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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:38:13 -0700 |
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| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:38:13 -0700 |
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diff --git a/28354-h/28354-h.htm b/28354-h/28354-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7b1c938 --- /dev/null +++ b/28354-h/28354-h.htm @@ -0,0 +1,4104 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>O Renegado a António Rodrigues Sampaio</title> + + + <meta content="Gomes Leal" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%;} +.tinys {font-size: 90%;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic; margin-left:7%;} +.intro1 {margin-left:20%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:35%;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.quote3 {margin-left:10%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:25%;} +.poetry1 {margin-left:20%;} +.poetry2 {margin-left:50%;} +.poetry3 {margin-left:30%;} +.poetry4 {margin-left:40%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by +António Duarte Gomes Leal + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio + carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa + +Author: António Duarte Gomes Leal + +Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Mar. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>O RENEGADO</h1> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4>GOMES LEAL </h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h1> +O<br /> + +<br /> + +RENEGADO </h1> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4> +A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO<br /> + +CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO </h4> + +<h5>SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA </h5> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +<img style="width: 150px; height: 38px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +<span style="font-weight: bold;"><br /> + +</span></div> + +<h4>LISBOA<br /> + +TYPOGRAPHIA―Largo dos Inglezinhos, 27<br /> + +1881 </h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +A<br /> + +<br /> + +MANUEL DE ARRIAGA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Eu bispo d'outra diocese...<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Guilherme +Braga</span> </div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, +presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos +negocios do reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como +áquelle que amo.<br /> + +<br /> + +Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem +na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado +desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e +importantes commissões de interesse publico; e querendo por +estes respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos +distinctos e revelantes +serviços prestados á dynastia, ás +instituições, á causa publica e +á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha +real consideração: hei por +bem nomear vos commendador da antiga e muito nobre ordem da Torre e +Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos conjunctamente +á dignidade de gran-cruz da mesma ordem.<br /> + +<br /> + +O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e +satisfação, e para que possaes desde +já usar das respectivas insignias, vos mando esta carta.<br /> + +<br /> + +Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.―El +Rei.―<em>Antonio José de Barros e +Sá</em>.<br /> + +<br /> + +Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, +presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos +negocios do reino».<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Já que El-Rei, teu +Senhor―contra a sua Mãe cara, +<br /> + +assim te premiou a ensanguentada +offensa,<br /> + +eu, um Juiz tambem―Juiz d'uma outra vara,<br /> + +contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença: </div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p7"></a> +<h3>I </h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna―<br /> + +Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,<br /> + +lanterna que accendi na grande escuridão<br /> + +sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,<br /> + +lanterna que accendi n'esta éra <a href="#e1">ensanguentada</a>, +<br /> + +lanterna que accendi, como em sinistra estrada<br /> + +por causa dos ladrões perdido viajante.<br /> + +Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante<br /> + +cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,<br /> + +perguntando-te, ó Velho―Onde está o Direito?<br /> + +O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio?<br /> + +Onde está o Pudor, rude ancião sombrio?<br /> + +Quem és? Quem és? Quem és?... velho +cheio de fel.<br /> + +Onde está ó Cain o teu irmão Abel?<br /> + +<br /> + +Quem és? Quem és?... Ó gloria, +ó nome hoje avitado?<br /> + +Tu foste a Alma do Povo―hoje és um renegado.<br /> + +<span class="pagenum">[8]</span> +Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,<br /> + +d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos<br /> + +ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla.<br /> + +Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla<br /> + +toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos<br /> + +maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,<br /> + +Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.<br /> + +Trago na minha mão a lampada da Ira.<br /> + +<br /> + +Eu sou esse rebelde herege, extraordinario<br /> + +que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,<br /> + +que préguei n'este tempo ás turbas assombradas<br /> + +a União e o Direito, e fui pelas estradas<br /> + +como S. Paulo foi na noute de Damasco,<br /> + +armado do Rancor, cheio do grande asco<br /> + +contra os Escribas vãos, os sordidos judeus,<br /> + +sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.<br /> + +Nós hoje―os infieis―não cremos nos milagres.<br /> + +Não me importa que tu, ó Velho, me consagres<br /> + +o epitheto brutal de herege ou de maldito.<br /> + +Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!<br /> + +<br /> + +Eu sou a voz da turba extranha e inominada<br /> + +que uma vez é soluço, outras a gargalhada<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +que chamam <em>povileu</em>, a plebe envilecida,<br /> + +n'uma éra de sangue, uma éra fratricida<br /> + +riscada por um sol velho e sanguinolento.<br /> + +Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.<br /> + +Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.<br /> + +Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão.<br /> + +O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.<br /> + +Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.<br /> + +<br /> + +Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,<br /> + +sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro<br /> + +tens renegado sempre, ó sordido traidor,<br /> + +em nome da sua ira, e em nome do suor<br /> + +que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo,<br /> + +que faz córar a rosa e rebentar o trigo,<br /> + +em nome dos seus mil cuspidos sacrificios<br /> + +do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,<br /> + +das suas mães sem pão, seus filhos no abandono<br /> + +como um farrapo velho e como um cão sem dono,<br /> + +em nome da Miseria, em nome da Innocencia<br /> + +de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,<br /> + +em nome do Direito, em nome d'esta Penna,<br /> + +escuta a minha voz, a voz que te condemna<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p10">[10]</a></span> +Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,<br /> + +forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente<br /> + +da plebe que trabalha, e com as mãos possantes<br /> + +sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,<br /> + +d'essa raça animal dos grandes infelizes<br /> + +que são na sociedade assim como <a href="#e2">as +raizes</a><br /> + +que em quanto estão no chão, na +solidão, no escuro,<br /> + +dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,<br /> + +vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas<br /> + +―estão as folhas no ar, altivas, gloriosas,<br /> + +olhando para o azul sereno das espheras,<br /> + +todas cheias de flor nas verdes primaveras,<br /> + +sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,<br /> + +tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos. +<br /> + +<br /> + +Sim, tu foste um plebeu―da raça antiga e rude,<br /> + +que trabalha no escuro assim como a Virtude.<br /> + +Sim, tu foste um plebeu―raça obscura e sem luz,<br /> + +d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.<br /> + +<br /> + +Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão.<br /> + +Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham<br /> + +se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!<br /> + +Sê maldito como elle, e seja o teu espinho<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,<br /> + +ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no +vento!...<br /> + +Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes<br /> + +das Alas do Dever, todas as sãas cohortes<br /> + +dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros,<br /> + +que trabalham na sombra assim como os mineiros,<br /> + +a lampada na mão augusta da Verdade,<br /> + +para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.<br /> + +Tu tinhas a teu lado os corações valentes<br /> + +dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes<br /> + +todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!...<br /> + +Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem,<br /> + +que ambicionavas já as pompas gloriosas,<br /> + +sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas<br /> + +que trabalham por nós noutes, dias inteiros,<br /> + +na officina, no val, nas minas, nos outeiros,<br /> + +e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,<br /> + +de que ser como eu sou―simples, leal plebeu.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...<br /> + +Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste<br /> + +a fronte d'ancião, a auréola sagrada<br /> + +que seria por nós mais do que idolatrada,<br /> + +teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,<br /> + +terrivel como Deus, teus louros d'homem puro<br /> + +para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo!<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Vergonha sobre ti e +os teus cabellos brancos!<br /> + +Vergonha sobre ti que como os saltimbancos<br /> + +foste lançar teu nome ao vento d'uma feira!<br /> + +Vergonha sobre ti, que como uma rameira<br /> + +que vende os seios nus em sordida estalagem<br /> + +ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,<br /> + +em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta,<br /> + +e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta,<br /> + +foste vender a honra ao ouro d'um senhor.<br /> + +Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor<br /> + +que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,<br /> + +do que ser um <em>ninguem</em>―puro, plebeu, +e pobre.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre os vis apostatas da Idea<br /> + +que negam como Pedro o fez depois da ceia<br /> + +na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes!<br /> + +Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,<br /> + +que levam a matar, balando, ao matadouro!<br /> + +Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,<br /> + +sua aureola santa e seu brasão de gloria<br /> + +por um titulo em vida―e um pontapé da Historia!<br /> + +<br /> + +Vergonha sob vós apostatas rafeiros<br /> + +que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span> +por que Judas vendeu esse de Nazareth!<br /> + +Vergonha sobre vós, apostatas sem fé<br /> + +messias sem pudor que andaes pelos caminhos<br /> + +prégando aos corações, embebedando em +vinhos<br /> + +de gloria e de ideal, e que depois ao Povo<br /> + +esse sublime Ancião de peito sempre novo,<br /> + +o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,<br /> + +açoutado de Deus, dos reis e dos imperios,<br /> + +mas que sempre enxotado―á chuva, ao vento, em pranto,<br /> + +leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,<br /> + +esse banido Ancião de todas as nações<br /> + +a quem vós atiraes á lucta e ás +sedições,<br /> + +mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,<br /> + +como um cego sem guia, esqualido, sosinho,<br /> + +n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,<br /> + +voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre vós, ó vendilhões do +templo!<br /> + +Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo<br /> + +de todos esses vis messias das viellas,<br /> + +mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas,<br /> + +que vão vender aos reis as suas +convicções!...<br /> + +Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões<br /> + +do meu chicote em fogo, irado, justiceiro<br /> + +para que ao vel-os nús, expostos no madeiro<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota<br /> + +ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota<br /> + +saiba o Povo afinal que é preciso escarrar<br /> + +no sacerdote infiel que vende o seu Altar. </div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p15"> +</a> +<h3>II</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Tu não sabes que gloria é ser +<a href="#e3">pamphletario</a>!<br /> + +É ser o vento rijo, o vento extraordinario<br /> + +que agita as multidões como um canavial,<br /> + +contra um farrapo regio, a purpura real<br /> + +contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.<br /> + +É ser o que protesta, o que ergue os +corações<br /> + +n'um arranque de heroe, á torre do Direito,<br /> + +é dar qual pellicano, o sangue do seu peito<br /> + +á Plebe sua mãe, como elle o dá aos +filhos.<br /> + +É ser o que não és. É +não trocar os brilhos<br /> + +d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,<br /> + +pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.<br /> + +É ser o que protesta―o que ergue uma lanterna<br /> + +na grande escuridão, na escuridão moderna,<br /> + +contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente<br /> + +a favor do <em>ninguem</em>, da Plebe, do +innocente.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span> +É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,<br /> + +a espada que degolla e o grito que condemna.<br /> + +É ser elle sósinho, altivo rebellado,<br /> + +o grito do mineiro e o espectro do enforcado<br /> + +que vem correr d'um leito o cortinado régio.<br /> + +É ter esse condão, o enorme privilegio<br /> + +d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,<br /> + +fazer gritar a espada e levantar as almas!<br /> + +É ver-se ás vezes só, pobre de terra +em terra,<br /> + +na floresta, no val, nas rochas ou na serra,<br /> + +á neve, <a href="#e4">á chuva</a>, +aos soes, nas +névoas estrangeiras,<br /> + +nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras<br /> + +pela neve polar, no exilio, nas ruinas,<br /> + +―mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,<br /> + +mal soar o seu nome―alevantar-se um peito<br /> + +e gritar:―Elle é que é a Espada do Direito!<br /> + +<br /> + +Ser pamphletario é―ser um pharol na noute<br /> + +ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.<br /> + +É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,<br /> + +toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,<br /> + +como agitou Marat,―ou aguçar a espada<br /> + +contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.<br /> + +É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,<br /> + +quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +ser chamado um hereje―e as pallidas mulheres<br /> + +quando veem surgir esses extranhos seres<br /> + +apertarem ao peito as timidas creanças.<br /> + +É andar pobre, exhausto, humilde como as granças<br /> + +errante, só, banido, exhausto pela terra,<br /> + +―mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,<br /> + +quer nos paços reaes, nas praças da Cidade<br /> + +a sua voz gritar―Alas á Honestidade!<br /> + +<br /> + +E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,<br /> + +frio como é a Lei, frio como Proudhon,<br /> + +chicotear sem dó os lombos dos Heroes,<br /> + +vender como Marat, na fome, os seus lençoes,<br /> + +mas nunca se vender, mas nunca transigir!<br /> + +É saber odiar, decapitar, punir<br /> + +e não se rebaixar nunca como um capaxo!<br /> + +É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,<br /> + +que aterra a noute vil d'um seculo maldito.<br /> + +É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito<br /> + +n'uma éra de luto, infame, ensanguentada<br /> + +em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada<br /> + +e morre como outr'ora amando o Raphael.<br /> + +E ter odio, é ter ira, é ter +despreso e fel<br /> + +contra uma horda vil de infames sacripantas.<br /> + +É levantar ao ceu livres espadas santas<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +todos os campeões das Alas do Rancor.<br /> + +É gritar, é gritar―«Eu sou o +<em>Odio</em>―<em>Amor</em>, +<br /> + +«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,<br /> + +«a voz d'aquelle infeliz, a quem não +dão um nome<br /> + +«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta<br /> + +«sem bençãos e +orações―como +uma prostituta.<br /> + +«Sou a voz do <em>ninguem</em>, a voz do +cannavial<br /> + +«que soluça, e não quebra ao rijo +temporal,<br /> + +«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,<br /> + +«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,<br /> + +«o que chamou a si os <em>tristes</em>, +exilados<br /> + +«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados<br /> + +«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,<br /> + +«o que chamou a si todos os opprimidos<br /> + +«todos que tinham sêde assim como Ismael<br /> + +«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!<br /> + +«Eu não sou como vós uma bexiga cheia<br /> + +«de colera, de fel, de inveja que guerreia,<br /> + +«e vem lançar á rua a sua roupa suja!<br /> + +«Eu não sou como vós um +<em>corvo</em>, uma coruja<br /> + +«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!<br /> + +«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,<br /> + +«tudo que é fraco, chão, vergado de +trabalho,<br /> + +«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,<br /> + +«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,<br /> + +«que vivem na abjecção e são +chamados +<em>fezes</em><br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> +«que chamam <em>povileu</em>, que chamam a +<em>gentalha</em>,<br /> + +«e gritei-lhes―Ávante! É hora da +batalha!<br /> + +<br /> + +Ora este hereje pois, ora este pamphletario,<br /> + +que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,<br /> + +este homem do Dever, este homem do Direito,<br /> + +que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,<br /> + +que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza<br /> + +dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,<br /> + +que em quanto tudo quer ser despota e opulento<br /> + +elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,<br /> + +que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,<br /> + +quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,<br /> + +que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,<br /> + +elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,<br /> + +quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,<br /> + +faz do Direito açoute, e faz da penna espada,<br /> + +e diz a um rei, um Czar, um déspota potente<br /> + +―Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente<br /> + +o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,<br /> + +o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,<br /> + +terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.<br /> + +―Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:<br /> + +―Vós tendes o <em>knut</em>―eu +tenho esta lanterna.<br /> + +<br /> + +Este homem inda que pobre, inda que perseguido,<br /> + +roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,<br /> + +inda que triste e só no seu isolamento,<br /> + +ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,<br /> + +inda que pobre e vil, inda que maltrapilho<br /> + +é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.<br /> + +<br /> + +Assim foste tambem, ó Velho solitario!<br /> + +Assim foste tambem grande pamphletario<br /> + +que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!<br /> + +Assim foste tambem quando eras puro e novo<br /> + +e sabias levar á guerra os corações,<br /> + +quando eras um açoute e o deus das multidões<br /> + +que vinham em tropel beijar os teus joelhos!<br /> + +Mas hoje tu o que és―escoria d'entre os velhos<br /> + +refugo de traidor, ó renegado hostil!<br /> + +Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!<br /> + +alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...<br /> + +<br /> + +És o que se vendeu!―Tu és uma cloaca.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ó seculo de ferro! ó +geração escrava!<br /> + +que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,<br /> + +no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,<br /> + +cae a agua do ceu como n'um poço velho!<br /> + +Sim a agua do ceu que faz viver a flôr<br /> + +mal que no poço cae transforma-se na lama!<br /> + +Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,<br /> + +que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?<br /> + +Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos,<br /> + +prégando a Negação, n'um funebre +arrepio,<br /> + +que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos<br /> + +como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio?<br /> + +Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos<br /> + +que dão prantos de sangue ás tuas +vexações,<br /> + +e do carro de fogo arrojam os seus mantos<br /> + +que arrastam á Revolta o mar das multidões?<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> +Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira<br /> + +vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.<br /> + +A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.<br /> + +A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!<br /> + +O Desespero crú esparge o seu veneno<br /> + +na taça d'ouro e onyx das jovens illusões.<br /> + +O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.<br /> + +O Mal com a tenaz aperta os corações!<br /> + +A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes<br /> + +ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro.<br /> + +Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes.<br /> + +Seu santo coração flameja como um astro!<br /> + +Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto<br /> + +sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!<br /> + +Só ella faz ouvir seu alaúde em luto<br /> + +que dá notas crueis de Maldição e +Morte.<br /> + +É só ella que empunha o seu chicote em fogo<br /> + +como o açoute de ferro indomito de Deus,<br /> + +para açoutar os reis, o falso demagogo,<br /> + +os biltres charlatães dos reis e dos plebeus.<br /> + +É só ella que faz na noute secular,<br /> + +na sua Lyra ouvir―não canticos d'amor―<br /> + +mas as notas fataes que entornam o luar<br /> + +da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.<br /> + +Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,<br /> + +que já tendes chorado e que sabeis rugir.<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span> +Quero em cordas de bronze os canticos das iras!<br /> + +É preciso açoutar, decapitar, punir!...<br /> + +Deixae agora o Amor e as brizas da bonança!<br /> + +Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!<br /> + +Pela noute vibrae as notas da Vingança.<br /> + +Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.<br /> + +<br /> + +Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,<br /> + +os atalhos do bosque e a <a href="#e5">lua da floresta</a>!<br /> + +Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,<br /> + +n'uma éra de sangue inhospita e funesta!<br /> + +Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,<br /> + +as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!<br /> + +porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.<br /> + +A Terra vae parir algum Christo do mal.<br /> + +Deixae de nos cantar as nuvens da bonança,<br /> + +e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,<br /> + +por que em breve já vem a hora da matança<br /> + +em que a Espada tem voz, e as torres vão cair.<br /> + +Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos,<br /> + +ó nuvens da manhã, ó flor da +romanzeira,<br /> + +ó torrentes do val, ó beijos amorosos<br /> + +da Mulher que se amou n'uma visão primeira!<br /> + +Tambem já te cantei, estrella do pastor,<br /> + +ó danças sobre a eira, ó lua das +marés.<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr,<br /> + +terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.<br /> + +Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito.<br /> + +Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.<br /> + +Foragido dos reis, armado do Direito<br /> + +faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>IV</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta<br /> + +tendo batido em vão foste á do lupanar,<br /> + +e ali deixaste a honra e a virgindade morta,<br /> + +como noiva infeliz que levam a enterrar!<br /> + +quando foste bater, chagado coração<br /> + +ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,<br /> + +e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão<br /> + +te sepultou em vida, e teu calor cingiu!<br /> + +quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,<br /> + +illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,<br /> + +viste tudo findar na enxerga repellente<br /> + +do teu leito de infamia―o catre do bordel!<br /> + +Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,<br /> + +como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,<br /> + +só achaste o silencio e o echo dos teus passos,<br /> + +o riso da cazerna e a noute das rameiras!<br /> + +<span class="pagenum">[26]</span> +quando ó loura mulher no berço excommungada<br /> + +por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,<br /> + +por tua propria Mãe talvez abandonada,<br /> + +pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!<br /> + +Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,<br /> + +e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,<br /> + +e a deixar teu amor na lama das regueiras,<br /> + +como os sedentos cães que vão beber nas ruas!<br /> + +Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,<br /> + +que uma mãe não beijou, que um Pae não +protegeu,<br /> + +achaste a Fome vil, velha de boca escura,<br /> + +n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!<br /> + +quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,<br /> + +pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,<br /> + +tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,<br /> + +sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!<br /> + +quando ó selvagem flor, ó poça do +abandono,<br /> + +sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,<br /> + +a Fome te obrigou qual magro cão sem dono<br /> + +a buscar na valleta o teu immundo pão!<br /> + +Dize sabias já, rainha da enxurrada,<br /> + +ave que não tens ninho e que empurrou a Fome<br /> + +que ha entes como tu―raça vil, condemnada,<br /> + +que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?<br /> + +Dize sabias já, loura infeliz sem pão<br /> + +que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span> +que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,<br /> + +sem terem como tu os chascos e o labeu?<br /> + +Dize sabias já que em quanto vaes na praça<br /> + +entre um circulo vil de chascos quaes facadas,<br /> + +elles vão affrontando a multidão que passa,<br /> + +em gloriosos trens de portas brasonadas?<br /> + +Dize sabias já, ó branca meretriz,<br /> + +que aos homens como cães cedes teu corpo nú,<br /> + +que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,<br /> + +mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?<br /> + +Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,<br /> + +por toda a rua hostil, por toda a rua séria,<br /> + +a distancia que vae dos <em>outros</em> ao +teu nada.<br /> + +Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!<br /> + +Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,<br /> + +entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,<br /> + +ó prostitutas vis! <a href="#e6">cadellas +açoutadas</a>!<br /> + +Ó rameiras da rua!―eu vos respeito mais.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>V</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Velho, escuta, esta voz.―Eu não sei perdoar:<br /> + +frio como um Destino eu heide-te açoutar<br /> + +até te ver em sangue os lombos aviltados!<br /> + +No estrume arrastarei teus louros profanados,<br /> + +que jazerão no esterco infame das viellas,<br /> + +onde vagam á lua os ébrios e as cadellas.<br /> + +Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado<br /> + +que depois de haver rido, haver calumniado<br /> + +uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha,<br /> + +―no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!―<br /> + +n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,<br /> + +depois de lhe chamar a <em>grande +prostituta</em><br /> + +nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo<br /> + +que ser do filho-rei o humillimo capaxo,<br /> + +nada achou mais servil, para apagar a offensa,<br /> + +do que vender a penna e perseguir a Imprensa!<br /> + +<span class="pagenum">[30]</span> +Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão,<br /> + +ó abysmo d'uma alma, ó rei da +Creação,<br /> + +foi Satan que te pôz o diadema escuro!<br /> + +Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro,<br /> + +macular para sempre a virginal gloria,<br /> + +cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,<br /> + +e envergonhar a campa humilde dos plebeus<br /> + +que foram os seus paes―e a pobre mãe nos ceus,<br /> + +matar os louros seus―aviltação eterna!<br /> + +como um ebrio que morre em chão d'uma taberna?<br /> + +És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma +etherea?<br /> + +Acaso és tão medonha ó funebre +Miseria,<br /> + +acaso és tão infame, ó magra +Messalina,<br /> + +que obrigas uma alma, essa porção divina,<br /> + +essa faisca eterna, eterna claridade,<br /> + +a assassinar sem dó a branca virgindade<br /> + +do seu passado santo e virgem coração,<br /> + +e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?<br /> + +<br /> + +Acaso ó ouro és tu―tu que nos fazes nobre?<br /> + +É tão terrível ser―puro, plebeu, e +pobre,―<br /> + +é tão torpe, é tão vil, ser +simples mas honrado,<br /> + +que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,<br /> + +que em certo dia vil―dia vil entre os dias,―<br /> + +se atire uma risada ás santas utopias<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +ás crenças virginaes da loura Mocidade<br /> + +á aureola ideal d'aquella santa edade,<br /> + +e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,<br /> + +pela libré d'um servo e a farda de um lacaio?<br /> + +Não! Não tem remissão este teu crime, +ó Velho!<br /> + +Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,<br /> + +o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso!<br /> + +Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,<br /> + +faminto como tu, irá lamber o manto<br /> + +do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,<br /> + +e de rastos, no chão, beijar o pó do throno.<br /> + +Por isso vou marcar-te infame cão sem dono,<br /> + +e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.<br /> + +Vaes ouvir a Justiça―a augusta, a verdadeira,<br /> + +a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,<br /> + +a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á +morte,<br /> + +com seu dedo de luz no livro do Futuro,<br /> + +a que arroja á gehenna eterna do monturo,<br /> + +e que com ferro em braza escreve os tristes fins<br /> + +dos juizes Caiphás, dos pifios Severins,<br /> + +e d'outros a quem heide em breve tomar contas!<br /> + +Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,<br /> + +a que gela no labio as phrases começadas,<br /> + +que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas,<br /> + +pelas suas crueis, fataes carnificinas,<br /> + +a que condemna os reis e as tropas assassinas,<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> +a que forma e dirige a Alma Universal.<br /> + +Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span> <span class="tinys">(levantando os +braços, clamando)</span></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eis aqui, ó Justiça, ó minha +Mãe austera,<br /> + +tua filha infeliz, que traz preza esta fera,<br /> + +este sinistro Reu que vês acorrentado!<br /> + +Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado<br /> + +que de mim motejou, como Cham riu do Pai!<br /> + +Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai<br /> + +que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,<br /> + +vinha bater no seu. O monstro não ladrava<br /> + +como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!<br /> + +Eil o! elle aqui está!―o rei dos saltimbancos!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude<br /> + +deve ser tambem forte assim como a Virtude.<br /> + +Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica +bem!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span><span style="font-weight: bold;">A Justiça</span> +<span class="tinys">(surpreza)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema +<br /> + +a injuria que te fez, ou o crime que o algema!<br /> + +De certo foi bem funda extraordinaria a offensa<br /> + +bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,<br /> + +bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional<br /> + +pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Plebe<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.<br /> + +Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna.<br /> + +Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida<br /> + +que vou de val em val, de mar em mar, varrida<br /> + +como a Judea antiga, a escrava, pela noute,<br /> + +chorando por seu Deus, sob o romano açoute.<br /> + +Meus filhos tambem vão chorando pela estrada.<br /> + +«Ás vezes diz-me um―Ó minha +Mãe amada!<br /> + +«Já temos caminhado em vão de serra em +serra.<br /> + +«Temos os pés em sangue! Á guerra, +ó +Mãe, á guerra!<br /> + +«Não temos vinho e pão! Não +temos o +sustento!<br /> + +«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!<br /> + +«Não temos luz e lar. Não temos nem +vestidos!<br /> + +«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +«olhar como o sol brilha em rútila grandeza!<br /> + +«Deus tambem para nós formou a Natureza.<br /> + +«Não é só para um rei, um +grande, uma +rainha<br /> + +«que a espiga dá seu pão e pampanos a +vinha!<br /> + +«Eu já sou forte, ó Mãe, eu +tenho as +mãos grosseiras<br /> + +«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,<br /> + +«eu quero transformar a minha enxada em lança,<br /> + +«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma +bonança!<br /> + +Ás vezes este filho energico, revel,<br /> + +é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell,<br /> + +outras com seu olhar veste os simples e os nus<br /> + +é plebeu e poeta e chama-se Jesus.<br /> + +Outras é um açoute, um vento rijo e austero,<br /> + +é um monge brutal e chama-se Luthero.<br /> + +Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente!<br /> + +falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente<br /> + +d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,<br /> + +com o sangue de heroes de louros victoriosos!<br /> + +Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira<br /> + +a bocca da Traição, a bocca da Mentira,<br /> + +apontando-me além teu sceptro de brilhantes.<br /> + +Eu levanto-me então assim como os gigantes,<br /> + +a espada dos heroes empunho sem demora,<br /> + +e cançada d'andar qual velho boi na nora<br /> + +da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção,<br /> + +prégo a santa Revolta á santa +Multidão!<br /> + +<span class="pagenum">[35]</span> +Mas então o servil, o immundo renegado,<br /> + +vende-se a quem me tem o peito ensanguentado<br /> + +no lodo da abjecção, no pó do +aviltamento!<br /> + +Fico então outra vez no meu isolamento,<br /> + +na minha escuridão chorosa, amarga, e séria,<br /> + +outra vez a puxar na nora da Miseria,<br /> + +outra vez a roer o pão amargo e escuro,<br /> + +pela fresta espreitando o dia do Futuro.<br /> + +<br /> + +Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.<br /> + +Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.<br /> + +Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.<br /> + +Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos,<br /> + +expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça.<br /> + +Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça<br /> + +expulsando-a de casa, em desabrida noute<br /> + +sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute.<br /> + +Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça.<br /> + +Justiça contra o vil!―Justiça, ó +Mãe, Justiça!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura,<br /> + +barro do homem vil, indigna creatura<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe!<br /> + +Póde acaso a Cobiça allucinar alguem<br /> + +por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,<br /> + +que transforme uma alma ingenua, verdadeira,<br /> + +um virgem coração, qual pagem branco e louro<br /> + +que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,<br /> + +a abandonar assim as illusões de gloria,<br /> + +sua auréola santa, o seu brazão na Historia,<br /> + +todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,<br /> + +todas as convicções da loura Mocidade,<br /> + +para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas<br /> + +d'um symbolo real eivado de gangrenas,<br /> + +e depois sem Amor, sem nada que conforta,<br /> + +a sua velha Mãe lançar fóra da porta!<br /> + +Alguem acaso viu o crime infame, enorme?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Consciencia Humana</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,<br /> + +alguem que sonda o mar e os fundos corações<br /> + +as insomnias dos reis e os somnos dos leões!<br /> + +Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado<br /> + +toda a noute escrever, d'olhar allucinado,<br /> + +pamphletos crueis na sordida trapeira.<br /> + +Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma +<em>rameira</em><br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +e <em>rainha assassina</em> á +tragica reinante.<br /> + +Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,<br /> + +prégar a sedição, direitos, regalias,<br /> + +e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias<br /> + +que fazem levantar na praça os estandartes!<br /> + +Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes<br /> + +do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,<br /> + +agachado na treva assim como as toupeiras,<br /> + +a minar, a minar, as monarchias vãas!<br /> + +Depois tambem o vi sobre os reaes divans,<br /> + +reclinando-se já com um praser secreto,<br /> + +contemplando os florões dourados pelo tecto,<br /> + +com um olhar d'abbade ou satyro contente,<br /> + +exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente<br /> + +«n'estes almofadins, entre estes reposteiros!<br /> + +«Gósto d'estes florões, +gósto d'estes +archeiros,<br /> + +«que fazem reluzir as suas alabardas!<br /> + +«Afinal os plebeus precisam―é d'albardas.<br /> + +«Que querem elles mais? Comer das ucharias,<br /> + +«beber como uns toneis, vir ás estrebarias,<br /> + +«e algum dia puxar pelas reaes carroças?...<br /> + +«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas<br /> + +«do mando, do poder, do luxo, da opulencia!<br /> + +«Gósto de ouvir dizer―Saiba Vossa Excellencia<br /> + +«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso +Senhor!<br /> + +«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +«que todo um refeitorio inteiro de bernardos.<br /> + +«Não sou como os plebeus que até +devoram cardos,<br /> + +«negro caldo espartano e sordidas raizes!<br /> + +«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!<br /> + +«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares<br /> + +«da ucharia dos reis que incensam bem os ares,<br /> + +«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!<br /> + +A Gloria é nome vão! Um fumo só na +Historia!<br /> + +«Da gloria não se vive. A Gloria é +só chimera.<br /> + +«El-Rei Ventre é que manda. O ventre +não espera.<br /> + +«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!<br /> + +«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,<br /> + +«as faces de setim das bellas camareiras!<br /> + +«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras<br /> + +«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,<br /> + +«que me fazem sonhar noutes voluptuosas<br /> + +«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.<br /> + +<br /> + +«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,<br /> + +«apertando entre as mãos as fórmas +femininas,<br /> + +«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,<br /> + +«d'uma mulher ideal que nos concede tudo,<br /> + +«semi núa, a sorrir, n'um leito de +velludo!...»<br /> + +<br /> + +Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!―<br /> + +Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +que tanta vez ladrou contra os brasões reaes!<br /> + +Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes,<br /> + +a bocca da Traição, a bocca da Mentira,<br /> + +a penna tinta em fel que semeou a Ira,<br /> + +o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!<br /> + +<br /> + +Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Justiça</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ha alguem que defenda o livido accusado?<br /> + +Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado, +<br /> + +que não se tenha nunca achado em morticinios,<br /> + +um braço recto e bom, puro dos assassinios,<br /> + +derramados no chão dos campos inda quentes,<br /> + +que não tenha contra elle a voz dos innocentes,<br /> + +nem erga contra si a voz dos opprimidos,<br /> + +ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos,<br /> + +cheio de convicção ao meu terrivel ceu?<br /> + +Ha alguem que erga um braço, um braço a +pró do Reu?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Ordem</span> <span class="tinys">(erguendo o +braço)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu +braço!<br /> + +Este reu que aqui vês não é um vil +devasso,<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +um baixo salteador d'estradas e caminhos!<br /> + +Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos.<br /> + +Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas,<br /> + +mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!<br /> + +Provarei, ó Justiça, até á +saciedade,<br /> + +que este reu até tem cheiro de santidade!<br /> + +A Plebe sua mãe é uma velha escrava,<br /> + +tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava<br /> + +«de guerra e sedição contra as +instituições!<br /> + +«Ella é que faz que El-Rei não durma em +seus +colxões<br /> + +«o somno da Innocencia o somno bom do Justo,<br /> + +«e que até, grandes ceus! faça o seu +chylo a +custo!<br /> + +«Ella é que faz que a Industria erre paralysada,<br /> + +«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada<br /> + +«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,<br /> + +«que toda a tropa fique em armas nos quarteis.<br /> + +«Ella é que impede e trava a roda Progresso!<br /> + +«Que dique lhe hei de oppôr?―Brado como um +possesso:<br /> + +«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros, +<br /> + +«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros<br /> + +«que querem supprimir a gothica realesa!<br /> + +«Enforcae-me quem cante a indigna +<em>Marselhesa</em>,<br /> + +«e clame mais do que eu as livres crenças suas!<br /> + +«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,<br /> + +«ou que ande a passear nas praças sem +licença!<br /> + +«Levantae uma forca enorme para a Imprensa.<br /> + +<span class="pagenum">[41]</span> +«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas.<br /> + +«Guiae-vos por Platão―lançae +fóra os +poetas<br /> + +«que são os mais reveis, fataes agitadores.<br /> + +«Guiae-vos por Platão―Nem sempre cantam flores!<br /> + +«Tambem sabem cantar as notas de batalha,<br /> + +fortes como os clarins, rijas como a +metralha,<br /> + +«e quando a Indignação a sua Musa +inspira<br /> + +«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!<br /> + +«No emtanto não pareis!―Nada de transigencias!<br /> + +«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,<br /> + +«tudo que se vender como quem vende um trapo!<br /> + +«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo.<br /> + +«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade<br /> + +«ponde a saque e a terror as ruas da cidade<br /> + +«para prender sem dó a infame biltraria,<br /> + +«d'essa cafila vil da vã demagogia,<br /> + +«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,<br /> + +que inda pede mais pão, mais +instrucção primaria!<br /> + +<br /> + +Ora tudo isto fez―eu juro-o pelo Ceu!<br /> + +para salvar a patria este sublime Reu.<br /> + +<br /> + +Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio<br /> + +que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +Oh doudas illusões da douda Mocidade!<br /> + +Quem póde erguer seu braço, o braço +sem piedade,<br /> + +contra o triste Ancião cheio de desenganos<br /> + +que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!<br /> + +Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos,<br /> + +contra quem soluçou ouvindo os Girondinos,<br /> + +e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas<br /> + +n'esses cantos de bronzes!―As almas dos Poetas<br /> + +fazem desabrochar os batalhões da terra!<br /> + +Na primavera em flor os peitos pedem guerra,<br /> + +aventuras, amor, cabeças de tyrannos!<br /> + +Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,<br /> + +Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono,<br /> + +vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do +Throno,<br /> + +vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores,<br /> + +vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores<br /> + +deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento!<br /> + +―Então ao craneo diz a aguia do Pensamento:<br /> + +«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,<br /> + +«e o peito despi nú aos turbilhões da +Sorte?<br /> + +«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,<br /> + +desdobrando na praça, +á Plebe, os estandartes<br /> + +«comendo o negro pão nos solos estrangeiros?<br /> + +«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,<br /> + +«com os quaes eu clamei no val e na montanha,<br /> + +«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +«prégando o Verbo Novo ás +multidões +sagradas?<br /> + +«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?<br /> + +Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?<br /> + +Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento?<br /> + +Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono?<br /> + +<br /> + +Então n'aquella noute arida, má, sem somno,<br /> + +escuta-se uma voz, que vem como a rajada,<br /> + +no vacuo e solidão da fria agua furtada,<br /> + +que grita em alta voz―Combateste por mim?<br /> + +<br /> + +Quem és tu? Quem és tu? Quem é que +falla assim?<br /> + +―Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde.<br /> + +O pensador então vae ver onde se esconde<br /> + +quem lhe dá um tremor indomito, suspeito,<br /> + +como nunca sentiu no antro do seu peito.<br /> + +Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.<br /> + +Mas cheio de terror, á livida lanterna,<br /> + +n'um tragico arrepio, á luz baça e +funérea,<br /> + +―vê sentada em seu lar a furia da Miseria!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ó Ordem acabaste?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Ordem<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Eu acabei, Justiça!</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Quem é que quer entrar por sua vez na liça,<br /> + +e á Ordem refutar o que ella diz do Reu?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Os +Perseguidos<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Somos nós, somos nós, que as nossas +mãos ao ceu<br /> + +erguemos muita vez nos asperos caminhos?<br /> + +Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos<br /> + +do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!<br /> + +Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos,<br /> + +levados atravez d'um turbilhão maldito,<br /> + +como errou Ismael, como o judeu proscripto<br /> + +queimado pelo sol vermelho das legendas.<br /> + +Somos nós, somos nós, que errámos sob +as tendas<br /> + +do excommungado Cham na treva e no abandono,<br /> + +ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno<br /> + +que depois de gyrar do furacão á toa<br /> + +vae rebolar do azul no lodo da lagôa.<br /> + +Somos nós os fieis que nunca vacillámos,<br /> + +os bronzeos corações que nunca trepidamos<br /> + +ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!<br /> + +Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, +ás luas<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +das solidões austraes, nos carceres, nas minas,<br /> + +lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas<br /> + +sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!<br /> + +Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos<br /> + +do exilio arrebatar os filhos degredados,<br /> + +as esposas e as mães violadas dos soldados,<br /> + +nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute!<br /> + +Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute,<br /> + +que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,<br /> + +temos o <em>Odio-Amor</em>, feito d'um +só brilhante.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco!<br /> + +Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.<br /> + +Responde justo e bem, sem ira, com clareza.<br /> + +Manda ao teu coração dictar tua defeza!<br /> + +E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres,<br /> + +ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">O Reu<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella!<br /> + +Eu não sei o que ladra a rábida cadella<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +contra mim amostrando os assassinos dentes!<br /> + +Não sei quem ella é. Não tenho taes +parentes.<br /> + +Não sei por que me cita a ladra ao tribunal.<br /> + +Eu jamais perturbei a Ordem social.<br /> + +Eu jamais sublevei as ondas populares!<br /> + +Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,<br /> + +e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!<br /> + +Não fui eu que arranquei a espada da bainha.<br /> + +Não fui eu que açoutei as santas dynastias,<br /> + +ao chicote infernal dos chascos e ironias,<br /> + +que sibilam no ar qual feixe de serpentes...<br /> + +Jamais calumniei...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span> +<span class="tinys">(surgindo, terrivel)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +Mentes, ó Velho! Mentes!</div> + +<div class="poetry1">Mentes, velho histrião +d'um throno gasto e ôco!<br /> + +Mentes homem venal, mentes despota louco!<br /> + +Mentes servil plebeu, indigno latrinario!<br /> + +Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario<br /> + +de pamphletos crueis na sordida trapeira!<br /> + +Não negues que chamaste, outrora, uma +<em>rameira</em><br /> + +á mãe do teu Senhor, á mãe +de El-Rei teu amo!<br /> + +Não negues que chamaste um bom <em>veado, um +gamo<br /> + +de silvestre armadura, e flórida ramagem</em><br /> + +ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +Não negues ante mim que sou o teu Espectro<br /> + +que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!<br /> + +Não negues que eu te vi na fria agua furtada<br /> + +levantando o Direito, ou revoltando a Espada,<br /> + +tendo acceso no olhar o sol da Indignação!...<br /> + +Não negues, ó Caim, que assassinaste o +irmão.<br /> + +Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes<br /> + +Não negues que nasceste assim como as serpentes,<br /> + +e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!...<br /> + +Não negues ser plebeu, não negues com desdem<br /> + +tua origem plebea, a tua Mãe escrava,<br /> + +nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava<br /> + +do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito!<br /> + +Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!...<br /> + +Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.<br /> + +Onde quer que tu estás encontras os meus braços!<br /> + +Onde quer que tu vás―vês o meu duro olhar!<br /> + +Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,<br /> + +e a revolver comtigo o lodo das paixões!<br /> + +Sou o cumplice teu nas velhas sedições,<br /> + +e ambos temos as mãos de sangue maculadas<br /> + +de ter á nossa voz feito arrancar espadas,<br /> + +e gottejar na rua o sangue do plebeu!<br /> + +Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu!<br /> + +Aquelle sangue brada e clama contra ti!<br /> + +Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span> +jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras,<br /> + +inundando a calçada e a lama das regueiras!<br /> + +Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,<br /> + +rudes heroes plebeus, levados á batalha,<br /> + +<a href="#e7">pela luz</a> do teu Verbo, e pela +espada nua,<br /> + +correndo em borbotões nos boqueirões da rua,<br /> + +despenhando-se ao sol na vasa das valletas!<br /> + +D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,<br /> + +cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,<br /> + +como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,<br /> + +gritando contra nós estranhas ameaças!<br /> + +E o sangue plebeu diz:―Em quanto <a href="#e8">sobre</a> +as +praças,<br /> + +«corria ao rubro só das luctas fratricidas,<br /> + +«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,<br /> + +«e abraçados, ao sol, morriam os valentes,<br /> + +«quando os peitos plebeus e os corações +dos +crentes<br /> + +«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço,<br /> + +«juntamente ao seu Odio o vingativo braço,<br /> + +«mal sabia eu então que tu que me levavas<br /> + +«á lucta, á guerra, ao ideal das +gerações escravas,<br /> + +«me havias renegar, infame! com desdouro,<br /> + +«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!<br /> + +<br /> + +«Maldição sobre ti, que com as impias +mãos,<br /> + +«sujas do sangue quente inda de teus irmãos<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span>«dos +guerreiros plebeus, dos corações dos bravos<br /> + +«que quizeram morrer para não ser escravos,<br /> + +«que tentando egualar os campeões das lendas<br /> + +«foram morrer ao sol heroico das contendas,<br /> + +«ousaste inda pegar na penna então sagrada<br /> + +«para a entregar ao rei, como vencida espada,<br /> + +«para escrever servis, ignobeis sacrilegios,<br /> + +«―e com ellas manchar os reposteiros régios!<br /> + +<br /> + +«Maldição sobre ti, Velho! que +atraiçoaste<br /> + +«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste<br /> + +«para chegar do Throno aos tragicos degraus!<br /> + +«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,<br /> + +«no meio das gentis duquezas decotadas<br /> + +«das camelias da Carne ás luzes desbotadas<br /> + +«quaes rosas de Saron aos gélidos luares;<br /> + +«has de ouvir minha voz no meio dos jantares<br /> + +«no fundo do teu sonho, em meio dos festins,<br /> + +«entre o tinir do copo, os cantos dos setins,<br /> + +«nos carros com brazões, de flexiveis mollas,<br /> + +«entre o <a href="#e9">gemer da flauta</a> +e os cantos das viollas!<br /> + +«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios<br /> + +«perseguindo-te até da treva nos mysterios,<br /> + +«chamando contra ti na voz de teus irmãos,<br /> + +«quando o teu labio abjecto oscule as régias +mãos, +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +«e a +mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa!<br /> + +«Eu serei, ó traidor, o cancro que te +rôa<br /> + +«o dente que te morda, o espinho que te fira,<br /> + +«o escalpello que te abra assim como quem vira<br /> + +«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia,<br /> + +«a lanceta que te abra a mais secreta veia,<br /> + +«o pôtro que te dê o mais horrivel trato,<br /> + +«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato.<br /> + +<br /> + +«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!...<br /> + +«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós +comtigo<br /> + +«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,<br /> + +«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito<br /> + +«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!<br /> + +«Ha sangue em tuas mãos―em teus vestidos sangue!<br /> + +«O sangue é que te lança a sua +maldição.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Reu</span> (caindo no +banco, aterrado)<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Sempre o Espectro cruel, sempre a +eterna visão!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Condemnou-te o teu grito infindo de +terror!<br /> + +Confessaste a Traição!―Trahiste-te traidor!<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!<br /> + +De nada te valeu ser cynico e atrevido.<br /> + +De nada te serviu a tua astucia e arte...<br /> + +<br /> + +Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte,<br /> + +sublimes corações que nunca transigistes!<br /> + +Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes,<br /> + +que tendes amassado o vosso pão com pranto!<br /> + +Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo<br /> + +mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte,<br /> + +ferreiros que forjaes as armas contra a morte,<br /> + +sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!<br /> + +Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude<br /> + +que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça,<br /> + +erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça,<br /> + +cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta,<br /> + +pedreiros que aluis o mundo á picareta,<br /> + +carpinteiros que andaes serrando com a serra,<br /> + +erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra<br /> + +a toda esta ruina, esta agonia immensa,<br /> + +e acercae-vos a mim―ouvi minha sentença:<br /> + +<br /> + +Já que, ó Velho, trahiste as +convicções primeiras,<br /> + +e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> +da qual se esquece o nome ao limiar da porta,<br /> + +já que atiraste á vala a tua honra morta,<br /> + +e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito,<br /> + +de que hão bebido o leite os homens do Direito;<br /> + +já que excitaste á guerra e á lucta +teus irmãos,<br /> + +e no sangue plebeu tintas ainda as mãos<br /> + +foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe...<br /> + +eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem<br /> + +de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!<br /> + +Toma lá a blusa infame do forçado.<br /> + +Vou-te marcar na testa um grande R gigante,<br /> + +feito com minha espada em brasa flammejante,<br /> + +que a todo o mundo inspire―odio, nojo e terror.<br /> + +<br /> + +Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr,<br /> + +vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,<br /> + +que o Dante assignalou com seu buril eterno<br /> + +na viagem que fez á tragica cidade.<br /> + +Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,<br /> + +subir a vil calçada amarga do Despreso.<br /> + +Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso, +<br /> + +que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,<br /> + +cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,<br /> + +―contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas<br /> + +vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas!<br /> + +<span class="pagenum">[53]</span> +Como outr'ora Cain com seu signal maldito,<br /> + +tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito,<br /> + +mettendo assombro e horror a quem te vir passar.<br /> + +O Espectro é teu algoz―o que ha de acompanhar<br /> + +teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,<br /> + +curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço,<br /> + +cheio de lama, esterco, apupos, irrisões,<br /> + +entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições<br /> + +de todo um povo hostil que sobre ti escarra.<br /> + +Ali tendo vestida a sordida samarra,<br /> + +tendo na testa o infame e caustico signal,<br /> + +―eu condemno o teu nome á pena capital.</div> + +<br /> + +<div class="poetry tinys">(grava-lhe na fronte um R com a +espada)</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Primeiro Perseguido</span> +<span class="tinys">(levantando um +braço)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu―que tens escravisado<br /> + +aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,<br /> + +a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!<br /> + +Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,<br /> + +e has sido, contra nós, tyranno inda maior!<br /> + +Maldito sejas tu, refugo de traidor!<br /> + +que a nossa execração te siga em toda a parte,<br /> + +que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,<br /> + +<span class="pagenum">[54]</span> +e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra,<br /> + +que o Remorso te pique e fira como a espora,<br /> + +e a Vingança te siga os passos pelo escuro!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Segundo Perseguido</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu, agora e no Futuro!<br /> + +Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!<br /> + +Maldito sejas tu em tudo que fôr santo,<br /> + +no fundo do teu copo, á sombra até no estio!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Terceiro +Perseguido<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu, á chuva, +ao vento, ao frio,<br /> + +no teu caminho escuro e cheio de terrores!<br /> + +Maldito sejas tu na Primavera em flores,<br /> + +no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno!<br /> + +Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno!<br /> + +Que a execração do mundo echoe aos teus ouvidos!<br /> + +Que os abysmos da Dôr se encham de teus gemidos,<br /> + +e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[55]</span> +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span> +<span class="tinys">(lançando-lhe o +veu negro dos condemnados á morte)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Eu Plebe tua mãe que aos +lacteos peitos santos<br /> + +te alimentei do leite altivo dos heroes,<br /> + +eu que a fronte te alcei á luz branca dos soes,<br /> + +e te metti na mão a espada da batalha,<br /> + +eu lanço-te este veu assim como a mortalha,<br /> + +ultimo e vil lençol da tua negra gloria!<br /> + +Para sempre terás a maldição da +Historia,<br /> + +o despreso do mundo, a execração geral,<br /> + +e já que me has negado, ó filho desleal,<br /> + +e has seguido o infamante e tenebroso trilho,<br /> + +eu nego-te tambem! Tu já não és meu +filho!<br /> + +Já não és meu amor, minha +affeição mais terna.<br /> + +És o que tens meu odio e excommunhão eterna,<br /> + +a quem lanço este veu de condemnado á morte,<br /> + +<br /> + +</div> + +<div class="poetry tinys"> +(repellido-o de si)</div> + +<br /> + +<div class="poetry1">Vae, segue para sempre a tua infame +sorte!<br /> + +Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada!<br /> + +Que a minha Indignação te fira como a Espada!<br /> + +Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!...<br /> + +<br /> + +</div> + +<br style="font-weight: bold;" /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span> +<span class="tinys">(empurrando o Reu)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">A caminho! A caminho!―Á +Forca do Futuro.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>VI</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1">Acabaste d'ouvir a letra da +sentença.<br /> + +Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa,<br /> + +te cause pouco abalo esta sentença augusta!<br /> + +Talvez te cause riso e clames não ser justa<br /> + +a ira que sacode as cordas d'uma Lyra.<br /> + +Talvez velho frascario e lingua de Mentira<br /> + +chames ao verso fumo, a tudo vãs +ficções!<br /> + +Não! A Lyra é de bronze! As novas +gerações<br /> + +os homens d'ámanhã, os proximos vindouros<br /> + +hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros,<br /> + +pela noute da Historia esse R flammegante!<br /> + +Elles dirão então―Acaso foi o Dante<br /> + +que te marcou na testa esse signal soturno!<br /> + +Quem foi o vingador, o látego nocturno<br /> + +que na fronte te abriu a inicial horrenda?<br /> + +<br /> + +E tu deves dizer:―Na minha ignobil senda<br /> + +<span class="pagenum">[58]</span> +não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto!<br /> + +Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo<br /> + +que não quiz em mim só vibrar o açoute +amaro!<br /> + +Como outrora Molière, em seu eterno +<em>Avaro</em>,<br /> + +que gravou com buril um lutulento vicio,<br /> + +elle quiz castigar em mim o vil flagicio<br /> + +d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso,<br /> + +que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo,<br /> + +salafrario venal, baixo arlequim de feira,<br /> + +rasgando a cada passo a tela da bandeira,<br /> + +e fugindo a alistar-se em legião contraria;<br /> + +quiz vergastar sem dó a moda latrinaria<br /> + +d'esse abuso gentil, galante, deleterio,<br /> + +―d'hontem ser contra o Rei―hoje ir ao ministerio,<br /> + +o costume chinfrim, o ignobil privilegio,<br /> + +―d'hontem ser petroleiro―hoje um capaxo régio!<br /> + +<br /> + +Um homem nada é. É simples grão +d'areia<br /> + +nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea.<br /> + +Mas o Principio é tudo! È força +alimentar<br /> + +na Consciencia Humana, álerta, sem cessar,<br /> + +o castigo do Mal, essa noção sagrada,<br /> + +terrível como a Adão do seraphim a espada.<br /> + +<br /> + +Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso,<br /> + +que tu podes travar a roda do Progresso,<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo?<br /> + +Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo,<br /> + +e que todo o trabalho excepcional das Raças,<br /> + +todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças,<br /> + +industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre, +<br /> + +tudo que Fausto sonha e Galileu descobre,<br /> + +todas as leis dos soes, Systemas e Theorias,<br /> + +―vão findar de repente, ás tuas portarias?<br /> + +<br /> + +Acaso crês que todo o labutar eterno<br /> + +do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno<br /> + +dos seus instinctos vis, das suas privações,<br /> + +em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões,<br /> + +ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás +más paixões,<br /> + +á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente,<br /> + +todo esse fermentar energico, vehemente,<br /> + +toda a rebellião extraordinaria, séria,<br /> + +do Diabo com Deus, da Alma com a Materia,<br /> + +toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso,<br /> + +o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso,<br /> + +o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello,<br /> + +o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello,<br /> + +o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco,<br /> + +o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco<br /> + +aos abysmos do mar com a primeira Vella,<br /> + +o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p60">[60]</a></span> +o que inventa o Vapor, esbofeteia <a href="#e10">a onda</a>,<br /> + +o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda,<br /> + +o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio,<br /> + +o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio,<br /> + +o que contorna o acantho em torno ao Capitel,<br /> + +o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel,<br /> + +a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra,<br /> + +o que forja as crueis armas brancas da guerra,<br /> + +Newton que descobriu o gravitar dos astros,<br /> + +Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros,<br /> + +Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro,<br /> + +Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro,<br /> + +Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta,<br /> + +Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta<br /> + +que em sua cella agita a mystica alma humana;<br /> + +o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana,<br /> + +n'aquella India mãe de gerações +guerreiras<br /> + +onde erram os fakirs á sombra das palmeiras,<br /> + +n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos<br /> + +onde Jesus scismou perto dos therebinthos;<br /> + +tu crês que esse animal das primitivas éras<br /> + +que o Lume descobriu para assustar as féras,<br /> + +o que fez a primeira e tepida Cabana,<br /> + +o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana,<br /> + +da primeira Charrua e do primeiro Arado,<br /> + +Juvenal que varou Roma de lado a lado<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p61">[61]</a></span> +com suas corrupções, crimes, e vãos +delirios<br /> + +como a vã liturgia extranha dos Assyrios;<br /> + +Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro<br /> + +maior que Nero tinha e que era o seu thesouro;<br /> + +Durer esse pintor extranho, mysterioso,<br /> + +que achou no Pantheismo o mais infindo goso,<br /> + +e na tela onde pinta as folhas e as verduras,<br /> + +entre os ramos desenha extranhas creaturas,<br /> + +como monges fataes minados pela +<em>acédia</em><br /> + +que dão todo o terror da alma da Edade Media;<br /> + +Cervantes, o cruel, que faz errar a trote<br /> + +toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote,<br /> + +<a href="#e11">emquanto</a> o Fausto sonha em +virgens de balladas,<br /> + +e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas;<br /> + +Euclides que decreta as leis da Geometria,<br /> + +a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia<br /> + +e em torres collossaes, á luz das noutes bellas,<br /> + +traça o grande roteiro eterno das estrellas;<br /> + +Goethe que se fundiu na alma da Naturesa,<br /> + +que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa,<br /> + +a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo;<br /> + +Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo<br /> + +de mendigos, truões, abbades, estudantes;<br /> + +Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes,<br /> + +Juvenal que escarrou na Venus Meretriz,<br /> + +Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz,<br /> + +<span class="pagenum">[62]</span> +prégando um culto novo entre o feroz gentio;<br /> + +o que inventa o Compasso, o Leme do navio,<br /> + +o que accendeu a Forja, inventa a Picareta,<br /> + +o que primeiro aguça a ponta da Lanceta,<br /> + +Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes<br /> + +Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes,<br /> + +Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens,<br /> + +Lamark que descobre as animaes origens,<br /> + +Aretino que açouta os reis como lacaios,<br /> + +Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios,<br /> + +Camões que salva um livro e a sua eterna gloria,<br /> + +Thierry o que cegou a trabalhar na Historia,<br /> + +Espronceda que canta o hymno da +<em>Miseria</em>,<br /> + +Bukner o santo atheu da Força e da Materia,<br /> + +Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias,<br /> + +Strauss o que anniquilla a lenda do Messias,<br /> + +Menuisier que sonda o mundo pequenino,<br /> + +Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino,<br /> + +Tacito e o seu rancor contra o romano solio,<br /> + +Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo,<br /> + +Kant que abre á Rasão uma moderna estrada,<br /> + +Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada,<br /> + +Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco<br /> + +ser Deus uma theoria e o Homem um macaco;<br /> + +Krishna o que prégou nas regiões da +Idéa<br /> + +o mesmo que Jesus nos montes da Judéa;<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +Zoroastro que elevou as almas para o Sol,<br /> + +Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol,<br /> + +Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida<br /> + +do riso do Diabo e a dôr de Margarida;<br /> + +Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes,<br /> + +Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes,<br /> + +Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro,<br /> + +Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro,<br /> + +Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito,<br /> + +Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito,<br /> + +Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia,<br /> + +Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia,<br /> + +d'Alembert que povôa os mundos estrellados,<br /> + +Lao-Tseu que canta os canticos sagrados,<br /> + +Berlioz que inventou a musica do Abysmo,<br /> + +o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo,<br /> + +o que fez a Atafona, o que inventou o Malho,<br /> + +toda essa lenda eterna e escura do Trabalho,<br /> + +todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna,<br /> + +todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna,<br /> + +os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso<br /> + +crês que isto―ao gesto teu―ameaça retrocesso,<br /> + +e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo<br /> + +do dedo indicador do general Macedo,<br /> + +ou então dos dragões dos regios pergaminhos:<br /> + +―Hintze, <em>o que não ri</em>, e +o Arrobas tres pontinhos...?<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +Desillude-te, ó Velho! O mundo não +recúa.<br /> + +A Historia ha de varrer teu nome para a rua,<br /> + +como uma velha o lixo immundo na calçada.<br /> + +Tu é que morrerás, tu, ó bexiga +inchada<br /> + +de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade,<br /> + +que eu despejei na rua, á luz da Sociedade,<br /> + +como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão.<br /> + +Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão<br /> + +curvados e servis, quaes rotos saltimbancos,<br /> + +mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos,<br /> + +agitando a maroma em vez do regio sceptro.<br /> + +E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro<br /> + +n'esse caminho inglorio e tragico tambem,<br /> + +que se chama o Abandono, o caustico Desdem,<br /> + +de tudo isto que forma a Opinião Geral.<br /> + +Mas o mundo, esse não! No gyro universal<br /> + +que traça em torno ao Sol com as demais espheras,<br /> + +verá encanecer as legiões das Eras,<br /> + +antes que role e volva ás regiões do Abysmo.<br /> + +Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo<br /> + +o attrahe sem cessar áquella claridade,<br /> + +como procura a Alma a luz só da Verdade,<br /> + +e na ordem moral, como umas verdes palmas,<br /> + +estendem sempre as mãos as supplicantes Almas<br /> + +pedindo em côro ao ceu―mais luz, inda mais luz!...<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> +Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz<br /> + +da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços<br /> + +no lenho do Despreso em meio dos devassos,<br /> + +tu pódes continuar a tua erronea senda!<br /> + +Segue o exemplo dos reis―manda-nos pôr á venda.<br /> + +Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria.<br /> + +Faze contractos vis para formar a Iberia<br /> + +debaixo de dous reis, n'um succulento almoço.<br /> + +Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço.<br /> + +Lança o resto da honra ao nada da voragem.<br /> + +Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem.<br /> + +Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina.<br /> + +Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina.<br /> + +Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões.<br /> + +Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões.<br /> + +Dá que comer á Valla e á boca da +Enxovia.<br /> + +Senta a fome no Lar, o luto na Alegria.<br /> + +Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.<br /> + +<br /> + +Mas treme do Futuro!―Ouviste a voz d'um homem.</div> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">FIM</span></h4> + +<br /> + +<br /> + +<h3>NOTA</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta +publicação o velho presidente do ministerio, o +homem de quem aqui nos occupámos, renegado das suas +convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, +pela qual se elevou, de que é +decano e presidente honorario pediu a sua demissão, +não +tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar +contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem +menos attenuada. A sua sentença já lhe +foi lavrada pela Opinião Publica, e na Historia, aonde o seu +nome fica lutuosamente escripto. O homem que escreveu que antes queria <em>imprensa +anarchica que imprensa +perseguida</em>, e é depois de Costa Cabral, +(tão incisivamente attacado por elle,) o unico que se +atreveu a reviver as perseguições +e as vindictas, fica vergonhosamente vinculado,―e tanto mais +vergonhosamente que foi e é um jornalista!...<br /> + +<br /> + +Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve +eximir ao castigo. É preciso que a +responsabilidade ministerial não seja uma vã +palavra. Se +não existe a responsabilidade regia, se não +existe de facto a +responsabilidade ministerial, é força que estes +senhores o +confessem francamente:―a Constituição +é uma +farça! Se ainda persistem em proclamar que o não +é, +façam que sejam julgados os seus ministros demittidos! +Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo +que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o +peçam nos comicios, toda a imprensa da +opposição que brade para que +os julgamentos dos tribunaes não sejam apenas para os +adversarios ou para os miseraveis e gatunos: mas que sejam tambem para +os grandes salafrarios constitucionaes.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span> +O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já +tempo que teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a +espada de Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e +o impede de ser eleito pelo povo para alguma missão de +confiança +popular. É um excellente e perfido meio constitucional para +affastar um adversario!―mas muito conhecido nos arsenaes politicos. +É uma espada velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, +mas que ainda dá bons botes!<br /> + +<br /> + +No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se +fará:―pelo menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do +ministerio Saint Hilaire, que não fugiu á +responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo portuguez +demittido não se peja de fugir a ella. +São de tal forma as engrenagens do systema constitucional +que as maiores arbitrariedades se commettem e se perpetram, ficando na +impunidade, na sombra do esquecimento, ou na velha alcofa d'essa +trapeira que se chama +<em>Politica</em>. Fallamos da politica monarchica. Mas +é força que as cousas +não continuem no mesmo pé! É preciso +que á +mingua da Lei juridica, se erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada +attentado corresponda um castigo, que a cada perversidade corresponda +um ferro em braza, que a cada +abominação corresponda uma guilhotina moral! A +espada d'essa lei moral devem vibral-a a Opinião Publica a +Historia, o jornalismo, os poetas, os homens justos, os homens de +consciencia lavada. Que todos elles repillam de si estes forasteiros, +esses safardanas pulhas que especulam ha 50 annos com a +Constituição, como especullaram com as bullas, no +tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX. +Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que +elles fiquem scientes que as suas arbitrariedades não +ficarão na sombra! Ha quem vela, e quem registra. +É a<br /> + +Historia. Ha quem se indigna e quem decapita. É a Poesia.<br /> + +<br /> + +É para isso que <a href="#e12">se escreveu</a> +este pamphleto.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"> <a name="e1"></a> <a href="#p7">#pág. +7</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">ensanguenta</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">ensanguentada*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a> <a href="#p10">#pág. +10</a> </td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">ás +raizes</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">as +raizes*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p15">#pág. 15</a></td> + + <td style="text-align: center;">phamphletario</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">pamphletario</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p16">#pág. +16</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">a +chuva</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">á +chuva</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p23">#pág. 23</a></td> + + <td style="text-align: center;">lua das florestas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">lua da floresta*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p27">#pág. 27</a></td> + + <td style="text-align: center;">cadellas acoutadas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cadellas +açoutadas*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p48">#pág. 48</a></td> + + <td style="text-align: center;">pelo luz</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pela luz</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p48">#pág. 48</a></td> + + <td style="text-align: center;">s bre</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">sobre</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p49">#pág. 49</a></td> + + <td style="text-align: center;">gemer das flautas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">gemer da flauta*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p60">#pág. 60</a></td> + + <td style="text-align: center;">aonda</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a onda</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p61">#pág. 61</a></td> + + <td style="text-align: center;">emq anto</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">emquanto</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p67">#pág. 67</a></td> + + <td style="text-align: center;">sa escreveu</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">se escreveu</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +* correcções feitas com base na errata do +próprio livro.<br /> + +<br /> + +Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by +António Duarte Gomes Leal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + +***** This file should be named 28354-h.htm or 28354-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/3/5/28354/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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