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+The Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
+António Duarte Gomes Leal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Renegado a António Rodrigues Sampaio
+ carta ao Velho Pamphletario sobre a perseguição da imprensa
+
+Author: António Duarte Gomes Leal
+
+Release Date: March 18, 2009 [EBook #28354]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos
+ neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão
+ final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Mar. 2009)
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+
+O RENEGADO
+
+
+
+
+GOMES LEAL
+
+
+O
+
+RENEGADO
+
+A ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO
+
+CARTA AO VELHO PAMPHLETARIO
+
+SOBRE A PERSEGUIÇÃO DA IMPRENSA
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA--Largo dos Inglezinhos, 27
+
+1881
+
+
+
+
+A
+
+MANUEL DE ARRIAGA
+
+
+
+
+
+ Eu bispo d'outra diocese...
+ Guilherme Braga
+
+
+
+«Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino, presidente do
+conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos negocios do
+reino. Amigo, eu El-rei vos envio muito saudar como áquelle que amo.
+
+Tendo na mais elevada estima os reconhecidos merecimentos que concorrem
+na vossa pessoa, e que haveis manifestado no honroso e illustrado
+desempenho dos mais altos cargos do estado, e em differentes e
+importantes commissões de interesse publico; e querendo por estes
+respeitos e pelo subido apreço em que tenho os vossos distinctos e
+revelantes serviços prestados á dynastia, ás instituições, á causa
+publica e á liberdade, conferir-vos um testemunho authentico da minha
+real consideração: hei por bem nomear vos commendador da antiga e muito
+nobre ordem da Torre e Espada, do valor, lealdade e merito, e elevar-vos
+conjunctamente á dignidade de gran-cruz da mesma ordem.
+
+O que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e satisfação, e
+para que possaes desde já usar das respectivas insignias, vos mando esta
+carta.
+
+Escripta no paço de Cascaes em 28 de setembro de 1881.--El
+Rei.--_Antonio José de Barros e Sá_.
+
+Para Antonio Rodrigues Sampaio, do meu conselho, par do reino,
+presidente do conselho de ministros, ministro e secretario d'estado dos
+negocios do reino».
+
+ * * * * *
+
+
+Já que El-Rei, teu Senhor--contra a sua Mãe cara,
+assim te premiou a ensanguentada offensa,
+eu, um Juiz tambem--Juiz d'uma outra vara,
+contra ti, velho Reu, lavrei esta sentença:
+
+
+
+
+
+I
+
+
+Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna--
+Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,
+lanterna que accendi na grande escuridão
+sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,
+lanterna que accendi n'esta éra ensanguenta,
+lanterna que accendi, como em sinistra estrada
+por causa dos ladrões perdido viajante.
+Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante
+cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,
+perguntando-te, ó Velho--Onde está o Direito?
+O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio?
+Onde está o Pudor, rude ancião sombrio?
+Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel.
+Onde está ó Cain o teu irmão Abel?
+
+Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado?
+Tu foste a Alma do Povo--hoje és um renegado.
+Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,
+d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos
+ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla.
+Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla
+toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos
+maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,
+Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.
+Trago na minha mão a lampada da Ira.
+
+Eu sou esse rebelde herege, extraordinario
+que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,
+que préguei n'este tempo ás turbas assombradas
+a União e o Direito, e fui pelas estradas
+como S. Paulo foi na noute de Damasco,
+armado do Rancor, cheio do grande asco
+contra os Escribas vãos, os sordidos judeus,
+sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.
+Nós hoje--os infieis--não cremos nos milagres.
+Não me importa que tu, ó Velho, me consagres
+o epitheto brutal de herege ou de maldito.
+Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!
+
+Eu sou a voz da turba extranha e inominada
+que uma vez é soluço, outras a gargalhada
+que chamam _povileu_, a plebe envilecida,
+n'uma éra de sangue, uma éra fratricida
+riscada por um sol velho e sanguinolento.
+Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.
+Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.
+Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão.
+O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.
+Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.
+
+Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,
+sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro
+tens renegado sempre, ó sordido traidor,
+em nome da sua ira, e em nome do suor
+que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo,
+que faz córar a rosa e rebentar o trigo,
+em nome dos seus mil cuspidos sacrificios
+do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,
+das suas mães sem pão, seus filhos no abandono
+como um farrapo velho e como um cão sem dono,
+em nome da Miseria, em nome da Innocencia
+de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,
+em nome do Direito, em nome d'esta Penna,
+escuta a minha voz, a voz que te condemna
+Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,
+forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente
+da plebe que trabalha, e com as mãos possantes
+sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,
+d'essa raça animal dos grandes infelizes
+que são na sociedade assim como as raizes
+que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro,
+dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,
+vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas
+--estão as folhas no ar, altivas, gloriosas,
+olhando para o azul sereno das espheras,
+todas cheias de flor nas verdes primaveras,
+sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,
+tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos.
+
+Sim, tu foste um plebeu--da raça antiga e rude,
+que trabalha no escuro assim como a Virtude.
+Sim, tu foste um plebeu--raça obscura e sem luz,
+d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.
+
+Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão.
+Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham
+se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!
+Sê maldito como elle, e seja o teu espinho
+o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,
+ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!...
+Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes
+das Alas do Dever, todas as sãas cohortes
+dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros,
+que trabalham na sombra assim como os mineiros,
+a lampada na mão augusta da Verdade,
+para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.
+Tu tinhas a teu lado os corações valentes
+dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes
+todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!...
+Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem,
+que ambicionavas já as pompas gloriosas,
+sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas
+que trabalham por nós noutes, dias inteiros,
+na officina, no val, nas minas, nos outeiros,
+e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,
+de que ser como eu sou--simples, leal plebeu.
+
+Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...
+Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste
+a fronte d'ancião, a auréola sagrada
+que seria por nós mais do que idolatrada,
+teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,
+terrivel como Deus, teus louros d'homem puro
+para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo!
+Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos!
+Vergonha sobre ti que como os saltimbancos
+foste lançar teu nome ao vento d'uma feira!
+Vergonha sobre ti, que como uma rameira
+que vende os seios nus em sordida estalagem
+ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,
+em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta,
+e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta,
+foste vender a honra ao ouro d'um senhor.
+Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor
+que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,
+do que ser um _ninguem_--puro, plebeu, e pobre.
+
+Vergonha sobre os vis apostatas da Idea
+que negam como Pedro o fez depois da ceia
+na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes!
+Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,
+que levam a matar, balando, ao matadouro!
+Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,
+sua aureola santa e seu brasão de gloria
+por um titulo em vida--e um pontapé da Historia!
+
+Vergonha sob vós apostatas rafeiros
+que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros
+por que Judas vendeu esse de Nazareth!
+Vergonha sobre vós, apostatas sem fé
+messias sem pudor que andaes pelos caminhos
+prégando aos corações, embebedando em vinhos
+de gloria e de ideal, e que depois ao Povo
+esse sublime Ancião de peito sempre novo,
+o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,
+açoutado de Deus, dos reis e dos imperios,
+mas que sempre enxotado--á chuva, ao vento, em pranto,
+leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,
+esse banido Ancião de todas as nações
+a quem vós atiraes á lucta e ás sedições,
+mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,
+como um cego sem guia, esqualido, sosinho,
+n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,
+voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.
+
+Vergonha sobre vós, ó vendilhões do templo!
+Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo
+de todos esses vis messias das viellas,
+mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas,
+que vão vender aos reis as suas convicções!...
+Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões
+do meu chicote em fogo, irado, justiceiro
+para que ao vel-os nús, expostos no madeiro
+da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota
+ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota
+saiba o Povo afinal que é preciso escarrar
+no sacerdote infiel que vende o seu Altar.
+
+
+
+
+II
+
+
+Tu não sabes que gloria é ser pamphletario!
+É ser o vento rijo, o vento extraordinario
+que agita as multidões como um canavial,
+contra um farrapo regio, a purpura real
+contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.
+É ser o que protesta, o que ergue os corações
+n'um arranque de heroe, á torre do Direito,
+é dar qual pellicano, o sangue do seu peito
+á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos.
+É ser o que não és. É não trocar os brilhos
+d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,
+pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.
+É ser o que protesta--o que ergue uma lanterna
+na grande escuridão, na escuridão moderna,
+contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente
+a favor do _ninguem_, da Plebe, do innocente.
+
+É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,
+a espada que degolla e o grito que condemna.
+É ser elle sósinho, altivo rebellado,
+o grito do mineiro e o espectro do enforcado
+que vem correr d'um leito o cortinado régio.
+É ter esse condão, o enorme privilegio
+d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,
+fazer gritar a espada e levantar as almas!
+É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra,
+na floresta, no val, nas rochas ou na serra,
+á neve, á chuva, aos soes, nas névoas estrangeiras,
+nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras
+pela neve polar, no exilio, nas ruinas,
+--mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,
+mal soar o seu nome--alevantar-se um peito
+e gritar:--Elle é que é a Espada do Direito!
+
+Ser pamphletario é--ser um pharol na noute
+ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.
+É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,
+toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,
+como agitou Marat,--ou aguçar a espada
+contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.
+É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,
+quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto
+ser chamado um hereje--e as pallidas mulheres
+quando veem surgir esses extranhos seres
+apertarem ao peito as timidas creanças.
+É andar pobre, exhausto, humilde como as granças
+errante, só, banido, exhausto pela terra,
+--mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,
+quer nos paços reaes, nas praças da Cidade
+a sua voz gritar--Alas á Honestidade!
+
+E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,
+frio como é a Lei, frio como Proudhon,
+chicotear sem dó os lombos dos Heroes,
+vender como Marat, na fome, os seus lençoes,
+mas nunca se vender, mas nunca transigir!
+É saber odiar, decapitar, punir
+e não se rebaixar nunca como um capaxo!
+É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,
+que aterra a noute vil d'um seculo maldito.
+É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito
+n'uma éra de luto, infame, ensanguentada
+em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada
+e morre como outr'ora amando o Raphael.
+E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel
+contra uma horda vil de infames sacripantas.
+É levantar ao ceu livres espadas santas
+todos os campeões das Alas do Rancor.
+É gritar, é gritar--«Eu sou o _Odio_--_Amor_,
+«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,
+«a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome
+«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta
+«sem bençãos e orações--como uma prostituta.
+«Sou a voz do _ninguem_, a voz do cannavial
+«que soluça, e não quebra ao rijo temporal,
+«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,
+«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,
+«o que chamou a si os _tristes_, exilados
+«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados
+«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,
+«o que chamou a si todos os opprimidos
+«todos que tinham sêde assim como Ismael
+«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!
+«Eu não sou como vós uma bexiga cheia
+«de colera, de fel, de inveja que guerreia,
+«e vem lançar á rua a sua roupa suja!
+«Eu não sou como vós um _corvo_, uma coruja
+«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!
+«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,
+«tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho,
+«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,
+«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,
+«que vivem na abjecção e são chamados _fezes_
+«que chamam _povileu_, que chamam a _gentalha_,
+«e gritei-lhes--Ávante! É hora da batalha!
+
+Ora este hereje pois, ora este pamphletario,
+que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,
+este homem do Dever, este homem do Direito,
+que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,
+que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza
+dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,
+que em quanto tudo quer ser despota e opulento
+elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,
+que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,
+quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,
+que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,
+elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,
+quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,
+faz do Direito açoute, e faz da penna espada,
+e diz a um rei, um Czar, um déspota potente
+--Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente
+o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,
+o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,
+terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.
+--Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...
+Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:
+--Vós tendes o _knut_--eu tenho esta lanterna.
+
+Este homem inda que pobre, inda que perseguido,
+roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,
+inda que triste e só no seu isolamento,
+ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,
+inda que pobre e vil, inda que maltrapilho
+é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.
+
+Assim foste tambem, ó Velho solitario!
+Assim foste tambem grande pamphletario
+que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!
+Assim foste tambem quando eras puro e novo
+e sabias levar á guerra os corações,
+quando eras um açoute e o deus das multidões
+que vinham em tropel beijar os teus joelhos!
+Mas hoje tu o que és--escoria d'entre os velhos
+refugo de traidor, ó renegado hostil!
+Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!
+alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...
+
+És o que se vendeu!--Tu és uma cloaca.
+
+
+
+
+III
+
+
+Ó seculo de ferro! ó geração escrava!
+que ouves Satan ladrar na noute do Evangelho,
+no teu sollo do Mal, sobre teu sollo em lava,
+cae a agua do ceu como n'um poço velho!
+Sim a agua do ceu que faz viver a flôr
+mal que no poço cae transforma-se na lama!
+Ó seculo de ferro, ó seculo de horror,
+que fazes tu da Voz, que em teu deserto clama?
+Que fazes tu da Voz que ouço passar nos ventos,
+prégando a Negação, n'um funebre arrepio,
+que ouço clamar na noute em uivos e em lamentos
+como um ladrar feroz de ruivo cão sombrio?
+Que fazes tu da Voz dos teus prophetas santos
+que dão prantos de sangue ás tuas vexações,
+e do carro de fogo arrojam os seus mantos
+que arrastam á Revolta o mar das multidões?
+Que fazes tu? Tu ris! Tu vaes como a rameira
+vender teu deus, teu ceu, tua honra ao lupanar.
+A Justiça tornou-se em velha alcoviteira.
+A Egreja ri na orgia, e Christo deixa o Altar!
+O Desespero crú esparge o seu veneno
+na taça d'ouro e onyx das jovens illusões.
+O Odio faz ouvir o seu terrivel threno.
+O Mal com a tenaz aperta os corações!
+A virginal Poesia, a virgem d'alvas vestes
+ergue aos ceus suas mãos, brancas como o alabastro.
+Traz a Lyra na mão vestida de cyprestes.
+Seu santo coração flameja como um astro!
+Só ella faz ouvir n'um seculo corrupto
+sua Lyra de bronze ao temporal da Sorte!
+Só ella faz ouvir seu alaúde em luto
+que dá notas crueis de Maldição e Morte.
+É só ella que empunha o seu chicote em fogo
+como o açoute de ferro indomito de Deus,
+para açoutar os reis, o falso demagogo,
+os biltres charlatães dos reis e dos plebeus.
+É só ella que faz na noute secular,
+na sua Lyra ouvir--não canticos d'amor--
+mas as notas fataes que entornam o luar
+da Ira, do Desdem, do Odio e do Rancor.
+Achegae-vos a mim, tristes, terriveis Lyras,
+que já tendes chorado e que sabeis rugir.
+Quero em cordas de bronze os canticos das iras!
+É preciso açoutar, decapitar, punir!...
+Deixae agora o Amor e as brizas da bonança!
+Minae-me o Despotismo esse colosso rhodio!
+Pela noute vibrae as notas da Vingança.
+Sobre a Lyra cantae os canticos do Odio.
+
+Ó poetas do Amor deixae vossos idyllios,
+os atalhos do bosque e a lua da floresta!
+Deixae a musa fresca e simples dos Virgilios,
+n'uma éra de sangue inhospita e funesta!
+Deixae de nos cantar o Tedio e o Desengano,
+as nuvens da montanha e os sinceiraes do val!
+porque o mundo talvez espera o seu Tyranno.
+A Terra vae parir algum Christo do mal.
+Deixae de nos cantar as nuvens da bonança,
+e a flor dos laranjaes que o vento faz bulir,
+por que em breve já vem a hora da matança
+em que a Espada tem voz, e as torres vão cair.
+Eu tambem vos cantei, ó cantos langorosos,
+ó nuvens da manhã, ó flor da romanzeira,
+ó torrentes do val, ó beijos amorosos
+da Mulher que se amou n'uma visão primeira!
+Tambem já te cantei, estrella do pastor,
+ó danças sobre a eira, ó lua das marés.
+Mas hoje a minha voz é rouca como a Dôr,
+terrivel como a Espada e o tribunal dos Dez.
+Abandonei-te ó Amor! Meu rir fez-se tregeito.
+Meu pranto fez-se fel, a voz tornou-se berro.
+Foragido dos reis, armado do Direito
+faço vibrar na Lyra os canticos de ferro.
+
+
+
+
+IV
+
+
+Pobre mulher sem pão, quando de porta em porta
+tendo batido em vão foste á do lupanar,
+e ali deixaste a honra e a virgindade morta,
+como noiva infeliz que levam a enterrar!
+quando foste bater, chagado coração
+ás portas soluçando, e que ninguem te abriu,
+e o leito do bordel quaes taboas d'um caixão
+te sepultou em vida, e teu calor cingiu!
+quando tendo sonhado um sonho aureo e esplendente,
+illusões d'uma infanta e os sonhos d'um donzel,
+viste tudo findar na enxerga repellente
+do teu leito de infamia--o catre do bordel!
+Quando tendo elevado ao ceu teus magros braços,
+como outr'ora Jesus o fez nas Oliveiras,
+só achaste o silencio e o echo dos teus passos,
+o riso da cazerna e a noute das rameiras!
+quando ó loura mulher no berço excommungada
+por um Destino ferreo, inhospito, infeliz,
+por tua propria Mãe talvez abandonada,
+pobre flor que hão lançado ao pantano a raiz!
+Quando foste forçada ás bachanaes rasteiras,
+e a despir e a manchar as brancas vestes tuas,
+e a deixar teu amor na lama das regueiras,
+como os sedentos cães que vão beber nas ruas!
+Quando ó filha do Povo, ó pobre filha impura,
+que uma mãe não beijou, que um Pae não protegeu,
+achaste a Fome vil, velha de boca escura,
+n'uma rua infernal, por um chuvoso ceu!
+quando ó dahlia da Dôr, planta dos atoleiros,
+pobre filha do Povo, exhausta, quasi exangue,
+tu vaes servir de gaudio á noute dos banqueiros,
+sentindo dentro em ti as lagrimas de sangue!
+quando ó selvagem flor, ó poça do abandono,
+sem lagrimas de Mãe, sem osculos de irmão,
+a Fome te obrigou qual magro cão sem dono
+a buscar na valleta o teu immundo pão!
+Dize sabias já, rainha da enxurrada,
+ave que não tens ninho e que empurrou a Fome
+que ha entes como tu--raça vil, condemnada,
+que vendem seu pudor, que vendem o seu nome?
+Dize sabias já, loura infeliz sem pão
+que um seductor manchou, ou que uma Mãe vendeu,
+que ha quem venda a sua honra, a gloria, o seu brasão,
+sem terem como tu os chascos e o labeu?
+Dize sabias já que em quanto vaes na praça
+entre um circulo vil de chascos quaes facadas,
+elles vão affrontando a multidão que passa,
+em gloriosos trens de portas brasonadas?
+Dize sabias já, ó branca meretriz,
+que aos homens como cães cedes teu corpo nú,
+que ha torpes malandrins, gloria do seu paiz,
+mais vis do que os ladrões, mais rameiras que tu?
+Tu não sabes talvez, ó lama apedrejada,
+por toda a rua hostil, por toda a rua séria,
+a distancia que vae dos _outros_ ao teu nada.
+Ó tres vezes cruel! tres vezes vil Miseria!
+Porém eu um rebelde ás Praxes como espadas,
+entre a mulher sem pão e os pifios cannibaes,
+ó prostitutas vis! cadellas açoutadas!
+Ó rameiras da rua!--eu vos respeito mais.
+
+
+
+
+V
+
+
+Velho, escuta, esta voz.--Eu não sei perdoar:
+frio como um Destino eu heide-te açoutar
+até te ver em sangue os lombos aviltados!
+No estrume arrastarei teus louros profanados,
+que jazerão no esterco infame das viellas,
+onde vagam á lua os ébrios e as cadellas.
+Marcarei para exemplo, ao mundo o renegado
+que depois de haver rido, haver calumniado
+uma Esposa, uma Mãe, um Lar, uma rainha,
+--no que ella de mais puro e mais sagrado tinha!--
+n'isso que doe cruel, que mais o peito enluta,
+depois de lhe chamar a _grande prostituta_
+nada achou mais abjecto, e nada achou mais baixo
+que ser do filho-rei o humillimo capaxo,
+nada achou mais servil, para apagar a offensa,
+do que vender a penna e perseguir a Imprensa!
+Lodo do Homem vil, ó barro da Paixão,
+ó abysmo d'uma alma, ó rei da Creação,
+foi Satan que te pôz o diadema escuro!
+Pode-se assim sem dó zombar do seu Futuro,
+macular para sempre a virginal gloria,
+cuspir, manchar, polluir as paginas da Historia,
+e envergonhar a campa humilde dos plebeus
+que foram os seus paes--e a pobre mãe nos ceus,
+matar os louros seus--aviltação eterna!
+como um ebrio que morre em chão d'uma taberna?
+És tu que fazes isto, ó Alma, ó Alma etherea?
+Acaso és tão medonha ó funebre Miseria,
+acaso és tão infame, ó magra Messalina,
+que obrigas uma alma, essa porção divina,
+essa faisca eterna, eterna claridade,
+a assassinar sem dó a branca virgindade
+do seu passado santo e virgem coração,
+e arremessal-o ao mar no fundo d'um caixão?
+
+Acaso ó ouro és tu--tu que nos fazes nobre?
+É tão terrível ser--puro, plebeu, e pobre,--
+é tão torpe, é tão vil, ser simples mas honrado,
+que quer o ouro infernal, que quer o ferreo fado,
+que em certo dia vil--dia vil entre os dias,--
+se atire uma risada ás santas utopias
+ás crenças virginaes da loura Mocidade
+á aureola ideal d'aquella santa edade,
+e vendam-se os laureis e o Verbo que era o raio,
+pela libré d'um servo e a farda de um lacaio?
+Não! Não tem remissão este teu crime, ó Velho!
+Já que tu foste exemplo, e outrora foste espelho,
+o teu crime é mais vil, funesto, escandaloso!
+Se tu ficas impune, um dia ou outro, um gozo,
+faminto como tu, irá lamber o manto
+do Symbolo Real, todo orvalhado em pranto,
+e de rastos, no chão, beijar o pó do throno.
+Por isso vou marcar-te infame cão sem dono,
+e fundir-te com chumbo ao corpo essa colleira.
+Vaes ouvir a Justiça--a augusta, a verdadeira,
+a terrivel, a eterna, a antiga, a sempre forte,
+a que ouve e que vê n'Alma, a que condemna á morte,
+com seu dedo de luz no livro do Futuro,
+a que arroja á gehenna eterna do monturo,
+e que com ferro em braza escreve os tristes fins
+dos juizes Caiphás, dos pifios Severins,
+e d'outros a quem heide em breve tomar contas!
+Vaes ouvir a que pune as lividas affrontas,
+a que gela no labio as phrases começadas,
+que ha de julgar Thiers de cãs ensanguentadas,
+pelas suas crueis, fataes carnificinas,
+a que condemna os reis e as tropas assassinas,
+a que forma e dirige a Alma Universal.
+Entra ó sinistro reu! Abriu-se o tribunal.
+
+
+*A Plebe* (levantando os braços, clamando)
+
+
+Eis aqui, ó Justiça, ó minha Mãe austera,
+tua filha infeliz, que traz preza esta fera,
+este sinistro Reu que vês acorrentado!
+Elle, o vil me trahiu, elle é o scelerado
+que de mim motejou, como Cham riu do Pai!
+Elle era o meu bordão, qualquer soluço ou ai
+que abalasse o meu peito, o peito d'esta escrava,
+vinha bater no seu. O monstro não ladrava
+como hoje ladra hostil aos meus cabellos brancos!
+Eil o! elle aqui está!--o rei dos saltimbancos!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Cala um pouco essa dôr. A Plebe grande e rude
+deve ser tambem forte assim como a Virtude.
+Nem sempre á pena e á dôr o pranto fica bem!
+
+
+*A Plebe*
+
+
+Deixae me soluçar. Eu sou a sua Mãe.
+
+
+*A Justiça* (surpreza)
+
+
+Elle é teu filho, ó Plebe?... Oh deve ser suprema
+a injuria que te fez, ou o crime que o algema!
+De certo foi bem funda extraordinaria a offensa
+bem terrivel, cruel, ensanguentada, intensa,
+bem fundo e horrendo o golpe, infame, excepcional
+pois que cita uma Mãe seu filho ao tribunal!
+
+
+*A Plebe*
+
+
+Bem grande sim que foi! Escuta a minha pena.
+Ouve primeiro, ó Mãe! Depois julga e condemna.
+Eu sou ha muito a eterna, a grande foragida
+que vou de val em val, de mar em mar, varrida
+como a Judea antiga, a escrava, pela noute,
+chorando por seu Deus, sob o romano açoute.
+Meus filhos tambem vão chorando pela estrada.
+«Ás vezes diz-me um--Ó minha Mãe amada!
+«Já temos caminhado em vão de serra em serra.
+«Temos os pés em sangue! Á guerra, ó Mãe, á guerra!
+«Não temos vinho e pão! Não temos o sustento!
+«Negam-te em toda a parte o abrigo e o acolhimento!
+«Não temos luz e lar. Não temos nem vestidos!
+«Não temos ar nem sol! Vem aos montes subidos
+«olhar como o sol brilha em rútila grandeza!
+«Deus tambem para nós formou a Natureza.
+«Não é só para um rei, um grande, uma rainha
+«que a espiga dá seu pão e pampanos a vinha!
+«Eu já sou forte, ó Mãe, eu tenho as mãos grosseiras
+«de pegar n'uma enxada e de malhar nas eiras,
+«eu quero transformar a minha enxada em lança,
+«e tornar teu naufragio, ó Mãe, n'uma bonança!
+Ás vezes este filho energico, revel,
+é um trigueiro aldeão, chama-se Guilherme Tell,
+outras com seu olhar veste os simples e os nus
+é plebeu e poeta e chama-se Jesus.
+Outras é um açoute, um vento rijo e austero,
+é um monge brutal e chama-se Luthero.
+Mas ás vezes tambem, ó lastima vehemente!
+falla-me assim, ó Mãe, a bocca da serpente
+d'um filho que eu creei aos peitos vigorosos,
+com o sangue de heroes de louros victoriosos!
+Falla-me em nome, sim, da Colera e da Ira
+a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
+apontando-me além teu sceptro de brilhantes.
+Eu levanto-me então assim como os gigantes,
+a espada dos heroes empunho sem demora,
+e cançada d'andar qual velho boi na nora
+da Miseria, da Dor, da Fome, da Abjecção,
+prégo a santa Revolta á santa Multidão!
+Mas então o servil, o immundo renegado,
+vende-se a quem me tem o peito ensanguentado
+no lodo da abjecção, no pó do aviltamento!
+Fico então outra vez no meu isolamento,
+na minha escuridão chorosa, amarga, e séria,
+outra vez a puxar na nora da Miseria,
+outra vez a roer o pão amargo e escuro,
+pela fresta espreitando o dia do Futuro.
+
+Foi assim que este fez, o indigno sacripanta.
+Foi assim que cuspiu na minha fronte santa.
+Foi assim que escarrou nos meus cabellos brancos.
+Foi assim que o villão, chefe dos saltimbancos,
+expulsou sua Mãe ao vento da Desgraça.
+Foi assim que vendeu a sua Mãe na praça
+expulsando-a de casa, em desabrida noute
+sob a chuva do ceu, sob a ironia, e o açoute.
+Tudo isto o ingrato fez pela servil Cobiça.
+Justiça contra o vil!--Justiça, ó Mãe, Justiça!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Miseria, infamia, e dôr! Ó mundanal feitura,
+barro do homem vil, indigna creatura
+póde-se acaso assim cuspir em sua Mãe!
+Póde acaso a Cobiça allucinar alguem
+por um pouco de Luxo, um pouco de poeira,
+que transforme uma alma ingenua, verdadeira,
+um virgem coração, qual pagem branco e louro
+que sonha no Ideal em finas torres d'ouro,
+a abandonar assim as illusões de gloria,
+sua auréola santa, o seu brazão na Historia,
+todo o seu Verbo em fogo, assombro da Cidade,
+todas as convicções da loura Mocidade,
+para atirar tudo isto aos pés da sombra apenas
+d'um symbolo real eivado de gangrenas,
+e depois sem Amor, sem nada que conforta,
+a sua velha Mãe lançar fóra da porta!
+Alguem acaso viu o crime infame, enorme?
+
+
+*A Consciencia Humana*
+
+
+Alguem viu, alguem viu! Alguem que nunca dorme,
+alguem que sonda o mar e os fundos corações
+as insomnias dos reis e os somnos dos leões!
+Eu o vi, eu o vi, o grande scelerado
+toda a noute escrever, d'olhar allucinado,
+pamphletos crueis na sordida trapeira.
+Eu o ouvi, eu o ouvi chamar uma _rameira_
+e _rainha assassina_ á tragica reinante.
+Eu o vi, d'olho acceso, indomito, espumante,
+prégar a sedição, direitos, regalias,
+e erguer a Plebe-Mãe ás santas utopias
+que fazem levantar na praça os estandartes!
+Eu o vi, eu o vi, queimar os baluartes
+do Respeito Real, e as ultimas trincheiras,
+agachado na treva assim como as toupeiras,
+a minar, a minar, as monarchias vãas!
+Depois tambem o vi sobre os reaes divans,
+reclinando-se já com um praser secreto,
+contemplando os florões dourados pelo tecto,
+com um olhar d'abbade ou satyro contente,
+exclamar: «Isto é bom!... Sente-se bem a gente
+«n'estes almofadins, entre estes reposteiros!
+«Gósto d'estes florões, gósto d'estes archeiros,
+«que fazem reluzir as suas alabardas!
+«Afinal os plebeus precisam--é d'albardas.
+«Que querem elles mais? Comer das ucharias,
+«beber como uns toneis, vir ás estrebarias,
+«e algum dia puxar pelas reaes carroças?...
+«Eu nunca fui plebeu! Eu sempre tive as bóssas
+«do mando, do poder, do luxo, da opulencia!
+«Gósto de ouvir dizer--Saiba Vossa Excellencia
+«que o espera á mesa já El-Rei, Nosso Senhor!
+«Eu levanto-me então. Como e bebo melhor
+«que todo um refeitorio inteiro de bernardos.
+«Não sou como os plebeus que até devoram cardos,
+«negro caldo espartano e sordidas raizes!
+«Como melhor que os reis, mais que as imperatrizes!
+«Amo o Porto, o Xerez, e os tépidos manjares
+«da ucharia dos reis que incensam bem os ares,
+«e dilatam-me o ventre ainda mais que a Gloria!
+A Gloria é nome vão! Um fumo só na Historia!
+«Da gloria não se vive. A Gloria é só chimera.
+«El-Rei Ventre é que manda. O ventre não espera.
+«Por isso eu tenho um ventre assim como um abbade!
+«Eu amo a flor da Carne e a loura mocidade,
+«as faces de setim das bellas camareiras!
+«Eu amo estes divans, eu amo estas roseiras
+«entre plantas ideaes, extranhas, fabulosas,
+«que me fazem sonhar noutes voluptuosas
+«como um luar d'amor entre jasmins do Cabo.
+
+«Ah! como ha de ser bom morrer como um nababo,
+«apertando entre as mãos as fórmas femininas,
+«rosadas, juvenis, pallidas, alabastrinas,
+«d'uma mulher ideal que nos concede tudo,
+«semi núa, a sorrir, n'um leito de velludo!...»
+
+Eu o ouvi, eu o ouvi, fria Justiça austera!--
+Aqui tens, ante ti, a encanecida fera,
+que tanta vez ladrou contra os brasões reaes!
+Aqui tens, ó Justiça, a escoria dos seus Paes,
+a bocca da Traição, a bocca da Mentira,
+a penna tinta em fel que semeou a Ira,
+o Despreso, a Revolta, a Colera, o Desdem!
+
+Aqui tens quem cuspiu na Plebe sua Mãe.
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Ha alguem que defenda o livido accusado?
+Ha alguem que erga um braço, um braço immaculado,
+que não se tenha nunca achado em morticinios,
+um braço recto e bom, puro dos assassinios,
+derramados no chão dos campos inda quentes,
+que não tenha contra elle a voz dos innocentes,
+nem erga contra si a voz dos opprimidos,
+ha alguem que erga um braço ao ceu dos perseguidos,
+cheio de convicção ao meu terrivel ceu?
+Ha alguem que erga um braço, um braço a pró do Reu?
+
+
+*A Ordem* (erguendo o braço)
+
+
+Suspende-te, ó Justiça! Eu ergo a ti meu braço!
+Este reu que aqui vês não é um vil devasso,
+um baixo salteador d'estradas e caminhos!
+Eu vou provar que elle é mais puro que os arminhos.
+Vou demonstrar que elle é mais santo que as estrellas,
+mais alvo e virginal que as onze mil donzellas!
+Provarei, ó Justiça, até á saciedade,
+que este reu até tem cheiro de santidade!
+A Plebe sua mãe é uma velha escrava,
+tonta, hereje, demente, em cujo sangue ha lava
+«de guerra e sedição contra as instituições!
+«Ella é que faz que El-Rei não durma em seus colxões
+«o somno da Innocencia o somno bom do Justo,
+«e que até, grandes ceus! faça o seu chylo a custo!
+«Ella é que faz que a Industria erre paralysada,
+«que o Commercio não durma e a Ordem transtornada
+«mande aos seus generaes, chefes, ou coroneis,
+«que toda a tropa fique em armas nos quarteis.
+«Ella é que impede e trava a roda Progresso!
+«Que dique lhe hei de oppôr?--Brado como um possesso:
+«Vinde cá Jonh Bull, Iberia, bons guerreiros,
+«fuzilae-me sem dó a horda de desordeiros
+«que querem supprimir a gothica realesa!
+«Enforcae-me quem cante a indigna _Marselhesa_,
+«e clame mais do que eu as livres crenças suas!
+«Encarcerae, prendei quem erga a voz nas ruas,
+«ou que ande a passear nas praças sem licença!
+«Levantae uma forca enorme para a Imprensa.
+«Ordenae, decretae, lavrae prisões secretas.
+«Guiae-vos por Platão--lançae fóra os poetas
+«que são os mais reveis, fataes agitadores.
+«Guiae-vos por Platão--Nem sempre cantam flores!
+«Tambem sabem cantar as notas de batalha,
+fortes como os clarins, rijas como a metralha,
+«e quando a Indignação a sua Musa inspira
+«não ha bronze que valha o bronze d'essa Lyra!
+«No emtanto não pareis!--Nada de transigencias!
+«Relaixae, corrompei, comprae as consciencias,
+«tudo que se vender como quem vende um trapo!
+«Da Lei faze leilão, e da policia um sapo.
+«E sobre tudo emfim sem trégoas nem piedade
+«ponde a saque e a terror as ruas da cidade
+«para prender sem dó a infame biltraria,
+«d'essa cafila vil da vã demagogia,
+«d'essa corja da Plebe hostil, extraordinaria,
+que inda pede mais pão, mais instrucção primaria!
+
+Ora tudo isto fez--eu juro-o pelo Ceu!
+para salvar a patria este sublime Reu.
+
+Tambem, Justiça, ouvi n'este immortal litigio
+que n'outro tempo o Reu poz o barrete phrigio.
+
+Oh doudas illusões da douda Mocidade!
+Quem póde erguer seu braço, o braço sem piedade,
+contra o triste Ancião cheio de desenganos
+que amou, cantou, gemeu na lyra dos vinte annos!
+Quem póde erguer a voz, ferrea como os destinos,
+contra quem soluçou ouvindo os Girondinos,
+e a sua alma librou nos cantos dos Prophetas
+n'esses cantos de bronzes!--As almas dos Poetas
+fazem desabrochar os batalhões da terra!
+Na primavera em flor os peitos pedem guerra,
+aventuras, amor, cabeças de tyrannos!
+Mas depois vem a Fome! ah! vem os desenganos,
+Miseria, Frio, a Dôr, o tragico Abandono,
+vem a Insidia, a Calumnia, as tentações do Throno,
+vem os dias sem sol, sorrisos, crenças, flores,
+vem os filhos sem pão, vão-se indo os desertores
+deixando em torno a nós o vacuo e o isolamento!
+--Então ao craneo diz a aguia do Pensamento:
+«Por quem foi que eu luctei? Por quem fui eu um forte,
+«e o peito despi nú aos turbilhões da Sorte?
+«Por quem quebrei, venci, queimei os baluartes,
+desdobrando na praça, á Plebe, os estandartes
+«comendo o negro pão nos solos estrangeiros?
+«Onde estaes, onde estaes, meus velhos companheiros,
+«com os quaes eu clamei no val e na montanha,
+«cheio d'ancia, desdem, de ardor, e d'ira extranha,
+«prégando o Verbo Novo ás multidões sagradas?
+«Por quem fiz eu da penna o exemplo das espadas?
+Por quem combati eu, rubro, sanguinolento?
+Foi por ti Solidão? Por ti Esquecimento?
+Por ti Ingratidão? Por ti frio Abandono?
+
+Então n'aquella noute arida, má, sem somno,
+escuta-se uma voz, que vem como a rajada,
+no vacuo e solidão da fria agua furtada,
+que grita em alta voz--Combateste por mim?
+
+Quem és tu? Quem és tu? Quem é que falla assim?
+--Mas fica muda a voz. Cala-se e não responde.
+O pensador então vae ver onde se esconde
+quem lhe dá um tremor indomito, suspeito,
+como nunca sentiu no antro do seu peito.
+Quer ver o extranho ser, aquella voz interna.
+Mas cheio de terror, á livida lanterna,
+n'um tragico arrepio, á luz baça e funérea,
+--vê sentada em seu lar a furia da Miseria!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Ó Ordem acabaste?
+
+
+*A Ordem*
+
+
+Eu acabei, Justiça!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Quem é que quer entrar por sua vez na liça,
+e á Ordem refutar o que ella diz do Reu?
+
+
+*Os Perseguidos*
+
+
+Somos nós, somos nós, que as nossas mãos ao ceu
+erguemos muita vez nos asperos caminhos?
+Somos nós que hemos visto o sangue dos espinhos
+do abysmo nos caireis, nos tragicos atalhos!
+Somos nós, os fieis, os homens dos trabalhos,
+levados atravez d'um turbilhão maldito,
+como errou Ismael, como o judeu proscripto
+queimado pelo sol vermelho das legendas.
+Somos nós, somos nós, que errámos sob as tendas
+do excommungado Cham na treva e no abandono,
+ao destino, aos vaivens, qual folha vil do outomno
+que depois de gyrar do furacão á toa
+vae rebolar do azul no lodo da lagôa.
+Somos nós os fieis que nunca vacillámos,
+os bronzeos corações que nunca trepidamos
+ante os rostos dos reis e ante as espadas nuas!
+Somos nós que ao relento, á chuva, ao gelo, ás luas
+das solidões austraes, nos carceres, nas minas,
+lavrámos contra os reis, com os punhaes, as sinas
+sem quebrar os fataes, terriveis juramentos!
+Somos nós que hemos visto a Fome, a Sede, e os ventos
+do exilio arrebatar os filhos degredados,
+as esposas e as mães violadas dos soldados,
+nossos pobres irmãos rasgados sob o açoute!
+Somos nós, os fieis, os batalhões da Noute,
+que contra o ferreo, hostil Destino triumphante,
+temos o _Odio-Amor_, feito d'um só brilhante.
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Agora ergue-te, ó Reu, d'esse sinistro banco!
+Alça a fronte ante mim. Faze teu olhar franco.
+Responde justo e bem, sem ira, com clareza.
+Manda ao teu coração dictar tua defeza!
+E se acaso és um Justo, indigno d'essas dôres,
+ergue-te, ó Reu! Fulmina os teus accusadores!
+
+
+*O Reu*
+
+
+Eu nunca fui da Plebe! Eu não sou filho d'ella!
+Eu não sei o que ladra a rábida cadella
+contra mim amostrando os assassinos dentes!
+Não sei quem ella é. Não tenho taes parentes.
+Não sei por que me cita a ladra ao tribunal.
+Eu jamais perturbei a Ordem social.
+Eu jamais sublevei as ondas populares!
+Nunca, nunca, attaquei a paz santa dos lares,
+e a honra ensanguentei d'uma leal Rainha!
+Não fui eu que arranquei a espada da bainha.
+Não fui eu que açoutei as santas dynastias,
+ao chicote infernal dos chascos e ironias,
+que sibilam no ar qual feixe de serpentes...
+Jamais calumniei...
+
+
+*O Espectro* (surgindo, terrivel)
+
+
+ Mentes, ó Velho! Mentes!
+Mentes, velho histrião d'um throno gasto e ôco!
+Mentes homem venal, mentes despota louco!
+Mentes servil plebeu, indigno latrinario!
+Tu foste n'outro tempo o irado pamphletario
+de pamphletos crueis na sordida trapeira!
+Não negues que chamaste, outrora, uma _rameira_
+á mãe do teu Senhor, á mãe de El-Rei teu amo!
+Não negues que chamaste um bom _veado, um gamo
+de silvestre armadura, e flórida ramagem_
+ao Pae do teu Senhor que tem tua homenagem!
+Não negues ante mim que sou o teu Espectro
+que apedrejaste o throno e enlameaste o sceptro!
+Não negues que eu te vi na fria agua furtada
+levantando o Direito, ou revoltando a Espada,
+tendo acceso no olhar o sol da Indignação!...
+Não negues, ó Caim, que assassinaste o irmão.
+Não negues ter as mãos d'aquelle sangue quentes
+Não negues que nasceste assim como as serpentes,
+e como ellas rasgaste o ventre a tua Mãe!...
+Não negues ser plebeu, não negues com desdem
+tua origem plebea, a tua Mãe escrava,
+nem negues, craneo vão, ter tido a santa lava
+do Ideal, da Fé, do Justo, e do Direito!
+Eu sou o teu Espectro, á mesa, ou no teu leito!...
+Eu sou o que te sondo os mais occultos passos.
+Onde quer que tu estás encontras os meus braços!
+Onde quer que tu vás--vês o meu duro olhar!
+Eu fui teu companheiro. Andei a revoltar,
+e a revolver comtigo o lodo das paixões!
+Sou o cumplice teu nas velhas sedições,
+e ambos temos as mãos de sangue maculadas
+de ter á nossa voz feito arrancar espadas,
+e gottejar na rua o sangue do plebeu!
+Aquelle sangue grita, ah! contra nós, ao ceu!
+Aquelle sangue brada e clama contra ti!
+Vejo sempre esse sangue, eu vejo-o sempre ali,
+jorrando aos borbotões, em grandes cachoeiras,
+inundando a calçada e a lama das regueiras!
+Vejo o sangue fiel dos filhos da gentalha,
+rudes heroes plebeus, levados á batalha,
+pela luz do teu Verbo, e pela espada nua,
+correndo em borbotões nos boqueirões da rua,
+despenhando-se ao sol na vasa das valletas!
+D'esse sangue plebeu rompem vozes secretas,
+cubrindo os ais do mundo, os gritos, os lamentos,
+como o carro de Deus e os espiritos dos ventos,
+gritando contra nós estranhas ameaças!
+E o sangue plebeu diz:--Em quanto sobre as praças,
+«corria ao rubro só das luctas fratricidas,
+«quando a Espada gritava e que ceifava as vidas,
+«e abraçados, ao sol, morriam os valentes,
+«quando os peitos plebeus e os corações dos crentes
+«erguiam para o ceu, para o vermelho espaço,
+«juntamente ao seu Odio o vingativo braço,
+«mal sabia eu então que tu que me levavas
+«á lucta, á guerra, ao ideal das gerações escravas,
+«me havias renegar, infame! com desdouro,
+«e, ai de mim! ai de ti! trahir-me pelo ouro!
+
+«Maldição sobre ti, que com as impias mãos,
+«sujas do sangue quente inda de teus irmãos
+«dos guerreiros plebeus, dos corações dos bravos
+«que quizeram morrer para não ser escravos,
+«que tentando egualar os campeões das lendas
+«foram morrer ao sol heroico das contendas,
+«ousaste inda pegar na penna então sagrada
+«para a entregar ao rei, como vencida espada,
+«para escrever servis, ignobeis sacrilegios,
+«--e com ellas manchar os reposteiros régios!
+
+«Maldição sobre ti, Velho! que atraiçoaste
+«a historia dos teus Paes, e sobre mim galgaste
+«para chegar do Throno aos tragicos degraus!
+«Has de ouvir minha voz no meio dos saraus,
+«no meio das gentis duquezas decotadas
+«das camelias da Carne ás luzes desbotadas
+«quaes rosas de Saron aos gélidos luares;
+«has de ouvir minha voz no meio dos jantares
+«no fundo do teu sonho, em meio dos festins,
+«entre o tinir do copo, os cantos dos setins,
+«nos carros com brazões, de flexiveis mollas,
+«entre o gemer das flautas e os cantos das viollas!
+«Has de ouvir minha voz prenhe de vituperios
+«perseguindo-te até da treva nos mysterios,
+«chamando contra ti na voz de teus irmãos,
+«quando o teu labio abjecto oscule as régias mãos,
+«e a mão tinta de sangue ensanguentar a Corôa!
+«Eu serei, ó traidor, o cancro que te rôa
+«o dente que te morda, o espinho que te fira,
+«o escalpello que te abra assim como quem vira
+«á luz limpa do Sol uma bexiga cheia,
+«a lanceta que te abra a mais secreta veia,
+«o pôtro que te dê o mais horrivel trato,
+«o ferro em braza, o açoute, o caustico, o nitrato.
+
+«Nunca te deixarei sem trégoa e sem abrigo!...
+«Nem nos paços reaes, nem mesmo a sós comtigo
+«nem nos uivos da festa, os hymnos do Respeito,
+«nem na sombra do sonho e a noute do teu leito
+«nem mesmo sobre a terra, inanimado, exangue!
+«Ha sangue em tuas mãos--em teus vestidos sangue!
+«O sangue é que te lança a sua maldição.
+
+
+*O Reu* (caindo no banco, aterrado)
+
+
+Sempre o Espectro cruel, sempre a eterna visão!
+
+
+*A Justiça*
+
+
+Condemnou-te o teu grito infindo de terror!
+Confessaste a Traição!--Trahiste-te traidor!
+Eis-te ahi sobre o banco abjecto, confundido!
+De nada te valeu ser cynico e atrevido.
+De nada te serviu a tua astucia e arte...
+
+Agora erguei-vos, vós, Justos de toda a parte,
+sublimes corações que nunca transigistes!
+Agora erguei-vos vós Justos, Fortes, e Tristes,
+que tendes amassado o vosso pão com pranto!
+Agora erguei-vos vós guerreiros do que é santo
+mineiros do que é Vil, pedreiros do que é Forte,
+ferreiros que forjaes as armas contra a morte,
+sobre a bronzea bigorna eterna da Virtude!
+Agora erguei-vos, vós, homens do campo rude
+que atiraes vossa enxada ao solo da Justiça,
+erguei-vos todos vós, fortes que andaes na liça,
+cirurgiões do Bem que hervaes vossa lanceta,
+pedreiros que aluis o mundo á picareta,
+carpinteiros que andaes serrando com a serra,
+erguei-vos todos vós, Simples, qne fazeis guerra
+a toda esta ruina, esta agonia immensa,
+e acercae-vos a mim--ouvi minha sentença:
+
+Já que, ó Velho, trahiste as convicções primeiras,
+e enxotaste uma Mãe assim como as rameiras
+da qual se esquece o nome ao limiar da porta,
+já que atiraste á vala a tua honra morta,
+e atraiçoaste a Plebe a que te trouxe ao peito,
+de que hão bebido o leite os homens do Direito;
+já que excitaste á guerra e á lucta teus irmãos,
+e no sangue plebeu tintas ainda as mãos
+foste vender-te ao rei a que insultaste a Mãe...
+eu lanço-te ao exterminio, á colera, ao desdem
+de todo o homem de bem, de todo o homem honrado!
+Toma lá a blusa infame do forçado.
+Vou-te marcar na testa um grande R gigante,
+feito com minha espada em brasa flammejante,
+que a todo o mundo inspire--odio, nojo e terror.
+
+Vaes agora gyrar nas espiraes da Dôr,
+vaes agora gyrar nas espiraes do Inferno,
+que o Dante assignalou com seu buril eterno
+na viagem que fez á tragica cidade.
+Vaes agora pisar as ruas da Anciedade,
+subir a vil calçada amarga do Despreso.
+Desde hoje és um forçado, um criminoso, um preso,
+que tens com ferro em brasa um R sobre a testa,
+cuja vista faz asco e cujo bafo empesta,
+--contra o qual, ao passar, todas as mãos honradas
+vão arrancar, uivando, as pedras das calçadas!
+Como outr'ora Cain com seu signal maldito,
+tu vaes errar na Historia, ó vil, de sambenito,
+mettendo assombro e horror a quem te vir passar.
+O Espectro é teu algoz--o que ha de acompanhar
+teus passos junto ao poste, o escuro cadafalso,
+curvado, abjecto, vil, a pé, preso, descalço,
+cheio de lama, esterco, apupos, irrisões,
+entre as vaias da Plebe, escarneos, maldições
+de todo um povo hostil que sobre ti escarra.
+Ali tendo vestida a sordida samarra,
+tendo na testa o infame e caustico signal,
+--eu condemno o teu nome á pena capital.
+
+ (grava-lhe na fronte um R com a espada)
+
+
+*Primeiro Perseguido* (levantando um braço)
+
+
+Maldito sejas tu--que tens escravisado
+aquillo que ha de eterno, augusto, de sagrado,
+a Alma, o Verbo, a Penna, a Consciencia Humana!
+Maldito sejas tu, que arguiste uma tyranna,
+e has sido, contra nós, tyranno inda maior!
+Maldito sejas tu, refugo de traidor!
+que a nossa execração te siga em toda a parte,
+que o Despreso desdobre em ti seu estandarte,
+e te acorrente a Dôr qual velho boi na nóra,
+que o Remorso te pique e fira como a espora,
+e a Vingança te siga os passos pelo escuro!...
+
+
+*Segundo Perseguido*
+
+
+Maldito sejas tu, agora e no Futuro!
+Maldito sejas tu nas bagas do teu pranto!
+Maldito sejas tu em tudo que fôr santo,
+no fundo do teu copo, á sombra até no estio!...
+
+
+*Terceiro Perseguido*
+
+
+Maldito sejas tu, á chuva, ao vento, ao frio,
+no teu caminho escuro e cheio de terrores!
+Maldito sejas tu na Primavera em flores,
+no entardecer do Outomno ou no luar d'inverno!
+Maldito sejas tu na Terra ou no Inferno!
+Que a execração do mundo echoe aos teus ouvidos!
+Que os abysmos da Dôr se encham de teus gemidos,
+e a Eternidade perca a conta dos teus prantos!...
+
+
+*A Plebe* (lançando-lhe o veu negro dos condemnados á morte)
+
+
+Eu Plebe tua mãe que aos lacteos peitos santos
+te alimentei do leite altivo dos heroes,
+eu que a fronte te alcei á luz branca dos soes,
+e te metti na mão a espada da batalha,
+eu lanço-te este veu assim como a mortalha,
+ultimo e vil lençol da tua negra gloria!
+Para sempre terás a maldição da Historia,
+o despreso do mundo, a execração geral,
+e já que me has negado, ó filho desleal,
+e has seguido o infamante e tenebroso trilho,
+eu nego-te tambem! Tu já não és meu filho!
+Já não és meu amor, minha affeição mais terna.
+És o que tens meu odio e excommunhão eterna,
+a quem lanço este veu de condemnado á morte,
+
+ (repellido-o de si)
+
+Vae, segue para sempre a tua infame sorte!
+Vae, segue pelo escuro a tua horrenda estrada!
+Que a minha Indignação te fira como a Espada!
+Que o meu Rancor se torne em tenebroso muro!...
+
+
+*O Espectro* (empurrando o Reu)
+
+
+A caminho! A caminho!--Á Forca do Futuro.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Acabaste d'ouvir a letra da sentença.
+Talvez que ó dictador, perseguidor da Imprensa,
+te cause pouco abalo esta sentença augusta!
+Talvez te cause riso e clames não ser justa
+a ira que sacode as cordas d'uma Lyra.
+Talvez velho frascario e lingua de Mentira
+chames ao verso fumo, a tudo vãs ficções!
+Não! A Lyra é de bronze! As novas gerações
+os homens d'ámanhã, os proximos vindouros
+hão de ver n'essa fronte, em vez dos verdes louros,
+pela noute da Historia esse R flammegante!
+Elles dirão então--Acaso foi o Dante
+que te marcou na testa esse signal soturno!
+Quem foi o vingador, o látego nocturno
+que na fronte te abriu a inicial horrenda?
+
+E tu deves dizer:--Na minha ignobil senda
+não foi o Dante, não, que eu vi cheio de susto!
+Não foi tão grande heroe, mas foi um homem justo
+que não quiz em mim só vibrar o açoute amaro!
+Como outrora Molière, em seu eterno _Avaro_,
+que gravou com buril um lutulento vicio,
+elle quiz castigar em mim o vil flagicio
+d'esse cancro gentil, moderno, escandaloso,
+que faz d'um ente humano um cão servil, um gozo,
+salafrario venal, baixo arlequim de feira,
+rasgando a cada passo a tela da bandeira,
+e fugindo a alistar-se em legião contraria;
+quiz vergastar sem dó a moda latrinaria
+d'esse abuso gentil, galante, deleterio,
+--d'hontem ser contra o Rei--hoje ir ao ministerio,
+o costume chinfrim, o ignobil privilegio,
+--d'hontem ser petroleiro--hoje um capaxo régio!
+
+Um homem nada é. É simples grão d'areia
+nos abysmos da Vida ou nas regiões da Idea.
+Mas o Principio é tudo! È força alimentar
+na Consciencia Humana, álerta, sem cessar,
+o castigo do Mal, essa noção sagrada,
+terrível como a Adão do seraphim a espada.
+
+Ah! tu julgas acaso, ó dictador de gesso,
+que tu podes travar a roda do Progresso,
+encarcerando a Imprensa, á qual tu deves tudo?
+Ah! tu crês, n'um signal, tornar o Verbo mudo,
+e que todo o trabalho excepcional das Raças,
+todo o calor do Genio, as guerras, as desgraças,
+industrias, invenções, tudo isto que o Ceu cobre,
+tudo que Fausto sonha e Galileu descobre,
+todas as leis dos soes, Systemas e Theorias,
+--vão findar de repente, ás tuas portarias?
+
+Acaso crês que todo o labutar eterno
+do Homem sobre o sólo, a melhorar o inferno
+dos seus instinctos vis, das suas privações,
+em guerra aberta ao mar, aos ventos, aos vulcões,
+ao Infinito, ao Finito, á Besta, ás más paixões,
+á Terra amarga e dura, á Treva, ao Inconsciente,
+todo esse fermentar energico, vehemente,
+toda a rebellião extraordinaria, séria,
+do Diabo com Deus, da Alma com a Materia,
+toda a guerra feroz, eterna contra o Abuso,
+o scismar do que achou, primeiro, o Parafuso,
+o cerebro do que achou o Esquadrio e o Camartello,
+o que inventou a Lyra e cinzelou o Bello,
+o que ergueu sobre a praça o primitivo Arco,
+o que accende a Caldeira e o que arrojou o Barco
+aos abysmos do mar com a primeira Vella,
+o que arredonda a Ogiva e rasga uma Janella,
+o que inventa o Vapor, esbofeteia a onda,
+o que descobre a Roda; o que inventou a Sonda,
+o que quiz ver os soes e inventa o Telescopio,
+o que quiz ver o insecto e achou o Microscopio,
+o que contorna o acantho em torno ao Capitel,
+o que constroe a Estatua, a Valvula, o Cinzel,
+a Columna, o Timão, o Escopro, mais a Serra,
+o que forja as crueis armas brancas da guerra,
+Newton que descobriu o gravitar dos astros,
+Phidias, ao qual ninguem nunca seguiu os rastros,
+Humboldt, o que correu todo o Cosmos inteiro,
+Rouget de Lisle o auctor do eterno hymno guerreiro,
+Le Verrier que ao Ceu deu mais outro planeta,
+Orpheu que fez a Lyra e Kempis velho asceta
+que em sua cella agita a mystica alma humana;
+o que descobre o Fogo, o auctor do Ramayana,
+n'aquella India mãe de gerações guerreiras
+onde erram os fakirs á sombra das palmeiras,
+n'esse Oriente pae dos deuses indistinctos
+onde Jesus scismou perto dos therebinthos;
+tu crês que esse animal das primitivas éras
+que o Lume descobriu para assustar as féras,
+o que fez a primeira e tepida Cabana,
+o auctor da velha Mó, do engenho, da Roldana,
+da primeira Charrua e do primeiro Arado,
+Juvenal que varou Roma de lado a lado
+com suas corrupções, crimes, e vãos delirios
+como a vã liturgia extranha dos Assyrios;
+Platão que ergueu á Alma um templo todo d'ouro
+maior que Nero tinha e que era o seu thesouro;
+Durer esse pintor extranho, mysterioso,
+que achou no Pantheismo o mais infindo goso,
+e na tela onde pinta as folhas e as verduras,
+entre os ramos desenha extranhas creaturas,
+como monges fataes minados pela _acédia_
+que dão todo o terror da alma da Edade Media;
+Cervantes, o cruel, que faz errar a trote
+toda a alma do Sul que encerra em D. Quichote,
+emquanto o Fausto sonha em virgens de balladas,
+e o abbade Rabelais se ri ás gargalhadas;
+Euclides que decreta as leis da Geometria,
+a Chaldea que ao Ceu arranca a Astronomia
+e em torres collossaes, á luz das noutes bellas,
+traça o grande roteiro eterno das estrellas;
+Goethe que se fundiu na alma da Naturesa,
+que cantou o Diabo e a lenda da Bellesa,
+a insomnia da Sciencia, a lampada do Estudo;
+Goya que fez do mundo um soluçante Entrudo
+de mendigos, truões, abbades, estudantes;
+Rembrandt esse senhor das trevas flammejantes,
+Juvenal que escarrou na Venus Meretriz,
+Boudha sereno mestre, indú, grave, feliz,
+prégando um culto novo entre o feroz gentio;
+o que inventa o Compasso, o Leme do navio,
+o que accendeu a Forja, inventa a Picareta,
+o que primeiro aguça a ponta da Lanceta,
+Vico, o que abre á Sciencia enormes horisontes
+Cook que encontra ceus, reinos, terras e montes,
+Dante, o rei do Terror do Inferno nas vertigens,
+Lamark que descobre as animaes origens,
+Aretino que açouta os reis como lacaios,
+Fulton que acha o vapor, Franklin o pára-raios,
+Camões que salva um livro e a sua eterna gloria,
+Thierry o que cegou a trabalhar na Historia,
+Espronceda que canta o hymno da _Miseria_,
+Bukner o santo atheu da Força e da Materia,
+Moysés que fórma um povo, Isocrates, Isaias,
+Strauss o que anniquilla a lenda do Messias,
+Menuisier que sonda o mundo pequenino,
+Miguel Angelo ancião, o Raphael d'Urbino,
+Tacito e o seu rancor contra o romano solio,
+Van-Eych o que descobre e acha a pintura a oleo,
+Kant que abre á Rasão uma moderna estrada,
+Koerner que faz o hymno e o cantico da Espada,
+Darwin o que descobre ao mundo absorto e opaco
+ser Deus uma theoria e o Homem um macaco;
+Krishna o que prégou nas regiões da Idéa
+o mesmo que Jesus nos montes da Judéa;
+Zoroastro que elevou as almas para o Sol,
+Shelley que é um atheu, Petrarcha um rouxinol,
+Ary Sheffer que pinta a lenda dolorida
+do riso do Diabo e a dôr de Margarida;
+Hegel que assenta a Idea em throno de brilhantes,
+Fitche que os homens torna aos deuses semelhantes,
+Milton que vê no Ceu, Dante que vê no escuro,
+Haekel que vê no mar, S. João sobre o Futuro,
+Pascal que estuda a Causa e Cuvier o Effeito,
+Voltaire o que assassina em cheio o Preconceito,
+Proudhon o que acutila a gorda Ordem nédia,
+Werner que deu mais sangue ao peito da Tragedia,
+d'Alembert que povôa os mundos estrellados,
+Lao-Tseu que canta os canticos sagrados,
+Berlioz que inventou a musica do Abysmo,
+o que achou o Alphabeto e a chave do Algarismo,
+o que fez a Atafona, o que inventou o Malho,
+toda essa lenda eterna e escura do Trabalho,
+todo esse bom clarão que a santa Lyra entorna,
+todo o fogo da Forja, os urros da Bigorna,
+os silvos da Caldeira, a Roda do Progresso
+crês que isto--ao gesto teu--ameaça retrocesso,
+e tudo volta atraz, cheio d'horror e medo
+do dedo indicador do general Macedo,
+ou então dos dragões dos regios pergaminhos:
+--Hintze, _o que não ri_, e o Arrobas tres pontinhos...?
+Desillude-te, ó Velho! O mundo não recúa.
+A Historia ha de varrer teu nome para a rua,
+como uma velha o lixo immundo na calçada.
+Tu é que morrerás, tu, ó bexiga inchada
+de colera, de fel, d'orgulho, de vaidade,
+que eu despejei na rua, á luz da Sociedade,
+como quem lança o lixo ao pateo d'um saguão.
+Desengana-te ó Velho. Os reis em breve irão
+curvados e servis, quaes rotos saltimbancos,
+mostrar de feira em feira os seus cabellos brancos,
+agitando a maroma em vez do regio sceptro.
+E tu ó Velho irás tambem com teu Espectro
+n'esse caminho inglorio e tragico tambem,
+que se chama o Abandono, o caustico Desdem,
+de tudo isto que forma a Opinião Geral.
+Mas o mundo, esse não! No gyro universal
+que traça em torno ao Sol com as demais espheras,
+verá encanecer as legiões das Eras,
+antes que role e volva ás regiões do Abysmo.
+Procura sempre a Luz. Eterno magnetismo
+o attrahe sem cessar áquella claridade,
+como procura a Alma a luz só da Verdade,
+e na ordem moral, como umas verdes palmas,
+estendem sempre as mãos as supplicantes Almas
+pedindo em côro ao ceu--mais luz, inda mais luz!...
+Agora, ó Velho, emfim qne te cravei na cruz
+da Ira e do Sarcasmo e te preguei os braços
+no lenho do Despreso em meio dos devassos,
+tu pódes continuar a tua erronea senda!
+Segue o exemplo dos reis--manda-nos pôr á venda.
+Torna mais dura e amarga a lenda da Miseria.
+Faze contractos vis para formar a Iberia
+debaixo de dous reis, n'um succulento almoço.
+Arroja o teu pudor, se acaso resta, a um poço.
+Lança o resto da honra ao nada da voragem.
+Erige a Força em Lei, e a Ordem em carnagem.
+Manda erguer uma forca e um poste a cada esquina.
+Faze armar para o Povo o aço da Guilhotina.
+Manda fallar, rugir, as bocas dos canhões.
+Atulha, a abarrotar, os ventres das prisões.
+Dá que comer á Valla e á boca da Enxovia.
+Senta a fome no Lar, o luto na Alegria.
+Torna inda mais crueis os ais que nos consommem.
+
+Mas treme do Futuro!--Ouviste a voz d'um homem.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+NOTA
+
+
+Á hora de se imprimir a ultima folha d'esta publicação o velho
+presidente do ministerio, o homem de quem aqui nos occupámos, renegado
+das suas convicções d'outrora, o perseguidor da imprensa, pela qual se
+elevou, de que é decano e presidente honorario pediu a sua demissão, não
+tendo o pejo de recuar perante o parlamento, ao qual teria que dar
+contas. Mas nem por isso a sua responsabilidade fica menos grave, nem
+menos attenuada. A sua sentença já lhe foi lavrada pela Opinião Publica,
+e na Historia, aonde o seu nome fica lutuosamente escripto. O homem que
+escreveu que antes queria _imprensa anarchica que imprensa perseguida_,
+e é depois de Costa Cabral, (tão incisivamente attacado por elle,) o
+unico que se atreveu a reviver as perseguições e as vindictas, fica
+vergonhosamente vinculado,--e tanto mais vergonhosamente que foi e é um
+jornalista!...
+
+Comtudo por elle fugir perante o Parlamento, nem por isso se deve eximir
+ao castigo. É preciso que a responsabilidade ministerial não seja uma vã
+palavra. Se não existe a responsabilidade regia, se não existe de facto
+a responsabilidade ministerial, é força que estes senhores o confessem
+francamente:--a Constituição é uma farça! Se ainda persistem em
+proclamar que o não é, façam que sejam julgados os seus ministros
+demittidos! Nós pedimos que elles se sentem nos bancos dos reus. O povo
+que o peça tambem comnosco, os nossos tribunos que o peçam nos comicios,
+toda a imprensa da opposição que brade para que os julgamentos dos
+tribunaes não sejam apenas para os adversarios ou para os miseraveis e
+gatunos: mas que sejam tambem para os grandes salafrarios
+constitucionaes.
+
+O auctor d'estas linhas pede tambem o seu julgamento. Ha já tempo que
+teem capciosamente sobre elle um processo em aberto, como a espada de
+Damocles, que o priva dos seus direitos civis e politicos, e o impede de
+ser eleito pelo povo para alguma missão de confiança popular. É um
+excellente e perfido meio constitucional para affastar um
+adversario!--mas muito conhecido nos arsenaes politicos. É uma espada
+velha e enferrujada do tempo de Carlos Magno, mas que ainda dá bons
+botes!
+
+No entanto o julgamento, dos ministros demittidos não se fará:--pelo
+menos no tempo da Monarchia. Ao inverso do ministerio Saint Hilaire, que
+não fugiu á responsabilidade em face do Parlamento francez, o governo
+portuguez demittido não se peja de fugir a ella. São de tal forma as
+engrenagens do systema constitucional que as maiores arbitrariedades se
+commettem e se perpetram, ficando na impunidade, na sombra do
+esquecimento, ou na velha alcofa d'essa trapeira que se chama
+_Politica_. Fallamos da politica monarchica. Mas é força que as cousas
+não continuem no mesmo pé! É preciso que á mingua da Lei juridica, se
+erga a Lei da Consciencia Humana! Que a cada attentado corresponda um
+castigo, que a cada perversidade corresponda um ferro em braza, que a
+cada abominação corresponda uma guilhotina moral! A espada d'essa lei
+moral devem vibral-a a Opinião Publica a Historia, o jornalismo, os
+poetas, os homens justos, os homens de consciencia lavada. Que todos
+elles repillam de si estes forasteiros, esses safardanas pulhas que
+especulam ha 50 annos com a Constituição, como especullaram com as
+bullas, no tempo de Leão X, e com agua de Lourdes no tempo de Pio IX.
+Que elles fiquem certos que os seus crimes não esquecem! Que elles
+fiquem scientes que as suas arbitrariedades não ficarão na sombra! Ha
+quem vela, e quem registra. É a Historia. Ha quem se indigna e quem
+decapita. É a Poesia.
+
+É para isso que se escreveu este pamphleto.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 7| ensanguenta | ensaguentada* |
+ |#pág. 10| ás raizes | as raizes* |
+ |#pág. 15| phamphletario | pamphletario |
+ |#pág. 16| a chuva | á chuva |
+ |#pág. 23| lua das florestas | lua da floresta* |
+ |#pág. 27| cadellas acoutadas | cadellas açoutadas* |
+ |#pág. 48| pelo luz | pela luz |
+ |#pág. 48| s bre | sobre |
+ |#pág. 49| gemer das flautas | gemer da flauta* |
+ |#pág. 60| aonda | a onda |
+ |#pág. 61| emq anto | emquanto |
+ |#pág. 67| sa escreveu | se escreveu |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Os nomes próprios foram mantidos tal como foram impressos.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Renegado a António Rodrigues Sampaio, by
+António Duarte Gomes Leal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O RENEGADO A ANTONIO ***
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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