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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio + carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa + +Author: António Duarte Gomes Leal + +Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos + neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão + final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Mar. 2009) + + + + +O RENEGADO + + + + +GOMES LEAL + + +O + +RENEGADO + +A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO + +CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO + +SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA--Largo dos Inglezinhos, 27 + +1881 + + + + +A + +MANUEL DE ARRIAGA + + + + + + Eu bispo d'outra diocese... + Guilherme Braga + + + +«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, presidente do +conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos negocios do +reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como áquelle que amo. + +Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem +na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado +desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e +importantes commissões de interesse publico; e querendo por estes +respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos distinctos e +revelantes serviços prestados á dynastia, ás instituições, á causa +publica e á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha +real consideração: hei por bem nomear vos commendador da antiga e muito +nobre ordem da Torre e Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos +conjunctamente á dignidade de gran-cruz da mesma ordem. + +O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e satisfação, e +para que possaes desde já usar das respectivas insignias, vos mando esta +carta. + +Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.--El +Rei.--_Antonio José de Barros e Sá_. + +Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, +presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos +negocios do reino». + + * * * * * + + +Já que El-Rei, teu Senhor--contra a sua Mãe cara, +assim te premiou a ensanguentada offensa, +eu, um Juiz tambem--Juiz d'uma outra vara, +contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença: + + + + + +I + + +Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna-- +Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna, +lanterna que accendi na grande escuridão +sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão, +lanterna que accendi n'esta éra ensanguenta, +lanterna que accendi, como em sinistra estrada +por causa dos ladrões perdido viajante. +Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante +cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito, +perguntando-te, ó Velho--Onde está o Direito? +O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio? +Onde está o Pudor, rude ancião sombrio? +Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel. +Onde está ó Cain o teu irmão Abel? + +Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado? +Tu foste a Alma do Povo--hoje és um renegado. +Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos, +d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos +ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla. +Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla +toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos +maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos, +Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira. +Trago na minha mão a lampada da Ira. + +Eu sou esse rebelde herege, extraordinario +que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario, +que préguei n'este tempo ás turbas assombradas +a União e o Direito, e fui pelas estradas +como S. Paulo foi na noute de Damasco, +armado do Rancor, cheio do grande asco +contra os Escribas vãos, os sordidos judeus, +sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus. +Nós hoje--os infieis--não cremos nos milagres. +Não me importa que tu, ó Velho, me consagres +o epitheto brutal de herege ou de maldito. +Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito! + +Eu sou a voz da turba extranha e inominada +que uma vez é soluço, outras a gargalhada +que chamam _povileu_, a plebe envilecida, +n'uma éra de sangue, uma éra fratricida +riscada por um sol velho e sanguinolento. +Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento. +Sou o que Ezechiel chamou Rebellião. +Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão. +O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco. +Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco. + +Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro, +sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro +tens renegado sempre, ó sordido traidor, +em nome da sua ira, e em nome do suor +que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo, +que faz córar a rosa e rebentar o trigo, +em nome dos seus mil cuspidos sacrificios +do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios, +das suas mães sem pão, seus filhos no abandono +como um farrapo velho e como um cão sem dono, +em nome da Miseria, em nome da Innocencia +de tudo que ha de humano e grita na Consciencia, +em nome do Direito, em nome d'esta Penna, +escuta a minha voz, a voz que te condemna +Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente, +forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente +da plebe que trabalha, e com as mãos possantes +sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes, +d'essa raça animal dos grandes infelizes +que são na sociedade assim como as raizes +que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro, +dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro, +vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas +--estão as folhas no ar, altivas, gloriosas, +olhando para o azul sereno das espheras, +todas cheias de flor nas verdes primaveras, +sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos, +tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos. + +Sim, tu foste um plebeu--da raça antiga e rude, +que trabalha no escuro assim como a Virtude. +Sim, tu foste um plebeu--raça obscura e sem luz, +d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus. + +Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão. +Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham +se riu do velho Pae dormindo n'um caminho! +Sê maldito como elle, e seja o teu espinho +o teu espinho eterno, o teu atroz tormento, +ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!... +Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes +das Alas do Dever, todas as sãas cohortes +dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros, +que trabalham na sombra assim como os mineiros, +a lampada na mão augusta da Verdade, +para arrancar do lodo o ouro da Liberdade. +Tu tinhas a teu lado os corações valentes +dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes +todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!... +Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem, +que ambicionavas já as pompas gloriosas, +sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas +que trabalham por nós noutes, dias inteiros, +na officina, no val, nas minas, nos outeiros, +e quizeste antes ser hoje o leproso Reu, +de que ser como eu sou--simples, leal plebeu. + +Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!... +Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste +a fronte d'ancião, a auréola sagrada +que seria por nós mais do que idolatrada, +teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro, +terrivel como Deus, teus louros d'homem puro +para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo! +Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos! +Vergonha sobre ti que como os saltimbancos +foste lançar teu nome ao vento d'uma feira! +Vergonha sobre ti, que como uma rameira +que vende os seios nus em sordida estalagem +ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem, +em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta, +e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta, +foste vender a honra ao ouro d'um senhor. +Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor +que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre, +do que ser um _ninguem_--puro, plebeu, e pobre. + +Vergonha sobre os vis apostatas da Idea +que negam como Pedro o fez depois da ceia +na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes! +Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes, +que levam a matar, balando, ao matadouro! +Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro, +sua aureola santa e seu brasão de gloria +por um titulo em vida--e um pontapé da Historia! + +Vergonha sob vós apostatas rafeiros +que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros +por que Judas vendeu esse de Nazareth! +Vergonha sobre vós, apostatas sem fé +messias sem pudor que andaes pelos caminhos +prégando aos corações, embebedando em vinhos +de gloria e de ideal, e que depois ao Povo +esse sublime Ancião de peito sempre novo, +o rafeiro infeliz de todos os Tiberios, +açoutado de Deus, dos reis e dos imperios, +mas que sempre enxotado--á chuva, ao vento, em pranto, +leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto, +esse banido Ancião de todas as nações +a quem vós atiraes á lucta e ás sedições, +mas que um dia deixaes na beira d'um caminho, +como um cego sem guia, esqualido, sosinho, +n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta, +voltando embalde aos ceus sua pupilla morta. + +Vergonha sobre vós, ó vendilhões do templo! +Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo +de todos esses vis messias das viellas, +mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas, +que vão vender aos reis as suas convicções!... +Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões +do meu chicote em fogo, irado, justiceiro +para que ao vel-os nús, expostos no madeiro +da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota +ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota +saiba o Povo afinal que é preciso escarrar +no sacerdote infiel que vende o seu Altar. + + + + +II + + +Tu não sabes que gloria é ser pamphletario! +É ser o vento rijo, o vento extraordinario +que agita as multidões como um canavial, +contra um farrapo regio, a purpura real +contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições. +É ser o que protesta, o que ergue os corações +n'um arranque de heroe, á torre do Direito, +é dar qual pellicano, o sangue do seu peito +á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos. +É ser o que não és. É não trocar os brilhos +d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio, +pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio. +É ser o que protesta--o que ergue uma lanterna +na grande escuridão, na escuridão moderna, +contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente +a favor do _ninguem_, da Plebe, do innocente. + +É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna, +a espada que degolla e o grito que condemna. +É ser elle sósinho, altivo rebellado, +o grito do mineiro e o espectro do enforcado +que vem correr d'um leito o cortinado régio. +É ter esse condão, o enorme privilegio +d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas, +fazer gritar a espada e levantar as almas! +É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra, +na floresta, no val, nas rochas ou na serra, +á neve, á chuva, aos soes, nas névoas estrangeiras, +nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras +pela neve polar, no exilio, nas ruinas, +--mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas, +mal soar o seu nome--alevantar-se um peito +e gritar:--Elle é que é a Espada do Direito! + +Ser pamphletario é--ser um pharol na noute +ser a pedra angular, Patibulo e Açoute. +É ter todo um vulcão em lava no seu craneo, +toda a Plebe agitar, do seu subterraneo, +como agitou Marat,--ou aguçar a espada +contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada. +É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto, +quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto +ser chamado um hereje--e as pallidas mulheres +quando veem surgir esses extranhos seres +apertarem ao peito as timidas creanças. +É andar pobre, exhausto, humilde como as granças +errante, só, banido, exhausto pela terra, +--mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra, +quer nos paços reaes, nas praças da Cidade +a sua voz gritar--Alas á Honestidade! + +E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom, +frio como é a Lei, frio como Proudhon, +chicotear sem dó os lombos dos Heroes, +vender como Marat, na fome, os seus lençoes, +mas nunca se vender, mas nunca transigir! +É saber odiar, decapitar, punir +e não se rebaixar nunca como um capaxo! +É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo, +que aterra a noute vil d'um seculo maldito. +É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito +n'uma éra de luto, infame, ensanguentada +em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada +e morre como outr'ora amando o Raphael. +E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel +contra uma horda vil de infames sacripantas. +É levantar ao ceu livres espadas santas +todos os campeões das Alas do Rancor. +É gritar, é gritar--«Eu sou o _Odio_--_Amor_, +«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome, +«a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome +«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta +«sem bençãos e orações--como uma prostituta. +«Sou a voz do _ninguem_, a voz do cannavial +«que soluça, e não quebra ao rijo temporal, +«sou a voz do que chora, a voz do que suspira, +«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira, +«o que chamou a si os _tristes_, exilados +«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados +«que vagueiam na terra exhaustos e banidos, +«o que chamou a si todos os opprimidos +«todos que tinham sêde assim como Ismael +«e tragavam na treva a sua cinsa e fel! +«Eu não sou como vós uma bexiga cheia +«de colera, de fel, de inveja que guerreia, +«e vem lançar á rua a sua roupa suja! +«Eu não sou como vós um _corvo_, uma coruja +«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada! +«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada, +«tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho, +«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho, +«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes, +«que vivem na abjecção e são chamados _fezes_ +«que chamam _povileu_, que chamam a _gentalha_, +«e gritei-lhes--Ávante! É hora da batalha! + +Ora este hereje pois, ora este pamphletario, +que assim sabe escarrar no biltre e no sicario, +este homem do Dever, este homem do Direito, +que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito, +que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza +dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza, +que em quanto tudo quer ser despota e opulento +elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento, +que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos, +quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos, +que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte, +elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte, +quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada, +faz do Direito açoute, e faz da penna espada, +e diz a um rei, um Czar, um déspota potente +--Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente +o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios, +o furacão da Plebe, o açoute dos imperios, +terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis. +--Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!... +Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna: +--Vós tendes o _knut_--eu tenho esta lanterna. + +Este homem inda que pobre, inda que perseguido, +roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido, +inda que triste e só no seu isolamento, +ao pé do grande Czar, n'este cruel momento, +inda que pobre e vil, inda que maltrapilho +é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho. + +Assim foste tambem, ó Velho solitario! +Assim foste tambem grande pamphletario +que soubeste elevar a eterna Alma do Povo! +Assim foste tambem quando eras puro e novo +e sabias levar á guerra os corações, +quando eras um açoute e o deus das multidões +que vinham em tropel beijar os teus joelhos! +Mas hoje tu o que és--escoria d'entre os velhos +refugo de traidor, ó renegado hostil! +Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil! +alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!... + +És o que se vendeu!--Tu és uma cloaca. + + + + +III + + +Ó seculo de ferro! ó geração escrava! +que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho, +no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava, +cae a agua do ceu como n'um poço velho! +Sim a agua do ceu que faz viver a flôr +mal que no poço cae transforma-se na lama! +Ó seculo de ferro, ó seculo de horror, +que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama? +Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos, +prégando a Negação, n'um funebre arrepio, +que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos +como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio? +Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos +que dão prantos de sangue ás tuas vexações, +e do carro de fogo arrojam os seus mantos +que arrastam á Revolta o mar das multidões? +Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira +vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar. +A Justiça tornou-se em velha alcoviteira. +A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar! +O Desespero crú esparge o seu veneno +na taça d'ouro e onyx das jovens illusões. +O Odio faz ouvir o seu terrivel threno. +O Mal com a tenaz aperta os corações! +A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes +ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro. +Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes. +Seu santo coração flameja como um astro! +Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto +sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte! +Só ella faz ouvir seu alaúde em luto +que dá notas crueis de Maldição e Morte. +É só ella que empunha o seu chicote em fogo +como o açoute de ferro indomito de Deus, +para açoutar os reis, o falso demagogo, +os biltres charlatães dos reis e dos plebeus. +É só ella que faz na noute secular, +na sua Lyra ouvir--não canticos d'amor-- +mas as notas fataes que entornam o luar +da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor. +Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras, +que já tendes chorado e que sabeis rugir. +Quero em cordas de bronze os canticos das iras! +É preciso açoutar, decapitar, punir!... +Deixae agora o Amor e as brizas da bonança! +Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio! +Pela noute vibrae as notas da Vingança. +Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio. + +Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios, +os atalhos do bosque e a lua da floresta! +Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios, +n'uma éra de sangue inhospita e funesta! +Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano, +as nuvens da montanha e os sinceiraes do val! +porque o mundo talvez espera o seu Tyranno. +A Terra vae parir algum Christo do mal. +Deixae de nos cantar as nuvens da bonança, +e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir, +por que em breve já vem a hora da matança +em que a Espada tem voz, e as torres vão cair. +Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos, +ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira, +ó torrentes do val, ó beijos amorosos +da Mulher que se amou n'uma visão primeira! +Tambem já te cantei, estrella do pastor, +ó danças sobre a eira, ó lua das marés. +Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr, +terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez. +Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito. +Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro. +Foragido dos reis, armado do Direito +faço vibrar na Lyra os canticos de ferro. + + + + +IV + + +Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta +tendo batido em vão foste á do lupanar, +e ali deixaste a honra e a virgindade morta, +como noiva infeliz que levam a enterrar! +quando foste bater, chagado coração +ás portas soluçando, e que ninguem te abriu, +e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão +te sepultou em vida, e teu calor cingiu! +quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente, +illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel, +viste tudo findar na enxerga repellente +do teu leito de infamia--o catre do bordel! +Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços, +como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras, +só achaste o silencio e o echo dos teus passos, +o riso da cazerna e a noute das rameiras! +quando ó loura mulher no berço excommungada +por um Destino ferreo, inhospito, infeliz, +por tua propria Mãe talvez abandonada, +pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz! +Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras, +e a despir e a manchar as brancas vestes tuas, +e a deixar teu amor na lama das regueiras, +como os sedentos cães que vão beber nas ruas! +Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura, +que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu, +achaste a Fome vil, velha de boca escura, +n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu! +quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros, +pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue, +tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros, +sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue! +quando ó selvagem flor, ó poça do abandono, +sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão, +a Fome te obrigou qual magro cão sem dono +a buscar na valleta o teu immundo pão! +Dize sabias já, rainha da enxurrada, +ave que não tens ninho e que empurrou a Fome +que ha entes como tu--raça vil, condemnada, +que vendem seu pudor, que vendem o seu nome? +Dize sabias já, loura infeliz sem pão +que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu, +que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão, +sem terem como tu os chascos e o labeu? +Dize sabias já que em quanto vaes na praça +entre um circulo vil de chascos quaes facadas, +elles vão affrontando a multidão que passa, +em gloriosos trens de portas brasonadas? +Dize sabias já, ó branca meretriz, +que aos homens como cães cedes teu corpo nú, +que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz, +mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu? +Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada, +por toda a rua hostil, por toda a rua séria, +a distancia que vae dos _outros_ ao teu nada. +Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria! +Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas, +entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes, +ó prostitutas vis! cadellas açoutadas! +Ó rameiras da rua!--eu vos respeito mais. + + + + +V + + +Velho, escuta, esta voz.--Eu não sei perdoar: +frio como um Destino eu heide-te açoutar +até te ver em sangue os lombos aviltados! +No estrume arrastarei teus louros profanados, +que jazerão no esterco infame das viellas, +onde vagam á lua os ébrios e as cadellas. +Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado +que depois de haver rido, haver calumniado +uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha, +--no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!-- +n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta, +depois de lhe chamar a _grande prostituta_ +nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo +que ser do filho-rei o humillimo capaxo, +nada achou mais servil, para apagar a offensa, +do que vender a penna e perseguir a Imprensa! +Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão, +ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação, +foi Satan que te pôz o diadema escuro! +Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro, +macular para sempre a virginal gloria, +cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia, +e envergonhar a campa humilde dos plebeus +que foram os seus paes--e a pobre mãe nos ceus, +matar os louros seus--aviltação eterna! +como um ebrio que morre em chão d'uma taberna? +És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea? +Acaso és tão medonha ó funebre Miseria, +acaso és tão infame, ó magra Messalina, +que obrigas uma alma, essa porção divina, +essa faisca eterna, eterna claridade, +a assassinar sem dó a branca virgindade +do seu passado santo e virgem coração, +e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão? + +Acaso ó ouro és tu--tu que nos fazes nobre? +É tão terrível ser--puro, plebeu, e pobre,-- +é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado, +que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado, +que em certo dia vil--dia vil entre os dias,-- +se atire uma risada ás santas utopias +ás crenças virginaes da loura Mocidade +á aureola ideal d'aquella santa edade, +e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio, +pela libré d'um servo e a farda de um lacaio? +Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho! +Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho, +o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso! +Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo, +faminto como tu, irá lamber o manto +do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto, +e de rastos, no chão, beijar o pó do throno. +Por isso vou marcar-te infame cão sem dono, +e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira. +Vaes ouvir a Justiça--a augusta, a verdadeira, +a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte, +a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte, +com seu dedo de luz no livro do Futuro, +a que arroja á gehenna eterna do monturo, +e que com ferro em braza escreve os tristes fins +dos juizes Caiphás, dos pifios Severins, +e d'outros a quem heide em breve tomar contas! +Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas, +a que gela no labio as phrases começadas, +que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas, +pelas suas crueis, fataes carnificinas, +a que condemna os reis e as tropas assassinas, +a que forma e dirige a Alma Universal. +Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal. + + +*A Plebe* (levantando os braços, clamando) + + +Eis aqui, ó Justiça, ó minha Mãe austera, +tua filha infeliz, que traz preza esta fera, +este sinistro Reu que vês acorrentado! +Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado +que de mim motejou, como Cham riu do Pai! +Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai +que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava, +vinha bater no seu. O monstro não ladrava +como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos! +Eil o! elle aqui está!--o rei dos saltimbancos! + + +*A Justiça* + + +Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude +deve ser tambem forte assim como a Virtude. +Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica bem! + + +*A Plebe* + + +Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe. + + +*A Justiça* (surpreza) + + +Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema +a injuria que te fez, ou o crime que o algema! +De certo foi bem funda extraordinaria a offensa +bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa, +bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional +pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal! + + +*A Plebe* + + +Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena. +Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna. +Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida +que vou de val em val, de mar em mar, varrida +como a Judea antiga, a escrava, pela noute, +chorando por seu Deus, sob o romano açoute. +Meus filhos tambem vão chorando pela estrada. +«Ás vezes diz-me um--Ó minha Mãe amada! +«Já temos caminhado em vão de serra em serra. +«Temos os pés em sangue! Á guerra, ó Mãe, á guerra! +«Não temos vinho e pão! Não temos o sustento! +«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento! +«Não temos luz e lar. Não temos nem vestidos! +«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos +«olhar como o sol brilha em rútila grandeza! +«Deus tambem para nós formou a Natureza. +«Não é só para um rei, um grande, uma rainha +«que a espiga dá seu pão e pampanos a vinha! +«Eu já sou forte, ó Mãe, eu tenho as mãos grosseiras +«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras, +«eu quero transformar a minha enxada em lança, +«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma bonança! +Ás vezes este filho energico, revel, +é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell, +outras com seu olhar veste os simples e os nus +é plebeu e poeta e chama-se Jesus. +Outras é um açoute, um vento rijo e austero, +é um monge brutal e chama-se Luthero. +Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente! +falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente +d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos, +com o sangue de heroes de louros victoriosos! +Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira +a bocca da Traição, a bocca da Mentira, +apontando-me além teu sceptro de brilhantes. +Eu levanto-me então assim como os gigantes, +a espada dos heroes empunho sem demora, +e cançada d'andar qual velho boi na nora +da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção, +prégo a santa Revolta á santa Multidão! +Mas então o servil, o immundo renegado, +vende-se a quem me tem o peito ensanguentado +no lodo da abjecção, no pó do aviltamento! +Fico então outra vez no meu isolamento, +na minha escuridão chorosa, amarga, e séria, +outra vez a puxar na nora da Miseria, +outra vez a roer o pão amargo e escuro, +pela fresta espreitando o dia do Futuro. + +Foi assim que este fez, o indigno sacripanta. +Foi assim que cuspiu na minha fronte santa. +Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos. +Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos, +expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça. +Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça +expulsando-a de casa, em desabrida noute +sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute. +Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça. +Justiça contra o vil!--Justiça, ó Mãe, Justiça! + + +*A Justiça* + + +Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura, +barro do homem vil, indigna creatura +póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe! +Póde acaso a Cobiça allucinar alguem +por um pouco de Luxo, um pouco de poeira, +que transforme uma alma ingenua, verdadeira, +um virgem coração, qual pagem branco e louro +que sonha no Ideal em finas torres d'ouro, +a abandonar assim as illusões de gloria, +sua auréola santa, o seu brazão na Historia, +todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade, +todas as convicções da loura Mocidade, +para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas +d'um symbolo real eivado de gangrenas, +e depois sem Amor, sem nada que conforta, +a sua velha Mãe lançar fóra da porta! +Alguem acaso viu o crime infame, enorme? + + +*A Consciencia Humana* + + +Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme, +alguem que sonda o mar e os fundos corações +as insomnias dos reis e os somnos dos leões! +Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado +toda a noute escrever, d'olhar allucinado, +pamphletos crueis na sordida trapeira. +Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma _rameira_ +e _rainha assassina_ á tragica reinante. +Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante, +prégar a sedição, direitos, regalias, +e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias +que fazem levantar na praça os estandartes! +Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes +do Respeito Real, e as ultimas trincheiras, +agachado na treva assim como as toupeiras, +a minar, a minar, as monarchias vãas! +Depois tambem o vi sobre os reaes divans, +reclinando-se já com um praser secreto, +contemplando os florões dourados pelo tecto, +com um olhar d'abbade ou satyro contente, +exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente +«n'estes almofadins, entre estes reposteiros! +«Gósto d'estes florões, gósto d'estes archeiros, +«que fazem reluzir as suas alabardas! +«Afinal os plebeus precisam--é d'albardas. +«Que querem elles mais? Comer das ucharias, +«beber como uns toneis, vir ás estrebarias, +«e algum dia puxar pelas reaes carroças?... +«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas +«do mando, do poder, do luxo, da opulencia! +«Gósto de ouvir dizer--Saiba Vossa Excellencia +«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso Senhor! +«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor +«que todo um refeitorio inteiro de bernardos. +«Não sou como os plebeus que até devoram cardos, +«negro caldo espartano e sordidas raizes! +«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes! +«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares +«da ucharia dos reis que incensam bem os ares, +«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria! +A Gloria é nome vão! Um fumo só na Historia! +«Da gloria não se vive. A Gloria é só chimera. +«El-Rei Ventre é que manda. O ventre não espera. +«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade! +«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade, +«as faces de setim das bellas camareiras! +«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras +«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas, +«que me fazem sonhar noutes voluptuosas +«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo. + +«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo, +«apertando entre as mãos as fórmas femininas, +«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas, +«d'uma mulher ideal que nos concede tudo, +«semi núa, a sorrir, n'um leito de velludo!...» + +Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!-- +Aqui tens, ante ti, a encanecida fera, +que tanta vez ladrou contra os brasões reaes! +Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes, +a bocca da Traição, a bocca da Mentira, +a penna tinta em fel que semeou a Ira, +o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem! + +Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe. + + +*A Justiça* + + +Ha alguem que defenda o livido accusado? +Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado, +que não se tenha nunca achado em morticinios, +um braço recto e bom, puro dos assassinios, +derramados no chão dos campos inda quentes, +que não tenha contra elle a voz dos innocentes, +nem erga contra si a voz dos opprimidos, +ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos, +cheio de convicção ao meu terrivel ceu? +Ha alguem que erga um braço, um braço a pró do Reu? + + +*A Ordem* (erguendo o braço) + + +Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu braço! +Este reu que aqui vês não é um vil devasso, +um baixo salteador d'estradas e caminhos! +Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos. +Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas, +mais alvo e virginal que as onze mil donzellas! +Provarei, ó Justiça, até á saciedade, +que este reu até tem cheiro de santidade! +A Plebe sua mãe é uma velha escrava, +tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava +«de guerra e sedição contra as instituições! +«Ella é que faz que El-Rei não durma em seus colxões +«o somno da Innocencia o somno bom do Justo, +«e que até, grandes ceus! faça o seu chylo a custo! +«Ella é que faz que a Industria erre paralysada, +«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada +«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis, +«que toda a tropa fique em armas nos quarteis. +«Ella é que impede e trava a roda Progresso! +«Que dique lhe hei de oppôr?--Brado como um possesso: +«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros, +«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros +«que querem supprimir a gothica realesa! +«Enforcae-me quem cante a indigna _Marselhesa_, +«e clame mais do que eu as livres crenças suas! +«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas, +«ou que ande a passear nas praças sem licença! +«Levantae uma forca enorme para a Imprensa. +«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas. +«Guiae-vos por Platão--lançae fóra os poetas +«que são os mais reveis, fataes agitadores. +«Guiae-vos por Platão--Nem sempre cantam flores! +«Tambem sabem cantar as notas de batalha, +fortes como os clarins, rijas como a metralha, +«e quando a Indignação a sua Musa inspira +«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra! +«No emtanto não pareis!--Nada de transigencias! +«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias, +«tudo que se vender como quem vende um trapo! +«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo. +«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade +«ponde a saque e a terror as ruas da cidade +«para prender sem dó a infame biltraria, +«d'essa cafila vil da vã demagogia, +«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria, +que inda pede mais pão, mais instrucção primaria! + +Ora tudo isto fez--eu juro-o pelo Ceu! +para salvar a patria este sublime Reu. + +Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio +que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio. + +Oh doudas illusões da douda Mocidade! +Quem póde erguer seu braço, o braço sem piedade, +contra o triste Ancião cheio de desenganos +que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos! +Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos, +contra quem soluçou ouvindo os Girondinos, +e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas +n'esses cantos de bronzes!--As almas dos Poetas +fazem desabrochar os batalhões da terra! +Na primavera em flor os peitos pedem guerra, +aventuras, amor, cabeças de tyrannos! +Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos, +Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono, +vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do Throno, +vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores, +vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores +deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento! +--Então ao craneo diz a aguia do Pensamento: +«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte, +«e o peito despi nú aos turbilhões da Sorte? +«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes, +desdobrando na praça, á Plebe, os estandartes +«comendo o negro pão nos solos estrangeiros? +«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros, +«com os quaes eu clamei no val e na montanha, +«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha, +«prégando o Verbo Novo ás multidões sagradas? +«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas? +Por quem combati eu, rubro, sanguinolento? +Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento? +Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono? + +Então n'aquella noute arida, má, sem somno, +escuta-se uma voz, que vem como a rajada, +no vacuo e solidão da fria agua furtada, +que grita em alta voz--Combateste por mim? + +Quem és tu? Quem és tu? Quem é que falla assim? +--Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde. +O pensador então vae ver onde se esconde +quem lhe dá um tremor indomito, suspeito, +como nunca sentiu no antro do seu peito. +Quer ver o extranho ser, aquella voz interna. +Mas cheio de terror, á livida lanterna, +n'um tragico arrepio, á luz baça e funérea, +--vê sentada em seu lar a furia da Miseria! + + +*A Justiça* + + +Ó Ordem acabaste? + + +*A Ordem* + + +Eu acabei, Justiça! + + +*A Justiça* + + +Quem é que quer entrar por sua vez na liça, +e á Ordem refutar o que ella diz do Reu? + + +*Os Perseguidos* + + +Somos nós, somos nós, que as nossas mãos ao ceu +erguemos muita vez nos asperos caminhos? +Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos +do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos! +Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos, +levados atravez d'um turbilhão maldito, +como errou Ismael, como o judeu proscripto +queimado pelo sol vermelho das legendas. +Somos nós, somos nós, que errámos sob as tendas +do excommungado Cham na treva e no abandono, +ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno +que depois de gyrar do furacão á toa +vae rebolar do azul no lodo da lagôa. +Somos nós os fieis que nunca vacillámos, +os bronzeos corações que nunca trepidamos +ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas! +Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, ás luas +das solidões austraes, nos carceres, nas minas, +lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas +sem quebrar os fataes, terriveis juramentos! +Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos +do exilio arrebatar os filhos degredados, +as esposas e as mães violadas dos soldados, +nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute! +Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute, +que contra o ferreo, hostil Destino triumphante, +temos o _Odio-Amor_, feito d'um só brilhante. + + +*A Justiça* + + +Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco! +Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco. +Responde justo e bem, sem ira, com clareza. +Manda ao teu coração dictar tua defeza! +E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres, +ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores! + + +*O Reu* + + +Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella! +Eu não sei o que ladra a rábida cadella +contra mim amostrando os assassinos dentes! +Não sei quem ella é. Não tenho taes parentes. +Não sei por que me cita a ladra ao tribunal. +Eu jamais perturbei a Ordem social. +Eu jamais sublevei as ondas populares! +Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares, +e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha! +Não fui eu que arranquei a espada da bainha. +Não fui eu que açoutei as santas dynastias, +ao chicote infernal dos chascos e ironias, +que sibilam no ar qual feixe de serpentes... +Jamais calumniei... + + +*O Espectro* (surgindo, terrivel) + + + Mentes, ó Velho! Mentes! +Mentes, velho histrião d'um throno gasto e ôco! +Mentes homem venal, mentes despota louco! +Mentes servil plebeu, indigno latrinario! +Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario +de pamphletos crueis na sordida trapeira! +Não negues que chamaste, outrora, uma _rameira_ +á mãe do teu Senhor, á mãe de El-Rei teu amo! +Não negues que chamaste um bom _veado, um gamo +de silvestre armadura, e flórida ramagem_ +ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem! +Não negues ante mim que sou o teu Espectro +que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro! +Não negues que eu te vi na fria agua furtada +levantando o Direito, ou revoltando a Espada, +tendo acceso no olhar o sol da Indignação!... +Não negues, ó Caim, que assassinaste o irmão. +Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes +Não negues que nasceste assim como as serpentes, +e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!... +Não negues ser plebeu, não negues com desdem +tua origem plebea, a tua Mãe escrava, +nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava +do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito! +Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!... +Eu sou o que te sondo os mais occultos passos. +Onde quer que tu estás encontras os meus braços! +Onde quer que tu vás--vês o meu duro olhar! +Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar, +e a revolver comtigo o lodo das paixões! +Sou o cumplice teu nas velhas sedições, +e ambos temos as mãos de sangue maculadas +de ter á nossa voz feito arrancar espadas, +e gottejar na rua o sangue do plebeu! +Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu! +Aquelle sangue brada e clama contra ti! +Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali, +jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras, +inundando a calçada e a lama das regueiras! +Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha, +rudes heroes plebeus, levados á batalha, +pela luz do teu Verbo, e pela espada nua, +correndo em borbotões nos boqueirões da rua, +despenhando-se ao sol na vasa das valletas! +D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas, +cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos, +como o carro de Deus e os espiritos dos ventos, +gritando contra nós estranhas ameaças! +E o sangue plebeu diz:--Em quanto sobre as praças, +«corria ao rubro só das luctas fratricidas, +«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas, +«e abraçados, ao sol, morriam os valentes, +«quando os peitos plebeus e os corações dos crentes +«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço, +«juntamente ao seu Odio o vingativo braço, +«mal sabia eu então que tu que me levavas +«á lucta, á guerra, ao ideal das gerações escravas, +«me havias renegar, infame! com desdouro, +«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro! + +«Maldição sobre ti, que com as impias mãos, +«sujas do sangue quente inda de teus irmãos +«dos guerreiros plebeus, dos corações dos bravos +«que quizeram morrer para não ser escravos, +«que tentando egualar os campeões das lendas +«foram morrer ao sol heroico das contendas, +«ousaste inda pegar na penna então sagrada +«para a entregar ao rei, como vencida espada, +«para escrever servis, ignobeis sacrilegios, +«--e com ellas manchar os reposteiros régios! + +«Maldição sobre ti, Velho! que atraiçoaste +«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste +«para chegar do Throno aos tragicos degraus! +«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus, +«no meio das gentis duquezas decotadas +«das camelias da Carne ás luzes desbotadas +«quaes rosas de Saron aos gélidos luares; +«has de ouvir minha voz no meio dos jantares +«no fundo do teu sonho, em meio dos festins, +«entre o tinir do copo, os cantos dos setins, +«nos carros com brazões, de flexiveis mollas, +«entre o gemer das flautas e os cantos das viollas! +«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios +«perseguindo-te até da treva nos mysterios, +«chamando contra ti na voz de teus irmãos, +«quando o teu labio abjecto oscule as régias mãos, +«e a mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa! +«Eu serei, ó traidor, o cancro que te rôa +«o dente que te morda, o espinho que te fira, +«o escalpello que te abra assim como quem vira +«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia, +«a lanceta que te abra a mais secreta veia, +«o pôtro que te dê o mais horrivel trato, +«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato. + +«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!... +«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós comtigo +«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito, +«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito +«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue! +«Ha sangue em tuas mãos--em teus vestidos sangue! +«O sangue é que te lança a sua maldição. + + +*O Reu* (caindo no banco, aterrado) + + +Sempre o Espectro cruel, sempre a eterna visão! + + +*A Justiça* + + +Condemnou-te o teu grito infindo de terror! +Confessaste a Traição!--Trahiste-te traidor! +Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido! +De nada te valeu ser cynico e atrevido. +De nada te serviu a tua astucia e arte... + +Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte, +sublimes corações que nunca transigistes! +Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes, +que tendes amassado o vosso pão com pranto! +Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo +mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte, +ferreiros que forjaes as armas contra a morte, +sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude! +Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude +que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça, +erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça, +cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta, +pedreiros que aluis o mundo á picareta, +carpinteiros que andaes serrando com a serra, +erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra +a toda esta ruina, esta agonia immensa, +e acercae-vos a mim--ouvi minha sentença: + +Já que, ó Velho, trahiste as convicções primeiras, +e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras +da qual se esquece o nome ao limiar da porta, +já que atiraste á vala a tua honra morta, +e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito, +de que hão bebido o leite os homens do Direito; +já que excitaste á guerra e á lucta teus irmãos, +e no sangue plebeu tintas ainda as mãos +foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe... +eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem +de todo o homem de bem, de todo o homem honrado! +Toma lá a blusa infame do forçado. +Vou-te marcar na testa um grande R gigante, +feito com minha espada em brasa flammejante, +que a todo o mundo inspire--odio, nojo e terror. + +Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr, +vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno, +que o Dante assignalou com seu buril eterno +na viagem que fez á tragica cidade. +Vaes agora pisar as ruas da Anciedade, +subir a vil calçada amarga do Despreso. +Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso, +que tens com ferro em brasa um R sobre a testa, +cuja vista faz asco e cujo bafo empesta, +--contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas +vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas! +Como outr'ora Cain com seu signal maldito, +tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito, +mettendo assombro e horror a quem te vir passar. +O Espectro é teu algoz--o que ha de acompanhar +teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso, +curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço, +cheio de lama, esterco, apupos, irrisões, +entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições +de todo um povo hostil que sobre ti escarra. +Ali tendo vestida a sordida samarra, +tendo na testa o infame e caustico signal, +--eu condemno o teu nome á pena capital. + + (grava-lhe na fronte um R com a espada) + + +*Primeiro Perseguido* (levantando um braço) + + +Maldito sejas tu--que tens escravisado +aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado, +a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana! +Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna, +e has sido, contra nós, tyranno inda maior! +Maldito sejas tu, refugo de traidor! +que a nossa execração te siga em toda a parte, +que o Despreso desdobre em ti seu estandarte, +e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra, +que o Remorso te pique e fira como a espora, +e a Vingança te siga os passos pelo escuro!... + + +*Segundo Perseguido* + + +Maldito sejas tu, agora e no Futuro! +Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto! +Maldito sejas tu em tudo que fôr santo, +no fundo do teu copo, á sombra até no estio!... + + +*Terceiro Perseguido* + + +Maldito sejas tu, á chuva, ao vento, ao frio, +no teu caminho escuro e cheio de terrores! +Maldito sejas tu na Primavera em flores, +no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno! +Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno! +Que a execração do mundo echoe aos teus ouvidos! +Que os abysmos da Dôr se encham de teus gemidos, +e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!... + + +*A Plebe* (lançando-lhe o veu negro dos condemnados á morte) + + +Eu Plebe tua mãe que aos lacteos peitos santos +te alimentei do leite altivo dos heroes, +eu que a fronte te alcei á luz branca dos soes, +e te metti na mão a espada da batalha, +eu lanço-te este veu assim como a mortalha, +ultimo e vil lençol da tua negra gloria! +Para sempre terás a maldição da Historia, +o despreso do mundo, a execração geral, +e já que me has negado, ó filho desleal, +e has seguido o infamante e tenebroso trilho, +eu nego-te tambem! Tu já não és meu filho! +Já não és meu amor, minha affeição mais terna. +És o que tens meu odio e excommunhão eterna, +a quem lanço este veu de condemnado á morte, + + (repellido-o de si) + +Vae, segue para sempre a tua infame sorte! +Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada! +Que a minha Indignação te fira como a Espada! +Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!... + + +*O Espectro* (empurrando o Reu) + + +A caminho! A caminho!--Á Forca do Futuro. + + + + +VI + + +Acabaste d'ouvir a letra da sentença. +Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa, +te cause pouco abalo esta sentença augusta! +Talvez te cause riso e clames não ser justa +a ira que sacode as cordas d'uma Lyra. +Talvez velho frascario e lingua de Mentira +chames ao verso fumo, a tudo vãs ficções! +Não! A Lyra é de bronze! As novas gerações +os homens d'ámanhã, os proximos vindouros +hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros, +pela noute da Historia esse R flammegante! +Elles dirão então--Acaso foi o Dante +que te marcou na testa esse signal soturno! +Quem foi o vingador, o látego nocturno +que na fronte te abriu a inicial horrenda? + +E tu deves dizer:--Na minha ignobil senda +não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto! +Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo +que não quiz em mim só vibrar o açoute amaro! +Como outrora Molière, em seu eterno _Avaro_, +que gravou com buril um lutulento vicio, +elle quiz castigar em mim o vil flagicio +d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso, +que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo, +salafrario venal, baixo arlequim de feira, +rasgando a cada passo a tela da bandeira, +e fugindo a alistar-se em legião contraria; +quiz vergastar sem dó a moda latrinaria +d'esse abuso gentil, galante, deleterio, +--d'hontem ser contra o Rei--hoje ir ao ministerio, +o costume chinfrim, o ignobil privilegio, +--d'hontem ser petroleiro--hoje um capaxo régio! + +Um homem nada é. É simples grão d'areia +nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea. +Mas o Principio é tudo! È força alimentar +na Consciencia Humana, álerta, sem cessar, +o castigo do Mal, essa noção sagrada, +terrível como a Adão do seraphim a espada. + +Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso, +que tu podes travar a roda do Progresso, +encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo? +Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo, +e que todo o trabalho excepcional das Raças, +todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças, +industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre, +tudo que Fausto sonha e Galileu descobre, +todas as leis dos soes, Systemas e Theorias, +--vão findar de repente, ás tuas portarias? + +Acaso crês que todo o labutar eterno +do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno +dos seus instinctos vis, das suas privações, +em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões, +ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás más paixões, +á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente, +todo esse fermentar energico, vehemente, +toda a rebellião extraordinaria, séria, +do Diabo com Deus, da Alma com a Materia, +toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso, +o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso, +o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello, +o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello, +o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco, +o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco +aos abysmos do mar com a primeira Vella, +o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella, +o que inventa o Vapor, esbofeteia a onda, +o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda, +o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio, +o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio, +o que contorna o acantho em torno ao Capitel, +o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel, +a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra, +o que forja as crueis armas brancas da guerra, +Newton que descobriu o gravitar dos astros, +Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros, +Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro, +Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro, +Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta, +Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta +que em sua cella agita a mystica alma humana; +o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana, +n'aquella India mãe de gerações guerreiras +onde erram os fakirs á sombra das palmeiras, +n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos +onde Jesus scismou perto dos therebinthos; +tu crês que esse animal das primitivas éras +que o Lume descobriu para assustar as féras, +o que fez a primeira e tepida Cabana, +o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana, +da primeira Charrua e do primeiro Arado, +Juvenal que varou Roma de lado a lado +com suas corrupções, crimes, e vãos delirios +como a vã liturgia extranha dos Assyrios; +Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro +maior que Nero tinha e que era o seu thesouro; +Durer esse pintor extranho, mysterioso, +que achou no Pantheismo o mais infindo goso, +e na tela onde pinta as folhas e as verduras, +entre os ramos desenha extranhas creaturas, +como monges fataes minados pela _acédia_ +que dão todo o terror da alma da Edade Media; +Cervantes, o cruel, que faz errar a trote +toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote, +emquanto o Fausto sonha em virgens de balladas, +e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas; +Euclides que decreta as leis da Geometria, +a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia +e em torres collossaes, á luz das noutes bellas, +traça o grande roteiro eterno das estrellas; +Goethe que se fundiu na alma da Naturesa, +que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa, +a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo; +Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo +de mendigos, truões, abbades, estudantes; +Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes, +Juvenal que escarrou na Venus Meretriz, +Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz, +prégando um culto novo entre o feroz gentio; +o que inventa o Compasso, o Leme do navio, +o que accendeu a Forja, inventa a Picareta, +o que primeiro aguça a ponta da Lanceta, +Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes +Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes, +Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens, +Lamark que descobre as animaes origens, +Aretino que açouta os reis como lacaios, +Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios, +Camões que salva um livro e a sua eterna gloria, +Thierry o que cegou a trabalhar na Historia, +Espronceda que canta o hymno da _Miseria_, +Bukner o santo atheu da Força e da Materia, +Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias, +Strauss o que anniquilla a lenda do Messias, +Menuisier que sonda o mundo pequenino, +Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino, +Tacito e o seu rancor contra o romano solio, +Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo, +Kant que abre á Rasão uma moderna estrada, +Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada, +Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco +ser Deus uma theoria e o Homem um macaco; +Krishna o que prégou nas regiões da Idéa +o mesmo que Jesus nos montes da Judéa; +Zoroastro que elevou as almas para o Sol, +Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol, +Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida +do riso do Diabo e a dôr de Margarida; +Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes, +Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes, +Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro, +Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro, +Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito, +Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito, +Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia, +Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia, +d'Alembert que povôa os mundos estrellados, +Lao-Tseu que canta os canticos sagrados, +Berlioz que inventou a musica do Abysmo, +o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo, +o que fez a Atafona, o que inventou o Malho, +toda essa lenda eterna e escura do Trabalho, +todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna, +todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna, +os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso +crês que isto--ao gesto teu--ameaça retrocesso, +e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo +do dedo indicador do general Macedo, +ou então dos dragões dos regios pergaminhos: +--Hintze, _o que não ri_, e o Arrobas tres pontinhos...? +Desillude-te, ó Velho! O mundo não recúa. +A Historia ha de varrer teu nome para a rua, +como uma velha o lixo immundo na calçada. +Tu é que morrerás, tu, ó bexiga inchada +de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade, +que eu despejei na rua, á luz da Sociedade, +como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão. +Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão +curvados e servis, quaes rotos saltimbancos, +mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos, +agitando a maroma em vez do regio sceptro. +E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro +n'esse caminho inglorio e tragico tambem, +que se chama o Abandono, o caustico Desdem, +de tudo isto que forma a Opinião Geral. +Mas o mundo, esse não! No gyro universal +que traça em torno ao Sol com as demais espheras, +verá encanecer as legiões das Eras, +antes que role e volva ás regiões do Abysmo. +Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo +o attrahe sem cessar áquella claridade, +como procura a Alma a luz só da Verdade, +e na ordem moral, como umas verdes palmas, +estendem sempre as mãos as supplicantes Almas +pedindo em côro ao ceu--mais luz, inda mais luz!... +Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz +da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços +no lenho do Despreso em meio dos devassos, +tu pódes continuar a tua erronea senda! +Segue o exemplo dos reis--manda-nos pôr á venda. +Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria. +Faze contractos vis para formar a Iberia +debaixo de dous reis, n'um succulento almoço. +Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço. +Lança o resto da honra ao nada da voragem. +Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem. +Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina. +Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina. +Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões. +Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões. +Dá que comer á Valla e á boca da Enxovia. +Senta a fome no Lar, o luto na Alegria. +Torna inda mais crueis os ais que nos consommem. + +Mas treme do Futuro!--Ouviste a voz d'um homem. + + +FIM + + + + +NOTA + + +Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta publicação o velho +presidente do ministerio, o homem de quem aqui nos occupámos, renegado +das suas convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, pela qual se +elevou, de que é decano e presidente honorario pediu a sua demissão, não +tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar +contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem +menos attenuada. A sua sentença já lhe foi lavrada pela Opinião Publica, +e na Historia, aonde o seu nome fica lutuosamente escripto. O homem que +escreveu que antes queria _imprensa anarchica que imprensa perseguida_, +e é depois de Costa Cabral, (tão incisivamente attacado por elle,) o +unico que se atreveu a reviver as perseguições e as vindictas, fica +vergonhosamente vinculado,--e tanto mais vergonhosamente que foi e é um +jornalista!... + +Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve eximir +ao castigo. É preciso que a responsabilidade ministerial não seja uma vã +palavra. Se não existe a responsabilidade regia, se não existe de facto +a responsabilidade ministerial, é força que estes senhores o confessem +francamente:--a Constituição é uma farça! Se ainda persistem em +proclamar que o não é, façam que sejam julgados os seus ministros +demittidos! Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo +que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o peçam nos comicios, +toda a imprensa da opposição que brade para que os julgamentos dos +tribunaes não sejam apenas para os adversarios ou para os miseraveis e +gatunos: mas que sejam tambem para os grandes salafrarios +constitucionaes. + +O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já tempo que +teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a espada de +Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e o impede de +ser eleito pelo povo para alguma missão de confiança popular. É um +excellente e perfido meio constitucional para affastar um +adversario!--mas muito conhecido nos arsenaes politicos. É uma espada +velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, mas que ainda dá bons +botes! + +No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se fará:--pelo +menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do ministerio Saint Hilaire, que +não fugiu á responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo +portuguez demittido não se peja de fugir a ella. São de tal forma as +engrenagens do systema constitucional que as maiores arbitrariedades se +commettem e se perpetram, ficando na impunidade, na sombra do +esquecimento, ou na velha alcofa d'essa trapeira que se chama +_Politica_. Fallamos da politica monarchica. Mas é força que as cousas +não continuem no mesmo pé! É preciso que á mingua da Lei juridica, se +erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada attentado corresponda um +castigo, que a cada perversidade corresponda um ferro em braza, que a +cada abominação corresponda uma guilhotina moral! A espada d'essa lei +moral devem vibral-a a Opinião Publica a Historia, o jornalismo, os +poetas, os homens justos, os homens de consciencia lavada. Que todos +elles repillam de si estes forasteiros, esses safardanas pulhas que +especulam ha 50 annos com a Constituição, como especullaram com as +bullas, no tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX. +Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que elles +fiquem scientes que as suas arbitrariedades não ficarão na sombra! Ha +quem vela, e quem registra. É a Historia. Ha quem se indigna e quem +decapita. É a Poesia. + +É para isso que se escreveu este pamphleto. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 7| ensanguenta | ensaguentada* | + |#pág. 10| ás raizes | as raizes* | + |#pág. 15| phamphletario | pamphletario | + |#pág. 16| a chuva | á chuva | + |#pág. 23| lua das florestas | lua da floresta* | + |#pág. 27| cadellas acoutadas | cadellas açoutadas* | + |#pág. 48| pelo luz | pela luz | + |#pág. 48| s bre | sobre | + |#pág. 49| gemer das flautas | gemer da flauta* | + |#pág. 60| aonda | a onda | + |#pág. 61| emq anto | emquanto | + |#pág. 67| sa escreveu | se escreveu | + +----------+---------------------+----------------------+ + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by +António Duarte Gomes Leal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + +***** This file should be named 28354-8.txt or 28354-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/3/5/28354/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/28354-8.zip b/28354-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ead3a78 --- /dev/null +++ b/28354-8.zip diff --git a/28354-h.zip b/28354-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c5b9aae --- /dev/null +++ b/28354-h.zip diff --git a/28354-h/28354-h.htm b/28354-h/28354-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7b1c938 --- /dev/null +++ b/28354-h/28354-h.htm @@ -0,0 +1,4104 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>O Renegado a António Rodrigues Sampaio</title> + + + <meta content="Gomes Leal" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%;} +.tinys {font-size: 90%;} +.tinyl {font-size: 95%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic; margin-left:7%;} +.intro1 {margin-left:20%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:35%;} +.quote2 {margin-left:50%;} +.quote3 {margin-left:10%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.note {font-size: 75%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:25%;} +.poetry1 {margin-left:20%;} +.poetry2 {margin-left:50%;} +.poetry3 {margin-left:30%;} +.poetry4 {margin-left:40%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by +António Duarte Gomes Leal + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio + carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa + +Author: António Duarte Gomes Leal + +Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div> +<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b> +Devido à +existência de erros tipográficos neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Mar. 2009) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>O RENEGADO</h1> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4>GOMES LEAL </h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h1> +O<br /> + +<br /> + +RENEGADO </h1> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4> +A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO<br /> + +CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO </h4> + +<h5>SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA </h5> + +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +<img style="width: 150px; height: 38px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +<span style="font-weight: bold;"><br /> + +</span></div> + +<h4>LISBOA<br /> + +TYPOGRAPHIA―Largo dos Inglezinhos, 27<br /> + +1881 </h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +A<br /> + +<br /> + +MANUEL DE ARRIAGA </h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Eu bispo d'outra diocese...<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">Guilherme +Braga</span> </div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, +presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos +negocios do reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como +áquelle que amo.<br /> + +<br /> + +Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem +na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado +desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e +importantes commissões de interesse publico; e querendo por +estes respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos +distinctos e revelantes +serviços prestados á dynastia, ás +instituições, á causa publica e +á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha +real consideração: hei por +bem nomear vos commendador da antiga e muito nobre ordem da Torre e +Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos conjunctamente +á dignidade de gran-cruz da mesma ordem.<br /> + +<br /> + +O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e +satisfação, e para que possaes desde +já usar das respectivas insignias, vos mando esta carta.<br /> + +<br /> + +Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.―El +Rei.―<em>Antonio José de Barros e +Sá</em>.<br /> + +<br /> + +Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, +presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos +negocios do reino».<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Já que El-Rei, teu +Senhor―contra a sua Mãe cara, +<br /> + +assim te premiou a ensanguentada +offensa,<br /> + +eu, um Juiz tambem―Juiz d'uma outra vara,<br /> + +contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença: </div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p7"></a> +<h3>I </h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna―<br /> + +Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,<br /> + +lanterna que accendi na grande escuridão<br /> + +sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,<br /> + +lanterna que accendi n'esta éra <a href="#e1">ensanguentada</a>, +<br /> + +lanterna que accendi, como em sinistra estrada<br /> + +por causa dos ladrões perdido viajante.<br /> + +Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante<br /> + +cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,<br /> + +perguntando-te, ó Velho―Onde está o Direito?<br /> + +O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio?<br /> + +Onde está o Pudor, rude ancião sombrio?<br /> + +Quem és? Quem és? Quem és?... velho +cheio de fel.<br /> + +Onde está ó Cain o teu irmão Abel?<br /> + +<br /> + +Quem és? Quem és?... Ó gloria, +ó nome hoje avitado?<br /> + +Tu foste a Alma do Povo―hoje és um renegado.<br /> + +<span class="pagenum">[8]</span> +Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,<br /> + +d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos<br /> + +ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla.<br /> + +Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla<br /> + +toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos<br /> + +maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,<br /> + +Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.<br /> + +Trago na minha mão a lampada da Ira.<br /> + +<br /> + +Eu sou esse rebelde herege, extraordinario<br /> + +que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,<br /> + +que préguei n'este tempo ás turbas assombradas<br /> + +a União e o Direito, e fui pelas estradas<br /> + +como S. Paulo foi na noute de Damasco,<br /> + +armado do Rancor, cheio do grande asco<br /> + +contra os Escribas vãos, os sordidos judeus,<br /> + +sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.<br /> + +Nós hoje―os infieis―não cremos nos milagres.<br /> + +Não me importa que tu, ó Velho, me consagres<br /> + +o epitheto brutal de herege ou de maldito.<br /> + +Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!<br /> + +<br /> + +Eu sou a voz da turba extranha e inominada<br /> + +que uma vez é soluço, outras a gargalhada<br /> + +<span class="pagenum">[9]</span> +que chamam <em>povileu</em>, a plebe envilecida,<br /> + +n'uma éra de sangue, uma éra fratricida<br /> + +riscada por um sol velho e sanguinolento.<br /> + +Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.<br /> + +Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.<br /> + +Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão.<br /> + +O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.<br /> + +Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.<br /> + +<br /> + +Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,<br /> + +sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro<br /> + +tens renegado sempre, ó sordido traidor,<br /> + +em nome da sua ira, e em nome do suor<br /> + +que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo,<br /> + +que faz córar a rosa e rebentar o trigo,<br /> + +em nome dos seus mil cuspidos sacrificios<br /> + +do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,<br /> + +das suas mães sem pão, seus filhos no abandono<br /> + +como um farrapo velho e como um cão sem dono,<br /> + +em nome da Miseria, em nome da Innocencia<br /> + +de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,<br /> + +em nome do Direito, em nome d'esta Penna,<br /> + +escuta a minha voz, a voz que te condemna<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p10">[10]</a></span> +Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,<br /> + +forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente<br /> + +da plebe que trabalha, e com as mãos possantes<br /> + +sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,<br /> + +d'essa raça animal dos grandes infelizes<br /> + +que são na sociedade assim como <a href="#e2">as +raizes</a><br /> + +que em quanto estão no chão, na +solidão, no escuro,<br /> + +dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,<br /> + +vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas<br /> + +―estão as folhas no ar, altivas, gloriosas,<br /> + +olhando para o azul sereno das espheras,<br /> + +todas cheias de flor nas verdes primaveras,<br /> + +sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,<br /> + +tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos. +<br /> + +<br /> + +Sim, tu foste um plebeu―da raça antiga e rude,<br /> + +que trabalha no escuro assim como a Virtude.<br /> + +Sim, tu foste um plebeu―raça obscura e sem luz,<br /> + +d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.<br /> + +<br /> + +Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão.<br /> + +Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham<br /> + +se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!<br /> + +Sê maldito como elle, e seja o teu espinho<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,<br /> + +ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no +vento!...<br /> + +Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes<br /> + +das Alas do Dever, todas as sãas cohortes<br /> + +dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros,<br /> + +que trabalham na sombra assim como os mineiros,<br /> + +a lampada na mão augusta da Verdade,<br /> + +para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.<br /> + +Tu tinhas a teu lado os corações valentes<br /> + +dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes<br /> + +todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!...<br /> + +Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem,<br /> + +que ambicionavas já as pompas gloriosas,<br /> + +sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas<br /> + +que trabalham por nós noutes, dias inteiros,<br /> + +na officina, no val, nas minas, nos outeiros,<br /> + +e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,<br /> + +de que ser como eu sou―simples, leal plebeu.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...<br /> + +Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste<br /> + +a fronte d'ancião, a auréola sagrada<br /> + +que seria por nós mais do que idolatrada,<br /> + +teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,<br /> + +terrivel como Deus, teus louros d'homem puro<br /> + +para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo!<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Vergonha sobre ti e +os teus cabellos brancos!<br /> + +Vergonha sobre ti que como os saltimbancos<br /> + +foste lançar teu nome ao vento d'uma feira!<br /> + +Vergonha sobre ti, que como uma rameira<br /> + +que vende os seios nus em sordida estalagem<br /> + +ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,<br /> + +em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta,<br /> + +e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta,<br /> + +foste vender a honra ao ouro d'um senhor.<br /> + +Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor<br /> + +que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,<br /> + +do que ser um <em>ninguem</em>―puro, plebeu, +e pobre.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre os vis apostatas da Idea<br /> + +que negam como Pedro o fez depois da ceia<br /> + +na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes!<br /> + +Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,<br /> + +que levam a matar, balando, ao matadouro!<br /> + +Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,<br /> + +sua aureola santa e seu brasão de gloria<br /> + +por um titulo em vida―e um pontapé da Historia!<br /> + +<br /> + +Vergonha sob vós apostatas rafeiros<br /> + +que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span> +por que Judas vendeu esse de Nazareth!<br /> + +Vergonha sobre vós, apostatas sem fé<br /> + +messias sem pudor que andaes pelos caminhos<br /> + +prégando aos corações, embebedando em +vinhos<br /> + +de gloria e de ideal, e que depois ao Povo<br /> + +esse sublime Ancião de peito sempre novo,<br /> + +o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,<br /> + +açoutado de Deus, dos reis e dos imperios,<br /> + +mas que sempre enxotado―á chuva, ao vento, em pranto,<br /> + +leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,<br /> + +esse banido Ancião de todas as nações<br /> + +a quem vós atiraes á lucta e ás +sedições,<br /> + +mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,<br /> + +como um cego sem guia, esqualido, sosinho,<br /> + +n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,<br /> + +voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.<br /> + +<br /> + +Vergonha sobre vós, ó vendilhões do +templo!<br /> + +Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo<br /> + +de todos esses vis messias das viellas,<br /> + +mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas,<br /> + +que vão vender aos reis as suas +convicções!...<br /> + +Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões<br /> + +do meu chicote em fogo, irado, justiceiro<br /> + +para que ao vel-os nús, expostos no madeiro<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota<br /> + +ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota<br /> + +saiba o Povo afinal que é preciso escarrar<br /> + +no sacerdote infiel que vende o seu Altar. </div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="p15"> +</a> +<h3>II</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Tu não sabes que gloria é ser +<a href="#e3">pamphletario</a>!<br /> + +É ser o vento rijo, o vento extraordinario<br /> + +que agita as multidões como um canavial,<br /> + +contra um farrapo regio, a purpura real<br /> + +contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.<br /> + +É ser o que protesta, o que ergue os +corações<br /> + +n'um arranque de heroe, á torre do Direito,<br /> + +é dar qual pellicano, o sangue do seu peito<br /> + +á Plebe sua mãe, como elle o dá aos +filhos.<br /> + +É ser o que não és. É +não trocar os brilhos<br /> + +d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,<br /> + +pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.<br /> + +É ser o que protesta―o que ergue uma lanterna<br /> + +na grande escuridão, na escuridão moderna,<br /> + +contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente<br /> + +a favor do <em>ninguem</em>, da Plebe, do +innocente.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span> +É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,<br /> + +a espada que degolla e o grito que condemna.<br /> + +É ser elle sósinho, altivo rebellado,<br /> + +o grito do mineiro e o espectro do enforcado<br /> + +que vem correr d'um leito o cortinado régio.<br /> + +É ter esse condão, o enorme privilegio<br /> + +d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,<br /> + +fazer gritar a espada e levantar as almas!<br /> + +É ver-se ás vezes só, pobre de terra +em terra,<br /> + +na floresta, no val, nas rochas ou na serra,<br /> + +á neve, <a href="#e4">á chuva</a>, +aos soes, nas +névoas estrangeiras,<br /> + +nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras<br /> + +pela neve polar, no exilio, nas ruinas,<br /> + +―mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,<br /> + +mal soar o seu nome―alevantar-se um peito<br /> + +e gritar:―Elle é que é a Espada do Direito!<br /> + +<br /> + +Ser pamphletario é―ser um pharol na noute<br /> + +ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.<br /> + +É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,<br /> + +toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,<br /> + +como agitou Marat,―ou aguçar a espada<br /> + +contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.<br /> + +É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,<br /> + +quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +ser chamado um hereje―e as pallidas mulheres<br /> + +quando veem surgir esses extranhos seres<br /> + +apertarem ao peito as timidas creanças.<br /> + +É andar pobre, exhausto, humilde como as granças<br /> + +errante, só, banido, exhausto pela terra,<br /> + +―mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,<br /> + +quer nos paços reaes, nas praças da Cidade<br /> + +a sua voz gritar―Alas á Honestidade!<br /> + +<br /> + +E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,<br /> + +frio como é a Lei, frio como Proudhon,<br /> + +chicotear sem dó os lombos dos Heroes,<br /> + +vender como Marat, na fome, os seus lençoes,<br /> + +mas nunca se vender, mas nunca transigir!<br /> + +É saber odiar, decapitar, punir<br /> + +e não se rebaixar nunca como um capaxo!<br /> + +É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,<br /> + +que aterra a noute vil d'um seculo maldito.<br /> + +É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito<br /> + +n'uma éra de luto, infame, ensanguentada<br /> + +em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada<br /> + +e morre como outr'ora amando o Raphael.<br /> + +E ter odio, é ter ira, é ter +despreso e fel<br /> + +contra uma horda vil de infames sacripantas.<br /> + +É levantar ao ceu livres espadas santas<br /> + +<span class="pagenum">[18]</span> +todos os campeões das Alas do Rancor.<br /> + +É gritar, é gritar―«Eu sou o +<em>Odio</em>―<em>Amor</em>, +<br /> + +«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,<br /> + +«a voz d'aquelle infeliz, a quem não +dão um nome<br /> + +«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta<br /> + +«sem bençãos e +orações―como +uma prostituta.<br /> + +«Sou a voz do <em>ninguem</em>, a voz do +cannavial<br /> + +«que soluça, e não quebra ao rijo +temporal,<br /> + +«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,<br /> + +«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,<br /> + +«o que chamou a si os <em>tristes</em>, +exilados<br /> + +«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados<br /> + +«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,<br /> + +«o que chamou a si todos os opprimidos<br /> + +«todos que tinham sêde assim como Ismael<br /> + +«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!<br /> + +«Eu não sou como vós uma bexiga cheia<br /> + +«de colera, de fel, de inveja que guerreia,<br /> + +«e vem lançar á rua a sua roupa suja!<br /> + +«Eu não sou como vós um +<em>corvo</em>, uma coruja<br /> + +«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!<br /> + +«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,<br /> + +«tudo que é fraco, chão, vergado de +trabalho,<br /> + +«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,<br /> + +«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,<br /> + +«que vivem na abjecção e são +chamados +<em>fezes</em><br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> +«que chamam <em>povileu</em>, que chamam a +<em>gentalha</em>,<br /> + +«e gritei-lhes―Ávante! É hora da +batalha!<br /> + +<br /> + +Ora este hereje pois, ora este pamphletario,<br /> + +que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,<br /> + +este homem do Dever, este homem do Direito,<br /> + +que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,<br /> + +que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza<br /> + +dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,<br /> + +que em quanto tudo quer ser despota e opulento<br /> + +elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,<br /> + +que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,<br /> + +quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,<br /> + +que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,<br /> + +elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,<br /> + +quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,<br /> + +faz do Direito açoute, e faz da penna espada,<br /> + +e diz a um rei, um Czar, um déspota potente<br /> + +―Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente<br /> + +o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,<br /> + +o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,<br /> + +terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.<br /> + +―Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> +Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:<br /> + +―Vós tendes o <em>knut</em>―eu +tenho esta lanterna.<br /> + +<br /> + +Este homem inda que pobre, inda que perseguido,<br /> + +roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,<br /> + +inda que triste e só no seu isolamento,<br /> + +ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,<br /> + +inda que pobre e vil, inda que maltrapilho<br /> + +é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.<br /> + +<br /> + +Assim foste tambem, ó Velho solitario!<br /> + +Assim foste tambem grande pamphletario<br /> + +que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!<br /> + +Assim foste tambem quando eras puro e novo<br /> + +e sabias levar á guerra os corações,<br /> + +quando eras um açoute e o deus das multidões<br /> + +que vinham em tropel beijar os teus joelhos!<br /> + +Mas hoje tu o que és―escoria d'entre os velhos<br /> + +refugo de traidor, ó renegado hostil!<br /> + +Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!<br /> + +alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...<br /> + +<br /> + +És o que se vendeu!―Tu és uma cloaca.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ó seculo de ferro! ó +geração escrava!<br /> + +que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,<br /> + +no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,<br /> + +cae a agua do ceu como n'um poço velho!<br /> + +Sim a agua do ceu que faz viver a flôr<br /> + +mal que no poço cae transforma-se na lama!<br /> + +Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,<br /> + +que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?<br /> + +Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos,<br /> + +prégando a Negação, n'um funebre +arrepio,<br /> + +que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos<br /> + +como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio?<br /> + +Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos<br /> + +que dão prantos de sangue ás tuas +vexações,<br /> + +e do carro de fogo arrojam os seus mantos<br /> + +que arrastam á Revolta o mar das multidões?<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> +Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira<br /> + +vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.<br /> + +A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.<br /> + +A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!<br /> + +O Desespero crú esparge o seu veneno<br /> + +na taça d'ouro e onyx das jovens illusões.<br /> + +O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.<br /> + +O Mal com a tenaz aperta os corações!<br /> + +A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes<br /> + +ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro.<br /> + +Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes.<br /> + +Seu santo coração flameja como um astro!<br /> + +Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto<br /> + +sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!<br /> + +Só ella faz ouvir seu alaúde em luto<br /> + +que dá notas crueis de Maldição e +Morte.<br /> + +É só ella que empunha o seu chicote em fogo<br /> + +como o açoute de ferro indomito de Deus,<br /> + +para açoutar os reis, o falso demagogo,<br /> + +os biltres charlatães dos reis e dos plebeus.<br /> + +É só ella que faz na noute secular,<br /> + +na sua Lyra ouvir―não canticos d'amor―<br /> + +mas as notas fataes que entornam o luar<br /> + +da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.<br /> + +Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,<br /> + +que já tendes chorado e que sabeis rugir.<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span> +Quero em cordas de bronze os canticos das iras!<br /> + +É preciso açoutar, decapitar, punir!...<br /> + +Deixae agora o Amor e as brizas da bonança!<br /> + +Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!<br /> + +Pela noute vibrae as notas da Vingança.<br /> + +Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.<br /> + +<br /> + +Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,<br /> + +os atalhos do bosque e a <a href="#e5">lua da floresta</a>!<br /> + +Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,<br /> + +n'uma éra de sangue inhospita e funesta!<br /> + +Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,<br /> + +as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!<br /> + +porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.<br /> + +A Terra vae parir algum Christo do mal.<br /> + +Deixae de nos cantar as nuvens da bonança,<br /> + +e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,<br /> + +por que em breve já vem a hora da matança<br /> + +em que a Espada tem voz, e as torres vão cair.<br /> + +Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos,<br /> + +ó nuvens da manhã, ó flor da +romanzeira,<br /> + +ó torrentes do val, ó beijos amorosos<br /> + +da Mulher que se amou n'uma visão primeira!<br /> + +Tambem já te cantei, estrella do pastor,<br /> + +ó danças sobre a eira, ó lua das +marés.<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr,<br /> + +terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.<br /> + +Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito.<br /> + +Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.<br /> + +Foragido dos reis, armado do Direito<br /> + +faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>IV</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta<br /> + +tendo batido em vão foste á do lupanar,<br /> + +e ali deixaste a honra e a virgindade morta,<br /> + +como noiva infeliz que levam a enterrar!<br /> + +quando foste bater, chagado coração<br /> + +ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,<br /> + +e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão<br /> + +te sepultou em vida, e teu calor cingiu!<br /> + +quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,<br /> + +illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,<br /> + +viste tudo findar na enxerga repellente<br /> + +do teu leito de infamia―o catre do bordel!<br /> + +Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,<br /> + +como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,<br /> + +só achaste o silencio e o echo dos teus passos,<br /> + +o riso da cazerna e a noute das rameiras!<br /> + +<span class="pagenum">[26]</span> +quando ó loura mulher no berço excommungada<br /> + +por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,<br /> + +por tua propria Mãe talvez abandonada,<br /> + +pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!<br /> + +Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,<br /> + +e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,<br /> + +e a deixar teu amor na lama das regueiras,<br /> + +como os sedentos cães que vão beber nas ruas!<br /> + +Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,<br /> + +que uma mãe não beijou, que um Pae não +protegeu,<br /> + +achaste a Fome vil, velha de boca escura,<br /> + +n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!<br /> + +quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,<br /> + +pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,<br /> + +tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,<br /> + +sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!<br /> + +quando ó selvagem flor, ó poça do +abandono,<br /> + +sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,<br /> + +a Fome te obrigou qual magro cão sem dono<br /> + +a buscar na valleta o teu immundo pão!<br /> + +Dize sabias já, rainha da enxurrada,<br /> + +ave que não tens ninho e que empurrou a Fome<br /> + +que ha entes como tu―raça vil, condemnada,<br /> + +que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?<br /> + +Dize sabias já, loura infeliz sem pão<br /> + +que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p27">[27]</a></span> +que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,<br /> + +sem terem como tu os chascos e o labeu?<br /> + +Dize sabias já que em quanto vaes na praça<br /> + +entre um circulo vil de chascos quaes facadas,<br /> + +elles vão affrontando a multidão que passa,<br /> + +em gloriosos trens de portas brasonadas?<br /> + +Dize sabias já, ó branca meretriz,<br /> + +que aos homens como cães cedes teu corpo nú,<br /> + +que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,<br /> + +mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?<br /> + +Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,<br /> + +por toda a rua hostil, por toda a rua séria,<br /> + +a distancia que vae dos <em>outros</em> ao +teu nada.<br /> + +Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!<br /> + +Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,<br /> + +entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,<br /> + +ó prostitutas vis! <a href="#e6">cadellas +açoutadas</a>!<br /> + +Ó rameiras da rua!―eu vos respeito mais.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>V</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Velho, escuta, esta voz.―Eu não sei perdoar:<br /> + +frio como um Destino eu heide-te açoutar<br /> + +até te ver em sangue os lombos aviltados!<br /> + +No estrume arrastarei teus louros profanados,<br /> + +que jazerão no esterco infame das viellas,<br /> + +onde vagam á lua os ébrios e as cadellas.<br /> + +Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado<br /> + +que depois de haver rido, haver calumniado<br /> + +uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha,<br /> + +―no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!―<br /> + +n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,<br /> + +depois de lhe chamar a <em>grande +prostituta</em><br /> + +nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo<br /> + +que ser do filho-rei o humillimo capaxo,<br /> + +nada achou mais servil, para apagar a offensa,<br /> + +do que vender a penna e perseguir a Imprensa!<br /> + +<span class="pagenum">[30]</span> +Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão,<br /> + +ó abysmo d'uma alma, ó rei da +Creação,<br /> + +foi Satan que te pôz o diadema escuro!<br /> + +Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro,<br /> + +macular para sempre a virginal gloria,<br /> + +cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,<br /> + +e envergonhar a campa humilde dos plebeus<br /> + +que foram os seus paes―e a pobre mãe nos ceus,<br /> + +matar os louros seus―aviltação eterna!<br /> + +como um ebrio que morre em chão d'uma taberna?<br /> + +És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma +etherea?<br /> + +Acaso és tão medonha ó funebre +Miseria,<br /> + +acaso és tão infame, ó magra +Messalina,<br /> + +que obrigas uma alma, essa porção divina,<br /> + +essa faisca eterna, eterna claridade,<br /> + +a assassinar sem dó a branca virgindade<br /> + +do seu passado santo e virgem coração,<br /> + +e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?<br /> + +<br /> + +Acaso ó ouro és tu―tu que nos fazes nobre?<br /> + +É tão terrível ser―puro, plebeu, e +pobre,―<br /> + +é tão torpe, é tão vil, ser +simples mas honrado,<br /> + +que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,<br /> + +que em certo dia vil―dia vil entre os dias,―<br /> + +se atire uma risada ás santas utopias<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> +ás crenças virginaes da loura Mocidade<br /> + +á aureola ideal d'aquella santa edade,<br /> + +e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,<br /> + +pela libré d'um servo e a farda de um lacaio?<br /> + +Não! Não tem remissão este teu crime, +ó Velho!<br /> + +Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,<br /> + +o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso!<br /> + +Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,<br /> + +faminto como tu, irá lamber o manto<br /> + +do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,<br /> + +e de rastos, no chão, beijar o pó do throno.<br /> + +Por isso vou marcar-te infame cão sem dono,<br /> + +e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.<br /> + +Vaes ouvir a Justiça―a augusta, a verdadeira,<br /> + +a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,<br /> + +a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á +morte,<br /> + +com seu dedo de luz no livro do Futuro,<br /> + +a que arroja á gehenna eterna do monturo,<br /> + +e que com ferro em braza escreve os tristes fins<br /> + +dos juizes Caiphás, dos pifios Severins,<br /> + +e d'outros a quem heide em breve tomar contas!<br /> + +Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,<br /> + +a que gela no labio as phrases começadas,<br /> + +que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas,<br /> + +pelas suas crueis, fataes carnificinas,<br /> + +a que condemna os reis e as tropas assassinas,<br /> + +<span class="pagenum">[32]</span> +a que forma e dirige a Alma Universal.<br /> + +Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span> <span class="tinys">(levantando os +braços, clamando)</span></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eis aqui, ó Justiça, ó minha +Mãe austera,<br /> + +tua filha infeliz, que traz preza esta fera,<br /> + +este sinistro Reu que vês acorrentado!<br /> + +Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado<br /> + +que de mim motejou, como Cham riu do Pai!<br /> + +Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai<br /> + +que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,<br /> + +vinha bater no seu. O monstro não ladrava<br /> + +como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!<br /> + +Eil o! elle aqui está!―o rei dos saltimbancos!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude<br /> + +deve ser tambem forte assim como a Virtude.<br /> + +Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica +bem!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[33]</span><span style="font-weight: bold;">A Justiça</span> +<span class="tinys">(surpreza)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema +<br /> + +a injuria que te fez, ou o crime que o algema!<br /> + +De certo foi bem funda extraordinaria a offensa<br /> + +bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,<br /> + +bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional<br /> + +pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Plebe<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.<br /> + +Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna.<br /> + +Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida<br /> + +que vou de val em val, de mar em mar, varrida<br /> + +como a Judea antiga, a escrava, pela noute,<br /> + +chorando por seu Deus, sob o romano açoute.<br /> + +Meus filhos tambem vão chorando pela estrada.<br /> + +«Ás vezes diz-me um―Ó minha +Mãe amada!<br /> + +«Já temos caminhado em vão de serra em +serra.<br /> + +«Temos os pés em sangue! Á guerra, +ó +Mãe, á guerra!<br /> + +«Não temos vinho e pão! Não +temos o +sustento!<br /> + +«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!<br /> + +«Não temos luz e lar. Não temos nem +vestidos!<br /> + +«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos<br /> + +<span class="pagenum">[34]</span> +«olhar como o sol brilha em rútila grandeza!<br /> + +«Deus tambem para nós formou a Natureza.<br /> + +«Não é só para um rei, um +grande, uma +rainha<br /> + +«que a espiga dá seu pão e pampanos a +vinha!<br /> + +«Eu já sou forte, ó Mãe, eu +tenho as +mãos grosseiras<br /> + +«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,<br /> + +«eu quero transformar a minha enxada em lança,<br /> + +«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma +bonança!<br /> + +Ás vezes este filho energico, revel,<br /> + +é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell,<br /> + +outras com seu olhar veste os simples e os nus<br /> + +é plebeu e poeta e chama-se Jesus.<br /> + +Outras é um açoute, um vento rijo e austero,<br /> + +é um monge brutal e chama-se Luthero.<br /> + +Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente!<br /> + +falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente<br /> + +d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,<br /> + +com o sangue de heroes de louros victoriosos!<br /> + +Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira<br /> + +a bocca da Traição, a bocca da Mentira,<br /> + +apontando-me além teu sceptro de brilhantes.<br /> + +Eu levanto-me então assim como os gigantes,<br /> + +a espada dos heroes empunho sem demora,<br /> + +e cançada d'andar qual velho boi na nora<br /> + +da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção,<br /> + +prégo a santa Revolta á santa +Multidão!<br /> + +<span class="pagenum">[35]</span> +Mas então o servil, o immundo renegado,<br /> + +vende-se a quem me tem o peito ensanguentado<br /> + +no lodo da abjecção, no pó do +aviltamento!<br /> + +Fico então outra vez no meu isolamento,<br /> + +na minha escuridão chorosa, amarga, e séria,<br /> + +outra vez a puxar na nora da Miseria,<br /> + +outra vez a roer o pão amargo e escuro,<br /> + +pela fresta espreitando o dia do Futuro.<br /> + +<br /> + +Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.<br /> + +Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.<br /> + +Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.<br /> + +Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos,<br /> + +expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça.<br /> + +Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça<br /> + +expulsando-a de casa, em desabrida noute<br /> + +sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute.<br /> + +Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça.<br /> + +Justiça contra o vil!―Justiça, ó +Mãe, Justiça!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura,<br /> + +barro do homem vil, indigna creatura<br /> + +<span class="pagenum">[36]</span> +póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe!<br /> + +Póde acaso a Cobiça allucinar alguem<br /> + +por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,<br /> + +que transforme uma alma ingenua, verdadeira,<br /> + +um virgem coração, qual pagem branco e louro<br /> + +que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,<br /> + +a abandonar assim as illusões de gloria,<br /> + +sua auréola santa, o seu brazão na Historia,<br /> + +todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,<br /> + +todas as convicções da loura Mocidade,<br /> + +para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas<br /> + +d'um symbolo real eivado de gangrenas,<br /> + +e depois sem Amor, sem nada que conforta,<br /> + +a sua velha Mãe lançar fóra da porta!<br /> + +Alguem acaso viu o crime infame, enorme?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Consciencia Humana</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,<br /> + +alguem que sonda o mar e os fundos corações<br /> + +as insomnias dos reis e os somnos dos leões!<br /> + +Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado<br /> + +toda a noute escrever, d'olhar allucinado,<br /> + +pamphletos crueis na sordida trapeira.<br /> + +Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma +<em>rameira</em><br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +e <em>rainha assassina</em> á +tragica reinante.<br /> + +Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,<br /> + +prégar a sedição, direitos, regalias,<br /> + +e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias<br /> + +que fazem levantar na praça os estandartes!<br /> + +Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes<br /> + +do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,<br /> + +agachado na treva assim como as toupeiras,<br /> + +a minar, a minar, as monarchias vãas!<br /> + +Depois tambem o vi sobre os reaes divans,<br /> + +reclinando-se já com um praser secreto,<br /> + +contemplando os florões dourados pelo tecto,<br /> + +com um olhar d'abbade ou satyro contente,<br /> + +exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente<br /> + +«n'estes almofadins, entre estes reposteiros!<br /> + +«Gósto d'estes florões, +gósto d'estes +archeiros,<br /> + +«que fazem reluzir as suas alabardas!<br /> + +«Afinal os plebeus precisam―é d'albardas.<br /> + +«Que querem elles mais? Comer das ucharias,<br /> + +«beber como uns toneis, vir ás estrebarias,<br /> + +«e algum dia puxar pelas reaes carroças?...<br /> + +«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas<br /> + +«do mando, do poder, do luxo, da opulencia!<br /> + +«Gósto de ouvir dizer―Saiba Vossa Excellencia<br /> + +«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso +Senhor!<br /> + +«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +«que todo um refeitorio inteiro de bernardos.<br /> + +«Não sou como os plebeus que até +devoram cardos,<br /> + +«negro caldo espartano e sordidas raizes!<br /> + +«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!<br /> + +«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares<br /> + +«da ucharia dos reis que incensam bem os ares,<br /> + +«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!<br /> + +A Gloria é nome vão! Um fumo só na +Historia!<br /> + +«Da gloria não se vive. A Gloria é +só chimera.<br /> + +«El-Rei Ventre é que manda. O ventre +não espera.<br /> + +«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!<br /> + +«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,<br /> + +«as faces de setim das bellas camareiras!<br /> + +«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras<br /> + +«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,<br /> + +«que me fazem sonhar noutes voluptuosas<br /> + +«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.<br /> + +<br /> + +«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,<br /> + +«apertando entre as mãos as fórmas +femininas,<br /> + +«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,<br /> + +«d'uma mulher ideal que nos concede tudo,<br /> + +«semi núa, a sorrir, n'um leito de +velludo!...»<br /> + +<br /> + +Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!―<br /> + +Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +que tanta vez ladrou contra os brasões reaes!<br /> + +Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes,<br /> + +a bocca da Traição, a bocca da Mentira,<br /> + +a penna tinta em fel que semeou a Ira,<br /> + +o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!<br /> + +<br /> + +Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Justiça</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ha alguem que defenda o livido accusado?<br /> + +Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado, +<br /> + +que não se tenha nunca achado em morticinios,<br /> + +um braço recto e bom, puro dos assassinios,<br /> + +derramados no chão dos campos inda quentes,<br /> + +que não tenha contra elle a voz dos innocentes,<br /> + +nem erga contra si a voz dos opprimidos,<br /> + +ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos,<br /> + +cheio de convicção ao meu terrivel ceu?<br /> + +Ha alguem que erga um braço, um braço a +pró do Reu?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Ordem</span> <span class="tinys">(erguendo o +braço)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu +braço!<br /> + +Este reu que aqui vês não é um vil +devasso,<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +um baixo salteador d'estradas e caminhos!<br /> + +Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos.<br /> + +Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas,<br /> + +mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!<br /> + +Provarei, ó Justiça, até á +saciedade,<br /> + +que este reu até tem cheiro de santidade!<br /> + +A Plebe sua mãe é uma velha escrava,<br /> + +tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava<br /> + +«de guerra e sedição contra as +instituições!<br /> + +«Ella é que faz que El-Rei não durma em +seus +colxões<br /> + +«o somno da Innocencia o somno bom do Justo,<br /> + +«e que até, grandes ceus! faça o seu +chylo a +custo!<br /> + +«Ella é que faz que a Industria erre paralysada,<br /> + +«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada<br /> + +«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,<br /> + +«que toda a tropa fique em armas nos quarteis.<br /> + +«Ella é que impede e trava a roda Progresso!<br /> + +«Que dique lhe hei de oppôr?―Brado como um +possesso:<br /> + +«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros, +<br /> + +«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros<br /> + +«que querem supprimir a gothica realesa!<br /> + +«Enforcae-me quem cante a indigna +<em>Marselhesa</em>,<br /> + +«e clame mais do que eu as livres crenças suas!<br /> + +«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,<br /> + +«ou que ande a passear nas praças sem +licença!<br /> + +«Levantae uma forca enorme para a Imprensa.<br /> + +<span class="pagenum">[41]</span> +«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas.<br /> + +«Guiae-vos por Platão―lançae +fóra os +poetas<br /> + +«que são os mais reveis, fataes agitadores.<br /> + +«Guiae-vos por Platão―Nem sempre cantam flores!<br /> + +«Tambem sabem cantar as notas de batalha,<br /> + +fortes como os clarins, rijas como a +metralha,<br /> + +«e quando a Indignação a sua Musa +inspira<br /> + +«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!<br /> + +«No emtanto não pareis!―Nada de transigencias!<br /> + +«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,<br /> + +«tudo que se vender como quem vende um trapo!<br /> + +«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo.<br /> + +«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade<br /> + +«ponde a saque e a terror as ruas da cidade<br /> + +«para prender sem dó a infame biltraria,<br /> + +«d'essa cafila vil da vã demagogia,<br /> + +«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,<br /> + +que inda pede mais pão, mais +instrucção primaria!<br /> + +<br /> + +Ora tudo isto fez―eu juro-o pelo Ceu!<br /> + +para salvar a patria este sublime Reu.<br /> + +<br /> + +Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio<br /> + +que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +Oh doudas illusões da douda Mocidade!<br /> + +Quem póde erguer seu braço, o braço +sem piedade,<br /> + +contra o triste Ancião cheio de desenganos<br /> + +que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!<br /> + +Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos,<br /> + +contra quem soluçou ouvindo os Girondinos,<br /> + +e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas<br /> + +n'esses cantos de bronzes!―As almas dos Poetas<br /> + +fazem desabrochar os batalhões da terra!<br /> + +Na primavera em flor os peitos pedem guerra,<br /> + +aventuras, amor, cabeças de tyrannos!<br /> + +Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,<br /> + +Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono,<br /> + +vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do +Throno,<br /> + +vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores,<br /> + +vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores<br /> + +deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento!<br /> + +―Então ao craneo diz a aguia do Pensamento:<br /> + +«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,<br /> + +«e o peito despi nú aos turbilhões da +Sorte?<br /> + +«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,<br /> + +desdobrando na praça, +á Plebe, os estandartes<br /> + +«comendo o negro pão nos solos estrangeiros?<br /> + +«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,<br /> + +«com os quaes eu clamei no val e na montanha,<br /> + +«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +«prégando o Verbo Novo ás +multidões +sagradas?<br /> + +«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?<br /> + +Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?<br /> + +Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento?<br /> + +Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono?<br /> + +<br /> + +Então n'aquella noute arida, má, sem somno,<br /> + +escuta-se uma voz, que vem como a rajada,<br /> + +no vacuo e solidão da fria agua furtada,<br /> + +que grita em alta voz―Combateste por mim?<br /> + +<br /> + +Quem és tu? Quem és tu? Quem é que +falla assim?<br /> + +―Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde.<br /> + +O pensador então vae ver onde se esconde<br /> + +quem lhe dá um tremor indomito, suspeito,<br /> + +como nunca sentiu no antro do seu peito.<br /> + +Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.<br /> + +Mas cheio de terror, á livida lanterna,<br /> + +n'um tragico arrepio, á luz baça e +funérea,<br /> + +―vê sentada em seu lar a furia da Miseria!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ó Ordem acabaste?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A Ordem<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Eu acabei, Justiça!</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Quem é que quer entrar por sua vez na liça,<br /> + +e á Ordem refutar o que ella diz do Reu?</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Os +Perseguidos<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Somos nós, somos nós, que as nossas +mãos ao ceu<br /> + +erguemos muita vez nos asperos caminhos?<br /> + +Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos<br /> + +do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!<br /> + +Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos,<br /> + +levados atravez d'um turbilhão maldito,<br /> + +como errou Ismael, como o judeu proscripto<br /> + +queimado pelo sol vermelho das legendas.<br /> + +Somos nós, somos nós, que errámos sob +as tendas<br /> + +do excommungado Cham na treva e no abandono,<br /> + +ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno<br /> + +que depois de gyrar do furacão á toa<br /> + +vae rebolar do azul no lodo da lagôa.<br /> + +Somos nós os fieis que nunca vacillámos,<br /> + +os bronzeos corações que nunca trepidamos<br /> + +ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!<br /> + +Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, +ás luas<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +das solidões austraes, nos carceres, nas minas,<br /> + +lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas<br /> + +sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!<br /> + +Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos<br /> + +do exilio arrebatar os filhos degredados,<br /> + +as esposas e as mães violadas dos soldados,<br /> + +nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute!<br /> + +Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute,<br /> + +que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,<br /> + +temos o <em>Odio-Amor</em>, feito d'um +só brilhante.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco!<br /> + +Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.<br /> + +Responde justo e bem, sem ira, com clareza.<br /> + +Manda ao teu coração dictar tua defeza!<br /> + +E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres,<br /> + +ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">O Reu<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella!<br /> + +Eu não sei o que ladra a rábida cadella<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +contra mim amostrando os assassinos dentes!<br /> + +Não sei quem ella é. Não tenho taes +parentes.<br /> + +Não sei por que me cita a ladra ao tribunal.<br /> + +Eu jamais perturbei a Ordem social.<br /> + +Eu jamais sublevei as ondas populares!<br /> + +Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,<br /> + +e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!<br /> + +Não fui eu que arranquei a espada da bainha.<br /> + +Não fui eu que açoutei as santas dynastias,<br /> + +ao chicote infernal dos chascos e ironias,<br /> + +que sibilam no ar qual feixe de serpentes...<br /> + +Jamais calumniei...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span> +<span class="tinys">(surgindo, terrivel)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +Mentes, ó Velho! Mentes!</div> + +<div class="poetry1">Mentes, velho histrião +d'um throno gasto e ôco!<br /> + +Mentes homem venal, mentes despota louco!<br /> + +Mentes servil plebeu, indigno latrinario!<br /> + +Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario<br /> + +de pamphletos crueis na sordida trapeira!<br /> + +Não negues que chamaste, outrora, uma +<em>rameira</em><br /> + +á mãe do teu Senhor, á mãe +de El-Rei teu amo!<br /> + +Não negues que chamaste um bom <em>veado, um +gamo<br /> + +de silvestre armadura, e flórida ramagem</em><br /> + +ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +Não negues ante mim que sou o teu Espectro<br /> + +que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!<br /> + +Não negues que eu te vi na fria agua furtada<br /> + +levantando o Direito, ou revoltando a Espada,<br /> + +tendo acceso no olhar o sol da Indignação!...<br /> + +Não negues, ó Caim, que assassinaste o +irmão.<br /> + +Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes<br /> + +Não negues que nasceste assim como as serpentes,<br /> + +e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!...<br /> + +Não negues ser plebeu, não negues com desdem<br /> + +tua origem plebea, a tua Mãe escrava,<br /> + +nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava<br /> + +do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito!<br /> + +Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!...<br /> + +Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.<br /> + +Onde quer que tu estás encontras os meus braços!<br /> + +Onde quer que tu vás―vês o meu duro olhar!<br /> + +Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,<br /> + +e a revolver comtigo o lodo das paixões!<br /> + +Sou o cumplice teu nas velhas sedições,<br /> + +e ambos temos as mãos de sangue maculadas<br /> + +de ter á nossa voz feito arrancar espadas,<br /> + +e gottejar na rua o sangue do plebeu!<br /> + +Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu!<br /> + +Aquelle sangue brada e clama contra ti!<br /> + +Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span> +jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras,<br /> + +inundando a calçada e a lama das regueiras!<br /> + +Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,<br /> + +rudes heroes plebeus, levados á batalha,<br /> + +<a href="#e7">pela luz</a> do teu Verbo, e pela +espada nua,<br /> + +correndo em borbotões nos boqueirões da rua,<br /> + +despenhando-se ao sol na vasa das valletas!<br /> + +D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,<br /> + +cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,<br /> + +como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,<br /> + +gritando contra nós estranhas ameaças!<br /> + +E o sangue plebeu diz:―Em quanto <a href="#e8">sobre</a> +as +praças,<br /> + +«corria ao rubro só das luctas fratricidas,<br /> + +«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,<br /> + +«e abraçados, ao sol, morriam os valentes,<br /> + +«quando os peitos plebeus e os corações +dos +crentes<br /> + +«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço,<br /> + +«juntamente ao seu Odio o vingativo braço,<br /> + +«mal sabia eu então que tu que me levavas<br /> + +«á lucta, á guerra, ao ideal das +gerações escravas,<br /> + +«me havias renegar, infame! com desdouro,<br /> + +«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!<br /> + +<br /> + +«Maldição sobre ti, que com as impias +mãos,<br /> + +«sujas do sangue quente inda de teus irmãos<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span>«dos +guerreiros plebeus, dos corações dos bravos<br /> + +«que quizeram morrer para não ser escravos,<br /> + +«que tentando egualar os campeões das lendas<br /> + +«foram morrer ao sol heroico das contendas,<br /> + +«ousaste inda pegar na penna então sagrada<br /> + +«para a entregar ao rei, como vencida espada,<br /> + +«para escrever servis, ignobeis sacrilegios,<br /> + +«―e com ellas manchar os reposteiros régios!<br /> + +<br /> + +«Maldição sobre ti, Velho! que +atraiçoaste<br /> + +«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste<br /> + +«para chegar do Throno aos tragicos degraus!<br /> + +«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,<br /> + +«no meio das gentis duquezas decotadas<br /> + +«das camelias da Carne ás luzes desbotadas<br /> + +«quaes rosas de Saron aos gélidos luares;<br /> + +«has de ouvir minha voz no meio dos jantares<br /> + +«no fundo do teu sonho, em meio dos festins,<br /> + +«entre o tinir do copo, os cantos dos setins,<br /> + +«nos carros com brazões, de flexiveis mollas,<br /> + +«entre o <a href="#e9">gemer da flauta</a> +e os cantos das viollas!<br /> + +«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios<br /> + +«perseguindo-te até da treva nos mysterios,<br /> + +«chamando contra ti na voz de teus irmãos,<br /> + +«quando o teu labio abjecto oscule as régias +mãos, +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +«e a +mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa!<br /> + +«Eu serei, ó traidor, o cancro que te +rôa<br /> + +«o dente que te morda, o espinho que te fira,<br /> + +«o escalpello que te abra assim como quem vira<br /> + +«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia,<br /> + +«a lanceta que te abra a mais secreta veia,<br /> + +«o pôtro que te dê o mais horrivel trato,<br /> + +«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato.<br /> + +<br /> + +«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!...<br /> + +«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós +comtigo<br /> + +«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,<br /> + +«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito<br /> + +«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!<br /> + +«Ha sangue em tuas mãos―em teus vestidos sangue!<br /> + +«O sangue é que te lança a sua +maldição.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Reu</span> (caindo no +banco, aterrado)<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Sempre o Espectro cruel, sempre a +eterna visão!</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">A +Justiça<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Condemnou-te o teu grito infindo de +terror!<br /> + +Confessaste a Traição!―Trahiste-te traidor!<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> +Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!<br /> + +De nada te valeu ser cynico e atrevido.<br /> + +De nada te serviu a tua astucia e arte...<br /> + +<br /> + +Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte,<br /> + +sublimes corações que nunca transigistes!<br /> + +Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes,<br /> + +que tendes amassado o vosso pão com pranto!<br /> + +Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo<br /> + +mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte,<br /> + +ferreiros que forjaes as armas contra a morte,<br /> + +sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!<br /> + +Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude<br /> + +que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça,<br /> + +erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça,<br /> + +cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta,<br /> + +pedreiros que aluis o mundo á picareta,<br /> + +carpinteiros que andaes serrando com a serra,<br /> + +erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra<br /> + +a toda esta ruina, esta agonia immensa,<br /> + +e acercae-vos a mim―ouvi minha sentença:<br /> + +<br /> + +Já que, ó Velho, trahiste as +convicções primeiras,<br /> + +e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras<br /> + +<span class="pagenum">[52]</span> +da qual se esquece o nome ao limiar da porta,<br /> + +já que atiraste á vala a tua honra morta,<br /> + +e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito,<br /> + +de que hão bebido o leite os homens do Direito;<br /> + +já que excitaste á guerra e á lucta +teus irmãos,<br /> + +e no sangue plebeu tintas ainda as mãos<br /> + +foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe...<br /> + +eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem<br /> + +de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!<br /> + +Toma lá a blusa infame do forçado.<br /> + +Vou-te marcar na testa um grande R gigante,<br /> + +feito com minha espada em brasa flammejante,<br /> + +que a todo o mundo inspire―odio, nojo e terror.<br /> + +<br /> + +Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr,<br /> + +vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,<br /> + +que o Dante assignalou com seu buril eterno<br /> + +na viagem que fez á tragica cidade.<br /> + +Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,<br /> + +subir a vil calçada amarga do Despreso.<br /> + +Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso, +<br /> + +que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,<br /> + +cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,<br /> + +―contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas<br /> + +vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas!<br /> + +<span class="pagenum">[53]</span> +Como outr'ora Cain com seu signal maldito,<br /> + +tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito,<br /> + +mettendo assombro e horror a quem te vir passar.<br /> + +O Espectro é teu algoz―o que ha de acompanhar<br /> + +teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,<br /> + +curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço,<br /> + +cheio de lama, esterco, apupos, irrisões,<br /> + +entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições<br /> + +de todo um povo hostil que sobre ti escarra.<br /> + +Ali tendo vestida a sordida samarra,<br /> + +tendo na testa o infame e caustico signal,<br /> + +―eu condemno o teu nome á pena capital.</div> + +<br /> + +<div class="poetry tinys">(grava-lhe na fronte um R com a +espada)</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Primeiro Perseguido</span> +<span class="tinys">(levantando um +braço)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu―que tens escravisado<br /> + +aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,<br /> + +a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!<br /> + +Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,<br /> + +e has sido, contra nós, tyranno inda maior!<br /> + +Maldito sejas tu, refugo de traidor!<br /> + +que a nossa execração te siga em toda a parte,<br /> + +que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,<br /> + +<span class="pagenum">[54]</span> +e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra,<br /> + +que o Remorso te pique e fira como a espora,<br /> + +e a Vingança te siga os passos pelo escuro!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Segundo Perseguido</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu, agora e no Futuro!<br /> + +Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!<br /> + +Maldito sejas tu em tudo que fôr santo,<br /> + +no fundo do teu copo, á sombra até no estio!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center; font-weight: bold;">Terceiro +Perseguido<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Maldito sejas tu, á chuva, +ao vento, ao frio,<br /> + +no teu caminho escuro e cheio de terrores!<br /> + +Maldito sejas tu na Primavera em flores,<br /> + +no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno!<br /> + +Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno!<br /> + +Que a execração do mundo echoe aos teus ouvidos!<br /> + +Que os abysmos da Dôr se encham de teus gemidos,<br /> + +e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!...</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[55]</span> +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">A Plebe</span> +<span class="tinys">(lançando-lhe o +veu negro dos condemnados á morte)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Eu Plebe tua mãe que aos +lacteos peitos santos<br /> + +te alimentei do leite altivo dos heroes,<br /> + +eu que a fronte te alcei á luz branca dos soes,<br /> + +e te metti na mão a espada da batalha,<br /> + +eu lanço-te este veu assim como a mortalha,<br /> + +ultimo e vil lençol da tua negra gloria!<br /> + +Para sempre terás a maldição da +Historia,<br /> + +o despreso do mundo, a execração geral,<br /> + +e já que me has negado, ó filho desleal,<br /> + +e has seguido o infamante e tenebroso trilho,<br /> + +eu nego-te tambem! Tu já não és meu +filho!<br /> + +Já não és meu amor, minha +affeição mais terna.<br /> + +És o que tens meu odio e excommunhão eterna,<br /> + +a quem lanço este veu de condemnado á morte,<br /> + +<br /> + +</div> + +<div class="poetry tinys"> +(repellido-o de si)</div> + +<br /> + +<div class="poetry1">Vae, segue para sempre a tua infame +sorte!<br /> + +Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada!<br /> + +Que a minha Indignação te fira como a Espada!<br /> + +Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!...<br /> + +<br /> + +</div> + +<br style="font-weight: bold;" /> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">O Espectro</span> +<span class="tinys">(empurrando o Reu)</span> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">A caminho! A caminho!―Á +Forca do Futuro.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>VI</h3> + +<br /> + +<div class="poetry1">Acabaste d'ouvir a letra da +sentença.<br /> + +Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa,<br /> + +te cause pouco abalo esta sentença augusta!<br /> + +Talvez te cause riso e clames não ser justa<br /> + +a ira que sacode as cordas d'uma Lyra.<br /> + +Talvez velho frascario e lingua de Mentira<br /> + +chames ao verso fumo, a tudo vãs +ficções!<br /> + +Não! A Lyra é de bronze! As novas +gerações<br /> + +os homens d'ámanhã, os proximos vindouros<br /> + +hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros,<br /> + +pela noute da Historia esse R flammegante!<br /> + +Elles dirão então―Acaso foi o Dante<br /> + +que te marcou na testa esse signal soturno!<br /> + +Quem foi o vingador, o látego nocturno<br /> + +que na fronte te abriu a inicial horrenda?<br /> + +<br /> + +E tu deves dizer:―Na minha ignobil senda<br /> + +<span class="pagenum">[58]</span> +não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto!<br /> + +Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo<br /> + +que não quiz em mim só vibrar o açoute +amaro!<br /> + +Como outrora Molière, em seu eterno +<em>Avaro</em>,<br /> + +que gravou com buril um lutulento vicio,<br /> + +elle quiz castigar em mim o vil flagicio<br /> + +d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso,<br /> + +que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo,<br /> + +salafrario venal, baixo arlequim de feira,<br /> + +rasgando a cada passo a tela da bandeira,<br /> + +e fugindo a alistar-se em legião contraria;<br /> + +quiz vergastar sem dó a moda latrinaria<br /> + +d'esse abuso gentil, galante, deleterio,<br /> + +―d'hontem ser contra o Rei―hoje ir ao ministerio,<br /> + +o costume chinfrim, o ignobil privilegio,<br /> + +―d'hontem ser petroleiro―hoje um capaxo régio!<br /> + +<br /> + +Um homem nada é. É simples grão +d'areia<br /> + +nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea.<br /> + +Mas o Principio é tudo! È força +alimentar<br /> + +na Consciencia Humana, álerta, sem cessar,<br /> + +o castigo do Mal, essa noção sagrada,<br /> + +terrível como a Adão do seraphim a espada.<br /> + +<br /> + +Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso,<br /> + +que tu podes travar a roda do Progresso,<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo?<br /> + +Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo,<br /> + +e que todo o trabalho excepcional das Raças,<br /> + +todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças,<br /> + +industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre, +<br /> + +tudo que Fausto sonha e Galileu descobre,<br /> + +todas as leis dos soes, Systemas e Theorias,<br /> + +―vão findar de repente, ás tuas portarias?<br /> + +<br /> + +Acaso crês que todo o labutar eterno<br /> + +do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno<br /> + +dos seus instinctos vis, das suas privações,<br /> + +em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões,<br /> + +ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás +más paixões,<br /> + +á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente,<br /> + +todo esse fermentar energico, vehemente,<br /> + +toda a rebellião extraordinaria, séria,<br /> + +do Diabo com Deus, da Alma com a Materia,<br /> + +toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso,<br /> + +o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso,<br /> + +o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello,<br /> + +o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello,<br /> + +o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco,<br /> + +o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco<br /> + +aos abysmos do mar com a primeira Vella,<br /> + +o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella,<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p60">[60]</a></span> +o que inventa o Vapor, esbofeteia <a href="#e10">a onda</a>,<br /> + +o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda,<br /> + +o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio,<br /> + +o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio,<br /> + +o que contorna o acantho em torno ao Capitel,<br /> + +o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel,<br /> + +a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra,<br /> + +o que forja as crueis armas brancas da guerra,<br /> + +Newton que descobriu o gravitar dos astros,<br /> + +Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros,<br /> + +Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro,<br /> + +Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro,<br /> + +Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta,<br /> + +Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta<br /> + +que em sua cella agita a mystica alma humana;<br /> + +o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana,<br /> + +n'aquella India mãe de gerações +guerreiras<br /> + +onde erram os fakirs á sombra das palmeiras,<br /> + +n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos<br /> + +onde Jesus scismou perto dos therebinthos;<br /> + +tu crês que esse animal das primitivas éras<br /> + +que o Lume descobriu para assustar as féras,<br /> + +o que fez a primeira e tepida Cabana,<br /> + +o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana,<br /> + +da primeira Charrua e do primeiro Arado,<br /> + +Juvenal que varou Roma de lado a lado<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p61">[61]</a></span> +com suas corrupções, crimes, e vãos +delirios<br /> + +como a vã liturgia extranha dos Assyrios;<br /> + +Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro<br /> + +maior que Nero tinha e que era o seu thesouro;<br /> + +Durer esse pintor extranho, mysterioso,<br /> + +que achou no Pantheismo o mais infindo goso,<br /> + +e na tela onde pinta as folhas e as verduras,<br /> + +entre os ramos desenha extranhas creaturas,<br /> + +como monges fataes minados pela +<em>acédia</em><br /> + +que dão todo o terror da alma da Edade Media;<br /> + +Cervantes, o cruel, que faz errar a trote<br /> + +toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote,<br /> + +<a href="#e11">emquanto</a> o Fausto sonha em +virgens de balladas,<br /> + +e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas;<br /> + +Euclides que decreta as leis da Geometria,<br /> + +a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia<br /> + +e em torres collossaes, á luz das noutes bellas,<br /> + +traça o grande roteiro eterno das estrellas;<br /> + +Goethe que se fundiu na alma da Naturesa,<br /> + +que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa,<br /> + +a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo;<br /> + +Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo<br /> + +de mendigos, truões, abbades, estudantes;<br /> + +Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes,<br /> + +Juvenal que escarrou na Venus Meretriz,<br /> + +Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz,<br /> + +<span class="pagenum">[62]</span> +prégando um culto novo entre o feroz gentio;<br /> + +o que inventa o Compasso, o Leme do navio,<br /> + +o que accendeu a Forja, inventa a Picareta,<br /> + +o que primeiro aguça a ponta da Lanceta,<br /> + +Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes<br /> + +Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes,<br /> + +Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens,<br /> + +Lamark que descobre as animaes origens,<br /> + +Aretino que açouta os reis como lacaios,<br /> + +Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios,<br /> + +Camões que salva um livro e a sua eterna gloria,<br /> + +Thierry o que cegou a trabalhar na Historia,<br /> + +Espronceda que canta o hymno da +<em>Miseria</em>,<br /> + +Bukner o santo atheu da Força e da Materia,<br /> + +Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias,<br /> + +Strauss o que anniquilla a lenda do Messias,<br /> + +Menuisier que sonda o mundo pequenino,<br /> + +Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino,<br /> + +Tacito e o seu rancor contra o romano solio,<br /> + +Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo,<br /> + +Kant que abre á Rasão uma moderna estrada,<br /> + +Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada,<br /> + +Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco<br /> + +ser Deus uma theoria e o Homem um macaco;<br /> + +Krishna o que prégou nas regiões da +Idéa<br /> + +o mesmo que Jesus nos montes da Judéa;<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +Zoroastro que elevou as almas para o Sol,<br /> + +Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol,<br /> + +Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida<br /> + +do riso do Diabo e a dôr de Margarida;<br /> + +Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes,<br /> + +Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes,<br /> + +Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro,<br /> + +Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro,<br /> + +Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito,<br /> + +Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito,<br /> + +Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia,<br /> + +Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia,<br /> + +d'Alembert que povôa os mundos estrellados,<br /> + +Lao-Tseu que canta os canticos sagrados,<br /> + +Berlioz que inventou a musica do Abysmo,<br /> + +o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo,<br /> + +o que fez a Atafona, o que inventou o Malho,<br /> + +toda essa lenda eterna e escura do Trabalho,<br /> + +todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna,<br /> + +todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna,<br /> + +os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso<br /> + +crês que isto―ao gesto teu―ameaça retrocesso,<br /> + +e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo<br /> + +do dedo indicador do general Macedo,<br /> + +ou então dos dragões dos regios pergaminhos:<br /> + +―Hintze, <em>o que não ri</em>, e +o Arrobas tres pontinhos...?<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +Desillude-te, ó Velho! O mundo não +recúa.<br /> + +A Historia ha de varrer teu nome para a rua,<br /> + +como uma velha o lixo immundo na calçada.<br /> + +Tu é que morrerás, tu, ó bexiga +inchada<br /> + +de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade,<br /> + +que eu despejei na rua, á luz da Sociedade,<br /> + +como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão.<br /> + +Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão<br /> + +curvados e servis, quaes rotos saltimbancos,<br /> + +mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos,<br /> + +agitando a maroma em vez do regio sceptro.<br /> + +E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro<br /> + +n'esse caminho inglorio e tragico tambem,<br /> + +que se chama o Abandono, o caustico Desdem,<br /> + +de tudo isto que forma a Opinião Geral.<br /> + +Mas o mundo, esse não! No gyro universal<br /> + +que traça em torno ao Sol com as demais espheras,<br /> + +verá encanecer as legiões das Eras,<br /> + +antes que role e volva ás regiões do Abysmo.<br /> + +Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo<br /> + +o attrahe sem cessar áquella claridade,<br /> + +como procura a Alma a luz só da Verdade,<br /> + +e na ordem moral, como umas verdes palmas,<br /> + +estendem sempre as mãos as supplicantes Almas<br /> + +pedindo em côro ao ceu―mais luz, inda mais luz!...<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> +Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz<br /> + +da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços<br /> + +no lenho do Despreso em meio dos devassos,<br /> + +tu pódes continuar a tua erronea senda!<br /> + +Segue o exemplo dos reis―manda-nos pôr á venda.<br /> + +Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria.<br /> + +Faze contractos vis para formar a Iberia<br /> + +debaixo de dous reis, n'um succulento almoço.<br /> + +Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço.<br /> + +Lança o resto da honra ao nada da voragem.<br /> + +Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem.<br /> + +Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina.<br /> + +Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina.<br /> + +Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões.<br /> + +Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões.<br /> + +Dá que comer á Valla e á boca da +Enxovia.<br /> + +Senta a fome no Lar, o luto na Alegria.<br /> + +Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.<br /> + +<br /> + +Mas treme do Futuro!―Ouviste a voz d'um homem.</div> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">FIM</span></h4> + +<br /> + +<br /> + +<h3>NOTA</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta +publicação o velho presidente do ministerio, o +homem de quem aqui nos occupámos, renegado das suas +convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, +pela qual se elevou, de que é +decano e presidente honorario pediu a sua demissão, +não +tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar +contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem +menos attenuada. A sua sentença já lhe +foi lavrada pela Opinião Publica, e na Historia, aonde o seu +nome fica lutuosamente escripto. O homem que escreveu que antes queria <em>imprensa +anarchica que imprensa +perseguida</em>, e é depois de Costa Cabral, +(tão incisivamente attacado por elle,) o unico que se +atreveu a reviver as perseguições +e as vindictas, fica vergonhosamente vinculado,―e tanto mais +vergonhosamente que foi e é um jornalista!...<br /> + +<br /> + +Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve +eximir ao castigo. É preciso que a +responsabilidade ministerial não seja uma vã +palavra. Se +não existe a responsabilidade regia, se não +existe de facto a +responsabilidade ministerial, é força que estes +senhores o +confessem francamente:―a Constituição +é uma +farça! Se ainda persistem em proclamar que o não +é, +façam que sejam julgados os seus ministros demittidos! +Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo +que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o +peçam nos comicios, toda a imprensa da +opposição que brade para que +os julgamentos dos tribunaes não sejam apenas para os +adversarios ou para os miseraveis e gatunos: mas que sejam tambem para +os grandes salafrarios constitucionaes.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span> +O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já +tempo que teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a +espada de Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e +o impede de ser eleito pelo povo para alguma missão de +confiança +popular. É um excellente e perfido meio constitucional para +affastar um adversario!―mas muito conhecido nos arsenaes politicos. +É uma espada velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, +mas que ainda dá bons botes!<br /> + +<br /> + +No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se +fará:―pelo menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do +ministerio Saint Hilaire, que não fugiu á +responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo portuguez +demittido não se peja de fugir a ella. +São de tal forma as engrenagens do systema constitucional +que as maiores arbitrariedades se commettem e se perpetram, ficando na +impunidade, na sombra do esquecimento, ou na velha alcofa d'essa +trapeira que se chama +<em>Politica</em>. Fallamos da politica monarchica. Mas +é força que as cousas +não continuem no mesmo pé! É preciso +que á +mingua da Lei juridica, se erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada +attentado corresponda um castigo, que a cada perversidade corresponda +um ferro em braza, que a cada +abominação corresponda uma guilhotina moral! A +espada d'essa lei moral devem vibral-a a Opinião Publica a +Historia, o jornalismo, os poetas, os homens justos, os homens de +consciencia lavada. Que todos elles repillam de si estes forasteiros, +esses safardanas pulhas que especulam ha 50 annos com a +Constituição, como especullaram com as bullas, no +tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX. +Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que +elles fiquem scientes que as suas arbitrariedades não +ficarão na sombra! Ha quem vela, e quem registra. +É a<br /> + +Historia. Ha quem se indigna e quem decapita. É a Poesia.<br /> + +<br /> + +É para isso que <a href="#e12">se escreveu</a> +este pamphleto.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"> <a name="e1"></a> <a href="#p7">#pág. +7</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">ensanguenta</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">ensanguentada*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a> <a href="#p10">#pág. +10</a> </td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">ás +raizes</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">as +raizes*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p15">#pág. 15</a></td> + + <td style="text-align: center;">phamphletario</td> + + <td>...</td> + + <td style="text-align: center;">pamphletario</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e4"></a><a href="#p16">#pág. +16</a></td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">a +chuva</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">á +chuva</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p23">#pág. 23</a></td> + + <td style="text-align: center;">lua das florestas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">lua da floresta*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p27">#pág. 27</a></td> + + <td style="text-align: center;">cadellas acoutadas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cadellas +açoutadas*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p48">#pág. 48</a></td> + + <td style="text-align: center;">pelo luz</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pela luz</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p48">#pág. 48</a></td> + + <td style="text-align: center;">s bre</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">sobre</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p49">#pág. 49</a></td> + + <td style="text-align: center;">gemer das flautas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">gemer da flauta*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p60">#pág. 60</a></td> + + <td style="text-align: center;">aonda</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a onda</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p61">#pág. 61</a></td> + + <td style="text-align: center;">emq anto</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">emquanto</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p67">#pág. 67</a></td> + + <td style="text-align: center;">sa escreveu</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">se escreveu</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +* correcções feitas com base na errata do +próprio livro.<br /> + +<br /> + +Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by +António Duarte Gomes Leal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO *** + +***** This file should be named 28354-h.htm or 28354-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/8/3/5/28354/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/28354-h/images/fig01.png b/28354-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..92efd9d --- /dev/null +++ b/28354-h/images/fig01.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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