendera com razões históricas cuja valia a +Comissão reconheceu, tiveram por causa o considerar a Comissão que +alguns dêles eram em demasia prematuros, e um ou outro já extemporâneo, +em virtude de usos ortográficos radicados e que se não devem considerar +absolutamente como erros scientíficos. + +Teve pois a Comissão em atenção que a estranheza, que poderiam ocasionar +no público certas innovações ou renovações gráficas, não viesse +prejudicar a aceitação dos demais preceitos, que parecerão a todos +exeqùiveis. + +O autor, membro da Comissão, concordou com todas essas modificações, e +votou com a maioria da Comissão em todas elas. À primeira espécie +pertencem a manutenção do _h_ inicial, de _ge_, _gi_, mediais de +vocábulos, em concorrência com _je_, _ji_, e todos os valores actuais +dados à letra _x_, que o mesmo autor reduzira a dois únicos, o inicial, +como em _xadrez_, e o do prefixo _ex-_ valendo por _eis_ ou _is_, como +em _expor_, _exército_, etc. Os preceitos da segunda espécie, que, se +bem que perfeitamente motivados nas propostas do autor do Questionário, +a Comissão julgou já de há muito fora do uso comum, são principalmente o +emprêgo de _ç_ inicial, e o do _z_ final, com o valor actual de _s_, em +sílaba átona, que sobretudo figura na última sílaba de muitos nomes +patronímicos, como _Gonçálvez_, _Núnez_, que presentemente se escrevem +_Gonçalves_, _Nunes_, com _-es_, em oposição à sua etimologia, a +desinência latina _ici_, de genetivo. Esses nomes e vocábulos, como +_ourives_, _simples_, _mesquinho_, continuarão pois a escrever-se com +_s_ final de sílaba, na ortografia comum. + +Entendeu tambêm a Comissão que seria inoportuno suprimir o _s_ inicial +do grupo _sce_, _sci_, que figura etimológicamente em algumas palavras, +tais como _sciência_, _scetro_, _scéptico_, _scelerado_, _scena_, +_scisão_, _scisma_ e seus derivados e afins, principalmente, com relação +ao primeiro dêstes vocábulos, porque no sul de Portugal se profere êsse +_s_ separado do _c_, em formas compostas, como _presciência_, +_consciência_, _insciência_, _cônscio_, etc. Comparem-se tambêm +_en(s)cenação_, e _proscénio_, com _s_ proferido êste último. + +¿Quais são as bases da ortografia portuguesa que a Comissão propõe? + +Havia, logo desde o início dos trabalhos, dois sistemas a que se +atendesse, um dêles a ortografia francesa, que, mais ou menos +coerentemente se tem há certo tempo imitado em Portugal; o outro, as +ortografias espanhola e italiana, muito mais simples, racionais, lógicas +e fáceis de aprender, muito mais conformes com a evolução natural e +mesmo literária dêsses idiomas, em muitos pontos análoga à do português. +O que radicalmente diferença a ortografia dêsses dois idiomas oficiais, +e bem assim as de outros congéneres entre si, com êles e com o nosso, +falados quer em Espanha, quer em Itália, é a modificação da ortografia +latina dos inúmeros vocábulos gregos romanizados, para outras mais +conformes com o valor das letras de tais vocábulos nessas línguas +modernas. + +Facilitando o ensino da leitura e da escrita, a Comissão julgou que já +era tempo de se desterrarem por uma vez da escrita portuguesa, como há +muito o estão da espanhola e da italiana, para não mencionar as de +outros idiomas mais desviados do latim, os símbolos _ph_, _th_, _rh_, e +_y_, por _f_, _t_, _r_, _i_, e o _ch_ com o valor de _k_, o qual ficará +substituído por _qu_ antes de _e_, _i_, e por _c_ em qualquer outra +situação, como se fêz em castelhano. Com esta simplificação muito +ganhará a língua escrita e o seu aprendizado e exercício, pois mais se +aproximará da realidade dos factos constantes da sua pronúncia, que +aqueles estranhos símbolos disfarçam, e ao mesmo passo se acercará das +ortografias espanhola e italiana, consideradas universalmente, e por +todos os filólogos, como das mais perfeitas entre as que adoptaram o +abecedário romano, e o apropriaram às conveniências nacionais. Com +efeito, pode afoutamente dizer-se que a ortografia francesa e as actuais +portuguesas que a imitam são escrita de eruditos e para eruditos, ou que +presumem sê-lo; as ortografias italiana e espanhola são escrita para +todos os indivíduos que nessas nações sabem ler e escrever. Deseja a +Comissão que em Portugal aconteça outro tanto, e nesse intuito se +inspirou. + +Outra simplificação igualmente importante, que a Comissão sugere como +absolutamente necessária, consiste na abolição de consoantes dobradas, +as quais ficam reduzidas, como em castelhano, a simples, com excepção de +_rr_, _ss_, _mm_, _nn_ mediais, quando acusem diferença de pronunciação, +o que se dá, por exemplo, nos vocábulos _cassa_, _carro_, _emmalar_, +_ennovelar_, comparados a _casa_, _caro_, _emanar_, _enervar_. + +Estas duas simplificações, sós por si, acabam definitivamente com dois +dos maiores tropeços com que se encontra estorvada a escrita nacional, e +que já poucos defensores conscienciosos, conscientes e autorizados +lograrão obter. Todos, ou quási todos os que lêem ou escrevem, +aplaudirão de certo estas simplificações há tanto tempo desejadas e +sugeridas. + +Alêm da inutilidade prática, e mesmo teórica, que oferece actualmente a +duplicação de consoantes na escrita, como _cc_, _dd_, _ff_, _gg_, _ll_, +_mm_, _nn_, _pp_, _tt_, outro estôrvo apresentam ainda as nossas +escritas, relativamente modernas, e consiste êste no emprêgo de _c_ ou +_p_ antes de _t_, formando os grupos _ct_, _pt_, e ainda _pç_, _cç_, +como em _producto_, _restricto_, _corrupto_, _escripto_, _assumpção_, +_funcção_, etc., nos quais tanto o _c_ como o _p_ são de todo inúteis +para a pronunciação. A Comissão preceitua que essas letras escusadas +desapareçam da escrita portuguesa, onde vieram enxertar-se por +influência estranha. Casos, porêm, há, e muitíssimos, em que tais +consoantes ou são ainda facultativamente proferidas, ou a sua influência +subsiste no valor das vogais _a_, _e_, _o_ que as precedem, as quais, em +vez de se obscurecerem, como é de regra, nas sílabas antetónicas, +conservam os seus valores, relativamente _à_, _è_, _ò_, que tinham +quando essas consoantes, hoje mudas, se proferiam. Dêste modo, a +Comissão entendeu ser de necessidade a conservação delas, quer quando a +vogal, _a_, _e_ ou _o_ precedente é átona, quer em vocábulos +aparentados, quando é tónica; por exemplo: _direcção_, _directo_, +_acção_, _activo_, _acto_, _tracção_, _tracto_, _excepção_, _exceptuar_, +_excepto_, _adopção_, _adoptar_, _adopto_, comparados estes últimos +vocábulos com _opção_, _optar_, _opto_, em que o _p_ se profere. Com +esta excepção aos princípios simplificadores que a Comissão observou no +sistema ortográfico que propõe, conseguiu não demudar o aspecto de +centenas de palavras relativamente modernas, mas de uso constante; e com +tanto maior razão o fêz, quanto é certo que em muitas destas palavras as +letras _c_ e _p_ por muitas pessoas são ainda proferidas, tais como +_facção_, _recepção_, _espectador_, a par de _espe(c)taculo_, etc. +Quanto ao _g_ que precede _m_ ou _n_, ou ainda outras letras, entendeu a +Comissão dever eliminá-lo nas palavras em que se não profere, como +_assinar_, _Inácio_, _aumentar_, _Madalena_, comparadas com _designar_, +_Agnelo_, _fragmento_, o que já há quatro séculos Duarte Nunes do Lião +aconselhara; só modernamente êle aí foi introduzido, quando se +implantaram artificialmente entre nós ortografias servil e +inconseqùentemente etimológicas, quási todas por influência da escrita +francesa. Outro tanto acontece com _damno_, _solemne_, que se +escreverão, como dantes, _dano_, _solene_. + +Efectivamente, se na leitura de livros estrangeiros houvesse predominado +em Portugal a de italianos ou espanhóis, nunca tais complicações +ortográficas se haveriam enraizado na escrita literária do idioma +pátrio, avêsso a tais arrebiques, e ao qual é de toda a conveniência +restituir a simplicidade e coerência da antiga escrita. + +Outra feição essencial numa ortografia, que seja, quanto possível, +imagem dos fenómenos que se observam na linguagem falada, é a +regularização da sua acentuação gráfica, por meio da qual se diferencem +palavras que se escrevam com as mesmas letras, mas tenham pronunciação e +significação diversas; e ainda que seja por tal modo combinada e +aplicada, que nenhuma dúvida possa subsistir com relação a qual seja a +sílaba predominante de qualquer palavra ou forma, em idiomas em que, +como acontece em português, a acentuação tónica pode afectar uma +qualquer das três sílabas finais. Nesta condição é muitíssimo superior à +italiana usual a ortografia castelhana, que assinala sistemáticamente +com o acento agudo (') todos os vocábulos esdrúxulos e todos os +terminados em consoante, se a sílaba predominante é a penúltima, ou +terminados em vogal, se ela é a última. A Comissão atendeu a essa +condição essencial da leitura, e suposto a não preceitue já como +obrigatória em todos os casos em que seria necessária, aconselha-a e +fixa-lhe as regras que a determinarão, quando rigorosamente empregada, +como convirá que o seja em todos os livros de ensino e consulta. + +Sabe a Comissão que esta parte da reforma ortográfica será aquela que +maiores dificuldades encontrará na sua execução, principalmente a +acentuação distintiva de tantíssimos homógrafos, como os que existem em +português, muitos mais do que em castelhano, ou mesmo em italiano. Essas +distinções obrigarão quem escreve para o público a ser um tanto mais +cauteloso na ortografia das palavras, do que usualmente o é na +actualidade. Em compensação, porêm, o escritor já não terá futilidades +etimológicas a respeitar por costume, e o bom ensino da leitura em breve +habituará as gerações novas à acentuação rigorosa. + +Não foi condescendência com a inércia que imperou no ânimo da Comissão, +ao deixar em certo modo facultativo, por emquanto, o uso pontual da +acentuação gráfica em todas as suas minúcias, como o é o da castelhana, +e com a mais estrita coerência; mas sim o reconhecimento de que as +condições naturais do idioma português exigem que essa acentuação +gráfica seja muito mais copiosa e diferencial do que o é a castelhana, +em si modelar na sua simplicidade. Na realidade, em castelhano não há a +diferençar _e_, _o_ fechados de _e_, _o_ abertos, o que dispensa o uso +do acento circunflexo nesse idioma, no qual não existe o considerável +número de homógrafos que se observa em português; e alêm disto não se +dão em castelhano os constantes acidentes de variação de valor em _e_, +_o_, que no português se produzem e determinam um sem número de +vocábulos entre si diferentes fonéticamente, conquanto nas letras com +que se escrevem sejam iguais, e que nenhum ouvido português confundirá, +como é conveniente que a escrita os não confunda, tais como _entêrro_, +_almôço_, substantivos, e _entérro_, _almóço_, verbos; _sôbre_, +preposição e _sóbre_, verbo; _sêde_ e _séde_; _pêlo_ substantivo _pélo_, +verbo, a par de _pelo_ (_p'lu_) contracção de _per lo_, preposição e +artigo; _pâra_, preposição, e _pára_, verbo; _dêmos_, presente, e +_démos_, pretérito, etc. + +Nestes homógrafos, porêm, para se evitar acentuação dispensável, o que +cumpre é assinalar-se no _e_ e no _o_ o seu valor de _ê_, _ô_, visto que +os nomes destas letras em português se proferem com vogais abertas, _è_, +_ò_, devendo pois considerar-se êsse valor como o seu normal quando são +tónicas. Por êste motivo, o que convêm em tais homógrafos é marcar-se +com o acento circunflexo as vogais fechadas, omitindo-se o acento agudo +em _e_ e _o_ abertos, e escrevendo-se portanto as palavras citadas, e +outras análogas, _sôbre_ e _sobre_, _almôço_ e _almoço_, _entêrro_ e +_enterro_, _sêde_ e _sede_, _pêlo_, _pélo_ e _pelo_, _pára_ e _para_, +_dêmos_ e _demos_. E necessário que _pélo_, _pára_, _pólo_ sejam porêm +marcados com o acento agudo, pois as contracções _pelo_, _polo_ (arcaica +esta) e a preposição _para_ são sempre átonas. A forma da 1.^a pessoa do +plural do pretérito perfeito dos verbos em _-ar_, como _louvámos_, +receberá, o que é já uso corrente, o acento agudo, para se diferençar da +do presente, _louvamos_, por isso que o _a_ antes de consoante nasal, é +normalmente fechado, isto é, proferido _â_, e a distinção se observa em +quási todo o domínio português. + +Algumas considerações consagrará ainda a Comissão ao sistema de +acentuação gráfica. + +Como é já uso estabelecido, o acento agudo (') é o sinal, por +excelência, da sílaba predominante de todo o vocábulo que não seja +átono, com excepção de _e_, _o_ fechados, que serão, aceitando-se o +costume que em português se foi lentamente fixando, assinalados com o +acento circunflexo (^). Fixa a Comissão o uso, mais ou menos vagamente +seguido, de marcar com outro acento disponível, o grave (`), as vogais +_a_, _e_, _o_, abertas, de sílabas pretónicas, quando haja homógrafos a +diferençar entre si. Nesta conformidade escrever-se hão: _à_, contracção +de _a_ artigo e _a_ preposição, de que se diferençará; _àquela_, +diferente de _aquela_; _prègar_, diverso de _pregar_; _mòlhada_, e +_molhada_, particípio femenino de _molhar_. Preceitua pois a Comissão +que o acento grave indique o valor alfabético das vogais _a_, _e_, _i_, +_o_, _u_ (_à_, _è_, _ì_, _ò_, _ù_), e dêste preceito se deduzem todas as +aplicações que dá ao acento grave. Essas outras aplicações são as +seguintes: + +1.^a Distinguir homógrafos, _aquela_, _àquela_, _pregar_, _prègar_, +quando a vogal distintiva seja átona; 2.^a, marcar as vogaes _a_, _e_, +_o_, abertas, em palavras que tenham dois acentos tónicos, o último dos +quais seja o predominante, como é de regra em português, _chapèuzinho_, +_avòzinha_, _màzona_; 3.^a, dissolver ditongos átonos, _saìmento_, +_paìsagem_, _saùdar_, a par de _saída_, _país_, _saúde_, em que _i_, _u_ +são tónicos; 4.^a, diferençar o _u_ proferido, dos grupos _qu_, _gu_, do +_u_ mudo dos mesmos grupos, _freqùente_, comparado a _quente_, _argùir_, +comparado a _seguir_. Quando o _u_ passe a ser tónico, o acento grave +mudar-se há em agudo; ex.: _argúi_, diferente de _argùi_. + +Como a Comissão fixou que a subjuntiva fraca dos ditongos seja sempre +escrita com _i_, _u_ e nunca _e_, _o_ é inútil o emprêgo de qualquer +sinal diacrítico nestas duas letras, para denotar que não formam ditongo +com a vogal precedente, como em _moeda_, _neófito_, _cooperar_, etc. + +A escrita dos ditongos orais será portanto a seguinte, na qual _éi_, +_éu_, _ói_, com a vogal dominante aberta, se diferençam de _ei_, _eu_, +_oi_, em que ela é fechada: _ai_ (_ài_, _âi_), _éi_, _ei_, _ói_, _oi_, +_ui_, _au_, _éu_, _eu_, _ou_, _iu_, do que são exemplos estes vocábulos: +_pai_, _caiar_, _réis_, _reis_, _sóis_, _sois_ (verbo), _fui_, _pau_, +_céu_, _seu_, _riu_, _levou_. Preferíu-se acentuar as vogais abertas de +_éi_, _éu_, _ói_, visto serem elas sempre tónicas; êsse acento mudar-se +há no grave, quando acidentalmente elas sejam em certo modo átonas, como +em _vèuzinho_, _painèizinhos_, _heròicidade_. Os dois valores da escrita +_ai_ (_ài_ e _âi_) como em _ensaio_, _ensaiar_, é desnecessário +acusá-los, por isso que o ditongo _âi_ átono só se manifesta antes de +vogal, pois quando tónico se escreve _ei_. + +No Formulário de regras de ortografia, que a Comissão submete à +apreciação do Govêrno, ficarão consignados os principais preceitos da +acentuação escrita, que se encontram postos em prática no VOCABULÁRIO +ORTOGRÁFICO, a que já se referiu, e completamente expostos de páginas +155 a 200 da ORTOGRAFIA NACIONAL, tambêm já citada, a qual tem um +copiosíssimo índice alfabético e remissivo, que facilita a sua consulta +nos casos duvidosos. Exemplos rigorosos dêste sistema de acentuação +oferece-os igualmente todo êste relatório, bem como de toda a ortografia +que se propõe. + +Aludiu agora mesmo a Comissão à distinção, que é mester deixar retratada +na escrita, entre _e_ e _o_ fechados e _e_ e _o_ abertos, quando entre +si distinguem inúmeras palavras e formas gramaticais. Outra não menor +dificuldade oferece a língua portuguesa, comparada às suas congéneres: é +a atonia de certas vogais, que adquirem timbres especiais, e lhe é +peculiar, só tendo paralelo na catalã, e em muito menor grau, e de certo +modo, na francesa e na provençal moderna, mas em qualquer delas sujeita +a menor número de excepções. Neste ponto é o português só comparável, +ainda que vagamente, ao inglês. Com efeito, ao _a_ tónico, geralmente +proferido _à_, corresponde um _a_ átono, quási sempre surdo, _â_; ao _ò_ +ou _ô_ tónicos, um _o_ que se profere como _u_ na grande maioria dos +casos; ao _è_ ou _ê_, um _e_ surdo átono, mais ou menos perceptível na +pronúncia, conforme os sons com que está em contacto e lhe influem no +timbre. Se êsse _e_ átono é seguido de vogal, ou é inicial de vocábulo, +vale por _i_, ex.: _veado_, _evitar_; se se lhe segue consoante palatal, +_ch_, _x_, _j_, _s_, _lh_, _nh_, equivale a _i_ surdo, e com êste se +confunde no falar usual e desafectado. Comparem-se, com efeito, entre si +vocábulos tais como _ferro_, _ferreiro_; _grêlo_, _grelar_; _fecho_, +_fechar_; _cereja_, _cerejeira_; _telha_, _telhado_; _desenho_, +_desenhar_; _pesca_, _pescar_, e _pisco_, _piscar_; _esteira_ e +_história_; _testar_ e _distar_; _distinto_, de _distinguir_; e +_destinto_ de _destingir_; atente-se igualmente na pronúncia do vocábulo +_privilegiado_ que é _preveligiado_, muitas vezes erróneamente assim +escrito, e ver-se há quanto é difícil a nossa escrita. + +Por outra parte, e o último vocábulo o comprova, numa seqùência de +sílabas, todas as quais tenham _i_ por vogal antes da predominante, êsse +_i_ escrito, quando átono, profere-se quási sempre como _e_ surdo, em +pronúncia desafectada. Há excepções que as gramáticas devem explicar. + +Desta série de fenómenos, que tornam o português o mais delicado e +interessante dos idiomas neo-latinos, originam-se constantes erros e +hesitações na sua escrita, a que não é possível obviar, a não ser por +uma transcrição absolutamente fonética, a qual reproduza fielmente todos +êsses acidentes, e que seria inadmissível em ortografia corrente e +usual, pois sómente um ouvido exercitado e um tirocínio especial a +poderiam aplicar. + +Não se pense, portanto, que a fixação de uma ortografia regularizada e +simplificada possa remover todas as dificuldades, sem um suficiente +preparo gramatical, em que a derivação e formação das palavras, e os +resultantes acidentes na variação dos sons que as compõem, conforme a +sua situação, hajam sido estudados. + +A consulta oportuna de um vocabulário, como o já indicado, feito em +harmonia com os preceitos estabelecidos, será tambêm indispensável, não +só em razão do emprêgo de _o_ ou _u_ e tambêm _e_ ou _i_ átonos, quer +antes de consoante, quer antes de vogal, mas ainda com relação ao uso de +_ç_ ou _ss_ mediais, de _ce_, _ci_, _s(s)e_, _s(s)i_, _z_ ou _s_ entre +vogais, e quando finais, e em menor escala o de _ch_ e _x_, de _ge_, +_gi_ ou _je_, _ji_. + +O VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO indicado remove todas as dúvidas, visto +encontrar-se nele a etimologia dos vocábulos, quando necessária a essas +distinções ortográficas, a comparação vocabular e formal com a +ortografia denominada etimológica, e a conjugação dos verbos, +exemplificada em todas as suas diferentes modalidades. É um livro que se +pode considerar adequado ao período de transição, que há-de decorrer +antes que se vulgarize a ortografia regularizada oficial. + +A Comissão não hesitou, respeitando a história do idioma pátrio, as suas +origens e a sua evolução no tempo e no espaço, em conservar a distinção +gráfica entre _ç_ e _s(s)_, entre _z_ e _s_ mediais, pôsto que nenhuma +diferença se observe já na sua pronúncia do Mondego para o sul, e a +distinção se vá obliterando cada vez mais nos centros urbanos das +províncias do norte. + +A diferenciação gráfica, conforme a sua origem, entre _se_, _si_, e +_ce_, _ci_, iniciais, entre _ç_ e _ss_ mediais, bem como a que ainda +dialectalmente subsiste entre _z_ e _s_ intervocálicos, ou _x_ e _ch_ ou +_ô_ e _ou_, pertencem à história da língua, e a Comissão conserva-as, +regulando-as com o maior rigor; pois ficaria em contradição com essa +história se, o que fôra relativamente fácil, optasse por escrever sempre +_z_ entre vogais, e sempre _s_ em finais de vocábulos; porque não seria +licito, nem ninguêm lhe aceitaria, substituir _ce_, _ci_, _ç_, por _s_ +ou _ss_, em milhares de vocábulos e formas, que sempre se tem conservado +diferentes na sua escrita, e com bons fundamentos. + +Neste pressuposto, prescreve que _ce_, _ci_, _ç_, ou _z_ final de +vocábulos correspondam a _ci_, _ti_ latinos, a _ss_ arábicos; e _s_, +_ss_ a _s_ ou _ss_ latinos; e, por outra parte, que _z_ corresponda a +_z_, ou _ce_ ou _ci_, _ti_ latinos, ou a _zz_ arábicos; _s_ entre +vogais, ou final, a _s_ latino. Nos vocábulos de origem americana +indígena _ce_, _ci_, _ç_ são preferíveis a _s_, seguindo-se nisso a +escrita tradicional. Para quem não esteja preparado com umas noções, +rudimentares que sejam, de latim, a consulta ao VOCABULÁRIO é +indispensável em casos duvidosos, e muitas vezes é conveniente a +comparação com as correspondentes formas ou palavras castelhanas, pois +no idioma do centro de Espanha a confusão entre _s_ e _c_ ou _ç_ +(modernamente escrito _z_) é impossível, pois bem se diferençam na +pronúncia, como antes acontecia em Portugal e no resto da Península +Hispánica. + +Muito menor dificuldade apresenta a diferenciação entre _ch_ e _x_, e o +VOCABULÁRIO, bem como a escrita castelhana, em que _x_ é modernamente +representado por _j_, fácilmente a indicam. Bastará aqui dizer-se que, +em geral, _ch_ corresponde a _cl_, _fl_, _pl_ latinos, e que em +vocábulos de origem arábica o emprêgo de _x_ é de regra. Com respeito à +selecção entre _ô_ e _ou_, deve considerar-se que o digrama _ou_ +corresponde a _au_ ou _al_ latinos, às vezes a _oc_, _ap_, e ao _au_ +arábico: a diferença é intuìtiva para todos os portugueses do norte e +das duas Beìras, pois _ou_ para êles é ditongo, e não simplesmente _o_ +fechado, como o é no sul do país. + +A escrita dos ditongos nasais será, como é já uso radicado, _ãe_, _õe_, +_em_, _ens_, _ão_ como em _mãe(s)_, _botões_, _bem_, _bens_, _mão(s)_; +e, conforme tambêm há muito se usa, nas terminações átonas dos verbos o +ditongo _ão_ será escrito _am_; assim teremos, por exemplo, _louvam_, +_louvaram_, presente e pretérito, _louvarão_, futuro, sem precisarmos de +indicar por acentos a diferença. Nos substantivos, porêm, o acento na +sílaba predominante diferenciará _cóvão_ de _covão_, designando o acento +a atonia do ditongo final, como em _órfão_, _órgão_, _Estêvão_, etc., +visto que a escrita _orfams_ seria uma novidade inútil, e _órfans_ daria +causa a equívoco, conquanto o respectivo femenino se escreva _órfã(s)_. +O ditongo _em_, quando predominante em polissílabos, receberá o acento +circunflexo, como em _armazêm_, _armazêns_, _porêm_, a par de _margem_, +_porem_, cuja escrita indicará a acentuação _márgem_, _pôrem_, mesmo sem +ser marcada. O ditongo _[~u]i_ de um único vocábulo actualmente, +_muito_, e sua abreviatura proclítica _mui_, hoje em dia só literária, +continuará, como até aqui, sem sinal especial que indique a nasalização; +e _ruim_, que dialectalmente se profere _r[~u]i_, será dissílabo, e não +monossílabo. + +À vogal _â_, nasal, fixa-se a escrita _ã_, final; às demais vogais, e a +_ã_ quando no comêço ou interior do vocábulo não se alterará a escrita +já adoptada, _am_, _an_, _em_, _en_, _im_, _in_, _om_, _on_, _um_, _un_. + +Em obras didácticas, porêm, é licito indicá-las, com maior exactidão, +por _ã_, _[~e]_, _[~i]_, _õ_, _[~u]_, e ao ditongo nasal _em_ por +_[~e]i_, quando a clareza da exposição o exija. + +O sinal (") ou cimalhas, ápices, cuja função em várias ortografias a +maioria da Comissão atribui ao acento grave (`), fica reservado para +denotar, em obras da espécie designada, o valor do ou dialectal (_öu_, +_ö_, _[o:]_) e o do _u_ igualmente dialectal (_ü_); o _ë_ servirá para +representar em especial o _e_ fechado, antes de palatal, que varia de +valor, entre _ê_ e _â_, dos estremos para o centro de Portugal, como em +_seja_, _fecho_, _selha_, _senha_, etc. São sinais êstes que nenhuma +aplicação tem na escrita comum, na qual, portanto, palavras com _exodo_, +_exito_ serão acentuadas _êxito_, _êxodo_, e não _ëxito_, _ëxodo_, ou +_ëisito_, _ëisodo_, como é a sua pronunciação. + +A acentuação gráfica tem como primeiro fim acusar a sílaba tónica, +considerando-se que o til (~) vale por acento tónico, se outro não +existe marcado no vocábulo ou forma; acusa ainda êsse acento a tónica +predominante, se há mais de uma, e ainda, em monossílabos, que estes não +são átonos. Esta acentuação denomina-se p r o s ó d i c a, e compreende +não só oa dois casos indicados, mas igualmente outros acidentes +vocabulares, como a desunião de vogais que geralmente formam ditongos. + +Um bom sistema de acentuação deve ser tal que, ou a sílaba predominante +se assinale na escrita, ou não, quem lê nenhuma hesitação possa ter +sôbre qual seja essa sílaba. Com o sistema proposto pela Comissão é +satisfeito êste preceito fundamental com tanta pontualidade, quanta +observamos na ortografia castelhana, ou na toscana, segundo o plano de +Petròcchi. O sinal do acento tónico é o agudo nas vogais _a_, _i_, _u_, +_e_ e _o_ abertos, o circunflexo em _a_, _e_, _o_ fechados, e o til na +vogal final _ã_, e nos ditongos nasais _ãe_, _õe_, _ão_. + +Na vogal nasal _ã_, ou em _a_ antes de consoante nasal, adopta a +Comissão igualmente o acento circunflexo, _ânsia_, _ânimo_, em atenção a +que êsse _a_ se profere fechado na maioria do país. O VOCABULÁRIO marcou +as vogais nasais ou antes de nasal com o acento agudo, como sinal geral +da sílaba predominante, e deve ter isso em consideração quem o +consultar. + +Outra acentuação gráfica se propõe, generalizando e fixando usos mais ou +menos estabelecidos, e esta pode denominar-se d i s t i n t i v a. +Consiste no emprêgo do circunflexo (^) sôbre todos os _ee_ e _oo_ +fechados de monossílabos, ou de vocábulos polissilábicos inteiros, isto +é, com a penúltima sílaba predominante, quando outros existam em que +tais vogais sejam abertas, como já ficou indicado: _rêgo_, _rego_; +_rôgo_, _rogo_. + +Deve ter-se em atenção que, sendo toda a acentuação vocabular, e sempre +fonética, quando um qualquer vocábulo, na sua flexão, ou nos seus +derivados, muda de estrutura com relação à acentuação que exigia, esta +mantêm-se, perde-se ou adquíre-se, conforme as novas condições a que a +forma, ou o derivado, ficam sujeitos. Dêste modo, a palavra _cortês_, no +plural dispensa o acento, _corteses_; _batéis_, muda o agudo para grave +em _batèizinhos_; _fugira_, será, na 2.^a pessoa do plural, _fugíreis_. + +Regulou a Comissão tambêm o emprêgo do hífen, o dos pontos de +interrogação e exclamação, o das letras maiúsculas, e o do apóstrofo +('), que recomenda seja o mais parcimonioso possível, pois o abuso que +dêste sinal se tem feito, onde é erróneo ou desnecessário, nenhuma +vantagem traz à fácil leìtura, antes a embaraça, e é uma desastrada +imitação da ortografia francesa, que muito desfeia a escrita, +complicando-a, bem como à composição tipográfica. A maioria das elisões +de vogais átonas, e a bem dizer todas as crases de vogais consecutivas +são evidentes, e portanto desnecessário é indicá-las na escrita usual. +No emtanto, fixa a Comissão a união em uma só dição para os seguintes +pronomes e advérbios acompanhados de preposição, quando os primeiros não +rejam orações de infinito: _dêle_, _nele_, _dela_, _nela_, _dêste_, +_neste_, _desta_, _dessa_, _daquela_, _nesta_, _nessa_, _naquela_, +_àquele_, _àquela_, _dum_, _num_, _daqui_, _daí_, _dali_, _aonde_, +_donde_, e para os plurais dêsses pronomes, em harmonia com as formas já +empregadas _do(s)_, _da(s)_, _no(s)_, _na(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_, +(_em-no_, _per-lo_), onde a elisão se não indicou jàmais; assim tambêm, +_doutro_, _noutro_. + +Efectivamente, a indicação por apóstrofo em formas tais como _d'um_, +_d'êle_, para não falar nos erros crassíssimos _n'um_, _n'êle_, é tam +inútil, como o seria escrevermos _vint'e um_, _géner'humano_, +_vic'-almirante_, em vez de _vinte e um_, _género humano_, +_vice-almirante_, conquanto o _e_ de _vinte_ e o de _vice_, assim como o +_o_ de _género_ se elidam na pronunciação dessas dições. + +Ninguêm ainda julgou necessário indicar-se por apóstrofo a crase de _ao_ +em _dezóito_ por _dezaoito_; confrontem-se _dezasseis_, _dezassete_, +_dezanove_, e as formas toscanas _diciassette_, _diciannove_. As formas +escritas, moderníssimas, _dezeseis_, _dezesete_, _dezenove_ são erróneas +e não correspondem por modo algum à sua pronúncia, pois ninguêm profere +_dèzisseis_, _dèzissete_, _dèsinove_, como o exigiria esta formação, se +nela entrasse a conjunção _e_, que se pronuncia _i_. O povo diz, e muito +bem, e dantes sempre assim se escreveram, _dezasseis_, _dezassete_, +_dezanove_, única escrita legitima, perfeitamente concorde com a toscana +acima citada, e com a pronúncia quer italiana, quer portuguesa. + +Fora dos casos indicados, a preposição _de_ assim se escreverá, seja, ou +não, elidido o _e_ na enunciação. + +Aconselha a Comissão o emprêgo dos pontos de interrogação e exclamação +invertidos (¿¡) no comêço das orações dessa espécie, quando sejam muito +longas, como se faz na ortografia espanhola; e com tanto maior empenho, +quanto é certo que, sem tal indicação prévia, muitas vezes será errada a +leitura, ou ficará incerto o sentido. As duas interrogações +distintas--_Queres vinho ou água?_, e _¿Queres vinho, ou água?_ não se +equivalem nem no sentido, nem na entoação. + +O hífen ou linha divisória (-) utiliza-o e preceitua-o a Comissão nos +seguintes casos: + +a) Separar de uma linha para a outra as sílabas de um vocábulo, +repetindo-se na linha imediata o sinal, se o vocábulo já de si contêm a +linha divisória, por ser composto. + +b) Unir entre si os dois elementos de uma dição composta, quando cada um +dêles tem existência independente em português, e conserva a sua +acentuação própria. + +c) Unir às formas _hei_, _hás_, _há_, _hão_, do verbo _haver_, a +preposição _de_, enclítica: _hei-de_, _hás-de_, _há-de_, _hão-de_. + +d) Separar nos vocábulos compostos com _bem_, _mal_ o _m_ e o _l_ para +evitar erros de leitura; ex.: _bem-aventurado_, _mal-aventurado_. + + +São estes os principais fundamentos e preceitos da projectada reforma +ortográfica, pela Comissão julgada oportuna e de fácil execução, para +que de ora em diante seja recomendada como obrigatória em publicações +oficiais e no ensino público, e por isso a propõe. As simplificações e a +regularização apontadas já tem sido empregadas em parte em muitos livros +e alguns periódicos, se bem que quási sempre com menor coerência e rigor +do que a Comissão as preceitua, e sem formarem corpo de doutrina +explicada e motivada, como formam no Formulário e no Prontuário +ortográficos com que termina esta exposição e que vão em seguimento. Se +exceptuarmos o VOCABULÁRIO e a ORTOGRAFIA NACIONAL já mencionados, e +cujo sistema só pequenas alterações sofreu, são êsse Formulário e êsse +Prontuário os primeiros trabalhos metódicos e completos sôbre êste +assunto. + +A Comissão nem por um momento perdeu de vista que a primacial vantagem +de uma ortografia oficial é favorecer o ensino fácil da leitura e da +escrita, tanto quanto um idioma secularmente literário o permite, +tomando-se por base a história do idioma pátrio, para que êle se +perpetue no futuro, como do passado até o presente perdurou, sempre +idêntico a si próprio, apesar da sua inevitável evolução. + + + + +FORMULÁRIO ORTOGRÁFICO + +CONFORME O PLANO DE + +REGULARIZAÇÃO E SIMPLIFICAÇÃO DA ESCRITA PORTUGUESA + + +I. São proscritas de todas as palavras portuguesas, ou aportuguesadas, +as letras _k_, _w_, _y_, as quais serão respectivamente substituídas +pelas seguintes: _k_ por _qu_ antes de _e_, _i_, por _c_ em qualquer +outra situação; _w_ por _u_, ou por _v_, conforme fôr a sua pronúncia; +_y_ por _i_. Escreveremos, pois, _caleidoscópio_, _quermes_, +_neutoniano_, _Venceslau_, _valsa_, _tipo_, _lira_, _fisiologia_, etc. + +Excepções: 1.^a Poderão usar-se essas letras em vocábulos derivados de +nomes próprios estrangeiros, em que sejam legítimamente empregadas; ex.: +_kantismo_, _darwinismo_, _byroniano_ (Kant, Darwin, Byron), os quais, +porêm, será lícito escrever, em harmonia com a pronunciação, _cantismo_, +_daruìnismo_, _baironiano_. Confrontem-se _Copérnico_, de _Kopernik_, +_Antuérpia_, de _Antwerp_, _(h)iate_, de _yacht_. + +2.^a Continuam em uso os símbolos _W_, para denotar o _Oeste_, e _K_ +como abreviatura de unidade métrica, e tambêm na forma internacional +_kilo..._, que todavia se poderá escrever _quilo..._; tanto mais, que o +_k_ é um grosseiro êrro nesta palavra, pois o correspondente termo grego +se escreve com [Grego: _ch_] e não [Grego: _k_]. + +II. O abecedário empregado em português ficará consistindo nas seguintes +letras, e suas combinações, e portanto sómente com umas ou com outras se +escreverão todas as palavras portuguesas, ou aportuguesadas. Essas +letras e combinações são: _a b c ç ch d e f g h i j l lh m n nh o p qu r +(rr) s (ss) t u v x z_. + +III. É eliminada a letra _h_ do interior de todos os vocábulos +portugueses, com excepção do seu emprêgo, como sinal diacrítico, nas +combinações _ch_, _lh_, _nh_, com os valores que as seguintes palavras +exemplificam, e únicamente para êles: _chave_, _malha_, _manha_. +Portanto, escrever-se hão, sem _h_, _inibir_, _exortar_, etc., e, +semelhantemente, _saír_, _coerente_, _proìbir_, etc. + +IV. É conservado o _h_ inicial, quando a etimologia o justifique, como +em _homem_, _humano_, _honra_, _hoje_; mas abolido onde é erróneo, como +em _hontem_, _hir_, _hombro_, que se escreverão _ontem_, _ir_, _ombro_. + +Quando a uma qualquer palavra com _h_ inicial etimológico se acrescentar +prefixo, suprimir-se há o _h_; ex.: _desumano_, _inumano_, _desonra_, +_filarmónica_, _desistória_, etc. + +V. É lícito escrever _h_ final, como sinal de interjeição, _ah!_ _oh!_; +mas é proscrita esta letra final em todos os mais vocábulos; ex.: +_Sara_, _Judá_, _raja_ ou _rajá_, etc. + +VI. Em harmonia com a cláusula III é eliminado o _h_ dos grupos _rh_, +_th_, ou outros quaisquer, inexactamente denominados etimológicos, e +portanto escrever-se há _teatro_, _retórica_, _aderir_, _aborrecer_, +_sirgo_, _sorgo_, _caridade_, _cristão_, _Cristo_, _monarca_, _técnica_, +_cloro_, etc. O grupo _ch_, com o valor de _k_ antes de _e_, _i_, será +substituído por _qu_; ex.: _monarquia_, _arquitecto_, _química_, +_querubim_. O grupo _ph_ será expresso por _f_; ex.: _filosofia_, +_frase_, _fenício_, _farol_, _física_, _fisiologia_, _ninfa_, _profeta_, +etc. Assim tambêm escreveremos _ditongo_, _tísica_, _apotegma_, etc. + +VII. Nenhuma consoante se duplicará no interior ou fim de vocábulo, +senão quando a pronunciação assim o exija, o que só acontece com _rr_, +_ss_, _mm_, _nn_, como nas seguintes palavras: _carro_, _cassa_, +_emmalar_, _ennegrecer_. + +Nesta conformidade, escrever-se hão com letras singelas as seguintes +palavras, e outras que é hábito escrever com letras dobradas: _abade_, +_acusar_, _adição_, _afecto_, _sugerir_, _agravo_, _êle_, _ela_, +_aludir_, _chama_, _pano_, _anexo_, _aparecer_, _atribuir_, _meter_, +_atitude_, etc. As letras _r_ e _s_ dobram-se, se a pronúncia o exije, +quando a qualquer vocábulo se antepõe prefixo terminado em vogal; ex.: +_pressentir_, _prorrogar_, _ressuscitar_: cf. _arrasar_, de _raso_, +_assegurar_, de _seguro_. + +VIII. São suprimidas as consoantes mudas, quando não influam no valor +das vogais que as precedem; ex.: _autor_, _restrito_, _produto_, +_produção_, _pronto_, _presunção_, _satisfação_, _praticar_, _tratar_, +_retratar_, _sinal_, _Madalena_, _aumento_, _Inácio_, _Inês_, _assunto_, +_assinar_, _sono_, _dano_, _condenar_, etc. + +IX. São conservadas as consoantes, usualmente mudas, quando +facultativamente se profiram, ou quando influam no valor da vogal que as +precede; ex.: _contracção_, _reacção_, _direcção_, _excepção_, +_adoptar_, _adopção_, _espectáculo_, _carácter_, _rectidão_. + +Neste caso os vocábulos aparentados, em que essas vogais pertençam à +sílaba predominante do vocábulo, conservarão, por analogia, a consoante +muda; ex.; _contracto_, _directo_, _excepto_, _adopto_, _caracterizar_, +_recto_, _acto_, em razão de _activo_, _acção_, etc. + +X. O emprêgo acertado das letras _ce_, _ci_, alternando com _(s)se_, +_(s)si_, ou no interior do vocábulo o de _ç_, alternando com _ss_, +depende da origem dêsses vocábulos e do valor que as ditas letras +indicavam, quando a pronunciação delas diferia, como ainda hoje difere +dialectalmente em várias regiões do norte de Portugal. A consulta ao +VOCABULÁRIO é indispensável para decidir da escolha. Como regra geral, +_ce_, _ci_, _-ç-_ correspondem a _ce_, _ci_, _ti_ latinos, a _ce_, _ci_, +_za_, _zo_, _zu_ do castelhano actual, a _ss_ arábicos, ou pertencem a +vocábulos de origem americana indígena, transcritos pelos autores +peninsulares. + +Fica banido o _ç_ inicial, que será substituído por _s_ nos poucos +vocábulos em que etimológicamente figuraria; ex.: _sapato_, _sarça_, e +não _çapato_, _çarça_, como antes se escrevia, e ainda uma ou outra vez +se escreve. + +XI. É conservado o grupo inicial _sc_, das seguintes palavras e seus +derivados e afins, em que o _s_ é mudo: _scena_, _sciência_, _scetro_, +_scéptico_, _scisma_, _scisão_, _sciático_, _scintilar_, _scelerado_, e +algum outro menos usual. + +XII. O emprêgo de _ch_ ou de _x_, os quais histórica e ainda +dialectalmente não eram nem são idênticos no valor fonético, regula-se +pela sua origem, e a consulta ao VOCABULÁRIO torna-se necessária. Deve +ter-se em atenção que _ch_ corresponde a _cl_, _fl_, _pl_, _t'l_ +latinos, e a _ch_ francês nas palavras desta origem; _x_ corresponde a +_x_ e a _s_ latinos. Nos vocábulos de origem arábica o emprêgo de _x_, e +não de _ch_, é de rigor; assim, _xeque_, e não _che(i)k_. + +XIII. A escrita dos ditongos orais é a seguinte: _ai_, _éi_, _ei_, _ói_, +_oi_, _ui_, _au_, _éu_, _eu_, _iu_, _ou_, como em _ensaio_, _ensaiar_, +_batéis_, _bateis_ (de _bater_), _sóis_ (de _sol_), _sois_ (verbo), +_fui_, _pau_, _céu_, _seu_, _viu_, _grou_, e portanto _pai(s)_, +_amai(s)_, _gerais_, _réis_, _rei(s)_, _faróis_, _róis_ (nome plural e +verbo), _azuis_, etc. Ficam abolidas as escritas _ae_, _oe_, _ue_, _ao_, +_eo_, para estes ditongos, quer em nomes, quer em formas verbais. + +XIV. A escrita dos ditongos nasais é: _ãe_, _em_ (_ens_), _õe_, _ão_, +como em _mãe(s)_, _bem_, _bens_, _põe(s)_, _botões_, _cães_, _mão(s)_, +_órfão(s)_, _cidadão(s)_. + +Escrever-se hão com _am_ final, em vez de _ão_, as formas verbais em que +essa terminação seja átona, como _louvam_, _louvaram_ (presente e +pretérito), diferente de _louvarão_ (futuro). + +Os vocábulos terminados no ditongo _em_ (equivalente a _[~e]i_) +receberão o acento circunflexo quando forem polissílabos com a última +sílaba predominante. Dêste modo _porem_, do verbo _pôr_, diferençar-se +há de _porêm_, conjunção; _contêm_, do verbo _conter_, de _contem_, do +verbo _contar_; assim igualmente, _armazêm_, _vintêm_, _vintêns_, +_alguêm_, mas _viagem_, _origem_. (=_viágem_, _orígem_). + +Os monossílabos com esta terminação dispensam a acentuação gráfica, por +ser ociosa, e para que fiquem em harmonia com outros monossílabos +terminados em vogal, nasal; ex.: _bem_, _bens_, _tem_, _tens_; +comparem-se _fim_, _som_, _um_; _fins_, _sons_, _uns_. + +O ditongo _[~u]i_ de _muito_, _mui_ dispensa igualmente o til na escrita +usual. + +XV. A grafia das vogais nasais finais será a seguinte, já consagrada: +_ã(s)_, _im_, _ins_, _om_, _ons_, _um_, _uns_, como em _lã(s)_, +_irmã(s)_, _órfã(s)_, _fim_, _fins_, _marfim_, _marfins_, _som_, _sons_, +_jejum_, _jejuns_. + +No interior dos vocábulos é a nasalidade da vogal expressa por _m_ antes +de _b_, _p_, _m_, e por _n_ em qualquer outra situação, o que é já uso +estabelecido, mas ao qual convêm não se fazerem excepções; assim +escreveremos _circunstância_, _circunscrever_, _conquanto_, com _n_, e +não com _m_. + +XVI. É conservado ao _e_ inicial átono o valor que tem de _i_ em muitos +vocábulos, como _erguer_, _herdeiro_, _evitar_, _elogio_; sendo porêm +substituído por _i_ nas palavras _igual_, _idade_, _igreja_ e seus +derivados, ortografia anterior que se lhes restabelece. É +semelhantemente conservado o _e_ com o valor de _i_ átono antes de +vogal, quando a analogia ou a etimologia o recomendem; ex.: _fealdade_, +_desfear_, de _feio_ (cf. _desfiar_, de _fio_), _ideal_, _meada_, +_reagente_, etc. Restabelece-se porêm a verdadeira ortografia de _pior_, +_lial_, _rial_ (antes _peior_, _leial_, _reial_), em que um _ei_ +anterior se condensou em _i_, como aconteceu com _igreja_ (forma antiga +_eigreja_) e como ainda hoje acontece com o prefixo _eis-_ (_ex-_), que +é usualmente pronunciado _is_. O último exemplo citado, _rial_, de +_rei_, fica assim diferençado de _real_, procedente do latim r_e_s. + +O verbo _criar_ será semelhantemente escrito com _i_, pois a sua +conjugação é _crio_, _crias_, e não _creio_, _creias_, e portanto +escreveremos tambêm _criador_, _criatura_, _criança_, qualquer que seja +a acepção em que se tomem tais palavras. O verbo _recrear_, todavia, +escrever-se há com _e_, porque a sua conjugação é com _ei_, _recreio_, +_recreias_; devendo ter-se em atenção que o _i_ intercalar, para evitar +o hiato _recreo_, só tem cabimento quando o _e_ do radical é +predominante, e conseguintemente escreveremos _passear_, _cear_, +_desfear_, _passeio_, _ceio_, _desfeio_, e não _passeiar_, _ceiar_, etc. + +Há considerável número de verbos, como _alumiar_, _gloriar_, _aviar_, +que se conjugam _alumio_, _glorio_, _avio_, sendo portanto a vogal final +do seu radical _i_ e não _e_. Todavia, por influência daqueles em que +essa vogal radical é, pelo contrário, _e_, que átono se profere _i_, +alguns verbos em _iar_ confundiram-se com êsses, e é já hoje +impraticável a correcção. Os principais dêstes verbos são os seguintes, +e convêm que não se traslade a outros a irregularidade que se manifesta +neles: _ansiar_, _anseio_; _negociar_, _negoceio_; _obsequiar_, +_obsequeio_; _premiar_, _premeio_; _odiar_, _odeio_; _remediar_, +_remedeio_. Em outros, menos triviais, é duvidoso o modo de os conjugar, +como _licenciar_, _presenciar_, _sentenciar_, que muitos preferem +conjugar _licencio_, _presencio_, _sentencio_, conquanto as formas +_licenceio_, _presenceio_, _sentenceio_ sejam muito mais usuais. É claro +que a irregularidade se não deve trasladar aos substantivos +correspondentes, e que portanto escreveremos _ánsia_ (e não _âncea_ ou +_ância_), _negócio_, _obséquio_, _ódio_, _prémio_, _remédio_, e assim +tambêm com i os derivados, _odioso_, _obsequioso_, etc. + +XVII. Na pronúncia do sul de Portugal o _s_ antes de consoante surda, e +quando é final, profere-se como _x_ atenuado, e sendo a consoante +sonora, como _j_, igualmente atenuado. Se em tais condições está +precedido de _e_ surdo, êste _e_, por assimilação, palataliza-se e fica +sendo igual a _i_ na mesma situação, de modo que os dois vocábulos +_pescar_ e _piscar_ só artificialmente se distinguem; assim tambêm a +primeira sílaba de _esteira_ confunde-se com a primeira sílaba de +_história_, e tanto, que antigamente se escrevia _estórea_ (com _ea_, +para se evitar a leitura _estorja_, pois nenhuma diferença gráfica se +fazia entre _i_ e _j_). Para quem profira do mesmo modo _es_ e _is_, +átonos, é necessário recomendar que se regule pelas formas em que _e_ ou +_i_ sejam predominantes, a fim de acertar com a devida escrita. No +exemplo citado, _pescar_ procede de _pesca_, e portanto com _e_ se +escreverá; _piscar_, de _pisco_, ortografar-se há com _i_. + +A confusão entre _es_ e _is_ mais freqùente, e que dá margem a inúmeros +erros de ortografia, ocorre com os prefixos _des-_ e _dis-_. É +usualíssimo ver-se escrito _destribuição_, por exemplo. Cumpre advertir +que o valor dêstes dois prefixos, assim confundidos na pronúncia +meridional, é diverso: _des-_, é privativo, _dis-_ indica «repartição, +divisão». Escreveremos pois _destinto_ com _e_, de _destingir_, de +_tingir_, _distinto_ com _i_ de _distinguir_, e assim tambêm +_dispersar_, _discrição_ (que se não deve confundir com _descrição_, de +_descrever_), _discórdia_, _discorrer_, etc. + +XVIII. Sendo o _e_ átono, antes de consoante palatal, _ch_, _x_, _j_, +_lh_, _nh_, por assimilação igual a _i_ surdo, dá-se freqùentemente a +dúvida sobre a escrita com _e_ ou com _i_, em sílabas átonas. Convêm, do +mesmo modo, recorrer ás formas em que a vogal duvidosa seja +predominante; assim, _lenheiro_, de _lenha_, escrever-se há com _e_, +_linheiro_, de _linho_, com _i_. + +XIX. Por outra parte, no centro de Portugal o _e_ fechado antes das +mencionadas consoantes palatais _ch_, _x_, _j_, _lh_, _nh_ profere-se +como _â_, e esta pronúncia vai-se difundindo cada vez mais no país: +_fecho_, _cereja_, _selha_, _senha_ são pronunciados _fâxo_, _cerâja_, +_sâlha_, _sânha_. Valendo o _a_ antes de consoante nasal, _m_, _n_, _nh_ +por _â_ fechado, em geral, produz-se, pela concorrência destas duas leis +fonéticas, onde elas predominam, a confusão entre _senha_, «sinal», e +_sanha_, «ira», entre _lenho_, «madeiro», e _lanho_, «golpe». + +Para não se deformar a língua pátria, torna-se essencial a devida +distinção gráfica, ainda quando se não observe na fala, e é fácil +acertar-se com a escrita, se se atender à pronúncia dessa vogal, +duvidosa quando tónica, em formas nas quais ela seja átona: _sanha_, +«ira», escreve-se com _a_, porque dizemos _assanhar_, e não _assenhar_, +ao passo que um verbo derivado de _senha_ (s_i_g_n_a, latino) +_desenhar_, se não profere _desanhar_; _lanho_, «golpe», tem um derivado +_alanhar_, que não é _alenhar_, e conseguintemente deve escrever-se com +_a_. + +XX. Continua o emprêgo tradicional de _o_ átono valendo por _u_, quer +final, quer medial, quer inicial, ou êle seja analógico, como em +_formosura_, de _formoso_, de _forma_, _porteiro_, de _porta_, _correr_, +_côrro_, _corres_, ou etimológico como em _monumento_, latim +_monumentum_, _governar_, castelhano _gobernar_, latim popular +_g o b e r n a r e_, latim clássico g [)u] b e r n a r e. Na escrita +será indispensável atender-se á forma primitiva, portuguesa ou latina, +ou recorrer-se ao competente VOCABULÁRIO, pois os casos duvidosos, para +os indoutos, são aos milhares. + +Antes de vogal como em _mágoa_, _nódoa_, a conjugação dos respectivos +verbos, _magoar_, _magôa_, _ennodoar_, _ennodôa_, como em _soar_, _sôa_, +indica a escrita correcta. Com verbos como _aguar_, cuja conjugação é +incerta, é preferível escrevê-los com _u_, e assim tambêm _água_, +_régua_, _légua_, visto que a razão da escrita com _o_ era +principalmente o evitar-se que _u_ fosse lido como _v_, quando nenhuma +distinção fixa e assente existia, para se determinar quando as duas +formas _u_, _v_ eram consoantes ou vogais. Feita a distinção, como há +mais de um século se faz, quer na escrita, quer na imprensa, deixaram de +ser necessários êsse e outros expedientes gráficos, como a adjunção de +_h_ a _u_ ou a _i_, para indicar serem vogais, e não consoantes, o que +motivou as grafias _hiate_, _huivar_, _hia_, para que _uivar_, _iate_, +_ia_ se não lessem _vivar_, _jate_, _já_. Alguns _hh_ e alguns _oo_ teem +essa origem a explicá-los. + +XXI. No centro de Portugal o digrama _ou_, quando tónico, confunde-se na +pronunciação com _ô_, fechado. A diferença entre os dois símbolos, _ô_, +_ou_, é de rigor que se mantenha, não só porque, histórica e +tradicionalmente, êles sempre foram e continuam a ser diferençados na +escrita, mas tambêm porque a distinção de valor se observa em grande +parte do país, do Mondego para norte. Outra razão se deve apontar ainda, +e essa é que _ou_ átono ou conserva o valor que lhe é próprio, ou, +popularmente, se profere _ò_; ao passo que _ô_ vale por _u_ nas sílabas +átonas; assim, por exemplo, _roubar_, de _roubo_, não altera o valor do +_ou_ do radical, o que não acontece, por exemplo, com _rogar_, de +_rôgo_, em que _o_ vale por _u_, se não é predominante. Duas excepções, +pelo menos, existem modernamente: _apoquentar_, de _pouco_, e +_aposentar_, de _pouso_, que antes eram _apouquentar_, _apousentar_. A +redução deve ter tido origem no sul, em que _ou_ se confunde com _ô_. + +Êste ditongo _ou_ alterna em quási todos os vocábulos com o ditongo +_oi_, ao qual muitos dão a preferência, exceptuando porêm certos +vocábulos como _outro_, _roubo_, etc. A alternância dá-se principalmente +antes de _r_, _s_, como em _ouro_, _cousa_; _oiro_, _coisa_. + +Quem prefira _oi_ a _ou_ assim escreverá, pois qualquer das formas é +lícita na maioria dos vocábulos, como se disse. Nas formas verbais, +porêm, como a 3.^a pessoa do singular do pretérito _louvou_, não é +admitido o ditongo _oi_ por _ou_, nem tampouco em _coube_, _soube_, +_trouxe_, etc. + +Advertir-se há que é errónea a forma _poude_ em vez de _pude_, 1.^a +pessoa, e _pôde_, 3.^a pessoa do presente do verbo _poder_, que tem +origem diferente (p o t u i, p o t u i t, latinos) da que vemos em +_coube_, _soube_ (lat. c a p u i (t), s a p u i (t)), comum à 1.^a e +3.^a pessoas do mesmo tempo verbal dos verbos _caber_ e _saber_. Um +qualquer indivíduo, originário das regiões em que _ou_ é diferente de +_ô_ no valor, não conjugará jamais assim erradamente o verbo _poder_, +nas duas formas citadas, nas quais não há o ditongo _ou_, como em +_coube_, _soube_, _trouxe_, mas sim _u_ e _ô_ fechado. + +XXII. Acentuação gráfica. + +Como é uso corrente, marcam-se com o devido acento, agudo ou +circunflexo, os vocábulos terminados em _a_, _e_, _o_ tónicos, seguidos, +ou não, de _s_, e por analogia os terminados em _em_, _ens_; ex.: +_alvará(s)_, _louvará(s)_, _maré(s)_, _mercê(s)_, _portaló(s)_,_ +avô(s)_, e bem assim os monossílabos, como _pá(s)_, _sé(s)_, _sê(s)_, +_só(s)_; _vintêm_, _vintêns_, _contêm_, _contêns_; os monossílabos em +_em_, _ens_, dispensam a acentuação: _bem_, _bens_, _tem_, _tens_. + +XXIII. O sinal denominado til (~) vale por acento tónico quando não haja +outro acento gráfico a designar a sílaba predominante do vocábulo; ex.: +_cidadão(s)_, _escrivão_, _escrivães_, _nação_, _nações_, _mão(s)_, +_mãe(s)_; mas, _ourégão(s)_, _rábão(s)_, _Estêvão_, _Cristóvão_, etc. + +XXIV. As palavras terminadas em _i_, _u_, vogal nasal ou ditongo, +seguidos ou não de _s_, ou em outras consoantes, excepto na terminação +_em_, _ens_, entende-se terem como sílaba predominante a última, não se +acentuando portanto gráficamente senão as excepções a esta regra; ex.: +_javali(s)_, _peru(s)_, _maçã(s)_, _atum_, _atuns_, _marau(s)_, +_arrais_, _esqueceu_, _judeu(s)_, _painel_, _farei(s)_, _mulher_, +_vencer_, _timidez_, _feliz_, _arroz_, _alcaçuz_, _lioz_, _alcatruz_; +mas, _quási_, _Vénus_, _órfã(s)_, _álbum_, _amáveis_, _fácil_, _fáceis_, +_sável_, _sáveis_, _faríeis_, _alcáçar_, _carácter_ (plural +_caracteres_), _mártir_, _sóror_, _cônsul_. + +XXV. Os nomes terminados em _em_, _ens_, e as formas verbais em _am_, +_em_, entende-se terem como sílaba predominante a penúltima, que se não +assinala com acento gráfico; ex. _louvam_, _louvaram_ (cf. _louvarão_, +futuro), _porem_, _contem_ (dos verbos _pôr_, _contar_), marcando-se o +acento gráfico quando a sílaba predominante seja a última; ex.: _porêm_, +_contêm_ (de _conter_), _armazêm_, _armazêns_, _Jerusalêm_, _Belêm_. + +XXVI. Todos os vocábulos cuja sílaba predominante seja a antepenúltima +terão essa sílaba marcada com o competente acento escrito; ex.: +_sábado(s)_, _câmara(s)_, _cédula(s)_, _pêssego(s)_, _sêmola(s)_, +_concêntrico(s)_, _título(s)_, _íntimo(s)_, _pródigo(s)_, _cómodo(s)_, +_lôbrego(s)_, _lúgrube(s)_,_ único(s)_; _área(s)_, _ária(s)_, +_árduo(s)_, _mágoa(s)_, _contemporâneo(s)_, _Libânio_, _ânuo_, +_proscénio(s)_, _gémeo(s)_, _ingénuo(s)_, _sêmea(s)_, _virgíneo(s)_, +_insónia(s)_, _fúria(s)_, _facúndia(s)_, _ândito(s)_, _argênteo(s)_, +_fímbria(s)_, _vergôntea(s)_, _núncio(s)_, _demónio(s)_, _António_, +_Antónia_, _infortúnio_, _farmacêutico_, etc. + +XXVII. O acento marcado nos esdrúxulos é diferencial com relação aos +vocábulos que, escritos com as mesmas letras, tenham por sílaba +predominante a penúltima, ou a última; ex.: _fábrica_, substantivo, e +_fabrica_, verbo; _réplica_, substantivo, e _replica_, verbo: _índico_, +adjectivo, e _indico_, verbo; _história_, substantivo, e _historia_ +(_rí_), verbo; _telégrafo_, substantivo, e _telegrafo_ (_grá_), verbo, +etc. + +XXVIII. Quando um qualquer vocábulo que tenha por sílaba predominante a +penúltima, e cuja vogal nessa sílaba seja _e_ ou _o_ abertos, fôr +homógrafo com outro em que êsse _e_ ou _o_ seja fechado, marcar-se hão +êstes com o acento circunflexo. Assim se diferençarão _rêgo_, +substantivo, e _rego_, verbo: _pêgo_, ave, e _pego_, abismo, ou forma do +verbo _pegar_; _rôgo_, substantivo, e _rogo_, verbo; _sôbre_, +preposição, e _sobre_, verbo; _mêdo_, susto, e _medo_, nome étnico; +_dêmos_, presente do subjuntivo, e _demos_, pretérito (do verbo _dar_). + +XXIX. Diferençar-se hão pelo acento agudo os seguintes vocábulos: +_pára_, verbo, de _para_, preposição; _pélo_, _péla_, de _pêlo_ +substantivo, e de _pelo_, _pela_ (_per lo_, _per la_, _per o_, _per a_); +_pólo_, substantivo, de _polo_ (forma antiquada, em vez de _pelo_); e +pelo circunflexo, _pêra_, de _pera_, forma antiga e popular da +proposição _para_; _quê_, de _que_ proclítico, átono; _cômo_, verbo, de +_como_, partícula. Pelo agudo se diferençará a forma do pretérito, +_louvámos_, da do presente, _louvamos_. + +XXX. As formas verbais _dêem_, _lêem_, _vêem_, _crêem_ (de _dar_, _ler_, +_ver_, _crer_) receberão o acento circunflexo, ficando assim distintas +de outras como _te(e)m_, _ve(e)m_, de _ter_, _vir_. + +XXXI. Quando a segunda de duas vogais consecutivas seja _i_ ou _u_, que +não forme ditongo com a vogal precedente, marcar-se há com o acento +agudo, se fôr tónica; ex.: _saí_, _saída_, _faísca_, _saúde_, +_balaústre_, _raízes_, _baú(s)_. Se fôr átona pode assinalar-se com o +acento grave; ex.: _saìmento_, _faìscar_, _saùdar_, _enraìzado_, +_abaùlado_. É licito dispensar-se o agudo se a consoante seguinte não +fôr _s_; ex.: _ainda_, _raiz_, _sair_, contanto que não inicie outra +sílaba. Podem, portanto, escrever-se _Coimbra_, _raiz_, _sair_, sem +acento, mas exigem-no _saída_, _saíra_, _saúde_, _raízes_, _ataúde_, +etc. + +XXXII. Os ditongos _éi_, _ói_, _éu_, sempre finais tónicos, receberão o +acento agudo, que os diferença de _ei_, _oi_, _eu_, fechados; ex.: +_painéis_, _heróis_, _chapéus_; em _réis_, _batéis_, _papéis_, _sóis_ +êsse acento distingue tais vocábulos dos seus homógrafos _reis_ (de +_rei_), _bateis_, _papeis_ (de _bater_, _papar_), _sois_ (do verbo +_ser_). Outros exemplos são _bóia_, _jóia_ (cf. _joio_, com _o_ +fechado), _gibóia_, _herói(s)_, etc. + +XXXIII. Hífen. + +Os vocábulos compostos cujos elementos conservam a aua independência +fonética unem-se por hífen (-) e conservam igualmente a sua acentuação; +ex.: _água-pé_, _pára-raios_, _guarda-pó_. O hífen repetir-se há na +linha imediata, quando por êle se faça a separação silábica de linha +para linha; ex.: _pára-/-raios_. Quando um dos termos do vocábulo +composto não existe independente em português, na sua forma integral, +unem-se os dois elementos sem hífen; ex.: _clarabóia_, _fidalgo_. Outro +tanto se fará quando a noção do composto se haja perdido, como em +_solfa_, _dezoito_ (_dez-a-oito_). + +XXXIV. O hífen será utilizado tambêm nos seguintes casos: + +a) Unir os pronomes pessoais enclíticos aos respectivos verbos, de que +são complemento; ex.: _louvá-lo_, _devê-lo_, _puni-lo_, _dá-nos_, +_dou-vos_, _falo-lhes_, etc. A acentuação do verbo mantêm-se, como se +não se lhes unissem êsses complementos. São erros inadmissíveis, mas +muito freqùentes, _louval-o_, _devel-o_, _punil-o_, etc. + +b) Os advérbios _mal_, _bem_, formando o primeiro elemento de um +composto, unem-se ao segundo elemento por hífen, quando sem êle a +soletração seria errada; ex.: _bem-aventurança_, _mal-logrado_, para que +se não leiam _be maventurança_, _ma logrado_. Este último, todavia, pode +ler-se tambêm _malogrado_, pois dizemos _malograr_, _malôgro_. + +A palavra _aguardente_ formará o seu plural como _aguardentes_; se porém +se preferir separar os dois elementos, _água-ardente_, o plural será +_águas-ardentes_. + +XXXV. Há vocábulos que, sendo derivados, seguem a analogia dos vocábulos +compostos, com os seus elementos unidos por hífen, em terem dois acentos +tónicos dos quais é predominante o segundo; são êles os aumentativos e +deminutivos formados com o infixo _z_, e os advérbios derivados com o +sufixo _-mente_. Se os adjectivos ou substantivos de que se formam +terminam em vogal com acento agudo, muda-se êste em acento grave, ex.: +_sòzinho_, _cafèzinho_, _màzona_, etc. Esta mudança tem por causa o +evitar-se que, escrevendo-se _mázona_, por exemplo, se entenda ser a +primeira a sílaba predominante. Nos advérbios, porêm, formados com o +referido sufixo _-mente_, que antes era um substantivo, a acentuação com +o agudo, ou o circunflexo mantêm-se, por não poder dar-se a confusão +apontada: _fácilmente_, _cortêsmente_, _sómente_. + +XXXVI. Apóstrofo. + +É quasi abolido êste sinal ortográfico, absolutamente inútil para a +leitura, e de introdução relativamente moderna. O seu emprêgo limitar-se +há a indicar, principalmente na poesia, a supressão de uma letra, que +usualmente se escreve na prosa, como em _esp'rança_, _mer'cer_, +_par'cer_, _c'roa_, _p'ra_, _'star_, etc. Pode, tambêm, usar-se no +interior das dições compostas, quando nelas se faça elisão do _e_ da +preposição _de_, como em _mãe-d'água_. + +XXXVII. Os pronomes complementos enclíticos de verbos escrever-se hão +como nos exemplos seguintes: _tenho-o_, _tem-lo_, _tem-no_, _temo-lo_, +_tende-lo_; _louvá-los_, _devê-los_, _uni-los_; _louva-los_, _deve-los_, +_une-los_; _vê-mo_, _vê-to_, _vê-lho_, _vê-no-lo_, _dava-vo-lo_, +_vêem-se-lhe_, _comprámo-la_, sem se indicar por apóstrofo a supressão +de _e_ e de _s_, que é de regra; _tem-lo_, está por _tens-lo_, _vê-mo_, +por _vê-me-o_. O verbo conserva a acentuação marcada que lhe competiria +sem complementos, e assim é a sua pronunciação. + +XXXVIII. Reúnem-se em uma só dição, sem apóstrofo ou hífen, os seguintes +pronomes, precedidos das preposições _a_, _de_, _em_, _por_; _ao(s)_, +_à(s)_, _do(s)_, _da(s)_, _àquele(s)_, _àquela(s)_, _dele(s)_, +_dela(s)_, _dêste(s)_, _desta(s)_; _daquele(s)_, _daquela(s)_, +_dêsse(s)_, _dessa(s)_; _naquele(s)_, _naquela(s)_, _neste(s)_, +_nesta(s)_, _nesse(s)_, _nessa(s)_; _disto_, _disso_, _daquilo_, +_nisto_, _nisso_, _naquilo_, _noutro_. + +Outro tanto acontece com os artigos _o(s)_, _a(s)_, _um_, _uns_, +_uma(s)_, e os advérbios _aqui_, _aí_, _ali_, _acolá_, _alêm_, _onde_; +ex.: _do(s)_, _da(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_, _no(s)_, _na(s)_, _aonde_, +_donde_, _dali_, _daí_, _dali_, _dacolá_, _dalém_, etc. + +Quando porêm esses pronomes rejam orações de infinito, a preposição +conservar-se há inteira e separada; ex.: _por causa de êles não +quererem_; _em razão de os não ter visto_. + +As demais elisões, que no decurso da fala ou da leitura se costumam +fazer, não são indicadas na escrita; não se escreverá pois: _d'idade_, +_d'entrada_, mas sim _de idade_, _de entrada_; pelo mesmo motivo por que +se não escreve _vint'e um_, conquanto o _e_ de _vinte_ aí se não +profira. São elisões e crases que é escusado representar na escrita, e +algumas das quais são facultativas, quer individual, quer +ocasionalmente. + +XXXIX. Divisão silábica. + +A divisão de um vocábulo qualquer simples em sílabas far-se há +fonéticamente pela soletração e não pela separação dos seus elementos de +derivação, composição ou formação, contanto que a dição composta não +tenha os seus elementos apartados por hífen (-). Desta maneira +dividir-se há, por exemplo, _subscrever_, como _subs cre ver_, do mesmo +modo por que a palavra _escrever_ se não divide como _e scre ver_; e +_vezes_, _pastora_, como _vez es_, _pastor a_, mas sim como _ve zes_, +_pasto ra_. Assim, tambêm, _di rec ção_, _a dop tar_, _su búr bios_, _de +sas tra do_, _de sar mar_, _i ná bil_, _bi sa vô_, _pres tan te_, _cir +cuns tân cia_, etc., etc. + +Para a segunda linha e para a soletração pertencem à vogal que se lhes +segue as consoantes que podem começar palavra; assim teremos _co bra_, +_am plo_, porque temos _bra ço_, _pla ga_; _ecli pse_ (cf. +_psicologia_). + +XL. Quando o _s_ dos prefixos _des-_, _dis-_, é seguido de consoante +separa-se dela; se depois se lhe segue vogal, pertence a esta, e com ela +forma sílaba; ex.: _des fa zer_, _dis tri buir_, mas _de sen ga nar_, +_de sen vol ver_. + +XLI. Duas consoantes iguais separam-se; ex.: _ar rastar_, _as sistir_, +_em malar_, _en nastrar_. + +XLII. As palavras compostas dividem-se pelos seus componentes; ex.: +_porta-voz_, _vice-almirante_, repetindo-se na linha inferior o hífen. + +XLIII. Nos vocábulos formados com o prefixo _ex-_, fica êste separado do +segundo elemento, ao dividir-se ou soletrar-se a palavra; ex.: _ex ér ci +to_, _ex ce der_. + +XLIV. São inseparáveis as letras dos seguintes grupos de consoantes: +_bl_, _cl_, _dl_, _fl_,_gl_, _pl_, _tl_, _vl_; _br_, _cr_, _dr_, _fr_, +_gr_, _pr_, _tr_, _vr_; _ch_, _lh_, _nh_; _sc_, _ps_. + +Se, porêm, o _s_ se lê separado do _c_ no interior do vocábulo, separado +se divide; ex.: _des cer_, _côns ci o_, _pros cé nio_; mas _en sce na +ção_. + +XLV. São igualmente inseparáveis duas vogais consecutivas, formem ou não +ditongo; ex.: _ai po_, _cau sa_, _rai nha_, _proe mio_, _goe la_, _poei +ra_, _pro nún cia_, _voar_, _voo_, _á gua_, _moi nho_, _é gua_, _i +guais_, _con ti nua_, _con tí nua_, _fa mí lia_, _se ria_, _sé ria_, +_rea lidade_, _veí culo_. + +XLVI. O _u_ depois de _q_ ou _g_ é dêle inseparável, quer seja mudo, +quer se profira; ex.: _quin ta_, _guer ra_; _fre qùente_, _a gùentar_, +_ar gùir_. + + + + +PRONTUÁRIO ORTOGRÁFICO + + +Súmula das principais regras que se hão de observar na escrita das +palavras e formas vocabulares portuguesas: + +1. O alfabeto português consta das seguintes vinte e quatro letras, e de +mais três, que sómente em circunstâncias especiais se empregam e aqui +vão incluídas em parêntese curvilíneo: + +a b c ç d e f g h i j (k) l m n o p q[u] r s t u v (w) x (y) z. + +2. Alêm destas letras, há outros caracteres, que ora são figurados por +duas letras emparceiradas, ora por sinais diacríticos, sobrepostos a +várias dessas letras. Assim aumentado, o sistema de escrita portuguesa +compõe-se de 53 símbolos: + +a, á, à, â, ã; b; c, ç, ce (ci), ch; d; e, é, è, ê; f; ge (gi), g, gu, +gù; h; i, í, ì; j; (k); l, lh; m; n, nh; o, ó, ò, ô, õ; p; qu, qù; r, +rr, s, ss, sc; t; u, ú, ù; v; (w); x; (y); z. + +O valor dêstes caracteres, excluídas as letras _k_, _w_, _y_, está +exemplificado nas palavras seguintes: _par_, _pá_, _àquela_, _câda_, +_lã_; _bobo_; _cá_; _praça_, _cela_, _cinta_, _chá_; _dado_; _de_, _sé_, +_prègar_, _sê_; _foz_; _gema_, _giz_, _gágo_, _guerra_, _agùentar_; +_há_; _li_, _fígado_, _faìscar_; _já_; _lá_; _lhe_; _mó_; _nó_, _lenha_; +_lado_, _copa_, _pó_, _mòlhada_, _avô_, _põe_; _que_, _freqùente_, +_caro_, _ré_, _carro_; _só_, _passo_, _scena_, _casa_; _tu_; _fuga_, +_último_, _saùdar_; _véu_; _xadrez_, _exame_, _sexo_, _próximo_, +_texto_; _zêlo_. + +3. Dêstes caracteres tem um único valor e emprêgo os nove seguintes: +_b_, _d_, _f_, _j_, _l_, _p_, _qu_, _t_, _v_. + +Os outros caracteres variam de valor. + +4. _a_: Designa o _a_ aberto quando está na sílaba tónica +principalmente, e em sílaba átona se está seguido de _l_; ex.: _cabo_, +_faltou_. + +5. Fora da sílaba tónica denota em geral o _a_ surdo, como _boca_, +_parede_, _camarote_. + +O _a_ surdo pode ser tónico, se está antes de consoante nasal, _m_, _n_, +_nh_; ex.: _cama_, _cana_, _manha_, _louvamos_. + +6. _á_: Emprega-se com o valor de _a_ aberto quando seja necessário +marcar _a_ tónico, isto é: na última sílaba, seguido ou não de _s_; na +penúltima, se a última não termina em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_, _m_, e na +antepenúltima; ex.: _lá_, _será(s)_, _fácil_, _fáceis_, _carácter_, +_sável_, _prática_. Emprega-se tambêm para diferençar _pára_ de _para_, +preposição, e na forma verbal do pretérito, 1.^a pessoa do plural, +_louvámos_, para a diferençar da do presente, _louvamos_. + +7. _à_: Designa o _a_ aberto átono em vocábulos que se escrevem com as +mesmas letras, que outros que tem _a_ surdo, e tambêm para denotar o +acento secundário em derivados; ex.: _àbada_ (de _aba_; cf. _abada_, +«animal»), _pàzada_, _desàbar_. + +8. _â_: Indica o _a_ surdo tónico em vocábulos esdrúxulos; ex.: _ânimo_, +_câmara_; ou em inteiros terminados em _i_, _u_, vogal nasal, ditongo ou +consoante diferente de _s_; ex.: _cânon_, _âmbar_, etc. + +9. _ã_: _â_ nasal em fim de vocábulo, seguido ou não de _s_, e nos +ditongos _ãe_, _ão_; ex.: _lã(s)_, _mãe(s)_; _mão(s)_. + +Se não há outro acento no vocábulo, vale por acento tónico; ex.: +_rabão_, a par de _rábão(s)_. + +O ditongo _ão_ átono, final de formas verbais, escreve-se _am_; ex.: +_louvam_, _louvaram_; cf. _louvarão_, futuro. + +Antes de _b_, _p_ e _m_, a vogal nasal _ã_ escreve-se _am_, e antes de +outra consoante, _an_; ex.: _campo_, _lamber_, _emmalar_; _banco_, +_frango_, _canto_, _quando_, _lança_, _ânsia_, _rancho_, _laranja_, etc. + + +10. _ce_, _ci_, _ça_, _ço_, _cu_: _ç_ escreve-se antes de _a_, _o_, _u_, +_c_ sem cedilha, antes de _e_, _i_; ex.: _faça_, _faço_, _cabeçudo_; +_face_, _fácil_, _paço_, _palácio_, _palacete_. + +No interior dos vocábulos, corresponde a _ci_, _ti_ latinos, e a _ss_ +arábicos, e nisto se diferença do _s_, o qual corresponde a _s_ latino; +ex.: _alçar_ (lat. a l t i a r e), _razão_ (lat. r a t i o n e m), +_faço_ (lat. f a c i o), _açafate_, _açafrão_, _refece_, _açúcar_ +(arábicos); _paço_, a par de _passo_. + +No comêço da palavra usa-se _s_ por _ç_; ex.: _sapato_. + +Em fim de palavra escreve-se _z_ e não _ç_; ex.: _vez_ (lat. u i c e m), +diferente de _vês_ (lat. u i d e s), _arroz_ (arábico). + +11. _ch_: Emprega-se como inicial e medial, e nunca como final. Na +pronunciação do idioma culto, e bem assim nos vernáculos meridionais, +confunde-se no valor há mais de dois séculos com o _x_ inicial, do qual +se diferença pela origem. Corresponde o _ch_, em geral, a _cl_, _fl_, +_pl_, latinos, e a _ch_ francês nas palavras desta proveniência; ex.: +_chave_ (lat. c l a u e m), _chama_ (lat. f l a m m a), _chuva_ (lat. +p l u u i a), _chapéu_ (fr. _chapeau_). Corresponde a _ll_ e a _ch_ +castelhanos. + +O _ch_ com valor de _k_ é substituído por _qu_ antes de _e_, _i_, e por +_c_ em qualquer outra situação; ex.: _monarca_, _monarquia_, _querubim_, +_côro_, _cloro_, _corografia_, _catecúmeno_, _crisol_. + +12. _c_: Esta letra emprega-se antes de _a_, _o_, _u_, consoante, ou +como final, rara; ex.: _cá_, _côr_, _cume_, _claro_, _cravo_, _facção_, +_Abimélec_, etc. + +13. Antes de _e_, _i_, é substituída por _qu_; ex.: _sequeiro_, +_ressequido_, de _sêco_. É mudo o _c_ actualmente em muitos vocábulos em +que antes se proferia, e conserva-se quando _a_, _e_, _o_ precedentes +permanecem abertos, e por analogia ainda mesmo que essas vogais sejam +tónicas; ex.: _secção_, _acção_, _activo_, _acto_; _espectáculo_, +_espectador_; mas _autor_, _junção_, _junto_, _sanção_, _santo_, etc. + + +14. _e_: Designa em sílabas átonas _e_ surdo; ex.: _se_, _de_, _me_, +_te_, _lhe(s)_, _secar_, _remediar_, _lume_, _úbere_, _cadáveres_, etc. + +Vale por _i_ átono antes de vogal, ou de consoante palatal; ex.: +_fealdade_, _teatro_, _beato_, _teor_, _areeiro_, _feíssimo_, +_conteúdo_; _fechar_, _telhal_, _lenhador_, _desejar_. Cumpre recorrer à +etimologia do vocábulo, ou a uma forma primitiva dêle, em que o _e_ seja +tónico, para assim o diferençar de _i_; _fealdade_, de _feio_; +_areeiro_, de _areia_; _fechar_, de _fecho_; _telhal_, de _telha_; +_lenhador_ de _lenha_; _desejar_, de _desejo_; _teatro_, _beato_, +_teor_, _conteúdo_, do lat. t h e a t r u m, b e a t u m, t e n e r e. +Tem tambêm êsse valor de _i_, como inicial átona; ex.: _evitar_, +_erguer_, _herói_. + +15. _e_: vale por _e_ aberto, ou por _e_ fechado, sendo tónico; ex.: +_neve_, _certo_, _der_, _perda_, _ver_; e por _e_ aberto ou fechado, +átono, _relveiro_, _sável_, _carácter_, _cadáver_, _secção_, _abdómen_. + +16. Vale por _â_ no sul do país, antes de consoante palatal e no ditongo +_ei_; ex.: _igreja_, _fecho_, _telha_, _senha_, _lei_. + +Em várias regiões êste _e_ é proferido como fechado em tal situação; +ex.: _igrêja_, _fêcho_, _têlha_, _sênha_, _lêi_. + +17. _é_: Denota o _e_ aberto tónico, quando haja de marcar-se a sílaba +predominante, isto é, como final, seguido ou não de _s_, e nos +esdrúxulos; ex.: _maré(s)_, _cédula_. Marca-se igualmente o acento agudo +no _e_ quando a sílaba predominante é a penúltima e a palavra não +termina em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_, _am_, _em_, e bem assim nos ditongos +_éi_, _éu_, sempre tónicos; ex.: _éter_, _Vénus_, _fértil_, _férteis_; +_céu_, _escarcéu_, _papéis_. Sem acento, porêm, escreveremos _levam_, +_levem_. + +18. _è_: Indica o _e_ aberto átono, quando se torne necessário +diferençar homógrafos; ex.: _pègada_, diferente de _pegada_; _prègar_, +de _pregar_. + +19. _ê_: Designa o _e_ fechado tónico, quando seja de regra marcá-lo com +acento; ex.: _mercê(s)_, _vê(s)_, _sêmea_, _Zêzere_, _pêssego_, +_concêntrico_, _Estêvão_, etc. + +20. O _e_ nasal nunca termina vocábulo no idioma comum, em que é +substituído pelo ditongo nasal _em_, _ens_ (_[~e]i)s)_, o qual se +acentua quando é tónico final de polissílabos; ex.: _vintêm_, _vintêns_; +_contêm_, _contêns_; _parabêns_. + +21. No princípio e meio das palavras o _e_ nasal escreve-se com _em_ +antes de _b_, _p_, _m_, e com _en_, em qualquer outra situação; inicial +átono profere-se como _im_, _in_; ex.: _membro_, _tempo_; _encher_, +_entrar_, _encho_, _entro_; _entender_, _entendo_; _empregar_, +_emprêgo_. + +22. _g_: O _g_, para designar a consoante sonora correspondente ao _c_, +escreve-se em qualquer situação, excepto antes de _e_, _i_; ex.: _gago_, +_glaciário_, _grade_, _digno_, _fragmento_, e raras vezes como final, +_Gog_, _Magog_. Suprime-se quando se não profere; dêste modo, +escreveremos: _assinar_, _Inácio_, _Inês_, _aumento_, etc. + +Antes de _e_, _i_ acrescenta-se-lhe _u_ (_gu_); ex.: _seguir_, _guerra_, +_ligue_, _aguilhoar_. + +Se êsse _u_ se profere átono, marca-se com acento grave: _agùentar_, +_argùir_, _argùente_; se é tónico, com o acento agudo, _argúi_. + + +23. _ge_, _gi_: tem o mesmo valor que o _j_ e escreve-se em lugar dêste, +quando a etimologia ou a analogia o pedem; ex.: _gente_, _lógica_. Nos +derivados de primitivos em _ja_, _jo_, _ju_ permanece o _j_ antes de +_e_, _i_; ex.: _laranja_, _laranjeira_; _loja_, _lojista_. + +O _g_ etimológico muda-se em _j_ antes de _a_, _o_, _u_; ex.: _reger_, +_rejo_, _reja_; _fugir_, _fujo_, _fuja_. + + +24. _h_: É mudo quando inicial, e escreve-se quando a etimologia do +vocábulo o justifica; ex.: _homem_, _humano_, _herdar_, e portanto +_ombro_, _ontem_, em que a etimologia o não explica; _iate_, e não +_hiate_. + +O _h_ medial desaparece, mesmo nos vocábulos em que êle como inicial +figura; ex.: _desumano_, _deserdar_, e com maior razão em _inibir_, +_inábil_, _filarmónica_, em que daria causa a sua presença a errada +leitura; outros exemplos são _coìbir_, _sair_, _compreender_, _desonra_, +_exibir_, etc. + +25. O _h_, como sinal diacrítico, junta-se a _c_, _l_ e _n_ para +designar os sons que as palavras seguintes exemplificam: _chave_, +_frecha_, _selha_, _moinho_. + +26. O _h_, depois de _t_, _r_ ou _c_ com o valor de _k_ é proscrito; +dêste modo escreveremos _teatro_, _retórica_, _corografia_. Suprimido é +igualmente o _h_ final, como em _Sara_, _raja_, ou _rajá_, e só se +admite em tal situação nas interjeições, como _ah!_ _oh!_, etc. + + +27. _i_: Emprega-se como átono, e como tónico; ex.: _finíssimo_, +_quási_, _virar_, _vira_, etc. + +28. Numa série de sílabas, cuja vogal seja sempre _i_, e o vocábulo não +seja imperfeito ou condicional de verbo, superlativo, ou deminutivo, +sómente o último _i_ conserva, em geral, na pronúncia desafectada, o seu +valor; os mais que o precedem proferem-se como _e_ mudo, se a consoante +seguinte não é palatal (_x_, _j_, _lh_, _nh_, _s_ + consoante); ex.: +_dividir_, _dividia_, _dividiria_, que se pronunciam _devedir_, +_devedia_, _devediria_; _ministro_, que se pronuncia _menistro_; +_ministério_, que se pronuncia _menistério_; _militar_, que se pronuncia +_melitar_. Para se evitarem erros de ortografia, é preciso atender á +etimologia dos vocábulos, e, quando possível, a uma forma em que o _i_ +seja tónico, como em _divide_. + +29. Há dois prefixos de valor diferente, que cumpre diversificar na +escrita: _des-_ e _dis-_. O primeiro é negativo ou privativo, como em +_desfazer_, _destingir_, _destinto_; o segundo distributivo, como em +_dispersar_, _distinguir_, _distinto_, _disjungir_, _discernimento_, +_distúrbio_, etc. + +30. _í_: Designa o _i_ tónico, quando as regras de acentuação gráfica +exijam a marcação; ex.: _frígido_, _Vítor_, _físsil_, _difícil_, +_difíceis_, _fugíeis_, _tínheis_, _fugiríamos_, _fugíreis_, _fugiríeis_, +etc. + +31. Com acento agudo se marca o _i_ tónico que não forma ditongo com a +vogal anterior; ex.: _saída_, _saí_, _aí_, _país_, _países_, _raízes_. + +Antes de _nh_, _nd_, _mb_, pode dispensar-se o acento; ex.: _raínha_, +_aínda_, _Coímbra_, ou _rainha_, _ainda_, _Coimbra_; pode tambêm +dispensar-se antes de consoante final que não seja _s_; ex.: _raiz_, +_sair_; mas _raízes_, _saíres_, porque o _z_ e o _r_ pertencem a outra +sílaba. + +32. _ì_: Quando o _i_ que não forma ditongo com a vogal antecedente é +átono, pode marcar-se com o acento grave; ex.: _saìmento_, _proìbir_, +_paìsagem_. + +33. O _i_ nasal escreve-se com _im_ antes de _b_, _p_, _m_, ou quando +final, _in_ em qualquer outra situação; ex.; _limbo_, _limpar_, _fim_, +_fins_, _findar_, _afinco_, _linfa_, _ninfa_, etc. + + +34. _j_: O _j_ escreve-se antes de _a_, _o_, _u_, _e_, _i_, e antes +destas duas últimas vogais, quando a etimologia não justifica o emprêgo +de _g_; ex.: _já_, _jóia_, _júbilo_; _veja_, _vejo_; _lojista_, +_laranjeira_, _arranjar_, _arranje_; _Jerusalêm_, _Jesus_. + + +35. _m_: Alêm do seu valor como inicial, ex.: _mal_, _tomar_, etc., o +_m_ designa as vogais nasais finais _im_, _om_, _um_, por exemplo, em +_marfim_, _som_, _jejum_, e o ditongo nasal _em_, como em _cecêm_, +_bem_, _devem_, _margem_. O _m_ muda-se em _n_ ao acrescentar-se _s_; +ex.: _marfins_, _sons_, _jejuns_, _cecêns_, _bens_, _margens_. + +36. _m_: Expressa com _a_ (_am_) o ditongo _ão_ átono de formas verbais; +ex.: _louvam_, _louvaram_. + +37. _m_: Denota qualquer vogal nasal inicial ou medial antes de _b_, +_p_, _m_; ex.: _embora_, _empada_, _emmalar_, _bambo_, _êmbolo_, +_campo_, _sempre_, _limpo_, _comprar_, _sumptuoso_. + + +38. _n_: Alêm do seu valor como inicial de sílaba, como em _nau_, +_neve_, _nitro_, _nove_, _nuvem_, _cana_, _pena_, _bonito_, _nono_, +_canudo_, etc., designa as vogais nasais, quando está seguido de +consoante que não seja _b_, _p_, _m_, ou a vogal não é final de +vocábulo; ex.: _lança_, _lenço_, _cinto_, _onça_, _funcho_, _fins_, +_sons_, _jejuns_. Com _e_ designa tambêm o ditongo nasal _[~e]i_, quando +se lhe segue _s_ final: ex.: _nuvens_, _armazêns_, _tens_, _bens_. + +39. _nn_: Emprega-se no prefixo _en_, antes de _n_ do vocábulo a que se +junta; ex.: _ennodoar_, de _nódoa_, _ennastrar_, de _nastro_. + +40. _nh_: Denota únicamente a nasal palatal que se observa em _manhã_, +_lenha_, _linho_, _vergonha_, _pezunho_; e conseguintemente escrever-se +há _inábil_, _inumano_, _inibir_, sem _h_. + + +41. _o_: Esta letra tem os seguintes valores. + +Átona vale por _u_; ex.: _lado_, _dolo_, _faro_, _proteger_, _comum_, +_fortuna_. A escolha entre _o_ e _u_, para expressar êste som, depende +da origem; assim escreve-se _formosura_, de _formoso_, de _forma_; +_portaria_, de _porta_; _monumento_ (do lat. m o n u m e n t u m; +_govêrno_ (do lat. pop. g o b e r n u m, lit. g [)u] b e r n _u m); +rotunda (lat. r o t u n d a); _goraz_ (lat. u o r a c e m); etc. + +42. _o_: Expressa o _o_ aberto, como em _toca_, _volta_, _poste_, etc., +quando é tónico, e átono em certas condições, como _adoptar_, +_nocturno_, isto é, seguido de _p_ ou _c_ na mesma sílaba, quer essas +consoantes se profiram, como em _optar_, _cocção_, quer sejam mudas. + +43. _o_: Designa _o_ fechado tónico, como em _bolo_, _boca_, ou átono +como em _horrível_, _cânon_, e _o_ átono antes de _l_, como em _voltar_, +_soldado_. + +44. _ó_: Denota o _o_ aberto, quando a acentuação gráfica é de regra; +ex.: _avó_, _hipódromo_, _órfão(s)_, _sós_, _vós_, _móvel_, _móveis_, +_móbil_, _cómodo_, etc. + +45. _ò_: Serve para designar _o_ aberto átono em homógrafos, como +_mòlhada_, diferente de _molhada_, e ainda para expressar o acento +secundário de palavras que tenham dois, como _pòzinho_, _sòzinho_, etc. + +46. _ô_; Designa o _o_ fechado tónico, quando as regras de acentuação +gráfica o exijam; ex.: _avô(s)_, _côr_ (cf. _cor_), _pôde_ (cf. _pode_), +_sôbre_ (cf. _sobre_), _fôrma_ (cf. _forma_), _lôgro_ (cf. _logro_), +_lôbrego_, _sôfrego_. + + +47. Cumpre não confundir na escrita _o_ fechado com o ditongo _ou_, que +se mantêm distinto nos falares provinciais; assim _osso_ substantivo +escrever-se há com _o_, mas _ouço_ verbo, com _ou_. + +48. _ou_: Este ditongo tem por origem _au_ arábico, como em _açougue_, +_au_ latino, como em _touro_, _oc_, _ap_, _al_, latinos, como em +_noute_, _toutiço_, _outeiro_. Em geral alterna com o ditongo _oi_, +sendo lícito, em grande número de vocábulos, empregar-se um ou o outro. + +49. _õ_: Esta letra usa-se únicamente no ditongo nasal _õe_, como +_põe(s)_, _lições_. O _o_ nasal, fora dêste caso único, é escrito com +_om_, se é final ou está antes de _b_, _p_, _m_, e com _on_ em qualquer +outra condição; ex.: _som_, _romper_, _rombo_, _emmolhar_; _sons_, +_contar_, _confiar_, _conchegar_, _esponja_, _fonte_, _bondade_, +_cônscio_, _Ônfale_, etc. + + +50. _p_: Esta letra não se duplica. Conserva-se o _p_ mudo depois das +vogais _a_, _e_, _o_ átonas, quando essas vogais permanecem abertas, +como em _adopção_, _recepção_, _exceptuar_. Conserva-se ainda o _p_, se +essas vogais são tónicas, em vocábulos aparentados, como _excepto_, +_adopto_. Depois de outra qualquer vogal suprime-se o _p_ etimológico, +se não é proferido; ex.: _pronto_, _assunto_, _assunção_, _cinto_. + +51. O _ph_ etimológico é em todas as circunstâncias substituído por _f_; +ex.: _física_, _tifo_, _filtro_, _profeta_. + + +52. _qu_: A letra _q_ é sempre seguida de _u_, o qual é marcado com +acento grave (_ù_) antes de _e_, _i_, se é proferido; ex.: _quente_, +_quinta_; _freqùência_, _eqùestre_, _eqùidade_. Antes de _a_, _o_, _u_, +se o _u_ de _qu_ é mudo, substitui-se êste grupo por _c_; ex.: +_catorze_, de q u a t o r d e c i m, como _caderno_, de +q u a t e r n u m; _cota_, de q u o t a, como _licor_, de +l i q u o r e m. Se o _u_ é proferido antes de _a_, _o_, _u_, +conserva-se o grupo _qu_, sem acento no _u_; _quatro_, _aquoso_. + + +53. _r_, _rr_: o _r_ forte escreve-se com _r_ simples quando é inicial +de palavra, ou de sílaba depois de consoante; ex.: _rã_, _ré_, _rio_, +_rol_, _rumo_, _honra_, _pilriteiro_, _Israel_, etc. Entre vogais +duplica-se; ex.: _carrada_, _carreta_, _carril_, _carro_, _arrumar_, +_farrusca_. + +54. Quando a um vocábulo começado por _r_ se acrescenta um prefixo +terminado em vogal, dobra-se o _r_, por ficar entre vogais, para se lhe +manter o valor de inicial; ex.: _arrasar_, de _raso_; _arrostar_, de +_rosto_; _prorrogar_, _derrogar_, de _rogar_; _corroer_, de _roer_. + +55. O _r_ brando, que sómente se manifesfa em fim de sílaba, ou entre +vogais, ou depois de consoante pertencente à mesma sílaba, escreve-se +com _r_ simples; ex.: _dar_, _pôr_, _ver_, _vir_, _virtude_, _verdade_, +_vórtice_, _louvar_, _dever_, _punir_, _cravo_, _fresco_, _frigir_, +_crótalo_, _frustrar_; _cara_, _fera_, _lira_, _amora_, _parada_, +_sereno_, _sarilho_, _caroço_, _caruma_. + + +56. O _s_ surdo assim se escreve como inicial de palavra, ou depois de +consoante, se é inicial de sílaba; ex.: _saco_, _sé_, _sirga_, _só_,_ +sul_, _ânsia_, _falso_, _farsa_, _lapso_, _psicologia_, _absorver_. +Inicial antes de _e_, _i_, e depois da consoante, nas mesmas condições, +alterna com _ce_, _ci_, e sómente a etimologia dos vocábulos, ou um +vocabulário, ensinam a verdadeira escrita. O _s_ corresponde a _s_ +latino, o _c(e)_,_ c(i_) a _ti_, _ci_ latinos, e a _ss_ arábicos; ex.: +_sela_, _silvo_, _selha_, _persistir_, _canseira_, _alicerce_, +_Alcácer_, etc. + +57. Entre vogais o _s_ surdo duplica-se, _ss_, e neste caso alterna com +_ç_ cedilhado, e com _ce_, _ci_, nas mesmas circunstâncias de +proveniência dos vocábulos; ex.: _assar_, _assente_, _assíduo_, _posso_, +_assumir_, _sossêgo_, _passo_, de p a s s u m (cf. _paço_, de +p a l a t i u m), etc. + +58. O _s_ sonoro só se manifesta entre vogais, usualmente, e nesta +posição alterna com _z_, correspondendo porêm sempre a _s_ latino; ex.: +_casa_, _César_, _mês(es)_, _residir_, _formoso_, _uso_. Conquanto +depois de consoante, o _s_ é sonoro no prefixo _trans-_ seguido de +vogal, como em _transeúnte_, _transacção_, em _obséquio_ e seus +derivados, e num ou noutro vocábulo, precedido de consoante sonora. + +59. Há duas terminações de substantivos que não devem confundir-se: +_-eza_, do lat. _-itia_, e _-esa_, do lat. _-ensa_; é esta que se +escreve com _s_, como em _defesa_, _devesa_, _presa_, _despesa_, +_portuguesa_, etc. Semelhantemente, escreveremos _asa_, do lat. a n s a, +_brasa_, em castelhano _brasa_. + +60. Quando a um radical, ou a um vocábulo, começados por _s_, se +acrescenta um prefixo terminado em vogal, duplica-se o _s_ se êle se +profere surdo, escreve-se simples, se é pronunciado sonoro; ex: +_assistir_, _assombrar_, _assumir_, _ressurgir_, _pressentir_; mas +_residir_, _presente_, _resumir_, _resignação_, _presunção_, etc. + +61. O _s_ final de sílaba, seja como for proferido, escreve-se com _s_; +ex.: _custa_, _cesta_, _resma_, _abismo_, _hóspede_, _fosco_, +_balaústre_, _lustre_, _musgo_. + +62. O _s_ final de sílaba, em monossílabos e em polissílabos que tenham +como predominante a última sílaba, alterna com _z_, correspondendo porêm +sempre a _s_ latino, e permanece ainda quando, pela derivação ou flexão +do vocábulo, se lhe acrescenta uma sílaba, de que fica sendo inicial; +ex.: _português_, _portuguesa_, _portugueses_, _cortês_, _corteses_, +_cortesia_, _atrás_, _vês_ (verbo), _vós_, _nós_ (pronomes), _pus_ +(substantivo e verbo), _pôs_ (verbo), _pós_ (substantivo), _pusera_, +_puser_, _pusesse_, etc. Em um único vocábulo arábico, rês, é o _s_ +final árabe representado por _s_, como em castelhano (_res_). + +A consulta a vocabulário é indispensável e muito favorece o acêrto na +escrita a comparação com as correspondentes formas castelhanas. + +63. O _s_ inicial surdo é seguido de _c_ nos seguintes vocábulos e seus +derivados: _scena_, _scetro_, _scéptico_, _scelerado_, _sciente_, +_scisma_, _scintila_, _scisso_, _scisão_, _scissura_, _scissíparo_, +_sciático_, e um ou outro mais, pouco usados. + + +64. _t_: o _t_ nunca se duplica, expressa constantemente o mesmo som, e +substitui em todos os casos o _th_ etimológico; ex.: _ter_, _atitude_, +_meter_, _teto_; _teatro_, _patológico_, _simpatia_, _etnografia_, etc. + + +65. _u_: Esta letra expressa sempre o mesmo som, mais ou menos atenuado +antes e depois de vogal, como elemento fraco dos ditongos; ex.: _tu_, +_pueril_, _auto_. Antes de vogal alterna, átono, com _o_ nas mesmas +condições e só a analogia e a etimologia doa vocábulos decidem da +escrita correcta; ex.: _suar_ (e _soar_), _muar_, _ruína_, etc. Depois +de consoantes alterna igualmente com _o_ átono; ex.: _mural_ de _muro_, +a par de _moral_ do lat. m o r e s; _tunante_, de _tuna_, _tonante_, +lat. t o n a n t e m. + +66. _ú_: Representa esta letra acentuada o _u_ tónico, quando as regras +de acentuação gráfica o exigem; ex.: _único_, _núncio_, _saúde_, +_útil_,_argúi_. + +67. _ù_: O _u_ com acento grave indica não fazer ditongo com a vogal +anterior, sendo átono; ex.: _saùdar_. Designa tambêm o _u_ proferido dos +grupos _qu_, _gu_; ex.: _argùir_, _freqùente_. + +68. _x_: Esta letra tem cinco valores no idioma comum e literário; são +os seguintes: + +1.^o Como inicial--_xadrez_, _caixa_. + +2.^o Como _ss_--_auxílio_, _próximo_. + +3.^o Como _s_--_mixto_, _Félix_. + +4.^o Como _cs_; _cx_--_fixo_, _sexo_; _córtex_, _sílex_. + +5.^o Como _(e)is_--_exame_, _êxito_, _texto_. + +Nas palavras de origem arábica, e quando é inicial, tem sempre o +primeiro valor; ex.: _xabouco_, _axorca_, _xarope_, _elixir_; _Xerxes_, +_Xenofonte_, etc. + +69. Alêm desta multiplicidade de valores, alterna, com relação ao +primeiro, com o grupo _ch_, o qual, como já se disse, representa _cl_, +_fl_, _pl_ latinos; assim, temos; _xá_ (rei) e _chá_ (planta), _xeque_ +(regedor) e _cheque_ (bilhete de banco), _buxo_, lat. b u x u m +(planta), e _bucho_, lat. m u s c ' l u m (estômago e músculo). + +A consulta ao VOCABULÁRIO é indispensável para o emprêgo de qualquer +dêstes dois símbolos, actualmente equivalentes no valor. + + +70. _z_: Como inicial, ou depois de consoante, expressa o mesmo som que +se ouve em _zêlo_, _azeite_, _zurzir_. Os vocábulos formados com o +prefixo _trans-_, e a palavra _obséquio_ e seus derivados, todavia, +escrevem-se com _s_, que representa _s_ latino, como em _transir_, +_trânsito_, _transacção_. + +71. O _z_ entre vogais corresponde a _z_, a _ti_, e a _ce_, _ci_ +latinos, como em _baptisar_, _razão_, _fazer_, _vazio_, e nisto se +diferença do _s_ entre vogais que a _s_ latino corresponde. Os sufixos +_-izar_, _-izante_, etc., escrevem-se sempre com _z_, como em +_anarquizar_, _judaìzante_; _analisar_, porêm, porque provêm de +_análise_, tem _s_ e não _z_; _horizonte z_ e não _s_. Em palavras de +origem arábica é _z_ e não _s_ que se escreve; ex.: _azarola_, _azeite_, +_azougue_. O sufixo _-eza_, como proveniente de _-itia_ latino, tem _z_; +mas das terminações _ansa_, _ensa_, latinas, procedem os vocábulos e as +formas _asa_, _defesa_, _presa_, etc. + +O recurso ao VOCABULÁRIO é de necessidade para os casos duvidosos, como +o é para a hipótese seguinte. + +72. O _z_ final de palavra cuja última sílaba seja a predominante, bem +como o de vários monossílabos, alterna com _s_, e tem o valor dêste no +idioma literário e comum. + +Deve ter-se em atenção que o _s_ corresponde sempre a _s_ latino, e o +_z_ a _c_ latino e a _ss_ ou _zz_ arábicos; assim teremos: _luz_, _voz_, +_falaz_, _feliz_, _atroz_, _vez_, _capuz_, _faz_, _fêz_, de origem +latina, _algoz_, _alcatraz_, _albornoz_, de origem arábica; a única +excepção é _rês_, como já se disse. + +73. Nos patronímicos as terminações _es_, _s_, conquanto provenientes de +_ici_ latino, escrever-se hão com _s_, porque na sua maioria o sufixo +português é átono; ex.: _Rodrigues_, _Nunes_, _Gonçalves_; _Dias_; +_Martins_, _Miguéis_; etc. Semelhantemente, é substituído por _s_ um +antigo _z_ final de sílaba, como em _mesquinho_, _mesquita_, _visconde_, +etc. + + +74. _k_, _w_, _y_. Estas tres letras, proscritas do abecedário +português, sómente são admitidas na escrita de vocábulos estrangeiros, +como _Kant_, _Darwin_, _Byron_, e nos seus derivados portugueses, como +_kantismo_, _darwinismo_, byroniano, que podem todavia ser escritos +_cantismo_, _daruìnismo_, _baironiano_. + + +75. Escrever-se hão iniciais maiúsculas em meio de períodos ou orações +gramaticais, nos seguintes casos: + +a) Nomes próprios de pessoas ou lugares, ruas, etc.; + +b) Nomes colectivos designando cargos, em substituição das pessoas que +os desempenham; ex.: _Estado_, _Govêrno_, _Companhia das Águas_, _Centro +Comercial_, _Patriarcado_, _Cúria_, etc.; + +c) Individualidades que exercem importantes cargos: _Ministro da +Marinha_, _Presidente_, _Juiz_, etc.; + +d) Repartições públicas: _Direcção Geral das Colónias_, _Ministério da +Guerra_, etc.; + +e) Nomes de astros, divindades: _Vénus_, _Terra_, _Sol_, etc.; + +f) Nomes dos meses, nas datas; + +g) Títulos de livros, excepto as partículas monossilábicas, que se +escreverão com minúsculas. + + +76. Hifen (-). + +Êste sinal prende os vocábulos compostos, quando os seus elementos, +conservando a acentuação própria, perdem em parte a sua significação +primordial; ex.: _mãe-d'agua_, _porta-bandeira_, _água-forte_, +_franco-russo_, _madre-pérola_, etc. + +77. O hífen une tambêm os pronomes complementos átonos aos verbos de que +dependem, quando são colocados depois dêstes; ex.: _dou-te_, _dou-to_, +_dás-mo_, _louvá-lo_, _louva-lo_, _louvam-no_, _louva-o_, _tenho-o_, +_tem-lo_, _tem-no_, _dávamovo-lo_, _deram-se_, _deu-se-lhes_, etc. + +78. Quando, em fim de linha, se parte um vocábulo inteiro, parte-se +igualmente o hífen, isto é, repete-se na linha seguinte, se unia os +elementos de uma dição composta; ex.: _porta-/-voz_, _dou-/-to_. + +79. O hifen (-), com o nome de linha divisória, divide, de uma para +outra linha, as sílabas de uma palavra; ex.: _pas-/ta_, _do-/res_, +_ve-/zes_, _parti-/cular_, _di-/gnidade_, _subs-/tância_. + + +80. Pontos de interrogação (?) e exclamação (!). + +À imitação da ortografia espanhola, é conveniente assinalar com êstes +pontos o principio de uma oração interrogativa ou exclamativa, +invertendo-os, todas as vezes que ela excede quatro ou cinco palavras, +para que essa oração seja logo devidamente entoada; ex.: _¿Quando +soubeste que a tua família chegava de fora hoje?_ + + +81. Acentuação gráfica. + +A rigorosa acentuação gráfica das palavras portuguesas deve satisfazer +às condições seguintes: + +1.^a Indicar, com a maior segurança para quem lê, quais são os vocábulos +átonos e quais os tónicos, e nestes qual seja a sílaba predominante, +quando tenham mais de uma; + +2.^a Diferençar entre si vocábulos que se escrevem com as mesmas letras, +mas divergem na pronúncia e na significação, ou função gramatical, + +82. Os vocábulos portugueses são: de uma sílaba, monossílabos; de duas, +dissílabos; de mais de duas, polissílabos; ex.: _pá_, _pára_, _parada_. + +83. Há nos monossílabos e dissílabos vocábulos tónicos, _dá_, _pára_, e +vocábulos átonos, _da_, _para_. + +84. Os dissilabos tónicos podem ter como sílaba predominante a primeira, +_mares_, ou a segunda, _marés_; os polissílabos podem ter como +predominante a última, _falará_, a penúltima, _falara_, ou +antepenúltima, _faláramos_. Os vocábulos cuja última silaba é a +predominante denominam-se agudos ou oxítonos; se a silaba predominante é +a penúltima, dizem-se graves, inteiros, ou paroxítonos; se a +predominante é antepenúltima, recebem o nome de esdrúxulos, ou +proparoxítonos. + +85. Nenhum vocábulo português, de per si, pode ter como sílaba +predominante qualquer outra antes da antepenúltima, conquanto haja +dições formadas por linguagens verbais acompanhadas de pronomes, a elas +unidos por hífen (-), em que a sílaba predominante, que é a da forma +verbal, fica sendo a quarta ou a quinta a contar do fim; ex.: +_dávamos-to_, _dávamo-vo-lo_. Tais dições em nada modificam na escrita a +acentuação gráfica da forma verbal, a qual permanece. + +86. A sílaba tónica, quando se torna necessário indicá-la na escrita, +assinala-se com o acento agudo (') sôbre a vogal dominante dela, se esta +é _a_, _e_, _o_ abertos, _i_ ou _u_; com o acento circunflexo (^), se é +_a_, _e_, _o_ fechados. O til vale por acento tónico, se outro não está +marcado no vocábulo; ex.: _fará_, _maré_, _portaló_, _difícil_, _útil_; +_câmara_, _mercê_, _avô_, _ânsia_, _indulgência_, _brônzeo_, _fímbria_, +_núncio_; _varão_, _maçã_, _capitães_; _órgão_, _órfã_; _munícipe_. + +87. Outro acento, o grave (`), serve para designar, quando seja +necessário ou conveniente à correcta pronunciação de um vocábulo ou +forma verbal, o valor alfabético de qualquer das vogais _a_, _e_, _o_, +_i_, _u_, independentemente de serem tónicas, e principalmente quando o +não são; ex.: _à_, _pègada_, _mòlhada_, _faìscar_, _saùdar_. + + +88. Estabelecidas estas premissas, pode preceituar-se uma rigorosa +acentuação gráfica, inteiramente sistemática, a qual, sem ser profusa ou +ociosa, deixe bem patentes os factos apontados, quer seja expressa, quer +omissa a sua notação. + + +89. Vocábulos não acentuados gráficamente. + +a) Monossílabos e dissílabos átonos: _o(s)_, _a(s)_, _lo(s)_, _la(s)_, +_no(s)_, _na(s)_, _do(s)_, _da(s)_, _ao(s)_, _pelo(s)_, _pela(s)_, +_polo(s)_, _pola(s)_, _me_, _mo(s)_, _ma(s)_, _te_, _to(s)_, _ta(s)_, +_lhe(s)_, _nos_, _no-lo(s)_, _no-la(s)_, _vo-lo(s)_, _vo-la(s)_, +_lho(s)_, _lha(s)_; _se_, _de_, _por_, _sem_, _sob_, _com_, _ma_s, +_que_, _porque_, _tam_ (abreviatura de _tanto_), _sam_ (abreviatura de +_santo_), etc. + +b) Monossílabos tónicos terminados em _em_, _ens_: _bem_, _bens_, _tem_, +_tens_, _cem_. + +c) Formas verbais em _am_, _em_, com a penúltima sílaba como +predominante, e substantivos dissilábicos e polissilábicos em _em_, +_ens_, nas mesmas condições: _louvam_, _louvaram_, _louvem_, _contem_ +(do verbo _contar_); _viagem_, _viagens_, _ferrugem_, _ferrugens_, etc. + +d) Monossílabos e dissílabos tónicos, e polissílabos, terminados em _i_, +_u_, vogal nasal, ditongo, seguidos, ou não, de _s_, e os terminados em +outra qualquer consoante, todos êles oxítonos: _vi(s)_, _javali(s)_, +_cru(s)_, _peru(s)_, _lã(s)_, _maçã(s)_, _sai(s)_, _arrais_, _mau(s)_, +_sarau(s)_; _som_, _sons_, _atum_, _atuns_; _mar_, _der_, _ser_, _dor_, +_mal_, _canal_, _painel_, _funil_, _farol_, _azul_; _mão(s)_, _varão_, +_varões_, _cruz_, _Artur_, etc. + +e) Os dissílabos e polissílabos terminados em _a(s)_, _e(s)_, _o(s)_, +cuja penúltima sílaba seja a predominante; ex.: _casa(s)_, _camada(s)_, +_camarada(s)_, _trave(s)_, _parede(s)_, vicissitude(s), _desaire(s)_, +_modo(s)_, _devoto(s)_, _lume(s)_, etc. + +Estas espécies compreendem a maioria dos vocábulos portugueses, +incluindo-se tambêm nelas as mais das formas verbais, como _louvo_, +_louva(s)_, _louve(s)_, _louvava(s)_, _louvara(s)_, _louvaria(s)_, +_louvares_, _louvarei(s)_. + +90. Vocábulos acentuados gráficamente, _cantar_, _cantai_, fazer, fazei, +fazendo sentir, sentirão, sentis, etc. + +a) Monossílabos, dissílabos e polissílabos terminados em _a(s)_, _e(s)_ +e _o(s)_, como sílaba predominante, isto é, agudos, oxítonos; ex.: +_pá(s)_, _sé(s)_, _vê(s)_, _mês_, _pó(s)_, _pôs_, _fará(s)_, _maré(s)_, +_mercê(s)_, _avó(s)_, _avô(s)_, _alvará(s)_, _jacaré(s)_, _português_, +_portaló(s)_, etc. + +b) Dissílabos e polissílabos terminados em _em_, _ens_, cuja sílaba +predominante seja a última; ex.: _vintêm_, _armazêm_, _vintêns_, +_armazêns_, _contêm_, _contêns_ (do verbo _conter_), _porêm_, +_Jerusalêm_, Belêm, etc. + +c) Dissílabos e polissílabos terminados em _i_, _u_, vogal nasal, +ditongo, seguidos, ou não, de _s_, ou em outra qualquer consoante, +quando a sílaba predominante seja a penúltima; ex: _quási_, _Vénus_, +_órfã(s)_, _órfão(s)_, _louváveis_, _louváreis_, _fácil_, _fáceis_, +_têxtil_, _têxteis_, _cônsul_, _sável_, _sáveis_, _cadáver_, _éter_, +_mártir_, _sóror_, _alcáçar_, _Sófar_, _açúcar_, _gérmen_, _líquen_, +_Félix_, _córtex_, _sílex_, etc. + +d) Os ditongos, sempre tónicos, _éi_, _éu_, _ói_, com _e_, _o_ abertos; +ex.: _réis_, _batéis_ (cf. _reis_, _bateis_), _véu(s)_, _chapéu(s)_, +_sóis_ (cf. _sois_, verbo), _róis_, _herói(s)_, _jóia_, _gibóia_, etc. + +e) O _a_ da terminação _-ámos_ da 1.^a pessoa do plural do pretérito, +para a diferençar de igual pessoa do presente; ex.: _louvámos_ (cf. +_louvamos_=_louvâmos_). + +f) Os seguintes monossílabos e dissílabos tónicos, para se diferençarem +de outros homógrafos átonos: _quê_, _porquê_, _pôr_ (cf. _por_ +preposição), _pára_ (cf. _para_, preposição); _pêra_ (cf. _pera_, +_p'ra_, preposição), _péla_, _pélo_, _pêlo_ (cf. _pelo_, _pela_, +preposição _per_ e artigo _lo_, _la_), _pólo_ (cf. _polo_, preposição +_por_ e artigo _lo_). + +g) Todos os vocábulos esdrúxulos, isto é, que tenham como sílaba +predominante a antepenúltima; ex.: _prática_; _ânimo_, _ânsia_; +_férvido_, _género_, _gémeo_, _génio_; _pêssego_, _fêmea_, +_concêntrico_, _tísico_, _tirocínio_, _fímbria_; _próximo_, _próprio_, +_antimónio_; _lôbrego_, _brônzeo_; _úbere_, _lúgubre_, _único_, +_núncio_; _cadáveres_, _árvore(s)_, _multíplice(s)_, _múltiplo(s)_, +_quádruplo(s)_, etc. + +Assim tambêm as formas verbais esdrúxulas, tais como _louvávamos_, +_louváramos_, _louvaríamos_, _devíamos_, _devêramos_, _deveríamos_, +_puníamos_, _puníramos_, _puniríamos_, _louvássemos_, _devêssemos_, +_puníssemos_, _saíssemos_, _fizéssemos_, etc. + +h) Marcam-se com o acento circunflexo os _ee_ e _oo_ fechados de +vocábulos paroxítonos terminados em _o(s)_, _e(s)_, _o(s)_ fechados, +quando haja outros, escritos com as mesmas letras, em que essas vogais +sejam abertas; ex.: _rêgo_, _rôgo_, substantivos, a par de _rego_, +_rogo_, verbos; _dêmos_, presente, a par de _demos_, pretérito, _sêde_, +_côrte_, _côr_, _mêdo_, a par de _sede_, _corte_, _cor_, _medo_, com +_e_, _o_ abertos, etc. + +i) Marcam-se com o acento agudo (') o _i_ e o _u_ que não formem ditongo +com a vogal anterior; ex.: _país_, _saída_, _faísca_, _Taígeto_, +_saúde_, _balaústre_, _baú_, etc. + +j) Se o _i_ ou _u_, que não forma ditongo com a vogal precedente, é +átono, em vez do acento agudo, usa-se o grave (`); ex.: _saìmento_, +_paìsagem_, _saùdar_, _abaùlado_; + +l) O acento grave designa tambêm o _u_ dos grupos _qu_, _gu_, se é +proferido; ex.: _conseqùência_, _agùentar_, _argùir_. Muda-se em agudo +se êsse _u_ é a vogal predominante, _argúi_; cf. _argùi_, pretérito; + +m) Emprega-se igualmente o acento grave para denotar que _a_, _e_, _o_ +átonos são abertos, quando haja homógrafos, em que eles sejam surdos; +ex. _à_, e _a_; _àquele(s)_, _àquela(s)_, e _aquele(s)_, _aquela(s)_; +_àparte_, substantivo, e _aparte_, verbo; _prègar_, e _pregar_, de +_prego_; _mòlhada_, de _molho_, e _molhada_, de _molhar_. + + +91. O acento distintivo (^), que assinala as vogais fechadas _ê_, _ô_, +só tem aplicação, tanto nos monossílabos, como nos dissílabos ou +polissílabos, se existe homógrafo, isto é, vocábulo escrito com as +mesmas letras, de que haja de diferençar-se; pode portanto omitir-se em +_dor_, _poço_, _cera_, por exemplo, porque não existem, as palavras +_dór_, _céra_, e _pósso_, verbo, já se diferença de _poço_ em +escrever-se com _ss_. + +92. Semelhantemente, a acentuação gráfica omite-se logo que, pela flexão +dos vocábulos, deixam de existir as condições que a determinaram. Dêste +modo, se temos de acentuar graficamente _sêco_, _sêca_, _lôgro_ para os +diferençar das correspondentes formas verbais _seco_, _seca_, _logro_, +com _e_, _o_ abertos, a acentuação torna-se inútil no plural daqueles +nomes masculinos, _secos_, _logros_, mas terá de manter-se em _sêcas_, +em razão da forma verbal _secas_. Assim, tambêm, escreveremos +_vaidoso(s)_, _vaidosa(s)_, sem sinal de acento no _o_ da penúltima +sílaba, conquanto a pronúncia seja _vaidôso_, _vaidósos_, _vaidósa(s)_. +Outro tanto sucederá com relação ao _o_ aberto de vários substantivos no +plural, correspondente a _o_ fechado no singular; assim teremos _tejolo_ +(_tejôlo_), _tejolos_ (_tejólos_), sem acento gráfico, mas _trôco_, +_trocos_, e _troco_, verbo. + +As palavras _espôso_, _espôsa(s)_, terão acento marcado, em virtude de +existirem as formas verbáis _esposa_, _esposa(s)_, com _o_ aberto; mas o +plural _esposos_ dispensa a acentuação por não haver homógrafo a +diferençar. Escreveremos _pôr_, com acento circunflexo, para o +diferençar de _por_, preposição; porêm _dispor_, _propor_, _expor_, +etc., ortografam-se sem acento distintivo; _português_, _cortês_ tem o +acento circunflexo no _e_ por este pertencer à última sílaba, +predominante; em _portugueses_, _portuguesa(s)_, _corteses_ omite-se o +acento por ser desnecessário, visto os vocábulos haverem passado de +oxítonos a paroxítonos em _-esa(s)_,_-ese(s)_. + +Por outra parte, _árvore(s)_ terá acento marcado, por ser esdrúxulo, +_arvore(s)_; verbo, não o tem por ser paroxítono em _(e)s_. + +93. A conjugação de um imperfeito ou condicional de verbo, como +_louvaria_, _deveria_, _puniria_, _louvava_, _devia_, _punia_, receberá +acento nas formas esdrúxulas _louvaríamos_, _louvávamos_, _deveríamos_, +_devíamos_, _puniríamos_, e nas paroxítonas terminadas em ditongo, +_louváveis_, _louvaríeis_, _devíeis_, _deveríeis_, _puníeis_, +_puniríeis_; mas _saía_ tê-lo há em todas as pessoas do imperfeito, +_saía_, _saías_, _saía_, _saíamos_, _saíeis_, _saíam_, porque o _i_ não +forma ditongo com o _a_ que o precede. + +94. Os nomes próprios acentuam-se graficamente como os nomes comuns; +assim escreveremos _Pôrto_, como _pôrto_, diferençado de _porto_, verbo; +_Setúbal_, _Pontével_, _Pedrógão_, _António_, _Tomás_, _Tomé_, _Nazaré_, +_Belêm_, _Águeda_, etc. + +É em virtude desta regra que teremos de acentuar a forma verbal _lêmos_, +para que se diference de _Lemos_, na escrita, como se diferença na +pronúncia. + +95. Os vocábulos compostos cujos elementos são unidos por hífen (-) +conservam os seus acentos gráficos; ex.: _mãe-d'agua_, _pára-raios_, +_pesa-papéis_. + +O mesmo se observará com os advérbios formados com o sufixo _-mente_, +dantes independente, como substantivo que era, o que ainda se reconhece +na locução _de boa mente_; ex.: _sómente_, _cortêsmente_, _rápidamente_, +_cristãmente_. + +96. Nos vocábulos derivados, aumentativos e deminutivos formados com o +infixo _z_, o acento agudo converte-se em acento grave, para que se +evitem leituras erróneas; ex.: _má_, _màzinha_, _màzona_; _avó_, +_avòzinha_. + + +97. Na escrita comum parte desta acentuação rigorosa e sistemática +poderá, em algumas das suas minúcias, ser dispensada; não porêm em +livros didácticos, como gramáticas, dicionários, compêndios de qualquer +natureza que sejam, nos quais por todas as razões, mas principalmente +para que se não difundam e propaguem erros na pronúncia, convêm que seja +fielmente aplicada; podendo mesmo ser ampliada com a marcação, mediante +o acento circunflexo, de todos os _ee_ e _oo_ fechados tónicos. Em +qualquer caso, todavia, cumpre que outros sistemas arbitrários não +substituam esta acentuação gráfica, metódica e harmónica, prejudicando-a +na sua coerência e regularidade, a qual se baseia no exame escrupuloso +dos factos. + + + * * * * * + + +A Comissão termina esta exposição expressando o voto de que, se merecer +aprovação o sistema proposto, êle se propague por meio de cartilhas e +gramáticas, que minuciosamente o exemplifiquem, independentemente do +VOCABULÁRIO. + + +Direcção Geral da Instrução Secundária, Superior e Especial, 23 de +Agosto de 1911.--_Francisco Adolfo Coelho_, Presidente.--_José Leite de +Vasconcelos_, Vogal.--_Cândido de Figueiredo_, Vogal.--_Manuel Borges +Grainha_, Vogal.--_Aniceto dos Reis Gonçalves Viana_, Relator.--_José +Joaquim Nunes_, Secretário. + + + (Diário do Govêrno n.^o 213, de 12 de Setembro de 1911). + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 31| _dessas(s)_ | _dessa(s)_ | + |#pág. 41| síbala | sílaba | + |#pág. 43| _falar_ | _falaz_ | + |#pág. 46| _(as)_ | _a(s)_ | + |#pág. 46| _joia_ | _jóia_ | + +----------+---------------------+----------------------+ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Bases para a unificação da ortografia +que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais, by Anonymous + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO *** + +***** This file should be named 28364-8.txt or 28364-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/3/6/28364/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Bases para a unificação da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais + +Author: Anonymous + +Release Date: March 20, 2009 [EBook #28364] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Mar. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h5>MINISTÉRIO DO INTERIOR<br /> + +<span class="smallcaps">direcçãogeral +de instrucção secundária, +superior e especial +</span><br /> + +1.ª REPARTIÇÃO</h5> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h2>BASES<br /> + +PARA A<br /> + +UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA</h2> + +<h5>QUE DEVE SER ADOPTADA NAS</h5> + +<h4>ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>RELATÓRIO DA COMISSÃO</h3> + +<h4>NOMEADA POR<br /> + +PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911<br /> + +NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR</h4> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 111px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<h4>LISBOA<br /> + +IMPRENSA NACIONAL<br /> + +1911</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<br /> + +<h5>MINISTÉRIO DO INTERIOR<br /> + +<span class="smallcaps">direcção +geral de instrucção secundária, +superior e especial +</span><br /> + +1.ª REPARTIÇÃO</h5> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h2>BASES<br /> + +PARA A<br /> + +UNIFICAÇÃO DA ORTOGRAFIA</h2> + +<h5>QUE DEVE SER ADOPTADA NAS</h5> + +<h4>ESCOLAS E PUBLICAÇÕES OFICIAIS</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>RELATÓRIO DA COMISSÃO</h3> + +<h4>NOMEADA POR<br /> + +PORTARIA DE 15 DE FEVEREIRO DE 1911<br /> + +NOVAMENTE REVISTO PELO RELATOR</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">PREÇO +50 RÉIS</div> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 111px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<h4>LISBOA<br /> + +IMPRENSA NACIONAL<br /> + +1911</h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Imprensa Nacional de Lisboa―Gabinete da Revisão.―Ex.<sup>mo</sup> +Sr.―Julgo do meu dever chamar a atenção de V. +Ex.<sup>a</sup> para o que passo a expor. <br /> + +<br /> + +As publicações saídas da Imprensa +Nacional, quer oficiais, quer de particulares, apresentam grafias +diferentes, umas discutíveis, outras porêm +grosseiras e +vergonhosas. O próprio <em>Diário do +Govêrno</em>, que deveria ter ortografia uniforme, +emprega diversas, conforme o capricho de quem envia os originais, +geralmente pessoas indoutas. <br /> + +<br /> + +Tais variedades de grafias trazem para a Imprensa não +só descrédito mas tambêm +prejuízos pecuniários, porquanto a +composição de todos os diplomas +saídos no +<em>Diário</em> tem de transitar para outras +publicações +periódicas, tais como <em>Boletins</em>, +<em>Ordens</em>, +<em>Separatas</em>, etc., sofrendo +então cada um dêsses diplomas mais emendas, ao +sabor de quem tem de lhes fazer nova revisão. <br /> + +<br /> + +Tantas emendas, alêm de estabelecerem confusão no +espirito do compositor, avolumam de uma maneira assombrosa a despesa da +composição, e impedem a rapidez na +impressão pelo muito tempo que se perde a fazer +alterações. +<br /> + +<br /> + +Com esta anarquia ortográfica os compositores hesitam e +cometem novos erros, e aos revisores se torna tambêm +impossível fixar, para cada obra, as divergências +de tanta grafia. <br /> + +<br /> + +Urge, portanto, acabar com êste estado de cousas. +Fácil me parece o remédio. Se cada qual se tem +julgado +até aqui com direito a impor a sua maneira de escrever, +porque razão o Govêrno da República +não ha de impor tambêm a sua, e no que +é seu? <br /> + +<br /> + +Sujeite, pois, o Govêrno a uma única ortografia +todas as publicações oficiais ou por +êle +subsidiadas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[4]</span> +E qual deverá ser essa ortografia? <br /> + +<br /> + +Em meu entender deverá adoptar-se a que no seu livro <span class="smallcaps">A Ortografia Nacional</span> +preconiza a +maior autoridade no assunto, o doutíssimo +filólogo +Gonçalves Viana. Essa obra tem o aplauso de todos os que +modernamente se tem dedicado ao estudo profundo da sciência +da linguagem; e a ortografia simplificada defendida naquele livro +é +já seguida por grande número de professores e +escritores de valor, e adoptada em muitos livros escolares, revistas, +etc. <br /> + +<br /> + +Desnecessário se torna, pois, encarecer as vantagens da +adopção de um único sistema +ortográfico a quem, como V. Ex.<sup>a</sup>, de +sobejo as conhece e +aprecia. Pelo lado +económico tem a Imprensa muito a ganhar. Tampouco +é para desprezar o louvor que a V. Ex.<sup>a</sup> +caberá +por contribuir, com a adopção da ortografia +simplificada, para a +maior facilidade no ensino da leitura da nossa bela língua. <br /> + +<br /> + +Expondo, embora imperfeitamente, a minha opinião +acêrca do que julgo ser melhoramento de um dos +serviços da Imprensa, confio em que V. Ex.<sup>a</sup> +se +dignará tomar na devida consideração o +alvitre que neste oficio ouso +apresentar a V. Ex.<sup>a</sup>.<br /> + +<br /> + +Lisboa, 17 do Dezembro de 1910.―Ex.<sup>mo</sup> Sr. +Luís Carlos +Guedes Derouet, Digníssimo Administrador Geral da Imprensa +Nacional.―<em>José +António Dias Coelho</em>, chefe do serviço +da revisão. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Imprensa Nacional de Lisboa―Administração +Geral―n.º 238.―Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. +Ex.<sup>a</sup> o oficio que recebi do chefe do +serviço da +revisão, relativamente à necessidade de se +adoptar uma ortografia uniforme nos trabalhos desta Imprensa e +principalmente no <em>Diário ao +Govêrno</em>. <br /> + +<br /> + +Estou perfeitamente de acôrdo com as +considerações que faz o aludido +funcionário, pois que não pode nem +deve continuar a anarquia que presentemente existe. Embora o problema +ortográfico não se resolva por +completo de momento, pelo menos que nos trabalhos oficiais se mantenha +a uniformidade. <br /> + +<br /> + +Chamo para o facto a devida atenção de V. Ex.<sup>a</sup>, +certo de que o assunto lhe merecerá toda a solicitude. <br /> + +<br /> + +Saúde e Fraternidade. <br /> + +<br /> + +Lisboa, 14 de Janeiro de 1911.―Ex.<sup>mo</sup> Sr. +Director Geral da +Instrução Secundária, +Superior e Especial.―O Administrador Geral, <em>Luís +Derouet</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[5]</span> +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ministério do Interior―Direcção Geral +da Instrução Secundária, Superior e +Especial.―1.ª +Repartição.―O Govêrno +Provisório da República Portuguesa, atendendo ao +que lhe foi representado pelo Administrador Geral da Imprensa Nacional, +no sentido de serem tomadas providências tendentes a +uniformizar a ortografia oficial, por forma a evitar que nas +publicações emanadas daquele +estabelecimento do Estado continuem a adoptar-se, paralelamente, as +mais desencontradas formas ortográficas; <br /> + +<br /> + +Conformando-se com o parecer da secção permanente +do Conselho Superior de Instrução +Pública: <br /> + +<br /> + +Manda, pelo Ministro do Interior, que seja nomeada uma +comissão, composta de D. Carolina Michaëlis de +Vasconcelos, Aniceto dos Reis Gonçalves Víana, +António +Cândido de Figueiredo, Francisco Adolfo Coelho e +José Leite de Vasconcelos, encarregada de fixar as bases da +ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos e +publicações oficiais, e bem assim de organizar +uma lista ou vocabulário das palavras que possam oferecer +qualquer dificuldade quanto à maneira como devem ser +escritas. <br /> + +<br /> + +Paços do Govêrno da República, em 15 de +Fevereiro de 1911.―O Ministro do Interior, <em>António +José de Almeida</em>.<br /> + +<br /> + +<div class="poetry tinys">(<em>Diário do +Govêrno</em> n.º 39, de 17 de +Fevereiro de 1911).</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ministério do Interior―Direcção Geral +da Instrução Secundária, Superior e +Especial―1.ª +Repartição.―Manda o Govêrno +Provisório da República +Portuguesa, pelo Ministro do Interior, que à +comissão encarregada de +uniformizar a ortografia oficial, nomeada por portaria de 15 de +Fevereiro último, sejam agregados os seguintes vogais: Dr. +António José Gonçalves +Guimarães, Dr. António Garcia Ribeiro de +Vasconcelos, Augusto Epifânio da Silva Dias, Júlio +Moreira, José Joaquim Nunes e Manuel Borges +Grainha. <br /> + +<br /> + +Paços do Govêrno da República, em 16 de +Março de 1911.―O Ministro do Interior, <em>António +José de Almeida</em>. <br /> + +<br /> + +<div class="poetry tinys">(<em>Diário do +Govêrno</em> n.º 64, do 20 de Março +de 1911).</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mistério do Interior―Direcção Geral +da Instrução Secundária, Superior e +Especial―1.ª +Repartição.―Conformando-se com o parecer da +comissão encarregada, por portaria de 15 de Fevereiro de +1911, de estabelecer as bases +<span class="pagenum">[6]</span> +para a unificação da ortografia que deve ser +adoptada nas escolas e nos documentos e +publicações oficiais: <br /> + +<br /> + +Manda o Govêrno da República Portuguesa, pelo +Ministro do Interior: <br /> + +<br /> + +1.º Que o relatório da referida comissão +seja +publicado no <em>Diário do +Govêrno</em>, devendo ser para o futuro adoptada em +todas as escolas, e bem assim nos documentos e +publicações oficiais, a ortografia proposta pela +comissão; <br /> + +<br /> + +2.º Que se dê a tolerância +máxima de +três anos, a contar da data da +publicação da presente portaria, para +a conservação das grafias existentes nos livros +didácticos actualmente em uso, a fim de não +prejudicar os respectivos autores ou editores; <br /> + +<br /> + +3.º Que se promova a rápida +organização e publicação, +pelo preço mais módico possível, de um +vocabulário ortográfico e de uma cartilha, +especialmente destinada a vulgarizar e exemplificar o sistema de +ortografia adoptado; <br /> + +<br /> + +4.º Que a comissão nomeada por portaria de 15 de +Fevereiro +de 1911 continue em exercício pelo tempo que se julgar +conveniente, a fim de ser ouvida sobre quaisquer dúvidas que +se suscitem relativamente à +execução da reforma proposta, podendo a referida +comissão +reùnir-se por iniciativa própria, ou convocada +pela +Direcção Geral da Instrução +Secundária, Superior e +Especial, por intermédio da qual serão feitas +quaisquer +reclamações sôbre o assunto. <br /> + +<br /> + +Paços do Govêrno da República, em 1 de +Setembro de 1911.―O Ministro do Interior, <em>António +José de Almeida</em>. <br /> + +<br /> + +<div class="poetry tinys">(<em>Diário do +Govêrno</em> n.º 206, de 4 de Setembro de +1911).</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Ex.<sup>mo</sup> Sr. <span class="smallcaps">Ministro do Interior</span>: +</div> + +<br /> + +<br /> + +A Comissão, nomeada por portaria de 15 de Fevereiro do +corrente ano para fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada +nas escolas e nos documentos oficiais e outras +publicações feitas por conta do Estado, +vem hoje apresentar a V. Ex.<sup>a</sup> os resultados do +estudo a que procedeu, +bem como as decisões que, por grande maioria ou por +unanimidade de votos dos indivíduos que a +compõem, entendeu ser oportuno propor, tomando por elementos +principais dessas decisões a história da +língua portuguesa, e a da sua escrita tradicional +até época muito +recente. <br /> + +<br /> + +Logo na sessão inaugural, celebrada em 15 de +Março último, julgou a Comissão que +seria vantajoso +para a absoluta independência e imparcialidade das suas +resoluções, como corpo consultivo, propor a +agregação de mais +alguns conhecidos filólogos portugueses; e essa +conveniência reconheceu-a V. Ex.<sup>a</sup> +nomeando, por portaria de +16 do referido mês, alêm dos indivíduos +já +anteriormente nomeados, mais seis; ficando a Comissão +composta de onze pessoas, uma das quais, porêm, o Professor +Augusto +Epifânio da Silva Dias, se escusou, declinando o encargo. +Ficou assim a Comissão constituída por dez +membros, e, em razão de ser par êste +número, teve o +presidente eleito por ela de resolver com voto de desempate algumas +questões de secundária importância, em +que divergiram as +opiniões, expressas depois de discussão por +votações diferentes, equivalentes em +número. <br /> + +<br /> + +Quatro dos membros da Comissão, isto é, a Sr.<sup>a</sup> +D. Carolina +<span class="pagenum">[8]</span> +Michaëlis de Vasconcelos, que a Comissão +elegeu Presidente honorária, os Drs. António +José Gonçalves Guimarães e +António Garcia Ribeiro de +Vasconcelos, e o Professor Júlio Moreira, não +puderam comparecer +às sessões semanais, em razão de +residirem longe de Lisboa, localidade em que a Comissão se +reuniu: foram +porêm sempre consultados em todas as questões em +que +não houve unanimidade de votos por parte dos +indivíduos presentes; havendo sido os votos dêsses +ausentes tomados em +consideração, e dando-se-lhes oportuno +conhecimento das +resoluções adoptadas pelos membros presentes +às sessões, que não foram mais +amiudadas, porque outras +funções oficiais dos membros da +Comissão o não permitiram, e assim +se explica a relativa morosidade dos seus trabalhos. <br /> + +<br /> + +Logo nas duas primeiras sessões foi unânime o +parecer de, seguindo-se uma tendência já +manifestada no +espírito público, se simplificarem as grafias +correntes, entre si contraditórias, regularizando-as em +obediência ao +princípio capital de simplificação. +Por proposta, +unânimemente aprovada, do Presidente adoptou-se para base da +discussão o Questionário ortográfico +em tempos apresentado +por um dos seus membros à Academia das Sciências +de +Lisboa, e pela mesma Academia mandado imprimir na sua tipografia, em +1902, com as respostas do autor dêsse +Questionário, em um volume de 183 páginas, cujo +título é <span class="smallcaps">As +Ortografias +Portuguesas</span>. Esta obra foi ao depois reeditada pelo +referido autor em outro volume, acrescentada e com maior +cópia de abonações e +diferente economia de texto, volume que é do conhecimento do +público +e se intitula <span class="smallcaps">Ortografia Nacional</span>. +Teve +a Comissão igualmente em atenção o +<span class="smallcaps">Vocabulário +Ortográfico e +Ortoépico da Língua Portuguesa</span>, +ainda do mesmo +autor, impresso em Lisboa no ano passado, e no qual o sistema +ortográfico dêsse autor se encontra larga e +minuciosamente exemplificado. Pode êle, com efeito, ser desde +já +utilizado, emquanto outro se não publique, em que as +pequenas +alterações, que sofreram os princípios +em que se baseou, sejam incluídas e atendidas de +preferência na +seqùência alfabética dos +vocábulos. <br /> + +<br /> + +Poucas e de pequena importância relativa foram as +modificações que a Comissão entendeu +conveniente que se fizessem no sistema ortográfico ali +proposto e seguido, e essas foram adoptadas para que êle +ficasse mais em harmonia com modos de escrever que, conquanto menos +conseqùentes, se tornaram já, a bem dizer, +habituais; e tais +<span class="pagenum">[9]</span> +modificações em preceitos, que o autor daquelas +obras defendera com razões históricas cuja valia +a +Comissão reconheceu, tiveram por causa o considerar a +Comissão que alguns dêles eram em demasia +prematuros, e um ou outro já extemporâneo, em +virtude de usos +ortográficos radicados e que se não devem +considerar absolutamente como erros scientíficos. <br /> + +<br /> + +Teve pois a Comissão em atenção que a +estranheza, que poderiam ocasionar no público certas +innovações ou renovações +gráficas, não viesse prejudicar a +aceitação dos demais preceitos, que +parecerão a todos exeqùiveis. <br /> + +<br /> + +O autor, membro da Comissão, concordou com todas essas +modificações, e votou com a maioria da +Comissão em todas elas. À primeira +espécie pertencem a +manutenção do <em>h</em> inicial, de +<em>ge</em>, +<em>gi</em>, mediais de vocábulos, +em concorrência com <em>je</em>, +<em>ji</em>, e todos os valores actuais dados +à letra <em>x</em>, que o mesmo autor reduzira +a dois +únicos, o inicial, como em <em>xadrez</em>, e o +do prefixo +<em>ex-</em> valendo por +<em>eis</em> ou +<em>is</em>, como em <em>expor</em>, +<em>exército</em>, etc. Os +preceitos da segunda espécie, que, se bem que perfeitamente +motivados nas propostas do autor do Questionário, a +Comissão julgou +já de há muito fora do uso comum, são +principalmente o +emprêgo de <em>ç</em> inicial, e o do +<em>z</em> final, com o valor actual de +<em>s</em>, em sílaba átona, que +sobretudo figura na +última sílaba de muitos nomes +patronímicos, como +<em>Gonçálvez</em>, +<em>Núnez</em>, que presentemente se escrevem +<em>Gonçalves</em>, +<em>Nunes</em>, com +<em>-es</em>, em oposição +à sua etimologia, a +desinência latina <em>ici</em>, de genetivo. +Esses nomes e vocábulos, como +<em>ourives</em>, +<em>simples</em>, <em>mesquinho</em>, +continuarão +pois a escrever-se com <em>s</em> final de +sílaba, na ortografia comum. <br /> + +<br /> + +Entendeu tambêm a Comissão que seria inoportuno +suprimir o <em>s</em> inicial do grupo +<em>sce</em>, +<em>sci</em>, que figura +etimológicamente em algumas palavras, tais como +<em>sciência</em>, +<em>scetro</em>, <em>scéptico</em>, +<em>scelerado</em>, +<em>scena</em>, +<em>scisão</em>, +<em>scisma</em> e seus derivados e afins, principalmente, +com relação ao primeiro +dêstes vocábulos, porque no sul de Portugal se +profere +êsse <em>s</em> separado do <em>c</em>, +em formas compostas, +como <em>presciência</em>, <em>consciência</em>, +<em>insciência</em>, +<em>cônscio</em>, etc. Comparem-se +tambêm <em>en(s)cenação</em>, +e <em>proscénio</em>, com +<em>s</em> proferido êste +último. <br /> + +<br /> + +¿Quais são as bases da ortografia portuguesa que +a Comissão propõe? <br /> + +<br /> + +Havia, logo desde o início dos trabalhos, dois sistemas a +que se atendesse, um dêles a ortografia francesa, que, mais +ou menos coerentemente se tem há certo tempo imitado em +Portugal; o outro, as ortografias espanhola e italiana, +<span class="pagenum">[10]</span> +muito mais simples, racionais, lógicas e +fáceis de aprender, muito mais conformes com a +evolução +natural e mesmo literária dêsses idiomas, em +muitos pontos +análoga à do português. O que +radicalmente +diferença a ortografia dêsses dois idiomas +oficiais, e bem assim as de outros congéneres entre si, com +êles e com o +nosso, falados quer em Espanha, quer em Itália, é +a +modificação da ortografia latina dos +inúmeros vocábulos gregos +romanizados, para outras mais conformes com o valor das letras de tais +vocábulos nessas línguas modernas. <br /> + +<br /> + +Facilitando o ensino da leitura e da escrita, a Comissão +julgou que já era tempo de se desterrarem por uma vez da +escrita portuguesa, como há muito o estão +da espanhola e da italiana, para não mencionar as de outros +idiomas mais desviados do latim, os símbolos +<em>ph</em>, +<em>th</em>, +<em>rh</em>, e <em>y</em>, por +<em>f</em>, +<em>t</em>, +<em>r</em>, +<em>i</em>, e o +<em>ch</em> com o valor de +<em>k</em>, o qual ficará substituído +por <em>qu</em> antes +de <em>e</em>, +<em>i</em>, e por +<em>c</em> em qualquer outra +situação, como se fêz em castelhano. +Com esta simplificação muito ganhará a +língua escrita e o seu +aprendizado e exercício, pois mais se aproximará +da realidade +dos factos constantes da sua pronúncia, que aqueles +estranhos símbolos disfarçam, e ao mesmo passo se +acercará das ortografias espanhola e italiana, consideradas +universalmente, e por todos os filólogos, como das mais +perfeitas entre as que adoptaram o abecedário romano, e o +apropriaram às conveniências nacionais. Com +efeito, pode afoutamente dizer-se que a ortografia francesa e as +actuais portuguesas que a imitam são escrita de eruditos e +para eruditos, ou que presumem sê-lo; as ortografias italiana +e espanhola são escrita para todos os indivíduos +que nessas nações sabem ler e escrever. Deseja a +Comissão que em Portugal aconteça outro tanto, e +nesse intuito se +inspirou. <br /> + +<br /> + +Outra simplificação igualmente importante, que a +Comissão sugere como absolutamente necessária, +consiste na abolição de consoantes dobradas, as +quais +ficam reduzidas, como em castelhano, a simples, com +excepção de <em>rr</em>, +<em>ss</em>, +<em>mm</em>, +<em>nn</em> mediais, quando acusem +diferença de pronunciação, o que se +dá, por exemplo, nos vocábulos +<em>cassa</em>, <em>carro</em>, +<em>emmalar</em>, +<em>ennovelar</em>, comparados a +<em>casa</em>, +<em>caro</em>, +<em>emanar</em>, <em>enervar</em>. <br /> + +<br /> + +Estas duas simplificações, sós por si, +acabam definitivamente com dois dos maiores tropeços com que +se encontra estorvada a escrita nacional, e que já poucos +defensores conscienciosos, conscientes e autorizados +lograrão +<span class="pagenum">[11]</span> +obter. Todos, ou quási todos os que +lêem ou escrevem, aplaudirão de certo estas +simplificações há tanto tempo +desejadas e sugeridas. <br /> + +<br /> + +Alêm da inutilidade prática, e mesmo +teórica, que oferece actualmente a +duplicação de consoantes na +escrita, como <em>cc</em>, +<em>dd</em>, +<em>ff</em>, +<em>gg</em>, +<em>ll</em>, +<em>mm</em>, +<em>nn</em>, +<em>pp</em>, +<em>tt</em>, outro estôrvo +apresentam ainda as nossas escritas, relativamente modernas, e consiste +êste no emprêgo de +<em>c</em> ou +<em>p</em> antes de +<em>t</em>, formando os grupos <em>ct</em>, +<em>pt</em>, e ainda +<em>pç</em>, +<em>cç</em>, como em +<em>producto</em>, +<em>restricto</em>, <em>corrupto</em>, +<em>escripto</em>, +<em>assumpção</em>, +<em>funcção</em>, etc., +nos quais tanto o <em>c</em> como o +<em>p</em> são de todo +inúteis para a pronunciação. A +Comissão preceitua que essas letras escusadas +desapareçam da escrita portuguesa, onde vieram enxertar-se +por influência estranha. Casos, porêm, +há, e muitíssimos, em que tais consoantes ou +são ainda facultativamente proferidas, ou a sua +influência subsiste no valor das vogais <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> que as precedem, as quais, em vez +de se obscurecerem, como é de regra, nas sílabas +antetónicas, conservam os seus valores, relativamente +<em>à</em>, +<em>è</em>, +<em>ò</em>, que tinham quando essas consoantes, +hoje mudas, se proferiam. Dêste modo, a Comissão +entendeu ser de necessidade +a conservação delas, quer quando a vogal, +<em>a</em>, +<em>e</em> ou <em>o</em> precedente +é +átona, quer em vocábulos aparentados, quando +é tónica; por exemplo: +<em>direcção</em>, +<em>directo</em>, +<em>acção</em>, <em>activo</em>, +<em>acto</em>, +<em>tracção</em>, +<em>tracto</em>, +<em>excepção</em>, +<em>exceptuar</em>, +<em>excepto</em>, <em>adopção</em>, +<em>adoptar</em>, +<em>adopto</em>, comparados estes +últimos vocábulos com <em>opção</em>, +<em>optar</em>, +<em>opto</em>, em que o +<em>p</em> se profere. Com esta +excepção aos princípios +simplificadores que a Comissão observou no sistema +ortográfico que propõe, +conseguiu não demudar o aspecto de centenas de palavras +relativamente modernas, mas de uso constante; e com tanto maior +razão o fêz, quanto é certo que +em muitas destas palavras as letras <em>c</em> e +<em>p</em> por muitas pessoas são +ainda proferidas, tais como +<em>facção</em>, +<em>recepção</em>, +<em>espectador</em>, a par de <em>espe(c)taculo</em>, +etc. Quanto ao +<em>g</em> que precede +<em>m</em> ou +<em>n</em>, ou ainda outras letras, entendeu a +Comissão dever +eliminá-lo nas palavras em que se não profere, +como +<em>assinar</em>, +<em>Inácio</em>, <em>aumentar</em>, +<em>Madalena</em>, comparadas com +<em>designar</em>, +<em>Agnelo</em>, <em>fragmento</em>, o que +já +há quatro séculos Duarte Nunes do Lião +aconselhara; só modernamente êle +aí foi introduzido, quando se implantaram artificialmente +entre nós ortografias servil e inconseqùentemente +etimológicas, +quási todas por influência da escrita francesa. +Outro tanto acontece com <em>damno</em>, +<em>solemne</em>, que se +escreverão, como dantes, <em>dano</em>, +<em>solene</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Efectivamente, se na leitura de livros estrangeiros houvesse +predominado em Portugal a de italianos ou espanhóis, nunca +tais complicações ortográficas +se haveriam enraizado na escrita literária do idioma +pátrio, +avêsso a tais arrebiques, e ao qual é de toda a +conveniência restituir a simplicidade e coerência +da antiga escrita. <br /> + +<br /> + +Outra feição essencial numa ortografia, que seja, +quanto possível, imagem dos fenómenos que se +observam na +linguagem falada, é a regularização da +sua +acentuação gráfica, por meio da qual +se diferencem palavras que se escrevam com as mesmas letras, mas tenham +pronunciação e significação +diversas; e ainda que seja por tal +modo combinada e aplicada, que nenhuma dúvida possa +subsistir com relação a qual seja a +sílaba +predominante de qualquer palavra ou forma, em idiomas em que, como +acontece em português, a acentuação +tónica pode afectar uma qualquer das três +sílabas finais. Nesta +condição é muitíssimo +superior à italiana usual a ortografia castelhana, que +assinala sistemáticamente com o acento agudo (´) +todos os +vocábulos esdrúxulos e todos os terminados em +consoante, se a sílaba predominante é a +penúltima, ou terminados em vogal, se ela é a +última. A +Comissão atendeu a essa condição +essencial da leitura, e suposto a +não preceitue já como obrigatória em +todos os casos em que +seria necessária, aconselha-a e fixa-lhe as regras que a +determinarão, quando rigorosamente empregada, como +convirá que o seja em todos os livros de ensino e consulta. <br /> + +<br /> + +Sabe a Comissão que esta parte da reforma +ortográfica será aquela que maiores dificuldades +encontrará +na sua execução, principalmente a +acentuação distintiva de tantíssimos +homógrafos, como os que existem em português, +muitos mais do que em castelhano, ou mesmo em italiano. Essas +distinções obrigarão quem +escreve para o público a ser um tanto mais cauteloso na +ortografia das palavras, do que usualmente o é na +actualidade. Em +compensação, porêm, o escritor +já não terá futilidades +etimológicas a respeitar por costume, e o bom ensino da +leitura em breve habituará as gerações +novas +à acentuação rigorosa. <br /> + +<br /> + +Não foi condescendência com a inércia +que imperou no ânimo da Comissão, ao deixar em +certo modo +facultativo, por emquanto, o uso pontual da +acentuação +gráfica em todas as suas minúcias, como o +é o da castelhana, +e com a mais estrita coerência; mas sim o reconhecimento de +que as condições naturais do idioma +português exigem que essa acentuação +gráfica seja muito +mais copiosa e diferencial +<span class="pagenum">[13]</span> +do que o é a castelhana, em si modelar na sua +simplicidade. Na realidade, em castelhano não há +a +diferençar <em>e</em>, +<em>o</em> fechados de +<em>e</em>, +<em>o</em> abertos, o que dispensa o uso do acento +circunflexo nesse idioma, no qual não existe o +considerável número de homógrafos que +se observa em português; e alêm disto +não se +dão em castelhano os constantes acidentes de +variação de valor em +<em>e</em>, +<em>o</em>, que no português se produzem e +determinam um sem número de +vocábulos entre si diferentes fonéticamente, +conquanto nas letras com que se escrevem sejam iguais, e que nenhum +ouvido português confundirá, como é +conveniente que a escrita os não confunda, tais como +<em>entêrro</em>, +<em>almôço</em>, +substantivos, e <em>entérro</em>, +<em>almóço</em>, +verbos; <em>sôbre</em>, +preposição e +<em>sóbre</em>, verbo; <em>sêde</em> +e +<em>séde</em>; +<em>pêlo</em> substantivo +<em>pélo</em>, verbo, a par de <em>pelo</em> +(<em>p'lu</em>) +contracção de <em>per +lo</em>, preposição e artigo; <em>pâra</em>, +preposição, e +<em>pára</em>, verbo; +<em>dêmos</em>, presente, e <em>démos</em>, +pretérito, etc. <br /> + +<br /> + +Nestes homógrafos, porêm, para se evitar +acentuação dispensável, o que cumpre +é assinalar-se no +<em>e</em> e no +<em>o</em> o seu valor de <em>ê</em>, +<em>ô</em>, visto que os nomes +destas letras em português se proferem com vogais abertas, +<em>è</em>, +<em>ò</em>, devendo pois +considerar-se êsse valor como o seu normal quando +são +tónicas. Por êste motivo, o que convêm +em tais +homógrafos é marcar-se com o acento circunflexo +as vogais fechadas, omitindo-se o acento agudo em <em>e</em> +e +<em>o</em> abertos, e escrevendo-se portanto as palavras +citadas, e outras análogas, +<em>sôbre</em> e +<em>sobre</em>, <em>almôço</em> +e +<em>almoço</em>, +<em>entêrro</em> e +<em>enterro</em>, +<em>sêde</em> e +<em>sede</em>, +<em>pêlo</em>, +<em>pélo</em> e <em>pelo</em>, +<em>pára</em> e +<em>para</em>, +<em>dêmos</em> e +<em>demos</em>. E necessário que +<em>pélo</em>, <em>pára</em>, +<em>pólo</em> sejam +porêm marcados com o acento agudo, pois as +contracções +<em>pelo</em>, +<em>polo</em> (arcaica esta) e a +preposição <em>para</em> +são sempre +átonas. A forma da 1.ª pessoa do plural do +pretérito perfeito dos verbos em +<em>-ar</em>, como +<em>louvámos</em>, receberá, o que +é já uso corrente, o +acento agudo, para se diferençar da do presente, +<em>louvamos</em>, por isso que o +<em>a</em> antes de consoante nasal, é +normalmente fechado, isto +é, proferido <em>â</em>, e a +distinção se observa em quási todo o +domínio português. <br /> + +<br /> + +Algumas considerações consagrará ainda +a Comissão ao sistema de acentuação +gráfica. <br /> + +<br /> + +Como é já uso estabelecido, o acento agudo +(´) +é o sinal, por excelência, da sílaba +predominante de todo o +vocábulo que não seja átono, com +excepção de <em>e</em>, +<em>o</em> fechados, que serão, aceitando-se o +costume que em português +se foi lentamente fixando, assinalados com o acento circunflexo (^). +Fixa a Comissão o uso, mais ou menos vagamente +<span class="pagenum">[14]</span> +seguido, de marcar com outro acento disponível, o grave (`), +as vogais <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em>, abertas, de sílabas +pretónicas, quando haja homógrafos a +diferençar entre si. Nesta +conformidade escrever-se hão: +<em>à</em>, +contracção de +<em>a</em> artigo e +<em>a</em> preposição, de que se +diferençará; +<em>àquela</em>, diferente de +<em>aquela</em>; +<em>prègar</em>, diverso de <em>pregar</em>; +<em>mòlhada</em>, e +<em>molhada</em>, particípio +femenino de <em>molhar</em>. Preceitua pois a +Comissão que o acento grave indique o valor +alfabético das vogais +<em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>i</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em> (<em>à</em>, +<em>è</em>, +<em>ì</em>, +<em>ò</em>, +<em>ù</em>), e dêste +preceito se deduzem todas as aplicações que +dá ao acento grave. Essas outras +aplicações são as seguintes: <br /> + +<br /> + +1.ª Distinguir homógrafos, +<em>aquela</em>, +<em>àquela</em>, +<em>pregar</em>, +<em>prègar</em>, quando a vogal distintiva seja +átona; 2.ª, marcar as vogaes <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em>, abertas, em palavras que tenham +dois acentos tónicos, o último dos quais seja o +predominante, como é de regra em português, +<em>chapèuzinho</em>, +<em>avòzinha</em>, <em>màzona</em>; +3.ª, dissolver +ditongos átonos, +<em>saìmento</em>, +<em>paìsagem</em>, <em>saùdar</em>, +a par de +<em>saída</em>, +<em>país</em>, +<em>saúde</em>, em que +<em>i</em>, +<em>u</em> são tónicos; 4.ª, +diferençar o +<em>u</em> proferido, dos grupos +<em>qu</em>, +<em>gu</em>, do <em>u</em> mudo dos mesmos +grupos, +<em>freqùente</em>, comparado a <em>quente</em>, +<em>argùir</em>, comparado a +<em>seguir</em>. Quando o +<em>u</em> passe a ser tónico, o acento grave +mudar-se há em agudo; +ex.: <em>argúi</em>, diferente de +<em>argùi</em>. <br /> + +<br /> + +Como a Comissão fixou que a subjuntiva fraca dos ditongos +seja sempre escrita com <em>i</em>, +<em>u</em> e nunca +<em>e</em>, +<em>o</em> é inútil o +emprêgo de qualquer sinal diacrítico nestas duas +letras, para denotar que não formam ditongo com a vogal +precedente, como em <em>moeda</em>, +<em>neófito</em>, +<em>cooperar</em>, etc. <br /> + +<br /> + +A escrita dos ditongos orais será portanto a seguinte, na +qual <em>éi</em>, +<em>éu</em>, +<em>ói</em>, com a vogal dominante +aberta, se diferençam de <em>ei</em>, +<em>eu</em>, +<em>oi</em>, em que ela é fechada: +<em>ai</em> +(<em>ài</em>, +<em>âi</em>), <em>éi</em>, +<em>ei</em>, +<em>ói</em>, +<em>oi</em>, +<em>ui</em>, +<em>au</em>, +<em>éu</em>, +<em>eu</em>, +<em>ou</em>, +<em>iu</em>, do que são exemplos estes +vocábulos: <em>pai</em>, +<em>caiar</em>, +<em>réis</em>, +<em>reis</em>, +<em>sóis</em>, +<em>sois</em> (verbo), +<em>fui</em>, <em>pau</em>, +<em>céu</em>, +<em>seu</em>, +<em>riu</em>, +<em>levou</em>. Preferíu-se +acentuar as vogais abertas de <em>éi</em>, +<em>éu</em>, +<em>ói</em>, visto serem elas +sempre tónicas; êsse acento mudar-se há +no grave, quando +acidentalmente elas sejam em certo modo átonas, como em +<em>vèuzinho</em>, +<em>painèizinhos</em>, <em>heròicidade</em>. +Os dois +valores da escrita <em>ai</em> +(<em>ài</em> e +<em>âi</em>) como em <em>ensaio</em>, +<em>ensaiar</em>, é +desnecessário acusá-los, por isso que o ditongo <em>âi</em> +átono só se manifesta antes de vogal, pois quando +tónico se escreve +<em>ei</em>. <br /> + +<br /> + +No Formulário de regras de ortografia, que a +Comissão submete à +apreciação do +Govêrno, ficarão consignados os principais +preceitos da acentuação escrita, que +se encontram postos em prática no +<span class="smallcaps">Vocabulário +Ortográfico</span>, a +<span class="pagenum">[15]</span> +que já se referiu, e completamente expostos de +páginas 155 a 200 da <span class="smallcaps">Ortografia +Nacional</span>, +tambêm já citada, a qual tem um +copiosíssimo índice +alfabético e remissivo, que facilita a sua consulta nos +casos duvidosos. Exemplos rigorosos dêste sistema de +acentuação +oferece-os igualmente todo êste relatório, bem +como de toda a ortografia +que se propõe. <br /> + +<br /> + +Aludiu agora mesmo a Comissão à +distinção, que é mester deixar +retratada na escrita, entre <em>e</em> +e <em>o</em> fechados e +<em>e</em> e <em>o</em> abertos, quando entre +si +distinguem inúmeras palavras e formas gramaticais. Outra +não menor dificuldade oferece a língua +portuguesa, comparada às suas +congéneres: é a atonia de certas vogais, que +adquirem timbres especiais, +e lhe é peculiar, só tendo paralelo na +catalã, e em muito menor grau, e de certo modo, na francesa +e na provençal moderna, mas em qualquer delas sujeita a +menor número de excepções. Neste ponto +é o português só comparável, +ainda que vagamente, ao inglês. Com +efeito, ao <em>a</em> tónico, geralmente +proferido <em>à</em>, corresponde +um <em>a</em> átono, quási sempre +surdo, +<em>â</em>; ao +<em>ò</em> ou +<em>ô</em> tónicos, um +<em>o</em> que se profere como <em>u</em> na +grande +maioria dos casos; ao <em>è</em> ou <em>ê</em>, +um +<em>e</em> surdo átono, mais ou +menos perceptível na pronúncia, conforme os sons +com que está em +contacto e lhe influem no timbre. Se êsse +<em>e</em> átono é +seguido de vogal, ou é inicial de vocábulo, vale +por +<em>i</em>, ex.: +<em>veado</em>, +<em>evitar</em>; se se lhe segue consoante palatal, +<em>ch</em>, +<em>x</em>, +<em>j</em>, +<em>s</em>, +<em>lh</em>, +<em>nh</em>, equivale a <em>i</em> surdo, e +com +êste se confunde no falar usual e desafectado. Comparem-se, +com efeito, entre si vocábulos tais como <em>ferro</em>, +<em>ferreiro</em>; +<em>grêlo</em>, +<em>grelar</em>; +<em>fecho</em>, +<em>fechar</em>; <em>cereja</em>, +<em>cerejeira</em>; +<em>telha</em>, +<em>telhado</em>; +<em>desenho</em>, +<em>desenhar</em>; <em>pesca</em>, +<em>pescar</em>, e +<em>pisco</em>, +<em>piscar</em>; +<em>esteira</em> e +<em>história</em>; +<em>testar</em> e <em>distar</em>; +<em>distinto</em>, de +<em>distinguir</em>; e +<em>destinto</em> de +<em>destingir</em>; atente-se igualmente na +pronúncia do vocábulo +<em>privilegiado</em> que é <em>preveligiado</em>, +muitas vezes erróneamente assim escrito, e ver-se +há quanto é +difícil a nossa escrita. <br /> + +<br /> + +Por outra parte, e o último vocábulo o comprova, +numa seqùência de sílabas, todas as +quais +tenham <em>i</em> por vogal antes da predominante, +êsse +<em>i</em> escrito, quando átono, +profere-se quási sempre como <em>e</em> +surdo, em pronúncia desafectada. Há +excepções que as +gramáticas devem explicar. <br /> + +<br /> + +Desta série de fenómenos, que tornam o +português o mais delicado e interessante dos idiomas +neo-latinos, originam-se constantes erros e +hesitações na sua escrita, a que não +é possível obviar, a +não ser por uma transcrição +absolutamente fonética, a qual reproduza fielmente todos +<span class="pagenum">[16]</span> +êsses acidentes, e que seria inadmissível em +ortografia corrente e usual, pois sómente um ouvido +exercitado e um tirocínio especial a poderiam aplicar. <br /> + +<br /> + +Não se pense, portanto, que a fixação +de uma ortografia regularizada e simplificada possa remover todas as +dificuldades, sem um suficiente preparo gramatical, em que a +derivação e formação das +palavras, e os resultantes acidentes na variação +dos sons que as compõem, +conforme a sua situação, hajam sido estudados. <br /> + +<br /> + +A consulta oportuna de um vocabulário, como o já +indicado, feito em harmonia com os preceitos estabelecidos, +será tambêm indispensável, +não só em razão do emprêgo +de <em>o</em> ou +<em>u</em> e tambêm +<em>e</em> ou +<em>i</em> átonos, quer antes de +consoante, quer antes de vogal, mas ainda com +relação ao uso de <em>ç</em> +ou +<em>ss</em> mediais, de +<em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>s(s)e</em>, +<em>s(s)i</em>, +<em>z</em> ou +<em>s</em> entre vogais, e quando finais, e em menor escala +o de +<em>ch</em> e <em>x</em>, de +<em>ge</em>, +<em>gi</em> ou +<em>je</em>, +<em>ji</em>. <br /> + +<br /> + +O <span class="smallcaps">Vocabulário +Ortográfico</span> indicado remove todas as +dúvidas, visto encontrar-se nele a etimologia dos +vocábulos, quando necessária a essas +distinções +ortográficas, a comparação vocabular e +formal com a ortografia +denominada etimológica, e a conjugação +dos +verbos, exemplificada em todas as suas diferentes modalidades. +É um livro que se pode considerar adequado ao +período de +transição, que há-de decorrer antes +que se vulgarize a ortografia regularizada oficial. <br /> + +<br /> + +A Comissão não hesitou, respeitando a +história do idioma pátrio, as suas origens e a +sua +evolução no tempo e no espaço, em +conservar a distinção +gráfica entre +<em>ç</em> e <em>s(s)</em>, entre +<em>z</em> e +<em>s</em> mediais, pôsto que +nenhuma diferença se observe já na sua +pronúncia do Mondego para o +sul, e a distinção se vá obliterando +cada +vez mais nos centros urbanos das províncias do norte. <br /> + +<br /> + +A diferenciação gráfica, conforme a +sua origem, entre <em>se</em>, +<em>si</em>, e +<em>ce</em>, +<em>ci</em>, iniciais, entre +<em>ç</em> e +<em>ss</em> mediais, bem como a que ainda dialectalmente +subsiste entre +<em>z</em> e +<em>s</em> intervocálicos, ou <em>x</em> +e +<em>ch</em> ou +<em>ô</em> e +<em>ou</em>, pertencem à +história da língua, e a Comissão +conserva-as, regulando-as com o maior rigor; pois ficaria em +contradição com essa +história se, o que fôra relativamente +fácil, optasse por escrever +sempre <em>z</em> entre vogais, e sempre +<em>s</em> em finais de vocábulos; +porque não seria licito, nem ninguêm lhe +aceitaria, +substituir <em>ce</em>, <em>ci</em>, +<em>ç</em>, por +<em>s</em> ou +<em>ss</em>, em milhares de +vocábulos e formas, que sempre se tem conservado diferentes +na sua escrita, e com bons fundamentos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +Neste pressuposto, prescreve que <em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>ç</em>, ou +<em>z</em> final de vocábulos correspondam a +<em>ci</em>, +<em>ti</em> latinos, a +<em>ss</em> arábicos; e <em>s</em>, +<em>ss</em> a +<em>s</em> ou +<em>ss</em> latinos; e, por outra parte, que +<em>z</em> corresponda a <em>z</em>, ou +<em>ce</em> ou +<em>ci</em>, +<em>ti</em> latinos, ou a +<em>zz</em> arábicos; +<em>s</em> entre vogais, ou final, a <em>s</em> +latino. Nos +vocábulos de origem americana indígena <em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>ç</em> são +preferíveis a <em>s</em>, +seguindo-se nisso a escrita tradicional. Para quem não +esteja preparado com umas noções, rudimentares +que +sejam, de latim, a consulta ao +<span class="smallcaps">Vocabulário</span> +é indispensável em casos duvidosos, e muitas +vezes é conveniente a +comparação com as correspondentes formas ou +palavras castelhanas, pois no idioma do centro de Espanha a +confusão entre +<em>s</em> e <em>c</em> ou +<em>ç</em> (modernamente escrito +<em>z</em>) é +impossível, pois bem se diferençam na +pronúncia, como antes acontecia +em Portugal e no resto da Península Hispánica. <br /> + +<br /> + +Muito menor dificuldade apresenta a diferenciação +entre <em>ch</em> e +<em>x</em>, e o +<span class="smallcaps">Vocabulário</span>, +bem como a +escrita castelhana, em que <em>x</em> é +modernamente +representado por <em>j</em>, +fácilmente a indicam. Bastará aqui dizer-se que, +em geral, +<em>ch</em> corresponde a <em>cl</em>, +<em>fl</em>, +<em>pl</em> latinos, e que em +vocábulos de origem arábica o +emprêgo de +<em>x</em> é de regra. Com +respeito à selecção entre <em>ô</em> +e +<em>ou</em>, deve considerar-se que o digrama +<em>ou</em> corresponde a <em>au</em> ou +<em>al</em> latinos, às vezes a +<em>oc</em>, +<em>ap</em>, e ao +<em>au</em> arábico: a diferença +é intuìtiva para +todos os portugueses do norte e das duas Beìras, pois <em>ou</em> +para êles é ditongo, e não +simplesmente <em>o</em> +fechado, como o é no sul do país. <br /> + +<br /> + +A escrita dos ditongos nasais será, como é +já uso radicado, <em>ãe</em>, +<em>õe</em>, +<em>em</em>, +<em>ens</em>, +<em>ão</em> como em +<em>mãe(s)</em>, +<em>botões</em>, +<em>bem</em>, <em>bens</em>, +<em>mão(s)</em>; e, conforme +tambêm há muito se usa, nas +terminações átonas dos verbos o +ditongo <em>ão</em> +será escrito <em>am</em>; assim teremos, por +exemplo, +<em>louvam</em>, +<em>louvaram</em>, presente e pretérito, +<em>louvarão</em>, futuro, sem +precisarmos de indicar por acentos a diferença. Nos +substantivos, +porêm, o acento na sílaba predominante +diferenciará +<em>cóvão</em> de +<em>covão</em>, designando o acento a atonia do +ditongo final, como em +<em>órfão</em>, <em>órgão</em>, +<em>Estêvão</em>, etc., +visto que a escrita <em>orfams</em> seria uma novidade +inútil, e +<em>órfans</em> daria causa a +equívoco, conquanto o respectivo femenino se escreva +<em>órfã(s)</em>. O ditongo <em>em</em>, +quando predominante em +polissílabos, receberá o acento circunflexo, como +em +<em>armazêm</em>, +<em>armazêns</em>, +<em>porêm</em>, a par de <em>margem</em>, +<em>porem</em>, cuja escrita +indicará a acentuação <em>márgem</em>, +<em>pôrem</em>, mesmo sem ser +marcada. O ditongo <em>ũi</em> de um +único vocábulo actualmente, +<em>muito</em>, e sua abreviatura proclítica <em>mui</em>, +hoje em +dia só literária, continuará, como +até aqui, sem sinal especial que indique a +nasalização; +<span class="pagenum">[18]</span> +e <em>ruim</em>, +que dialectalmente se profere +<em>r</em><em>ũ</em><em>i</em>, +será dissílabo, e não +monossílabo. <br /> + +<br /> + +À vogal <em>â</em>, +nasal, fixa-se a escrita +<em>ã</em>, final; às +demais vogais, e a <em>ã</em> quando no +comêço ou interior do vocábulo +não se alterará a escrita já adoptada, +<em>am</em>, +<em>an</em>, +<em>em</em>, +<em>en</em>, +<em>im</em>, <em>in</em>, +<em>om</em>, +<em>on</em>, +<em>um</em>, +<em>un</em>. <br /> + +<br /> + +Em obras didácticas, porêm, é licito +indicá-las, com maior exactidão, por +<em>ã</em>, <em>ẽ</em>, +<em>ĩ</em>, +<em>õ</em>, +<em>ũ</em>, e ao ditongo nasal <em>em</em> por +<em>ẽi</em>, +quando a clareza da exposição o exija. <br /> + +<br /> + +O sinal (¨) ou cimalhas, ápices, cuja +função em várias ortografias a maioria +da Comissão atribui ao acento grave (`), fica reservado para +denotar, em obras da espécie designada, o valor do ou +dialectal +(<em>öu</em>, +<em>ö</em>, +<em>[o:]</em>) e o do <em>u</em> igualmente +dialectal (<em>ü</em>); +o +<em>ë</em> servirá para +representar em especial o <em>e</em> fechado, antes de +palatal, que varia de valor, entre <em>ê</em> e +<em>â</em>, dos estremos para o +centro de Portugal, como em <em>seja</em>, +<em>fecho</em>, +<em>selha</em>, +<em>senha</em>, etc. São sinais +êstes que nenhuma aplicação tem na +escrita comum, na qual, +portanto, palavras com <em>exodo</em>, +<em>exito</em> serão acentuadas +<em>êxito</em>, <em>êxodo</em>, +e não +<em>ëxito</em>, +<em>ëxodo</em>, ou +<em>ëisito</em>, +<em>ëisodo</em>, como é a +sua pronunciação. <br /> + +<br /> + +A acentuação gráfica tem como primeiro +fim acusar a sílaba tónica, considerando-se que o +til (~) vale +por acento tónico, se outro não existe marcado no +vocábulo ou forma; acusa ainda êsse acento a +tónica predominante, se +há mais de uma, e ainda, em monossílabos, que +estes não +são átonos. Esta acentuação +denomina-se +<span style="letter-spacing: 0.2em;">prosódica</span>, +e compreende +não só oa dois casos indicados, mas igualmente +outros acidentes vocabulares, como a desunião de vogais que +geralmente formam ditongos. <br /> + +<br /> + +Um bom sistema de acentuação deve ser tal que, ou +a sílaba predominante se assinale na escrita, ou +não, quem lê nenhuma +hesitação possa ter +sôbre qual seja essa sílaba. Com o sistema +proposto pela Comissão é satisfeito +êste preceito fundamental com tanta pontualidade, quanta +observamos na ortografia castelhana, ou na toscana, segundo o plano de +Petròcchi. O sinal do acento tónico +é o agudo nas vogais <em>a</em>, +<em>i</em>, +<em>u</em>, +<em>e</em> e +<em>o</em> abertos, o circunflexo em +<em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> fechados, e o til na vogal final <em>ã</em>, +e nos ditongos nasais <em>ãe</em>, <em>õe</em>, +<em>ão</em>. <br /> + +<br /> + +Na vogal nasal <em>ã</em>, ou em +<em>a</em> antes de consoante nasal, adopta a +Comissão igualmente o acento circunflexo, +<em>ânsia</em>, <em>ânimo</em>, +em +atenção a que êsse +<em>a</em> se profere fechado na maioria do +país. O +<span class="smallcaps">Vocabulário</span> +marcou as +vogais nasais ou antes de nasal com o acento agudo, como sinal +<span class="pagenum">[19]</span> +geral +da sílaba predominante, e deve ter isso em +consideração quem o consultar. <br /> + +<br /> + +Outra acentuação gráfica se +propõe, generalizando e fixando usos mais ou menos +estabelecidos, e esta pode denominar-se +<span style="letter-spacing: 0.2em;">distintiva</span>. +Consiste no +emprêgo do circunflexo (^) sôbre todos os <em>ee</em> +e <em>oo</em> fechados de +monossílabos, ou de vocábulos +polissilábicos inteiros, isto +é, com a penúltima sílaba +predominante, quando outros existam em que tais vogais sejam abertas, +como já ficou indicado: +<em>rêgo</em>, <em>rego</em>; +<em>rôgo</em>, +<em>rogo</em>. <br /> + +<br /> + +Deve ter-se em atenção que, sendo toda a +acentuação vocabular, e sempre +fonética, quando um qualquer vocábulo, na sua +flexão, ou nos seus derivados, +muda de estrutura com relação à +acentuação que exigia, esta mantêm-se, +perde-se ou adquíre-se, conforme as novas +condições a que a forma, ou o derivado, ficam +sujeitos. Dêste modo, a palavra <em>cortês</em>, +no +plural dispensa o acento, <em>corteses</em>; +<em>batéis</em>, muda o agudo para +grave em <em>batèizinhos</em>; <em>fugira</em>, +será, na 2.ª +pessoa do plural, +<em>fugíreis</em>. <br /> + +<br /> + +Regulou a Comissão tambêm o emprêgo do +hífen, o dos pontos de interrogação e +exclamação, o das letras maiúsculas, e +o do apóstrofo ('), que recomenda seja o mais parcimonioso +possível, pois o abuso que dêste sinal se tem +feito, onde é erróneo ou +desnecessário, nenhuma vantagem traz à +fácil leìtura, antes a +embaraça, e é uma desastrada +imitação da ortografia francesa, que muito +desfeia a escrita, complicando-a, bem como à +composição +tipográfica. A maioria das elisões de vogais +átonas, e a bem +dizer todas as crases de vogais consecutivas são evidentes, +e portanto desnecessário é indicá-las +na escrita +usual. No emtanto, fixa a Comissão a união em uma +só +dição para os seguintes pronomes e +advérbios acompanhados de +preposição, quando os primeiros não +rejam orações +de infinito: <em>dêle</em>, +<em>nele</em>, +<em>dela</em>, +<em>nela</em>, +<em>dêste</em>, +<em>neste</em>, +<em>desta</em>, +<em>dessa</em>, <em>daquela</em>, +<em>nesta</em>, +<em>nessa</em>, +<em>naquela</em>, +<em>àquele</em>, +<em>àquela</em>, +<em>dum</em>, +<em>num</em>, <em>daqui</em>, +<em>daí</em>, +<em>dali</em>, +<em>aonde</em>, +<em>donde</em>, e para os plurais +dêsses pronomes, em harmonia com as formas já +empregadas +<em>do(s)</em>, <em>da(s)</em>, +<em>no(s)</em>, +<em>na(s)</em>, +<em>pelo(s)</em>, +<em>pela(s)</em>, +(<em>em-no</em>, +<em>per-lo</em>), onde a elisão se +não indicou jàmais; assim +tambêm, <em>doutro</em>, <em>noutro</em>. +<br /> + +<br /> + +Efectivamente, a indicação por +apóstrofo em formas tais como <em>d'um</em>, +<em>d'êle</em>, para não +falar nos erros crassíssimos <em>n'um</em>, +<em>n'êle</em>, é tam +inútil, como o seria escrevermos <em>vint'e um</em>, +<em>géner'humano</em>, +<em>vic'-almirante</em>, em vez de <em>vinte e um</em>, +<em>género +humano</em>, <em>vice-almirante</em>, conquanto o <em>e</em> +de +<em>vinte</em> +<span class="pagenum">[20]</span> +e o de <em>vice</em>, assim como o <em>o</em> +de +<em>género</em> se elidam na +pronunciação dessas dições. +<br /> + +<br /> + +Ninguêm ainda julgou necessário indicar-se por +apóstrofo a crase de <em>ao</em> em +<em>dezóito</em> por +<em>dezaoito</em>; confrontem-se <em>dezasseis</em>, +<em>dezassete</em>, +<em>dezanove</em>, e as formas toscanas +<em>diciassette</em>, <em>diciannove</em>. As +formas escritas, +moderníssimas, <em>dezeseis</em>, <em>dezesete</em>, +<em>dezenove</em> são +erróneas e não correspondem por modo algum +à sua pronúncia, pois +ninguêm profere <em>dèzisseis</em>, +<em>dèzissete</em>, +<em>dèsinove</em>, como o exigiria +esta formação, se nela entrasse a +conjunção +<em>e</em>, que se pronuncia +<em>i</em>. O povo diz, e muito bem, e dantes sempre assim +se escreveram, <em>dezasseis</em>, +<em>dezassete</em>, +<em>dezanove</em>, única escrita +legitima, perfeitamente concorde com a toscana acima citada, e com a +pronúncia quer italiana, quer portuguesa. <br /> + +<br /> + +Fora dos casos indicados, a preposição +<em>de</em> assim se escreverá, seja, ou +não, elidido o <em>e</em> +na enunciação. <br /> + +<br /> + +Aconselha a Comissão o emprêgo dos pontos de +interrogação e exclamação +invertidos (¿¡) +no comêço das orações dessa +espécie, quando sejam muito longas, como se faz na +ortografia espanhola; e com tanto maior empenho, quanto é +certo que, sem tal indicação +prévia, muitas vezes será errada a leitura, ou +ficará incerto o +sentido. As duas interrogações distintas―<em>Queres +vinho ou água?</em>, e +<em>¿Queres vinho, ou água?</em> +não se +equivalem nem no sentido, nem na entoação. <br /> + +<br /> + +O hífen ou linha divisória (-) utiliza-o e +preceitua-o a Comissão nos seguintes casos:<br /> + +<br /> + +a) Separar de uma linha para a outra as sílabas de um +vocábulo, repetindo-se na linha imediata o sinal, se o +vocábulo já de si contêm a linha +divisória, por +ser composto. <br /> + +<br /> + +b) Unir entre si os dois elementos de uma dição +composta, quando cada um dêles tem existência +independente em português, e conserva a sua +acentuação própria. <br /> + +<br /> + +c) Unir às formas <em>hei</em>, +<em>hás</em>, +<em>há</em>, +<em>hão</em>, do verbo +<em>haver</em>, a preposição <em>de</em>, +enclítica: <em>hei-de</em>, +<em>hás-de</em>, +<em>há-de</em>, +<em>hão-de</em>. <br /> + +<br /> + +d) Separar nos vocábulos compostos com +<em>bem</em>, +<em>mal</em> o +<em>m</em> e o <em>l</em> para evitar erros de +leitura; ex.: +<em>bem-aventurado</em>, <em>mal-aventurado</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +São estes os principais fundamentos e preceitos da +projectada reforma ortográfica, pela Comissão +julgada +oportuna e de fácil execução, para que +de ora +em diante seja recomendada como obrigatória em +publicações oficiais e no ensino +público, e por isso a propõe. As +simplificações e a +regularização apontadas já tem +sido empregadas em +<span class="pagenum">[21]</span> +parte +em muitos livros e alguns periódicos, se bem que +quási sempre com menor coerência e rigor do que a +Comissão as preceitua, e sem formarem corpo de doutrina +explicada e motivada, como formam no Formulário e no +Prontuário ortográficos com que termina esta +exposição e que vão em seguimento. Se +exceptuarmos o +<span class="smallcaps">Vocabulário</span> +e a <span class="smallcaps">Ortografia Nacional</span> +já mencionados, e cujo sistema só pequenas +alterações sofreu, +são êsse Formulário e êsse +Prontuário os primeiros trabalhos metódicos e +completos sôbre êste assunto. <br /> + +<br /> + +A Comissão nem por um momento perdeu de vista que a +primacial vantagem de uma ortografia oficial é favorecer o +ensino fácil da leitura e da escrita, tanto quanto um idioma +secularmente literário o permite, tomando-se por base a +história do idioma pátrio, para que +êle se perpetue no futuro, como do passado até o +presente perdurou, sempre idêntico a si próprio, +apesar da sua +inevitável evolução. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>FORMULÁRIO ORTOGRÁFICO </h3> + +<h4> +CONFORME O PLANO DE<br /> + +<br /> + +REGULARIZAÇÃO E +SIMPLIFICAÇÃO DA ESCRITA PORTUGUESA </h4> + +<br /> + +I. São proscritas de todas as palavras portuguesas, ou +aportuguesadas, as letras <em>k</em>, +<em>w</em>, +<em>y</em>, as quais serão +respectivamente substituídas pelas seguintes: +<em>k</em> por +<em>qu</em> antes de <em>e</em>, +<em>i</em>, por +<em>c</em> em qualquer outra +situação; <em>w</em> +por <em>u</em>, ou por <em>v</em>, conforme +fôr a sua +pronúncia; <em>y</em> por +<em>i</em>. Escreveremos, pois, <em>caleidoscópio</em>, +<em>quermes</em>, +<em>neutoniano</em>, +<em>Venceslau</em>, <em>valsa</em>, +<em>tipo</em>, +<em>lira</em>, +<em>fisiologia</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Excepções: 1.ª Poderão +usar-se essas +letras em vocábulos derivados de nomes próprios +estrangeiros, em que sejam legítimamente empregadas; ex.: +<em>kantismo</em>, +<em>darwinismo</em>, <em>byroniano</em> (Kant, +Darwin, Byron), os +quais, porêm, será lícito escrever, em +harmonia com a +pronunciação, <em>cantismo</em>, +<em>daruìnismo</em>, +<em>baironiano</em>. Confrontem-se +<em>Copérnico</em>, de <em>Kopernik</em>, +<em>Antuérpia</em>, de +<em>Antwerp</em>, +<em>(h)iate</em>, de +<em>yacht</em>. <br /> + +<br /> + +2.ª Continuam em uso os símbolos +<em>W</em>, para denotar o <em>Oeste</em>, e +<em>K</em> como abreviatura de unidade +métrica, e tambêm na forma internacional <em>kilo...</em>, +que todavia se poderá escrever <em>quilo...</em>; +tanto mais, que o <em>k</em> é um grosseiro +<span class="pagenum">[22]</span> +êrro nesta palavra, pois o correspondente termo grego se +escreve com <em>χ</em> e +não <em>κ</em>. <br /> + +<br /> + +II. O abecedário empregado em português +ficará consistindo nas seguintes letras, e suas +combinações, e +portanto sómente com umas ou com outras se +escreverão todas as palavras portuguesas, ou aportuguesadas. +Essas letras e combinações são: +<em>a b c ç ch d e f g h i j l lh m n nh o p qu r (rr) +s (ss) t u v x z</em>. <br /> + +<br /> + +III. É eliminada a letra +<em>h</em> do interior de todos os +vocábulos portugueses, com excepção do +seu +emprêgo, como sinal diacrítico, nas +combinações +<em>ch</em>, +<em>lh</em>, +<em>nh</em>, com os valores que as seguintes palavras +exemplificam, e únicamente para êles: <em>chave</em>, +<em>malha</em>, +<em>manha</em>. Portanto, escrever-se +hão, sem <em>h</em>, +<em>inibir</em>, +<em>exortar</em>, etc., e, semelhantemente, +<em>saír</em>, +<em>coerente</em>, <em>proìbir</em>, +etc. <br /> + +<br /> + +IV. É conservado o <em>h</em> +inicial, quando a etimologia o justifique, como em <em>homem</em>, +<em>humano</em>, +<em>honra</em>, +<em>hoje</em>; mas abolido onde +é erróneo, como em +<em>hontem</em>, +<em>hir</em>, +<em>hombro</em>, que se escreverão <em>ontem</em>, +<em>ir</em>, +<em>ombro</em>. <br /> + +<br /> + +Quando a uma qualquer palavra com <em>h</em> +inicial etimológico se acrescentar prefixo, suprimir-se +há o +<em>h</em>; ex.: +<em>desumano</em>, <em>inumano</em>, +<em>desonra</em>, +<em>filarmónica</em>, +<em>desistória</em>, etc. <br /> + +<br /> + +V. É lícito escrever +<em>h</em> final, como sinal de +interjeição, <em>ah!</em> +<em>oh!</em>; mas é proscrita esta +letra final em todos os mais vocábulos; ex.: <em>Sara</em>, +<em>Judá</em>, +<em>raja</em> ou +<em>rajá</em>, etc. <br /> + +<br /> + +VI. Em harmonia com a cláusula III é eliminado o +<em>h</em> dos grupos <em>rh</em>, +<em>th</em>, ou outros quaisquer, +inexactamente denominados etimológicos, e portanto +escrever-se há +<em>teatro</em>, <em>retórica</em>, +<em>aderir</em>, +<em>aborrecer</em>, +<em>sirgo</em>, +<em>sorgo</em>, +<em>caridade</em>, +<em>cristão</em>, <em>Cristo</em>, +<em>monarca</em>, +<em>técnica</em>, +<em>cloro</em>, etc. O grupo +<em>ch</em>, com o valor de <em>k</em> antes +de +<em>e</em>, +<em>i</em>, será +substituído por <em>qu</em>; ex.: <em>monarquia</em>, +<em>arquitecto</em>, +<em>química</em>, +<em>querubim</em>. O grupo +<em>ph</em> será expresso por <em>f</em>; +ex.: +<em>filosofia</em>, +<em>frase</em>, +<em>fenício</em>, +<em>farol</em>, +<em>física</em>, <em>fisiologia</em>, +<em>ninfa</em>, +<em>profeta</em>, etc. Assim tambêm +escreveremos <em>ditongo</em>, +<em>tísica</em>, +<em>apotegma</em>, etc. <br /> + +<br /> + +VII. Nenhuma consoante se duplicará no +interior ou fim de vocábulo, senão quando a +pronunciação assim o exija, o que só +acontece com +<em>rr</em>, +<em>ss</em>, +<em>mm</em>, +<em>nn</em>, como nas seguintes palavras: <em>carro</em>, +<em>cassa</em>, +<em>emmalar</em>, +<em>ennegrecer</em>. <br /> + +<br /> + +Nesta conformidade, escrever-se hão com letras singelas as +seguintes palavras, e outras que é hábito +escrever com letras dobradas: <em>abade</em>, +<em>acusar</em>, +<em>adição</em>, +<em>afecto</em>, +<em>sugerir</em>, <em>agravo</em>, +<em>êle</em>, +<em>ela</em>, +<em>aludir</em>, +<em>chama</em>, +<em>pano</em>, +<em>anexo</em>, +<em>aparecer</em>, <em>atribuir</em>, +<em>meter</em>, +<em>atitude</em>, etc. As letras +<em>r</em> e +<em>s</em> dobram-se, se a pronúncia o exije, +quando a qualquer vocábulo se antepõe +<span class="pagenum">[23]</span> +prefixo terminado em vogal; ex.: +<em>pressentir</em>, +<em>prorrogar</em>, <em>ressuscitar</em>: +cf. +<em>arrasar</em>, de +<em>raso</em>, +<em>assegurar</em>, de +<em>seguro</em>. <br /> + +<br /> + +VIII. São suprimidas as consoantes mudas, quando +não influam no valor das vogais que as precedem; ex.: +<em>autor</em>, <em>restrito</em>, +<em>produto</em>, +<em>produção</em>, +<em>pronto</em>, +<em>presunção</em>, +<em>satisfação</em>, <em>praticar</em>, +<em>tratar</em>, +<em>retratar</em>, +<em>sinal</em>, +<em>Madalena</em>, +<em>aumento</em>, +<em>Inácio</em>, <em>Inês</em>, +<em>assunto</em>, +<em>assinar</em>, +<em>sono</em>, +<em>dano</em>, +<em>condenar</em>, etc. <br /> + +<br /> + +IX. São conservadas as consoantes, usualmente mudas, quando +facultativamente se profiram, ou quando influam no valor da vogal que +as precede; ex.: +<em>contracção</em>, +<em>reacção</em>, <em>direcção</em>, +<em>excepção</em>, +<em>adoptar</em>, +<em>adopção</em>, +<em>espectáculo</em>, +<em>carácter</em>, <em>rectidão</em>. +<br /> + +<br /> + +Neste caso os vocábulos aparentados, em que essas vogais +pertençam à sílaba predominante do +vocábulo, conservarão, por analogia, a consoante +muda; ex.; +<em>contracto</em>, <em>directo</em>, +<em>excepto</em>, +<em>adopto</em>, +<em>caracterizar</em>, +<em>recto</em>, +<em>acto</em>, em razão de <em>activo</em>, +<em>acção</em>, etc. <br /> + +<br /> + +X. O emprêgo acertado das letras +<em>ce</em>, +<em>ci</em>, alternando com <em>(s)se</em>, +<em>(s)si</em>, ou no interior do +vocábulo o de +<em>ç</em>, alternando com <em>ss</em>, +depende da origem +dêsses vocábulos e do valor que as ditas letras +indicavam, quando a +pronunciação delas diferia, como ainda hoje +difere dialectalmente em várias regiões do norte +de Portugal. A +consulta ao <span class="smallcaps">Vocabulário</span> +é indispensável para decidir da escolha. Como +regra geral, <em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>-ç-</em> correspondem a +<em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>ti</em> latinos, a <em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>za</em>, +<em>zo</em>, +<em>zu</em> do castelhano actual, a +<em>ss</em> arábicos, ou pertencem a +vocábulos de origem americana +indígena, transcritos pelos autores peninsulares. <br /> + +<br /> + +Fica banido o <em>ç</em> inicial, +que será substituído por +<em>s</em> nos poucos vocábulos em que +etimológicamente +figuraria; ex.: <em>sapato</em>, +<em>sarça</em>, e não +<em>çapato</em>, +<em>çarça</em>, como +antes se escrevia, e ainda uma ou outra vez se escreve. <br /> + +<br /> + +XI. É conservado o grupo inicial +<em>sc</em>, das seguintes palavras e seus derivados e +afins, em que o <em>s</em> +é mudo: <em>scena</em>, <em>sciência</em>, +<em>scetro</em>, +<em>scéptico</em>, +<em>scisma</em>, +<em>scisão</em>, +<em>sciático</em>, +<em>scintilar</em>, <em>scelerado</em>, e +algum outro menos +usual. <br /> + +<br /> + +XII. O emprêgo de <em>ch</em> ou de +<em>x</em>, os quais histórica e ainda +dialectalmente não eram nem são +idênticos no valor fonético, regula-se pela sua +origem, e a consulta ao <span class="smallcaps">Vocabulário</span> +torna-se +necessária. Deve ter-se em atenção que +<em>ch</em> corresponde a +<em>cl</em>, +<em>fl</em>, +<em>pl</em>, +<em>t'l</em> latinos, e a +<em>ch</em> francês nas palavras desta origem; <em>x</em> +corresponde a <em>x</em> e a +<em>s</em> latinos. Nos vocábulos de origem +arábica o +emprêgo de <em>x</em>, e não de <em>ch</em>, +é +de rigor; assim, <em>xeque</em>, e +não <em>che(i)k</em>. <br /> + +<br /> + +XIII. A escrita dos ditongos orais é a seguinte: +<em>ai</em>, +<em>éi</em>, +<span class="pagenum">[24]</span> +<em>ei</em>, +<em>ói</em>, +<em>oi</em>, +<em>ui</em>, +<em>au</em>, +<em>éu</em>, +<em>eu</em>, +<em>iu</em>, +<em>ou</em>, como em +<em>ensaio</em>, +<em>ensaiar</em>, <em>batéis</em>, +<em>bateis</em> (de +<em>bater</em>), +<em>sóis</em> (de +<em>sol</em>), +<em>sois</em> (verbo), +<em>fui</em>, +<em>pau</em>, <em>céu</em>, +<em>seu</em>, +<em>viu</em>, +<em>grou</em>, e portanto +<em>pai(s)</em>, +<em>amai(s)</em>, +<em>gerais</em>, <em>réis</em>, +<em>rei(s)</em>, +<em>faróis</em>, +<em>róis</em> (nome plural e +verbo), <em>azuis</em>, etc. Ficam abolidas as escritas <em>ae</em>, +<em>oe</em>, +<em>ue</em>, +<em>ao</em>, +<em>eo</em>, para estes ditongos, quer em nomes, quer em +formas verbais. <br /> + +<br /> + +XIV. A escrita dos ditongos nasais é: +<em>ãe</em>, +<em>em</em> +(<em>ens</em>), +<em>õe</em>, <em>ão</em>, +como em +<em>mãe(s)</em>, +<em>bem</em>, +<em>bens</em>, +<em>põe(s)</em>, +<em>botões</em>, +<em>cães</em>, +<em>mão(s)</em>, <em>órfão(s)</em>, +<em>cidadão(s)</em>. <br /> + +<br /> + +Escrever-se hão com <em>am</em> +final, em vez de <em>ão</em>, as +formas verbais em que essa terminação seja +átona, como <em>louvam</em>, <em>louvaram</em> +(presente e +pretérito), diferente de +<em>louvarão</em> (futuro). <br /> + +<br /> + +Os vocábulos terminados no ditongo +<em>em</em> (equivalente a <em>ẽi</em>) +receberão o acento +circunflexo quando forem polissílabos com a +última sílaba predominante. Dêste +modo <em>porem</em>, do verbo <em>pôr</em>, +diferençar-se há de +<em>porêm</em>, +conjunção; +<em>contêm</em>, do verbo <em>conter</em>, +de +<em>contem</em>, do verbo +<em>contar</em>; assim igualmente, <em>armazêm</em>, +<em>vintêm</em>, +<em>vintêns</em>, +<em>alguêm</em>, mas +<em>viagem</em>, <em>origem</em>. +(=<em>viágem</em>, +<em>orígem</em>). <br /> + +<br /> + +Os monossílabos com esta terminação +dispensam a acentuação gráfica, por +ser ociosa, e para que fiquem em harmonia com outros +monossílabos terminados em vogal, nasal; ex.: <em>bem</em>, +<em>bens</em>, +<em>tem</em>, +<em>tens</em>; comparem-se +<em>fim</em>, +<em>som</em>, <em>um</em>; +<em>fins</em>, +<em>sons</em>, +<em>uns</em>. <br /> + +<br /> + +O ditongo <em>ũi</em> +de +<em>muito</em>, +<em>mui</em> dispensa igualmente o til na escrita usual. <br /> + +<br /> + +XV. A grafia das vogais nasais finais será a seguinte, +já consagrada: +<em>ã(s)</em>, +<em>im</em>, +<em>ins</em>, +<em>om</em>, +<em>ons</em>, +<em>um</em>, +<em>uns</em>, como em <em>lã(s)</em>, +<em>irmã(s)</em>, +<em>órfã(s)</em>, +<em>fim</em>, +<em>fins</em>, +<em>marfim</em>, +<em>marfins</em>, +<em>som</em>, +<em>sons</em>, <em>jejum</em>, +<em>jejuns</em>. <br /> + +<br /> + +No interior dos vocábulos é a nasalidade da vogal +expressa por <em>m</em> antes de +<em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>, e por +<em>n</em> em qualquer outra +situação, o que é já uso +estabelecido, mas ao qual convêm não se fazerem +excepções; assim escreveremos <em>circunstância</em>, +<em>circunscrever</em>, +<em>conquanto</em>, com +<em>n</em>, e não com <em>m</em>. <br /> + +<br /> + +XVI. É conservado ao <em>e</em> +inicial átono o valor que tem de <em>i</em> em +muitos vocábulos, +como <em>erguer</em>, +<em>herdeiro</em>, +<em>evitar</em>, <em>elogio</em>; sendo +porêm +substituído por <em>i</em> nas +palavras <em>igual</em>, <em>idade</em>, +<em>igreja</em> e seus derivados, ortografia +anterior que se lhes restabelece. É semelhantemente +conservado o +<em>e</em> com o valor de <em>i</em> +átono antes +de vogal, quando a analogia ou a etimologia o recomendem; ex.: +<em>fealdade</em>, +<em>desfear</em>, de <em>feio</em> (cf. +<em>desfiar</em>, de +<em>fio</em>), +<em>ideal</em>, +<em>meada</em>, +<em>reagente</em>, etc. Restabelece-se +<span class="pagenum">[25]</span> +porêm a verdadeira ortografia de +<em>pior</em>, +<em>lial</em>, <em>rial</em> (antes +<em>peior</em>, +<em>leial</em>, +<em>reial</em>), em que um +<em>ei</em> anterior se condensou em <em>i</em>, +como aconteceu com +<em>igreja</em> (forma antiga <em>eigreja</em>) +e como ainda hoje acontece +com o prefixo <em>eis-</em> +(<em>ex-</em>), que é usualmente +pronunciado <em>is</em>. O último +exemplo citado, <em>rial</em>, de +<em>rei</em>, fica assim +diferençado de <em>real</em>, procedente do +latim <span style="letter-spacing: 0.2em;">res</span>. +<br /> + +<br /> + +O verbo <em>criar</em> será +semelhantemente escrito com <em>i</em>, pois a sua +conjugação é +<em>crio</em>, +<em>crias</em>, e não +<em>creio</em>, +<em>creias</em>, e portanto escreveremos tambêm +<em>criador</em>, +<em>criatura</em>, +<em>criança</em>, qualquer que seja a +acepção em que se tomem tais +palavras. O verbo <em>recrear</em>, todavia, +escrever-se há com <em>e</em>, +porque a sua conjugação é com +<em>ei</em>, +<em>recreio</em>, +<em>recreias</em>; devendo ter-se em +atenção que o +<em>i</em> intercalar, para evitar o hiato <em>recreo</em>, +só tem cabimento +quando o <em>e</em> do radical é +predominante, e conseguintemente escreveremos +<em>passear</em>, +<em>cear</em>, <em>desfear</em>, +<em>passeio</em>, +<em>ceio</em>, +<em>desfeio</em>, e não +<em>passeiar</em>, +<em>ceiar</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Há considerável número de verbos, como +<em>alumiar</em>, +<em>gloriar</em>, <em>aviar</em>, que se +conjugam +<em>alumio</em>, +<em>glorio</em>, +<em>avio</em>, sendo portanto a vogal final do seu radical +<em>i</em> e não +<em>e</em>. Todavia, por influência daqueles em +que essa vogal radical +é, pelo contrário, <em>e</em>, que +átono se profere <em>i</em>, +alguns verbos em <em>iar</em> confundiram-se com +êsses, e é já hoje +impraticável a correcção. Os +principais dêstes verbos são os seguintes, e +convêm que não se traslade a outros a +irregularidade que se manifesta neles: <em>ansiar</em>, +<em>anseio</em>; +<em>negociar</em>, +<em>negoceio</em>; <em>obsequiar</em>, +<em>obsequeio</em>; +<em>premiar</em>, +<em>premeio</em>; +<em>odiar</em>, +<em>odeio</em>; +<em>remediar</em>, <em>remedeio</em>. Em +outros, menos triviais, +é duvidoso o modo de os conjugar, como <em>licenciar</em>, +<em>presenciar</em>, +<em>sentenciar</em>, que muitos preferem conjugar +<em>licencio</em>, +<em>presencio</em>, <em>sentencio</em>, +conquanto as formas +<em>licenceio</em>, +<em>presenceio</em>, +<em>sentenceio</em> sejam muito mais usuais. É +claro que a irregularidade se não deve trasladar aos +substantivos correspondentes, e que portanto escreveremos +<em>ánsia</em> (e não +<em>âncea</em> ou <em>ância</em>), +<em>negócio</em>, +<em>obséquio</em>, +<em>ódio</em>, +<em>prémio</em>, +<em>remédio</em>, e assim tambêm com i +os derivados, +<em>odioso</em>, +<em>obsequioso</em>, etc. <br /> + +<br /> + +XVII. Na pronúncia do sul de Portugal o +<em>s</em> antes de consoante surda, e quando é +final, profere-se como +<em>x</em> atenuado, e sendo a consoante sonora, como <em>j</em>, +igualmente atenuado. Se em tais condições +está +precedido de <em>e</em> surdo, êste <em>e</em>, +por +assimilação, palataliza-se e fica sendo igual a <em>i</em> +na mesma +situação, de modo que os dois +vocábulos <em>pescar</em> e <em>piscar</em> +só +artificialmente se distinguem; assim tambêm a primeira +sílaba de +<em>esteira</em> confunde-se com a primeira +sílaba de +<em>história</em>, e tanto, que +antigamente se escrevia +<span class="pagenum">[26]</span> +<em>estórea</em> (com <em>ea</em>, +para se evitar a leitura +<em>estorja</em>, pois nenhuma diferença +gráfica se fazia entre <em>i</em> e +<em>j</em>). Para quem profira do mesmo modo <em>es</em> +e +<em>is</em>, átonos, é +necessário recomendar que se regule pelas formas em que <em>e</em> +ou <em>i</em> sejam predominantes, a fim de acertar com a +devida escrita. No exemplo citado, <em>pescar</em> procede +de <em>pesca</em>, e portanto com <em>e</em> +se +escreverá; +<em>piscar</em>, de +<em>pisco</em>, ortografar-se há com <em>i</em>. +<br /> + +<br /> + +A confusão entre <em>es</em> e +<em>is</em> mais freqùente, e que +dá margem a inúmeros erros de ortografia, ocorre +com os prefixos <em>des-</em> e +<em>dis-</em>. É +usualíssimo ver-se escrito +<em>destribuição</em>, por exemplo. +Cumpre advertir que o valor dêstes dois prefixos, assim +confundidos na pronúncia meridional, +é diverso: <em>des-</em>, é +privativo, <em>dis-</em> indica +«repartição, +divisão». Escreveremos pois <em>destinto</em> +com +<em>e</em>, de +<em>destingir</em>, de <em>tingir</em>, +<em>distinto</em> com +<em>i</em> de +<em>distinguir</em>, e assim tambêm +<em>dispersar</em>, <em>discrição</em> +(que +se não deve confundir com +<em>descrição</em>, de <em>descrever</em>), +<em>discórdia</em>, +<em>discorrer</em>, etc. <br /> + +<br /> + +XVIII. Sendo o <em>e</em> átono, +antes de consoante palatal, <em>ch</em>, <em>x</em>, +<em>j</em>, +<em>lh</em>, +<em>nh</em>, por +assimilação igual a +<em>i</em> surdo, dá-se +freqùentemente a dúvida sobre a escrita com +<em>e</em> ou com +<em>i</em>, em sílabas átonas. +Convêm, do mesmo modo, recorrer +ás formas em que a vogal duvidosa seja predominante; assim, <em>lenheiro</em>, +de +<em>lenha</em>, escrever-se há com +<em>e</em>, +<em>linheiro</em>, de +<em>linho</em>, com <em>i</em>. <br /> + +<br /> + +XIX. Por outra parte, no centro de Portugal o +<em>e</em> fechado antes das mencionadas consoantes +palatais +<em>ch</em>, +<em>x</em>, +<em>j</em>, <em>lh</em>, +<em>nh</em> profere-se como +<em>â</em>, e esta +pronúncia vai-se difundindo cada vez mais no +país: +<em>fecho</em>, +<em>cereja</em>, +<em>selha</em>, +<em>senha</em> são pronunciados +<em>fâxo</em>, +<em>cerâja</em>, +<em>sâlha</em>, +<em>sânha</em>. Valendo o +<em>a</em> antes de consoante nasal, <em>m</em>, +<em>n</em>, +<em>nh</em> por +<em>â</em> fechado, em geral, produz-se, pela +concorrência destas duas leis +fonéticas, onde elas predominam, a confusão entre +<em>senha</em>, «sinal», e <em>sanha</em>, +«ira», +entre <em>lenho</em>, +«madeiro», e +<em>lanho</em>, «golpe». <br /> + +<br /> + +Para não se deformar a língua pátria, +torna-se essencial a devida distinção +gráfica, ainda +quando se não observe na fala, e é +fácil acertar-se com a escrita, se +se atender à pronúncia dessa vogal, duvidosa +quando +tónica, em formas nas quais ela seja átona: +<em>sanha</em>, «ira», +escreve-se com <em>a</em>, porque dizemos +<em>assanhar</em>, e não +<em>assenhar</em>, ao passo que um verbo derivado de <em>senha</em> +(<span style="letter-spacing: 0.2em;">signa</span>, +latino) +<em>desenhar</em>, se não profere <em>desanhar</em>; +<em>lanho</em>, «golpe», +tem um derivado <em>alanhar</em>, que +não é <em>alenhar</em>, +e conseguintemente deve escrever-se com <em>a</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[27]</span> +XX. Continua o emprêgo tradicional de +<em>o</em> átono valendo por <em>u</em>, +quer final, quer medial, quer +inicial, ou êle seja analógico, como em +<em>formosura</em>, de +<em>formoso</em>, de +<em>forma</em>, <em>porteiro</em>, de +<em>porta</em>, +<em>correr</em>, +<em>côrro</em>, +<em>corres</em>, ou etimológico como em <em>monumento</em>, +latim +<em>monumentum</em>, +<em>governar</em>, castelhano <em>gobernar</em>, +latim popular +<em><span style="letter-spacing: 0.2em;">gobernare</span></em>, +latim clássico <span style="letter-spacing: 0.2em;">gŭbernare</span>. +Na escrita será +indispensável atender-se á forma primitiva, +portuguesa ou latina, ou recorrer-se ao competente <span class="smallcaps">Vocabulário</span>, +pois os casos duvidosos, para os indoutos, são aos milhares. +<br /> + +<br /> + +Antes de vogal como em +<em>mágoa</em>, +<em>nódoa</em>, a +conjugação dos respectivos verbos, <em>magoar</em>, +<em>magôa</em>, +<em>ennodoar</em>, +<em>ennodôa</em>, como em <em>soar</em>, +<em>sôa</em>, indica a escrita +correcta. Com verbos como <em>aguar</em>, cuja +conjugação é incerta, é +preferível escrevê-los com <em>u</em>, +e assim +tambêm <em>água</em>, +<em>régua</em>, +<em>légua</em>, visto que a razão da +escrita com +<em>o</em> era principalmente o evitar-se que <em>u</em> +fosse lido como +<em>v</em>, quando nenhuma distinção +fixa e assente existia, para se +determinar quando as duas formas <em>u</em>, +<em>v</em> eram consoantes ou vogais. Feita a +distinção, como há mais de um +século se faz, quer na escrita, quer na imprensa, deixaram +de ser +necessários êsse e outros expedientes +gráficos, como a +adjunção de <em>h</em> a +<em>u</em> ou a +<em>i</em>, para indicar serem vogais, e +não consoantes, o que motivou as grafias +<em>hiate</em>, +<em>huivar</em>, +<em>hia</em>, para que <em>uivar</em>, +<em>iate</em>, +<em>ia</em> se não lessem +<em>vivar</em>, +<em>jate</em>, +<em>já</em>. Alguns <em>hh</em> e +alguns +<em>oo</em> teem essa origem a +explicá-los. <br /> + +<br /> + +XXI. No centro de Portugal o digrama +<em>ou</em>, quando tónico, confunde-se na +pronunciação com +<em>ô</em>, fechado. A +diferença entre os dois símbolos, +<em>ô</em>, +<em>ou</em>, é de rigor que se mantenha, +não só porque, histórica e +tradicionalmente, êles sempre foram e continuam a ser +diferençados +na escrita, mas tambêm porque a +distinção de valor +se observa em grande parte do país, do Mondego para norte. +Outra razão se deve apontar ainda, e essa é que +<em>ou</em> átono ou conserva o valor que lhe +é próprio, ou, +popularmente, se profere <em>ò</em>; ao passo +que +<em>ô</em> vale por +<em>u</em> nas sílabas +átonas; assim, por exemplo, <em>roubar</em>, de +<em>roubo</em>, não altera o valor do <em>ou</em> +do radical, o que +não acontece, por exemplo, com <em>rogar</em>, +de +<em>rôgo</em>, em que +<em>o</em> vale por +<em>u</em>, se não é +predominante. Duas excepções, pelo menos, existem +modernamente: +<em>apoquentar</em>, de <em>pouco</em>, e +<em>aposentar</em>, de +<em>pouso</em>, que antes eram <em>apouquentar</em>, +<em>apousentar</em>. A +redução deve ter tido origem no sul, em que <em>ou</em> +se +confunde com <em>ô</em>. <br /> + +<br /> + +Êste ditongo <em>ou</em> alterna em +quási todos os vocábulos com o ditongo <em>oi</em>, +ao qual muitos +dão a preferência, exceptuando +<span class="pagenum">[28]</span> +porêm certos vocábulos como <em>outro</em>, +<em>roubo</em>, etc. A alternância +dá-se principalmente antes de +<em>r</em>, +<em>s</em>, como em <em>ouro</em>, +<em>cousa</em>; +<em>oiro</em>, +<em>coisa</em>. <br /> + +<br /> + +Quem prefira <em>oi</em> a +<em>ou</em> assim escreverá, pois +qualquer das formas é lícita na maioria dos +vocábulos, como se disse. Nas formas verbais, +porêm, como a 3.ª pessoa do singular do +pretérito +<em>louvou</em>, não é +admitido o ditongo <em>oi</em> por <em>ou</em>, +nem tampouco em +<em>coube</em>, +<em>soube</em>, +<em>trouxe</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Advertir-se há que é errónea a forma +<em>poude</em> em vez de <em>pude</em>, +1.ª +pessoa, e +<em>pôde</em>, 3.ª pessoa do +presente do verbo <em>poder</em>, que tem origem diferente +(<span style="letter-spacing: 0.2em;">potui</span>, +<span style="letter-spacing: 0.2em;">potuit</span>, +latinos) da que vemos em <em>coube</em>, +<em>soube</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">capui</span>(t), +<span style="letter-spacing: 0.2em;">sapui</span>(t)), +comum à +1.ª e +3.ª pessoas do mesmo tempo verbal dos verbos +<em>caber</em> e +<em>saber</em>. Um qualquer +indivíduo, originário das regiões em +que <em>ou</em> +é diferente de +<em>ô</em> no valor, não +conjugará jamais assim erradamente o verbo +<em>poder</em>, nas duas formas citadas, nas quais +não há o ditongo +<em>ou</em>, como em <em>coube</em>, +<em>soube</em>, +<em>trouxe</em>, mas sim +<em>u</em> e +<em>ô</em> fechado. <br /> + +<br /> + +XXII. Acentuação +gráfica. <br /> + +<br /> + +Como é uso corrente, marcam-se com o devido acento, agudo ou +circunflexo, os vocábulos terminados em +<em>a</em>, +<em>e</em>, <em>o</em> tónicos, +seguidos, ou +não, de <em>s</em>, e por analogia +os terminados em <em>em</em>, +<em>ens</em>; ex.: +<em>alvará(s)</em>, +<em>louvará(s)</em>, +<em>maré(s)</em>, <em>mercê(s)</em>, +<em>portaló(s)</em>,<em> +avô(s)</em>, e bem assim os +monossílabos, como <em>pá(s)</em>, +<em>sé(s)</em>, +<em>sê(s)</em>, +<em>só(s)</em>; +<em>vintêm</em>, +<em>vintêns</em>, +<em>contêm</em>, +<em>contêns</em>; os monossílabos em <em>em</em>, +<em>ens</em>, dispensam a +acentuação: <em>bem</em>, +<em>bens</em>, +<em>tem</em>, +<em>tens</em>. <br /> + +<br /> + +XXIII. O sinal denominado til (~) vale por acento tónico +quando não haja +outro acento gráfico a designar a +sílaba predominante do vocábulo; ex.: +<em>cidadão(s)</em>, +<em>escrivão</em>, <em>escrivães</em>, +<em>nação</em>, +<em>nações</em>, +<em>mão(s)</em>, +<em>mãe(s)</em>; mas, +<em>ourégão(s)</em>, <em>rábão(s)</em>, +<em>Estêvão</em>, +<em>Cristóvão</em>, +etc. <br /> + +<br /> + +XXIV. As palavras terminadas em +<em>i</em>, +<em>u</em>, vogal nasal ou ditongo, seguidos ou +não de +<em>s</em>, ou em outras consoantes, excepto na +terminação +<em>em</em>, +<em>ens</em>, entende-se terem como sílaba +predominante a última, não se +acentuando portanto gráficamente senão as +excepções a esta regra; ex.: +<em>javali(s)</em>, <em>peru(s)</em>, +<em>maçã(s)</em>, +<em>atum</em>, +<em>atuns</em>, +<em>marau(s)</em>, +<em>arrais</em>, +<em>esqueceu</em>, <em>judeu(s)</em>, +<em>painel</em>, +<em>farei(s)</em>, +<em>mulher</em>, +<em>vencer</em>, +<em>timidez</em>, <em>feliz</em>, +<em>arroz</em>, <em>alcaçuz</em>, +<em>lioz</em>, <em>alcatruz</em>; mas, +<em>quási</em>, +<em>Vénus</em>, <em>órfã(s)</em>, +<em>álbum</em>, +<em>amáveis</em>, +<em>fácil</em>, +<em>fáceis</em>, +<em>sável</em>, +<em>sáveis</em>, +<em>faríeis</em>, <em>alcáçar</em>, +<em>carácter</em> (plural +<em>caracteres</em>), +<em>mártir</em>, +<em>sóror</em>, +<em>cônsul</em>. <br /> + +<br /> + +XXV. Os nomes terminados em <em>em</em>, +<em>ens</em>, e as formas verbais em <em>am</em>, +<em>em</em>, entende-se terem como sílaba +predominante +<span class="pagenum">[29]</span> +a penúltima, que se não assinala com +acento gráfico; ex. <em>louvam</em>, +<em>louvaram</em> (cf. +<em>louvarão</em>, futuro), +<em>porem</em>, <em>contem</em> (dos verbos +<em>pôr</em>, +<em>contar</em>), marcando-se o acento gráfico +quando a sílaba predominante seja a +última; ex.: <em>porêm</em>, +<em>contêm</em> (de +<em>conter</em>), +<em>armazêm</em>, +<em>armazêns</em>, +<em>Jerusalêm</em>, <em>Belêm</em>. +<br /> + +<br /> + +XXVI. Todos os vocábulos cuja sílaba predominante +seja a antepenúltima terão essa sílaba +marcada com o competente acento escrito; ex.: +<em>sábado(s)</em>, +<em>câmara(s)</em>, +<em>cédula(s)</em>, <em>pêssego(s)</em>, +<em>sêmola(s)</em>, +<em>concêntrico(s)</em>, +<em>título(s)</em>, +<em>íntimo(s)</em>, <em>pródigo(s)</em>, +<em>cómodo(s)</em>, +<em>lôbrego(s)</em>, +<em>lúgrube(s)</em>,<em> +único(s)</em>; <em>área(s)</em>, +<em>ária(s)</em>, +<em>árduo(s)</em>, +<em>mágoa(s)</em>, +<em>contemporâneo(s)</em>, <em>Libânio</em>, +<em>ânuo</em>, +<em>proscénio(s)</em>, +<em>gémeo(s)</em>, +<em>ingénuo(s)</em>, <em>sêmea(s)</em>, +<em>virgíneo(s)</em>, +<em>insónia(s)</em>, +<em>fúria(s)</em>, +<em>facúndia(s)</em>, +<em>ândito(s)</em>, <em>argênteo(s)</em>, +<em>fímbria(s)</em>, +<em>vergôntea(s)</em>, +<em>núncio(s)</em>, +<em>demónio(s)</em>, <em>António</em>, +<em>Antónia</em>, +<em>infortúnio</em>, +<em>farmacêutico</em>, etc. <br /> + +<br /> + +XXVII. O acento marcado nos esdrúxulos é +diferencial com relação aos vocábulos +que, +escritos com as mesmas letras, tenham por sílaba +predominante a +penúltima, ou a última; ex.: +<em>fábrica</em>, substantivo, e +<em>fabrica</em>, verbo; <em>réplica</em>, +substantivo, e +<em>replica</em>, verbo: +<em>índico</em>, adjectivo, e <em>indico</em>, +verbo; +<em>história</em>, substantivo, e +<em>historia</em> +(<em>rí</em>), verbo; <em>telégrafo</em>, +substantivo, e +<em>telegrafo</em> +(<em>grá</em>), verbo, etc. <br /> + +<br /> + +XXVIII. Quando um qualquer vocábulo que tenha por +sílaba predominante a penúltima, e cuja vogal +nessa sílaba seja <em>e</em> ou +<em>o</em> abertos, fôr +homógrafo com outro em que êsse <em>e</em> +ou +<em>o</em> seja fechado, marcar-se +hão êstes com o acento circunflexo. Assim se +diferençarão +<em>rêgo</em>, substantivo, e <em>rego</em>, +verbo: +<em>pêgo</em>, ave, e +<em>pego</em>, abismo, ou forma do verbo <em>pegar</em>; +<em>rôgo</em>, +substantivo, e <em>rogo</em>, verbo; +<em>sôbre</em>, +preposição, e <em>sobre</em>, verbo; +<em>mêdo</em>, susto, e +<em>medo</em>, nome étnico; +<em>dêmos</em>, presente do subjuntivo, e <em>demos</em>, +pretérito (do verbo <em>dar</em>). <br /> + +<br /> + +XXIX. Diferençar-se hão pelo acento agudo os +seguintes vocábulos: +<em>pára</em>, verbo, de <em>para</em>, +preposição; +<em>pélo</em>, <em>péla</em>, +de +<em>pêlo</em> substantivo, e de +<em>pelo</em>, +<em>pela</em> (<em>per +lo</em>, <em>per la</em>, <em>per o</em>, +<em>per +a</em>); +<em>pólo</em>, substantivo, de +<em>polo</em> (forma antiquada, em vez de <em>pelo</em>); +e pelo circunflexo, +<em>pêra</em>, de +<em>pera</em>, forma antiga e +popular da +proposição +<em>para</em>; +<em>quê</em>, de +<em>que</em> proclítico, átono; <em>cômo</em>, +verbo, de <em>como</em>, +partícula. Pelo agudo se diferençará a +forma do pretérito, +<em>louvámos</em>, da do presente, <em>louvamos</em>.<br /> + +<br /> + +XXX. As +formas verbais +<em>dêem</em>, +<em>lêem</em>, +<em>vêem</em>, +<em>crêem</em> (de <em>dar</em>, +<em>ler</em>, +<em>ver</em>, +<em>crer</em>) receberão o acento +circunflexo, ficando assim distintas de outras como +<em>te(e)m</em>, +<em>ve(e)m</em>, de +<em>ter</em>, +<em>vir</em>. <br /> + +<br /> + +XXXI. Quando a segunda de duas vogais consecutivas +<span class="pagenum">[30]</span> +seja <em>i</em> ou <em>u</em>, que +não forme ditongo +com a vogal precedente, marcar-se há com o acento agudo, se +fôr tónica; ex.: +<em>saí</em>, <em>saída</em>, +<em>faísca</em>, +<em>saúde</em>, +<em>balaústre</em>, +<em>raízes</em>, +<em>baú(s)</em>. Se fôr +átona pode assinalar-se com o acento grave; ex.: +<em>saìmento</em>, +<em>faìscar</em>, <em>saùdar</em>, +<em>enraìzado</em>, +<em>abaùlado</em>. É +licito dispensar-se o agudo se a consoante seguinte não +fôr +<em>s</em>; ex.: +<em>ainda</em>, +<em>raiz</em>, <em>sair</em>, contanto que +não +inicie outra sílaba. Podem, portanto, escrever-se <em>Coimbra</em>, +<em>raiz</em>, +<em>sair</em>, sem acento, mas exigem-no <em>saída</em>, +<em>saíra</em>, +<em>saúde</em>, +<em>raízes</em>, +<em>ataúde</em>, etc. <br /> + +<br /> + +XXXII. Os ditongos <em>éi</em>, +<em>ói</em>, +<em>éu</em>, sempre finais +tónicos, receberão o acento agudo, que os +diferença de +<em>ei</em>, +<em>oi</em>, +<em>eu</em>, fechados; ex.: <em>painéis</em>, +<em>heróis</em>, +<em>chapéus</em>; em +<em>réis</em>, +<em>batéis</em>, <em>papéis</em>, +<em>sóis</em> êsse +acento distingue tais vocábulos dos seus +homógrafos <em>reis</em> (de +<em>rei</em>), +<em>bateis</em>, +<em>papeis</em> (de +<em>bater</em>, +<em>papar</em>), <em>sois</em> (do verbo +<em>ser</em>). Outros exemplos são +<em>bóia</em>, +<em>jóia</em> (cf. +<em>joio</em>, com <em>o</em> fechado), +<em>gibóia</em>, +<em>herói(s)</em>, etc. <br /> + +<br /> + +XXXIII. Hífen.<br /> + +<br /> + +Os vocábulos compostos cujos elementos conservam a aua +independência fonética unem-se por +hífen (-) e conservam igualmente a sua +acentuação; ex.: +<em>água-pé</em>, +<em>pára-raios</em>, <em>guarda-pó</em>. +O +hífen repetir-se há na linha imediata, quando por +êle se faça a +separação silábica de linha para +linha; ex.: <em>pára-/-raios</em>. +Quando um dos termos do vocábulo composto não +existe independente em português, na sua forma integral, +unem-se os dois elementos sem hífen; ex.: <em>clarabóia</em>, +<em>fidalgo</em>. Outro tanto se +fará quando a noção do composto se +haja perdido, como em +<em>solfa</em>, +<em>dezoito</em> (<em>dez-a-oito</em>). <br /> + +<br /> + +XXXIV. O hífen será utilizado tambêm +nos seguintes casos: <br /> + +<br /> + +a) Unir os pronomes pessoais enclíticos aos respectivos +verbos, de que são complemento; ex.: +<em>louvá-lo</em>, +<em>devê-lo</em>, <em>puni-lo</em>, +<em>dá-nos</em>, +<em>dou-vos</em>, +<em>falo-lhes</em>, etc. A +acentuação do verbo mantêm-se, como se +não se lhes unissem +êsses complementos. São erros +inadmissíveis, mas muito +freqùentes, <em>louval-o</em>, +<em>devel-o</em>, +<em>punil-o</em>, etc. <br /> + +<br /> + +b) Os advérbios <em>mal</em>, +<em>bem</em>, formando o primeiro elemento de um composto, +unem-se ao segundo elemento por hífen, quando sem +êle a soletração seria +errada; ex.: +<em>bem-aventurança</em>, <em>mal-logrado</em>, +para que se +não leiam <em>be +maventurança</em>, <em>ma logrado</em>. +Este último, +todavia, pode ler-se tambêm <em>malogrado</em>, +pois dizemos +<em>malograr</em>, +<em>malôgro</em>. <br /> + +<br /> + +A palavra <em>aguardente</em> +formará o seu plural como +<em>aguardentes</em>; se porém se preferir +separar os dois elementos, <em>água-ardente</em>, +o plural +será +<em>águas-ardentes</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p31">[31]</a></span> +XXXV. Há vocábulos que, sendo derivados, seguem a +analogia dos vocábulos compostos, com os seus elementos +unidos por hífen, em terem dois acentos tónicos +dos quais é predominante o segundo; são +êles os +aumentativos e deminutivos formados com o infixo <em>z</em>, +e os advérbios derivados com o sufixo <em>-mente</em>. +Se os +adjectivos ou substantivos de que se formam terminam em vogal com +acento agudo, muda-se êste em acento grave, ex.: +<em>sòzinho</em>, +<em>cafèzinho</em>, <em>màzona</em>, +etc. +Esta mudança tem por causa o evitar-se que, escrevendo-se +<em>mázona</em>, por exemplo, se +entenda ser a primeira a sílaba predominante. Nos +advérbios, porêm, formados com o referido sufixo +<em>-mente</em>, que antes era um substantivo, a +acentuação com o agudo, ou o +circunflexo mantêm-se, por não poder dar-se a +confusão apontada: <em>fácilmente</em>, +<em>cortêsmente</em>, +<em>sómente</em>. <br /> + +<br /> + +XXXVI. Apóstrofo. <br /> + +<br /> + +É quasi abolido êste sinal ortográfico, +absolutamente inútil para a leitura, e de +introdução +relativamente moderna. O seu emprêgo limitar-se há +a indicar, +principalmente na poesia, a supressão de uma letra, que +usualmente se escreve na prosa, como em +<em>esp'rança</em>, +<em>mer'cer</em>, <em>par'cer</em>, +<em>c'roa</em>, +<em>p'ra</em>, +<em>'star</em>, etc. Pode, tambêm, +usar-se no interior das dições compostas, quando +nelas se +faça elisão do <em>e</em> da +preposição <em>de</em>, +como em +<em>mãe-d'água</em>. <br /> + +<br /> + +XXXVII. Os pronomes complementos enclíticos de verbos +escrever-se hão como nos exemplos seguintes: +<em>tenho-o</em>, <em>tem-lo</em>, +<em>tem-no</em>, +<em>temo-lo</em>, +<em>tende-lo</em>; +<em>louvá-los</em>, +<em>devê-los</em>, +<em>uni-los</em>; <em>louva-los</em>, +<em>deve-los</em>, +<em>une-los</em>; +<em>vê-mo</em>, +<em>vê-to</em>, +<em>vê-lho</em>, +<em>vê-no-lo</em>, <em>dava-vo-lo</em>, +<em>vêem-se-lhe</em>, +<em>comprámo-la</em>, sem se +indicar por apóstrofo a supressão de +<em>e</em> e de +<em>s</em>, que é de regra; +<em>tem-lo</em>, está por <em>tens-lo</em>, +<em>vê-mo</em>, por +<em>vê-me-o</em>. O verbo +conserva a acentuação marcada que lhe competiria +sem +complementos, e assim é a sua +pronunciação. <br /> + +<br /> + +XXXVIII. Reúnem-se em uma só +dição, sem apóstrofo ou +hífen, os seguintes pronomes, precedidos das +preposições <em>a</em>, +<em>de</em>, +<em>em</em>, +<em>por</em>; +<em>ao(s)</em>, +<em>à(s)</em>, +<em>do(s)</em>, +<em>da(s)</em>, +<em>àquele(s)</em>, +<em>àquela(s)</em>, <em>dele(s)</em>, +<em>dela(s)</em>, +<em>dêste(s)</em>, +<em>desta(s)</em>; +<em>daquele(s)</em>, +<em>daquela(s)</em>, <em>dêsse(s)</em>, +<a href="#e1"><em>dessa(s)</em></a>; +<em>naquele(s)</em>, +<em>naquela(s)</em>, +<em>neste(s)</em>, +<em>nesta(s)</em>, <em>nesse(s)</em>, +<em>nessa(s)</em>; +<em>disto</em>, +<em>disso</em>, +<em>daquilo</em>, +<em>nisto</em>, +<em>nisso</em>, <em>naquilo</em>, +<em>noutro</em>. <br /> + +<br /> + +Outro tanto acontece com os artigos +<em>o(s)</em>, +<em>a(s)</em>, +<em>um</em>, <em>uns</em>, +<em>uma(s)</em>, e os advérbios +<em>aqui</em>, +<em>aí</em>, +<em>ali</em>, +<em>acolá</em>, +<em>alêm</em>, <em>onde</em>; ex.: +<em>do(s)</em>, +<em>da(s)</em>, +<em>pelo(s)</em>, +<em>pela(s)</em>, +<em>no(s)</em>, +<em>na(s)</em>, <em>aonde</em>, +<em>donde</em>, +<em>dali</em>, +<em>daí</em>, +<em>dali</em>, +<em>dacolá</em>, +<em>dalém</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Quando porêm esses pronomes rejam +orações de infinito, +<span class="pagenum">[32]</span> +a preposição conservar-se há inteira e +separada; ex.: <em>por causa de êles não +quererem</em>; +<em>em razão de os não ter +visto</em>. <br /> + +<br /> + +As demais elisões, que no decurso da fala ou da leitura se +costumam fazer, não são indicadas na escrita; +não se escreverá pois: <em>d'idade</em>, +<em>d'entrada</em>, mas sim +<em>de idade</em>, <em>de entrada</em>; pelo +mesmo motivo por que se não +escreve <em>vint'e um</em>, conquanto o +<em>e</em> de +<em>vinte</em> aí se +não profira. São elisões e crases que +é escusado representar na +escrita, e algumas das quais são facultativas, quer +individual, quer ocasionalmente. <br /> + +<br /> + +XXXIX. Divisão +silábica.<br /> + +<br /> + +A divisão de um vocábulo qualquer simples em +sílabas far-se há fonéticamente pela +soletração e não pela +separação dos seus elementos de +derivação, +composição ou formação, +contanto que a dição composta não +tenha os seus elementos apartados por hífen (-). Desta +maneira dividir-se há, por exemplo, +<em>subscrever</em>, como +<em>subs cre ver</em>, do mesmo modo por que a palavra +<em>escrever</em> se não divide como <em>e +scre ver</em>; e +<em>vezes</em>, +<em>pastora</em>, como <em>vez +es</em>, <em>pastor a</em>, mas sim como <em>ve +zes</em>, +<em>pasto ra</em>. Assim, tambêm, +<em>di rec ção</em>, <em>a dop +tar</em>, +<em>su +búr bios</em>, <em>de sas tra +do</em>, <em>de sar mar</em>, +<em>i ná bil</em>, <em>bi sa vô</em>, +<em>pres tan te</em>, <em>cir +cuns tân cia</em>, etc., etc. <br /> + +<br /> + +Para a segunda linha e para a soletração +pertencem à vogal que se lhes segue as consoantes que podem +começar palavra; assim teremos <em>co bra</em>, +<em>am plo</em>, porque temos <em>bra ço</em>, +<em>pla ga</em>; <em>ecli +pse</em> (cf. +<em>psicologia</em>). <br /> + +<br /> + +XL. Quando o <em>s</em> dos prefixos +<em>des-</em>, +<em>dis-</em>, é seguido de consoante separa-se +dela; se depois se lhe segue vogal, pertence a esta, e com ela forma +sílaba; ex.: +<em>des fa zer</em>, <em>dis tri buir</em>, +mas +<em>de sen ga nar</em>, <em>de +sen vol ver</em>. <br /> + +<br /> + +XLI. Duas consoantes iguais separam-se; ex.: <em>ar +rastar</em>, <em>as sistir</em>, <em>em +malar</em>, <em>en nastrar</em>. <br /> + +<br /> + +XLII. As palavras compostas dividem-se pelos seus componentes; ex.: <em>porta-voz</em>, +<em>vice-almirante</em>, repetindo-se na linha inferior o +hífen. <br /> + +<br /> + +XLIII. Nos vocábulos formados com o prefixo +<em>ex-</em>, fica êste separado do segundo +elemento, ao dividir-se ou soletrar-se a palavra; ex.: <em>ex +ér ci +to</em>, <em>ex ce der</em>. <br /> + +<br /> + +XLIV. São inseparáveis as letras dos seguintes +grupos de consoantes: <em>bl</em>, +<em>cl</em>, +<em>dl</em>, +<em>fl</em>, <em>gl</em>, +<em>pl</em>, +<em>tl</em>, +<em>vl</em>; +<em>br</em>, +<em>cr</em>, +<em>dr</em>, <em>fr</em>, +<em>gr</em>, +<em>pr</em>, +<em>tr</em>, +<em>vr</em>; +<em>ch</em>, +<em>lh</em>, +<em>nh</em>; +<em>sc</em>, +<em>ps</em>. <br /> + +<br /> + +Se, porêm, o <em>s</em> se +lê separado do <em>c</em> no +interior do vocábulo, separado se divide; ex.: <em>des +cer</em>, +<em>côns ci o</em>, +<em>pros cé nio</em>; mas +<em>en sce na ção</em>. <br /> + +<br /> + +XLV. São igualmente inseparáveis duas vogais +consecutivas, +<span class="pagenum">[33]</span> +formem ou não ditongo; ex.: <em>ai +po</em>, <em>cau sa</em>, <em>rai nha</em>, +<em>proe +mio</em>, <em>goe la</em>, +<em>poei ra</em>, <em>pro +nún cia</em>, +<em>voar</em>, +<em>voo</em>, <em>á gua</em>, +<em>moi nho</em>, +<em>é gua</em>, <em>i +guais</em>, <em>con ti nua</em>, +<em>con tí nua</em>, <em>fa mí +lia</em>, +<em>se ria</em>, +<em>sé ria</em>, +<em>rea lidade</em>, +<em>veí culo</em>. <br /> + +<br /> + +XLVI. O <em>u</em> depois de +<em>q</em> ou +<em>g</em> é dêle +inseparável, quer seja mudo, quer se profira; ex.: <em>quin +ta</em>, <em>guer ra</em>; +<em>fre qùente</em>, <em>a +gùentar</em>, +<em>ar gùir</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>PRONTUÁRIO ORTOGRÁFICO </h3> + +<br /> + +Súmula das principais regras que se hão de +observar na escrita das palavras e formas vocabulares portuguesas: <br /> + +<br /> + +1. O alfabeto português consta das seguintes vinte e quatro +letras, e de mais três, que sómente em +circunstâncias especiais se empregam e aqui vão +incluídas em +parêntese curvilíneo: <br /> + +<br /> + +a b c ç d e f g h i j (k) l m n o p q[u] r s t u v (w) x (y) +z. <br /> + +<br /> + +2. Alêm destas letras, há outros caracteres, que +ora são figurados por duas letras emparceiradas, ora por +sinais diacríticos, sobrepostos a várias dessas +letras. +Assim aumentado, o sistema de escrita portuguesa compõe-se +de 53 símbolos: <br /> + +<br /> + +a, á, à, â, ã; b; c, +ç, ce (ci), ch; d; e, é, è, +ê; f; ge (gi), g, gu, gù; h; i, í, +ì; j; (k); +l, lh; m; n, nh; o, ó, ò, ô, +õ; p; qu, qù; r, rr, s, ss, sc; t; +u, ú, ù; v; (w); x; (y); z. <br /> + +<br /> + +O valor dêstes caracteres, excluídas as letras +<em>k</em>, +<em>w</em>, +<em>y</em>, está exemplificado nas palavras +seguintes: +<em>par</em>, +<em>pá</em>, +<em>àquela</em>, <em>câda</em>, +<em>lã</em>; +<em>bobo</em>; +<em>cá</em>; +<em>praça</em>, +<em>cela</em>, +<em>cinta</em>, +<em>chá</em>; +<em>dado</em>; +<em>de</em>, +<em>sé</em>, <em>prègar</em>, +<em>sê</em>; +<em>foz</em>; +<em>gema</em>, +<em>giz</em>, +<em>gágo</em>, +<em>guerra</em>, +<em>agùentar</em>; +<em>há</em>; <em>li</em>, +<em>fígado</em>, +<em>faìscar</em>; +<em>já</em>; +<em>lá</em>; +<em>lhe</em>; +<em>mó</em>; +<em>nó</em>, +<em>lenha</em>; +<em>lado</em>, +<em>copa</em>, <em>pó</em>, +<em>mòlhada</em>, +<em>avô</em>, +<em>põe</em>; +<em>que</em>, +<em>freqùente</em>, +<em>caro</em>, +<em>ré</em>, +<em>carro</em>; +<em>só</em>, <em>passo</em>, +<em>scena</em>, +<em>casa</em>; +<em>tu</em>; +<em>fuga</em>, +<em>último</em>, +<em>saùdar</em>; +<em>véu</em>; +<em>xadrez</em>, <em>exame</em>, +<em>sexo</em>, +<em>próximo</em>, +<em>texto</em>; +<em>zêlo</em>. <br /> + +<br /> + +3. Dêstes caracteres tem um único valor e +emprêgo os nove seguintes: <em>b</em>, +<em>d</em>, +<em>f</em>, +<em>j</em>, +<em>l</em>, +<em>p</em>, +<em>qu</em>, +<em>t</em>, +<em>v</em>. <br /> + +<br /> + +Os outros caracteres variam de valor. <br /> + +<br /> + +4. <em>a</em>: Designa o +<em>a</em> aberto quando +está na sílaba tónica principalmente, +e em sílaba átona se +está seguido de <em>l</em>; ex.: <em>cabo</em>, +<em>faltou</em>. <br /> + +<br /> + +5. Fora da sílaba tónica denota em geral o +<em>a</em> surdo, como <em>boca</em>, +<em>parede</em>, +<em>camarote</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +O <em>a</em> surdo pode ser +tónico, se está antes de consoante nasal, <em>m</em>, +<em>n</em>, +<em>nh</em>; ex.: +<em>cama</em>, +<em>cana</em>, +<em>manha</em>, +<em>louvamos</em>. <br /> + +<br /> + +6. <em>á</em>: Emprega-se com o +valor de <em>a</em> aberto quando seja +necessário marcar <em>a</em> +tónico, isto é: na última +sílaba, seguido ou não de <em>s</em>; +na +penúltima, se a última não termina em <em>a(s)</em>, +<em>e(s)</em>, +<em>o(s)</em>, +<em>m</em>, e na antepenúltima; +ex.: <em>lá</em>, +<em>será(s)</em>, <em>fácil</em>, +<em>fáceis</em>, +<em>carácter</em>, +<em>sável</em>, +<em>prática</em>. Emprega-se +tambêm para diferençar +<em>pára</em> de +<em>para</em>, +preposição, e na forma verbal do +pretérito, 1.ª pessoa do plural, +<em>louvámos</em>, para a diferençar +da do presente, +<em>louvamos</em>. <br /> + +<br /> + +7. <em>à</em>: Designa o +<em>a</em> aberto átono em +vocábulos que se escrevem com as mesmas letras, que outros +que tem +<em>a</em> surdo, e tambêm para denotar o acento +secundário +em derivados; ex.: <em>àbada</em> (de +<em>aba</em>; cf. +<em>abada</em>, +«animal»), <em>pàzada</em>, +<em>desàbar</em>. <br /> + +<br /> + +8. <em>â</em>: Indica o +<em>a</em> surdo tónico em +vocábulos esdrúxulos; ex.: <em>ânimo</em>, +<em>câmara</em>; ou em inteiros +terminados em <em>i</em>, +<em>u</em>, vogal nasal, ditongo ou consoante diferente de +<em>s</em>; ex.: +<em>cânon</em>, <em>âmbar</em>, +etc. <br /> + +<br /> + +9. <em>ã</em>: +<em>â</em> nasal em fim de +vocábulo, seguido ou não de <em>s</em>, +e nos ditongos +<em>ãe</em>, +<em>ão</em>; ex.: +<em>lã(s)</em>, +<em>mãe(s)</em>; +<em>mão(s)</em>. <br /> + +<br /> + +Se não há outro acento no vocábulo, +vale por acento tónico; ex.: +<em>rabão</em>, a par de +<em>rábão(s)</em>. <br /> + +<br /> + +O ditongo <em>ão</em> +átono, final de formas verbais, escreve-se <em>am</em>; +ex.: +<em>louvam</em>, +<em>louvaram</em>; cf. +<em>louvarão</em>, futuro. <br /> + +<br /> + +Antes de <em>b</em>, +<em>p</em> e +<em>m</em>, a vogal nasal +<em>ã</em> escreve-se +<em>am</em>, e antes de outra consoante, <em>an</em>; +ex.: +<em>campo</em>, +<em>lamber</em>, +<em>emmalar</em>; <em>banco</em>, +<em>frango</em>, +<em>canto</em>, +<em>quando</em>, +<em>lança</em>, +<em>ânsia</em>, +<em>rancho</em>, <em>laranja</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +10. <em>ce</em>, +<em>ci</em>, +<em>ça</em>, +<em>ço</em>, +<em>cu</em>: +<em>ç</em> escreve-se antes de +<em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>, <em>c</em> sem cedilha, antes de +<em>e</em>, +<em>i</em>; ex.: +<em>faça</em>, +<em>faço</em>, +<em>cabeçudo</em>; <em>face</em>, +<em>fácil</em>, +<em>paço</em>, +<em>palácio</em>, +<em>palacete</em>. <br /> + +<br /> + +No interior dos vocábulos, corresponde a +<em>ci</em>, +<em>ti</em> latinos, e a <em>ss</em> +arábicos, e nisto +se diferença do <em>s</em>, o qual +corresponde a <em>s</em> latino; ex.: +<em>alçar</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">altiar</span>e), +<em>razão</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">ratione</span>m), +<em>faço</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">faci</span>o), +<em>açafate</em>, +<em>açafrão</em>, +<em>refece</em>, <em>açúcar</em> +(arábicos); +<em>paço</em>, a par de +<em>passo</em>. <br /> + +<br /> + +No comêço da palavra usa-se +<em>s</em> por +<em>ç</em>; ex.: +<em>sapato</em>. <br /> + +<br /> + +Em fim de palavra escreve-se <em>z</em> e +não <em>ç</em>; ex.: +<em>vez</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">uice</span>m), +diferente de +<em>vês</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">uide</span>s), +<em>arroz</em> (arábico). <br /> + +<br /> + +11. <em>ch</em>: Emprega-se como inicial e +medial, e nunca como final. Na pronunciação do +idioma culto, e +bem assim nos vernáculos meridionais, confunde-se no valor +há mais de dois séculos com o +<em>x</em> inicial, do qual se diferença +<span class="pagenum">[35]</span> +pela origem. Corresponde o <em>ch</em>, em +geral, a <em>cl</em>, <em>fl</em>, +<em>pl</em>, latinos, e a <em>ch</em> +francês +nas palavras desta proveniência; ex.: <em>chave</em> +(lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">claue</span>m), +<em>chama</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">flamm</span>a), +<em>chuva</em> (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">pluui</span>a), +<em>chapéu</em> (fr. +<em>chapeau</em>). Corresponde a +<em>ll</em> e a <em>ch</em> castelhanos. <br /> + +<br /> + +O <em>ch</em> com valor de +<em>k</em> é +substituído por <em>qu</em> antes +de <em>e</em>, +<em>i</em>, e por <em>c</em> em qualquer outra +situação; ex.: +<em>monarca</em>, +<em>monarquia</em>, <em>querubim</em>, +<em>côro</em>, +<em>cloro</em>, +<em>corografia</em>, +<em>catecúmeno</em>, +<em>crisol</em>. <br /> + +<br /> + +12. <em>c</em>: Esta letra emprega-se antes +de <em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>, consoante, ou como final, rara; ex.: +<em>cá</em>, +<em>côr</em>, +<em>cume</em>, +<em>claro</em>, <em>cravo</em>, +<em>facção</em>, +<em>Abimélec</em>, etc. <br /> + +<br /> + +13. Antes de <em>e</em>, +<em>i</em>, é +substituída por <em>qu</em>; ex.: +<em>sequeiro</em>, <em>ressequido</em>, de +<em>sêco</em>. É mudo o +<em>c</em> actualmente em muitos +vocábulos em que antes se proferia, e conserva-se quando +<em>a</em>, <em>e</em>, +<em>o</em> precedentes permanecem abertos, e +por analogia ainda mesmo que essas vogais sejam tónicas; +ex.: +<em>secção</em>, +<em>acção</em>, <em>activo</em>, +<em>acto</em>; +<em>espectáculo</em>, +<em>espectador</em>; mas +<em>autor</em>, +<em>junção</em>, <em>junto</em>, +<em>sanção</em>, +<em>santo</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +14. <em>e</em>: Designa em sílabas +átonas <em>e</em> surdo; ex.: +<em>se</em>, +<em>de</em>, <em>me</em>, +<em>te</em>, +<em>lhe(s)</em>, +<em>secar</em>, +<em>remediar</em>, +<em>lume</em>, +<em>úbere</em>, +<em>cadáveres</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Vale por <em>i</em> átono antes de +vogal, ou de consoante palatal; ex.: <em>fealdade</em>, +<em>teatro</em>, +<em>beato</em>, +<em>teor</em>, +<em>areeiro</em>, +<em>feíssimo</em>, <em>conteúdo</em>; +<em>fechar</em>, +<em>telhal</em>, +<em>lenhador</em>, +<em>desejar</em>. Cumpre recorrer à etimologia +do vocábulo, ou a uma forma +primitiva dêle, em que o <em>e</em> seja +tónico, para assim o diferençar de <em>i</em>; +<em>fealdade</em>, de +<em>feio</em>; +<em>areeiro</em>, de +<em>areia</em>; +<em>fechar</em>, de +<em>fecho</em>; <em>telhal</em>, de +<em>telha</em>; +<em>lenhador</em> de +<em>lenha</em>; +<em>desejar</em>, de +<em>desejo</em>; <em>teatro</em>, +<em>beato</em>, +<em>teor</em>, +<em>conteúdo</em>, do lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">theatru</span>m, +<span style="letter-spacing: 0.2em;">beatu</span>m, +<span style="letter-spacing: 0.2em;">tener</span>e. +Tem tambêm +êsse valor de <em>i</em>, como +inicial átona; ex.: <em>evitar</em>, +<em>erguer</em>, +<em>herói</em>. <br /> + +<br /> + +15. <em>e</em>: vale por +<em>e</em> aberto, ou por +<em>e</em> fechado, sendo tónico; ex.: <em>neve</em>, +<em>certo</em>, +<em>der</em>, +<em>perda</em>, +<em>ver</em>; e por +<em>e</em> aberto ou fechado, átono, +<em>relveiro</em>, +<em>sável</em>, +<em>carácter</em>, +<em>cadáver</em>, +<em>secção</em>, <em>abdómen</em>. +<br /> + +<br /> + +16. Vale por <em>â</em> no sul do +país, antes de consoante palatal e no ditongo <em>ei</em>; +ex.: +<em>igreja</em>, +<em>fecho</em>, +<em>telha</em>, +<em>senha</em>, +<em>lei</em>. <br /> + +<br /> + +Em várias regiões êste +<em>e</em> é proferido como +fechado em tal situação; ex.: +<em>igrêja</em>, +<em>fêcho</em>, +<em>têlha</em>, +<em>sênha</em>, +<em>lêi</em>. <br /> + +<br /> + +17. <em>é</em>: Denota o +<em>e</em> aberto tónico, quando +haja de marcar-se a sílaba predominante, isto é, +como final, +seguido ou não de <em>s</em>, e nos +esdrúxulos; ex.: +<em>maré(s)</em>, +<em>cédula</em>. Marca-se igualmente o acento +agudo no +<em>e</em> quando a sílaba predominante +é a penúltima e a palavra +não termina em <em>a(s)</em>, +<em>e(s)</em>, +<em>o(s)</em>, +<em>am</em>, +<em>em</em>, e bem assim nos ditongos +<em>éi</em>, +<em>éu</em>, +<span class="pagenum">[36]</span> +sempre tónicos; ex.: +<em>éter</em>, +<em>Vénus</em>, +<em>fértil</em>, +<em>férteis</em>; +<em>céu</em>, +<em>escarcéu</em>, <em>papéis</em>. +Sem acento, +porêm, escreveremos <em>levam</em>, <em>levem</em>. +<br /> + +<br /> + +18. <em>è</em>: Indica o +<em>e</em> aberto átono, quando se +torne necessário diferençar +homógrafos; ex.: +<em>pègada</em>, diferente de <em>pegada</em>; +<em>prègar</em>, de +<em>pregar</em>. <br /> + +<br /> + +19. <em>ê</em>: Designa o +<em>e</em> fechado tónico, quando +seja de regra marcá-lo com acento; ex.: +<em>mercê(s)</em>, +<em>vê(s)</em>, +<em>sêmea</em>, +<em>Zêzere</em>, <em>pêssego</em>, +<em>concêntrico</em>, +<em>Estêvão</em>, etc. <br /> + +<br /> + +20. O <em>e</em> nasal nunca termina +vocábulo no idioma comum, em que é +substituído pelo ditongo nasal +<em>em</em>, +<em>ens</em> (<em>[~e]i)s)</em>, o qual se +acentua quando é +tónico final de polissílabos; ex.: <em>vintêm</em>, +<em>vintêns</em>; +<em>contêm</em>, +<em>contêns</em>; +<em>parabêns</em>. <br /> + +<br /> + +21. No princípio e meio das palavras o +<em>e</em> nasal escreve-se com <em>em</em> +antes de +<em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>, e com +<em>en</em>, em qualquer outra +situação; inicial átono +profere-se como <em>im</em>, +<em>in</em>; ex.: <em>membro</em>, +<em>tempo</em>; +<em>encher</em>, +<em>entrar</em>, +<em>encho</em>, +<em>entro</em>; +<em>entender</em>, +<em>entendo</em>; <em>empregar</em>, +<em>emprêgo</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +22. <em>g</em>: O +<em>g</em>, para designar a consoante sonora +correspondente ao <em>c</em>, escreve-se em qualquer +situação, excepto antes de <em>e</em>, +<em>i</em>; ex.: +<em>gago</em>, +<em>glaciário</em>, +<em>grade</em>, +<em>digno</em>, +<em>fragmento</em>, e raras vezes como final, <em>Gog</em>, +<em>Magog</em>. Suprime-se quando se não +profere; dêste modo, escreveremos: +<em>assinar</em>, +<em>Inácio</em>, <em>Inês</em>, +<em>aumento</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Antes de <em>e</em>, +<em>i</em> acrescenta-se-lhe +<em>u</em> +(<em>gu</em>); ex.: +<em>seguir</em>, <em>guerra</em>, +<em>ligue</em>, +<em>aguilhoar</em>. <br /> + +<br /> + +Se êsse <em>u</em> se profere +átono, marca-se com acento grave: <em>agùentar</em>, +<em>argùir</em>, +<em>argùente</em>; se é +tónico, com o acento agudo, <em>argúi</em>. +<br /> + +<br /> + +23. <em>ge</em>, +<em>gi</em>: tem o mesmo valor que o +<em>j</em> e escreve-se em lugar dêste, quando a +etimologia ou a analogia o pedem; ex.: <em>gente</em>, +<em>lógica</em>. Nos derivados de +primitivos em <em>ja</em>, +<em>jo</em>, <em>ju</em> permanece o +<em>j</em> antes de +<em>e</em>, +<em>i</em>; ex.: +<em>laranja</em>, +<em>laranjeira</em>; <em>loja</em>, +<em>lojista</em>. <br /> + +<br /> + +O <em>g</em> etimológico muda-se +em <em>j</em> antes de +<em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>; ex.: <em>reger</em>, +<em>rejo</em>, +<em>reja</em>; +<em>fugir</em>, +<em>fujo</em>, +<em>fuja</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +24. <em>h</em>: É mudo quando +inicial, e escreve-se quando a etimologia do vocábulo o +justifica; ex.: +<em>homem</em>, +<em>humano</em>, <em>herdar</em>, e portanto +<em>ombro</em>, +<em>ontem</em>, em que a etimologia o não +explica; <em>iate</em>, e +não <em>hiate</em>. <br /> + +<br /> + +O <em>h</em> medial desaparece, mesmo nos +vocábulos em que +<span class="pagenum">[37]</span> +êle como inicial figura; ex.: +<em>desumano</em>, +<em>deserdar</em>, e com maior razão em <em>inibir</em>, +<em>inábil</em>, +<em>filarmónica</em>, em que daria causa a sua +presença a errada leitura; outros exemplos são <em>coìbir</em>, +<em>sair</em>, +<em>compreender</em>, +<em>desonra</em>, +<em>exibir</em>, etc. <br /> + +<br /> + +25. O <em>h</em>, como sinal +diacrítico, junta-se a <em>c</em>, +<em>l</em> e +<em>n</em> para designar os sons que as palavras seguintes +exemplificam: <em>chave</em>, +<em>frecha</em>, +<em>selha</em>, +<em>moinho</em>. <br /> + +<br /> + +26. O <em>h</em>, depois de +<em>t</em>, +<em>r</em> ou +<em>c</em> com o valor de +<em>k</em> é proscrito; dêste modo +escreveremos +<em>teatro</em>, +<em>retórica</em>, +<em>corografia</em>. Suprimido é igualmente o +<em>h</em> final, como em +<em>Sara</em>, <em>raja</em>, ou +<em>rajá</em>, e só se +admite em tal situação nas +interjeições, como <em>ah!</em> +<em>oh!</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +27. <em>i</em>: Emprega-se como +átono, e como tónico; ex.: <em>finíssimo</em>, +<em>quási</em>, +<em>virar</em>, +<em>vira</em>, etc. <br /> + +<br /> + +28. Numa série de sílabas, cuja vogal seja sempre +<em>i</em>, e o vocábulo não seja +imperfeito ou condicional de +verbo, superlativo, ou deminutivo, sómente o +último +<em>i</em> conserva, em geral, na pronúncia +desafectada, o seu valor; os mais que o precedem proferem-se como <em>e</em> +mudo, se a consoante seguinte não é palatal +(<em>x</em>, +<em>j</em>, +<em>lh</em>, +<em>nh</em>, +<em>s</em> + consoante); ex.: <em>dividir</em>, +<em>dividia</em>, +<em>dividiria</em>, que se pronunciam +<em>devedir</em>, +<em>devedia</em>, <em>devediria</em>; +<em>ministro</em>, que se pronuncia +<em>menistro</em>; <em>ministério</em>, +que se +pronuncia <em>menistério</em>; +<em>militar</em>, que se pronuncia <em>melitar</em>. +Para se evitarem +erros de ortografia, é preciso atender á +etimologia dos vocábulos, e, +quando possível, a uma forma em que o <em>i</em> +seja +tónico, como em <em>divide</em>. <br /> + +<br /> + +29. Há dois prefixos de valor diferente, que cumpre +diversificar na escrita: <em>des-</em> e +<em>dis-</em>. O primeiro é +negativo ou privativo, como em <em>desfazer</em>, +<em>destingir</em>, +<em>destinto</em>; o segundo distributivo, como em <em>dispersar</em>, +<em>distinguir</em>, +<em>distinto</em>, <em>disjungir</em>, +<em>discernimento</em>, +<em>distúrbio</em>, etc. <br /> + +<br /> + +30. <em>í</em>: Designa o +<em>i</em> tónico, quando as +regras de acentuação gráfica exijam a +marcação; ex.: +<em>frígido</em>, +<em>Vítor</em>, <em>físsil</em>, +<em>difícil</em>, +<em>difíceis</em>, +<em>fugíeis</em>, +<em>tínheis</em>, +<em>fugiríamos</em>, +<em>fugíreis</em>, <em>fugiríeis</em>, +etc. <br /> + +<br /> + +31. Com acento agudo se marca o <em>i</em> +tónico que não forma ditongo com a vogal +anterior; ex.: +<em>saída</em>, +<em>saí</em>, +<em>aí</em>, <em>país</em>, +<em>países</em>, +<em>raízes</em>. <br /> + +<br /> + +Antes de <em>nh</em>, +<em>nd</em>, +<em>mb</em>, pode dispensar-se o acento; ex.: <em>raínha</em>, +<em>aínda</em>, +<em>Coímbra</em>, ou +<em>rainha</em>, +<em>ainda</em>, +<em>Coimbra</em>; pode tambêm dispensar-se antes +de consoante final que +não seja <em>s</em>; ex.: +<em>raiz</em>, +<em>sair</em>; mas +<em>raízes</em>, +<em>saíres</em>, porque o +<em>z</em> e o <em>r</em> pertencem a outra +sílaba. <br /> + +<br /> + +32. <em>ì</em>: Quando o +<em>i</em> que não forma ditongo +com a vogal +<span class="pagenum">[38]</span> +antecedente é átono, pode marcar-se com o acento +grave; ex.: <em>saìmento</em>, +<em>proìbir</em>, +<em>paìsagem</em>. <br /> + +<br /> + +33. O <em>i</em> nasal escreve-se com +<em>im</em> antes de +<em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>, ou quando final, <em>in</em> em +qualquer outra +situação; ex.; +<em>limbo</em>, <em>limpar</em>, +<em>fim</em>, +<em>fins</em>, +<em>findar</em>, +<em>afinco</em>, +<em>linfa</em>, +<em>ninfa</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +34. <em>j</em>: O +<em>j</em> escreve-se antes de +<em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>, +<em>e</em>, +<em>i</em>, e antes destas duas últimas vogais, +quando a etimologia +não justifica o emprêgo de <em>g</em>; +ex.: +<em>já</em>, +<em>jóia</em>, +<em>júbilo</em>; +<em>veja</em>, +<em>vejo</em>; <em>lojista</em>, +<em>laranjeira</em>, +<em>arranjar</em>, +<em>arranje</em>; +<em>Jerusalêm</em>, +<em>Jesus</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +35. <em>m</em>: Alêm do seu valor +como inicial, ex.: <em>mal</em>, +<em>tomar</em>, etc., o <em>m</em> designa as +vogais nasais +finais <em>im</em>, +<em>om</em>, +<em>um</em>, por exemplo, em <em>marfim</em>, +<em>som</em>, +<em>jejum</em>, e o ditongo nasal +<em>em</em>, como em <em>cecêm</em>, +<em>bem</em>, +<em>devem</em>, +<em>margem</em>. O +<em>m</em> muda-se em <em>n</em> ao +acrescentar-se +<em>s</em>; ex.: +<em>marfins</em>, +<em>sons</em>, +<em>jejuns</em>, +<em>cecêns</em>, <em>bens</em>, +<em>margens</em>. <br /> + +<br /> + +36. <em>m</em>: Expressa com +<em>a</em> +(<em>am</em>) o ditongo +<em>ão</em> átono de +formas verbais; ex.: <em>louvam</em>, +<em>louvaram</em>. <br /> + +<br /> + +37. <em>m</em>: Denota qualquer vogal nasal +inicial ou medial antes de <em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>; ex.: +<em>embora</em>, +<em>empada</em>, +<em>emmalar</em>, +<em>bambo</em>, <em>êmbolo</em>, +<em>campo</em>, +<em>sempre</em>, +<em>limpo</em>, +<em>comprar</em>, +<em>sumptuoso</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +38. <em>n</em>: Alêm do seu valor +como inicial de sílaba, como em <em>nau</em>, +<em>neve</em>, +<em>nitro</em>, +<em>nove</em>, +<em>nuvem</em>, +<em>cana</em>, +<em>pena</em>, +<em>bonito</em>, +<em>nono</em>, <em>canudo</em>, etc., designa +as vogais +nasais, quando está seguido de consoante que não +seja +<em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>, ou a vogal não +é final de vocábulo; ex.: +<em>lança</em>, +<em>lenço</em>, +<em>cinto</em>, +<em>onça</em>, +<em>funcho</em>, <em>fins</em>, +<em>sons</em>, +<em>jejuns</em>. Com +<em>e</em> designa tambêm o ditongo +nasal <em>ẽi</em>, quando se lhe segue +<em>s</em> final: ex.: +<em>nuvens</em>, +<em>armazêns</em>, <em>tens</em>, +<em>bens</em>. <br /> + +<br /> + +39. <em>nn</em>: Emprega-se no prefixo +<em>en</em>, antes de +<em>n</em> do vocábulo a que se junta; ex.: <em>ennodoar</em>, +de +<em>nódoa</em>, +<em>ennastrar</em>, de <em>nastro</em>. <br /> + +<br /> + +40. <em>nh</em>: Denota únicamente +a nasal palatal que se observa em <em>manhã</em>, +<em>lenha</em>, +<em>linho</em>, +<em>vergonha</em>, +<em>pezunho</em>; e conseguintemente escrever-se +há +<em>inábil</em>, +<em>inumano</em>, +<em>inibir</em>, sem +<em>h</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +41. <em>o</em>: Esta letra tem os seguintes +valores. <br /> + +<br /> + +Átona vale por <em>u</em>; ex.: +<em>lado</em>, +<em>dolo</em>, +<em>faro</em>, +<em>proteger</em>, <em>comum</em>, +<em>fortuna</em>. A escolha entre +<em>o</em> e +<em>u</em>, para expressar êste som, depende da +origem; assim escreve-se +<em>formosura</em>, de <em>formoso</em>, de +<em>forma</em>; +<em>portaria</em>, de +<em>porta</em>; +<em>monumento</em> (do lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">monumentu</span>m); +<em>govêrno</em> (do lat. pop. +<span class="pagenum">[39]</span> +<span style="letter-spacing: 0.2em;">gobernu</span>m, +lit. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">gŭbernu</span>m); +rotunda (lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">rotund</span>a); +<em>goraz</em> +(lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">uorace</span>m); +etc. <br /> + +<br /> + +42. <em>o</em>: Expressa o +<em>o</em> aberto, como em +<em>toca</em>, +<em>volta</em>, <em>poste</em>, etc., quando +é +tónico, e átono em certas +condições, como <em>adoptar</em>, +<em>nocturno</em>, isto é, seguido +de <em>p</em> ou +<em>c</em> na mesma sílaba, quer essas +consoantes se profiram, como em +<em>optar</em>, <em>cocção</em>, +quer +sejam mudas. <br /> + +<br /> + +43. <em>o</em>: Designa +<em>o</em> fechado tónico, como em +<em>bolo</em>, +<em>boca</em>, ou átono como em +<em>horrível</em>, +<em>cânon</em>, e +<em>o</em> átono antes de +<em>l</em>, como em <em>voltar</em>, +<em>soldado</em>. <br /> + +<br /> + +44. <em>ó</em>: Denota o +<em>o</em> aberto, quando a +acentuação gráfica é de +regra; ex.: +<em>avó</em>, +<em>hipódromo</em>, +<em>órfão(s)</em>, +<em>sós</em>, +<em>vós</em>, +<em>móvel</em>, <em>móveis</em>, +<em>móbil</em>, +<em>cómodo</em>, etc. <br /> + +<br /> + +45. <em>ò</em>: Serve para +designar <em>o</em> aberto átono +em homógrafos, como <em>mòlhada</em>, +diferente +de <em>molhada</em>, e ainda para expressar o acento +secundário de palavras que tenham dois, como <em>pòzinho</em>, +<em>sòzinho</em>, etc. <br /> + +<br /> + +46. <em>ô</em>; Designa o +<em>o</em> fechado tónico, quando +as regras de acentuação gráfica o +exijam; ex.: +<em>avô(s)</em>, +<em>côr</em> (cf. +<em>cor</em>), <em>pôde</em> (cf. +<em>pode</em>), <em>sôbre</em> +(cf. +<em>sobre</em>), +<em>fôrma</em> (cf. +<em>forma</em>), +<em>lôgro</em> (cf. <em>logro</em>), +<em>lôbrego</em>, +<em>sôfrego</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +47. Cumpre não confundir na escrita +<em>o</em> fechado com o ditongo <em>ou</em>, +que se mantêm +distinto nos falares provinciais; assim <em>osso</em> +substantivo escrever-se +há com <em>o</em>, mas <em>ouço</em> +verbo, com +<em>ou</em>. <br /> + +<br /> + +48. <em>ou</em>: Este ditongo tem por origem +<em>au</em> arábico, como em <em>açougue</em>, +<em>au</em> latino, como em +<em>touro</em>, +<em>oc</em>, +<em>ap</em>, +<em>al</em>, latinos, como em <em>noute</em>, +<em>toutiço</em>, +<em>outeiro</em>. Em geral alterna com o ditongo <em>oi</em>, +sendo lícito, +em grande número de vocábulos, empregar-se um ou +o outro. <br /> + +<br /> + +49. <em>õ</em>: Esta letra usa-se +únicamente no ditongo nasal <em>õe</em>, +como +<em>põe(s)</em>, +<em>lições</em>. O +<em>o</em> nasal, fora dêste caso +único, é escrito com <em>om</em>, se +é final ou está antes de +<em>b</em>, +<em>p</em>, +<em>m</em>, e com <em>on</em> em qualquer +outra +condição; ex.: +<em>som</em>, +<em>romper</em>, +<em>rombo</em>, <em>emmolhar</em>; +<em>sons</em>, +<em>contar</em>, +<em>confiar</em>, +<em>conchegar</em>, +<em>esponja</em>, +<em>fonte</em>, <em>bondade</em>, +<em>cônscio</em>, +<em>Ônfale</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +50. <em>p</em>: Esta letra não se +duplica. Conserva-se o <em>p</em> mudo depois das vogais <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> átonas, quando essas +vogais permanecem abertas, como em +<em>adopção</em>, +<em>recepção</em>, +<em>exceptuar</em>. Conserva-se ainda o <em>p</em>, +se essas +vogais são tónicas, em vocábulos +aparentados, como +<em>excepto</em>, +<em>adopto</em>. Depois de outra qualquer vogal suprime-se +o <em>p</em> +etimológico, se não é proferido; ex.: <em>pronto</em>, +<em>assunto</em>, +<em>assunção</em>, +<em>cinto</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +51. O <em>ph</em> etimológico +é em todas as circunstâncias +substituído por <em>f</em>; ex.: +<em>física</em>, +<em>tifo</em>, +<em>filtro</em>, +<em>profeta</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +52. <em>qu</em>: A letra +<em>q</em> é sempre seguida de +<em>u</em>, o qual é marcado com acento grave (<em>ù</em>) +antes de <em>e</em>, +<em>i</em>, se é proferido; ex.: <em>quente</em>, +<em>quinta</em>; +<em>freqùência</em>, +<em>eqùestre</em>, +<em>eqùidade</em>. Antes de <em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>, se o +<em>u</em> de +<em>qu</em> é mudo, substitui-se +êste grupo por <em>c</em>; ex.: +<em>catorze</em>, de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">quatordeci</span>m, +como +<em>caderno</em>, de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">quaternu</span>m; +<em>cota</em>, de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">quot</span>a, +como +<em>licor</em>, de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">liquore</span>m. +Se o <em>u</em> +é proferido antes +de <em>a</em>, +<em>o</em>, +<em>u</em>, conserva-se o grupo <em>qu</em>, +sem acento no +<em>u</em>; +<em>quatro</em>, +<em>aquoso</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +53. <em>r</em>, +<em>rr</em>: o +<em>r</em> forte escreve-se com +<em>r</em> simples quando é inicial de palavra, +ou de sílaba depois de +consoante; ex.: <em>rã</em>, +<em>ré</em>, +<em>rio</em>, +<em>rol</em>, +<em>rumo</em>, +<em>honra</em>, +<em>pilriteiro</em>, +<em>Israel</em>, etc. Entre vogais duplica-se; ex.: +<em>carrada</em>, +<em>carreta</em>, +<em>carril</em>, <em>carro</em>, +<em>arrumar</em>, +<em>farrusca</em>. <br /> + +<br /> + +54. Quando a um vocábulo começado por +<em>r</em> se acrescenta um prefixo terminado em vogal, +dobra-se o +<em>r</em>, por ficar entre vogais, para se lhe manter o +valor de inicial; ex.: <em>arrasar</em>, de +<em>raso</em>; +<em>arrostar</em>, de +<em>rosto</em>; +<em>prorrogar</em>, +<em>derrogar</em>, de <em>rogar</em>; +<em>corroer</em>, de +<em>roer</em>. <br /> + +<br /> + +55. O <em>r</em> brando, que +sómente se manifesfa em fim de sílaba, ou entre +vogais, ou depois de consoante pertencente à mesma +sílaba, escreve-se com +<em>r</em> simples; ex.: <em>dar</em>, +<em>pôr</em>, +<em>ver</em>, +<em>vir</em>, +<em>virtude</em>, +<em>verdade</em>, +<em>vórtice</em>, +<em>louvar</em>, +<em>dever</em>, <em>punir</em>, +<em>cravo</em>, +<em>fresco</em>, +<em>frigir</em>, +<em>crótalo</em>, +<em>frustrar</em>; +<em>cara</em>, +<em>fera</em>, <em>lira</em>, +<em>amora</em>, +<em>parada</em>, +<em>sereno</em>, +<em>sarilho</em>, +<em>caroço</em>, +<em>caruma</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +56. O <em>s</em> surdo assim se escreve como +inicial de palavra, ou depois de consoante, se é inicial de +sílaba; +ex.: <em>saco</em>, +<em>sé</em>, +<em>sirga</em>, +<em>só</em>,<em> +sul</em>, +<em>ânsia</em>, +<em>falso</em>, +<em>farsa</em>, +<em>lapso</em>, +<em>psicologia</em>, <em>absorver</em>. +Inicial antes de +<em>e</em>, +<em>i</em>, e depois da consoante, nas mesmas +condições, alterna com +<em>ce</em>, +<em>ci</em>, e sómente a +etimologia dos vocábulos, ou um vocabulário, +ensinam a +verdadeira escrita. O <em>s</em> corresponde a +<em>s</em> latino, o +<em>c(e)</em>,<em> +c(i</em>) a <em>ti</em>, +<em>ci</em> latinos, e a +<em>ss</em> arábicos; ex.: +<em>sela</em>, +<em>silvo</em>, +<em>selha</em>, +<em>persistir</em>, <em>canseira</em>, +<em>alicerce</em>, +<em>Alcácer</em>, etc. <br /> + +<br /> + +57. Entre vogais o <em>s</em> surdo +duplica-se, <em>ss</em>, e neste caso alterna com <em>ç</em> +cedilhado, +e com <em>ce</em>, +<em>ci</em>, nas mesmas +circunstâncias de proveniência dos +vocábulos; ex.: +<em>assar</em>, <em>assente</em>, +<em>assíduo</em>, +<em>posso</em>, +<em>assumir</em>, +<em>sossêgo</em>, +<em>passo</em>, de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">passum</span> +(cf. <em>paço</em>, +de +<span style="letter-spacing: 0.2em;">palatiu</span>m), +etc. <br /> + +<br /> + +58. O <em>s</em> sonoro só se +manifesta entre vogais, usualmente, e nesta +posição alterna com +<em>z</em>, correspondendo porêm +<span class="pagenum"><a name="p41">[41]</a></span> +sempre a <em>s</em> latino; +ex.: <em>casa</em>, +<em>César</em>, +<em>mês(es)</em>, +<em>residir</em>, <em>formoso</em>, +<em>uso</em>. Conquanto depois de consoante, +o <em>s</em> é sonoro no prefixo <em>trans-</em> +seguido de vogal, +como em <em>transeúnte</em>, <em>transacção</em>, +em +<em>obséquio</em> e seus +derivados, e num ou noutro vocábulo, precedido de consoante +sonora. <br /> + +<br /> + +59. Há duas terminações de +substantivos que não devem confundir-se: <em>-eza</em>, +do lat. +<em>-itia</em>, e +<em>-esa</em>, do lat. +<em>-ensa</em>; é esta que se escreve com +<em>s</em>, como em +<em>defesa</em>, +<em>devesa</em>, <em>presa</em>, +<em>despesa</em>, +<em>portuguesa</em>, etc. Semelhantemente, +escreveremos <em>asa</em>, do lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">ans</span>a, +<em>brasa</em>, em castelhano +<em>brasa</em>. <br /> + +<br /> + +60. Quando a um radical, ou a um vocábulo, +começados por <em>s</em>, se acrescenta um +prefixo +terminado em vogal, duplica-se o <em>s</em> se +êle se +profere surdo, escreve-se simples, se é pronunciado sonoro; +ex: +<em>assistir</em>, +<em>assombrar</em>, +<em>assumir</em>, <em>ressurgir</em>, +<em>pressentir</em>; mas +<em>residir</em>, +<em>presente</em>, +<em>resumir</em>, <em>resignação</em>, +<em>presunção</em>, +etc. <br /> + +<br /> + +61. O <em>s</em> final de sílaba, +seja como for proferido, escreve-se com <em>s</em>; ex.: +<em>custa</em>, +<em>cesta</em>, +<em>resma</em>, +<em>abismo</em>, +<em>hóspede</em>, <em>fosco</em>, +<em>balaústre</em>, +<em>lustre</em>, <em>musgo</em>. <br /> + +<br /> + +62. O <em>s</em> final de sílaba, +em monossílabos e em polissílabos que tenham como +predominante a última sílaba, +alterna com <em>z</em>, correspondendo +porêm sempre a <em>s</em> latino, e permanece +ainda quando, pela derivação ou +flexão do vocábulo, se lhe acrescenta uma +<a href="#e2">sílaba</a>, de que fica +sendo inicial; ex.: <em>português</em>, +<em>portuguesa</em>, +<em>portugueses</em>, +<em>cortês</em>, +<em>corteses</em>, <em>cortesia</em>, +<em>atrás</em>, +<em>vês</em> (verbo), +<em>vós</em>, +<em>nós</em> (pronomes), <em>pus</em> +(substantivo e verbo), +<em>pôs</em> (verbo), +<em>pós</em> (substantivo), <em>pusera</em>, +<em>puser</em>, +<em>pusesse</em>, etc. Em um único +vocábulo arábico, rês, é o <em>s</em> +final árabe representado por +<em>s</em>, como em castelhano (<em>res</em>). <br /> + +<br /> + +A consulta a vocabulário é +indispensável e muito favorece o acêrto na escrita +a comparação com as +correspondentes formas castelhanas. <br /> + +<br /> + +63. O <em>s</em> inicial surdo é +seguido de <em>c</em> nos seguintes +vocábulos e seus derivados: <em>scena</em>, +<em>scetro</em>, +<em>scéptico</em>, +<em>scelerado</em>, <em>sciente</em>, +<em>scisma</em>, +<em>scintila</em>, +<em>scisso</em>, +<em>scisão</em>, +<em>scissura</em>, +<em>scissíparo</em>, <em>sciático</em>, +e um ou outro +mais, pouco usados. <br /> + +<br /> + +<br /> + +64. <em>t</em>: o +<em>t</em> nunca se duplica, expressa +constantemente o mesmo som, e substitui em todos os casos o +<em>th</em> etimológico; ex.: <em>ter</em>, +<em>atitude</em>, +<em>meter</em>, +<em>teto</em>; +<em>teatro</em>, +<em>patológico</em>, +<em>simpatia</em>, <em>etnografia</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +65. <em>u</em>: Esta letra expressa sempre o +mesmo som, mais ou menos atenuado antes e depois de vogal, como +elemento +<span class="pagenum">[42]</span> +fraco dos ditongos; ex.: <em>tu</em>, +<em>pueril</em>, +<em>auto</em>. Antes de vogal alterna, átono, +com +<em>o</em> nas mesmas +condições e só a analogia e a +etimologia doa vocábulos decidem da escrita correcta; ex.: <em>suar</em> +(e +<em>soar</em>), +<em>muar</em>, +<em>ruína</em>, etc. Depois de consoantes +alterna igualmente com <em>o</em> +átono; ex.: <em>mural</em> de <em>muro</em>, +a par de +<em>moral</em> do lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">more</span>s; +<em>tunante</em>, de +<em>tuna</em>, <em>tonante</em>, lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">tonante</span>m. +<br /> + +<br /> + +66. <em>ú</em>: Representa esta +letra acentuada o <em>u</em> +tónico, quando as regras de acentuação +gráfica +o exigem; ex.: <em>único</em>, +<em>núncio</em>, +<em>saúde</em>, +<em>útil</em>,<em>argúi</em>. +<br /> + +<br /> + +67. <em>ù</em>: O +<em>u</em> com acento grave indica +não fazer ditongo com a vogal anterior, sendo +átono; ex.: +<em>saùdar</em>. Designa tambêm o <em>u</em> +proferido dos +grupos <em>qu</em>, +<em>gu</em>; ex.: +<em>argùir</em>, <em>freqùente</em>. +<br /> + +<br /> + +68. <em>x</em>: Esta letra tem cinco valores +no idioma comum e literário; são os seguintes: <br /> + +<br /> + +1.º Como inicial―<em>xadrez</em>, +<em>caixa</em>.<br /> + +<br /> + +2.º Como +<em>ss</em>―<em>auxílio</em>, +<em>próximo</em>.<br /> + +<br /> + +3.º Como +<em>s</em>―<em>mixto</em>, +<em>Félix</em>.<br /> + +<br /> + +4.º Como <em>cs</em>; +<em>cx</em>―<em>fixo</em>, +<em>sexo</em>; +<em>córtex</em>, +<em>sílex</em>.<br /> + +<br /> + +5.º Como +<em>(e)is</em>―<em>exame</em>, +<em>êxito</em>, +<em>texto</em>.<br /> + +<br /> + +Nas palavras de origem arábica, e quando é +inicial, tem sempre o primeiro valor; ex.: +<em>xabouco</em>, +<em>axorca</em>, +<em>xarope</em>, <em>elixir</em>; +<em>Xerxes</em>, +<em>Xenofonte</em>, etc. <br /> + +<br /> + +69. Alêm desta multiplicidade de valores, alterna, com +relação ao primeiro, com o grupo +<em>ch</em>, o qual, como já se disse, +representa <em>cl</em>, +<em>fl</em>, +<em>pl</em> latinos; assim, temos; +<em>xá</em> (rei) e <em>chá</em> +(planta), +<em>xeque</em> (regedor) e +<em>cheque</em> (bilhete de banco), <em>buxo</em>, +lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">buxum</span> +(planta), e +<em>bucho</em>, lat. +<span style="letter-spacing: 0.2em;">musc'lum</span> +(estômago e +músculo). <br /> + +<br /> + +A consulta ao +<span class="smallcaps">Vocabulário</span> +é indispensável para o emprêgo de +qualquer dêstes dois símbolos, actualmente +equivalentes no valor. <br /> + +<br /> + +<br /> + +70. <em>z</em>: Como inicial, ou +depois de consoante, expressa o mesmo som que se ouve em +<em>zêlo</em>, +<em>azeite</em>, +<em>zurzir</em>. Os vocábulos formados com o +prefixo <em>trans-</em>, e a +palavra <em>obséquio</em> e seus +derivados, todavia, escrevem-se com +<em>s</em>, que representa <em>s</em> latino, +como em +<em>transir</em>, +<em>trânsito</em>, +<em>transacção</em>. <br /> + +<br /> + +71. O <em>z</em> entre vogais +corresponde a <em>z</em>, a +<em>ti</em>, e a +<em>ce</em>, +<em>ci</em> latinos, como em <em>baptisar</em>, +<em>razão</em>, +<em>fazer</em>, +<em>vazio</em>, e nisto se +diferença do <em>s</em> entre vogais que a +<em>s</em> latino corresponde. Os sufixos <em>-izar</em>, +<em>-izante</em>, etc., escrevem-se sempre +com <em>z</em>, como em <em>anarquizar</em>, +<em>judaìzante</em>; +<em>analisar</em>, porêm, porque +provêm +<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span> +de +<em>análise</em>, tem +<em>s</em> e não +<em>z</em>; <em>horizonte +z</em> e não +<em>s</em>. Em palavras de origem arábica +é +<em>z</em> e não +<em>s</em> que se escreve; ex.: <em>azarola</em>, +<em>azeite</em>, +<em>azougue</em>. O sufixo +<em>-eza</em>, como proveniente de <em>-itia</em> +latino, tem +<em>z</em>; mas das +terminações +<em>ansa</em>, <em>ensa</em>, latinas, +procedem os +vocábulos e as formas +<em>asa</em>, +<em>defesa</em>, <em>presa</em>, etc. <br /> + +<br /> + +O recurso ao +<span class="smallcaps">Vocabulário</span> +é de necessidade para os casos duvidosos, como o +é para a hipótese +seguinte. <br /> + +<br /> + +72. O <em>z</em> final de palavra cuja +última sílaba seja a predominante, bem como o de +vários monossílabos, alterna com <em>s</em>, +e tem o valor dêste +no idioma literário e comum. <br /> + +<br /> + +Deve ter-se em atenção que o +<em>s</em> corresponde sempre a <em>s</em> +latino, e o +<em>z</em> a +<em>c</em> latino e a +<em>ss</em> ou +<em>zz</em> arábicos; assim +teremos: <em>luz</em>, +<em>voz</em>, +<a href="#e3"><em>falaz</em></a>, <em>feliz</em>, +<em>atroz</em>, +<em>vez</em>, +<em>capuz</em>, +<em>faz</em>, +<em>fêz</em>, de origem latina, <em>algoz</em>, +<em>alcatraz</em>, +<em>albornoz</em>, de origem +arábica; a única excepção +é +<em>rês</em>, como já se +disse. <br /> + +<br /> + +73. Nos patronímicos as terminações +<em>es</em>, +<em>s</em>, conquanto provenientes de <em>ici</em> +latino, +escrever-se hão com <em>s</em>, +porque na sua maioria o sufixo português é +átono; ex.: <em>Rodrigues</em>, <em>Nunes</em>, +<em>Gonçalves</em>; +<em>Dias</em>; +<em>Martins</em>, +<em>Miguéis</em>; etc. +Semelhantemente, é substituído por +<em>s</em> um antigo +<em>z</em> final de sílaba, como em +<em>mesquinho</em>, +<em>mesquita</em>, +<em>visconde</em>, etc. <br /> + +<br /> + +<br /> + +74. <em>k</em>, +<em>w</em>, +<em>y</em>. Estas tres letras, proscritas do +abecedário português, sómente +são +admitidas na escrita de vocábulos estrangeiros, como <em>Kant</em>, +<em>Darwin</em>, +<em>Byron</em>, e nos seus derivados portugueses, como +<em>kantismo</em>, +<em>darwinismo</em>, byroniano, que podem todavia ser +escritos +<em>cantismo</em>, +<em>daruìnismo</em>, <em>baironiano</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +75. Escrever-se hão iniciais maiúsculas +em meio de períodos ou orações +gramaticais, nos seguintes casos: <br /> + +<br /> + +a) Nomes próprios de pessoas ou lugares, ruas, etc.; <br /> + +<br /> + +b) Nomes colectivos designando cargos, em +substituição das pessoas que os desempenham; ex.: +<em>Estado</em>, +<em>Govêrno</em>, <em>Companhia das +Águas</em>, +<em>Centro Comercial</em>, +<em>Patriarcado</em>, <em>Cúria</em>, +etc.; <br /> + +<br /> + +c) Individualidades que +exercem importantes cargos: <em>Ministro da +Marinha</em>, +<em>Presidente</em>, +<em>Juiz</em>, etc.; <br /> + +<br /> + +d) Repartições públicas: +<em>Direcção Geral das +Colónias</em>, <em>Ministério da +Guerra</em>, +etc.; <br /> + +<br /> + +e) Nomes de astros, divindades: +<em>Vénus</em>, +<em>Terra</em>, +<em>Sol</em>, etc.; <br /> + +<br /> + +f) Nomes dos meses, nas datas; <br /> + +<br /> + +g) Títulos de livros, excepto as partículas +monossilábicas, que se escreverão com +minúsculas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +76. Hifen (-). <br /> + +<br /> + +Êste sinal prende os vocábulos compostos, quando +os seus elementos, conservando a acentuação +própria, perdem em parte a sua +significação primordial; +ex.: <em>mãe-d'agua</em>, +<em>porta-bandeira</em>, +<em>água-forte</em>, +<em>franco-russo</em>, +<em>madre-pérola</em>, etc. <br /> + +<br /> + +77. O hífen une tambêm os pronomes +complementos átonos aos verbos de que dependem, quando +são +colocados depois dêstes; ex.: +<em>dou-te</em>, +<em>dou-to</em>, +<em>dás-mo</em>, +<em>louvá-lo</em>, +<em>louva-lo</em>, <em>louvam-no</em>, +<em>louva-o</em>, +<em>tenho-o</em>, +<em>tem-lo</em>, +<em>tem-no</em>, +<em>dávamovo-lo</em>, <em>deram-se</em>, +<em>deu-se-lhes</em>, etc. <br /> + +<br /> + +78. Quando, em fim de linha, se parte um vocábulo inteiro, +parte-se igualmente o hífen, isto é, +repete-se na linha seguinte, se unia os elementos de uma +dição +composta; ex.: <em>porta-/-voz</em>, +<em>dou-/-to</em>. <br /> + +<br /> + +79. O hifen (-), com o nome de linha divisória, +divide, de uma para outra linha, as sílabas de uma palavra; +ex.: <em>pas-/ta</em>, +<em>do-/res</em>, +<em>ve-/zes</em>, +<em>parti-/cular</em>, +<em>di-/gnidade</em>, <em>subs-/tância</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +80. Pontos de +interrogação (?) e +exclamação (!).<br /> + +<br /> + +À imitação da ortografia espanhola, +é conveniente assinalar com êstes pontos o +principio de uma +oração interrogativa ou exclamativa, +invertendo-os, todas as vezes que ela excede quatro ou cinco palavras, +para que essa oração seja logo devidamente +entoada; ex.: +<em>¿Quando soubeste que a tua família +chegava de fora hoje?</em> <br /> + +<br /> + +<br /> + +81. Acentuação +gráfica.<br /> + +<br /> + +A rigorosa acentuação gráfica das +palavras portuguesas deve satisfazer às +condições +seguintes: <br /> + +<br /> + +1.ª Indicar, com a maior segurança para quem +lê, +quais são os vocábulos átonos e quais +os +tónicos, e nestes qual seja a sílaba +predominante, quando tenham mais de uma; <br /> + +<br /> + +2.ª Diferençar entre si vocábulos que se +escrevem com as mesmas letras, mas divergem na pronúncia e +na +significação, ou função +gramatical, <br /> + +<br /> + +82. Os +vocábulos portugueses são: de +uma sílaba, monossílabos; de duas, +dissílabos; de +mais de duas, polissílabos; ex.: +<em>pá</em>, +<em>pára</em>, +<em>parada</em>. <br /> + +<br /> + +83. Há nos monossílabos e dissílabos +vocábulos tónicos, <em>dá</em>, +<em>pára</em>, e +vocábulos átonos, +<em>da</em>, +<em>para</em>. <br /> + +<br /> + +84. Os dissilabos tónicos podem ter como sílaba +predominante a primeira, <em>mares</em>, ou a segunda, +<em>marés</em>; os +polissílabos podem ter como predominante a +última, <em>falará</em>, +<span class="pagenum">[45]</span> +a penúltima, <em>falara</em>, ou +antepenúltima, <em>faláramos</em>. +Os +vocábulos cuja última silaba é a +predominante denominam-se agudos ou oxítonos; se a silaba +predominante é a penúltima, dizem-se graves, +inteiros, ou +paroxítonos; se a predominante é +antepenúltima, recebem o nome de esdrúxulos, ou +proparoxítonos. <br /> + +<br /> + +85. Nenhum vocábulo português, de per si, pode ter +como sílaba predominante qualquer outra antes da +antepenúltima, conquanto haja dições +formadas por linguagens verbais acompanhadas de pronomes, a elas unidos +por hífen (-), em que a sílaba predominante, que +é a da +forma verbal, fica sendo a quarta ou a quinta a contar do fim; ex.: <em>dávamos-to</em>, +<em>dávamo-vo-lo</em>. Tais +dições em nada modificam na escrita a +acentuação gráfica da +forma verbal, a qual permanece. <br /> + +<br /> + +86. A sílaba tónica, quando se torna +necessário indicá-la na escrita, assinala-se com +o acento agudo (´) sôbre a vogal dominante dela, se +esta é +<em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> abertos, +<em>i</em> ou +<em>u</em>; com o acento circunflexo (^), se é +<em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> fechados. O til vale por acento +tónico, se outro não +está marcado no vocábulo; ex.: <em>fará</em>, +<em>maré</em>, +<em>portaló</em>, +<em>difícil</em>, +<em>útil</em>; +<em>câmara</em>, <em>mercê</em>, +<em>avô</em>, +<em>ânsia</em>, +<em>indulgência</em>, +<em>brônzeo</em>, +<em>fímbria</em>, +<em>núncio</em>; <em>varão</em>, +<em>maçã</em>, +<em>capitães</em>; +<em>órgão</em>, +<em>órfã</em>; +<em>munícipe</em>. <br /> + +<br /> + +87. Outro acento, o grave (`), +serve para designar, quando seja necessário ou +conveniente à correcta +pronunciação de um vocábulo ou forma +verbal, o valor +alfabético de qualquer das vogais <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em>, +<em>i</em>, +<em>u</em>, independentemente de serem +tónicas, e principalmente quando +o não são; ex.: <em>à</em>, +<em>pègada</em>, +<em>mòlhada</em>, +<em>faìscar</em>, +<em>saùdar</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +88. Estabelecidas estas premissas, pode preceituar-se uma rigorosa +acentuação gráfica, +inteiramente sistemática, a qual, sem ser profusa ou ociosa, +deixe bem patentes os factos apontados, quer seja expressa, +quer omissa a sua notação. <br /> + +<br /> + +<br /> + +89. Vocábulos não acentuados +gráficamente.<br /> + +<br /> + +a) Monossílabos e dissílabos átonos: +<em>o(s)</em>, +<em>a(s)</em>, +<em>lo(s)</em>, <em>la(s)</em>, +<em>no(s)</em>, +<em>na(s)</em>, +<em>do(s)</em>, +<em>da(s)</em>, +<em>ao(s)</em>, +<em>pelo(s)</em>, +<em>pela(s)</em>, <em>polo(s)</em>, +<em>pola(s)</em>, +<em>me</em>, +<em>mo(s)</em>, +<em>ma(s)</em>, +<em>te</em>, +<em>to(s)</em>, +<em>ta(s)</em>, +<em>lhe(s)</em>, <em>nos</em>, +<em>no-lo(s)</em>, +<em>no-la(s)</em>, +<em>vo-lo(s)</em>, +<em>vo-la(s)</em>, +<em>lho(s)</em>, +<em>lha(s)</em>; +<em>se</em>, <em>de</em>, +<em>por</em>, +<em>sem</em>, +<em>sob</em>, +<em>com</em>, +<em>ma</em>s, +<em>que</em>, +<em>porque</em>, +<em>tam</em> (abreviatura de <em>tanto</em>), +<em>sam</em> (abreviatura de +<em>santo</em>), etc. <br /> + +<br /> + +b) Monossílabos tónicos terminados em +<em>em</em>, +<em>ens</em>: +<em>bem</em>, <em>bens</em>, +<em>tem</em>, +<em>tens</em>, +<em>cem</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p46">[46]</a></span> +c) Formas verbais em <em>am</em>, +<em>em</em>, com a penúltima +sílaba como predominante, e substantivos +dissilábicos e +polissilábicos em <em>em</em>, +<em>ens</em>, nas mesmas +condições: +<em>louvam</em>, +<em>louvaram</em>, <em>louvem</em>, +<em>contem</em> (do verbo +<em>contar</em>); +<em>viagem</em>, +<em>viagens</em>, <em>ferrugem</em>, +<em>ferrugens</em>, etc. <br /> + +<br /> + +d) Monossílabos e dissílabos tónicos, +e polissílabos, terminados em <em>i</em>, +<em>u</em>, vogal nasal, ditongo, seguidos, +ou não, de <em>s</em>, e os terminados em outra +qualquer consoante, todos êles oxítonos: <em>vi(s)</em>, +<em>javali(s)</em>, +<em>cru(s)</em>, +<em>peru(s)</em>, +<em>lã(s)</em>, +<em>maçã(s)</em>, <em>sai(s)</em>, +<em>arrais</em>, +<em>mau(s)</em>, +<em>sarau(s)</em>; +<em>som</em>, +<em>sons</em>, +<em>atum</em>, <em>atuns</em>; +<em>mar</em>, +<em>der</em>, +<em>ser</em>, +<em>dor</em>, +<em>mal</em>, +<em>canal</em>, +<em>painel</em>, +<em>funil</em>, +<em>farol</em>, <em>azul</em>; +<em>mão(s)</em>, +<em>varão</em>, +<em>varões</em>, +<em>cruz</em>, +<em>Artur</em>, etc. <br /> + +<br /> + +e) Os dissílabos e polissílabos terminados +em <a href="#e4"><em>a(s)</em></a>, +<em>e(s)</em>, +<em>o(s)</em>, cuja penúltima +sílaba seja a predominante; ex.: <em>casa(s)</em>, +<em>camada(s)</em>, +<em>camarada(s)</em>, +<em>trave(s)</em>, +<em>parede(s)</em>, vicissitude(s), <em>desaire(s)</em>, +<em>modo(s)</em>, +<em>devoto(s)</em>, +<em>lume(s)</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Estas espécies compreendem a maioria dos +vocábulos portugueses, incluindo-se tambêm nelas +as mais das formas verbais, como <em>louvo</em>, +<em>louva(s)</em>, +<em>louve(s)</em>, +<em>louvava(s)</em>, +<em>louvara(s)</em>, <em>louvaria(s)</em>, +<em>louvares</em>, +<em>louvarei(s)</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +90. Vocábulos acentuados +gráficamente, +<em>cantar</em>, +<em>cantai</em>, fazer, fazei, fazendo sentir, +sentirão, sentis, etc.<br /> + +<br /> + +a) Monossílabos, dissílabos e +polissílabos terminados em <em>a(s)</em>, +<em>e(s)</em> e +<em>o(s)</em>, como sílaba +predominante, isto é, agudos, oxítonos; ex.: +<em>pá(s)</em>, +<em>sé(s)</em>, +<em>vê(s)</em>, +<em>mês</em>, +<em>pó(s)</em>, +<em>pôs</em>, +<em>fará(s)</em>, <em>maré(s)</em>, +<em>mercê(s)</em>, +<em>avó(s)</em>, +<em>avô(s)</em>, +<em>alvará(s)</em>, +<em>jacaré(s)</em>, <em>português</em>, +<em>portaló(s)</em>, etc. <br /> + +<br /> + +b) Dissílabos e polissílabos terminados em +<em>em</em>, +<em>ens</em>, cuja sílaba predominante seja a +última; ex.: +<em>vintêm</em>, +<em>armazêm</em>, <em>vintêns</em>, +<em>armazêns</em>, +<em>contêm</em>, +<em>contêns</em> (do verbo +<em>conter</em>), +<em>porêm</em>, <em>Jerusalêm</em>, +Belêm, etc. <br /> + +<br /> + +c) Dissílabos e polissílabos +terminados em <em>i</em>, +<em>u</em>, vogal nasal, ditongo, seguidos, ou +não, de +<em>s</em>, ou em outra qualquer consoante, quando a +sílaba +predominante seja a penúltima; ex: <em>quási</em>, <em>Vénus</em>, +<em>órfã(s)</em>, <em>órfão(s)</em>, +<em>louváveis</em>, <em>louváreis</em>, +<em>fácil</em>, +<em>fáceis</em>, +<em>têxtil</em>, +<em>têxteis</em>, +<em>cônsul</em>, +<em>sável</em>, +<em>sáveis</em>, <em>cadáver</em>, +<em>éter</em>, +<em>mártir</em>, +<em>sóror</em>, +<em>alcáçar</em>, +<em>Sófar</em>, +<em>açúcar</em>, +<em>gérmen</em>, <em>líquen</em>, +<em>Félix</em>, +<em>córtex</em>, +<em>sílex</em>, etc. <br /> + +<br /> + +d) Os ditongos, sempre tónicos, +<em>éi</em>, +<em>éu</em>, +<em>ói</em>, com +<em>e</em>, +<em>o</em> abertos; ex.: +<em>réis</em>, <em>batéis</em> +(cf. <em>reis</em>, +<em>bateis</em>), +<em>véu(s)</em>, +<em>chapéu(s)</em>, <em>sóis</em> +(cf. +<em>sois</em>, verbo), +<em>róis</em>, +<em>herói(s)</em>, +<a href="#e5"><em>jóia</em></a>, +<em>gibóia</em>, etc. <br /> + +<br /> + +e) O <em>a</em> da +terminação +<em>-ámos</em> da 1.ª pessoa do +plural do pretérito, para a diferençar de igual +pessoa do +presente; ex.: <em>louvámos</em> (cf. +<em>louvamos</em>=<em>louvâmos</em>). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +f) Os seguintes monossílabos e dissílabos +tónicos, para se diferençarem de outros +homógrafos +átonos: <em>quê</em>, +<em>porquê</em>, <em>pôr</em> +(cf. +<em>por</em> +preposição), +<em>pára</em> (cf. +<em>para</em>, +preposição); +<em>pêra</em> (cf. <em>pera</em>, +<em>p'ra</em>, +preposição), +<em>péla</em>, +<em>pélo</em>, +<em>pêlo</em> (cf. +<em>pelo</em>, +<em>pela</em>, preposição <em>per</em> +e artigo <em>lo</em>, +<em>la</em>), +<em>pólo</em> (cf. +<em>polo</em>, +preposição <em>por</em> e artigo +<em>lo</em>). <br /> + +<br /> + +g) Todos os vocábulos esdrúxulos, isto +é, que tenham como sílaba predominante a +antepenúltima; ex.: +<em>prática</em>; <em>ânimo</em>, +<em>ânsia</em>; +<em>férvido</em>, +<em>género</em>, +<em>gémeo</em>, +<em>génio</em>; +<em>pêssego</em>, +<em>fêmea</em>, <em>concêntrico</em>, +<em>tísico</em>, +<em>tirocínio</em>, +<em>fímbria</em>; +<em>próximo</em>, +<em>próprio</em>, <em>antimónio</em>; +<em>lôbrego</em>, +<em>brônzeo</em>; +<em>úbere</em>, +<em>lúgubre</em>, +<em>único</em>, +<em>núncio</em>; <em>cadáveres</em>, +<em>árvore(s)</em>, +<em>multíplice(s)</em>, +<em>múltiplo(s)</em>, +<em>quádruplo(s)</em>, etc. <br /> + +<br /> + +Assim tambêm as formas verbais esdrúxulas, tais +como <em>louvávamos</em>, +<em>louváramos</em>, +<em>louvaríamos</em>, +<em>devíamos</em>, +<em>devêramos</em>, <em>deveríamos</em>, +<em>puníamos</em>, +<em>puníramos</em>, +<em>puniríamos</em>, +<em>louvássemos</em>, <em>devêssemos</em>, +<em>puníssemos</em>, +<em>saíssemos</em>, +<em>fizéssemos</em>, etc. <br /> + +<br /> + +h) Marcam-se com o acento circunflexo os +<em>ee</em> e +<em>oo</em> fechados de vocábulos +paroxítonos terminados em +<em>o(s)</em>, <em>e(s)</em>, <em>o(s)</em> +fechados, quando haja outros, +escritos com as mesmas letras, em que essas vogais sejam abertas; ex.: +<em>rêgo</em>, <em>rôgo</em>, +substantivos, a par +de <em>rego</em>, +<em>rogo</em>, verbos; +<em>dêmos</em>, presente, a par de <em>demos</em>, +pretérito, +<em>sêde</em>, +<em>côrte</em>, +<em>côr</em>, +<em>mêdo</em>, a par de <em>sede</em>, +<em>corte</em>, +<em>cor</em>, +<em>medo</em>, com +<em>e</em>, +<em>o</em> abertos, etc. <br /> + +<br /> + +i) Marcam-se com o acento agudo (´) o +<em>i</em> e o +<em>u</em> que não formem ditongo com a vogal +anterior; ex.: +<em>país</em>, <em>saída</em>, +<em>faísca</em>, +<em>Taígeto</em>, +<em>saúde</em>, +<em>balaústre</em>, +<em>baú</em>, etc. <br /> + +<br /> + +j) Se o <em>i</em> ou +<em>u</em>, que não forma ditongo +com a vogal precedente, é átono, em vez do acento +agudo, usa-se o grave (`); ex.: <em>saìmento</em>, +<em>paìsagem</em>, +<em>saùdar</em>, +<em>abaùlado</em>; <br /> + +<br /> + +l) O acento grave designa tambêm o +<em>u</em> dos grupos +<em>qu</em>, <em>gu</em>, se é +proferido; ex.: +<em>conseqùência</em>, +<em>agùentar</em>, +<em>argùir</em>. Muda-se em agudo se +êsse <em>u</em> +é a vogal predominante, +<em>argúi</em>; cf. <em>argùi</em>, +pretérito; <br /> + +<br /> + +m) Emprega-se igualmente o acento grave para denotar que <em>a</em>, +<em>e</em>, +<em>o</em> átonos são +abertos, quando haja homógrafos, em que eles sejam surdos; +ex. +<em>à</em>, e +<em>a</em>; +<em>àquele(s)</em>, +<em>àquela(s)</em>, e <em>aquele(s)</em>, +<em>aquela(s)</em>; +<em>àparte</em>, substantivo, e +<em>aparte</em>, verbo; <em>prègar</em>, +e +<em>pregar</em>, de +<em>prego</em>; +<em>mòlhada</em>, de +<em>molho</em>, e +<em>molhada</em>, de <em>molhar</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +91. O acento distintivo (^), que assinala as vogais fechadas <em>ê</em>, +<em>ô</em>, só tem +aplicação, tanto nos monossílabos, +como nos dissílabos ou polissílabos, se existe +homógrafo, isto é, vocábulo escrito +com as mesmas letras, de que +<span class="pagenum">[48]</span> +haja de diferençar-se; pode portanto omitir-se em +<em>dor</em>, <em>poço</em>, +<em>cera</em>, por exemplo, porque +não existem, as palavras <em>dór</em>, +<em>céra</em>, e +<em>pósso</em>, verbo, +já se diferença de +<em>poço</em> em escrever-se com <em>ss</em>. +<br /> + +<br /> + +92. Semelhantemente, a +acentuação gráfica +omite-se logo que, pela flexão dos vocábulos, +deixam de +existir as condições que a determinaram. +Dêste +modo, se temos de acentuar graficamente +<em>sêco</em>, +<em>sêca</em>, +<em>lôgro</em> para os +diferençar das correspondentes formas verbais +<em>seco</em>, +<em>seca</em>, +<em>logro</em>, com <em>e</em>, +<em>o</em> abertos, +a acentuação torna-se +inútil no +plural daqueles nomes masculinos, <em>secos</em>, +<em>logros</em>, mas terá de +manter-se em <em>sêcas</em>, em +razão da forma verbal +<em>secas</em>. Assim, tambêm, escreveremos +<em>vaidoso(s)</em>, +<em>vaidosa(s)</em>, sem sinal de acento no <em>o</em> +da +penúltima sílaba, conquanto a +pronúncia seja <em>vaidôso</em>, +<em>vaidósos</em>, +<em>vaidósa(s)</em>. Outro +tanto sucederá com relação +ao +<em>o</em> aberto de vários +substantivos no plural, correspondente a +<em>o</em> fechado no singular; assim teremos <em>tejolo</em> (<em>tejôlo</em>), +<em>tejolos</em> +(<em>tejólos</em>), sem acento +gráfico, mas <em>trôco</em>, +<em>trocos</em>, e +<em>troco</em>, verbo. <br /> + +<br /> + +As palavras <em>espôso</em>, +<em>espôsa(s)</em>, +terão acento marcado, em virtude de existirem as formas +verbáis +<em>esposa</em>, +<em>esposa(s)</em>, com <em>o</em> aberto; mas +o plural +<em>esposos</em> dispensa a +acentuação por não haver +homógrafo a diferençar. +Escreveremos <em>pôr</em>, com acento +circunflexo, para o diferençar de +<em>por</em>, +preposição; porêm <em>dispor</em>, +<em>propor</em>, +<em>expor</em>, etc., ortografam-se sem acento distintivo; +<em>português</em>, +<em>cortês</em> tem o acento +circunflexo no <em>e</em> por este pertencer à +última sílaba, predominante; em <em>portugueses</em>, +<em>portuguesa(s)</em>, +<em>corteses</em> omite-se o acento por ser +desnecessário, visto os vocábulos +haverem passado de oxítonos a paroxítonos em +<em>-esa(s)</em>,<em>-ese(s)</em>. +<br /> + +<br /> + +Por outra parte, +<em>árvore(s)</em> terá +acento marcado, por ser esdrúxulo, <em>arvore(s)</em>; +verbo, não o tem por ser paroxítono em <em>(e)s</em>. +<br /> + +<br /> + +93. A conjugação de um imperfeito ou condicional +de verbo, como <em>louvaria</em>, +<em>deveria</em>, +<em>puniria</em>, +<em>louvava</em>, +<em>devia</em>, <em>punia</em>, +receberá acento +nas formas esdrúxulas +<em>louvaríamos</em>, <em>louvávamos</em>, +<em>deveríamos</em>, +<em>devíamos</em>, +<em>puniríamos</em>, e nas +paroxítonas terminadas em ditongo, +<em>louváveis</em>, +<em>louvaríeis</em>, +<em>devíeis</em>, <em>deveríeis</em>, +<em>puníeis</em>, +<em>puniríeis</em>; mas +<em>saía</em> tê-lo +há em todas as pessoas do imperfeito, +<em>saía</em>, +<em>saías</em>, +<em>saía</em>, +<em>saíamos</em>, +<em>saíeis</em>, <em>saíam</em>, +porque o +<em>i</em> não forma ditongo com o +<em>a</em> que o precede. <br /> + +<br /> + +94. Os nomes próprios acentuam-se graficamente como os nomes +comuns; assim escreveremos +<em>Pôrto</em>, como +<em>pôrto</em>, diferençado de <em>porto</em>, +verbo; <em>Setúbal</em>, +<em>Pontével</em>, +<em>Pedrógão</em>, <em>António</em>, +<em>Tomás</em>, +<em>Tomé</em>, +<em>Nazaré</em>, +<em>Belêm</em>, +<em>Águeda</em>, etc. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[49]</span> +É em virtude desta regra que teremos de acentuar a forma +verbal <em>lêmos</em>, para +que se diference de <em>Lemos</em>, na escrita, como se +diferença na pronúncia. <br /> + +<br /> + +95. Os vocábulos compostos cujos elementos são +unidos por hífen (-) conservam os seus acentos +gráficos; +ex.: <em>mãe-d'agua</em>, <em>pára-raios</em>, +<em>pesa-papéis</em>. <br /> + +<br /> + +O mesmo se observará com os advérbios formados +com o sufixo <em>-mente</em>, dantes +independente, como substantivo que era, o que ainda se reconhece na +locução +<em>de boa mente</em>; ex.: <em>sómente</em>, +<em>cortêsmente</em>, +<em>rápidamente</em>, +<em>cristãmente</em>. <br /> + +<br /> + +96. Nos vocábulos derivados, aumentativos e deminutivos +formados com o infixo <em>z</em>, o acento +agudo converte-se em acento grave, para que se evitem +leituras +erróneas; ex.: <em>má</em>, +<em>màzinha</em>, +<em>màzona</em>; +<em>avó</em>, +<em>avòzinha</em>. <br /> + +<br /> + +<br /> + +97. Na escrita comum parte desta acentuação +rigorosa e sistemática poderá, em algumas das +suas +minúcias, ser dispensada; +não porêm +em livros didácticos, como gramáticas, +dicionários, compêndios de qualquer natureza que +sejam, nos quais por todas as razões, mas principalmente +para que se não difundam e propaguem erros na +pronúncia, convêm que seja fielmente aplicada; +podendo mesmo ser ampliada com a marcação, +mediante o +acento circunflexo, de todos +os <em>ee</em> e +<em>oo</em> fechados tónicos. Em qualquer caso, +todavia, cumpre que outros sistemas +arbitrários não substituam esta +acentuação +gráfica, metódica e harmónica, +prejudicando-a na sua coerência e +regularidade, a qual se baseia no exame escrupuloso dos factos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><big style="font-weight: bold;"><big>*</big></big><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +A Comissão termina esta exposição +expressando o voto de que, se merecer aprovação o +sistema +proposto, êle se propague por meio de cartilhas e +gramáticas, que minuciosamente o exemplifiquem, +independentemente do <span class="smallcaps">Vocabulário</span>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Direcção Geral da Instrução +Secundária, Superior e Especial, 23 de Agosto de 1911.<span style="font-style: italic;">―</span><em>Francisco +Adolfo +Coelho</em>, Presidente.―<em>José Leite de +Vasconcelos</em>, +Vogal.―<em>Cândido de Figueiredo</em>, Vogal.<span style="font-style: italic;">―</span><em>Manuel +Borges +Grainha</em>, Vogal.<span style="font-style: italic;">―</span><em>Aniceto +dos Reis +Gonçalves +Viana</em>, Relator.―<em>José Joaquim Nunes</em>, +Secretário. <br /> + +<br /> + +<div class="signature tinys">(Diário do +Govêrno n.º 213, de 12 de +Setembro de +1911).</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#p31">#pág. +31</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>dessas(s)</em></td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>dessa(s)</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#p41">#pág. +41</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">síbala</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">sílaba</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p43">#pág. 43</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>falar</em></td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>falaz</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p46">#pág. +46</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;"><em>(as)</em></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;"><em>a(s)</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p46">#pág. +46</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>joia</em></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>jóia</em></td> + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Bases para a unificação da ortografia +que deve ser adoptada nas escolas e publicações oficiais, by Anonymous + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK BASES PARA A UNIFICACAO *** + +***** This file should be named 28364-h.htm or 28364-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/3/6/28364/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/28364-h/images/cover.jpg b/28364-h/images/cover.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a06991d --- /dev/null +++ b/28364-h/images/cover.jpg diff --git a/28364-h/images/fig01.png b/28364-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..be0e9b2 --- /dev/null +++ b/28364-h/images/fig01.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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