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+The Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by João de Deus
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Flores do Campo
+
+Author: João de Deus
+
+Release Date: December 23, 2008 [EBook #27599]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+Notas de Transcrição
+
+Foram corrigidos pequenos erros de impressão, sem que seja feita qualquer
+nota dessa correcção, visto que em nenhum dos casos a correcção altera
+o significado do texto.
+
+Para facilitar a identificação de cada poesia nesta edição electónica,
+foi adicionado o seguinte marcador como divisão entre elas:
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FLORES DO CAMPO
+
+
+A propriedade d'este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto
+da Fonseca.
+
+
+
+
+João de Deus
+
+
+FLORES DO CAMPO
+
+
+2.ª EDIÇÃO CORRECTA
+
+
+
+PORTO
+
+LIVRARIA UNIVERSAL
+de
+Magalhães & Moniz, Editores
+
+12--Largo dos Loyos--14
+
+1876
+
+
+PORTO: 1876--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
+62, Cancella Velha, 62
+
+
+
+
+A POESIA
+
+
+EMBLEMA
+
+Camões e Byron--Scepticismo e Crença
+
+ Vem d'alto gozar, lirio!
+ Noite estrellada e tepida;
+ A vista ao céo intrepida
+ Lança, penetra o Empyreo.
+
+ Dilata os seios tumidos;
+ Larga este terreo albergue;
+ Nas azas d'alma te ergue;
+ Ergue os teus olhos humidos
+
+ Que vês?--Soes, de tal sorte
+ Que os crêra tochas pallidas,
+ Quando as guedelhas, madidas
+ De sangue, arrasta a morte.
+
+ --Transpõe-n'os; que, elevando-te,
+ Por cada um d'aquelles,
+ Milhões e milhões d'elles
+ Verás alumiando-te.
+
+ Ávante pois, acima
+ Dos soes d'uma luz tremula;
+ Alma dos anjos emula!
+ Deus o teu vôo anima.
+
+ Que vês?--Um vacuo eterno.
+ --E n'elle?--Em ermo tumulo,
+ Em ignea letra (cumulo
+ D'horror) _Byron_--o inferno.
+
+ --Foge.--O horror fascina-me.
+ São reprobos que exhalam
+ Horridos ais que abalam
+ O inferno: oh Deus! anima-me.
+
+ --Escuta-os.--Escutemol-os.
+ Como elles bramem, rugem,
+ E o espaço uivando estrugem...
+ Gelam-se os membros tremulos.
+
+ --Entra.--Não posso.--Arromba.
+ --Prohibem-m'o.--Subleva-te.
+ --Prohibe-o Deus.--Eleva-te.
+ Acima, ingenua pomba!
+
+ Que vês? A luz clareia-me.
+ Que céo, que azul ethereo!
+ Oh extasi, oh mysterio!
+ Sobeja a vida, anceia-me.
+
+ --Falla.--Deus! que harmonia!
+ Aqui a alma exalta-se;
+ A alma aqui dilata-se...
+ _Camões!_--É a poesia.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ A UMA CARTA ANONYMA
+
+
+ Não sabe a flôr quem manda a luz do dia,
+ Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita
+ Ao vir raiando a aurora,
+ E ella agradece as lagrimas que aceita,
+ E ella as converte em balsamos que envia
+ Ao mysterio, que adora.
+
+ LAMARTINE.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+DUAS ROSAS
+
+
+ Que bonita, meu amor!
+ Que perfeita, que formosa!
+ A ti pozeram-te Rosa,
+ Não te fizeram favor.
+ A rosa, quem ha que a veja
+ Bandeando, sem gostar?
+ Mas por mais linda que seja
+ A rosa, quando se embala,
+ Não te ganha nem iguala
+ A ti em indo a andar.
+
+ A rosa tem linda côr,
+ Não ha flôr de côr mais linda;
+ Mas a tua côr ainda
+ É mais fina e é melhor.
+ Murcha a rosa (que desgosto!)
+ Só de lhe a gente bulir;
+ E essas rosas do teu rosto
+ É em alguem te tocando
+ Que parece mesmo quando
+ Ellas acabam de abrir.
+
+ Cheiro, o da rosa, esse não,
+ Não é mais do meu agrado,
+ Que o teu bafo perfumado,
+ A tua respiração.
+ Depois a rosa em abrindo
+ Vai-se-lhe o cheiro tambem:
+ A tua bocca em te rindo
+ Só o bom cheiro que exhala...
+ E quando fallas, a falla,
+ Isso é que a rosa não tem.
+
+ Ella o que tem, meu amor?
+ O cheiro, a côr e mais nada.
+ Confessa, rosa animada!
+ Que és outra casta de flôr.
+ Os olhos só elles valem
+ Duas estrellas, bem vês;
+ Pois vozes que a tua igualem
+ Na doçura, na pureza,
+ Na terra, não, com certeza;
+ Agora no céo, talvez.
+
+ Não ha assim perfeição,
+ Não ha nada tão perfeito,
+ Mas é um grande defeito
+ O de não ter coração.
+ N'isso é que te leva a palma
+ A rosa, sendo uma flôr
+ --Sem voz, sem vida, sem alma,
+ Que abre logo á luz da aurora
+ E á noite esconde-se e chora
+ Pelo sol, o seu amor.
+
+ Ora e se a rosa, vê bem,
+ Tem amor, não tendo vida,
+ Será coisa permittida
+ Tu não amares ninguem?
+ Suppões que Deus te agradece
+ Essa isenção, minha flôr!
+ Deus a ninguem reconhece
+ Por filho senão quem ama:
+ A terra e o céo proclama
+ Que elle é todo puro amor.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A UMA MULHER
+
+
+ Amo-te a ti, e a Deus.
+ Teus sonhos são riquezas
+ Talvez e fasto. Os meus,
+ És tu, que me desprezas.
+
+ Deixal-o. Amor acaso
+ É racional? Não é.
+ O fogo em que me abrazo
+ É como a luz da fé;
+
+ Que além de cega, apaga
+ O facho da razão.
+ Ama-se e não se indaga
+ Se se é amado ou não.
+
+ Amo-te. O mais ignoro.
+ Mas os meus ternos ais
+ E as lagrimas que chóro
+ Podem dizer o mais.
+
+ Que chóro; se te admira.
+ Nunca tiveste amor.
+ Quem tem amor, suspira,
+ E o suspirar é dôr.
+
+ Ah! quando abraço e beijo
+ O travesseiro e, assim,
+ Acórdo e te não vejo,
+ Vejo-me só a mim;
+
+ Não sei, mulher! que anceio
+ Se me traduz n'um ai!
+ Confrange-se-me o seio,
+ Rebenta o pranto e cái.
+
+ Então, se por encanto
+ Fallando em ti, mas só,
+ Todo banhado em pranto
+ Me visses, tinhas dó.
+
+ Tinhas. A piedade
+ É filha da mulher,
+ Que sempre quiz metade
+ D'uma afflicção qualquer.
+
+ Havias ao teu rosto
+ De me apertar a mim,
+ D'encher, fartar de gosto,
+ Todo este abysmo; sim.
+
+ Vós desprezaes embora
+ Culto e adoração
+ De quem vos ama; agora
+ As dôres, essas não.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A D. CANDIDA NAZARETH
+
+Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi
+
+
+ Despe o luto da tua soledade
+ E vem junto de mim, lirio esquecido
+ Do orvalho do céo!
+ Tens nos meus olhos pranto de piedade,
+ E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
+ Mulher! sou irmão teu.
+
+ Consolos não te dou, que não existe
+ Quem de lagrimas suas nunca enxuto
+ Possa as d'outro enxugar:
+ Não póde allivios dar quem vive triste,
+ Mas é-me dôce a mim chorar se escuto
+ Alguem tambem chorar.
+
+ Botão de rosa murcho á luz da aurora!
+ Que peccado equilibra o teu martyrio
+ Na balança de Deus?
+ Se é como justo e bom que elle se adora
+ Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio,
+ E em lirio os labios teus?
+
+ Não enche elle de balsamos o calix
+ Da flôr a mais humilde, e esses espaços
+ Não enche elle de luz?
+ Não veio o Filho seu, lirio dos valles!
+ Só por amor de nós tomar nos braços
+ Os braços d'uma cruz?
+
+ Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
+ Levanto o pó dos tumulos sósinho:
+ Eis, digo, eis o que eu sou.
+ Mas quando penso bem n'esse mysterio
+ Da virtude infeliz: vai teu caminho;
+ Dois mundos Deus creou.
+
+ Deus não dispara a setta envenenada
+ Á pombinha que aos ares despedira
+ Com mão traidora e vil.
+
+ Imagem sua, Deus não volve ao nada,
+ Não aniquila a flôr que ao chão cahira
+ Lá d'esse eterno abril.
+
+ Has-de, cysne! expirando alçar teu canto,
+ Has-de lá quando a lua da montanha
+ Te acene o extremo adeus,
+ Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto,
+ No oceano d'amor que as almas banha,
+ Unir teu canto aos seus.
+
+ Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas
+ D'um só jacto de terra... oh desventura!
+ Oh destino cruel!
+ Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
+ Guiando-se uma á outra á sepultura,
+ E a mãi: Rachel! Rachel!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+AMOR
+
+
+ Amo-te muito, muito.
+ Reluz-me o paraiso
+ N'um teu olhar fortuito,
+ N'um teu fugaz sorriso.
+
+ Quando em silencio finges
+ Que um beijo foi furtado
+ E o rosto desmaiado
+ De côr de rosa tinges;
+
+ Dir-se-ha que a rosa deve
+ Assim ficar com pejo,
+ Quando a furtar-lhe um beijo
+ O zephyro se atreve;
+
+ E ás vezes que te assalta
+ Não sei que idéa, joven!
+ Que o rosto se te esmalta
+ De lagrimas que chovem;
+
+ Que fogo é que em ti lavra
+ E as forças te aniquila,
+ Que choras, mas tranquilla,
+ E nem uma palavra?
+
+ Oh! se essa mudez tua
+ É como a que eu conservo,
+ Lá quando á noite observo
+ O que no céo fluctua;
+
+ Ou quando, á luz que adoro,
+ Ás horas do infinito,
+ Nas rochas de granito
+ Os braços cruzo e chóro;
+
+ Amamo-nos... Não cabe
+ Em nossa pobre lingua
+ O que a alma sente, á mingua
+ De voz, que só Deus sabe.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A DONZELLA E O MUSGO
+
+
+ Um dia, não sei que eu tinha...
+ Uma tristeza tamanha!
+ E lembra-me ir á montanha,
+ Que temos aqui vizinha,
+ Onde em tempo me entretinha
+ Horas e horas sósinha
+ Quando ainda se não estranha
+ Que n'uma teia de aranha
+ Se prenda uma innocentinha,
+ Ou atraz d'uma avesinha
+ Se cance a vêr se a apanha.
+
+ Depois é que o mundo falla
+ E se mette com a vida
+ De quem ás vezes se cala
+ Por ser mais bem procedida.
+ Que esta gente que faz gala
+ Em coisa, que vê, contal-a,
+ E sendo mal permittida
+ Inda em cima acrescental-a,
+ Teem a lingua comprida
+ E bem deviam cortal-a.
+
+ Vou pelo córrego acima,
+ Subo á ponta do penedo;
+ Que a vida só quem a estima
+ É que da morte tem medo.
+ A mesma tristeza anima
+ A encarar a pé quedo
+ A morte que se aproxima
+ A tirar-nos do degredo,
+ Que inda a gente se lastima
+ De não acabar mais cedo.
+
+ E alli sósinha chorando
+ Me lembrava, ora a ventura
+ Da minha infancia, inda quando
+ Levava os dias brincando;
+ Ora a desgraça futura,
+ Que me estava annunciando
+ Não sei se a minha amargura,
+ Se uma nuvem, grande e escura,
+ Que se ia no ar formando
+ E vinha já avançando,
+ Como que á minha procura.
+
+ E ainda o pranto corria
+ E o cabello me batia
+ No rosto, que me doía,
+ Tal era a força do vento;
+ Já tudo tão pardacento
+ A nevoa e chuva fazia
+ Que eu olhava, mas dizia:
+ É nuvem ou penedia
+ Aquelle vulto cinzento?
+ O mar brilhante algum dia
+ Como prata luzidia
+ Já ninguem o distinguia
+ Da terra e do firmamento:
+ Uivar só é que se ouvia,
+ Mas uivar sem sentimento;
+ E como em grande tormento
+ Se desvaira a phantasia:
+ --Fosse eu mar, disse; valia
+ Mais ser coisa bruta e fria,
+ Como a rocha onde me sento.
+
+ Faz um trovão no momento
+ Que soltava esta heresia;
+ E áquella rouca harmonia
+ Occorre-me um pensamento,
+ Que me dá uma pancada
+ O coração de tal modo,
+ Como se o rochedo todo
+ Desandasse na chapada.
+
+ Era a voz da consciencia
+ Que me accusava do crime
+ De negar á Providencia
+ A razão com que me opprime.
+ Peço perdão, commovi-me
+ E n'um extasi sublime
+ Lagrimas de penitencia,
+ Como um balsamo, uma essencia,
+ Purificam-me e senti-me
+ Com uma nova existencia.
+
+ Ólho; as nuvens esvaíam-se:
+ Os roncos do mar ouviam-se,
+ Mas já mais de espaço a espaço.
+ O sol ainda tão baço,
+ De luz tão pouco brilhante,
+ Que se media a compasso
+ Como a cara d'um gigante,
+ Descobre-se e resplandece!
+ Ao longe o mar apparece;
+ E tudo, mar, terra e céos
+ Tão formoso me parece,
+ Como se agora tivesse
+ Sahido das mãos de Deus!
+
+ No rochedo onde descança
+ Meu corpo desfallecido,
+ O verde musgo, vestido
+ Sempre da côr da esperança,
+ Agora reverdecido,
+ Me ensina a ter confiança
+ N'esse que do céo nos lança
+ Em dia tempestuoso,
+ Só para nosso repouso
+ O arco da alliança.
+
+ Pobre musgo, descuidado,
+ Sem olhos para chorar,
+ Sem poder alliviar
+ Com seu pranto um desgraçado,
+ Consolar-se e consolar!
+ Fallas mais a meu agrado
+ Que o livro mais afamado
+ D'esses livros, que em lugar
+ De nos dar consolação,
+ Nos fazem cahir no chão
+ Um pranto mal empregado,
+ E inda mais amargurado
+ Nos deixam o coração.
+
+ Colhi-o, pul-o no seio,
+ E é hoje o livro que leio.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ULTIMO ADEUS
+
+
+ Prestes, se inda na rocha de granito
+ D'onde em tempo me vias te sentares,
+ Não olhes para a terra ou para os mares,
+ Olha sim para o céo, que é lá que habito.
+
+ Lá tão longe de ti, mas não do terno,
+ Bondoso pai que os dois nos ha gerado,
+ Só para mágoas não, que bem guardado
+ Nos tem tambem no céo prazer eterno.
+
+ Não se é só pó no fim de tanta mágoa.
+ Senão, diga-me alguem que allivio é este
+ Que sinto, quando á abobada celeste
+ Alevanto os meus olhos rasos d'agua.
+
+ Mentem os céos tambem? Os céos maldigo.
+ Feras, tigres, tambem o céo povôam?
+ Tambem os labios lá sorrindo côam
+ Veneno desleal em beijo amigo?
+
+ Mas na dôr é que os astros nos sorriem,
+ E os homens não sorriem na desdita.
+ Astros! fio-me em vós, e Deus permitta
+ Que os infelizes sempre em vós se fiem.
+
+ Intima voz do fundo, bem do fundo
+ D'alma me diz (e as lagrimas me saltam):
+ Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam?
+ Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo.
+
+ Ha depois d'esta vida inda outra vida.
+ Não se reduz a nada um grão d'arêa,
+ E havia de a nossa alma, a nossa idêa
+ Nas ruinas do pó ficar perdida?
+
+ --Isso que pensa e quer (até me admiro),
+ Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva,
+ Isso que me abre o céo que ao céo me eleva
+ N'um teu cançado olhar, n'um teu suspiro!
+
+ Onde, não sei eu bem, mas sei que existe
+ Deus remunerador. Depois de mortos
+ Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos
+ Fartar de glorias este amor tão triste.
+
+ --Tão triste, e o coração que me adivinha
+ N'este supplicio nosso este tormento!
+ Nunca dos labios teus minimo alento
+ N'um só beijo bebi em vida minha!
+
+ E morro sem te vêr! Cabeça doida,
+ Desasisado amor! Sonhar afflicto
+ Um sonho até morrer... Não: resuscito;
+ Morto tenho eu vivido a vida toda.
+
+***
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ROSAS
+
+
+ Trazeis-me rosas; d'onde as heis trazido,
+ Boa velhinha e minha boa amiga?
+ Rosas no inverno! permitti que o diga,
+ Sois feiticeira: d'onde as heis colhido?
+
+ Na primavera de meus annos, ólho,
+ Mas vejo abrolhos e não vejo flôres:
+ E vós colhêl-as, como as eu não colho...
+ Sois feiticeira--enfeitiçaes d'amores.
+
+ Enfeitiçaes que a formosura, crêde,
+ Não vem da face avelludada e bella;
+ A formosura vem só d'alma; é d'ella
+ Que brota a fonte que nos mata a sêde.
+
+ Vós sois velhinha, já não tendes côres
+ Que o rosto animem e que os olhos prendam,
+ Mas tendes prendas que o amor accendam,
+ Tendes ainda no inverno... flôres.
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ROSA E ROSAS
+
+
+ A Rosa trouxe-me rosas
+ E nada mais natural,
+ Mas eu prendas tão mimosas
+ É que não tenho; inda mal.
+
+ Quando tinha, se me désse,
+ Não digo mais que uma flôr,
+ Talvez de flôres lhe enchesse
+ Esses cofrinhos d'amor.
+
+ Aguas passadas, Rosinha!
+ Deixal-o; veja se vê
+ N'este chão que já foi vinha
+ Coisa que ainda se dê.
+
+ Veja e escolha. Está na mesa
+ O que ha em casa; é tirar
+ --Tirar com toda a franqueza;
+ Inda hão-de espinhos sobrar.
+
+ Mas se espinhos, mas se abrolhos
+ Lhe não agradam, amor!
+ Mire-se bem nos meus olhos,
+ Que ha-de ahi vêr... uma flôr.
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A HERMANN
+
+Por occasião d'um beneficio a um asylo
+
+
+ «Conchega a mãi ao peito o filho caro;
+ Estende a pomba as azas no seu ninho
+ Pelos filhinhos seus.
+ Embala o arbusto agreste; o fructo amaro.
+ Guia a bussola o nauta em seu caminho,
+ Como um dedo de Deus.
+
+ «Bebe a nuvem no mar, no rio a fera;
+ Acha o tigre covil na antiga Hyrcania,
+ Hoje em dia, Ghilã;
+ Renasce a planta á luz da primavera,
+ E no calix da flôr gotta espontanea
+ Cahe á luz da manhã.
+
+ «Só eu no mundo um gosto em vão pretendo:
+ Guebro entre os persas, entre os indios pária,
+ Judeu entre christãos,
+ Só eu debalde ao céo as mãos estendo,
+ Como o naufrago á praia solitaria
+ Debalde estende as mãos.
+
+ «Tenho no livro azul onde Elle escreve
+ Esse nome, que nunca pronuncia
+ Quem bem o soletrou,
+ Mil vezes tenho lido que não deve
+ Queixar-se mais que a flôr que vive um dia
+ Um verme como eu sou.
+
+ «Porém, chorando, as mágoas diminuem.
+ Custa muito soffrer sem que um gemido
+ Ah! solte a nossa dôr.
+ E se aos olhos as lagrimas affluem,
+ É que este allivio nosso é permittido.
+ O céo orvalha a flor.»
+
+ Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem,
+ Como os suspiros de harpa eolea em ermo.
+ Ninguem no mundo o ouviu.
+ Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem,
+ Tocou a mão de Christo a mão do enfermo;
+ O Lazaro surgiu.
+
+ Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo
+ Nos prodigios da milagrosa vara
+ Que o Senhor Deus te deu.
+ Teu coração, Moysés do christianismo!
+ Tua alma é que eu admiro, e te invejára
+ Se o que é teu... fosse teu.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+PRESENTIMENTO
+
+
+ Emilia! não vês a lua
+ Como vacilla e fluctua,
+ Ora avança, ora recúa,
+ E não ha passar d'alli?
+ Tu és a imagem d'ella;
+ És tão sympathica e bella,
+ Meiga e timida, que ao vêl-a
+ Me lembra sempre de ti!
+
+ Tu és o botão de rosa
+ Que abraçado á mãi formosa
+ Só folga, só vive e goza
+ N'aquella triste união;
+ Treme até de ouvir a aragem
+ Passar por entre a folhagem:
+ Emilia! tu és a imagem
+ Do mais timido botão.
+
+ Mas embora: o tempo gira.
+ Um dia o botão, que aspira
+ O ar da manhã... suspira
+ E levanta o collo ao céo:
+ Vê vir raiando a aurora,
+ Abre o seio á luz que adora,
+ Correm-lhe as lagrimas, chora...
+ Chora o tempo que perdeu!
+
+ Porque elle, Emilia! não teme
+ Que a luz da aurora o queime;
+ Elle suspira, elle geme
+ Por vêr a luz que o creou.
+ Nem tambem a lua pára:
+ Se algumas vezes repara
+ N'uma nuvem menos clara,
+ É um momento e... passou.
+
+ Não ha existencia alguma
+ Que não tenha amor; nenhuma;
+ Porque o amor é, em summa,
+ Essencia de todo o sêr.
+ Ha sempre quem nos attráia.
+ Mil vezes que a onda cáia,
+ Ha uma rocha, uma praia
+ Aonde a onda vai ter.
+
+ Tu andas já presentida
+ D'essa voz que te convida
+ A encetar n'esta vida
+ Ai! uma vida melhor...
+ E em breve desenganada
+ D'essa existencia isolada,
+ Darás n'alma franca entrada
+ A sentimentos de amor!
+
+Silves.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+MARINA
+
+
+I
+
+APPARIÇÃO
+
+ Como esse olhar é dôce!
+ Dôce da mesma sorte
+ Como se nunca fosse
+ Toldado pela morte:
+
+ Como se alumiasse
+ O sol ainda em vida
+ As rosas d'essa face...
+ Agora carcomida.
+
+ Colhesse-as eu mais cedo
+ E logo que alvorece;
+ Já não tivesse medo
+ Que a terra m'as comesse.
+
+ Mas pura, como a neve
+ Que ás vezes cahe na serra,
+ É que a nossa alma deve
+ Tambem voar da terra.
+
+ Gelasse a morte fria
+ A mão profanadora
+ Que te ennublasse um dia
+ A luz que dás agora.
+
+ É n'essa côr tão linda,
+ Rosa da madrugada!
+ Que sinto a alma ainda
+ Andar-me enfeitiçada.
+
+ Se um dia nos meus braços
+ Te desbotasse as côres,
+ Passavam os abraços...
+ Passavam os amores!
+
+ Oh! não: mil vezes antes
+ No céo lá onde habitas,
+ E os rapidos instantes
+ Que vens e me visitas
+
+ N'este degredo nosso,
+ Que tanta gente estima,
+ E eu, só porque não posso,
+ Não largo e vou lá cima.
+
+ Vem tu cá baixo, abala,
+ Deixa em podendo o collo
+ Tão terno que te embala,
+ E vem-me dar consolo.
+
+ Como essa imagem pura
+ Ah! sobrevive ao nada
+ E escapa á sepultura,
+ Tão fresca e perfumada!
+
+ Nunca uma noite eu deixe
+ De estar a vêr que existes,
+ Em quanto me não feche
+ O somno os olhos tristes.
+
+ E n'esse largo espaço
+ Que te não vejo, espero
+ Lhe contes o que eu passo
+ N'este aspero desterro:
+
+ Que assim que te não veja
+ É noite fria e escura,
+ Noite que mette inveja
+ Á mesma sepultura!
+
+
+II
+
+SAUDADE
+
+ Em acordando agora,
+ O meu contentamento
+ É vêr em cada aurora
+ Um dia de tormento!
+
+ Podesse eu dar-te a prova
+ Dos dias que me esperam,
+ Lançando-me na cova
+ Onde elles te pozeram!
+
+ Lançassem-me algum dia
+ Ao pé, que de repente
+ O coração te havia
+ De ainda pular quente...
+
+ A face cobrar logo
+ A fórma e côr perdida,
+ E a bocca toda fogo
+ Ah! inspirar-me a vida!
+
+ Supplíca, ó anjo! implora
+ Ao Pai universal
+ Que me deixe ir embora
+ D'este horroroso val
+
+ De lagrimas amargas,
+ E turvas de tal modo,
+ Como umas nuvens largas
+ Que tapam o céo todo!
+
+
+III
+
+ETERNIDADE
+
+ Inferno e céo, conforme
+ A nossa fé, confesso
+ Que é um mysterio enorme,
+ É um mysterio immenso.
+
+ Mas um mysterio é tudo:
+ Folhinha d'herva, e estrella,
+ Não ha comprehendêl-a!
+ É contemplal-a mudo.
+
+ E a herva, como existe,
+ A mim quem m'o diria,
+ Se a luz que me alumia
+ Nem sabe em que consiste?
+
+ Mas uma coisa sabe
+ O que a cabeça ignora
+ --O coração... que mora
+ Em peito onde não cabe.
+
+ Ha uma luz mais clara
+ Que a luz do pensamento:
+ A d'essa imagem cara...
+ A d'este sentimento!
+
+
+IV
+
+... 21 DE SETEMBRO
+
+ Ha uma hora ou mais,
+ Marina! que contemplo
+ A casa de teus paes
+ Que é para mim um templo.
+
+ Está a porta aberta,
+ E vejo alumiada
+ A parte descoberta
+ Da casa da entrada.
+
+ Lá andam a passar
+ Do quarto onde acabaste
+ Á casa de jantar
+ Os vultos, que deixaste.
+
+ Os vultos, que os vestidos
+ Tão negros que pozeram,
+ De luto, tão compridos,
+ Não sei que ar lhes deram!
+
+ A tua bella irmã,
+ A tua piedade,
+ A rosa da manhã,
+ A flôr da mocidade,
+
+ Quem lhe diria a ella,
+ Tão cheia de alegria,
+ Que haviamos de vêl-a
+ Assim já hoje em dia!
+
+ É esta vida um mar,
+ E bem se póde a gente,
+ Marina! comparar
+ A rapida corrente,
+
+ Que vai de lado a lado
+ Por esses valles fóra
+ Sem nunca lhe ser dado
+ Ter a menor demora.
+
+ Pára, quando a engole
+ Aquelle mar sem fundo;
+ Nem pára; é como o sol
+ E como todo o mundo...
+
+ Ahi não pára nada,
+ Tudo viaja e anda,
+ Que a ordem lhe foi dada,
+ E dada por quem manda.
+
+ Chega a corrente lá,
+ Engole-a logo a onda:
+ Depois, que é d'ella já?
+ A nuvem que responda.
+
+ Que a nuvem que nos passa
+ Pela manhã nos ares,
+ Era hontem a fumaça
+ Que andava n'esses mares;
+
+ E a nevoa, que tu vês
+ Nas ondas fluctuantes,
+ Corria-nos aos pés
+ Talvez um dia antes.
+
+ A agua é que no giro
+ Em que anda eternamente
+ Não deu nunca um suspiro
+ Em prova de que sente.
+
+ .....................
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+N'UM ALBUM
+
+Pedindo-se ao author uma poesia
+
+ Não me admira a mim que o sol, monarcha
+ De indisputavel throno, e throno eterno
+ Em céo e terra e mar;
+ Que em seu imperio o mundo inteiro abarca
+ Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno,
+ Mavioso olhar.
+
+ Não me admira a mim que a crystallina,
+ Tão pura, onda do mar, que espelha a face
+ Do astro creador,
+ Que essas asperas rochas cava e mina,
+ Á praia toda languida se abrace
+ E toda amor!
+
+ Mas sendo vós um sêr mais precioso
+ Do que onda e sol--um anjo de poesia
+ Inspirada e que inspira;
+ Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso,
+ Delicado penhor descesse um dia
+ É que me admira.
+
+ Quizera nos meus cofres de poeta
+ Ter as riquezas todas do Oriente,
+ E com mãos liberaes
+ Expulsar esta duvida que inquieta
+ Um grato coração que apenas sente
+ E... nada mais!
+
+ De limpido diamante e fio de oiro,
+ Quizera-vos tecer collar que á aurora
+ Vencesse em brilho e côr;
+ Mas o poeta, o unico thesoiro
+ Que tem, ah! são as lagrimas que chora
+ E o seu amor.
+
+ Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso
+ Se amada estrella olhar piedoso envia
+ A quem da terra a adora;
+ Se o sol aceita á flôr humilde incenso;
+ Ha no amor tambem muita poesia...
+ Minha senhora!
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Beijo na face
+ Pede-se e dá-se:
+ Dá?
+ Que custa um beijo?
+ Não tenha pejo:
+ Vá!
+
+ Um beijo é culpa
+ Que se desculpa:
+ Dá?
+ A borboleta
+ Beija a violeta:
+ Vá!
+
+ Um beijo é graça
+ Que a mais não passa:
+ Dá?
+ Teme que a tente?
+ É innocente...
+ Vá!
+
+ Guardo segredo,
+ Não tenha medo...
+ Vê?
+ Dê-me um beijinho,
+ Dê de mansinho,
+ Dê!
+
+ Como elle é dôce!
+ Como elle trouxe,
+ Flôr!
+ Paz a meu seio;
+ Saciar-me veio,
+ Amor!
+
+ Saciar-me? louco...
+ Um é tão pouco,
+ Flôr!
+ Deixa, concede
+ Que eu mate a sêde,
+ Amor!
+
+ Talvez te leve
+ O vento em breve,
+ Flôr!
+ A vida foge.
+ A vida é hoje,
+ Amor!
+
+ Guardo segredo;
+ Não tenhas medo
+ Pois!
+ Um mais na face
+ E a mais não passe!
+ Dois...
+
+ Oh! dois? piedade!
+ Coisas tão boas...
+ Vês?
+ Quantas pessoas
+ Tem a Trindade?
+ Tres!
+
+ Tres é a conta
+ Certinha e justa...
+ Vês?
+ E o que te custa?
+ Não sejas tonta!
+ Tres!
+
+ Tres, sim. Não cuides
+ Que te desgraças:
+ Vês?
+ Tres são as Graças,
+ Tres as Virtudes,
+ Tres.
+
+ As folhas santas
+ Que o lirio fecham,
+ Vês?
+ E que o não deixam
+ Manchar, são... quantas?
+ Tres!...
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Thuribulo suspenso inda fluctuo,
+ Em quanto a alma em incenso restituo;
+ Mas, quando como fumo que se esvai,
+ Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai.
+ Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz,
+ Levar-lhe... quanto levas, pobre luz!
+ Amor, que em mim não cabe, vai depôr
+ Em Deus, e Deus bem sabe se era amor;
+ Se d'outra flôr o calix mais libei
+ Por esses quantos valles divaguei;
+ Se um nome em igneo traço li no céo,
+ Nas ondas e no espaço, mais que o seu...
+ Deus sabe se eu dos montes vi tambem
+ Nos vastos horisontes mais alguem;
+ Nos tristes e risonhos dias meus,
+ Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus.
+ Porém quem é que apanha o aereo véo
+ Da nuvem da montanha, se é do céo?
+ Se á terra a nuvem desce, quando vai
+ Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Luz d'intima influencia,
+ Oh fugitiva luz!
+ Luz cuja eterna ausencia
+ É minha eterna cruz.
+
+ Podessem-te, ainda antes
+ Do meu extremo adeus,
+ Meus olhos fluctuantes
+ Vêr lampejar nos céos.
+
+ Se ainda n'esse espaço,
+ Tão longe onde tu vás,
+ Visse um reflexo baço
+ Da pura luz que dás;
+
+ Tornaram-se-me estrellas
+ As lagrimas de dôr;
+ E lagrimas são ellas...
+ Sim, lagrimas d'amor!
+
+ Vê n'esse espaço immenso
+ Os astros como estão
+ Bem como eu estou, suspenso
+ Por intima attracção.
+
+ Porque ha quem os attráia;
+ É essa eterna paz
+ Que a mim de praia em praia
+ A suspirar me traz.
+
+ Converte-me este inferno
+ Em azulado céo,
+ Ou quebra o laço eterno
+ Que a tua luz me deu;
+
+ Ou antes muda em espuma
+ De nunca estavel mar
+ Esta alma que alma alguma
+ Póde exceder em amar.
+
+ Em cinza, em terra, em nada,
+ Meu sêr converte, ó luz,
+ Mas sempre, sempre amada,
+ Deliciosa cruz!
+
+Portimão.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+RESPOSTA
+
+A A. DO QUENTAL
+
+
+ Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando
+ Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas,
+ E parece-me ainda que mais bellas,
+ Anda a gente fazendo e desmanchando.
+
+ Dá-me uma saudade em me lembrando
+ O bello tempo que passei com ellas,
+ Por essa immensa abobada de estrellas,
+ Por esse mar de fogo viajando...
+
+ Andasse ainda eu lá, que não me havia
+ De vêr por estes charcos atolado,
+ Onde nem sol nem lua me alumia.
+
+ Andasse ainda eu lá, desenganado
+ Mesmo já como estou de achar um dia
+ A patria d'aonde ando desterrado.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Pois se o homem, se anjo e nume,
+ Planta e flôr,
+ Dá seu canto, luz, perfume,
+ Crença e amor;
+
+ Pois se tudo sobre a terra
+ Que ame alguem,
+ Rosa ou espinho, quanto encerra
+ Dá, se o tem;
+
+ Se os carvalhos, nus, medonhos,
+ Veste abril;
+ Se inda a noite presta aos sonhos
+ Graças mil;
+
+ Se onde ha ramo, voz uma ave
+ Desprendeu;
+ Se onde ha folha, gotta suave
+ Cahe do céo;
+
+ Se na praia, quando a onda
+ Vem de lá,
+ Beijos, antes que se esconda,
+ Mil lhe dá;
+
+ Tambem, anjo meu saudoso!
+ Te hei de emfim
+ Ah! dar quanto de precioso
+ Sinto em mim!
+
+ Dou-te o nectar, que me acalma;
+ Toma-o tu!
+ Sim, meu pranto; mais uma alma
+ Que eu possuo!
+
+ Dou-te os sonhos meus ardentes,
+ Mas leaes;
+ Dou-te as notas mais cadentes
+ Dos meus ais!
+
+ Do que ha lindo, tudo quanto
+ Me seduz;
+ D'esta vida, riso e pranto,
+ Noite e luz!
+
+ Dou-te o genio meu, que á sorte
+ Vês fluctuar
+ Sem mais véla, sem mais norte
+ Que esse olhar!
+
+ Dou-te a lyra, que me inspiras,
+ Sonho meu!
+ Que suspira, se suspira,
+ Flôr do céo!
+
+ Dou-te; aceita: tudo é santo,
+ Tudo, flôr!
+ Dou-te uma alma toda encanto,
+ Toda amor!
+
+ V. HUGO.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FLÔR E BORBOLETA
+
+
+ Tu vôas, borboleta! e que eu não possa
+ Voar, amor!
+ Diversa como é n'isto sorte nossa!
+ Dizia a flôr.
+
+ No valle, ambas irmãs, nascidas fomos;
+ És como eu sou;
+ E amamo-nos, e flôres ambas somos,
+ Mas eu não vôo.
+
+ A ti leva-te o ar; prende-me a terra
+ A mim; e eu
+ Como hei-de perfumar-te em valle e serra,
+ E lá no céo!...
+
+ Mais longe inda tu vás, por outras flôres...
+ Girar, talvez,
+ Em quanto a minha sombra, meus amores!
+ Gira a meus pés!
+
+ E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora,
+ Sabendo, assim,
+ Que em lagrimas me encontra sempre a aurora!
+ Pobre de mim!
+
+ Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro
+ E meu amor!
+ Cria raiz ou dá-me as azas de oiro,
+ Celeste flôr!
+
+ V. HUGO.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+REMOINHO
+
+
+ Olha como embrulhado
+ Que está ainda o céo
+ E o chão, como ensopado
+ Da agua que choveu...
+
+ Foi um diluvio d'agua;
+ E o furacão, que fez,
+ Emilia! até dá mágoa
+ Tantos estragos: vês?
+
+ Esta infeliz víuva,
+ Foi-lhe o telhado ao ar;
+ Depois, já nem da chuva
+ Tinha onde se abrigar.
+
+ De mais a mais sósinha,
+ Sem ter nenhum dos seus
+ Aqui ao pé; ceguinha...
+ Bemdito seja Deus!
+
+ Além n'aquelle serro
+ Parece que raspou
+ Com uma pá de ferro
+ A terra que encontrou.
+
+ Nem um só pé de trigo
+ És lá capaz de vêr.
+ Já eu disse commigo:
+ Como póde isto ser?
+
+ As arvores arranca
+ O vento muito bem;
+ Serve-lhe de alavanca
+ A rama que ellas tem.
+
+ Vem de lá elle e, topa
+ N'uma arvore, o que faz?
+ Enrola-se na copa
+ E, tronco e tudo, zás!
+
+ Que as folhas não são nada,
+ Uma por uma, não;
+ Mas já uma pernada...
+ Tão poucas ellas são?
+
+ Vê lá se o teu cabello
+ É para comparar;
+ Mas, possa alguem sustel-o,
+ Levanta-te no ar.
+
+ Aqui um loureirinho,
+ Que era o que havia só,
+ Encontra-o no caminho,
+ Ia-o fazendo em pó.
+
+ D'aqui passa, á maneira
+ Assim d'um caracol,
+ Áquella farrobeira
+ Põe-lhe a raiz ao sol.
+
+ Aquelle enorme tronco
+ Quiz resistir, depois,
+ Ouviu-se um grande ronco,
+ Quando o eu vejo em dois.
+
+ Andava a rama toda,
+ Emilia! assim, vês tu?
+ Á roda, á roda, á roda,
+ Eis senão quando, rhuh!
+
+ Foi quando veio o outro
+ Urrando como um boi,
+ Oh que horroroso encontro!
+ Então é que ella foi.
+
+ Vês uma cobra enorme
+ Á calma, quando está
+ Grande calor, conforme
+ As tenho visto já?
+
+ Que não tem ar avonde,
+ Falta-lhe já o ar,
+ Quer sangue ou agua onde
+ Se possa refrescar;
+
+ Anceia-se, sacode
+ O corpo todo a vêr
+ Se vôa, mas não póde;
+ Voar não póde ser;
+
+ E como não supporta
+ Já o calor do chão,
+ Ao vêr-se quasi morta
+ De raiva e afflicção,
+
+ Apenas finca a ponta
+ Do rabo em terra, e sái;
+ E faça-se de conta
+ Que é a voar que vai
+
+ N'aquellas roscas todas
+ Que, olhando-se-lhes bem,
+ São outras tantas rodas
+ Em cima d'onde vem;
+
+ N'aquelle parafuso
+ --Aquelle rodopio,
+ Á roda como um fuso
+ Suspenso pelo fio;
+
+ Com a cabeça chata,
+ Aquelle olhar feroz,
+ Aquelle olhar que mata
+ Sempre de fito em nós?
+
+ Assim d'essa maneira
+ É que elle vinha, o tal;
+ Salta-lhe á dianteira
+ Este de força igual;
+
+ E assim que se avistaram,
+ Não sei o que lhes dá;
+ Ficam suspensos, param,
+ Como com medo já;
+
+ Aquelles sorvedouros,
+ Em vez de remoinhar,
+ Parecem-se dois touros
+ Jogando a terra ao ar;
+
+ Ouvia-se a oliveira
+ Zunir no ar, então,
+ D'um para o outro inteira,
+ Nem bala de canhão;
+
+ E assim se vão chegando
+ Cada vez mais, até
+ Que eu ólho, eis senão quando
+ Vejo... mas vejo o que?
+
+ . . . . . . . . . . . . . . .
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+AMORES, AMORES...
+
+
+ Não sou eu tão tola
+ Que cáia em casar;
+ Mulher não é rola,
+ Que tenha um só par:
+ Eu tenho um moreno,
+ Tenho um de outra côr,
+ Tenho um mais pequeno,
+ Tenho outro maior.
+
+ Que mal faz um beijo,
+ Se apenas o dou
+ Desfaz-se-me o pejo,
+ E o gosto ficou?
+
+ Um d'elles por graça
+ Deu-me um, e depois,
+ Gostei da chalaça,
+ Paguei-lhe com dois.
+
+ Abraços, abraços
+ Que mal nos farão?
+ Se Deus me deu braços,
+ Foi essa a razão.
+ Um dia que o alto
+ Me vinha abraçar,
+ Fiquei-lhe d'um salto
+ Suspensa no ar.
+
+ Amores, amores.
+ Deixál-os dizer;
+ Se Deus me deu flôres,
+ Foi para as colher.
+ Eu tenho um moreno,
+ Tenho um de outra côr,
+ Tenho um mais pequeno,
+ Tenho outro maior.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FABULA
+
+
+ Um dia os deuses, cada qual uma arvore,
+ Á sua guarda consagraram: Jupiter
+ Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules
+ Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo.
+ Vendo-as Minerva todas infructiferas:
+ Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe:
+ Senão, diriam, filha! que as guardavamos
+ Só pelo fructo.--Que me importa digam-no;
+ É pelo fructo que a oliveira escolho.
+
+ Minerva! brada o pai d'homens e deuses,
+ És quem, de todos, sabes mais sem duvida;
+ No que não luza... mal fundada gloria.
+
+ _Honra sem proveito
+ Faz mal ao peito._
+
+ PHEDRO.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+BOAS NOITES
+
+
+ Estava uma lavadeira
+ A lavar n'uma ribeira,
+ Quando chega um caçador.
+
+ --Boas tardes, lavadeira!
+
+ --Boas tardes, caçador!
+
+ --Sumiu-se-me a perdigueira
+ Alli n'aquella ladeira,
+ Não me fazeis o favor
+ De me dizer se a bréjeira
+ Passou aqui a ribeira?
+
+ --Olhai que d'essa maneira
+ Até um dia, senhor,
+ Perdereis a caçadeira,
+ Que ainda é perda maior.
+
+ --Que me importa, lavadeira!
+ Aqui na minha algibeira
+ Trago dobrado valor.
+ Assim eu fôra senhor
+ De levar a vida inteira
+ Só a vêr o meu amor
+ Lavar roupa na ribeira...
+
+ --Talvez que fosse melhor,
+ Vêr... coser a costureira!
+ Vir, de ladeira em ladeira,
+ Apanhar esta canceira
+ E tudo só por amor
+ De vêr uma lavadeira
+ Lavar roupa na ribeira...
+ É escusado, senhor!
+
+ --Boas noites... lavadeira!
+
+ --Boas noites, caçador!..
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+GASPAR
+
+
+ Ora se não sei eu quem foi teu pai!
+ Fidalgo: sei perfeitamente bem.
+ O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
+ N'esta vida fazer quem já lá vai.
+
+ Já se vê que é aos paes que a gente sái.
+ Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
+ Que um pai se é como o teu, homem de bem,
+ Tu és homem de bem como teu pai?
+
+ D'isto não ha quem possa duvidar.
+ Mas queres um conselho que eu te dou?
+ Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar!
+
+ Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou,
+ Mas é que outro talvez mande tirar
+ Certidão de baptismo a teu avô.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo,
+ Á rosa envie o aroma;
+ E lá quando alta noite a lua assoma,
+ O rouxinol carpindo!
+
+ Que pela face a lagrima resvale
+ De quem no exilio geme;
+ E quando a propria sombra o homem teme,
+ Que a mãi seu filho embale.
+
+ Deixa que ao espaço immenso os olhos lance
+ O sol antes que expire;
+ Que pelo norte a bussola suspire
+ E nelle só descance.
+
+ Amam leões e tigres. Não ha nada,
+ Anjo! que a amor se esconda.
+ Beija a pomba o seu par; e abraça a onda
+ A rocha inanimada.
+
+ Deixa que a nuvem negra tolde a lua
+ Se a leva a tempestade;
+ Deixa que eu te ame a ti, cara metade,
+ D'esta alma toda tua!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CARTA
+
+
+ Maria! vêr-te á porta a fazer meia,
+ Olhando para mim de vez em quando,
+ É o que n'esta vida me recreia.
+
+ Acordo até de noite suspirando
+ Por que rompa a manhã e tenha o gosto
+ De te vêr já tão cedo trabalhando.
+
+ Desde pela manhã até sol-posto
+ Que não tens de descanço um só momento;
+ Por isso tens tão bella côr de rosto.
+
+ E eu pallido, Maria! O pensamento
+ Não é trabalho que nos dê saude,
+ Esta imaginação é um tormento.
+
+ Que bello tempo aquelle em quanto pude
+ Levar, como tu levas, todo o dia
+ N'essa vida chamada ingrata e rude!
+
+ Nunca soube o que foi melancolia,
+ Nunca provei as lagrimas salgadas
+ Com que a nossa alma as penas allivia;
+
+ Andava sim por essas cumiadas
+ Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho,
+ Vendo os valles, das rochas escarpadas;
+
+ Descendo pelo córrego estreitinho,
+ De pontal em pontal, cortando o matto,
+ Pelas chapadas, fóra de caminho;
+
+ Mas não era que já o teu retrato
+ Me andasse a mim no coração impresso,
+ Onde hoje o trago no maior recato,
+
+ E um desengano teu que não mereço
+ Me tivesse tirado a fé tão dôce
+ D'alcançar algum dia o que appeteço.
+
+ Não foi, não, a paixão que assim me trouxe
+ Tão erradio a mim, digo a verdade
+ E nem eu te negava se assim fosse.
+
+ É que a gente na sua mocidade
+ Não cabe em si, não pára de contente,
+ E assim fui eu na flôr da minha idade.
+
+ Tu eras n'esse tempo simplesmente
+ A flôr que vai nascendo e mais valia
+ Seres tão tenra ainda e innocente.
+
+ Já esse lindo pé que tens, Maria!
+ Esse quadril tão largo, e cinta estreita,
+ Me não vinha á idéa noite e dia;
+
+ Esses encontros de mulher perfeita,
+ Esse peito redondo e arqueado
+ Como o de pomba farta e satisfeita.
+
+ Talvez vivesse então mais socegado,
+ Ou já que minha sorte é sempre triste
+ Ao menos não andasse enfeitiçado.
+
+ Esse bello pescoço, não existe
+ Outro assim torneado: o rosto é lindo
+ E a tão meiga expressão ninguem resiste.
+
+ A bocca é tão vermelha que, em te rindo,
+ Lembra-me uma romã aberta ao meio
+ Quando já de madura está cahindo.
+
+ Esses olhos azues... que olhar! Receio
+ E desejo estar sempre a contemplal-o;
+ Não ha mais dôce e mais custoso enleio:
+
+ Eu não oiço fallar então, nem fallo
+ De enlevado que estou e, juntamente,
+ Gemendo e abafando os ais que exhalo.
+
+ Oh nuvem da manhã resplandecente,
+ Manto real de sêda delicada,
+ Cada fio um grilhão que prende a gente.
+
+ Bem podias, Maria! andar tapada
+ Só com o teu cabello, á semelhança
+ Do sol em nuvem de manhã doirada.
+
+ É tudo encantador. A gente cança,
+ Cança de estar olhando e sempre vendo
+ Um novo encanto a cada olhar que lança.
+
+ E se essa linda voz nos sái dizendo
+ As mimosas palavras que costuma,
+ Sente-se a gente logo derretendo;
+
+ Que além d'um rosto tão perfeito, em summa
+ Coube-te em sorte um coração perfeito
+ E em ti não ha, Maria! falta alguma.
+
+ Oh que ditoso, alegre e satisfeito
+ Não viverá o homem que algum dia
+ Sentir pular-te o coração no peito,
+
+ E que em deliciosissima agonia,
+ Vendo-te já os olhos desmaiando
+ Como desmaia o céo á luz do dia,
+
+ Nas azas da ventura atravessando
+ Os espaços d'um extasi ineffavel
+ Abraçado comtigo fôr voando
+ Lá para onde tudo é bello e estavel!
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ --Dá-me esse jasmim de cera,
+ Minha flôr?
+ --Mas e depois se lh'o dera,
+ Meu senhor?
+
+ --Depois? era uma lembrança.
+ --Mas de quê?
+ --D'uma tão linda criança,
+ Já se vê.
+
+ --Oh tão linda! Mas, parece,
+ Sendo assim,
+ Que inda quando lhe não désse
+ Tal jasmim...
+
+ --Não me esquecia, de certo.
+ --Nunca já?
+ --Nunca.--Nunca, é muito incerto,
+ Mas... vá lá.
+
+ --E a rosa, que bem lhe fica,
+ Dá-m'a, flôr?
+ --Oh a rosa, a rosa pica,
+ Meu senhor!
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+MARGARIDA
+
+
+ Oh que formosos dias, Margarida!
+ Esses da tua vida;
+ E que nublados
+ Meus dias desgraçados!
+
+ Nasci tambem assim risonho e meigo,
+ Mas hoje apenas chego
+ O calix da ventura
+ Á bocca ancioso,
+ Torna-se a agua impura
+ E o liquido que bebo
+ Venenoso,
+ Sim, venenoso o liquido que bebo.
+
+ Nem eu concebo
+ Como Deus me creasse
+ Para tormento eterno;
+ Elle que tão affavel, meigo e terno
+ Te beija a ti a face
+ E te embala no collo, Margarida!
+ A mim dar-me esta vida...
+
+ Mas vejo á sombra d'altos edificios
+ Miudissimas flôres
+ De tão subtís e delicadas côres
+ Que se o sol lhes chegasse
+ Talvez que nem resquicios
+ Lhes ficasse.
+ Com uma d'essas azas, estendida,
+ Me tapavas tu todo,
+ E d'esse modo,
+ Com esse escudo,
+ Eu ria-me de tudo
+ E levava esta vida alegremente.
+ Tenho essa fé.
+
+ Vejo tambem a flôr que nasce ao pé
+ D'agua corrente,
+ Ir tão suavemente
+ Levada pela agua!
+ Talvez até sem magua
+ De deixar sua mãi.
+ D'esse modo tambem,
+ Amparando-me tu a mim nos braços,
+ Eu seguia-te os passos,
+ Fosse por onde fosse;
+ E d'essa sorte
+ Até a morte
+ Me seria dôce.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NO LEITO NUPCIAL
+
+
+ Dorme, estatua de neve,
+ Vergontea de marfim!
+ Tocar que impio se atreve
+ No que é sagrado assim?
+
+ Dois são: o mais, mysterio
+ Vedado á terra. Deus
+ Talvez do solio ethereo
+ Nem baixe os olhos seus.
+
+ Respeita-os, tapa-os, como
+ Japhet e Sem, o pai...
+ Pende, sagrado pomo!
+ A vista ergue-se e cai.
+
+ Ergue-se e cai, conforme
+ A lei, que o manda assim.
+ Ergue-se e... Dorme, dorme,
+ Vergontea de marfim!
+
+ Mas dize: o espelho a imagem
+ Te estampa mal te vê;
+ Beija-te o seio a aragem,
+ Doira-te o sol; porquê?
+
+ Não segue acaso a sombra
+ Teu corpo sempre, flôr!
+ E pois, porque te assombra
+ Meu insensato amor?
+
+ Ás vezes passas tremula
+ Como sagrada luz;
+ E os olhos dizem: vemol-a
+ Como no alto a cruz.
+
+ Perdoa se isto exprime
+ Maldade aos olhos teus;
+ Perdoa-me se é crime...
+ Amo tambem a Deus.
+
+ E á tarde quando o albergue,
+ No solitario val,
+ Incenso queima e se ergue
+ D'Abel o fumo igual;
+
+ Da pomba solta o vôo,
+ Baixa-me um olhar teu
+ E dize-me: perdôo;
+ Sim, tudo aspira ao céo!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A MINHA MÃI
+
+
+ Patria! berço d'amor, que a alma embala
+ Em quanto a luz vital nos illumina,
+ E onde só descançado se reclina
+ Quem, longe d'ella, dôr contínua rala...
+
+ Se n'essa essencia, mãi! que a flôr exhala
+ Na essencia d'uma flôr d'essa collina,
+ Vês lagrimas d'amor que dentro a mina,
+ Com saudades de quem do céo lhe falla:
+
+ Se quando, o céo buscando, o fumo ondeia,
+ Quando esse valle o sol deixa indeciso,
+ Vês como fumo e flôr aspira, anceia
+
+ Um pai, um Deus, um céo, um paraiso,
+ Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia,
+ Vê tu se labio meu desfolha um riso!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+BEATRIZ
+
+
+ Tu és o cheiro que exhala
+ Ao ir-se abrindo uma flôr,
+ Tu és o collo que embala
+ Suas primicias d'amor.
+
+ Tu és um beijo materno,
+ Tu és um riso infantil;
+ Sol entre as nuvens do inverno,
+ Rosa entre as flôres d'abril.
+
+ Tu és a rosa de maio,
+ Tu és a flammula azul,
+ Que atam á flecha do raio
+ As nuvens negras do sul.
+
+ Tu és a nuvem d'agosto,
+ Meu alvo vello de lã!
+ Tu és a luz do sol-posto,
+ Tu és a luz da manhã.
+
+ Tu és a timida corça
+ Que mal se deixa avistar;
+ Tu és a trança que a força
+ Do vento leva no ar.
+
+ És a perola que salta
+ Do niveo calix da flôr;
+ És o aljofar que esmalta
+ Virgineas rosas d'amor.
+
+ És a roseira que a custo
+ Levanta os cachos do chão,
+ És a vergontea do arbusto,
+ Anjo do meu coração!
+
+ Tu és a agua das fontes,
+ Tu és a espuma do mar,
+ Tu és o lirio dos montes,
+ Tu és a hostia do altar.
+
+ És o pimpolho, és o gommo,
+ És um renovo d'amor;
+ Tu és o vedado pomo...
+ Tu és a minha Leonor...
+
+ Tu és a Laura que eu amo,
+ E a minha Taboa da Lei,
+ E a pomba que trouxe o ramo,
+ E a margarida que achei.
+
+ És o lirio, és a bonina
+ Dos valles do meu paiz;
+ És a minha Catharina...
+ És a minha Beatriz!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+INNOCENCIA
+
+
+ Encolhe as azas, que te abrazas, louca!
+ O fogo mata a quem o gera, attende;
+ Foge e, se a vida te aborrece, estende
+ Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.
+
+ Porque uma nuvem, onda transitoria
+ Do mar immenso, vem pousar na serra,
+ Não fica a nuvem pertencendo á terra:
+ Tu és o anjo que desceu da gloria.
+
+ Estranhas forças para ti me attrahem;
+ E ás vezes cedo, tua cinta enleio;
+ Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio,
+ Tua alma dorme, e os meus braços cahem...
+
+ Desfallecidos, flôr celestial!
+ Como ante um berço cahe a foice erguida,
+ Se ha n'elle mais do que uma simples vida,
+ Se ha innocencia que mil vidas val.
+
+ Oh! não: teus labios o meu fel não provem:
+ Outros os lirios d'essa face esmaguem;
+ D'outros mãos impias teu sorriso apaguem,
+ Em quanto os labios tuas graças louvem.
+
+ Já no meu berço d'innocencia pude
+ Pesar as joias, que hoje em vão te invejo:
+ Provei os favos de illibado pejo,
+ Sei o que perde quem o vicio illude.
+
+ Alcantil ingreme, onde o raio é certo,
+ Contém mais seiva, que inda o musgo cria:
+ Quanto de fertil em nossa alma havia
+ Só deixa o ermo da saudade aberto.
+
+ Cahir no abysmo de intimos pezares
+ D'essas alturas onde mal te vejo,
+ O ponto estava derreter n'um beijo
+ O fio de oiro que te manda aos ares.
+
+ N'esses dois cofres, n'esse collo aonde
+ Tantas riquezas enterrei ciumento
+ (E que alta noite vela o pensamento
+ Pelo crystal que o coração te esconde)
+
+ Em oiro em barra, fina prata e quanto
+ Coalha o vasto e opulento Oriente,
+ Fôra em ruinas encontrar sómente
+ Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.
+
+ Casta innocencia, de Deus filha e bella
+ Entre as mais bellas! virginal aroma!
+ Rosa ineffavel, que, se á luz assoma,
+ Haste e raiz apodreceu com ella!
+
+ Sol, que uma vez em nossa vida passas!
+ Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera;
+ Que se abre morre, mas sem prole, inteira
+ Com todo o côro das virgineas graças:
+
+ Ao vêr-te, embora meu olhar te envia
+ O impio incenso de Nadab, ajoelho...
+ Rosa da face e, não só rosa, espelho
+ Da face occulta de quem espalha o dia!
+
+ Se por teus membros orvalhadas flôres
+ Prodigas mãos da formosura entornam,
+ Flôres mais bellas o teu seio adornam...
+ Vós, lirios d'alma, virginaes amores!
+
+ O céo me encanta, como encanta o inferno.
+ Mysterio... espaço... mente exploradora!
+ Morre nas mãos o que a nossa alma adora
+ --Vago, impalpavel, infinito, eterno!
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ A Escriptura Sagrada
+ Lá diz que uma mulher má
+ Não ha fera, não ha nada
+ Peor no mundo: e não ha.
+
+ Uma lá da minha aldeia,
+ Que era muito impertinente,
+ Muito má (e muito feia)
+ Morre um dia de repente.
+ Morreu; desgraçadamente
+ Mais tarde do que devia;
+ Mas em summa toda a gente
+ Teve a maior alegria.
+
+ Passados annos (é boa!)
+ Foi-lhe preciso ao coveiro
+ Abrir a cova, e achou-a
+ Ainda de corpo inteiro,
+ Ainda rosas na face,
+ Ainda signaes de vida...
+ Milagre! coisa sabida;
+ Pois mais fresca que uma alface
+ Ha tanto tempo enterrada,
+ Devendo estar reduzida
+ A pó, terra, cinza e nada...
+
+ Vem dar parte; e corre a vêl-a
+ O povo atraz do prior;
+ E passam logo a trazel-a
+ Em cima do seu andor
+ E a pol-a n'uma capella
+ De grande veneração;
+ (Elles ás costas com ella,
+ E elle a cantar canto-chão;)
+ Mas seja lá o que fôr,
+ O que é certo e mais que certo
+ É que santa como aquella
+ E nem de mais devoção,
+ Não ha por alli tão perto.
+
+ E dizem que não ha santos
+ Como nos tempos passados!
+ E cá opinião minha
+ Que muitos (quantos e quantos!)
+ Que ahi morrem desprezados,
+ Se não são canonisados
+ É que está cheia a _Folhinha_.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A UM NUNO
+
+Provando a existencia de Deus a pobres camponezes
+
+
+ Ora a provar que ha Deus, Nuno! isso é teima:
+ Pois ha alguma ovelha no rebanho
+ Que não saiba que só a mão suprema
+ Creava um animal d'esse tamanho!
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A ***
+
+
+ Pois se como sempre fomos
+ Somos
+ Pétalas da mesma flôr,
+ E o que eu sinto, ou eu me illudo,
+ Tudo
+ Tambem sentes, gosto e dôr;
+
+ Que te arraza os olhos d'agua?
+ Magua
+ Em que eu não deva tocar?
+ Oh! mas se ha quem a suavise,
+ Dize,
+ Vou-lhe um suspiro levar.
+
+ Não se alcança, não se avista,
+ Dista
+ D'aqui muito o allivio, ou não?
+ Dos teus olhos muito; e pouco,
+ Louco!
+ Pouco do teu coração.
+
+ Sei o que vai em teu seio;
+ Sei-o
+ Porque em materia d'amor,
+ Debalde os labios se calam!
+ Fallam
+ Ainda os olhos melhor!
+
+Batalha.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+LUZ DA FÉ
+
+
+ Tu, sol! já não me alegras
+ Como alegravas, não:
+ Vós, sim, ó nuvens negras,
+ Relampago e trovão!
+
+ Quando o trovão me aterra,
+ Recordo-me de Deus;
+ Abalo cá da terra
+ E vou por esses céos:
+
+ E lá n'essas alturas,
+ Por onde só a fé,
+ Em regiões tão puras,
+ Nos deixa tomar pé;
+
+ Voar, pairar nos ares
+ Como uma aguia cá,
+ De lá só vejo os mares,
+ E é porque a luz lhes dá.
+
+ O mais como se apanha
+ E empolga com a mão,
+ Seja a maior montanha,
+ Seja a maior nação;
+
+ O mais fica no fundo
+ D'esse infinito mar;
+ O mais pertence ao mundo,
+ É escusado olhar.
+
+ Deus deixa ás creaturas
+ Cá baixo a sua cruz,
+ E fecha as almas puras
+ N'um circulo de luz.
+
+ As chagas, as miserias
+ Cá d'este lamaçal,
+ Nas regiões ethereas,
+ Lá não se avista tal.
+
+ É só a luz, que foge,
+ Mais uma irmã que tem
+ --A alma, que até hoje
+ Não a prendeu ninguem;
+
+ São essas duas luzes
+ (Qual d'ellas tão subtil
+ Que ás forcas e ás cruzes
+ Do despota mais vil,
+
+ Se escapam de tal modo
+ Que é de o fazer raivar)
+ Cá d'este mundo todo
+ O que se vê brilhar!
+
+ Porque uma e outra aspira
+ Continuamente ao céo,
+ A alma que suspira,
+ E a luz que Deus nos deu.
+
+ Porque uma e outra é pura,
+ Perpetua e immortal;
+ E a sua formosura,
+ Não ha nenhuma igual.
+
+ Quem é, ó luz formosa,
+ Ó minha bella irmã!
+ Quem é que faz a rosa
+ Abrir pela manhã?...
+
+ Eu amo-te e (as trevas
+ Não teem esplendor!)
+ Tu só é que me levas
+ O tempo e o amor.
+
+ Mas eu estimo o raio
+ E gósto do trovão,
+ Por vêr que quando cáio
+ É que me elevo então.
+
+ Por vêr que em tendo medo
+ Mais se me aviva a fé;
+ E a fé, não ha rochedo
+ Firme como ella é.
+
+ Por cima da desgraça
+ Ou seja do que fôr,
+ Ella, não olha, passa
+ De fito no Senhor!
+
+ A essa luz divina,
+ Ó luz! é que tu és
+ Tão pura e crystallina
+ Como o Senhor te fez.
+
+ Por isso a noite escura,
+ Ah! se eu a preferi
+ Á tua luz tão pura,
+ É por amor de ti!
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+RESPOSTA
+
+A A. DO QUENTAL
+
+
+ Tal é a confiança que te inspira
+ Estes reis, estes povos, esta gente,
+ Que é para o céo que appella e se retira
+ Tua alma já de triste e descontente.
+
+ Mas Deus então seria ou impotente
+ Ou seria um Deus barbaro: mentira!
+ Não póde suspirar eternamente
+ Quem ha já tantos seculos suspira.
+
+ Vai ganhando terreno a luz brilhante,
+ Luz toda liberdade e toda amor
+ Que ha-de salvar o mundo agonisante.
+
+ A idéa, esse Verbo creador
+ Ha-de fazer que um dia e não distante
+ Só o nome de imperio inspire horror.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Meu casto lirio,
+ Terno delirio,
+ Gloria e martyrio
+ Do meu amor!
+ Amo-te como
+ A haste o gomo,
+ O labio o pomo
+ E o olho a flôr.
+
+ Se ao meu ouvido
+ Sôa um rugido
+ Do teu vestido,
+ Que ouço roçar;
+ Que som me vibra
+ Não sei que fibra
+ Que me equilibra
+ A mim no ar!
+
+ E que harpa santa
+ É que me encanta
+ E enche de tanta
+ Consolação,
+ Quando uma falla
+ Terna se exhala
+ D'onde se embala
+ Teu coração!
+
+ Quando te vejo
+ D'um simples beijo
+ Córar de pejo,
+ Mudar de côr,
+ Que susto é esse
+ Que me parece
+ Te empallidece,
+ Rosa d'amor!
+
+ Quando no leito,
+ Teu niveo peito
+ Sonho que estreito
+ E aperto ao meu;
+ Vendo tão perto
+ O céo aberto,
+ Porque desperto...
+ Anjo do céo!
+
+ Não fujas, rosa!
+ Não fujas, goza
+ Manhã mimosa,
+ Manhã d'amor;
+ De folha em folha
+ A flôr se esfolha
+ Bem cedo, e olha
+ Que és como a flôr!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+VENTURA
+
+
+ O sol na marcha luminosa vôa
+ Lançando á terra magestoso olhar;
+ Passa cantando quem o ar povôa
+ E a praia abraça venturoso o mar.
+
+ No bosque o vento dôce canto entôa,
+ Ouvem-se em côro as multidões cantar;
+ Que a um só triste o coração lhe dôa,
+ Que eu seja o unico a soffrer, chorar...
+
+ Por ti, saudade... de quem vai tão perto
+ E a quem dos olhos e das mãos perdi
+ N'este tão ermo lugubre deserto!
+
+ Por ti, ventura... que uma vez senti;
+ Por ti, que ás vezes a meu peito aperto
+ E... o peito aperto sem te vêr a ti!
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Arida palma
+ Tem seu licôr,
+ Tem como a alma
+ Tem seu amor;
+ Tem como a hera
+ Tem seu abril,
+ Tem como a fera
+ Tem seu covil.
+
+ Tem toda a planta
+ Que o sol queimou
+ Lagrima santa
+ Que a orvalhou,
+ E o passarinho
+ Que hontem nasceu
+ Lá tem seu ninho
+ Que a mãi lhe deu.
+
+ Só eu na magua
+ Do meu penar
+ Sou como a agua
+ Que anda no mar,
+ Sou como a onda
+ Que á busca vem
+ D'onde se esconda,
+ E onde, não tem!
+
+ Folha revolta
+ Que anda no chão,
+ Lagrima solta
+ Do coração;
+ Corpo sem vida,
+ Haste sem flôr,
+ Folha cahida
+ Do meu amor.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A UNS OLHOS AZUES
+
+
+ Cahe a folha da rosa pudibunda,
+ Cahe a rosa da face virginal,
+ Cahe das nuvens a aguia moribunda,
+ Cahe o sol na montanha occidental.
+
+ Cahe a onda na praia, cahe do somno
+ O poeta na luz; e cahe das mãos
+ Dos despostas o sceptro, elles do throno,
+ Como a seus pés cahiram seus irmãos!
+
+ Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos
+ A lagrima tambem, que d'alma sahe;
+ Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos
+ A flôr de liz; de louro a folha cahe.
+
+ Cahe do céo a centelha incendiaria,
+ A nuvem cahe se um sopro Deus lhe dá,
+ Cahe ante o dia a noite solitaria
+ Como o falso Dagon ante Jehovah.
+
+ Cahe tudo, flôr! cahe tudo; eu só não cáio:
+ Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus,
+ Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
+ Se elle cahir do céo dos olhos teus!
+
+Luso.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+HERESTA
+
+
+ Que magua ou que receio
+ Dos olhos te desata
+ Aljofares de prata
+ No jaspe do teu seio?
+
+ Bem intima ser deve
+ A pena que te opprime,
+ Flôr tenra como o vime,
+ Flôr pura como a neve!
+
+ --Compunge-te isso, dóe-te
+ Vêr esmaltando o calix
+ Da erma flôr dos valles
+ O balsamo da noite?
+
+ Se aos olhos nos affluem
+ As lagrimas, parece
+ Que a dôr nos adormece,
+ E as maguas diminuem.
+
+ --Heresta! pois inclina
+ Na minha a tua face
+ E deixa me repasse
+ Teu balsamo, bonina!
+
+ Abraça-me, divide
+ Commigo esse consolo,
+ Enlaça-te ao meu collo
+ Como ao olmeiro a vide!
+
+ Ás vezes tambem quando
+ Os olhos se me estendem
+ Ás luzes, que se accendem
+ No templo venerando;
+
+ Tão intima saudade,
+ Tão intimo desejo,
+ D'um mundo, que não vejo,
+ Me inspira a immensidade...
+
+ Que o pranto se agglomera
+ Na palpebra, onde morre;
+ Sim, gela-se, não corre,
+ Tal é a dôr que o gera!
+
+ --É Deus que a si te aspira,
+ É Deus que ao céo te chama;
+ Que em tudo amor derrama,
+ A tudo amor inspira!
+
+ Canta-o, o justo, o santo!
+ E a flôr que o campo adorne
+ Thuribulo se torne
+ Mal te ouça o dôce canto.
+
+ --Inspira-o pois, inspira,
+ Virgem de intacto pejo!
+ Seja um teu riso o harpejo
+ E um teu cabello a lyra!
+
+ ----------
+
+ O sol já da montanha
+ Te disse adeus! adeus!
+ E a cupula dos céos
+ Ficou pallida e estranha.
+
+ E aquella, que a bondade
+ De Deus em si reflecte,
+ Em quanto ao sol compete
+ Mostrar-lhe a magestade,
+
+ Á luz extrema d'hoje
+ Ergueu livida a face
+ Com medo que avistasse
+ Quem busca, e de quem foge.
+
+ Fluxo e refluxo eterno
+ D'alma contradictoria,
+ Que após continua gloria,
+ Anda em continuo inferno.
+
+ Poeta! é copia tua,
+ Supplicio igual te inquieta.
+ Mas que alma de poeta
+ Teu seio arqueia, oh lua?
+
+ Amor, amor como este,
+ Visão timida e casta
+ Em giro eterno arrasta
+ A lampada celeste.
+
+ Como esse que a deshoras
+ A ti te ergue a cabeça
+ E aos ermos te arremessa
+ Em busca do que adoras.
+
+ Mas, ah! pallido globo!
+ É pio d'ave nocturna,
+ Echo em alguma furna
+ Do uivo d'algum lobo?
+
+ Ouço uma voz... escuta:
+ É ella a voz que se ouve?
+ Ou monge que inda louve
+ A Deus, n'alguma gruta!
+
+ Quem lá em baixo á escarpa
+ D'um ingreme penedo
+ No tremulo arvoredo
+ Entorna os ais d'uma harpa?
+
+ É ella a minha Heresta,
+ A minha branca ermida
+ Do ermo d'esta vida,
+ Mais erma que a floresta?
+
+ Tu, lua, que no val
+ D'Aialon paraste,
+ Já viste em sua haste
+ Suspenso lirio igual?
+
+ Não é, não é mais bella
+ A rosa entre os abrolhos,
+ Nem ha como os seus olhos
+ No céo nenhuma estrella!
+
+ É á luz d'uma alvorada,
+ Apenas desabrocha,
+ Nos angulos da rocha
+ Vêl-a despedaçada!
+
+ Vós, lobos! ide em bando,
+ Trepai pelo rochedo,
+ Uivai, mettei-lhe medo,
+ Levai-a recuando!
+
+ Que faz quem se aproxima
+ D'um precipicio, diz-m'o?
+ Que buscas tu no abysmo
+ Se o céo é lá em cima?
+
+ Não tarda muito, creio,
+ Que acabe esta ancia nossa,
+ E Deus unir-nos possa
+ No seu eterno seio.
+
+ É lá que a alma falla,
+ Lá que o amor se mede,
+ Que em brilho o sol excede,
+ E em gloria a Deus iguala!
+
+ Na nuvem do futuro
+ Teus vagos olhos prega!
+ Depois de noite negra
+ Vem sempre um céo mais puro.
+
+ ----------
+
+ E agora, se o desejo
+ Te satisfiz, em premio
+ D'um canto d'alma gemeo,
+ Um gemeo e dôce beijo!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+FRAGMENTO
+
+
+ ..........................................
+
+ Deixal-o: os olhos fecho á luz e quero...
+ Quero-te, oh sonho, se és doirado e lindo:
+ Mais que a teus fachos, pedagogo austero!
+ Que me condemnas em chorando e rindo.
+ Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo...
+ Razão! não te amo; mas a ti, bemvindo,
+ Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas;
+ Dás luz á lua, dás á rosa aromas.
+
+ Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos;
+ Ha tres razões que as coisas determinam;
+ Uma a dos olhos; outra a que escondemos
+ N'isso ante que os alemos se inclinam;
+ Outra a que dentro no coração temos,
+ Que os limites do espaço só terminam:
+ Coube a primeira em sorte á borboleta;
+ A outra ao homem; a terceira ao poeta.
+
+ Mas será só poeta quem faz versos?
+ Não é a flôr poeta que o sol canta?
+ Não cabe aos ais tão intimos, dispersos
+ Do cantor triste nome e gloria tanta?
+ Esses aereos tão mimosos berços,
+ Que, excepto o homem, o furor quebranta
+ A quanto é fero e sanguinario, acaso
+ Cada um d'elles não é um parnaso?
+
+ Mais poesia em pobre margarida,
+ Que aos pés se pisa, enthesoirada vejo,
+ Que em muita madreperola polida
+ Que as cinzas guarda de finado harpejo.
+ Dize-me, pomba! que no ar sustida
+ Vens como a nuvem coroar d'um beijo
+ Quem teus desvelos maternaes comparte:
+ Camões excede-te em engenho e arte?
+
+ Vaidade humana! Do que é simples, claro,
+ Fazem mysterio; dão-lhe um nome e basta:
+ Como esse eunucho sacerdocio avaro
+ Que da verdade as multidões afasta...
+ Mas a verdade não é pedra d'ara
+ Nem arca-santa que só certa casta
+ Tem privilegio de levar ao hombro
+ Ou vêr de perto, sem morrer d'assombro.
+
+ Padre, ministro do Crucificado
+ É bom ferreiro afeiçoando o ferro
+ Com que ha-de prestes ir rompendo o arado
+ Os campos d'este secular desterro.
+ Melhor explicam um lugar sagrado
+ Bigorna e malho, que explica o berro
+ De bonzo inutil; que asperos abrolhos
+ Não viram nunca seus inchados olhos.
+
+ Apostolo é o pai que se afadiga
+ Só para que descance o filho amado;
+ Apostolo é a rocha em que se abriga
+ Ave agoureira e pobre desgraçado;
+ Apostolo é a lagrima que amiga
+ Cahe pela face em peito amargurado;
+ E esse monstro do céo que solitario
+ Correu o mundo á busca do Calvario.
+
+ E assim vós outros, falsos sacerdotes!
+ Que a mesma crença sustentar devêreis,
+ Poetas vos chamaes se em ôcos motes
+ Sabeis vasar combinações estereis?
+ Monges! tendes o habito; se os dotes,
+ Os doze dons do Espirito tivereis,
+ Crêreis que é mais poeta o dôce favo
+ Que a abelha fabríca em mato bravo.
+
+ Fechei a minha bocca largo espaço
+ Para vêr e pasmar; eu não podia
+ Tirar os olhos do tributo escaço
+ Que paga o albergue quando acaba o dia.
+ Pelo filhinho em maternal regaço
+ Como ave em ninho a balançar, medía,
+ Não essa Iliada a compasso austero,
+ Mas a de Christo, a do celeste Homero.
+
+ Lia esse livro que anda encadernado
+ Em pelle humana e embrulhado em pranto,
+ Mas para bençãos, para amor dictado
+ E quanto ha puro, quanto ha bello e santo:
+ Livro que o impio soletrou tocado,
+ Se o impio os olhos pôde erguer a tanto;
+ Mas que a moirama só conserva vivo
+ Porque não morre o immortal captivo.
+
+ Não morre: eterno como a fonte d'onde
+ Dimana a luz, a vida, amor e tudo,
+ Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde
+ O céo, o espaço, o infinito mudo...
+ O mundo mudo! para quem? responde,
+ Valente martyr! que o pesado escudo,
+ Com que a verdade os olhos encobria,
+ Morreste mas quebraste á luz do dia.
+
+ «Existe um pai commum, que a todos ama
+ E d'elles só juiz a si reserva
+ Punil-os de seu mal; o sol derrama
+ Por cedro erguido e enterrada herva;
+ Desarma o laço que a perfidia trama,
+ Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva
+ Braço que se ergue contra irmão; fecunda
+ Semente que não cahe de mão immunda.
+
+ «Diante d'elle as obras apparecem
+ Taes como as gera o intimo do peito:
+ Basta o amor do bem, se as mãos fallecem;
+ Sem esse amor é nada o grande feito.
+ Embora os homens de soltar se esquecem
+ Quem chora escravo; porque, em seu conceito
+ Deixe chorar quem purpuras arrasta,
+ Cante que é livre na verdade, e basta.»
+
+ Ella o resto fará; porque a seu braço
+ Reis não resistem, não resistem povos:
+ Um raio a nuvem parte e deixa o espaço
+ Coalhado d'astros que parecem novos:
+ Põe ao sol, que o fecunde, o simples traço,
+ Como a grande avestruz os grandes ovos;
+ E quem depois no mundo a luz lhe apaga?
+ Ninguem apaga a luz que o mundo alaga.
+
+ Sacerdocio embusteiro as mãos lhe prega
+ Em tronco immovel que seus labios gele;
+ Á justiça profana o justo entrega
+ (Sua irmã gemea que a verdade expelle:)
+ Já das almas senhor o rosto alegra,
+ Já morto o canta, sepultado e elle
+ Só o consome o incendio que já lavra
+ De bocca em bocca, o incendio da palavra.
+
+ Nenhum de nós o viu andar prégando,
+ Nenhum seu olhar vago lhe notámos,
+ Nunca o vimos no ermo a Deus orando,
+ Nunca a mão estendida lhe apertámos;
+ E por todos seu nome vai passando,
+ Todos, os seus preceitos, decorámos...
+ E que vá vêr-lhe a campa ao Oriente
+ Quem os olhos da carne tem sómente.
+
+ Que é um tumulo acaso, esse tributo
+ Pago pela materia á vil materia?
+ Quem vai na campa alliviar o luto
+ Se a vista alonga á amplidão aerea?
+ Quem a copia de Deus rebaixa a bruto,
+ E a mais que bruto a immortal, etherea,
+ Celeste pomba, que em seu vôo a vida
+ Em factos deixa ás almas esculpida?
+
+ Não me embala inda Homero nos seus braços
+ E me pinta nas mãos a natureza?
+ Não lhe ouço eu inda a voz...como ouço a espaços
+ A voz da grande Fama portugueza...
+ Quando me apraz olhar para os pedaços
+ D'este grande gigante que a fraqueza
+ Expoz aos coices...leão moribundo...
+ O rei antigamente d'este mundo?
+
+ Eu não sou dos que a patria sua adoram
+ Como adora o seu deus o fiel crente.
+ Vejo que todos n'uma patria moram
+ E sobre todos vejo um céo sómente:
+ Mas ame cada qual; que se outros choram
+ Nas mãos dos tigres que só comem gente,
+ Tambem meus olhos choram seu tormento
+ D'onde quer que seus ais me traga o vento.
+
+ Deixai ir em seu transito divino
+ Desde a Cruz do Calvario na Judêa,
+ Té á ponta da espada d'aço fino
+ Desembainhada em Italia, o tempo, a idêa.
+ Deixai andar a vêr o peregrino
+ Onde a ventura abunda, onde escassêa
+ Para vos dar, no oiro (Fé e Esperança!)
+ Rei e pastor nas conchas da balança.
+
+ Ha-de vir esse dia; e se a figueira
+ Em abrolhando perto vem o estio,
+ Não longe está: a cobra carniceira
+ De mil roscas e lugubre assobio
+ Que terra come, e come a terra inteira,
+ Se á terra inteira se enrolar, despiu
+ A pelle enorme com bastantes dôres
+ Esfolada por tres imperadores...
+
+ Eu não sei qual mais chore; se essa sêde
+ De sangue insaciavel dos tyrannos,
+ Ou se é a escuridão vossa que eu hei-de
+ Antes chorar, oh miseros humanos!
+ Que solimão vos deram, loucos! vêde:
+ Não vale a gloria que vos faz ufanos
+ Um só pingo de sangue, um só, vertido,
+ Um gemido de mãi, um só gemido!
+
+ É do sangue e das mães que eu fallo; e certo,
+ Que ha na vida mais santo? O sangue é vida;
+ E as mães fonte da vida: eu nunca esperto
+ Esta lampada d'alma, suspendida
+ Na abobada eterna e que tão perto
+ Parece ter a origem............
+ ................senão quando
+ Vejo essa cara imagem suspirando.
+
+ Eu amo as mães, seu nome é terno e dôce;
+ Sim, amo as mães: nossa alma d'ellas nasce:
+ Quem n'um collo de mãi cahiu, achou-se
+ D'um pulo ao pé de Deus: a alma pasce
+ Lirios celestes vendo-as; e seccou-se,
+ ........................................
+ Do casto e candido a sagrada fonte,
+ Se ella no tumulo encostou a fronte.
+
+ Essa é a virgem-mãi, voz suavissima
+ D'esse cantico eterno--o Evangelho;
+ A Virgem... Mãi... de Deus! virgem purissima,
+ Cheia de graça e de justiça espelho.
+ Oh poesia, poesia altissima
+ Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho
+ E beijo a tua base, harpa celeste!
+ O coração, a corda que nos déste.
+
+ Em que labios se bebem mais delicias,
+ Em que face de virgem se desatam
+ Rosas mais puras d'intimas primicias,
+ Que nas que por dar vida a nós se matam?
+ Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias
+ Na menina dos olhos nos retratam;
+ E nunca premio vil em paga pedem
+ De quanto, tanto d'alma, nos concedem.
+
+ Na montanha da Fé, mulher formosa
+ Se ante mim a meus pés desenrolasse,
+ Como o demonio, a vastidão pasmosa
+ Que elle dava a Jesus se o adorasse;
+ E me pedisse em premio uma só coisa
+ --Ás mãos de minha mãi furtar a face;
+ Eu lançava-lhe o cuspo, essa tesoira
+ Que em mil bocados faz a vacca-loira.
+
+ Vêde-a ao berço, sofrega de vida,
+ Que a sua é pouca para a dar ao filho;
+ Ella em cama de espinhos, mal vestida;
+ Elle enfaxado, em berço de tomilho;
+ Ella em contínua, azafamada lida,
+ Elle vendo se apanha á luz o brilho...
+ Já descobrindo em tão tenrinha idade
+ Que toda a sua sêde é de verdade.
+
+ E esses lobos que em duas patas andam
+ Para ter sempre em guarda as outras duas;
+ Que a monte sahem só, e só debandam
+ Como os ladrões, á noite, pelas ruas;
+ A empecer que os animos se expandam,
+ Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas,
+ Bom Deus! de imagens passem: e que admira...
+ Sem o sopro que ao barro a vida inspira!
+
+ Já se iam vendo os campos relvejando
+ Cá da banda do sol n'este horisonte
+ Por onde já n'um mar se andou nadando
+ E onde apenas se encontra secca fonte;
+ E eil-os já os hypocritas minando,
+ Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte
+ Só para que o manná que o céo lhe chove
+ No deserto dos reis jámais nem prove.
+
+ Retalhou-lhes o labio omnipotente
+ O habito comprido, a manga larga,
+ Olhar submisso mas lugar na frente;
+ E nem despido o monstro a presa larga.
+ «São sepulchros caiados, vêde, oh gente!
+ Por dentro podridão:» em voz amarga,
+ Em voz de grande horror, de grande abalo,
+ Christo clamou d'aquelles de quem fallo.
+
+ «Dizimam-te o coentro e a arruda,
+ Mas sua consciencia é generosa.
+ Chamam-se mestres... de sciencia muda,
+ A sciencia da cobra venenosa:
+ Olhai, não espia a fera, espreita, estuda
+ Toda a volta do dia, mais manhosa,
+ Que essa raça de viboras, que espalha
+ Veneno em todo o mundo, que coalha.»
+
+ Irmãs da Caridade! A Caridade
+ Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança:
+ Não traja as côres só d'uma irmandade,
+ Traja as côres do Arco-da-alliança:
+ Leva sósinha o pão da piedade,
+ Tira da roda essa infeliz criança...
+ Roda da vida, que anda de tal sorte
+ Que, em se lhe dando, é já contar com a morte.
+
+ Bemdita sejas tu, victima triste
+ De um peito amante e d'um amante ingrato!
+ Que nunca á mesma loba lançar viste
+ Inda mamando o cachorrinho ao mato;
+ Bemdita sejas tu, que o que pariste,
+ Teu fructo, imagem tua e teu retrato
+ Conservas como espelho onde te vejas;
+ Bemdita sejas tu, bemdita sejas.
+
+ Pára suspensa a pomba no seu vôo
+ Ao vêr-te contemplando-o ajoelhada;
+ E dizendo-te, a pomba: eu te abençôo
+ Da parte do pai nosso, irmã amada!
+ Abriste o seio ao dia e fecundou-o
+ Aquella luz que o mundo fez de nada,
+ E deu ao campo a flôr, á flôr semente
+ Com que a mãi os filhinhos seus sustente.
+
+ Bemdita sejas tu. Quando se esconde
+ Debaixo da tua aza o que criaste,
+ Abraça e beija os anjos Deus lá onde
+ A jarra está da flôr de que és a haste;
+ E um dia que não tenhas pão avonde
+ Ou do céo te não chova agua que baste,
+ Lança-lhe á luz do dia a mão direita,
+ Mostra-lh'o; Deus os filhos não engeita.
+
+ Pai não tinha o filhinho de Maria
+ E ella o bercinho lhe arma de mil flôres,
+ Deixando entrar em casa a luz do dia
+ Que em perfume as derreta em seus amores;
+ E inda abrindo os olhinhos mal lhe via,
+ Já os pinceis preparam os pintores;
+ Que o pai d'esse menino... Oh maravilha!
+ Os que não teem pai Deus os perfilha.
+
+ Deixa passar de largo a desposada...
+ De cujo filho o pai quem é, Deus sabe!
+ Deixa-a roçar-te os fatos enfadada
+ Se comtigo na praça a par não cabe:
+ Talvez um dia a casa levantada
+ Sobre a areia solta ao chão desabe
+ E em ruinas se encontre este letreiro:
+ «Não era o pai dos teus mais verdadeiro.»
+
+ Quem é que nasce aos pares como a rola,
+ Ou como a pomba morre em viuvando,
+ Que pela vêr sósinha em lodo atola
+ Fresca vide que está do chão lançando?
+ Acaso é só dourada altiva estola
+ Que liga os corpos em as mãos ligando,
+ Confunde os corações, e faz em summa
+ Que a Deus se elevem duas almas n'uma?
+
+ Amor é a palavra, o brado eterno
+ Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
+ Que fez tremer os carceres do inferno
+ E o sol ficou da côr d'um moribundo:
+ A primavera, estio, outono, inverno,
+ Terra, céo, alma pura, bicho immundo,
+ Tudo ahi cabe á larga de tal modo
+ Que n'essa concha Deus se fecha todo.
+
+ Amor enrola a nuvem na montanha
+ E espalma a onda em praia que não sente,
+ Ata ao raio de sol o fio d'aranha
+ E humilha ao conductor o raio ardente.
+ Quanto na rede immensa a vista apanha.
+ Tudo que jaz e cresce e vive e sente,
+ De Deus brotou n'um jorro de bondade
+ E póde amar-se em espirito e verdade.
+
+ Amo á aurora a luz doirada e clara,
+ E ao crepusculo as nuvens da tristeza,
+ A solida montanha, a nuvem rara
+ Por invisivel fio aos astros presa;
+ Amo a ancia feroz, a sêde avara
+ Com que a loba parida engole a presa,
+ E os crystallinos ais d'ave innocente
+ Que comprimenta o sol ingenuamente!
+
+ Amo o sopro que parte, esmaga, estala
+ Esses corvos que aos bandos vem das ondas
+ N'essas noites que o impio até se cala
+ Receando, trovão! que lhe respondas...
+ E amo o bafo subtil que a flôr embala
+ Pedindo-te, botão, que dentro o escondas,
+ E as primicias lhe dês que leve áquelle
+ Que te fez a ti flôr e vento a elle.
+
+ Tu só, que horror! a ti oh não te amo!
+ Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baços
+ Olham, não vêem; tu tens bocca, chamo,
+ Não me respondes; tens como eu dois braços,
+ E não me abraças; brado afflicto, clamo,
+ Tens duas pernas, e não dás dois passos:
+ Ris, mas teu riso é d'enrilhados dentes;
+ Mettes-me medo; tu, cadaver! mentes.
+
+ Ninguem (prohibe-o Deus) o braço córte
+ Que lhe roubou o espirito divino;
+ Deus a Cain apaga sul e norte
+ E condemna a viver o assassino:
+ Mas tu, mentira! symbolo da morte...
+ Hypocrisia! teu sorrir felino
+ Te deixe arreganhada a bocca aberta,
+ Gele-te a morte a mão que a minha aperta.
+
+ ..........................................
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Se ao enlaçal-a no peito
+ Me cahe desfeita uma flôr,
+ Lembras-me, sonho desfeito!
+ Sonho d'amor!
+
+ Se a borboleta do calix
+ D'um lirio aos ares se ergueu,
+ Lembras-me, estrella dos valles!
+ Lirio do céo!
+
+ Se inda um affecto em mim vive
+ Entre os que mortos possuo,
+ Lembras-me, sonho que eu tive!
+ Lembras-me tu!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta)
+ Não tendo eu mais talvez que os meus dez annos
+ Esses olhos crueis, esses tyrannos
+ Commigo em porfiada aberta lucta.
+
+ Se eu fôra voraz lobo ou fera bruta
+ D'entranhas más, instinctos deshumanos,
+ Talvez o fructo então de teus enganos
+ O não colhesses tu de face enxuta.
+
+ Mas eu perdôo-te o mal que me has causado;
+ A culpa não é tua e só devia
+ Vingar-me em quem tão bella te ha formado.
+
+ E hei-de vingar-me, crê; mas isso um dia
+ Depois d'um beijo teu me pôr em estado
+ De disputar a Jove a primazia.
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+DINHEIRO
+
+
+ O dinheiro é tão bonito,
+ Tão bonito, o maganão!
+ Tem tanta graça o maldito,
+ Tem tanto chiste o ladrão!
+ O fallar, falla d'um modo...
+ Todo elle, aquelle todo...
+ E ellas acham-no tão guapo...
+ Velhinha ou moça que veja,
+ Por mais esquiva que seja,
+ _Tlim!_
+ Papo.
+
+ E a cegueira da justiça
+ Como elle a tira n'um ai!
+ E sem pegar n'uma pinça;
+ É só dizer-lhe: ahi vai...
+ Operação melindrosa
+ Que não é lá qualquer coisa;
+ Catarata! tome conta:
+ Pois não faz mais do que isto,
+ Diz-me um juiz que o tem visto:
+ _Tlim!_
+ Prompta.
+
+ N'essas especies de exames
+ Que a gente faz em rapaz,
+ São milagres aos enxames
+ O que aquelle diabo faz.
+ Sem saber nem patavina
+ De grammatica latina,
+ Quer-se a gente d'alli fóra?
+ Vai elle com taes fallinhas,
+ Taes gaifonas, taes coisinhas...
+ _Tlim!_
+ Ora...
+
+ Aquella physionomia
+ E labia que o diabo tem!
+
+ Mas n'uma secretaria
+ Ahi é que é vêl-o bem!
+ Quando elle, de grande gala,
+ Entra o ministro na sala,
+ Aproveita a occasião:
+ Conhece este amigo antigo?
+ --Oh meu tão antigo amigo!
+ (_Tlim!_)
+ Pois não!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+DUVIDA
+
+
+ Amas-me a mim! Perdôa;
+ É impossivel! Não,
+ Não ha quem se condôa
+ Da minha solidão.
+
+ Como podia eu, triste,
+ Ah! inspirar-te amor,
+ Um dia que me viste,
+ Se é que me viste... flôr!
+
+ Tu, bella, fresca e linda
+ Como a aurora, ou mais
+ Do que a aurora ainda,
+ Mal ouves os meus ais!
+
+ Mal ouves porque as aves
+ Só soltam de manhã
+ Seus canticos suaves;
+ E tu és sua irmã!
+
+ De noite apenas trina
+ O triste rouxinol:
+ Toda a mais ave inclina
+ O collo ao pôr do sol.
+
+ Porquê? porque é ditosa!
+ Porquê? porque é feliz!
+ E a que sorri a rosa?
+ Ao mesmo a que sorris!
+
+ Á luz doirada e pura
+ Do astro creador.
+ Á noite, não, que é escura,
+ Causa-lhe a ella horror.
+
+ Ora uma nuvem negra,
+ Uma pesada cruz,
+ Uma alma que se alegra
+ Só quando vê a luz
+
+ De que elle, o sol, inunda
+ O mar, quando se põe!
+ Imagem moribunda
+ D'um coração... que foi!
+
+ Uma alma semelhante
+ Não póde captivar
+ Um rosto tão galante,
+ Um tão galante olhar!
+
+ E eu vi os caracteres
+ Que a tua mão traçou:
+ Mas vós... ah! vós, mulheres,
+ Quem já vos decifrou!
+
+ Mal te sustinha o pulso
+ A delicada mão!
+ Sentia-te convulso
+ Bater o coração!
+
+ Via-te arfar o seio...
+ Corar... mudar de côr...
+ E embora, ah! não, não creio...
+ Tu não me tens amor!
+
+Portimão.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CATURRAS
+
+
+ Ah! compadre, a gente foge,
+ Desabelha com calor;
+ Aqui faz fresco na loge,
+ É onde se está melhor;
+ Mas que calor que fez hoje!
+
+ --Pois, olhe, assim eu me désse
+ De inverno quando faz frio,
+ Como agora que elle aquece.
+ Tome dois banhos no rio,
+ Logo vê como arrefece.
+
+ --Compadre, nunca me traga
+ Taes coisas á collação;
+ Lembra-me a maldita draga,
+ Compadre do coração!
+ Não me falle n'essa praga!
+
+ --Tenho-lhe a mesma amizade
+ Que o meu compadre lhe tem,
+ Ás vezes dá-me vontade
+ Até de a tragar tambem...
+ Digo-lhe isto com verdade.
+
+ --Ha-de isto chegar a pontos
+ Que quem viver ha-de vêr!
+ Já lá vão setenta contos,
+ E a draga a apodrecer,
+ E trabalhos nenhuns promptos.
+
+ --Setenta, diz o compadre?
+ Dão-lhe elles esse verniz...
+ Lá como a sua comadre...
+ Mas eu cá o que ella diz
+ É como o que diz o padre...
+
+ --Pois inda isso continúa?
+ --Eu sei lá, compadre, eu sei!
+ Ora canta, ora se amua...
+ Eu é que já me lembrei
+ De a pôr um dia na rua!
+
+ --Compadre, tenha miolo,
+ Isso não se faz assim;
+ Eu não me tenho por tolo,
+ E ponha os olhos em mim...
+ Sirva-lhe isso de consolo.
+
+ --Pois bem sei que é ninharia,
+ Mas o compadre o que quer?
+ Estimo a minha Maria,
+ E isto de homem com mulher...
+ Mas vamos á vacca fria:
+
+ Com que a draga...--É empregada,
+ Coisa que nunca se viu,
+ Sendo uma peça aceada,
+ A tirar lama do rio!
+ Parece isto caçoada...
+
+ --E caçoada indecente
+ Porque outra coisa não é.
+ Mais economicamente
+ Quando vasasse a maré
+ A tirava mesmo a gente.
+
+ --E depois aquillo é lodo
+ Que nunca póde prestar.
+ Veja aterrar o caes todo
+ Quando não ha-de importar...
+ É gastar dinheiro a rodo.
+
+ --Haja decima e derrama;
+ Por causa do quê? do caes,
+ Da draga ou como se chama,
+ E outras coisinhas que taes
+ Que tudo a final é lama.
+
+ Pois sendo tudo bem feito
+ Como á antiga, vá lá!
+ Mas olhe, o caes não tem geito;
+ De tudo quanto alli ha,
+ A meu gosto, o parapeito.
+
+ --Sim, senhor, obra segura,
+ Obra como deve ser;
+ Feio e forte; é o que dura:
+ Foi sempre o que ouvi dizer
+ A quem está na sepultura...
+
+ --Mas era tudo escusado;
+ N'esta, compadre, é que estou;
+ E isto dá-me algum cuidado,
+ Que o que meu pai me deixou
+ Não foi nada mal ganhado.
+
+ --Pois e, se quer que lhe conte,
+ Já se ahi falla outra vez
+ Em mandar fazer a ponte:
+ Cuida esta gente talvez
+ Que temos alguma fonte...
+
+ --E havendo então uma barca...
+ Como a Arca de Noé!
+ Lá porque a gente se enxarca
+ E não póde andar a pé
+ Quando embarca e desembarca.
+
+ --Escarranchem-se ao cachaço
+ Dos marujos: pois então?
+ Cá em taes obras nem passo
+ Que pernas minhas darão;
+ É gosto que lhes não faço.
+
+ --Nada! havemos de ir agora
+ Vêr ambos o que lá vai;
+ Que a nós aquillo por ora
+ Bem sei que nos não distrahe;
+ Mas temos pouca demora.
+
+ --Pois vamos, compadre, vamos.
+ Sentamo-nos nos poiaes,
+ Alli mesmo conversamos
+ Ambos sósinhos no caes,
+ E depois logo voltamos.
+
+Portimão.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Cosi trapassa, al trapassar d'un giorno,
+ Della vita mortale il fiore e 'l verde,
+ Nè, perchè faccia indietro april ritorno
+ Si rinfiora ella mai, nè si rinverde.
+
+ TASSO.
+
+ Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
+ A luz que n'esta vida me guiava,
+ Olhos fitos na qual até contava
+ Ir os degraus do tumulo descendo.
+
+ Em se ella anuveando, em a não vendo,
+ Já se me a luz de tudo anuveava;
+ Despontava ella apenas, despontava
+ Logo em minha alma a luz que ia perdendo.
+
+ Alma gemea da minha, e ingenua e pura
+ Como os anjos do céo (se o não sonharam...)
+ Quiz mostrar-me que, o bem, bem pouco dura.
+
+ Não sei se me voou, se m'a levaram,
+ Nem saiba eu nunca a minha desventura
+ Contar aos que inda em vida não choraram.
+
+ Ah! quando no seu collo reclinado,
+ --Collo mais puro e candido que arminho,
+ Como abelha na flôr do rosmaninho
+ Osculava seu labio perfumado;
+
+ Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os,
+ E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)
+ Lia na sua bocca a Biblia Santa
+ Escripta em letra côr dos seus cabellos;
+
+ Quando a sua mãosinha pondo um dedo
+ Em seus labios de rosa pouco aberta,
+ Como timida pomba sempre álerta,
+ Me impunha ora silencio ora segredo;
+
+ Quando, como a alveloa, delicada
+ E linda como a flôr que haja mais linda
+ Passava como o cysne, ou como, ainda
+ Antes do sol raiar, nuvem doirada;
+
+ Quando em balsamo d'alma piedosa
+ Ungia as mãos da supplice indigencia,
+ Como a nuvem nas mãos da Providencia
+ Uma lagrima estilla em flôr sequiosa;
+
+ Quando a cruz do collar do seu pescoço
+ Estendendo-me os braços, como estende
+ O symbolo d'amor que as almas prende,
+ Me dizia... o que ás mais dizer não oiço;
+
+ Quando, se negra nuvem me espalhava
+ Por sobre o coração algum desgosto,
+ Conchegando-me ao seu candido rosto,
+ No perfume d'um riso a dissipava;
+
+ Quando o oiro da trança aos ventos dando
+ E a neve de seu collo e seu vestido
+ --Pomba que do seu par se ia perdido,
+ Já de longe lhe ouvia o peito arfando;
+
+ Tinha o céo da minha alma as sete côres,
+ Valia-me este mundo um paraiso,
+ Distillava-me a alma um dôce riso,
+ Debaixo de meus pés nasciam flôres.
+
+ Deus era inda meu pai. E em quanto pude
+ Li o seu nome em tudo quanto existe
+ --No campo em flôr, na praia arida e triste,
+ No céo, no mar, na terra e... na virtude!
+
+ Virtude! Que é mais que um nome
+ Essa voz, que em ar se esvái,
+ Se um riso que ao labio assome
+ N'uma lagrima nos cái!
+
+ Que és, virtude, se de luto
+ Nos vestes o coração?
+ És a blasphemia de Bruto
+ --Não és mais que um nome vão.
+
+ Abre a flôr á luz, que a enleva,
+ Seu calix cheio d'amor,
+ E o sol nasce, passa e leva
+ Comsigo perfume e flôr!
+
+ Que é d'esses cabellos d'oiro
+ Do mais subido quilate,
+ D'esses labios escarlate,
+ Meu thesoiro!
+
+ Que é d'esse halito, que ainda
+ O coração me perfuma!
+ Que é do teu collo de espuma,
+ Pomba linda!
+
+ Que é d'uma flôr da grinalda
+ Dos teus doirados cabellos,
+ D'esses olhos, quero vêl-os,
+ Esmeralda!
+
+ Que é d'essa alma que me déste!
+ D'um sorriso, um só que fosse,
+ Da tua bocca tão dôce,
+ Flôr celeste!
+
+ Tua cabeça que é d'ella
+ A tua cabeça d'oiro,
+ Minha pomba! meu thesoiro!
+ Minha estrella!
+
+ De dia a estrella d'alva empallidece;
+ E a luz do dia eterno te ha ferido.
+ Em teu languido olhar adormecido
+ Nunca me um dia em vida amanhecesse.
+
+ Foste a concha da praia. A flôr parece
+ Mais ditosa que tu. Quem te ha partido,
+ Meu calix de crystal, onde hei bebido
+ Os nectares do céo... se um céo houvesse!
+
+ Fonte pura das lagrimas que choro!
+ Quem tão menina e moça desmanchado
+ Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro!
+
+ Some-te, vela de baixel quebrado!
+ Some-te, vôa, apaga-te, meteoro!
+ É n'este mundo mais um desgraçado.
+
+ E as desgraças, podia prevel-as
+ Quem a terra sustenta no ar,
+ Quem sustenta no ar as estrellas,
+ Quem levanta ás estrellas o mar.
+
+ Deus podia prevêr a desgraça,
+ Deus podia prevêr e não quiz;
+ E não quiz, não... se a nuvem que passa
+ Tambem póde chamar-se infeliz!
+
+ A vida é o dia d'hoje,
+ A vida é ai que mal sôa,
+ A vida é sombra que foge,
+ A vida é nuvem que vôa;
+ A vida é sonho tão leve
+ Que se desfaz como a neve
+
+ E como o fumo se esvái:
+ A vida dura um momento,
+ Mais leve que o pensamento,
+ A vida leva-a o vento,
+ A vida é folha que cái!
+
+ A vida é flôr na corrente,
+ A vida é sôpro suave,
+ A vida é estrella cadente,
+ Vôa mais leve que a ave;
+ Nuvem que o vento nos ares,
+ Onda que o vento nos mares,
+ Uma após outra lançou,
+ A vida--penna cahida
+ Da aza d'ave ferida--
+ De valle em valle impellida,
+ A vida o vento a levou!
+
+ Como em sonhos o anjo que me afaga
+ Leva na trança os lirios que lhe puz,
+ E a luz quando se apaga
+ Leva aos olhos a luz;
+
+ Como os ávidos olhos d'um amante
+ Levam comsigo a luz d'um dôce olhar,
+ E o vento do levante
+ Leva a onda do mar;
+
+ Como o tenro filhinho quando expira
+ Leva o beijo dos labios maternaes,
+ E á alma que suspira
+ O vento leva os ais;
+
+ Ou como leva ao collo a mãi seu filho,
+ E as azas leva a pomba que voou,
+ E o sol leva o seu brilho,
+ O vento m'a levou.
+
+ E tu és piedoso,
+ Senhor! és Deus e pai!
+ E ao filho desditoso
+ Não ouves um só ai!
+ Estrellas déste aos ares,
+ Dás perolas aos mares,
+ Ao campo dás a flôr,
+ Frescura dás ás fontes,
+ O lirio dás aos montes
+ E tiras-m'a, Senhor!
+
+ Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo,
+ Estendo os braços e, palpando o mundo,
+ O céo, a terra e o mar vejo a meus pés;
+ Buscando em vão a imagem do meu anjo,
+ Soletro á froixa luz d'um moribundo
+ Em tudo só--talvez...
+
+ Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto
+ Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando
+ Vou pelo mundo vêr se a posso vêr;
+ E onde, como a palmeira do deserto,
+ Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando
+ A sombra do meu sêr.
+
+ Meu sêr, voou na aza da aguia negra
+ Que, levando-a, só não levou comsigo
+ D'esta alma aquelle amor!
+ E quando a luz do sol o mundo alegra,
+ Chrysalida nocturna, a sós commigo,
+ Abraço a minha dôr!
+
+ Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia
+ Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço
+ Achas depois seus atomos subtis;
+ Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia,
+ Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!...
+ Dante... a sua Beatriz!
+
+ --Nunca; responde a folha que o outono,
+ Da haste que a sustinha a mão abrindo,
+ Ao vento confiou:
+ --Nunca; responde a campa onde, do somno,
+ E quem talvez sonhava um sonho lindo,
+ Um dia despertou.
+
+ --Nunca; responde o ai que o labio vibra;
+ --Nunca; responde a rosa que na face
+ Um dia emmurcheceu:
+ E a onda, que um momento se equilibra
+ Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe!
+ E passou e... morreu!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+MÃI E FILHO
+
+
+ Primicias do meu amor!
+ Meu filhinho! do meu seio
+ Tenro fructo que á luz veio
+ Como á luz da aurora a flôr!
+
+ Na tua face, innocente,
+ De teu pai a face beijo,
+ E em teus olhos, filho, vejo
+ Como Deus é providente.
+
+ Via em lamina doirada
+ O meu rosto todo o dia
+ E a minha alma não se havia
+ De vêr nunca retratada?
+
+ Quando o pai me unia á face,
+ E em seus braços me apertava,
+ Pomba, ou anjo nos faltava
+ Que ambos juntos abraçasse!
+
+ Felizmente, Deus que o centro
+ Vê da terra e vê do abysmo,
+ Que bem sabe no que eu scismo,
+ Na minha alma um altar viu dentro:
+
+ Mas com lampada sem brilho,
+ Sem o deus a que era feito...
+ Bafeja-me um dia o peito,
+ E eis feito o meu gosto, filho!
+
+ Como em lagrimas se espalma
+ Dôr intima e se esvaece
+ D'alma o resto quem podesse
+ Vasar n'um beijo em tua alma!
+
+ Mas em ti minha alma habita!
+ Mas teu riso a vida furta...
+ Mas (que importa!) morte curta!
+ Se um teu beijo resuscita!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Toca a capello, vou vêl-o
+ E vejo de toda a côr,
+ Não doutores de capello,
+ Mas capellos de doutor.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Amas, pobre animal! e tens tu pena?...
+ Sim, póde na tua alma entrar piedade?
+ Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de
+ Amor ao tigre, coração á hyena!
+ Tudo no mundo sente: o odio é premio
+ Dos condemnados só, que esconde o inferno.
+ Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
+ A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo.
+ A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto...
+ Esta fera, que as unhas encolhendo
+ Pelos hombros me trepa e vem, correndo,
+ Beijar-me... Só não vivo! amado existo!
+
+Evora.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NÃO!
+
+
+ Tenho-te muito amor,
+ E amas-me muito, creio;
+ Mas, ouve-me, receio
+ Tornar-te desgraçada.
+ O homem, minha amada!
+ Não perde nada, goza;
+ Mas a mulher é rosa...
+ Sim, a mulher é flôr!
+
+ Ora e, a flôr, vê tu
+ No que ella se resume...
+ Faltando-lhe o perfume,
+ Que é a essencia d'ella,
+ A mais viçosa e bella
+ Vê-a a gente e... basta.
+ Sê sempre, sempre, casta!
+ Terás... quanto possuo!
+
+ Terás, em quanto a mim
+ Me alumiar teu rosto,
+ Uma alma toda gosto,
+ Enlevo, riso, encanto!
+ Depois, terás meu pranto
+ Nas praias solitarias...
+ Ondas tumultuarias
+ De lagrimas sem fim!
+
+ Á noite, que o pezar
+ Me arrebatar de casa,
+ Irei na campa rasa
+ Que resguardar teus ossos,
+ Ah! recordando os nossos
+ Tão venturosos dias,
+ Fazer-te as cinzas frias
+ Ainda palpitar!
+
+ Mil beijos, dôce bem!
+ Darei no pó sagrado,
+ Em que se houver tornado
+ Um corpo tão galante!
+ Com pena, minha amante,
+ De me não ter a morte
+ Cahido a mim em sorte...
+ Cahido a mim tambem!
+
+ Já exhalando os ais
+ Na lugubre morada
+ Te vejo a sombra amada
+ Sahir da sepultura...
+ A tua imagem pura,
+ Fiel, mas illusoria...
+ Gravada na memoria
+ Em traços tão leaes!
+
+ Então, se ainda alli
+ Teus vaporosos braços,
+ Poderem dar abraços
+ Como dão hoje em dia,
+ Peço-te, sombra fria!
+ No mais intimo d'elles
+ Que a mim tambem me geles,
+ E fique ao pé de ti!
+
+ Mas, ai! meu coração!
+ Tu porque assim te affliges,
+ E tremula diriges
+ A vista ao céo piedoso!...
+ O quadro é horroroso,
+ A scena triste e feia,
+ Basta encerrar a idéa
+ D'uma separação...
+
+ Mas, ouve, existe Deus.
+ Ora e, se Deus existe,
+ Tão horroroso e triste
+ Que pódes temer? Nada!
+ Desfruta descançada
+ O extasi, o enleio
+ Em que eu já saboreio
+ O jubilo dos céos!
+
+ Deixa-me n'esse olhar
+ Vêr como a lua assoma...
+ Sim, deixa no aroma,
+ Que a tua bocca exhala,
+ Vêr como a rosa falla
+ Quando a aurora a inspira...
+ Vêr como a flôr suspira
+ Por vêr o sol raiar!
+
+ A morte para amor
+ É exito sublime.
+ A morte para o crime,
+ É que é amarga e feia.
+ A morte não receia
+ O verdadeiro amante;
+ Por ella a cada instante
+ Implora elle o Senhor.
+
+ É juntos, tu verás,
+ Que nós expiraremos!
+ Sim, juntos, que os extremos
+ Olhares cambiando,
+ Iremos despegando,
+ Do involucro terreno,
+ O espirito sereno
+ Como a eterna paz!
+
+ Vê, só porque suppuz
+ Chegado esse momento,
+ Já esse olhar mais lento...
+ As vistas mais serenas...
+ Bruxuleando apenas,
+ Em languido desejo,
+ Symphatico lampejo
+ D'uma ineffavel luz!
+
+ Ha, n'este triste valle
+ De lagrimas, a imagem
+ De dois n'essa passagem
+ Para a eternidade...
+ A nevoa, a anciedade,
+ O jubilo que mata,
+ Dão uma idéa exacta
+ Do transito fatal.
+
+ Mas essa imagem, flôr!
+ É tão fiel, tão viva
+ Que á sua luz activa
+ Se cresta a flôr mimosa!
+ E nem o homem goza:
+ Se goza é um momento!
+ Depois... o desalento!
+ Depois... o desamor!
+
+Portimão.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+NA FOLHA D'UM ROMANCE
+
+
+ Moldada ao bem nasci, mas debil planta
+ Verguei de vicio ao sopro pestilente;
+ D'entre o vicio porém minha alma ardente
+ Castos hymnos a Deus saudosa canta.
+
+ Ah! se um mentido affecto amor levanta
+ N'um pobre coração inexperiente,
+ D'elles a culpa é toda! uma innocente
+ Não consulta a razão, razões supplanta.
+
+ Cahi, verguei, Senhor! já pervertida
+ Graças, beijos vendi, vendi belleza,
+ Triste commercio de mulher perdida.
+
+ Oh! mas, Deus do amor! foi só fraqueza:
+ De impias mãos me arrancai, tirai-me a vida,
+ Alcance-me o perdão mortal tristeza!
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Lagrima celeste,
+ Perola do mar,
+ O que me fizeste
+ Para me encantar!
+
+ Ah! se tu não fosses
+ Lagrima do céo,
+ Lagrimas tão dôces
+ Não chorára eu.
+
+ Se nunca te visse
+ Bonina do val,
+ Talvez não sentisse
+ Nunca amor igual.
+
+ Pomba desmandada,
+ Que é dos filhos teus,
+ Luz da madrugada,
+ Luz dos olhos meus!
+
+ Meu suspiro eterno,
+ Meu eterno amor,
+ D'um olhar mais terno
+ Que o abrir da flôr,
+
+ Quando o nectar chora,
+ Que se lhe introduz,
+ Ao romper da aurora,
+ Ao raiar da luz,
+
+ Por entre a folhagem
+ Onde mal se vê,
+ Como a terna imagem
+ Da que eu adorei.
+
+ Que esta voz te enleve,
+ Que este adeus lá sôe,
+ Que o Senhor t'o leve,
+ Que Deus te abençôe.
+
+ Que o Senhor te diga
+ Se te adoro ou não,
+ Minha dôce amiga
+ Do meu coração!
+
+ Se de ti me esqueço,
+ Se já me esqueci,
+ Ou se mais lhe peço,
+ Do que vêr-te a ti;
+
+ A ti que amo tanto
+ Como a flôr a luz,
+ Como a ave o canto,
+ E o Cordeiro a cruz,
+
+ E a campa o cypreste,
+ E a rola o seu par,
+ Lagrima celeste!
+ Perola do mar!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+DESCALÇA!
+
+
+ Quem és, que ao vêr-te o coração suspira,
+ E em puro amor desfaz-se!
+ Raio crepuscular do sol que nasce,
+ De lampada que expira!
+
+ Como os teus pés são lindos! como é dôce
+ A curva do teu peito!
+ Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
+ E o teu amado eu fosse!
+
+ Que preciosas perolas descobre
+ Teu meigo humido labio!
+ E, virgem! como Deus foi justo e sabio
+ Em te fazer tão pobre!
+
+ Não tens fofo velludo onde se atole
+ Tua angelica imagem;
+ Mas quando é bello o céo, bella a paizagem
+ E quando é bello o sol?
+
+ Limpo de nuvens, nú, derrete a neve
+ E a aguia até desmaia.
+ Tu não tens mais do que uma pobre saia,
+ E essa, curtinha e leve.
+
+ Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
+ Onde te abaixa, desce...
+ És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
+ Não para estar occulta.
+
+ O que te falta pois? os teus desejos
+ Quaes são? de que precisas?
+ Ah! não ser eu o marmore que pisas...
+ Calçava-te de beijos!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ADEUS!
+
+
+ Adeus tranças côr de oiro,
+ Adeus peito côr de neve!
+ Adeus cofre onde estar deve
+ Escondido o meu thesoiro!
+
+ Adeus bonina, adeus lirio
+ Do meu exilio d'abrolhos!
+ Adeus oh luz dos meus olhos
+ E meu tão dôce martyrio!
+
+ Desfeito sonho doirado,
+ Nuvem desfeita de incenso,
+ Em quem dormindo só penso,
+ Em quem só penso acordado!
+
+ Visão sim mas visão linda!
+ Sonho meu desvanecido!
+ Meu paraiso perdido
+ Que de longe adoro ainda!
+
+ Nuvem, que ao sopro da aragem
+ Voou nas azas de prata,
+ Mas no lago que a retrata
+ Deixou esculpida a imagem!
+
+ Rosa d'amor desfolhada
+ Que n'alma deixou o aroma,
+ Como o deixa na redoma
+ Fina essencia evaporada!
+
+ Adeus sol que me alumia
+ Pelas ondas do oceano
+ D'esta vida, d'este engano,
+ D'este sonho d'um só dia!
+
+ No mesmo arbusto onde o ninho
+ Teceu a ave innocente
+ Se volta a quadra inclemente
+ Acha abrigo o passarinho:
+
+ Mas eu n'esta soledade
+ Quando em meus sonhos te estreito,
+ Rosto a rosto, peito a peito,
+ Acordo e acho a saudade!
+
+ Adeus pois morte! adeus vida!
+ Adeus infortunio e sorte!
+ Adeus estrella do norte!
+ Adeus bussola perdida!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A VICTORIA COLONNA
+
+
+ Não sei que ha de divino, força é crêl-o
+ N'esses teus olhos d'uma luz tão pura
+ Que, ao vêl-os, tive logo por segura
+ Aquella paz que é meu constante anhelo.
+
+ Filha de Deus, nossa alma aspira a vêl-o;
+ Desprezando caduca formosura,
+ Ella, em seu giro eterno, só procura
+ A fórma, o typo universal do bello.
+
+ Não póde amar, não deve, uma alma casta
+ Fugaz belleza, graça transitoria,
+ Coisa que o tempo leva, o tempo gasta.
+
+ Nem tambem alma digna de memoria
+ Póde amar o prazer, que o bruto arrasta,
+ Em vez do puro amor--sombra da gloria.
+
+ MIGUEL-ANGELO.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+N'UM CONVENTO
+
+
+ Como a agua em funda gruta
+ Gotta a gotta filtra e cái,
+ Sem saber quem isso escuta
+ O que lá por dentro vai:
+
+ Como ao longe incerta e baça
+ N'uma igreja alveja a luz,
+ Que da lampada esvoaça
+ E a vidraça reproduz:
+
+ Mal te vi, moira encantada!
+ Mas á luz dos olhos teus
+ Murcha a lampada sagrada
+ D'um altar do nosso Deus.
+
+ Mal te ouvi, mas as suaves
+ Melodias, que te ouvi,
+ São mais dôces que as das aves
+ Da aldêa onde nasci!
+
+ Quem teve, bella captiva,
+ Coração de te deixar
+ Aqui enterrada viva,
+ Sem amor, sem luz, sem ar!
+
+ Era cego e surdo, juro,
+ O miseravel algoz
+ Que não viu olhar tão puro,
+ Não ouviu tão pura voz!
+
+ Eu não tendo a faculdade
+ D'arrazar esta prisão,
+ Sacrifico a liberdade
+ Por tão dôce escravidão!...
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+SONHO
+
+
+ Ha muitos sonhos de imaginação,
+ De mera phantasia:
+ Outros, que são a voz da prophecia,
+ A voz da intuição,
+ A voz do coração.
+
+ Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões?
+ E fazes bem, que ás vezes
+ Sonha a gente venturas e revezes,
+ Que se tornam depois
+ Bem certos! Ouve pois:
+
+ Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu.
+ Então duas estrellas.
+ (Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!)
+ Vieram lá do céo
+ Alumiar-me. E eu...
+
+ Não sabia e pergunto: o que buscaes,
+ Alampadas celestes!
+ Vós, cá por este mundo... o que perdestes?
+ Na terra não achaes
+ Senão prantos e ais!
+
+ Respondem-me as estrellas (como a quem
+ As tivesse captivas,
+ Tão tremulas! as bellas fugitivas)
+ --Buscavamos alguem
+ Que nos quizesse bem:
+
+ É sorte nossa, é nossa condição
+ Dar luz, ser norte e guia;
+ Mas de mais boamente se alumia
+ Na terra um coração
+ Que nos tem affeição.--
+
+ --Pois e se vós do céo, lá onde até
+ Se ignora o que são dôres,
+ Vindes á terra procurar amores,
+ Estrellas! se assim é,
+ Tendes-me aqui ao pé:
+
+ Que em summa a noite da minha alma é tal
+ Que eu pobre viajante
+ Ando... se para traz, se para diante,
+ N'este profundo val,
+ Não sei nem bem mal.
+
+ Guiai-me pois, estrellas do Senhor!
+ E a jura que vos faço
+ É que na terra não darei um passo
+ Senão só por amor
+ Do vosso resplendor!--
+
+ Ellas então sorrindo-se, que eu vi,
+ Tão meigas e suaves!
+ Voaram como duas lindas aves;
+ Indo poisar ahi...
+ N'esse teu rosto... em ti!
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+Á VISTA D'UM RETRATO
+
+
+ Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe
+ Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam,
+ E ebrios de gloria canticos entoam
+ A quem no mar, na terra e céos não cabe.
+
+ Se te amo, flôr! que o diga o mar--que expelle
+ Quanto é dominio, beija humilde a praia:
+ Se mal que a lua lá das ondas sáia
+ Nas rochas me não vê gemer com elle.
+
+ Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga!
+ Quanto lá da montanha aos céos se eleva,
+ Se entre os vermes do pó que o vento leva,
+ Me banha a mim tambem na luz amiga.
+
+ Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura,
+ Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo!
+ Diga-te a noite minha se te illudo,
+ Se em vida já sem ti, sonhei ventura!
+
+ O anjo que a berço humilde e escasso
+ Do céo me veio alumiar piedoso,
+ E em lagrimas e riso, pranto e gozo,
+ Desde então me acompanha passo a passo;
+
+ És tu! Amo-te e muito! O que fluctua
+ Na fornalha que o sopro eterno accende,
+ Não beija a mão do anjo que o suspende
+ Com mais amor que eu beijo a sombra tua!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+A LUA
+
+
+ Esse olhar silencioso
+ Em que lingua se traduz?
+ Falla-me, oh astro saudoso,
+ Luz do céo, pallida luz!
+ Que aereas visões me acordas,
+ Que imagem, lua, recordas
+ N'essa prateada côr?
+ Que ha em ti, que a dôr mitiga,
+ Que ha em ti, lampada amiga,
+ De meigo e consolador?
+
+ Escuta, pallida lua,
+ Dá-me um sorriso dos teus,
+ Dá-me uma lagrima tua,
+ Se és a pupilla de Deus!
+ Vê que outros mimos não tenho,
+ Que em tua face desenho
+ A face do meu amor:
+ Uma só lagrima! fria,
+ Que ella me cáia... diria
+ Que uma lagrima cahia
+ Do céo ao menos na dôr!
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+JOVEN CAPTIVA
+
+
+ Respeita a foice a espiga verde ainda;
+ Sem medo da vindima, o estio inteiro,
+ Bebe o pampano as lagrimas da aurora:
+ E eu verde como a espiga, tenra e linda
+ Como o pampano, hei-de morrer? não quero:
+ Quero, mas não por ora!
+
+ Talvez que a outrem, morte, grata fosses.
+ Espero! Embora em lagrimas me lave,
+ Varre-me o norte a mim a face? inclino-a.
+ Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces...
+ Sem amargo, que mel, por mais suave
+ Que mar, em paz continua?
+
+ Benefica illusão meu seio habita.
+ Sepulte-me este carcere inhumano;
+ A aza nivea da fé não se agrilhôa.
+ Escapa ao laço da prisão maldita,
+ Mais viva e alegre, a esse aereo oceano,
+ A alvéloa canta e vôa.
+
+ Hei-de morrer? porque? se não diviso
+ Em minha alma um remorso; durma ou vele,
+ Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo!
+ Se em cada rosto a luz me abre um sorriso;
+ Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle;
+ E a luz assoma a custo!
+
+ O fim do meu destino é lá tão longe!
+ Quantos passei dos alemos que adornam
+ Esta bella viagem? Assentada
+ Ao banquete da vida apenas hoje,
+ A taça ainda cheia as mãos entornam,
+ Dos labios illibada.
+
+ Estou na primavera, oh segadores!
+ E as mais quadras do anno havia agora
+ De não acompanhar o sol? havia?
+ Debruçada em meu pé, gloria das flôres,
+ Eu não vi mais do que raiar a aurora;
+ Quero acabar meu dia.
+
+ Espera um pouco, oh morte! nada perdes.
+ Antes consola os que o remorso, o medo,
+ O desalento pallido devora!
+ Guarda-me ainda o campo grutas verdes!
+ As musas, cantos! e o amor... Segredo!
+ Não morro, não, por ora!
+
+ Assim, encarcerada, o rosto lindo
+ E a vista alçando a regiões ignotas,
+ Minha musa entoou na fé mais viva:
+ E eu, as languidas mágoas sacudindo,
+ Moldei em dôce verso as dôces notas
+ D'essa joven captiva!
+
+ ANDRÉ-CHÉNIER.
+
+Coimbra.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Mulher! quando nos braços
+ Te escuto uma canção,
+ Não vês em meus abraços
+ Profunda commoção?
+ É que o teu canto á mente
+ Me traz vida melhor...
+ Ah!
+ Cantai continuamente,
+ Cantai, oh meu amor!
+
+ Quando sorris, assume
+ Teu rosto uma expressão,
+ Que o mais feroz ciume
+ Se desvanece então.
+ Sorriso tal desmente
+ Um coração traidor...
+ Ah!
+ Sorri continuamente,
+ Sorri, oh meu amor!
+
+ Quando tranquilla e pura,
+ Te estou a vêr dormir,
+ Que vozes se afigura
+ Teu halito exprimir?
+ Contemplo então contente
+ Teu corpo encantador...
+ Ah!
+ Dormi continuamente,
+ Dormi, oh meu amor!
+
+ _Letra de_ V. HUGO. _Musica de_ GOUNOD.
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+UM BEIJO
+
+
+ Seria o beijo
+ Que te pedi,
+ Dize, a razão
+ (Outra não vejo)
+ Porque perdi
+ Tanta affeição?
+
+ Fiz mal, confesso;
+ Mas esse excesso,
+ Se o commetti,
+ Foi por paixão,
+ Sim, por amor
+ De quem?... de ti!
+ Tu pensas, flôr,
+ Que a mulher basta
+ Que seja casta,
+ Unicamente?
+ Não basta tal.
+ Cumpre ser boa,
+ Ser indulgente.
+ Fiz-te algum mal?
+ Pois bem: perdôa!
+
+ É tão suave
+ Ao coração
+ Mesmo o perdão
+ D'offensa grave!
+ Se o alcançasse,
+ Se o conseguisse,
+ Quizera então
+ Beijar-te a mão,
+ Beijar-te a face...
+ Beijar? que disse!
+ (Que indiscrição...)
+ Perdão! perdão!
+
+Lisboa.
+
+
+
+FRANCISCA DE RIMINI
+
+
+ Disse eu então: poeta, vês aquelles,
+ Abraçados, velozes como o vento?
+ Desejava poder fallar com elles.
+
+ --Chamando-os com enternecimento,
+ Em cá passando mais do nosso lado,
+ São dois amantes, lograrás o intento.
+
+ Assim que o vento os aproxima, brado:
+ Oh almas d'uma eterna anciedade,
+ Vinde fallar-me, se vos isso é dado.
+
+ Como um casal de pombas, com saudade
+ Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada,
+ Não mais que por impulso da vontade;
+
+ Rompendo aquella aragem empéstada,
+ Acodem lá do bando onde anda Dido
+ Á supplica tocante e magoada.
+
+ «Ah mortal generoso e condoído,
+ Que nos visita n'este escuro horrendo,
+ Deixando nós de sangue o chão tingido!
+
+ «Do Senhor impetráramos podendo,
+ Já que tens dó do nosso mal enorme,
+ O teu descanço eterno em fallecendo.
+
+ «Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme,
+ É só dizer ou perguntar, mais nada;
+ Em quanto o vento, como agora, dorme.
+
+ «A terra, onde nasci, fica assentada
+ Na praia onde a final o Pó descança,
+ E os que o seguem na marcha arrebatada.
+
+ «Amor, que em nenhum moço acha esquivança
+ Prendeu este a um corpo... que roubado
+ Foi á minha alma em barbara vingança!
+
+ «Amor, que obriga amar quem é amado,
+ Poz-me com elle tão condescendente,
+ Que ainda, como vês, me anda abraçado.
+
+ «Amor nos deu a morte juntamente.
+ Quem nos matou irá para as Caínas.»
+ Disseram elles isto fielmente.
+
+ Depois d'ouvir as victimas mofinas,
+ Scismando cabisbaixo, em tal postura,
+ Pergunta-me o poeta: em que imaginas?
+
+ Começo respondendo: oh desventura!
+ Quanta esperança! quanta sympathia
+ A ambos não cavou a sepultura!
+
+ E voltando-me a quem me referia:
+ Olha Francisca! dó dos teus tormentos
+ Estas lagrimas tristes desafia.
+
+ Mas na quadra dos vagos sentimentos,
+ Conta-me: como foi que conheceste
+ Os amorosos languidos momentos!
+
+ «O desgosto maior d'um triste é este,
+ Fallar do tempo que passou, confesso:
+ Que o diga o proprio guia que trouxeste
+
+ «Mas desejando tu com tanto excesso
+ Conhecer de raiz esta amizade,
+ Entre vozes e lagrimas começo:
+
+ «Liamos ambos, por curiosidade,
+ Certa historia d'amores, que idearam,
+ Nós sós, um dia, livres de maldade.
+
+ «Muita vez nossos olhos se espantaram,
+ E descoramos, lendo a historia estranha;
+ Mas dos lances que mais nos abalaram,
+
+ «Foi quando em summa o terno amante apanha
+ O dôce beijo, por que andava ardendo:
+ Este, que eternamente me acompanha,
+
+ «Beija-me a bocca a mim, todo tremendo!
+ A culpa foi do livro que se lia!
+ Não se continuou o dia lendo.»
+
+ Em quanto assim Francisca respondia,
+ Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado
+ Me vêr nas convulsões da agonia,
+ E cahir, como um corpo inanimado!
+
+ DANTE.
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+PAIXÃO
+
+
+ Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte,
+ Com essa vista embaciada e turva
+ Que dá aos olhos entranhavel dôr;
+ Tinhas podido vêr transpôr a curva,
+ Pouco a pouco, do liquido horisonte,
+ A saudosa barca, que levasse
+ Aquelle, a quem primeiro uniste a face
+ E o teu primeiro amor!
+
+ Depois, que toda mágoa e saudade,
+ Da mesma rocha ou alcantil deserto,
+ Olhando ávidamente para o mar;
+ Vias na solitaria immensidade,
+ Vagas ficções d'um pensamento incerto,
+ Surgir das ondas, desfazer-se em espuma;
+ Não alvejando, nunca, vela alguma
+ E, sempre, a suspirar.
+
+ Até que á luz d'uma intuição sublime
+ D'alma arrancavas o gemido extremo
+ De saudade, desespero e dôr!...
+ Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo!
+ Que nuvem negra o coração me opprime;
+ Nuvem de mágoa, nuvem de ciume,
+ Em te não vendo á hora do costume,
+ Meu anjo e meu amor!
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ESCREVE!
+
+
+ Não sei o que suppôr
+ Do teu silencio. Escreve!
+ Quem é amado deve
+ Ser grato ao menos, flôr!
+ Se eu fosse tão feliz
+ Que te fallasse um dia
+ De viva voz, diria
+ Mais do que a carta diz.
+ Mas, olha, tal qual é
+ Não rias d'esse escripto
+ Que, pouco ou muito, é dito
+ Tudo de boa fé.
+ Ha n'esse teu olhar
+ A dôce luz da lua,
+ Mas luz que se insinua
+ A ponto de abrazar...
+ Pareça n'elle sim
+ Que ha só doçura, embora:
+ Ha fogo que devora...
+ Que me devora a mim!
+ Que mata, mas que dá
+ Uma suave morte;
+ Mata da mesma sorte
+ Que uma arvore que ha:
+ Que ao pé se lhe ficou
+ Acaso alguem dormindo
+ Adormeceu sorrindo...
+ Porém não acordou.
+ Esse teu seio então,
+ Que encantadora curva!
+ Como de o vêr se turva
+ A vista e a razão!
+ Como até mesmo o ar
+ Suspende a gente logo...
+ Pregando olhos de fogo
+ Em tão formoso par!
+ Oh seio encantador,
+ Delicioso seio!
+ Que jubilo, que enleio
+ Libar-lhe o nectar, flôr!
+ Eu tenho muita vez
+ Já visto a borboleta
+ Na casta violeta
+ Poisar os leves pés:
+ E n'um enlevo tal,
+ N'uma avidez tamanha,
+ Que a gente a não apanha
+ Com dó de fazer mal!
+ Pegada á flôr então
+ No pé curvinho e molle,
+ As azas nem as bole
+ Toda sofreguidão!
+ Poisou... adormeceu!
+ Só vê, só ouve e sente
+ O calix rescendente
+ D'aquelle mel do céo!
+ Pois vê com que prazer
+ E com que ardente sêde
+ Te havia... (que não hei-de!...)
+ Tambem beijar, sorver!
+ Mas eu só peço dó,
+ Só peço piedade!
+ Mata-me a saudade
+ Com duas linhas só!
+ Eu, a não ser em ti
+ Achar allivios, onde?
+ Escreve-me! responde
+ Á carta que escrevi!
+ Cançado de esperar
+ Ás vezes quando sáio,
+ Pensas que me distraio?
+ Pois volto com pezar!
+ Concentra-se-me em ti
+ A alma de tal modo
+ Que esse bulicio todo
+ Nem o ouvi, nem vi!
+ Ninguem te substitue,
+ Porque só tu és bella!
+ Que estrella a minha estrella,
+ E que infeliz que eu fui!
+ Mas devo-te suppôr
+ Sempre indulgente e boa,
+ Escreve-me e perdôa
+ Meu violento amor!
+ Respeita uma affeição
+ Inutil mas sincera.
+ Tu és mulher, pondera
+ O que é uma paixão.
+ Com sangue era eu capaz
+ De te escrever; portanto,
+ Tinta não custa tanto!
+ E não me escreverás?
+ Uma palavra, sim,
+ Que me não amas... Queres?
+ Em quanto me escreveres,
+ Tu pensarás em mim!
+ Só essa idéa, crê,
+ Encerra mais doçura
+ Que as provas de ternura
+ Que outra qualquer me dê!
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+MALMEQUER
+
+
+ Talvez em eu morrendo a teus ouvidos
+ Chegue a noticia, que hoje os factos vôam,
+ E oiças então os intimos gemidos
+ Que exhalo e te não sôam.
+
+ Talvez então, embora me não ames,
+ Com esses olhos humidos de fito
+ Na minha sombra: «Desgraçado! exclames;
+ Amava-me, acredito.
+
+ «Levou a vida amando-me: que prova
+ Me podia alguem dar de mais ternura,
+ Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova,
+ Cavei-lhe a sepultura!
+
+ «Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo
+ Do meu dever... agradecer-lhe agora!
+ Purificar-me em lagrimas! O vulgo
+ Que me censure embora.
+
+ «Hei-de ir dispôr um pé de saudade
+ Na terra onde elle descançou da lida;
+ Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade,
+ Que não mostrei em vida!»
+
+ Se fôres, meu amor! uma perpetua,
+ E uma saudade ser-me-hia dôce!
+ Mas só perpetua ou saudade, aceito-a,
+ E um malmequer que fosse.
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+VIRGINIA
+
+Para se recitar no theatro do Príncipe-Real
+
+
+ Senhores! vêde o sol; diariamente
+ Nasce, cruza esse espaço e, no poente,
+ Acaba de brilhar.
+ É util, é preciso, é necessario,
+ Não é pois inconstante, não é vario;
+ É certo, é regular!
+
+ Hervas que nutrem, animaes que comem,
+ E a imagem de Deus--que falla--o homem,
+ Sem essa luz, dizei:
+ Vegetavam acaso, existiriam?
+ Os echos d'esses valles repetiam
+ Alguma voz? O que!...
+
+ Seria tudo um ermo escuro e mudo;
+ Tudo insensivel, solitario tudo!
+ Mas Deus cria essa luz;
+ E um mar sem praias de silencio e morte,
+ Sêres de toda a casta--toda a sorte,
+ Produz e reproduz!
+
+ Sim, essa luz benefica converte,
+ Por mysteriosa alchimia, frio, inerte,
+ Imperceptivel grão
+ Em tenras hastes, em botões mimosos,
+ Folhas, flôres e fructos saborosos
+ Que recamam o chão!
+
+ Mas julgaes vós agricola sómente
+ A mão do creador omnisciente?
+ Pergunta singular!
+ Basta só vêr a ondeada trança
+ Com que elle adorna a virgem que vos lança
+ O seu primeiro olhar!
+
+ A terra é de côr varia, a planta, verde:
+ Porque e para que? O que se perde
+ Em ter tudo uma côr?
+ O que se ganha em ser tão bem pintada,
+ Symetrica, mimosa, perfumada
+ Uma ephemera flôr?
+
+ É que Deus é artista! e noite e dia
+ E céo e terra e mar o denuncia...
+ Vêde nascer o sol!
+ Pôr-se alta noite a lua encantadora...
+ Em quanto ao mesmo tempo canta e chora
+ Ao longe o rouxinol!
+
+ Deus é artista, sim; Deus ama o bello,
+ Mais talvez do que o util. O desvelo
+ Com que elle trata a flôr!
+ Antes de abrir... que mãi tão carinhosa
+ Resguarda, mais solicita que a rosa,
+ Um seu botão d'amor!
+
+ Nem podia sahir obra incompleta
+ Das mãos de Deus: geometra e poeta
+ Em summo grau, traçou
+ A compasso a abobada celeste;
+ Mas de que lindas nuvens a reveste
+ Que ao vento tomam vôo!
+
+ Creou, de fogo, o sol--o grande astro!
+ E creou, não de fogo, d'alabastro
+ A sua bella irmã
+ --Sombra apenas do sol, desnecessaria,
+ Luz phantastica, vaga, solitaria,
+ Inutil, fátua, vã...
+
+ Mas luz intima! luz do sentimento!
+ Luz d'amor e de fé! que inspira alento
+ A nossos corações!
+ Unica luz, á qual se mede o fundo
+ D'esse concavo mar... d'esse outro mundo...
+ D'esse mundo de soes!
+
+ Porque se ao sol deveis fructos e flôres,
+ Á lua deveis mais, deveis amores...
+ Deveis... como direi?
+ Esta entranhavel, vaga saudade
+ De não sei que melhor realidade,
+ Que o mundo que se vê...
+
+ Quantas vezes, depois da lida insana
+ D'um dia, n'este mar da vida humana,
+ Vendo surgir no céo
+ Essa luz melancolica e suave,
+ Eu acho então, e com que allivio, a chave
+ D'este mysterio meu!...
+
+ D'este amor por phantasticos amores...
+ Comtudo mais leaes e duradores
+ Que os d'esse mundo são!
+ D'este mundo de sombras... até prestes,
+ Sombra tambem, á sombra dos cyprestes
+ Achar satisfação!
+
+ E eu digo, digo á lua scismadora
+ Com os olhos risonhos de quem chora
+ Pranto consolador:
+ Se pois Deus te creou porque eras bella...
+ O que vale o sol mais do que uma estrella?
+ Um rei do que um pintor?
+
+ Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa
+ De vaporosa nuvem, n'essa immensa
+ Abodada dos céos,
+ Pareces-me o thuribulo sagrado
+ Com os rolos de incenso evaporado
+ Em tua honra, oh Deus!
+
+ E a minha vista sofrega acompanha
+ Esse clarão phantastico á montanha
+ Ou da terra ou do mar,
+ Onde, acabada a obra do seu dia,
+ Astro d'amor e de melancolia,
+ Se deita a descançar.
+
+ E eu descanço tambem; filha da arte...
+ Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te!
+ E pergunte-me alguem:
+ --Tu que fazes no mundo, mulher futil?
+ --O que Deus faz... na flôr, na lua inutil...
+ Sou artista tambem.
+
+Lisboa.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+PRIMEIRO PSALMO DE DAVID
+
+
+ Bemdito o que não cahe em se guiar
+ Por conselhos de gente depravada;
+ E em vendo que vai mal, muda de estrada,
+ E nunca se demora em mau lugar;
+
+ Que o seu empenho é só unicamente
+ A lei de Deus, que estuda noite e dia.
+ Como a arvore ao pé d'agua corrente,
+ Dá a seu tempo o fructo que devia.
+
+ Nunca lhe cahe a folha; empresa sua
+ Sahe por força conforme o seu intento;
+ Em quanto o impio, o mau trabalha e sua,
+ E é sempre como o pó, que espalha o vento!
+
+ No tribunal, onde ha-de ser ouvido,
+ Não conte com sentença a seu favor;
+ Que não entra no numero escolhido
+ Dos justos, dos amigos do Senhor.
+
+ O justo, Deus bem sabe o seu caminho,
+ E guia-o, não o deixa andar sósinho:
+ E o caminho do mau, pelo contrario,
+ É beco sem sahida e solitario.
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+SEGUNDO PSALMO DE DAVID
+
+
+ Porque anda o mundo todo enfurecido,
+ Se esforços contra Deus são todos vãos?
+ Os grandes, mais os reis, deram as mãos
+ Contra o Senhor, contra o seu Ungido,
+
+ --Estas correntes, é despedaçal-as,
+ Este jugo atirar com elle fóra!
+ E lá cima no céo, o que lá mora
+ Não faz mais que sorrir-se de taes fallas.
+
+ Mas em lhe dando a ira, aonde então
+ Se hão-de metter, com medo, os desgraçados!
+ Coroou-me rei no alto de Sião,
+ Cumpre-me publicar os seus mandados.
+
+ «Tu és meu filho; disse-me o Senhor:
+ Gerei-te hoje; pedir com confiança!
+ Verás o mundo todo ao teu dispôr,
+ Terras e povos, como propria herança.
+
+ «Vara de ferro para os ir guiando,
+ E fazel-os guardar-te obediencia;
+ E elles de barro mal cozido e brando
+ Que os partas em te oppondo resistencia.»
+
+ Agora pois vós outros, reis, juizes,
+ Reparai no que eu digo, e vêde lá;
+ Servi a Deus, e dai-vos por felizes
+ Cumprindo á risca as ordens que elle dá.
+
+ Tomai os meus conselhos; ou, senão,
+ Tende já como certa a perdição.
+ Que em se elle irando, é como um raio; aquelle
+ Que o despreza e não crê, infeliz d'elle!
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMÃO
+
+Para os corações puros tudo é puro.
+
+S. Paulo a Tito.
+
+
+I
+
+CHEGADA
+
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Tomára já ter o gosto
+ De o sentir beijar-me o rosto!
+
+ CORO DE VIRGENS
+
+ --E onde ha mulher que te exceda?
+ Só esse collo embebeda.
+ O aroma que elle exhala,
+ Nenhum balsamo o iguala.
+
+ 2.º CORO
+
+ --O teu nome, fallar n'elle,
+ Só fallar n'elle é tão dôce
+ Como se um oleo nos fosse
+ Escorrendo pela pelle.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Olha como todas ellas
+ Te estimam tanto, as donzellas.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Sou tua, leva-me, vamos.
+
+ CORO
+
+ --E nós, que te não largamos,
+ Te iremos correndo atraz
+ Pelo rasto de perfume,
+ Que deixas por onde vás,
+ Das pomadas com que dás
+ No corpo, como é costume.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Já el-rei me manda entrar
+ Para a sala do jantar.
+
+ CORO
+
+ --Para saltar de alegria
+ E festejar este dia,
+ A nós basta-nos lembrar
+ Que esse teu seio embebeda;
+ Nem ha mulher que te exceda.
+
+ 2.º CORO
+
+ --Quem te vê seja quem fôr
+ Fica bebado d'amor.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Sou trigueira mas formosa,
+ Moças de Jerusalem!
+ Senão vêde o pavilhão
+ Que arma em campo Salomão,
+ Se ha coisa mais preciosa,
+ E por fóra a côr que tem;
+ Vêde as barracas dos moiros,
+ Por dentro tantos thesoiros,
+ Por fóra negras tambem.
+
+ Não vos dê pois isso pena,
+ Ter assim a côr morena:
+ Minha mãi mandou-me pôr,
+ Por culpa de meus irmãos,
+ De guarda á vinha, o calor
+ Queimou-me o rosto e as mãos:
+ E eu, a vinha, é escusado
+ Dizer-vos que nem eu tinha
+ Senão agora o cuidado
+ De estar a guardar a vinha.
+
+ Ah! para que banda vás
+ Com o gado, meus amores!
+ E pela folga onde estás!
+ Bem vês os outros pastores,
+ E a gente não adivinha.
+ Eu não hei-de andar atraz
+ D'esses rebanhos sósinha.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Ah rainha das mulheres!
+ Olha como tu te enganas,
+ Que medo tens das cabanas,
+ Que medo tens dos rebanhos,
+ Que medo tens dos estranhos?
+ Não te dê isso cuidado,
+ Anda por onde quizeres
+ Tambem guardando o teu gado.
+ Em te vendo, mesmo só,
+ Toda a gente se desvia,
+ Como da cavallaria
+ Dos carros de Pharaó.
+
+ CORO
+
+ --Dás no rosto certo ar
+ D'aquella graça da rola,
+ Que até encanta, arrebata.
+
+ A garganta pódes pôl-a
+ Ao pé do melhor collar.
+
+ 2.º CORO
+
+ --Um te havemos de nós dar
+ De oiro, ás pintinhas de prata,
+ Que é lindo, e has-de gostar.
+
+ A SULAMENSE
+
+ Já não sei pelo que aguardo
+ Que estando el-rei a jantar
+ Lhe não entorno por cima
+ Esta redoma de nardo
+ Que é um balsamo de estima.
+
+ Mas ha outro mais perfeito,
+ E com o qual me perfumo:
+ Eu a myrrha que costumo
+ Trazer aqui em meu peito,
+ É mesmo aquelle a quem amo.
+ Nunca apanhei outro ramo
+ Nem outro alcanfor colhi
+ Nas hortas dos arredores
+ Da cidade de Engaddi.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Como és bella, minha amante!
+ Terá a pomba esse olhar?
+ Outro não ha semelhante.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --E quem mais bello e galante
+ Mais formoso, meus amores!
+ E mais de se cubiçar?
+
+ SALOMÃO
+
+ --Vês, o nosso leito é este,
+ Armado todo de flôres:
+ E olha o tecto é de cypreste,
+ Portas de cedro, tambem;
+ Aqui não entra ninguem.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Sou a rosa de Sarão,
+ A açucena do val.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Amada do coração,
+ Entre as mais és tal e qual
+ Uma açucena entre espinhos.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --E entre os mais o meu amado
+ A que ha-de ser comparado?
+ Vês tu no bosque a maceira?
+ És assim d'essa maneira.
+ Por lograr os teus carinhos
+ E boa sombra ha já muito
+ Que eu andava a suspirar:
+ Com effeito sombra e fructo
+ Nada deixa a desejar.
+
+ Elle deu-me do melhor
+ Que tinha na sua adega;
+ Mostrando-me assim primeiro
+ Como faz quem tem amor.
+ Trazei-me flôres de cheiro,
+ Que estou como tonta e cega...
+ Algum pomo, que esmoreço...
+ Já um braço me elle passa
+ Pelos hombros e me abraça
+ Pela cinta... desfalleço...
+ Ah desfalleço d'amor!
+
+ SALOMÃO
+
+ --Pela corça e o veado,
+ Moças de Jerusalem!
+ Não a acordeis, cuidado!
+ Deixar dormir o meu bem,
+ Um somno bem socegado.
+
+
+II
+
+ENTREVISTA
+
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Quem é que eu oiço bradando?
+ Oiço uma voz e por força
+ Que é a voz d'elle esta voz:
+ Ah! lá vem além saltando
+ Montes e valles, nem corça
+ Nem veado é mais veloz.
+
+ Eil-o detraz da parede
+ Além já da outra banda
+ E o que elle faz, como elle anda
+ A vêr no vallado todo
+ E na cancella se ha modo
+ De me pôr olho: ora vêde.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Oh minha amada! depressa
+ Vem vêr o campo, anda, vem:
+ Mettida em casa, meu bem!
+ Que demora tua é essa?
+
+ Foi o inverno passando,
+ Até que a chuva acabou:
+ Veio a herva rebentando,
+ Revestiu a terra toda,
+ Chegou o tempo da poda,
+ Ouviu-se a rola arrulhando,
+ O figo vem já inchando
+ E a vinha está já em flôr:
+ Pelo que estás esperando?
+
+ Quando has-de tu, meu amor!
+ Andar então passeando?
+ Ouve lá que estamos sós,
+ E aqui não ha quem nos oiça:
+ Vês esta fresta? é um gosto
+ Até pela pedra ensossa
+ Vêr assomar o teu rosto,
+ Ouvir essa linda voz.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Toda em flôr, como está bella!
+ Mas lá o ter flôr que monta?
+ Se as boas das raposinhas
+ A tomam á sua conta,
+ Depois a uva que é d'ella?
+ Bons laços se lhe hão-de armar,
+ Que ellas dão cabo das vinhas
+ Se ninguem as apanhar.
+
+ Tu és meu; e eu tambem
+ Sou tua, de mais ninguem.
+ Nós somos como um casal
+ De corcinhas, com effeito;
+ Andamos sempre a vêr qual
+ Guarda ao outro mais respeito
+ E lhe ha-de ser mais leal.
+ Logo ali de manhãsinha,
+ Ou pela fresca, á tardinha,
+ Quando a corça e o veado
+ Volta aos valles de Belher,
+ Cá ficas sendo esperado:
+ Não te esqueça, haja cuidado,
+ Vê lá o que has-de fazer.
+
+
+III
+
+SONHO
+
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Não sei bem que sonho tive
+ Esta noite, que acordei
+ Sobresaltada, e que estive
+ Ainda apalpando a cama
+ Á busca de quem me ama
+ E a quem ama; não achei:
+ Levantei-me, rodeei
+ A cidade toda em roda,
+ Corri a cidade toda,
+ Busquei tudo, não achei.
+ Na rua pergunto á ronda:
+ O meu amante que é d'elle?
+ Não ha ninguem que responda.
+ Vou andando; a poucos passos
+ Vi vir um vulto: é aquelle.
+ Chega e digo-lhe depois
+ De o apertar nos meus braços:
+ Quem se ama como nós dois,
+ Só em mudando de estado
+ É que vive descançado.
+ Anda d'ahi, vamos pois
+ Ao quarto mesmo onde dorme
+ Minha mãi que me gerou
+ (Que eu tua ainda não sou,
+ Nem tu és meu, meu amigo!)
+ A pedir a nossos paes
+ A sua benção, conforme
+ Costumam fazer os mais,
+ E é já um costume antigo.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Pela corça e o veado,
+ Moças de Jerusalem!
+ Não a acordeis, cuidado,
+ Deixai dormir o meu bem
+ Um somno bem socegado.
+
+
+IV
+
+NOIVADO
+
+
+ CORO
+
+ --Oh que mulher tão perfeita
+ A que vem além andando!
+ Vem espalhando um perfume
+ E é tão airosa a andar!
+ Parece quando se deita
+ Incenso e myrrha no lume
+ Que se vai desenrolando
+ Aquella nuvem no ar.
+
+ 2.º CORO
+
+ --Realmente é de invejar;
+ Mas haja alguem que se afoite...
+ Sessenta homens armados
+ Dos mais desembaraçados
+ Manda Salomão ficar
+ De vigia toda a noite.
+
+ CORO
+
+ --É tudo á satisfação
+ E gosto de Salomão.
+ O andor onde elle sai,
+ De tudo de que é composto,
+ Cedro do Libano, olhai,
+ É a coisa mais barata:
+ Pernas e braços de prata,
+ De oiro o mais fino o encosto;
+ Onde põe os pés velludo:
+ Não fallando em diamantes
+ E pedras as mais brilhantes
+ Que lá isso excede a tudo.
+
+ 2.º CORO
+
+ --Além vem já Salomão:
+ Lá vem elle já coroado
+ Com a corôa do noivado
+ Que a mãi lhe poz na cabeça
+ Pela sua propria mão.
+ Hoje é o dia fallado:
+ Moços, moças de Sião!
+ Assomai-vos já depressa.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Que enlevo, que formosura!
+ A pomba não tem de certo
+ No olhar tanta doçura:
+ E fóra o que anda encoberto.
+
+ O cabello, em quantidade
+ E tamanho, é singular;
+ E não me lembra senão
+ Das cabras de Galaad
+ Que lhes rola pelo chão
+ Em ellas indo a andar.
+
+ Os dentes, em tu abrindo
+ A tua boca, que lindo!
+ Nem um rebanho d'ovelhas
+ Todas brancas e parelhas
+ Quando, em sendo tosquiadas,
+ Veem saindo do banho
+ D'uma em uma, enfileiradas,
+ E atraz d'ellas, cada uma
+ Seus dois gemeos d'um tamanho,
+ Sem ser maninha nenhuma.
+
+ Pois a bocca é comparada
+ A uma fita encarnada.
+ A voz ouvil-a é um gosto:
+ Parte a romã pelo meio
+ Verás as rosas do rosto;
+ E fóra no que eu receio
+ Fallar que me não é dado.
+
+ O pescoço, pensa a gente,
+ Em o vendo de collares,
+ Que é a torre exactamente
+ De David, n'esses ares,
+ De baluartes, e toda,
+ Lá cima, escudos á roda.
+
+ Os peitos é um casal
+ De corcinhas, que o seu pasto
+ São açucenas do val:
+ Nada mais timido e casto.
+ E deitam um cheiro á goma,
+ Da myrrha mais do incenso,
+ A ponto que ás vezes penso
+ Que elles são duas collinas
+ Por onde aquellas resinas
+ Espalham aquelle aroma.
+
+ És formosa sem senão,
+ Amada do coração!
+ E que fazias tu lá
+ Pelo Libano, pombinha!
+ Deixa o Libano, anda cá.
+ Vaes ser coroada rainha
+ No mais alto d'Amaná
+ Ou d'Hermão ou de Sanir,
+ Onde ha leões e onde ha
+ Leopardos... deves vir.
+
+ Trespassou-me o coração
+ O teu olhar; o cabello
+ Prendeu-me como um grilhão.
+ O teu peito, basta vêl-o,
+ Para embebedar d'amor.
+ E só o cheiro que exhala
+ O teu corpo, não ha flôr,
+ Não ha rosa, não ha cravo
+ Capaz de cheirar melhor.
+
+ A tua bocca é um favo
+ De doçura quando falla;
+ A tua lingua, uma sopa
+ De leite e mel; essa roupa
+ Cheira a incenso, regala.
+
+ Não ha nada comparado:
+ Agua a mais pura e suave
+ De fonte fechada á chave,
+ Não é mais suave e pura.
+ Esse rosto, essa figura...
+ E só o bem que tu cheiras!
+ Não me parece senão
+ Um jardim todo plantado
+ De romeiras e maceiras,
+ Canfora, nardo, assim como
+ Açafrão, canna de cheiro
+ Aloes, myrrha e cinnamomo:
+ O que ha no Libano em fim;
+ Não ha fruta nem aroma,
+ Que se ahi não cheire e coma.
+ És a fonte d'um jardim
+ Toda pureza e frescura:
+ Torno d'agua que rebenta
+ Inda mais viva e mais pura
+ Lá no Libano, e ninguem
+ Lhe tem mão nem aguenta
+ A força com que ella vem.
+
+ Fizesse já sul e norte
+ No meu jardim, de tal sorte
+ Que alegretes e pomares
+ Andasse tudo nos ares.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --É natural que tu comas
+ Da fruta do teu jardim.
+
+ SALOMÃO
+
+ --E que duvida que sim?
+ Vamos primeiro aos aromas;
+ O mel em favo depois
+ E mais o vinho e o leite.
+ Hoje é dia de banquete,
+ Amigos do coração!
+ É comer-lhe por quem sois
+ E beber-lhe até mais não.
+
+
+V
+
+SURPREZA
+
+
+ A SULAMENSE
+
+ Estava a dormir... que importa?
+ Velava o meu coração.
+ Oiço o meu amado á porta:
+
+ --Ah formosa sem senão,
+ Minha pomba, minha amada!
+ Trago a cabeça molhada,
+ E os anneis do meu cabello
+ Todos escorrendo orvalho,
+ Estou mais frio que um gelo.
+
+ --Dá-me isto agora um trabalho...
+ Despi-me, lavei os pés,
+ Estou na cama deitada,
+ E é uma pena, bem vês,
+ Vestir-me agora outra vez,
+ Andar inda levantada.
+
+ Vai elle empurra o postigo,
+ E eu assusto-me de modo
+ Que, na verdade vos digo,
+ Tremia-me o corpo todo.
+
+ Salto da cama exhalando
+ Um cheiro delicioso:
+ Eu tinha-me estado untando
+ Com um oleo precioso
+ E inda as mãos me iam pingando.
+
+ Abro a porta, eis senão quando
+ Elle foge de repente...
+
+ Eu só de lhe ouvir a falla
+ Fui ás nuvens de contente.
+ E em paga de tudo, abala;
+ Bradei-lhe, não me acudiu,
+ Vou por essas ruas fóra
+ Á busca d'elle, até'gora:
+ Parece que o chão se abriu...
+
+ Encontro a ronda, espancou-me;
+ Um dos da guarda á entrada
+ Da cidade, esse, roubou-me
+ A capa onde ia embrulhada.
+
+ Peço-vos isto por bem,
+ Moças de Jerusalem!
+ Contai tudo ao meu amado,
+ Que elle é por amor de quem
+ Estou n'este triste estado.
+
+ CORO
+
+ --O teu amado... responde,
+ Formosura sem igual!
+ Ha tantos onde escolher
+ Que é necessario um signal.
+ Qual é o signal por onde
+ Havemos de o conhecer?
+
+ --Eu vos digo: o meu amado,
+ D'aquellas côres no mundo,
+ Estou que não ha segundo;
+ É muito branco e córado.
+ A cabeça é um thesoiro
+ Do que ha de mais principal;
+ Que a sabedoria vale
+ Mais do que a prata e o oiro.
+
+ De negro que é o cabello,
+ Vêr um corvo, é mesmo vêl-o.
+
+ Os olhos, aquelle olhar,
+ Ha n'elles uma doçura,
+ Que não sei a que os compare;
+ Só sendo a um casalinho
+ De pombas, que estão no ninho,
+ Todas pureza e candura.
+
+ As suas faces rosadas,
+ Rescendem como um canteiro
+ D'aquellas plantas de cheiro
+ De que fazem as pomadas.
+
+ A bocca, digo a verdade,
+ Que a açucena mais pura
+ Cheia da myrrha melhor
+ Não apresenta a doçura,
+ Pureza e suavidade
+ Das fallas do meu amor.
+
+ Aquelles dedos, vereis,
+ São uns canudos de anneis!
+
+ O ventre d'elle é assim
+ Como um cofre de marfim.
+ As pernas, de musculosas,
+ São columnas magestosas
+ E de marmore inteiriço
+ Em bases de oiro maciço.
+ É o Libano em altura,
+ É como um cedro na matta
+ A sua bella figura.
+
+ É tão suave, tão pura
+ A sua voz, que arrebata.
+
+ Todo elle é singular
+ E todo de cubiçar.
+ Eil-o ahi retratado,
+ Moças de Jerusalem!
+ E não só o meu amado;
+ O meu amante tambem.
+
+ CORO
+
+ --Ah rainha das mulheres!
+ Se sabes para que banda
+ Elle iria o teu amigo,
+ Anda d'ahi, vamos, anda:
+ Nós imos todas comtigo
+ Á busca d'elle se queres.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Elle parece-me a mim
+ Que ha-de andar no seu jardim,
+ A apanhar açucenas,
+ Que é do que elle gosta apenas.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Oh que formosa, meu bem!
+ Não ha cidade afamada,
+ Nem Thirsa ou Jerusalem,
+ Mais bella que a minha amada.
+
+ Mettes mais respeito andando,
+ Que um exercito avançando.
+
+ Os olhos faiscam fogo.
+ Tira de mim essa vista,
+ Que ao depois fugi eu logo
+ Porque não ha quem resista.
+
+ O cabello, em quantidade
+ E tamanho, é singular!
+ E não me lembra senão
+ Das cabras de Galaad,
+ Que o arrastam pelo chão,
+ Em ellas indo a andar.
+ Os dentes, em tu abrindo
+ A tua bocca, que lindo!
+ Nem um rebanho d'ovelhas,
+ Todas brancas e parelhas,
+ Ao vir sahindo do banho
+ D'uma em uma, e cada uma
+ Seus dois gemeos d'um tamanho,
+ Sem ser maninha nenhuma.
+ As faces não ha de certo
+ Assim casca de romã
+ De cor tão linda e tão sã.
+ E fóra o que anda encoberto.
+
+ És tão formosa, vê lá,
+ Que as rainhas são sessenta,
+ As concubinas oitenta,
+ Donzellas, quem é que as dá
+ Todas contadas? ninguem.
+ Pois e de quantas possuo,
+ A minha pomba, o meu bem,
+ A minha mimosa, és tu.
+ E o mesmo dizia já
+ Lá em casa tua mãi,
+ Com tantas filhas que tem.
+
+ Quando chegaste, as donzellas,
+ Concubinas e em summa
+ As rainhas, todas ellas
+ Sem excepção de nenhuma,
+ Gritaram todas á uma:
+ Viva a rainha das bellas!
+
+
+VI
+
+PASSEIO
+
+
+ CORO
+
+ --Que linda mulher aquella!
+ Nem a aurora lhe ganha.
+ A lua não é tão bella
+ Nem a luz do sol tamanha;
+ Mette mais vista só ella
+ Que um exercito em campanha.
+
+ A SULAMENSE
+
+ --Nunca tive um susto igual!
+ Ia á horta das nogueiras,
+ Ia passear ao valle,
+ Vêr se tinha flôr a vinha
+ E já romãs as romeiras;
+ Mas a multidão que vinha
+ Atraz de mim era tal
+ Que não vi nada, e tão cedo
+ Apanho tamanho medo.
+
+ CORO
+
+ --Oh não fujas, anda cá,
+ Sulamense! deixa vêr
+ Belleza como não ha
+ No mundo nem póde haver.
+
+ SALOMÃO
+
+ --Arrebata na verdade,
+ Mas como um canto de guerra,
+ Porque ao mesmo tempo aterra
+ Este ar e magestade.
+
+ O teu andar, que nobreza!
+ E tem o pé uma graça
+ Assim calçado, princeza!
+
+ Os joelhos, que perfeitos!
+ Não ha ourives que faça
+ Eixos de oiro mais bem feitos.
+ Umbigo, qual é a taça,
+ D'estas taças pequeninas
+ Por onde a gente costuma
+ Beber bebidas mais finas,
+ Tão redondinha? Nenhuma.
+
+ É o ventre de tal modo
+ Casto e fecundo, que apenas
+ Um monte de trigo, todo
+ Rodeado de açucenas
+ Me parece haver no mundo
+ Assim tão casto e fecundo.
+
+ O teu seio é um casal
+ De corcinhas, que o seu pasto
+ São açucenas do val:
+ Nada mais timido e casto!
+
+ Lembra-me o pescoço a mim,
+ Uma torre de marfim
+ E os olhos, esses então
+ Os dois lagos de Hesebão.
+
+ Vês a torre que apparece
+ Lá no Libano, e que diz
+ Para Damasco? parece
+ Na lindeza esse nariz.
+
+ A cabeça vêl-a toda
+ Por cima das mais, é bello,
+ Como a serra do Carmelo,
+ Toda collinas á roda.
+
+ O cabello é tal e qual
+ Um grande manto real!
+
+ É tudo uma perfeição,
+ Amada do coração!
+
+ Vêr-te é vêr uma parreira
+ Armada n'uma palmeira;
+ E lá em cima os teus peitos,
+ No tamanho e no feitio,
+ Dois cachos d'uvas perfeitos
+ Que a parreira produziu.
+ E eu disse d'esta maneira:
+ Dois cachos d'uvas tão bellos
+ Hei-de ir lá cima colhel-os;
+ Que bem se vê que a doçura
+ Corresponde á formosura;
+ E que a tua bocca é pura
+ E a respiração é sã
+ Como o cheiro da maçã
+ Quando se apanha madura.
+
+ --Como é suave e me encanta
+ O que me estás a dizer!
+ A voz da tua garganta
+ Embebeda como o vinho,
+ D'esse que a doçura é tanta
+ Que se costuma beber
+ Aos sôrvos, devagarinho.
+
+ És só meu e eu tambem
+ Sou tua, de mais ninguem.
+ Anda com a tua amada
+ Morar para o campo, amor!
+ Iremos de madrugada,
+ Logo ao romper da manhã,
+ Em se a gente levantando,
+ Vêr se a vinha já tem flôr,
+ Se está em flôr a romã
+ E se a fruta vai vingando.
+ Alli é que eu hei-de então
+ Abrir-te o meu coração.
+
+ Estamos na primavera,
+ A mandrágora já cheira,
+ E em minha casa, estar lá,
+ É como estar n'uma horta:
+ Mesmo ao pé da nossa porta
+ Temos quanta fruta ha.
+ E o teu quinhão, meu amado!
+ Assim do anno passado
+ Como da que vem agora,
+ Esse está sempre guardado.
+
+ Ouvisse-te eu n'esta hora
+ Chamar mãi á minha mãi!
+ Como se tu com effeito
+ Fosses criado ao seu peito
+ Assim como eu fui tambem:
+ Então já eu te beijava
+ Ás claras e te abraçava
+ Sem vergonha de ninguem.
+
+ Vamos aonde ella dorme,
+ A pedir a nossos paes
+ A sua benção, conforme
+ Costumam fazer os mais,
+ E depois seja o que fôr
+ É só mandar, meu amor!
+
+ Verás como te hei-de dar
+ D'um vinho delicioso
+ E d'um licor precioso,
+ De romã, que has de gostar.
+ .........................
+ Um braço já me elle passa
+ Pelos hombros... e me abraça
+ Pela cinta... o meu amado!
+ --Deixai-a dormir, cuidado,
+ Moças de Jerusalem!
+ Deixai dormir o meu bem
+ Um somno bem socegado.
+ ......................
+
+Messines.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ Ouviste-me não sei quê
+ Trincolejar n'algibeira,
+ Acudiste mui lampeira,
+ Que me amavas. Já se vê.
+
+ Tens amado mais de mil,
+ Não era agora o primeiro.
+ Mas pensas que era dinheiro?
+ É a pedra e o fuzil.
+
+Messines.
+
+
+FIM
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+ A poesia 1
+ A uma carta anonyma 4
+ Duas rosas 5
+ A uma mulher 8
+ A D. Candida Nazareth 11
+ Amor 14
+ A donzella e o musgo 17
+ Ultimo adeus 23
+ Rosas 26
+ Rosa e rosas 28
+ A Hermann 30
+ Presentimento 33
+ Marina 36
+ I--Apparição 36
+ II--Saudade 39
+ III--Eternidade 41
+ IV--... 21 de setembro 42
+ N'um album 46
+ Beijo na face 49
+ Thuribulo suspenso inda fluctuo 53
+ Luz d'intima influencia 55
+ Resposta 58
+ Pois se o homem, se anjo e nume 59
+ Flôr e borboleta 62
+ Remoinho 64
+ Amores, amores 71
+ Fabula 73
+ Boas noites 74
+ Gaspar 76
+ Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo 77
+ Carta 79
+ Dá-me esse jasmim de cera 85
+ Margarida 87
+ No leito nupcial 90
+ A minha mãi 93
+ Beatriz 94
+ Innocencia 97
+ A Escriptura Sagrada 101
+ A um Nuno 104
+ A *** 105
+ Luz da fé 107
+ Resposta 112
+ Meu casto lirio 113
+ Ventura 116
+ Arida palma 117
+ A uns olhos azues 119
+ Heresta 121
+ Fragmento 129
+ Se ao enlaçal-a no peito 145
+ Nunca me ha-de esquecer 146
+ Dinheiro 147
+ Duvida 150
+ Caturras 154
+ Foi-se-me pouco a pouco amortecendo 160
+ Mãi e filho 170
+ Toca a capello, vou vêl-o 173
+ Amas, pobre animal! e tens tu pena? 174
+ Não! 175
+ Na folha d'um romance 181
+ Lagrima celeste 182
+ Descalça! 185
+ Adeus! 187
+ A Victoria Colonna 190
+ N'um convento 191
+ Sonho 193
+ Á vista d'um retrato 196
+ A lua 198
+ Joven captiva 200
+ Mulher! quando nos braços 203
+ Um beijo 205
+ Francisca de Rimini 207
+ Paixão 212
+ Escreve 214
+ Malmequer 219
+ Virginia 221
+ Primeiro psalmo de David 227
+ Segundo psalmo de David 229
+ Cantico dos Canticos de Salomão 231
+ I--Chegada 231
+ II--Entrevista 239
+ III--Sonho 242
+ IV--Noivado 244
+ V--Surpreza 251
+ VI--Passeio 259
+ Ouviste-me não sei quê 266
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by João de Deus
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO ***
+
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+
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
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+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+
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+
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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