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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:35:17 -0700 |
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diff --git a/27535-h/27535-h.htm b/27535-h/27535-h.htm new file mode 100644 index 0000000..55952c2 --- /dev/null +++ b/27535-h/27535-h.htm @@ -0,0 +1,3955 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Despedidas: 1895-1899, por António Nobre</title> + <meta name="AUTHOR" content="António Nobre"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body {margin-left: 100px; width: 500px;} + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 650px; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + .pagenum a {color: silver;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000000;} + .small-caps { font-variant: small-caps;} + h1, h2, h4 { text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + p.caixa_meia {margin: 0;margin-left: 30%; width: 70%; font-size: small; text-indent: 0; } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Despedidas: 1895-1899 + +Author: António Nobre + +Release Date: December 15, 2008 [EBook #27535] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="capa"> +<h2>ANTONIO NOBRE</h2> + +<h1>Despedidas</h1> + +<h3>1895-1899</h3> + +<h4>Prefacio de José Pereira de Sampaio (<i>Bruno</i>)</h4> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><i>PORTO</i></p> + +<p>1902</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p style="text-align:center;"><img src="images/antonionobre.png" border="0" alt="Foto de António Nobre"></p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>DESPEDIDAS</h1> + +<p style="text-align:center;">DO MESMO AUCTOR:</p> + +<p style="text-align:center;">Só (2.ª edição, illustrada), Paris, 1898.</p> + +<p style="text-align:center;">NO PRÉLO:</p> + +<p style="text-align:center;"><i>PRIMEIROS VERSOS</i></p> + +<p style="text-align:center;">Prefacio de Justino de Montalvão</p> +<hr style="text-align:center;"> + +<p style="text-align:center;">D'este livro, publicado por Augusto Nobre, +tiraram-se dois mil exemplares</p> +<hr style="text-align:center;"> + +<p style="text-align:center;">Direitos reservados</p> + + +<p style="text-align:center;"></p> + +<div class="capa"> +<h2>ANTONIO NOBRE</h2> + +<h1>Despedidas</h1> + +<h3>1895-1899</h3> + +<h4>Prefacio de José Pereira de Sampaio (<i>Bruno</i>)</h4> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><i>PORTO</i></p> + +<p>1902</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span +class="pagenum"><a name="pagV" id="pagV">[V]</a></span>A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de +Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que +acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os +fragmentos, ao deante publicados, do poema <i>O Desejado</i>, hesitei +grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas +malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas +linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade +condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões de recommendação +ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente conhecido; está +decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco não conseguiria +senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fôsse a +impulsional-o.</p> + +<p>Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria +aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me +convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo irmão e pelo +companheiro.</p> + +<p>Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o +conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle +moço ignorado então.</p> + +<p>Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um +volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o +titulo generico e designativo de <i>Um bouquet de sonetos.</i><span +class="pagenum"><a name="pagVI" id="pagVI">[VI]</a></span> Eu lêra as composições contidas na sympathica +collecção e prestei preferente cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade +ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio +Nobre, nôme que eu havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias +de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. +Fundára, por esse tempo, um diario de propaganda politica <i>A Discussão</i>; +na secção litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que +me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas +affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero +artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a +monotonia acre das acerbas recriminações partidarias, indiquei o nôme do +joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito.</p> + +<p>Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce, +ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu +gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva +sua imaginação, ardorosa e melancholica!</p> + +<p>Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o +escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume <i>Só</i>, +como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma +affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz +redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista +portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o +lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me procurou, +abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam +penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente. +Esta visita sensibilisou me; como me encantou<span +class="pagenum"><a name="pagVII" id="pagVII">[VII]</a></span> a conversação do poeta, pelo tom subtil da +melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma +em carne viva, como a minha por então andava.</p> + +<p>Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de +volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle. +Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o poeta +e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperança +tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.</p> + +<p>Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, +fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas +como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu +estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu +caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.</p> + +<p>Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um +orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras +encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.</p> + +<p>Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão +está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e +expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a +fazer uma referencia ao titulo do volume, <i>Despedidas</i>. Este titulo foi +escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.</p> + +<p>Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no +ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se +viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de +<i>Despedidas</i>, significando este a sua retirada da vida litteraria;<span +class="pagenum"><a name="pagVIII" id="pagVIII">[VIII]</a></span> mas mais tarde deu a perceber claramente que +assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido +a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da +data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de +passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente <i>O +Desejado</i>, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, +o poeta tinha todo <i>in mente</i>, mas muito incompleto nos seus cadernos de +apontamentos.</p> + +<p>D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos +que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui +ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a +sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma +herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não +fosse assaz respeitada.</p> + +<p>Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer +reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou +sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque +não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja +inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira +critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que +o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre, +cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as +mais accentuadas da nova geração portugueza.</p> + +<p style="text-align:right;"><span class="small-caps">José Pereira de +Sampaio</span> (<i>Bruno</i>).</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> <span class="pagenum"><a name="pag1" id="pag1">[1]</a></span></p> + +<h1>SONETOS</h1> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> <span class="pagenum"><a name="pag3" id="pag3">[3]</a></span></p> + +<h2>1</h2> + +<h2>Logica</h2> + +<blockquote> + Ai d'aquelles que, um dia, depozeram<br> + Firmes crenças n'um bem que lhes voou!<br> + Ai dos que n'este mundo ainda esperam!<br> + Terão a sorte de quem já esperou...<br> + <br> + Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram<br> + Oiro e papeis que o vento lhes levou!<br> + Ai dos que tem, que ainda não perderam,<br> + Que amanhã, serão pobres como eu sou.<br> + <br> + Ai dos que, hoje, amam e não são amados,<br> + Que, algum dia, o serão, mas sem poder!<br> + Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados<br> + <br> + Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!<br> + Ai dos que morrem, que lá vão levados!<br> + Ai de nós que ainda temos de viver!<br> +</blockquote> + +<p>Pampilhoza, 1895.<span class="pagenum"><a name="pag4" id="pag4">[4]</a></span></p> + +<h2>2</h2> + +<h2>Ao Cahir das Folhas</h2> + +<h4>A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA</h4> + +<blockquote> + Podessem suas mãos cobrir meu rosto,<br> + Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,<br> + Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,<br> + Eu me fôr viajar para o Sol-posto.<br> + <br> + De modo que me faça bom encosto,<br> + O travesseiro comporá com geito.<br> + E eu tão feliz! por não estar affeito,<br> + Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.<br> + <br> + Até com gosto, sim! Que faz quem vive<br> + Orpham de mimos, viuvo de esperanças,<br> + Solteiro de venturas, que não tive?<br> + <br> + Assim, irei dormir com as crianças<br> + Quazi como ellas, quazi sem peccados...<br> + E acabarão emfim os meus cuidados.<br> +</blockquote> + +<p>Clavadel, outubro, 1895.<span class="pagenum"><a name="pag5" id="pag5">[5]</a></span></p> + +<h2>3</h2> + +<h4>Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS</h4> + +<blockquote> + Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra<br> + Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes<br> + Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)<br> + Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...<br> + <br> + Oh o encanto da viagem seductora!<br> + Que bem me disse então dos Portuguezes!<br> + Que faria hoje! foram-se os revezes!<br> + O que lá vae pela Africa, Senhora!<br> + <br> + Depois, ao separarmo-nos no Tejo,<br> + Disse-me (com que voz e com que modos!)<br> + «Deus o faça feliz, ao seu desejo!»<br> + <br> + Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo...<br> + Porque afinal os homens quazi todos<br> + Têm sido e são muito mais maus do que eu...<br> +</blockquote> + +<p>St. Johann Am-Platz, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag6" id="pag6">[6]</a></span></p> + +<h2>4</h2> + +<blockquote> + Nossos amores foram desgraçados,<br> + Desgraçada paixão! tristes amores!<br> + Se Deus me dá assim tamanhas dores,<br> + É porque grandes são os meus peccados.<br> + <br> + Quando virão os dias desejados?<br> + Quando virá Maio para eu vêr flores?<br> + Nunca mais! ainda bem, santos horrores!<br> + Que os pobres dias meus estão contados.<br> + <br> + Passo os dias mettido no meu moinho,<br> + E móe que móe saudades e tristezas,<br> + Moleiro que no mundo está sósinho.<br> + <br> + Os lavradores destas redondezas<br> + Queixam-se até de que a farinha á data<br> + Tanta é que «está de rastos de barata...»<br> +</blockquote> + +<p>St. Johann Am-Platz, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag7" id="pag7">[7]</a></span></p> + +<h2>5</h2> + +<blockquote> + Placidamente, bate-me no peito<br> + Meu coração que tanto tem batido!<br> + E para mim, inda este mundo é estreito<br> + P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.<br> + <br> + Meus dias vão passando como as agoas<br> + Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,<br> + E se de noite eu oiço aquellas mágoas<br> + Já não descanço mais, em sobresalto.<br> + <br> + Placidamente, bate-me no peito<br> + Meu coração em luctas tão desfeito,<br> + Que com a Vida, a Dôr hei confundido.<br> + <br> + E se se ganha a Paz com o soffrimento,<br> + Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...<br> + Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!<br> +</blockquote> + +<p>Berne, maio, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag8" id="pag8">[8]</a></span></p> + +<h2>6</h2> + +<h2>Apparição</h2> + +<h4>Á VIRGEM SANTISSIMA</h4> + +<blockquote> + Pelas espadas que tu tens no peito,<br> + Pelos teus olhos rôxos de chorar,<br> + Pelo manto que trazes de astros feito,<br> + Por esse modo tão lindo de andar;<br> + <br> + Por essa graça e esse suave geito,<br> + Pelo sorriso (que é de sol e luar)<br> + Por te ouvir assim sobre o meu leito,<br> + Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»<br> + <br> + Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,<br> + Quando chegando vens, assim tão calma,<br> + Pela cinta que trazes, côr dos ceus:<br> + <br> + Adivinhei teu nome, Apparição!<br> + Pois consultando manso o coração<br> + Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»<br> +</blockquote> + +<p>Lausanna, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag9" id="pag9">[9]</a></span></p> + +<h2>7</h2> + +<blockquote> + Todas as tardes, vou Léman acima<br> + (E leve o tempo passa nessas tardes)<br> + A pensar em Coimbra. Que saudades!<br> + Diogo Bernardes deste meigo Lima.<br> + <br> + Na solidão, pensar em ti, anima,<br> + Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades!<br> + Os rapazes tão bons nessas idades<br> + (Antes que a Vida ponha a mão em cima...)<br> + <br> + Alegres cantam nos teus arrabaldes.<br> + Por mais que tire vêm cheios os baldes,<br> + Mar de recordações, poço sem fundo!<br> + <br> + Freirinhas de Tentugal, passos lentos!<br> + E o chá com bolos, dentro dos conventos!<br> + Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!<br> +</blockquote> + +<p>Lausanna, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag10" id="pag10">[10]</a></span></p> + +<h2>8</h2> + +<h4>A MEU IRMÃO AUGUSTO</h4> + +<blockquote> + Léman azul, que, mudo e morto, jazes.<br> + Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!<br> + Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo,<br> + De turvar tuas agoas são capazes.<br> + <br> + Minhas cartas inuteis de doutor<br> + Eu rasgaria, é certo, com prazer,<br> + Se eu podesse um dia vir a ser<br> + Dessas ondas, um simples pescador.<br> + <br> + Léman azul, nas agoas socegadas,<br> + Quantas vidas tu levas confiadas!<br> + Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!<br> + <br> + Só do meu coração, ao alto-mar,<br> + Ninguem se quiz ainda sujeitar.<br> + Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!<br> +</blockquote> + +<p>Villeneuve, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag11" id="pag11">[11]</a></span></p> + +<h2>9</h2> + +<h4>A JUSTINO DE MONTALVÃO</h4> + +<blockquote> + Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento<br> + De Franciscanos. Fui-me lá ha dias.<br> + Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias.<br> + Iam ceiar. Fóra mugia o vento.<br> + <br> + Um pallido Christo, ao fundo da sala,<br> + Espalha em redor seu alvo clarão;<br> + E, quando se reflecte a Cruz pelo chão,<br> + Os frades ingenuos não ousam pisal-a.<br> + <br> + «Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta.<br> + Vontade, Senhor, tive eu de chorar!<br> + Tão só me sentia, pela noite morta...<br> + <br> + E quando na volta, á luz das estrellas,<br> + Meu doido passado me vim a evocar,<br> + Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.<br> +</blockquote> + +<p>Bex, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag12" id="pag12">[12]</a></span></p> + +<h2>10</h2> + +<blockquote> + Senhora! a todas as novenas ides,<br> + E porque vós lá ides, vou tambem.<br> + É um descanço sem par ás minhas lides,<br> + Aos meus males, e em summa faz-me bem.<br> + <br> + Essas graças que tendes (vós sorrides?)<br> + Só nas flôres as vejo, em mais ninguem.<br> + Se o vosso corpo é magro como as vides,<br> + Os cachos d'uvas que o cabello tem!<br> + <br> + Fazeis-me andar n'uma continua roda,<br> + Pelas igrejas da cidade toda,<br> + S. Luiz de França, Encarnação e mais.<br> + <br> + Senhora! assim commigo em beato dais,<br> + Faço-me frade e vou para um convento...<br> + E adeus! que lá se vae o cazamento!<br> +</blockquote> + +<p>Lisboa, janeiro, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag13" id="pag13">[13]</a></span></p> + +<h2>11</h2> + +<blockquote> + Ha já duzentos soes, ha quatro luas,<br> + Que te pedi que a Igreja abandonasses.<br> + Tu és cruel, Senhora! continúas,<br> + Como se agora apenas começasses.<br> + <br> + Á sexta-feira e ao sabbado jejuas,<br> + E tanto te pedi que não jejuasses.<br> + E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas<br> + Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»<br> + <br> + Nenhuns peccados tens. És anjo e santa.<br> + Boa como o ceu, simples como a planta,<br> + Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!<br> + <br> + Quaes são os teus peccados? peccadores<br> + Senhora! são os vossos confessores.<br> + Homens e basta: são máos como as cobras!<br> +</blockquote> + +<p>Lisboa, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag14" id="pag14">[14]</a></span></p> + +<h2>12</h2> + +<h2>Monologo d'Outubro</h2> + +<h4>A MEU IRMÃO AUGUSTO</h4> + +<blockquote> + Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora!<br> + Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas.<br> + Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora,<br> + E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!<br> + <br> + E tu que já passaste o Outomno só commigo<br> + Não pensas ao cahir de tantas agonias<br> + Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo?<br> + Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!<br> + <br> + Ides morrer, folhas! mas morrer que importa?<br> + Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta.<br> + Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!<br> + <br> + Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade.<br> + Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade,<br> + Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...<br> +</blockquote> + +<p>Foz, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag15" id="pag15">[15]</a></span></p> + +<h2>13</h2> + +<blockquote> + Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça,<br> + Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir.<br> + Tudo acaba no mundo... tudo passa,<br> + Mas só meu mal se foi e torna a vir.<br> + <br> + Não busco a morte com arma ou veneno,<br> + Mas emfim póde vir quando quizer.<br> + Eu estarei de pé, firme e sereno,<br> + Sorrir-lhe-hei até, quando vier.<br> + <br> + Tristes vaidades d'este pobre mundo!<br> + Já me parecem taes como ellas são:<br> + Tristes mizerias deste mar sem fundo.<br> + <br> + Se tive algumas eu, na mocidade,<br> + Não foram ellas mais que uma illuzão.<br> + E um dia eu ri da minha ingenuidade!<br> +</blockquote> + +<p>Lisboa, janeiro, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag16" id="pag16">[16]</a></span></p> + +<h2>14</h2> + +<blockquote> + O mar que embala, ás noites, o teu somno<br> + É o mesmo, flor! que á noite embala o meu.<br> + Mas em vão canta a minha ama do Outomno,<br> + Pois pouco dorme quem muito soffreu.<br> + <br> + Mas tu feliz qual rainha sobre o throno,<br> + Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!<br> + O teu cabello solto ao abandono,<br> + As mãos erguidas de fallar ao céo...<br> + <br> + Feliz! feliz de ti, doce Constança!<br> + Reza por mim, na tua voz chymerica,<br> + Uma Avè-Maria de Esperança!<br> + <br> + Por minha saude e gloria (Deus m'a dê)<br> + Por essa viagem que vou dar a America...<br> + Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, maio, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag17" id="pag17">[17]</a></span></p> + +<h2>15</h2> + +<h2>Mamã</h2> + +<blockquote> + Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,<br> + Toda a Ternura que de ti me vêm,<br> + Amparam-me esta triste mocidade<br> + Como nos tempos em que tinha Mãe.<br> + <br> + Quanto eu te devo! Odios, impiedade,<br> + Indignações e raivas contra alguem,<br> + Loucuras de rapaz, tedios, vaidade,<br> + Tudo isso perdi—e ainda bem!<br> + <br> + Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança!<br> + Nunca m'a tires não, linda criança,<br> + (Linda e tão boa não o farás, talvez!)<br> + <br> + Pois que perder-te, meu amor, agora,<br> + Ai que desgraça horrivel! isso fôra<br> + Perder a minha Mãe, segunda vez.<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag18" id="pag18">[18]</a></span></p> + +<h2>16</h2> + +<blockquote> + Ha vinte annos já, que andas na Terra,<br> + Ha vinte dias só, que te conheço!<br> + Eu andava perdido pela serra,<br> + E o que eu era então, já não pareço.<br> + <br> + Ha vinte dias só que te conheço,<br> + Ó meu beijo de Luz! minha Chymera!<br> + És a Graça de Deus (com qu'estremeço)<br> + Talvez, o que no mundo, inda me espera.<br> + <br> + Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio!<br> + Pois não tens piedade d'este frio<br> + Que sinto em mim, na minha solidão!<br> + <br> + Minha bençam de Christo, promettida,<br> + Não serás tu a Paz da minha vida?<br> + Oh! não me digas não, que és Illuzão!<br> +</blockquote> + +<p>Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag19" id="pag19">[19]</a></span></p> + +<h2>17</h2> + +<h2>Riquinha</h2> + +<blockquote> + Soffrer callada as suas proprias dôres<br> + E chorar como suas as dos mais,<br> + Tal a Rainha do seu nome, em flôres<br> + Transforma pedras e em sorrisos ais.<br> + <br> + A toda a parte leva o sol e amores,<br> + É a <i>Saude dos Enfermos</i> nos Cazaes;<br> + E, no mar-alto, os velhos pescadores<br> + Invocam-n'a entre espuma e temporaes!<br> + <br> + Quem será ella, tão piedoza e dôce!<br> + Com uns taes olhos que não tinha visto<br> + Será a Virgem? Oxalá que fosse!<br> + <br> + Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!<br> + Fôra outrora, talvez, filha de Christo,<br> + Se Christo houvesse tido alguma filha!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag20" id="pag20">[20]</a></span></p> + +<h2>18</h2> + +<h2>O Teu Retrato</h2> + +<blockquote> + Deus fez a noite com o teu olhar,<br> + Deus fez as ondas com os teus cabellos;<br> + Com a tua coragem fez castellos<br> + Que poz, como defeza, á beira-mar.<br> + <br> + Com um sorriso teu, fez o luar<br> + (Que é sorriso de noite, ao viandante)<br> + E eu que andava pelo mundo, errante,<br> + Já não ando perdido em alto-mar!<br> + <br> + Do ceu de Portugal fez a tua alma!<br> + E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,<br> + Da minha Noite, eu fiz a Claridade!<br> + <br> + Ó meu anjo de luz e de esperança,<br> + Será em ti afinal que descança<br> + O triste fim da minha mocidade!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, junho, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag21" id="pag21">[21]</a></span></p> + +<h2>19</h2> + +<h2>Sestança</h2> + +<blockquote> + Ia em meio da minha Mocidade,<br> + Perdido d'affeições, ao vento agreste,<br> + Quando na Vida tu me appareceste,<br> + Sestança, minha Irmã da Caridade!<br> + <br> + Ninguem de mim dó teve, nem piedade,<br> + Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:<br> + Quantas velas á Virgem accendeste!<br> + Quantas rezas nos templos da cidade!<br> + <br> + Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!<br> + Para assim merecer um tal cuidado<br> + E tudo quanto ainda me fizeres?<br> + <br> + Bemdito seja Deus que me escutou!<br> + Bemdito seja o Pae que te ha procriado!<br> + Bemdita seja a Mãe que te gerou!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.<span +class="pagenum"><a name="pag22" id="pag22">[22]</a></span></p> + +<h2>20</h2> + +<h2>Emilias</h2> + +<h4>(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)</h4> + +<blockquote> + Emilia és, quer queiras, ou não queiras:<br> + Que lindo nome o teu, soante de brizas!<br> + É um nome de pastoras e moleiras,<br> + Loira morgada do solar dos Nizas!<br> + <br> + Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,<br> + Ha Emilias nos serões das descamizas...<br> + Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras<br> + Com o nome de Emilia é que as baptizas!<br> + <br> + Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!<br> + E com a tua Mãe seja madrinha,<br> + Quando ella, um dia, te levar á Igreja!<br> + <br> + E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha!<br> + Dôces presagios meus, que a tua filha<br> + Seja loira tambem e Emilia seja!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag23" id="pag23">[23]</a></span></p> + +<h2>21</h2> + +<blockquote> + O coração dos homens com a idade,<br> + A pouco e pouco, vae arrefecendo...<br> + Quão diversos me vão apparecendo<br> + Do que eram ao abrir da mocidade!<br> + <br> + O sorrizo não tem já lealdade,<br> + Lagrimas são difficeis... não as tendo.<br> + Palavras não vos faltam, estou vendo<br> + Mostrar o que sentis só por vaidade.<br> + <br> + Já não me illude, a Gloria que sonhei.<br> + Perdi a fé em tudo quanto amei.<br> + Mas só agora, eu sei o que é viver!<br> + <br> + Não fazes bem, assim, em rir de mim!<br> + Tenho tido na vida horrores sem fim,<br> + Mas só agora, eu sei o que é soffrer!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, dezembro, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag24" id="pag24">[24]</a></span></p> + +<h2>22</h2> + +<blockquote> + O Senhor, cuja Lei é sempre justa,<br> + Deu-me uma infortunada mocidade,<br> + Talvez para eu saber (o que é verdade)<br> + Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!<br> + <br> + Feliz de quem no mundo sem piedade,<br> + Encontrou alma que lhe entenda a sua,<br> + Que o mesmo é que ter na mão a Lua<br> + Tão longe n'essa triste Eternidade!<br> + <br> + Os meus dias passavam tristemente<br> + Quando encontrei o teu olhar ridente:<br> + Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!<br> + <br> + Vaes deixar-me de novo, só na vida!<br> + Ao cabo de viagem tão comprida<br> + Talvez sintas mais perto os olhos meus!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, janeiro de 1899.<span class="pagenum"><a name="pag25" id="pag25">[25]</a></span></p> + +<h2>23</h2> + +<h2>Adeus a Constança</h2> + +<blockquote> + Vae o teu Pae andar ao sol de verão,<br> + E mais á chuva e ao vento; e só depois<br> + Poderá ter a colheita d'esse pão<br> + Que semeou cantando ao pé dos bois.<br> + <br> + Feliz que eu fui em te encontrar na vida,<br> + Minha dôce Constança desejada!<br> + Antes de vêr-te a ti não via nada,<br> + Nem para mim a lua era nascida.<br> + <br> + Tu vaes partir em breve com teu Pae<br> + Por esse mar que tão piedozo está.<br> + Não sêde amargas, ondas, mas chorae!<br> + <br> + Vaes vêr campos em flôr que te conhecem...<br> + E se a colheita se fizesse já,<br> + Talvez na volta as ondas te trouxessem!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag26" id="pag26">[26]</a></span></p> + +<h2>24</h2> + +<h2>Antes de partir</h2> + +<blockquote> + Varios Poetas vieram á Madeira<br> + (Pela fama que tem) a ares do Mar:<br> + Uns p'ra, breve, voltarem á lareira,<br> + Outros, ai d'elles! para aqui ficar.<br> + <br> + Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,<br> + Morrer n'esta ilha não deve custar,<br> + Mas para mim sempre é terra extrangeira,<br> + Á minha patria quero, emfim, voltar.<br> + <br> + Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!<br> + Ah como é triste andar por essas ruas,<br> + Pallido, de olhos grandes, a tossir!<br> + <br> + Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as,<br> + Vou com as ondas, voltarei com ellas,<br> + Mas como ellas p'ra tornar a ir!<br> +</blockquote> + +<p>Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag27" id="pag27">[27]</a></span></p> + +<h2>25</h2> + +<blockquote> + Meu pobre amigo! Sempre silencioso!<br> + Assim eu fui. Scismava, lia, lia...<br> + Mudei no entanto de Philosophia.<br> + Não creio em nada! e fui tão religioso!<br> + <br> + Tomei parte no Exercito gloriozo<br> + Que foi bater-se por Israel, um dia!<br> + Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,<br> + Não creio em nada! tudo é mentirozo!<br> + <br> + Não vale a pena amar e ser amado,<br> + Nem ter filhos d'um seio de mulher<br> + Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!<br> + <br> + Não vale a pena um grande poeta ser,<br> + Não vale a pena ser rei nem soldado<br> + E venha a Morte, quando Deus quizer!<br> +</blockquote> + +<p>St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag28" id="pag28">[28]</a></span> </p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> <span class="pagenum"><a name="pag31" id="pag31">[31]</a></span></p> + +<h1>OUTRAS POESIAS</h1> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<h4>A FRANCISCO CEZIMBRA</h4> + +<blockquote> + Eu chegara de França uns quatro dias antes<br> + E via-me tão só n'um deserto sem fim,<br> + Lá deixara a alegria, amores, estudantes,<br> + Via a vida, aqui, negra adiante de mim.<br> + <br> + Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo,<br> + Nada no mundo me podia estimular!<br> + Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,<br> + Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!<br> + <br> + Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar<br> + Pois para que me deste assim um coração!<br> + Tudo quanto via me dava que scismar<br> + De tudo tinha dó, de tudo compaixão.<span class="pagenum"><a name="pag32" id="pag32">[32]</a></span><br> + <br> + Ó meus amigos de Coimbra! que saudades<br> + Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões!<br> + Porque chamaria eu agora, só vaidades<br> + Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?<br> + <br> + E conheci depois a phase lastimoza<br> + (Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar)<br> + Em que descri de tudo, até da meiga roza<br> + Que via entre velas, aos pés d'algum altar.<br> + <br> + De tudo ri então, Senhor, como um perdido<br> + Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...<br> + Tu cuja alma em flôr ainda me sorria<br> + Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?<br> +</blockquote> + +<p>1895.<span class="pagenum"><a name="pag33" id="pag33">[33]</a></span></p> + +<h2>Ladainha da Suissa</h2> + +<h5>A MARTINHO DE BREDERODE</h5> + +<blockquote> + Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo<br> + Pelas ruas, vendo-me passar:<br> + —Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo...<br> + E assim sósinho, sem ninguem para o tratar!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Que boa a Suissa! que + bom é este povo!)</span><br> + <br> + Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,<br> + Diziam entre si: Quem será este senhor?<br> + Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes!<br> + E rezavam por mim, baixinho, com amor.<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó pastoras tão meigas + d'estes Andes!)</span><br> + <br> + Por fim entrei receoso em uma caza immensa<br> + Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.<br> + Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:<br> + Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ah que tristeza a d'essa + caza immensa!)</span><span class="pagenum"><a name="pag34" id="pag34">[34]</a></span><br> + <br> + No alto da escada umas Irmãs da Caridade<br> + Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?»<br> + No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade,<br> + Que me julguei feliz, até sorrir, olhae!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Minhas boas Irmãs da + Caridade!)</span><br> + <br> + Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem<br> + Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...<br> + —«E então como passou? Gostou da sua viagem?<br> + E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?»<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó Suissa da divina + paysagem!)</span><br> + <br> + Não me deixava com perguntas. Era Suissa<br> + E não deixara nunca esta alva nação.<br> + Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:<br> + Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão.<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Que ingenua és ainda, + Suissa!)</span><br> + <br> + —Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro<br> + E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar...<br> + —Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.<br> + E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Nos meus olhos o viste + tu primeiro.)</span><span class="pagenum"><a name="pag35" id="pag35">[35]</a></span><br> + <br> + Com que doçura, com que mimo e com que graça<br> + Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir.<br> + E como uma ama diz ao menino que a enlaça,<br> + Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...»<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó Suissa cheia de + graça!)</span><br> + <br> + E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,<br> + E no outro dia eu já estava melhor.<br> + Passados trez, passei de pallido a moreno<br> + Passado um mez, «não é nada» disse o doutor.<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Oh! quanto eu era então + feliz, sereno!)</span><br> + <br> + E a boa Irmã toda contente e dedicada<br> + Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé<br> + —Vê, tantos sustos! e afinal não era nada!<br> + E se elle disse «não é nada» é que não é!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó boa Irmã, de voz tão + delicada!)</span><br> + <br> + Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve<br> + A minha doida mocidade arrependida.<br> + Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve!<br> + Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(E o meu coração que dôce + paz vos deve!)</span><span class="pagenum"><a name="pag36" id="pag36">[36]</a></span><br> + <br> + Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa!<br> + Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita!<br> + Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!<br> + Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita!<br> + <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Bemdita sejas, minha + Suissa boa!)</span><br> +</blockquote> + +<p>Lausanna, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag37" id="pag37">[37]</a></span></p> + +<h2>Confissão d'uma rapariga feia</h2> + +<h4>(INCOMPLETA)</h4> + +<blockquote> + Ha raparigas n'este mundo,<br> + Ha raparigas que são feias,<br> + Mas nenhuma tanto como eu.<br> + De mim tenho nojo profundo,<br> + Ciumes do Sol, das luas cheias,<br> + Que vão tão lindas pelo céo!<br> + <br> + Nos arraiaes, nas romarias,<br> + Adelaides, Joannas, Marias,<br> + Todas tem par, mas menos eu.<br> + Todas bailam, rindo e cantando,<br> + E eu fico-me a olhal-as scismando<br> + Na sorte que o Senhor me deu!<span class="pagenum"><a name="pag38" id="pag38">[38]</a></span> <br> + <br> + Se eu fosse cega ou aleijada,<br> + Talvez ficasse resignada,<br> + Porque havia de queixar-me eu?<br> + Mas sendo sã, sendo perfeita<br> + Tua vontade seja feita,<br> + Senhor! é sorte, é fado meu!<br> + <br> + ..................................<span class="pagenum"><a name="pag39" id="pag39">[39]</a></span> +</blockquote> + +<h2>Affirmações religiosas</h2> + +<blockquote> + Ó meus queridos! Ó meus S.<sup>tos</sup> limoeiros!<br> + Ó bons e simples padroeiros!<br> + Santos da minha muita devoção!<br> + Padres choupos! ó castanheiros!<br> + Basta de livros, basta de livreiros!<br> + Sinto-me farto de civilisação!<br> + <br> + Rezae por mim, ó minhas boas freiras<br> + Rezae por mim escuras oliveiras<br> + De Coimbra, em S.<sup>to</sup> Antonio de Olivaes:<br> + Tornae-me simples como eu era d'antes,<br> + Sol de Junho queima as minhas estantes<br> + Poupa-me a <em>Biblia</em>, Anthero... e pouco mais!<br> + <br> + No mar da Vida cheia de perigos<br> + Mais monstros ha, diziam os antigos,<br> + Que lá nas agoas d'esse outro mar.<br> + O que pensaes vós a respeito d'isto,<br> + Ó navegantes d'esse mar de Christo!<br> + Heroes, que tanto tendes que contar?<span class="pagenum"><a name="pag40" id="pag40">[40]</a></span> <br> + <br> + Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros,<br> + Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!<br> + Lamentos ao luar, dos pinheiraes,<br> + E vós ó sombra triste das figueiras!<br> + Chorae por mim ó flôr das amendoeiras<br> + Chorae tambem ó verdes cannaviaes!<br> + <br> + E quando emfim, já farto de soffrer<br> + Eu um dia me fôr adormecer<br> + Para onde ha paz, maior que n'um convento:<br> + Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno,<br> + Ai não me deixeis no meu abandono!<br> + Chorae-me cyprestes, batidos do vento...<br> +</blockquote> + +<p>1897.<span class="pagenum"><a name="pag41" id="pag41">[41]</a></span></p> + +<h2>Ares da Andaluzia</h2> + +<blockquote> + Ó formoza Andaluzia!<br> + Terra de Nossa Senhora!<br> + Ó formoza Andaluzia<br> + Onde o luar parece dia<br> + Onde é dia a toda a hora!<br> + <br> + Ai eu tenho sete muzas<br> + Quaes d'ellas prefiro eu?<br> + Ai eu tenho sete muzas,<br> + Trez d'ellas são andaluzas<br> + Porque as outras são do céo.<br> + <br> + Malaga, terra de encantos,<br> + Terra das vinhas doiradas!<br> + Malaga, terra de encantos!<br> + Igrejas cheias de Santos,<br> + E Virgens cheias de espadas!<span class="pagenum"><a name="pag42" id="pag42">[42]</a></span><br> + <br> + Vossa bocca tem desejos<br> + Que a bocca das mais não tem...<br> + Vossa bocca tem desejos<br> + E já morria por beijos<br> + No ventre da vossa mãe!<br> + <br> + Ó meninas de Sevilha<br> + Sou doente, vinde amparar-me,<br> + Ó meninas de Sevilha<br> + Deixae-me a vossa mantilha<br> + Que eu não quero constipar-me!<br> + <br> + Ó menina, olá, a mais alta<br> + Porque foge e me olha assim?<br> + Ó menina olá a mais alta,<br> + Se a belleza não lhe falta,<br> + Não julgue que é mais que a mim.<br> + <br> + Ai esta Vida é tão curta!<br> + Ai o Amor dura um instante,<br> + Ai esta Vida é tão curta!<br> + Dormir, um dia, entre murta<br> + Nos braços d'uma outra amante!...<span class="pagenum"><a name="pag43" id="pag43">[43]</a></span><br> + <br> + Olhos de Cadiz tão pretos<br> + (E o mar ao pé tão azul!)<br> + Olhos de Cadiz tão pretos<br> + De luto por Esqueletos<br> + Que o mar traz com vento sul.<br> + <br> + Já sorvi na minha bocca<br> + Beijos de toda a Nação!<br> + Já sorvi na minha bocca<br> + Tanto mel, cabeça louca!<br> + Mas assim como estes, não!<br> + <br> + Menina das pandeiretas!<br> + Que contente que hoje estaes!<br> + Menina das pandeiretas!<br> + Tão séria, de capas pretas,<br> + Ao lado de vossos Paes.<br> + <br> + Vem beber a mocidade<br> + Com a tua trança solta.<br> + Vem beber a mocidade<br> + Não torna a vir esta idade<br> + E o Amor como ella não volta.<span class="pagenum"><a name="pag44" id="pag44">[44]</a></span><br> + <br> + Ó seios como pombinhos<br> + Ó seios por quem bateis?<br> + Ó seios como pombinhos<br> + Tão alegres nos seus ninhos<br> + Não sei eu, mas vós sabeis...<span class="pagenum"><a name="pag45" id="pag45">[45]</a></span></blockquote> + +<h2>Contas de rezar</h2> + +<blockquote> + A Maria dos Prazeres<br> + Mizericordia dos mares!<br> + Que escrevi para tu leres,<br> + Que eu fiz para tu rezares!<br> +</blockquote> + +<p><span class="small-caps">Maria dos Prazeres. Antonio +sem Elles.</span></p> + +<blockquote> + Maria é! Violeta da Humildade<br> + Onda do mar das Indias! sempre triste!<br> + Porque andará tão triste nessa idade<br> + Se o Deus em que ella crê para ella existe?<br> + <br> + Maria é! Violeta da Humildade!<br> + Onda do mar das Indias! tão modesta<br> + E tão grande que ella é! Que dôr funesta<br> + A faz andar tão triste nessa idade?<span class="pagenum"><a name="pag46" id="pag46">[46]</a></span><br> + <br> + E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,<br> + Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:<br> + «Parece incrivel faça parte d'esta<br> + Humanidade mentiroza e indigna!»<br> + <br> + Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!<br> + Até tem dó e compaixão por mim...<br> + Mal diria eu que a tragica Lisboa<br> + Tinha em seus muros uma Santa assim!<br> + <br> + Ella nasceu para assistir ás guerras<br> + Ella nasceu p'ra atravessar os mares<br> + Ella nasceu para ir a longas terras<br> + Ella nasceu para proteger os lares!<br> + <br> + Ella nasceu para ir com portuguezes,<br> + Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,<br> + Com remedios, ao pé, mezes e mezes,<br> + Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!<br> + <br> + Ella nasceu para levar comsigo<br> + Um exercito leal, mystico e forte.<br> + Ser a ultima a dobrar ante o inimigo<br> + E a primeira a morrer, sorrindo á morte!<span + class="pagenum"><a name="pag47" id="pag47">[47]</a></span><br> + <br> + Ella nasceu p'ra commandar armadas<br> + Vestir a bluza azul dos marinheiros.<br> + Morrer que importa? Sobre agoas salgadas<br> + No immenso oceano não faltam coveiros!<br> + <br> + Ella é formosa e grande entre as mulheres,<br> + Sua doçura é toda de velludo...<br> + Mas as respostas que dão malmequeres!<br> + Tristes, Senhor! como na vida é tudo!<br> + <br> + Quando ella passa toda côr de cera,<br> + Devagarinho e de missal na mão,<br> + Vae tão ligeira, lembra uma galéra<br> + Que segue viagem de vento á feição!<br> + <br> + Os seus olhos são negros e tão bellos<br> + Que grandes são! têm penas disfarçadas...<br> + Que são elles? Ogivas de castellos<br> + Com duas meninas sempre debruçadas.<br> + <br> + O seu cabello é negro e immenso e roça<br> + Pelo chão, como a noite e a escuridade,<br> + Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa<br> + Senhora, quando tinha a sua idade!<span class="pagenum"><a name="pag48" id="pag48">[48]</a></span><br> + <br> + A sua voz baixinha vem da alma,<br> + Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.<br> + É assim que falla a aragem pela calma<br> + Quando mareantes pedem temporaes.<br> + <br> + Vozes assim só se ouvem no convento<br> + Á oração em silencio habituado,<br> + Que Deus entende a voz do Pensamento:<br> + Póde fallar-se a Deus e estar callado!<br> + <br> + Os seios lembram duas pombas gemeas<br> + No seu ninho a dormir, muito quietinhas.<br> + Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,<br> + Não acordes as pombas coitadinhas!<br> + <br> + Que dizer do seu corpo esbelto de aza!<br> + Tão delgado, onde passa o seu annel?<br> + É o mais lindo Torreão da sua Caza!<br> + É uma náu da India, a <em>S. Gabriel</em>.<br> + <br> + Os seus braços são debeis! mas exaltam<br> + E sustentam em mim toda a Esperança!<br> + Os seus braços, Senhor! são os que faltam<br> + A certa Venus que se admira em França!<span class="pagenum"><a name="pag49" id="pag49">[49]</a></span><br> + <br> + O seu sorrizo é o sol, quando apparece,<br> + Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;<br> + Mas o seu habitual, ai não se esquece!<br> + É o sol ás tardes quando cahe no mar...<br> + <br> + A sua bocca é uma romã vermelha,<br> + Mostrando em rizos os seus grãos de opala.<br> + Favo de beijos, que dá mel á abelha,<br> + A sua bocca é uma flôr com falla!<br> +</blockquote> + +<p>Lisboa, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag50" id="pag50">[50]</a></span></p> + +<h2>A Ceifeira</h2> + +<h4>(INCOMPLETA)</h4> + +<blockquote> + ............................................<br> + Porque é que te odeiam os homens se os levas<br> + A um mundo melhor?<br> + Ó velha hospedeira da aldeia do nada,<br> + Tenho as malas promptas, vou breve partir.<br> + Prepara-me um quarto na tua pousada<br> + Que tenha a janella para o sul voltada<br> + E fontes á roda para eu dormir...<span +class="pagenum"><a name="pag51" id="pag51">[51]</a></span></blockquote> + +<h2>Sensações de Baltimore</h2> + +<h4>(INCOMPLETA)</h4> + +<blockquote> + Cidade triste entre as tristes,<br> + Oh Baltimore!<br> + Mal eu diria que na terra existes<br> + Cidade dos Poetas e dos Tristes,<br> + Com teus sinos clamando «Never-more.»<br> + <br> + Os comboios relampagos voando,<br> + Pela cidade de Baltimore,<br> + Levam uns sinos que de quando em quando<br> + Ferem os ares, o coração magoando<br> + E os sinos clamam «Never-more, never-more».<br> + ...........................................<br> +</blockquote> + +<p>Baltimore, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag52" id="pag52">[52]</a></span></p> + +<h2>Ao Mar</h2> + +<h4>(SONETO ANTIGO)</h4> + +<blockquote> + Ó meu amigo Mar, meu companheiro<br> + De infancia! dos meus tempos de collegio,<br> + Quando p'ra vir nadar como um poveiro<br> + Eu gazeava á lição do mestre-regio!<br> + <br> + Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?<br> + (O contrario seria um sacrilegio)<br> + Lembras-te ainda d'esse marinheiro<br> + De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!<br> + <br> + Que tua mão oceanica me ajude,<br> + Leva-me sempre pelo bom caminho,<br> + Não me faltes nas horas de afflicção.<br> + <br> + Dá-me talento e paz, dá-me saude,<br> + Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!<br> + Trazer meus netos a beijar-te a mão...<span class="pagenum"><a name="pag53" id="pag53">[53]</a></span> +</blockquote> + +<h2>Dispersos</h2> + +<h4>1</h4> + +<blockquote> + —Soffro por ti nesta auzencia,<br> + Tanto que não sei dizer.<br> + —Meu Antonio! Tem paciencia!<br> + Soffrer por mim é soffrer?<br> +</blockquote> + +<h4>2</h4> + +<blockquote> + Ah quem me dera abraçar-te<br> + Contra o peito, assim, assim...<br> + Levar-me a morte e levar-te<br> + Toda abraçadinha a mim!<br> +</blockquote> + +<h4>3</h4> + +<blockquote> + Ai ella é tão pequenina<br> + Que, quando ao meu collo vae,<br> + Diz o povo: uma menina<br> + Que vae ao collo do Pae!<span class="pagenum"><a name="pag54" id="pag54">[54]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>4</h4> + +<blockquote> + És tão fraca, tão fraquinha,<br> + Que, ao passar, uma andorinha<br> + Com um simples encontrão<br> + Podia deitar-te ao chão.<br> + <br> + Mas tambem te levantava<br> + Sem grande custo: bastava<br> + Beijar-te (nem isso, até)<br> + Logo te punhas em pé!<br> +</blockquote> + +<h4>5</h4> + +<blockquote> + Espreitei á tua porta,<br> + Quiz vêr-te a dormir, sorrindo...<br> + Mas ai! só vendo-te morta,<br> + Saberei como és dormindo!<br> +</blockquote> + +<h4>6</h4> + +<blockquote> + —Dá-me um beijinho, que eu peço?<br> + —Isso sim!—Furto-lh'o então!<br> + —Não que eu metto-o n'um processo<br> + Pelo crime de ladrão!<span class="pagenum"><a name="pag55" id="pag55">[55]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>7</h4> + +<blockquote> + O teu somno—ai que ventura<br> + Tantos sonhos, que sei eu?<br> + O meu é uma noite escura<br> + Com uma <i>estrella</i> no ceu!<br> +</blockquote> + +<h4>8</h4> + +<blockquote> + Coração, bates saudades<br> + Saudades tão tristes são,<br> + Lembra-me o sino ás Trindades,<br> + O sino faz: Dlão! dlão! dlão!<br> +</blockquote> + +<h4>9</h4> + +<blockquote> + Ai! na hora da partida,<br> + Parte-se o coração!<br> + Ai! como é triste a Vida!<br> + Uns ficam... outros vão...<br> +</blockquote> + +<h4>10</h4> + +<blockquote> + O coração apodrece,<br> + Apodrece como o mais<br> + Mas a dôr, ai! reverdece,<br> + Essa não morre jamais.<span class="pagenum"><a name="pag56" id="pag56">[56]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>11</h4> + +<blockquote> + És morena, moreninha,<br> + Morena de andar ao sol!<br> + No dia em que fôres minha<br> + Como has de ser moreninha<br> + Na brancura do lençol!<br> +</blockquote> + +<h4>12</h4> + +<blockquote> + São as meninas da Ilha da Madeira<br> + Ternas, graciozas, pallidas, ideaes;<br> + Fica-se doido, vendo-se a primeira,<br> + Doido se fica, se se veem as mais;<br> + Qual é a mais bella da Ilha da Madeira.<br> + Se são todas eguaes?<br> +</blockquote> + +<h4>13</h4> + +<blockquote> + Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes,<br> + Com uma caza só, a caza della.<br> + O mais é o pôr-do-sol, bouças e fontes<br> + Que compõem a sua parentella.<br> + <br> + Encanto de possuir uns taes parentes!<br> + Fidalga excepcional que é a Purinha!<br> + Que ella nas veias tem sangue dos poentes,<br> + E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!<span + class="pagenum"><a name="pag57" id="pag57">[57]</a></span><br> + <br> + Oh que ascendencia! que familia estranha!<br> + Onde ha fidalgos com uns taes avós?<br> + Sois os seus Paes, pinheiros da montanha,<br> + E assim ella é altinha como vós!<br> +</blockquote> + +<h4>14</h4> + +<blockquote> + Amo-te toda porque és linda, linda, linda!<br> + Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei lá!<br> + Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda,<br> + É a alminha de Deus que dentro de ti está.<br> +</blockquote> + +<h4>15</h4> + +<blockquote> + Uma alma chega ao pé do seio da Purinha!<br> + E bate devagar, docemente: «truz! truz!»<br> + —Quem é? (responde lá de dentro uma vozinha)<br> + —(Antonio...) e logo veio á porta, com a luz.<br> +</blockquote> + +<h4>16</h4> + +<blockquote> + Mamã te chamo porque me trazes ao peito,<br> + Filha te chamo pelo mimo que te dou,<br> + Irmã te chamo porque te tenho respeito,<br> + Noivinha te chamo porque teu noivo sou!<span class="pagenum"><a name="pag58" id="pag58">[58]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>17</h4> + +<blockquote> + Na sexta-feira ás dez horas olha p'ra lua,<br> + Que eu, tão longe, ai tão longe! hei-de olhal-a tambem:<br> + Assim minha alma encontrar-se-á lá com a tua!<br> + E quem se encontra, filha!, é porque se quer bem!<br> +</blockquote> + +<h4>18</h4> + +<blockquote> + Tu és altinha como eu, embora<br> + Eu seja um homem e tu uma criança!<br> + Tanto que ao irmos pela estrada, agora,<br> + Ouvi dizer: «Que lindo par de França!»<br> +</blockquote> + +<h4>19</h4> + +<blockquote> + Teus olhos são dois ceus. E nelles leio<br> + O que nos outros lêem os pastores:<br> + Estrella da manhã dos meus amores!<br> + Sete estrello que vaes do ceu em meio!<br> +</blockquote> + +<h4>20</h4> + +<blockquote> + Ai que saudade! O amor das Extrangeiras!<br> + Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito,<br> + E um dia, lá se vão andorinhas ligeiras,<br> + E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!<span class="pagenum"><a name="pag59" id="pag59">[59]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>21</h4> + +<blockquote> + No vosso leito, á cabeceira, ponde isto,<br> + Ponde este livro ao pé do vosso coração:<br> + Adormecei rezando a «Imitação de Christo»<br> + E «Nun Alvares», que é de Christo a imitação.<span + class="pagenum"><a name="pag60" id="pag60">[60]</a></span> </blockquote> + +<h1>O DESEJADO</h1> + +<p>O poema, cujos fragmentos são agora publicados, não seria uma composição +de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria esta +conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella é confirmada pelo que +elle chegou a realisar da sua concepção. Assim, quanto de narrativamente +historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado atravez da +imaginação do auctor. Elle propunha-se evocar não uma figura de chronica mas +um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao leitor o encanto idealista +e romanesco do sebastianismo, considerado como elemento de estimulo para a fé +na nacionalidade e como incentivo e consolação nas esperanças e nas decepções +da patria. </p> + +<p>Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o +programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com +assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir +coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado signal +typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa faina foi +de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia de pessoa +distinctissima, a ex.<sup>ma</sup> snr.ª D. Constança da Gama, que tivera +ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a +explanação generica de sua phantasia e de seu intento. </p> + +<p>O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral <em>Á Lisboa das +naus, cheia de gloria</em>, a qual seria seguida de uma invocação, em +offerecimento, <em>Ás Senhoras de Lisboa</em>, que é uma especie de +introducção á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e +vem contal-a a ellas, pedindo<span class="pagenum"><a name="pag64" id="pag64">[64]</a></span> uma lagrima +para os soffrimentos do seu heroe. A este apresenta-o o poeta como penando +das mais amargas desillusões e possuido da triste convicção de que nada na +vida o poderia abalar ainda ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto +sonho e de haver visto tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo +ao despertar. </p> + +<p>Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda haveria +de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos, que não +ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a confidencia ás +Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique, escarnecido pelo +prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria, como se ella fosse dote +que se offerecesse. A feição symbolista do poema de Antonio Nobre +demonstra-se, n'este lance concepcional, pela representação da Lua, imagem do +quanto é vã e irrealisavel a aspiração a um alvo intangivel, sonho ineffavel +desfeito em fumo. </p> + +<p>Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar +portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de Hespanha, +finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris, exhausto e desvairado +pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel. A Paris erroneamente se +encaminhara já no fito de encontrar da sciencia transcendental o remedio +occulto a males irremediaveis; e são pungentes as allusões e referencias que +a todo o instante apparecem á historia propria do poeta, em sua ideação e em +seu cruel soffrimento. </p> + +<p>Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido +pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique não +lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para lhe +applicar salutifero balsamo. </p> + +<p>Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o +poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e +penetrante, o seu heroe <span class="pagenum"><a name="pag65" id="pag65">[65]</a></span> Anrique, que +divaga, na phase mystica e exaltada em que se encontra, pelas ruas, sem +proposito exacto e á mercê de mil fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, +no templo de um convento de freiras, justamente na occasião em que ellas iam +começar a entoar a sua novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico +suave, Anrique queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como +um echo de saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes +que alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a +reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara lá +para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais que a +muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga. </p> + +<p>No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o +faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto de uma +anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e de seus +labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando o seu amor +com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece lançar um repto e +vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e, após consolações +inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o poeta toda a resignada +amargura da sua alma. </p> + +<p>Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se +voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino, +affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a +barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique sauda com +férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz realidade do +presente surge perante o impeto epico como uma satyra tragica. Ao passado +volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a compensação prophetica que +se lhe desenha é-lhe figurada na vinda phantasiosa do <em>Desejado</em>, do +chimerico D. Sebastião, do lendario «Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o +anhelo e de toda a fé, <span class="pagenum"><a name="pag66" id="pag66">[66]</a></span> que foi a incarnação +ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações messianicas do +povo portuguez. </p> + +<p>Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o +preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de que é +chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva. Então, +sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade que sente de +repousar afinal de suas infructuosas fadigas contemplativas. </p> + +<p>Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só +aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e indiscreta +curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se involuntariamente lamentos +acres, pela traição d'aquella que elle amara. Ahi, elle conta, a si-mesmo, +alheiado, a historia da sua afflictiva agonia interior, onde mais doem na +recordação as ingenuidades e os candidos embustes da quadra florente e +illusionante. </p> + +<p>Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama lyrica +do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em Portugal, +Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora corrosiva, do socego +tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados conselhos; alli elle se +votará a uma confissão sincera e plena, embora pretenda a apparencia d'uma +dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara d'uma indifferença gelida. </p> + +<p>Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu +amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da sua +phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim, suspendemo-nos, +anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o leitor, de per si, +aprecie e encareça, com legitimos gabos, as composições que seguem, algumas +das quaes, sem favor, se podem qualificar de maravilhosamente bellas.<span +class="pagenum"><a name="pag67" id="pag67">[67]</a></span><br> +</p> + +<h2>Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA</h2> + +<h4>I</h4> + +<blockquote> + Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,<br> + Ó Lisboa das meigas Procissões!<br> + Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!<br> + Ó Lisboa dos lyricos pregões...<br> + Lisboa com o Tejo das Conquistas,<br> + Mais os ossos provaveis de Camões!<br> + Ó Lisboa de marmore, Lisboa!<br> + Quem nunca te viu, não viu coisa boa...<br> +</blockquote> + +<h4>II</h4> + +<blockquote> + És tu a mesma de que falla a Historia?<br> + Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?<br> + Não sei quem és, perdi-te de memoria,<br> + Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?<br> + Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,<br> + Ó Lisboa das Chronicas, responde!<br> + E carregadas vinham almadias<br> + Com noz, pimenta e mais especiarias...<span class="pagenum"><a name="pag68" id="pag68">[68]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>III</h4> + +<blockquote> + Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,<br> + A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!<br> + Galeras doidas por soltar a amarra,<br> + Cidade de morenos marinheiros,<br> + Com navios entrando e saindo a barra<br> + De prôa para paizes extrangeiros!<br> + Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!<br> + Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!<br> +</blockquote> + +<h4>IV</h4> + +<blockquote> + Ó Lisboa das ruas mysteriozas!<br> + Da <em>Triste Feia</em>, de <em>João de Deus</em>,<br> + <em>Becco da India</em>, <em>Rua das Fermosas</em>,<br> + <em>Becco do Falla-Só</em> (os versos meus...)<br> + E outra rua que eu sei de duas <em>Rozas</em>,<br> + <em>Becco do Imaginario</em>, dos <em>Judeus</em>,<br> + <em>Travessa</em> (julgo eu) <em>das Izabeis</em>,<br> + E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.<br> +</blockquote> + +<h4>V</h4> + +<blockquote> + Meiga Lisboa, mystica cidade!<br> + (Ao longe o sonho desse mar sem fim.)<br> + Que pena faz morrer na mocidade!<br> + Teus sinos, breve, dobrarão por mim.<br> + Mandae meu corpo em grande velocidade,<br> + Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?<br> + Quando eu morrer (porque isto pouco dura)<br> + Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!<span class="pagenum"><a name="pag69" id="pag69">[69]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>VI</h4> + +<blockquote> + Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?<br> + Lembra leite a escorrer de tetas nuas!<br> + Luar assim tão meigo, tão profundo,<br> + Como a cair d'um céo cheio de luas!<br> + Não deixo de o beber nem um segundo,<br> + Mal o vejo apontar por essas ruas...<br> + Pregoeiro gentil lá grita a espaços:<br> + «Vae alta a lua!» de Soares de Passos.<br> +</blockquote> + +<h4>VII</h4> + +<blockquote> + Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,<br> + Cintra das solidões! beijo da Terra!<br> + Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,<br> + Que vão fazer o seu ninho na serra;<br> + Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,<br> + Meu nobre camarada de Inglaterra!<br> + Cintra dos Moiros com os seus adarves,<br> + E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!<br> +</blockquote> + +<h4>VIII</h4> + +<blockquote> + Romantica Lisboa de Garrett!<br> + Ó Garrett adorado das mulheres,<br> + Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete<br> + Á tua linda caza dos <em>Prazeres</em>.<br> + Mas qual seria a melhor hora, ás sete,<br> + Garrett, para tu me receberes?<br> + O teu porteiro disse-me, a sorrir,<br> + Que tu passas os dias a dormir...<span class="pagenum"><a name="pag70" id="pag70">[70]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>IX</h4> + +<blockquote> + Pois tenho pena, amigo, tenho pena;<br> + Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!<br> + Que falta fazes á Lisboa amena!<br> + Anda vêr Portugal! parece louco...<br> + Que patria grande! como está pequena!<br> + E tu dormindo sempre ahi no «choco».<br> + Ah! como tu, dorme tambem a Arte...<br> + Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!<br> +</blockquote> + +<h4>X</h4> + +<blockquote> + Ó Lisboa vermelha das toiradas!<br> + Nadam no Ar amores e alegrias.<br> + Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,<br> + Cavalleiros, fazendo cortezias...<br> + Que graça ingenua! farpas enfeitadas!<br> + O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!<br> + Vêde a alegria que lhe vae nas almas!<br> + Vêde a branca Rainha, dando palmas!<br> +</blockquote> + +<h4>XI</h4> + +<blockquote> + Ó suaves mulheres do meu desejo,<br> + Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!<br> + Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!<br> + Animaeszinhos cheios de delicias...<br> + Vosso passado quão longiquo o vejo!<br> + Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!<br> + Lisboa das Varinas e Marquezas...<br> + Que bonitas que são as Portuguezas!<span class="pagenum"><a name="pag71" id="pag71">[71]</a></span><br> +</blockquote> + +<h4>XII</h4> + +<blockquote> + Senhoras! ainda sou menino e moço,<br> + Mas amores não tenho nem carinhos!<br> + Vida tão triste supportar não posso:<br> + Vós que ides á novena, aos <em>Inglezinhos</em>.<br> + Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,<br> + N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.<br> + Rezae por mim, vereis,—vossos peccados,<br> + (Se acaso os tendes), vos serão perdoados...<br> +</blockquote> + +<h4>XIII</h4> + +<blockquote> + Rezae, rezae, Senhoras por aquelle<br> + Que no Mundo soffreu todas as dores!<br> + Odios, traições, torturas,—que sabe elle!<br> + Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!<br> + E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,<br> + A espera que o enterrem entre as flores...<br> + Ouvi: estão os sinos a tocar:<br> + Senhoras de Lisboa! ide rezar.<span class="pagenum"><a name="pag72" id="pag72">[72]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h4>ÁS SENHORAS DE LISBOA</h4> + +<blockquote> + Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.<br> + Gosto do sol, oh certamente! mas segundo<br> + O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz,<br> + De dia, apenas tenho um ou outro rapaz<br> + Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes.<br> + Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)<br> + Faço da noite dia. As grandes descobertas<br> + Que eu descobri! Estou de janellas abertas<br> + Quando os outros estão de janellas fechadas...<br> + Ó fontes a correr como linguas de espadas,<br> + Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa,<br> + Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,<br> + Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,<br> + E só vos falta estar, como ellas de mãos postas!<br> + Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado,<br> + «Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...»<br> + Noites e dias sem parar um só momento,<br> + Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento.<br> + Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei<br> + Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!<span + class="pagenum"><a name="pag73" id="pag73">[73]</a></span><br> + Agoas, só de perdão, suspiros e piedades,<br> + Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades!<br> + Contae para eu scismar, uma bonita historia<br> + Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria.<br> + Contae que eu sou ainda uma criança, gosto<br> + Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!<br> + Ó rios a contar historias, como as criadas,<br> + Historias de ladroes, mais historias de fadas,<br> + A do Zé do Telhado e da triste viuva<br> + Que só sahia á rua pelas noites de chuva!<br> + E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!<br> + Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:<br> + São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,<br> + Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas;<br> + Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas<br> + E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas<br> + Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.<br> + Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra<br> + Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria<br> + De levar as Naus do Gama á India da victoria.<br> + E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas!<br> + Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)<br> + Sonetos de ais que só comprehende quem ama:<br> + E de noivos a quem deu o lençol e a cama.<br> + As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:<br> + (Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes)<br> + O mar! como elle conta ás noites tanta historia,<br> + Contos de cavalleiros sublimes de victoria;<br> + Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros,<br> + E contos de segredo que ouviu aos marinheiros<span + class="pagenum"><a name="pag74" id="pag74">[74]</a></span><br> + Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca,<br> + Quando choram seus males, que só a lua estanca.<br> + O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo.<br> + Quantas vezes a rir, vem conversar commigo<br> + N'essas noites tão longas d'infinda solidão<br> + Em que vela no mundo, tão só meu coração!<br> + Quantas vezes na hora em que dormem crianças<br> + E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças<br> + Para embalar o peito de quem no mundo as tem;<br> + Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,<br> + (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)<br> + Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado,<br> + Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado.<br> + E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas<br> + Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas<br> + Que querem vir chorar commigo e conversar.<br> + Historia é uma d'elle, esta que vou contar;<br> + Ouvi-a em alta noite escura de janeiro<br> + E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.<br> + <br> + ................................................<br> + Senhoras escutae-a! se tendes coração,<br> + Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão:<br> + Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça<br> + Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça!<br> + Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,<br> + Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.<br> + ................................................<span + class="pagenum"><a name="pag75" id="pag75">[75]</a><br> + </span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Senhora minha, perdão<br> + Anjo do meu coração<br> + Pois a escrever eu me affoito?<br> + Estamos no julho, a oito<br> + Dia de Vasco da Gama<br> + (D'oravante assim se chama)<br> + Ai as saudades que eu tenho!<br> + Pois olha escrevo-te e venho<br> + Dar-te noticias do teu<br> + Apaixonado. Sou eu.<br> + Anrique, pastor de ovelhas.<br> + Tenho-as brancas e vermelhas,<br> + Pretas, de todo o tamanho.<br> + Tivesse-te eu no rebanho<br> + Porém como tu ainda<br> + Não vi nenhuma mais linda.<br> + Eu pensei que tu amavas<br> + O teu pastor, mas brincavas.<br> + Mas amo-te eu, muito embora.<br> + Não sou amado, Senhora?<span class="pagenum"><a name="pag76" id="pag76">[76]</a></span><br> + —Não o és, nem nunca o has-de ser—<br> + Pois seja o que Deus quizer!<br> + Vou pelas serras mais altas<br> + Mas vejo que tu me faltas<br> + E logo fico a pensar<br> + Que bom e triste é amar!<br> + Um amor sem esperança<br> + É um bem que não se alcança.<br> + Nasci debaixo d'um signo<br> + Que em nada me é benigno;<br> + Já não póde ser desfeito<br> + O que está feito, está feito.<br> + Ai de mim! não sou amado!<br> + Ai de mim, triste e coitado!<br> + Fumo saindo dos cazaes<br> + Que aspirações vós levaes!<br> + As minhas não vão tão alto:<br> + ............................<br> + São bem simples e modestas:<br> + Bons dias e boas sestas!<br> + Com mui pouco me sustento:<br> + O amor é meu alimento.<br> + O meu pão de cada dia,<br> + Lagrymas, minha agoa fria,<br> + Quem me dera andar comtigo<br> + No mar cheio de perigo!<br> + Ir á Africa n'uma Nau<br> + Na <em>San Rafael</em> de pau,<br> + Como os nossos Portuguezes!<br> + E andar por lá sete mezes,<span class="pagenum"><a name="pag77" id="pag77">[77]</a></span><br> + Sete annos, ou mesmo mais<br> + Sem medo dos temporaes!<br> + Outros ha pior de passar...<br> + Já tantos tive no mar<br> + Já tantos tive na terra<br> + Que já nenhum me faz guerra.<br> + Nós dois sós, e porque não?<br> + Sem maior tripulação.<br> + Eu seria o commandante<br> + D'aquella nau almirante!<br> + Oh que formoza serias<br> + Queimada das marezias!<br> + Vestida de marinheiro<br> + Ai sobe! sobe! gageiro<br> + Aquelle topo real,<br> + Diz adeus a Portugal,<br> + Que lá nos vamos, Adeus!<br> + E partiriamos com Deus!<br> + Oh que viagem venturoza!<br> + Pela Azia religioza<br> + Mais pelas terras do sul<br> + Com mar e ceu sempre azul!<br> + Vêr no ceu planetas novos<br> + Vêr pela terra outros povos,<br> + Outras leis, novos costumes,<br> + Capellas cheias de lumes,<br> + Á California do Oiro<br> + E lá achar um thesoiro.<br> + Vêr (que isso nunca se perde)<br> + O celebre «raio verde»<span class="pagenum"><a name="pag78" id="pag78">[78]</a></span><br> + Do sol-pôr no mar da America!<br> + Oh! a viagem chymerica!<br> + De gatas, como as gatinhas,<br> + ...........................<br> + Tu subirias aos mastros<br> + (Tão altos que vão aos astros)<br> + Sem receios das procellas!<br> + E dobrarias as velas<br> + A bujarrona, a latina.<br> + Com tuas mãos de menina!<br> + Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!<br> + Quando estivesses de quarto<br> + A mão no leme segura<br> + A nau iria á ventura<br> + Ó suspiro das aragens!<br> + Ó phantasticas miragens!<br> + Não tenhas mêdo. Morrer<br> + Não custa nada, é viver.<br> + Custa menos que se pensa.<br> + O principal é ter crença.<br> + Morre o corpo, a alma abre aza<br> + E vae: é mudar de caza...<br> + Mas nem sempre ha mares grossos<br> + E que houvesse! Os padres nossos<br> + Fazem muito em tua bocca.<br> + Voz dôce acalma voz rouca!<br> + Tu não temes temporal<br> + És filha de Portugal!<br> + Se morressemos, que importa!<br> + Que bella serias morta!<span class="pagenum"><a name="pag79" id="pag79">[79]</a></span><br> + Minha Senhora da Esp'rança<br> + Já na Bemaventurança!<br> + Ir comtigo pr'o outro mundo,<br> + E juntos para o profundo<br> + Para esses mares salgados,<br> + N'um abraço amortalhados!<br> + Meu pensamento fluctua<br> + Perdoa (lá vem a Lua)<br> + Esta carta tão comprida!<br> + Mas eu amo nesta vida<br> + Duas coisas, tu primeiro<br> + Depois o mar, sou poveiro!<br> + Mas hoje, Senhora minha,<br> + Sou pastor sem pastorinha,<br> + Ainda hontem era estudante<br> + Porque não sou navegante!<br> + Foi sempre a minha paixão;<br> + Era a minha vocação.<br> + Mas a minha Mãe não quiz<br> + Talvez fosse mais feliz.<br> + Ah, Senhora! vou deixar-te!<br> + Minha Mãe por toda a parte<br> + Anrique! Anrique, onde estás?<br> + A pregação que ella faz<br> + Tudo por amor de ti<br> + (E já lhe oiço a voz d'aqui)<br> + E as ovelhas? Ai, Senhor!<br> + Não sirvo para pastor.<br> + Cada uma p'ra seu lado<br> + Não dou conta do recado.<span class="pagenum"><a name="pag80" id="pag80">[80]</a></span><br> + Minha Mãe ralha que ralha<br> + Ai, Senhor! Jezus me valha.<br> + E adeus que me vou embora<br> + Pois, boas noites, Senhora!<br> + Ah! eu estou, aqui, tão bem...<br> + E lá torna a minha Mãe<br> + —Anrique, Anrique, onde estás?<br> + —Onde te somes, rapaz!<br> + Tem razão, é já tão tarde!<br> + Na lareira o lume arde<br> + E fuma, aceza a candeia:<br> + Minha Mãe que faz a ceia!<br> + Ha que tempo ella passou<br> + Com a lenha que encontrou!<br> + Desprezada nos caminhos...<br> + Nós somos mui pobrezinhos!<br> + E eu, aqui, á lua, á farta.<br> + Prompto. Acabo, aqui, a carta.<br> + Adeus! são horas de eu me ir<br> + Cear, rezar... e dormir.<br> + Nossa-Senhora me ajude!<br> + A minha Mãe não se illude<br> + Com toda esta demora<br> + Ella bem sabe, Senhora!<br> + E lá torna a Mãe: Anrique<br> + Queres que eu me mortifique?<br> + Anda cear, não tens fome?<br> + Jezus! Jezus! Santo Nome!<br> + Eu bem sei e bem no entendo.<br> + O que são Mães! Em me vendo<span class="pagenum"><a name="pag81" id="pag81">[81]</a></span><br> + Quando todo me concentro<br> + Que trago paixão cá dentro.<br> + Isto já ha muitos mezes.<br> + Mas nada diz. Só ás vezes<br> + Quando não como e me deito<br> + Assim... a tossir do peito,<br> + Tambem não quer ella comer<br> + E aventura-se a dizer:<br> + «Amores—filho, paixões<br> + Só trazem consumições»<br> + E assim é, assim, Mãesinha!<br> + Pois adeus, Senhora minha!<br> + ..........................<span class="pagenum"><a name="pag82" id="pag82">[82]</a></span><br> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa<br> + Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.<br> + É a hora em que Paris começa a louca vida<br> + Na tragica cidade ao sol adormecida.<br> + O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna<br> + Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena<br> + Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!<br> + Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!<br> + Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz,<br> + Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz!<br> + Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;<br> + Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva<br> + Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,<br> + E assim de pranto e riso seu pão vae amassando;<br> + Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores!<br> + Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;<br> + Paris que me acolheste n'agreste mocidade<br> + Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade.<br> + Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,<br> + Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.<span + class="pagenum"><a name="pag83" id="pag83">[83]</a></span><br> + <br> + Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo<br> + Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo<br> + Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,<br> + Que pela luz que tem não contam muitos annos.<br> + <br> + E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo<br> + Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.<br> + .............................................<br> + <br> + <br> + Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras<br> + E quando no adro branco, as notas derradeiras<br> + Perderam-se voando, julgou n'um som dorido<br> + Reconhecer a voz do seu amor perdido!<br> + <br> + São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios<br> + Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!<br> + <br> + .............................................<br> + Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?<br> + Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!<br> + <br> + «Vi-te ha pouco rezando nas novenas<br> + Ai tão linda, tão pallida, meu Deus!<br> + Quaes são as tuas dores, as tuas penas,<br> + Por quem levantas tuas mãos aos céus!<br> + <br> + «Cantae, ó freiras Benedictinas,<br> + Cantae, cantae,<br> + Cantae novenas, cantae matinas,<br> + Cantae, cantae.<span class="pagenum"><a name="pag84" id="pag84">[84]</a></span><br> + <br> + «No Boul'Mich, os castanheiros da India<br> + Começam a despir as folhagens, ao luar,<br> + Que bellas armações, para galeras da India<br> + Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!<br> + <br> + «Tudo tão triste! todos tão tristes!<br> + Olhae, são poucas todas cautelas<br> + Doentes do peito, cuidado, ouvistes?<br> + Tirae do armario vossas flanellas!<br> + <br> + «Cantae o canto Gregoriano<br> + Para eu chorar!...<br> + Cantae ó freiras! durante um anno<br> + Para eu... chorar!...<br> + <br> + «Andam meus olhos luzitanos<br> + A procurar-te,<br> + Minha chymera! tenho vinte annos!<br> + Eu quero amar-te!<br> + <br> + «Ó sinos de toda a França<br> + Cantae, cantae o meu mal,<br> + Tão alto, essa voz não cança,<br> + Que ella os oiça em Portugal!<br> + <br> + «Cantae o canto Gregoriano<br> + Para eu chorar!...<br> + Cantae ó freiras durante um anno<br> + Para eu... chorar!...»<br> + <br> + ...................................<span class="pagenum"><a name="pag85" id="pag85">[85]</a></span> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Morrera já o Sol; os altos castanheiros<br> + Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros,<br> + Os choupos retorciam os troncos já despidos,<br> + Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos,<br> + Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho,<br> + Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.<br> + A cruz meio inclinada parecia desmaiar<br> + Perdida na côr pallida da luz crepuscular;<br> + Eram mysterios da hora nervoza da tardinha<br> + Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!<br> + A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos,<br> + Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos;<br> + A hora em que o traidor por mais que faça esforços<br> + Não póde em si calar o susto dos remorsos;<br> + A hora em que se acende o lume nas lareiras<br> + E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras;<br> + A hora em que entristece na rua o caminhante,<br> + E pára vendo o Sol cahir agonisante;<br> + E as raparigas trémulas se vão fechar as portas,<br> + Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!<span + class="pagenum"><a name="pag86" id="pag86">[86]</a></span><br> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Ó Senhora d'altas Espheras!<br> + Castellã das minhas chymeras!<br> + Ó meu amor!<br> + Amor mystico, amor celeste<br> + Que tu pelo Natal me deste,<br> + Senhor! Senhor!<br> + <br> + Sou forte agora, e temerozo,<br> + Sou um rei Todo Poderozo<br> + Senão olhae!<br> + Só diante de ti me humilho<br> + Senhor! Senhor! Sou teu filho<br> + E tu meu Pae!<br> + <br> + Venham armadas de Inglaterra<br> + Venham as naus de toda a terra,<br> + De todo o mar!<br> + Que eu só por entre ellas e o Oceano,<br> + Na minha nau a todo o panno,<br> + Hei-de passar!<span class="pagenum"><a name="pag87" id="pag87">[87]</a></span><br> + <br> + Venha o exercito da Allemanha,<br> + Mais seus alliados, mais a Hespanha,<br> + Hei-de vencer!<br> + Tu és grande, és forte, Guilherme!<br> + Tu és um mundo, eu sou um verme...<br> + Vamos a vêr!<br> + <br> + Venha uma immensa tempestade,<br> + Caiam raios sobre a cidade,<br> + Venham trovões!<br> + Que eu irei só para as janellas,<br> + Sem Santa-Barbara, sem velas,<br> + Sem orações!<br> + <br> + Soldados de Alsacia e Lorena!<br> + (A bella França assim m'o ordena)<br> + Vamos! Então?<br> + Atirae balas aos meus peitos,<br> + Que eu apanho-as, como confeitos,<br> + Na minha mão!<br> + <br> + Venham Philosophos, Douctores,<br> + Venha Spinoza, outros maiores,<br> + Gregos, Judeus;<br> + Venham Estoicos, Pessimistas,<br> + Cynicos, os Positivistas...<br> + Eu creio em Deus!<span class="pagenum"><a name="pag88" id="pag88">[88]</a></span><br> + <br> + Ó morte, minha amiga de outr'ora<br> + Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!<br> + Queres-me? Ah sim?<br> + Cortei as relações comtigo<br> + Ó vae-te! já não sou teu amigo,<br> + Nem tu de mim!<br> + <br> + Ó Luiz de Camões e da Esperança!<br> + Ao pé de ti sou uma criança,<br> + Mas ouve cá.<br> + Vamos cantar ao desafio,<br> + Á sua janella, sobre o rio,<br> + Ver qual mais dá...<br> + <br> + Ó troveiros de toda a parte<br> + D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!<br> + O que sois vós?<br> + Minha lyra é do seu cabello,<br> + E os meus versos, quereis sabel-o?<br> + São a sua voz!<br> + <br> + Ó vento cantante do Norte!<br> + Minha lyra agreste é mais forte<br> + Do que a tua!<br> + Vinde todos, troveiros do ar,<br> + Em desafio commigo a cantar<br> + Por essa rua!<br> + <br> + ....................................<span class="pagenum"><a name="pag89" id="pag89">[89]</a></span><br> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Vem entrando a barra a galera «Maria»<br> + Que vem de tão longe e tão linda que vem!<br> + Toca em terra o sino p'ra missa do dia<br> + Em frente, em Santa Maria de Belem!<br> + <br> + Mareantes trigueiros no alto dos mastros,<br> + Aí dobram as velas não são mais precizas!<br> + Ai que lindas eram, ás luas e aos astros!<br> + Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!<br> + <br> + Desdobra as amarras! apresta a fateixa!<br> + Pois todos em breve a nau vão deixar;<br> + Ó terra! Que saudade a de quem te deixa<br> + Ó terra! pela aventura do alto mar!<span class="pagenum"><a name="pag90" id="pag90">[90]</a></span><br> + <br> + Entra o piloto e abraçam-se estes e aquelles.<br> + Abraçam-se e riem tanto á vontade...<br> + Abraços que levam almas dentro d'elles,<br> + Sorrizos de boccas que fallam verdade!<br> + <br> + Só as intende (capitães, não as sentís)<br> + Quem, algum dia, passou as agoas salgadas<br> + Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz<br> + Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.<br> + <br> + E «Maria» vae indo pelo Tejo acima,<br> + E scisma Anrique: «Que lindo Portugal!»<br> + Vem as nymphas, vae uma dá-lhe uma rima,<br> + Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.<br> + <br> + E Anrique scisma: «Quem não te viu ainda!<br> + Ó minha Lisboa de marmore! Lisboa<br> + De ruinas e de glorias! Tu és linda<br> + Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!»<br> + <br> + Ó minha Lisboa! com oiros tão constantes<br> + Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus<br> + Jeronymos dos Poetas e Mareantes!<br> + Lisboa branca de João de Deus!<span class="pagenum"><a name="pag91" id="pag91">[91]</a></span></blockquote> + +<h4>I</h4> + +<blockquote> + Ó Lisboa! n'um seculo bem perto<br> + Quando a Africa e as Azias se mostrarem<br> + Civilizadas, sem um só deserto,<br> + E as esquadras do mundo inteiro entrarem<br> + N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto,<br> + Para dos grandes ventos descansarem,<br> + Ó Lisboa (não são glorias chymericas)<br> + Voltada sobre as Azias e as Americas!</blockquote> + +<h4>II</h4> + +<blockquote> + Porque é que Deus aqui te poz á entrada<br> + Senão para destinos imperiaes?<br> + Do mar da India a viração salgada<br> + Respiral-a tu, antes dos mais.<br> + A vêr és tu, primeira, a alvorada<br> + E a ultima o sol nos fins occidentaes.<br> + Lisboa! quando eras pequenina<br> + Houve uma fada que te leu a sina?</blockquote> + +<h4>III</h4> + +<blockquote> + O que já foste tu, n'outras idades<br> + Grande e famoza acima das Nações,<br> + Tu de novo o serás, porque as cidades<br> + Têm varias mortes e resurreições,<br> + Outras infancias, novas mocidades,<br> + Novas conquistas, outros galeões...<br> + Ó coragens, ó coleras, tormentos,<br> + Trovões, Indias, relampagos e ventos!<span +class="pagenum"><a name="pag92" id="pag92">[92]</a></span></blockquote> + +<h4>IV</h4> + +<blockquote> + Velha Lisboa, minha mae-madrinha!<br> + Tu voltarás a ser o que já foste,<br> + E não, não cuides que é illusão minha,<br> + Pois nenhuma já tenho a que me encoste!<br> + Não sei quê dentro em mim m'o adivinha<br> + Não sei que voz m'o diz de que eu mais goste.<br> + E bem no sabes de bem longe: os Poetas<br> + Não se enganam—são bruxos, são Prophetas!</blockquote> + +<h4>V</h4> + +<blockquote> + Lá onde escoa o Tejo, os Esculptores<br> + De entre a agoa erguerão altos heroes<br> + Poetas, Santos e Navegadores:<br> + Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does,<br> + Feridas de Astros! admiraveis flôres!<br> + (Com auroras e poentes como os soes...)<br> + Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil,<br> + Pedr'Alvares, a mão para o Brazil!...</blockquote> + +<h4>VI</h4> + +<blockquote> + Vasco da Gama a apontar lá para onde<br> + Nasce o sol, terra da sua India amada,<br> + Outro a olhar lá, onde o sol se esconde,<br> + Camões olhando triste a onda salgada;<br> + Mas a onda passa, passa e não responde...<br> + Que a leva o fado, vae muito apressada...<br> + Todos tão vivos, os heroes colossos,<br> + Que dir-se-ia que têm sangue e ossos.<span +class="pagenum"><a name="pag93" id="pag93">[93]</a></span></blockquote> + +<h4>VII</h4> + +<blockquote> + E do seu forte, S. Julião, em summa,<br> + Sobre toda esta gloria e esta magoa,<br> + Luas conta a desfiar uma por uma,<br> + (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa<br> + E Ave Marias, de doirada espuma...<br> + E os outros, no deserto d'essa fragoa<br> + Pela noite o acompanham; e assim<br> + Rezam todos por seculos sem fim.</blockquote> + +<h4>VIII</h4> + +<blockquote> + Eu confio em ti reza d'Heroes,<br> + E confiar em ti, não é vaidade.<br> + Vossos nomes de bronze são pharoes<br> + Que luz darão, á nossa tempestade.<br> + O nosso Rey... (cabello em caracoes!)<br> + Já não dorme no Paço... Piedade!<br> + Deixareis a Patria engrandecida<br> + Por vossas mãos p'ra sempre ser vencida?</blockquote> + +<h4>IX</h4> + +<blockquote> + Côr do ceu a bandeira e côr de neve<br> + Não a vejo na torre a fluctuar!<br> + Senhor! Vós bem sabeis que o Rey não deve<br> + Outras armas que a vossa apresentar.<br> + Se assim deixaes que outro povo a leve,<br> + Porque a déste ao nosso p'ra guardar?<br> + Não é elle o mesmo que em Ourique<br> + A acclamou nas mãos do teu Henrique?<span +class="pagenum"><a name="pag94" id="pag94">[94]</a></span></blockquote> + +<h4>X</h4> + +<blockquote> + Anda tudo tão triste em Portugal!<br> + Que é dos sonhos de gloria e d'ambição?<br> + Quantas flores do nosso laranjal<br> + Eu irei vêr cahidas pelo chão!<br> + Meus irmãos Portuguezes, fazeis mal<br> + De ter ainda no peito um coração.<br> + Talvez só eu! (Amôr ai tu m'entendes!)<br> + Possa ainda ter a paz que já não tendes.</blockquote> + +<h4>XI</h4> + +<blockquote> + Talvez só eu irmãos! mas é que a mim<br> + Deve o Senhor as flores com que s'enfeita<br> + A mocidade!... que é d'elle o meu jardim!<br> + Dizei-me vós irmãos, na vida estreita<br> + Toda a desgraça não terá um fim?<br> + Se a ventura não póde ser perfeita<br> + Tenho agora a Patria em sepultura!<br> + Que mais quereis na taça d'amargura?</blockquote> + +<h4>XII</h4> + +<blockquote> + Virá, um dia, carregado de oiros,<br> + Marfins e pratas que do céu herdou,<br> + O rei menino que se foi aos moiros<br> + Que foi aos moiros e ainda não voltou.<br> + Tem olhos verdes e cabellos loiros,<br> + Ah não se enganem, (ainda não chegou)<br> + Virá El-Rey-Menino do Estrangeiro,<br> + N'uma certa manhã de nevoeiro...<span +class="pagenum"><a name="pag95" id="pag95">[95]</a></span></blockquote> + +<h4>XIII</h4> + +<blockquote> + Tem loiros os cabellos, e é criança,<br> + Tem olhos verdes de luar nocturno:<br> + Olhos verdes, são olhos de esperança!<br> + Olhos verdes, são Luas de Saturno!<br> + Veio da Africa mais a sua lança<br> + Vae pr'o mundo, rezando taciturno.<br> + Tão pobrezinho, olhae! estende a mão:<br> + «Quem dá esmola a D. Sebastião?»</blockquote> + +<h4>XIV</h4> + +<blockquote> + Esperae, esperae, ó Portuguezes!<br> + Que elle ha-de vir, um dia! Esperae.<br> + Para os mortos os seculos são mezes,<br> + Ou menos que isso, nem um dia, um ai.<br> + Tende paciencia! finarão revezes;<br> + E até lá, Portuguezes! trabalhae.<br> + Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,<br> + Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!<span +class="pagenum"><a name="pag96" id="pag96">[96]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Lá vem, lá vem minha Amada,<br> + Rainha de Portugal.<br> + Vem com a capa estrellada,<br> + Debaixo d'um palio real<br> + Todo de seda vermelha,<br> + Com saias de oiro e coral.<br> + Vê o povo que ajoelha<br> + E faz o «pelo signal!»<br> + <br> + Que linda é! que formoza!<br> + Que graça ella tem a andar!<br> + Pagens vestidos de roza<br> + Vão á frente a encaminhar,<br> + Tirando as pedras da rua<br> + Não vá ella tropeçar,<br> + Tão leve, parece a Lua,<br> + Tão leve que vae no ar!<span class="pagenum"><a name="pag97" id="pag97">[97]</a></span><br> + <br> + Vinde vêr, vinde ás janellas,<br> + Meninas de Portugal!<br> + Deixae o bordado, as telas,<br> + Deixae a agulha e dedal.<br> + Não temaes a feia inveja<br> + Vinde vêl-a cada qual.<br> + E que em honra d'ella seja<br> + Esta noite o arraial.<br> + <br> + Sua belleza é tamanha<br> + Que pertence a Portugal.<br> + Como obra de arte, extranha,<br> + É um poema, é uma cathedral.<br> + Aos Luziadas semelhante,<br> + Aos Jeronymos egual,<br> + Onde os poetas e o mareante<br> + Dormem o somno final!<br> + <br> + Nem Mafra com seu convento<br> + Tem maior a altivez<br> + .......................................<br> + Não se esquece, visto uma vez!<br> + Seu corpo é uma obra de graça<br> + E de que suave pallidez!<br> + A minha amada é a Alcobaça<br> + Onde jaz a linda Ignez!<span class="pagenum"><a name="pag98" id="pag98">[98]</a></span><br> + <br> + É fidalga de nascença,<br> + Mais do que os Reis, do que vós.<br> + Já poetas na Renascença<br> + Cantaram seus bisavós.<br> + Mas mais fidalga é ella ainda<br> + Por sua alma (sem Avós).<br> + Ah! lá vem ella tão linda<br> + E vem rezando por nós!<br> + <br> + A minha Amada é fidalga<br> + Que tem no mar seus brazões.<br> + Tem na bocca aromas de alga<br> + Brizas da India e outras regiões,<br> + O que prova d'onde vejo<br> + Já no tempo de Camões<br> + Era sobrinha do Tejo<br> + E prima dos Galeões!<br> + <br> + É toda de cazos bellos<br> + A tua nobreza fina,<br> + Toda torres e castellos<br> + Com legendas de menina.<br> + Excedes Reis e Prophetas<br> + ...........................................<br> + Menos os Santos e Poetas<br> + Que têm costella divina!<span class="pagenum"><a name="pag99" id="pag99">[99]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + —Quatorze luas já foram passadas,<br> + Desde que eu a perdi e ao seu amor;<br> + Meu coração tem ainda as janellas fechadas,<br> + Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">O POVO</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Chymeras tombadas! Chymeras +tombadas!</p> + +<blockquote> + —A sorte deu-me já cabellos pretos<br> + Ai não precizo de os enluctar.<br> + —«Mas olhe as brancas... meu senhor»<br> + O branco é lucto, podes, Ama, descançar!</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">O COVEIRO</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;"><span class="caixa_meia">O +branco é lucto: são brancos os esqueletos!</span></p> + +<blockquote> + —Ó illuzões que em ti puz tão amigas!<br> + Oh! a esperança que em minha alma é morta!<br> + Antes eu te visse cobertinha de bexigas<br> + Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta...</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">TODOS</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Antes a +visses morta!</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Antes a +visses morta!<span class="pagenum"><a name="pag100" id="pag100">[100]</a></span></p> + +<blockquote> + —Dei-te o meu coração a ti, bella entre todas,<br> + Coração, que a ninguem ainda se dobrara,<br> + Chego do mar, venho assistir ás tuas bodas,<br> + Ah! no mar salgado, porque não ficára.<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">UM PASTOR</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Toca a noivado em Santa +Clara</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Dobra a +defuntos tres legoas em roda!</p> + +<blockquote> + —Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna,<br> + Meu Lar por terra! sem ninguem na multidão.<br> + Fiquei na vida só, como o Conde de Luna,<br> + Mais sua espada. Ai do meu pobre coração!<br> + <br> + (Meu coração calla-te ou falla baixo: massa<br> + Os mais a nossa dôr. Sim calla-te é melhor)<br> + A procissão das Dôres em mim sinto que passa<br> + E passa... e passa... e cada vez será pior.</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA</p> + +<p class="caixa_meia">Não que o fim d'uma desgraça</p> + +<p class="caixa_meia">É o começo d'outra maior!</p> + +<blockquote> + —Parti um dia, n'uma romagem,<br> + Levando a Esponja, o Fel, a Cruz!<br> + Regresso altivo d'essa viagem<br> + Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz)</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA.</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Senhor Douctor, tenha +coragem</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Olhe que +mais soffreu Jesus.<span class="pagenum"><a name="pag101" id="pag101">[101]</a></span></p> + +<blockquote> + —E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa,<br> + Meu Lar em pó, o amor d'ella já não é o meu.<br> + Minhas camizas, hoje, são de estopa,<br> + Foram de seda... Que vejo eu!<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">OS VIZINHOS</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Foste á pandega por essa +Europa,</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Ahi tens o pago que o Senhor +te deu!</p> + +<blockquote> + O mundo deu-me cabellos pretos<br> + Ai não precizo de os enluctar!<br> + ...................................................<br> + E mais em breve porque vou cegar...</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">UM CEGO</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">A Anrique ceguinho dirão</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Olhe não vá tropeçar...</p> + +<blockquote> + —Amar a ella e d'ella ser amado,<br> + Ir em breve pedir a sua mão!<br> + E de repente tudo escangalhado!<br> + Ai que desgraça! como os outros são!</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">E que menino tão estimado!</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">E tudo n'elle é +perfeição!<span class="pagenum"><a name="pag102" id="pag102">[102]</a></span></p> + +<blockquote> + —«Anrique meu amor, filho de Porto-Calle!»<br> + Me dizia ella... Ai do meu coração!<br> + Amor já me não tem, não ha já Portugal...<br> + E que vejo, Senhor! de ruinas pelo chão!</blockquote> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">OS MENDIGOS</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Tantos vadios sem nada na +mão</p> + +<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Sempre á espera de D. +Sebastião.</p> + +<blockquote> + —Ó D. Sebastião a ti comparo,<br> + El-Rey de Portugal, a minha sorte,<br> + Se te encontrasse na vida, serias meu amparo,<br> + Ser-m'o has talvez depois da morte.<br> + <br> + D. Sebastião, rey dos desgraçados,<br> + D. Sebastião, rey dos vencidos,<br> + El-Rey dos que amam sem ser amados<br> + El-Rey dos genios incomprehendidos.<span +class="pagenum"><a name="pag103" id="pag103">[103]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Sahi, um dia, a barra á procura da gloria,<br> + Entre soluços e orações, cuja memoria<br> + Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno,<br> + Que linda! O mar espreguiçava-se com somno...)<br> + Por essa barra sahem, cheios de peccados,<br> + Bandidos com seus crimes e mais os degredados,<br> + Traidores á Patria e ao Rey, infelizes e ladrões.<br> + Por lá sahiu, tambem, n'uma noite, Camões.<br> + No barco em que segui viagem nessa agoa,<br> + Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa<br> + E mais um sacco de Dôr que por lá me ficou.<br> + De volta trago tres, que aquelle não chegou.<br> + Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo.<br> + Não lhes quero mal, seu erro é tão profundo!<br> + ..................................................<br> + ..................................................<br> + <br> + Todos partiram, todos fugiram.<br> + Os ladrões assaltaram-me á estrada<br> + Quizeram-me matar. Não conseguiram.<br> + <br> + Ninguem me resta, não me resta nada!<br> + Fui enganado nos meus leaes amores.<br> + Já tive de salvar a minha vida á espada.<span + class="pagenum"><a name="pag104" id="pag104">[104]</a></span><br> + <br> + No meu jardim semiei lilazes,<br> + Passado tempo vi nascer ortigas;<br> + Cada dia que nova dôr me trazes?<br> + <br> + Lavrei canduras e colhi intrigas,<br> + Nasceram odios onde puz perdões.<br> + Não digas mais meu coração! não digas<br> + <br> + Procreei gigantes vi nascer anões,<br> + Plantei nesta alma vinhas da piedade<br> + E vindimei, Senhor! Ingratidões!<br> + <br> + Nunca se deve ter tanta bondade,<br> + Quando é excessiva e tanto dó inspira<br> + E uma falta até de dignidade.<br> + <br> + Ora eu assim cercado de mentira,<br> + Longe de tudo e todos, e enganado<br> + (Quando se foi tão criança o que admira!)<br> + <br> + Vi-me sem Deus, só, triste e em tal estado<br> + Que se o contasse chorarieis... Não!<br> + Não falta em que empregar pranto salgado.<br> + <br> + Que infortunio, meu Deus! que decepção!<br> + Minha crença catholica perdi-a,<br> + Já não sei persignar-me com a mão.<span class="pagenum"><a name="pag105" id="pag105">[105]</a></span><br> + <br> + Durante mezes, sempre, dia a dia,<br> + Ainda fui, por habito, á Igreja:<br> + Não sabia rezar a Ave-Maria!<br> + <br> + Chegava ainda até «bemdita sejas...»<br> + E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim<br> + Córava de pudor como as cerejas.<br> + <br> + Nunca na Terra se viu nada assim!<br> + Minha vida mudou-se de repente.<br> + A tosse veio... vós sabeis o fim.<br> + <br> + Foi a queda do Imperio do Occidente!<br> + Foi o desastre de Alcacer-Kibir!<br> + A Hespanha veio com Philippe á frente!<br> + <br> + Que mais viria e estava para vir?<br> + E fui a França consultar um Bruxo<br> + Que eu já de ha muito desejava ouvir.<br> + <br> + Á porta havia uma cruz de hera e buxo<br> + E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa,<br> + Erguia-se em girandola um repuxo.<br> + <br> + Bolas de sabugueiro á mercê da agoa<br> + Iam e vinham, graças de meninos,<br> + Ascenções de prazer quedas de mágoa!<span class="pagenum"><a name="pag106" id="pag106">[106]</a></span><br> + <br> + Era a sorte a brincar com os destinos...<br> + Não deixava de ter engenho o dianho<br> + Do Bruxo! Mas que symbolos tão finos!<br> + <br> + Entrei. E vi um Velho alto, tamanho,<br> + De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos.<br> + —Sois vós o Bruxo?—«Sim! esse é o meu ganho!»<br> + <br> + Tinha um sorrizo que só têm os velhos.<br> + E os labios brancos (de quem já não ama)<br> + Que contrastavam com os meus, vermelhos.<br> + <br> + —Venho de longe, aqui, por vossa fama.<br> + Vosso nome chegou ao meu paiz.<br> + —O teu paiz, Senhor! como se chama?<br> + <br> + Não: dá-me a mão, ella melhor m'o diz:<br> + «Oh vens de Portugal? Oh se o conheço!<br> + Manda-me para cá muito infeliz...»<br> + <br> + Ouvindo taes palavras, estremeço.<br> + N'elle fixo os meus olhos de admirado<br> + E que me diga os fados eu lhe peço.<br> + <br> + Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado,<br> + N'uma cadeira antiga, ao pé do lume.<br> + Eu assentei-me timido, ao seu lado.<span class="pagenum"><a name="pag107" id="pag107">[107]</a></span><br> + <br> + Ó momento que um seculo resume!<br> + O São Paulo do Amôr! Martyr christão,<br> + Que ao vêr a espada já lhe sente o gume!<br> + <br> + Na sua mão tomou a minha mão.<br> + Seus olhos frios crava-mos na palma,<br> + Mas de repente muda de expressão.<br> + <br> + Que passado, Senhor! tem dó d'esta alma!<br> + Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!...<br> + Mas eu logo acudi, com grande calma:<br> + <br> + —Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo.<br> + Eu conhecia-o já antes de vós.<br> + P'ra que lembrar-m'o? Sêde meu amigo!<br> + <br> + N'uma sala contigua, etherea voz<br> + Rezava a ladainha, eram mulheres.<br> + —«<em>Estrella da manhã!—ora por nôs!</em>»<br> + <br> + —«Nada te digo, pois que assim o queres!<br> + Ouves? Lá dentro, rezam minhas filhas.<br> + E rezarão o tempo que quizeres.»<br> + <br> + E continuou a lêr: «Que maravilhas!<br> + Que mão extranha! mão de tempestade!<br> + Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!<span class="pagenum"><a name="pag108" id="pag108">[108]</a></span><br> + <br> + Vaes em meio da tua mocidade.<br> + Tens vindo em tua nau, desde criança,<br> + Por um sombrio mar da antiguidade.<br> + <br> + Agora, aqui, o temporal descança<br> + E vê: segundo a altura do quadrante<br> + Dobras o Cabo da Boa-Esperança!<br> + <br> + Coragem! meu sombrio navegante!<br> + Paciencia! mais um pouco e aportarás<br> + Á India! mais tua esquadra de almirante!<br> + <br> + Alli, te aguardam Bens te espera a Paz<br> + A boa Gloria e mais do que isso, até,<br> + Um grande amor,—e alli te coroarás!»<br> + <br> + O Velho disse. E, logo, puz-me em pé.<br> + Mui feliz, não querendo ouvir o resto,<br> + Que eu sei o vasio que este mundo é.<br> + <br> + Adeus! disse eu áquelle sabio honesto,<br> + Formozo e de olhos grandes como céus!<br> + Adeus! e parti logo, altivo e presto.<br> + <br> + Caía o sol no oceano. Orei a Deus.<br> + Uma nau me esperava... Erguemos ferro<br> + E abalamo-nos de França. Adeus! Adeus!<span class="pagenum"><a name="pag109" id="pag109">[109]</a></span><br> + <br> + Que peccado Senhor! ou grande erro<br> + No mundo commetti que me dás tantos<br> + Trabalhos, como na Africa em desterro?<br> + <br> + Não posso ser bem sabes como os Santos.<br> + Mas quantos homens neste mundo avisto<br> + Tão felizes (e maus!) quantos e quantos!<br> + <br> + E se não fui eu que pequei, ó Christo!<br> + Peccariam os meus antepassados?<br> + Quem foram elles? Vem contar-me isto!<br> + <br> + Religiozos, maritimos, soldados?<br> + E justas são as leis com que me aterras<br> + Sendo elles os unicos culpados?<br> + <br> + Na Arabia, na Phenicia ou outras terras<br> + Cauzaram, vae em seculos, paixões<br> + Fomes e sedes, ou atearam guerras?<br> + <br> + Comeu a terra os ossos d'esses leões,<br> + As suas cinzas foram-se nos ventos<br> + E eu soffro, apoz quinhentas gerações?<br> + <br> + Que injusta couza! que desleaes tormentos!<br> + Que faz rezar, á noite, de mãos postas,<br> + De que serve cumprir teus mandamentos?!<span + class="pagenum"><a name="pag110" id="pag110">[110]</a></span><br> + <br> + Quem sabe se não foram meus avós,<br> + Senhor! Que tanto e tanto te offenderam,<br> + Mas meus archi-primeiros bisavós?<br> + <br> + Quando os vulcões da terra arrefeceram,<br> + E lentamente, aos poucos, e as primeiras<br> + Effloraçoes da vida appareceram;<br> + <br> + Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras<br> + E uivando, á lua, e destruisse as mattas<br> + Que levaste a criar noites inteiras!<br> + <br> + Talvez, no dia em que baixaste<br> + Á terra, para ver a tua obra<br> + Vestido d'alvas vestes como pratas,<br> + <br> + Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra<br> + Occulta entre jasmins que te mordeu...<br> + Quando ias a colher algum... de sobra!<br> + <br> + Outrora o sol ardia no alto céu,<br> + Pediste sombra á arvore n'um monte<br> + Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!<br> + <br> + Quando o sol caía, á tarde, no horisonte,<br> + Todo vermelho como agora, vêde!<br> + Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,<span class="pagenum"><a name="pag111" id="pag111">[111]</a></span><br> + <br> + E eu (que era agoa) não quiz matar-te a sede!<br> + Quem sabe se uma vez, pela noitinha,<br> + Foste ensaiar o mar, deitando a rede,<br> + <br> + E cobiçou o peixe que lá vinha<br> + E t'a furtou, (brinquedos de criança!)<br> + Alguma onda do mar, minha avósinha?<br> + <br> + Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rança!<br> + Como devo soffrer perseguições?<br> + (Eu concordo) é legitima vingança?<br> + <br> + Ah não! eu não descendo de leões<br> + Nem da vil cobra que se vae de rastros,<br> + Que só concebe e dá á luz traições!<br> + <br> + Nem dos pinheiros altos como mastros<br> + Nem das agoas que vão regando os milhos:<br> + Nós os poetas descendemos de astros,<br> + <br> + Nós os poetas, Senhor! somos teus filhos!<br> + ... Assim scismava eu pelo mar alto<br> + Sob o luar partindo-se em vidrilhos...<br> + <br> + Quando n'uma manhã de azul cobalto,<br> + Ao acordar, me vi no claro Tejo<br> + Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.<span class="pagenum"><a name="pag112" id="pag112">[112]</a></span><br> + <br> + Mezes passaram, longos! que nem vejo<br> + Que differença em seculos, ou mezes:<br> + O tempo marca-o a ancia do Desejo!<br> + <br> + Que fazia eu? Nada. Scismava, ás vezes,<br> + Errante, ao «Deus-dará» da vida:<br> + Sempre assim fomos nós, os Portuguezes!<br> + <br> + Ora em dia de Santa Apparecida<br> + (Mais uns minutos, esperae, Senhores,<br> + Que eu acabo esta historia tão comprida),<br> + <br> + Errava n'um montado entre pastores<br> + Quando, subito, vi uma Donzella<br> + Tão linda! n'um Solar, colhendo flôres.<br> + <br> + Oh doçura de carne ou de estrella!<br> + Que esvelteza e que graça de alfenim!<br> + Meu coração disse-me baixo: «É ella!»<br> + <br> + Qual de vós, Homens! Já não teve assim<br> + Uma vizão, vendo erguer-se entre<br> + Nuvens, a vossa torre de marfim?<br> + <br> + Deixae que a minha alma se concentre.<br> + Deixae! que esse dia é maior que quando<br> + Minha Maesinha me pariu do ventre.<span class="pagenum"><a name="pag113" id="pag113">[113]</a></span><br> + <br> + Quedei-me, ao vêl-a, em extasis olhando.<br> + Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei;<br> + Meus labios moviam-se... rezando!<br> + <br> + Quem será ella? a filha d'algum Rey?<br> + Atraz seguiam-na duas aias velhas:<br> + Quem será ella, quem será? Não sei.<br> + <br> + Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas<br> + Voavam, ao sol, emquanto ella lia<br> + Um livro de horas com folhas vermelhas.<br> + <br> + Que paz! nem uma arvore bulia!<br> + E callavam-se as fontes! Que doçura!<br> + Mas de repente uma voz chamou: «Maria!»<br> + <br> + Maria se chamava! Oh que ventura!<br> + Partiu. Eu quiz seguil-a, mas não pude!<br> + Que torpor esse que ainda hoje dura!<br> + <br> + A virgem me proteja e Deus me ajude!<br> + Vae alta a noite, eu caio de fadiga,<br> + Bambas as cordas do meu velho alaúde!<br> + <br> + Ó Genio, não te partas sem que eu diga<br> + O encanto, mais a graça encantadora<br> + D'aquella virgem Castellã antiga.<span class="pagenum"><a name="pag114" id="pag114">[114]</a></span><br> + <br> + Minha fronte vergou-se, scismadora:<br> + —Quem será ella, mystica vizão!<br> + Parece com seu Ar Nossa Senhora!<br> + <br> + Mas eu já tive tanta decepção<br> + (Lêde, lêde, o principio d'esta historia)<br> + Que contive essa subita paixão.<br> + <br> + Tudo na Vida engana, até a Gloria.<br> + Para deixar de o crêr fôra preciso<br> + Lavar no Lethes minha fiel memoria.<br> + <br> + Assim pensava eu, meio indecizo,<br> + Quando na estrada junto a mim passava<br> + Um velhinho a rezar ao Paraizo.<br> + <br> + N'um cajado de lodo se apoiava.<br> + E detinha-se, ás vezes, um momento,<br> + Erguia ao céu o olhar, e suspirava.<br> + <br> + As barbas brancas, fluctuando ao vento;<br> + Devia ter um seculo de idade<br> + E talvez vinte ou mais de soffrimento!<br> + <br> + Parou ao vêr-me e olhou-me com bondade:<br> + Depois na sua voz meiga de briza:<br> + —Uma esmola, Senhor, por caridade!<span class="pagenum"><a name="pag115" id="pag115">[115]</a></span><br> + <br> + Uma lembrança dentro em mim se enraiza.<br> + —Dou-te, bom velho! tudo que quizeres,<br> + Se em troca me dás vestes e camiza.<br> + <br> + O velhinho sorriu como as mulheres.<br> + A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha,<br> + Que na botoeira tinha malmequeres...<br> + <br> + Ninguem a essa hora pela estrada vinha.<br> + Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito.<br> + E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.<br> + <br> + Mas não estava ainda satisfeito,<br> + As suas barbas brancas eu queria,<br> + Comprar-lh'as era falta de respeito!<br> + <br> + Comprar-lh'as nunca eu me atreveria!<br> + Mas o bom velho o pensamento ouviu,<br> + Que aquelle olhar excepcional ouvia.<br> + <br> + Ó grandes barbas! que ainda ninguem viu!<br> + Ó grandes barbas! como eram bellas!<br> + Tal como outrora as de D. João, em Diu!<br> + <br> + —Não lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as?<br> + Ó povo portuguez! quanto és sympathico!<br> + Ó povo portuguez das caravellas!<span class="pagenum"><a name="pag116" id="pag116">[116]</a></span><br> + <br> + Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico.<br> + Beijei-lhe as mãos curvado... E o bom velhinho<br> + Lá se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...<br> + <br> + O sol cahia ao longe no caminho!<br> + Não tarda a noite, já lhe sinto os passos,<br> + Mas ha tempo: ella anda devagarinho.<br> + <br> + Enfarpellei sem grandes embaraços;<br> + A toillete tem poucos elementos,<br> + Muitos remendos sim, rotos os braços...<br> + <br> + Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos;<br> + «Que nome tens, amigo?» lhe gritei.<br> + «Manoel». E digo eu, «dos Soffrimentos».<br> + <br> + Cahia a noite: com pressa caminhava.<br> + Segui os passos deixados por Maria<br> + Que flôres na mão, andando, desfolhava.<br> + <br> + Não era aviso que assim daria?<br> + O meu olhar teria percebido?<br> + Que luz d'esperança a minha alma via!<br> + <br> + Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido<br> + Irão achar o pobre esfarrapado!<br> + Um mendigo velho... e tão mal vestido!<span class="pagenum"><a name="pag117" id="pag117">[117]</a></span><br> + <br> + Pedi esmola e parei sobresaltado.<br> + Emquanto alguns me enchiam a saccola<br> + Um olhar lindo em mim era fixado.<br> + <br> + E que olhar p'ra mim! tanta doçura evola!<br> + Senhores, eu não me tinha enganado...<br> + (Assim julguei então... a Vida foi-me escola!...)<br> + <br> + Ella passou, de manso, para o meu lado<br> + E murmurou o meu nome, assim, baixinho...<br> + Disse-me depois que o houvera sonhado!<br> + ..........................................................<br> + ..........................................................<br> +</blockquote> + +<p style="text-align:center;">THEREZA</p> + +<blockquote> + —«E depois, menino, sabemos já o resto...<br> + Para que mortifica assim o coração?»<br> + <br> + —Ai minha Thereza! tu tens talvez razão:<br> + Esse amor primeiro foi-me tão funesto!<br> + <br> + O os meus dias idos em contemplação!<br> + O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe!<br> + Fallava eu ás flôres, como se ella fosse:<br> + «Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.<br> + <br> + Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal!<br> + Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos!<br> + Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos,<br> + Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.<span +class="pagenum"><a name="pag118" id="pag118">[118]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + —Quem é, Thereza, que bate á porta<br> + Quem vem a esta hora quebrar meu somno?<br> + —Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta,<br> + São folhas a cahir, que é já outomno... </blockquote> + +<p class="caixa_meia">«Quando eu era moça e menina,</p> + +<p class="caixa_meia"> A-i-ó-ái!</p> + +<p class="caixa_meia">Um velho, um dia, leu-me a sina.</p> + +<p class="caixa_meia">Ha que tempos que isso lá vae!</p> + +<p class="caixa_meia"> A-i-ó-ái!»</p> + +<p class="caixa_meia"> </p> + +<p class="caixa_meia">(O vento continua uivando).</p> + +<blockquote> + —Quem é, Thereza, que oiço clamores,<br> + Vae vêr á porta, vae n'um instante!<br> + —Socegue, durma, são os lavradores,<br> + Que passam para a feira d'Amarante...<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia">E vá de roda! e vá de roda!</p> + +<p class="caixa_meia"> Olé!</p> + +<p class="caixa_meia">E vira e vira e já virou!</p> + +<p class="caixa_meia">E na tarde da minha boda</p> + +<p class="caixa_meia">Houve baile, houve baile, olé!</p> + +<p class="caixa_meia">Tomou parte a aldeia toda,</p> + +<p class="caixa_meia">E vá de roda! e vá de roda!</p> + +<p class="caixa_meia">Olé!</p> + +<p class="caixa_meia"> </p> + +<p class="caixa_meia">(O vento uiva sempre).<span +class="pagenum"><a name="pag119" id="pag119">[119]</a></span></p> + +<blockquote> + —Quem é, Thereza? quem é, Thereza?<br> + Quem é, Thereza, que bate á porta?<br> + —Olhe a Fortuna não é com certeza,<br> + Por isso... durma, durma, que lhe importa?<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia">(O vento uiva, uiva).<br> +</p> + +<blockquote> + —Não ouves, Thereza, tres pancadinhas?<br> + Vae vêr: é a D. Felicidade.<br> + —Mas as senhoras não sahem sósinhas<br> + N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia">Durma menino, a dormir</p> + +<p class="caixa_meia">Não soffre tanta paixão,</p> + +<p class="caixa_meia">Os sonhos que lhe hão de vir</p> + +<p class="caixa_meia">Afasto-os eu, com a mão.</p> + +<p class="caixa_meia"> </p> + +<p class="caixa_meia">Durma menino, a dormir</p> + +<p class="caixa_meia">Não ouve o seu coração,</p> + +<p class="caixa_meia">E p'ra o ajudar a dormir</p> + +<p class="caixa_meia">Eu canto-lhe uma canção:</p> + +<blockquote> + Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo,<br> + Um moço Rey... de lindos olhos verdes;<br> + (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes,<br> + Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)<br> + <br> + Andava o moço Rey com seu gibão<br> + De prata branca, reluzente d'oiros.<br> + Tinha em anneis os seus cabellos loiros,<br> + No céu era anjo e cá... Sebastião.<br> +</blockquote> + +<p class="caixa_meia">(O vento geme, geme sempre).<span +class="pagenum"><a name="pag120" id="pag120">[120]</a></span></p> + +<blockquote> + —Quem é, Thereza? quem é, Thereza?<br> + Não ouves passos, que vão pela serra<br> + Não ouves gritos, quem é, Thereza?<br> + —É D. Sebastião que vae para a guerra.<br> + ...................................................<br> + ...................................................<span + class="pagenum"><a name="pag121" id="pag121">[121]</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,<br> + D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes,<br> + E a chuva tomba sem parar um só momento,<br> + A chuva que parece de pontas de alfinetes,<br> + <br> + Por uma tarde triste assim, é que Anrique<br> + Partiu. De novo abandonou o seu solar.<br> + Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique,<br> + E Thereza bem faz tambem pelo guardar.<br> + <br> + Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,<br> + Anrique foi bater á porta d'um convento.<br> + Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar.<br> + «Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».<span + class="pagenum"><a name="pag122" id="pag122">[122]</a></span><br> + <br> + Frades! meus Frades! ai abri-me a porta!<br> + Abri-me a porta, que eu pretendo entrar.<br> + Eu trago a alma toda ferida, morta,<br> + Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!<br> + <br> + Ha quantos annos vós estaes fechados<br> + N'estas muralhas de granito e cal!<br> + Ah se soubesseis, Frades corcovados!<br> + O que vae lá por fóra, em Portugal!<br> + ..............................................................<span + class="pagenum"><a name="pag123" id="pag123">[123]</a></span> </blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote> + Anrique, até que emfim cedes ás magoas!<br> + Até que emfim eu vejo-te chorar!<br> + Chorae, chorae, ó longos fios de agoas!<br> + Ó olhos grandes como os globos do Ar!<br> + <br> + Ah chora Anrique, chora nos meus braços<br> + O moço Poeta que te está a cantar!<br> + Choremos entre beijos, entre abraços,<br> + Tambem eu choro por te vêr chorar!<br> + <br> + Ah chora Anrique, chora, não te escondas!<br> + Tens pudor que te venham encontrar?<br> + Choram os cannaviaes, choram as ondas,<br> + Só os cynicos não podem chorar!...<br> + <br> + Ah chora, Anrique, chora no meu peito,<br> + Assim baixinho, lento, devagar!<br> + Custa-te muito? não estás affeito!<br> + Chora, meu filho, que é tão bom chorar!<span + class="pagenum"><a name="pag124" id="pag124">[124]</a></span><br> +</blockquote> + +<blockquote> + Anrique ouve-me bem, minha criança!<br> + Nem tudo se perdeu com o teu Lar.<br> + Ainda tens na vida uma esperança...<br> + Meu pobre Anrique, és tão lindo a chorar!<br> + <br> + Teu coração está morto, bem morto.<br> + Nada no mundo o poderá salvar.<br> + Ah! moço que tu és, que desconforto!<br> + Tens razão, oh se tens! para chorar!<br> + <br> + Tens razão, Anrique; mas no emtanto,<br> + Quem soffreu como tu sem descançar,<br> + Anrique, ou dá n'um cynico, ou n'um santo:<br> + Não és cynico, não, sabes chorar.<br> + <br> + Ouve-me, Anrique: n'esses céus existe<br> + Um homem, Pae da Terra e mais do Mar,<br> + Que fez o Mundo (por signal tão triste)<br> + E os olhos, não p'ra o vêr, mas p'ra chorar.<br> + <br> + Vá! offerece-lhe a tua mocidade.<br> + Vá! vae soffrer por elle e trabalhar.<br> + Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade...<br> + Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?<span + class="pagenum"><a name="pag125" id="pag125">[125]</a></span><br> + <br> + Não tens na vida uma alma amiga<br> + (Tu bem no sabes) para te amparar.<br> + Só eu, embora curvo de fadiga,<br> + Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!<br> + <br> + Todos os mais, malvados e egoistas,<br> + (Que tudo a Deus, um dia, hão de pagar)<br> + Não te poriam nem sequer a vista,<br> + Fugiriam, ao verem-te chorar!<br> + <br> + A adversidade é uma maravilha<br> + Que certas almas sabem respeitar,<br> + Mas aos olhos dos mais a dôr humilha...<br> + Ah quanto é grande vêr um rei chorar!<br> + <br> + Ah pensa, pensa bem na tua sorte,<br> + Cautela, Anrique, nada de brincar.<br> + Ha outros males piores do que a morte,<br> + Cautela, Anrique, vamos trabalhar.<br> + <br> + Vae trabalhar por Deus.—«Mas como e aonde?<br> + Não vos disse que morto é Portugal?<br> + P'r'o trabalho quem antes era conde!»—<br> + —Ai meu Anrique, não te fica mal!<span class="pagenum"><a name="pag126" id="pag126">[126]</a></span><br> + <br> + Não me dizes que lá por Portugal<br> + Andam as almas todas quebrantadas?<br> + Vae, meu filho, vae para Portugal<br> + Vae levantar as flores, já tão quebradas.<br> + <br> + Anda, meu filho: vae dizer baixinho<br> + A esse povo do Mar, que é teu irmão,<br> + Que não fraqueje nunca no caminho,<br> + Que espere em pé o seu D. Sebastião.<br> + <br> + Anrique, vae gritar por essa rua<br> + —Virá um dia o «Sempre-Desejado»!<br> + Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua,<br> + Esquece n'elle todo o teu passado.<br> + <br> + Procura bem Anrique, em Portugal;<br> + Procura-o na flôr das primaveras,<br> + Procura-o na sombra do olival;<br> + Procura á luz de todas as chymeras...<br> + .....................................<br> + .....................................<span +class="pagenum"><a name="pag127" id="pag127">[127]</a></span></blockquote> +</div> + +<h2>INDICE</h2> + +<p><a href="#pagV">Prefacio</a></p> +<p><a href="#pag1">I.—Sonetos: 1 a 25</a></p> +<p>II.—Outras Poesias:</p> +<p> <a href="#pag31">Eu chegára de França</a></p> +<p> <a href="#pag33">Ladainha da Suissa</a></p> +<p> <a href="#pag37">Confissão d'uma rapariga feia</a></p> +<p> <a href="#pag39">Affirmações religiosas</a></p> +<p> <a href="#pag41">Ares da Andaluzia</a></p> +<p> <a href="#pag45">Contas de rezar</a></p> +<p> <a href="#pag50">A Ceifeira</a></p> +<p> <a href="#pag51">Sensações de Baltimore</a></p> +<p> <a href="#pag52">Ao Mar</a></p> +<p> <a href="#pag53">Dispersos</a></p> +<p><a href="#pag60">III.—O Desejado</a> +<span class="pagenum"><a name="pag128" id="pag128">[128]</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p style="text-align:center;"><strong><i>Acabou de se imprimir este livro aos +dezoito de março de 1902 segundo anniversario da morte do +Poeta</i></strong></p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 *** + +***** This file should be named 27535-h.htm or 27535-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/5/3/27535/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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