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+The Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by
+Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Lendas dos Vegetaes
+
+Author: Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+Release Date: December 4, 2008 [EBook #27412]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+LENDAS DOS VEGETAES.
+
+
+DO MESMO AUCTOR:
+
+ Os reptis em Portugal.
+ A fauna dos Lusiadas.
+ Guia do Naturalista.
+ Ninhos e ovos.
+ Á Beira mar.
+ Notavel transplantação de uma palmeira.
+ Esboço biographico de Adolpho Frederico Moller.
+ Jornal de Horticultura Pratica (1889, 1890, 1891, 1892).
+
+Typ. de A. R. da Cruz Coutinho. Caldeireiros, 28 e 30.
+
+
+
+
+LENDAS DOS VEGETAES,
+
+POR
+
+EDUARDO SEQUEIRA.
+
+
+PORTO--1892.
+
+
+AO AMIGO
+
+ALFREDO FERREIRA DIAS GUIMARÃES.
+
+TIRAGEM UNICA DE 70 EXEMPLARES.
+
+Ex. n.º 26
+
+offerecido
+
+por
+
+
+
+
+ROSA MUSGO.
+
+
+O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento
+d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo
+sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam
+a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor.
+
+Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais
+fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde
+morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a
+solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e
+tão risonhos projectos de felicidade.
+
+Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga,
+allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a
+consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do
+noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus,
+esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e
+venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga
+abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal
+desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que
+Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada
+por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr
+mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a
+cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de
+familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs,
+esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem
+amado.
+
+Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou
+a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter
+satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta,
+despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir
+da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que
+desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de
+voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de
+procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar
+a manhã.
+
+Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira
+engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e
+divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel
+encontrar em todo o bosque.
+
+Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a
+roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas
+de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a
+madrugada.
+
+Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento
+brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que
+o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente.
+
+Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão
+deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do
+sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo,
+ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca
+recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e
+queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior.
+
+Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e
+perfume tão distinctamente brilhavam?
+
+Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que
+lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das
+flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos
+lhes não causassem damno algum.
+
+E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da
+missão de que fôra encarregado.
+
+E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo...
+
+
+
+CARVALHO.
+
+
+Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar
+uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo
+para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no
+sólo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque,
+espetou a pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo
+quanto lhe oppunha obstaculo aos seus designios.
+
+Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi
+noite; procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar
+d'ella uma pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo,
+enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo.
+
+Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do
+tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes
+possuira.
+
+Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas
+identicas arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do
+vigor.
+
+Estas arvores são os carvalhos.
+
+
+
+
+CHÁ.
+
+
+Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta
+de morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas,
+profundas e completas d'uma legião de crentes que habitam nos
+misteriosos recessos das florestas da India, d'essa terra das lendas e
+das maravilhas. Havia annos que vivia n'uma gruta em ardente adoração;
+de estar sempre de joelhos creara calosidades que lhe não permittiam
+endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava
+fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e appareciam do lado
+opposto.
+
+Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas
+consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe
+conselhos.
+
+Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar.
+Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições,
+dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno!
+Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si
+quantidades enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do
+ferro em brasa, ou fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno
+como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu
+desespero chegou a fazer cortar as palpebras cuidando assim que
+espancaria para longe o somno, mas a tortura foi baldada. Os olhos
+permaneciam abertos mas Dakkar dormia!
+
+Uma tarde,--havia dias que estava sem comer--orava o fakir
+fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse
+antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno,
+quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do
+somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta...
+
+Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno...
+
+Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de
+lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam
+variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de
+convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com
+difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto
+d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas.
+
+Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno
+desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso.
+
+Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro
+feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos
+meus esforços. Venci o somno!
+
+Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do
+vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus
+primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo.
+
+O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador
+do somno foi o chá.
+
+
+
+
+PAPOULA.
+
+
+N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar
+com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que
+pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á
+cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos.
+
+Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber
+adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes
+insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento
+só de descanso.
+
+Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não
+podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes,
+emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia
+dizer como ninguem.
+
+Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e
+vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu
+ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte...
+
+Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando
+o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a
+quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre
+junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno.
+
+
+
+
+CHICÓRIA.
+
+
+Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a
+ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos
+mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu
+doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á
+purissima alvura da sua cutis.
+
+Era um encanto.
+
+O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os
+caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava
+entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa
+felicidade.
+
+Porém um dia o amor tudo transtornou.
+
+Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo
+de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido,
+chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se
+dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das
+castas e bellas lendas d'amor.
+
+Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem
+melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes
+d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos
+feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas
+féramente medonhas.
+
+Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os
+caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada
+recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não
+queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras
+galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe
+dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para
+nunca mais voltar.
+
+A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os
+dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o
+trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido,
+trazendo-lhe a ventura perdida.
+
+Mas debalde esperou.
+
+Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de
+neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos...
+
+Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de
+paixão.
+
+Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella
+designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do
+amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de
+amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr
+que pelo bello azul que a tinge faz recordar os castos olhos da
+candidissima princeza.
+
+
+
+
+ABOBOREIRA.
+
+
+Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser
+arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que
+prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia
+presencear o castigo da cidade maldita.
+
+Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um
+sol de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do
+propheta, que este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse,
+attenuando-lhe de alguma fórma a intoleravel ardencia dos raios solares.
+Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se
+erguia do sólo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o
+propheta, contentissimo e consolado, pensando que poderia gosar da bella
+frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com
+um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio prestado. Mas n'isto, tão
+repentinamente como brotára do sólo, a planta seccou e reduziu-se a pó,
+deitando assim n'um instante por terra as doces esperanças do santo
+propheta. Esta planta era a _aboboreira_.
+
+
+
+
+CHRISANTHEMO.
+
+
+Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e
+centenas de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza
+mais seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe
+Yoshimtsou.
+
+Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com
+as côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da
+bella japoneza.
+
+Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas
+maduras, mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo.
+
+A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos
+desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada
+parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e
+ella tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que
+mais era digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam
+abençoando a Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a
+justa e a santa princeza Tou-Ki.
+
+Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel
+habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos
+palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil
+côres diversas.
+
+Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado
+por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a
+população. Tudo era dôr, lagrimas e luto.
+
+A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se
+ante os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga
+cruel para que não sabiam remedio.
+
+Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki.
+Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de
+quem todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos
+abandonados, consolando e animando os tristes. E a sua popularidade
+cresceu tão espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam
+aos pés, e era adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra.
+
+Mas--crueldade da sorte!--quando a peste terminava, quando já todos,
+applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal
+dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu
+povo estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se
+esta receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe
+não deixasse empolgar a bella presa preciosa.
+
+Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a
+perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do
+seu bem.
+
+O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se
+póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro
+de um extenso e alegre campo de arroz.
+
+Poucos dias depois--caso estranho!--o local onde jasia o corpo da gentil
+princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas,
+desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as
+petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta
+gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos
+negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e
+amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel
+da sua alma purissima.
+
+De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo,
+celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher
+hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de
+todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz.
+
+
+
+
+ROSAS.
+
+
+As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os
+povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm
+a seu respeito.
+
+Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que
+passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha
+muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de
+rosas.
+
+Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos
+asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr
+vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros.
+
+A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas,
+a rosa deu o nome ás festas da primavera (_rusalija_), a Virgem christã
+que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas
+e tem tambem o nome de _rosario_ o cordão com contas, primitivamente
+composto com tractos da _Rosa canina_, com que as mulheres piedosas
+marcam as suas rezas.
+
+Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando
+annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da
+christandade.
+
+Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da
+Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam
+as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem
+como signal distinctivo uma rosa.
+
+Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com
+ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas
+flores preservavam da embriaguez.
+
+A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem
+simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam
+unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos
+cyprestes.
+
+Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal
+e morte.
+
+Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos
+fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é
+filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do
+suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era
+branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as
+vermelhas.
+
+Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa
+com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa.
+
+Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua
+historia:
+
+ «Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua
+ bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais
+ distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as
+ mais illustres allianças.
+
+ O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que
+ se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses
+ por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas
+ depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos
+ sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva
+ belleza respondeu aos amantes que a importunavam: _Não é facil obter
+ um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me.
+ Quem me quizer ha-de vencer-me._
+
+ Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado
+ a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha
+ approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade.
+ N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e
+ travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque
+ com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe
+ os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava.
+
+ Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a
+ victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um
+ esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro:
+
+ _Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este
+ templo. Tiremos Diana do altar._
+
+ A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado
+ por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e
+ com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que
+ tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes
+ fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente
+ de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os
+ incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em
+ ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a
+ orgulhosa rainha, mas uma arvore.
+
+ Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma
+ conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante.
+
+ Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos
+ olhos dos adoradores que a amaram.
+
+ Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e
+ esforçou-se pola vingar.
+
+ Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a
+ prejudicar lhe serviram de defesa.
+
+ Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi
+ transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob
+ esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a
+ metamorphose não mudou».
+
+O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega:
+
+ «Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana,
+ Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro.
+
+ Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava
+ de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados,
+ uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro
+ com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh
+ prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de
+ encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas
+ que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia».
+
+Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por
+Joseph Balmont:
+
+ «Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir
+ em cada dia um novo sêr.
+
+ N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha
+ brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre
+ no mesmo estado.
+
+ Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e
+ cantando melodiosamente, approximou-se da planta.
+
+ Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas
+ o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou
+ seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e
+ rosadas como as faces da formosa cantora.
+
+ Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em
+ belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer».
+
+Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava:
+
+ «A _rosa canina_ passa na Allemanha por sinistra e diabolica.
+
+ Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do
+ ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com
+ os espinhos da roseira brava.
+
+ Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se
+ mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo
+ voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos.
+
+ Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na
+ occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este
+ facto que ainda hoje chamam aos fructos, _Judas-beeren_ (bagas de
+ judas).
+
+
+
+
+ACONITO.
+
+
+O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta
+antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim
+d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada
+do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez
+via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja
+bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em
+vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem.
+
+
+
+
+APAMARGA.
+
+
+Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (_Achyrantes
+aspera_), uma vulgar planta indiana.
+
+ Segundo uma lenda do _Yagúrveda negro_ (II, 95), Indra tinha matado
+ Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e
+ luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de
+ não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de
+ dia, nem de noite.
+
+ Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio
+ durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas
+ o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da
+ cabeça de Namuc'i nasceu então a herba _apamarga_, e Indra em
+ seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros.
+
+
+
+
+TRIGO.
+
+
+Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que
+metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde
+o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi
+a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio
+reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que
+estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou
+este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem
+ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do
+caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge
+que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao
+diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que
+pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e
+como d'elle se fabricava pão.
+
+O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o
+tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o
+que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as
+raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo
+que lhe forneceu um saborosissimo pão.
+
+
+
+
+AMOREIRA NEGRA.
+
+
+Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico de _Morus
+nigra_, tem uma commovente e celebre historia de amor.
+
+Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de
+uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado
+appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que
+acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento
+arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa,
+que o despedaçou, tingindo-o de sangue.
+
+Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas
+féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto
+tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor.
+
+Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o
+coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o
+corpo do amante.
+
+Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre,
+negros.
+
+
+
+
+CEDRO.
+
+
+O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que
+forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu.
+
+Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e
+todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração.
+
+Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por
+excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas.
+Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente
+deliciosas, uma chinesa e outra egypcia.
+
+Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa
+Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que,
+enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que
+assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos.
+
+Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa,
+desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se
+d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao
+removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta
+dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do
+do marido.
+
+O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos
+fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite
+brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram
+tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram
+fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos,
+eternisar transformado o seu amor.
+
+A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma.
+
+Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu
+coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o
+heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se
+antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que
+o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado.
+
+Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle
+vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração,
+dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e
+que é a mais formosa que até então existira.
+
+Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o
+segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro.
+
+Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e
+este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança
+de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido
+leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e
+embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia.
+
+A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do
+rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo
+cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo
+apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do
+cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a
+todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e
+com elle consegue vencer Batou e obter a mulher.
+
+Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo;
+preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo
+da vida de Batou.
+
+O cedro então é cortado e Batou morre.
+
+Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do
+coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que
+consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão.
+
+Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o
+coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido
+e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se
+n'um touro que todo o Egypto venera.
+
+A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que
+este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras
+gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros,
+nova transformação de Batou.
+
+O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella
+assiste jubilosa.
+
+Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca,
+sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está
+gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova
+incarnação de Batou.
+
+
+
+
+MARMELLEIRO.
+
+
+O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo
+considerado como um penhor de amor.
+
+Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar
+agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos
+varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a
+Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade
+altamente celebrou.
+
+Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se
+atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de
+Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á
+deusa, um marmello com a seguinte inscripção: _Pela divindade de Diana,
+juro que serei esposa de Akontius._
+
+A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz
+alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento
+sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu.
+
+
+
+
+ROMÃ.
+
+
+A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de
+sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos
+que o tinham em especial estima.
+
+Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava
+possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã.
+
+Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos
+presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que
+lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes
+contidas nos fructos.
+
+Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram
+violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal
+que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as
+sementes que d'elle se espalharem pelo sólo.
+
+A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto
+confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano.
+
+Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida,
+que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae.
+Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão,
+e é por isso--diz Oppiano--que estas aves nunca pousam na romanzeira,
+evitando-a cuidadosamente.
+
+
+
+
+AÇUCENA.
+
+
+Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos
+chamavam a _flôr das flores_.
+
+Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos
+peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da
+immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e
+o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e
+correndo pelo sólo além deu origem á _via lactea_ e á açucena.
+
+A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava
+de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de
+despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e
+feiissimo pistillo.
+
+
+
+
+PALMEIRA.
+
+
+Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a
+belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os
+braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras.
+
+A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser
+santificada pelo christianismo.
+
+Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã.
+
+Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua
+primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira.
+Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém
+estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José
+esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio
+collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só
+depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical.
+
+Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da
+palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da
+salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer--como mais tarde
+fez--a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão.
+
+
+
+
+RABANETE.
+
+
+A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã.
+
+O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei
+do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados
+entre altas montanhas.
+
+Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe
+uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com
+ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma
+mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só
+viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as
+donzellas morriam.
+
+A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma
+vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que
+quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as
+boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica,
+transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo.
+A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz
+seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro
+rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o
+diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes
+mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um
+rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e,
+montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do
+diabo.
+
+
+
+
+TABACO.
+
+
+Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes
+n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo
+submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas.
+
+Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e
+crúa guerra.
+
+Para uns era a _herva santa_, o remedio certo e seguro de todas as
+doenças, para outros a _herva do diabo_, a herva maldita, a origem de
+todos os males.
+
+A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus
+odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de
+tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro
+agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O
+tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes
+governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras
+receitas.
+
+Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar
+os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para
+o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento;
+todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz.
+
+O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e
+d'esta para a creança. É uma praga universal.
+
+Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia
+deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais
+curiosa é a dos Tchumaches.
+
+Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma
+mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a
+fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em
+perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa,
+que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um
+escuro bosque.
+
+O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com
+bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma
+vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello
+arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde
+por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com
+ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico
+fumo que ellas desenvolviam.
+
+Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal
+prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo,
+assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a
+planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala
+a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro
+nauseante, embriagador, egual ao do tabaco.
+
+
+
+
+MILHO.
+
+
+As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do
+milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da
+riquesa.
+
+Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a
+propriedade do sólo.
+
+Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na
+Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no
+extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder
+facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de
+pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma
+espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha.
+
+Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que
+seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna,
+do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que
+tocava.
+
+Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima
+preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa
+entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a
+confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras.
+
+Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a
+vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais
+nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs
+regressaram da egreja não restava nenhum.
+
+As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir
+para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle
+momento passava por acaso na rua.
+
+As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia
+por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por
+inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de
+se casar com ella.
+
+Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á
+mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.
+
+Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado
+nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam
+e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse
+não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça.
+
+A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho
+mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha.
+
+Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas
+fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em
+logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho.
+
+A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só
+podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de
+milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro.
+
+
+
+
+CANNAS.
+
+
+Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda
+colhida em Rebordinhos, Bragança:
+
+ Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de
+ ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e
+ enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna.
+ Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para
+ fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar,
+ dizia:
+
+ Toca, toca, ó pastor,
+ Os meus irmãos me mataram
+ Por tres maçãsinhas de ouro,
+ E ao cabo não as levaram.
+
+ O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta.
+ O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O
+ carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão
+ em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda
+ o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna.
+ Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro.
+
+
+
+
+NARCISO.
+
+
+Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se
+orgulhava em extremo.
+
+Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a
+frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior
+em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo,
+transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva
+o nome.
+
+Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu
+rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada.
+
+Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no
+espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua.
+
+
+
+
+ALGODÃO.
+
+
+Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente
+odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra,
+cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco
+apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho
+que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal
+agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal
+para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas.
+Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam
+muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos
+que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou
+pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle
+teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens
+que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e
+de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que
+por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois
+d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão
+pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição
+aos homens brancos.
+
+
+
+
+CHORÃO.
+
+
+N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a
+bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento
+protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia,
+condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais
+crescessem mais haviam de virar para o sólo.
+
+
+
+
+LARANGEIRA.
+
+
+É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como
+emblema da castidade, da puresa absoluta e completa.
+
+Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem
+rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e
+deliciosos fructos.
+
+Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira:
+
+ «Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino
+ rico, maravilhoso, é o reino de _Portugal_; e no Piemonte chamam
+ sempre _portogallotti_ ás laranjas. Portugal é a região mais
+ occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o
+ sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos
+ bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que
+ Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos
+ d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o
+ paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico
+ paix, assim tambem a laranja, o _portogallotto_ e a maçã das
+ Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os
+ gregos como os piemonteses, chamam ás laranjas _+portogaliá+_ os
+ albaneses _protokale_ e os proprios kurdos _portoghal_.
+
+ Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores
+ e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não,
+ mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou
+ na Europa.
+
+ O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda
+ edição das suas _Nouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine_
+ (Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa
+ informação: «_Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que
+ vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e
+ unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em
+ Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que
+ devemos um fructo tão excellente_».
+
+A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino
+filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas,
+muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a
+que apresentamos relativa á laranjeira.
+
+A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira
+guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao
+filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas
+eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para
+si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego
+restituiu-lhe a vista.
+
+
+
+
+CARDO.
+
+
+Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e
+lendario facto:
+
+Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a
+Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos
+combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses
+desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a
+surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente
+calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de
+soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que
+podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada.
+
+
+
+
+MAÇÃ.
+
+
+A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade.
+
+Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na
+arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre.
+
+Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua
+uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal
+de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um
+anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem
+fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará.
+
+No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão
+habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o
+casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo
+é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos.
+
+A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que
+foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e
+do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica,
+simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras.
+
+Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde
+claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e
+compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a
+romã, ora a laranja, o figo e a maçã.
+
+Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem
+Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe
+queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas
+maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na
+lua e outra no sol que nos alumia e aquece.
+
+
+
+
+FIGUEIRA DA INDIA.
+
+
+A figueira da India (_Ficus religiosa_) é venerada na India
+principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando
+nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto.
+
+Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é
+considerado local sagrado. A veneração dos indios pelo _ficus
+religiosa_, é devida á seguinte lenda:
+
+Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha,
+sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e
+Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a
+arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir
+cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo
+brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje
+téem.
+
+
+
+
+MAIAS.
+
+
+No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 da _Revista de Guimarães_, o dr.
+Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias:
+
+ «Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha
+ nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte,
+ chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou
+ immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças
+ menores de dous annos, que encontrassem em Belem.
+
+ Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta
+ carnificina,--tal era o odio de morte que votava ao menino--que os
+ prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de
+ abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela
+ madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás
+ ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas,
+ ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se
+ informaram logo da sua morada--que tinha á porta um _ramo de maias_
+ como signal,--mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas
+ appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta.
+
+ Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e
+ degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só
+ escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham
+ fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto.
+
+ Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma
+ jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no
+ manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!»
+ mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo,
+ e pelo milagre das _maias_, salvou-se milagrosamente o rei dos
+ judeus».
+
+
+
+
+ABOBORA.
+
+
+Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é
+tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e
+da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue.
+
+A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que
+temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de
+que as restantes não são mais que incorrectas variantes.
+
+Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam
+de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme
+abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o
+interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois
+aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a
+encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se
+dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a
+devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro,
+cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão
+insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda
+a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes
+começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar.
+
+A segunda lenda--lenda americana--explica assim o diluvio.
+
+Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu
+de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos
+os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi
+depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo
+filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local
+onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme
+quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e
+veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram
+verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora
+a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação
+a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados,
+deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro
+ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior
+tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada.
+
+
+
+
+ARROZ.
+
+
+É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por
+isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá
+lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam
+flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os
+esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao
+fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses
+para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos.
+
+Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de
+arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem
+antes ter feito as suas abluções.
+
+Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás
+offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas
+ceremonias funerarias.
+
+A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso,
+com musicas e bençãos dos brahmanes.
+
+Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao
+fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas
+á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de
+que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa
+o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a
+producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por
+isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor
+intensidade dos seus raios seccadores.
+
+Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma
+gotta de suor de Mahomet e que o _Kuskussú_, o querido manjar nacional
+fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet,
+sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher,
+comia antes um pouco de _Kuskussú_.
+
+A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza.
+
+Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli
+conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um
+minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua
+habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle
+desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o
+rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos
+estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o,
+introduzindo-o depois no seu paiz.
+
+Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo
+rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da
+abundancia.
+
+
+
+
+ZIMBRO.
+
+
+Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro
+planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia
+do Natal.
+
+A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda:
+
+Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve
+um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os
+escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores
+passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e
+disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para
+sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria
+annualmente á sua mais doce e sympathica festa.
+
+
+
+
+NOGUEIRA.
+
+
+A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e
+funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite
+de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o
+fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração.
+
+Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao
+diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os
+maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados
+que--ai de nós!--para sempre desappareceram do mundo, e eram estes
+saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz
+e prolifico agouro para os noivos.
+
+Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem
+cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as
+duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e
+deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias.
+Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e
+tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro
+de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que
+esperar muito pelo anciado marido...
+
+Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta
+tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se
+nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E
+á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer
+que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»...
+
+No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é
+collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado,
+pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não
+retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz
+ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a
+noz o mesmo valor da nossa figa.
+
+Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que
+Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz.
+
+
+
+
+CLEMATIS INTEGRIFOLIA.
+
+
+Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda:
+
+ «Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta é
+ _Tziganca_ (planta dos Bohemios) ou _Zabii kruéa_ ou _Sinii
+ lomonos_. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que
+ outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os
+ primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal
+ terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos
+ chefes, que os incitavam á resistencia. O _hetman_, não os podendo
+ conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto
+ desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos
+ cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a
+ terra dos tartaros.
+
+ Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou a _Clematis
+ integrifolia_. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço
+ por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto
+ pediram a Deus, que este mandou semear a _Clematis_ na Ukranie. E
+ desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se
+ com grinaldas da _Tziganka_, que passou a ser uma planta nacional».
+
+
+
+
+MOSTARDA.
+
+
+Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos
+orientaes symbolo da geração.
+
+Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para
+isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e
+derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da
+quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da
+quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra
+de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua
+é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira.
+
+A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada
+Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal.
+
+O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em
+estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos
+no templo de Ceylão.
+
+O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas
+vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as
+estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo
+coberto d'uma planta até então desconhecida.
+
+Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo
+tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o.
+Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se
+immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não
+era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre.
+
+
+
+
+TILIA.
+
+
+D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal
+portuense _Diario do Commercio_, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda
+sobre a tilia:
+
+ «O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam
+ n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das
+ Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de
+ pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é
+ verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam,
+ dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra
+ o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o
+ Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um
+ sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases,
+ sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades
+ da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura
+ salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de
+ flores, de que ha memoria nas terras peninsulares.
+
+ Ah! como são bellas as tilias portuenses!
+
+ Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D.
+ Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e--confessem!
+ confessem!--nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de
+ folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma
+ elegante toilette _pompadour_, na Praça de D. Pedro--é o cumulo da
+ audacia e do protesto contra o _meio_, mesmo em face do _domus
+ municipalis_, que é o grande laboratorio das coisas sujas.
+
+ Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda,
+ pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de
+ crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D.
+ Pedro.
+
+ Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella
+ arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na
+ terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente
+ assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts
+ pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais
+ longe.
+
+ Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que
+ tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no
+ regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que
+ era então rei de Portugal.
+
+ Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste,
+ depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo,
+ beijando uma gotta de sangue.
+
+ Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer,
+ florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de
+ lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra
+ vida, em noites de luar.
+
+ Ah! como eu amo as tilias».
+
+
+
+
+LEITUGA.
+
+
+A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta,
+apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios.
+
+Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel
+dissabôr.
+
+Alberto o Grande, no seu curioso livro _De secretis mulierum_ diz que a
+leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não
+virgem: _Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est
+corrupta, statim mingit_.
+
+Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da
+morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia.
+
+Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do
+incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente
+amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina.
+Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que
+por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos
+ardores do sol, um massiço de leitugas.
+
+Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as
+sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle
+morreu pouco tempo depois.
+
+Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a
+vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto
+com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia
+e outros seis na de Venus.
+
+Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o
+que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou
+que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e
+ficasse livre os restantes quatro.
+
+
+
+
+OLIVEIRA.
+
+
+A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares
+antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de
+oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já
+se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens.
+Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam
+os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos.
+
+Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as
+folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados
+em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e
+livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio
+dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os
+livrar do granizo e das inundações.
+
+Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa
+onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres.
+
+As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal
+ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume.
+
+Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se
+chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de
+oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e
+lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte:
+
+ _Si me vuo' bene, salta salticchia,_
+ _Si me vuo' male stá fissa fissa._
+
+Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de
+casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder
+completamente a esperança de encontrar marido.
+
+Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas
+no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal
+de que no quarto de cama quem manda é a mulher.
+
+Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a
+Minerva a deusa da sabedoria.
+
+Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por
+Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que
+seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno
+batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva,
+ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de
+fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á
+cidade o nome de Athenas.
+
+Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro
+homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus
+fabricaram a cruz em que pregaram Christo.
+
+Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho
+que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que
+procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não
+acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos
+sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por
+motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou.
+
+O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os
+athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da
+pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos
+moribundos como simbolo da vida eterna.
+
+A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o
+azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz
+a origem de toda a vida terrestre.
+
+
+
+
+MYOSOTIS.
+
+
+O myosotis (_Hieracium pilosella_) a deliciosa florsinha das margens dos
+regatos, a _Nontiscordar di me_ dos italianos, a _Vergissmeinnicht_ dos
+allemães, e a _Oreja de raton_ dos hespanhoes, tem sido cantada pelos
+poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe
+dedicam particular e especial estima.
+
+E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de
+que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o
+apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente
+esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos.
+
+É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares
+cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas
+confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas.
+
+Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do
+myosotis no nosso globo.
+
+Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro
+mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava,
+afogou-se de pezar.
+
+As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as
+nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso,
+imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme
+temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que
+ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores
+com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram.
+
+
+
+
+MYRTHO.
+
+
+O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento,
+tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz
+de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como
+planta bem amada.
+
+Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais
+veloz na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em
+myrtho, planta com que em seguida se enfeitou para constantemente
+recordar o ultrage de que fôra victima.
+
+Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por
+isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor,
+não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos
+esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida.
+
+Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da
+Europa central, especialmente na Allemanha.
+
+Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos
+de myrtho nos altares da _Bona Dea_, por isso que o myrtho fazia
+recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser
+completamente esquecidos.
+
+
+
+
+PINHEIRO.
+
+
+O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade.
+
+Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma
+parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de
+castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por
+Cybele em pinheiro.
+
+Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores
+neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno.
+
+Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro
+e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças de _saké_ diante de um
+pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero
+humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma
+tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que
+este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho
+e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da
+harmonia em que vireram durante toda a longa vida.
+
+A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor
+remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam
+tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim.
+
+Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que
+deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado.
+
+Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes
+violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados
+no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide,
+continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte.
+
+O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de
+preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do
+norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves
+fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra.
+
+Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e
+poetica lenda:
+
+Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de
+perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um
+pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção.
+
+A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no
+centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o
+perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade
+de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas
+tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha
+esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a
+abençoara.
+
+
+
+
+PILRITEIRO.
+
+
+Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya
+por Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que
+Polydoro possuia.
+
+Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se
+cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em
+signal do triste facto que elle simbolisava.
+
+
+
+
+SERRALHA.
+
+
+O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o
+mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos.
+
+A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia.
+
+O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria,
+esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas.
+
+S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que
+tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva.
+
+--Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo.
+
+--Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os
+bons vegetaes em troca de outros maus.
+
+E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e
+cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra.
+
+--Que tendes, perguntou S. Paulo?
+
+--Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são.
+
+--Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna...
+
+--É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente,
+mas o outro?
+
+--O outro é a serralha.
+
+--A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os
+agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do
+diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de
+insignificante valor.
+
+
+
+
+MANGERONA.
+
+
+A mangerona (_Origanum majorana_ L.) é a _amarakos_ dos gregos. Os
+romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em
+Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de
+afugentar das mulheres os mal intencionados seductores.
+
+A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei
+de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior
+confiança e da mais alta responsabilidade.
+
+Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de
+perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços.
+
+Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta
+sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr
+transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do
+desastrado Amaracus.
+
+
+
+
+LINHO.
+
+
+Gubernatis escreve o seguinte do linho:
+
+ «A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia
+ luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o
+ vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste
+ luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os
+ padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no
+ Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se
+ ainda hoje _alva_ á camisa branca dos padres e dos meninos de côro.
+
+ O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII,
+ na ilha de Rugen, servia de moeda.
+
+ «_Apud Ranos_, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn
+ (_Kulturpflanzen u. Hausthiere_, Berlin, 1874) _non habetur maneta,
+ nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in
+ foro mercari volueris, panno lineo comparabis_».
+
+ Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no
+ Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou
+ vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam
+ ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio
+ mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era
+ composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno.
+
+ Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia
+ linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a
+ fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em
+ estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando
+ os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana,
+ attrahem-os tambem.
+
+ Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer
+ desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam,
+ com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde
+ depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e
+ este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem
+ desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada
+ pelo sol.
+
+ No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho
+ mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno.
+
+ O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por
+ isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou
+ lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no
+ sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a
+ rebentar deve a creança começar a crescer e a andar».
+
+
+
+
+PLATANO.
+
+
+O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao
+genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para
+discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que
+especialmente se abrigavam da chuva.
+
+A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter
+metamorphoseado em touro.
+
+Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento
+platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro.
+
+Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de
+fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se
+tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar
+perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle
+cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia.
+
+
+
+
+TREVO.
+
+
+Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que
+S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se
+servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma
+haste.
+
+Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera
+particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que
+encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e,
+sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades.
+
+Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa
+lenda metereologica relativa ao trevo:
+
+ «N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde
+ que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento,
+ quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a
+ unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a
+ rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite.
+
+ Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de
+ hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez
+ uma almofada para levar mais commodamente o cantaro.
+
+ Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares
+ de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que
+ estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em
+ flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que
+ estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando
+ por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por
+ entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis
+ e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas
+ ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas
+ a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se
+ banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os
+ pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava
+ avidamente.
+
+ Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram
+ concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as
+ hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na
+ verdade tinha acontecido».
+
+
+
+
+CENTEIO.
+
+
+A vida de Jesus e principalmente a sua perseguida infancia deram origem
+a um grande numero de lendas de uma doce poesia cheia de belleza e de
+encanto.
+
+Já demos conta de algumas, e as que agora apresentamos, verdadeiramente
+encantadoras, são inspiradas pelo mesmo assumpto--a fuga da Virgem á
+perseguição das gentes de Herodes.
+
+A Virgem e S. José fugindo com o filho á matança dos innocentes, passou
+por um campo onde muitos lavradores estavam atarefados a semear centeio.
+
+Que semeaes, perguntou a mãe de Jesus?
+
+Pedras, responderam elles.
+
+Pois pedras vos nasçam; d'aqui a tres dias vinde quebral-as.
+
+Mais adeante encontrou novo grupo de aldeãos na mesma faina.
+
+Que semeaes?
+
+Semeamos centeio para nosso sustento.
+
+Pois centeio vos nasça, replicou a Virgem, d'aqui a tres dias vinde
+segal-o.
+
+Passados tres dias estava o campo dos maus lavradores transformado em
+enorme penedia e o dos que tinham sinceramente respondido ás perguntas
+da Virgem, coberto de louras messes. Cheios de jubilo pelo milagre, que
+reconheciam, os lavradores segavam atarefadamente o centeio, quando
+chegaram os soldados de Herodes, que andavam em perseguição de Jesus, e
+perguntaram aos ceifadores te tinham visto passar por alli uma mulher a
+cavallo n'uma jumenta, com um menino ao colo e acompanhada de um homem
+já velho.
+
+Passou, responderam os segadores, quando estavamos a semear o centeio
+n'este campo.
+
+Então os soldados, imaginando que o centeio tinha crescido naturalmente,
+desanimaram, e deixaram de continuar a perseguição, pelo que Jesus pôde
+escapar á furia dos seus perseguidores.
+
+
+
+
+SILVA E TREMOÇOS.
+
+
+Liga-se ao mesmo facto da lenda anterior--a perseguição de Jesus pelos
+soldados de Herodes--a lenda da silva e dos tremoços, lenda muito
+conhecida no norte do paiz, onde a ouvimos a grande numero de pessoas.
+
+A Virgem acossada de perto pela soldadesca, chegou proximo de um campo
+de tremoços em frutificação. Atravessando-o rapidamente, os tremoços, ao
+contacto dos corpos, fizeram um grande ruido que denunciou aos
+perseguidores o caminho seguido pela desolada mãe.
+
+No fim do campo estendia-se um enorme silvado, uma insuperavel barreira
+que ia sem duvida reter os fugitivos e fazel-os cahir em poder dos judeus.
+
+Porém as silvas ante as lagrimas e o desespero da mãe de Deus,
+desviaram-se abrindo caminho á sagrada familia, e logo que todos
+passaram tornaram a unir-se entretecendo-se mais fortemente, de modo que
+ao chegarem os soldados junto d'ellas, voltaram para traz e seguiram
+outro caminho, acreditando que a Virgem não podéra transpor o
+emmaranhado silvedo que os retinha.
+
+A Virgem passado o perigo abençoou as silvas a quem deu a faculdade de
+vegetarem em todos os terrenos, produzirem fructos saborosos, ficarem
+defendidas por agudos espinhos dos ataques de todos os inimigos, e
+amaldiçoou os tremoços dando-lhes um travor semelhante ás amarguras que
+elles com o seu indiscreto barulho lhe tinham causado, e condemnando-os
+a nunca podêrem saciar pessoa alguma.
+
+
+
+
+LOTUS.
+
+
+O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os egypcios.
+
+No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que, quando o
+rio trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas
+regiões, a superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr.
+
+É por isso que os egypcios representam a creação por uma immensa
+superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles
+que no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um
+lotus que, estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando
+a tudo a luz e a vida.
+
+É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea.
+
+A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a Brahma.
+
+Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido sobre o
+umbigo de Wishnou.
+
+A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa belleza
+oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de
+lotus.
+
+A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-o a
+todas as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos
+da sua amada que lhe realçam a belleza do rosto, _diz que sobre uma flôr
+de lotus brotaram outras duas bellas flores eguaes_.
+
+As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da
+particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões.
+
+Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e que é
+devido a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as
+partes sexuaes das mumias.
+
+Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era sempre
+recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram
+tambem o lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com
+estas flores.
+
+Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de Athenas,
+nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus.
+
+Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se doidamente por
+Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande
+heroe, atirou-se a um rio, onde morreu afogada.
+
+Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha, transformou-a na
+brilhante flôr do lotus.
+
+Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que sustentou com
+vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua
+soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente
+guardado, em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para
+provar o seu poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a
+uma grande fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém,
+mal os restos do dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se
+completamente, brotando logo do centro da fogueira uma enorme flôr de
+lotus, no interior da qual foi encontrado intacto o dente de Buddha.
+
+Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo sendo
+depois um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade
+indiana.
+
+A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo perseguida por
+Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus.
+
+Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda
+indiana, que encontramos publicada no _Jornal de Viagens_:
+
+ Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a
+ gentil Hevah, a dos olhos de esmeralda.
+
+ Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o
+ senhor dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os
+ olhos fitos na imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino
+ Brahma:
+
+ «Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores
+ de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
+
+ Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra
+ com a fronte, e não se atrevia a olhar.
+
+ E Brahma repetiu:
+
+ «As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se
+ abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
+
+ E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava,
+ pudica, de rojo, ante o divino senhor dos mundos.
+
+ Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor.
+
+ Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e
+ fugiu do templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo
+ remanso das verdes aguas.
+
+ Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam
+ n'um pé só, sobre o dorso dos grandes reptis.
+
+ E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que
+ os seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os
+ olhos se lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a
+ voz de Brahma:
+
+ «Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que
+ se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».
+
+
+
+
+SENSITIVA.
+
+
+A sensitiva, a _Mimosa pudica_ dos botanicos, é uma das plantas que mais
+téem sido discutidas e das que até hoje mais despertaram a attenção não
+só dos homens da sciencia mas tambem de todos os profanos, pelos
+curiosos movimentos das suas folhas.
+
+As sensitivas são dotadas de movimentos espontaneos e movimentos
+provocados.
+
+Ao cahir da tarde os foliolos começam a pender a unirem-se uns aos
+outros, dispondo-se para o somno nocturno.
+
+São os movimentos espontaneos.
+
+Este _somno_ póde ser provocado artificialmente colocando a planta na
+obscuridade. A falta de luz faz com que o phenomeno acima apontado se
+produza logo nas suas folhas.
+
+Os movimentos provocados são porém de todos os mais curiosos e os que
+deram o nome e fama á planta. Basta que um pequenino insecto pouse em
+qualquer dos foliolos da sensitiva, ou que se toque n'elle com um corpo
+estranho, para o foliolo se comprimir immediatamente e apoz elle os
+outros proximos, movimento que se propaga ás folhas de todo o ramo e até
+ás de todo o vegetal, se o contacto do corpo estranho fôr violento ou
+demorado.
+
+Estes movimentos estão em relação directa com o desenvolvimento e vigor
+da planta.
+
+Quanto mais a planta é forte e robusta tanto mais os movimentos são
+accentuados e demorados.
+
+Uma forte corrente d'ar, uma violenta trepidação do sólo, uma
+obscuridade repentina do sol é o bastante para o apparecimento d'estes
+movimentos.
+
+As excitações muito frequentes desorganisam porém o sistema nervoso da
+sensitiva e fazem-a rapidamente morrer.
+
+A _Mimosa pudica_ foi conhecida dos antigos, a quem muito impressionou a
+sua mobilidade. Escriptores gregos e romanos trataram repetidas vezes
+d'esta interessante leguminosa, e poetas varios cantaram-a
+enthusiasticamente.
+
+É de um d'elles que aproveitamos a lenda que segue:
+
+A nimpha _Mimosa_ era tão casta e tão pura que apesar de estar para
+casar com o pastor Iphis nunca consentira que elle lhe tocasse com os
+dedos sequer. Na vespera do dia em que devia ser para sempre unida ao
+eleito do seu coração, encontrou-se por acaso com elle no centro de um
+copado bosque. Iphis ao vêl-a tão seductoramente bella perdeu a cabeça,
+e quiz estreitamente unil-a de encontro ao coração. Mimosa conhecendo
+que não podia fugir ao doce amplexo do seu apaixonado, ficou tão tremula
+e aterrada, e implorou tão desesperadamente o deus Hymineu, que, este,
+compadecido, a transformou logo na planta que ainda hoje ao ser tocada
+por mão profana reproduz a extrema sensibilidade da casta nimpha.
+
+
+
+
+MELÃO.
+
+
+O melão em virtude das suas numerosas sementes e por se multiplicar com
+extrema facilidade, era tido pelos antigos como simbolo da geração.
+Segundo uma lenda arabe vegeta no paraizo onde significa que Deus é um
+só e Ali o seu propheta. Esta significação vem-lhe de n'um só todo
+reunir sementes innumeraveis que vão depois reproduzil-o por toda a
+eternidade. É como o propheta Ali que em si encerra toda a sabedoria e
+doutrina religiosa que lhe foi inspirada por Deus, para que por toda a
+eternidade a transmittisse aos miseros mortaes.
+
+A mais formosa lenda relativa a este saborosissimo fructo, por nós
+conhecida, é a seguinte, muito popular ainda hoje na Toscana:
+
+Em tempos remotos, quando os reis casavam com simples pastoras, havia
+n'uma pequena povoação da Toscana uma casa habitada por tres irmãs que
+pobremente viviam da tecelagem. Uma tarde, passando o rei proximo da
+modesta habitação, e ouvindo dentro animada conversação, quedou-se a
+escutar.
+
+«Todo o meu desejo, dizia uma das irmãs, era casar com o padeiro do rei.
+Teria ao menos pão magnifico e tanto quanto desejasse.
+
+«Pois eu, replicou outra, preferia antes casar com o cosinheiro. Então o
+que me havia de regalar de comer bons petiscos.
+
+A mais nova das tres, formosa a mais não ser, disse suspirando:
+
+«As minhas aspirações são mais altas. Só me contentava casando com o rei
+a quem havia de dar tres filhos lindos como o sol e com cabellos de oiro
+e dentes de prata».
+
+O rei, de regresso ao palacio, fez chamar as tres irmãs, e satisfez as
+aspirações de todas ellas, realisando-se em poucos dias os tres casamentos.
+
+As irmãs mais velhas, ao verem a fortuna e felicidade da mais nova,
+encheram-se de inveja e juraram desde logo a sua perda.
+
+Um anno depois a rainha tinha um filho. Era uma soberba creança de
+cabellos do mais puro ouro e dentes de uma alvura deslumbrante. As
+irmãs, esconderam porém a creança e fizeram crêr ao rei que o que
+nascera fôra um gato morto.
+
+No segundo anno de casada a rainha teve novo filho, tão seductor como o
+primeiro.
+
+As irmãs disseram ao rei que o que ella dera á luz fôra apenas um
+informe pedaço de pau.
+
+No terceiro anno nasceu terceiro rapaz, lindo como os amores, porém as
+irmãs capacitaram o rei de que fôra uma serpente o que a irmã tivera.
+
+O rei furioso, com a cabeça perdida, fez encerrar a esposa em medonha
+prisão a regimen de pão e agua.
+
+Obtido isto, as duas irmãs, que até então tinham tido as creanças
+escondidas para o que désse e viesse, deitaram-as ao mar dentro de um
+pequeno bote.
+
+O jardineiro do rei andando a passear na praia vê o bote fluctuando ao
+sabôr das aguas e indo apanhal-o depara com as tres creanças, que
+compassivamente recolhe.
+
+Com o tempo o pae adoptivo ensina-lhes o officio e fez d'ellas tres
+notaveis jardineiros, que tinham os jardins reaes, como até então nunca
+se vira.
+
+Uma tarde, merendavam os rapazes á sombra de uma copada arvore quando
+appareceu uma andrajosa velha, que lhes pediu uma esmola. Repartiram com
+ella da merenda, e, finda a refeição, a velha disse-lhe que os jardins
+estavam um primor reunindo tudo quanto havia de raro, faltando-lhe só,
+para serem uma maravilha, a agua que dansa, a arvore que toca e a ave
+que falla.
+
+Os rapazes enthusiasmados, sob indicação da velha, partem á busca dos
+tres prodigios.
+
+No caminho encontram o rei que ia á caça para se distrahir, e que
+simpathisa tanto com os rapazes que se queda esquecido a conversar com
+elles, abraçando-os e beijando-os ao separar-se. Mais adeante
+apparece-lhes a velha que lhes indica como devem encontrar a agua que
+dansa, o que elles afinal obtéem, continuando o caminho á busca da
+arvore que toca. Debalde a procuraram e já iam para regressar
+desanimados, quando a velha, surgindo, lhe diz onde a poderão encontrar
+e que basta trazer d'ella uma folha, a qual, plantada no jardim, dará
+uma arvore corpulenta, que fará ouvir doces melodias estranhas.
+
+Na arvore que toca acharam tambem empoleirada a ave que falla.
+Recolheram jubilosos ao palacio e plantaram a folha que logo no dia
+seguinte appareceu transformada em enorme arvore, que fazia a delicia
+dos visitantes com as musicas divinaes, nunca até então executadas por
+humana orchestra.
+
+O rei, ao saber do facto, correu a vêr a maravilha, e os tres rapazes,
+sob indicação da velha, brindaram-o com o melhor melão dos produzidos
+por um extenso meloal que cultivavam. O rei quiz servir-se logo do
+fructo, e ao partil-o encontrou-o, em vez de sementes, cheio de pedras
+preciosas.
+
+--Como póde ser dar um melão pedras preciosas?
+
+--E como póde ser, respondeu a ave que falla, que estava pousada na
+arvore que toca, uma mulher parir um gato morto, um pedaço de madeira e
+uma cobra. Estas creanças são teus filhos, e tu foste enganado pelas
+tuas cunhadas, castigando a esposa innocente.
+
+Fez-se então a luz no espirito do rei que, arrependido, mandou soltar a
+esposa, implorando-lhe humildemente perdão, e enchendo-a de mimos e
+prendas riquissimas.
+
+Ás más cunhadas, a essas, para exemplo futuro, fel-as queimar na
+principal praça publica do reino.
+
+
+
+
+HERA.
+
+
+Pela forte adherencia ás paredes e arvores com que está em contacto, é a
+hera simbolo do amor concupiscente, do amor ardente, pois faz seccar a
+arvore a que se une, como o delirio amoroso esmaga o coração onde uma
+vez dominou.
+
+A semelhança da hera com a vinha, o serem ambas plantas trepadoras fez
+com que os antigos acreditassem que a hera tinha a particularidade de
+atenuar os effeitos do vinho. Para isso os bebedores enfeitavam-se com
+corôas de hera, ornamentando tambem com ellas as estatuas e o thyrso de
+Baccho.
+
+Antigamente usava-se á porta das tabernas ramos de hera ou de carvalho.
+Os dois vegetaes tinham n'aquelles locaes, a mesma identica
+significação; recordavam o amor, a voluptuosidade, a força e a alegria
+que o vinho dá áquelles que o bebem.
+
+É a hera tambem simbolo da ambição por subir mais alto que todas as
+outras plantas, aproveitando tudo o que a póde ajudar a subir, e
+terminando por aniquilar e deitar por terra o que lhe serviu de apoio.
+
+Na Allemanha, ainda hoje, entre as classes populares existe a crença de
+que quem trouxer uma corôa de hera na cabeça, tem o entendimento mais
+lucido e gosa da propriedade de descobrir as feiticerias.
+
+Segundo a mythologia, um filho de Baccho, por nome Kisso, indo a dançar
+deante do carro triumphal do pae cahiu por terra, e as rodas do vehiculo
+passando-lhe por cima mataram-o. A deusa Cybele compadecida do triste
+fim do infeliz moço, transformou-o em hera.
+
+
+
+
+FIGUEIRA.
+
+
+A figueira é uma das arvores que mais figura na legenda biblica.
+
+É com as folhas d'esta arvore que Adão e Eva, após o peccado original,
+cobrem a nudez que desde então começara a envergonhal-os, e é tambem
+n'esta arvore maldita que, segundo alguns auctores, Judas se enforcou
+após a venda do divino Mestre!
+
+É antiquissimo o caracter diabolico da figueira, a arvore onde se
+acoutavam os demonios e os mais horrendos e maleficos monstros.
+
+Os doutores mahometanos dizem que foi o figo o fructo que Deus prohibiu
+que Adão e Eva comessem, por excitar os sentidos, e logo que elles
+transgrediram a ordem, conheceram a nudez, cobrindo-se com as folhas da
+mesma arvore que os fizera peccar.
+
+
+
+
+CIPRESTE.
+
+
+Adão, vendo-se velhissimo, com 900 annos, mas, cheio de vigor e saude,
+gabou-se deante de Deus de ser forte e immortal. Deus para lhe castigar
+o orgulho paralisou-lhe os membros inferiores, fez-lhe cahir os dentes e
+tirou-lhe a luz dos olhos, dizendo-lhe que eram os signaes precursores
+da morte. Adão não quiz acreditar na palavra do Senhor e mandou o filho
+mais velho ao Paraizo buscar um fructo da arvore da vida, afim de
+recuperar as forças perdidas. O filho em vez do fructo trouxe a vara com
+que Adão foi expulso do Paraizo. Adão partiu-a em tres pedaços que
+plantou no sólo, mas logo que as arvores nasceram Adão morreu.
+
+As arvores nascidas da vara plantada por Adão foram a oliveira, o cedro
+e o cipreste. Desta ultima é que depois sahiu a madeira com que
+fabricaram a cruz em que Christo morreu.
+
+
+
+
+ALECRIM.
+
+
+O alecrim é uma planta funeraria. Os antigos acreditavam que o aroma do
+alecrim conservava os cadaveres, e sob esta crença, queimavam nas
+ceremonias funebres quantidades enormes d'esta planta aromatica.
+
+No norte, os que acompanham os mortos á ultima morada, levam comsigo um
+ramo de alecrim por ser em virtude da folhagem sempre verde simbolo da
+immortalidade.
+
+Os romanos ornamentavam os Lares com alecrim e empregavam-o como meio de
+purificação após as festas phallicas, crendo que elle tinha a
+propriedade de dar uma mocidade eterna.
+
+Em algumas provincias de França é vulgar a crença de que as flores de
+alecrim em contacto com o corpo dão a alegria e felicidade a quem as
+traz. Para os cretenses é simbolo da sinceridade.
+
+Dizem que foi sobre elle que a Virgem Maria estendeu a seccar as
+primeiras roupas que vestiu a Jesus.
+
+Na Andaluzia é tambem o alecrim muito estimado, pelo motivo de ter
+escondido a Virgem quando com o divino filho fugia á perseguição dos
+soldados de Herodes.
+
+Na Sicilia corre que é no alecrim que se escondem as fadas disfarçadas
+em serpentes.
+
+É tambem originaria d'aquelle pittoresco recanto d'Italia a seguinte
+lenda relativa ao alecrim:
+
+--Uma rainha esteril tanto contemplou os numerosos ramos e as verdes
+folhas de um copado alecrim que concebeu d'elle, tendo um pequenino
+alecrim, que plantou em luxuoso vaso regando-o quatro vezes ao dia com
+leite. Um sobrinho da rainha, intrigado com o caso, roubou o vaso e
+conservou a planta, regando-a com leite de cabra. Um dia, que estava
+tocando deliciosamente flauta, viu sahir do centro do alecrim uma
+formosa princesa, de quem ficou logo apaixonado.
+
+Obrigado, porém, a partir para a guerra, recommendou instantemente a
+planta ao jardineiro do palacio, para que olhasse por ella com todo o
+cuidado. As irmãs do principe encontrando a flauta foram tocar para
+junto do vaso, e vendo sahir do alecrim a formosa princeza, ficaram tão
+cheias de inveja que a agarraram e desapiedadamente a moeram com
+pancada. A princeza desappareceu e o alecrim começou logo a murchar. O
+jardineiro escondeu-se para fugir ao castigo que receava, mas indo uma
+noite inexperadamente a casa, vê a mulher em colloquio intimo com um
+dragão, que lhe dizia que no alecrim estava encantada uma princeza, que
+morreria com a planta, se esta não fosse regada com gordura humana.
+
+O jardineiro, então, entra de improviso, mata o dragão e a esposa
+culpada, derrete-os e com a gordura rega o alecrim. O encanto foi
+desfeito e a princeza readquiriu a liberdade e a saude desposando pouco
+depois o principe, a quem amava.
+
+
+
+
+FETO MACHO.
+
+
+O feto _Aspidium filix max_ representa um papel importante nas lendas
+das fadas. É com o feto macho que ellas fazem os seus mais importantes
+maleficios, servindo-se tambem d'esta planta para adevinhar o futuro.
+Diz a lenda que o feto macho só dá flôr na noite de S. João, e que
+aquelle que poder colher a flôr d'esta preciosa criptogamica tem a
+particularidade de adevinhar o futuro e descobrir todos os thesouros
+occultos.
+
+Segundo uma lenda Russiana um pastor perdeu uns bois na vespera de S.
+João. Debalde os procurou, e recolhia a casa, chorando e lastimando a
+sua desgraça, quando ao passar perto de um feto--era meia noute
+exacta--a flôr d'este lhe cahiu dentro de um dos sapatos. Viu logo onde
+estavam os bois com os quaes se encaminhou para casa. Na estrada porém
+descobre um opulento thesouro, montões de joias e pedrarias que o
+deixaram deslumbrado. Corre a chamar a mulher para o auxiliar no
+transporte d'aquellas riquezas. A mulher vendo-lhe os sapatos todos
+molhados e enlameados aconselha-o, por inspiração do demonio, a mudal-os
+por outros seccos. O homem attende-a, tira os sapatos, a flôr de feto
+cáe no chão e elle immediatamente esquece tudo.
+
+
+
+
+MYRRHA.
+
+
+Myrrha--conta a fabula--apaixonou-se pelo pae, o rei Cyniras, de quem
+teve Adonis, avô de Priapo.
+
+Envergonhada porém, do repellente incesto que praticara, rogou aos
+deuses que a transformassem em coisa que não fosse viva nem morta. Estes
+então transformaram-a no arbusto que produz a Myrrha.
+
+
+
+
+POLYPODIO.
+
+
+Uma lenda muito espalhada na Allemanha, narra que estando uma vez a
+Virgem a amamentar o seu divino filho, sentada n'umas pedras, ao
+erguer-se, cahiu-lhe uma gotta de leite na rocha, gotta de que logo
+nasceu o Polypodio vulgar. É em recordação d'este facto memoravel que os
+allemães dão a este feto o nome de _Unser Frauenmilck_, isto é, _Leite
+de Nossa Senhora_.
+
+Entre nós é o Polypodio conhecido pelos nomes vulgares de: _Feto
+centopeia_, _Riços_, _Feto dos carvalhos_, _Feto doce_, etc.
+
+
+
+
+ESPINHEIRO.
+
+
+Quando a Virgem fugia com o filho á violenta perseguição dos seus
+inimigos, chegou junto de um espesso bosque de espinheiros, que lhe
+abriu passagem, fechando-se depois á chegada dos soldados romanos.
+
+A Virgem abençoou então os espinheiros que se compadeceram da sua dôr e,
+Christo, fallando pela primeira vez, disse que em memoria d'aquelle
+facto, a corôa com que o adornariam no dia do martirio, havia de ser de
+espinheiro. E assim foi, pois a corôa que os judeus, para o
+ridicularisar, lhe forneceram, era d'aquelle vegetal.
+
+Conta mais a lenda que um pisco, vendo que os espinhos do espinheiro
+feriam a fronte do Salvador, veio pousar-lhe na cabeça e com o bico os
+quebrou um a um. Molhando n'essa occasião o peito no sangue de Christo,
+ficou a ave, para sempre, com aquella sagrada mancha, recordação eterna
+do caridoso acto que praticara.
+
+
+
+
+VIDEIRA.
+
+
+É a videira uma das plantas mais celebradas pelos antigos. A sua cultura
+desenvolveu-se outr'ora muito na Grecia, Persia e Asia menor.
+
+Era com pampanos que se enfeitavam Baccho, as Bacchantes, Silene, Rhea,
+Bona Dea, as Graças, a deusa Lætitia, etc. Narra a Biblia que Noé se
+dedicou cuidadosamente á sua cultura, sendo o primeiro mortal que
+fabricou vinho da uva.
+
+Diz Santo Ambrosio, referindo-se á enorme embriaguez que a primeira
+absorpção do liquido extrahido da uva produziu em Noé, que não foram
+bastantes todas as aguas do diluvio para fazerem com que Noé ficasse nú,
+mas que o vinho o fez ficar fóra de si, sem juizo e vergonhosamente
+decomposto.
+
+O philosopho Anacarsis tratando da videira relata que este vegetal tem
+tres varas, a primeira das quaes produz gosto, a segunda delirio e a
+terceira a loucura.
+
+Para a mytologia a videira nasceu do sangue dos Gigantes, derramado na
+terra, quando, dementados, pretenderam escalar o ceu. É por isto que o
+vinho tem a propriedade de causar furor, uma enorme excitação a quem o
+bebe em demazia.
+
+Uma lenda arabe conta que o diabo regou o primeiro pé de videira com o
+sangue do macaco, do tigre e do porco.
+
+Por isso ao primeiro vinho bebido, o homem fica alegre, agitado,
+bulhento e brincalhão como o macaco; continuando a beber a alegria
+transforma-se em violentas arremetidas de tigre, para por ultimo, cahir,
+roncando, no somno bestialisador do porco.
+
+Segundo os Persas foi uma mulher no feliz reinado de Djemschid, que,
+querendo matar-se, bebeu o succo das uvas, pensando ser veneno. O somno
+que elle e causou, foi porém tão agradavel que continuou depois a fazer
+vinho e a bebel-o, espalhando-se em breve o uso por todo o paiz.
+
+O mitho hellenico sintethisa a vinha n'um companheiro e amigo de Baccho,
+no pastor Staphylo. Staphylo era um pastor do rei da Grecia Oenêo, que
+reparando que uma cabra do rebanho, a mais gorda e bem tratada de todas,
+recolhia sempre mais tarde que as outras, e não comia nunca do alimento
+fornecido ao resto do rebanho, a seguiu, indo ter a um bosque espesso,
+onde a viu a comer soffregamente uvas, fructo até então completamente
+desconhecido. Staphylo colheu grande porção de cachos com que brindou o
+rei Oenêo o qual fez d'elles vinho. Em recordação d'este facto, deram
+depois os gregos o nome de _Oinos_, ao saboroso licôr das uvas.
+
+
+
+
+LOUREIRO.
+
+
+Apollo apaixonando-se doidamente por Daphne, filha do rei Penêo,
+moveu-lhe uma tão intensa perseguição, que esta, para lhe poder fugir,
+conseguiu que os deuses a transformassem em loureiro.
+
+Apollo quiz que o loureiro lhe fosse consagrado tecendo com elle uma
+corôa, que, depois, sempre trouxe comsigo; significava a referida corôa,
+que se a donzella não lhe pertenceu em vida, possuia porém o vegetal em
+que fôra transformada.
+
+Baccho, em seguida ás gloriosas victorias na India adornou-se com o
+louro, e Esculapio fez o mesmo depois das maravilhosas curas que
+realisou e que lhe deram fama eterna.
+
+Os romanos adoptaram o louro como simbolo da victoria.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+ ABOBORA.
+ ABOBOREIRA.
+ ACONITO.
+ AÇUCENA.
+ ALECRIM.
+ ALGODÃO.
+ AMOREIRA NEGRA.
+ APAMARGA.
+ ARROZ.
+ CANNAS.
+ CARDO.
+ CARVALHO.
+ CEDRO.
+ CENTEIO.
+ CHÁ.
+ CHICÓRIA.
+ CHORÃO.
+ CHRISANTHEMO.
+ CIPRESTE.
+ CLEMATIS INTEGRIFOLIA.
+ ESPINHEIRO.
+ FETO MACHO.
+ FIGUEIRA.
+ FIGUEIRA DA INDIA.
+ HERA.
+ LARANGEIRA.
+ LEITUGA.
+ LINHO.
+ LOTUS.
+ LOUREIRO.
+ MAÇÃ.
+ MAIAS.
+ MANGERONA.
+ MARMELLEIRO.
+ MELÃO.
+ MILHO.
+ MOSTARDA.
+ MYOSOTIS.
+ MYRRHA.
+ MYRTHO.
+ NARCISO.
+ NOGUEIRA.
+ OLIVEIRA.
+ PALMEIRA.
+ PAPOULA.
+ PILRITEIRO.
+ PINHEIRO.
+ PLATANO.
+ POLYPODIO.
+ RABANETE.
+ ROMÃ.
+ ROSA MUSGO.
+ ROSAS.
+ SENSITIVA.
+ SERRALHA.
+ SILVA.
+ TABACO.
+ TILIA.
+ TREMOÇOS.
+ TREVO.
+ TRIGO.
+ VIDEIRA.
+ ZIMBRO.
+
+
+
+
+NOTA AO INDICE.
+
+
+Os vegetaes a que se referem as lendas publicadas no presente volume,
+não estão por ordem scientifica, nem mesmo alphabetica, por isso que o
+livro foi impresso á medida que o auctor colleccionou as lendas que o
+compõem.
+
+Para remediar em parte esta falta, foi o indice organizado
+alphabeticamente.
+
+
+Notas de transcrição:
+
+Foram corrigidos alguns erros tipográficos óbvios.
+
+As palavras rodeadas pelos sinais + + estão em grego no original.
+Nesta versão electrónica não é possível representar os caracteres gregos
+pelo que as palavras foram substituídas pela transliteração para
+caracteres latinos.
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by
+Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES ***
+
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