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+The Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
+António Duarte Gomes Leal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio
+ carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa
+
+Author: António Duarte Gomes Leal
+
+Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos
+ neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão
+ final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Mar. 2009)
+
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+
+
+O RENEGADO
+
+
+
+
+GOMES LEAL
+
+
+O
+
+RENEGADO
+
+A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO
+
+CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO
+
+SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA--Largo dos Inglezinhos, 27
+
+1881
+
+
+
+
+A
+
+MANUEL DE ARRIAGA
+
+
+
+
+
+ Eu bispo d'outra diocese...
+ Guilherme Braga
+
+
+
+«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, presidente do
+conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos negocios do
+reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como áquelle que amo.
+
+Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem
+na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado
+desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e
+importantes commissões de interesse publico; e querendo por estes
+respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos distinctos e
+revelantes serviços prestados á dynastia, ás instituições, á causa
+publica e á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha
+real consideração: hei por bem nomear vos commendador da antiga e muito
+nobre ordem da Torre e Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos
+conjunctamente á dignidade de gran-cruz da mesma ordem.
+
+O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e satisfação, e
+para que possaes desde já usar das respectivas insignias, vos mando esta
+carta.
+
+Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.--El
+Rei.--_Antonio José de Barros e Sá_.
+
+Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino,
+presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos
+negocios do reino».
+
+ * * * * *
+
+
+Já que El-Rei, teu Senhor--contra a sua Mãe cara,
+assim te premiou a ensanguentada offensa,
+eu, um Juiz tambem--Juiz d'uma outra vara,
+contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença:
+
+
+
+
+
+I
+
+
+Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna--
+Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,
+lanterna que accendi na grande escuridão
+sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,
+lanterna que accendi n'esta éra ensanguenta,
+lanterna que accendi, como em sinistra estrada
+por causa dos ladrões perdido viajante.
+Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante
+cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,
+perguntando-te, ó Velho--Onde está o Direito?
+O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio?
+Onde está o Pudor, rude ancião sombrio?
+Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel.
+Onde está ó Cain o teu irmão Abel?
+
+Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado?
+Tu foste a Alma do Povo--hoje és um renegado.
+Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,
+d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos
+ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla.
+Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla
+toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos
+maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,
+Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.
+Trago na minha mão a lampada da Ira.
+
+Eu sou esse rebelde herege, extraordinario
+que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,
+que préguei n'este tempo ás turbas assombradas
+a União e o Direito, e fui pelas estradas
+como S. Paulo foi na noute de Damasco,
+armado do Rancor, cheio do grande asco
+contra os Escribas vãos, os sordidos judeus,
+sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.
+Nós hoje--os infieis--não cremos nos milagres.
+Não me importa que tu, ó Velho, me consagres
+o epitheto brutal de herege ou de maldito.
+Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!
+
+Eu sou a voz da turba extranha e inominada
+que uma vez é soluço, outras a gargalhada
+que chamam _povileu_, a plebe envilecida,
+n'uma éra de sangue, uma éra fratricida
+riscada por um sol velho e sanguinolento.
+Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.
+Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.
+Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão.
+O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.
+Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.
+
+Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,
+sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro
+tens renegado sempre, ó sordido traidor,
+em nome da sua ira, e em nome do suor
+que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo,
+que faz córar a rosa e rebentar o trigo,
+em nome dos seus mil cuspidos sacrificios
+do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,
+das suas mães sem pão, seus filhos no abandono
+como um farrapo velho e como um cão sem dono,
+em nome da Miseria, em nome da Innocencia
+de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,
+em nome do Direito, em nome d'esta Penna,
+escuta a minha voz, a voz que te condemna
+Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,
+forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente
+da plebe que trabalha, e com as mãos possantes
+sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,
+d'essa raça animal dos grandes infelizes
+que são na sociedade assim como as raizes
+que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro,
+dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,
+vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas
+--estão as folhas no ar, altivas, gloriosas,
+olhando para o azul sereno das espheras,
+todas cheias de flor nas verdes primaveras,
+sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,
+tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos.
+
+Sim, tu foste um plebeu--da raça antiga e rude,
+que trabalha no escuro assim como a Virtude.
+Sim, tu foste um plebeu--raça obscura e sem luz,
+d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.
+
+Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão.
+Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham
+se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!
+Sê maldito como elle, e seja o teu espinho
+o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,
+ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!...
+Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes
+das Alas do Dever, todas as sãas cohortes
+dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros,
+que trabalham na sombra assim como os mineiros,
+a lampada na mão augusta da Verdade,
+para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.
+Tu tinhas a teu lado os corações valentes
+dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes
+todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!...
+Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem,
+que ambicionavas já as pompas gloriosas,
+sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas
+que trabalham por nós noutes, dias inteiros,
+na officina, no val, nas minas, nos outeiros,
+e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,
+de que ser como eu sou--simples, leal plebeu.
+
+Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...
+Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste
+a fronte d'ancião, a auréola sagrada
+que seria por nós mais do que idolatrada,
+teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,
+terrivel como Deus, teus louros d'homem puro
+para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo!
+Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos!
+Vergonha sobre ti que como os saltimbancos
+foste lançar teu nome ao vento d'uma feira!
+Vergonha sobre ti, que como uma rameira
+que vende os seios nus em sordida estalagem
+ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,
+em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta,
+e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta,
+foste vender a honra ao ouro d'um senhor.
+Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor
+que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,
+do que ser um _ninguem_--puro, plebeu, e pobre.
+
+Vergonha sobre os vis apostatas da Idea
+que negam como Pedro o fez depois da ceia
+na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes!
+Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,
+que levam a matar, balando, ao matadouro!
+Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,
+sua aureola santa e seu brasão de gloria
+por um titulo em vida--e um pontapé da Historia!
+
+Vergonha sob vós apostatas rafeiros
+que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros
+por que Judas vendeu esse de Nazareth!
+Vergonha sobre vós, apostatas sem fé
+messias sem pudor que andaes pelos caminhos
+prégando aos corações, embebedando em vinhos
+de gloria e de ideal, e que depois ao Povo
+esse sublime Ancião de peito sempre novo,
+o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,
+açoutado de Deus, dos reis e dos imperios,
+mas que sempre enxotado--á chuva, ao vento, em pranto,
+leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,
+esse banido Ancião de todas as nações
+a quem vós atiraes á lucta e ás sedições,
+mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,
+como um cego sem guia, esqualido, sosinho,
+n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,
+voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.
+
+Vergonha sobre vós, ó vendilhões do templo!
+Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo
+de todos esses vis messias das viellas,
+mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas,
+que vão vender aos reis as suas convicções!...
+Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões
+do meu chicote em fogo, irado, justiceiro
+para que ao vel-os nús, expostos no madeiro
+da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota
+ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota
+saiba o Povo afinal que é preciso escarrar
+no sacerdote infiel que vende o seu Altar.
+
+
+
+
+II
+
+
+Tu não sabes que gloria é ser pamphletario!
+É ser o vento rijo, o vento extraordinario
+que agita as multidões como um canavial,
+contra um farrapo regio, a purpura real
+contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.
+É ser o que protesta, o que ergue os corações
+n'um arranque de heroe, á torre do Direito,
+é dar qual pellicano, o sangue do seu peito
+á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos.
+É ser o que não és. É não trocar os brilhos
+d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,
+pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.
+É ser o que protesta--o que ergue uma lanterna
+na grande escuridão, na escuridão moderna,
+contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente
+a favor do _ninguem_, da Plebe, do innocente.
+
+É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,
+a espada que degolla e o grito que condemna.
+É ser elle sósinho, altivo rebellado,
+o grito do mineiro e o espectro do enforcado
+que vem correr d'um leito o cortinado régio.
+É ter esse condão, o enorme privilegio
+d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,
+fazer gritar a espada e levantar as almas!
+É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra,
+na floresta, no val, nas rochas ou na serra,
+á neve, á chuva, aos soes, nas névoas estrangeiras,
+nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras
+pela neve polar, no exilio, nas ruinas,
+--mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,
+mal soar o seu nome--alevantar-se um peito
+e gritar:--Elle é que é a Espada do Direito!
+
+Ser pamphletario é--ser um pharol na noute
+ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.
+É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,
+toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,
+como agitou Marat,--ou aguçar a espada
+contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.
+É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,
+quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto
+ser chamado um hereje--e as pallidas mulheres
+quando veem surgir esses extranhos seres
+apertarem ao peito as timidas creanças.
+É andar pobre, exhausto, humilde como as granças
+errante, só, banido, exhausto pela terra,
+--mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,
+quer nos paços reaes, nas praças da Cidade
+a sua voz gritar--Alas á Honestidade!
+
+E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,
+frio como é a Lei, frio como Proudhon,
+chicotear sem dó os lombos dos Heroes,
+vender como Marat, na fome, os seus lençoes,
+mas nunca se vender, mas nunca transigir!
+É saber odiar, decapitar, punir
+e não se rebaixar nunca como um capaxo!
+É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,
+que aterra a noute vil d'um seculo maldito.
+É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito
+n'uma éra de luto, infame, ensanguentada
+em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada
+e morre como outr'ora amando o Raphael.
+E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel
+contra uma horda vil de infames sacripantas.
+É levantar ao ceu livres espadas santas
+todos os campeões das Alas do Rancor.
+É gritar, é gritar--«Eu sou o _Odio_--_Amor_,
+«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,
+«a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome
+«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta
+«sem bençãos e orações--como uma prostituta.
+«Sou a voz do _ninguem_, a voz do cannavial
+«que soluça, e não quebra ao rijo temporal,
+«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,
+«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,
+«o que chamou a si os _tristes_, exilados
+«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados
+«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,
+«o que chamou a si todos os opprimidos
+«todos que tinham sêde assim como Ismael
+«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!
+«Eu não sou como vós uma bexiga cheia
+«de colera, de fel, de inveja que guerreia,
+«e vem lançar á rua a sua roupa suja!
+«Eu não sou como vós um _corvo_, uma coruja
+«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!
+«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,
+«tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho,
+«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,
+«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,
+«que vivem na abjecção e são chamados _fezes_
+«que chamam _povileu_, que chamam a _gentalha_,
+«e gritei-lhes--Ávante! É hora da batalha!
+
+Ora este hereje pois, ora este pamphletario,
+que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,
+este homem do Dever, este homem do Direito,
+que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,
+que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza
+dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,
+que em quanto tudo quer ser despota e opulento
+elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,
+que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,
+quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,
+que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,
+elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,
+quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,
+faz do Direito açoute, e faz da penna espada,
+e diz a um rei, um Czar, um déspota potente
+--Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente
+o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,
+o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,
+terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.
+--Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...
+Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:
+--Vós tendes o _knut_--eu tenho esta lanterna.
+
+Este homem inda que pobre, inda que perseguido,
+roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,
+inda que triste e só no seu isolamento,
+ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,
+inda que pobre e vil, inda que maltrapilho
+é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.
+
+Assim foste tambem, ó Velho solitario!
+Assim foste tambem grande pamphletario
+que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!
+Assim foste tambem quando eras puro e novo
+e sabias levar á guerra os corações,
+quando eras um açoute e o deus das multidões
+que vinham em tropel beijar os teus joelhos!
+Mas hoje tu o que és--escoria d'entre os velhos
+refugo de traidor, ó renegado hostil!
+Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!
+alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...
+
+És o que se vendeu!--Tu és uma cloaca.
+
+
+
+
+III
+
+
+Ó seculo de ferro! ó geração escrava!
+que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,
+no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,
+cae a agua do ceu como n'um poço velho!
+Sim a agua do ceu que faz viver a flôr
+mal que no poço cae transforma-se na lama!
+Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,
+que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?
+Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos,
+prégando a Negação, n'um funebre arrepio,
+que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos
+como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio?
+Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos
+que dão prantos de sangue ás tuas vexações,
+e do carro de fogo arrojam os seus mantos
+que arrastam á Revolta o mar das multidões?
+Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira
+vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.
+A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.
+A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!
+O Desespero crú esparge o seu veneno
+na taça d'ouro e onyx das jovens illusões.
+O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.
+O Mal com a tenaz aperta os corações!
+A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes
+ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro.
+Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes.
+Seu santo coração flameja como um astro!
+Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto
+sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!
+Só ella faz ouvir seu alaúde em luto
+que dá notas crueis de Maldição e Morte.
+É só ella que empunha o seu chicote em fogo
+como o açoute de ferro indomito de Deus,
+para açoutar os reis, o falso demagogo,
+os biltres charlatães dos reis e dos plebeus.
+É só ella que faz na noute secular,
+na sua Lyra ouvir--não canticos d'amor--
+mas as notas fataes que entornam o luar
+da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.
+Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,
+que já tendes chorado e que sabeis rugir.
+Quero em cordas de bronze os canticos das iras!
+É preciso açoutar, decapitar, punir!...
+Deixae agora o Amor e as brizas da bonança!
+Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!
+Pela noute vibrae as notas da Vingança.
+Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.
+
+Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,
+os atalhos do bosque e a lua da floresta!
+Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,
+n'uma éra de sangue inhospita e funesta!
+Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,
+as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!
+porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.
+A Terra vae parir algum Christo do mal.
+Deixae de nos cantar as nuvens da bonança,
+e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,
+por que em breve já vem a hora da matança
+em que a Espada tem voz, e as torres vão cair.
+Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos,
+ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira,
+ó torrentes do val, ó beijos amorosos
+da Mulher que se amou n'uma visão primeira!
+Tambem já te cantei, estrella do pastor,
+ó danças sobre a eira, ó lua das marés.
+Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr,
+terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.
+Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito.
+Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.
+Foragido dos reis, armado do Direito
+faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta
+tendo batido em vão foste á do lupanar,
+e ali deixaste a honra e a virgindade morta,
+como noiva infeliz que levam a enterrar!
+quando foste bater, chagado coração
+ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,
+e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão
+te sepultou em vida, e teu calor cingiu!
+quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,
+illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,
+viste tudo findar na enxerga repellente
+do teu leito de infamia--o catre do bordel!
+Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,
+como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,
+só achaste o silencio e o echo dos teus passos,
+o riso da cazerna e a noute das rameiras!
+quando ó loura mulher no berço excommungada
+por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,
+por tua propria Mãe talvez abandonada,
+pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!
+Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,
+e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,
+e a deixar teu amor na lama das regueiras,
+como os sedentos cães que vão beber nas ruas!
+Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,
+que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu,
+achaste a Fome vil, velha de boca escura,
+n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!
+quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,
+pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,
+tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,
+sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!
+quando ó selvagem flor, ó poça do abandono,
+sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,
+a Fome te obrigou qual magro cão sem dono
+a buscar na valleta o teu immundo pão!
+Dize sabias já, rainha da enxurrada,
+ave que não tens ninho e que empurrou a Fome
+que ha entes como tu--raça vil, condemnada,
+que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?
+Dize sabias já, loura infeliz sem pão
+que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,
+que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,
+sem terem como tu os chascos e o labeu?
+Dize sabias já que em quanto vaes na praça
+entre um circulo vil de chascos quaes facadas,
+elles vão affrontando a multidão que passa,
+em gloriosos trens de portas brasonadas?
+Dize sabias já, ó branca meretriz,
+que aos homens como cães cedes teu corpo nú,
+que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,
+mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?
+Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,
+por toda a rua hostil, por toda a rua séria,
+a distancia que vae dos _outros_ ao teu nada.
+Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!
+Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,
+entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,
+ó prostitutas vis! cadellas açoutadas!
+Ó rameiras da rua!--eu vos respeito mais.
+
+
+
+
+V
+
+
+Velho, escuta, esta voz.--Eu não sei perdoar:
+frio como um Destino eu heide-te açoutar
+até te ver em sangue os lombos aviltados!
+No estrume arrastarei teus louros profanados,
+que jazerão no esterco infame das viellas,
+onde vagam á lua os ébrios e as cadellas.
+Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado
+que depois de haver rido, haver calumniado
+uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha,
+--no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!--
+n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,
+depois de lhe chamar a _grande prostituta_
+nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo
+que ser do filho-rei o humillimo capaxo,
+nada achou mais servil, para apagar a offensa,
+do que vender a penna e perseguir a Imprensa!
+Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão,
+ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação,
+foi Satan que te pôz o diadema escuro!
+Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro,
+macular para sempre a virginal gloria,
+cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,
+e envergonhar a campa humilde dos plebeus
+que foram os seus paes--e a pobre mãe nos ceus,
+matar os louros seus--aviltação eterna!
+como um ebrio que morre em chão d'uma taberna?
+És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea?
+Acaso és tão medonha ó funebre Miseria,
+acaso és tão infame, ó magra Messalina,
+que obrigas uma alma, essa porção divina,
+essa faisca eterna, eterna claridade,
+a assassinar sem dó a branca virgindade
+do seu passado santo e virgem coração,
+e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?
+
+Acaso ó ouro és tu--tu que nos fazes nobre?
+É tão terrível ser--puro, plebeu, e pobre,--
+é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado,
+que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,
+que em certo dia vil--dia vil entre os dias,--
+se atire uma risada ás santas utopias
+ás crenças virginaes da loura Mocidade
+á aureola ideal d'aquella santa edade,
+e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,
+pela libré d'um servo e a farda de um lacaio?
+Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho!
+Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,
+o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso!
+Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,
+faminto como tu, irá lamber o manto
+do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,
+e de rastos, no chão, beijar o pó do throno.
+Por isso vou marcar-te infame cão sem dono,
+e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.
+Vaes ouvir a Justiça--a augusta, a verdadeira,
+a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,
+a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte,
+com seu dedo de luz no livro do Futuro,
+a que arroja á gehenna eterna do monturo,
+e que com ferro em braza escreve os tristes fins
+dos juizes Caiphás, dos pifios Severins,
+e d'outros a quem heide em breve tomar contas!
+Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,
+a que gela no labio as phrases começadas,
+que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas,
+pelas suas crueis, fataes carnificinas,
+a que condemna os reis e as tropas assassinas,
+a que forma e dirige a Alma Universal.
+Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.
+
+
+*A Plebe* (levantando os braços, clamando)
+
+
+Eis aqui, ó Justiça, ó minha Mãe austera,
+tua filha infeliz, que traz preza esta fera,
+este sinistro Reu que vês acorrentado!
+Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado
+que de mim motejou, como Cham riu do Pai!
+Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai
+que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,
+vinha bater no seu. O monstro não ladrava
+como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!
+Eil o! elle aqui está!--o rei dos saltimbancos!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude
+deve ser tambem forte assim como a Virtude.
+Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica bem!
+
+
+*A Plebe*
+
+
+Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe.
+
+
+*A Justiça* (surpreza)
+
+
+Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema
+a injuria que te fez, ou o crime que o algema!
+De certo foi bem funda extraordinaria a offensa
+bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,
+bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional
+pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal!
+
+
+*A Plebe*
+
+
+Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.
+Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna.
+Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida
+que vou de val em val, de mar em mar, varrida
+como a Judea antiga, a escrava, pela noute,
+chorando por seu Deus, sob o romano açoute.
+Meus filhos tambem vão chorando pela estrada.
+«Ás vezes diz-me um--Ó minha Mãe amada!
+«Já temos caminhado em vão de serra em serra.
+«Temos os pés em sangue! Á guerra, ó Mãe, á guerra!
+«Não temos vinho e pão! Não temos o sustento!
+«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!
+«Não temos luz e lar. Não temos nem vestidos!
+«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos
+«olhar como o sol brilha em rútila grandeza!
+«Deus tambem para nós formou a Natureza.
+«Não é só para um rei, um grande, uma rainha
+«que a espiga dá seu pão e pampanos a vinha!
+«Eu já sou forte, ó Mãe, eu tenho as mãos grosseiras
+«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,
+«eu quero transformar a minha enxada em lança,
+«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma bonança!
+Ás vezes este filho energico, revel,
+é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell,
+outras com seu olhar veste os simples e os nus
+é plebeu e poeta e chama-se Jesus.
+Outras é um açoute, um vento rijo e austero,
+é um monge brutal e chama-se Luthero.
+Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente!
+falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente
+d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,
+com o sangue de heroes de louros victoriosos!
+Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira
+a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
+apontando-me além teu sceptro de brilhantes.
+Eu levanto-me então assim como os gigantes,
+a espada dos heroes empunho sem demora,
+e cançada d'andar qual velho boi na nora
+da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção,
+prégo a santa Revolta á santa Multidão!
+Mas então o servil, o immundo renegado,
+vende-se a quem me tem o peito ensanguentado
+no lodo da abjecção, no pó do aviltamento!
+Fico então outra vez no meu isolamento,
+na minha escuridão chorosa, amarga, e séria,
+outra vez a puxar na nora da Miseria,
+outra vez a roer o pão amargo e escuro,
+pela fresta espreitando o dia do Futuro.
+
+Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.
+Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.
+Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.
+Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos,
+expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça.
+Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça
+expulsando-a de casa, em desabrida noute
+sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute.
+Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça.
+Justiça contra o vil!--Justiça, ó Mãe, Justiça!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura,
+barro do homem vil, indigna creatura
+póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe!
+Póde acaso a Cobiça allucinar alguem
+por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,
+que transforme uma alma ingenua, verdadeira,
+um virgem coração, qual pagem branco e louro
+que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,
+a abandonar assim as illusões de gloria,
+sua auréola santa, o seu brazão na Historia,
+todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,
+todas as convicções da loura Mocidade,
+para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas
+d'um symbolo real eivado de gangrenas,
+e depois sem Amor, sem nada que conforta,
+a sua velha Mãe lançar fóra da porta!
+Alguem acaso viu o crime infame, enorme?
+
+
+*A Consciencia Humana*
+
+
+Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,
+alguem que sonda o mar e os fundos corações
+as insomnias dos reis e os somnos dos leões!
+Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado
+toda a noute escrever, d'olhar allucinado,
+pamphletos crueis na sordida trapeira.
+Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma _rameira_
+e _rainha assassina_ á tragica reinante.
+Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,
+prégar a sedição, direitos, regalias,
+e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias
+que fazem levantar na praça os estandartes!
+Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes
+do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,
+agachado na treva assim como as toupeiras,
+a minar, a minar, as monarchias vãas!
+Depois tambem o vi sobre os reaes divans,
+reclinando-se já com um praser secreto,
+contemplando os florões dourados pelo tecto,
+com um olhar d'abbade ou satyro contente,
+exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente
+«n'estes almofadins, entre estes reposteiros!
+«Gósto d'estes florões, gósto d'estes archeiros,
+«que fazem reluzir as suas alabardas!
+«Afinal os plebeus precisam--é d'albardas.
+«Que querem elles mais? Comer das ucharias,
+«beber como uns toneis, vir ás estrebarias,
+«e algum dia puxar pelas reaes carroças?...
+«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas
+«do mando, do poder, do luxo, da opulencia!
+«Gósto de ouvir dizer--Saiba Vossa Excellencia
+«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso Senhor!
+«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor
+«que todo um refeitorio inteiro de bernardos.
+«Não sou como os plebeus que até devoram cardos,
+«negro caldo espartano e sordidas raizes!
+«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!
+«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares
+«da ucharia dos reis que incensam bem os ares,
+«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!
+A Gloria é nome vão! Um fumo só na Historia!
+«Da gloria não se vive. A Gloria é só chimera.
+«El-Rei Ventre é que manda. O ventre não espera.
+«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!
+«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,
+«as faces de setim das bellas camareiras!
+«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras
+«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,
+«que me fazem sonhar noutes voluptuosas
+«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.
+
+«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,
+«apertando entre as mãos as fórmas femininas,
+«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,
+«d'uma mulher ideal que nos concede tudo,
+«semi núa, a sorrir, n'um leito de velludo!...»
+
+Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!--
+Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,
+que tanta vez ladrou contra os brasões reaes!
+Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes,
+a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
+a penna tinta em fel que semeou a Ira,
+o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!
+
+Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe.
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Ha alguem que defenda o livido accusado?
+Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado,
+que não se tenha nunca achado em morticinios,
+um braço recto e bom, puro dos assassinios,
+derramados no chão dos campos inda quentes,
+que não tenha contra elle a voz dos innocentes,
+nem erga contra si a voz dos opprimidos,
+ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos,
+cheio de convicção ao meu terrivel ceu?
+Ha alguem que erga um braço, um braço a pró do Reu?
+
+
+*A Ordem* (erguendo o braço)
+
+
+Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu braço!
+Este reu que aqui vês não é um vil devasso,
+um baixo salteador d'estradas e caminhos!
+Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos.
+Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas,
+mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!
+Provarei, ó Justiça, até á saciedade,
+que este reu até tem cheiro de santidade!
+A Plebe sua mãe é uma velha escrava,
+tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava
+«de guerra e sedição contra as instituições!
+«Ella é que faz que El-Rei não durma em seus colxões
+«o somno da Innocencia o somno bom do Justo,
+«e que até, grandes ceus! faça o seu chylo a custo!
+«Ella é que faz que a Industria erre paralysada,
+«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada
+«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,
+«que toda a tropa fique em armas nos quarteis.
+«Ella é que impede e trava a roda Progresso!
+«Que dique lhe hei de oppôr?--Brado como um possesso:
+«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros,
+«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros
+«que querem supprimir a gothica realesa!
+«Enforcae-me quem cante a indigna _Marselhesa_,
+«e clame mais do que eu as livres crenças suas!
+«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,
+«ou que ande a passear nas praças sem licença!
+«Levantae uma forca enorme para a Imprensa.
+«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas.
+«Guiae-vos por Platão--lançae fóra os poetas
+«que são os mais reveis, fataes agitadores.
+«Guiae-vos por Platão--Nem sempre cantam flores!
+«Tambem sabem cantar as notas de batalha,
+fortes como os clarins, rijas como a metralha,
+«e quando a Indignação a sua Musa inspira
+«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!
+«No emtanto não pareis!--Nada de transigencias!
+«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,
+«tudo que se vender como quem vende um trapo!
+«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo.
+«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade
+«ponde a saque e a terror as ruas da cidade
+«para prender sem dó a infame biltraria,
+«d'essa cafila vil da vã demagogia,
+«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,
+que inda pede mais pão, mais instrucção primaria!
+
+Ora tudo isto fez--eu juro-o pelo Ceu!
+para salvar a patria este sublime Reu.
+
+Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio
+que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.
+
+Oh doudas illusões da douda Mocidade!
+Quem póde erguer seu braço, o braço sem piedade,
+contra o triste Ancião cheio de desenganos
+que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!
+Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos,
+contra quem soluçou ouvindo os Girondinos,
+e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas
+n'esses cantos de bronzes!--As almas dos Poetas
+fazem desabrochar os batalhões da terra!
+Na primavera em flor os peitos pedem guerra,
+aventuras, amor, cabeças de tyrannos!
+Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,
+Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono,
+vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do Throno,
+vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores,
+vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores
+deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento!
+--Então ao craneo diz a aguia do Pensamento:
+«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,
+«e o peito despi nú aos turbilhões da Sorte?
+«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,
+desdobrando na praça, á Plebe, os estandartes
+«comendo o negro pão nos solos estrangeiros?
+«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,
+«com os quaes eu clamei no val e na montanha,
+«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,
+«prégando o Verbo Novo ás multidões sagradas?
+«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?
+Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?
+Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento?
+Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono?
+
+Então n'aquella noute arida, má, sem somno,
+escuta-se uma voz, que vem como a rajada,
+no vacuo e solidão da fria agua furtada,
+que grita em alta voz--Combateste por mim?
+
+Quem és tu? Quem és tu? Quem é que falla assim?
+--Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde.
+O pensador então vae ver onde se esconde
+quem lhe dá um tremor indomito, suspeito,
+como nunca sentiu no antro do seu peito.
+Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.
+Mas cheio de terror, á livida lanterna,
+n'um tragico arrepio, á luz baça e funérea,
+--vê sentada em seu lar a furia da Miseria!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Ó Ordem acabaste?
+
+
+*A Ordem*
+
+
+Eu acabei, Justiça!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Quem é que quer entrar por sua vez na liça,
+e á Ordem refutar o que ella diz do Reu?
+
+
+*Os Perseguidos*
+
+
+Somos nós, somos nós, que as nossas mãos ao ceu
+erguemos muita vez nos asperos caminhos?
+Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos
+do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!
+Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos,
+levados atravez d'um turbilhão maldito,
+como errou Ismael, como o judeu proscripto
+queimado pelo sol vermelho das legendas.
+Somos nós, somos nós, que errámos sob as tendas
+do excommungado Cham na treva e no abandono,
+ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno
+que depois de gyrar do furacão á toa
+vae rebolar do azul no lodo da lagôa.
+Somos nós os fieis que nunca vacillámos,
+os bronzeos corações que nunca trepidamos
+ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!
+Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, ás luas
+das solidões austraes, nos carceres, nas minas,
+lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas
+sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!
+Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos
+do exilio arrebatar os filhos degredados,
+as esposas e as mães violadas dos soldados,
+nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute!
+Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute,
+que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,
+temos o _Odio-Amor_, feito d'um só brilhante.
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco!
+Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.
+Responde justo e bem, sem ira, com clareza.
+Manda ao teu coração dictar tua defeza!
+E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres,
+ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores!
+
+
+*O Reu*
+
+
+Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella!
+Eu não sei o que ladra a rábida cadella
+contra mim amostrando os assassinos dentes!
+Não sei quem ella é. Não tenho taes parentes.
+Não sei por que me cita a ladra ao tribunal.
+Eu jamais perturbei a Ordem social.
+Eu jamais sublevei as ondas populares!
+Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,
+e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!
+Não fui eu que arranquei a espada da bainha.
+Não fui eu que açoutei as santas dynastias,
+ao chicote infernal dos chascos e ironias,
+que sibilam no ar qual feixe de serpentes...
+Jamais calumniei...
+
+
+*O Espectro* (surgindo, terrivel)
+
+
+ Mentes, ó Velho! Mentes!
+Mentes, velho histrião d'um throno gasto e ôco!
+Mentes homem venal, mentes despota louco!
+Mentes servil plebeu, indigno latrinario!
+Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario
+de pamphletos crueis na sordida trapeira!
+Não negues que chamaste, outrora, uma _rameira_
+á mãe do teu Senhor, á mãe de El-Rei teu amo!
+Não negues que chamaste um bom _veado, um gamo
+de silvestre armadura, e flórida ramagem_
+ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!
+Não negues ante mim que sou o teu Espectro
+que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!
+Não negues que eu te vi na fria agua furtada
+levantando o Direito, ou revoltando a Espada,
+tendo acceso no olhar o sol da Indignação!...
+Não negues, ó Caim, que assassinaste o irmão.
+Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes
+Não negues que nasceste assim como as serpentes,
+e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!...
+Não negues ser plebeu, não negues com desdem
+tua origem plebea, a tua Mãe escrava,
+nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava
+do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito!
+Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!...
+Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.
+Onde quer que tu estás encontras os meus braços!
+Onde quer que tu vás--vês o meu duro olhar!
+Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,
+e a revolver comtigo o lodo das paixões!
+Sou o cumplice teu nas velhas sedições,
+e ambos temos as mãos de sangue maculadas
+de ter á nossa voz feito arrancar espadas,
+e gottejar na rua o sangue do plebeu!
+Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu!
+Aquelle sangue brada e clama contra ti!
+Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,
+jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras,
+inundando a calçada e a lama das regueiras!
+Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,
+rudes heroes plebeus, levados á batalha,
+pela luz do teu Verbo, e pela espada nua,
+correndo em borbotões nos boqueirões da rua,
+despenhando-se ao sol na vasa das valletas!
+D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,
+cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,
+como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,
+gritando contra nós estranhas ameaças!
+E o sangue plebeu diz:--Em quanto sobre as praças,
+«corria ao rubro só das luctas fratricidas,
+«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,
+«e abraçados, ao sol, morriam os valentes,
+«quando os peitos plebeus e os corações dos crentes
+«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço,
+«juntamente ao seu Odio o vingativo braço,
+«mal sabia eu então que tu que me levavas
+«á lucta, á guerra, ao ideal das gerações escravas,
+«me havias renegar, infame! com desdouro,
+«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!
+
+«Maldição sobre ti, que com as impias mãos,
+«sujas do sangue quente inda de teus irmãos
+«dos guerreiros plebeus, dos corações dos bravos
+«que quizeram morrer para não ser escravos,
+«que tentando egualar os campeões das lendas
+«foram morrer ao sol heroico das contendas,
+«ousaste inda pegar na penna então sagrada
+«para a entregar ao rei, como vencida espada,
+«para escrever servis, ignobeis sacrilegios,
+«--e com ellas manchar os reposteiros régios!
+
+«Maldição sobre ti, Velho! que atraiçoaste
+«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste
+«para chegar do Throno aos tragicos degraus!
+«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,
+«no meio das gentis duquezas decotadas
+«das camelias da Carne ás luzes desbotadas
+«quaes rosas de Saron aos gélidos luares;
+«has de ouvir minha voz no meio dos jantares
+«no fundo do teu sonho, em meio dos festins,
+«entre o tinir do copo, os cantos dos setins,
+«nos carros com brazões, de flexiveis mollas,
+«entre o gemer das flautas e os cantos das viollas!
+«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios
+«perseguindo-te até da treva nos mysterios,
+«chamando contra ti na voz de teus irmãos,
+«quando o teu labio abjecto oscule as régias mãos,
+«e a mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa!
+«Eu serei, ó traidor, o cancro que te rôa
+«o dente que te morda, o espinho que te fira,
+«o escalpello que te abra assim como quem vira
+«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia,
+«a lanceta que te abra a mais secreta veia,
+«o pôtro que te dê o mais horrivel trato,
+«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato.
+
+«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!...
+«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós comtigo
+«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,
+«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito
+«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!
+«Ha sangue em tuas mãos--em teus vestidos sangue!
+«O sangue é que te lança a sua maldição.
+
+
+*O Reu* (caindo no banco, aterrado)
+
+
+Sempre o Espectro cruel, sempre a eterna visão!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Condemnou-te o teu grito infindo de terror!
+Confessaste a Traição!--Trahiste-te traidor!
+Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!
+De nada te valeu ser cynico e atrevido.
+De nada te serviu a tua astucia e arte...
+
+Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte,
+sublimes corações que nunca transigistes!
+Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes,
+que tendes amassado o vosso pão com pranto!
+Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo
+mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte,
+ferreiros que forjaes as armas contra a morte,
+sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!
+Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude
+que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça,
+erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça,
+cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta,
+pedreiros que aluis o mundo á picareta,
+carpinteiros que andaes serrando com a serra,
+erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra
+a toda esta ruina, esta agonia immensa,
+e acercae-vos a mim--ouvi minha sentença:
+
+Já que, ó Velho, trahiste as convicções primeiras,
+e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras
+da qual se esquece o nome ao limiar da porta,
+já que atiraste á vala a tua honra morta,
+e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito,
+de que hão bebido o leite os homens do Direito;
+já que excitaste á guerra e á lucta teus irmãos,
+e no sangue plebeu tintas ainda as mãos
+foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe...
+eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem
+de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!
+Toma lá a blusa infame do forçado.
+Vou-te marcar na testa um grande R gigante,
+feito com minha espada em brasa flammejante,
+que a todo o mundo inspire--odio, nojo e terror.
+
+Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr,
+vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,
+que o Dante assignalou com seu buril eterno
+na viagem que fez á tragica cidade.
+Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,
+subir a vil calçada amarga do Despreso.
+Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso,
+que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,
+cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,
+--contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas
+vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas!
+Como outr'ora Cain com seu signal maldito,
+tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito,
+mettendo assombro e horror a quem te vir passar.
+O Espectro é teu algoz--o que ha de acompanhar
+teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,
+curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço,
+cheio de lama, esterco, apupos, irrisões,
+entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições
+de todo um povo hostil que sobre ti escarra.
+Ali tendo vestida a sordida samarra,
+tendo na testa o infame e caustico signal,
+--eu condemno o teu nome á pena capital.
+
+ (grava-lhe na fronte um R com a espada)
+
+
+*Primeiro Perseguido* (levantando um braço)
+
+
+Maldito sejas tu--que tens escravisado
+aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,
+a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!
+Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,
+e has sido, contra nós, tyranno inda maior!
+Maldito sejas tu, refugo de traidor!
+que a nossa execração te siga em toda a parte,
+que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,
+e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra,
+que o Remorso te pique e fira como a espora,
+e a Vingança te siga os passos pelo escuro!...
+
+
+*Segundo Perseguido*
+
+
+Maldito sejas tu, agora e no Futuro!
+Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!
+Maldito sejas tu em tudo que fôr santo,
+no fundo do teu copo, á sombra até no estio!...
+
+
+*Terceiro Perseguido*
+
+
+Maldito sejas tu, á chuva, ao vento, ao frio,
+no teu caminho escuro e cheio de terrores!
+Maldito sejas tu na Primavera em flores,
+no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno!
+Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno!
+Que a execração do mundo echoe aos teus ouvidos!
+Que os abysmos da Dôr se encham de teus gemidos,
+e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!...
+
+
+*A Plebe* (lançando-lhe o veu negro dos condemnados á morte)
+
+
+Eu Plebe tua mãe que aos lacteos peitos santos
+te alimentei do leite altivo dos heroes,
+eu que a fronte te alcei á luz branca dos soes,
+e te metti na mão a espada da batalha,
+eu lanço-te este veu assim como a mortalha,
+ultimo e vil lençol da tua negra gloria!
+Para sempre terás a maldição da Historia,
+o despreso do mundo, a execração geral,
+e já que me has negado, ó filho desleal,
+e has seguido o infamante e tenebroso trilho,
+eu nego-te tambem! Tu já não és meu filho!
+Já não és meu amor, minha affeição mais terna.
+És o que tens meu odio e excommunhão eterna,
+a quem lanço este veu de condemnado á morte,
+
+ (repellido-o de si)
+
+Vae, segue para sempre a tua infame sorte!
+Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada!
+Que a minha Indignação te fira como a Espada!
+Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!...
+
+
+*O Espectro* (empurrando o Reu)
+
+
+A caminho! A caminho!--Á Forca do Futuro.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Acabaste d'ouvir a letra da sentença.
+Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa,
+te cause pouco abalo esta sentença augusta!
+Talvez te cause riso e clames não ser justa
+a ira que sacode as cordas d'uma Lyra.
+Talvez velho frascario e lingua de Mentira
+chames ao verso fumo, a tudo vãs ficções!
+Não! A Lyra é de bronze! As novas gerações
+os homens d'ámanhã, os proximos vindouros
+hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros,
+pela noute da Historia esse R flammegante!
+Elles dirão então--Acaso foi o Dante
+que te marcou na testa esse signal soturno!
+Quem foi o vingador, o látego nocturno
+que na fronte te abriu a inicial horrenda?
+
+E tu deves dizer:--Na minha ignobil senda
+não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto!
+Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo
+que não quiz em mim só vibrar o açoute amaro!
+Como outrora Molière, em seu eterno _Avaro_,
+que gravou com buril um lutulento vicio,
+elle quiz castigar em mim o vil flagicio
+d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso,
+que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo,
+salafrario venal, baixo arlequim de feira,
+rasgando a cada passo a tela da bandeira,
+e fugindo a alistar-se em legião contraria;
+quiz vergastar sem dó a moda latrinaria
+d'esse abuso gentil, galante, deleterio,
+--d'hontem ser contra o Rei--hoje ir ao ministerio,
+o costume chinfrim, o ignobil privilegio,
+--d'hontem ser petroleiro--hoje um capaxo régio!
+
+Um homem nada é. É simples grão d'areia
+nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea.
+Mas o Principio é tudo! È força alimentar
+na Consciencia Humana, álerta, sem cessar,
+o castigo do Mal, essa noção sagrada,
+terrível como a Adão do seraphim a espada.
+
+Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso,
+que tu podes travar a roda do Progresso,
+encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo?
+Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo,
+e que todo o trabalho excepcional das Raças,
+todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças,
+industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre,
+tudo que Fausto sonha e Galileu descobre,
+todas as leis dos soes, Systemas e Theorias,
+--vão findar de repente, ás tuas portarias?
+
+Acaso crês que todo o labutar eterno
+do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno
+dos seus instinctos vis, das suas privações,
+em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões,
+ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás más paixões,
+á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente,
+todo esse fermentar energico, vehemente,
+toda a rebellião extraordinaria, séria,
+do Diabo com Deus, da Alma com a Materia,
+toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso,
+o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso,
+o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello,
+o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello,
+o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco,
+o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco
+aos abysmos do mar com a primeira Vella,
+o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella,
+o que inventa o Vapor, esbofeteia a onda,
+o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda,
+o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio,
+o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio,
+o que contorna o acantho em torno ao Capitel,
+o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel,
+a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra,
+o que forja as crueis armas brancas da guerra,
+Newton que descobriu o gravitar dos astros,
+Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros,
+Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro,
+Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro,
+Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta,
+Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta
+que em sua cella agita a mystica alma humana;
+o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana,
+n'aquella India mãe de gerações guerreiras
+onde erram os fakirs á sombra das palmeiras,
+n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos
+onde Jesus scismou perto dos therebinthos;
+tu crês que esse animal das primitivas éras
+que o Lume descobriu para assustar as féras,
+o que fez a primeira e tepida Cabana,
+o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana,
+da primeira Charrua e do primeiro Arado,
+Juvenal que varou Roma de lado a lado
+com suas corrupções, crimes, e vãos delirios
+como a vã liturgia extranha dos Assyrios;
+Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro
+maior que Nero tinha e que era o seu thesouro;
+Durer esse pintor extranho, mysterioso,
+que achou no Pantheismo o mais infindo goso,
+e na tela onde pinta as folhas e as verduras,
+entre os ramos desenha extranhas creaturas,
+como monges fataes minados pela _acédia_
+que dão todo o terror da alma da Edade Media;
+Cervantes, o cruel, que faz errar a trote
+toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote,
+emquanto o Fausto sonha em virgens de balladas,
+e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas;
+Euclides que decreta as leis da Geometria,
+a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia
+e em torres collossaes, á luz das noutes bellas,
+traça o grande roteiro eterno das estrellas;
+Goethe que se fundiu na alma da Naturesa,
+que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa,
+a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo;
+Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo
+de mendigos, truões, abbades, estudantes;
+Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes,
+Juvenal que escarrou na Venus Meretriz,
+Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz,
+prégando um culto novo entre o feroz gentio;
+o que inventa o Compasso, o Leme do navio,
+o que accendeu a Forja, inventa a Picareta,
+o que primeiro aguça a ponta da Lanceta,
+Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes
+Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes,
+Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens,
+Lamark que descobre as animaes origens,
+Aretino que açouta os reis como lacaios,
+Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios,
+Camões que salva um livro e a sua eterna gloria,
+Thierry o que cegou a trabalhar na Historia,
+Espronceda que canta o hymno da _Miseria_,
+Bukner o santo atheu da Força e da Materia,
+Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias,
+Strauss o que anniquilla a lenda do Messias,
+Menuisier que sonda o mundo pequenino,
+Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino,
+Tacito e o seu rancor contra o romano solio,
+Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo,
+Kant que abre á Rasão uma moderna estrada,
+Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada,
+Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco
+ser Deus uma theoria e o Homem um macaco;
+Krishna o que prégou nas regiões da Idéa
+o mesmo que Jesus nos montes da Judéa;
+Zoroastro que elevou as almas para o Sol,
+Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol,
+Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida
+do riso do Diabo e a dôr de Margarida;
+Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes,
+Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes,
+Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro,
+Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro,
+Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito,
+Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito,
+Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia,
+Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia,
+d'Alembert que povôa os mundos estrellados,
+Lao-Tseu que canta os canticos sagrados,
+Berlioz que inventou a musica do Abysmo,
+o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo,
+o que fez a Atafona, o que inventou o Malho,
+toda essa lenda eterna e escura do Trabalho,
+todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna,
+todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna,
+os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso
+crês que isto--ao gesto teu--ameaça retrocesso,
+e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo
+do dedo indicador do general Macedo,
+ou então dos dragões dos regios pergaminhos:
+--Hintze, _o que não ri_, e o Arrobas tres pontinhos...?
+Desillude-te, ó Velho! O mundo não recúa.
+A Historia ha de varrer teu nome para a rua,
+como uma velha o lixo immundo na calçada.
+Tu é que morrerás, tu, ó bexiga inchada
+de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade,
+que eu despejei na rua, á luz da Sociedade,
+como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão.
+Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão
+curvados e servis, quaes rotos saltimbancos,
+mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos,
+agitando a maroma em vez do regio sceptro.
+E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro
+n'esse caminho inglorio e tragico tambem,
+que se chama o Abandono, o caustico Desdem,
+de tudo isto que forma a Opinião Geral.
+Mas o mundo, esse não! No gyro universal
+que traça em torno ao Sol com as demais espheras,
+verá encanecer as legiões das Eras,
+antes que role e volva ás regiões do Abysmo.
+Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo
+o attrahe sem cessar áquella claridade,
+como procura a Alma a luz só da Verdade,
+e na ordem moral, como umas verdes palmas,
+estendem sempre as mãos as supplicantes Almas
+pedindo em côro ao ceu--mais luz, inda mais luz!...
+Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz
+da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços
+no lenho do Despreso em meio dos devassos,
+tu pódes continuar a tua erronea senda!
+Segue o exemplo dos reis--manda-nos pôr á venda.
+Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria.
+Faze contractos vis para formar a Iberia
+debaixo de dous reis, n'um succulento almoço.
+Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço.
+Lança o resto da honra ao nada da voragem.
+Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem.
+Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina.
+Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina.
+Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões.
+Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões.
+Dá que comer á Valla e á boca da Enxovia.
+Senta a fome no Lar, o luto na Alegria.
+Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.
+
+Mas treme do Futuro!--Ouviste a voz d'um homem.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+NOTA
+
+
+Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta publicação o velho
+presidente do ministerio, o homem de quem aqui nos occupámos, renegado
+das suas convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, pela qual se
+elevou, de que é decano e presidente honorario pediu a sua demissão, não
+tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar
+contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem
+menos attenuada. A sua sentença já lhe foi lavrada pela Opinião Publica,
+e na Historia, aonde o seu nome fica lutuosamente escripto. O homem que
+escreveu que antes queria _imprensa anarchica que imprensa perseguida_,
+e é depois de Costa Cabral, (tão incisivamente attacado por elle,) o
+unico que se atreveu a reviver as perseguições e as vindictas, fica
+vergonhosamente vinculado,--e tanto mais vergonhosamente que foi e é um
+jornalista!...
+
+Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve eximir
+ao castigo. É preciso que a responsabilidade ministerial não seja uma vã
+palavra. Se não existe a responsabilidade regia, se não existe de facto
+a responsabilidade ministerial, é força que estes senhores o confessem
+francamente:--a Constituição é uma farça! Se ainda persistem em
+proclamar que o não é, façam que sejam julgados os seus ministros
+demittidos! Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo
+que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o peçam nos comicios,
+toda a imprensa da opposição que brade para que os julgamentos dos
+tribunaes não sejam apenas para os adversarios ou para os miseraveis e
+gatunos: mas que sejam tambem para os grandes salafrarios
+constitucionaes.
+
+O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já tempo que
+teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a espada de
+Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e o impede de
+ser eleito pelo povo para alguma missão de confiança popular. É um
+excellente e perfido meio constitucional para affastar um
+adversario!--mas muito conhecido nos arsenaes politicos. É uma espada
+velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, mas que ainda dá bons
+botes!
+
+No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se fará:--pelo
+menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do ministerio Saint Hilaire, que
+não fugiu á responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo
+portuguez demittido não se peja de fugir a ella. São de tal forma as
+engrenagens do systema constitucional que as maiores arbitrariedades se
+commettem e se perpetram, ficando na impunidade, na sombra do
+esquecimento, ou na velha alcofa d'essa trapeira que se chama
+_Politica_. Fallamos da politica monarchica. Mas é força que as cousas
+não continuem no mesmo pé! É preciso que á mingua da Lei juridica, se
+erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada attentado corresponda um
+castigo, que a cada perversidade corresponda um ferro em braza, que a
+cada abominação corresponda uma guilhotina moral! A espada d'essa lei
+moral devem vibral-a a Opinião Publica a Historia, o jornalismo, os
+poetas, os homens justos, os homens de consciencia lavada. Que todos
+elles repillam de si estes forasteiros, esses safardanas pulhas que
+especulam ha 50 annos com a Constituição, como especullaram com as
+bullas, no tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX.
+Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que elles
+fiquem scientes que as suas arbitrariedades não ficarão na sombra! Ha
+quem vela, e quem registra. É a Historia. Ha quem se indigna e quem
+decapita. É a Poesia.
+
+É para isso que se escreveu este pamphleto.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 7| ensanguenta | ensaguentada* |
+ |#pág. 10| ás raizes | as raizes* |
+ |#pág. 15| phamphletario | pamphletario |
+ |#pág. 16| a chuva | á chuva |
+ |#pág. 23| lua das florestas | lua da floresta* |
+ |#pág. 27| cadellas acoutadas | cadellas açoutadas* |
+ |#pág. 48| pelo luz | pela luz |
+ |#pág. 48| s bre | sobre |
+ |#pág. 49| gemer das flautas | gemer da flauta* |
+ |#pág. 60| aonda | a onda |
+ |#pág. 61| emq anto | emquanto |
+ |#pág. 67| sa escreveu | se escreveu |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
+António Duarte Gomes Leal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
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+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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Binary files differ
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
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+
+Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio
+ carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa
+
+Author: António Duarte Gomes Leal
+
+Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Mar. 2009)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>O RENEGADO</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h4>GOMES LEAL </h4>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h1>
+O<br />
+
+<br />
+
+RENEGADO </h1>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4>
+A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO<br />
+
+CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO </h4>
+
+<h5>SOBRE A PERSEGUI&Ccedil;&Atilde;O DA IMPRENSA </h5>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+<img style="width: 150px; height: 38px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+<span style="font-weight: bold;"><br />
+
+</span></div>
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+TYPOGRAPHIA&#8213;Largo dos Inglezinhos, 27<br />
+
+1881 </h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+A<br />
+
+<br />
+
+MANUEL DE ARRIAGA </h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Eu bispo d'outra diocese...<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">Guilherme
+Braga</span> </div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino,
+presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos
+negocios do reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como
+&aacute;quelle que amo.<br />
+
+<br />
+
+Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem
+na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado
+desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e
+importantes commiss&otilde;es de interesse publico; e querendo por
+estes respeitos e pelo subido apre&ccedil;o em que tenho os vossos
+distinctos e revelantes
+servi&ccedil;os prestados &aacute; dynastia, &aacute;s
+institui&ccedil;&otilde;es, &aacute; causa publica e
+&aacute; liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha
+real considera&ccedil;&atilde;o: hei por
+bem nomear vos commendador da antiga e muito nobre ordem da Torre e
+Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos conjunctamente
+&aacute; dignidade de gran-cruz da mesma ordem.<br />
+
+<br />
+
+O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e
+satisfa&ccedil;&atilde;o, e para que possaes desde
+j&aacute; usar das respectivas insignias, vos mando esta carta.<br />
+
+<br />
+
+Escripta no pa&ccedil;o de Cascaes em 28 de setembro de 1881.&#8213;El
+Rei.&#8213;<em>Antonio Jos&eacute; de Barros e
+S&aacute;</em>.<br />
+
+<br />
+
+Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino,
+presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos
+negocios do reino&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">J&aacute; que El-Rei, teu
+Senhor&#8213;contra a sua M&atilde;e cara,
+<br />
+
+assim te premiou a ensanguentada
+offensa,<br />
+
+eu, um Juiz tambem&#8213;Juiz d'uma outra vara,<br />
+
+contra ti, velho Reu, lavrei esta senten&ccedil;a: </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="p7"></a>
+<h3>I </h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna&#8213;<br />
+
+Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,<br />
+
+lanterna que accendi na grande escurid&atilde;o<br />
+
+sobre a plebe a&ccedil;outada, erguendo a minha m&atilde;o,<br />
+
+lanterna que accendi n'esta &eacute;ra <a href="#e1">ensanguentada</a>,
+<br />
+
+lanterna que accendi, como em sinistra estrada<br />
+
+por causa dos ladr&otilde;es perdido viajante.<br />
+
+Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante<br />
+
+cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,<br />
+
+perguntando-te, &oacute; Velho&#8213;Onde est&aacute; o Direito?<br />
+
+O que fizeste ao Povo, &aacute; Consciencia, ao Brio?<br />
+
+Onde est&aacute; o Pudor, rude anci&atilde;o sombrio?<br />
+
+Quem &eacute;s? Quem &eacute;s? Quem &eacute;s?... velho
+cheio de fel.<br />
+
+Onde est&aacute; &oacute; Cain o teu irm&atilde;o Abel?<br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute;s? Quem &eacute;s?... &Oacute; gloria,
+&oacute; nome hoje avitado?<br />
+
+Tu foste a Alma do Povo&#8213;hoje &eacute;s um renegado.<br />
+
+<span class="pagenum">[8]</span>
+Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,<br />
+
+d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos<br />
+
+&aacute;s palhas da enxovia em vez da luz da esc&oacute;la.<br />
+
+Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla<br />
+
+toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos<br />
+
+maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,<br />
+
+Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.<br />
+
+Trago na minha m&atilde;o a lampada da Ira.<br />
+
+<br />
+
+Eu sou esse rebelde herege, extraordinario<br />
+
+que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,<br />
+
+que pr&eacute;guei n'este tempo &aacute;s turbas assombradas<br />
+
+a Uni&atilde;o e o Direito, e fui pelas estradas<br />
+
+como S. Paulo foi na noute de Damasco,<br />
+
+armado do Rancor, cheio do grande asco<br />
+
+contra os Escribas v&atilde;os, os sordidos judeus,<br />
+
+sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.<br />
+
+N&oacute;s hoje&#8213;os infieis&#8213;n&atilde;o cremos nos milagres.<br />
+
+N&atilde;o me importa que tu, &oacute; Velho, me consagres<br />
+
+o epitheto brutal de herege ou de maldito.<br />
+
+Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!<br />
+
+<br />
+
+Eu sou a voz da turba extranha e inominada<br />
+
+que uma vez &eacute; solu&ccedil;o, outras a gargalhada<br />
+
+<span class="pagenum">[9]</span>
+que chamam <em>povileu</em>, a plebe envilecida,<br />
+
+n'uma &eacute;ra de sangue, uma &eacute;ra fratricida<br />
+
+riscada por um sol velho e sanguinolento.<br />
+
+Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.<br />
+
+Sou o que Ezechiel chamou Rebelli&atilde;o.<br />
+
+Eu sou a voz do P&oacute;, eu sou a voz do Ch&atilde;o.<br />
+
+O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.<br />
+
+Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.<br />
+
+<br />
+
+Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,<br />
+
+sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro<br />
+
+tens renegado sempre, &oacute; sordido traidor,<br />
+
+em nome da sua ira, e em nome do suor<br />
+
+que elle verte a chorar, na Terra, o ch&atilde;o antigo,<br />
+
+que faz c&oacute;rar a rosa e rebentar o trigo,<br />
+
+em nome dos seus mil cuspidos sacrificios<br />
+
+do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,<br />
+
+das suas m&atilde;es sem p&atilde;o, seus filhos no abandono<br />
+
+como um farrapo velho e como um c&atilde;o sem dono,<br />
+
+em nome da Miseria, em nome da Innocencia<br />
+
+de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,<br />
+
+em nome do Direito, em nome d'esta Penna,<br />
+
+escuta a minha voz, a voz que te condemna<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p10">[10]</a></span>
+Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,<br />
+
+forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente<br />
+
+da plebe que trabalha, e com as m&atilde;os possantes<br />
+
+sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,<br />
+
+d'essa ra&ccedil;a animal dos grandes infelizes<br />
+
+que s&atilde;o na sociedade assim como <a href="#e2">as
+raizes</a><br />
+
+que em quanto est&atilde;o no ch&atilde;o, na
+solid&atilde;o, no escuro,<br />
+
+dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,<br />
+
+vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas<br />
+
+&#8213;est&atilde;o as folhas no ar, altivas, gloriosas,<br />
+
+olhando para o azul sereno das espheras,<br />
+
+todas cheias de flor nas verdes primaveras,<br />
+
+sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,<br />
+
+tendo as ben&ccedil;&atilde;os do Sol e os canticos dos ninhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Sim, tu foste um plebeu&#8213;da ra&ccedil;a antiga e rude,<br />
+
+que trabalha no escuro assim como a Virtude.<br />
+
+Sim, tu foste um plebeu&#8213;ra&ccedil;a obscura e sem luz,<br />
+
+d'onde eu tambem sa&iacute;, e d'onde vem Jesus.<br />
+
+<br />
+
+Mas tu velho sem f&eacute;, mordeste-a como um c&atilde;o.<br />
+
+Atrai&ccedil;oas-te-a, sim, e riste como Cham<br />
+
+se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!<br />
+
+S&ecirc; maldito como elle, e seja o teu espinho<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,<br />
+
+ouvir-lhe sempre os ais e as maldi&ccedil;&otilde;es no
+vento!...<br />
+
+Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes<br />
+
+das Alas do Dever, todas as s&atilde;as cohortes<br />
+
+dos grandes cora&ccedil;&otilde;es, ferreos, e verdadeiros,<br />
+
+que trabalham na sombra assim como os mineiros,<br />
+
+a lampada na m&atilde;o augusta da Verdade,<br />
+
+para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.<br />
+
+Tu tinhas a teu lado os cora&ccedil;&otilde;es valentes<br />
+
+dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes<br />
+
+todos filhos, como eu, da Plebe, nossa m&atilde;e!...<br />
+
+Mas tu, Velho sem f&eacute;, mas tu plebeu tambem,<br />
+
+que ambicionavas j&aacute; as pompas gloriosas,<br />
+
+sentiste o asco e o horror d'aquellas m&atilde;os callosas<br />
+
+que trabalham por n&oacute;s noutes, dias inteiros,<br />
+
+na officina, no val, nas minas, nos outeiros,<br />
+
+e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,<br />
+
+de que ser como eu sou&#8213;simples, leal plebeu.<br />
+
+<br />
+
+Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...<br />
+
+Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste<br />
+
+a fronte d'anci&atilde;o, a aur&eacute;ola sagrada<br />
+
+que seria por n&oacute;s mais do que idolatrada,<br />
+
+teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,<br />
+
+terrivel como Deus, teus louros d'homem puro<br />
+
+para os lan&ccedil;ar, &oacute; Velho, ao charco d'um monturo!<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+Vergonha sobre ti e
+os teus cabellos brancos!<br />
+
+Vergonha sobre ti que como os saltimbancos<br />
+
+foste lan&ccedil;ar teu nome ao vento d'uma feira!<br />
+
+Vergonha sobre ti, que como uma rameira<br />
+
+que vende os seios nus em sordida estalagem<br />
+
+ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,<br />
+
+em quanto a m&atilde;e talvez jaz sobre um catre morta,<br />
+
+e o archanjo do Pudor geme e solu&ccedil;a &aacute; porta,<br />
+
+foste vender a honra ao ouro d'um senhor.<br />
+
+Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor<br />
+
+que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,<br />
+
+do que ser um <em>ninguem</em>&#8213;puro, plebeu,
+e pobre.<br />
+
+<br />
+
+Vergonha sobre os vis apostatas da Idea<br />
+
+que negam como Pedro o fez depois da ceia<br />
+
+na noute de Si&atilde;o, o Ceu e Deus trez vezes!<br />
+
+Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,<br />
+
+que levam a matar, balando, ao matadouro!<br />
+
+Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,<br />
+
+sua aureola santa e seu bras&atilde;o de gloria<br />
+
+por um titulo em vida&#8213;e um pontap&eacute; da Historia!<br />
+
+<br />
+
+Vergonha sob v&oacute;s apostatas rafeiros<br />
+
+que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+por que Judas vendeu esse de Nazareth!<br />
+
+Vergonha sobre v&oacute;s, apostatas sem f&eacute;<br />
+
+messias sem pudor que andaes pelos caminhos<br />
+
+pr&eacute;gando aos cora&ccedil;&otilde;es, embebedando em
+vinhos<br />
+
+de gloria e de ideal, e que depois ao Povo<br />
+
+esse sublime Anci&atilde;o de peito sempre novo,<br />
+
+o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,<br />
+
+a&ccedil;outado de Deus, dos reis e dos imperios,<br />
+
+mas que sempre enxotado&#8213;&aacute; chuva, ao vento, em pranto,<br />
+
+leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,<br />
+
+esse banido Anci&atilde;o de todas as na&ccedil;&otilde;es<br />
+
+a quem v&oacute;s atiraes &aacute; lucta e &aacute;s
+sedi&ccedil;&otilde;es,<br />
+
+mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,<br />
+
+como um cego sem guia, esqualido, sosinho,<br />
+
+n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,<br />
+
+voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.<br />
+
+<br />
+
+Vergonha sobre v&oacute;s, &oacute; vendilh&otilde;es do
+templo!<br />
+
+Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo<br />
+
+de todos esses vis messias das viellas,<br />
+
+mais vis do que ladr&otilde;es, mais vis do que as cadellas,<br />
+
+que v&atilde;o vender aos reis as suas
+convic&ccedil;&otilde;es!...<br />
+
+Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com verg&otilde;es<br />
+
+do meu chicote em fogo, irado, justiceiro<br />
+
+para que ao vel-os n&uacute;s, expostos no madeiro<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+da abjec&ccedil;&atilde;o, do desdem, da vaia, da chacota<br />
+
+ao escarneo, ao bofet&atilde;o, &aacute; ponta vil da bota<br />
+
+saiba o Povo afinal que &eacute; preciso escarrar<br />
+
+no sacerdote infiel que vende o seu Altar. </div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="p15">
+</a>
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Tu n&atilde;o sabes que gloria &eacute; ser
+<a href="#e3">pamphletario</a>!<br />
+
+&Eacute; ser o vento rijo, o vento extraordinario<br />
+
+que agita as multid&otilde;es como um canavial,<br />
+
+contra um farrapo regio, a purpura real<br />
+
+contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradi&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+&Eacute; ser o que protesta, o que ergue os
+cora&ccedil;&otilde;es<br />
+
+n'um arranque de heroe, &aacute; torre do Direito,<br />
+
+&eacute; dar qual pellicano, o sangue do seu peito<br />
+
+&aacute; Plebe sua m&atilde;e, como elle o d&aacute; aos
+filhos.<br />
+
+&Eacute; ser o que n&atilde;o &eacute;s. &Eacute;
+n&atilde;o trocar os brilhos<br />
+
+d'uma libr&eacute; real, d'um servo, d'um lacaio,<br />
+
+pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.<br />
+
+&Eacute; ser o que protesta&#8213;o que ergue uma lanterna<br />
+
+na grande escurid&atilde;o, na escurid&atilde;o moderna,<br />
+
+contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente<br />
+
+a favor do <em>ninguem</em>, da Plebe, do
+innocente.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span>
+&Eacute; ser elle s&oacute;sinho o Verbo, o gladio, a penna,<br />
+
+a espada que degolla e o grito que condemna.<br />
+
+&Eacute; ser elle s&oacute;sinho, altivo rebellado,<br />
+
+o grito do mineiro e o espectro do enforcado<br />
+
+que vem correr d'um leito o cortinado r&eacute;gio.<br />
+
+&Eacute; ter esse cond&atilde;o, o enorme privilegio<br />
+
+d'erguendo as m&atilde;os ao c&eacute;u, como sagradas palmas,<br />
+
+fazer gritar a espada e levantar as almas!<br />
+
+&Eacute; ver-se &aacute;s vezes s&oacute;, pobre de terra
+em terra,<br />
+
+na floresta, no val, nas rochas ou na serra,<br />
+
+&aacute; neve, <a href="#e4">&aacute; chuva</a>,
+aos soes, nas
+n&eacute;voas estrangeiras,<br />
+
+nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras<br />
+
+pela neve polar, no exilio, nas ruinas,<br />
+
+&#8213;mas seja na pris&atilde;o, nos gelos, ou nas minas,<br />
+
+mal soar o seu nome&#8213;alevantar-se um peito<br />
+
+e gritar:&#8213;Elle &eacute; que &eacute; a Espada do Direito!<br />
+
+<br />
+
+Ser pamphletario &eacute;&#8213;ser um pharol na noute<br />
+
+ser a pedra angular, Patibulo e A&ccedil;oute.<br />
+
+&Eacute; ter todo um vulc&atilde;o em lava no seu craneo,<br />
+
+toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,<br />
+
+como agitou Marat,&#8213;ou agu&ccedil;ar a espada<br />
+
+contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.<br />
+
+&Eacute; estar sempre s&oacute;sinho, altivo, no seu posto,<br />
+
+quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+ser chamado um hereje&#8213;e as pallidas mulheres<br />
+
+quando veem surgir esses extranhos seres<br />
+
+apertarem ao peito as timidas crean&ccedil;as.<br />
+
+&Eacute; andar pobre, exhausto, humilde como as gran&ccedil;as<br />
+
+errante, s&oacute;, banido, exhausto pela terra,<br />
+
+&#8213;mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,<br />
+
+quer nos pa&ccedil;os reaes, nas pra&ccedil;as da Cidade<br />
+
+a sua voz gritar&#8213;Alas &aacute; Honestidade!<br />
+
+<br />
+
+E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,<br />
+
+frio como &eacute; a Lei, frio como Proudhon,<br />
+
+chicotear sem d&oacute; os lombos dos Heroes,<br />
+
+vender como Marat, na fome, os seus len&ccedil;oes,<br />
+
+mas nunca se vender, mas nunca transigir!<br />
+
+&Eacute; saber odiar, decapitar, punir<br />
+
+e n&atilde;o se rebaixar nunca como um capaxo!<br />
+
+&Eacute; ser a voz de ferro, &eacute; ser a voz de baixo,<br />
+
+que aterra a noute vil d'um seculo maldito.<br />
+
+&Eacute; ser a voz da Plebe, &eacute; ser o grande grito<br />
+
+n'uma &eacute;ra de luto, infame, ensanguentada<br />
+
+em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada<br />
+
+e morre como outr'ora amando o Raphael.<br />
+
+E ter odio, &eacute; ter ira, &eacute; ter
+despreso e fel<br />
+
+contra uma horda vil de infames sacripantas.<br />
+
+&Eacute; levantar ao ceu livres espadas santas<br />
+
+<span class="pagenum">[18]</span>
+todos os campe&otilde;es das Alas do Rancor.<br />
+
+&Eacute; gritar, &eacute; gritar&#8213;&laquo;Eu sou o
+<em>Odio</em>&#8213;<em>Amor</em>,
+<br />
+
+&laquo;O Odio que tem s&ecirc;de, a voz do que tem fome,<br />
+
+&laquo;a voz d'aquelle infeliz, a quem n&atilde;o
+d&atilde;o um nome<br />
+
+&laquo;que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta<br />
+
+&laquo;sem ben&ccedil;&atilde;os e
+ora&ccedil;&otilde;es&#8213;como
+uma prostituta.<br />
+
+&laquo;Sou a voz do <em>ninguem</em>, a voz do
+cannavial<br />
+
+&laquo;que solu&ccedil;a, e n&atilde;o quebra ao rijo
+temporal,<br />
+
+&laquo;sou a voz do que chora, a voz do que suspira,<br />
+
+&laquo;o que ergue, alta, na m&atilde;o a lampada da Ira,<br />
+
+&laquo;o que chamou a si os <em>tristes</em>,
+exilados<br />
+
+&laquo;sob as tendas de Cham, todos os desgra&ccedil;ados<br />
+
+&laquo;que vagueiam na terra exhaustos e banidos,<br />
+
+&laquo;o que chamou a si todos os opprimidos<br />
+
+&laquo;todos que tinham s&ecirc;de assim como Ismael<br />
+
+&laquo;e tragavam na treva a sua cinsa e fel!<br />
+
+&laquo;Eu n&atilde;o sou como v&oacute;s uma bexiga cheia<br />
+
+&laquo;de colera, de fel, de inveja que guerreia,<br />
+
+&laquo;e vem lan&ccedil;ar &aacute; rua a sua roupa suja!<br />
+
+&laquo;Eu n&atilde;o sou como v&oacute;s um
+<em>corvo</em>, uma coruja<br />
+
+&laquo;que me nutra a cevar nos que se v&atilde;o ao nada!<br />
+
+&laquo;Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,<br />
+
+&laquo;tudo que &eacute; fraco, ch&atilde;o, vergado de
+trabalho,<br />
+
+&laquo;tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,<br />
+
+&laquo;tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,<br />
+
+&laquo;que vivem na abjec&ccedil;&atilde;o e s&atilde;o
+chamados
+<em>fezes</em><br />
+
+<span class="pagenum">[19]</span>
+&laquo;que chamam <em>povileu</em>, que chamam a
+<em>gentalha</em>,<br />
+
+&laquo;e gritei-lhes&#8213;&Aacute;vante! &Eacute; hora da
+batalha!<br />
+
+<br />
+
+Ora este hereje pois, ora este pamphletario,<br />
+
+que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,<br />
+
+este homem do Dever, este homem do Direito,<br />
+
+que em vez d'uma gr&atilde; cruz, traz seu Odio no peito,<br />
+
+que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza<br />
+
+dobra e curva o joelho aos thronos e &aacute; Realeza,<br />
+
+que em quanto tudo quer ser despota e opulento<br />
+
+elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,<br />
+
+que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,<br />
+
+quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,<br />
+
+que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,<br />
+
+elle defende o fraco, e exp&otilde;e o peito &aacute; Sorte,<br />
+
+quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,<br />
+
+faz do Direito a&ccedil;oute, e faz da penna espada,<br />
+
+e diz a um rei, um Czar, um d&eacute;spota potente<br />
+
+&#8213;Senhor, v&oacute;s sois o cedro olympico, inclemente<br />
+
+o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,<br />
+
+o furac&atilde;o da Plebe, o a&ccedil;oute dos imperios,<br />
+
+terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.<br />
+
+&#8213;Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span>
+Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:<br />
+
+&#8213;V&oacute;s tendes o <em>knut</em>&#8213;eu
+tenho esta lanterna.<br />
+
+<br />
+
+Este homem inda que pobre, inda que perseguido,<br />
+
+roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,<br />
+
+inda que triste e s&oacute; no seu isolamento,<br />
+
+ao p&eacute; do grande Czar, n'este cruel momento,<br />
+
+inda que pobre e vil, inda que maltrapilho<br />
+
+&eacute; tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.<br />
+
+<br />
+
+Assim foste tambem, &oacute; Velho solitario!<br />
+
+Assim foste tambem grande pamphletario<br />
+
+que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!<br />
+
+Assim foste tambem quando eras puro e novo<br />
+
+e sabias levar &aacute; guerra os cora&ccedil;&otilde;es,<br />
+
+quando eras um a&ccedil;oute e o deus das multid&otilde;es<br />
+
+que vinham em tropel beijar os teus joelhos!<br />
+
+Mas hoje tu o que &eacute;s&#8213;escoria d'entre os velhos<br />
+
+refugo de traidor, &oacute; renegado hostil!<br />
+
+Mas hoje tu o que &eacute;s, &oacute; lixo impuro e vil!<br />
+
+alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;s o que se vendeu!&#8213;Tu &eacute;s uma cloaca.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>III</h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+&Oacute; seculo de ferro! &oacute;
+gera&ccedil;&atilde;o escrava!<br />
+
+que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,<br />
+
+no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,<br />
+
+cae a agua do ceu como n'um po&ccedil;o velho!<br />
+
+Sim a agua do ceu que faz viver a fl&ocirc;r<br />
+
+mal que no po&ccedil;o cae transforma-se na lama!<br />
+
+&Oacute; seculo de ferro, &oacute; seculo de horror,<br />
+
+que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?<br />
+
+Que fazes tu da Voz que ou&ccedil;o passar nos ventos,<br />
+
+pr&eacute;gando a Nega&ccedil;&atilde;o, n'um funebre
+arrepio,<br />
+
+que ou&ccedil;o clamar na noute em uivos e em lamentos<br />
+
+como um ladrar feroz de ruivo c&atilde;o sombrio?<br />
+
+Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos<br />
+
+que d&atilde;o prantos de sangue &aacute;s tuas
+vexa&ccedil;&otilde;es,<br />
+
+e do carro de fogo arrojam os seus mantos<br />
+
+que arrastam &aacute; Revolta o mar das multid&otilde;es?<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira<br />
+
+vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.<br />
+
+A Justi&ccedil;a tornou-se em velha alcoviteira.<br />
+
+A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!<br />
+
+O Desespero cr&uacute; esparge o seu veneno<br />
+
+na ta&ccedil;a d'ouro e onyx das jovens illus&otilde;es.<br />
+
+O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.<br />
+
+O Mal com a tenaz aperta os cora&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes<br />
+
+ergue aos ceus suas m&atilde;os, brancas como o alabastro.<br />
+
+Traz a Lyra na m&atilde;o vestida de cyprestes.<br />
+
+Seu santo cora&ccedil;&atilde;o flameja como um astro!<br />
+
+S&oacute; ella faz ouvir n'um seculo corrupto<br />
+
+sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!<br />
+
+S&oacute; ella faz ouvir seu ala&uacute;de em luto<br />
+
+que d&aacute; notas crueis de Maldi&ccedil;&atilde;o e
+Morte.<br />
+
+&Eacute; s&oacute; ella que empunha o seu chicote em fogo<br />
+
+como o a&ccedil;oute de ferro indomito de Deus,<br />
+
+para a&ccedil;outar os reis, o falso demagogo,<br />
+
+os biltres charlat&atilde;es dos reis e dos plebeus.<br />
+
+&Eacute; s&oacute; ella que faz na noute secular,<br />
+
+na sua Lyra ouvir&#8213;n&atilde;o canticos d'amor&#8213;<br />
+
+mas as notas fataes que entornam o luar<br />
+
+da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.<br />
+
+Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,<br />
+
+que j&aacute; tendes chorado e que sabeis rugir.<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span>
+Quero em cordas de bronze os canticos das iras!<br />
+
+&Eacute; preciso a&ccedil;outar, decapitar, punir!...<br />
+
+Deixae agora o Amor e as brizas da bonan&ccedil;a!<br />
+
+Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!<br />
+
+Pela noute vibrae as notas da Vingan&ccedil;a.<br />
+
+Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.<br />
+
+<br />
+
+&Oacute; poetas do Amor deixae vossos idyllios,<br />
+
+os atalhos do bosque e a <a href="#e5">lua da floresta</a>!<br />
+
+Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,<br />
+
+n'uma &eacute;ra de sangue inhospita e funesta!<br />
+
+Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,<br />
+
+as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!<br />
+
+porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.<br />
+
+A Terra vae parir algum Christo do mal.<br />
+
+Deixae de nos cantar as nuvens da bonan&ccedil;a,<br />
+
+e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,<br />
+
+por que em breve j&aacute; vem a hora da matan&ccedil;a<br />
+
+em que a Espada tem voz, e as torres v&atilde;o cair.<br />
+
+Eu tambem vos cantei, &oacute; cantos langorosos,<br />
+
+&oacute; nuvens da manh&atilde;, &oacute; flor da
+romanzeira,<br />
+
+&oacute; torrentes do val, &oacute; beijos amorosos<br />
+
+da Mulher que se amou n'uma vis&atilde;o primeira!<br />
+
+Tambem j&aacute; te cantei, estrella do pastor,<br />
+
+&oacute; dan&ccedil;as sobre a eira, &oacute; lua das
+mar&eacute;s.<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+Mas hoje a minha voz &eacute; rouca como a D&ocirc;r,<br />
+
+terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.<br />
+
+Abandonei-te &oacute; Amor! Meu rir fez-se tregeito.<br />
+
+Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.<br />
+
+Foragido dos reis, armado do Direito<br />
+
+fa&ccedil;o vibrar na Lyra os canticos de ferro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV</h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Pobre mulher sem p&atilde;o, quando de porta em porta<br />
+
+tendo batido em v&atilde;o foste &aacute; do lupanar,<br />
+
+e ali deixaste a honra e a virgindade morta,<br />
+
+como noiva infeliz que levam a enterrar!<br />
+
+quando foste bater, chagado cora&ccedil;&atilde;o<br />
+
+&aacute;s portas solu&ccedil;ando, e que ninguem te abriu,<br />
+
+e o leito do bordel quaes taboas d'um caix&atilde;o<br />
+
+te sepultou em vida, e teu calor cingiu!<br />
+
+quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,<br />
+
+illus&otilde;es d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,<br />
+
+viste tudo findar na enxerga repellente<br />
+
+do teu leito de infamia&#8213;o catre do bordel!<br />
+
+Quando tendo elevado ao ceu teus magros bra&ccedil;os,<br />
+
+como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,<br />
+
+s&oacute; achaste o silencio e o echo dos teus passos,<br />
+
+o riso da cazerna e a noute das rameiras!<br />
+
+<span class="pagenum">[26]</span>
+quando &oacute; loura mulher no ber&ccedil;o excommungada<br />
+
+por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,<br />
+
+por tua propria M&atilde;e talvez abandonada,<br />
+
+pobre flor que h&atilde;o lan&ccedil;ado ao pantano a raiz!<br />
+
+Quando foste for&ccedil;ada &aacute;s bachanaes rasteiras,<br />
+
+e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,<br />
+
+e a deixar teu amor na lama das regueiras,<br />
+
+como os sedentos c&atilde;es que v&atilde;o beber nas ruas!<br />
+
+Quando &oacute; filha do Povo, &oacute; pobre filha impura,<br />
+
+que uma m&atilde;e n&atilde;o beijou, que um Pae n&atilde;o
+protegeu,<br />
+
+achaste a Fome vil, velha de boca escura,<br />
+
+n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!<br />
+
+quando &oacute; dahlia da D&ocirc;r, planta dos atoleiros,<br />
+
+pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,<br />
+
+tu vaes servir de gaudio &aacute; noute dos banqueiros,<br />
+
+sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!<br />
+
+quando &oacute; selvagem flor, &oacute; po&ccedil;a do
+abandono,<br />
+
+sem lagrimas de M&atilde;e, sem osculos de irm&atilde;o,<br />
+
+a Fome te obrigou qual magro c&atilde;o sem dono<br />
+
+a buscar na valleta o teu immundo p&atilde;o!<br />
+
+Dize sabias j&aacute;, rainha da enxurrada,<br />
+
+ave que n&atilde;o tens ninho e que empurrou a Fome<br />
+
+que ha entes como tu&#8213;ra&ccedil;a vil, condemnada,<br />
+
+que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?<br />
+
+Dize sabias j&aacute;, loura infeliz sem p&atilde;o<br />
+
+que um seductor manchou, ou que uma M&atilde;e vendeu,<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span>
+que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu bras&atilde;o,<br />
+
+sem terem como tu os chascos e o labeu?<br />
+
+Dize sabias j&aacute; que em quanto vaes na pra&ccedil;a<br />
+
+entre um circulo vil de chascos quaes facadas,<br />
+
+elles v&atilde;o affrontando a multid&atilde;o que passa,<br />
+
+em gloriosos trens de portas brasonadas?<br />
+
+Dize sabias j&aacute;, &oacute; branca meretriz,<br />
+
+que aos homens como c&atilde;es cedes teu corpo n&uacute;,<br />
+
+que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,<br />
+
+mais vis do que os ladr&otilde;es, mais rameiras que tu?<br />
+
+Tu n&atilde;o sabes talvez, &oacute; lama apedrejada,<br />
+
+por toda a rua hostil, por toda a rua s&eacute;ria,<br />
+
+a distancia que vae dos <em>outros</em> ao
+teu nada.<br />
+
+&Oacute; tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!<br />
+
+Por&eacute;m eu um rebelde &aacute;s Praxes como espadas,<br />
+
+entre a mulher sem p&atilde;o e os pifios cannibaes,<br />
+
+&oacute; prostitutas vis! <a href="#e6">cadellas
+a&ccedil;outadas</a>!<br />
+
+&Oacute; rameiras da rua!&#8213;eu vos respeito mais.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>V</h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Velho, escuta, esta voz.&#8213;Eu n&atilde;o sei perdoar:<br />
+
+frio como um Destino eu heide-te a&ccedil;outar<br />
+
+at&eacute; te ver em sangue os lombos aviltados!<br />
+
+No estrume arrastarei teus louros profanados,<br />
+
+que jazer&atilde;o no esterco infame das viellas,<br />
+
+onde vagam &aacute; lua os &eacute;brios e as cadellas.<br />
+
+Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado<br />
+
+que depois de haver rido, haver calumniado<br />
+
+uma Esposa, uma M&atilde;e, um Lar, uma rainha,<br />
+
+&#8213;no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!&#8213;<br />
+
+n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,<br />
+
+depois de lhe chamar a <em>grande
+prostituta</em><br />
+
+nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo<br />
+
+que ser do filho-rei o humillimo capaxo,<br />
+
+nada achou mais servil, para apagar a offensa,<br />
+
+do que vender a penna e perseguir a Imprensa!<br />
+
+<span class="pagenum">[30]</span>
+Lodo do Homem vil, &oacute; barro da Paix&atilde;o,<br />
+
+&oacute; abysmo d'uma alma, &oacute; rei da
+Crea&ccedil;&atilde;o,<br />
+
+foi Satan que te p&ocirc;z o diadema escuro!<br />
+
+Pode-se assim sem d&oacute; zombar do seu Futuro,<br />
+
+macular para sempre a virginal gloria,<br />
+
+cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,<br />
+
+e envergonhar a campa humilde dos plebeus<br />
+
+que foram os seus paes&#8213;e a pobre m&atilde;e nos ceus,<br />
+
+matar os louros seus&#8213;avilta&ccedil;&atilde;o eterna!<br />
+
+como um ebrio que morre em ch&atilde;o d'uma taberna?<br />
+
+&Eacute;s tu que fazes isto, &oacute; Alma, &oacute; Alma
+etherea?<br />
+
+Acaso &eacute;s t&atilde;o medonha &oacute; funebre
+Miseria,<br />
+
+acaso &eacute;s t&atilde;o infame, &oacute; magra
+Messalina,<br />
+
+que obrigas uma alma, essa por&ccedil;&atilde;o divina,<br />
+
+essa faisca eterna, eterna claridade,<br />
+
+a assassinar sem d&oacute; a branca virgindade<br />
+
+do seu passado santo e virgem cora&ccedil;&atilde;o,<br />
+
+e arremessal-o ao mar no fundo d'um caix&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+Acaso &oacute; ouro &eacute;s tu&#8213;tu que nos fazes nobre?<br />
+
+&Eacute; t&atilde;o terr&iacute;vel ser&#8213;puro, plebeu, e
+pobre,&#8213;<br />
+
+&eacute; t&atilde;o torpe, &eacute; t&atilde;o vil, ser
+simples mas honrado,<br />
+
+que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,<br />
+
+que em certo dia vil&#8213;dia vil entre os dias,&#8213;<br />
+
+se atire uma risada &aacute;s santas utopias<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+&aacute;s cren&ccedil;as virginaes da loura Mocidade<br />
+
+&aacute; aureola ideal d'aquella santa edade,<br />
+
+e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,<br />
+
+pela libr&eacute; d'um servo e a farda de um lacaio?<br />
+
+N&atilde;o! N&atilde;o tem remiss&atilde;o este teu crime,
+&oacute; Velho!<br />
+
+J&aacute; que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,<br />
+
+o teu crime &eacute; mais vil, funesto, escandaloso!<br />
+
+Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,<br />
+
+faminto como tu, ir&aacute; lamber o manto<br />
+
+do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,<br />
+
+e de rastos, no ch&atilde;o, beijar o p&oacute; do throno.<br />
+
+Por isso vou marcar-te infame c&atilde;o sem dono,<br />
+
+e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.<br />
+
+Vaes ouvir a Justi&ccedil;a&#8213;a augusta, a verdadeira,<br />
+
+a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,<br />
+
+a que ouve e que v&ecirc; n'Alma, a que condemna &aacute;
+morte,<br />
+
+com seu dedo de luz no livro do Futuro,<br />
+
+a que arroja &aacute; gehenna eterna do monturo,<br />
+
+e que com ferro em braza escreve os tristes fins<br />
+
+dos juizes Caiph&aacute;s, dos pifios Severins,<br />
+
+e d'outros a quem heide em breve tomar contas!<br />
+
+Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,<br />
+
+a que gela no labio as phrases come&ccedil;adas,<br />
+
+que ha de julgar Thiers de c&atilde;s ensanguentadas,<br />
+
+pelas suas crueis, fataes carnificinas,<br />
+
+a que condemna os reis e as tropas assassinas,<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span>
+a que forma e dirige a Alma Universal.<br />
+
+Entra &oacute; sinistro reu! Abriu-se o tribunal.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span> <span class="tinys">(levantando os
+bra&ccedil;os, clamando)</span></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Eis aqui, &oacute; Justi&ccedil;a, &oacute; minha
+M&atilde;e austera,<br />
+
+tua filha infeliz, que traz preza esta fera,<br />
+
+este sinistro Reu que v&ecirc;s acorrentado!<br />
+
+Elle, o vil me trahiu, elle &eacute; o scelerado<br />
+
+que de mim motejou, como Cham riu do Pai!<br />
+
+Elle era o meu bord&atilde;o, qualquer solu&ccedil;o ou ai<br />
+
+que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,<br />
+
+vinha bater no seu. O monstro n&atilde;o ladrava<br />
+
+como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!<br />
+
+Eil o! elle aqui est&aacute;!&#8213;o rei dos saltimbancos!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Cala um pouco essa d&ocirc;r. A Plebe grande e rude<br />
+
+deve ser tambem forte assim como a Virtude.<br />
+
+Nem sempre &aacute; pena e &aacute; d&ocirc;r o pranto fica
+bem!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Deixae me solu&ccedil;ar. Eu sou a sua M&atilde;e.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span><span style="font-weight: bold;">A Justi&ccedil;a</span>
+<span class="tinys">(surpreza)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Elle &eacute; teu filho, &oacute; Plebe?... Oh deve ser suprema
+<br />
+
+a injuria que te fez, ou o crime que o algema!<br />
+
+De certo foi bem funda extraordinaria a offensa<br />
+
+bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,<br />
+
+bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional<br />
+
+pois que cita uma M&atilde;e seu filho ao tribunal!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Plebe<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.<br />
+
+Ouve primeiro, &oacute; M&atilde;e! Depois julga e condemna.<br />
+
+Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida<br />
+
+que vou de val em val, de mar em mar, varrida<br />
+
+como a Judea antiga, a escrava, pela noute,<br />
+
+chorando por seu Deus, sob o romano a&ccedil;oute.<br />
+
+Meus filhos tambem v&atilde;o chorando pela estrada.<br />
+
+&laquo;&Aacute;s vezes diz-me um&#8213;&Oacute; minha
+M&atilde;e amada!<br />
+
+&laquo;J&aacute; temos caminhado em v&atilde;o de serra em
+serra.<br />
+
+&laquo;Temos os p&eacute;s em sangue! &Aacute; guerra,
+&oacute;
+M&atilde;e, &aacute; guerra!<br />
+
+&laquo;N&atilde;o temos vinho e p&atilde;o! N&atilde;o
+temos o
+sustento!<br />
+
+&laquo;Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!<br />
+
+&laquo;N&atilde;o temos luz e lar. N&atilde;o temos nem
+vestidos!<br />
+
+&laquo;N&atilde;o temos ar nem sol! Vem aos montes subidos<br />
+
+<span class="pagenum">[34]</span>
+&laquo;olhar como o sol brilha em r&uacute;tila grandeza!<br />
+
+&laquo;Deus tambem para n&oacute;s formou a Natureza.<br />
+
+&laquo;N&atilde;o &eacute; s&oacute; para um rei, um
+grande, uma
+rainha<br />
+
+&laquo;que a espiga d&aacute; seu p&atilde;o e pampanos a
+vinha!<br />
+
+&laquo;Eu j&aacute; sou forte, &oacute; M&atilde;e, eu
+tenho as
+m&atilde;os grosseiras<br />
+
+&laquo;de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,<br />
+
+&laquo;eu quero transformar a minha enxada em lan&ccedil;a,<br />
+
+&laquo;e tornar teu naufragio, &oacute; M&atilde;e, n'uma
+bonan&ccedil;a!<br />
+
+&Aacute;s vezes este filho energico, revel,<br />
+
+&eacute; um trigueiro alde&atilde;o, chama-se Guilherme Tell,<br />
+
+outras com seu olhar veste os simples e os nus<br />
+
+&eacute; plebeu e poeta e chama-se Jesus.<br />
+
+Outras &eacute; um a&ccedil;oute, um vento rijo e austero,<br />
+
+&eacute; um monge brutal e chama-se Luthero.<br />
+
+Mas &aacute;s vezes tambem, &oacute; lastima vehemente!<br />
+
+falla-me assim, &oacute; M&atilde;e, a bocca da serpente<br />
+
+d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,<br />
+
+com o sangue de heroes de louros victoriosos!<br />
+
+Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira<br />
+
+a bocca da Trai&ccedil;&atilde;o, a bocca da Mentira,<br />
+
+apontando-me al&eacute;m teu sceptro de brilhantes.<br />
+
+Eu levanto-me ent&atilde;o assim como os gigantes,<br />
+
+a espada dos heroes empunho sem demora,<br />
+
+e can&ccedil;ada d'andar qual velho boi na nora<br />
+
+da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjec&ccedil;&atilde;o,<br />
+
+pr&eacute;go a santa Revolta &aacute; santa
+Multid&atilde;o!<br />
+
+<span class="pagenum">[35]</span>
+Mas ent&atilde;o o servil, o immundo renegado,<br />
+
+vende-se a quem me tem o peito ensanguentado<br />
+
+no lodo da abjec&ccedil;&atilde;o, no p&oacute; do
+aviltamento!<br />
+
+Fico ent&atilde;o outra vez no meu isolamento,<br />
+
+na minha escurid&atilde;o chorosa, amarga, e s&eacute;ria,<br />
+
+outra vez a puxar na nora da Miseria,<br />
+
+outra vez a roer o p&atilde;o amargo e escuro,<br />
+
+pela fresta espreitando o dia do Futuro.<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.<br />
+
+Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.<br />
+
+Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.<br />
+
+Foi assim que o vill&atilde;o, chefe dos saltimbancos,<br />
+
+expulsou sua M&atilde;e ao vento da Desgra&ccedil;a.<br />
+
+Foi assim que vendeu a sua M&atilde;e na pra&ccedil;a<br />
+
+expulsando-a de casa, em desabrida noute<br />
+
+sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o a&ccedil;oute.<br />
+
+Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobi&ccedil;a.<br />
+
+Justi&ccedil;a contra o vil!&#8213;Justi&ccedil;a, &oacute;
+M&atilde;e, Justi&ccedil;a!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Miseria, infamia, e d&ocirc;r! &Oacute; mundanal feitura,<br />
+
+barro do homem vil, indigna creatura<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+p&oacute;de-se acaso assim cuspir em sua M&atilde;e!<br />
+
+P&oacute;de acaso a Cobi&ccedil;a allucinar alguem<br />
+
+por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,<br />
+
+que transforme uma alma ingenua, verdadeira,<br />
+
+um virgem cora&ccedil;&atilde;o, qual pagem branco e louro<br />
+
+que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,<br />
+
+a abandonar assim as illus&otilde;es de gloria,<br />
+
+sua aur&eacute;ola santa, o seu braz&atilde;o na Historia,<br />
+
+todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,<br />
+
+todas as convic&ccedil;&otilde;es da loura Mocidade,<br />
+
+para atirar tudo isto aos p&eacute;s da sombra apenas<br />
+
+d'um symbolo real eivado de gangrenas,<br />
+
+e depois sem Amor, sem nada que conforta,<br />
+
+a sua velha M&atilde;e lan&ccedil;ar f&oacute;ra da porta!<br />
+
+Alguem acaso viu o crime infame, enorme?</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Consciencia Humana</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,<br />
+
+alguem que sonda o mar e os fundos cora&ccedil;&otilde;es<br />
+
+as insomnias dos reis e os somnos dos le&otilde;es!<br />
+
+Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado<br />
+
+toda a noute escrever, d'olhar allucinado,<br />
+
+pamphletos crueis na sordida trapeira.<br />
+
+Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma
+<em>rameira</em><br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+e <em>rainha assassina</em> &aacute;
+tragica reinante.<br />
+
+Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,<br />
+
+pr&eacute;gar a sedi&ccedil;&atilde;o, direitos, regalias,<br />
+
+e erguer a Plebe-M&atilde;e &aacute;s santas utopias<br />
+
+que fazem levantar na pra&ccedil;a os estandartes!<br />
+
+Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes<br />
+
+do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,<br />
+
+agachado na treva assim como as toupeiras,<br />
+
+a minar, a minar, as monarchias v&atilde;as!<br />
+
+Depois tambem o vi sobre os reaes divans,<br />
+
+reclinando-se j&aacute; com um praser secreto,<br />
+
+contemplando os flor&otilde;es dourados pelo tecto,<br />
+
+com um olhar d'abbade ou satyro contente,<br />
+
+exclamar: &laquo;Isto &eacute; bom!... Sente-se bem a gente<br />
+
+&laquo;n'estes almofadins, entre estes reposteiros!<br />
+
+&laquo;G&oacute;sto d'estes flor&otilde;es,
+g&oacute;sto d'estes
+archeiros,<br />
+
+&laquo;que fazem reluzir as suas alabardas!<br />
+
+&laquo;Afinal os plebeus precisam&#8213;&eacute; d'albardas.<br />
+
+&laquo;Que querem elles mais? Comer das ucharias,<br />
+
+&laquo;beber como uns toneis, vir &aacute;s estrebarias,<br />
+
+&laquo;e algum dia puxar pelas reaes carro&ccedil;as?...<br />
+
+&laquo;Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as b&oacute;ssas<br />
+
+&laquo;do mando, do poder, do luxo, da opulencia!<br />
+
+&laquo;G&oacute;sto de ouvir dizer&#8213;Saiba Vossa Excellencia<br />
+
+&laquo;que o espera &aacute; mesa j&aacute; El-Rei, Nosso
+Senhor!<br />
+
+&laquo;Eu levanto-me ent&atilde;o. Como e bebo melhor<br />
+
+<span class="pagenum">[38]</span>
+&laquo;que todo um refeitorio inteiro de bernardos.<br />
+
+&laquo;N&atilde;o sou como os plebeus que at&eacute;
+devoram cardos,<br />
+
+&laquo;negro caldo espartano e sordidas raizes!<br />
+
+&laquo;Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!<br />
+
+&laquo;Amo o Porto, o Xerez, e os t&eacute;pidos manjares<br />
+
+&laquo;da ucharia dos reis que incensam bem os ares,<br />
+
+&laquo;e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!<br />
+
+A Gloria &eacute; nome v&atilde;o! Um fumo s&oacute; na
+Historia!<br />
+
+&laquo;Da gloria n&atilde;o se vive. A Gloria &eacute;
+s&oacute; chimera.<br />
+
+&laquo;El-Rei Ventre &eacute; que manda. O ventre
+n&atilde;o espera.<br />
+
+&laquo;Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!<br />
+
+&laquo;Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,<br />
+
+&laquo;as faces de setim das bellas camareiras!<br />
+
+&laquo;Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras<br />
+
+&laquo;entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,<br />
+
+&laquo;que me fazem sonhar noutes voluptuosas<br />
+
+&laquo;como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,<br />
+
+&laquo;apertando entre as m&atilde;os as f&oacute;rmas
+femininas,<br />
+
+&laquo;rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,<br />
+
+&laquo;d'uma mulher ideal que nos concede tudo,<br />
+
+&laquo;semi n&uacute;a, a sorrir, n'um leito de
+velludo!...&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justi&ccedil;a austera!&#8213;<br />
+
+Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+que tanta vez ladrou contra os bras&otilde;es reaes!<br />
+
+Aqui tens, &oacute; Justi&ccedil;a, a escoria dos seus Paes,<br />
+
+a bocca da Trai&ccedil;&atilde;o, a bocca da Mentira,<br />
+
+a penna tinta em fel que semeou a Ira,<br />
+
+o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!<br />
+
+<br />
+
+Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua M&atilde;e.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Justi&ccedil;a</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Ha alguem que defenda o livido accusado?<br />
+
+Ha alguem que erga um bra&ccedil;o, um bra&ccedil;o immaculado,
+<br />
+
+que n&atilde;o se tenha nunca achado em morticinios,<br />
+
+um bra&ccedil;o recto e bom, puro dos assassinios,<br />
+
+derramados no ch&atilde;o dos campos inda quentes,<br />
+
+que n&atilde;o tenha contra elle a voz dos innocentes,<br />
+
+nem erga contra si a voz dos opprimidos,<br />
+
+ha alguem que erga um bra&ccedil;o ao ceu dos perseguidos,<br />
+
+cheio de convic&ccedil;&atilde;o ao meu terrivel ceu?<br />
+
+Ha alguem que erga um bra&ccedil;o, um bra&ccedil;o a
+pr&oacute; do Reu?</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Ordem</span> <span class="tinys">(erguendo o
+bra&ccedil;o)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Suspende-te, &oacute; Justi&ccedil;a! Eu ergo a ti meu
+bra&ccedil;o!<br />
+
+Este reu que aqui v&ecirc;s n&atilde;o &eacute; um vil
+devasso,<br />
+
+<span class="pagenum">[40]</span>
+um baixo salteador d'estradas e caminhos!<br />
+
+Eu vou provar que elle &eacute; mais puro que os arminhos.<br />
+
+Vou demonstrar que elle &eacute; mais santo que as estrellas,<br />
+
+mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!<br />
+
+Provarei, &oacute; Justi&ccedil;a, at&eacute; &aacute;
+saciedade,<br />
+
+que este reu at&eacute; tem cheiro de santidade!<br />
+
+A Plebe sua m&atilde;e &eacute; uma velha escrava,<br />
+
+tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava<br />
+
+&laquo;de guerra e sedi&ccedil;&atilde;o contra as
+institui&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+&laquo;Ella &eacute; que faz que El-Rei n&atilde;o durma em
+seus
+colx&otilde;es<br />
+
+&laquo;o somno da Innocencia o somno bom do Justo,<br />
+
+&laquo;e que at&eacute;, grandes ceus! fa&ccedil;a o seu
+chylo a
+custo!<br />
+
+&laquo;Ella &eacute; que faz que a Industria erre paralysada,<br />
+
+&laquo;que o Commercio n&atilde;o durma e a Ordem transtornada<br />
+
+&laquo;mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,<br />
+
+&laquo;que toda a tropa fique em armas nos quarteis.<br />
+
+&laquo;Ella &eacute; que impede e trava a roda Progresso!<br />
+
+&laquo;Que dique lhe hei de opp&ocirc;r?&#8213;Brado como um
+possesso:<br />
+
+&laquo;Vinde c&aacute; Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros,
+<br />
+
+&laquo;fuzilae-me sem d&oacute; a horda de desordeiros<br />
+
+&laquo;que querem supprimir a gothica realesa!<br />
+
+&laquo;Enforcae-me quem cante a indigna
+<em>Marselhesa</em>,<br />
+
+&laquo;e clame mais do que eu as livres cren&ccedil;as suas!<br />
+
+&laquo;Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,<br />
+
+&laquo;ou que ande a passear nas pra&ccedil;as sem
+licen&ccedil;a!<br />
+
+&laquo;Levantae uma forca enorme para a Imprensa.<br />
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+&laquo;Ordenae, decretae, lavrae pris&otilde;es secretas.<br />
+
+&laquo;Guiae-vos por Plat&atilde;o&#8213;lan&ccedil;ae
+f&oacute;ra os
+poetas<br />
+
+&laquo;que s&atilde;o os mais reveis, fataes agitadores.<br />
+
+&laquo;Guiae-vos por Plat&atilde;o&#8213;Nem sempre cantam flores!<br />
+
+&laquo;Tambem sabem cantar as notas de batalha,<br />
+
+fortes como os clarins, rijas como a
+metralha,<br />
+
+&laquo;e quando a Indigna&ccedil;&atilde;o a sua Musa
+inspira<br />
+
+&laquo;n&atilde;o ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!<br />
+
+&laquo;No emtanto n&atilde;o pareis!&#8213;Nada de transigencias!<br />
+
+&laquo;Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,<br />
+
+&laquo;tudo que se vender como quem vende um trapo!<br />
+
+&laquo;Da Lei faze leil&atilde;o, e da policia um sapo.<br />
+
+&laquo;E sobre tudo emfim sem tr&eacute;goas nem piedade<br />
+
+&laquo;ponde a saque e a terror as ruas da cidade<br />
+
+&laquo;para prender sem d&oacute; a infame biltraria,<br />
+
+&laquo;d'essa cafila vil da v&atilde; demagogia,<br />
+
+&laquo;d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,<br />
+
+que inda pede mais p&atilde;o, mais
+instruc&ccedil;&atilde;o primaria!<br />
+
+<br />
+
+Ora tudo isto fez&#8213;eu juro-o pelo Ceu!<br />
+
+para salvar a patria este sublime Reu.<br />
+
+<br />
+
+Tambem, Justi&ccedil;a, ouvi n'este immortal litigio<br />
+
+que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+Oh doudas illus&otilde;es da douda Mocidade!<br />
+
+Quem p&oacute;de erguer seu bra&ccedil;o, o bra&ccedil;o
+sem piedade,<br />
+
+contra o triste Anci&atilde;o cheio de desenganos<br />
+
+que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!<br />
+
+Quem p&oacute;de erguer a voz, ferrea como os destinos,<br />
+
+contra quem solu&ccedil;ou ouvindo os Girondinos,<br />
+
+e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas<br />
+
+n'esses cantos de bronzes!&#8213;As almas dos Poetas<br />
+
+fazem desabrochar os batalh&otilde;es da terra!<br />
+
+Na primavera em flor os peitos pedem guerra,<br />
+
+aventuras, amor, cabe&ccedil;as de tyrannos!<br />
+
+Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,<br />
+
+Miseria, Frio, a D&ocirc;r, o tragico Abandono,<br />
+
+vem a Insidia, a Calumnia, as tenta&ccedil;&otilde;es do
+Throno,<br />
+
+vem os dias sem sol, sorrisos, cren&ccedil;as, flores,<br />
+
+vem os filhos sem p&atilde;o, v&atilde;o-se indo os desertores<br />
+
+deixando em torno a n&oacute;s o vacuo e o isolamento!<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ao craneo diz a aguia do Pensamento:<br />
+
+&laquo;Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,<br />
+
+&laquo;e o peito despi n&uacute; aos turbilh&otilde;es da
+Sorte?<br />
+
+&laquo;Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,<br />
+
+desdobrando na pra&ccedil;a,
+&aacute; Plebe, os estandartes<br />
+
+&laquo;comendo o negro p&atilde;o nos solos estrangeiros?<br />
+
+&laquo;Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,<br />
+
+&laquo;com os quaes eu clamei no val e na montanha,<br />
+
+&laquo;cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&laquo;pr&eacute;gando o Verbo Novo &aacute;s
+multid&otilde;es
+sagradas?<br />
+
+&laquo;Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?<br />
+
+Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?<br />
+
+Foi por ti Solid&atilde;o? Por ti Esquecimento?<br />
+
+Por ti Ingratid&atilde;o? Por ti frio Abandono?<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o n'aquella noute arida, m&aacute;, sem somno,<br />
+
+escuta-se uma voz, que vem como a rajada,<br />
+
+no vacuo e solid&atilde;o da fria agua furtada,<br />
+
+que grita em alta voz&#8213;Combateste por mim?<br />
+
+<br />
+
+Quem &eacute;s tu? Quem &eacute;s tu? Quem &eacute; que
+falla assim?<br />
+
+&#8213;Mas fica muda a voz. Cala-se e n&atilde;o responde.<br />
+
+O pensador ent&atilde;o vae ver onde se esconde<br />
+
+quem lhe d&aacute; um tremor indomito, suspeito,<br />
+
+como nunca sentiu no antro do seu peito.<br />
+
+Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.<br />
+
+Mas cheio de terror, &aacute; livida lanterna,<br />
+
+n'um tragico arrepio, &aacute; luz ba&ccedil;a e
+fun&eacute;rea,<br />
+
+&#8213;v&ecirc; sentada em seu lar a furia da Miseria!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+&Oacute; Ordem acabaste?</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Ordem<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry2">Eu acabei, Justi&ccedil;a!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Quem &eacute; que quer entrar por sua vez na li&ccedil;a,<br />
+
+e &aacute; Ordem refutar o que ella diz do Reu?</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Os
+Perseguidos<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Somos n&oacute;s, somos n&oacute;s, que as nossas
+m&atilde;os ao ceu<br />
+
+erguemos muita vez nos asperos caminhos?<br />
+
+Somos n&oacute;s que hemos visto o sangue dos espinhos<br />
+
+do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!<br />
+
+Somos n&oacute;s, os fieis, os homens dos trabalhos,<br />
+
+levados atravez d'um turbilh&atilde;o maldito,<br />
+
+como errou Ismael, como o judeu proscripto<br />
+
+queimado pelo sol vermelho das legendas.<br />
+
+Somos n&oacute;s, somos n&oacute;s, que err&aacute;mos sob
+as tendas<br />
+
+do excommungado Cham na treva e no abandono,<br />
+
+ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno<br />
+
+que depois de gyrar do furac&atilde;o &aacute; toa<br />
+
+vae rebolar do azul no lodo da lag&ocirc;a.<br />
+
+Somos n&oacute;s os fieis que nunca vacill&aacute;mos,<br />
+
+os bronzeos cora&ccedil;&otilde;es que nunca trepidamos<br />
+
+ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!<br />
+
+Somos n&oacute;s que ao relento, &aacute; chuva, ao gelo,
+&aacute;s luas<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+das solid&otilde;es austraes, nos carceres, nas minas,<br />
+
+lavr&aacute;mos contra os reis, com os punhaes, as sinas<br />
+
+sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!<br />
+
+Somos n&oacute;s que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos<br />
+
+do exilio arrebatar os filhos degredados,<br />
+
+as esposas e as m&atilde;es violadas dos soldados,<br />
+
+nossos pobres irm&atilde;os rasgados sob o a&ccedil;oute!<br />
+
+Somos n&oacute;s, os fieis, os batalh&otilde;es da Noute,<br />
+
+que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,<br />
+
+temos o <em>Odio-Amor</em>, feito d'um
+s&oacute; brilhante.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Agora ergue-te, &oacute; Reu, d'esse sinistro banco!<br />
+
+Al&ccedil;a a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.<br />
+
+Responde justo e bem, sem ira, com clareza.<br />
+
+Manda ao teu cora&ccedil;&atilde;o dictar tua defeza!<br />
+
+E se acaso &eacute;s um Justo, indigno d'essas d&ocirc;res,<br />
+
+ergue-te, &oacute; Reu! Fulmina os teus accusadores!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">O Reu<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">
+Eu nunca fui da Plebe! Eu n&atilde;o sou filho d'ella!<br />
+
+Eu n&atilde;o sei o que ladra a r&aacute;bida cadella<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+contra mim amostrando os assassinos dentes!<br />
+
+N&atilde;o sei quem ella &eacute;. N&atilde;o tenho taes
+parentes.<br />
+
+N&atilde;o sei por que me cita a ladra ao tribunal.<br />
+
+Eu jamais perturbei a Ordem social.<br />
+
+Eu jamais sublevei as ondas populares!<br />
+
+Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,<br />
+
+e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!<br />
+
+N&atilde;o fui eu que arranquei a espada da bainha.<br />
+
+N&atilde;o fui eu que a&ccedil;outei as santas dynastias,<br />
+
+ao chicote infernal dos chascos e ironias,<br />
+
+que sibilam no ar qual feixe de serpentes...<br />
+
+Jamais calumniei...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span>
+<span class="tinys">(surgindo, terrivel)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry2">
+Mentes, &oacute; Velho! Mentes!</div>
+
+<div class="poetry1">Mentes, velho histri&atilde;o
+d'um throno gasto e &ocirc;co!<br />
+
+Mentes homem venal, mentes despota louco!<br />
+
+Mentes servil plebeu, indigno latrinario!<br />
+
+Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario<br />
+
+de pamphletos crueis na sordida trapeira!<br />
+
+N&atilde;o negues que chamaste, outrora, uma
+<em>rameira</em><br />
+
+&aacute; m&atilde;e do teu Senhor, &aacute; m&atilde;e
+de El-Rei teu amo!<br />
+
+N&atilde;o negues que chamaste um bom <em>veado, um
+gamo<br />
+
+de silvestre armadura, e fl&oacute;rida ramagem</em><br />
+
+ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+N&atilde;o negues ante mim que sou o teu Espectro<br />
+
+que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!<br />
+
+N&atilde;o negues que eu te vi na fria agua furtada<br />
+
+levantando o Direito, ou revoltando a Espada,<br />
+
+tendo acceso no olhar o sol da Indigna&ccedil;&atilde;o!...<br />
+
+N&atilde;o negues, &oacute; Caim, que assassinaste o
+irm&atilde;o.<br />
+
+N&atilde;o negues ter as m&atilde;os d'aquelle sangue quentes<br />
+
+N&atilde;o negues que nasceste assim como as serpentes,<br />
+
+e como ellas rasgaste o ventre a tua M&atilde;e!...<br />
+
+N&atilde;o negues ser plebeu, n&atilde;o negues com desdem<br />
+
+tua origem plebea, a tua M&atilde;e escrava,<br />
+
+nem negues, craneo v&atilde;o, ter tido a santa lava<br />
+
+do Ideal, da F&eacute;, do Justo, e do Direito!<br />
+
+Eu sou o teu Espectro, &aacute; mesa, ou no teu leito!...<br />
+
+Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.<br />
+
+Onde quer que tu est&aacute;s encontras os meus bra&ccedil;os!<br />
+
+Onde quer que tu v&aacute;s&#8213;v&ecirc;s o meu duro olhar!<br />
+
+Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,<br />
+
+e a revolver comtigo o lodo das paix&otilde;es!<br />
+
+Sou o cumplice teu nas velhas sedi&ccedil;&otilde;es,<br />
+
+e ambos temos as m&atilde;os de sangue maculadas<br />
+
+de ter &aacute; nossa voz feito arrancar espadas,<br />
+
+e gottejar na rua o sangue do plebeu!<br />
+
+Aquelle sangue grita, ah! contra n&oacute;s, ao ceu!<br />
+
+Aquelle sangue brada e clama contra ti!<br />
+
+Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span>
+jorrando aos borbot&otilde;es, em grandes cachoeiras,<br />
+
+inundando a cal&ccedil;ada e a lama das regueiras!<br />
+
+Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,<br />
+
+rudes heroes plebeus, levados &aacute; batalha,<br />
+
+<a href="#e7">pela luz</a> do teu Verbo, e pela
+espada nua,<br />
+
+correndo em borbot&otilde;es nos boqueir&otilde;es da rua,<br />
+
+despenhando-se ao sol na vasa das valletas!<br />
+
+D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,<br />
+
+cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,<br />
+
+como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,<br />
+
+gritando contra n&oacute;s estranhas amea&ccedil;as!<br />
+
+E o sangue plebeu diz:&#8213;Em quanto <a href="#e8">sobre</a>
+as
+pra&ccedil;as,<br />
+
+&laquo;corria ao rubro s&oacute; das luctas fratricidas,<br />
+
+&laquo;quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,<br />
+
+&laquo;e abra&ccedil;ados, ao sol, morriam os valentes,<br />
+
+&laquo;quando os peitos plebeus e os cora&ccedil;&otilde;es
+dos
+crentes<br />
+
+&laquo;erguiam para o ceu, para o vermelho espa&ccedil;o,<br />
+
+&laquo;juntamente ao seu Odio o vingativo bra&ccedil;o,<br />
+
+&laquo;mal sabia eu ent&atilde;o que tu que me levavas<br />
+
+&laquo;&aacute; lucta, &aacute; guerra, ao ideal das
+gera&ccedil;&otilde;es escravas,<br />
+
+&laquo;me havias renegar, infame! com desdouro,<br />
+
+&laquo;e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Maldi&ccedil;&atilde;o sobre ti, que com as impias
+m&atilde;os,<br />
+
+&laquo;sujas do sangue quente inda de teus irm&atilde;os<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span>&laquo;dos
+guerreiros plebeus, dos cora&ccedil;&otilde;es dos bravos<br />
+
+&laquo;que quizeram morrer para n&atilde;o ser escravos,<br />
+
+&laquo;que tentando egualar os campe&otilde;es das lendas<br />
+
+&laquo;foram morrer ao sol heroico das contendas,<br />
+
+&laquo;ousaste inda pegar na penna ent&atilde;o sagrada<br />
+
+&laquo;para a entregar ao rei, como vencida espada,<br />
+
+&laquo;para escrever servis, ignobeis sacrilegios,<br />
+
+&laquo;&#8213;e com ellas manchar os reposteiros r&eacute;gios!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Maldi&ccedil;&atilde;o sobre ti, Velho! que
+atrai&ccedil;oaste<br />
+
+&laquo;a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste<br />
+
+&laquo;para chegar do Throno aos tragicos degraus!<br />
+
+&laquo;Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,<br />
+
+&laquo;no meio das gentis duquezas decotadas<br />
+
+&laquo;das camelias da Carne &aacute;s luzes desbotadas<br />
+
+&laquo;quaes rosas de Saron aos g&eacute;lidos luares;<br />
+
+&laquo;has de ouvir minha voz no meio dos jantares<br />
+
+&laquo;no fundo do teu sonho, em meio dos festins,<br />
+
+&laquo;entre o tinir do copo, os cantos dos setins,<br />
+
+&laquo;nos carros com braz&otilde;es, de flexiveis mollas,<br />
+
+&laquo;entre o <a href="#e9">gemer da flauta</a>
+e os cantos das viollas!<br />
+
+&laquo;Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios<br />
+
+&laquo;perseguindo-te at&eacute; da treva nos mysterios,<br />
+
+&laquo;chamando contra ti na voz de teus irm&atilde;os,<br />
+
+&laquo;quando o teu labio abjecto oscule as r&eacute;gias
+m&atilde;os,
+<br />
+
+<span class="pagenum">[50]</span>
+&laquo;e a
+m&atilde;o tinta de sangue ensanguentar a Cor&ocirc;a!<br />
+
+&laquo;Eu serei, &oacute; traidor, o cancro que te
+r&ocirc;a<br />
+
+&laquo;o dente que te morda, o espinho que te fira,<br />
+
+&laquo;o escalpello que te abra assim como quem vira<br />
+
+&laquo;&aacute; luz limpa do Sol uma bexiga cheia,<br />
+
+&laquo;a lanceta que te abra a mais secreta veia,<br />
+
+&laquo;o p&ocirc;tro que te d&ecirc; o mais horrivel trato,<br />
+
+&laquo;o ferro em braza, o a&ccedil;oute, o caustico, o nitrato.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nunca te deixarei sem tr&eacute;goa e sem abrigo!...<br />
+
+&laquo;Nem nos pa&ccedil;os reaes, nem mesmo a s&oacute;s
+comtigo<br />
+
+&laquo;nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,<br />
+
+&laquo;nem na sombra do sonho e a noute do teu leito<br />
+
+&laquo;nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!<br />
+
+&laquo;Ha sangue em tuas m&atilde;os&#8213;em teus vestidos sangue!<br />
+
+&laquo;O sangue &eacute; que te lan&ccedil;a a sua
+maldi&ccedil;&atilde;o.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Reu</span> (caindo no
+banco, aterrado)<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Sempre o Espectro cruel, sempre a
+eterna vis&atilde;o!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A
+Justi&ccedil;a<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Condemnou-te o teu grito infindo de
+terror!<br />
+
+Confessaste a Trai&ccedil;&atilde;o!&#8213;Trahiste-te traidor!<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!<br />
+
+De nada te valeu ser cynico e atrevido.<br />
+
+De nada te serviu a tua astucia e arte...<br />
+
+<br />
+
+Agora erguei-vos, v&oacute;s, Justos de toda a parte,<br />
+
+sublimes cora&ccedil;&otilde;es que nunca transigistes!<br />
+
+Agora erguei-vos v&oacute;s Justos, Fortes, e Tristes,<br />
+
+que tendes amassado o vosso p&atilde;o com pranto!<br />
+
+Agora erguei-vos v&oacute;s guerreiros do que &eacute; santo<br />
+
+mineiros do que &eacute; Vil, pedreiros do que &eacute; Forte,<br />
+
+ferreiros que forjaes as armas contra a morte,<br />
+
+sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!<br />
+
+Agora erguei-vos, v&oacute;s, homens do campo rude<br />
+
+que atiraes vossa enxada ao solo da Justi&ccedil;a,<br />
+
+erguei-vos todos v&oacute;s, fortes que andaes na li&ccedil;a,<br />
+
+cirurgi&otilde;es do Bem que hervaes vossa lanceta,<br />
+
+pedreiros que aluis o mundo &aacute; picareta,<br />
+
+carpinteiros que andaes serrando com a serra,<br />
+
+erguei-vos todos v&oacute;s, Simples, qne fazeis guerra<br />
+
+a toda esta ruina, esta agonia immensa,<br />
+
+e acercae-vos a mim&#8213;ouvi minha senten&ccedil;a:<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; que, &oacute; Velho, trahiste as
+convic&ccedil;&otilde;es primeiras,<br />
+
+e enxotaste uma M&atilde;e assim como as rameiras<br />
+
+<span class="pagenum">[52]</span>
+da qual se esquece o nome ao limiar da porta,<br />
+
+j&aacute; que atiraste &aacute; vala a tua honra morta,<br />
+
+e atrai&ccedil;oaste a Plebe a que te trouxe ao peito,<br />
+
+de que h&atilde;o bebido o leite os homens do Direito;<br />
+
+j&aacute; que excitaste &aacute; guerra e &aacute; lucta
+teus irm&atilde;os,<br />
+
+e no sangue plebeu tintas ainda as m&atilde;os<br />
+
+foste vender-te ao rei a que insultaste a M&atilde;e...<br />
+
+eu lan&ccedil;o-te ao exterminio, &aacute; colera, ao desdem<br />
+
+de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!<br />
+
+Toma l&aacute; a blusa infame do for&ccedil;ado.<br />
+
+Vou-te marcar na testa um grande R gigante,<br />
+
+feito com minha espada em brasa flammejante,<br />
+
+que a todo o mundo inspire&#8213;odio, nojo e terror.<br />
+
+<br />
+
+Vaes agora gyrar nas espiraes da D&ocirc;r,<br />
+
+vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,<br />
+
+que o Dante assignalou com seu buril eterno<br />
+
+na viagem que fez &aacute; tragica cidade.<br />
+
+Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,<br />
+
+subir a vil cal&ccedil;ada amarga do Despreso.<br />
+
+Desde hoje &eacute;s um for&ccedil;ado, um criminoso, um preso,
+<br />
+
+que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,<br />
+
+cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,<br />
+
+&#8213;contra o qual, ao passar, todas as m&atilde;os honradas<br />
+
+v&atilde;o arrancar, uivando, as pedras das cal&ccedil;adas!<br />
+
+<span class="pagenum">[53]</span>
+Como outr'ora Cain com seu signal maldito,<br />
+
+tu vaes errar na Historia, &oacute; vil, de sambenito,<br />
+
+mettendo assombro e horror a quem te vir passar.<br />
+
+O Espectro &eacute; teu algoz&#8213;o que ha de acompanhar<br />
+
+teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,<br />
+
+curvado, abjecto, vil, a p&eacute;, preso, descal&ccedil;o,<br />
+
+cheio de lama, esterco, apupos, irris&otilde;es,<br />
+
+entre as vaias da Plebe, escarneos, maldi&ccedil;&otilde;es<br />
+
+de todo um povo hostil que sobre ti escarra.<br />
+
+Ali tendo vestida a sordida samarra,<br />
+
+tendo na testa o infame e caustico signal,<br />
+
+&#8213;eu condemno o teu nome &aacute; pena capital.</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry tinys">(grava-lhe na fronte um R com a
+espada)</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Primeiro Perseguido</span>
+<span class="tinys">(levantando um
+bra&ccedil;o)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Maldito sejas tu&#8213;que tens escravisado<br />
+
+aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,<br />
+
+a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!<br />
+
+Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,<br />
+
+e has sido, contra n&oacute;s, tyranno inda maior!<br />
+
+Maldito sejas tu, refugo de traidor!<br />
+
+que a nossa execra&ccedil;&atilde;o te siga em toda a parte,<br />
+
+que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,<br />
+
+<span class="pagenum">[54]</span>
+e te acorrente a D&ocirc;r qual velho boi na n&oacute;ra,<br />
+
+que o Remorso te pique e fira como a espora,<br />
+
+e a Vingan&ccedil;a te siga os passos pelo escuro!...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Segundo Perseguido</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Maldito sejas tu, agora e no Futuro!<br />
+
+Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!<br />
+
+Maldito sejas tu em tudo que f&ocirc;r santo,<br />
+
+no fundo do teu copo, &aacute; sombra at&eacute; no estio!...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Terceiro
+Perseguido<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Maldito sejas tu, &aacute; chuva,
+ao vento, ao frio,<br />
+
+no teu caminho escuro e cheio de terrores!<br />
+
+Maldito sejas tu na Primavera em flores,<br />
+
+no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno!<br />
+
+Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno!<br />
+
+Que a execra&ccedil;&atilde;o do mundo echoe aos teus ouvidos!<br />
+
+Que os abysmos da D&ocirc;r se encham de teus gemidos,<br />
+
+e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!...</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[55]</span>
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span>
+<span class="tinys">(lan&ccedil;ando-lhe o
+veu negro dos condemnados &aacute; morte)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Eu Plebe tua m&atilde;e que aos
+lacteos peitos santos<br />
+
+te alimentei do leite altivo dos heroes,<br />
+
+eu que a fronte te alcei &aacute; luz branca dos soes,<br />
+
+e te metti na m&atilde;o a espada da batalha,<br />
+
+eu lan&ccedil;o-te este veu assim como a mortalha,<br />
+
+ultimo e vil len&ccedil;ol da tua negra gloria!<br />
+
+Para sempre ter&aacute;s a maldi&ccedil;&atilde;o da
+Historia,<br />
+
+o despreso do mundo, a execra&ccedil;&atilde;o geral,<br />
+
+e j&aacute; que me has negado, &oacute; filho desleal,<br />
+
+e has seguido o infamante e tenebroso trilho,<br />
+
+eu nego-te tambem! Tu j&aacute; n&atilde;o &eacute;s meu
+filho!<br />
+
+J&aacute; n&atilde;o &eacute;s meu amor, minha
+affei&ccedil;&atilde;o mais terna.<br />
+
+&Eacute;s o que tens meu odio e excommunh&atilde;o eterna,<br />
+
+a quem lan&ccedil;o este veu de condemnado &aacute; morte,<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<div class="poetry tinys">
+(repellido-o de si)</div>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Vae, segue para sempre a tua infame
+sorte!<br />
+
+Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada!<br />
+
+Que a minha Indigna&ccedil;&atilde;o te fira como a Espada!<br />
+
+Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!...<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br style="font-weight: bold;" />
+
+<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span>
+<span class="tinys">(empurrando o Reu)</span>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">A caminho! A caminho!&#8213;&Aacute;
+Forca do Futuro.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>VI</h3>
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">Acabaste d'ouvir a letra da
+senten&ccedil;a.<br />
+
+Talvez que &oacute; dictador, perseguidor da Imprensa,<br />
+
+te cause pouco abalo esta senten&ccedil;a augusta!<br />
+
+Talvez te cause riso e clames n&atilde;o ser justa<br />
+
+a ira que sacode as cordas d'uma Lyra.<br />
+
+Talvez velho frascario e lingua de Mentira<br />
+
+chames ao verso fumo, a tudo v&atilde;s
+fic&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+N&atilde;o! A Lyra &eacute; de bronze! As novas
+gera&ccedil;&otilde;es<br />
+
+os homens d'&aacute;manh&atilde;, os proximos vindouros<br />
+
+h&atilde;o de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros,<br />
+
+pela noute da Historia esse R flammegante!<br />
+
+Elles dir&atilde;o ent&atilde;o&#8213;Acaso foi o Dante<br />
+
+que te marcou na testa esse signal soturno!<br />
+
+Quem foi o vingador, o l&aacute;tego nocturno<br />
+
+que na fronte te abriu a inicial horrenda?<br />
+
+<br />
+
+E tu deves dizer:&#8213;Na minha ignobil senda<br />
+
+<span class="pagenum">[58]</span>
+n&atilde;o foi o Dante, n&atilde;o, que eu vi cheio de susto!<br />
+
+N&atilde;o foi t&atilde;o grande heroe, mas foi um homem justo<br />
+
+que n&atilde;o quiz em mim s&oacute; vibrar o a&ccedil;oute
+amaro!<br />
+
+Como outrora Moli&egrave;re, em seu eterno
+<em>Avaro</em>,<br />
+
+que gravou com buril um lutulento vicio,<br />
+
+elle quiz castigar em mim o vil flagicio<br />
+
+d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso,<br />
+
+que faz d'um ente humano um c&atilde;o servil, um gozo,<br />
+
+salafrario venal, baixo arlequim de feira,<br />
+
+rasgando a cada passo a tela da bandeira,<br />
+
+e fugindo a alistar-se em legi&atilde;o contraria;<br />
+
+quiz vergastar sem d&oacute; a moda latrinaria<br />
+
+d'esse abuso gentil, galante, deleterio,<br />
+
+&#8213;d'hontem ser contra o Rei&#8213;hoje ir ao ministerio,<br />
+
+o costume chinfrim, o ignobil privilegio,<br />
+
+&#8213;d'hontem ser petroleiro&#8213;hoje um capaxo r&eacute;gio!<br />
+
+<br />
+
+Um homem nada &eacute;. &Eacute; simples gr&atilde;o
+d'areia<br />
+
+nos abysmos da Vida ou nas regi&otilde;es da Idea.<br />
+
+Mas o Principio &eacute; tudo! &Egrave; for&ccedil;a
+alimentar<br />
+
+na Consciencia Humana, &aacute;lerta, sem cessar,<br />
+
+o castigo do Mal, essa no&ccedil;&atilde;o sagrada,<br />
+
+terr&iacute;vel como a Ad&atilde;o do seraphim a espada.<br />
+
+<br />
+
+Ah! tu julgas acaso, &oacute; dictador de gesso,<br />
+
+que tu podes travar a roda do Progresso,<br />
+
+<span class="pagenum">[59]</span>
+encarcerando a Imprensa, &aacute; qual tu deves tudo?<br />
+
+Ah! tu cr&ecirc;s, n'um signal, tornar o Verbo mudo,<br />
+
+e que todo o trabalho excepcional das Ra&ccedil;as,<br />
+
+todo o calor do Genio, as guerras, as desgra&ccedil;as,<br />
+
+industrias, inven&ccedil;&otilde;es, tudo isto que o Ceu cobre,
+<br />
+
+tudo que Fausto sonha e Galileu descobre,<br />
+
+todas as leis dos soes, Systemas e Theorias,<br />
+
+&#8213;v&atilde;o findar de repente, &aacute;s tuas portarias?<br />
+
+<br />
+
+Acaso cr&ecirc;s que todo o labutar eterno<br />
+
+do Homem sobre o s&oacute;lo, a melhorar o inferno<br />
+
+dos seus instinctos vis, das suas priva&ccedil;&otilde;es,<br />
+
+em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulc&otilde;es,<br />
+
+ao Infinito, ao Finito, &aacute; Besta, &aacute;s
+m&aacute;s paix&otilde;es,<br />
+
+&aacute; Terra amarga e dura, &aacute; Treva, ao Inconsciente,<br />
+
+todo esse fermentar energico, vehemente,<br />
+
+toda a rebelli&atilde;o extraordinaria, s&eacute;ria,<br />
+
+do Diabo com Deus, da Alma com a Materia,<br />
+
+toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso,<br />
+
+o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso,<br />
+
+o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello,<br />
+
+o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello,<br />
+
+o que ergueu sobre a pra&ccedil;a o primitivo Arco,<br />
+
+o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco<br />
+
+aos abysmos do mar com a primeira Vella,<br />
+
+o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella,<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p60">[60]</a></span>
+o que inventa o Vapor, esbofeteia <a href="#e10">a onda</a>,<br />
+
+o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda,<br />
+
+o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio,<br />
+
+o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio,<br />
+
+o que contorna o acantho em torno ao Capitel,<br />
+
+o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel,<br />
+
+a Columna, o Tim&atilde;o, o Escopro, mais a Serra,<br />
+
+o que forja as crueis armas brancas da guerra,<br />
+
+Newton que descobriu o gravitar dos astros,<br />
+
+Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros,<br />
+
+Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro,<br />
+
+Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro,<br />
+
+Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta,<br />
+
+Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta<br />
+
+que em sua cella agita a mystica alma humana;<br />
+
+o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana,<br />
+
+n'aquella India m&atilde;e de gera&ccedil;&otilde;es
+guerreiras<br />
+
+onde erram os fakirs &aacute; sombra das palmeiras,<br />
+
+n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos<br />
+
+onde Jesus scismou perto dos therebinthos;<br />
+
+tu cr&ecirc;s que esse animal das primitivas &eacute;ras<br />
+
+que o Lume descobriu para assustar as f&eacute;ras,<br />
+
+o que fez a primeira e tepida Cabana,<br />
+
+o auctor da velha M&oacute;, do engenho, da Roldana,<br />
+
+da primeira Charrua e do primeiro Arado,<br />
+
+Juvenal que varou Roma de lado a lado<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p61">[61]</a></span>
+com suas corrup&ccedil;&otilde;es, crimes, e v&atilde;os
+delirios<br />
+
+como a v&atilde; liturgia extranha dos Assyrios;<br />
+
+Plat&atilde;o que ergueu &aacute; Alma um templo todo d'ouro<br />
+
+maior que Nero tinha e que era o seu thesouro;<br />
+
+Durer esse pintor extranho, mysterioso,<br />
+
+que achou no Pantheismo o mais infindo goso,<br />
+
+e na tela onde pinta as folhas e as verduras,<br />
+
+entre os ramos desenha extranhas creaturas,<br />
+
+como monges fataes minados pela
+<em>ac&eacute;dia</em><br />
+
+que d&atilde;o todo o terror da alma da Edade Media;<br />
+
+Cervantes, o cruel, que faz errar a trote<br />
+
+toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote,<br />
+
+<a href="#e11">emquanto</a> o Fausto sonha em
+virgens de balladas,<br />
+
+e o abbade Rabelais se ri &aacute;s gargalhadas;<br />
+
+Euclides que decreta as leis da Geometria,<br />
+
+a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia<br />
+
+e em torres collossaes, &aacute; luz das noutes bellas,<br />
+
+tra&ccedil;a o grande roteiro eterno das estrellas;<br />
+
+Goethe que se fundiu na alma da Naturesa,<br />
+
+que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa,<br />
+
+a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo;<br />
+
+Goya que fez do mundo um solu&ccedil;ante Entrudo<br />
+
+de mendigos, tru&otilde;es, abbades, estudantes;<br />
+
+Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes,<br />
+
+Juvenal que escarrou na Venus Meretriz,<br />
+
+Boudha sereno mestre, ind&uacute;, grave, feliz,<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+pr&eacute;gando um culto novo entre o feroz gentio;<br />
+
+o que inventa o Compasso, o Leme do navio,<br />
+
+o que accendeu a Forja, inventa a Picareta,<br />
+
+o que primeiro agu&ccedil;a a ponta da Lanceta,<br />
+
+Vico, o que abre &aacute; Sciencia enormes horisontes<br />
+
+Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes,<br />
+
+Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens,<br />
+
+Lamark que descobre as animaes origens,<br />
+
+Aretino que a&ccedil;outa os reis como lacaios,<br />
+
+Fulton que acha o vapor, Franklin o p&aacute;ra-raios,<br />
+
+Cam&otilde;es que salva um livro e a sua eterna gloria,<br />
+
+Thierry o que cegou a trabalhar na Historia,<br />
+
+Espronceda que canta o hymno da
+<em>Miseria</em>,<br />
+
+Bukner o santo atheu da For&ccedil;a e da Materia,<br />
+
+Moys&eacute;s que f&oacute;rma um povo, Isocrates, Isaias,<br />
+
+Strauss o que anniquilla a lenda do Messias,<br />
+
+Menuisier que sonda o mundo pequenino,<br />
+
+Miguel Angelo anci&atilde;o, o Raphael d'Urbino,<br />
+
+Tacito e o seu rancor contra o romano solio,<br />
+
+Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo,<br />
+
+Kant que abre &aacute; Ras&atilde;o uma moderna estrada,<br />
+
+Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada,<br />
+
+Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco<br />
+
+ser Deus uma theoria e o Homem um macaco;<br />
+
+Krishna o que pr&eacute;gou nas regi&otilde;es da
+Id&eacute;a<br />
+
+o mesmo que Jesus nos montes da Jud&eacute;a;<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+Zoroastro que elevou as almas para o Sol,<br />
+
+Shelley que &eacute; um atheu, Petrarcha um rouxinol,<br />
+
+Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida<br />
+
+do riso do Diabo e a d&ocirc;r de Margarida;<br />
+
+Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes,<br />
+
+Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes,<br />
+
+Milton que v&ecirc; no Ceu, Dante que v&ecirc; no escuro,<br />
+
+Haekel que v&ecirc; no mar, S. Jo&atilde;o sobre o Futuro,<br />
+
+Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito,<br />
+
+Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito,<br />
+
+Proudhon o que acutila a gorda Ordem n&eacute;dia,<br />
+
+Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia,<br />
+
+d'Alembert que pov&ocirc;a os mundos estrellados,<br />
+
+Lao-Tseu que canta os canticos sagrados,<br />
+
+Berlioz que inventou a musica do Abysmo,<br />
+
+o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo,<br />
+
+o que fez a Atafona, o que inventou o Malho,<br />
+
+toda essa lenda eterna e escura do Trabalho,<br />
+
+todo esse bom clar&atilde;o que a santa Lyra entorna,<br />
+
+todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna,<br />
+
+os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso<br />
+
+cr&ecirc;s que isto&#8213;ao gesto teu&#8213;amea&ccedil;a retrocesso,<br />
+
+e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo<br />
+
+do dedo indicador do general Macedo,<br />
+
+ou ent&atilde;o dos drag&otilde;es dos regios pergaminhos:<br />
+
+&#8213;Hintze, <em>o que n&atilde;o ri</em>, e
+o Arrobas tres pontinhos...?<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+Desillude-te, &oacute; Velho! O mundo n&atilde;o
+rec&uacute;a.<br />
+
+A Historia ha de varrer teu nome para a rua,<br />
+
+como uma velha o lixo immundo na cal&ccedil;ada.<br />
+
+Tu &eacute; que morrer&aacute;s, tu, &oacute; bexiga
+inchada<br />
+
+de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade,<br />
+
+que eu despejei na rua, &aacute; luz da Sociedade,<br />
+
+como quem lan&ccedil;a o lixo ao pateo d'um sagu&atilde;o.<br />
+
+Desengana-te &oacute; Velho. Os reis em breve ir&atilde;o<br />
+
+curvados e servis, quaes rotos saltimbancos,<br />
+
+mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos,<br />
+
+agitando a maroma em vez do regio sceptro.<br />
+
+E tu &oacute; Velho ir&aacute;s tambem com teu Espectro<br />
+
+n'esse caminho inglorio e tragico tambem,<br />
+
+que se chama o Abandono, o caustico Desdem,<br />
+
+de tudo isto que forma a Opini&atilde;o Geral.<br />
+
+Mas o mundo, esse n&atilde;o! No gyro universal<br />
+
+que tra&ccedil;a em torno ao Sol com as demais espheras,<br />
+
+ver&aacute; encanecer as legi&otilde;es das Eras,<br />
+
+antes que role e volva &aacute;s regi&otilde;es do Abysmo.<br />
+
+Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo<br />
+
+o attrahe sem cessar &aacute;quella claridade,<br />
+
+como procura a Alma a luz s&oacute; da Verdade,<br />
+
+e na ordem moral, como umas verdes palmas,<br />
+
+estendem sempre as m&atilde;os as supplicantes Almas<br />
+
+pedindo em c&ocirc;ro ao ceu&#8213;mais luz, inda mais luz!...<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Agora, &oacute; Velho, emfim qne te cravei na cruz<br />
+
+da Ira e do Sarcasmo e te preguei os bra&ccedil;os<br />
+
+no lenho do Despreso em meio dos devassos,<br />
+
+tu p&oacute;des continuar a tua erronea senda!<br />
+
+Segue o exemplo dos reis&#8213;manda-nos p&ocirc;r &aacute; venda.<br />
+
+Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria.<br />
+
+Faze contractos vis para formar a Iberia<br />
+
+debaixo de dous reis, n'um succulento almo&ccedil;o.<br />
+
+Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um po&ccedil;o.<br />
+
+Lan&ccedil;a o resto da honra ao nada da voragem.<br />
+
+Erige a For&ccedil;a em Lei, e a Ordem em carnagem.<br />
+
+Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina.<br />
+
+Faze armar para o Povo o a&ccedil;o da Guilhotina.<br />
+
+Manda fallar, rugir, as bocas dos canh&otilde;es.<br />
+
+Atulha, a abarrotar, os ventres das pris&otilde;es.<br />
+
+D&aacute; que comer &aacute; Valla e &aacute; boca da
+Enxovia.<br />
+
+Senta a fome no Lar, o luto na Alegria.<br />
+
+Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.<br />
+
+<br />
+
+Mas treme do Futuro!&#8213;Ouviste a voz d'um homem.</div>
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">FIM</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>NOTA</h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora de se imprimir a ultima folha d'esta
+publica&ccedil;&atilde;o o velho presidente do ministerio, o
+homem de quem aqui nos occup&aacute;mos, renegado das suas
+convic&ccedil;&otilde;es d'outrora, o perseguidor da imprensa,
+pela qual se elevou, de que &eacute;
+decano e presidente honorario pediu a sua demiss&atilde;o,
+n&atilde;o
+tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar
+contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem
+menos attenuada. A sua senten&ccedil;a j&aacute; lhe
+foi lavrada pela Opini&atilde;o Publica, e na Historia, aonde o seu
+nome fica lutuosamente escripto. O homem que escreveu que antes queria <em>imprensa
+anarchica que imprensa
+perseguida</em>, e &eacute; depois de Costa Cabral,
+(t&atilde;o incisivamente attacado por elle,) o unico que se
+atreveu a reviver as persegui&ccedil;&otilde;es
+e as vindictas, fica vergonhosamente vinculado,&#8213;e tanto mais
+vergonhosamente que foi e &eacute; um jornalista!...<br />
+
+<br />
+
+Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve
+eximir ao castigo. &Eacute; preciso que a
+responsabilidade ministerial n&atilde;o seja uma v&atilde;
+palavra. Se
+n&atilde;o existe a responsabilidade regia, se n&atilde;o
+existe de facto a
+responsabilidade ministerial, &eacute; for&ccedil;a que estes
+senhores o
+confessem francamente:&#8213;a Constitui&ccedil;&atilde;o
+&eacute; uma
+far&ccedil;a! Se ainda persistem em proclamar que o n&atilde;o
+&eacute;,
+fa&ccedil;am que sejam julgados os seus ministros demittidos!
+N&oacute;s pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo
+que o pe&ccedil;a tambem comnosco, os nossos tribunos que o
+pe&ccedil;am nos comicios, toda a imprensa da
+opposi&ccedil;&atilde;o que brade para que
+os julgamentos dos tribunaes n&atilde;o sejam apenas para os
+adversarios ou para os miseraveis e gatunos: mas que sejam tambem para
+os grandes salafrarios constitucionaes.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span>
+O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha j&aacute;
+tempo que teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a
+espada de Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e
+o impede de ser eleito pelo povo para alguma miss&atilde;o de
+confian&ccedil;a
+popular. &Eacute; um excellente e perfido meio constitucional para
+affastar um adversario!&#8213;mas muito conhecido nos arsenaes politicos.
+&Eacute; uma espada velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno,
+mas que ainda d&aacute; bons botes!<br />
+
+<br />
+
+No entanto o julgamento, dos ministros demittidos n&atilde;o se
+far&aacute;:&#8213;pelo menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do
+ministerio Saint Hilaire, que n&atilde;o fugiu &aacute;
+responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo portuguez
+demittido n&atilde;o se peja de fugir a ella.
+S&atilde;o de tal forma as engrenagens do systema constitucional
+que as maiores arbitrariedades se commettem e se perpetram, ficando na
+impunidade, na sombra do esquecimento, ou na velha alcofa d'essa
+trapeira que se chama
+<em>Politica</em>. Fallamos da politica monarchica. Mas
+&eacute; for&ccedil;a que as cousas
+n&atilde;o continuem no mesmo p&eacute;! &Eacute; preciso
+que &aacute;
+mingua da Lei juridica, se erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada
+attentado corresponda um castigo, que a cada perversidade corresponda
+um ferro em braza, que a cada
+abomina&ccedil;&atilde;o corresponda uma guilhotina moral! A
+espada d'essa lei moral devem vibral-a a Opini&atilde;o Publica a
+Historia, o jornalismo, os poetas, os homens justos, os homens de
+consciencia lavada. Que todos elles repillam de si estes forasteiros,
+esses safardanas pulhas que especulam ha 50 annos com a
+Constitui&ccedil;&atilde;o, como especullaram com as bullas, no
+tempo de Le&atilde;o X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX.
+Que elles fiquem certos que os seus crimes n&atilde;o esquecem! Que
+elles fiquem scientes que as suas arbitrariedades n&atilde;o
+ficar&atilde;o na sombra! Ha quem vela, e quem registra.
+&Eacute; a<br />
+
+Historia. Ha quem se indigna e quem decapita. &Eacute; a Poesia.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; para isso que <a href="#e12">se escreveu</a>
+este pamphleto.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"> <a name="e1"></a> <a href="#p7">#p&aacute;g.
+7</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">ensanguenta</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">ensanguentada*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a> <a href="#p10">#p&aacute;g.
+10</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">&aacute;s
+raizes</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">as
+raizes*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p15">#p&aacute;g. 15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">phamphletario</td>
+
+ <td>...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pamphletario</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p16">#p&aacute;g.
+16</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">a
+chuva</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">&aacute;
+chuva</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p23">#p&aacute;g. 23</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">lua das florestas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">lua da floresta*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p27">#p&aacute;g. 27</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">cadellas acoutadas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">cadellas
+a&ccedil;outadas*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p48">#p&aacute;g. 48</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pelo luz</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pela luz</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p48">#p&aacute;g. 48</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">s bre</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">sobre</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p49">#p&aacute;g. 49</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">gemer das flautas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">gemer da flauta*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p60">#p&aacute;g. 60</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">aonda</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a onda</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p61">#p&aacute;g. 61</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">emq anto</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">emquanto</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p67">#p&aacute;g. 67</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">sa escreveu</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">se escreveu</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+* correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.<br />
+
+<br />
+
+Os nomes pr&oacute;prios foram mantidos tal como foram impressos.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
+António Duarte Gomes Leal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+1.E.9.
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+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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