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+The Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Despedidas: 1895-1899
+
+Author: António Nobre
+
+Release Date: December 15, 2008 [EBook #27535]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+ANTONIO NOBRE
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+Despedidas
+
+1895-1899
+
+
+Prefacio de José Pereira de Sampaio (_Bruno_)
+
+
+_PORTO_
+
+1902
+
+
+DESPEDIDAS
+
+
+DO MESMO AUCTOR:
+
+Só (2.ª edição, illustrada), Paris, 1898.
+
+NO PRÉLO:
+
+_PRIMEIROS VERSOS_
+
+Prefacio de Justino de Montalvão
+
+
+
+D'este livro, publicado por Augusto Nobre, tiraram-se dois mil exemplares
+
+
+Direitos reservados
+
+
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+
+ANTONIO NOBRE
+
+
+Despedidas
+
+1895-1899
+
+
+Prefacio de José Pereira de Sampaio (_Bruno_)
+
+
+_PORTO_
+
+1902
+
+
+
+
+A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de
+Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que
+acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede
+os fragmentos, ao deante publicados, do poema _O Desejado_, hesitei
+grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas
+malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento
+essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com
+severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões
+de recommendação ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente
+conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco
+não conseguiria senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente
+estimulo fôsse a impulsional-o.
+
+Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me
+magoaria aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico
+que me convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo
+irmão e pelo companheiro.
+
+Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o
+conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento
+d'aquelle moço ignorado então.
+
+Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um
+volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o
+titulo generico e designativo de _Um bouquet de sonetos._ Eu lêra as
+composições contidas na sympathica collecção e prestei preferente
+cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre
+essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nôme que eu
+havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes,
+infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundára, por
+esse tempo, um diario de propaganda politica _A Discussão_; na secção
+litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que me
+attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas
+affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero
+artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei,
+confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidarias,
+indiquei o nôme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade
+e viria a ser muito.
+
+Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce,
+ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu
+gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam
+suggestiva sua imaginação, ardorosa e melancholica!
+
+Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o
+escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume _Só_,
+como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma
+affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz
+redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista
+portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com
+o lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me
+procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que
+lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu
+soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a
+conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na
+consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva,
+como a minha por então andava.
+
+Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de
+volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle.
+Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o
+poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga
+desesperança tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados
+para um instante.
+
+Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude
+Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente
+quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de
+Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir
+o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.
+
+Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um
+orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com
+palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.
+
+Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão
+está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e
+expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui
+a fazer uma referencia ao titulo do volume, _Despedidas_. Este titulo
+foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem
+emanasse.
+
+Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam
+no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle
+que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem
+o titulo de _Despedidas_, significando este a sua retirada da vida
+litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o
+escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a
+esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes
+da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções
+de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente _O
+Desejado_, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os
+fragmentos, o poeta tinha todo _in mente_, mas muito incompleto nos seus
+cadernos de apontamentos.
+
+D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os
+versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se
+imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo
+escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão
+minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto
+sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.
+
+Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer
+reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou
+sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende
+porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem
+amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A
+verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado,
+com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a
+gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das
+mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.
+
+ José Pereira de Sampaio (_Bruno_).
+
+
+
+
+SONETOS
+
+
+
+
+1
+
+Logica
+
+
+ Ai d'aquelles que, um dia, depozeram
+ Firmes crenças n'um bem que lhes voou!
+ Ai dos que n'este mundo ainda esperam!
+ Terão a sorte de quem já esperou...
+
+ Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram
+ Oiro e papeis que o vento lhes levou!
+ Ai dos que tem, que ainda não perderam,
+ Que amanhã, serão pobres como eu sou.
+
+ Ai dos que, hoje, amam e não são amados,
+ Que, algum dia, o serão, mas sem poder!
+ Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados
+
+ Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!
+ Ai dos que morrem, que lá vão levados!
+ Ai de nós que ainda temos de viver!
+
+Pampilhoza, 1895.
+
+
+
+
+2
+
+Ao Cahir das Folhas
+
+A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA
+
+
+ Podessem suas mãos cobrir meu rosto,
+ Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,
+ Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
+ Eu me fôr viajar para o Sol-posto.
+
+ De modo que me faça bom encosto,
+ O travesseiro comporá com geito.
+ E eu tão feliz! por não estar affeito,
+ Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.
+
+ Até com gosto, sim! Que faz quem vive
+ Orpham de mimos, viuvo de esperanças,
+ Solteiro de venturas, que não tive?
+
+ Assim, irei dormir com as crianças
+ Quazi como ellas, quazi sem peccados...
+ E acabarão emfim os meus cuidados.
+
+Clavadel, outubro, 1895.
+
+
+
+
+3
+
+Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS
+
+
+ Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra
+ Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes
+ Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)
+ Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...
+
+ Oh o encanto da viagem seductora!
+ Que bem me disse então dos Portuguezes!
+ Que faria hoje! foram-se os revezes!
+ O que lá vae pela Africa, Senhora!
+
+ Depois, ao separarmo-nos no Tejo,
+ Disse-me (com que voz e com que modos!)
+ «Deus o faça feliz, ao seu desejo!»
+
+ Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo...
+ Porque afinal os homens quazi todos
+ Têm sido e são muito mais maus do que eu...
+
+St. Johann Am-Platz, 1896.
+
+
+
+
+4
+
+
+ Nossos amores foram desgraçados,
+ Desgraçada paixão! tristes amores!
+ Se Deus me dá assim tamanhas dores,
+ É porque grandes são os meus peccados.
+
+ Quando virão os dias desejados?
+ Quando virá Maio para eu vêr flores?
+ Nunca mais! ainda bem, santos horrores!
+ Que os pobres dias meus estão contados.
+
+ Passo os dias mettido no meu moinho,
+ E móe que móe saudades e tristezas,
+ Moleiro que no mundo está sósinho.
+
+ Os lavradores destas redondezas
+ Queixam-se até de que a farinha á data
+ Tanta é que «está de rastos de barata...»
+
+St. Johann Am-Platz, 1896.
+
+
+
+
+5
+
+
+ Placidamente, bate-me no peito
+ Meu coração que tanto tem batido!
+ E para mim, inda este mundo é estreito
+ P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.
+
+ Meus dias vão passando como as agoas
+ Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,
+ E se de noite eu oiço aquellas mágoas
+ Já não descanço mais, em sobresalto.
+
+ Placidamente, bate-me no peito
+ Meu coração em luctas tão desfeito,
+ Que com a Vida, a Dôr hei confundido.
+
+ E se se ganha a Paz com o soffrimento,
+ Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...
+ Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!
+
+Berne, maio, 1896.
+
+
+
+
+6
+
+Apparição
+
+Á VIRGEM SANTISSIMA
+
+
+ Pelas espadas que tu tens no peito,
+ Pelos teus olhos rôxos de chorar,
+ Pelo manto que trazes de astros feito,
+ Por esse modo tão lindo de andar;
+
+ Por essa graça e esse suave geito,
+ Pelo sorriso (que é de sol e luar)
+ Por te ouvir assim sobre o meu leito,
+ Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»
+
+ Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,
+ Quando chegando vens, assim tão calma,
+ Pela cinta que trazes, côr dos ceus:
+
+ Adivinhei teu nome, Apparição!
+ Pois consultando manso o coração
+ Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»
+
+Lausanna, junho, 1896.
+
+
+
+
+7
+
+
+ Todas as tardes, vou Léman acima
+ (E leve o tempo passa nessas tardes)
+ A pensar em Coimbra. Que saudades!
+ Diogo Bernardes deste meigo Lima.
+
+ Na solidão, pensar em ti, anima,
+ Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades!
+ Os rapazes tão bons nessas idades
+ (Antes que a Vida ponha a mão em cima...)
+
+ Alegres cantam nos teus arrabaldes.
+ Por mais que tire vêm cheios os baldes,
+ Mar de recordações, poço sem fundo!
+
+ Freirinhas de Tentugal, passos lentos!
+ E o chá com bolos, dentro dos conventos!
+ Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!
+
+Lausanna, junho, 1896.
+
+
+
+
+8
+
+A MEU IRMÃO AUGUSTO
+
+
+ Léman azul, que, mudo e morto, jazes.
+ Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!
+ Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo,
+ De turvar tuas agoas são capazes.
+
+ Minhas cartas inuteis de doutor
+ Eu rasgaria, é certo, com prazer,
+ Se eu podesse um dia vir a ser
+ Dessas ondas, um simples pescador.
+
+ Léman azul, nas agoas socegadas,
+ Quantas vidas tu levas confiadas!
+ Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!
+
+ Só do meu coração, ao alto-mar,
+ Ninguem se quiz ainda sujeitar.
+ Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!
+
+Villeneuve, junho, 1896.
+
+
+
+
+9
+
+A JUSTINO DE MONTALVÃO
+
+
+ Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento
+ De Franciscanos. Fui-me lá ha dias.
+ Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias.
+ Iam ceiar. Fóra mugia o vento.
+
+ Um pallido Christo, ao fundo da sala,
+ Espalha em redor seu alvo clarão;
+ E, quando se reflecte a Cruz pelo chão,
+ Os frades ingenuos não ousam pisal-a.
+
+ «Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta.
+ Vontade, Senhor, tive eu de chorar!
+ Tão só me sentia, pela noite morta...
+
+ E quando na volta, á luz das estrellas,
+ Meu doido passado me vim a evocar,
+ Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.
+
+Bex, junho, 1896.
+
+
+
+
+10
+
+
+ Senhora! a todas as novenas ides,
+ E porque vós lá ides, vou tambem.
+ É um descanço sem par ás minhas lides,
+ Aos meus males, e em summa faz-me bem.
+
+ Essas graças que tendes (vós sorrides?)
+ Só nas flôres as vejo, em mais ninguem.
+ Se o vosso corpo é magro como as vides,
+ Os cachos d'uvas que o cabello tem!
+
+ Fazeis-me andar n'uma continua roda,
+ Pelas igrejas da cidade toda,
+ S. Luiz de França, Encarnação e mais.
+
+ Senhora! assim commigo em beato dais,
+ Faço-me frade e vou para um convento...
+ E adeus! que lá se vae o cazamento!
+
+Lisboa, janeiro, 1897.
+
+
+
+
+11
+
+
+ Ha já duzentos soes, ha quatro luas,
+ Que te pedi que a Igreja abandonasses.
+ Tu és cruel, Senhora! continúas,
+ Como se agora apenas começasses.
+
+ Á sexta-feira e ao sabbado jejuas,
+ E tanto te pedi que não jejuasses.
+ E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas
+ Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»
+
+ Nenhuns peccados tens. És anjo e santa.
+ Boa como o ceu, simples como a planta,
+ Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!
+
+ Quaes são os teus peccados? peccadores
+ Senhora! são os vossos confessores.
+ Homens e basta: são máos como as cobras!
+
+Lisboa, 1897.
+
+
+
+
+12
+
+Monologo d'Outubro
+
+A MEU IRMÃO AUGUSTO
+
+
+ Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora!
+ Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas.
+ Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora,
+ E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!
+
+ E tu que já passaste o Outomno só commigo
+ Não pensas ao cahir de tantas agonias
+ Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo?
+ Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!
+
+ Ides morrer, folhas! mas morrer que importa?
+ Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta.
+ Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!
+
+ Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade.
+ Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade,
+ Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...
+
+Foz, 1897.
+
+
+
+
+13
+
+
+ Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça,
+ Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir.
+ Tudo acaba no mundo... tudo passa,
+ Mas só meu mal se foi e torna a vir.
+
+ Não busco a morte com arma ou veneno,
+ Mas emfim póde vir quando quizer.
+ Eu estarei de pé, firme e sereno,
+ Sorrir-lhe-hei até, quando vier.
+
+ Tristes vaidades d'este pobre mundo!
+ Já me parecem taes como ellas são:
+ Tristes mizerias deste mar sem fundo.
+
+ Se tive algumas eu, na mocidade,
+ Não foram ellas mais que uma illuzão.
+ E um dia eu ri da minha ingenuidade!
+
+Lisboa, janeiro, 1898.
+
+
+
+
+14
+
+
+ O mar que embala, ás noites, o teu somno
+ É o mesmo, flor! que á noite embala o meu.
+ Mas em vão canta a minha ama do Outomno,
+ Pois pouco dorme quem muito soffreu.
+
+ Mas tu feliz qual rainha sobre o throno,
+ Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!
+ O teu cabello solto ao abandono,
+ As mãos erguidas de fallar ao céo...
+
+ Feliz! feliz de ti, doce Constança!
+ Reza por mim, na tua voz chymerica,
+ Uma Avè-Maria de Esperança!
+
+ Por minha saude e gloria (Deus m'a dê)
+ Por essa viagem que vou dar a America...
+ Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!
+
+Ilha da Madeira, maio, 1898.
+
+
+
+
+15
+
+Mamã
+
+
+ Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,
+ Toda a Ternura que de ti me vêm,
+ Amparam-me esta triste mocidade
+ Como nos tempos em que tinha Mãe.
+
+ Quanto eu te devo! Odios, impiedade,
+ Indignações e raivas contra alguem,
+ Loucuras de rapaz, tedios, vaidade,
+ Tudo isso perdi--e ainda bem!
+
+ Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança!
+ Nunca m'a tires não, linda criança,
+ (Linda e tão boa não o farás, talvez!)
+
+ Pois que perder-te, meu amor, agora,
+ Ai que desgraça horrivel! isso fôra
+ Perder a minha Mãe, segunda vez.
+
+Ilha da Madeira, 1898.
+
+
+
+
+16
+
+
+ Ha vinte annos já, que andas na Terra,
+ Ha vinte dias só, que te conheço!
+ Eu andava perdido pela serra,
+ E o que eu era então, já não pareço.
+
+ Ha vinte dias só que te conheço,
+ Ó meu beijo de Luz! minha Chymera!
+ És a Graça de Deus (com qu'estremeço)
+ Talvez, o que no mundo, inda me espera.
+
+ Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio!
+ Pois não tens piedade d'este frio
+ Que sinto em mim, na minha solidão!
+
+ Minha bençam de Christo, promettida,
+ Não serás tu a Paz da minha vida?
+ Oh! não me digas não, que és Illuzão!
+
+Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.
+
+
+
+
+17
+
+Riquinha
+
+
+ Soffrer callada as suas proprias dôres
+ E chorar como suas as dos mais,
+ Tal a Rainha do seu nome, em flôres
+ Transforma pedras e em sorrisos ais.
+
+ A toda a parte leva o sol e amores,
+ É a _Saude dos Enfermos_ nos Cazaes;
+ E, no mar-alto, os velhos pescadores
+ Invocam-n'a entre espuma e temporaes!
+
+ Quem será ella, tão piedoza e dôce!
+ Com uns taes olhos que não tinha visto
+ Será a Virgem? Oxalá que fosse!
+
+ Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!
+ Fôra outrora, talvez, filha de Christo,
+ Se Christo houvesse tido alguma filha!
+
+Ilha da Madeira, 1898.
+
+
+
+
+18
+
+O Teu Retrato
+
+
+ Deus fez a noite com o teu olhar,
+ Deus fez as ondas com os teus cabellos;
+ Com a tua coragem fez castellos
+ Que poz, como defeza, á beira-mar.
+
+ Com um sorriso teu, fez o luar
+ (Que é sorriso de noite, ao viandante)
+ E eu que andava pelo mundo, errante,
+ Já não ando perdido em alto-mar!
+
+ Do ceu de Portugal fez a tua alma!
+ E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,
+ Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
+
+ Ó meu anjo de luz e de esperança,
+ Será em ti afinal que descança
+ O triste fim da minha mocidade!
+
+Ilha da Madeira, junho, 1898.
+
+
+
+
+19
+
+Sestança
+
+
+ Ia em meio da minha Mocidade,
+ Perdido d'affeições, ao vento agreste,
+ Quando na Vida tu me appareceste,
+ Sestança, minha Irmã da Caridade!
+
+ Ninguem de mim dó teve, nem piedade,
+ Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:
+ Quantas velas á Virgem accendeste!
+ Quantas rezas nos templos da cidade!
+
+ Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!
+ Para assim merecer um tal cuidado
+ E tudo quanto ainda me fizeres?
+
+ Bemdito seja Deus que me escutou!
+ Bemdito seja o Pae que te ha procriado!
+ Bemdita seja a Mãe que te gerou!
+
+Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.
+
+
+
+
+20
+
+Emilias
+
+(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)
+
+
+ Emilia és, quer queiras, ou não queiras:
+ Que lindo nome o teu, soante de brizas!
+ É um nome de pastoras e moleiras,
+ Loira morgada do solar dos Nizas!
+
+ Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,
+ Ha Emilias nos serões das descamizas...
+ Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras
+ Com o nome de Emilia é que as baptizas!
+
+ Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!
+ E com a tua Mãe seja madrinha,
+ Quando ella, um dia, te levar á Igreja!
+
+ E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha!
+ Dôces presagios meus, que a tua filha
+ Seja loira tambem e Emilia seja!
+
+Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.
+
+
+
+
+21
+
+
+ O coração dos homens com a idade,
+ A pouco e pouco, vae arrefecendo...
+ Quão diversos me vão apparecendo
+ Do que eram ao abrir da mocidade!
+
+ O sorrizo não tem já lealdade,
+ Lagrimas são difficeis... não as tendo.
+ Palavras não vos faltam, estou vendo
+ Mostrar o que sentis só por vaidade.
+
+ Já não me illude, a Gloria que sonhei.
+ Perdi a fé em tudo quanto amei.
+ Mas só agora, eu sei o que é viver!
+
+ Não fazes bem, assim, em rir de mim!
+ Tenho tido na vida horrores sem fim,
+ Mas só agora, eu sei o que é soffrer!
+
+Ilha da Madeira, dezembro, 1898.
+
+
+
+
+22
+
+
+ O Senhor, cuja Lei é sempre justa,
+ Deu-me uma infortunada mocidade,
+ Talvez para eu saber (o que é verdade)
+ Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!
+
+ Feliz de quem no mundo sem piedade,
+ Encontrou alma que lhe entenda a sua,
+ Que o mesmo é que ter na mão a Lua
+ Tão longe n'essa triste Eternidade!
+
+ Os meus dias passavam tristemente
+ Quando encontrei o teu olhar ridente:
+ Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!
+
+ Vaes deixar-me de novo, só na vida!
+ Ao cabo de viagem tão comprida
+ Talvez sintas mais perto os olhos meus!
+
+Ilha da Madeira, janeiro de 1899.
+
+
+
+
+23
+
+Adeus a Constança
+
+
+ Vae o teu Pae andar ao sol de verão,
+ E mais á chuva e ao vento; e só depois
+ Poderá ter a colheita d'esse pão
+ Que semeou cantando ao pé dos bois.
+
+ Feliz que eu fui em te encontrar na vida,
+ Minha dôce Constança desejada!
+ Antes de vêr-te a ti não via nada,
+ Nem para mim a lua era nascida.
+
+ Tu vaes partir em breve com teu Pae
+ Por esse mar que tão piedozo está.
+ Não sêde amargas, ondas, mas chorae!
+
+ Vaes vêr campos em flôr que te conhecem...
+ E se a colheita se fizesse já,
+ Talvez na volta as ondas te trouxessem!
+
+Ilha da Madeira, 1899.
+
+
+
+
+24
+
+Antes de partir
+
+
+ Varios Poetas vieram á Madeira
+ (Pela fama que tem) a ares do Mar:
+ Uns p'ra, breve, voltarem á lareira,
+ Outros, ai d'elles! para aqui ficar.
+
+ Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,
+ Morrer n'esta ilha não deve custar,
+ Mas para mim sempre é terra extrangeira,
+ Á minha patria quero, emfim, voltar.
+
+ Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!
+ Ah como é triste andar por essas ruas,
+ Pallido, de olhos grandes, a tossir!
+
+ Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as,
+ Vou com as ondas, voltarei com ellas,
+ Mas como ellas p'ra tornar a ir!
+
+Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.
+
+
+
+
+25
+
+
+ Meu pobre amigo! Sempre silencioso!
+ Assim eu fui. Scismava, lia, lia...
+ Mudei no entanto de Philosophia.
+ Não creio em nada! e fui tão religioso!
+
+ Tomei parte no Exercito gloriozo
+ Que foi bater-se por Israel, um dia!
+ Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,
+ Não creio em nada! tudo é mentirozo!
+
+ Não vale a pena amar e ser amado,
+ Nem ter filhos d'um seio de mulher
+ Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!
+
+ Não vale a pena um grande poeta ser,
+ Não vale a pena ser rei nem soldado
+ E venha a Morte, quando Deus quizer!
+
+St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.
+
+
+
+
+OUTRAS POESIAS
+
+
+
+
+A FRANCISCO CEZIMBRA
+
+
+ Eu chegara de França uns quatro dias antes
+ E via-me tão só n'um deserto sem fim,
+ Lá deixara a alegria, amores, estudantes,
+ Via a vida, aqui, negra adiante de mim.
+
+ Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo,
+ Nada no mundo me podia estimular!
+ Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,
+ Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!
+
+ Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar
+ Pois para que me deste assim um coração!
+ Tudo quanto via me dava que scismar
+ De tudo tinha dó, de tudo compaixão.
+
+ Ó meus amigos de Coimbra! que saudades
+ Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões!
+ Porque chamaria eu agora, só vaidades
+ Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?
+
+ E conheci depois a phase lastimoza
+ (Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar)
+ Em que descri de tudo, até da meiga roza
+ Que via entre velas, aos pés d'algum altar.
+
+ De tudo ri então, Senhor, como um perdido
+ Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...
+ Tu cuja alma em flôr ainda me sorria
+ Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?
+
+1895.
+
+
+
+
+Ladainha da Suissa
+
+A MARTINHO DE BREDERODE
+
+
+ Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo
+ Pelas ruas, vendo-me passar:
+ --Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo...
+ E assim sósinho, sem ninguem para o tratar!
+ (Que boa a Suissa! que bom é este povo!)
+
+ Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,
+ Diziam entre si: Quem será este senhor?
+ Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes!
+ E rezavam por mim, baixinho, com amor.
+ (Ó pastoras tão meigas d'estes Andes!)
+
+ Por fim entrei receoso em uma caza immensa
+ Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.
+ Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:
+ Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...
+ (Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)
+
+ No alto da escada umas Irmãs da Caridade
+ Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?»
+ No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade,
+ Que me julguei feliz, até sorrir, olhae!
+ (Minhas boas Irmãs da Caridade!)
+
+ Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem
+ Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...
+ --«E então como passou? Gostou da sua viagem?
+ E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?»
+ (Ó Suissa da divina paysagem!)
+
+ Não me deixava com perguntas. Era Suissa
+ E não deixara nunca esta alva nação.
+ Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:
+ Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão.
+ (Que ingenua és ainda, Suissa!)
+
+ --Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro
+ E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar...
+ --Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.
+ E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!
+ (Nos meus olhos o viste tu primeiro.)
+
+ Com que doçura, com que mimo e com que graça
+ Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir.
+ E como uma ama diz ao menino que a enlaça,
+ Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...»
+ (Ó Suissa cheia de graça!)
+
+ E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,
+ E no outro dia eu já estava melhor.
+ Passados trez, passei de pallido a moreno
+ Passado um mez, «não é nada» disse o doutor.
+ (Oh! quanto eu era então feliz, sereno!)
+
+ E a boa Irmã toda contente e dedicada
+ Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé
+ --Vê, tantos sustos! e afinal não era nada!
+ E se elle disse «não é nada» é que não é!
+ (Ó boa Irmã, de voz tão delicada!)
+
+ Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve
+ A minha doida mocidade arrependida.
+ Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve!
+ Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida!
+ (E o meu coração que dôce paz vos deve!)
+
+ Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa!
+ Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita!
+ Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!
+ Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita!
+ (Bemdita sejas, minha Suissa boa!)
+
+Lausanna, 1896.
+
+
+
+
+Confissão d'uma rapariga feia
+
+(INCOMPLETA)
+
+
+ Ha raparigas n'este mundo,
+ Ha raparigas que são feias,
+ Mas nenhuma tanto como eu.
+ De mim tenho nojo profundo,
+ Ciumes do Sol, das luas cheias,
+ Que vão tão lindas pelo céo!
+
+ Nos arraiaes, nas romarias,
+ Adelaides, Joannas, Marias,
+ Todas tem par, mas menos eu.
+ Todas bailam, rindo e cantando,
+ E eu fico-me a olhal-as scismando
+ Na sorte que o Senhor me deu!
+
+ Se eu fosse cega ou aleijada,
+ Talvez ficasse resignada,
+ Porque havia de queixar-me eu?
+ Mas sendo sã, sendo perfeita
+ Tua vontade seja feita,
+ Senhor! é sorte, é fado meu!
+
+ ..................................
+
+
+
+
+Affirmações religiosas
+
+
+ Ó meus queridos! Ó meus S.tos limoeiros!
+ Ó bons e simples padroeiros!
+ Santos da minha muita devoção!
+ Padres choupos! ó castanheiros!
+ Basta de livros, basta de livreiros!
+ Sinto-me farto de civilisação!
+
+ Rezae por mim, ó minhas boas freiras
+ Rezae por mim escuras oliveiras
+ De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes:
+ Tornae-me simples como eu era d'antes,
+ Sol de Junho queima as minhas estantes
+ Poupa-me a _Biblia_, Anthero... e pouco mais!
+
+ No mar da Vida cheia de perigos
+ Mais monstros ha, diziam os antigos,
+ Que lá nas agoas d'esse outro mar.
+ O que pensaes vós a respeito d'isto,
+ Ó navegantes d'esse mar de Christo!
+ Heroes, que tanto tendes que contar?
+
+ Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros,
+ Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!
+ Lamentos ao luar, dos pinheiraes,
+ E vós ó sombra triste das figueiras!
+ Chorae por mim ó flôr das amendoeiras
+ Chorae tambem ó verdes cannaviaes!
+
+ E quando emfim, já farto de soffrer
+ Eu um dia me fôr adormecer
+ Para onde ha paz, maior que n'um convento:
+ Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno,
+ Ai não me deixeis no meu abandono!
+ Chorae-me cyprestes, batidos do vento...
+
+1897.
+
+
+
+
+Ares da Andaluzia
+
+
+ Ó formoza Andaluzia!
+ Terra de Nossa Senhora!
+ Ó formoza Andaluzia
+ Onde o luar parece dia
+ Onde é dia a toda a hora!
+
+ Ai eu tenho sete muzas
+ Quaes d'ellas prefiro eu?
+ Ai eu tenho sete muzas,
+ Trez d'ellas são andaluzas
+ Porque as outras são do céo.
+
+ Malaga, terra de encantos,
+ Terra das vinhas doiradas!
+ Malaga, terra de encantos!
+ Igrejas cheias de Santos,
+ E Virgens cheias de espadas!
+
+ Vossa bocca tem desejos
+ Que a bocca das mais não tem...
+ Vossa bocca tem desejos
+ E já morria por beijos
+ No ventre da vossa mãe!
+
+ Ó meninas de Sevilha
+ Sou doente, vinde amparar-me,
+ Ó meninas de Sevilha
+ Deixae-me a vossa mantilha
+ Que eu não quero constipar-me!
+
+ Ó menina, olá, a mais alta
+ Porque foge e me olha assim?
+ Ó menina olá a mais alta,
+ Se a belleza não lhe falta,
+ Não julgue que é mais que a mim.
+
+ Ai esta Vida é tão curta!
+ Ai o Amor dura um instante,
+ Ai esta Vida é tão curta!
+ Dormir, um dia, entre murta
+ Nos braços d'uma outra amante!...
+
+ Olhos de Cadiz tão pretos
+ (E o mar ao pé tão azul!)
+ Olhos de Cadiz tão pretos
+ De luto por Esqueletos
+ Que o mar traz com vento sul.
+
+ Já sorvi na minha bocca
+ Beijos de toda a Nação!
+ Já sorvi na minha bocca
+ Tanto mel, cabeça louca!
+ Mas assim como estes, não!
+
+ Menina das pandeiretas!
+ Que contente que hoje estaes!
+ Menina das pandeiretas!
+ Tão séria, de capas pretas,
+ Ao lado de vossos Paes.
+
+ Vem beber a mocidade
+ Com a tua trança solta.
+ Vem beber a mocidade
+ Não torna a vir esta idade
+ E o Amor como ella não volta.
+
+ Ó seios como pombinhos
+ Ó seios por quem bateis?
+ Ó seios como pombinhos
+ Tão alegres nos seus ninhos
+ Não sei eu, mas vós sabeis...
+
+
+
+
+Contas de rezar
+
+
+ A Maria dos Prazeres
+ Mizericordia dos mares!
+ Que escrevi para tu leres,
+ Que eu fiz para tu rezares!
+
+Maria dos Prazeres. Antonio sem Elles.
+
+ Maria é! Violeta da Humildade
+ Onda do mar das Indias! sempre triste!
+ Porque andará tão triste nessa idade
+ Se o Deus em que ella crê para ella existe?
+
+ Maria é! Violeta da Humildade!
+ Onda do mar das Indias! tão modesta
+ E tão grande que ella é! Que dôr funesta
+ A faz andar tão triste nessa idade?
+
+ E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,
+ Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:
+ «Parece incrivel faça parte d'esta
+ Humanidade mentiroza e indigna!»
+
+ Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!
+ Até tem dó e compaixão por mim...
+ Mal diria eu que a tragica Lisboa
+ Tinha em seus muros uma Santa assim!
+
+ Ella nasceu para assistir ás guerras
+ Ella nasceu p'ra atravessar os mares
+ Ella nasceu para ir a longas terras
+ Ella nasceu para proteger os lares!
+
+ Ella nasceu para ir com portuguezes,
+ Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,
+ Com remedios, ao pé, mezes e mezes,
+ Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!
+
+ Ella nasceu para levar comsigo
+ Um exercito leal, mystico e forte.
+ Ser a ultima a dobrar ante o inimigo
+ E a primeira a morrer, sorrindo á morte!
+
+ Ella nasceu p'ra commandar armadas
+ Vestir a bluza azul dos marinheiros.
+ Morrer que importa? Sobre agoas salgadas
+ No immenso oceano não faltam coveiros!
+
+ Ella é formosa e grande entre as mulheres,
+ Sua doçura é toda de velludo...
+ Mas as respostas que dão malmequeres!
+ Tristes, Senhor! como na vida é tudo!
+
+ Quando ella passa toda côr de cera,
+ Devagarinho e de missal na mão,
+ Vae tão ligeira, lembra uma galéra
+ Que segue viagem de vento á feição!
+
+ Os seus olhos são negros e tão bellos
+ Que grandes são! têm penas disfarçadas...
+ Que são elles? Ogivas de castellos
+ Com duas meninas sempre debruçadas.
+
+ O seu cabello é negro e immenso e roça
+ Pelo chão, como a noite e a escuridade,
+ Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa
+ Senhora, quando tinha a sua idade!
+
+ A sua voz baixinha vem da alma,
+ Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.
+ É assim que falla a aragem pela calma
+ Quando mareantes pedem temporaes.
+
+ Vozes assim só se ouvem no convento
+ Á oração em silencio habituado,
+ Que Deus entende a voz do Pensamento:
+ Póde fallar-se a Deus e estar callado!
+
+ Os seios lembram duas pombas gemeas
+ No seu ninho a dormir, muito quietinhas.
+ Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,
+ Não acordes as pombas coitadinhas!
+
+ Que dizer do seu corpo esbelto de aza!
+ Tão delgado, onde passa o seu annel?
+ É o mais lindo Torreão da sua Caza!
+ É uma náu da India, a _S. Gabriel_.
+
+ Os seus braços são debeis! mas exaltam
+ E sustentam em mim toda a Esperança!
+ Os seus braços, Senhor! são os que faltam
+ A certa Venus que se admira em França!
+
+ O seu sorrizo é o sol, quando apparece,
+ Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;
+ Mas o seu habitual, ai não se esquece!
+ É o sol ás tardes quando cahe no mar...
+
+ A sua bocca é uma romã vermelha,
+ Mostrando em rizos os seus grãos de opala.
+ Favo de beijos, que dá mel á abelha,
+ A sua bocca é uma flôr com falla!
+
+Lisboa, 1898.
+
+
+
+
+A Ceifeira
+
+(INCOMPLETA)
+
+
+ ............................................
+ Porque é que te odeiam os homens se os levas
+ A um mundo melhor?
+ Ó velha hospedeira da aldeia do nada,
+ Tenho as malas promptas, vou breve partir.
+ Prepara-me um quarto na tua pousada
+ Que tenha a janella para o sul voltada
+ E fontes á roda para eu dormir...
+
+
+
+
+Sensações de Baltimore
+
+(INCOMPLETA)
+
+
+ Cidade triste entre as tristes,
+ Oh Baltimore!
+ Mal eu diria que na terra existes
+ Cidade dos Poetas e dos Tristes,
+ Com teus sinos clamando «Never-more.»
+
+ Os comboios relampagos voando,
+ Pela cidade de Baltimore,
+ Levam uns sinos que de quando em quando
+ Ferem os ares, o coração magoando
+ E os sinos clamam «Never-more, never-more».
+ ...........................................
+
+Baltimore, 1897.
+
+
+
+
+Ao Mar
+
+(SONETO ANTIGO)
+
+
+ Ó meu amigo Mar, meu companheiro
+ De infancia! dos meus tempos de collegio,
+ Quando p'ra vir nadar como um poveiro
+ Eu gazeava á lição do mestre-regio!
+
+ Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?
+ (O contrario seria um sacrilegio)
+ Lembras-te ainda d'esse marinheiro
+ De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!
+
+ Que tua mão oceanica me ajude,
+ Leva-me sempre pelo bom caminho,
+ Não me faltes nas horas de afflicção.
+
+ Dá-me talento e paz, dá-me saude,
+ Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!
+ Trazer meus netos a beijar-te a mão...
+
+
+
+
+Dispersos
+
+
+1
+
+ --Soffro por ti nesta auzencia,
+ Tanto que não sei dizer.
+ --Meu Antonio! Tem paciencia!
+ Soffrer por mim é soffrer?
+
+2
+
+ Ah quem me dera abraçar-te
+ Contra o peito, assim, assim...
+ Levar-me a morte e levar-te
+ Toda abraçadinha a mim!
+
+3
+
+ Ai ella é tão pequenina
+ Que, quando ao meu collo vae,
+ Diz o povo: uma menina
+ Que vae ao collo do Pae!
+
+4
+
+ És tão fraca, tão fraquinha,
+ Que, ao passar, uma andorinha
+ Com um simples encontrão
+ Podia deitar-te ao chão.
+
+ Mas tambem te levantava
+ Sem grande custo: bastava
+ Beijar-te (nem isso, até)
+ Logo te punhas em pé!
+
+5
+
+ Espreitei á tua porta,
+ Quiz vêr-te a dormir, sorrindo...
+ Mas ai! só vendo-te morta,
+ Saberei como és dormindo!
+
+6
+
+ --Dá-me um beijinho, que eu peço?
+ --Isso sim!--Furto-lh'o então!
+ --Não que eu metto-o n'um processo
+ Pelo crime de ladrão!
+
+7
+
+ O teu somno--ai que ventura
+ Tantos sonhos, que sei eu?
+ O meu é uma noite escura
+ Com uma _estrella_ no ceu!
+
+8
+
+ Coração, bates saudades
+ Saudades tão tristes são,
+ Lembra-me o sino ás Trindades,
+ O sino faz: Dlão! dlão! dlão!
+
+9
+
+ Ai! na hora da partida,
+ Parte-se o coração!
+ Ai! como é triste a Vida!
+ Uns ficam... outros vão...
+
+10
+
+ O coração apodrece,
+ Apodrece como o mais
+ Mas a dôr, ai! reverdece,
+ Essa não morre jamais.
+
+11
+
+ És morena, moreninha,
+ Morena de andar ao sol!
+ No dia em que fôres minha
+ Como has de ser moreninha
+ Na brancura do lençol!
+
+12
+
+ São as meninas da Ilha da Madeira
+ Ternas, graciozas, pallidas, ideaes;
+ Fica-se doido, vendo-se a primeira,
+ Doido se fica, se se veem as mais;
+ Qual é a mais bella da Ilha da Madeira.
+ Se são todas eguaes?
+
+13
+
+ Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes,
+ Com uma caza só, a caza della.
+ O mais é o pôr-do-sol, bouças e fontes
+ Que compõem a sua parentella.
+
+ Encanto de possuir uns taes parentes!
+ Fidalga excepcional que é a Purinha!
+ Que ella nas veias tem sangue dos poentes,
+ E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!
+
+ Oh que ascendencia! que familia estranha!
+ Onde ha fidalgos com uns taes avós?
+ Sois os seus Paes, pinheiros da montanha,
+ E assim ella é altinha como vós!
+
+14
+
+ Amo-te toda porque és linda, linda, linda!
+ Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei lá!
+ Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda,
+ É a alminha de Deus que dentro de ti está.
+
+15
+
+ Uma alma chega ao pé do seio da Purinha!
+ E bate devagar, docemente: «truz! truz!»
+ --Quem é? (responde lá de dentro uma vozinha)
+ --(Antonio...) e logo veio á porta, com a luz.
+
+16
+
+ Mamã te chamo porque me trazes ao peito,
+ Filha te chamo pelo mimo que te dou,
+ Irmã te chamo porque te tenho respeito,
+ Noivinha te chamo porque teu noivo sou!
+
+17
+
+ Na sexta-feira ás dez horas olha p'ra lua,
+ Que eu, tão longe, ai tão longe! hei-de olhal-a tambem:
+ Assim minha alma encontrar-se-á lá com a tua!
+ E quem se encontra, filha!, é porque se quer bem!
+
+18
+
+ Tu és altinha como eu, embora
+ Eu seja um homem e tu uma criança!
+ Tanto que ao irmos pela estrada, agora,
+ Ouvi dizer: «Que lindo par de França!»
+
+19
+
+ Teus olhos são dois ceus. E nelles leio
+ O que nos outros lêem os pastores:
+ Estrella da manhã dos meus amores!
+ Sete estrello que vaes do ceu em meio!
+
+20
+
+ Ai que saudade! O amor das Extrangeiras!
+ Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito,
+ E um dia, lá se vão andorinhas ligeiras,
+ E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!
+
+21
+
+ No vosso leito, á cabeceira, ponde isto,
+ Ponde este livro ao pé do vosso coração:
+ Adormecei rezando a «Imitação de Christo»
+ E «Nun Alvares», que é de Christo a imitação.
+
+
+
+
+O DESEJADO
+
+
+O poema, cujos fragmentos são agora publicados, não seria uma composição
+de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria
+esta conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella é confirmada
+pelo que elle chegou a realisar da sua concepção. Assim, quanto de
+narrativamente historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado
+atravez da imaginação do auctor. Elle propunha-se evocar não uma figura
+de chronica mas um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao
+leitor o encanto idealista e romanesco do sebastianismo, considerado
+como elemento de estimulo para a fé na nacionalidade e como incentivo e
+consolação nas esperanças e nas decepções da patria.
+
+Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o
+programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com
+assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir
+coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado
+signal typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa
+faina foi de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia
+de pessoa distinctissima, a ex.ma snr.ª D. Constança da Gama, que tivera
+ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a
+explanação generica de sua phantasia e de seu intento.
+
+O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral _Á Lisboa das
+naus, cheia de gloria_, a qual seria seguida de uma invocação, em
+offerecimento, _Ás Senhoras de Lisboa_, que é uma especie de introducção
+á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e vem
+contal-a a ellas, pedindo uma lagrima para os soffrimentos do seu heroe.
+A este apresenta-o o poeta como penando das mais amargas desillusões e
+possuido da triste convicção de que nada na vida o poderia abalar ainda
+ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto sonho e de haver visto
+tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo ao despertar.
+
+Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda
+haveria de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos,
+que não ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a
+confidencia ás Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique,
+escarnecido pelo prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria,
+como se ella fosse dote que se offerecesse. A feição symbolista do poema
+de Antonio Nobre demonstra-se, n'este lance concepcional, pela
+representação da Lua, imagem do quanto é vã e irrealisavel a aspiração a
+um alvo intangivel, sonho ineffavel desfeito em fumo.
+
+Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar
+portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de
+Hespanha, finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris,
+exhausto e desvairado pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel.
+A Paris erroneamente se encaminhara já no fito de encontrar da sciencia
+transcendental o remedio occulto a males irremediaveis; e são pungentes
+as allusões e referencias que a todo o instante apparecem á historia
+propria do poeta, em sua ideação e em seu cruel soffrimento.
+
+Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido
+pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique
+não lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para
+lhe applicar salutifero balsamo.
+
+Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o
+poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e
+penetrante, o seu heroe Anrique, que divaga, na phase mystica e exaltada
+em que se encontra, pelas ruas, sem proposito exacto e á mercê de mil
+fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso, no templo de um convento de
+freiras, justamente na occasião em que ellas iam começar a entoar a sua
+novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico suave, Anrique
+queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como um echo de
+saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes que
+alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a
+reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara
+lá para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais
+que a muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga.
+
+No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o
+faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto
+de uma anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e
+de seus labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando
+o seu amor com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece
+lançar um repto e vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e,
+após consolações inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o
+poeta toda a resignada amargura da sua alma.
+
+Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se
+voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino,
+affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a
+barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique
+sauda com férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz
+realidade do presente surge perante o impeto epico como uma satyra
+tragica. Ao passado volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a
+compensação prophetica que se lhe desenha é-lhe figurada na vinda
+phantasiosa do _Desejado_, do chimerico D. Sebastião, do lendario
+«Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o anhelo e de toda a fé, que foi
+a incarnação ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações
+messianicas do povo portuguez.
+
+Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o
+preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de
+que é chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva.
+Então, sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade
+que sente de repousar afinal de suas infructuosas fadigas
+contemplativas.
+
+Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só
+aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e
+indiscreta curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se
+involuntariamente lamentos acres, pela traição d'aquella que elle amara.
+Ahi, elle conta, a si-mesmo, alheiado, a historia da sua afflictiva
+agonia interior, onde mais doem na recordação as ingenuidades e os
+candidos embustes da quadra florente e illusionante.
+
+Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama
+lyrica do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em
+Portugal, Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora
+corrosiva, do socego tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados
+conselhos; alli elle se votará a uma confissão sincera e plena, embora
+pretenda a apparencia d'uma dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara
+d'uma indifferença gelida.
+
+Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu
+amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da
+sua phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim,
+suspendemo-nos, anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o
+leitor, de per si, aprecie e encareça, com legitimos gabos, as
+composições que seguem, algumas das quaes, sem favor, se podem
+qualificar de maravilhosamente bellas.
+
+
+
+
+Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA
+
+
+I
+
+ Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,
+ Ó Lisboa das meigas Procissões!
+ Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
+ Ó Lisboa dos lyricos pregões...
+ Lisboa com o Tejo das Conquistas,
+ Mais os ossos provaveis de Camões!
+ Ó Lisboa de marmore, Lisboa!
+ Quem nunca te viu, não viu coisa boa...
+
+II
+
+ És tu a mesma de que falla a Historia?
+ Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?
+ Não sei quem és, perdi-te de memoria,
+ Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?
+ Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,
+ Ó Lisboa das Chronicas, responde!
+ E carregadas vinham almadias
+ Com noz, pimenta e mais especiarias...
+
+III
+
+ Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
+ A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
+ Galeras doidas por soltar a amarra,
+ Cidade de morenos marinheiros,
+ Com navios entrando e saindo a barra
+ De prôa para paizes extrangeiros!
+ Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!
+ Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!
+
+IV
+
+ Ó Lisboa das ruas mysteriozas!
+ Da _Triste Feia_, de _João de Deus_,
+ _Becco da India_, _Rua das Fermosas_,
+ _Becco do Falla-Só_ (os versos meus...)
+ E outra rua que eu sei de duas _Rozas_,
+ _Becco do Imaginario_, dos _Judeus_,
+ _Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_,
+ E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.
+
+V
+
+ Meiga Lisboa, mystica cidade!
+ (Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
+ Que pena faz morrer na mocidade!
+ Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
+ Mandae meu corpo em grande velocidade,
+ Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
+ Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
+ Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!
+
+VI
+
+ Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
+ Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
+ Luar assim tão meigo, tão profundo,
+ Como a cair d'um céo cheio de luas!
+ Não deixo de o beber nem um segundo,
+ Mal o vejo apontar por essas ruas...
+ Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
+ «Vae alta a lua!» de Soares de Passos.
+
+VII
+
+ Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
+ Cintra das solidões! beijo da Terra!
+ Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
+ Que vão fazer o seu ninho na serra;
+ Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
+ Meu nobre camarada de Inglaterra!
+ Cintra dos Moiros com os seus adarves,
+ E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!
+
+VIII
+
+ Romantica Lisboa de Garrett!
+ Ó Garrett adorado das mulheres,
+ Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
+ Á tua linda caza dos _Prazeres_.
+ Mas qual seria a melhor hora, ás sete,
+ Garrett, para tu me receberes?
+ O teu porteiro disse-me, a sorrir,
+ Que tu passas os dias a dormir...
+
+IX
+
+ Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
+ Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
+ Que falta fazes á Lisboa amena!
+ Anda vêr Portugal! parece louco...
+ Que patria grande! como está pequena!
+ E tu dormindo sempre ahi no «choco».
+ Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
+ Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!
+
+X
+
+ Ó Lisboa vermelha das toiradas!
+ Nadam no Ar amores e alegrias.
+ Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
+ Cavalleiros, fazendo cortezias...
+ Que graça ingenua! farpas enfeitadas!
+ O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!
+ Vêde a alegria que lhe vae nas almas!
+ Vêde a branca Rainha, dando palmas!
+
+XI
+
+ Ó suaves mulheres do meu desejo,
+ Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!
+ Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!
+ Animaeszinhos cheios de delicias...
+ Vosso passado quão longiquo o vejo!
+ Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!
+ Lisboa das Varinas e Marquezas...
+ Que bonitas que são as Portuguezas!
+
+XII
+
+ Senhoras! ainda sou menino e moço,
+ Mas amores não tenho nem carinhos!
+ Vida tão triste supportar não posso:
+ Vós que ides á novena, aos _Inglezinhos_.
+ Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
+ N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.
+ Rezae por mim, vereis,--vossos peccados,
+ (Se acaso os tendes), vos serão perdoados...
+
+XIII
+
+ Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
+ Que no Mundo soffreu todas as dores!
+ Odios, traições, torturas,--que sabe elle!
+ Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
+ E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,
+ A espera que o enterrem entre as flores...
+ Ouvi: estão os sinos a tocar:
+ Senhoras de Lisboa! ide rezar.
+
+
+
+
+ÁS SENHORAS DE LISBOA
+
+
+ Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.
+ Gosto do sol, oh certamente! mas segundo
+ O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz,
+ De dia, apenas tenho um ou outro rapaz
+ Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes.
+ Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)
+ Faço da noite dia. As grandes descobertas
+ Que eu descobri! Estou de janellas abertas
+ Quando os outros estão de janellas fechadas...
+ Ó fontes a correr como linguas de espadas,
+ Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa,
+ Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,
+ Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,
+ E só vos falta estar, como ellas de mãos postas!
+ Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado,
+ «Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...»
+ Noites e dias sem parar um só momento,
+ Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento.
+ Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei
+ Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!
+ Agoas, só de perdão, suspiros e piedades,
+ Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades!
+ Contae para eu scismar, uma bonita historia
+ Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria.
+ Contae que eu sou ainda uma criança, gosto
+ Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!
+ Ó rios a contar historias, como as criadas,
+ Historias de ladroes, mais historias de fadas,
+ A do Zé do Telhado e da triste viuva
+ Que só sahia á rua pelas noites de chuva!
+ E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!
+ Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:
+ São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,
+ Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas;
+ Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas
+ E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas
+ Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.
+ Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra
+ Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria
+ De levar as Naus do Gama á India da victoria.
+ E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas!
+ Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)
+ Sonetos de ais que só comprehende quem ama:
+ E de noivos a quem deu o lençol e a cama.
+ As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:
+ (Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes)
+ O mar! como elle conta ás noites tanta historia,
+ Contos de cavalleiros sublimes de victoria;
+ Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros,
+ E contos de segredo que ouviu aos marinheiros
+ Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca,
+ Quando choram seus males, que só a lua estanca.
+ O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo.
+ Quantas vezes a rir, vem conversar commigo
+ N'essas noites tão longas d'infinda solidão
+ Em que vela no mundo, tão só meu coração!
+ Quantas vezes na hora em que dormem crianças
+ E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças
+ Para embalar o peito de quem no mundo as tem;
+ Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,
+ (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)
+ Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado,
+ Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado.
+ E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas
+ Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas
+ Que querem vir chorar commigo e conversar.
+ Historia é uma d'elle, esta que vou contar;
+ Ouvi-a em alta noite escura de janeiro
+ E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.
+
+ ................................................
+ Senhoras escutae-a! se tendes coração,
+ Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão:
+ Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça
+ Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça!
+ Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,
+ Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.
+ ................................................
+
+
+
+
+ Senhora minha, perdão
+ Anjo do meu coração
+ Pois a escrever eu me affoito?
+ Estamos no julho, a oito
+ Dia de Vasco da Gama
+ (D'oravante assim se chama)
+ Ai as saudades que eu tenho!
+ Pois olha escrevo-te e venho
+ Dar-te noticias do teu
+ Apaixonado. Sou eu.
+ Anrique, pastor de ovelhas.
+ Tenho-as brancas e vermelhas,
+ Pretas, de todo o tamanho.
+ Tivesse-te eu no rebanho
+ Porém como tu ainda
+ Não vi nenhuma mais linda.
+ Eu pensei que tu amavas
+ O teu pastor, mas brincavas.
+ Mas amo-te eu, muito embora.
+ Não sou amado, Senhora?
+ --Não o és, nem nunca o has-de ser--
+ Pois seja o que Deus quizer!
+ Vou pelas serras mais altas
+ Mas vejo que tu me faltas
+ E logo fico a pensar
+ Que bom e triste é amar!
+ Um amor sem esperança
+ É um bem que não se alcança.
+ Nasci debaixo d'um signo
+ Que em nada me é benigno;
+ Já não póde ser desfeito
+ O que está feito, está feito.
+ Ai de mim! não sou amado!
+ Ai de mim, triste e coitado!
+ Fumo saindo dos cazaes
+ Que aspirações vós levaes!
+ As minhas não vão tão alto:
+ ............................
+ São bem simples e modestas:
+ Bons dias e boas sestas!
+ Com mui pouco me sustento:
+ O amor é meu alimento.
+ O meu pão de cada dia,
+ Lagrymas, minha agoa fria,
+ Quem me dera andar comtigo
+ No mar cheio de perigo!
+ Ir á Africa n'uma Nau
+ Na _San Rafael_ de pau,
+ Como os nossos Portuguezes!
+ E andar por lá sete mezes,
+ Sete annos, ou mesmo mais
+ Sem medo dos temporaes!
+ Outros ha pior de passar...
+ Já tantos tive no mar
+ Já tantos tive na terra
+ Que já nenhum me faz guerra.
+ Nós dois sós, e porque não?
+ Sem maior tripulação.
+ Eu seria o commandante
+ D'aquella nau almirante!
+ Oh que formoza serias
+ Queimada das marezias!
+ Vestida de marinheiro
+ Ai sobe! sobe! gageiro
+ Aquelle topo real,
+ Diz adeus a Portugal,
+ Que lá nos vamos, Adeus!
+ E partiriamos com Deus!
+ Oh que viagem venturoza!
+ Pela Azia religioza
+ Mais pelas terras do sul
+ Com mar e ceu sempre azul!
+ Vêr no ceu planetas novos
+ Vêr pela terra outros povos,
+ Outras leis, novos costumes,
+ Capellas cheias de lumes,
+ Á California do Oiro
+ E lá achar um thesoiro.
+ Vêr (que isso nunca se perde)
+ O celebre «raio verde»
+ Do sol-pôr no mar da America!
+ Oh! a viagem chymerica!
+ De gatas, como as gatinhas,
+ ...........................
+ Tu subirias aos mastros
+ (Tão altos que vão aos astros)
+ Sem receios das procellas!
+ E dobrarias as velas
+ A bujarrona, a latina.
+ Com tuas mãos de menina!
+ Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!
+ Quando estivesses de quarto
+ A mão no leme segura
+ A nau iria á ventura
+ Ó suspiro das aragens!
+ Ó phantasticas miragens!
+ Não tenhas mêdo. Morrer
+ Não custa nada, é viver.
+ Custa menos que se pensa.
+ O principal é ter crença.
+ Morre o corpo, a alma abre aza
+ E vae: é mudar de caza...
+ Mas nem sempre ha mares grossos
+ E que houvesse! Os padres nossos
+ Fazem muito em tua bocca.
+ Voz dôce acalma voz rouca!
+ Tu não temes temporal
+ És filha de Portugal!
+ Se morressemos, que importa!
+ Que bella serias morta!
+ Minha Senhora da Esp'rança
+ Já na Bemaventurança!
+ Ir comtigo pr'o outro mundo,
+ E juntos para o profundo
+ Para esses mares salgados,
+ N'um abraço amortalhados!
+ Meu pensamento fluctua
+ Perdoa (lá vem a Lua)
+ Esta carta tão comprida!
+ Mas eu amo nesta vida
+ Duas coisas, tu primeiro
+ Depois o mar, sou poveiro!
+ Mas hoje, Senhora minha,
+ Sou pastor sem pastorinha,
+ Ainda hontem era estudante
+ Porque não sou navegante!
+ Foi sempre a minha paixão;
+ Era a minha vocação.
+ Mas a minha Mãe não quiz
+ Talvez fosse mais feliz.
+ Ah, Senhora! vou deixar-te!
+ Minha Mãe por toda a parte
+ Anrique! Anrique, onde estás?
+ A pregação que ella faz
+ Tudo por amor de ti
+ (E já lhe oiço a voz d'aqui)
+ E as ovelhas? Ai, Senhor!
+ Não sirvo para pastor.
+ Cada uma p'ra seu lado
+ Não dou conta do recado.
+ Minha Mãe ralha que ralha
+ Ai, Senhor! Jezus me valha.
+ E adeus que me vou embora
+ Pois, boas noites, Senhora!
+ Ah! eu estou, aqui, tão bem...
+ E lá torna a minha Mãe
+ --Anrique, Anrique, onde estás?
+ --Onde te somes, rapaz!
+ Tem razão, é já tão tarde!
+ Na lareira o lume arde
+ E fuma, aceza a candeia:
+ Minha Mãe que faz a ceia!
+ Ha que tempo ella passou
+ Com a lenha que encontrou!
+ Desprezada nos caminhos...
+ Nós somos mui pobrezinhos!
+ E eu, aqui, á lua, á farta.
+ Prompto. Acabo, aqui, a carta.
+ Adeus! são horas de eu me ir
+ Cear, rezar... e dormir.
+ Nossa-Senhora me ajude!
+ A minha Mãe não se illude
+ Com toda esta demora
+ Ella bem sabe, Senhora!
+ E lá torna a Mãe: Anrique
+ Queres que eu me mortifique?
+ Anda cear, não tens fome?
+ Jezus! Jezus! Santo Nome!
+ Eu bem sei e bem no entendo.
+ O que são Mães! Em me vendo
+ Quando todo me concentro
+ Que trago paixão cá dentro.
+ Isto já ha muitos mezes.
+ Mas nada diz. Só ás vezes
+ Quando não como e me deito
+ Assim... a tossir do peito,
+ Tambem não quer ella comer
+ E aventura-se a dizer:
+ «Amores--filho, paixões
+ Só trazem consumições»
+ E assim é, assim, Mãesinha!
+ Pois adeus, Senhora minha!
+ ..........................
+
+
+
+
+ Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa
+ Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.
+ É a hora em que Paris começa a louca vida
+ Na tragica cidade ao sol adormecida.
+ O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna
+ Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena
+ Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!
+ Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!
+ Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz,
+ Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz!
+ Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;
+ Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva
+ Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,
+ E assim de pranto e riso seu pão vae amassando;
+ Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores!
+ Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;
+ Paris que me acolheste n'agreste mocidade
+ Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade.
+ Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,
+ Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.
+
+ Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo
+ Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo
+ Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,
+ Que pela luz que tem não contam muitos annos.
+
+ E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo
+ Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.
+ .............................................
+
+
+ Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras
+ E quando no adro branco, as notas derradeiras
+ Perderam-se voando, julgou n'um som dorido
+ Reconhecer a voz do seu amor perdido!
+
+ São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios
+ Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!
+
+ .............................................
+ Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?
+ Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!
+
+ «Vi-te ha pouco rezando nas novenas
+ Ai tão linda, tão pallida, meu Deus!
+ Quaes são as tuas dores, as tuas penas,
+ Por quem levantas tuas mãos aos céus!
+
+ «Cantae, ó freiras Benedictinas,
+ Cantae, cantae,
+ Cantae novenas, cantae matinas,
+ Cantae, cantae.
+
+ «No Boul'Mich, os castanheiros da India
+ Começam a despir as folhagens, ao luar,
+ Que bellas armações, para galeras da India
+ Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!
+
+ «Tudo tão triste! todos tão tristes!
+ Olhae, são poucas todas cautelas
+ Doentes do peito, cuidado, ouvistes?
+ Tirae do armario vossas flanellas!
+
+ «Cantae o canto Gregoriano
+ Para eu chorar!...
+ Cantae ó freiras! durante um anno
+ Para eu... chorar!...
+
+ «Andam meus olhos luzitanos
+ A procurar-te,
+ Minha chymera! tenho vinte annos!
+ Eu quero amar-te!
+
+ «Ó sinos de toda a França
+ Cantae, cantae o meu mal,
+ Tão alto, essa voz não cança,
+ Que ella os oiça em Portugal!
+
+ «Cantae o canto Gregoriano
+ Para eu chorar!...
+ Cantae ó freiras durante um anno
+ Para eu... chorar!...»
+ ...................................
+
+
+
+
+ Morrera já o Sol; os altos castanheiros
+ Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros,
+ Os choupos retorciam os troncos já despidos,
+ Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos,
+ Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho,
+ Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.
+ A cruz meio inclinada parecia desmaiar
+ Perdida na côr pallida da luz crepuscular;
+ Eram mysterios da hora nervoza da tardinha
+ Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!
+ A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos,
+ Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos;
+ A hora em que o traidor por mais que faça esforços
+ Não póde em si calar o susto dos remorsos;
+ A hora em que se acende o lume nas lareiras
+ E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras;
+ A hora em que entristece na rua o caminhante,
+ E pára vendo o Sol cahir agonisante;
+ E as raparigas trémulas se vão fechar as portas,
+ Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!
+
+
+
+
+ Ó Senhora d'altas Espheras!
+ Castellã das minhas chymeras!
+ Ó meu amor!
+ Amor mystico, amor celeste
+ Que tu pelo Natal me deste,
+ Senhor! Senhor!
+
+ Sou forte agora, e temerozo,
+ Sou um rei Todo Poderozo
+ Senão olhae!
+ Só diante de ti me humilho
+ Senhor! Senhor! Sou teu filho
+ E tu meu Pae!
+
+ Venham armadas de Inglaterra
+ Venham as naus de toda a terra,
+ De todo o mar!
+ Que eu só por entre ellas e o Oceano,
+ Na minha nau a todo o panno,
+ Hei-de passar!
+
+ Venha o exercito da Allemanha,
+ Mais seus alliados, mais a Hespanha,
+ Hei-de vencer!
+ Tu és grande, és forte, Guilherme!
+ Tu és um mundo, eu sou um verme...
+ Vamos a vêr!
+
+ Venha uma immensa tempestade,
+ Caiam raios sobre a cidade,
+ Venham trovões!
+ Que eu irei só para as janellas,
+ Sem Santa-Barbara, sem velas,
+ Sem orações!
+
+ Soldados de Alsacia e Lorena!
+ (A bella França assim m'o ordena)
+ Vamos! Então?
+ Atirae balas aos meus peitos,
+ Que eu apanho-as, como confeitos,
+ Na minha mão!
+
+ Venham Philosophos, Douctores,
+ Venha Spinoza, outros maiores,
+ Gregos, Judeus;
+ Venham Estoicos, Pessimistas,
+ Cynicos, os Positivistas...
+ Eu creio em Deus!
+
+ Ó morte, minha amiga de outr'ora
+ Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!
+ Queres-me? Ah sim?
+ Cortei as relações comtigo
+ Ó vae-te! já não sou teu amigo,
+ Nem tu de mim!
+
+ Ó Luiz de Camões e da Esperança!
+ Ao pé de ti sou uma criança,
+ Mas ouve cá.
+ Vamos cantar ao desafio,
+ Á sua janella, sobre o rio,
+ Ver qual mais dá...
+
+ Ó troveiros de toda a parte
+ D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!
+ O que sois vós?
+ Minha lyra é do seu cabello,
+ E os meus versos, quereis sabel-o?
+ São a sua voz!
+
+ Ó vento cantante do Norte!
+ Minha lyra agreste é mais forte
+ Do que a tua!
+ Vinde todos, troveiros do ar,
+ Em desafio commigo a cantar
+ Por essa rua!
+
+ ....................................
+
+
+
+
+ Vem entrando a barra a galera «Maria»
+ Que vem de tão longe e tão linda que vem!
+ Toca em terra o sino p'ra missa do dia
+ Em frente, em Santa Maria de Belem!
+
+ Mareantes trigueiros no alto dos mastros,
+ Aí dobram as velas não são mais precizas!
+ Ai que lindas eram, ás luas e aos astros!
+ Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!
+
+ Desdobra as amarras! apresta a fateixa!
+ Pois todos em breve a nau vão deixar;
+ Ó terra! Que saudade a de quem te deixa
+ Ó terra! pela aventura do alto mar!
+
+ Entra o piloto e abraçam-se estes e aquelles.
+ Abraçam-se e riem tanto á vontade...
+ Abraços que levam almas dentro d'elles,
+ Sorrizos de boccas que fallam verdade!
+
+ Só as intende (capitães, não as sentís)
+ Quem, algum dia, passou as agoas salgadas
+ Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz
+ Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.
+
+ E «Maria» vae indo pelo Tejo acima,
+ E scisma Anrique: «Que lindo Portugal!»
+ Vem as nymphas, vae uma dá-lhe uma rima,
+ Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.
+
+ E Anrique scisma: «Quem não te viu ainda!
+ Ó minha Lisboa de marmore! Lisboa
+ De ruinas e de glorias! Tu és linda
+ Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!»
+
+ Ó minha Lisboa! com oiros tão constantes
+ Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus
+ Jeronymos dos Poetas e Mareantes!
+ Lisboa branca de João de Deus!
+
+ I
+
+ Ó Lisboa! n'um seculo bem perto
+ Quando a Africa e as Azias se mostrarem
+ Civilizadas, sem um só deserto,
+ E as esquadras do mundo inteiro entrarem
+ N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto,
+ Para dos grandes ventos descansarem,
+ Ó Lisboa (não são glorias chymericas)
+ Voltada sobre as Azias e as Americas!
+
+II
+
+ Porque é que Deus aqui te poz á entrada
+ Senão para destinos imperiaes?
+ Do mar da India a viração salgada
+ Respiral-a tu, antes dos mais.
+ A vêr és tu, primeira, a alvorada
+ E a ultima o sol nos fins occidentaes.
+ Lisboa! quando eras pequenina
+ Houve uma fada que te leu a sina?
+
+III
+
+ O que já foste tu, n'outras idades
+ Grande e famoza acima das Nações,
+ Tu de novo o serás, porque as cidades
+ Têm varias mortes e resurreições,
+ Outras infancias, novas mocidades,
+ Novas conquistas, outros galeões...
+ Ó coragens, ó coleras, tormentos,
+ Trovões, Indias, relampagos e ventos!
+
+IV
+
+ Velha Lisboa, minha mae-madrinha!
+ Tu voltarás a ser o que já foste,
+ E não, não cuides que é illusão minha,
+ Pois nenhuma já tenho a que me encoste!
+ Não sei quê dentro em mim m'o adivinha
+ Não sei que voz m'o diz de que eu mais goste.
+ E bem no sabes de bem longe: os Poetas
+ Não se enganam--são bruxos, são Prophetas!
+
+V
+
+ Lá onde escoa o Tejo, os Esculptores
+ De entre a agoa erguerão altos heroes
+ Poetas, Santos e Navegadores:
+ Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does,
+ Feridas de Astros! admiraveis flôres!
+ (Com auroras e poentes como os soes...)
+ Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil,
+ Pedr'Alvares, a mão para o Brazil!...
+
+VI
+
+ Vasco da Gama a apontar lá para onde
+ Nasce o sol, terra da sua India amada,
+ Outro a olhar lá, onde o sol se esconde,
+ Camões olhando triste a onda salgada;
+ Mas a onda passa, passa e não responde...
+ Que a leva o fado, vae muito apressada...
+ Todos tão vivos, os heroes colossos,
+ Que dir-se-ia que têm sangue e ossos.
+
+VII
+
+ E do seu forte, S. Julião, em summa,
+ Sobre toda esta gloria e esta magoa,
+ Luas conta a desfiar uma por uma,
+ (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa
+ E Ave Marias, de doirada espuma...
+ E os outros, no deserto d'essa fragoa
+ Pela noite o acompanham; e assim
+ Rezam todos por seculos sem fim.
+
+VIII
+
+ Eu confio em ti reza d'Heroes,
+ E confiar em ti, não é vaidade.
+ Vossos nomes de bronze são pharoes
+ Que luz darão, á nossa tempestade.
+ O nosso Rey... (cabello em caracoes!)
+ Já não dorme no Paço... Piedade!
+ Deixareis a Patria engrandecida
+ Por vossas mãos p'ra sempre ser vencida?
+
+IX
+
+ Côr do ceu a bandeira e côr de neve
+ Não a vejo na torre a fluctuar!
+ Senhor! Vós bem sabeis que o Rey não deve
+ Outras armas que a vossa apresentar.
+ Se assim deixaes que outro povo a leve,
+ Porque a déste ao nosso p'ra guardar?
+ Não é elle o mesmo que em Ourique
+ A acclamou nas mãos do teu Henrique?
+
+X
+
+ Anda tudo tão triste em Portugal!
+ Que é dos sonhos de gloria e d'ambição?
+ Quantas flores do nosso laranjal
+ Eu irei vêr cahidas pelo chão!
+ Meus irmãos Portuguezes, fazeis mal
+ De ter ainda no peito um coração.
+ Talvez só eu! (Amôr ai tu m'entendes!)
+ Possa ainda ter a paz que já não tendes.
+
+XI
+
+ Talvez só eu irmãos! mas é que a mim
+ Deve o Senhor as flores com que s'enfeita
+ A mocidade!... que é d'elle o meu jardim!
+ Dizei-me vós irmãos, na vida estreita
+ Toda a desgraça não terá um fim?
+ Se a ventura não póde ser perfeita
+ Tenho agora a Patria em sepultura!
+ Que mais quereis na taça d'amargura?
+
+XII
+
+ Virá, um dia, carregado de oiros,
+ Marfins e pratas que do céu herdou,
+ O rei menino que se foi aos moiros
+ Que foi aos moiros e ainda não voltou.
+ Tem olhos verdes e cabellos loiros,
+ Ah não se enganem, (ainda não chegou)
+ Virá El-Rey-Menino do Estrangeiro,
+ N'uma certa manhã de nevoeiro...
+
+XIII
+
+ Tem loiros os cabellos, e é criança,
+ Tem olhos verdes de luar nocturno:
+ Olhos verdes, são olhos de esperança!
+ Olhos verdes, são Luas de Saturno!
+ Veio da Africa mais a sua lança
+ Vae pr'o mundo, rezando taciturno.
+ Tão pobrezinho, olhae! estende a mão:
+ «Quem dá esmola a D. Sebastião?»
+
+XIV
+
+ Esperae, esperae, ó Portuguezes!
+ Que elle ha-de vir, um dia! Esperae.
+ Para os mortos os seculos são mezes,
+ Ou menos que isso, nem um dia, um ai.
+ Tende paciencia! finarão revezes;
+ E até lá, Portuguezes! trabalhae.
+ Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,
+ Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!
+
+
+
+
+ Lá vem, lá vem minha Amada,
+ Rainha de Portugal.
+ Vem com a capa estrellada,
+ Debaixo d'um palio real
+ Todo de seda vermelha,
+ Com saias de oiro e coral.
+ Vê o povo que ajoelha
+ E faz o «pelo signal!»
+
+ Que linda é! que formoza!
+ Que graça ella tem a andar!
+ Pagens vestidos de roza
+ Vão á frente a encaminhar,
+ Tirando as pedras da rua
+ Não vá ella tropeçar,
+ Tão leve, parece a Lua,
+ Tão leve que vae no ar!
+
+ Vinde vêr, vinde ás janellas,
+ Meninas de Portugal!
+ Deixae o bordado, as telas,
+ Deixae a agulha e dedal.
+ Não temaes a feia inveja
+ Vinde vêl-a cada qual.
+ E que em honra d'ella seja
+ Esta noite o arraial.
+
+ Sua belleza é tamanha
+ Que pertence a Portugal.
+ Como obra de arte, extranha,
+ É um poema, é uma cathedral.
+ Aos Luziadas semelhante,
+ Aos Jeronymos egual,
+ Onde os poetas e o mareante
+ Dormem o somno final!
+
+ Nem Mafra com seu convento
+ Tem maior a altivez
+ ..............................
+ Não se esquece, visto uma vez!
+ Seu corpo é uma obra de graça
+ E de que suave pallidez!
+ A minha amada é a Alcobaça
+ Onde jaz a linda Ignez!
+
+ É fidalga de nascença,
+ Mais do que os Reis, do que vós.
+ Já poetas na Renascença
+ Cantaram seus bisavós.
+ Mas mais fidalga é ella ainda
+ Por sua alma (sem Avós).
+ Ah! lá vem ella tão linda
+ E vem rezando por nós!
+
+ A minha Amada é fidalga
+ Que tem no mar seus brazões.
+ Tem na bocca aromas de alga
+ Brizas da India e outras regiões,
+ O que prova d'onde vejo
+ Já no tempo de Camões
+ Era sobrinha do Tejo
+ E prima dos Galeões!
+
+ É toda de cazos bellos
+ A tua nobreza fina,
+ Toda torres e castellos
+ Com legendas de menina.
+ Excedes Reis e Prophetas
+ ........................
+ Menos os Santos e Poetas
+ Que têm costella divina!
+
+
+
+
+ --Quatorze luas já foram passadas,
+ Desde que eu a perdi e ao seu amor;
+ Meu coração tem ainda as janellas fechadas,
+ Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.
+
+ O POVO
+ Chymeras tombadas! Chymeras tombadas!
+
+ --A sorte deu-me já cabellos pretos
+ Ai não precizo de os enluctar.
+ --«Mas olhe as brancas... meu senhor»
+ O branco é lucto, podes, Ama, descançar!
+
+ O COVEIRO
+ O branco é lucto: são brancos os esqueletos!
+
+ --Ó illuzões que em ti puz tão amigas!
+ Oh! a esperança que em minha alma é morta!
+ Antes eu te visse cobertinha de bexigas
+ Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta...
+
+ TODOS
+ Antes a visses morta!
+ Antes a visses morta!
+
+ --Dei-te o meu coração a ti, bella entre todas,
+ Coração, que a ninguem ainda se dobrara,
+ Chego do mar, venho assistir ás tuas bodas,
+ Ah! no mar salgado, porque não ficára.
+
+ UM PASTOR
+ Toca a noivado em Santa Clara
+ Dobra a defuntos tres legoas em roda!
+
+ --Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna,
+ Meu Lar por terra! sem ninguem na multidão.
+ Fiquei na vida só, como o Conde de Luna,
+ Mais sua espada. Ai do meu pobre coração!
+
+ (Meu coração calla-te ou falla baixo: massa
+ Os mais a nossa dôr. Sim calla-te é melhor)
+ A procissão das Dôres em mim sinto que passa
+ E passa... e passa... e cada vez será pior.
+
+ THEREZA
+ Não que o fim d'uma desgraça
+ É o começo d'outra maior!
+
+ --Parti um dia, n'uma romagem,
+ Levando a Esponja, o Fel, a Cruz!
+ Regresso altivo d'essa viagem
+ Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz)
+
+ THEREZA.
+ Senhor Douctor, tenha coragem
+ Olhe que mais soffreu Jesus.
+
+ --E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa,
+ Meu Lar em pó, o amor d'ella já não é o meu.
+ Minhas camizas, hoje, são de estopa,
+ Foram de seda... Que vejo eu!
+
+ OS VIZINHOS
+ Foste á pandega por essa Europa,
+ Ahi tens o pago que o Senhor te deu!
+
+ O mundo deu-me cabellos pretos
+ Ai não precizo de os enluctar!
+ ...................................
+ E mais em breve porque vou cegar...
+
+ UM CEGO
+ A Anrique ceguinho dirão
+ Olhe não vá tropeçar...
+
+ --Amar a ella e d'ella ser amado,
+ Ir em breve pedir a sua mão!
+ E de repente tudo escangalhado!
+ Ai que desgraça! como os outros são!
+
+ THEREZA
+ E que menino tão estimado!
+ E tudo n'elle é perfeição!
+
+ --«Anrique meu amor, filho de Porto-Calle!»
+ Me dizia ella... Ai do meu coração!
+ Amor já me não tem, não ha já Portugal...
+ E que vejo, Senhor! de ruinas pelo chão!
+
+ OS MENDIGOS
+ Tantos vadios sem nada na mão
+ Sempre á espera de D. Sebastião.
+
+ --Ó D. Sebastião a ti comparo,
+ El-Rey de Portugal, a minha sorte,
+ Se te encontrasse na vida, serias meu amparo,
+ Ser-m'o has talvez depois da morte.
+
+ D. Sebastião, rey dos desgraçados,
+ D. Sebastião, rey dos vencidos,
+ El-Rey dos que amam sem ser amados
+ El-Rey dos genios incomprehendidos.
+
+
+
+
+ Sahi, um dia, a barra á procura da gloria,
+ Entre soluços e orações, cuja memoria
+ Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno,
+ Que linda! O mar espreguiçava-se com somno...)
+ Por essa barra sahem, cheios de peccados,
+ Bandidos com seus crimes e mais os degredados,
+ Traidores á Patria e ao Rey, infelizes e ladrões.
+ Por lá sahiu, tambem, n'uma noite, Camões.
+ No barco em que segui viagem nessa agoa,
+ Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa
+ E mais um sacco de Dôr que por lá me ficou.
+ De volta trago tres, que aquelle não chegou.
+ Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo.
+ Não lhes quero mal, seu erro é tão profundo!
+ ............................................
+ ............................................
+
+ Todos partiram, todos fugiram.
+ Os ladrões assaltaram-me á estrada
+ Quizeram-me matar. Não conseguiram.
+
+ Ninguem me resta, não me resta nada!
+ Fui enganado nos meus leaes amores.
+ Já tive de salvar a minha vida á espada.
+
+ No meu jardim semiei lilazes,
+ Passado tempo vi nascer ortigas;
+ Cada dia que nova dôr me trazes?
+
+ Lavrei canduras e colhi intrigas,
+ Nasceram odios onde puz perdões.
+ Não digas mais meu coração! não digas
+
+ Procreei gigantes vi nascer anões,
+ Plantei nesta alma vinhas da piedade
+ E vindimei, Senhor! Ingratidões!
+
+ Nunca se deve ter tanta bondade,
+ Quando é excessiva e tanto dó inspira
+ E uma falta até de dignidade.
+
+ Ora eu assim cercado de mentira,
+ Longe de tudo e todos, e enganado
+ (Quando se foi tão criança o que admira!)
+
+ Vi-me sem Deus, só, triste e em tal estado
+ Que se o contasse chorarieis... Não!
+ Não falta em que empregar pranto salgado.
+
+ Que infortunio, meu Deus! que decepção!
+ Minha crença catholica perdi-a,
+ Já não sei persignar-me com a mão.
+
+ Durante mezes, sempre, dia a dia,
+ Ainda fui, por habito, á Igreja:
+ Não sabia rezar a Ave-Maria!
+
+ Chegava ainda até «bemdita sejas...»
+ E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim
+ Córava de pudor como as cerejas.
+
+ Nunca na Terra se viu nada assim!
+ Minha vida mudou-se de repente.
+ A tosse veio... vós sabeis o fim.
+
+ Foi a queda do Imperio do Occidente!
+ Foi o desastre de Alcacer-Kibir!
+ A Hespanha veio com Philippe á frente!
+
+ Que mais viria e estava para vir?
+ E fui a França consultar um Bruxo
+ Que eu já de ha muito desejava ouvir.
+
+ Á porta havia uma cruz de hera e buxo
+ E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa,
+ Erguia-se em girandola um repuxo.
+
+ Bolas de sabugueiro á mercê da agoa
+ Iam e vinham, graças de meninos,
+ Ascenções de prazer quedas de mágoa!
+
+ Era a sorte a brincar com os destinos...
+ Não deixava de ter engenho o dianho
+ Do Bruxo! Mas que symbolos tão finos!
+
+ Entrei. E vi um Velho alto, tamanho,
+ De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos.
+ --Sois vós o Bruxo?--«Sim! esse é o meu ganho!»
+
+ Tinha um sorrizo que só têm os velhos.
+ E os labios brancos (de quem já não ama)
+ Que contrastavam com os meus, vermelhos.
+
+ --Venho de longe, aqui, por vossa fama.
+ Vosso nome chegou ao meu paiz.
+ --O teu paiz, Senhor! como se chama?
+
+ Não: dá-me a mão, ella melhor m'o diz:
+ «Oh vens de Portugal? Oh se o conheço!
+ Manda-me para cá muito infeliz...»
+
+ Ouvindo taes palavras, estremeço.
+ N'elle fixo os meus olhos de admirado
+ E que me diga os fados eu lhe peço.
+
+ Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado,
+ N'uma cadeira antiga, ao pé do lume.
+ Eu assentei-me timido, ao seu lado.
+
+ Ó momento que um seculo resume!
+ O São Paulo do Amôr! Martyr christão,
+ Que ao vêr a espada já lhe sente o gume!
+
+ Na sua mão tomou a minha mão.
+ Seus olhos frios crava-mos na palma,
+ Mas de repente muda de expressão.
+
+ Que passado, Senhor! tem dó d'esta alma!
+ Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!...
+ Mas eu logo acudi, com grande calma:
+
+ --Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo.
+ Eu conhecia-o já antes de vós.
+ P'ra que lembrar-m'o? Sêde meu amigo!
+
+ N'uma sala contigua, etherea voz
+ Rezava a ladainha, eram mulheres.
+ --«_Estrella da manhã!--ora por nôs!_»
+
+ --«Nada te digo, pois que assim o queres!
+ Ouves? Lá dentro, rezam minhas filhas.
+ E rezarão o tempo que quizeres.»
+
+ E continuou a lêr: «Que maravilhas!
+ Que mão extranha! mão de tempestade!
+ Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!
+
+ Vaes em meio da tua mocidade.
+ Tens vindo em tua nau, desde criança,
+ Por um sombrio mar da antiguidade.
+
+ Agora, aqui, o temporal descança
+ E vê: segundo a altura do quadrante
+ Dobras o Cabo da Boa-Esperança!
+
+ Coragem! meu sombrio navegante!
+ Paciencia! mais um pouco e aportarás
+ Á India! mais tua esquadra de almirante!
+
+ Alli, te aguardam Bens te espera a Paz
+ A boa Gloria e mais do que isso, até,
+ Um grande amor,--e alli te coroarás!»
+
+ O Velho disse. E, logo, puz-me em pé.
+ Mui feliz, não querendo ouvir o resto,
+ Que eu sei o vasio que este mundo é.
+
+ Adeus! disse eu áquelle sabio honesto,
+ Formozo e de olhos grandes como céus!
+ Adeus! e parti logo, altivo e presto.
+
+ Caía o sol no oceano. Orei a Deus.
+ Uma nau me esperava... Erguemos ferro
+ E abalamo-nos de França. Adeus! Adeus!
+
+ Que peccado Senhor! ou grande erro
+ No mundo commetti que me dás tantos
+ Trabalhos, como na Africa em desterro?
+
+ Não posso ser bem sabes como os Santos.
+ Mas quantos homens neste mundo avisto
+ Tão felizes (e maus!) quantos e quantos!
+
+ E se não fui eu que pequei, ó Christo!
+ Peccariam os meus antepassados?
+ Quem foram elles? Vem contar-me isto!
+
+ Religiozos, maritimos, soldados?
+ E justas são as leis com que me aterras
+ Sendo elles os unicos culpados?
+
+ Na Arabia, na Phenicia ou outras terras
+ Cauzaram, vae em seculos, paixões
+ Fomes e sedes, ou atearam guerras?
+
+ Comeu a terra os ossos d'esses leões,
+ As suas cinzas foram-se nos ventos
+ E eu soffro, apoz quinhentas gerações?
+
+ Que injusta couza! que desleaes tormentos!
+ Que faz rezar, á noite, de mãos postas,
+ De que serve cumprir teus mandamentos?!
+
+ Quem sabe se não foram meus avós,
+ Senhor! Que tanto e tanto te offenderam,
+ Mas meus archi-primeiros bisavós?
+
+ Quando os vulcões da terra arrefeceram,
+ E lentamente, aos poucos, e as primeiras
+ Effloraçoes da vida appareceram;
+
+ Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras
+ E uivando, á lua, e destruisse as mattas
+ Que levaste a criar noites inteiras!
+
+ Talvez, no dia em que baixaste
+ Á terra, para ver a tua obra
+ Vestido d'alvas vestes como pratas,
+
+ Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra
+ Occulta entre jasmins que te mordeu...
+ Quando ias a colher algum... de sobra!
+
+ Outrora o sol ardia no alto céu,
+ Pediste sombra á arvore n'um monte
+ Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!
+
+ Quando o sol caía, á tarde, no horisonte,
+ Todo vermelho como agora, vêde!
+ Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,
+
+ E eu (que era agoa) não quiz matar-te a sede!
+ Quem sabe se uma vez, pela noitinha,
+ Foste ensaiar o mar, deitando a rede,
+
+ E cobiçou o peixe que lá vinha
+ E t'a furtou, (brinquedos de criança!)
+ Alguma onda do mar, minha avósinha?
+
+ Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rança!
+ Como devo soffrer perseguições?
+ (Eu concordo) é legitima vingança?
+
+ Ah não! eu não descendo de leões
+ Nem da vil cobra que se vae de rastros,
+ Que só concebe e dá á luz traições!
+
+ Nem dos pinheiros altos como mastros
+ Nem das agoas que vão regando os milhos:
+ Nós os poetas descendemos de astros,
+
+ Nós os poetas, Senhor! somos teus filhos!
+ ... Assim scismava eu pelo mar alto
+ Sob o luar partindo-se em vidrilhos...
+
+ Quando n'uma manhã de azul cobalto,
+ Ao acordar, me vi no claro Tejo
+ Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.
+
+ Mezes passaram, longos! que nem vejo
+ Que differença em seculos, ou mezes:
+ O tempo marca-o a ancia do Desejo!
+
+ Que fazia eu? Nada. Scismava, ás vezes,
+ Errante, ao «Deus-dará» da vida:
+ Sempre assim fomos nós, os Portuguezes!
+
+ Ora em dia de Santa Apparecida
+ (Mais uns minutos, esperae, Senhores,
+ Que eu acabo esta historia tão comprida),
+
+ Errava n'um montado entre pastores
+ Quando, subito, vi uma Donzella
+ Tão linda! n'um Solar, colhendo flôres.
+
+ Oh doçura de carne ou de estrella!
+ Que esvelteza e que graça de alfenim!
+ Meu coração disse-me baixo: «É ella!»
+
+ Qual de vós, Homens! Já não teve assim
+ Uma vizão, vendo erguer-se entre
+ Nuvens, a vossa torre de marfim?
+
+ Deixae que a minha alma se concentre.
+ Deixae! que esse dia é maior que quando
+ Minha Maesinha me pariu do ventre.
+
+ Quedei-me, ao vêl-a, em extasis olhando.
+ Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei;
+ Meus labios moviam-se... rezando!
+
+ Quem será ella? a filha d'algum Rey?
+ Atraz seguiam-na duas aias velhas:
+ Quem será ella, quem será? Não sei.
+
+ Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas
+ Voavam, ao sol, emquanto ella lia
+ Um livro de horas com folhas vermelhas.
+
+ Que paz! nem uma arvore bulia!
+ E callavam-se as fontes! Que doçura!
+ Mas de repente uma voz chamou: «Maria!»
+
+ Maria se chamava! Oh que ventura!
+ Partiu. Eu quiz seguil-a, mas não pude!
+ Que torpor esse que ainda hoje dura!
+
+ A virgem me proteja e Deus me ajude!
+ Vae alta a noite, eu caio de fadiga,
+ Bambas as cordas do meu velho alaúde!
+
+ Ó Genio, não te partas sem que eu diga
+ O encanto, mais a graça encantadora
+ D'aquella virgem Castellã antiga.
+
+ Minha fronte vergou-se, scismadora:
+ --Quem será ella, mystica vizão!
+ Parece com seu Ar Nossa Senhora!
+
+ Mas eu já tive tanta decepção
+ (Lêde, lêde, o principio d'esta historia)
+ Que contive essa subita paixão.
+
+ Tudo na Vida engana, até a Gloria.
+ Para deixar de o crêr fôra preciso
+ Lavar no Lethes minha fiel memoria.
+
+ Assim pensava eu, meio indecizo,
+ Quando na estrada junto a mim passava
+ Um velhinho a rezar ao Paraizo.
+
+ N'um cajado de lodo se apoiava.
+ E detinha-se, ás vezes, um momento,
+ Erguia ao céu o olhar, e suspirava.
+
+ As barbas brancas, fluctuando ao vento;
+ Devia ter um seculo de idade
+ E talvez vinte ou mais de soffrimento!
+
+ Parou ao vêr-me e olhou-me com bondade:
+ Depois na sua voz meiga de briza:
+ --Uma esmola, Senhor, por caridade!
+
+ Uma lembrança dentro em mim se enraiza.
+ --Dou-te, bom velho! tudo que quizeres,
+ Se em troca me dás vestes e camiza.
+
+ O velhinho sorriu como as mulheres.
+ A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha,
+ Que na botoeira tinha malmequeres...
+
+ Ninguem a essa hora pela estrada vinha.
+ Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito.
+ E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.
+
+ Mas não estava ainda satisfeito,
+ As suas barbas brancas eu queria,
+ Comprar-lh'as era falta de respeito!
+
+ Comprar-lh'as nunca eu me atreveria!
+ Mas o bom velho o pensamento ouviu,
+ Que aquelle olhar excepcional ouvia.
+
+ Ó grandes barbas! que ainda ninguem viu!
+ Ó grandes barbas! como eram bellas!
+ Tal como outrora as de D. João, em Diu!
+
+ --Não lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as?
+ Ó povo portuguez! quanto és sympathico!
+ Ó povo portuguez das caravellas!
+
+ Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico.
+ Beijei-lhe as mãos curvado... E o bom velhinho
+ Lá se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...
+
+ O sol cahia ao longe no caminho!
+ Não tarda a noite, já lhe sinto os passos,
+ Mas ha tempo: ella anda devagarinho.
+
+ Enfarpellei sem grandes embaraços;
+ A toillete tem poucos elementos,
+ Muitos remendos sim, rotos os braços...
+
+ Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos;
+ «Que nome tens, amigo?» lhe gritei.
+ «Manoel». E digo eu, «dos Soffrimentos».
+
+ Cahia a noite: com pressa caminhava.
+ Segui os passos deixados por Maria
+ Que flôres na mão, andando, desfolhava.
+
+ Não era aviso que assim daria?
+ O meu olhar teria percebido?
+ Que luz d'esperança a minha alma via!
+
+ Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido
+ Irão achar o pobre esfarrapado!
+ Um mendigo velho... e tão mal vestido!
+
+ Pedi esmola e parei sobresaltado.
+ Emquanto alguns me enchiam a saccola
+ Um olhar lindo em mim era fixado.
+
+ E que olhar p'ra mim! tanta doçura evola!
+ Senhores, eu não me tinha enganado...
+ (Assim julguei então... a Vida foi-me escola!...)
+
+ Ella passou, de manso, para o meu lado
+ E murmurou o meu nome, assim, baixinho...
+ Disse-me depois que o houvera sonhado!
+ ..........................................
+ ..........................................
+
+ THEREZA
+
+ --«E depois, menino, sabemos já o resto...
+ Para que mortifica assim o coração?»
+
+ --Ai minha Thereza! tu tens talvez razão:
+ Esse amor primeiro foi-me tão funesto!
+
+ O os meus dias idos em contemplação!
+ O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe!
+ Fallava eu ás flôres, como se ella fosse:
+ «Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.
+
+ Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal!
+ Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos!
+ Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos,
+ Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.
+
+
+
+
+ --Quem é, Thereza, que bate á porta
+ Quem vem a esta hora quebrar meu somno?
+ --Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta,
+ São folhas a cahir, que é já outomno...
+
+ «Quando eu era moça e menina,
+ A-i-ó-ái!
+ Um velho, um dia, leu-me a sina.
+ Ha que tempos que isso lá vae!
+ A-i-ó-ái!»
+
+ (O vento continua uivando).
+
+ --Quem é, Thereza, que oiço clamores,
+ Vae vêr á porta, vae n'um instante!
+ --Socegue, durma, são os lavradores,
+ Que passam para a feira d'Amarante...
+
+ E vá de roda! e vá de roda!
+ Olé!
+ E vira e vira e já virou!
+ E na tarde da minha boda
+ Houve baile, houve baile, olé!
+ Tomou parte a aldeia toda,
+ E vá de roda! e vá de roda!
+ Olé!
+
+ (O vento uiva sempre).
+
+ --Quem é, Thereza? quem é, Thereza?
+ Quem é, Thereza, que bate á porta?
+ --Olhe a Fortuna não é com certeza,
+ Por isso... durma, durma, que lhe importa?
+
+ (O vento uiva, uiva).
+
+ --Não ouves, Thereza, tres pancadinhas?
+ Vae vêr: é a D. Felicidade.
+ --Mas as senhoras não sahem sósinhas
+ N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...
+
+ Durma menino, a dormir
+ Não soffre tanta paixão,
+ Os sonhos que lhe hão de vir
+ Afasto-os eu, com a mão.
+
+ Durma menino, a dormir
+ Não ouve o seu coração,
+ E p'ra o ajudar a dormir
+ Eu canto-lhe uma canção:
+
+ Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo,
+ Um moço Rey... de lindos olhos verdes;
+ (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes,
+ Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)
+
+ Andava o moço Rey com seu gibão
+ De prata branca, reluzente d'oiros.
+ Tinha em anneis os seus cabellos loiros,
+ No céu era anjo e cá... Sebastião.
+
+ (O vento geme, geme sempre).
+
+ --Quem é, Thereza? quem é, Thereza?
+ Não ouves passos, que vão pela serra
+ Não ouves gritos, quem é, Thereza?
+ --É D. Sebastião que vae para a guerra.
+ .......................................
+ .......................................
+
+
+
+
+ Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
+ D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes,
+ E a chuva tomba sem parar um só momento,
+ A chuva que parece de pontas de alfinetes,
+
+ Por uma tarde triste assim, é que Anrique
+ Partiu. De novo abandonou o seu solar.
+ Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique,
+ E Thereza bem faz tambem pelo guardar.
+
+ Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,
+ Anrique foi bater á porta d'um convento.
+ Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar.
+ «Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».
+
+ Frades! meus Frades! ai abri-me a porta!
+ Abri-me a porta, que eu pretendo entrar.
+ Eu trago a alma toda ferida, morta,
+ Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!
+
+ Ha quantos annos vós estaes fechados
+ N'estas muralhas de granito e cal!
+ Ah se soubesseis, Frades corcovados!
+ O que vae lá por fóra, em Portugal!
+ ...................................
+
+
+
+
+ Anrique, até que emfim cedes ás magoas!
+ Até que emfim eu vejo-te chorar!
+ Chorae, chorae, ó longos fios de agoas!
+ Ó olhos grandes como os globos do Ar!
+
+ Ah chora Anrique, chora nos meus braços
+ O moço Poeta que te está a cantar!
+ Choremos entre beijos, entre abraços,
+ Tambem eu choro por te vêr chorar!
+
+ Ah chora Anrique, chora, não te escondas!
+ Tens pudor que te venham encontrar?
+ Choram os cannaviaes, choram as ondas,
+ Só os cynicos não podem chorar!...
+
+ Ah chora, Anrique, chora no meu peito,
+ Assim baixinho, lento, devagar!
+ Custa-te muito? não estás affeito!
+ Chora, meu filho, que é tão bom chorar!
+
+ Anrique ouve-me bem, minha criança!
+ Nem tudo se perdeu com o teu Lar.
+ Ainda tens na vida uma esperança...
+ Meu pobre Anrique, és tão lindo a chorar!
+
+ Teu coração está morto, bem morto.
+ Nada no mundo o poderá salvar.
+ Ah! moço que tu és, que desconforto!
+ Tens razão, oh se tens! para chorar!
+
+ Tens razão, Anrique; mas no emtanto,
+ Quem soffreu como tu sem descançar,
+ Anrique, ou dá n'um cynico, ou n'um santo:
+ Não és cynico, não, sabes chorar.
+
+ Ouve-me, Anrique: n'esses céus existe
+ Um homem, Pae da Terra e mais do Mar,
+ Que fez o Mundo (por signal tão triste)
+ E os olhos, não p'ra o vêr, mas p'ra chorar.
+
+ Vá! offerece-lhe a tua mocidade.
+ Vá! vae soffrer por elle e trabalhar.
+ Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade...
+ Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?
+
+ Não tens na vida uma alma amiga
+ (Tu bem no sabes) para te amparar.
+ Só eu, embora curvo de fadiga,
+ Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!
+
+ Todos os mais, malvados e egoistas,
+ (Que tudo a Deus, um dia, hão de pagar)
+ Não te poriam nem sequer a vista,
+ Fugiriam, ao verem-te chorar!
+
+ A adversidade é uma maravilha
+ Que certas almas sabem respeitar,
+ Mas aos olhos dos mais a dôr humilha...
+ Ah quanto é grande vêr um rei chorar!
+
+ Ah pensa, pensa bem na tua sorte,
+ Cautela, Anrique, nada de brincar.
+ Ha outros males piores do que a morte,
+ Cautela, Anrique, vamos trabalhar.
+
+ Vae trabalhar por Deus.--«Mas como e aonde?
+ Não vos disse que morto é Portugal?
+ P'r'o trabalho quem antes era conde!»--
+ --Ai meu Anrique, não te fica mal!
+
+ Não me dizes que lá por Portugal
+ Andam as almas todas quebrantadas?
+ Vae, meu filho, vae para Portugal
+ Vae levantar as flores, já tão quebradas.
+
+ Anda, meu filho: vae dizer baixinho
+ A esse povo do Mar, que é teu irmão,
+ Que não fraqueje nunca no caminho,
+ Que espere em pé o seu D. Sebastião.
+
+ Anrique, vae gritar por essa rua
+ --Virá um dia o «Sempre-Desejado»!
+ Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua,
+ Esquece n'elle todo o teu passado.
+
+ Procura bem Anrique, em Portugal;
+ Procura-o na flôr das primaveras,
+ Procura-o na sombra do olival;
+ Procura á luz de todas as chymeras...
+ .....................................
+ .....................................
+
+
+
+
+INDICE
+Pag.
+ Prefacio 5
+ I.--Sonetos:
+ 1 a 25 3 a 27
+ II.--Outras Poesias:
+ Eu chegára de França 31
+ Ladainha da Suissa 33
+ Confissão d'uma rapariga feia 37
+ Affirmações religiosas 39
+ Ares da Andaluzia 41
+ Contas de rezar 45
+ A Ceifeira 50
+ Sensações de Baltimore 51
+ Ao Mar 52
+ Dispersos 53
+ III.--O Desejado 61
+
+
+_Acabou de se imprimir este livro aos dezoito de março de 1902 segundo
+anniversario da morte do Poeta_
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
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+will be renamed.
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
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+
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
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+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
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+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
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+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
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+ <title>Despedidas: 1895-1899, por António Nobre</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Despedidas: 1895-1899
+
+Author: António Nobre
+
+Release Date: December 15, 2008 [EBook #27535]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div class="capa">
+<h2>ANTONIO NOBRE</h2>
+
+<h1>Despedidas</h1>
+
+<h3>1895-1899</h3>
+
+<h4>Prefacio de José Pereira de Sampaio (<i>Bruno</i>)</h4>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>PORTO</i></p>
+
+<p>1902</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="text-align:center;"><img src="images/antonionobre.png" border="0" alt="Foto de António Nobre"></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>DESPEDIDAS</h1>
+
+<p style="text-align:center;">DO MESMO AUCTOR:</p>
+
+<p style="text-align:center;">Só (2.ª edição, illustrada), Paris, 1898.</p>
+
+<p style="text-align:center;">NO PRÉLO:</p>
+
+<p style="text-align:center;"><i>PRIMEIROS VERSOS</i></p>
+
+<p style="text-align:center;">Prefacio de Justino de Montalvão</p>
+<hr style="text-align:center;">
+
+<p style="text-align:center;">D'este livro, publicado por Augusto Nobre,
+tiraram-se dois mil exemplares</p>
+<hr style="text-align:center;">
+
+<p style="text-align:center;">Direitos reservados</p>
+
+
+<p style="text-align:center;"></p>
+
+<div class="capa">
+<h2>ANTONIO NOBRE</h2>
+
+<h1>Despedidas</h1>
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+<h3>1895-1899</h3>
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+<h4>Prefacio de José Pereira de Sampaio (<i>Bruno</i>)</h4>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><i>PORTO</i></p>
+
+<p>1902</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span
+class="pagenum"><a name="pagV" id="pagV">[V]</a></span>A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de
+Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que
+acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os
+fragmentos, ao deante publicados, do poema <i>O Desejado</i>, hesitei
+grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas
+malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas
+linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade
+condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões de recommendação
+ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente conhecido; está
+decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco não conseguiria
+senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fôsse a
+impulsional-o.</p>
+
+<p>Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria
+aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me
+convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo irmão e pelo
+companheiro.</p>
+
+<p>Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o
+conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle
+moço ignorado então.</p>
+
+<p>Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um
+volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o
+titulo generico e designativo de <i>Um bouquet de sonetos.</i><span
+class="pagenum"><a name="pagVI" id="pagVI">[VI]</a></span> Eu lêra as composições contidas na sympathica
+collecção e prestei preferente cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade
+ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio
+Nobre, nôme que eu havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias
+de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino.
+Fundára, por esse tempo, um diario de propaganda politica <i>A Discussão</i>;
+na secção litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que
+me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas
+affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero
+artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a
+monotonia acre das acerbas recriminações partidarias, indiquei o nôme do
+joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito.</p>
+
+<p>Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce,
+ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu
+gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva
+sua imaginação, ardorosa e melancholica!</p>
+
+<p>Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o
+escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume <i>Só</i>,
+como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma
+affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz
+redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista
+portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o
+lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me procurou,
+abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam
+penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente.
+Esta visita sensibilisou me; como me encantou<span
+class="pagenum"><a name="pagVII" id="pagVII">[VII]</a></span> a conversação do poeta, pelo tom subtil da
+melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma
+em carne viva, como a minha por então andava.</p>
+
+<p>Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de
+volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle.
+Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o poeta
+e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperança
+tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.</p>
+
+<p>Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto,
+fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas
+como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu
+estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu
+caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.</p>
+
+<p>Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um
+orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras
+encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.</p>
+
+<p>Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão
+está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e
+expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a
+fazer uma referencia ao titulo do volume, <i>Despedidas</i>. Este titulo foi
+escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.</p>
+
+<p>Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no
+ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se
+viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de
+<i>Despedidas</i>, significando este a sua retirada da vida litteraria;<span
+class="pagenum"><a name="pagVIII" id="pagVIII">[VIII]</a></span> mas mais tarde deu a perceber claramente que
+assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido
+a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da
+data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de
+passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente <i>O
+Desejado</i>, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos,
+o poeta tinha todo <i>in mente</i>, mas muito incompleto nos seus cadernos de
+apontamentos.</p>
+
+<p>D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos
+que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui
+ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a
+sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma
+herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não
+fosse assaz respeitada.</p>
+
+<p>Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer
+reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou
+sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque
+não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja
+inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira
+critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que
+o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre,
+cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as
+mais accentuadas da nova geração portugueza.</p>
+
+<p style="text-align:right;"><span class="small-caps">José Pereira de
+Sampaio</span> (<i>Bruno</i>).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pagenum"><a name="pag1" id="pag1">[1]</a></span></p>
+
+<h1>SONETOS</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pagenum"><a name="pag3" id="pag3">[3]</a></span></p>
+
+<h2>1</h2>
+
+<h2>Logica</h2>
+
+<blockquote>
+ Ai d'aquelles que, um dia, depozeram<br>
+ Firmes crenças n'um bem que lhes voou!<br>
+ Ai dos que n'este mundo ainda esperam!<br>
+ Terão a sorte de quem já esperou...<br>
+ <br>
+ Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram<br>
+ Oiro e papeis que o vento lhes levou!<br>
+ Ai dos que tem, que ainda não perderam,<br>
+ Que amanhã, serão pobres como eu sou.<br>
+ <br>
+ Ai dos que, hoje, amam e não são amados,<br>
+ Que, algum dia, o serão, mas sem poder!<br>
+ Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados<br>
+ <br>
+ Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!<br>
+ Ai dos que morrem, que lá vão levados!<br>
+ Ai de nós que ainda temos de viver!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Pampilhoza, 1895.<span class="pagenum"><a name="pag4" id="pag4">[4]</a></span></p>
+
+<h2>2</h2>
+
+<h2>Ao Cahir das Folhas</h2>
+
+<h4>A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA</h4>
+
+<blockquote>
+ Podessem suas mãos cobrir meu rosto,<br>
+ Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,<br>
+ Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,<br>
+ Eu me fôr viajar para o Sol-posto.<br>
+ <br>
+ De modo que me faça bom encosto,<br>
+ O travesseiro comporá com geito.<br>
+ E eu tão feliz! por não estar affeito,<br>
+ Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.<br>
+ <br>
+ Até com gosto, sim! Que faz quem vive<br>
+ Orpham de mimos, viuvo de esperanças,<br>
+ Solteiro de venturas, que não tive?<br>
+ <br>
+ Assim, irei dormir com as crianças<br>
+ Quazi como ellas, quazi sem peccados...<br>
+ E acabarão emfim os meus cuidados.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Clavadel, outubro, 1895.<span class="pagenum"><a name="pag5" id="pag5">[5]</a></span></p>
+
+<h2>3</h2>
+
+<h4>Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS</h4>
+
+<blockquote>
+ Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra<br>
+ Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes<br>
+ Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)<br>
+ Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...<br>
+ <br>
+ Oh o encanto da viagem seductora!<br>
+ Que bem me disse então dos Portuguezes!<br>
+ Que faria hoje! foram-se os revezes!<br>
+ O que lá vae pela Africa, Senhora!<br>
+ <br>
+ Depois, ao separarmo-nos no Tejo,<br>
+ Disse-me (com que voz e com que modos!)<br>
+ «Deus o faça feliz, ao seu desejo!»<br>
+ <br>
+ Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo...<br>
+ Porque afinal os homens quazi todos<br>
+ Têm sido e são muito mais maus do que eu...<br>
+</blockquote>
+
+<p>St. Johann Am-Platz, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag6" id="pag6">[6]</a></span></p>
+
+<h2>4</h2>
+
+<blockquote>
+ Nossos amores foram desgraçados,<br>
+ Desgraçada paixão! tristes amores!<br>
+ Se Deus me dá assim tamanhas dores,<br>
+ É porque grandes são os meus peccados.<br>
+ <br>
+ Quando virão os dias desejados?<br>
+ Quando virá Maio para eu vêr flores?<br>
+ Nunca mais! ainda bem, santos horrores!<br>
+ Que os pobres dias meus estão contados.<br>
+ <br>
+ Passo os dias mettido no meu moinho,<br>
+ E móe que móe saudades e tristezas,<br>
+ Moleiro que no mundo está sósinho.<br>
+ <br>
+ Os lavradores destas redondezas<br>
+ Queixam-se até de que a farinha á data<br>
+ Tanta é que «está de rastos de barata...»<br>
+</blockquote>
+
+<p>St. Johann Am-Platz, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag7" id="pag7">[7]</a></span></p>
+
+<h2>5</h2>
+
+<blockquote>
+ Placidamente, bate-me no peito<br>
+ Meu coração que tanto tem batido!<br>
+ E para mim, inda este mundo é estreito<br>
+ P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.<br>
+ <br>
+ Meus dias vão passando como as agoas<br>
+ Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,<br>
+ E se de noite eu oiço aquellas mágoas<br>
+ Já não descanço mais, em sobresalto.<br>
+ <br>
+ Placidamente, bate-me no peito<br>
+ Meu coração em luctas tão desfeito,<br>
+ Que com a Vida, a Dôr hei confundido.<br>
+ <br>
+ E se se ganha a Paz com o soffrimento,<br>
+ Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...<br>
+ Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Berne, maio, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag8" id="pag8">[8]</a></span></p>
+
+<h2>6</h2>
+
+<h2>Apparição</h2>
+
+<h4>Á VIRGEM SANTISSIMA</h4>
+
+<blockquote>
+ Pelas espadas que tu tens no peito,<br>
+ Pelos teus olhos rôxos de chorar,<br>
+ Pelo manto que trazes de astros feito,<br>
+ Por esse modo tão lindo de andar;<br>
+ <br>
+ Por essa graça e esse suave geito,<br>
+ Pelo sorriso (que é de sol e luar)<br>
+ Por te ouvir assim sobre o meu leito,<br>
+ Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»<br>
+ <br>
+ Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,<br>
+ Quando chegando vens, assim tão calma,<br>
+ Pela cinta que trazes, côr dos ceus:<br>
+ <br>
+ Adivinhei teu nome, Apparição!<br>
+ Pois consultando manso o coração<br>
+ Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lausanna, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag9" id="pag9">[9]</a></span></p>
+
+<h2>7</h2>
+
+<blockquote>
+ Todas as tardes, vou Léman acima<br>
+ (E leve o tempo passa nessas tardes)<br>
+ A pensar em Coimbra. Que saudades!<br>
+ Diogo Bernardes deste meigo Lima.<br>
+ <br>
+ Na solidão, pensar em ti, anima,<br>
+ Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades!<br>
+ Os rapazes tão bons nessas idades<br>
+ (Antes que a Vida ponha a mão em cima...)<br>
+ <br>
+ Alegres cantam nos teus arrabaldes.<br>
+ Por mais que tire vêm cheios os baldes,<br>
+ Mar de recordações, poço sem fundo!<br>
+ <br>
+ Freirinhas de Tentugal, passos lentos!<br>
+ E o chá com bolos, dentro dos conventos!<br>
+ Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lausanna, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag10" id="pag10">[10]</a></span></p>
+
+<h2>8</h2>
+
+<h4>A MEU IRMÃO AUGUSTO</h4>
+
+<blockquote>
+ Léman azul, que, mudo e morto, jazes.<br>
+ Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!<br>
+ Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo,<br>
+ De turvar tuas agoas são capazes.<br>
+ <br>
+ Minhas cartas inuteis de doutor<br>
+ Eu rasgaria, é certo, com prazer,<br>
+ Se eu podesse um dia vir a ser<br>
+ Dessas ondas, um simples pescador.<br>
+ <br>
+ Léman azul, nas agoas socegadas,<br>
+ Quantas vidas tu levas confiadas!<br>
+ Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!<br>
+ <br>
+ Só do meu coração, ao alto-mar,<br>
+ Ninguem se quiz ainda sujeitar.<br>
+ Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Villeneuve, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag11" id="pag11">[11]</a></span></p>
+
+<h2>9</h2>
+
+<h4>A JUSTINO DE MONTALVÃO</h4>
+
+<blockquote>
+ Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento<br>
+ De Franciscanos. Fui-me lá ha dias.<br>
+ Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias.<br>
+ Iam ceiar. Fóra mugia o vento.<br>
+ <br>
+ Um pallido Christo, ao fundo da sala,<br>
+ Espalha em redor seu alvo clarão;<br>
+ E, quando se reflecte a Cruz pelo chão,<br>
+ Os frades ingenuos não ousam pisal-a.<br>
+ <br>
+ «Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta.<br>
+ Vontade, Senhor, tive eu de chorar!<br>
+ Tão só me sentia, pela noite morta...<br>
+ <br>
+ E quando na volta, á luz das estrellas,<br>
+ Meu doido passado me vim a evocar,<br>
+ Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Bex, junho, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag12" id="pag12">[12]</a></span></p>
+
+<h2>10</h2>
+
+<blockquote>
+ Senhora! a todas as novenas ides,<br>
+ E porque vós lá ides, vou tambem.<br>
+ É um descanço sem par ás minhas lides,<br>
+ Aos meus males, e em summa faz-me bem.<br>
+ <br>
+ Essas graças que tendes (vós sorrides?)<br>
+ Só nas flôres as vejo, em mais ninguem.<br>
+ Se o vosso corpo é magro como as vides,<br>
+ Os cachos d'uvas que o cabello tem!<br>
+ <br>
+ Fazeis-me andar n'uma continua roda,<br>
+ Pelas igrejas da cidade toda,<br>
+ S. Luiz de França, Encarnação e mais.<br>
+ <br>
+ Senhora! assim commigo em beato dais,<br>
+ Faço-me frade e vou para um convento...<br>
+ E adeus! que lá se vae o cazamento!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lisboa, janeiro, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag13" id="pag13">[13]</a></span></p>
+
+<h2>11</h2>
+
+<blockquote>
+ Ha já duzentos soes, ha quatro luas,<br>
+ Que te pedi que a Igreja abandonasses.<br>
+ Tu és cruel, Senhora! continúas,<br>
+ Como se agora apenas começasses.<br>
+ <br>
+ Á sexta-feira e ao sabbado jejuas,<br>
+ E tanto te pedi que não jejuasses.<br>
+ E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas<br>
+ Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»<br>
+ <br>
+ Nenhuns peccados tens. És anjo e santa.<br>
+ Boa como o ceu, simples como a planta,<br>
+ Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!<br>
+ <br>
+ Quaes são os teus peccados? peccadores<br>
+ Senhora! são os vossos confessores.<br>
+ Homens e basta: são máos como as cobras!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lisboa, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag14" id="pag14">[14]</a></span></p>
+
+<h2>12</h2>
+
+<h2>Monologo d'Outubro</h2>
+
+<h4>A MEU IRMÃO AUGUSTO</h4>
+
+<blockquote>
+ Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora!<br>
+ Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas.<br>
+ Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora,<br>
+ E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!<br>
+ <br>
+ E tu que já passaste o Outomno só commigo<br>
+ Não pensas ao cahir de tantas agonias<br>
+ Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo?<br>
+ Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!<br>
+ <br>
+ Ides morrer, folhas! mas morrer que importa?<br>
+ Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta.<br>
+ Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!<br>
+ <br>
+ Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade.<br>
+ Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade,<br>
+ Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...<br>
+</blockquote>
+
+<p>Foz, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag15" id="pag15">[15]</a></span></p>
+
+<h2>13</h2>
+
+<blockquote>
+ Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça,<br>
+ Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir.<br>
+ Tudo acaba no mundo... tudo passa,<br>
+ Mas só meu mal se foi e torna a vir.<br>
+ <br>
+ Não busco a morte com arma ou veneno,<br>
+ Mas emfim póde vir quando quizer.<br>
+ Eu estarei de pé, firme e sereno,<br>
+ Sorrir-lhe-hei até, quando vier.<br>
+ <br>
+ Tristes vaidades d'este pobre mundo!<br>
+ Já me parecem taes como ellas são:<br>
+ Tristes mizerias deste mar sem fundo.<br>
+ <br>
+ Se tive algumas eu, na mocidade,<br>
+ Não foram ellas mais que uma illuzão.<br>
+ E um dia eu ri da minha ingenuidade!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lisboa, janeiro, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag16" id="pag16">[16]</a></span></p>
+
+<h2>14</h2>
+
+<blockquote>
+ O mar que embala, ás noites, o teu somno<br>
+ É o mesmo, flor! que á noite embala o meu.<br>
+ Mas em vão canta a minha ama do Outomno,<br>
+ Pois pouco dorme quem muito soffreu.<br>
+ <br>
+ Mas tu feliz qual rainha sobre o throno,<br>
+ Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!<br>
+ O teu cabello solto ao abandono,<br>
+ As mãos erguidas de fallar ao céo...<br>
+ <br>
+ Feliz! feliz de ti, doce Constança!<br>
+ Reza por mim, na tua voz chymerica,<br>
+ Uma Avè-Maria de Esperança!<br>
+ <br>
+ Por minha saude e gloria (Deus m'a dê)<br>
+ Por essa viagem que vou dar a America...<br>
+ Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, maio, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag17" id="pag17">[17]</a></span></p>
+
+<h2>15</h2>
+
+<h2>Mamã</h2>
+
+<blockquote>
+ Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,<br>
+ Toda a Ternura que de ti me vêm,<br>
+ Amparam-me esta triste mocidade<br>
+ Como nos tempos em que tinha Mãe.<br>
+ <br>
+ Quanto eu te devo! Odios, impiedade,<br>
+ Indignações e raivas contra alguem,<br>
+ Loucuras de rapaz, tedios, vaidade,<br>
+ Tudo isso perdi&mdash;e ainda bem!<br>
+ <br>
+ Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança!<br>
+ Nunca m'a tires não, linda criança,<br>
+ (Linda e tão boa não o farás, talvez!)<br>
+ <br>
+ Pois que perder-te, meu amor, agora,<br>
+ Ai que desgraça horrivel! isso fôra<br>
+ Perder a minha Mãe, segunda vez.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag18" id="pag18">[18]</a></span></p>
+
+<h2>16</h2>
+
+<blockquote>
+ Ha vinte annos já, que andas na Terra,<br>
+ Ha vinte dias só, que te conheço!<br>
+ Eu andava perdido pela serra,<br>
+ E o que eu era então, já não pareço.<br>
+ <br>
+ Ha vinte dias só que te conheço,<br>
+ Ó meu beijo de Luz! minha Chymera!<br>
+ És a Graça de Deus (com qu'estremeço)<br>
+ Talvez, o que no mundo, inda me espera.<br>
+ <br>
+ Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio!<br>
+ Pois não tens piedade d'este frio<br>
+ Que sinto em mim, na minha solidão!<br>
+ <br>
+ Minha bençam de Christo, promettida,<br>
+ Não serás tu a Paz da minha vida?<br>
+ Oh! não me digas não, que és Illuzão!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag19" id="pag19">[19]</a></span></p>
+
+<h2>17</h2>
+
+<h2>Riquinha</h2>
+
+<blockquote>
+ Soffrer callada as suas proprias dôres<br>
+ E chorar como suas as dos mais,<br>
+ Tal a Rainha do seu nome, em flôres<br>
+ Transforma pedras e em sorrisos ais.<br>
+ <br>
+ A toda a parte leva o sol e amores,<br>
+ É a <i>Saude dos Enfermos</i> nos Cazaes;<br>
+ E, no mar-alto, os velhos pescadores<br>
+ Invocam-n'a entre espuma e temporaes!<br>
+ <br>
+ Quem será ella, tão piedoza e dôce!<br>
+ Com uns taes olhos que não tinha visto<br>
+ Será a Virgem? Oxalá que fosse!<br>
+ <br>
+ Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!<br>
+ Fôra outrora, talvez, filha de Christo,<br>
+ Se Christo houvesse tido alguma filha!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag20" id="pag20">[20]</a></span></p>
+
+<h2>18</h2>
+
+<h2>O Teu Retrato</h2>
+
+<blockquote>
+ Deus fez a noite com o teu olhar,<br>
+ Deus fez as ondas com os teus cabellos;<br>
+ Com a tua coragem fez castellos<br>
+ Que poz, como defeza, á beira-mar.<br>
+ <br>
+ Com um sorriso teu, fez o luar<br>
+ (Que é sorriso de noite, ao viandante)<br>
+ E eu que andava pelo mundo, errante,<br>
+ Já não ando perdido em alto-mar!<br>
+ <br>
+ Do ceu de Portugal fez a tua alma!<br>
+ E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,<br>
+ Da minha Noite, eu fiz a Claridade!<br>
+ <br>
+ Ó meu anjo de luz e de esperança,<br>
+ Será em ti afinal que descança<br>
+ O triste fim da minha mocidade!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, junho, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag21" id="pag21">[21]</a></span></p>
+
+<h2>19</h2>
+
+<h2>Sestança</h2>
+
+<blockquote>
+ Ia em meio da minha Mocidade,<br>
+ Perdido d'affeições, ao vento agreste,<br>
+ Quando na Vida tu me appareceste,<br>
+ Sestança, minha Irmã da Caridade!<br>
+ <br>
+ Ninguem de mim dó teve, nem piedade,<br>
+ Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:<br>
+ Quantas velas á Virgem accendeste!<br>
+ Quantas rezas nos templos da cidade!<br>
+ <br>
+ Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!<br>
+ Para assim merecer um tal cuidado<br>
+ E tudo quanto ainda me fizeres?<br>
+ <br>
+ Bemdito seja Deus que me escutou!<br>
+ Bemdito seja o Pae que te ha procriado!<br>
+ Bemdita seja a Mãe que te gerou!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.<span
+class="pagenum"><a name="pag22" id="pag22">[22]</a></span></p>
+
+<h2>20</h2>
+
+<h2>Emilias</h2>
+
+<h4>(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)</h4>
+
+<blockquote>
+ Emilia és, quer queiras, ou não queiras:<br>
+ Que lindo nome o teu, soante de brizas!<br>
+ É um nome de pastoras e moleiras,<br>
+ Loira morgada do solar dos Nizas!<br>
+ <br>
+ Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,<br>
+ Ha Emilias nos serões das descamizas...<br>
+ Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras<br>
+ Com o nome de Emilia é que as baptizas!<br>
+ <br>
+ Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!<br>
+ E com a tua Mãe seja madrinha,<br>
+ Quando ella, um dia, te levar á Igreja!<br>
+ <br>
+ E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha!<br>
+ Dôces presagios meus, que a tua filha<br>
+ Seja loira tambem e Emilia seja!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag23" id="pag23">[23]</a></span></p>
+
+<h2>21</h2>
+
+<blockquote>
+ O coração dos homens com a idade,<br>
+ A pouco e pouco, vae arrefecendo...<br>
+ Quão diversos me vão apparecendo<br>
+ Do que eram ao abrir da mocidade!<br>
+ <br>
+ O sorrizo não tem já lealdade,<br>
+ Lagrimas são difficeis... não as tendo.<br>
+ Palavras não vos faltam, estou vendo<br>
+ Mostrar o que sentis só por vaidade.<br>
+ <br>
+ Já não me illude, a Gloria que sonhei.<br>
+ Perdi a fé em tudo quanto amei.<br>
+ Mas só agora, eu sei o que é viver!<br>
+ <br>
+ Não fazes bem, assim, em rir de mim!<br>
+ Tenho tido na vida horrores sem fim,<br>
+ Mas só agora, eu sei o que é soffrer!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, dezembro, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag24" id="pag24">[24]</a></span></p>
+
+<h2>22</h2>
+
+<blockquote>
+ O Senhor, cuja Lei é sempre justa,<br>
+ Deu-me uma infortunada mocidade,<br>
+ Talvez para eu saber (o que é verdade)<br>
+ Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!<br>
+ <br>
+ Feliz de quem no mundo sem piedade,<br>
+ Encontrou alma que lhe entenda a sua,<br>
+ Que o mesmo é que ter na mão a Lua<br>
+ Tão longe n'essa triste Eternidade!<br>
+ <br>
+ Os meus dias passavam tristemente<br>
+ Quando encontrei o teu olhar ridente:<br>
+ Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!<br>
+ <br>
+ Vaes deixar-me de novo, só na vida!<br>
+ Ao cabo de viagem tão comprida<br>
+ Talvez sintas mais perto os olhos meus!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, janeiro de 1899.<span class="pagenum"><a name="pag25" id="pag25">[25]</a></span></p>
+
+<h2>23</h2>
+
+<h2>Adeus a Constança</h2>
+
+<blockquote>
+ Vae o teu Pae andar ao sol de verão,<br>
+ E mais á chuva e ao vento; e só depois<br>
+ Poderá ter a colheita d'esse pão<br>
+ Que semeou cantando ao pé dos bois.<br>
+ <br>
+ Feliz que eu fui em te encontrar na vida,<br>
+ Minha dôce Constança desejada!<br>
+ Antes de vêr-te a ti não via nada,<br>
+ Nem para mim a lua era nascida.<br>
+ <br>
+ Tu vaes partir em breve com teu Pae<br>
+ Por esse mar que tão piedozo está.<br>
+ Não sêde amargas, ondas, mas chorae!<br>
+ <br>
+ Vaes vêr campos em flôr que te conhecem...<br>
+ E se a colheita se fizesse já,<br>
+ Talvez na volta as ondas te trouxessem!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag26" id="pag26">[26]</a></span></p>
+
+<h2>24</h2>
+
+<h2>Antes de partir</h2>
+
+<blockquote>
+ Varios Poetas vieram á Madeira<br>
+ (Pela fama que tem) a ares do Mar:<br>
+ Uns p'ra, breve, voltarem á lareira,<br>
+ Outros, ai d'elles! para aqui ficar.<br>
+ <br>
+ Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,<br>
+ Morrer n'esta ilha não deve custar,<br>
+ Mas para mim sempre é terra extrangeira,<br>
+ Á minha patria quero, emfim, voltar.<br>
+ <br>
+ Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!<br>
+ Ah como é triste andar por essas ruas,<br>
+ Pallido, de olhos grandes, a tossir!<br>
+ <br>
+ Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as,<br>
+ Vou com as ondas, voltarei com ellas,<br>
+ Mas como ellas p'ra tornar a ir!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag27" id="pag27">[27]</a></span></p>
+
+<h2>25</h2>
+
+<blockquote>
+ Meu pobre amigo! Sempre silencioso!<br>
+ Assim eu fui. Scismava, lia, lia...<br>
+ Mudei no entanto de Philosophia.<br>
+ Não creio em nada! e fui tão religioso!<br>
+ <br>
+ Tomei parte no Exercito gloriozo<br>
+ Que foi bater-se por Israel, um dia!<br>
+ Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,<br>
+ Não creio em nada! tudo é mentirozo!<br>
+ <br>
+ Não vale a pena amar e ser amado,<br>
+ Nem ter filhos d'um seio de mulher<br>
+ Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!<br>
+ <br>
+ Não vale a pena um grande poeta ser,<br>
+ Não vale a pena ser rei nem soldado<br>
+ E venha a Morte, quando Deus quizer!<br>
+</blockquote>
+
+<p>St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.<span class="pagenum"><a name="pag28" id="pag28">[28]</a></span> </p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;<span class="pagenum"><a name="pag31" id="pag31">[31]</a></span></p>
+
+<h1>OUTRAS POESIAS</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<h4>A FRANCISCO CEZIMBRA</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu chegara de França uns quatro dias antes<br>
+ E via-me tão só n'um deserto sem fim,<br>
+ Lá deixara a alegria, amores, estudantes,<br>
+ Via a vida, aqui, negra adiante de mim.<br>
+ <br>
+ Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo,<br>
+ Nada no mundo me podia estimular!<br>
+ Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,<br>
+ Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!<br>
+ <br>
+ Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar<br>
+ Pois para que me deste assim um coração!<br>
+ Tudo quanto via me dava que scismar<br>
+ De tudo tinha dó, de tudo compaixão.<span class="pagenum"><a name="pag32" id="pag32">[32]</a></span><br>
+ <br>
+ Ó meus amigos de Coimbra! que saudades<br>
+ Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões!<br>
+ Porque chamaria eu agora, só vaidades<br>
+ Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?<br>
+ <br>
+ E conheci depois a phase lastimoza<br>
+ (Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar)<br>
+ Em que descri de tudo, até da meiga roza<br>
+ Que via entre velas, aos pés d'algum altar.<br>
+ <br>
+ De tudo ri então, Senhor, como um perdido<br>
+ Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...<br>
+ Tu cuja alma em flôr ainda me sorria<br>
+ Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?<br>
+</blockquote>
+
+<p>1895.<span class="pagenum"><a name="pag33" id="pag33">[33]</a></span></p>
+
+<h2>Ladainha da Suissa</h2>
+
+<h5>A MARTINHO DE BREDERODE</h5>
+
+<blockquote>
+ Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo<br>
+ Pelas ruas, vendo-me passar:<br>
+ &mdash;Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo...<br>
+ E assim sósinho, sem ninguem para o tratar!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Que boa a Suissa! que
+ bom é este povo!)</span><br>
+ <br>
+ Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,<br>
+ Diziam entre si: Quem será este senhor?<br>
+ Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes!<br>
+ E rezavam por mim, baixinho, com amor.<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó pastoras tão meigas
+ d'estes Andes!)</span><br>
+ <br>
+ Por fim entrei receoso em uma caza immensa<br>
+ Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.<br>
+ Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:<br>
+ Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ah que tristeza a d'essa
+ caza immensa!)</span><span class="pagenum"><a name="pag34" id="pag34">[34]</a></span><br>
+ <br>
+ No alto da escada umas Irmãs da Caridade<br>
+ Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?»<br>
+ No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade,<br>
+ Que me julguei feliz, até sorrir, olhae!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Minhas boas Irmãs da
+ Caridade!)</span><br>
+ <br>
+ Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem<br>
+ Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...<br>
+ &mdash;«E então como passou? Gostou da sua viagem?<br>
+ E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?»<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó Suissa da divina
+ paysagem!)</span><br>
+ <br>
+ Não me deixava com perguntas. Era Suissa<br>
+ E não deixara nunca esta alva nação.<br>
+ Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:<br>
+ Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão.<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Que ingenua és ainda,
+ Suissa!)</span><br>
+ <br>
+ &mdash;Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro<br>
+ E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar...<br>
+ &mdash;Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.<br>
+ E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Nos meus olhos o viste
+ tu primeiro.)</span><span class="pagenum"><a name="pag35" id="pag35">[35]</a></span><br>
+ <br>
+ Com que doçura, com que mimo e com que graça<br>
+ Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir.<br>
+ E como uma ama diz ao menino que a enlaça,<br>
+ Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...»<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó Suissa cheia de
+ graça!)</span><br>
+ <br>
+ E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,<br>
+ E no outro dia eu já estava melhor.<br>
+ Passados trez, passei de pallido a moreno<br>
+ Passado um mez, «não é nada» disse o doutor.<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Oh! quanto eu era então
+ feliz, sereno!)</span><br>
+ <br>
+ E a boa Irmã toda contente e dedicada<br>
+ Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé<br>
+ &mdash;Vê, tantos sustos! e afinal não era nada!<br>
+ E se elle disse «não é nada» é que não é!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Ó boa Irmã, de voz tão
+ delicada!)</span><br>
+ <br>
+ Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve<br>
+ A minha doida mocidade arrependida.<br>
+ Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve!<br>
+ Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(E o meu coração que dôce
+ paz vos deve!)</span><span class="pagenum"><a name="pag36" id="pag36">[36]</a></span><br>
+ <br>
+ Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa!<br>
+ Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita!<br>
+ Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!<br>
+ Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita!<br>
+ <span style="font-size: 0.8em; margin-left: 5em;">(Bemdita sejas, minha
+ Suissa boa!)</span><br>
+</blockquote>
+
+<p>Lausanna, 1896.<span class="pagenum"><a name="pag37" id="pag37">[37]</a></span></p>
+
+<h2>Confissão d'uma rapariga feia</h2>
+
+<h4>(INCOMPLETA)</h4>
+
+<blockquote>
+ Ha raparigas n'este mundo,<br>
+ Ha raparigas que são feias,<br>
+ Mas nenhuma tanto como eu.<br>
+ De mim tenho nojo profundo,<br>
+ Ciumes do Sol, das luas cheias,<br>
+ Que vão tão lindas pelo céo!<br>
+ <br>
+ Nos arraiaes, nas romarias,<br>
+ Adelaides, Joannas, Marias,<br>
+ Todas tem par, mas menos eu.<br>
+ Todas bailam, rindo e cantando,<br>
+ E eu fico-me a olhal-as scismando<br>
+ Na sorte que o Senhor me deu!<span class="pagenum"><a name="pag38" id="pag38">[38]</a></span> <br>
+ <br>
+ Se eu fosse cega ou aleijada,<br>
+ Talvez ficasse resignada,<br>
+ Porque havia de queixar-me eu?<br>
+ Mas sendo sã, sendo perfeita<br>
+ Tua vontade seja feita,<br>
+ Senhor! é sorte, é fado meu!<br>
+ <br>
+ ..................................<span class="pagenum"><a name="pag39" id="pag39">[39]</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>Affirmações religiosas</h2>
+
+<blockquote>
+ Ó meus queridos! Ó meus S.<sup>tos</sup> limoeiros!<br>
+ Ó bons e simples padroeiros!<br>
+ Santos da minha muita devoção!<br>
+ Padres choupos! ó castanheiros!<br>
+ Basta de livros, basta de livreiros!<br>
+ Sinto-me farto de civilisação!<br>
+ <br>
+ Rezae por mim, ó minhas boas freiras<br>
+ Rezae por mim escuras oliveiras<br>
+ De Coimbra, em S.<sup>to</sup> Antonio de Olivaes:<br>
+ Tornae-me simples como eu era d'antes,<br>
+ Sol de Junho queima as minhas estantes<br>
+ Poupa-me a <em>Biblia</em>, Anthero... e pouco mais!<br>
+ <br>
+ No mar da Vida cheia de perigos<br>
+ Mais monstros ha, diziam os antigos,<br>
+ Que lá nas agoas d'esse outro mar.<br>
+ O que pensaes vós a respeito d'isto,<br>
+ Ó navegantes d'esse mar de Christo!<br>
+ Heroes, que tanto tendes que contar?<span class="pagenum"><a name="pag40" id="pag40">[40]</a></span> <br>
+ <br>
+ Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros,<br>
+ Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!<br>
+ Lamentos ao luar, dos pinheiraes,<br>
+ E vós ó sombra triste das figueiras!<br>
+ Chorae por mim ó flôr das amendoeiras<br>
+ Chorae tambem ó verdes cannaviaes!<br>
+ <br>
+ E quando emfim, já farto de soffrer<br>
+ Eu um dia me fôr adormecer<br>
+ Para onde ha paz, maior que n'um convento:<br>
+ Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno,<br>
+ Ai não me deixeis no meu abandono!<br>
+ Chorae-me cyprestes, batidos do vento...<br>
+</blockquote>
+
+<p>1897.<span class="pagenum"><a name="pag41" id="pag41">[41]</a></span></p>
+
+<h2>Ares da Andaluzia</h2>
+
+<blockquote>
+ Ó formoza Andaluzia!<br>
+ Terra de Nossa Senhora!<br>
+ Ó formoza Andaluzia<br>
+ Onde o luar parece dia<br>
+ Onde é dia a toda a hora!<br>
+ <br>
+ Ai eu tenho sete muzas<br>
+ Quaes d'ellas prefiro eu?<br>
+ Ai eu tenho sete muzas,<br>
+ Trez d'ellas são andaluzas<br>
+ Porque as outras são do céo.<br>
+ <br>
+ Malaga, terra de encantos,<br>
+ Terra das vinhas doiradas!<br>
+ Malaga, terra de encantos!<br>
+ Igrejas cheias de Santos,<br>
+ E Virgens cheias de espadas!<span class="pagenum"><a name="pag42" id="pag42">[42]</a></span><br>
+ <br>
+ Vossa bocca tem desejos<br>
+ Que a bocca das mais não tem...<br>
+ Vossa bocca tem desejos<br>
+ E já morria por beijos<br>
+ No ventre da vossa mãe!<br>
+ <br>
+ Ó meninas de Sevilha<br>
+ Sou doente, vinde amparar-me,<br>
+ Ó meninas de Sevilha<br>
+ Deixae-me a vossa mantilha<br>
+ Que eu não quero constipar-me!<br>
+ <br>
+ Ó menina, olá, a mais alta<br>
+ Porque foge e me olha assim?<br>
+ Ó menina olá a mais alta,<br>
+ Se a belleza não lhe falta,<br>
+ Não julgue que é mais que a mim.<br>
+ <br>
+ Ai esta Vida é tão curta!<br>
+ Ai o Amor dura um instante,<br>
+ Ai esta Vida é tão curta!<br>
+ Dormir, um dia, entre murta<br>
+ Nos braços d'uma outra amante!...<span class="pagenum"><a name="pag43" id="pag43">[43]</a></span><br>
+ <br>
+ Olhos de Cadiz tão pretos<br>
+ (E o mar ao pé tão azul!)<br>
+ Olhos de Cadiz tão pretos<br>
+ De luto por Esqueletos<br>
+ Que o mar traz com vento sul.<br>
+ <br>
+ Já sorvi na minha bocca<br>
+ Beijos de toda a Nação!<br>
+ Já sorvi na minha bocca<br>
+ Tanto mel, cabeça louca!<br>
+ Mas assim como estes, não!<br>
+ <br>
+ Menina das pandeiretas!<br>
+ Que contente que hoje estaes!<br>
+ Menina das pandeiretas!<br>
+ Tão séria, de capas pretas,<br>
+ Ao lado de vossos Paes.<br>
+ <br>
+ Vem beber a mocidade<br>
+ Com a tua trança solta.<br>
+ Vem beber a mocidade<br>
+ Não torna a vir esta idade<br>
+ E o Amor como ella não volta.<span class="pagenum"><a name="pag44" id="pag44">[44]</a></span><br>
+ <br>
+ Ó seios como pombinhos<br>
+ Ó seios por quem bateis?<br>
+ Ó seios como pombinhos<br>
+ Tão alegres nos seus ninhos<br>
+ Não sei eu, mas vós sabeis...<span class="pagenum"><a name="pag45" id="pag45">[45]</a></span></blockquote>
+
+<h2>Contas de rezar</h2>
+
+<blockquote>
+       A Maria dos Prazeres<br>
+       Mizericordia dos mares!<br>
+       Que escrevi para tu leres,<br>
+       Que eu fiz para tu rezares!<br>
+</blockquote>
+
+<p><span class="small-caps">Maria dos Prazeres.                       Antonio
+sem Elles.</span></p>
+
+<blockquote>
+ Maria é! Violeta da Humildade<br>
+ Onda do mar das Indias! sempre triste!<br>
+ Porque andará tão triste nessa idade<br>
+ Se o Deus em que ella crê para ella existe?<br>
+ <br>
+ Maria é! Violeta da Humildade!<br>
+ Onda do mar das Indias! tão modesta<br>
+ E tão grande que ella é! Que dôr funesta<br>
+ A faz andar tão triste nessa idade?<span class="pagenum"><a name="pag46" id="pag46">[46]</a></span><br>
+ <br>
+ E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,<br>
+ Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:<br>
+ «Parece incrivel faça parte d'esta<br>
+ Humanidade mentiroza e indigna!»<br>
+ <br>
+ Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!<br>
+ Até tem dó e compaixão por mim...<br>
+ Mal diria eu que a tragica Lisboa<br>
+ Tinha em seus muros uma Santa assim!<br>
+ <br>
+ Ella nasceu para assistir ás guerras<br>
+ Ella nasceu p'ra atravessar os mares<br>
+ Ella nasceu para ir a longas terras<br>
+ Ella nasceu para proteger os lares!<br>
+ <br>
+ Ella nasceu para ir com portuguezes,<br>
+ Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,<br>
+ Com remedios, ao pé, mezes e mezes,<br>
+ Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!<br>
+ <br>
+ Ella nasceu para levar comsigo<br>
+ Um exercito leal, mystico e forte.<br>
+ Ser a ultima a dobrar ante o inimigo<br>
+ E a primeira a morrer, sorrindo á morte!<span
+ class="pagenum"><a name="pag47" id="pag47">[47]</a></span><br>
+ <br>
+ Ella nasceu p'ra commandar armadas<br>
+ Vestir a bluza azul dos marinheiros.<br>
+ Morrer que importa? Sobre agoas salgadas<br>
+ No immenso oceano não faltam coveiros!<br>
+ <br>
+ Ella é formosa e grande entre as mulheres,<br>
+ Sua doçura é toda de velludo...<br>
+ Mas as respostas que dão malmequeres!<br>
+ Tristes, Senhor! como na vida é tudo!<br>
+ <br>
+ Quando ella passa toda côr de cera,<br>
+ Devagarinho e de missal na mão,<br>
+ Vae tão ligeira, lembra uma galéra<br>
+ Que segue viagem de vento á feição!<br>
+ <br>
+ Os seus olhos são negros e tão bellos<br>
+ Que grandes são! têm penas disfarçadas...<br>
+ Que são elles? Ogivas de castellos<br>
+ Com duas meninas sempre debruçadas.<br>
+ <br>
+ O seu cabello é negro e immenso e roça<br>
+ Pelo chão, como a noite e a escuridade,<br>
+ Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa<br>
+ Senhora, quando tinha a sua idade!<span class="pagenum"><a name="pag48" id="pag48">[48]</a></span><br>
+ <br>
+ A sua voz baixinha vem da alma,<br>
+ Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.<br>
+ É assim que falla a aragem pela calma<br>
+ Quando mareantes pedem temporaes.<br>
+ <br>
+ Vozes assim só se ouvem no convento<br>
+ Á oração em silencio habituado,<br>
+ Que Deus entende a voz do Pensamento:<br>
+ Póde fallar-se a Deus e estar callado!<br>
+ <br>
+ Os seios lembram duas pombas gemeas<br>
+ No seu ninho a dormir, muito quietinhas.<br>
+ Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,<br>
+ Não acordes as pombas coitadinhas!<br>
+ <br>
+ Que dizer do seu corpo esbelto de aza!<br>
+ Tão delgado, onde passa o seu annel?<br>
+ É o mais lindo Torreão da sua Caza!<br>
+ É uma náu da India, a <em>S. Gabriel</em>.<br>
+ <br>
+ Os seus braços são debeis! mas exaltam<br>
+ E sustentam em mim toda a Esperança!<br>
+ Os seus braços, Senhor! são os que faltam<br>
+ A certa Venus que se admira em França!<span class="pagenum"><a name="pag49" id="pag49">[49]</a></span><br>
+ <br>
+ O seu sorrizo é o sol, quando apparece,<br>
+ Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;<br>
+ Mas o seu habitual, ai não se esquece!<br>
+ É o sol ás tardes quando cahe no mar...<br>
+ <br>
+ A sua bocca é uma romã vermelha,<br>
+ Mostrando em rizos os seus grãos de opala.<br>
+ Favo de beijos, que dá mel á abelha,<br>
+ A sua bocca é uma flôr com falla!<br>
+</blockquote>
+
+<p>Lisboa, 1898.<span class="pagenum"><a name="pag50" id="pag50">[50]</a></span></p>
+
+<h2>A Ceifeira</h2>
+
+<h4>(INCOMPLETA)</h4>
+
+<blockquote>
+ ............................................<br>
+ Porque é que te odeiam os homens se os levas<br>
+              A um mundo melhor?<br>
+ Ó velha hospedeira da aldeia do nada,<br>
+ Tenho as malas promptas, vou breve partir.<br>
+ Prepara-me um quarto na tua pousada<br>
+ Que tenha a janella para o sul voltada<br>
+ E fontes á roda para eu dormir...<span
+class="pagenum"><a name="pag51" id="pag51">[51]</a></span></blockquote>
+
+<h2>Sensações de Baltimore</h2>
+
+<h4>(INCOMPLETA)</h4>
+
+<blockquote>
+ Cidade triste entre as tristes,<br>
+      Oh Baltimore!<br>
+ Mal eu diria que na terra existes<br>
+ Cidade dos Poetas e dos Tristes,<br>
+ Com teus sinos clamando «Never-more.»<br>
+ <br>
+ Os comboios relampagos voando,<br>
+ Pela cidade de Baltimore,<br>
+ Levam uns sinos que de quando em quando<br>
+ Ferem os ares, o coração magoando<br>
+ E os sinos clamam «Never-more, never-more».<br>
+ ...........................................<br>
+</blockquote>
+
+<p>Baltimore, 1897.<span class="pagenum"><a name="pag52" id="pag52">[52]</a></span></p>
+
+<h2>Ao Mar</h2>
+
+<h4>(SONETO ANTIGO)</h4>
+
+<blockquote>
+ Ó meu amigo Mar, meu companheiro<br>
+ De infancia! dos meus tempos de collegio,<br>
+ Quando p'ra vir nadar como um poveiro<br>
+ Eu gazeava á lição do mestre-regio!<br>
+ <br>
+ Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?<br>
+ (O contrario seria um sacrilegio)<br>
+ Lembras-te ainda d'esse marinheiro<br>
+ De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!<br>
+ <br>
+ Que tua mão oceanica me ajude,<br>
+ Leva-me sempre pelo bom caminho,<br>
+ Não me faltes nas horas de afflicção.<br>
+ <br>
+ Dá-me talento e paz, dá-me saude,<br>
+ Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!<br>
+ Trazer meus netos a beijar-te a mão...<span class="pagenum"><a name="pag53" id="pag53">[53]</a></span>
+</blockquote>
+
+<h2>Dispersos</h2>
+
+<h4>1</h4>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Soffro por ti nesta auzencia,<br>
+ Tanto que não sei dizer.<br>
+ &mdash;Meu Antonio! Tem paciencia!<br>
+ Soffrer por mim é soffrer?<br>
+</blockquote>
+
+<h4>2</h4>
+
+<blockquote>
+ Ah quem me dera abraçar-te<br>
+ Contra o peito, assim, assim...<br>
+ Levar-me a morte e levar-te<br>
+ Toda abraçadinha a mim!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>3</h4>
+
+<blockquote>
+ Ai ella é tão pequenina<br>
+ Que, quando ao meu collo vae,<br>
+ Diz o povo: uma menina<br>
+ Que vae ao collo do Pae!<span class="pagenum"><a name="pag54" id="pag54">[54]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>4</h4>
+
+<blockquote>
+ És tão fraca, tão fraquinha,<br>
+ Que, ao passar, uma andorinha<br>
+ Com um simples encontrão<br>
+ Podia deitar-te ao chão.<br>
+ <br>
+ Mas tambem te levantava<br>
+ Sem grande custo: bastava<br>
+ Beijar-te (nem isso, até)<br>
+ Logo te punhas em pé!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>5</h4>
+
+<blockquote>
+ Espreitei á tua porta,<br>
+ Quiz vêr-te a dormir, sorrindo...<br>
+ Mas ai! só vendo-te morta,<br>
+ Saberei como és dormindo!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>6</h4>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Dá-me um beijinho, que eu peço?<br>
+ &mdash;Isso sim!&mdash;Furto-lh'o então!<br>
+ &mdash;Não que eu metto-o n'um processo<br>
+ Pelo crime de ladrão!<span class="pagenum"><a name="pag55" id="pag55">[55]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>7</h4>
+
+<blockquote>
+ O teu somno&mdash;ai que ventura<br>
+ Tantos sonhos, que sei eu?<br>
+ O meu é uma noite escura<br>
+ Com uma <i>estrella</i> no ceu!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>8</h4>
+
+<blockquote>
+ Coração, bates saudades<br>
+ Saudades tão tristes são,<br>
+ Lembra-me o sino ás Trindades,<br>
+ O sino faz: Dlão! dlão! dlão!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>9</h4>
+
+<blockquote>
+ Ai! na hora da partida,<br>
+ Parte-se o coração!<br>
+ Ai! como é triste a Vida!<br>
+ Uns ficam... outros vão...<br>
+</blockquote>
+
+<h4>10</h4>
+
+<blockquote>
+ O coração apodrece,<br>
+ Apodrece como o mais<br>
+ Mas a dôr, ai! reverdece,<br>
+ Essa não morre jamais.<span class="pagenum"><a name="pag56" id="pag56">[56]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>11</h4>
+
+<blockquote>
+ És morena, moreninha,<br>
+ Morena de andar ao sol!<br>
+ No dia em que fôres minha<br>
+ Como has de ser moreninha<br>
+ Na brancura do lençol!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>12</h4>
+
+<blockquote>
+ São as meninas da Ilha da Madeira<br>
+ Ternas, graciozas, pallidas, ideaes;<br>
+ Fica-se doido, vendo-se a primeira,<br>
+ Doido se fica, se se veem as mais;<br>
+ Qual é a mais bella da Ilha da Madeira.<br>
+        Se são todas eguaes?<br>
+</blockquote>
+
+<h4>13</h4>
+
+<blockquote>
+ Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes,<br>
+ Com uma caza só, a caza della.<br>
+ O mais é o pôr-do-sol, bouças e fontes<br>
+ Que compõem a sua parentella.<br>
+ <br>
+ Encanto de possuir uns taes parentes!<br>
+ Fidalga excepcional que é a Purinha!<br>
+ Que ella nas veias tem sangue dos poentes,<br>
+ E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!<span
+ class="pagenum"><a name="pag57" id="pag57">[57]</a></span><br>
+ <br>
+ Oh que ascendencia! que familia estranha!<br>
+ Onde ha fidalgos com uns taes avós?<br>
+ Sois os seus Paes, pinheiros da montanha,<br>
+ E assim ella é altinha como vós!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>14</h4>
+
+<blockquote>
+ Amo-te toda porque és linda, linda, linda!<br>
+ Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei lá!<br>
+ Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda,<br>
+ É a alminha de Deus que dentro de ti está.<br>
+</blockquote>
+
+<h4>15</h4>
+
+<blockquote>
+ Uma alma chega ao pé do seio da Purinha!<br>
+ E bate devagar, docemente: «truz! truz!»<br>
+ &mdash;Quem é? (responde lá de dentro uma vozinha)<br>
+ &mdash;(Antonio...) e logo veio á porta, com a luz.<br>
+</blockquote>
+
+<h4>16</h4>
+
+<blockquote>
+ Mamã te chamo porque me trazes ao peito,<br>
+ Filha te chamo pelo mimo que te dou,<br>
+ Irmã te chamo porque te tenho respeito,<br>
+ Noivinha te chamo porque teu noivo sou!<span class="pagenum"><a name="pag58" id="pag58">[58]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>17</h4>
+
+<blockquote>
+ Na sexta-feira ás dez horas olha p'ra lua,<br>
+ Que eu, tão longe, ai tão longe! hei-de olhal-a tambem:<br>
+ Assim minha alma encontrar-se-á lá com a tua!<br>
+ E quem se encontra, filha!, é porque se quer bem!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>18</h4>
+
+<blockquote>
+ Tu és altinha como eu, embora<br>
+ Eu seja um homem e tu uma criança!<br>
+ Tanto que ao irmos pela estrada, agora,<br>
+ Ouvi dizer: «Que lindo par de França!»<br>
+</blockquote>
+
+<h4>19</h4>
+
+<blockquote>
+ Teus olhos são dois ceus. E nelles leio<br>
+ O que nos outros lêem os pastores:<br>
+ Estrella da manhã dos meus amores!<br>
+ Sete estrello que vaes do ceu em meio!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>20</h4>
+
+<blockquote>
+ Ai que saudade! O amor das Extrangeiras!<br>
+ Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito,<br>
+ E um dia, lá se vão andorinhas ligeiras,<br>
+ E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!<span class="pagenum"><a name="pag59" id="pag59">[59]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>21</h4>
+
+<blockquote>
+ No vosso leito, á cabeceira, ponde isto,<br>
+ Ponde este livro ao pé do vosso coração:<br>
+ Adormecei rezando a «Imitação de Christo»<br>
+ E «Nun Alvares», que é de Christo a imitação.<span
+ class="pagenum"><a name="pag60" id="pag60">[60]</a></span> </blockquote>
+
+<h1>O DESEJADO</h1>
+
+<p>O poema, cujos fragmentos são agora publicados, não seria uma composição
+de caracter peculiarmente epico mas sim melhormente lyrico. Auctorisaria esta
+conjectura o tom subjectivo do talento do poeta e ella é confirmada pelo que
+elle chegou a realisar da sua concepção. Assim, quanto de narrativamente
+historico houvesse de ser objecto da sua obra viria coado atravez da
+imaginação do auctor. Elle propunha-se evocar não uma figura de chronica mas
+um typo de lenda, e o seu alvo era fazer sentir ao leitor o encanto idealista
+e romanesco do sebastianismo, considerado como elemento de estimulo para a fé
+na nacionalidade e como incentivo e consolação nas esperanças e nas decepções
+da patria. </p>
+
+<p>Pelo que ficou deprehende-se que o auctor desenhara a largo traço o
+programma da sua obra; mas em suas diversas secções não trabalhou com
+assiduidade egual. Uma leitura attenta dos fragmentos pareceu permittir
+coordenal-os n'uma ordem clara de successão, marcando-se com adequado signal
+typographico as interrupções que ahi apparecem. N'esta melindrosa faina foi
+de inestimavel valia a cooperação prestada pela benemerencia de pessoa
+distinctissima, a ex.<sup>ma</sup> snr.ª D. Constança da Gama, que tivera
+ensejo de ouvir do poeta os diversos episodios compostos, bem como a
+explanação generica de sua phantasia e de seu intento. </p>
+
+<p>O livro abriria, como abre, por uma dedicatoria geral <em>Á Lisboa das
+naus, cheia de gloria</em>, a qual seria seguida de uma invocação, em
+offerecimento, <em>Ás Senhoras de Lisboa</em>, que é uma especie de
+introducção á historia de Anrique. Esta, diz o auctor tel-a ouvido ao mar e
+vem contal-a a ellas, pedindo<span class="pagenum"><a name="pag64" id="pag64">[64]</a></span> uma lagrima
+para os soffrimentos do seu heroe. A este apresenta-o o poeta como penando
+das mais amargas desillusões e possuido da triste convicção de que nada na
+vida o poderia abalar ainda ou commover sequer, depois de ter devaneado tanto
+sonho e de haver visto tantas chimeras suas cahidas por terra e murchas logo
+ao despertar. </p>
+
+<p>Anrique enganara-se, porém; a sua alma generosa e confiante ainda haveria
+de vibrar muito e mui doridamente; e, nos seus primeiros versos, que não
+ficaram definitivamente concluidos, Antonio Nobre fazia a confidencia ás
+Senhoras de Lisboa do arrebatamento passional de Anrique, escarnecido pelo
+prosaico positivismo que zomba do seu afan da gloria, como se ella fosse dote
+que se offerecesse. A feição symbolista do poema de Antonio Nobre
+demonstra-se, n'este lance concepcional, pela representação da Lua, imagem do
+quanto é vã e irrealisavel a aspiração a um alvo intangivel, sonho ineffavel
+desfeito em fumo. </p>
+
+<p>Em Anrique se personifica a abstracção; e, abandonando seu solar
+portuguez, o sonhador abala-se na busca do ideal para terras de Hespanha,
+finalmente de França, onde vamos encontral-o em Paris, exhausto e desvairado
+pela insatisfação d'um desejo alto e incoercivel. A Paris erroneamente se
+encaminhara já no fito de encontrar da sciencia transcendental o remedio
+occulto a males irremediaveis; e são pungentes as allusões e referencias que
+a todo o instante apparecem á historia propria do poeta, em sua ideação e em
+seu cruel soffrimento. </p>
+
+<p>Em Paris recebe Anrique a hospitalidade d'um convento, onde é acolhido
+pelos carinhos paternos de um velho e santo monge, que, embora Anrique não
+lhe tenha aberto a altiva alma, tenta prescrutar-lhe a ferida, para lhe
+applicar salutifero balsamo. </p>
+
+<p>Em uma d'essas melancholicas tardes que parece haverem exercido sobre o
+poeta uma mysteriosa influencia e que elle toca com um encanto vago e
+penetrante, o seu heroe <span class="pagenum"><a name="pag65" id="pag65">[65]</a></span> Anrique, que
+divaga, na phase mystica e exaltada em que se encontra, pelas ruas, sem
+proposito exacto e á mercê de mil fluctuantes pensamentos, entra, ao acaso,
+no templo de um convento de freiras, justamente na occasião em que ellas iam
+começar a entoar a sua novena da tarde. Ás primeiras notas d'aquelle cantico
+suave, Anrique queda-se extatico, no arroubo que o trespassa e embebe, como
+um echo de saudade irreflectida e apaixonada. É que em uma das frescas vozes
+que alli alevantavam hymnos de amor divino, Anrique julgara encontrar a
+reminiscencia de uma outra voz purissima, doce e harmoniosa, que deixara lá
+para longe, para além das serras, em Portugal, quando não fôra mais que a
+muito natural similhança de duas vozes meigas de rapariga. </p>
+
+<p>No fremito da illusão jubilosa e magoadôra, uma excitada hallucinação o
+faz delirar, em lamentos onde a incoherencia da palavra é o transumpto de uma
+anniquiladora tristeza. Como natural reacção, logo em sua alma e de seus
+labios rebenta uma explosão de força e de enthusiasmo, saudando o seu amor
+com palavras freneticas e desvairadas, em como que parece lançar um repto e
+vibrar um desafio. Prestes acode o desalento final e, após consolações
+inuteis do bom frade, nas palavras de Anrique põe o poeta toda a resignada
+amargura da sua alma. </p>
+
+<p>Já então de todo a chimera parisiense se diluíra. Já de todo Anrique se
+voltara novamente e de vez para o seu Portugal. De regresso ao reino,
+affoita-o o encontrar-se com a sua bem-amada; singrando vem Tejo acima a
+barca que o reconduz. Um ardor immenso o impulsiona e move; Anrique sauda com
+férvido enthusiasmo o passado heroico de Lisboa; mas a atroz realidade do
+presente surge perante o impeto epico como uma satyra tragica. Ao passado
+volve olhos cubiçosos da esperança no futuro; e a compensação prophetica que
+se lhe desenha é-lhe figurada na vinda phantasiosa do <em>Desejado</em>, do
+chimerico D. Sebastião, do lendario «Rey-Menino», que foi o symbolo de todo o
+anhelo e de toda a fé, <span class="pagenum"><a name="pag66" id="pag66">[66]</a></span> que foi a incarnação
+ideal de todos os sonhos de imperio, de todas as aspirações messianicas do
+povo portuguez. </p>
+
+<p>Porém, Anrique não demora muito n'este pensamento exterior; logo o
+preoccupa a sua torsionante crise moral; por completo o toma a ideia de que é
+chegado emfim á terra onde, ha tantos annos, o espera sua noiva. Então,
+sauda-a, tambem a ella, com palavras que patenteiam a anciedade que sente de
+repousar afinal de suas infructuosas fadigas contemplativas. </p>
+
+<p>Mas do velho solar só restam ruinas; pelo filho prodigo que volta, só
+aguarda a velha ama Thereza. Acorre, comtudo, o povo n'uma dura e indiscreta
+curiosidade; e do coração de Anrique soltam-se involuntariamente lamentos
+acres, pela traição d'aquella que elle amara. Ahi, elle conta, a si-mesmo,
+alheiado, a historia da sua afflictiva agonia interior, onde mais doem na
+recordação as ingenuidades e os candidos embustes da quadra florente e
+illusionante. </p>
+
+<p>Este é o episodio capital da crise subjectiva que perpassa na trama lyrica
+do poema de Antonio Nobre. Depois d'esta desconsoladora estada em Portugal,
+Anrique resolve-se a voltar a França, na saudade, agora corrosiva, do socego
+tumular dos claustros. Alli o esperam os resignados conselhos; alli elle se
+votará a uma confissão sincera e plena, embora pretenda a apparencia d'uma
+dignidade soberba e orgulhosa, sob a mascara d'uma indifferença gelida. </p>
+
+<p>Infelizmente para as boas lettras, o poeta não pôde levar a cabo o seu
+amplo proposito; mas para o cabal entendimento da ordenada sequencia da sua
+phantasia cremos que estas linhas darão alguma luz. Assim, suspendemo-nos,
+anciosos de que, desprendendo-se de nossa companhia, o leitor, de per si,
+aprecie e encareça, com legitimos gabos, as composições que seguem, algumas
+das quaes, sem favor, se podem qualificar de maravilhosamente bellas.<span
+class="pagenum"><a name="pag67" id="pag67">[67]</a></span><br>
+</p>
+
+<h2>Á LISBOA DAS NÁUS CHEIA DE GLORIA</h2>
+
+<h4>I</h4>
+
+<blockquote>
+ Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,<br>
+ Ó Lisboa das meigas Procissões!<br>
+ Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!<br>
+ Ó Lisboa dos lyricos pregões...<br>
+ Lisboa com o Tejo das Conquistas,<br>
+ Mais os ossos provaveis de Camões!<br>
+ Ó Lisboa de marmore, Lisboa!<br>
+ Quem nunca te viu, não viu coisa boa...<br>
+</blockquote>
+
+<h4>II</h4>
+
+<blockquote>
+ És tu a mesma de que falla a Historia?<br>
+ Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?<br>
+ Não sei quem és, perdi-te de memoria,<br>
+ Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?<br>
+ Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,<br>
+ Ó Lisboa das Chronicas, responde!<br>
+ E carregadas vinham almadias<br>
+ Com noz, pimenta e mais especiarias...<span class="pagenum"><a name="pag68" id="pag68">[68]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>III</h4>
+
+<blockquote>
+ Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,<br>
+ A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!<br>
+ Galeras doidas por soltar a amarra,<br>
+ Cidade de morenos marinheiros,<br>
+ Com navios entrando e saindo a barra<br>
+ De prôa para paizes extrangeiros!<br>
+ Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!<br>
+ Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>IV</h4>
+
+<blockquote>
+ Ó Lisboa das ruas mysteriozas!<br>
+ Da <em>Triste Feia</em>, de <em>João de Deus</em>,<br>
+ <em>Becco da India</em>, <em>Rua das Fermosas</em>,<br>
+ <em>Becco do Falla-Só</em> (os versos meus...)<br>
+ E outra rua que eu sei de duas <em>Rozas</em>,<br>
+ <em>Becco do Imaginario</em>, dos <em>Judeus</em>,<br>
+ <em>Travessa</em> (julgo eu) <em>das Izabeis</em>,<br>
+ E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.<br>
+</blockquote>
+
+<h4>V</h4>
+
+<blockquote>
+ Meiga Lisboa, mystica cidade!<br>
+ (Ao longe o sonho desse mar sem fim.)<br>
+ Que pena faz morrer na mocidade!<br>
+ Teus sinos, breve, dobrarão por mim.<br>
+ Mandae meu corpo em grande velocidade,<br>
+ Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?<br>
+ Quando eu morrer (porque isto pouco dura)<br>
+ Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!<span class="pagenum"><a name="pag69" id="pag69">[69]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>VI</h4>
+
+<blockquote>
+ Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?<br>
+ Lembra leite a escorrer de tetas nuas!<br>
+ Luar assim tão meigo, tão profundo,<br>
+ Como a cair d'um céo cheio de luas!<br>
+ Não deixo de o beber nem um segundo,<br>
+ Mal o vejo apontar por essas ruas...<br>
+ Pregoeiro gentil lá grita a espaços:<br>
+ «Vae alta a lua!» de Soares de Passos.<br>
+</blockquote>
+
+<h4>VII</h4>
+
+<blockquote>
+ Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,<br>
+ Cintra das solidões! beijo da Terra!<br>
+ Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,<br>
+ Que vão fazer o seu ninho na serra;<br>
+ Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,<br>
+ Meu nobre camarada de Inglaterra!<br>
+ Cintra dos Moiros com os seus adarves,<br>
+ E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>VIII</h4>
+
+<blockquote>
+ Romantica Lisboa de Garrett!<br>
+ Ó Garrett adorado das mulheres,<br>
+ Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete<br>
+ Á tua linda caza dos <em>Prazeres</em>.<br>
+ Mas qual seria a melhor hora, ás sete,<br>
+ Garrett, para tu me receberes?<br>
+ O teu porteiro disse-me, a sorrir,<br>
+ Que tu passas os dias a dormir...<span class="pagenum"><a name="pag70" id="pag70">[70]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>IX</h4>
+
+<blockquote>
+ Pois tenho pena, amigo, tenho pena;<br>
+ Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!<br>
+ Que falta fazes á Lisboa amena!<br>
+ Anda vêr Portugal! parece louco...<br>
+ Que patria grande! como está pequena!<br>
+ E tu dormindo sempre ahi no «choco».<br>
+ Ah! como tu, dorme tambem a Arte...<br>
+ Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>X</h4>
+
+<blockquote>
+ Ó Lisboa vermelha das toiradas!<br>
+ Nadam no Ar amores e alegrias.<br>
+ Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,<br>
+ Cavalleiros, fazendo cortezias...<br>
+ Que graça ingenua! farpas enfeitadas!<br>
+ O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!<br>
+ Vêde a alegria que lhe vae nas almas!<br>
+ Vêde a branca Rainha, dando palmas!<br>
+</blockquote>
+
+<h4>XI</h4>
+
+<blockquote>
+ Ó suaves mulheres do meu desejo,<br>
+ Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!<br>
+ Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!<br>
+ Animaeszinhos cheios de delicias...<br>
+ Vosso passado quão longiquo o vejo!<br>
+ Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!<br>
+ Lisboa das Varinas e Marquezas...<br>
+ Que bonitas que são as Portuguezas!<span class="pagenum"><a name="pag71" id="pag71">[71]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<h4>XII</h4>
+
+<blockquote>
+ Senhoras! ainda sou menino e moço,<br>
+ Mas amores não tenho nem carinhos!<br>
+ Vida tão triste supportar não posso:<br>
+ Vós que ides á novena, aos <em>Inglezinhos</em>.<br>
+ Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,<br>
+ N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.<br>
+ Rezae por mim, vereis,&mdash;vossos peccados,<br>
+ (Se acaso os tendes), vos serão perdoados...<br>
+</blockquote>
+
+<h4>XIII</h4>
+
+<blockquote>
+ Rezae, rezae, Senhoras por aquelle<br>
+ Que no Mundo soffreu todas as dores!<br>
+ Odios, traições, torturas,&mdash;que sabe elle!<br>
+ Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!<br>
+ E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,<br>
+ A espera que o enterrem entre as flores...<br>
+ Ouvi: estão os sinos a tocar:<br>
+ Senhoras de Lisboa! ide rezar.<span class="pagenum"><a name="pag72" id="pag72">[72]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h4>ÁS SENHORAS DE LISBOA</h4>
+
+<blockquote>
+ Ainda bem, Senhor! que deste a noite ao mundo.<br>
+ Gosto do sol, oh certamente! mas segundo<br>
+ O meu humor. Á noite, ha esquecimento, ha paz,<br>
+ De dia, apenas tenho um ou outro rapaz<br>
+ Para a palestra. Ah sim! e o mar tambem ás vezes.<br>
+ Mas agora (ha aqui uns tres ou quatro mezes)<br>
+ Faço da noite dia. As grandes descobertas<br>
+ Que eu descobri! Estou de janellas abertas<br>
+ Quando os outros estão de janellas fechadas...<br>
+ Ó fontes a correr como linguas de espadas,<br>
+ Ó fontes a furar quaes mineiros a fragoa,<br>
+ Ó fontes a rezar, como freirinhas d'agoa,<br>
+ Com ladainhas na voz, de joelhos nas encostas,<br>
+ E só vos falta estar, como ellas de mãos postas!<br>
+ Ouvi, lá rezam: sob o céu todo estrellado,<br>
+ «Padre-Nosso! que estás no céu, sanctificado...»<br>
+ Noites e dias sem parar um só momento,<br>
+ Só vós me ouvis, e eu só a vós e mais o vento.<br>
+ Que dôr é a vossa! qual será? não sei, não sei<br>
+ Chorae, fontes, chorae! Fontes correi, correi!<span
+ class="pagenum"><a name="pag73" id="pag73">[73]</a></span><br>
+ Agoas, só de perdão, suspiros e piedades,<br>
+ Ó fontes de Belem! Ó fontes de saudades!<br>
+ Contae para eu scismar, uma bonita historia<br>
+ Qualquer, a que vos vier mais depressa á memoria.<br>
+ Contae que eu sou ainda uma criança, gosto<br>
+ Tanto de historias! pelas luas brancas de agosto!<br>
+ Ó rios a contar historias, como as criadas,<br>
+ Historias de ladroes, mais historias de fadas,<br>
+ A do Zé do Telhado e da triste viuva<br>
+ Que só sahia á rua pelas noites de chuva!<br>
+ E essa (que faz chorar) de Pedro Malas Artes!<br>
+ Os tristes ventos a assoprar das quatro partes:<br>
+ São os ventos do sul: (cegos pedindo esmolas,<br>
+ Soffrem tanto com elle!) mais o vento das Rôlas;<br>
+ Mais o que vem do oeste, que abre e fecha as portas<br>
+ E geme nos pinheiraes, pelas noites mortas<br>
+ Erguendo as folhas seccas, cahidas pela terra.<br>
+ Mais o vento do norte, o vento da Inglaterra<br>
+ Que azula o céu e o rio, e deu ao mar a gloria<br>
+ De levar as Naus do Gama á India da victoria.<br>
+ E o mar, Senhor! o mar, ai! como chora ás Luas!<br>
+ Pelos seus golphos e canaes (as suas ruas)<br>
+ Sonetos de ais que só comprehende quem ama:<br>
+ E de noivos a quem deu o lençol e a cama.<br>
+ As descobertas dos meus Paes, dos Portuguezes:<br>
+ (Pois quando está p'ra isso tambem conta ás vezes)<br>
+ O mar! como elle conta ás noites tanta historia,<br>
+ Contos de cavalleiros sublimes de victoria;<br>
+ Contos de espadas nuas, em mãos desses guerreiros,<br>
+ E contos de segredo que ouviu aos marinheiros<span
+ class="pagenum"><a name="pag74" id="pag74">[74]</a></span><br>
+ Lá pelas noites calmas, á luz da lua branca,<br>
+ Quando choram seus males, que só a lua estanca.<br>
+ O mar! O mar, oh sim! O mar é meu amigo.<br>
+ Quantas vezes a rir, vem conversar commigo<br>
+ N'essas noites tão longas d'infinda solidão<br>
+ Em que vela no mundo, tão só meu coração!<br>
+ Quantas vezes na hora em que dormem crianças<br>
+ E as flores dormem tambem, e dormem as esp'ranças<br>
+ Para embalar o peito de quem no mundo as tem;<br>
+ Á hora em que ha mais treva nas sombras desta terra,<br>
+ (Que tantas sombras, ai! de dia mesmo encerra.)<br>
+ Á hora em que ha mais luz no céu todo estrellado,<br>
+ Eu fico só e scismo, nas dôres do meu passado.<br>
+ E quando emfim eu chóro, pensando nessas magoas<br>
+ Lá oiço a voz sublime d'aquellas grandes agoas<br>
+ Que querem vir chorar commigo e conversar.<br>
+ Historia é uma d'elle, esta que vou contar;<br>
+ Ouvi-a em alta noite escura de janeiro<br>
+ E p'ra m'a vir contar, o Mar chorou primeiro.<br>
+ <br>
+ ................................................<br>
+ Senhoras escutae-a! se tendes coração,<br>
+ Se daes esmola ao pobre, com vossa propria mão:<br>
+ Lembrae-vos que ouvir a voz d'uma desgraça<br>
+ Tambem é caridade, Senhoras cheias de graça!<br>
+ Dae-me um pranto vosso a este soffrimento,<br>
+ Senhoras! uma lagryma. Com ella me contento.<br>
+ ................................................<span
+ class="pagenum"><a name="pag75" id="pag75">[75]</a><br>
+ </span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Senhora minha, perdão<br>
+ Anjo do meu coração<br>
+ Pois a escrever eu me affoito?<br>
+ Estamos no julho, a oito<br>
+ Dia de Vasco da Gama<br>
+ (D'oravante assim se chama)<br>
+ Ai as saudades que eu tenho!<br>
+ Pois olha escrevo-te e venho<br>
+ Dar-te noticias do teu<br>
+ Apaixonado. Sou eu.<br>
+ Anrique, pastor de ovelhas.<br>
+ Tenho-as brancas e vermelhas,<br>
+ Pretas, de todo o tamanho.<br>
+ Tivesse-te eu no rebanho<br>
+ Porém como tu ainda<br>
+ Não vi nenhuma mais linda.<br>
+ Eu pensei que tu amavas<br>
+ O teu pastor, mas brincavas.<br>
+ Mas amo-te eu, muito embora.<br>
+ Não sou amado, Senhora?<span class="pagenum"><a name="pag76" id="pag76">[76]</a></span><br>
+ &mdash;Não o és, nem nunca o has-de ser&mdash;<br>
+ Pois seja o que Deus quizer!<br>
+ Vou pelas serras mais altas<br>
+ Mas vejo que tu me faltas<br>
+ E logo fico a pensar<br>
+ Que bom e triste é amar!<br>
+ Um amor sem esperança<br>
+ É um bem que não se alcança.<br>
+ Nasci debaixo d'um signo<br>
+ Que em nada me é benigno;<br>
+ Já não póde ser desfeito<br>
+ O que está feito, está feito.<br>
+ Ai de mim! não sou amado!<br>
+ Ai de mim, triste e coitado!<br>
+ Fumo saindo dos cazaes<br>
+ Que aspirações vós levaes!<br>
+ As minhas não vão tão alto:<br>
+ ............................<br>
+ São bem simples e modestas:<br>
+ Bons dias e boas sestas!<br>
+ Com mui pouco me sustento:<br>
+ O amor é meu alimento.<br>
+ O meu pão de cada dia,<br>
+ Lagrymas, minha agoa fria,<br>
+ Quem me dera andar comtigo<br>
+ No mar cheio de perigo!<br>
+ Ir á Africa n'uma Nau<br>
+ Na <em>San Rafael</em> de pau,<br>
+ Como os nossos Portuguezes!<br>
+ E andar por lá sete mezes,<span class="pagenum"><a name="pag77" id="pag77">[77]</a></span><br>
+ Sete annos, ou mesmo mais<br>
+ Sem medo dos temporaes!<br>
+ Outros ha pior de passar...<br>
+ Já tantos tive no mar<br>
+ Já tantos tive na terra<br>
+ Que já nenhum me faz guerra.<br>
+ Nós dois sós, e porque não?<br>
+ Sem maior tripulação.<br>
+ Eu seria o commandante<br>
+ D'aquella nau almirante!<br>
+ Oh que formoza serias<br>
+ Queimada das marezias!<br>
+ Vestida de marinheiro<br>
+ Ai sobe! sobe! gageiro<br>
+ Aquelle topo real,<br>
+ Diz adeus a Portugal,<br>
+ Que lá nos vamos, Adeus!<br>
+ E partiriamos com Deus!<br>
+ Oh que viagem venturoza!<br>
+ Pela Azia religioza<br>
+ Mais pelas terras do sul<br>
+ Com mar e ceu sempre azul!<br>
+ Vêr no ceu planetas novos<br>
+ Vêr pela terra outros povos,<br>
+ Outras leis, novos costumes,<br>
+ Capellas cheias de lumes,<br>
+ Á California do Oiro<br>
+ E lá achar um thesoiro.<br>
+ Vêr (que isso nunca se perde)<br>
+ O celebre «raio verde»<span class="pagenum"><a name="pag78" id="pag78">[78]</a></span><br>
+ Do sol-pôr no mar da America!<br>
+ Oh! a viagem chymerica!<br>
+ De gatas, como as gatinhas,<br>
+ ...........................<br>
+ Tu subirias aos mastros<br>
+ (Tão altos que vão aos astros)<br>
+ Sem receios das procellas!<br>
+ E dobrarias as velas<br>
+ A bujarrona, a latina.<br>
+ Com tuas mãos de menina!<br>
+ Oh! vem d'ahi commigo! eu parto!<br>
+ Quando estivesses de quarto<br>
+ A mão no leme segura<br>
+ A nau iria á ventura<br>
+ Ó suspiro das aragens!<br>
+ Ó phantasticas miragens!<br>
+ Não tenhas mêdo. Morrer<br>
+ Não custa nada, é viver.<br>
+ Custa menos que se pensa.<br>
+ O principal é ter crença.<br>
+ Morre o corpo, a alma abre aza<br>
+ E vae: é mudar de caza...<br>
+ Mas nem sempre ha mares grossos<br>
+ E que houvesse! Os padres nossos<br>
+ Fazem muito em tua bocca.<br>
+ Voz dôce acalma voz rouca!<br>
+ Tu não temes temporal<br>
+ És filha de Portugal!<br>
+ Se morressemos, que importa!<br>
+ Que bella serias morta!<span class="pagenum"><a name="pag79" id="pag79">[79]</a></span><br>
+ Minha Senhora da Esp'rança<br>
+ Já na Bemaventurança!<br>
+ Ir comtigo pr'o outro mundo,<br>
+ E juntos para o profundo<br>
+ Para esses mares salgados,<br>
+ N'um abraço amortalhados!<br>
+ Meu pensamento fluctua<br>
+ Perdoa (lá vem a Lua)<br>
+ Esta carta tão comprida!<br>
+ Mas eu amo nesta vida<br>
+ Duas coisas, tu primeiro<br>
+ Depois o mar, sou poveiro!<br>
+ Mas hoje, Senhora minha,<br>
+ Sou pastor sem pastorinha,<br>
+ Ainda hontem era estudante<br>
+ Porque não sou navegante!<br>
+ Foi sempre a minha paixão;<br>
+ Era a minha vocação.<br>
+ Mas a minha Mãe não quiz<br>
+ Talvez fosse mais feliz.<br>
+ Ah, Senhora! vou deixar-te!<br>
+ Minha Mãe por toda a parte<br>
+ Anrique! Anrique, onde estás?<br>
+ A pregação que ella faz<br>
+ Tudo por amor de ti<br>
+ (E já lhe oiço a voz d'aqui)<br>
+ E as ovelhas? Ai, Senhor!<br>
+ Não sirvo para pastor.<br>
+ Cada uma p'ra seu lado<br>
+ Não dou conta do recado.<span class="pagenum"><a name="pag80" id="pag80">[80]</a></span><br>
+ Minha Mãe ralha que ralha<br>
+ Ai, Senhor! Jezus me valha.<br>
+ E adeus que me vou embora<br>
+ Pois, boas noites, Senhora!<br>
+ Ah! eu estou, aqui, tão bem...<br>
+ E lá torna a minha Mãe<br>
+ &mdash;Anrique, Anrique, onde estás?<br>
+ &mdash;Onde te somes, rapaz!<br>
+ Tem razão, é já tão tarde!<br>
+ Na lareira o lume arde<br>
+ E fuma, aceza a candeia:<br>
+ Minha Mãe que faz a ceia!<br>
+ Ha que tempo ella passou<br>
+ Com a lenha que encontrou!<br>
+ Desprezada nos caminhos...<br>
+ Nós somos mui pobrezinhos!<br>
+ E eu, aqui, á lua, á farta.<br>
+ Prompto. Acabo, aqui, a carta.<br>
+ Adeus! são horas de eu me ir<br>
+ Cear, rezar... e dormir.<br>
+ Nossa-Senhora me ajude!<br>
+ A minha Mãe não se illude<br>
+ Com toda esta demora<br>
+ Ella bem sabe, Senhora!<br>
+ E lá torna a Mãe: Anrique<br>
+ Queres que eu me mortifique?<br>
+ Anda cear, não tens fome?<br>
+ Jezus! Jezus! Santo Nome!<br>
+ Eu bem sei e bem no entendo.<br>
+ O que são Mães! Em me vendo<span class="pagenum"><a name="pag81" id="pag81">[81]</a></span><br>
+ Quando todo me concentro<br>
+ Que trago paixão cá dentro.<br>
+ Isto já ha muitos mezes.<br>
+ Mas nada diz. Só ás vezes<br>
+ Quando não como e me deito<br>
+ Assim... a tossir do peito,<br>
+ Tambem não quer ella comer<br>
+ E aventura-se a dizer:<br>
+ «Amores&mdash;filho, paixões<br>
+ Só trazem consumições»<br>
+ E assim é, assim, Mãesinha!<br>
+ Pois adeus, Senhora minha!<br>
+ ..........................<span class="pagenum"><a name="pag82" id="pag82">[82]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Vae alta a Lua branca, serena, silenciosa<br>
+ Da luz dos Boulevards, fugindo desdenhoza.<br>
+ É a hora em que Paris começa a louca vida<br>
+ Na tragica cidade ao sol adormecida.<br>
+ O Paris de Baudelaire! Paris da minha penna<br>
+ Que em tempos já molhei nas agoas do teu Sena<br>
+ Que mysterios eu leio, Paris, no teu folgar!<br>
+ Que mysterios eu vejo, passando os Boulevards!<br>
+ Ó vêde a pallidez da luz d'aquelle gaz,<br>
+ Vêde a côr mortuaria, que aos rostos elle traz!<br>
+ Olhae p'ras criancinhas que passam sob a chuva;<br>
+ Olhae p'ro pranto facil dos olhos da viuva<br>
+ Que pede aqui cantando, e canta ali chorando,<br>
+ E assim de pranto e riso seu pão vae amassando;<br>
+ Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores!<br>
+ Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores;<br>
+ Paris que me acolheste n'agreste mocidade<br>
+ Eu não te amo não, mas dou-te uma saudade.<br>
+ Senhoras, como o Sena vae triste, amarellento,<br>
+ Turvado pelas rugas sulcadas pelo vento.<span
+ class="pagenum"><a name="pag83" id="pag83">[83]</a></span><br>
+ <br>
+ Não vejo aqui, Senhoras, a luz do vosso Tejo<br>
+ Nem vejo o céu azul, Senhoras!... mas eu vejo<br>
+ Uns olhos fitos n'agoa... uns olhos luzitanos,<br>
+ Que pela luz que tem não contam muitos annos.<br>
+ <br>
+ E a lua que anda fugida, lá pelo céu profundo<br>
+ Deixou cahir no rio, o seu retrato, ao fundo.<br>
+ .............................................<br>
+ <br>
+ <br>
+ Senhoras, Anrique ouvira a voz d'uma das freiras<br>
+ E quando no adro branco, as notas derradeiras<br>
+ Perderam-se voando, julgou n'um som dorido<br>
+ Reconhecer a voz do seu amor perdido!<br>
+ <br>
+ São sonhos de poeta; mas sonhos como lyrios<br>
+ Tão brancos como elles... vermelhos nos martyrios!<br>
+ <br>
+ .............................................<br>
+ Vinde d'ahi, Senhoras, commigo quereis ouvir?<br>
+ Ingenuo é o seu cantar... talvez vos faça rir!<br>
+ <br>
+ «Vi-te ha pouco rezando nas novenas<br>
+ Ai tão linda, tão pallida, meu Deus!<br>
+ Quaes são as tuas dores, as tuas penas,<br>
+ Por quem levantas tuas mãos aos céus!<br>
+ <br>
+ «Cantae, ó freiras Benedictinas,<br>
+       Cantae, cantae,<br>
+ Cantae novenas, cantae matinas,<br>
+       Cantae, cantae.<span class="pagenum"><a name="pag84" id="pag84">[84]</a></span><br>
+ <br>
+ «No Boul'Mich, os castanheiros da India<br>
+ Começam a despir as folhagens, ao luar,<br>
+ Que bellas armações, para galeras da India<br>
+ Se ainda houvesse Indias, neste mundo, a conquistar!<br>
+ <br>
+ «Tudo tão triste! todos tão tristes!<br>
+ Olhae, são poucas todas cautelas<br>
+ Doentes do peito, cuidado, ouvistes?<br>
+ Tirae do armario vossas flanellas!<br>
+ <br>
+ «Cantae o canto Gregoriano<br>
+       Para eu chorar!...<br>
+ Cantae ó freiras! durante um anno<br>
+       Para eu... chorar!...<br>
+ <br>
+ «Andam meus olhos luzitanos<br>
+       A procurar-te,<br>
+ Minha chymera! tenho vinte annos!<br>
+       Eu quero amar-te!<br>
+ <br>
+ «Ó sinos de toda a França<br>
+ Cantae, cantae o meu mal,<br>
+ Tão alto, essa voz não cança,<br>
+ Que ella os oiça em Portugal!<br>
+ <br>
+ «Cantae o canto Gregoriano<br>
+       Para eu chorar!...<br>
+ Cantae ó freiras durante um anno<br>
+       Para eu... chorar!...»<br>
+ <br>
+ ...................................<span class="pagenum"><a name="pag85" id="pag85">[85]</a></span>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Morrera já o Sol; os altos castanheiros<br>
+ Choravam á voz do vento, quaes lugubres troveiros,<br>
+ Os choupos retorciam os troncos já despidos,<br>
+ Parecendo erguer ao céu seus braços resequidos,<br>
+ Ao darem as «Trindades» no claustro, de mansinho,<br>
+ Fugiu um bando d'aves pousadas no caminho.<br>
+ A cruz meio inclinada parecia desmaiar<br>
+ Perdida na côr pallida da luz crepuscular;<br>
+ Eram mysterios da hora nervoza da tardinha<br>
+ Em que s'adeanta a morte, e treme a alma minha!<br>
+ A hora em que perdido do Lar, dos meus Irmãos,<br>
+ Scismando no meu Lar, eu junto as frias mãos;<br>
+ A hora em que o traidor por mais que faça esforços<br>
+ Não póde em si calar o susto dos remorsos;<br>
+ A hora em que se acende o lume nas lareiras<br>
+ E ladram cães ao longe, em véla pelas eiras;<br>
+ A hora em que entristece na rua o caminhante,<br>
+ E pára vendo o Sol cahir agonisante;<br>
+ E as raparigas trémulas se vão fechar as portas,<br>
+ Ouvindo ao longe as rãs, gritar em agoas-mortas!<span
+ class="pagenum"><a name="pag86" id="pag86">[86]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Ó Senhora d'altas Espheras!<br>
+ Castellã das minhas chymeras!<br>
+       Ó meu amor!<br>
+ Amor mystico, amor celeste<br>
+ Que tu pelo Natal me deste,<br>
+       Senhor! Senhor!<br>
+ <br>
+ Sou forte agora, e temerozo,<br>
+ Sou um rei Todo Poderozo<br>
+       Senão olhae!<br>
+ Só diante de ti me humilho<br>
+ Senhor! Senhor! Sou teu filho<br>
+       E tu meu Pae!<br>
+ <br>
+ Venham armadas de Inglaterra<br>
+ Venham as naus de toda a terra,<br>
+       De todo o mar!<br>
+ Que eu só por entre ellas e o Oceano,<br>
+ Na minha nau a todo o panno,<br>
+       Hei-de passar!<span class="pagenum"><a name="pag87" id="pag87">[87]</a></span><br>
+ <br>
+ Venha o exercito da Allemanha,<br>
+ Mais seus alliados, mais a Hespanha,<br>
+       Hei-de vencer!<br>
+ Tu és grande, és forte, Guilherme!<br>
+ Tu és um mundo, eu sou um verme...<br>
+       Vamos a vêr!<br>
+ <br>
+ Venha uma immensa tempestade,<br>
+ Caiam raios sobre a cidade,<br>
+       Venham trovões!<br>
+ Que eu irei só para as janellas,<br>
+ Sem Santa-Barbara, sem velas,<br>
+       Sem orações!<br>
+ <br>
+ Soldados de Alsacia e Lorena!<br>
+ (A bella França assim m'o ordena)<br>
+       Vamos! Então?<br>
+ Atirae balas aos meus peitos,<br>
+ Que eu apanho-as, como confeitos,<br>
+       Na minha mão!<br>
+ <br>
+ Venham Philosophos, Douctores,<br>
+ Venha Spinoza, outros maiores,<br>
+       Gregos, Judeus;<br>
+ Venham Estoicos, Pessimistas,<br>
+ Cynicos, os Positivistas...<br>
+       Eu creio em Deus!<span class="pagenum"><a name="pag88" id="pag88">[88]</a></span><br>
+ <br>
+ Ó morte, minha amiga de outr'ora<br>
+ Que fazes ahi, ha mais d'uma hora!<br>
+       Queres-me? Ah sim?<br>
+ Cortei as relações comtigo<br>
+ Ó vae-te! já não sou teu amigo,<br>
+       Nem tu de mim!<br>
+ <br>
+ Ó Luiz de Camões e da Esperança!<br>
+ Ao pé de ti sou uma criança,<br>
+       Mas ouve cá.<br>
+ Vamos cantar ao desafio,<br>
+ Á sua janella, sobre o rio,<br>
+       Ver qual mais dá...<br>
+ <br>
+ Ó troveiros de toda a parte<br>
+ D. Pedro!, D. Diniz!, D. Duarte!<br>
+       O que sois vós?<br>
+ Minha lyra é do seu cabello,<br>
+ E os meus versos, quereis sabel-o?<br>
+       São a sua voz!<br>
+ <br>
+ Ó vento cantante do Norte!<br>
+ Minha lyra agreste é mais forte<br>
+       Do que a tua!<br>
+ Vinde todos, troveiros do ar,<br>
+ Em desafio commigo a cantar<br>
+       Por essa rua!<br>
+ <br>
+ ....................................<span class="pagenum"><a name="pag89" id="pag89">[89]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Vem entrando a barra a galera «Maria»<br>
+ Que vem de tão longe e tão linda que vem!<br>
+ Toca em terra o sino p'ra missa do dia<br>
+ Em frente, em Santa Maria de Belem!<br>
+ <br>
+ Mareantes trigueiros no alto dos mastros,<br>
+ Aí dobram as velas não são mais precizas!<br>
+ Ai que lindas eram, ás luas e aos astros!<br>
+ Que doidas, aos ventos! que meigas, ás brizas!<br>
+ <br>
+ Desdobra as amarras! apresta a fateixa!<br>
+ Pois todos em breve a nau vão deixar;<br>
+ Ó terra! Que saudade a de quem te deixa<br>
+ Ó terra! pela aventura do alto mar!<span class="pagenum"><a name="pag90" id="pag90">[90]</a></span><br>
+ <br>
+ Entra o piloto e abraçam-se estes e aquelles.<br>
+ Abraçam-se e riem tanto á vontade...<br>
+ Abraços que levam almas dentro d'elles,<br>
+ Sorrizos de boccas que fallam verdade!<br>
+ <br>
+ Só as intende (capitães, não as sentís)<br>
+ Quem, algum dia, passou as agoas salgadas<br>
+ Quem, um dia, as passou n'uma hora infeliz<br>
+ Quem, um dia, as passou, com as frontes curvadas.<br>
+ <br>
+ E «Maria» vae indo pelo Tejo acima,<br>
+ E scisma Anrique: «Que lindo Portugal!»<br>
+ Vem as nymphas, vae uma dá-lhe uma rima,<br>
+ Vae outra (gostam d'elle) e vae faz-lhe um signal.<br>
+ <br>
+ E Anrique scisma: «Quem não te viu ainda!<br>
+ Ó minha Lisboa de marmore! Lisboa<br>
+ De ruinas e de glorias! Tu és linda<br>
+ Entre as cidades mais lindas, ó Lisboa!»<br>
+ <br>
+ Ó minha Lisboa! com oiros tão constantes<br>
+ Pelas serras e céus e pelo rio! Com seus<br>
+ Jeronymos dos Poetas e Mareantes!<br>
+ Lisboa branca de João de Deus!<span class="pagenum"><a name="pag91" id="pag91">[91]</a></span></blockquote>
+
+<h4>I</h4>
+
+<blockquote>
+ Ó Lisboa! n'um seculo bem perto<br>
+ Quando a Africa e as Azias se mostrarem<br>
+ Civilizadas, sem um só deserto,<br>
+ E as esquadras do mundo inteiro entrarem<br>
+ N'aquelle Tejo sobre o mundo aberto,<br>
+ Para dos grandes ventos descansarem,<br>
+ Ó Lisboa (não são glorias chymericas)<br>
+ Voltada sobre as Azias e as Americas!</blockquote>
+
+<h4>II</h4>
+
+<blockquote>
+ Porque é que Deus aqui te poz á entrada<br>
+ Senão para destinos imperiaes?<br>
+ Do mar da India a viração salgada<br>
+ Respiral-a tu, antes dos mais.<br>
+ A vêr és tu, primeira, a alvorada<br>
+ E a ultima o sol nos fins occidentaes.<br>
+ Lisboa! quando eras pequenina<br>
+ Houve uma fada que te leu a sina?</blockquote>
+
+<h4>III</h4>
+
+<blockquote>
+ O que já foste tu, n'outras idades<br>
+ Grande e famoza acima das Nações,<br>
+ Tu de novo o serás, porque as cidades<br>
+ Têm varias mortes e resurreições,<br>
+ Outras infancias, novas mocidades,<br>
+ Novas conquistas, outros galeões...<br>
+ Ó coragens, ó coleras, tormentos,<br>
+ Trovões, Indias, relampagos e ventos!<span
+class="pagenum"><a name="pag92" id="pag92">[92]</a></span></blockquote>
+
+<h4>IV</h4>
+
+<blockquote>
+ Velha Lisboa, minha mae-madrinha!<br>
+ Tu voltarás a ser o que já foste,<br>
+ E não, não cuides que é illusão minha,<br>
+ Pois nenhuma já tenho a que me encoste!<br>
+ Não sei quê dentro em mim m'o adivinha<br>
+ Não sei que voz m'o diz de que eu mais goste.<br>
+ E bem no sabes de bem longe: os Poetas<br>
+ Não se enganam&mdash;são bruxos, são Prophetas!</blockquote>
+
+<h4>V</h4>
+
+<blockquote>
+ Lá onde escoa o Tejo, os Esculptores<br>
+ De entre a agoa erguerão altos heroes<br>
+ Poetas, Santos e Navegadores:<br>
+ Nun'Alvares sorrindo aos seus does-does,<br>
+ Feridas de Astros! admiraveis flôres!<br>
+ (Com auroras e poentes como os soes...)<br>
+ Luiz de Souza, scismatico, e Frei Gil,<br>
+ Pedr'Alvares, a mão para o Brazil!...</blockquote>
+
+<h4>VI</h4>
+
+<blockquote>
+ Vasco da Gama a apontar lá para onde<br>
+ Nasce o sol, terra da sua India amada,<br>
+ Outro a olhar lá, onde o sol se esconde,<br>
+ Camões olhando triste a onda salgada;<br>
+ Mas a onda passa, passa e não responde...<br>
+ Que a leva o fado, vae muito apressada...<br>
+ Todos tão vivos, os heroes colossos,<br>
+ Que dir-se-ia que têm sangue e ossos.<span
+class="pagenum"><a name="pag93" id="pag93">[93]</a></span></blockquote>
+
+<h4>VII</h4>
+
+<blockquote>
+ E do seu forte, S. Julião, em summa,<br>
+ Sobre toda esta gloria e esta magoa,<br>
+ Luas conta a desfiar uma por uma,<br>
+ (Ondas do mar) Salve Rainhas d'agoa<br>
+ E Ave Marias, de doirada espuma...<br>
+ E os outros, no deserto d'essa fragoa<br>
+ Pela noite o acompanham; e assim<br>
+ Rezam todos por seculos sem fim.</blockquote>
+
+<h4>VIII</h4>
+
+<blockquote>
+ Eu confio em ti reza d'Heroes,<br>
+ E confiar em ti, não é vaidade.<br>
+ Vossos nomes de bronze são pharoes<br>
+ Que luz darão, á nossa tempestade.<br>
+ O nosso Rey... (cabello em caracoes!)<br>
+ Já não dorme no Paço... Piedade!<br>
+ Deixareis a Patria engrandecida<br>
+ Por vossas mãos p'ra sempre ser vencida?</blockquote>
+
+<h4>IX</h4>
+
+<blockquote>
+ Côr do ceu a bandeira e côr de neve<br>
+ Não a vejo na torre a fluctuar!<br>
+ Senhor! Vós bem sabeis que o Rey não deve<br>
+ Outras armas que a vossa apresentar.<br>
+ Se assim deixaes que outro povo a leve,<br>
+ Porque a déste ao nosso p'ra guardar?<br>
+ Não é elle o mesmo que em Ourique<br>
+ A acclamou nas mãos do teu Henrique?<span
+class="pagenum"><a name="pag94" id="pag94">[94]</a></span></blockquote>
+
+<h4>X</h4>
+
+<blockquote>
+ Anda tudo tão triste em Portugal!<br>
+ Que é dos sonhos de gloria e d'ambição?<br>
+ Quantas flores do nosso laranjal<br>
+ Eu irei vêr cahidas pelo chão!<br>
+ Meus irmãos Portuguezes, fazeis mal<br>
+ De ter ainda no peito um coração.<br>
+ Talvez só eu! (Amôr ai tu m'entendes!)<br>
+ Possa ainda ter a paz que já não tendes.</blockquote>
+
+<h4>XI</h4>
+
+<blockquote>
+ Talvez só eu irmãos! mas é que a mim<br>
+ Deve o Senhor as flores com que s'enfeita<br>
+ A mocidade!... que é d'elle o meu jardim!<br>
+ Dizei-me vós irmãos, na vida estreita<br>
+ Toda a desgraça não terá um fim?<br>
+ Se a ventura não póde ser perfeita<br>
+ Tenho agora a Patria em sepultura!<br>
+ Que mais quereis na taça d'amargura?</blockquote>
+
+<h4>XII</h4>
+
+<blockquote>
+ Virá, um dia, carregado de oiros,<br>
+ Marfins e pratas que do céu herdou,<br>
+ O rei menino que se foi aos moiros<br>
+ Que foi aos moiros e ainda não voltou.<br>
+ Tem olhos verdes e cabellos loiros,<br>
+ Ah não se enganem, (ainda não chegou)<br>
+ Virá El-Rey-Menino do Estrangeiro,<br>
+ N'uma certa manhã de nevoeiro...<span
+class="pagenum"><a name="pag95" id="pag95">[95]</a></span></blockquote>
+
+<h4>XIII</h4>
+
+<blockquote>
+ Tem loiros os cabellos, e é criança,<br>
+ Tem olhos verdes de luar nocturno:<br>
+ Olhos verdes, são olhos de esperança!<br>
+ Olhos verdes, são Luas de Saturno!<br>
+ Veio da Africa mais a sua lança<br>
+ Vae pr'o mundo, rezando taciturno.<br>
+ Tão pobrezinho, olhae! estende a mão:<br>
+ «Quem dá esmola a D. Sebastião?»</blockquote>
+
+<h4>XIV</h4>
+
+<blockquote>
+ Esperae, esperae, ó Portuguezes!<br>
+ Que elle ha-de vir, um dia! Esperae.<br>
+ Para os mortos os seculos são mezes,<br>
+ Ou menos que isso, nem um dia, um ai.<br>
+ Tende paciencia! finarão revezes;<br>
+ E até lá, Portuguezes! trabalhae.<br>
+ Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,<br>
+ Que elle ha-de vir, ha-de vir, ha-de vir!<span
+class="pagenum"><a name="pag96" id="pag96">[96]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Lá vem, lá vem minha Amada,<br>
+ Rainha de Portugal.<br>
+ Vem com a capa estrellada,<br>
+ Debaixo d'um palio real<br>
+ Todo de seda vermelha,<br>
+ Com saias de oiro e coral.<br>
+ Vê o povo que ajoelha<br>
+ E faz o «pelo signal!»<br>
+ <br>
+ Que linda é! que formoza!<br>
+ Que graça ella tem a andar!<br>
+ Pagens vestidos de roza<br>
+ Vão á frente a encaminhar,<br>
+ Tirando as pedras da rua<br>
+ Não vá ella tropeçar,<br>
+ Tão leve, parece a Lua,<br>
+ Tão leve que vae no ar!<span class="pagenum"><a name="pag97" id="pag97">[97]</a></span><br>
+ <br>
+ Vinde vêr, vinde ás janellas,<br>
+ Meninas de Portugal!<br>
+ Deixae o bordado, as telas,<br>
+ Deixae a agulha e dedal.<br>
+ Não temaes a feia inveja<br>
+ Vinde vêl-a cada qual.<br>
+ E que em honra d'ella seja<br>
+ Esta noite o arraial.<br>
+ <br>
+ Sua belleza é tamanha<br>
+ Que pertence a Portugal.<br>
+ Como obra de arte, extranha,<br>
+ É um poema, é uma cathedral.<br>
+ Aos Luziadas semelhante,<br>
+ Aos Jeronymos egual,<br>
+ Onde os poetas e o mareante<br>
+ Dormem o somno final!<br>
+ <br>
+ Nem Mafra com seu convento<br>
+ Tem maior a altivez<br>
+ .......................................<br>
+ Não se esquece, visto uma vez!<br>
+ Seu corpo é uma obra de graça<br>
+ E de que suave pallidez!<br>
+ A minha amada é a Alcobaça<br>
+ Onde jaz a linda Ignez!<span class="pagenum"><a name="pag98" id="pag98">[98]</a></span><br>
+ <br>
+ É fidalga de nascença,<br>
+ Mais do que os Reis, do que vós.<br>
+ Já poetas na Renascença<br>
+ Cantaram seus bisavós.<br>
+ Mas mais fidalga é ella ainda<br>
+ Por sua alma (sem Avós).<br>
+ Ah! lá vem ella tão linda<br>
+ E vem rezando por nós!<br>
+ <br>
+ A minha Amada é fidalga<br>
+ Que tem no mar seus brazões.<br>
+ Tem na bocca aromas de alga<br>
+ Brizas da India e outras regiões,<br>
+ O que prova d'onde vejo<br>
+ Já no tempo de Camões<br>
+ Era sobrinha do Tejo<br>
+ E prima dos Galeões!<br>
+ <br>
+ É toda de cazos bellos<br>
+ A tua nobreza fina,<br>
+ Toda torres e castellos<br>
+ Com legendas de menina.<br>
+ Excedes Reis e Prophetas<br>
+ ...........................................<br>
+ Menos os Santos e Poetas<br>
+ Que têm costella divina!<span class="pagenum"><a name="pag99" id="pag99">[99]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Quatorze luas já foram passadas,<br>
+ Desde que eu a perdi e ao seu amor;<br>
+ Meu coração tem ainda as janellas fechadas,<br>
+ Ainda vestem de lucto os meus criados, Senhor.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">O POVO</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Chymeras tombadas! Chymeras
+tombadas!</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;A sorte deu-me já cabellos pretos<br>
+ Ai não precizo de os enluctar.<br>
+ &mdash;«Mas olhe as brancas... meu senhor»<br>
+ O branco é lucto, podes, Ama, descançar!</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">O COVEIRO</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;"><span class="caixa_meia">O
+branco é lucto: são brancos os esqueletos!</span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Ó illuzões que em ti puz tão amigas!<br>
+ Oh! a esperança que em minha alma é morta!<br>
+ Antes eu te visse cobertinha de bexigas<br>
+ Ou em farrapos, a pedir, de porta em porta...</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">TODOS</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Antes a
+visses morta!</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Antes a
+visses morta!<span class="pagenum"><a name="pag100" id="pag100">[100]</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Dei-te o meu coração a ti, bella entre todas,<br>
+ Coração, que a ninguem ainda se dobrara,<br>
+ Chego do mar, venho assistir ás tuas bodas,<br>
+ Ah! no mar salgado, porque não ficára.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">UM PASTOR</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Toca a noivado em Santa
+Clara</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Dobra a
+defuntos tres legoas em roda!</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Fugiu-me a minha amada e com ella a fortuna,<br>
+ Meu Lar por terra! sem ninguem na multidão.<br>
+ Fiquei na vida só, como o Conde de Luna,<br>
+ Mais sua espada. Ai do meu pobre coração!<br>
+ <br>
+ (Meu coração calla-te ou falla baixo: massa<br>
+ Os mais a nossa dôr. Sim calla-te é melhor)<br>
+ A procissão das Dôres em mim sinto que passa<br>
+ E passa... e passa... e cada vez será pior.</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA</p>
+
+<p class="caixa_meia">Não que o fim d'uma desgraça</p>
+
+<p class="caixa_meia">É o começo d'outra maior!</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Parti um dia, n'uma romagem,<br>
+ Levando a Esponja, o Fel, a Cruz!<br>
+ Regresso altivo d'essa viagem<br>
+ Feliz, anciozo. (E nunca o suppuz)</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA.</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Senhor Douctor, tenha
+coragem</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center; text-align:left;">Olhe que
+mais soffreu Jesus.<span class="pagenum"><a name="pag101" id="pag101">[101]</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;E que vejo eu, Senhor! O meu prato sem sopa,<br>
+ Meu Lar em pó, o amor d'ella já não é o meu.<br>
+ Minhas camizas, hoje, são de estopa,<br>
+ Foram de seda... Que vejo eu!<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">OS VIZINHOS</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Foste á pandega por essa
+Europa,</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Ahi tens o pago que o Senhor
+te deu!</p>
+
+<blockquote>
+ O mundo deu-me cabellos pretos<br>
+ Ai não precizo de os enluctar!<br>
+ ...................................................<br>
+ E mais em breve porque vou cegar...</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">UM CEGO</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">A Anrique ceguinho dirão</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Olhe não vá tropeçar...</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Amar a ella e d'ella ser amado,<br>
+ Ir em breve pedir a sua mão!<br>
+ E de repente tudo escangalhado!<br>
+ Ai que desgraça! como os outros são!</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">THEREZA</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">E que menino tão estimado!</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">E tudo n'elle é
+perfeição!<span class="pagenum"><a name="pag102" id="pag102">[102]</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«Anrique meu amor, filho de Porto-Calle!»<br>
+ Me dizia ella... Ai do meu coração!<br>
+ Amor já me não tem, não ha já Portugal...<br>
+ E que vejo, Senhor! de ruinas pelo chão!</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:center;">OS MENDIGOS</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Tantos vadios sem nada na
+mão</p>
+
+<p class="caixa_meia" style="text-align:left;">Sempre á espera de D.
+Sebastião.</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Ó D. Sebastião a ti comparo,<br>
+ El-Rey de Portugal, a minha sorte,<br>
+ Se te encontrasse na vida, serias meu amparo,<br>
+ Ser-m'o has talvez depois da morte.<br>
+ <br>
+ D. Sebastião, rey dos desgraçados,<br>
+ D. Sebastião, rey dos vencidos,<br>
+ El-Rey dos que amam sem ser amados<br>
+ El-Rey dos genios incomprehendidos.<span
+class="pagenum"><a name="pag103" id="pag103">[103]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Sahi, um dia, a barra á procura da gloria,<br>
+ Entre soluços e orações, cuja memoria<br>
+ Me faz tremer. (Ah foi n'uma tarde d'outomno,<br>
+ Que linda! O mar espreguiçava-se com somno...)<br>
+ Por essa barra sahem, cheios de peccados,<br>
+ Bandidos com seus crimes e mais os degredados,<br>
+ Traidores á Patria e ao Rey, infelizes e ladrões.<br>
+ Por lá sahiu, tambem, n'uma noite, Camões.<br>
+ No barco em que segui viagem nessa agoa,<br>
+ Levava aos hombros um bahu cheio de Magoa<br>
+ E mais um sacco de Dôr que por lá me ficou.<br>
+ De volta trago tres, que aquelle não chegou.<br>
+ Os Homens conheci n'essa jornada pelo mundo.<br>
+ Não lhes quero mal, seu erro é tão profundo!<br>
+ ..................................................<br>
+ ..................................................<br>
+ <br>
+ Todos partiram, todos fugiram.<br>
+ Os ladrões assaltaram-me á estrada<br>
+ Quizeram-me matar. Não conseguiram.<br>
+ <br>
+ Ninguem me resta, não me resta nada!<br>
+ Fui enganado nos meus leaes amores.<br>
+ Já tive de salvar a minha vida á espada.<span
+ class="pagenum"><a name="pag104" id="pag104">[104]</a></span><br>
+ <br>
+ No meu jardim semiei lilazes,<br>
+ Passado tempo vi nascer ortigas;<br>
+ Cada dia que nova dôr me trazes?<br>
+ <br>
+ Lavrei canduras e colhi intrigas,<br>
+ Nasceram odios onde puz perdões.<br>
+ Não digas mais meu coração! não digas<br>
+ <br>
+ Procreei gigantes vi nascer anões,<br>
+ Plantei nesta alma vinhas da piedade<br>
+ E vindimei, Senhor! Ingratidões!<br>
+ <br>
+ Nunca se deve ter tanta bondade,<br>
+ Quando é excessiva e tanto dó inspira<br>
+ E uma falta até de dignidade.<br>
+ <br>
+ Ora eu assim cercado de mentira,<br>
+ Longe de tudo e todos, e enganado<br>
+ (Quando se foi tão criança o que admira!)<br>
+ <br>
+ Vi-me sem Deus, só, triste e em tal estado<br>
+ Que se o contasse chorarieis... Não!<br>
+ Não falta em que empregar pranto salgado.<br>
+ <br>
+ Que infortunio, meu Deus! que decepção!<br>
+ Minha crença catholica perdi-a,<br>
+ Já não sei persignar-me com a mão.<span class="pagenum"><a name="pag105" id="pag105">[105]</a></span><br>
+ <br>
+ Durante mezes, sempre, dia a dia,<br>
+ Ainda fui, por habito, á Igreja:<br>
+ Não sabia rezar a Ave-Maria!<br>
+ <br>
+ Chegava ainda até «bemdita sejas...»<br>
+ E ao ver a Virgem d'olhos sobre mim<br>
+ Córava de pudor como as cerejas.<br>
+ <br>
+ Nunca na Terra se viu nada assim!<br>
+ Minha vida mudou-se de repente.<br>
+ A tosse veio... vós sabeis o fim.<br>
+ <br>
+ Foi a queda do Imperio do Occidente!<br>
+ Foi o desastre de Alcacer-Kibir!<br>
+ A Hespanha veio com Philippe á frente!<br>
+ <br>
+ Que mais viria e estava para vir?<br>
+ E fui a França consultar um Bruxo<br>
+ Que eu já de ha muito desejava ouvir.<br>
+ <br>
+ Á porta havia uma cruz de hera e buxo<br>
+ E ao centro, no jardim, d'entre uma fragoa,<br>
+ Erguia-se em girandola um repuxo.<br>
+ <br>
+ Bolas de sabugueiro á mercê da agoa<br>
+ Iam e vinham, graças de meninos,<br>
+ Ascenções de prazer quedas de mágoa!<span class="pagenum"><a name="pag106" id="pag106">[106]</a></span><br>
+ <br>
+ Era a sorte a brincar com os destinos...<br>
+ Não deixava de ter engenho o dianho<br>
+ Do Bruxo! Mas que symbolos tão finos!<br>
+ <br>
+ Entrei. E vi um Velho alto, tamanho,<br>
+ De barbas brancas a tocar-lhe os joelhos.<br>
+ &mdash;Sois vós o Bruxo?&mdash;«Sim! esse é o meu ganho!»<br>
+ <br>
+ Tinha um sorrizo que só têm os velhos.<br>
+ E os labios brancos (de quem já não ama)<br>
+ Que contrastavam com os meus, vermelhos.<br>
+ <br>
+ &mdash;Venho de longe, aqui, por vossa fama.<br>
+ Vosso nome chegou ao meu paiz.<br>
+ &mdash;O teu paiz, Senhor! como se chama?<br>
+ <br>
+ Não: dá-me a mão, ella melhor m'o diz:<br>
+ «Oh vens de Portugal? Oh se o conheço!<br>
+ Manda-me para cá muito infeliz...»<br>
+ <br>
+ Ouvindo taes palavras, estremeço.<br>
+ N'elle fixo os meus olhos de admirado<br>
+ E que me diga os fados eu lhe peço.<br>
+ <br>
+ Sombrio, o Bruxo assenta-se, callado,<br>
+ N'uma cadeira antiga, ao pé do lume.<br>
+ Eu assentei-me timido, ao seu lado.<span class="pagenum"><a name="pag107" id="pag107">[107]</a></span><br>
+ <br>
+ Ó momento que um seculo resume!<br>
+ O São Paulo do Amôr! Martyr christão,<br>
+ Que ao vêr a espada já lhe sente o gume!<br>
+ <br>
+ Na sua mão tomou a minha mão.<br>
+ Seus olhos frios crava-mos na palma,<br>
+ Mas de repente muda de expressão.<br>
+ <br>
+ Que passado, Senhor! tem dó d'esta alma!<br>
+ Catastrophes! Naufragios! tantos perigos!...<br>
+ Mas eu logo acudi, com grande calma:<br>
+ <br>
+ &mdash;Basta. Deixae-me em paz o tempo antigo.<br>
+ Eu conhecia-o já antes de vós.<br>
+ P'ra que lembrar-m'o? Sêde meu amigo!<br>
+ <br>
+ N'uma sala contigua, etherea voz<br>
+ Rezava a ladainha, eram mulheres.<br>
+ &mdash;«<em>Estrella da manhã!&mdash;ora por nôs!</em>»<br>
+ <br>
+ &mdash;«Nada te digo, pois que assim o queres!<br>
+ Ouves? Lá dentro, rezam minhas filhas.<br>
+ E rezarão o tempo que quizeres.»<br>
+ <br>
+ E continuou a lêr: «Que maravilhas!<br>
+ Que mão extranha! mão de tempestade!<br>
+ Mares, golfos, canaes, cabos e ilhas!<span class="pagenum"><a name="pag108" id="pag108">[108]</a></span><br>
+ <br>
+ Vaes em meio da tua mocidade.<br>
+ Tens vindo em tua nau, desde criança,<br>
+ Por um sombrio mar da antiguidade.<br>
+ <br>
+ Agora, aqui, o temporal descança<br>
+ E vê: segundo a altura do quadrante<br>
+ Dobras o Cabo da Boa-Esperança!<br>
+ <br>
+ Coragem! meu sombrio navegante!<br>
+ Paciencia! mais um pouco e aportarás<br>
+ Á India! mais tua esquadra de almirante!<br>
+ <br>
+ Alli, te aguardam Bens te espera a Paz<br>
+ A boa Gloria e mais do que isso, até,<br>
+ Um grande amor,&mdash;e alli te coroarás!»<br>
+ <br>
+ O Velho disse. E, logo, puz-me em pé.<br>
+ Mui feliz, não querendo ouvir o resto,<br>
+ Que eu sei o vasio que este mundo é.<br>
+ <br>
+ Adeus! disse eu áquelle sabio honesto,<br>
+ Formozo e de olhos grandes como céus!<br>
+ Adeus! e parti logo, altivo e presto.<br>
+ <br>
+ Caía o sol no oceano. Orei a Deus.<br>
+ Uma nau me esperava... Erguemos ferro<br>
+ E abalamo-nos de França. Adeus! Adeus!<span class="pagenum"><a name="pag109" id="pag109">[109]</a></span><br>
+ <br>
+ Que peccado Senhor! ou grande erro<br>
+ No mundo commetti que me dás tantos<br>
+ Trabalhos, como na Africa em desterro?<br>
+ <br>
+ Não posso ser bem sabes como os Santos.<br>
+ Mas quantos homens neste mundo avisto<br>
+ Tão felizes (e maus!) quantos e quantos!<br>
+ <br>
+ E se não fui eu que pequei, ó Christo!<br>
+ Peccariam os meus antepassados?<br>
+ Quem foram elles? Vem contar-me isto!<br>
+ <br>
+ Religiozos, maritimos, soldados?<br>
+ E justas são as leis com que me aterras<br>
+ Sendo elles os unicos culpados?<br>
+ <br>
+ Na Arabia, na Phenicia ou outras terras<br>
+ Cauzaram, vae em seculos, paixões<br>
+ Fomes e sedes, ou atearam guerras?<br>
+ <br>
+ Comeu a terra os ossos d'esses leões,<br>
+ As suas cinzas foram-se nos ventos<br>
+ E eu soffro, apoz quinhentas gerações?<br>
+ <br>
+ Que injusta couza! que desleaes tormentos!<br>
+ Que faz rezar, á noite, de mãos postas,<br>
+ De que serve cumprir teus mandamentos?!<span
+ class="pagenum"><a name="pag110" id="pag110">[110]</a></span><br>
+ <br>
+ Quem sabe se não foram meus avós,<br>
+ Senhor! Que tanto e tanto te offenderam,<br>
+ Mas meus archi-primeiros bisavós?<br>
+ <br>
+ Quando os vulcões da terra arrefeceram,<br>
+ E lentamente, aos poucos, e as primeiras<br>
+ Effloraçoes da vida appareceram;<br>
+ <br>
+ Talvez, que um tigre eu fosse, que nas carreiras<br>
+ E uivando, á lua, e destruisse as mattas<br>
+ Que levaste a criar noites inteiras!<br>
+ <br>
+ Talvez, no dia em que baixaste<br>
+ Á terra, para ver a tua obra<br>
+ Vestido d'alvas vestes como pratas,<br>
+ <br>
+ Fosse eu, cobarde! a pequenina cobra<br>
+ Occulta entre jasmins que te mordeu...<br>
+ Quando ias a colher algum... de sobra!<br>
+ <br>
+ Outrora o sol ardia no alto céu,<br>
+ Pediste sombra á arvore n'um monte<br>
+ Que ergueu a rama e essa arvore... era eu!<br>
+ <br>
+ Quando o sol caía, á tarde, no horisonte,<br>
+ Todo vermelho como agora, vêde!<br>
+ Sequiozo, ias beber a agoa da fonte,<span class="pagenum"><a name="pag111" id="pag111">[111]</a></span><br>
+ <br>
+ E eu (que era agoa) não quiz matar-te a sede!<br>
+ Quem sabe se uma vez, pela noitinha,<br>
+ Foste ensaiar o mar, deitando a rede,<br>
+ <br>
+ E cobiçou o peixe que lá vinha<br>
+ E t'a furtou, (brinquedos de criança!)<br>
+ Alguma onda do mar, minha avósinha?<br>
+ <br>
+ Mas mesmo assim, Senhor! Senhor d'esp'rança!<br>
+ Como devo soffrer perseguições?<br>
+ (Eu concordo) é legitima vingança?<br>
+ <br>
+ Ah não! eu não descendo de leões<br>
+ Nem da vil cobra que se vae de rastros,<br>
+ Que só concebe e dá á luz traições!<br>
+ <br>
+ Nem dos pinheiros altos como mastros<br>
+ Nem das agoas que vão regando os milhos:<br>
+ Nós os poetas descendemos de astros,<br>
+ <br>
+ Nós os poetas, Senhor! somos teus filhos!<br>
+ ... Assim scismava eu pelo mar alto<br>
+ Sob o luar partindo-se em vidrilhos...<br>
+ <br>
+ Quando n'uma manhã de azul cobalto,<br>
+ Ao acordar, me vi no claro Tejo<br>
+ Orei a Deus. E logo sahi d'um salto.<span class="pagenum"><a name="pag112" id="pag112">[112]</a></span><br>
+ <br>
+ Mezes passaram, longos! que nem vejo<br>
+ Que differença em seculos, ou mezes:<br>
+ O tempo marca-o a ancia do Desejo!<br>
+ <br>
+ Que fazia eu? Nada. Scismava, ás vezes,<br>
+ Errante, ao «Deus-dará» da vida:<br>
+ Sempre assim fomos nós, os Portuguezes!<br>
+ <br>
+ Ora em dia de Santa Apparecida<br>
+ (Mais uns minutos, esperae, Senhores,<br>
+ Que eu acabo esta historia tão comprida),<br>
+ <br>
+ Errava n'um montado entre pastores<br>
+ Quando, subito, vi uma Donzella<br>
+ Tão linda! n'um Solar, colhendo flôres.<br>
+ <br>
+ Oh doçura de carne ou de estrella!<br>
+ Que esvelteza e que graça de alfenim!<br>
+ Meu coração disse-me baixo: «É ella!»<br>
+ <br>
+ Qual de vós, Homens! Já não teve assim<br>
+ Uma vizão, vendo erguer-se entre<br>
+ Nuvens, a vossa torre de marfim?<br>
+ <br>
+ Deixae que a minha alma se concentre.<br>
+ Deixae! que esse dia é maior que quando<br>
+ Minha Maesinha me pariu do ventre.<span class="pagenum"><a name="pag113" id="pag113">[113]</a></span><br>
+ <br>
+ Quedei-me, ao vêl-a, em extasis olhando.<br>
+ Dobraram-se-me os joelhos e ajoelhei;<br>
+ Meus labios moviam-se... rezando!<br>
+ <br>
+ Quem será ella? a filha d'algum Rey?<br>
+ Atraz seguiam-na duas aias velhas:<br>
+ Quem será ella, quem será? Não sei.<br>
+ <br>
+ Era em Agosto. O sol ardia. Abelhas<br>
+ Voavam, ao sol, emquanto ella lia<br>
+ Um livro de horas com folhas vermelhas.<br>
+ <br>
+ Que paz! nem uma arvore bulia!<br>
+ E callavam-se as fontes! Que doçura!<br>
+ Mas de repente uma voz chamou: «Maria!»<br>
+ <br>
+ Maria se chamava! Oh que ventura!<br>
+ Partiu. Eu quiz seguil-a, mas não pude!<br>
+ Que torpor esse que ainda hoje dura!<br>
+ <br>
+ A virgem me proteja e Deus me ajude!<br>
+ Vae alta a noite, eu caio de fadiga,<br>
+ Bambas as cordas do meu velho alaúde!<br>
+ <br>
+ Ó Genio, não te partas sem que eu diga<br>
+ O encanto, mais a graça encantadora<br>
+ D'aquella virgem Castellã antiga.<span class="pagenum"><a name="pag114" id="pag114">[114]</a></span><br>
+ <br>
+ Minha fronte vergou-se, scismadora:<br>
+ &mdash;Quem será ella, mystica vizão!<br>
+ Parece com seu Ar Nossa Senhora!<br>
+ <br>
+ Mas eu já tive tanta decepção<br>
+ (Lêde, lêde, o principio d'esta historia)<br>
+ Que contive essa subita paixão.<br>
+ <br>
+ Tudo na Vida engana, até a Gloria.<br>
+ Para deixar de o crêr fôra preciso<br>
+ Lavar no Lethes minha fiel memoria.<br>
+ <br>
+ Assim pensava eu, meio indecizo,<br>
+ Quando na estrada junto a mim passava<br>
+ Um velhinho a rezar ao Paraizo.<br>
+ <br>
+ N'um cajado de lodo se apoiava.<br>
+ E detinha-se, ás vezes, um momento,<br>
+ Erguia ao céu o olhar, e suspirava.<br>
+ <br>
+ As barbas brancas, fluctuando ao vento;<br>
+ Devia ter um seculo de idade<br>
+ E talvez vinte ou mais de soffrimento!<br>
+ <br>
+ Parou ao vêr-me e olhou-me com bondade:<br>
+ Depois na sua voz meiga de briza:<br>
+ &mdash;Uma esmola, Senhor, por caridade!<span class="pagenum"><a name="pag115" id="pag115">[115]</a></span><br>
+ <br>
+ Uma lembrança dentro em mim se enraiza.<br>
+ &mdash;Dou-te, bom velho! tudo que quizeres,<br>
+ Se em troca me dás vestes e camiza.<br>
+ <br>
+ O velhinho sorriu como as mulheres.<br>
+ A quinzena me deu, e eu dei-lhe a minha,<br>
+ Que na botoeira tinha malmequeres...<br>
+ <br>
+ Ninguem a essa hora pela estrada vinha.<br>
+ Tudo despiu, me deu: fiquei perfeito.<br>
+ E eu dei-lhe em troca tudo quanto tinha.<br>
+ <br>
+ Mas não estava ainda satisfeito,<br>
+ As suas barbas brancas eu queria,<br>
+ Comprar-lh'as era falta de respeito!<br>
+ <br>
+ Comprar-lh'as nunca eu me atreveria!<br>
+ Mas o bom velho o pensamento ouviu,<br>
+ Que aquelle olhar excepcional ouvia.<br>
+ <br>
+ Ó grandes barbas! que ainda ninguem viu!<br>
+ Ó grandes barbas! como eram bellas!<br>
+ Tal como outrora as de D. João, em Diu!<br>
+ <br>
+ &mdash;Não lh'as vendo, Senhor! mas dou-lh'as, quel-as?<br>
+ Ó povo portuguez! quanto és sympathico!<br>
+ Ó povo portuguez das caravellas!<span class="pagenum"><a name="pag116" id="pag116">[116]</a></span><br>
+ <br>
+ Cortou-as. Deu-m'as. Eu fiquei extactico.<br>
+ Beijei-lhe as mãos curvado... E o bom velhinho<br>
+ Lá se foi, a scismar... tossindo... asthmatico...<br>
+ <br>
+ O sol cahia ao longe no caminho!<br>
+ Não tarda a noite, já lhe sinto os passos,<br>
+ Mas ha tempo: ella anda devagarinho.<br>
+ <br>
+ Enfarpellei sem grandes embaraços;<br>
+ A toillete tem poucos elementos,<br>
+ Muitos remendos sim, rotos os braços...<br>
+ <br>
+ Perdia-se o velho, ao longe, em passos lentos;<br>
+ «Que nome tens, amigo?» lhe gritei.<br>
+ «Manoel». E digo eu, «dos Soffrimentos».<br>
+ <br>
+ Cahia a noite: com pressa caminhava.<br>
+ Segui os passos deixados por Maria<br>
+ Que flôres na mão, andando, desfolhava.<br>
+ <br>
+ Não era aviso que assim daria?<br>
+ O meu olhar teria percebido?<br>
+ Que luz d'esperança a minha alma via!<br>
+ <br>
+ Entrei no pateo, Senhores! Mas que atrevido<br>
+ Irão achar o pobre esfarrapado!<br>
+ Um mendigo velho... e tão mal vestido!<span class="pagenum"><a name="pag117" id="pag117">[117]</a></span><br>
+ <br>
+ Pedi esmola e parei sobresaltado.<br>
+ Emquanto alguns me enchiam a saccola<br>
+ Um olhar lindo em mim era fixado.<br>
+ <br>
+ E que olhar p'ra mim! tanta doçura evola!<br>
+ Senhores, eu não me tinha enganado...<br>
+ (Assim julguei então... a Vida foi-me escola!...)<br>
+ <br>
+ Ella passou, de manso, para o meu lado<br>
+ E murmurou o meu nome, assim, baixinho...<br>
+ Disse-me depois que o houvera sonhado!<br>
+ ..........................................................<br>
+ ..........................................................<br>
+</blockquote>
+
+<p style="text-align:center;">THEREZA</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«E depois, menino, sabemos já o resto...<br>
+ Para que mortifica assim o coração?»<br>
+ <br>
+ &mdash;Ai minha Thereza! tu tens talvez razão:<br>
+ Esse amor primeiro foi-me tão funesto!<br>
+ <br>
+ O os meus dias idos em contemplação!<br>
+ O os meus loucos sonhos que d'ahi eu trouxe!<br>
+ Fallava eu ás flôres, como se ella fosse:<br>
+ «Maria» eu lhes chamava, cego de paixão.<br>
+ <br>
+ Hei-de gravar-te em bronze e tornar-te immortal!<br>
+ Eu hei-de lançar o teu nome aos quatro ventos!<br>
+ Eu, o humilde Snr. Manoel dos Soffrimentos,<br>
+ Eu, por graça de Deus, poeta de Portugal.<span
+class="pagenum"><a name="pag118" id="pag118">[118]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Quem é, Thereza, que bate á porta<br>
+ Quem vem a esta hora quebrar meu somno?<br>
+ &mdash;Ninguem é, meu Senhor, a noite é morta,<br>
+ São folhas a cahir, que é já outomno... </blockquote>
+
+<p class="caixa_meia">«Quando eu era moça e menina,</p>
+
+<p class="caixa_meia">          A-i-ó-ái!</p>
+
+<p class="caixa_meia">Um velho, um dia, leu-me a sina.</p>
+
+<p class="caixa_meia">Ha que tempos que isso lá vae!</p>
+
+<p class="caixa_meia">          A-i-ó-ái!»</p>
+
+<p class="caixa_meia"> </p>
+
+<p class="caixa_meia">(O vento continua uivando).</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Quem é, Thereza, que oiço clamores,<br>
+ Vae vêr á porta, vae n'um instante!<br>
+ &mdash;Socegue, durma, são os lavradores,<br>
+ Que passam para a feira d'Amarante...<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia">E vá de roda! e vá de roda!</p>
+
+<p class="caixa_meia">          Olé!</p>
+
+<p class="caixa_meia">E vira e vira e já virou!</p>
+
+<p class="caixa_meia">E na tarde da minha boda</p>
+
+<p class="caixa_meia">Houve baile, houve baile, olé!</p>
+
+<p class="caixa_meia">Tomou parte a aldeia toda,</p>
+
+<p class="caixa_meia">E vá de roda! e vá de roda!</p>
+
+<p class="caixa_meia">Olé!</p>
+
+<p class="caixa_meia"> </p>
+
+<p class="caixa_meia">(O vento uiva sempre).<span
+class="pagenum"><a name="pag119" id="pag119">[119]</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Quem é, Thereza? quem é, Thereza?<br>
+ Quem é, Thereza, que bate á porta?<br>
+ &mdash;Olhe a Fortuna não é com certeza,<br>
+ Por isso... durma, durma, que lhe importa?<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia">(O vento uiva, uiva).<br>
+</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Não ouves, Thereza, tres pancadinhas?<br>
+ Vae vêr: é a D. Felicidade.<br>
+ &mdash;Mas as senhoras não sahem sósinhas<br>
+ N'uma aldeia, nem mesmo na cidade...<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia">Durma menino, a dormir</p>
+
+<p class="caixa_meia">Não soffre tanta paixão,</p>
+
+<p class="caixa_meia">Os sonhos que lhe hão de vir</p>
+
+<p class="caixa_meia">Afasto-os eu, com a mão.</p>
+
+<p class="caixa_meia"> </p>
+
+<p class="caixa_meia">Durma menino, a dormir</p>
+
+<p class="caixa_meia">Não ouve o seu coração,</p>
+
+<p class="caixa_meia">E p'ra o ajudar a dormir</p>
+
+<p class="caixa_meia">Eu canto-lhe uma canção:</p>
+
+<blockquote>
+ Era uma vez, n'um paço sobre o Tejo,<br>
+ Um moço Rey... de lindos olhos verdes;<br>
+ (Senhor! se a luz dos vossos, perderdes,<br>
+ Tereis os d'elle que sempre abertos vejo.)<br>
+ <br>
+ Andava o moço Rey com seu gibão<br>
+ De prata branca, reluzente d'oiros.<br>
+ Tinha em anneis os seus cabellos loiros,<br>
+ No céu era anjo e cá... Sebastião.<br>
+</blockquote>
+
+<p class="caixa_meia">(O vento geme, geme sempre).<span
+class="pagenum"><a name="pag120" id="pag120">[120]</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Quem é, Thereza? quem é, Thereza?<br>
+ Não ouves passos, que vão pela serra<br>
+ Não ouves gritos, quem é, Thereza?<br>
+ &mdash;É D. Sebastião que vae para a guerra.<br>
+ ...................................................<br>
+ ...................................................<span
+ class="pagenum"><a name="pag121" id="pag121">[121]</a></span></blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,<br>
+ D'estas tardes, meu Deus! que fojem os paquetes,<br>
+ E a chuva tomba sem parar um só momento,<br>
+ A chuva que parece de pontas de alfinetes,<br>
+ <br>
+ Por uma tarde triste assim, é que Anrique<br>
+ Partiu. De novo abandonou o seu solar.<br>
+ Da sua aldeia os pobres pedem-lhe que fique,<br>
+ E Thereza bem faz tambem pelo guardar.<br>
+ <br>
+ Por uma tarde de chuvinha miuda e vento,<br>
+ Anrique foi bater á porta d'um convento.<br>
+ Bateu á porta, um Frade veio-lhe fallar.<br>
+ «Que desejaes, Irmão»? e respondeu: «Entrar».<span
+ class="pagenum"><a name="pag122" id="pag122">[122]</a></span><br>
+ <br>
+ Frades! meus Frades! ai abri-me a porta!<br>
+ Abri-me a porta, que eu pretendo entrar.<br>
+ Eu trago a alma toda ferida, morta,<br>
+ Só vós, Fradinhos, m'a podeis curar!<br>
+ <br>
+ Ha quantos annos vós estaes fechados<br>
+ N'estas muralhas de granito e cal!<br>
+ Ah se soubesseis, Frades corcovados!<br>
+ O que vae lá por fóra, em Portugal!<br>
+ ..............................................................<span
+ class="pagenum"><a name="pag123" id="pag123">[123]</a></span> </blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ Anrique, até que emfim cedes ás magoas!<br>
+ Até que emfim eu vejo-te chorar!<br>
+ Chorae, chorae, ó longos fios de agoas!<br>
+ Ó olhos grandes como os globos do Ar!<br>
+ <br>
+ Ah chora Anrique, chora nos meus braços<br>
+ O moço Poeta que te está a cantar!<br>
+ Choremos entre beijos, entre abraços,<br>
+ Tambem eu choro por te vêr chorar!<br>
+ <br>
+ Ah chora Anrique, chora, não te escondas!<br>
+ Tens pudor que te venham encontrar?<br>
+ Choram os cannaviaes, choram as ondas,<br>
+ Só os cynicos não podem chorar!...<br>
+ <br>
+ Ah chora, Anrique, chora no meu peito,<br>
+ Assim baixinho, lento, devagar!<br>
+ Custa-te muito? não estás affeito!<br>
+ Chora, meu filho, que é tão bom chorar!<span
+ class="pagenum"><a name="pag124" id="pag124">[124]</a></span><br>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Anrique ouve-me bem, minha criança!<br>
+ Nem tudo se perdeu com o teu Lar.<br>
+ Ainda tens na vida uma esperança...<br>
+ Meu pobre Anrique, és tão lindo a chorar!<br>
+ <br>
+ Teu coração está morto, bem morto.<br>
+ Nada no mundo o poderá salvar.<br>
+ Ah! moço que tu és, que desconforto!<br>
+ Tens razão, oh se tens! para chorar!<br>
+ <br>
+ Tens razão, Anrique; mas no emtanto,<br>
+ Quem soffreu como tu sem descançar,<br>
+ Anrique, ou dá n'um cynico, ou n'um santo:<br>
+ Não és cynico, não, sabes chorar.<br>
+ <br>
+ Ouve-me, Anrique: n'esses céus existe<br>
+ Um homem, Pae da Terra e mais do Mar,<br>
+ Que fez o Mundo (por signal tão triste)<br>
+ E os olhos, não p'ra o vêr, mas p'ra chorar.<br>
+ <br>
+ Vá! offerece-lhe a tua mocidade.<br>
+ Vá! vae soffrer por elle e trabalhar.<br>
+ Ah bem sei que custa tanto, n'essa idade...<br>
+ Mas que has-de tu fazer? Chorar? Chorar?<span
+ class="pagenum"><a name="pag125" id="pag125">[125]</a></span><br>
+ <br>
+ Não tens na vida uma alma amiga<br>
+ (Tu bem no sabes) para te amparar.<br>
+ Só eu, embora curvo de fadiga,<br>
+ Tenho paciencia p'ra te ouvir chorar!<br>
+ <br>
+ Todos os mais, malvados e egoistas,<br>
+ (Que tudo a Deus, um dia, hão de pagar)<br>
+ Não te poriam nem sequer a vista,<br>
+ Fugiriam, ao verem-te chorar!<br>
+ <br>
+ A adversidade é uma maravilha<br>
+ Que certas almas sabem respeitar,<br>
+ Mas aos olhos dos mais a dôr humilha...<br>
+ Ah quanto é grande vêr um rei chorar!<br>
+ <br>
+ Ah pensa, pensa bem na tua sorte,<br>
+ Cautela, Anrique, nada de brincar.<br>
+ Ha outros males piores do que a morte,<br>
+ Cautela, Anrique, vamos trabalhar.<br>
+ <br>
+ Vae trabalhar por Deus.&mdash;«Mas como e aonde?<br>
+ Não vos disse que morto é Portugal?<br>
+ P'r'o trabalho quem antes era conde!»&mdash;<br>
+ &mdash;Ai meu Anrique, não te fica mal!<span class="pagenum"><a name="pag126" id="pag126">[126]</a></span><br>
+ <br>
+ Não me dizes que lá por Portugal<br>
+ Andam as almas todas quebrantadas?<br>
+ Vae, meu filho, vae para Portugal<br>
+ Vae levantar as flores, já tão quebradas.<br>
+ <br>
+ Anda, meu filho: vae dizer baixinho<br>
+ A esse povo do Mar, que é teu irmão,<br>
+ Que não fraqueje nunca no caminho,<br>
+ Que espere em pé o seu D. Sebastião.<br>
+ <br>
+ Anrique, vae gritar por essa rua<br>
+ &mdash;Virá um dia o «Sempre-Desejado»!<br>
+ Deu a vida por vós, Tu, dá-lhe a tua,<br>
+ Esquece n'elle todo o teu passado.<br>
+ <br>
+ Procura bem Anrique, em Portugal;<br>
+ Procura-o na flôr das primaveras,<br>
+ Procura-o na sombra do olival;<br>
+ Procura á luz de todas as chymeras...<br>
+ .....................................<br>
+ .....................................<span
+class="pagenum"><a name="pag127" id="pag127">[127]</a></span></blockquote>
+</div>
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<p><a href="#pagV">Prefacio</a></p>
+<p><a href="#pag1">I.&mdash;Sonetos: 1 a 25</a></p>
+<p>II.&mdash;Outras Poesias:</p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag31">Eu chegára de França</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag33">Ladainha da Suissa</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag37">Confissão d'uma rapariga feia</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag39">Affirmações religiosas</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag41">Ares da Andaluzia</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag45">Contas de rezar</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag50">A Ceifeira</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag51">Sensações de Baltimore</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag52">Ao Mar</a></p>
+<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="#pag53">Dispersos</a></p>
+<p><a href="#pag60">III.&mdash;O Desejado</a>
+<span class="pagenum"><a name="pag128" id="pag128">[128]</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="text-align:center;"><strong><i>Acabou de se imprimir este livro aos
+dezoito de março de 1902 segundo anniversario da morte do
+Poeta</i></strong></p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Despedidas: 1895-1899, by António Nobre
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DESPEDIDAS: 1895-1899 ***
+
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+
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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