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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:35:29 -0700 |
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diff --git a/27599-8.txt b/27599-8.txt new file mode 100644 index 0000000..428c53a --- /dev/null +++ b/27599-8.txt @@ -0,0 +1,6421 @@ +The Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by João de Deus + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Flores do Campo + +Author: João de Deus + +Release Date: December 23, 2008 [EBook #27599] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + +Notas de Transcrição + +Foram corrigidos pequenos erros de impressão, sem que seja feita qualquer +nota dessa correcção, visto que em nenhum dos casos a correcção altera +o significado do texto. + +Para facilitar a identificação de cada poesia nesta edição electónica, +foi adicionado o seguinte marcador como divisão entre elas: + + * * * * * + + + + +FLORES DO CAMPO + + +A propriedade d'este livro pertence, no Brazil, ao snr. Joaquim Augusto +da Fonseca. + + + + +João de Deus + + +FLORES DO CAMPO + + +2.ª EDIÇÃO CORRECTA + + + +PORTO + +LIVRARIA UNIVERSAL +de +Magalhães & Moniz, Editores + +12--Largo dos Loyos--14 + +1876 + + +PORTO: 1876--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA +62, Cancella Velha, 62 + + + + +A POESIA + + +EMBLEMA + +Camões e Byron--Scepticismo e Crença + + Vem d'alto gozar, lirio! + Noite estrellada e tepida; + A vista ao céo intrepida + Lança, penetra o Empyreo. + + Dilata os seios tumidos; + Larga este terreo albergue; + Nas azas d'alma te ergue; + Ergue os teus olhos humidos + + Que vês?--Soes, de tal sorte + Que os crêra tochas pallidas, + Quando as guedelhas, madidas + De sangue, arrasta a morte. + + --Transpõe-n'os; que, elevando-te, + Por cada um d'aquelles, + Milhões e milhões d'elles + Verás alumiando-te. + + Ávante pois, acima + Dos soes d'uma luz tremula; + Alma dos anjos emula! + Deus o teu vôo anima. + + Que vês?--Um vacuo eterno. + --E n'elle?--Em ermo tumulo, + Em ignea letra (cumulo + D'horror) _Byron_--o inferno. + + --Foge.--O horror fascina-me. + São reprobos que exhalam + Horridos ais que abalam + O inferno: oh Deus! anima-me. + + --Escuta-os.--Escutemol-os. + Como elles bramem, rugem, + E o espaço uivando estrugem... + Gelam-se os membros tremulos. + + --Entra.--Não posso.--Arromba. + --Prohibem-m'o.--Subleva-te. + --Prohibe-o Deus.--Eleva-te. + Acima, ingenua pomba! + + Que vês? A luz clareia-me. + Que céo, que azul ethereo! + Oh extasi, oh mysterio! + Sobeja a vida, anceia-me. + + --Falla.--Deus! que harmonia! + Aqui a alma exalta-se; + A alma aqui dilata-se... + _Camões!_--É a poesia. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + A UMA CARTA ANONYMA + + + Não sabe a flôr quem manda a luz do dia, + Nem quem lhe esparge o nectar que a deleita + Ao vir raiando a aurora, + E ella agradece as lagrimas que aceita, + E ella as converte em balsamos que envia + Ao mysterio, que adora. + + LAMARTINE. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +DUAS ROSAS + + + Que bonita, meu amor! + Que perfeita, que formosa! + A ti pozeram-te Rosa, + Não te fizeram favor. + A rosa, quem ha que a veja + Bandeando, sem gostar? + Mas por mais linda que seja + A rosa, quando se embala, + Não te ganha nem iguala + A ti em indo a andar. + + A rosa tem linda côr, + Não ha flôr de côr mais linda; + Mas a tua côr ainda + É mais fina e é melhor. + Murcha a rosa (que desgosto!) + Só de lhe a gente bulir; + E essas rosas do teu rosto + É em alguem te tocando + Que parece mesmo quando + Ellas acabam de abrir. + + Cheiro, o da rosa, esse não, + Não é mais do meu agrado, + Que o teu bafo perfumado, + A tua respiração. + Depois a rosa em abrindo + Vai-se-lhe o cheiro tambem: + A tua bocca em te rindo + Só o bom cheiro que exhala... + E quando fallas, a falla, + Isso é que a rosa não tem. + + Ella o que tem, meu amor? + O cheiro, a côr e mais nada. + Confessa, rosa animada! + Que és outra casta de flôr. + Os olhos só elles valem + Duas estrellas, bem vês; + Pois vozes que a tua igualem + Na doçura, na pureza, + Na terra, não, com certeza; + Agora no céo, talvez. + + Não ha assim perfeição, + Não ha nada tão perfeito, + Mas é um grande defeito + O de não ter coração. + N'isso é que te leva a palma + A rosa, sendo uma flôr + --Sem voz, sem vida, sem alma, + Que abre logo á luz da aurora + E á noite esconde-se e chora + Pelo sol, o seu amor. + + Ora e se a rosa, vê bem, + Tem amor, não tendo vida, + Será coisa permittida + Tu não amares ninguem? + Suppões que Deus te agradece + Essa isenção, minha flôr! + Deus a ninguem reconhece + Por filho senão quem ama: + A terra e o céo proclama + Que elle é todo puro amor. + +Messines. + + * * * * * + + + + +A UMA MULHER + + + Amo-te a ti, e a Deus. + Teus sonhos são riquezas + Talvez e fasto. Os meus, + És tu, que me desprezas. + + Deixal-o. Amor acaso + É racional? Não é. + O fogo em que me abrazo + É como a luz da fé; + + Que além de cega, apaga + O facho da razão. + Ama-se e não se indaga + Se se é amado ou não. + + Amo-te. O mais ignoro. + Mas os meus ternos ais + E as lagrimas que chóro + Podem dizer o mais. + + Que chóro; se te admira. + Nunca tiveste amor. + Quem tem amor, suspira, + E o suspirar é dôr. + + Ah! quando abraço e beijo + O travesseiro e, assim, + Acórdo e te não vejo, + Vejo-me só a mim; + + Não sei, mulher! que anceio + Se me traduz n'um ai! + Confrange-se-me o seio, + Rebenta o pranto e cái. + + Então, se por encanto + Fallando em ti, mas só, + Todo banhado em pranto + Me visses, tinhas dó. + + Tinhas. A piedade + É filha da mulher, + Que sempre quiz metade + D'uma afflicção qualquer. + + Havias ao teu rosto + De me apertar a mim, + D'encher, fartar de gosto, + Todo este abysmo; sim. + + Vós desprezaes embora + Culto e adoração + De quem vos ama; agora + As dôres, essas não. + +Messines. + + * * * * * + + + + +A D. CANDIDA NAZARETH + +Por occasião da morte de sua irmã Rachel e, poucos dias depois, de sua mãi + + + Despe o luto da tua soledade + E vem junto de mim, lirio esquecido + Do orvalho do céo! + Tens nos meus olhos pranto de piedade, + E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido, + Mulher! sou irmão teu. + + Consolos não te dou, que não existe + Quem de lagrimas suas nunca enxuto + Possa as d'outro enxugar: + Não póde allivios dar quem vive triste, + Mas é-me dôce a mim chorar se escuto + Alguem tambem chorar. + + Botão de rosa murcho á luz da aurora! + Que peccado equilibra o teu martyrio + Na balança de Deus? + Se é como justo e bom que elle se adora + Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio, + E em lirio os labios teus? + + Não enche elle de balsamos o calix + Da flôr a mais humilde, e esses espaços + Não enche elle de luz? + Não veio o Filho seu, lirio dos valles! + Só por amor de nós tomar nos braços + Os braços d'uma cruz? + + Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio + Levanto o pó dos tumulos sósinho: + Eis, digo, eis o que eu sou. + Mas quando penso bem n'esse mysterio + Da virtude infeliz: vai teu caminho; + Dois mundos Deus creou. + + Deus não dispara a setta envenenada + Á pombinha que aos ares despedira + Com mão traidora e vil. + + Imagem sua, Deus não volve ao nada, + Não aniquila a flôr que ao chão cahira + Lá d'esse eterno abril. + + Has-de, cysne! expirando alçar teu canto, + Has-de lá quando a lua da montanha + Te acene o extremo adeus, + Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto, + No oceano d'amor que as almas banha, + Unir teu canto aos seus. + + Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas + D'um só jacto de terra... oh desventura! + Oh destino cruel! + Vejo-as ainda ir com as mãos incertas + Guiando-se uma á outra á sepultura, + E a mãi: Rachel! Rachel! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +AMOR + + + Amo-te muito, muito. + Reluz-me o paraiso + N'um teu olhar fortuito, + N'um teu fugaz sorriso. + + Quando em silencio finges + Que um beijo foi furtado + E o rosto desmaiado + De côr de rosa tinges; + + Dir-se-ha que a rosa deve + Assim ficar com pejo, + Quando a furtar-lhe um beijo + O zephyro se atreve; + + E ás vezes que te assalta + Não sei que idéa, joven! + Que o rosto se te esmalta + De lagrimas que chovem; + + Que fogo é que em ti lavra + E as forças te aniquila, + Que choras, mas tranquilla, + E nem uma palavra? + + Oh! se essa mudez tua + É como a que eu conservo, + Lá quando á noite observo + O que no céo fluctua; + + Ou quando, á luz que adoro, + Ás horas do infinito, + Nas rochas de granito + Os braços cruzo e chóro; + + Amamo-nos... Não cabe + Em nossa pobre lingua + O que a alma sente, á mingua + De voz, que só Deus sabe. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +A DONZELLA E O MUSGO + + + Um dia, não sei que eu tinha... + Uma tristeza tamanha! + E lembra-me ir á montanha, + Que temos aqui vizinha, + Onde em tempo me entretinha + Horas e horas sósinha + Quando ainda se não estranha + Que n'uma teia de aranha + Se prenda uma innocentinha, + Ou atraz d'uma avesinha + Se cance a vêr se a apanha. + + Depois é que o mundo falla + E se mette com a vida + De quem ás vezes se cala + Por ser mais bem procedida. + Que esta gente que faz gala + Em coisa, que vê, contal-a, + E sendo mal permittida + Inda em cima acrescental-a, + Teem a lingua comprida + E bem deviam cortal-a. + + Vou pelo córrego acima, + Subo á ponta do penedo; + Que a vida só quem a estima + É que da morte tem medo. + A mesma tristeza anima + A encarar a pé quedo + A morte que se aproxima + A tirar-nos do degredo, + Que inda a gente se lastima + De não acabar mais cedo. + + E alli sósinha chorando + Me lembrava, ora a ventura + Da minha infancia, inda quando + Levava os dias brincando; + Ora a desgraça futura, + Que me estava annunciando + Não sei se a minha amargura, + Se uma nuvem, grande e escura, + Que se ia no ar formando + E vinha já avançando, + Como que á minha procura. + + E ainda o pranto corria + E o cabello me batia + No rosto, que me doía, + Tal era a força do vento; + Já tudo tão pardacento + A nevoa e chuva fazia + Que eu olhava, mas dizia: + É nuvem ou penedia + Aquelle vulto cinzento? + O mar brilhante algum dia + Como prata luzidia + Já ninguem o distinguia + Da terra e do firmamento: + Uivar só é que se ouvia, + Mas uivar sem sentimento; + E como em grande tormento + Se desvaira a phantasia: + --Fosse eu mar, disse; valia + Mais ser coisa bruta e fria, + Como a rocha onde me sento. + + Faz um trovão no momento + Que soltava esta heresia; + E áquella rouca harmonia + Occorre-me um pensamento, + Que me dá uma pancada + O coração de tal modo, + Como se o rochedo todo + Desandasse na chapada. + + Era a voz da consciencia + Que me accusava do crime + De negar á Providencia + A razão com que me opprime. + Peço perdão, commovi-me + E n'um extasi sublime + Lagrimas de penitencia, + Como um balsamo, uma essencia, + Purificam-me e senti-me + Com uma nova existencia. + + Ólho; as nuvens esvaíam-se: + Os roncos do mar ouviam-se, + Mas já mais de espaço a espaço. + O sol ainda tão baço, + De luz tão pouco brilhante, + Que se media a compasso + Como a cara d'um gigante, + Descobre-se e resplandece! + Ao longe o mar apparece; + E tudo, mar, terra e céos + Tão formoso me parece, + Como se agora tivesse + Sahido das mãos de Deus! + + No rochedo onde descança + Meu corpo desfallecido, + O verde musgo, vestido + Sempre da côr da esperança, + Agora reverdecido, + Me ensina a ter confiança + N'esse que do céo nos lança + Em dia tempestuoso, + Só para nosso repouso + O arco da alliança. + + Pobre musgo, descuidado, + Sem olhos para chorar, + Sem poder alliviar + Com seu pranto um desgraçado, + Consolar-se e consolar! + Fallas mais a meu agrado + Que o livro mais afamado + D'esses livros, que em lugar + De nos dar consolação, + Nos fazem cahir no chão + Um pranto mal empregado, + E inda mais amargurado + Nos deixam o coração. + + Colhi-o, pul-o no seio, + E é hoje o livro que leio. + +Messines. + + * * * * * + + + + +ULTIMO ADEUS + + + Prestes, se inda na rocha de granito + D'onde em tempo me vias te sentares, + Não olhes para a terra ou para os mares, + Olha sim para o céo, que é lá que habito. + + Lá tão longe de ti, mas não do terno, + Bondoso pai que os dois nos ha gerado, + Só para mágoas não, que bem guardado + Nos tem tambem no céo prazer eterno. + + Não se é só pó no fim de tanta mágoa. + Senão, diga-me alguem que allivio é este + Que sinto, quando á abobada celeste + Alevanto os meus olhos rasos d'agua. + + Mentem os céos tambem? Os céos maldigo. + Feras, tigres, tambem o céo povôam? + Tambem os labios lá sorrindo côam + Veneno desleal em beijo amigo? + + Mas na dôr é que os astros nos sorriem, + E os homens não sorriem na desdita. + Astros! fio-me em vós, e Deus permitta + Que os infelizes sempre em vós se fiem. + + Intima voz do fundo, bem do fundo + D'alma me diz (e as lagrimas me saltam): + Vês os milhões de soes que o espaço esmaltam? + Pisa a terra a teus pés, inda ha mais mundo. + + Ha depois d'esta vida inda outra vida. + Não se reduz a nada um grão d'arêa, + E havia de a nossa alma, a nossa idêa + Nas ruinas do pó ficar perdida? + + --Isso que pensa e quer (até me admiro), + Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, + Isso que me abre o céo que ao céo me eleva + N'um teu cançado olhar, n'um teu suspiro! + + Onde, não sei eu bem, mas sei que existe + Deus remunerador. Depois de mortos + Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos + Fartar de glorias este amor tão triste. + + --Tão triste, e o coração que me adivinha + N'este supplicio nosso este tormento! + Nunca dos labios teus minimo alento + N'um só beijo bebi em vida minha! + + E morro sem te vêr! Cabeça doida, + Desasisado amor! Sonhar afflicto + Um sonho até morrer... Não: resuscito; + Morto tenho eu vivido a vida toda. + +*** + + * * * * * + + + + +ROSAS + + + Trazeis-me rosas; d'onde as heis trazido, + Boa velhinha e minha boa amiga? + Rosas no inverno! permitti que o diga, + Sois feiticeira: d'onde as heis colhido? + + Na primavera de meus annos, ólho, + Mas vejo abrolhos e não vejo flôres: + E vós colhêl-as, como as eu não colho... + Sois feiticeira--enfeitiçaes d'amores. + + Enfeitiçaes que a formosura, crêde, + Não vem da face avelludada e bella; + A formosura vem só d'alma; é d'ella + Que brota a fonte que nos mata a sêde. + + Vós sois velhinha, já não tendes côres + Que o rosto animem e que os olhos prendam, + Mas tendes prendas que o amor accendam, + Tendes ainda no inverno... flôres. + +Evora. + + * * * * * + + + + +ROSA E ROSAS + + + A Rosa trouxe-me rosas + E nada mais natural, + Mas eu prendas tão mimosas + É que não tenho; inda mal. + + Quando tinha, se me désse, + Não digo mais que uma flôr, + Talvez de flôres lhe enchesse + Esses cofrinhos d'amor. + + Aguas passadas, Rosinha! + Deixal-o; veja se vê + N'este chão que já foi vinha + Coisa que ainda se dê. + + Veja e escolha. Está na mesa + O que ha em casa; é tirar + --Tirar com toda a franqueza; + Inda hão-de espinhos sobrar. + + Mas se espinhos, mas se abrolhos + Lhe não agradam, amor! + Mire-se bem nos meus olhos, + Que ha-de ahi vêr... uma flôr. + +Evora. + + * * * * * + + + + +A HERMANN + +Por occasião d'um beneficio a um asylo + + + «Conchega a mãi ao peito o filho caro; + Estende a pomba as azas no seu ninho + Pelos filhinhos seus. + Embala o arbusto agreste; o fructo amaro. + Guia a bussola o nauta em seu caminho, + Como um dedo de Deus. + + «Bebe a nuvem no mar, no rio a fera; + Acha o tigre covil na antiga Hyrcania, + Hoje em dia, Ghilã; + Renasce a planta á luz da primavera, + E no calix da flôr gotta espontanea + Cahe á luz da manhã. + + «Só eu no mundo um gosto em vão pretendo: + Guebro entre os persas, entre os indios pária, + Judeu entre christãos, + Só eu debalde ao céo as mãos estendo, + Como o naufrago á praia solitaria + Debalde estende as mãos. + + «Tenho no livro azul onde Elle escreve + Esse nome, que nunca pronuncia + Quem bem o soletrou, + Mil vezes tenho lido que não deve + Queixar-se mais que a flôr que vive um dia + Um verme como eu sou. + + «Porém, chorando, as mágoas diminuem. + Custa muito soffrer sem que um gemido + Ah! solte a nossa dôr. + E se aos olhos as lagrimas affluem, + É que este allivio nosso é permittido. + O céo orvalha a flor.» + + Diz isto o orphão. De alma os ais lhe sahem, + Como os suspiros de harpa eolea em ermo. + Ninguem no mundo o ouviu. + Mas, se a teus pés as lagrimas lhe cahem, + Tocou a mão de Christo a mão do enfermo; + O Lazaro surgiu. + + Por isso, Hermann! espantas-me. Não scismo + Nos prodigios da milagrosa vara + Que o Senhor Deus te deu. + Teu coração, Moysés do christianismo! + Tua alma é que eu admiro, e te invejára + Se o que é teu... fosse teu. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +PRESENTIMENTO + + + Emilia! não vês a lua + Como vacilla e fluctua, + Ora avança, ora recúa, + E não ha passar d'alli? + Tu és a imagem d'ella; + És tão sympathica e bella, + Meiga e timida, que ao vêl-a + Me lembra sempre de ti! + + Tu és o botão de rosa + Que abraçado á mãi formosa + Só folga, só vive e goza + N'aquella triste união; + Treme até de ouvir a aragem + Passar por entre a folhagem: + Emilia! tu és a imagem + Do mais timido botão. + + Mas embora: o tempo gira. + Um dia o botão, que aspira + O ar da manhã... suspira + E levanta o collo ao céo: + Vê vir raiando a aurora, + Abre o seio á luz que adora, + Correm-lhe as lagrimas, chora... + Chora o tempo que perdeu! + + Porque elle, Emilia! não teme + Que a luz da aurora o queime; + Elle suspira, elle geme + Por vêr a luz que o creou. + Nem tambem a lua pára: + Se algumas vezes repara + N'uma nuvem menos clara, + É um momento e... passou. + + Não ha existencia alguma + Que não tenha amor; nenhuma; + Porque o amor é, em summa, + Essencia de todo o sêr. + Ha sempre quem nos attráia. + Mil vezes que a onda cáia, + Ha uma rocha, uma praia + Aonde a onda vai ter. + + Tu andas já presentida + D'essa voz que te convida + A encetar n'esta vida + Ai! uma vida melhor... + E em breve desenganada + D'essa existencia isolada, + Darás n'alma franca entrada + A sentimentos de amor! + +Silves. + + * * * * * + + + + +MARINA + + +I + +APPARIÇÃO + + Como esse olhar é dôce! + Dôce da mesma sorte + Como se nunca fosse + Toldado pela morte: + + Como se alumiasse + O sol ainda em vida + As rosas d'essa face... + Agora carcomida. + + Colhesse-as eu mais cedo + E logo que alvorece; + Já não tivesse medo + Que a terra m'as comesse. + + Mas pura, como a neve + Que ás vezes cahe na serra, + É que a nossa alma deve + Tambem voar da terra. + + Gelasse a morte fria + A mão profanadora + Que te ennublasse um dia + A luz que dás agora. + + É n'essa côr tão linda, + Rosa da madrugada! + Que sinto a alma ainda + Andar-me enfeitiçada. + + Se um dia nos meus braços + Te desbotasse as côres, + Passavam os abraços... + Passavam os amores! + + Oh! não: mil vezes antes + No céo lá onde habitas, + E os rapidos instantes + Que vens e me visitas + + N'este degredo nosso, + Que tanta gente estima, + E eu, só porque não posso, + Não largo e vou lá cima. + + Vem tu cá baixo, abala, + Deixa em podendo o collo + Tão terno que te embala, + E vem-me dar consolo. + + Como essa imagem pura + Ah! sobrevive ao nada + E escapa á sepultura, + Tão fresca e perfumada! + + Nunca uma noite eu deixe + De estar a vêr que existes, + Em quanto me não feche + O somno os olhos tristes. + + E n'esse largo espaço + Que te não vejo, espero + Lhe contes o que eu passo + N'este aspero desterro: + + Que assim que te não veja + É noite fria e escura, + Noite que mette inveja + Á mesma sepultura! + + +II + +SAUDADE + + Em acordando agora, + O meu contentamento + É vêr em cada aurora + Um dia de tormento! + + Podesse eu dar-te a prova + Dos dias que me esperam, + Lançando-me na cova + Onde elles te pozeram! + + Lançassem-me algum dia + Ao pé, que de repente + O coração te havia + De ainda pular quente... + + A face cobrar logo + A fórma e côr perdida, + E a bocca toda fogo + Ah! inspirar-me a vida! + + Supplíca, ó anjo! implora + Ao Pai universal + Que me deixe ir embora + D'este horroroso val + + De lagrimas amargas, + E turvas de tal modo, + Como umas nuvens largas + Que tapam o céo todo! + + +III + +ETERNIDADE + + Inferno e céo, conforme + A nossa fé, confesso + Que é um mysterio enorme, + É um mysterio immenso. + + Mas um mysterio é tudo: + Folhinha d'herva, e estrella, + Não ha comprehendêl-a! + É contemplal-a mudo. + + E a herva, como existe, + A mim quem m'o diria, + Se a luz que me alumia + Nem sabe em que consiste? + + Mas uma coisa sabe + O que a cabeça ignora + --O coração... que mora + Em peito onde não cabe. + + Ha uma luz mais clara + Que a luz do pensamento: + A d'essa imagem cara... + A d'este sentimento! + + +IV + +... 21 DE SETEMBRO + + Ha uma hora ou mais, + Marina! que contemplo + A casa de teus paes + Que é para mim um templo. + + Está a porta aberta, + E vejo alumiada + A parte descoberta + Da casa da entrada. + + Lá andam a passar + Do quarto onde acabaste + Á casa de jantar + Os vultos, que deixaste. + + Os vultos, que os vestidos + Tão negros que pozeram, + De luto, tão compridos, + Não sei que ar lhes deram! + + A tua bella irmã, + A tua piedade, + A rosa da manhã, + A flôr da mocidade, + + Quem lhe diria a ella, + Tão cheia de alegria, + Que haviamos de vêl-a + Assim já hoje em dia! + + É esta vida um mar, + E bem se póde a gente, + Marina! comparar + A rapida corrente, + + Que vai de lado a lado + Por esses valles fóra + Sem nunca lhe ser dado + Ter a menor demora. + + Pára, quando a engole + Aquelle mar sem fundo; + Nem pára; é como o sol + E como todo o mundo... + + Ahi não pára nada, + Tudo viaja e anda, + Que a ordem lhe foi dada, + E dada por quem manda. + + Chega a corrente lá, + Engole-a logo a onda: + Depois, que é d'ella já? + A nuvem que responda. + + Que a nuvem que nos passa + Pela manhã nos ares, + Era hontem a fumaça + Que andava n'esses mares; + + E a nevoa, que tu vês + Nas ondas fluctuantes, + Corria-nos aos pés + Talvez um dia antes. + + A agua é que no giro + Em que anda eternamente + Não deu nunca um suspiro + Em prova de que sente. + + ..................... + + * * * * * + + + + +N'UM ALBUM + +Pedindo-se ao author uma poesia + + Não me admira a mim que o sol, monarcha + De indisputavel throno, e throno eterno + Em céo e terra e mar; + Que em seu imperio o mundo inteiro abarca + Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno, + Mavioso olhar. + + Não me admira a mim que a crystallina, + Tão pura, onda do mar, que espelha a face + Do astro creador, + Que essas asperas rochas cava e mina, + Á praia toda languida se abrace + E toda amor! + + Mas sendo vós um sêr mais precioso + Do que onda e sol--um anjo de poesia + Inspirada e que inspira; + Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso, + Delicado penhor descesse um dia + É que me admira. + + Quizera nos meus cofres de poeta + Ter as riquezas todas do Oriente, + E com mãos liberaes + Expulsar esta duvida que inquieta + Um grato coração que apenas sente + E... nada mais! + + De limpido diamante e fio de oiro, + Quizera-vos tecer collar que á aurora + Vencesse em brilho e côr; + Mas o poeta, o unico thesoiro + Que tem, ah! são as lagrimas que chora + E o seu amor. + + Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso + Se amada estrella olhar piedoso envia + A quem da terra a adora; + Se o sol aceita á flôr humilde incenso; + Ha no amor tambem muita poesia... + Minha senhora! + +Evora. + + * * * * * + + + + + Beijo na face + Pede-se e dá-se: + Dá? + Que custa um beijo? + Não tenha pejo: + Vá! + + Um beijo é culpa + Que se desculpa: + Dá? + A borboleta + Beija a violeta: + Vá! + + Um beijo é graça + Que a mais não passa: + Dá? + Teme que a tente? + É innocente... + Vá! + + Guardo segredo, + Não tenha medo... + Vê? + Dê-me um beijinho, + Dê de mansinho, + Dê! + + Como elle é dôce! + Como elle trouxe, + Flôr! + Paz a meu seio; + Saciar-me veio, + Amor! + + Saciar-me? louco... + Um é tão pouco, + Flôr! + Deixa, concede + Que eu mate a sêde, + Amor! + + Talvez te leve + O vento em breve, + Flôr! + A vida foge. + A vida é hoje, + Amor! + + Guardo segredo; + Não tenhas medo + Pois! + Um mais na face + E a mais não passe! + Dois... + + Oh! dois? piedade! + Coisas tão boas... + Vês? + Quantas pessoas + Tem a Trindade? + Tres! + + Tres é a conta + Certinha e justa... + Vês? + E o que te custa? + Não sejas tonta! + Tres! + + Tres, sim. Não cuides + Que te desgraças: + Vês? + Tres são as Graças, + Tres as Virtudes, + Tres. + + As folhas santas + Que o lirio fecham, + Vês? + E que o não deixam + Manchar, são... quantas? + Tres!... + + * * * * * + + + + + Thuribulo suspenso inda fluctuo, + Em quanto a alma em incenso restituo; + Mas, quando como fumo que se esvai, + Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai. + Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz, + Levar-lhe... quanto levas, pobre luz! + Amor, que em mim não cabe, vai depôr + Em Deus, e Deus bem sabe se era amor; + Se d'outra flôr o calix mais libei + Por esses quantos valles divaguei; + Se um nome em igneo traço li no céo, + Nas ondas e no espaço, mais que o seu... + Deus sabe se eu dos montes vi tambem + Nos vastos horisontes mais alguem; + Nos tristes e risonhos dias meus, + Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus. + Porém quem é que apanha o aereo véo + Da nuvem da montanha, se é do céo? + Se á terra a nuvem desce, quando vai + Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Luz d'intima influencia, + Oh fugitiva luz! + Luz cuja eterna ausencia + É minha eterna cruz. + + Podessem-te, ainda antes + Do meu extremo adeus, + Meus olhos fluctuantes + Vêr lampejar nos céos. + + Se ainda n'esse espaço, + Tão longe onde tu vás, + Visse um reflexo baço + Da pura luz que dás; + + Tornaram-se-me estrellas + As lagrimas de dôr; + E lagrimas são ellas... + Sim, lagrimas d'amor! + + Vê n'esse espaço immenso + Os astros como estão + Bem como eu estou, suspenso + Por intima attracção. + + Porque ha quem os attráia; + É essa eterna paz + Que a mim de praia em praia + A suspirar me traz. + + Converte-me este inferno + Em azulado céo, + Ou quebra o laço eterno + Que a tua luz me deu; + + Ou antes muda em espuma + De nunca estavel mar + Esta alma que alma alguma + Póde exceder em amar. + + Em cinza, em terra, em nada, + Meu sêr converte, ó luz, + Mas sempre, sempre amada, + Deliciosa cruz! + +Portimão. + + * * * * * + + + + +RESPOSTA + +A A. DO QUENTAL + + + Em fumo se vai tudo, amigo! Olhando + Para as nuvens do céo, nuvens d'aquellas, + E parece-me ainda que mais bellas, + Anda a gente fazendo e desmanchando. + + Dá-me uma saudade em me lembrando + O bello tempo que passei com ellas, + Por essa immensa abobada de estrellas, + Por esse mar de fogo viajando... + + Andasse ainda eu lá, que não me havia + De vêr por estes charcos atolado, + Onde nem sol nem lua me alumia. + + Andasse ainda eu lá, desenganado + Mesmo já como estou de achar um dia + A patria d'aonde ando desterrado. + + * * * * * + + + + + Pois se o homem, se anjo e nume, + Planta e flôr, + Dá seu canto, luz, perfume, + Crença e amor; + + Pois se tudo sobre a terra + Que ame alguem, + Rosa ou espinho, quanto encerra + Dá, se o tem; + + Se os carvalhos, nus, medonhos, + Veste abril; + Se inda a noite presta aos sonhos + Graças mil; + + Se onde ha ramo, voz uma ave + Desprendeu; + Se onde ha folha, gotta suave + Cahe do céo; + + Se na praia, quando a onda + Vem de lá, + Beijos, antes que se esconda, + Mil lhe dá; + + Tambem, anjo meu saudoso! + Te hei de emfim + Ah! dar quanto de precioso + Sinto em mim! + + Dou-te o nectar, que me acalma; + Toma-o tu! + Sim, meu pranto; mais uma alma + Que eu possuo! + + Dou-te os sonhos meus ardentes, + Mas leaes; + Dou-te as notas mais cadentes + Dos meus ais! + + Do que ha lindo, tudo quanto + Me seduz; + D'esta vida, riso e pranto, + Noite e luz! + + Dou-te o genio meu, que á sorte + Vês fluctuar + Sem mais véla, sem mais norte + Que esse olhar! + + Dou-te a lyra, que me inspiras, + Sonho meu! + Que suspira, se suspira, + Flôr do céo! + + Dou-te; aceita: tudo é santo, + Tudo, flôr! + Dou-te uma alma toda encanto, + Toda amor! + + V. HUGO. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +FLÔR E BORBOLETA + + + Tu vôas, borboleta! e que eu não possa + Voar, amor! + Diversa como é n'isto sorte nossa! + Dizia a flôr. + + No valle, ambas irmãs, nascidas fomos; + És como eu sou; + E amamo-nos, e flôres ambas somos, + Mas eu não vôo. + + A ti leva-te o ar; prende-me a terra + A mim; e eu + Como hei-de perfumar-te em valle e serra, + E lá no céo!... + + Mais longe inda tu vás, por outras flôres... + Girar, talvez, + Em quanto a minha sombra, meus amores! + Gira a meus pés! + + E vens-me vêr depois, mas vaes-te embora, + Sabendo, assim, + Que em lagrimas me encontra sempre a aurora! + Pobre de mim! + + Acabem-se estas mágoas, meu thesoiro + E meu amor! + Cria raiz ou dá-me as azas de oiro, + Celeste flôr! + + V. HUGO. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +REMOINHO + + + Olha como embrulhado + Que está ainda o céo + E o chão, como ensopado + Da agua que choveu... + + Foi um diluvio d'agua; + E o furacão, que fez, + Emilia! até dá mágoa + Tantos estragos: vês? + + Esta infeliz víuva, + Foi-lhe o telhado ao ar; + Depois, já nem da chuva + Tinha onde se abrigar. + + De mais a mais sósinha, + Sem ter nenhum dos seus + Aqui ao pé; ceguinha... + Bemdito seja Deus! + + Além n'aquelle serro + Parece que raspou + Com uma pá de ferro + A terra que encontrou. + + Nem um só pé de trigo + És lá capaz de vêr. + Já eu disse commigo: + Como póde isto ser? + + As arvores arranca + O vento muito bem; + Serve-lhe de alavanca + A rama que ellas tem. + + Vem de lá elle e, topa + N'uma arvore, o que faz? + Enrola-se na copa + E, tronco e tudo, zás! + + Que as folhas não são nada, + Uma por uma, não; + Mas já uma pernada... + Tão poucas ellas são? + + Vê lá se o teu cabello + É para comparar; + Mas, possa alguem sustel-o, + Levanta-te no ar. + + Aqui um loureirinho, + Que era o que havia só, + Encontra-o no caminho, + Ia-o fazendo em pó. + + D'aqui passa, á maneira + Assim d'um caracol, + Áquella farrobeira + Põe-lhe a raiz ao sol. + + Aquelle enorme tronco + Quiz resistir, depois, + Ouviu-se um grande ronco, + Quando o eu vejo em dois. + + Andava a rama toda, + Emilia! assim, vês tu? + Á roda, á roda, á roda, + Eis senão quando, rhuh! + + Foi quando veio o outro + Urrando como um boi, + Oh que horroroso encontro! + Então é que ella foi. + + Vês uma cobra enorme + Á calma, quando está + Grande calor, conforme + As tenho visto já? + + Que não tem ar avonde, + Falta-lhe já o ar, + Quer sangue ou agua onde + Se possa refrescar; + + Anceia-se, sacode + O corpo todo a vêr + Se vôa, mas não póde; + Voar não póde ser; + + E como não supporta + Já o calor do chão, + Ao vêr-se quasi morta + De raiva e afflicção, + + Apenas finca a ponta + Do rabo em terra, e sái; + E faça-se de conta + Que é a voar que vai + + N'aquellas roscas todas + Que, olhando-se-lhes bem, + São outras tantas rodas + Em cima d'onde vem; + + N'aquelle parafuso + --Aquelle rodopio, + Á roda como um fuso + Suspenso pelo fio; + + Com a cabeça chata, + Aquelle olhar feroz, + Aquelle olhar que mata + Sempre de fito em nós? + + Assim d'essa maneira + É que elle vinha, o tal; + Salta-lhe á dianteira + Este de força igual; + + E assim que se avistaram, + Não sei o que lhes dá; + Ficam suspensos, param, + Como com medo já; + + Aquelles sorvedouros, + Em vez de remoinhar, + Parecem-se dois touros + Jogando a terra ao ar; + + Ouvia-se a oliveira + Zunir no ar, então, + D'um para o outro inteira, + Nem bala de canhão; + + E assim se vão chegando + Cada vez mais, até + Que eu ólho, eis senão quando + Vejo... mas vejo o que? + + . . . . . . . . . . . . . . . + +Messines. + + * * * * * + + + + +AMORES, AMORES... + + + Não sou eu tão tola + Que cáia em casar; + Mulher não é rola, + Que tenha um só par: + Eu tenho um moreno, + Tenho um de outra côr, + Tenho um mais pequeno, + Tenho outro maior. + + Que mal faz um beijo, + Se apenas o dou + Desfaz-se-me o pejo, + E o gosto ficou? + + Um d'elles por graça + Deu-me um, e depois, + Gostei da chalaça, + Paguei-lhe com dois. + + Abraços, abraços + Que mal nos farão? + Se Deus me deu braços, + Foi essa a razão. + Um dia que o alto + Me vinha abraçar, + Fiquei-lhe d'um salto + Suspensa no ar. + + Amores, amores. + Deixál-os dizer; + Se Deus me deu flôres, + Foi para as colher. + Eu tenho um moreno, + Tenho um de outra côr, + Tenho um mais pequeno, + Tenho outro maior. + + * * * * * + + + + +FABULA + + + Um dia os deuses, cada qual uma arvore, + Á sua guarda consagraram: Jupiter + Esse o carvalho, a murta Venus, Hercules + Lá esse o alemo, e o loureiro Apollo. + Vendo-as Minerva todas infructiferas: + Que é isto? exclama. Jupiter acode-lhe: + Senão, diriam, filha! que as guardavamos + Só pelo fructo.--Que me importa digam-no; + É pelo fructo que a oliveira escolho. + + Minerva! brada o pai d'homens e deuses, + És quem, de todos, sabes mais sem duvida; + No que não luza... mal fundada gloria. + + _Honra sem proveito + Faz mal ao peito._ + + PHEDRO. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +BOAS NOITES + + + Estava uma lavadeira + A lavar n'uma ribeira, + Quando chega um caçador. + + --Boas tardes, lavadeira! + + --Boas tardes, caçador! + + --Sumiu-se-me a perdigueira + Alli n'aquella ladeira, + Não me fazeis o favor + De me dizer se a bréjeira + Passou aqui a ribeira? + + --Olhai que d'essa maneira + Até um dia, senhor, + Perdereis a caçadeira, + Que ainda é perda maior. + + --Que me importa, lavadeira! + Aqui na minha algibeira + Trago dobrado valor. + Assim eu fôra senhor + De levar a vida inteira + Só a vêr o meu amor + Lavar roupa na ribeira... + + --Talvez que fosse melhor, + Vêr... coser a costureira! + Vir, de ladeira em ladeira, + Apanhar esta canceira + E tudo só por amor + De vêr uma lavadeira + Lavar roupa na ribeira... + É escusado, senhor! + + --Boas noites... lavadeira! + + --Boas noites, caçador!.. + +Messines. + + * * * * * + + + + +GASPAR + + + Ora se não sei eu quem foi teu pai! + Fidalgo: sei perfeitamente bem. + O que eu não sei, Gaspar! é o que vem + N'esta vida fazer quem já lá vai. + + Já se vê que é aos paes que a gente sái. + Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem + Que um pai se é como o teu, homem de bem, + Tu és homem de bem como teu pai? + + D'isto não ha quem possa duvidar. + Mas queres um conselho que eu te dou? + Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar! + + Que eu, cá por mim, bem sabes como eu sou, + Mas é que outro talvez mande tirar + Certidão de baptismo a teu avô. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo, + Á rosa envie o aroma; + E lá quando alta noite a lua assoma, + O rouxinol carpindo! + + Que pela face a lagrima resvale + De quem no exilio geme; + E quando a propria sombra o homem teme, + Que a mãi seu filho embale. + + Deixa que ao espaço immenso os olhos lance + O sol antes que expire; + Que pelo norte a bussola suspire + E nelle só descance. + + Amam leões e tigres. Não ha nada, + Anjo! que a amor se esconda. + Beija a pomba o seu par; e abraça a onda + A rocha inanimada. + + Deixa que a nuvem negra tolde a lua + Se a leva a tempestade; + Deixa que eu te ame a ti, cara metade, + D'esta alma toda tua! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +CARTA + + + Maria! vêr-te á porta a fazer meia, + Olhando para mim de vez em quando, + É o que n'esta vida me recreia. + + Acordo até de noite suspirando + Por que rompa a manhã e tenha o gosto + De te vêr já tão cedo trabalhando. + + Desde pela manhã até sol-posto + Que não tens de descanço um só momento; + Por isso tens tão bella côr de rosto. + + E eu pallido, Maria! O pensamento + Não é trabalho que nos dê saude, + Esta imaginação é um tormento. + + Que bello tempo aquelle em quanto pude + Levar, como tu levas, todo o dia + N'essa vida chamada ingrata e rude! + + Nunca soube o que foi melancolia, + Nunca provei as lagrimas salgadas + Com que a nossa alma as penas allivia; + + Andava sim por essas cumiadas + Ao sol, á chuva, muita vez, sósinho, + Vendo os valles, das rochas escarpadas; + + Descendo pelo córrego estreitinho, + De pontal em pontal, cortando o matto, + Pelas chapadas, fóra de caminho; + + Mas não era que já o teu retrato + Me andasse a mim no coração impresso, + Onde hoje o trago no maior recato, + + E um desengano teu que não mereço + Me tivesse tirado a fé tão dôce + D'alcançar algum dia o que appeteço. + + Não foi, não, a paixão que assim me trouxe + Tão erradio a mim, digo a verdade + E nem eu te negava se assim fosse. + + É que a gente na sua mocidade + Não cabe em si, não pára de contente, + E assim fui eu na flôr da minha idade. + + Tu eras n'esse tempo simplesmente + A flôr que vai nascendo e mais valia + Seres tão tenra ainda e innocente. + + Já esse lindo pé que tens, Maria! + Esse quadril tão largo, e cinta estreita, + Me não vinha á idéa noite e dia; + + Esses encontros de mulher perfeita, + Esse peito redondo e arqueado + Como o de pomba farta e satisfeita. + + Talvez vivesse então mais socegado, + Ou já que minha sorte é sempre triste + Ao menos não andasse enfeitiçado. + + Esse bello pescoço, não existe + Outro assim torneado: o rosto é lindo + E a tão meiga expressão ninguem resiste. + + A bocca é tão vermelha que, em te rindo, + Lembra-me uma romã aberta ao meio + Quando já de madura está cahindo. + + Esses olhos azues... que olhar! Receio + E desejo estar sempre a contemplal-o; + Não ha mais dôce e mais custoso enleio: + + Eu não oiço fallar então, nem fallo + De enlevado que estou e, juntamente, + Gemendo e abafando os ais que exhalo. + + Oh nuvem da manhã resplandecente, + Manto real de sêda delicada, + Cada fio um grilhão que prende a gente. + + Bem podias, Maria! andar tapada + Só com o teu cabello, á semelhança + Do sol em nuvem de manhã doirada. + + É tudo encantador. A gente cança, + Cança de estar olhando e sempre vendo + Um novo encanto a cada olhar que lança. + + E se essa linda voz nos sái dizendo + As mimosas palavras que costuma, + Sente-se a gente logo derretendo; + + Que além d'um rosto tão perfeito, em summa + Coube-te em sorte um coração perfeito + E em ti não ha, Maria! falta alguma. + + Oh que ditoso, alegre e satisfeito + Não viverá o homem que algum dia + Sentir pular-te o coração no peito, + + E que em deliciosissima agonia, + Vendo-te já os olhos desmaiando + Como desmaia o céo á luz do dia, + + Nas azas da ventura atravessando + Os espaços d'um extasi ineffavel + Abraçado comtigo fôr voando + Lá para onde tudo é bello e estavel! + +Messines. + + * * * * * + + + + + --Dá-me esse jasmim de cera, + Minha flôr? + --Mas e depois se lh'o dera, + Meu senhor? + + --Depois? era uma lembrança. + --Mas de quê? + --D'uma tão linda criança, + Já se vê. + + --Oh tão linda! Mas, parece, + Sendo assim, + Que inda quando lhe não désse + Tal jasmim... + + --Não me esquecia, de certo. + --Nunca já? + --Nunca.--Nunca, é muito incerto, + Mas... vá lá. + + --E a rosa, que bem lhe fica, + Dá-m'a, flôr? + --Oh a rosa, a rosa pica, + Meu senhor! + +Messines. + + * * * * * + + + + +MARGARIDA + + + Oh que formosos dias, Margarida! + Esses da tua vida; + E que nublados + Meus dias desgraçados! + + Nasci tambem assim risonho e meigo, + Mas hoje apenas chego + O calix da ventura + Á bocca ancioso, + Torna-se a agua impura + E o liquido que bebo + Venenoso, + Sim, venenoso o liquido que bebo. + + Nem eu concebo + Como Deus me creasse + Para tormento eterno; + Elle que tão affavel, meigo e terno + Te beija a ti a face + E te embala no collo, Margarida! + A mim dar-me esta vida... + + Mas vejo á sombra d'altos edificios + Miudissimas flôres + De tão subtís e delicadas côres + Que se o sol lhes chegasse + Talvez que nem resquicios + Lhes ficasse. + Com uma d'essas azas, estendida, + Me tapavas tu todo, + E d'esse modo, + Com esse escudo, + Eu ria-me de tudo + E levava esta vida alegremente. + Tenho essa fé. + + Vejo tambem a flôr que nasce ao pé + D'agua corrente, + Ir tão suavemente + Levada pela agua! + Talvez até sem magua + De deixar sua mãi. + D'esse modo tambem, + Amparando-me tu a mim nos braços, + Eu seguia-te os passos, + Fosse por onde fosse; + E d'essa sorte + Até a morte + Me seria dôce. + +Messines. + + * * * * * + + + + +NO LEITO NUPCIAL + + + Dorme, estatua de neve, + Vergontea de marfim! + Tocar que impio se atreve + No que é sagrado assim? + + Dois são: o mais, mysterio + Vedado á terra. Deus + Talvez do solio ethereo + Nem baixe os olhos seus. + + Respeita-os, tapa-os, como + Japhet e Sem, o pai... + Pende, sagrado pomo! + A vista ergue-se e cai. + + Ergue-se e cai, conforme + A lei, que o manda assim. + Ergue-se e... Dorme, dorme, + Vergontea de marfim! + + Mas dize: o espelho a imagem + Te estampa mal te vê; + Beija-te o seio a aragem, + Doira-te o sol; porquê? + + Não segue acaso a sombra + Teu corpo sempre, flôr! + E pois, porque te assombra + Meu insensato amor? + + Ás vezes passas tremula + Como sagrada luz; + E os olhos dizem: vemol-a + Como no alto a cruz. + + Perdoa se isto exprime + Maldade aos olhos teus; + Perdoa-me se é crime... + Amo tambem a Deus. + + E á tarde quando o albergue, + No solitario val, + Incenso queima e se ergue + D'Abel o fumo igual; + + Da pomba solta o vôo, + Baixa-me um olhar teu + E dize-me: perdôo; + Sim, tudo aspira ao céo! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +A MINHA MÃI + + + Patria! berço d'amor, que a alma embala + Em quanto a luz vital nos illumina, + E onde só descançado se reclina + Quem, longe d'ella, dôr contínua rala... + + Se n'essa essencia, mãi! que a flôr exhala + Na essencia d'uma flôr d'essa collina, + Vês lagrimas d'amor que dentro a mina, + Com saudades de quem do céo lhe falla: + + Se quando, o céo buscando, o fumo ondeia, + Quando esse valle o sol deixa indeciso, + Vês como fumo e flôr aspira, anceia + + Um pai, um Deus, um céo, um paraiso, + Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia, + Vê tu se labio meu desfolha um riso! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +BEATRIZ + + + Tu és o cheiro que exhala + Ao ir-se abrindo uma flôr, + Tu és o collo que embala + Suas primicias d'amor. + + Tu és um beijo materno, + Tu és um riso infantil; + Sol entre as nuvens do inverno, + Rosa entre as flôres d'abril. + + Tu és a rosa de maio, + Tu és a flammula azul, + Que atam á flecha do raio + As nuvens negras do sul. + + Tu és a nuvem d'agosto, + Meu alvo vello de lã! + Tu és a luz do sol-posto, + Tu és a luz da manhã. + + Tu és a timida corça + Que mal se deixa avistar; + Tu és a trança que a força + Do vento leva no ar. + + És a perola que salta + Do niveo calix da flôr; + És o aljofar que esmalta + Virgineas rosas d'amor. + + És a roseira que a custo + Levanta os cachos do chão, + És a vergontea do arbusto, + Anjo do meu coração! + + Tu és a agua das fontes, + Tu és a espuma do mar, + Tu és o lirio dos montes, + Tu és a hostia do altar. + + És o pimpolho, és o gommo, + És um renovo d'amor; + Tu és o vedado pomo... + Tu és a minha Leonor... + + Tu és a Laura que eu amo, + E a minha Taboa da Lei, + E a pomba que trouxe o ramo, + E a margarida que achei. + + És o lirio, és a bonina + Dos valles do meu paiz; + És a minha Catharina... + És a minha Beatriz! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +INNOCENCIA + + + Encolhe as azas, que te abrazas, louca! + O fogo mata a quem o gera, attende; + Foge e, se a vida te aborrece, estende + Um braço aos anjos, que a distancia é pouca. + + Porque uma nuvem, onda transitoria + Do mar immenso, vem pousar na serra, + Não fica a nuvem pertencendo á terra: + Tu és o anjo que desceu da gloria. + + Estranhas forças para ti me attrahem; + E ás vezes cedo, tua cinta enleio; + Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio, + Tua alma dorme, e os meus braços cahem... + + Desfallecidos, flôr celestial! + Como ante um berço cahe a foice erguida, + Se ha n'elle mais do que uma simples vida, + Se ha innocencia que mil vidas val. + + Oh! não: teus labios o meu fel não provem: + Outros os lirios d'essa face esmaguem; + D'outros mãos impias teu sorriso apaguem, + Em quanto os labios tuas graças louvem. + + Já no meu berço d'innocencia pude + Pesar as joias, que hoje em vão te invejo: + Provei os favos de illibado pejo, + Sei o que perde quem o vicio illude. + + Alcantil ingreme, onde o raio é certo, + Contém mais seiva, que inda o musgo cria: + Quanto de fertil em nossa alma havia + Só deixa o ermo da saudade aberto. + + Cahir no abysmo de intimos pezares + D'essas alturas onde mal te vejo, + O ponto estava derreter n'um beijo + O fio de oiro que te manda aos ares. + + N'esses dois cofres, n'esse collo aonde + Tantas riquezas enterrei ciumento + (E que alta noite vela o pensamento + Pelo crystal que o coração te esconde) + + Em oiro em barra, fina prata e quanto + Coalha o vasto e opulento Oriente, + Fôra em ruinas encontrar sómente + Carvão, se um dia te quebrasse o encanto. + + Casta innocencia, de Deus filha e bella + Entre as mais bellas! virginal aroma! + Rosa ineffavel, que, se á luz assoma, + Haste e raiz apodreceu com ella! + + Sol, que uma vez em nossa vida passas! + Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera; + Que se abre morre, mas sem prole, inteira + Com todo o côro das virgineas graças: + + Ao vêr-te, embora meu olhar te envia + O impio incenso de Nadab, ajoelho... + Rosa da face e, não só rosa, espelho + Da face occulta de quem espalha o dia! + + Se por teus membros orvalhadas flôres + Prodigas mãos da formosura entornam, + Flôres mais bellas o teu seio adornam... + Vós, lirios d'alma, virginaes amores! + + O céo me encanta, como encanta o inferno. + Mysterio... espaço... mente exploradora! + Morre nas mãos o que a nossa alma adora + --Vago, impalpavel, infinito, eterno! + +Evora. + + * * * * * + + + + + A Escriptura Sagrada + Lá diz que uma mulher má + Não ha fera, não ha nada + Peor no mundo: e não ha. + + Uma lá da minha aldeia, + Que era muito impertinente, + Muito má (e muito feia) + Morre um dia de repente. + Morreu; desgraçadamente + Mais tarde do que devia; + Mas em summa toda a gente + Teve a maior alegria. + + Passados annos (é boa!) + Foi-lhe preciso ao coveiro + Abrir a cova, e achou-a + Ainda de corpo inteiro, + Ainda rosas na face, + Ainda signaes de vida... + Milagre! coisa sabida; + Pois mais fresca que uma alface + Ha tanto tempo enterrada, + Devendo estar reduzida + A pó, terra, cinza e nada... + + Vem dar parte; e corre a vêl-a + O povo atraz do prior; + E passam logo a trazel-a + Em cima do seu andor + E a pol-a n'uma capella + De grande veneração; + (Elles ás costas com ella, + E elle a cantar canto-chão;) + Mas seja lá o que fôr, + O que é certo e mais que certo + É que santa como aquella + E nem de mais devoção, + Não ha por alli tão perto. + + E dizem que não ha santos + Como nos tempos passados! + E cá opinião minha + Que muitos (quantos e quantos!) + Que ahi morrem desprezados, + Se não são canonisados + É que está cheia a _Folhinha_. + +Messines. + + * * * * * + + + + +A UM NUNO + +Provando a existencia de Deus a pobres camponezes + + + Ora a provar que ha Deus, Nuno! isso é teima: + Pois ha alguma ovelha no rebanho + Que não saiba que só a mão suprema + Creava um animal d'esse tamanho! + + * * * * * + + + + +A *** + + + Pois se como sempre fomos + Somos + Pétalas da mesma flôr, + E o que eu sinto, ou eu me illudo, + Tudo + Tambem sentes, gosto e dôr; + + Que te arraza os olhos d'agua? + Magua + Em que eu não deva tocar? + Oh! mas se ha quem a suavise, + Dize, + Vou-lhe um suspiro levar. + + Não se alcança, não se avista, + Dista + D'aqui muito o allivio, ou não? + Dos teus olhos muito; e pouco, + Louco! + Pouco do teu coração. + + Sei o que vai em teu seio; + Sei-o + Porque em materia d'amor, + Debalde os labios se calam! + Fallam + Ainda os olhos melhor! + +Batalha. + + * * * * * + + + + +LUZ DA FÉ + + + Tu, sol! já não me alegras + Como alegravas, não: + Vós, sim, ó nuvens negras, + Relampago e trovão! + + Quando o trovão me aterra, + Recordo-me de Deus; + Abalo cá da terra + E vou por esses céos: + + E lá n'essas alturas, + Por onde só a fé, + Em regiões tão puras, + Nos deixa tomar pé; + + Voar, pairar nos ares + Como uma aguia cá, + De lá só vejo os mares, + E é porque a luz lhes dá. + + O mais como se apanha + E empolga com a mão, + Seja a maior montanha, + Seja a maior nação; + + O mais fica no fundo + D'esse infinito mar; + O mais pertence ao mundo, + É escusado olhar. + + Deus deixa ás creaturas + Cá baixo a sua cruz, + E fecha as almas puras + N'um circulo de luz. + + As chagas, as miserias + Cá d'este lamaçal, + Nas regiões ethereas, + Lá não se avista tal. + + É só a luz, que foge, + Mais uma irmã que tem + --A alma, que até hoje + Não a prendeu ninguem; + + São essas duas luzes + (Qual d'ellas tão subtil + Que ás forcas e ás cruzes + Do despota mais vil, + + Se escapam de tal modo + Que é de o fazer raivar) + Cá d'este mundo todo + O que se vê brilhar! + + Porque uma e outra aspira + Continuamente ao céo, + A alma que suspira, + E a luz que Deus nos deu. + + Porque uma e outra é pura, + Perpetua e immortal; + E a sua formosura, + Não ha nenhuma igual. + + Quem é, ó luz formosa, + Ó minha bella irmã! + Quem é que faz a rosa + Abrir pela manhã?... + + Eu amo-te e (as trevas + Não teem esplendor!) + Tu só é que me levas + O tempo e o amor. + + Mas eu estimo o raio + E gósto do trovão, + Por vêr que quando cáio + É que me elevo então. + + Por vêr que em tendo medo + Mais se me aviva a fé; + E a fé, não ha rochedo + Firme como ella é. + + Por cima da desgraça + Ou seja do que fôr, + Ella, não olha, passa + De fito no Senhor! + + A essa luz divina, + Ó luz! é que tu és + Tão pura e crystallina + Como o Senhor te fez. + + Por isso a noite escura, + Ah! se eu a preferi + Á tua luz tão pura, + É por amor de ti! + +Messines. + + * * * * * + + + + +RESPOSTA + +A A. DO QUENTAL + + + Tal é a confiança que te inspira + Estes reis, estes povos, esta gente, + Que é para o céo que appella e se retira + Tua alma já de triste e descontente. + + Mas Deus então seria ou impotente + Ou seria um Deus barbaro: mentira! + Não póde suspirar eternamente + Quem ha já tantos seculos suspira. + + Vai ganhando terreno a luz brilhante, + Luz toda liberdade e toda amor + Que ha-de salvar o mundo agonisante. + + A idéa, esse Verbo creador + Ha-de fazer que um dia e não distante + Só o nome de imperio inspire horror. + +Messines. + + * * * * * + + + + + Meu casto lirio, + Terno delirio, + Gloria e martyrio + Do meu amor! + Amo-te como + A haste o gomo, + O labio o pomo + E o olho a flôr. + + Se ao meu ouvido + Sôa um rugido + Do teu vestido, + Que ouço roçar; + Que som me vibra + Não sei que fibra + Que me equilibra + A mim no ar! + + E que harpa santa + É que me encanta + E enche de tanta + Consolação, + Quando uma falla + Terna se exhala + D'onde se embala + Teu coração! + + Quando te vejo + D'um simples beijo + Córar de pejo, + Mudar de côr, + Que susto é esse + Que me parece + Te empallidece, + Rosa d'amor! + + Quando no leito, + Teu niveo peito + Sonho que estreito + E aperto ao meu; + Vendo tão perto + O céo aberto, + Porque desperto... + Anjo do céo! + + Não fujas, rosa! + Não fujas, goza + Manhã mimosa, + Manhã d'amor; + De folha em folha + A flôr se esfolha + Bem cedo, e olha + Que és como a flôr! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +VENTURA + + + O sol na marcha luminosa vôa + Lançando á terra magestoso olhar; + Passa cantando quem o ar povôa + E a praia abraça venturoso o mar. + + No bosque o vento dôce canto entôa, + Ouvem-se em côro as multidões cantar; + Que a um só triste o coração lhe dôa, + Que eu seja o unico a soffrer, chorar... + + Por ti, saudade... de quem vai tão perto + E a quem dos olhos e das mãos perdi + N'este tão ermo lugubre deserto! + + Por ti, ventura... que uma vez senti; + Por ti, que ás vezes a meu peito aperto + E... o peito aperto sem te vêr a ti! + +Evora. + + * * * * * + + + + + Arida palma + Tem seu licôr, + Tem como a alma + Tem seu amor; + Tem como a hera + Tem seu abril, + Tem como a fera + Tem seu covil. + + Tem toda a planta + Que o sol queimou + Lagrima santa + Que a orvalhou, + E o passarinho + Que hontem nasceu + Lá tem seu ninho + Que a mãi lhe deu. + + Só eu na magua + Do meu penar + Sou como a agua + Que anda no mar, + Sou como a onda + Que á busca vem + D'onde se esconda, + E onde, não tem! + + Folha revolta + Que anda no chão, + Lagrima solta + Do coração; + Corpo sem vida, + Haste sem flôr, + Folha cahida + Do meu amor. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +A UNS OLHOS AZUES + + + Cahe a folha da rosa pudibunda, + Cahe a rosa da face virginal, + Cahe das nuvens a aguia moribunda, + Cahe o sol na montanha occidental. + + Cahe a onda na praia, cahe do somno + O poeta na luz; e cahe das mãos + Dos despostas o sceptro, elles do throno, + Como a seus pés cahiram seus irmãos! + + Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos + A lagrima tambem, que d'alma sahe; + Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos + A flôr de liz; de louro a folha cahe. + + Cahe do céo a centelha incendiaria, + A nuvem cahe se um sopro Deus lhe dá, + Cahe ante o dia a noite solitaria + Como o falso Dagon ante Jehovah. + + Cahe tudo, flôr! cahe tudo; eu só não cáio: + Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus, + Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio + Se elle cahir do céo dos olhos teus! + +Luso. + + * * * * * + + + + +HERESTA + + + Que magua ou que receio + Dos olhos te desata + Aljofares de prata + No jaspe do teu seio? + + Bem intima ser deve + A pena que te opprime, + Flôr tenra como o vime, + Flôr pura como a neve! + + --Compunge-te isso, dóe-te + Vêr esmaltando o calix + Da erma flôr dos valles + O balsamo da noite? + + Se aos olhos nos affluem + As lagrimas, parece + Que a dôr nos adormece, + E as maguas diminuem. + + --Heresta! pois inclina + Na minha a tua face + E deixa me repasse + Teu balsamo, bonina! + + Abraça-me, divide + Commigo esse consolo, + Enlaça-te ao meu collo + Como ao olmeiro a vide! + + Ás vezes tambem quando + Os olhos se me estendem + Ás luzes, que se accendem + No templo venerando; + + Tão intima saudade, + Tão intimo desejo, + D'um mundo, que não vejo, + Me inspira a immensidade... + + Que o pranto se agglomera + Na palpebra, onde morre; + Sim, gela-se, não corre, + Tal é a dôr que o gera! + + --É Deus que a si te aspira, + É Deus que ao céo te chama; + Que em tudo amor derrama, + A tudo amor inspira! + + Canta-o, o justo, o santo! + E a flôr que o campo adorne + Thuribulo se torne + Mal te ouça o dôce canto. + + --Inspira-o pois, inspira, + Virgem de intacto pejo! + Seja um teu riso o harpejo + E um teu cabello a lyra! + + ---------- + + O sol já da montanha + Te disse adeus! adeus! + E a cupula dos céos + Ficou pallida e estranha. + + E aquella, que a bondade + De Deus em si reflecte, + Em quanto ao sol compete + Mostrar-lhe a magestade, + + Á luz extrema d'hoje + Ergueu livida a face + Com medo que avistasse + Quem busca, e de quem foge. + + Fluxo e refluxo eterno + D'alma contradictoria, + Que após continua gloria, + Anda em continuo inferno. + + Poeta! é copia tua, + Supplicio igual te inquieta. + Mas que alma de poeta + Teu seio arqueia, oh lua? + + Amor, amor como este, + Visão timida e casta + Em giro eterno arrasta + A lampada celeste. + + Como esse que a deshoras + A ti te ergue a cabeça + E aos ermos te arremessa + Em busca do que adoras. + + Mas, ah! pallido globo! + É pio d'ave nocturna, + Echo em alguma furna + Do uivo d'algum lobo? + + Ouço uma voz... escuta: + É ella a voz que se ouve? + Ou monge que inda louve + A Deus, n'alguma gruta! + + Quem lá em baixo á escarpa + D'um ingreme penedo + No tremulo arvoredo + Entorna os ais d'uma harpa? + + É ella a minha Heresta, + A minha branca ermida + Do ermo d'esta vida, + Mais erma que a floresta? + + Tu, lua, que no val + D'Aialon paraste, + Já viste em sua haste + Suspenso lirio igual? + + Não é, não é mais bella + A rosa entre os abrolhos, + Nem ha como os seus olhos + No céo nenhuma estrella! + + É á luz d'uma alvorada, + Apenas desabrocha, + Nos angulos da rocha + Vêl-a despedaçada! + + Vós, lobos! ide em bando, + Trepai pelo rochedo, + Uivai, mettei-lhe medo, + Levai-a recuando! + + Que faz quem se aproxima + D'um precipicio, diz-m'o? + Que buscas tu no abysmo + Se o céo é lá em cima? + + Não tarda muito, creio, + Que acabe esta ancia nossa, + E Deus unir-nos possa + No seu eterno seio. + + É lá que a alma falla, + Lá que o amor se mede, + Que em brilho o sol excede, + E em gloria a Deus iguala! + + Na nuvem do futuro + Teus vagos olhos prega! + Depois de noite negra + Vem sempre um céo mais puro. + + ---------- + + E agora, se o desejo + Te satisfiz, em premio + D'um canto d'alma gemeo, + Um gemeo e dôce beijo! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +FRAGMENTO + + + .......................................... + + Deixal-o: os olhos fecho á luz e quero... + Quero-te, oh sonho, se és doirado e lindo: + Mais que a teus fachos, pedagogo austero! + Que me condemnas em chorando e rindo. + Sempre olhos fundos, sempre esse ar severo... + Razão! não te amo; mas a ti, bemvindo, + Tu que os conselhos nunca, amor! lhe tomas; + Dás luz á lua, dás á rosa aromas. + + Oh! ha tres vistas com que as coisas vemos; + Ha tres razões que as coisas determinam; + Uma a dos olhos; outra a que escondemos + N'isso ante que os alemos se inclinam; + Outra a que dentro no coração temos, + Que os limites do espaço só terminam: + Coube a primeira em sorte á borboleta; + A outra ao homem; a terceira ao poeta. + + Mas será só poeta quem faz versos? + Não é a flôr poeta que o sol canta? + Não cabe aos ais tão intimos, dispersos + Do cantor triste nome e gloria tanta? + Esses aereos tão mimosos berços, + Que, excepto o homem, o furor quebranta + A quanto é fero e sanguinario, acaso + Cada um d'elles não é um parnaso? + + Mais poesia em pobre margarida, + Que aos pés se pisa, enthesoirada vejo, + Que em muita madreperola polida + Que as cinzas guarda de finado harpejo. + Dize-me, pomba! que no ar sustida + Vens como a nuvem coroar d'um beijo + Quem teus desvelos maternaes comparte: + Camões excede-te em engenho e arte? + + Vaidade humana! Do que é simples, claro, + Fazem mysterio; dão-lhe um nome e basta: + Como esse eunucho sacerdocio avaro + Que da verdade as multidões afasta... + Mas a verdade não é pedra d'ara + Nem arca-santa que só certa casta + Tem privilegio de levar ao hombro + Ou vêr de perto, sem morrer d'assombro. + + Padre, ministro do Crucificado + É bom ferreiro afeiçoando o ferro + Com que ha-de prestes ir rompendo o arado + Os campos d'este secular desterro. + Melhor explicam um lugar sagrado + Bigorna e malho, que explica o berro + De bonzo inutil; que asperos abrolhos + Não viram nunca seus inchados olhos. + + Apostolo é o pai que se afadiga + Só para que descance o filho amado; + Apostolo é a rocha em que se abriga + Ave agoureira e pobre desgraçado; + Apostolo é a lagrima que amiga + Cahe pela face em peito amargurado; + E esse monstro do céo que solitario + Correu o mundo á busca do Calvario. + + E assim vós outros, falsos sacerdotes! + Que a mesma crença sustentar devêreis, + Poetas vos chamaes se em ôcos motes + Sabeis vasar combinações estereis? + Monges! tendes o habito; se os dotes, + Os doze dons do Espirito tivereis, + Crêreis que é mais poeta o dôce favo + Que a abelha fabríca em mato bravo. + + Fechei a minha bocca largo espaço + Para vêr e pasmar; eu não podia + Tirar os olhos do tributo escaço + Que paga o albergue quando acaba o dia. + Pelo filhinho em maternal regaço + Como ave em ninho a balançar, medía, + Não essa Iliada a compasso austero, + Mas a de Christo, a do celeste Homero. + + Lia esse livro que anda encadernado + Em pelle humana e embrulhado em pranto, + Mas para bençãos, para amor dictado + E quanto ha puro, quanto ha bello e santo: + Livro que o impio soletrou tocado, + Se o impio os olhos pôde erguer a tanto; + Mas que a moirama só conserva vivo + Porque não morre o immortal captivo. + + Não morre: eterno como a fonte d'onde + Dimana a luz, a vida, amor e tudo, + Que amostra a terra, amostra o mar, e esconde + O céo, o espaço, o infinito mudo... + O mundo mudo! para quem? responde, + Valente martyr! que o pesado escudo, + Com que a verdade os olhos encobria, + Morreste mas quebraste á luz do dia. + + «Existe um pai commum, que a todos ama + E d'elles só juiz a si reserva + Punil-os de seu mal; o sol derrama + Por cedro erguido e enterrada herva; + Desarma o laço que a perfidia trama, + Ou n'elle a prende e faz cahir; enerva + Braço que se ergue contra irmão; fecunda + Semente que não cahe de mão immunda. + + «Diante d'elle as obras apparecem + Taes como as gera o intimo do peito: + Basta o amor do bem, se as mãos fallecem; + Sem esse amor é nada o grande feito. + Embora os homens de soltar se esquecem + Quem chora escravo; porque, em seu conceito + Deixe chorar quem purpuras arrasta, + Cante que é livre na verdade, e basta.» + + Ella o resto fará; porque a seu braço + Reis não resistem, não resistem povos: + Um raio a nuvem parte e deixa o espaço + Coalhado d'astros que parecem novos: + Põe ao sol, que o fecunde, o simples traço, + Como a grande avestruz os grandes ovos; + E quem depois no mundo a luz lhe apaga? + Ninguem apaga a luz que o mundo alaga. + + Sacerdocio embusteiro as mãos lhe prega + Em tronco immovel que seus labios gele; + Á justiça profana o justo entrega + (Sua irmã gemea que a verdade expelle:) + Já das almas senhor o rosto alegra, + Já morto o canta, sepultado e elle + Só o consome o incendio que já lavra + De bocca em bocca, o incendio da palavra. + + Nenhum de nós o viu andar prégando, + Nenhum seu olhar vago lhe notámos, + Nunca o vimos no ermo a Deus orando, + Nunca a mão estendida lhe apertámos; + E por todos seu nome vai passando, + Todos, os seus preceitos, decorámos... + E que vá vêr-lhe a campa ao Oriente + Quem os olhos da carne tem sómente. + + Que é um tumulo acaso, esse tributo + Pago pela materia á vil materia? + Quem vai na campa alliviar o luto + Se a vista alonga á amplidão aerea? + Quem a copia de Deus rebaixa a bruto, + E a mais que bruto a immortal, etherea, + Celeste pomba, que em seu vôo a vida + Em factos deixa ás almas esculpida? + + Não me embala inda Homero nos seus braços + E me pinta nas mãos a natureza? + Não lhe ouço eu inda a voz...como ouço a espaços + A voz da grande Fama portugueza... + Quando me apraz olhar para os pedaços + D'este grande gigante que a fraqueza + Expoz aos coices...leão moribundo... + O rei antigamente d'este mundo? + + Eu não sou dos que a patria sua adoram + Como adora o seu deus o fiel crente. + Vejo que todos n'uma patria moram + E sobre todos vejo um céo sómente: + Mas ame cada qual; que se outros choram + Nas mãos dos tigres que só comem gente, + Tambem meus olhos choram seu tormento + D'onde quer que seus ais me traga o vento. + + Deixai ir em seu transito divino + Desde a Cruz do Calvario na Judêa, + Té á ponta da espada d'aço fino + Desembainhada em Italia, o tempo, a idêa. + Deixai andar a vêr o peregrino + Onde a ventura abunda, onde escassêa + Para vos dar, no oiro (Fé e Esperança!) + Rei e pastor nas conchas da balança. + + Ha-de vir esse dia; e se a figueira + Em abrolhando perto vem o estio, + Não longe está: a cobra carniceira + De mil roscas e lugubre assobio + Que terra come, e come a terra inteira, + Se á terra inteira se enrolar, despiu + A pelle enorme com bastantes dôres + Esfolada por tres imperadores... + + Eu não sei qual mais chore; se essa sêde + De sangue insaciavel dos tyrannos, + Ou se é a escuridão vossa que eu hei-de + Antes chorar, oh miseros humanos! + Que solimão vos deram, loucos! vêde: + Não vale a gloria que vos faz ufanos + Um só pingo de sangue, um só, vertido, + Um gemido de mãi, um só gemido! + + É do sangue e das mães que eu fallo; e certo, + Que ha na vida mais santo? O sangue é vida; + E as mães fonte da vida: eu nunca esperto + Esta lampada d'alma, suspendida + Na abobada eterna e que tão perto + Parece ter a origem............ + ................senão quando + Vejo essa cara imagem suspirando. + + Eu amo as mães, seu nome é terno e dôce; + Sim, amo as mães: nossa alma d'ellas nasce: + Quem n'um collo de mãi cahiu, achou-se + D'um pulo ao pé de Deus: a alma pasce + Lirios celestes vendo-as; e seccou-se, + ........................................ + Do casto e candido a sagrada fonte, + Se ella no tumulo encostou a fronte. + + Essa é a virgem-mãi, voz suavissima + D'esse cantico eterno--o Evangelho; + A Virgem... Mãi... de Deus! virgem purissima, + Cheia de graça e de justiça espelho. + Oh poesia, poesia altissima + Como o fecho do empyreo! eu me ajoelho + E beijo a tua base, harpa celeste! + O coração, a corda que nos déste. + + Em que labios se bebem mais delicias, + Em que face de virgem se desatam + Rosas mais puras d'intimas primicias, + Que nas que por dar vida a nós se matam? + Sempre a bem nosso, a nosso amor propicias + Na menina dos olhos nos retratam; + E nunca premio vil em paga pedem + De quanto, tanto d'alma, nos concedem. + + Na montanha da Fé, mulher formosa + Se ante mim a meus pés desenrolasse, + Como o demonio, a vastidão pasmosa + Que elle dava a Jesus se o adorasse; + E me pedisse em premio uma só coisa + --Ás mãos de minha mãi furtar a face; + Eu lançava-lhe o cuspo, essa tesoira + Que em mil bocados faz a vacca-loira. + + Vêde-a ao berço, sofrega de vida, + Que a sua é pouca para a dar ao filho; + Ella em cama de espinhos, mal vestida; + Elle enfaxado, em berço de tomilho; + Ella em contínua, azafamada lida, + Elle vendo se apanha á luz o brilho... + Já descobrindo em tão tenrinha idade + Que toda a sua sêde é de verdade. + + E esses lobos que em duas patas andam + Para ter sempre em guarda as outras duas; + Que a monte sahem só, e só debandam + Como os ladrões, á noite, pelas ruas; + A empecer que os animos se expandam, + Que a luz se espalhe, e que as imagens tuas, + Bom Deus! de imagens passem: e que admira... + Sem o sopro que ao barro a vida inspira! + + Já se iam vendo os campos relvejando + Cá da banda do sol n'este horisonte + Por onde já n'um mar se andou nadando + E onde apenas se encontra secca fonte; + E eil-os já os hypocritas minando, + Cortando ao povo hebreu na marcha a ponte + Só para que o manná que o céo lhe chove + No deserto dos reis jámais nem prove. + + Retalhou-lhes o labio omnipotente + O habito comprido, a manga larga, + Olhar submisso mas lugar na frente; + E nem despido o monstro a presa larga. + «São sepulchros caiados, vêde, oh gente! + Por dentro podridão:» em voz amarga, + Em voz de grande horror, de grande abalo, + Christo clamou d'aquelles de quem fallo. + + «Dizimam-te o coentro e a arruda, + Mas sua consciencia é generosa. + Chamam-se mestres... de sciencia muda, + A sciencia da cobra venenosa: + Olhai, não espia a fera, espreita, estuda + Toda a volta do dia, mais manhosa, + Que essa raça de viboras, que espalha + Veneno em todo o mundo, que coalha.» + + Irmãs da Caridade! A Caridade + Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: + Não traja as côres só d'uma irmandade, + Traja as côres do Arco-da-alliança: + Leva sósinha o pão da piedade, + Tira da roda essa infeliz criança... + Roda da vida, que anda de tal sorte + Que, em se lhe dando, é já contar com a morte. + + Bemdita sejas tu, victima triste + De um peito amante e d'um amante ingrato! + Que nunca á mesma loba lançar viste + Inda mamando o cachorrinho ao mato; + Bemdita sejas tu, que o que pariste, + Teu fructo, imagem tua e teu retrato + Conservas como espelho onde te vejas; + Bemdita sejas tu, bemdita sejas. + + Pára suspensa a pomba no seu vôo + Ao vêr-te contemplando-o ajoelhada; + E dizendo-te, a pomba: eu te abençôo + Da parte do pai nosso, irmã amada! + Abriste o seio ao dia e fecundou-o + Aquella luz que o mundo fez de nada, + E deu ao campo a flôr, á flôr semente + Com que a mãi os filhinhos seus sustente. + + Bemdita sejas tu. Quando se esconde + Debaixo da tua aza o que criaste, + Abraça e beija os anjos Deus lá onde + A jarra está da flôr de que és a haste; + E um dia que não tenhas pão avonde + Ou do céo te não chova agua que baste, + Lança-lhe á luz do dia a mão direita, + Mostra-lh'o; Deus os filhos não engeita. + + Pai não tinha o filhinho de Maria + E ella o bercinho lhe arma de mil flôres, + Deixando entrar em casa a luz do dia + Que em perfume as derreta em seus amores; + E inda abrindo os olhinhos mal lhe via, + Já os pinceis preparam os pintores; + Que o pai d'esse menino... Oh maravilha! + Os que não teem pai Deus os perfilha. + + Deixa passar de largo a desposada... + De cujo filho o pai quem é, Deus sabe! + Deixa-a roçar-te os fatos enfadada + Se comtigo na praça a par não cabe: + Talvez um dia a casa levantada + Sobre a areia solta ao chão desabe + E em ruinas se encontre este letreiro: + «Não era o pai dos teus mais verdadeiro.» + + Quem é que nasce aos pares como a rola, + Ou como a pomba morre em viuvando, + Que pela vêr sósinha em lodo atola + Fresca vide que está do chão lançando? + Acaso é só dourada altiva estola + Que liga os corpos em as mãos ligando, + Confunde os corações, e faz em summa + Que a Deus se elevem duas almas n'uma? + + Amor é a palavra, o brado eterno + Solto por Deus ao vêr já feito o mundo, + Que fez tremer os carceres do inferno + E o sol ficou da côr d'um moribundo: + A primavera, estio, outono, inverno, + Terra, céo, alma pura, bicho immundo, + Tudo ahi cabe á larga de tal modo + Que n'essa concha Deus se fecha todo. + + Amor enrola a nuvem na montanha + E espalma a onda em praia que não sente, + Ata ao raio de sol o fio d'aranha + E humilha ao conductor o raio ardente. + Quanto na rede immensa a vista apanha. + Tudo que jaz e cresce e vive e sente, + De Deus brotou n'um jorro de bondade + E póde amar-se em espirito e verdade. + + Amo á aurora a luz doirada e clara, + E ao crepusculo as nuvens da tristeza, + A solida montanha, a nuvem rara + Por invisivel fio aos astros presa; + Amo a ancia feroz, a sêde avara + Com que a loba parida engole a presa, + E os crystallinos ais d'ave innocente + Que comprimenta o sol ingenuamente! + + Amo o sopro que parte, esmaga, estala + Esses corvos que aos bandos vem das ondas + N'essas noites que o impio até se cala + Receando, trovão! que lhe respondas... + E amo o bafo subtil que a flôr embala + Pedindo-te, botão, que dentro o escondas, + E as primicias lhe dês que leve áquelle + Que te fez a ti flôr e vento a elle. + + Tu só, que horror! a ti oh não te amo! + Cheiras-me a sangue tu; teus olhos baços + Olham, não vêem; tu tens bocca, chamo, + Não me respondes; tens como eu dois braços, + E não me abraças; brado afflicto, clamo, + Tens duas pernas, e não dás dois passos: + Ris, mas teu riso é d'enrilhados dentes; + Mettes-me medo; tu, cadaver! mentes. + + Ninguem (prohibe-o Deus) o braço córte + Que lhe roubou o espirito divino; + Deus a Cain apaga sul e norte + E condemna a viver o assassino: + Mas tu, mentira! symbolo da morte... + Hypocrisia! teu sorrir felino + Te deixe arreganhada a bocca aberta, + Gele-te a morte a mão que a minha aperta. + + .......................................... + +Evora. + + * * * * * + + + + + Se ao enlaçal-a no peito + Me cahe desfeita uma flôr, + Lembras-me, sonho desfeito! + Sonho d'amor! + + Se a borboleta do calix + D'um lirio aos ares se ergueu, + Lembras-me, estrella dos valles! + Lirio do céo! + + Se inda um affecto em mim vive + Entre os que mortos possuo, + Lembras-me, sonho que eu tive! + Lembras-me tu! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Nunca me ha-de esquecer (ingrata! escuta) + Não tendo eu mais talvez que os meus dez annos + Esses olhos crueis, esses tyrannos + Commigo em porfiada aberta lucta. + + Se eu fôra voraz lobo ou fera bruta + D'entranhas más, instinctos deshumanos, + Talvez o fructo então de teus enganos + O não colhesses tu de face enxuta. + + Mas eu perdôo-te o mal que me has causado; + A culpa não é tua e só devia + Vingar-me em quem tão bella te ha formado. + + E hei-de vingar-me, crê; mas isso um dia + Depois d'um beijo teu me pôr em estado + De disputar a Jove a primazia. + +Evora. + + * * * * * + + + + +DINHEIRO + + + O dinheiro é tão bonito, + Tão bonito, o maganão! + Tem tanta graça o maldito, + Tem tanto chiste o ladrão! + O fallar, falla d'um modo... + Todo elle, aquelle todo... + E ellas acham-no tão guapo... + Velhinha ou moça que veja, + Por mais esquiva que seja, + _Tlim!_ + Papo. + + E a cegueira da justiça + Como elle a tira n'um ai! + E sem pegar n'uma pinça; + É só dizer-lhe: ahi vai... + Operação melindrosa + Que não é lá qualquer coisa; + Catarata! tome conta: + Pois não faz mais do que isto, + Diz-me um juiz que o tem visto: + _Tlim!_ + Prompta. + + N'essas especies de exames + Que a gente faz em rapaz, + São milagres aos enxames + O que aquelle diabo faz. + Sem saber nem patavina + De grammatica latina, + Quer-se a gente d'alli fóra? + Vai elle com taes fallinhas, + Taes gaifonas, taes coisinhas... + _Tlim!_ + Ora... + + Aquella physionomia + E labia que o diabo tem! + + Mas n'uma secretaria + Ahi é que é vêl-o bem! + Quando elle, de grande gala, + Entra o ministro na sala, + Aproveita a occasião: + Conhece este amigo antigo? + --Oh meu tão antigo amigo! + (_Tlim!_) + Pois não! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +DUVIDA + + + Amas-me a mim! Perdôa; + É impossivel! Não, + Não ha quem se condôa + Da minha solidão. + + Como podia eu, triste, + Ah! inspirar-te amor, + Um dia que me viste, + Se é que me viste... flôr! + + Tu, bella, fresca e linda + Como a aurora, ou mais + Do que a aurora ainda, + Mal ouves os meus ais! + + Mal ouves porque as aves + Só soltam de manhã + Seus canticos suaves; + E tu és sua irmã! + + De noite apenas trina + O triste rouxinol: + Toda a mais ave inclina + O collo ao pôr do sol. + + Porquê? porque é ditosa! + Porquê? porque é feliz! + E a que sorri a rosa? + Ao mesmo a que sorris! + + Á luz doirada e pura + Do astro creador. + Á noite, não, que é escura, + Causa-lhe a ella horror. + + Ora uma nuvem negra, + Uma pesada cruz, + Uma alma que se alegra + Só quando vê a luz + + De que elle, o sol, inunda + O mar, quando se põe! + Imagem moribunda + D'um coração... que foi! + + Uma alma semelhante + Não póde captivar + Um rosto tão galante, + Um tão galante olhar! + + E eu vi os caracteres + Que a tua mão traçou: + Mas vós... ah! vós, mulheres, + Quem já vos decifrou! + + Mal te sustinha o pulso + A delicada mão! + Sentia-te convulso + Bater o coração! + + Via-te arfar o seio... + Corar... mudar de côr... + E embora, ah! não, não creio... + Tu não me tens amor! + +Portimão. + + * * * * * + + + + +CATURRAS + + + Ah! compadre, a gente foge, + Desabelha com calor; + Aqui faz fresco na loge, + É onde se está melhor; + Mas que calor que fez hoje! + + --Pois, olhe, assim eu me désse + De inverno quando faz frio, + Como agora que elle aquece. + Tome dois banhos no rio, + Logo vê como arrefece. + + --Compadre, nunca me traga + Taes coisas á collação; + Lembra-me a maldita draga, + Compadre do coração! + Não me falle n'essa praga! + + --Tenho-lhe a mesma amizade + Que o meu compadre lhe tem, + Ás vezes dá-me vontade + Até de a tragar tambem... + Digo-lhe isto com verdade. + + --Ha-de isto chegar a pontos + Que quem viver ha-de vêr! + Já lá vão setenta contos, + E a draga a apodrecer, + E trabalhos nenhuns promptos. + + --Setenta, diz o compadre? + Dão-lhe elles esse verniz... + Lá como a sua comadre... + Mas eu cá o que ella diz + É como o que diz o padre... + + --Pois inda isso continúa? + --Eu sei lá, compadre, eu sei! + Ora canta, ora se amua... + Eu é que já me lembrei + De a pôr um dia na rua! + + --Compadre, tenha miolo, + Isso não se faz assim; + Eu não me tenho por tolo, + E ponha os olhos em mim... + Sirva-lhe isso de consolo. + + --Pois bem sei que é ninharia, + Mas o compadre o que quer? + Estimo a minha Maria, + E isto de homem com mulher... + Mas vamos á vacca fria: + + Com que a draga...--É empregada, + Coisa que nunca se viu, + Sendo uma peça aceada, + A tirar lama do rio! + Parece isto caçoada... + + --E caçoada indecente + Porque outra coisa não é. + Mais economicamente + Quando vasasse a maré + A tirava mesmo a gente. + + --E depois aquillo é lodo + Que nunca póde prestar. + Veja aterrar o caes todo + Quando não ha-de importar... + É gastar dinheiro a rodo. + + --Haja decima e derrama; + Por causa do quê? do caes, + Da draga ou como se chama, + E outras coisinhas que taes + Que tudo a final é lama. + + Pois sendo tudo bem feito + Como á antiga, vá lá! + Mas olhe, o caes não tem geito; + De tudo quanto alli ha, + A meu gosto, o parapeito. + + --Sim, senhor, obra segura, + Obra como deve ser; + Feio e forte; é o que dura: + Foi sempre o que ouvi dizer + A quem está na sepultura... + + --Mas era tudo escusado; + N'esta, compadre, é que estou; + E isto dá-me algum cuidado, + Que o que meu pai me deixou + Não foi nada mal ganhado. + + --Pois e, se quer que lhe conte, + Já se ahi falla outra vez + Em mandar fazer a ponte: + Cuida esta gente talvez + Que temos alguma fonte... + + --E havendo então uma barca... + Como a Arca de Noé! + Lá porque a gente se enxarca + E não póde andar a pé + Quando embarca e desembarca. + + --Escarranchem-se ao cachaço + Dos marujos: pois então? + Cá em taes obras nem passo + Que pernas minhas darão; + É gosto que lhes não faço. + + --Nada! havemos de ir agora + Vêr ambos o que lá vai; + Que a nós aquillo por ora + Bem sei que nos não distrahe; + Mas temos pouca demora. + + --Pois vamos, compadre, vamos. + Sentamo-nos nos poiaes, + Alli mesmo conversamos + Ambos sósinhos no caes, + E depois logo voltamos. + +Portimão. + + * * * * * + + + + + Cosi trapassa, al trapassar d'un giorno, + Della vita mortale il fiore e 'l verde, + Nè, perchè faccia indietro april ritorno + Si rinfiora ella mai, nè si rinverde. + + TASSO. + + Foi-se-me pouco a pouco amortecendo + A luz que n'esta vida me guiava, + Olhos fitos na qual até contava + Ir os degraus do tumulo descendo. + + Em se ella anuveando, em a não vendo, + Já se me a luz de tudo anuveava; + Despontava ella apenas, despontava + Logo em minha alma a luz que ia perdendo. + + Alma gemea da minha, e ingenua e pura + Como os anjos do céo (se o não sonharam...) + Quiz mostrar-me que, o bem, bem pouco dura. + + Não sei se me voou, se m'a levaram, + Nem saiba eu nunca a minha desventura + Contar aos que inda em vida não choraram. + + Ah! quando no seu collo reclinado, + --Collo mais puro e candido que arminho, + Como abelha na flôr do rosmaninho + Osculava seu labio perfumado; + + Quando á luz dos seus olhos... (que era vêl-os, + E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) + Lia na sua bocca a Biblia Santa + Escripta em letra côr dos seus cabellos; + + Quando a sua mãosinha pondo um dedo + Em seus labios de rosa pouco aberta, + Como timida pomba sempre álerta, + Me impunha ora silencio ora segredo; + + Quando, como a alveloa, delicada + E linda como a flôr que haja mais linda + Passava como o cysne, ou como, ainda + Antes do sol raiar, nuvem doirada; + + Quando em balsamo d'alma piedosa + Ungia as mãos da supplice indigencia, + Como a nuvem nas mãos da Providencia + Uma lagrima estilla em flôr sequiosa; + + Quando a cruz do collar do seu pescoço + Estendendo-me os braços, como estende + O symbolo d'amor que as almas prende, + Me dizia... o que ás mais dizer não oiço; + + Quando, se negra nuvem me espalhava + Por sobre o coração algum desgosto, + Conchegando-me ao seu candido rosto, + No perfume d'um riso a dissipava; + + Quando o oiro da trança aos ventos dando + E a neve de seu collo e seu vestido + --Pomba que do seu par se ia perdido, + Já de longe lhe ouvia o peito arfando; + + Tinha o céo da minha alma as sete côres, + Valia-me este mundo um paraiso, + Distillava-me a alma um dôce riso, + Debaixo de meus pés nasciam flôres. + + Deus era inda meu pai. E em quanto pude + Li o seu nome em tudo quanto existe + --No campo em flôr, na praia arida e triste, + No céo, no mar, na terra e... na virtude! + + Virtude! Que é mais que um nome + Essa voz, que em ar se esvái, + Se um riso que ao labio assome + N'uma lagrima nos cái! + + Que és, virtude, se de luto + Nos vestes o coração? + És a blasphemia de Bruto + --Não és mais que um nome vão. + + Abre a flôr á luz, que a enleva, + Seu calix cheio d'amor, + E o sol nasce, passa e leva + Comsigo perfume e flôr! + + Que é d'esses cabellos d'oiro + Do mais subido quilate, + D'esses labios escarlate, + Meu thesoiro! + + Que é d'esse halito, que ainda + O coração me perfuma! + Que é do teu collo de espuma, + Pomba linda! + + Que é d'uma flôr da grinalda + Dos teus doirados cabellos, + D'esses olhos, quero vêl-os, + Esmeralda! + + Que é d'essa alma que me déste! + D'um sorriso, um só que fosse, + Da tua bocca tão dôce, + Flôr celeste! + + Tua cabeça que é d'ella + A tua cabeça d'oiro, + Minha pomba! meu thesoiro! + Minha estrella! + + De dia a estrella d'alva empallidece; + E a luz do dia eterno te ha ferido. + Em teu languido olhar adormecido + Nunca me um dia em vida amanhecesse. + + Foste a concha da praia. A flôr parece + Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, + Meu calix de crystal, onde hei bebido + Os nectares do céo... se um céo houvesse! + + Fonte pura das lagrimas que choro! + Quem tão menina e moça desmanchado + Te ha pelas nuvens os cabellos d'oiro! + + Some-te, vela de baixel quebrado! + Some-te, vôa, apaga-te, meteoro! + É n'este mundo mais um desgraçado. + + E as desgraças, podia prevel-as + Quem a terra sustenta no ar, + Quem sustenta no ar as estrellas, + Quem levanta ás estrellas o mar. + + Deus podia prevêr a desgraça, + Deus podia prevêr e não quiz; + E não quiz, não... se a nuvem que passa + Tambem póde chamar-se infeliz! + + A vida é o dia d'hoje, + A vida é ai que mal sôa, + A vida é sombra que foge, + A vida é nuvem que vôa; + A vida é sonho tão leve + Que se desfaz como a neve + + E como o fumo se esvái: + A vida dura um momento, + Mais leve que o pensamento, + A vida leva-a o vento, + A vida é folha que cái! + + A vida é flôr na corrente, + A vida é sôpro suave, + A vida é estrella cadente, + Vôa mais leve que a ave; + Nuvem que o vento nos ares, + Onda que o vento nos mares, + Uma após outra lançou, + A vida--penna cahida + Da aza d'ave ferida-- + De valle em valle impellida, + A vida o vento a levou! + + Como em sonhos o anjo que me afaga + Leva na trança os lirios que lhe puz, + E a luz quando se apaga + Leva aos olhos a luz; + + Como os ávidos olhos d'um amante + Levam comsigo a luz d'um dôce olhar, + E o vento do levante + Leva a onda do mar; + + Como o tenro filhinho quando expira + Leva o beijo dos labios maternaes, + E á alma que suspira + O vento leva os ais; + + Ou como leva ao collo a mãi seu filho, + E as azas leva a pomba que voou, + E o sol leva o seu brilho, + O vento m'a levou. + + E tu és piedoso, + Senhor! és Deus e pai! + E ao filho desditoso + Não ouves um só ai! + Estrellas déste aos ares, + Dás perolas aos mares, + Ao campo dás a flôr, + Frescura dás ás fontes, + O lirio dás aos montes + E tiras-m'a, Senhor! + + Ah! quando n'uma vista o mundo abranjo, + Estendo os braços e, palpando o mundo, + O céo, a terra e o mar vejo a meus pés; + Buscando em vão a imagem do meu anjo, + Soletro á froixa luz d'um moribundo + Em tudo só--talvez... + + Talvez é hoje a Biblia, o livro aberto + Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando + Vou pelo mundo vêr se a posso vêr; + E onde, como a palmeira do deserto, + Apenas vejo aos pés, inquieta, ondeando + A sombra do meu sêr. + + Meu sêr, voou na aza da aguia negra + Que, levando-a, só não levou comsigo + D'esta alma aquelle amor! + E quando a luz do sol o mundo alegra, + Chrysalida nocturna, a sós commigo, + Abraço a minha dôr! + + Dôr inutil! Se a flôr, que ao céo envia + Seus balsamos, se esfolha, e tu no espaço + Achas depois seus atomos subtis; + Inda has-de ouvir a voz que ouviste um dia, + Como a sua Leonor inda ouve o Tasso!... + Dante... a sua Beatriz! + + --Nunca; responde a folha que o outono, + Da haste que a sustinha a mão abrindo, + Ao vento confiou: + --Nunca; responde a campa onde, do somno, + E quem talvez sonhava um sonho lindo, + Um dia despertou. + + --Nunca; responde o ai que o labio vibra; + --Nunca; responde a rosa que na face + Um dia emmurcheceu: + E a onda, que um momento se equilibra + Em quanto diz ás mais: deixai que eu passe! + E passou e... morreu! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +MÃI E FILHO + + + Primicias do meu amor! + Meu filhinho! do meu seio + Tenro fructo que á luz veio + Como á luz da aurora a flôr! + + Na tua face, innocente, + De teu pai a face beijo, + E em teus olhos, filho, vejo + Como Deus é providente. + + Via em lamina doirada + O meu rosto todo o dia + E a minha alma não se havia + De vêr nunca retratada? + + Quando o pai me unia á face, + E em seus braços me apertava, + Pomba, ou anjo nos faltava + Que ambos juntos abraçasse! + + Felizmente, Deus que o centro + Vê da terra e vê do abysmo, + Que bem sabe no que eu scismo, + Na minha alma um altar viu dentro: + + Mas com lampada sem brilho, + Sem o deus a que era feito... + Bafeja-me um dia o peito, + E eis feito o meu gosto, filho! + + Como em lagrimas se espalma + Dôr intima e se esvaece + D'alma o resto quem podesse + Vasar n'um beijo em tua alma! + + Mas em ti minha alma habita! + Mas teu riso a vida furta... + Mas (que importa!) morte curta! + Se um teu beijo resuscita! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Toca a capello, vou vêl-o + E vejo de toda a côr, + Não doutores de capello, + Mas capellos de doutor. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Amas, pobre animal! e tens tu pena?... + Sim, póde na tua alma entrar piedade? + Se póde entrar, eu sei! Negar quem ha-de + Amor ao tigre, coração á hyena! + Tudo no mundo sente: o odio é premio + Dos condemnados só, que esconde o inferno. + Tudo no mundo sente: a mão do Eterno + A tudo deu irmão, deu par, deu gemeo. + A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto... + Esta fera, que as unhas encolhendo + Pelos hombros me trepa e vem, correndo, + Beijar-me... Só não vivo! amado existo! + +Evora. + + * * * * * + + + + +NÃO! + + + Tenho-te muito amor, + E amas-me muito, creio; + Mas, ouve-me, receio + Tornar-te desgraçada. + O homem, minha amada! + Não perde nada, goza; + Mas a mulher é rosa... + Sim, a mulher é flôr! + + Ora e, a flôr, vê tu + No que ella se resume... + Faltando-lhe o perfume, + Que é a essencia d'ella, + A mais viçosa e bella + Vê-a a gente e... basta. + Sê sempre, sempre, casta! + Terás... quanto possuo! + + Terás, em quanto a mim + Me alumiar teu rosto, + Uma alma toda gosto, + Enlevo, riso, encanto! + Depois, terás meu pranto + Nas praias solitarias... + Ondas tumultuarias + De lagrimas sem fim! + + Á noite, que o pezar + Me arrebatar de casa, + Irei na campa rasa + Que resguardar teus ossos, + Ah! recordando os nossos + Tão venturosos dias, + Fazer-te as cinzas frias + Ainda palpitar! + + Mil beijos, dôce bem! + Darei no pó sagrado, + Em que se houver tornado + Um corpo tão galante! + Com pena, minha amante, + De me não ter a morte + Cahido a mim em sorte... + Cahido a mim tambem! + + Já exhalando os ais + Na lugubre morada + Te vejo a sombra amada + Sahir da sepultura... + A tua imagem pura, + Fiel, mas illusoria... + Gravada na memoria + Em traços tão leaes! + + Então, se ainda alli + Teus vaporosos braços, + Poderem dar abraços + Como dão hoje em dia, + Peço-te, sombra fria! + No mais intimo d'elles + Que a mim tambem me geles, + E fique ao pé de ti! + + Mas, ai! meu coração! + Tu porque assim te affliges, + E tremula diriges + A vista ao céo piedoso!... + O quadro é horroroso, + A scena triste e feia, + Basta encerrar a idéa + D'uma separação... + + Mas, ouve, existe Deus. + Ora e, se Deus existe, + Tão horroroso e triste + Que pódes temer? Nada! + Desfruta descançada + O extasi, o enleio + Em que eu já saboreio + O jubilo dos céos! + + Deixa-me n'esse olhar + Vêr como a lua assoma... + Sim, deixa no aroma, + Que a tua bocca exhala, + Vêr como a rosa falla + Quando a aurora a inspira... + Vêr como a flôr suspira + Por vêr o sol raiar! + + A morte para amor + É exito sublime. + A morte para o crime, + É que é amarga e feia. + A morte não receia + O verdadeiro amante; + Por ella a cada instante + Implora elle o Senhor. + + É juntos, tu verás, + Que nós expiraremos! + Sim, juntos, que os extremos + Olhares cambiando, + Iremos despegando, + Do involucro terreno, + O espirito sereno + Como a eterna paz! + + Vê, só porque suppuz + Chegado esse momento, + Já esse olhar mais lento... + As vistas mais serenas... + Bruxuleando apenas, + Em languido desejo, + Symphatico lampejo + D'uma ineffavel luz! + + Ha, n'este triste valle + De lagrimas, a imagem + De dois n'essa passagem + Para a eternidade... + A nevoa, a anciedade, + O jubilo que mata, + Dão uma idéa exacta + Do transito fatal. + + Mas essa imagem, flôr! + É tão fiel, tão viva + Que á sua luz activa + Se cresta a flôr mimosa! + E nem o homem goza: + Se goza é um momento! + Depois... o desalento! + Depois... o desamor! + +Portimão. + + * * * * * + + + + +NA FOLHA D'UM ROMANCE + + + Moldada ao bem nasci, mas debil planta + Verguei de vicio ao sopro pestilente; + D'entre o vicio porém minha alma ardente + Castos hymnos a Deus saudosa canta. + + Ah! se um mentido affecto amor levanta + N'um pobre coração inexperiente, + D'elles a culpa é toda! uma innocente + Não consulta a razão, razões supplanta. + + Cahi, verguei, Senhor! já pervertida + Graças, beijos vendi, vendi belleza, + Triste commercio de mulher perdida. + + Oh! mas, Deus do amor! foi só fraqueza: + De impias mãos me arrancai, tirai-me a vida, + Alcance-me o perdão mortal tristeza! + +Messines. + + * * * * * + + + + + Lagrima celeste, + Perola do mar, + O que me fizeste + Para me encantar! + + Ah! se tu não fosses + Lagrima do céo, + Lagrimas tão dôces + Não chorára eu. + + Se nunca te visse + Bonina do val, + Talvez não sentisse + Nunca amor igual. + + Pomba desmandada, + Que é dos filhos teus, + Luz da madrugada, + Luz dos olhos meus! + + Meu suspiro eterno, + Meu eterno amor, + D'um olhar mais terno + Que o abrir da flôr, + + Quando o nectar chora, + Que se lhe introduz, + Ao romper da aurora, + Ao raiar da luz, + + Por entre a folhagem + Onde mal se vê, + Como a terna imagem + Da que eu adorei. + + Que esta voz te enleve, + Que este adeus lá sôe, + Que o Senhor t'o leve, + Que Deus te abençôe. + + Que o Senhor te diga + Se te adoro ou não, + Minha dôce amiga + Do meu coração! + + Se de ti me esqueço, + Se já me esqueci, + Ou se mais lhe peço, + Do que vêr-te a ti; + + A ti que amo tanto + Como a flôr a luz, + Como a ave o canto, + E o Cordeiro a cruz, + + E a campa o cypreste, + E a rola o seu par, + Lagrima celeste! + Perola do mar! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +DESCALÇA! + + + Quem és, que ao vêr-te o coração suspira, + E em puro amor desfaz-se! + Raio crepuscular do sol que nasce, + De lampada que expira! + + Como os teus pés são lindos! como é dôce + A curva do teu peito! + Oh! se o meu coração fosse o teu leito, + E o teu amado eu fosse! + + Que preciosas perolas descobre + Teu meigo humido labio! + E, virgem! como Deus foi justo e sabio + Em te fazer tão pobre! + + Não tens fofo velludo onde se atole + Tua angelica imagem; + Mas quando é bello o céo, bella a paizagem + E quando é bello o sol? + + Limpo de nuvens, nú, derrete a neve + E a aguia até desmaia. + Tu não tens mais do que uma pobre saia, + E essa, curtinha e leve. + + Onde o corpo te alteia, a saia avulta; + Onde te abaixa, desce... + És como a rosa! A rosa nasce e cresce, + Não para estar occulta. + + O que te falta pois? os teus desejos + Quaes são? de que precisas? + Ah! não ser eu o marmore que pisas... + Calçava-te de beijos! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +ADEUS! + + + Adeus tranças côr de oiro, + Adeus peito côr de neve! + Adeus cofre onde estar deve + Escondido o meu thesoiro! + + Adeus bonina, adeus lirio + Do meu exilio d'abrolhos! + Adeus oh luz dos meus olhos + E meu tão dôce martyrio! + + Desfeito sonho doirado, + Nuvem desfeita de incenso, + Em quem dormindo só penso, + Em quem só penso acordado! + + Visão sim mas visão linda! + Sonho meu desvanecido! + Meu paraiso perdido + Que de longe adoro ainda! + + Nuvem, que ao sopro da aragem + Voou nas azas de prata, + Mas no lago que a retrata + Deixou esculpida a imagem! + + Rosa d'amor desfolhada + Que n'alma deixou o aroma, + Como o deixa na redoma + Fina essencia evaporada! + + Adeus sol que me alumia + Pelas ondas do oceano + D'esta vida, d'este engano, + D'este sonho d'um só dia! + + No mesmo arbusto onde o ninho + Teceu a ave innocente + Se volta a quadra inclemente + Acha abrigo o passarinho: + + Mas eu n'esta soledade + Quando em meus sonhos te estreito, + Rosto a rosto, peito a peito, + Acordo e acho a saudade! + + Adeus pois morte! adeus vida! + Adeus infortunio e sorte! + Adeus estrella do norte! + Adeus bussola perdida! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +A VICTORIA COLONNA + + + Não sei que ha de divino, força é crêl-o + N'esses teus olhos d'uma luz tão pura + Que, ao vêl-os, tive logo por segura + Aquella paz que é meu constante anhelo. + + Filha de Deus, nossa alma aspira a vêl-o; + Desprezando caduca formosura, + Ella, em seu giro eterno, só procura + A fórma, o typo universal do bello. + + Não póde amar, não deve, uma alma casta + Fugaz belleza, graça transitoria, + Coisa que o tempo leva, o tempo gasta. + + Nem tambem alma digna de memoria + Póde amar o prazer, que o bruto arrasta, + Em vez do puro amor--sombra da gloria. + + MIGUEL-ANGELO. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +N'UM CONVENTO + + + Como a agua em funda gruta + Gotta a gotta filtra e cái, + Sem saber quem isso escuta + O que lá por dentro vai: + + Como ao longe incerta e baça + N'uma igreja alveja a luz, + Que da lampada esvoaça + E a vidraça reproduz: + + Mal te vi, moira encantada! + Mas á luz dos olhos teus + Murcha a lampada sagrada + D'um altar do nosso Deus. + + Mal te ouvi, mas as suaves + Melodias, que te ouvi, + São mais dôces que as das aves + Da aldêa onde nasci! + + Quem teve, bella captiva, + Coração de te deixar + Aqui enterrada viva, + Sem amor, sem luz, sem ar! + + Era cego e surdo, juro, + O miseravel algoz + Que não viu olhar tão puro, + Não ouviu tão pura voz! + + Eu não tendo a faculdade + D'arrazar esta prisão, + Sacrifico a liberdade + Por tão dôce escravidão!... + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +SONHO + + + Ha muitos sonhos de imaginação, + De mera phantasia: + Outros, que são a voz da prophecia, + A voz da intuição, + A voz do coração. + + Pões fé em sonhos taes, Maria?... Pões? + E fazes bem, que ás vezes + Sonha a gente venturas e revezes, + Que se tornam depois + Bem certos! Ouve pois: + + Sonhei que era n'um valle. Anoiteceu. + Então duas estrellas. + (Tão lucidas, tão limpidas, tão bellas!) + Vieram lá do céo + Alumiar-me. E eu... + + Não sabia e pergunto: o que buscaes, + Alampadas celestes! + Vós, cá por este mundo... o que perdestes? + Na terra não achaes + Senão prantos e ais! + + Respondem-me as estrellas (como a quem + As tivesse captivas, + Tão tremulas! as bellas fugitivas) + --Buscavamos alguem + Que nos quizesse bem: + + É sorte nossa, é nossa condição + Dar luz, ser norte e guia; + Mas de mais boamente se alumia + Na terra um coração + Que nos tem affeição.-- + + --Pois e se vós do céo, lá onde até + Se ignora o que são dôres, + Vindes á terra procurar amores, + Estrellas! se assim é, + Tendes-me aqui ao pé: + + Que em summa a noite da minha alma é tal + Que eu pobre viajante + Ando... se para traz, se para diante, + N'este profundo val, + Não sei nem bem mal. + + Guiai-me pois, estrellas do Senhor! + E a jura que vos faço + É que na terra não darei um passo + Senão só por amor + Do vosso resplendor!-- + + Ellas então sorrindo-se, que eu vi, + Tão meigas e suaves! + Voaram como duas lindas aves; + Indo poisar ahi... + N'esse teu rosto... em ti! + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +Á VISTA D'UM RETRATO + + + Amo-te, flôr! Se te amo, Deus que o sabe + Que o diga a teus irmãos, que o céo povoam, + E ebrios de gloria canticos entoam + A quem no mar, na terra e céos não cabe. + + Se te amo, flôr! que o diga o mar--que expelle + Quanto é dominio, beija humilde a praia: + Se mal que a lua lá das ondas sáia + Nas rochas me não vê gemer com elle. + + Amo-te, flôr! se te amo, o sol que o diga! + Quanto lá da montanha aos céos se eleva, + Se entre os vermes do pó que o vento leva, + Me banha a mim tambem na luz amiga. + + Se te amo, flôr? Sem ti, que noite escura, + Meu céo, meu campo em flôr, meu dia e tudo! + Diga-te a noite minha se te illudo, + Se em vida já sem ti, sonhei ventura! + + O anjo que a berço humilde e escasso + Do céo me veio alumiar piedoso, + E em lagrimas e riso, pranto e gozo, + Desde então me acompanha passo a passo; + + És tu! Amo-te e muito! O que fluctua + Na fornalha que o sopro eterno accende, + Não beija a mão do anjo que o suspende + Com mais amor que eu beijo a sombra tua! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +A LUA + + + Esse olhar silencioso + Em que lingua se traduz? + Falla-me, oh astro saudoso, + Luz do céo, pallida luz! + Que aereas visões me acordas, + Que imagem, lua, recordas + N'essa prateada côr? + Que ha em ti, que a dôr mitiga, + Que ha em ti, lampada amiga, + De meigo e consolador? + + Escuta, pallida lua, + Dá-me um sorriso dos teus, + Dá-me uma lagrima tua, + Se és a pupilla de Deus! + Vê que outros mimos não tenho, + Que em tua face desenho + A face do meu amor: + Uma só lagrima! fria, + Que ella me cáia... diria + Que uma lagrima cahia + Do céo ao menos na dôr! + +Coimbra. + + * * * * * + + + + +JOVEN CAPTIVA + + + Respeita a foice a espiga verde ainda; + Sem medo da vindima, o estio inteiro, + Bebe o pampano as lagrimas da aurora: + E eu verde como a espiga, tenra e linda + Como o pampano, hei-de morrer? não quero: + Quero, mas não por ora! + + Talvez que a outrem, morte, grata fosses. + Espero! Embora em lagrimas me lave, + Varre-me o norte a mim a face? inclino-a. + Se ha dias tristes, ai! ha-os tão dôces... + Sem amargo, que mel, por mais suave + Que mar, em paz continua? + + Benefica illusão meu seio habita. + Sepulte-me este carcere inhumano; + A aza nivea da fé não se agrilhôa. + Escapa ao laço da prisão maldita, + Mais viva e alegre, a esse aereo oceano, + A alvéloa canta e vôa. + + Hei-de morrer? porque? se não diviso + Em minha alma um remorso; durma ou vele, + Se eu velo e durmo em paz, na paz do justo! + Se em cada rosto a luz me abre um sorriso; + Aqui mesmo, onde a mágoa o riso expelle; + E a luz assoma a custo! + + O fim do meu destino é lá tão longe! + Quantos passei dos alemos que adornam + Esta bella viagem? Assentada + Ao banquete da vida apenas hoje, + A taça ainda cheia as mãos entornam, + Dos labios illibada. + + Estou na primavera, oh segadores! + E as mais quadras do anno havia agora + De não acompanhar o sol? havia? + Debruçada em meu pé, gloria das flôres, + Eu não vi mais do que raiar a aurora; + Quero acabar meu dia. + + Espera um pouco, oh morte! nada perdes. + Antes consola os que o remorso, o medo, + O desalento pallido devora! + Guarda-me ainda o campo grutas verdes! + As musas, cantos! e o amor... Segredo! + Não morro, não, por ora! + + Assim, encarcerada, o rosto lindo + E a vista alçando a regiões ignotas, + Minha musa entoou na fé mais viva: + E eu, as languidas mágoas sacudindo, + Moldei em dôce verso as dôces notas + D'essa joven captiva! + + ANDRÉ-CHÉNIER. + +Coimbra. + + * * * * * + + + + + Mulher! quando nos braços + Te escuto uma canção, + Não vês em meus abraços + Profunda commoção? + É que o teu canto á mente + Me traz vida melhor... + Ah! + Cantai continuamente, + Cantai, oh meu amor! + + Quando sorris, assume + Teu rosto uma expressão, + Que o mais feroz ciume + Se desvanece então. + Sorriso tal desmente + Um coração traidor... + Ah! + Sorri continuamente, + Sorri, oh meu amor! + + Quando tranquilla e pura, + Te estou a vêr dormir, + Que vozes se afigura + Teu halito exprimir? + Contemplo então contente + Teu corpo encantador... + Ah! + Dormi continuamente, + Dormi, oh meu amor! + + _Letra de_ V. HUGO. _Musica de_ GOUNOD. + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +UM BEIJO + + + Seria o beijo + Que te pedi, + Dize, a razão + (Outra não vejo) + Porque perdi + Tanta affeição? + + Fiz mal, confesso; + Mas esse excesso, + Se o commetti, + Foi por paixão, + Sim, por amor + De quem?... de ti! + Tu pensas, flôr, + Que a mulher basta + Que seja casta, + Unicamente? + Não basta tal. + Cumpre ser boa, + Ser indulgente. + Fiz-te algum mal? + Pois bem: perdôa! + + É tão suave + Ao coração + Mesmo o perdão + D'offensa grave! + Se o alcançasse, + Se o conseguisse, + Quizera então + Beijar-te a mão, + Beijar-te a face... + Beijar? que disse! + (Que indiscrição...) + Perdão! perdão! + +Lisboa. + + + +FRANCISCA DE RIMINI + + + Disse eu então: poeta, vês aquelles, + Abraçados, velozes como o vento? + Desejava poder fallar com elles. + + --Chamando-os com enternecimento, + Em cá passando mais do nosso lado, + São dois amantes, lograrás o intento. + + Assim que o vento os aproxima, brado: + Oh almas d'uma eterna anciedade, + Vinde fallar-me, se vos isso é dado. + + Como um casal de pombas, com saudade + Do ninho, vem no ar, d'aza espalmada, + Não mais que por impulso da vontade; + + Rompendo aquella aragem empéstada, + Acodem lá do bando onde anda Dido + Á supplica tocante e magoada. + + «Ah mortal generoso e condoído, + Que nos visita n'este escuro horrendo, + Deixando nós de sangue o chão tingido! + + «Do Senhor impetráramos podendo, + Já que tens dó do nosso mal enorme, + O teu descanço eterno em fallecendo. + + «Queiras ouvir-nos ou fallar, conforme, + É só dizer ou perguntar, mais nada; + Em quanto o vento, como agora, dorme. + + «A terra, onde nasci, fica assentada + Na praia onde a final o Pó descança, + E os que o seguem na marcha arrebatada. + + «Amor, que em nenhum moço acha esquivança + Prendeu este a um corpo... que roubado + Foi á minha alma em barbara vingança! + + «Amor, que obriga amar quem é amado, + Poz-me com elle tão condescendente, + Que ainda, como vês, me anda abraçado. + + «Amor nos deu a morte juntamente. + Quem nos matou irá para as Caínas.» + Disseram elles isto fielmente. + + Depois d'ouvir as victimas mofinas, + Scismando cabisbaixo, em tal postura, + Pergunta-me o poeta: em que imaginas? + + Começo respondendo: oh desventura! + Quanta esperança! quanta sympathia + A ambos não cavou a sepultura! + + E voltando-me a quem me referia: + Olha Francisca! dó dos teus tormentos + Estas lagrimas tristes desafia. + + Mas na quadra dos vagos sentimentos, + Conta-me: como foi que conheceste + Os amorosos languidos momentos! + + «O desgosto maior d'um triste é este, + Fallar do tempo que passou, confesso: + Que o diga o proprio guia que trouxeste + + «Mas desejando tu com tanto excesso + Conhecer de raiz esta amizade, + Entre vozes e lagrimas começo: + + «Liamos ambos, por curiosidade, + Certa historia d'amores, que idearam, + Nós sós, um dia, livres de maldade. + + «Muita vez nossos olhos se espantaram, + E descoramos, lendo a historia estranha; + Mas dos lances que mais nos abalaram, + + «Foi quando em summa o terno amante apanha + O dôce beijo, por que andava ardendo: + Este, que eternamente me acompanha, + + «Beija-me a bocca a mim, todo tremendo! + A culpa foi do livro que se lia! + Não se continuou o dia lendo.» + + Em quanto assim Francisca respondia, + Chorava Paulo, a ponto, d'aterrado + Me vêr nas convulsões da agonia, + E cahir, como um corpo inanimado! + + DANTE. + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +PAIXÃO + + + Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte, + Com essa vista embaciada e turva + Que dá aos olhos entranhavel dôr; + Tinhas podido vêr transpôr a curva, + Pouco a pouco, do liquido horisonte, + A saudosa barca, que levasse + Aquelle, a quem primeiro uniste a face + E o teu primeiro amor! + + Depois, que toda mágoa e saudade, + Da mesma rocha ou alcantil deserto, + Olhando ávidamente para o mar; + Vias na solitaria immensidade, + Vagas ficções d'um pensamento incerto, + Surgir das ondas, desfazer-se em espuma; + Não alvejando, nunca, vela alguma + E, sempre, a suspirar. + + Até que á luz d'uma intuição sublime + D'alma arrancavas o gemido extremo + De saudade, desespero e dôr!... + Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo! + Que nuvem negra o coração me opprime; + Nuvem de mágoa, nuvem de ciume, + Em te não vendo á hora do costume, + Meu anjo e meu amor! + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +ESCREVE! + + + Não sei o que suppôr + Do teu silencio. Escreve! + Quem é amado deve + Ser grato ao menos, flôr! + Se eu fosse tão feliz + Que te fallasse um dia + De viva voz, diria + Mais do que a carta diz. + Mas, olha, tal qual é + Não rias d'esse escripto + Que, pouco ou muito, é dito + Tudo de boa fé. + Ha n'esse teu olhar + A dôce luz da lua, + Mas luz que se insinua + A ponto de abrazar... + Pareça n'elle sim + Que ha só doçura, embora: + Ha fogo que devora... + Que me devora a mim! + Que mata, mas que dá + Uma suave morte; + Mata da mesma sorte + Que uma arvore que ha: + Que ao pé se lhe ficou + Acaso alguem dormindo + Adormeceu sorrindo... + Porém não acordou. + Esse teu seio então, + Que encantadora curva! + Como de o vêr se turva + A vista e a razão! + Como até mesmo o ar + Suspende a gente logo... + Pregando olhos de fogo + Em tão formoso par! + Oh seio encantador, + Delicioso seio! + Que jubilo, que enleio + Libar-lhe o nectar, flôr! + Eu tenho muita vez + Já visto a borboleta + Na casta violeta + Poisar os leves pés: + E n'um enlevo tal, + N'uma avidez tamanha, + Que a gente a não apanha + Com dó de fazer mal! + Pegada á flôr então + No pé curvinho e molle, + As azas nem as bole + Toda sofreguidão! + Poisou... adormeceu! + Só vê, só ouve e sente + O calix rescendente + D'aquelle mel do céo! + Pois vê com que prazer + E com que ardente sêde + Te havia... (que não hei-de!...) + Tambem beijar, sorver! + Mas eu só peço dó, + Só peço piedade! + Mata-me a saudade + Com duas linhas só! + Eu, a não ser em ti + Achar allivios, onde? + Escreve-me! responde + Á carta que escrevi! + Cançado de esperar + Ás vezes quando sáio, + Pensas que me distraio? + Pois volto com pezar! + Concentra-se-me em ti + A alma de tal modo + Que esse bulicio todo + Nem o ouvi, nem vi! + Ninguem te substitue, + Porque só tu és bella! + Que estrella a minha estrella, + E que infeliz que eu fui! + Mas devo-te suppôr + Sempre indulgente e boa, + Escreve-me e perdôa + Meu violento amor! + Respeita uma affeição + Inutil mas sincera. + Tu és mulher, pondera + O que é uma paixão. + Com sangue era eu capaz + De te escrever; portanto, + Tinta não custa tanto! + E não me escreverás? + Uma palavra, sim, + Que me não amas... Queres? + Em quanto me escreveres, + Tu pensarás em mim! + Só essa idéa, crê, + Encerra mais doçura + Que as provas de ternura + Que outra qualquer me dê! + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +MALMEQUER + + + Talvez em eu morrendo a teus ouvidos + Chegue a noticia, que hoje os factos vôam, + E oiças então os intimos gemidos + Que exhalo e te não sôam. + + Talvez então, embora me não ames, + Com esses olhos humidos de fito + Na minha sombra: «Desgraçado! exclames; + Amava-me, acredito. + + «Levou a vida amando-me: que prova + Me podia alguem dar de mais ternura, + Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova, + Cavei-lhe a sepultura! + + «Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo + Do meu dever... agradecer-lhe agora! + Purificar-me em lagrimas! O vulgo + Que me censure embora. + + «Hei-de ir dispôr um pé de saudade + Na terra onde elle descançou da lida; + Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade, + Que não mostrei em vida!» + + Se fôres, meu amor! uma perpetua, + E uma saudade ser-me-hia dôce! + Mas só perpetua ou saudade, aceito-a, + E um malmequer que fosse. + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +VIRGINIA + +Para se recitar no theatro do Príncipe-Real + + + Senhores! vêde o sol; diariamente + Nasce, cruza esse espaço e, no poente, + Acaba de brilhar. + É util, é preciso, é necessario, + Não é pois inconstante, não é vario; + É certo, é regular! + + Hervas que nutrem, animaes que comem, + E a imagem de Deus--que falla--o homem, + Sem essa luz, dizei: + Vegetavam acaso, existiriam? + Os echos d'esses valles repetiam + Alguma voz? O que!... + + Seria tudo um ermo escuro e mudo; + Tudo insensivel, solitario tudo! + Mas Deus cria essa luz; + E um mar sem praias de silencio e morte, + Sêres de toda a casta--toda a sorte, + Produz e reproduz! + + Sim, essa luz benefica converte, + Por mysteriosa alchimia, frio, inerte, + Imperceptivel grão + Em tenras hastes, em botões mimosos, + Folhas, flôres e fructos saborosos + Que recamam o chão! + + Mas julgaes vós agricola sómente + A mão do creador omnisciente? + Pergunta singular! + Basta só vêr a ondeada trança + Com que elle adorna a virgem que vos lança + O seu primeiro olhar! + + A terra é de côr varia, a planta, verde: + Porque e para que? O que se perde + Em ter tudo uma côr? + O que se ganha em ser tão bem pintada, + Symetrica, mimosa, perfumada + Uma ephemera flôr? + + É que Deus é artista! e noite e dia + E céo e terra e mar o denuncia... + Vêde nascer o sol! + Pôr-se alta noite a lua encantadora... + Em quanto ao mesmo tempo canta e chora + Ao longe o rouxinol! + + Deus é artista, sim; Deus ama o bello, + Mais talvez do que o util. O desvelo + Com que elle trata a flôr! + Antes de abrir... que mãi tão carinhosa + Resguarda, mais solicita que a rosa, + Um seu botão d'amor! + + Nem podia sahir obra incompleta + Das mãos de Deus: geometra e poeta + Em summo grau, traçou + A compasso a abobada celeste; + Mas de que lindas nuvens a reveste + Que ao vento tomam vôo! + + Creou, de fogo, o sol--o grande astro! + E creou, não de fogo, d'alabastro + A sua bella irmã + --Sombra apenas do sol, desnecessaria, + Luz phantastica, vaga, solitaria, + Inutil, fátua, vã... + + Mas luz intima! luz do sentimento! + Luz d'amor e de fé! que inspira alento + A nossos corações! + Unica luz, á qual se mede o fundo + D'esse concavo mar... d'esse outro mundo... + D'esse mundo de soes! + + Porque se ao sol deveis fructos e flôres, + Á lua deveis mais, deveis amores... + Deveis... como direi? + Esta entranhavel, vaga saudade + De não sei que melhor realidade, + Que o mundo que se vê... + + Quantas vezes, depois da lida insana + D'um dia, n'este mar da vida humana, + Vendo surgir no céo + Essa luz melancolica e suave, + Eu acho então, e com que allivio, a chave + D'este mysterio meu!... + + D'este amor por phantasticos amores... + Comtudo mais leaes e duradores + Que os d'esse mundo são! + D'este mundo de sombras... até prestes, + Sombra tambem, á sombra dos cyprestes + Achar satisfação! + + E eu digo, digo á lua scismadora + Com os olhos risonhos de quem chora + Pranto consolador: + Se pois Deus te creou porque eras bella... + O que vale o sol mais do que uma estrella? + Um rei do que um pintor? + + Ao vêr-te, dôce lampada, suspensa + De vaporosa nuvem, n'essa immensa + Abodada dos céos, + Pareces-me o thuribulo sagrado + Com os rolos de incenso evaporado + Em tua honra, oh Deus! + + E a minha vista sofrega acompanha + Esse clarão phantastico á montanha + Ou da terra ou do mar, + Onde, acabada a obra do seu dia, + Astro d'amor e de melancolia, + Se deita a descançar. + + E eu descanço tambem; filha da arte... + Cumpre-me a mim, oh lua, contemplar-te! + E pergunte-me alguem: + --Tu que fazes no mundo, mulher futil? + --O que Deus faz... na flôr, na lua inutil... + Sou artista tambem. + +Lisboa. + + * * * * * + + + + +PRIMEIRO PSALMO DE DAVID + + + Bemdito o que não cahe em se guiar + Por conselhos de gente depravada; + E em vendo que vai mal, muda de estrada, + E nunca se demora em mau lugar; + + Que o seu empenho é só unicamente + A lei de Deus, que estuda noite e dia. + Como a arvore ao pé d'agua corrente, + Dá a seu tempo o fructo que devia. + + Nunca lhe cahe a folha; empresa sua + Sahe por força conforme o seu intento; + Em quanto o impio, o mau trabalha e sua, + E é sempre como o pó, que espalha o vento! + + No tribunal, onde ha-de ser ouvido, + Não conte com sentença a seu favor; + Que não entra no numero escolhido + Dos justos, dos amigos do Senhor. + + O justo, Deus bem sabe o seu caminho, + E guia-o, não o deixa andar sósinho: + E o caminho do mau, pelo contrario, + É beco sem sahida e solitario. + +Messines. + + * * * * * + + + + +SEGUNDO PSALMO DE DAVID + + + Porque anda o mundo todo enfurecido, + Se esforços contra Deus são todos vãos? + Os grandes, mais os reis, deram as mãos + Contra o Senhor, contra o seu Ungido, + + --Estas correntes, é despedaçal-as, + Este jugo atirar com elle fóra! + E lá cima no céo, o que lá mora + Não faz mais que sorrir-se de taes fallas. + + Mas em lhe dando a ira, aonde então + Se hão-de metter, com medo, os desgraçados! + Coroou-me rei no alto de Sião, + Cumpre-me publicar os seus mandados. + + «Tu és meu filho; disse-me o Senhor: + Gerei-te hoje; pedir com confiança! + Verás o mundo todo ao teu dispôr, + Terras e povos, como propria herança. + + «Vara de ferro para os ir guiando, + E fazel-os guardar-te obediencia; + E elles de barro mal cozido e brando + Que os partas em te oppondo resistencia.» + + Agora pois vós outros, reis, juizes, + Reparai no que eu digo, e vêde lá; + Servi a Deus, e dai-vos por felizes + Cumprindo á risca as ordens que elle dá. + + Tomai os meus conselhos; ou, senão, + Tende já como certa a perdição. + Que em se elle irando, é como um raio; aquelle + Que o despreza e não crê, infeliz d'elle! + +Messines. + + * * * * * + + + + +CANTICO DOS CANTICOS DE SALOMÃO + +Para os corações puros tudo é puro. + +S. Paulo a Tito. + + +I + +CHEGADA + + + A SULAMENSE + + --Tomára já ter o gosto + De o sentir beijar-me o rosto! + + CORO DE VIRGENS + + --E onde ha mulher que te exceda? + Só esse collo embebeda. + O aroma que elle exhala, + Nenhum balsamo o iguala. + + 2.º CORO + + --O teu nome, fallar n'elle, + Só fallar n'elle é tão dôce + Como se um oleo nos fosse + Escorrendo pela pelle. + + SALOMÃO + + --Olha como todas ellas + Te estimam tanto, as donzellas. + + A SULAMENSE + + --Sou tua, leva-me, vamos. + + CORO + + --E nós, que te não largamos, + Te iremos correndo atraz + Pelo rasto de perfume, + Que deixas por onde vás, + Das pomadas com que dás + No corpo, como é costume. + + A SULAMENSE + + --Já el-rei me manda entrar + Para a sala do jantar. + + CORO + + --Para saltar de alegria + E festejar este dia, + A nós basta-nos lembrar + Que esse teu seio embebeda; + Nem ha mulher que te exceda. + + 2.º CORO + + --Quem te vê seja quem fôr + Fica bebado d'amor. + + A SULAMENSE + + --Sou trigueira mas formosa, + Moças de Jerusalem! + Senão vêde o pavilhão + Que arma em campo Salomão, + Se ha coisa mais preciosa, + E por fóra a côr que tem; + Vêde as barracas dos moiros, + Por dentro tantos thesoiros, + Por fóra negras tambem. + + Não vos dê pois isso pena, + Ter assim a côr morena: + Minha mãi mandou-me pôr, + Por culpa de meus irmãos, + De guarda á vinha, o calor + Queimou-me o rosto e as mãos: + E eu, a vinha, é escusado + Dizer-vos que nem eu tinha + Senão agora o cuidado + De estar a guardar a vinha. + + Ah! para que banda vás + Com o gado, meus amores! + E pela folga onde estás! + Bem vês os outros pastores, + E a gente não adivinha. + Eu não hei-de andar atraz + D'esses rebanhos sósinha. + + SALOMÃO + + --Ah rainha das mulheres! + Olha como tu te enganas, + Que medo tens das cabanas, + Que medo tens dos rebanhos, + Que medo tens dos estranhos? + Não te dê isso cuidado, + Anda por onde quizeres + Tambem guardando o teu gado. + Em te vendo, mesmo só, + Toda a gente se desvia, + Como da cavallaria + Dos carros de Pharaó. + + CORO + + --Dás no rosto certo ar + D'aquella graça da rola, + Que até encanta, arrebata. + + A garganta pódes pôl-a + Ao pé do melhor collar. + + 2.º CORO + + --Um te havemos de nós dar + De oiro, ás pintinhas de prata, + Que é lindo, e has-de gostar. + + A SULAMENSE + + Já não sei pelo que aguardo + Que estando el-rei a jantar + Lhe não entorno por cima + Esta redoma de nardo + Que é um balsamo de estima. + + Mas ha outro mais perfeito, + E com o qual me perfumo: + Eu a myrrha que costumo + Trazer aqui em meu peito, + É mesmo aquelle a quem amo. + Nunca apanhei outro ramo + Nem outro alcanfor colhi + Nas hortas dos arredores + Da cidade de Engaddi. + + SALOMÃO + + --Como és bella, minha amante! + Terá a pomba esse olhar? + Outro não ha semelhante. + + A SULAMENSE + + --E quem mais bello e galante + Mais formoso, meus amores! + E mais de se cubiçar? + + SALOMÃO + + --Vês, o nosso leito é este, + Armado todo de flôres: + E olha o tecto é de cypreste, + Portas de cedro, tambem; + Aqui não entra ninguem. + + A SULAMENSE + + --Sou a rosa de Sarão, + A açucena do val. + + SALOMÃO + + --Amada do coração, + Entre as mais és tal e qual + Uma açucena entre espinhos. + + A SULAMENSE + + --E entre os mais o meu amado + A que ha-de ser comparado? + Vês tu no bosque a maceira? + És assim d'essa maneira. + Por lograr os teus carinhos + E boa sombra ha já muito + Que eu andava a suspirar: + Com effeito sombra e fructo + Nada deixa a desejar. + + Elle deu-me do melhor + Que tinha na sua adega; + Mostrando-me assim primeiro + Como faz quem tem amor. + Trazei-me flôres de cheiro, + Que estou como tonta e cega... + Algum pomo, que esmoreço... + Já um braço me elle passa + Pelos hombros e me abraça + Pela cinta... desfalleço... + Ah desfalleço d'amor! + + SALOMÃO + + --Pela corça e o veado, + Moças de Jerusalem! + Não a acordeis, cuidado! + Deixar dormir o meu bem, + Um somno bem socegado. + + +II + +ENTREVISTA + + + A SULAMENSE + + --Quem é que eu oiço bradando? + Oiço uma voz e por força + Que é a voz d'elle esta voz: + Ah! lá vem além saltando + Montes e valles, nem corça + Nem veado é mais veloz. + + Eil-o detraz da parede + Além já da outra banda + E o que elle faz, como elle anda + A vêr no vallado todo + E na cancella se ha modo + De me pôr olho: ora vêde. + + SALOMÃO + + --Oh minha amada! depressa + Vem vêr o campo, anda, vem: + Mettida em casa, meu bem! + Que demora tua é essa? + + Foi o inverno passando, + Até que a chuva acabou: + Veio a herva rebentando, + Revestiu a terra toda, + Chegou o tempo da poda, + Ouviu-se a rola arrulhando, + O figo vem já inchando + E a vinha está já em flôr: + Pelo que estás esperando? + + Quando has-de tu, meu amor! + Andar então passeando? + Ouve lá que estamos sós, + E aqui não ha quem nos oiça: + Vês esta fresta? é um gosto + Até pela pedra ensossa + Vêr assomar o teu rosto, + Ouvir essa linda voz. + + A SULAMENSE + + --Toda em flôr, como está bella! + Mas lá o ter flôr que monta? + Se as boas das raposinhas + A tomam á sua conta, + Depois a uva que é d'ella? + Bons laços se lhe hão-de armar, + Que ellas dão cabo das vinhas + Se ninguem as apanhar. + + Tu és meu; e eu tambem + Sou tua, de mais ninguem. + Nós somos como um casal + De corcinhas, com effeito; + Andamos sempre a vêr qual + Guarda ao outro mais respeito + E lhe ha-de ser mais leal. + Logo ali de manhãsinha, + Ou pela fresca, á tardinha, + Quando a corça e o veado + Volta aos valles de Belher, + Cá ficas sendo esperado: + Não te esqueça, haja cuidado, + Vê lá o que has-de fazer. + + +III + +SONHO + + + A SULAMENSE + + --Não sei bem que sonho tive + Esta noite, que acordei + Sobresaltada, e que estive + Ainda apalpando a cama + Á busca de quem me ama + E a quem ama; não achei: + Levantei-me, rodeei + A cidade toda em roda, + Corri a cidade toda, + Busquei tudo, não achei. + Na rua pergunto á ronda: + O meu amante que é d'elle? + Não ha ninguem que responda. + Vou andando; a poucos passos + Vi vir um vulto: é aquelle. + Chega e digo-lhe depois + De o apertar nos meus braços: + Quem se ama como nós dois, + Só em mudando de estado + É que vive descançado. + Anda d'ahi, vamos pois + Ao quarto mesmo onde dorme + Minha mãi que me gerou + (Que eu tua ainda não sou, + Nem tu és meu, meu amigo!) + A pedir a nossos paes + A sua benção, conforme + Costumam fazer os mais, + E é já um costume antigo. + + SALOMÃO + + --Pela corça e o veado, + Moças de Jerusalem! + Não a acordeis, cuidado, + Deixai dormir o meu bem + Um somno bem socegado. + + +IV + +NOIVADO + + + CORO + + --Oh que mulher tão perfeita + A que vem além andando! + Vem espalhando um perfume + E é tão airosa a andar! + Parece quando se deita + Incenso e myrrha no lume + Que se vai desenrolando + Aquella nuvem no ar. + + 2.º CORO + + --Realmente é de invejar; + Mas haja alguem que se afoite... + Sessenta homens armados + Dos mais desembaraçados + Manda Salomão ficar + De vigia toda a noite. + + CORO + + --É tudo á satisfação + E gosto de Salomão. + O andor onde elle sai, + De tudo de que é composto, + Cedro do Libano, olhai, + É a coisa mais barata: + Pernas e braços de prata, + De oiro o mais fino o encosto; + Onde põe os pés velludo: + Não fallando em diamantes + E pedras as mais brilhantes + Que lá isso excede a tudo. + + 2.º CORO + + --Além vem já Salomão: + Lá vem elle já coroado + Com a corôa do noivado + Que a mãi lhe poz na cabeça + Pela sua propria mão. + Hoje é o dia fallado: + Moços, moças de Sião! + Assomai-vos já depressa. + + SALOMÃO + + --Que enlevo, que formosura! + A pomba não tem de certo + No olhar tanta doçura: + E fóra o que anda encoberto. + + O cabello, em quantidade + E tamanho, é singular; + E não me lembra senão + Das cabras de Galaad + Que lhes rola pelo chão + Em ellas indo a andar. + + Os dentes, em tu abrindo + A tua boca, que lindo! + Nem um rebanho d'ovelhas + Todas brancas e parelhas + Quando, em sendo tosquiadas, + Veem saindo do banho + D'uma em uma, enfileiradas, + E atraz d'ellas, cada uma + Seus dois gemeos d'um tamanho, + Sem ser maninha nenhuma. + + Pois a bocca é comparada + A uma fita encarnada. + A voz ouvil-a é um gosto: + Parte a romã pelo meio + Verás as rosas do rosto; + E fóra no que eu receio + Fallar que me não é dado. + + O pescoço, pensa a gente, + Em o vendo de collares, + Que é a torre exactamente + De David, n'esses ares, + De baluartes, e toda, + Lá cima, escudos á roda. + + Os peitos é um casal + De corcinhas, que o seu pasto + São açucenas do val: + Nada mais timido e casto. + E deitam um cheiro á goma, + Da myrrha mais do incenso, + A ponto que ás vezes penso + Que elles são duas collinas + Por onde aquellas resinas + Espalham aquelle aroma. + + És formosa sem senão, + Amada do coração! + E que fazias tu lá + Pelo Libano, pombinha! + Deixa o Libano, anda cá. + Vaes ser coroada rainha + No mais alto d'Amaná + Ou d'Hermão ou de Sanir, + Onde ha leões e onde ha + Leopardos... deves vir. + + Trespassou-me o coração + O teu olhar; o cabello + Prendeu-me como um grilhão. + O teu peito, basta vêl-o, + Para embebedar d'amor. + E só o cheiro que exhala + O teu corpo, não ha flôr, + Não ha rosa, não ha cravo + Capaz de cheirar melhor. + + A tua bocca é um favo + De doçura quando falla; + A tua lingua, uma sopa + De leite e mel; essa roupa + Cheira a incenso, regala. + + Não ha nada comparado: + Agua a mais pura e suave + De fonte fechada á chave, + Não é mais suave e pura. + Esse rosto, essa figura... + E só o bem que tu cheiras! + Não me parece senão + Um jardim todo plantado + De romeiras e maceiras, + Canfora, nardo, assim como + Açafrão, canna de cheiro + Aloes, myrrha e cinnamomo: + O que ha no Libano em fim; + Não ha fruta nem aroma, + Que se ahi não cheire e coma. + És a fonte d'um jardim + Toda pureza e frescura: + Torno d'agua que rebenta + Inda mais viva e mais pura + Lá no Libano, e ninguem + Lhe tem mão nem aguenta + A força com que ella vem. + + Fizesse já sul e norte + No meu jardim, de tal sorte + Que alegretes e pomares + Andasse tudo nos ares. + + A SULAMENSE + + --É natural que tu comas + Da fruta do teu jardim. + + SALOMÃO + + --E que duvida que sim? + Vamos primeiro aos aromas; + O mel em favo depois + E mais o vinho e o leite. + Hoje é dia de banquete, + Amigos do coração! + É comer-lhe por quem sois + E beber-lhe até mais não. + + +V + +SURPREZA + + + A SULAMENSE + + Estava a dormir... que importa? + Velava o meu coração. + Oiço o meu amado á porta: + + --Ah formosa sem senão, + Minha pomba, minha amada! + Trago a cabeça molhada, + E os anneis do meu cabello + Todos escorrendo orvalho, + Estou mais frio que um gelo. + + --Dá-me isto agora um trabalho... + Despi-me, lavei os pés, + Estou na cama deitada, + E é uma pena, bem vês, + Vestir-me agora outra vez, + Andar inda levantada. + + Vai elle empurra o postigo, + E eu assusto-me de modo + Que, na verdade vos digo, + Tremia-me o corpo todo. + + Salto da cama exhalando + Um cheiro delicioso: + Eu tinha-me estado untando + Com um oleo precioso + E inda as mãos me iam pingando. + + Abro a porta, eis senão quando + Elle foge de repente... + + Eu só de lhe ouvir a falla + Fui ás nuvens de contente. + E em paga de tudo, abala; + Bradei-lhe, não me acudiu, + Vou por essas ruas fóra + Á busca d'elle, até'gora: + Parece que o chão se abriu... + + Encontro a ronda, espancou-me; + Um dos da guarda á entrada + Da cidade, esse, roubou-me + A capa onde ia embrulhada. + + Peço-vos isto por bem, + Moças de Jerusalem! + Contai tudo ao meu amado, + Que elle é por amor de quem + Estou n'este triste estado. + + CORO + + --O teu amado... responde, + Formosura sem igual! + Ha tantos onde escolher + Que é necessario um signal. + Qual é o signal por onde + Havemos de o conhecer? + + --Eu vos digo: o meu amado, + D'aquellas côres no mundo, + Estou que não ha segundo; + É muito branco e córado. + A cabeça é um thesoiro + Do que ha de mais principal; + Que a sabedoria vale + Mais do que a prata e o oiro. + + De negro que é o cabello, + Vêr um corvo, é mesmo vêl-o. + + Os olhos, aquelle olhar, + Ha n'elles uma doçura, + Que não sei a que os compare; + Só sendo a um casalinho + De pombas, que estão no ninho, + Todas pureza e candura. + + As suas faces rosadas, + Rescendem como um canteiro + D'aquellas plantas de cheiro + De que fazem as pomadas. + + A bocca, digo a verdade, + Que a açucena mais pura + Cheia da myrrha melhor + Não apresenta a doçura, + Pureza e suavidade + Das fallas do meu amor. + + Aquelles dedos, vereis, + São uns canudos de anneis! + + O ventre d'elle é assim + Como um cofre de marfim. + As pernas, de musculosas, + São columnas magestosas + E de marmore inteiriço + Em bases de oiro maciço. + É o Libano em altura, + É como um cedro na matta + A sua bella figura. + + É tão suave, tão pura + A sua voz, que arrebata. + + Todo elle é singular + E todo de cubiçar. + Eil-o ahi retratado, + Moças de Jerusalem! + E não só o meu amado; + O meu amante tambem. + + CORO + + --Ah rainha das mulheres! + Se sabes para que banda + Elle iria o teu amigo, + Anda d'ahi, vamos, anda: + Nós imos todas comtigo + Á busca d'elle se queres. + + A SULAMENSE + + --Elle parece-me a mim + Que ha-de andar no seu jardim, + A apanhar açucenas, + Que é do que elle gosta apenas. + + SALOMÃO + + --Oh que formosa, meu bem! + Não ha cidade afamada, + Nem Thirsa ou Jerusalem, + Mais bella que a minha amada. + + Mettes mais respeito andando, + Que um exercito avançando. + + Os olhos faiscam fogo. + Tira de mim essa vista, + Que ao depois fugi eu logo + Porque não ha quem resista. + + O cabello, em quantidade + E tamanho, é singular! + E não me lembra senão + Das cabras de Galaad, + Que o arrastam pelo chão, + Em ellas indo a andar. + Os dentes, em tu abrindo + A tua bocca, que lindo! + Nem um rebanho d'ovelhas, + Todas brancas e parelhas, + Ao vir sahindo do banho + D'uma em uma, e cada uma + Seus dois gemeos d'um tamanho, + Sem ser maninha nenhuma. + As faces não ha de certo + Assim casca de romã + De cor tão linda e tão sã. + E fóra o que anda encoberto. + + És tão formosa, vê lá, + Que as rainhas são sessenta, + As concubinas oitenta, + Donzellas, quem é que as dá + Todas contadas? ninguem. + Pois e de quantas possuo, + A minha pomba, o meu bem, + A minha mimosa, és tu. + E o mesmo dizia já + Lá em casa tua mãi, + Com tantas filhas que tem. + + Quando chegaste, as donzellas, + Concubinas e em summa + As rainhas, todas ellas + Sem excepção de nenhuma, + Gritaram todas á uma: + Viva a rainha das bellas! + + +VI + +PASSEIO + + + CORO + + --Que linda mulher aquella! + Nem a aurora lhe ganha. + A lua não é tão bella + Nem a luz do sol tamanha; + Mette mais vista só ella + Que um exercito em campanha. + + A SULAMENSE + + --Nunca tive um susto igual! + Ia á horta das nogueiras, + Ia passear ao valle, + Vêr se tinha flôr a vinha + E já romãs as romeiras; + Mas a multidão que vinha + Atraz de mim era tal + Que não vi nada, e tão cedo + Apanho tamanho medo. + + CORO + + --Oh não fujas, anda cá, + Sulamense! deixa vêr + Belleza como não ha + No mundo nem póde haver. + + SALOMÃO + + --Arrebata na verdade, + Mas como um canto de guerra, + Porque ao mesmo tempo aterra + Este ar e magestade. + + O teu andar, que nobreza! + E tem o pé uma graça + Assim calçado, princeza! + + Os joelhos, que perfeitos! + Não ha ourives que faça + Eixos de oiro mais bem feitos. + Umbigo, qual é a taça, + D'estas taças pequeninas + Por onde a gente costuma + Beber bebidas mais finas, + Tão redondinha? Nenhuma. + + É o ventre de tal modo + Casto e fecundo, que apenas + Um monte de trigo, todo + Rodeado de açucenas + Me parece haver no mundo + Assim tão casto e fecundo. + + O teu seio é um casal + De corcinhas, que o seu pasto + São açucenas do val: + Nada mais timido e casto! + + Lembra-me o pescoço a mim, + Uma torre de marfim + E os olhos, esses então + Os dois lagos de Hesebão. + + Vês a torre que apparece + Lá no Libano, e que diz + Para Damasco? parece + Na lindeza esse nariz. + + A cabeça vêl-a toda + Por cima das mais, é bello, + Como a serra do Carmelo, + Toda collinas á roda. + + O cabello é tal e qual + Um grande manto real! + + É tudo uma perfeição, + Amada do coração! + + Vêr-te é vêr uma parreira + Armada n'uma palmeira; + E lá em cima os teus peitos, + No tamanho e no feitio, + Dois cachos d'uvas perfeitos + Que a parreira produziu. + E eu disse d'esta maneira: + Dois cachos d'uvas tão bellos + Hei-de ir lá cima colhel-os; + Que bem se vê que a doçura + Corresponde á formosura; + E que a tua bocca é pura + E a respiração é sã + Como o cheiro da maçã + Quando se apanha madura. + + --Como é suave e me encanta + O que me estás a dizer! + A voz da tua garganta + Embebeda como o vinho, + D'esse que a doçura é tanta + Que se costuma beber + Aos sôrvos, devagarinho. + + És só meu e eu tambem + Sou tua, de mais ninguem. + Anda com a tua amada + Morar para o campo, amor! + Iremos de madrugada, + Logo ao romper da manhã, + Em se a gente levantando, + Vêr se a vinha já tem flôr, + Se está em flôr a romã + E se a fruta vai vingando. + Alli é que eu hei-de então + Abrir-te o meu coração. + + Estamos na primavera, + A mandrágora já cheira, + E em minha casa, estar lá, + É como estar n'uma horta: + Mesmo ao pé da nossa porta + Temos quanta fruta ha. + E o teu quinhão, meu amado! + Assim do anno passado + Como da que vem agora, + Esse está sempre guardado. + + Ouvisse-te eu n'esta hora + Chamar mãi á minha mãi! + Como se tu com effeito + Fosses criado ao seu peito + Assim como eu fui tambem: + Então já eu te beijava + Ás claras e te abraçava + Sem vergonha de ninguem. + + Vamos aonde ella dorme, + A pedir a nossos paes + A sua benção, conforme + Costumam fazer os mais, + E depois seja o que fôr + É só mandar, meu amor! + + Verás como te hei-de dar + D'um vinho delicioso + E d'um licor precioso, + De romã, que has de gostar. + ......................... + Um braço já me elle passa + Pelos hombros... e me abraça + Pela cinta... o meu amado! + --Deixai-a dormir, cuidado, + Moças de Jerusalem! + Deixai dormir o meu bem + Um somno bem socegado. + ...................... + +Messines. + + * * * * * + + + + + Ouviste-me não sei quê + Trincolejar n'algibeira, + Acudiste mui lampeira, + Que me amavas. Já se vê. + + Tens amado mais de mil, + Não era agora o primeiro. + Mas pensas que era dinheiro? + É a pedra e o fuzil. + +Messines. + + +FIM + + * * * * * + + + + +INDICE + + + A poesia 1 + A uma carta anonyma 4 + Duas rosas 5 + A uma mulher 8 + A D. Candida Nazareth 11 + Amor 14 + A donzella e o musgo 17 + Ultimo adeus 23 + Rosas 26 + Rosa e rosas 28 + A Hermann 30 + Presentimento 33 + Marina 36 + I--Apparição 36 + II--Saudade 39 + III--Eternidade 41 + IV--... 21 de setembro 42 + N'um album 46 + Beijo na face 49 + Thuribulo suspenso inda fluctuo 53 + Luz d'intima influencia 55 + Resposta 58 + Pois se o homem, se anjo e nume 59 + Flôr e borboleta 62 + Remoinho 64 + Amores, amores 71 + Fabula 73 + Boas noites 74 + Gaspar 76 + Deixa que ao romper d'alva o cravo abrindo 77 + Carta 79 + Dá-me esse jasmim de cera 85 + Margarida 87 + No leito nupcial 90 + A minha mãi 93 + Beatriz 94 + Innocencia 97 + A Escriptura Sagrada 101 + A um Nuno 104 + A *** 105 + Luz da fé 107 + Resposta 112 + Meu casto lirio 113 + Ventura 116 + Arida palma 117 + A uns olhos azues 119 + Heresta 121 + Fragmento 129 + Se ao enlaçal-a no peito 145 + Nunca me ha-de esquecer 146 + Dinheiro 147 + Duvida 150 + Caturras 154 + Foi-se-me pouco a pouco amortecendo 160 + Mãi e filho 170 + Toca a capello, vou vêl-o 173 + Amas, pobre animal! e tens tu pena? 174 + Não! 175 + Na folha d'um romance 181 + Lagrima celeste 182 + Descalça! 185 + Adeus! 187 + A Victoria Colonna 190 + N'um convento 191 + Sonho 193 + Á vista d'um retrato 196 + A lua 198 + Joven captiva 200 + Mulher! quando nos braços 203 + Um beijo 205 + Francisca de Rimini 207 + Paixão 212 + Escreve 214 + Malmequer 219 + Virginia 221 + Primeiro psalmo de David 227 + Segundo psalmo de David 229 + Cantico dos Canticos de Salomão 231 + I--Chegada 231 + II--Entrevista 239 + III--Sonho 242 + IV--Noivado 244 + V--Surpreza 251 + VI--Passeio 259 + Ouviste-me não sei quê 266 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Flores do Campo, by João de Deus + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLORES DO CAMPO *** + +***** This file should be named 27599-8.txt or 27599-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/5/9/27599/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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