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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:34:52 -0700 |
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diff --git a/27412-8.txt b/27412-8.txt new file mode 100644 index 0000000..c36ef45 --- /dev/null +++ b/27412-8.txt @@ -0,0 +1,3137 @@ +The Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by +Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Lendas dos Vegetaes + +Author: Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira + +Release Date: December 4, 2008 [EBook #27412] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + +LENDAS DOS VEGETAES. + + +DO MESMO AUCTOR: + + Os reptis em Portugal. + A fauna dos Lusiadas. + Guia do Naturalista. + Ninhos e ovos. + Á Beira mar. + Notavel transplantação de uma palmeira. + Esboço biographico de Adolpho Frederico Moller. + Jornal de Horticultura Pratica (1889, 1890, 1891, 1892). + +Typ. de A. R. da Cruz Coutinho. Caldeireiros, 28 e 30. + + + + +LENDAS DOS VEGETAES, + +POR + +EDUARDO SEQUEIRA. + + +PORTO--1892. + + +AO AMIGO + +ALFREDO FERREIRA DIAS GUIMARÃES. + +TIRAGEM UNICA DE 70 EXEMPLARES. + +Ex. n.º 26 + +offerecido + +por + + + + +ROSA MUSGO. + + +O louro anjo Sible tinha sido mandado por Deus, mitigar o soffrimento +d'uma pobre noiva cujo bem amado morrera na guerra, defendendo o solo +sagrado da patria. Era Sible o anjo mais gentil de todos quantos formam +a immensa legião que Deus commanda, e o favorito querido do Senhor. + +Contente com o encargo que lhe fôra dado, Sible bateu as azitas da mais +fina plumagem e dirigiu-se para a cabana perdida no meio do bosque, onde +morava a desditosa Amel que, chorando desesperadamente, lastimava a +solidão e o abandono em que ficava depois de têr architectado tantos e +tão risonhos projectos de felicidade. + +Sible entrou na cabana no momento mesmo em que a inditosa rapariga, +allucinada pela dôr, procurava pôr termo á existencia, e começou, para a +consolar, a pintar-lhe com tão brilhantes côres a morte gloriosa do +noivo, o logar distincto que elle ia occupar no reino dos ceus, +esperando que ella se lhe fosse juntar para se realisar o eterno e +venturoso enlace patrocinado por Deus, que o desespero da rapariga +abrandou como por encanto, e um sorriso, raio de sol após temporal +desfeito, fugitivamente se lhe esboçou no rosto amargurado. Mas para que +Amel merecesse uma felicidade tão extraordinaria, felicidade não sonhada +por mortal algum, era preciso, indicou-lhe o anjo, que esquecesse a dôr +mitigando o soffrimento alheio, indo em santa romagem do bem para a +cabeceira dos doentes, dos pobres doentes desamparados de carinhos e de +familia, e para junto das creancinhas que a guerra fizera orphãs, +esperar que Deus a chamasse a si, dando-lhe a companhia eterna do bem +amado. + +Sible empregou o dia todo na sua divina tarefa, e quando a noute começou +a estender o escuro veu sobre a terra, contente por se ter +satisfatoriamente desempenhado da tarefa que lhe era imposta, +despediu-se da donzella e quiz tomar o caminho do ceu. Mas com o cahir +da noute estendera-se sobre o bosque um espesso nevoeiro humido que +desnorteou Sible, e molhando-lhe as pennas das azas o impossibilitou de +voar. O anjo vendo que lhe era impossivel alcançar o ceu, tratou de +procurar um retiro agradavel e seguro onde podesse socegadamente esperar +a manhã. + +Junto de uma parede meio desmoronada, vicejava uma pujantissima roseira +engrinaldada de formosissimas rosas brancas rescendendo os mais puros e +divinaes aromas. Mais encantador abrigo, melhor docel não era possivel +encontrar em todo o bosque. + +Sible foi á parede apanhar um montão de fôfo musgo e com elle fez sob a +roseira um leito confortavel, onde, depois, envolvendo-se nas alvas azas +de arminho, se deitou disposto a esperar, velando, que chegasse a +madrugada. + +Porém o aroma que as rosas emittiam era tão embriagador, e o vento +brandamente passando atravez a folhagem cantava melodias tão doces, que +o anjo pouco a pouco cerrou os olhos e adormeceu profundamente. + +Nunca no ceu Sible passara uma tão agradavel noite! Sonhou sonhos tão +deliciosos que quando pela manhã o despertaram os primeiros raios do +sol, beijou reconhecido as rosas, e estas, córando de alegria e pejo, +ficaram para sempre rubras. Mas o anjo considerou o beijo bem fraca +recompensa para quem tão agradavelmente o emballara toda a noite, e +queria, antes de regressar ao ceu, dar-lhe recompensa maior. + +Porém como tornar mais bellas as rosas em que tudo, fórma, colorido e +perfume tão distinctamente brilhavam? + +Esteve um momento pensativo, e depois, apanhando um pouco do musgo que +lhe servira de leito, resguardou cuidadosamente com elle os botões das +flores prestes a desabrochar, para que o frio, a chuva e os insectos +lhes não causassem damno algum. + +E em seguida, batendo as azas, voou para o ceu a dar conta a Deus da +missão de que fôra encarregado. + +E foi desde então que na terra começou a haver rosas musgo... + + + +CARVALHO. + + +Hercules, o lendario gigante invencivel, regressando um dia de praticar +uma d'aquellas suas tão memoraveis façanhas, deitou-se em pleno campo +para dormir a sesta. Antes porém de se confiar aos braços de Morpheu, no +sólo, junto a si, na previsão de qualquer repentino e inesperado ataque, +espetou a pesada máça, mais forte que o ferro, e com que esmagava tudo +quanto lhe oppunha obstaculo aos seus designios. + +Dormiu o bom do gigante por muito tempo e quando acordou era quasi +noite; procurou logo a arma predilecta, e com assombro viu em lugar +d'ella uma pujante e formosissima arvore! A máça, ao contacto do sólo, +enraizara, desenvolvera tronco, lançara ramos, folhas e fructo. + +Hercules furioso arrancou o vegetal e, quebrando-lhe os ramos, fez do +tronco uma nova e formidavel clava, mais sólida e forte que a que antes +possuira. + +Porém, dos fructos esparsos pelo sólo, nasceram ao depois novas +identicas arvores, que para sempre ficaram sendo o emblema da força e do +vigor. + +Estas arvores são os carvalhos. + + + + +CHÁ. + + +Dakkar era um ardente devoto de Siva a cruel deusa indiana que só gosta +de morticinio e de sangue, e que recebe as adorações mais submissas, +profundas e completas d'uma legião de crentes que habitam nos +misteriosos recessos das florestas da India, d'essa terra das lendas e +das maravilhas. Havia annos que vivia n'uma gruta em ardente adoração; +de estar sempre de joelhos creara calosidades que lhe não permittiam +endireitar as pernas, e as unhas dos dedos das mãos, que conservava +fechadas havia annos, tinham rompido os tecidos e appareciam do lado +opposto. + +Não havia martirio a que se não sujeitasse, e as populações fanaticas +consideravam-o Santo e vinham de longe render-lhe homenagem e pedir-lhe +conselhos. + +Só uma nuvem negra, um pesar profundo perturbava o misticismo de Dakkar. +Soffria sem custo o frio, a fome, a sede, as mais incommodas posições, +dominando á vontade o organismo, só não podera ainda vencer o somno! +Debalde se esforçava por resistir, debalde fazia despejar sobre si +quantidades enormes de agua fria, debalde se sujeitava á applicação do +ferro em brasa, ou fazia vibrar o tam-tam junto dos ouvidos. O somno +como mais forte, subjugava-lhe a vontade e obrigava-o a dormir. No seu +desespero chegou a fazer cortar as palpebras cuidando assim que +espancaria para longe o somno, mas a tortura foi baldada. Os olhos +permaneciam abertos mas Dakkar dormia! + +Uma tarde,--havia dias que estava sem comer--orava o fakir +fervorosamente pedindo a Siva que se amerciasse d'elle e lhe permitisse +antes de morrer a ultima e suprema felicidade de poder vencer o somno, +quando começou a sentir-se muito fraco, uma languidez precursora do +somno a dominal-o, tudo a dansar-lhe á volta... + +Seria fome? Seria somno? Oh, se apasiguando a fome vencesse o somno... + +Olhou em roda... alimentos nenhuns; os fieis tinham-se esquecido de +lh'os trazer... mas não havia mal... Fóra, perto da gruta, vegetavam +variados arbustos, e a alimentação de tantos animaes tambem havia de +convir ao homem. Seria mais um sacrificio... E Dakkar arrastando-se com +difficuldade, quasi vencido pela necessidade de dormir, chegou até junto +d'um vegetal e começou a devorar-lhe as folhas. + +Mas, caso milagroso, á medida que ingeria as folhas do vegetal, o somno +desapparecia e o fakir sentia-se mais fórte, fresco e vigoroso. + +Obrigado oh Siva, exclamou elle jubiloso, agora posso morrer, pois morro +feliz visto que graças a ti, alcancei dominar o que até hoje zombara dos +meus esforços. Venci o somno! + +Começou desde então a fazer colher pelos seus adeptos folhas e folhas do +vegetal, que deitava de infusão, e quando o somno fazia sentir os seus +primeiros rebates bebia da agua milagrosa e elle desapparecia logo. + +O arbusto descoberto pelo fanatico fakir indiano, o vegetal dissipador +do somno foi o chá. + + + + +PAPOULA. + + +N'aquelles bons tempos em que os deuses desciam á terra a confraternizar +com os humanos, vivia nos Alpes um rapaz filho de gente pobre mas que +pela sua bondade e pelo carinhoso disvelo com que sabia velar á +cabeceira dos doentes era querido e estimado por todos. + +Tinha a grande e apreciavel arte de por meio de doces cantares saber +adormecer aquelles que eram apoquentados pelas mais terriveis e rebeldes +insomnias, de modo que os seus conterraneos lhe não deixavam um momento +só de descanso. + +Em qualquer adoecendo, a familia ia logo têr com o pobre rapaz, que não +podendo resistir ás supplicas lá se installava junto dos doentes, +emballando-os com as suaves melodias que chamam o somno e que elle sabia +dizer como ninguem. + +Mas não podendo resistir a tão excessivas e continuadas fadigas e +vigilias, foi pouco a pouco enfraquecendo, até que um dia se extinguiu +ao caír da tarde, quando o sol morria no extremo horisonte... + +Então os deuses para premiarem as boas acções do que morrera praticando +o bem, tornaram-o immortal, transformando-o n'uma planta, na papoula, a +quem deram a principal virtude pela qual os doentes o desejavam sempre +junto a si, a de fazer esquecer o soffrimento por meio do somno. + + + + +CHICÓRIA. + + +Chicória era uma princeza tão formosa, que todos os homens ao vêl-a +ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabellos +mais finos que a mais fina sêda, o céo emprestara-lhe aos olhos o seu +doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja á +purissima alvura da sua cutis. + +Era um encanto. + +O rei, seu pae, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os +caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslisava +entre affagos e desejos satisfeitos, n'uma completa e intensa +felicidade. + +Porém um dia o amor tudo transtornou. + +Um bello trovador, um d'aquelles gentis bohemios que percorriam o mundo +de lyra no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, +chegou ao palacio, onde foi recebido com todo o carinho que então se +dispensava ao seguro depositario das antigas tradicções guerreiras e das +castas e bellas lendas d'amor. + +Berengère se chamava elle, e nunca até então viéra ao palacio real quem +melhor soubesse dedilhar a lyra, soltar ao vento os magoados queixumes +d'uma alma amorosa ou attingir o apice do enthusiasmo na narrativa dos +feitos audazes dos valentes guerreiros immortalisados em campanhas +féramente medonhas. + +Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os +caprichos, pediu ao pae que a casasse com o trovaor. O rei, que nada +recusava á filha, accedeu constrangido, mas o bello trovador, que não +queria perder a estremecida liberdade que tantas varias aventuras +galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe +dava, ao saber dos desejos da formosa princeza fugiu do palacio para +nunca mais voltar. + +A alegria de Chicória desappareceu desde então para sempre. Passava os +dias sentada no varandim do palacio olhando pela estrada além a vêr se o +trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, +trazendo-lhe a ventura perdida. + +Mas debalde esperou. + +Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de +neve, pouco a pouco desappareceu-lhe a luz dos olhos... + +Então, não podendo resistir a este ultimo golpe, a princeza morreu de +paixão. + +Sepultaram-a perto do palacio, á beira da estrada, n'um local por ella +designado, voltada para o sitio d'onde sempre esperara o regresso do +amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzella morta de +amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flôr +que pelo bello azul que a tinge faz recordar os castos olhos da +candidissima princeza. + + + + +ABOBOREIRA. + + +Quando Ninive, condemnada pelos seus maleficios, estava prestes a ser +arrasada, Jonas, que queria ser espectador do facto tremendo que +prophetisára, veio postar-se n'um local d'onde perfeitamente podia +presencear o castigo da cidade maldita. + +Porém no posto de observação escolhido, não havia uma só arvore, e um +sol de fogo, a prumo, tornava tão martyrisante a estada alli do +propheta, que este, angustiado, pediu a Deus que o soccorresse, +attenuando-lhe de alguma fórma a intoleravel ardencia dos raios solares. +Ainda Jonas não tinha acabado a sua fervorosa prece, já uma planta se +erguia do sólo, crescia rapidamente e envolvia-o tão bem, que o +propheta, contentissimo e consolado, pensando que poderia gosar da bella +frescura proporcionada pela folhagem do vegetal, terminou o pedido com +um intenso agradecimento ao céo pelo beneficio prestado. Mas n'isto, tão +repentinamente como brotára do sólo, a planta seccou e reduziu-se a pó, +deitando assim n'um instante por terra as doces esperanças do santo +propheta. Esta planta era a _aboboreira_. + + + + +CHRISANTHEMO. + + +Segundo resa a tradicção fielmente conservada atravez centenas e +centenas de gerações, nunca houve nas ilhas do Sol Nascente princeza +mais seductoramente formosa do que a companheira bem amada do principe +Yoshimtsou. + +Pintor algum por mais talento que possua, não será nunca capaz de, com +as côres mais finas e custosas, crear imagem mais graciosa do que a da +bella japoneza. + +Ella era mais fresca que as alvoradas, mais alegre que as searas +maduras, mais formosa que o sol e mais sabia que o mais sabio bonzo. + +A justiça vacillava em dar sentença em negocio intrincado, dous esposos +desharmonizavam-se, pleiteavam visinhos em encarniçada questão que nada +parecia poder sanar, era só fazer a princeza Tou-Ki sabedora do caso e +ella tudo resolvia com a mais imparcial justiça tudo aplanava e o que +mais era digno de nota, a contento de ambas as partes que ficavam +abençoando a Providencia das ilhas do Sol Nascente, a boa, a doce, a +justa e a santa princeza Tou-Ki. + +Por isso todo o mundo a adorava, todas a bemdisiam desde o miseravel +habitante das tristes choupanas até ao opulento morador dos labirinticos +palacios construidos de porcellana e forrados de custosa sêda de mil +côres diversas. + +Um dia porém o imperio onde só parecia residir a felicidade foi assolado +por um terrivel flagello, uma medonha peste que dizimou espantosamente a +população. Tudo era dôr, lagrimas e luto. + +A gente atterrada, perdia a cabeça e a nada attendia. Agglomerava-se +ante os templos, pedindo aos Deuses, em altos gritos, o termo da praga +cruel para que não sabiam remedio. + +Quem lhes valeu porém no afflitivo transe foi a boa princeza Tou-Ki. +Corria de casa em casa tractando dos doentes, amortalhando os mortos de +quem todos fugiam com horror, tomando conta dos pobres orphãos +abandonados, consolando e animando os tristes. E a sua popularidade +cresceu tão espantosamente que, quando apparecia, todos se lhe lançavam +aos pés, e era adorada com fanatismo, como nenhum Deus até então o fôra. + +Mas--crueldade da sorte!--quando a peste terminava, quando já todos, +applacado o pavor, rendiam graças ao ceu por terem escapado ao mal +dizimador, a princeza atacada pela doença cruel que desbastara o seu +povo estremecido, foi instantaneamente arrebatada pela morte, como se +esta receiasse que demorando-se alguns minutos o amor dos subditos lhe +não deixasse empolgar a bella presa preciosa. + +Então o luto foi geral, e todos, velhos e novos, choravam doidamente a +perda da sua bondosa protectora, da sua amiga, da sua providencia, do +seu bem. + +O enterro da santa princesa foi a coisa mais maravilhosa que sonhar-se +póde. Toda a nação a acompanhou até junto da sepultura aberta no centro +de um extenso e alegre campo de arroz. + +Poucos dias depois--caso estranho!--o local onde jasia o corpo da gentil +princeza assignalava-se por uma profusão de flores estranhas, +desconhecidas de todos, que espontaneamente brotaram do sólo, com as +petalas graciosamente encaracoladas como o fôra o cabello da morta +gentil, e de mil coloridos diversos desde o negro como os seus olhos +negros, vermelho tão vivo como o que em vida lhe tingia os labios, e +amarello intenso como o oiro dos seus cabellos até ao branco impeccavel +da sua alma purissima. + +De toda a parte, desde os mais remotos confins do imperio, o povo, +celebrando o milagre, corria a visitar o tumulo milagroso para colher +hastes das plantas sagradas que se tornaram logo as predilectas de +todos, espalhando-se rapidamente por todo o paiz. + + + + +ROSAS. + + +As rosas attrahiram desde a mais alta antiguidade a attenção de todos os +povos e por isso não é de estranhar o grande numero de lendas que correm +a seu respeito. + +Os Egypcios tinham-as em grande valor, ornando-se com ellas, uso que +passou aos romanos e d'estes a todos os povos modernos. Ainda não ha +muito que appareceram em varios tumulos egypcios restos reconheciveis de +rosas. + +Os Hindus dizem que o sol é uma rosa vermelha, e os poetas antigos +asseveram que as rosas eram todas brancas ao principio tomando a côr +vermelha do sangue de Adonis, segundo uns, de Venus, segundo outros. + +A Aurora era representada outr'óra sob a forma de uma grinalda de rosas, +a rosa deu o nome ás festas da primavera (_rusalija_), a Virgem christã +que substituiu no culto a Venus antiga adoptou como seu o mez das rosas +e tem tambem o nome de _rosario_ o cordão com contas, primitivamente +composto com tractos da _Rosa canina_, com que as mulheres piedosas +marcam as suas rezas. + +Os papas aproveitaram um fragmento do antigo culto da rosa, dando +annualmente na Paschoa uma rosa d'oiro aos principes mais religiosos da +christandade. + +Na Idade media, reminiscencia sem duvida do costume das dissolutas da +Roma antiga se ornarem de rosas na festa da Venus Erycina, condemnavam +as mulheres publicas, as raparigas deshonradas e os judeus, a trazerem +como signal distinctivo uma rosa. + +Os Romanos nos banquetes punham coroas de rosas na cabeça e ornavam com +ellas as taças por onde bebiam em virtude de crerem que estas bellas +flores preservavam da embriaguez. + +A rosa foi não só simbolo da luz, do amor, da voluptuosidade, mas tambem +simbolo funerario. Nas lendas persas as rosas e os cyprestes andam +unidos; junto dos tumulos plantavam-se antigamente roseiras ao lado dos +cyprestes. + +Segundo uma velha lenda irlandesa, quando um doente vê uma rosa é signal +e morte. + +Os Turcos dizem que a rosa nasceu do suor de Mahomet, os Indianos +fazem-a apparecer de um sorriso da voluptuosidade, segundo Galiano é +filha do orvalho, e a crêr-se no que affirma Justin de Mieckow brotou do +suor de uma mulher chamada Jone, suor que por um phenomeno singular era +branco de manhã e vermelho ao meio dia. D'ahi as rosas brancas e as +vermelhas. + +Anacréonte ensina-nos que Cybéle, para se vingar de Venus, creou a rosa +com o fim de pôr em parallelo a belleza de Venus com a belleza da rosa. + +Guillemeau diz que a rosa foi rainha e virgem e conta assim a sua +historia: + + «Existiu n'uma cidade da Grecia e reinou em Corintho; a fama da sua + bellesa espalhou-se largamente por todas as cidades ainda as mais + distantes. A Achaïa quis possuir esta nimpha proporcionando-lhe as + mais illustres allianças. + + O bravo Halesia collocou-se em primeiro logar, em seguida Briar, que + se orgulhava em ser filho do ceu, Arcas distincto dos outros deuses + por possuir dois pares d'azas e por ultimo o vencedor de Thebas + depoz tambem os seus louros aos pés da joven princeza possuido dos + sentimentos affectivos de todos os outros adoradores. Mas a altiva + belleza respondeu aos amantes que a importunavam: _Não é facil obter + um coração como o meu, nem julgueis que vos é possivel seduzir-me. + Quem me quizer ha-de vencer-me._ + + Disse, e com um andar altivo encaminhou-se para o templo consagrado + a Apollo e a Diana, seguida dos parentes e de todo o povo. A nympha + approximou-se do altar e invocou a deusa protectora da castidade. + N'isto os amantes furiosos despedaçaram as portas do templo e + travou-se um combate encarniçado; a joven rainha sustentou o choque + com firmesa, e defendeu-se com tanto vigor que expulsou para longe + os ferozes amantes, cujo procedimento pouco delicado a ultrajava. + + Quer que o pudor irritado désse novas graças á belleza quer que a + victoria a tornasse mais imponente, Rhodante brilhava com um + esplendor tão divino que o povo deslumbrado exclamou em côro: + + _Que a bella Rhodante seja d'hoje para o futuro a deusa d'este + templo. Tiremos Diana do altar._ + + A antiga deusa teve de ceder o logar á nova, mas Apollo indignado + por este cumulo de audacia resolveu vingar o ultrage feito á irmã e + com um raio luminoso lançado obliquamente mostrou a aversão que + tinha a Rhodante, e logo tudo mudou n'ella; os pés ligaram-se-lhes + fórtemente ao altar, raizes alongaram-se e, privada repentinamente + de todo o sentimento, ficou immovel, tornando-se-lhe duros os + incantos vencedores. Os braços estenderam-se e transformaram-se em + ramos de arvores carregados de folhas. Já não é a bella Rhodante, a + orgulhosa rainha, mas uma arvore. + + Porém a metamorphose não a prejudicou, visto que sob uma outra fórma + conservou a primitiva insensibilidade e a sua belleza deslumbrante. + + Toda a sua desgraça foi ser formosa, mais formosa que Diana aos + olhos dos adoradores que a amaram. + + Quasi logo o mesmo povo que tinha ultrajado Diana, agitou-se e + esforçou-se pola vingar. + + Sepultam Rhodante sob montões de espinhos que em logar de a + prejudicar lhe serviram de defesa. + + Os que doidamente a amavam foram tambem metamorphoseados: Briar foi + transformado em verme, Arcas em mosca, e Halesia em borboleta, e sob + esta forma vivem constantemente junto da nympha cruel a quem a + metamorphose não mudou». + +O marquez de Chesnel dá-nos noticia da seguinte lenda grega: + + «Apesar de consagrada desde a mais tenra infancia ao culto de Diana, + Rosalia formou o projecto de desposar o bello Cymédoro. + + Mas não se affronta impunemente a colera dos Deuses. Apenas acabava + de pronunciar aos pés do altar do hymineu os juramentos sagrados, + uma flecha despedida por Diana trespassou-lhe o coração. Cymédoro + com a cabeça perdida lança-se sobre o corpo da esposa, mas... oh + prodigio! em lugar das formas seductoras da noiva só estreita de + encontro ao peito um arbusto coberto de espinhos e flores odoriferas + que recebeu depois o nome da infeliz Rosalia». + +Abel Belmont, resume assim uma outra lenda que lhe foi transmittida por +Joseph Balmont: + + «Era no tempo maravilhoso em que a Natureza se afadigava em produzir + em cada dia um novo sêr. + + N'um alto monte, um arbusto estranho, sem ramos e sem folhas, tinha + brotado da terra, e alli permaneceu durante muitissimos annos sempre + no mesmo estado. + + Um dia porém uma mulher joven e formosissima, tocando lyra e + cantando melodiosamente, approximou-se da planta. + + Ao vêr um vegetal tão feio, condoeu-se e afagou-o com a mão: apenas + o vegetal se sentiu tocado, da extremidade semi secca borbolhou + seiva e brotaram petalas macias como a mão que tocou o arbusto e + rosadas como as faces da formosa cantora. + + Nenhuma flôr na terra pôde depois para o futuro ser comparada em + belleza e perfume á deslumbrante rosa que Venus fez nascer». + +Angelo de Gubernatis conta-nos da seguinte fórma a lenda da roseira brava: + + «A _rosa canina_ passa na Allemanha por sinistra e diabolica. + + Müllenhoff ouviu no Schleswig uma lenda em que o diabo, caído do + ceu, afim de para alli tornar a subir procurou fazer uma escada com + os espinhos da roseira brava. + + Deus em castigo do facto condemnou o vegetal a não poder elevar-se + mas só ramificar-se para os lados; então, despeitado, o diabo + voltou-lhe para o sólo a ponta dos espinhos. + + Outros pretendem que a roseira brava, recebeu esta maldição na + occasião em que n'ella se enforcou Judas, e é commemorando este + facto que ainda hoje chamam aos fructos, _Judas-beeren_ (bagas de + judas). + + + + +ACONITO. + + +O aconito é conhecido como planta venenosa desde a mais alta +antiguidade. Diz uma lenda grega que este veneno nascera no jardim +d'Hécate da baba do cão Cerbero, quando Hercules o arrancou da entrada +do Averno. O cão, ao contacto com a luz diurna, que pela primeira vez +via, sentiu-se fortemente incommodado, expellindo pela negra e suja +bocca torrentes de baba, que, ao tocarem o sólo, se transformaram em +vegetaes venenosos como o liquido que lhes déra origem. + + + + +APAMARGA. + + +Angelo de Gubernatis conta-nos assim a lenda da apamarga (_Achyrantes +aspera_), uma vulgar planta indiana. + + Segundo uma lenda do _Yagúrveda negro_ (II, 95), Indra tinha matado + Vr'itra e outros demonios, quando encontrou o demonio Namuc'i e + luctou com elle; vencido fez as pazes com Namuc'i com a condição de + não o matar nunca, nem com corpo sólido, nem com liquido, nem de + dia, nem de noite. + + Então Indra apanhou espuma, que não é sólida nem liquida, e veio + durante a aurora, na occasião em que a noute tinha desapparecido mas + o dia ainda não raiára, e feriu com ella o monstro Namuc'i. Da + cabeça de Namuc'i nasceu então a herba _apamarga_, e Indra em + seguida, com ajuda d'esta herba, destruiu todos os outros monstros. + + + + +TRIGO. + + +Satanaz tinha dado um grande campo a um lavrador com a condição de que +metade da colheita seria para elle. N'aquella occasião, e na terra onde +o facto se déra, não era conhecida senão a sementeira da batata, que foi +a que o lavrador fez. Chegada a epocha da colheita, o diabo veio +reclamar o que lhe pertencia, e, dizendo que a metade d'elle era a que +estava debaixo da terra, emquanto que a do ar era do lavrador, deixou +este só com a rama, sem ter alimento para todo o anno. O pobre do homem +ludibriado por Satanaz, lastimava a sua sorte, chorando á beira do +caminho que passava por junto do campo, quando appareceu um santo monge +que inquirindo a causa do pezar do lavrador, resolveu pregar uma peça ao +diabo. Disse ao homem que o acompanhasse e, chegado ao mosteiro a que +pertencia, deu-lhe sementes de trigo, ensinando-lhe como se semeava e +como d'elle se fabricava pão. + +O lavrador fez o que o santo monge lhe indicara, e, logo que veio o +tempo da colheita, chamou Satanaz que, como no anno anterior, reclamou o +que estava sob a terra, mas d'aquella vez ficou logrado pois só teve as +raizes emquanto o lavrador se regalava com a magnifica colheita de trigo +que lhe forneceu um saborosissimo pão. + + + + +AMOREIRA NEGRA. + + +Esta amoreira que mais tarde recebeu o nome scientifico de _Morus +nigra_, tem uma commovente e celebre historia de amor. + +Thisbe tinha marcado uma entrevista a Pyramo sob a copada folhagem de +uma amoreira. Thisbe chegou primeiro, e emquanto esperava o bem amado +appareceu uma leôa com a bocca ainda tincta do sangue da presa que +acabara de devorar. A donzella cheia de medo, fugiu correndo, e o vento +arrancando-lhe o veu, que lhe envolvia a cabeça, atirou-o junto da leôa, +que o despedaçou, tingindo-o de sangue. + +Pyramo, ao chegar, vê o veu, e julgando que a amante fôra devorada pelas +féras, cheio de desespero, suicida-se junto da arvore que por tanto +tempo lhes abrigara os bellos e deliciosos sonhos de amor. + +Thisbe, volta pouco depois, e, dando com Pyramo moribundo, trespassa o +coração com o mesmo ferro de que elle se servira e cáe morta sobre o +corpo do amante. + +Os fructos da arvore brancos até então ficaram depois, para sempre, +negros. + + + + +CEDRO. + + +O cedro foi venerado desde os mais remotos tempos, e foi elle tambem que +forneceu a madeira de que fabricaram a cruz onde Christo morreu. + +Salomão cantou os cedros do Libano, os symbolos da immortalidade, e +todos os povos antigos tinham pelo cedro particular veneração. + +Uma arvore, considerada sempre pelo homem como arvore protectora por +excellencia, não podia deixar de ser tambem divinisada pelas lendas. +Entre as muitas que correm por todo o Oriente duas ha verdadeiramente +deliciosas, uma chinesa e outra egypcia. + +Hanpang secretario do rei Kang, amava doidamente sua esposa a formosa +Ho. A sua pura felicidade foi porém perturbada um dia pelo rei Kang que, +enamorando-se perdidamente de Ho, fez prender Hanpang esperando que +assim a pobre esposa cederia aos seus infames desejos. + +Hanpang vendo-se preso, impossibilitado de defender a esposa, +desesperado, suicidou-se, e Ho, ao saber da morte do marido, atirou-se +d'uma alta torre onde o rei a encerrara, morrendo logo da queda. Ao +removerem o corpo da desventurada Ho foi-lhe encontrada uma carta +dirigida ao rei em que pedia que lhe mandasse sepultar o corpo junto do +do marido. + +O rei, porém, furioso por ter sido ludibriado, ordenou que os corpos +fossem enterrados longe um do outro, mas, caso estranho, de noite +brotaram dous cedros um de cada sepultura, e em poucos dias cresceram +tanto, que, apesar de muito afastados um do outro, entrelaçaram +fortemente os ramos e as raizes, conseguindo assim os dois esposos, +eternisar transformado o seu amor. + +A lenda egypcia differente na fórma, no fundo é quasi a mesma. + +Batou, um heroe egypcio, tem a vida ligada ao viver do cedro. O seu +coração está no centro da arvore junto á qual vive. Cortando a arvore o +heroe morrerá. Porém dado esse caso, ainda póde vir a resuscitar se +antes de sete annos seu irmão Anpon, lhe procurar o coração e, logo que +o encontrar, o mergulhar n'um certo e especial liquido sagrado. + +Os deuses que particularmente estimavam Batou, não querendo que elle +vivesse constantemente só, junto do cedro que lhe guarda o coração, +dão-lhe por esposa uma mulher que especialmente criaram para tal fim, e +que é a mais formosa que até então existira. + +Batou, perdido de amor pela mulher, cuja belleza é funesta, revela-lhe o +segredo da sua existencia fatalmente ligada á do cedro. + +Um rio que passava atravez o bosque apaixona-se pela mulher de Batou, e +este, para aplacar as aguas, vê-se obrigado a cortar á esposa uma trança +de cabello e dal-a ao rio. O rio orgulhoso com o bello penhor recebido +leva-o ao sabor da corrente, emballando-o com melodias estranhas e +embriagando-se com o delicioso aroma que o cabello emittia. + +A lavadeira do rei d'aquelle pais, que estava lavando roupa nas aguas do +rio, vê a formosa trança, apanha-a e vae-a entregar ao rei, que vendo +cabellos tão bellos e aspirando-lhe o perfume embriagador, fica logo +apaixonado pela mulher, a quem pertenciam, e manda soldados ao bosque do +cedro, com o fim de se apoderarem da cubiçada presa, mas Batou mata-os a +todos. O rei não desanima, levanta um novo e numerosissimo exercito e +com elle consegue vencer Batou e obter a mulher. + +Porém esta não podia casar com o rei emquanto Batou fosse vivo; +preferindo porém ser rainha a mulher de um heroe revela ao rei o segredo +da vida de Batou. + +O cedro então é cortado e Batou morre. + +Anpou que ia visitar o irmão, encontrando-o morto, parte á busca do +coração para o fazer resuscitar, e só ao fim de quatro annos é que +consegue descobrir no interior de um cedro o coração do irmão. + +Depõe-o logo n'um vaso cheio de liquido sagrado e passado um dia o +coração começa a palpitar e Batou revive. Anpou faz-lhe beber o liquido +e o coração e Batou adquirindo todo o seu passado vigor transforma-se +n'um touro que todo o Egypto venera. + +A rainha ao saber que Batou vive transformado em touro, obtém do rei que +este o mande matar, porém quando o animal era immolado as suas primeiras +gotas de sangue logo que tocaram no sólo deram nascimento a dous cedros, +nova transformação de Batou. + +O rei a pedido da mulher, faz cortar as arvores, trabalho a que ella +assiste jubilosa. + +Porém um pequenino fragmento de madeira salta e entra-lhe pela bocca, +sem que lhe seja possivel expellil-o. Passados dias vê a rainha que está +gravida e no fim do tempo proprio, dá á luz um formoso rapaz, nova +incarnação de Batou. + + + + +MARMELLEIRO. + + +O marmelleiro foi na antiguidade consagrado a Venus, e o seu fructo +considerado como um penhor de amor. + +Outr'ora os noivos, segundo Plutarco, comiam marmellos, para lhes tornar +agradavel a sua primeira entrevista e segundo outros para obter filhos +varões. Porém a verdadeira consagração do marmelleiro e do marmello a +Venus, isto é ao amor, vem de um facto astucioso que a antiguidade +altamente celebrou. + +Akontius apaixonou-se doidamente pela formosa Cydippe de Delos. Não se +atrevendo a fazer-lhe uma declaração de amor, colocou no templo de +Diana, junto do local onde Cydippe costumava fazer as suas orações á +deusa, um marmello com a seguinte inscripção: _Pela divindade de Diana, +juro que serei esposa de Akontius._ + +A rapariga entrando no templo e vendo o fructo apanhou-o e leu em voz +alta a inscripção fazendo por isso, inconscientemente o juramento +sagrado de esposar Akontios, o que religiosamente cumpriu. + + + + +ROMÃ. + + +A romã simbolisa a fecundidade e a riqueza pelo grande numero de +sementes que em si contém. Foi um fructo muito apreciado pelos antigos +que o tinham em especial estima. + +Dario, o grande rei asiatico, repetia frequentemente que só desejava +possuir tantos amigos fieis como de sementes tem uma romã. + +Era tambem frequente, n'aquelles bons remotos tempos os povos +presentearem os reis que os visitavam com romãs, significando assim que +lhes desejavam tão numerosos e felizes annos de vida, como as sementes +contidas nos fructos. + +Na Turquia, as noivas, após a ceremonia do casamento, atiram +violentamente com uma romã ao chão; se o fructo não rebentar é signal +que não terão filhos, e rebentando terão tantos quantas forem as +sementes que d'elle se espalharem pelo sólo. + +A romanzeira era tambem arvore phallica por excellencia, facto +confirmado pela seguinte e antiquissima lenda narrada por Oppiano. + +Um homem viuvo namorou-se tão furiosamente de uma filha por nome Sida, +que esta teve de suicidar-se para escapar á infame perseguição do pae. +Os deuses condoídos transformaram Sida em romanzeira e o pae em falcão, +e é por isso--diz Oppiano--que estas aves nunca pousam na romanzeira, +evitando-a cuidadosamente. + + + + +AÇUCENA. + + +Foi na Grecia, que teve origem a lenda da açucena a quem os gregos +chamavam a _flôr das flores_. + +Héraclés, uma creança, por ordem de seu pae Zeus, sugou o leite dos +peitos de Héra, emquanto esta dormia, afim de participar da +immortalidade que ella possuia. A creança porém, fel-o com tal força, e +o leite era tão abundante, que lhe sahiu em borbotões pela bocca e +correndo pelo sólo além deu origem á _via lactea_ e á açucena. + +A deusa Aphrodite, que por ter nascido da espuma do mar se considerava +de uma alvura sem egual, ao vêr a candidez da açucena ficou furiosa de +despeito e, para se vingar da flôr, fez-lhe brotar do centro um enorme e +feiissimo pistillo. + + + + +PALMEIRA. + + +Simbolisa a palmeira a victoria, a riqueza, a força, a resistencia e a +belleza. Na poesia oriental são muitas vezes comparadas as pernas e os +braços das formosas indianas ás hastes flexiveis e elegantes das palmeiras. + +A arvore divina de todos os povos não podia tambem deixar de ser +santificada pelo christianismo. + +Foi-o na seguinte e deliciosa lenda christã. + +Quando a Virgem em companhia do esposo e do divino filho fazia a sua +primeira e dolorosa viagem, descançou um dia á sombra de uma palmeira. +Ao vêr os tentadores fructos da arvore, desejou-os ardentemente, porém +estavam tão altos que lhe não era possivel chegar-lhe. S. José +esforçava-se por subir á arvore, quando esta se inclinou e veio +collocar-se ao alcance da Virgem que colheu os fructos que quiz, e só +depois d'isso é que a arvore retomou a primitiva posição vertical. + +Jesus Christo, que estava ao cólo da mãe, reconhecido pela dedicação da +palmeira, abençoou-a dizendo que ella ficaria sendo o simbolo da +salvação eterna para os moribundos e que havia de fazer--como mais tarde +fez--a sua entrada triumphal em Jerusalem, com uma palma na mão. + + + + +RABANETE. + + +A lenda relativamente a este vegetal é uma lenda allemã. + +O diabo apaixonando-se por uma formosa princesa, esposa de um grande rei +do paiz do Sol, roubou-a, encerrando-a em reconditos jardins situados +entre altas montanhas. + +Como a princesa chorasse constantemente por se vêr só, o diabo deu-lhe +uma vara magica e disse-lhe que quando quizesse companhia tocasse com +ella um rabanete que elle logo se animaria transformando-se em uma +mulher. Porém as companheiras que a princesa obtinha d'esta fórma só +viviam emquanto os rabanetes tinham succo. Logo que seccavam as +donzellas morriam. + +A princeza desejando enganar o diabo pediu-lhe para que lhe désse uma +vara magica com a qual podésse transformar os rabanetes nos animaes que +quisesse. O espirito das trévas imaginando que d'esta fórma obteria as +boas graças da princeza accedeu gostoso. Esta, obtida a vara magica, +transformou um rabanete em abelha que mandou como mensageira ao esposo. +A abelha não voltou e ella transformou outro rabanete em grillo que faz +seguir o mesmo caminho. Como o grillo não regressasse tocou um terceiro +rabanete que transformou em cegonha e esta traz-lhe o esposo. N'isto o +diabo, desconfiando que estava sendo ludibriado foi contar os rabanetes +mas, emquanto se entretinha com este serviço, a princesa transformou um +rabanete, que já tinha escondido de prevenção, em fogoso cavallo e, +montado n'elle, juntamente com o esposo, fugiu para sempre do poder do +diabo. + + + + +TABACO. + + +Esta planta foi, como é sabido, introduzida na Europa pelos portuguezes +n'essa bella epocha em que audaciosos e fortes dictavam leis ao mundo +submisso e absorto ante as suas façanhas sobrehumanas. + +Recebida ao principio com estima, provocou em breve o tabaco, intensa e +crúa guerra. + +Para uns era a _herva santa_, o remedio certo e seguro de todas as +doenças, para outros a _herva do diabo_, a herva maldita, a origem de +todos os males. + +A egreja lançou-lhe excommunhão, os monarchas açoutaram-a com os seus +odios, e leis severissimas prohibiram o uso do tabaco. Pois apesar de +tudo elle foi-se espalhando de tal fórma, que por todo o mundo é raro +agora o homem que o não usa cheirando-o, fumando-o ou mascando-o. O +tabaco hoje é quasi um alimento, e o producto querido dos principaes +governos civilisados que d'elle extrahem as suas melhores e mais seguras +receitas. + +Medicos e hygienistas notaveis téem-se ultimamente esforçado em mostrar +os inconvenientes do uso e abuso do tabaco, o quanto elle concorre para +o enfraquecimento das gerações, mas tudo isso são palavras ao vento; +todos reconhecem o mal mas ninguem tem forças de o cortar pela raiz. + +O vicio alastra cada vez mais, do homem vae passando para a mulher e +d'esta para a creança. É uma praga universal. + +Espalhado como está, ferindo a imaginação de todos os povos, não podia +deixar de ter o tabaco muitas e variadas lendas; a mais antiga e a mais +curiosa é a dos Tchumaches. + +Este povo, que sempre seguira a lei de Deus, foi uma vez tentado por uma +mulher idolatra que, com os seus propositos libertinos, esteve quasi a +fazer naufragar a proverbial castidade dos Tchumaches. Deus ao vêr em +perigo os homens que estimava ordenou-lhes, para se lavarem da culpa, +que matassem a seductora, e a enterrassem em seguida no centro de um +escuro bosque. + +O marido d'esta mulher, industriado pelo diabo, que não podia vêr com +bons olhos a virtude dos Tchumaches, plantou-lhe sobre a sepultura uma +vara que aquelle lhe deu, vara que com o tempo se transformou n'um bello +arbusto de largas e formosas folhas. Os Tchumaches passando mais tarde +por alli viram o idolatra cortar ao arbusto as folhas seccas, encher com +ellas um cachimbo, pegar-lhe fogo e sorver depois com avidez o aromatico +fumo que ellas desenvolviam. + +Admirados com o facto, imitaram o manejo do idolatra, e sentiram tal +prazer com o fumo do tabaco, que nunca mais cessaram de fumar, perdendo, +assim as boas graças de Deus, e cahindo sob o dominio do diabo, pois a +planta não era mais que uma nova incarnação de Satanaz o qual assignala +a sua passagem por qualquer logar com fumo intenso e um cheiro +nauseante, embriagador, egual ao do tabaco. + + + + +MILHO. + + +As espigas dos cereaes foram sempre o simbolo da abundancia, e a do +milho, pela côr dourada da semente era mais particularmente o simbolo da +riquesa. + +Na Africa, entre os selvagens, a espiga do milho representa a +propriedade do sólo. + +Conta o Dr. Schweinfurth, n'um dos seus livros de viagens, que na +Africa, as tribus depois da respectiva declaração de guerra, collocam no +extremo dos seus dominios, em local bem exposto, de modo a poder +facilmente ser visto por todos, uma espiga de milho, uma mólhada de +pennas d'ave e uma flecha, o que quer significar que quem cortar uma +espiga de milho ou agarrar uma ave, será morto por uma flecha. + +Na Calabria ha a seguinte e graciosissima lenda relativa ao milho, que +seguindo Gubernatis não é mais do que uma variante, sob fórma moderna, +do antigo conto mytologico de Midas que mudava em oiro todo o trigo que +tocava. + +Uma mãe tinha sete filhas, seis muito diligentes e cuidadosas e a setima +preguiçosa em extremo. Eram todas tecedeiras, mas a mais nova, formosa +entre as formosas, passava o tempo a tratar da sua pessoa e a +confeccionar bellos vestidos em vez de cuidar das suas obrigações caseiras. + +Um domingo as irmãs mais velhas foram á missa e deixaram a coser sob a +vigilancia da mais nova sete pães de milho. Como se demorassem a mais +nova foi comendo um a um os pães, de modo que quando as irmãs +regressaram da egreja não restava nenhum. + +As irmãs faltando-lhe o almoço fizeram tal barulho que teve de intervir +para as apasiguar um dos mais ricos mercadores da cidade que n'aquelle +momento passava por acaso na rua. + +As irmãs fallando todas ao mesmo tempo dizem-lhe que a mais nova comia +por sete, mas o homem comprehendendo que o barulho era motivado por +inveja das outras irmãs e que a rapariga fiava por sete, tratou logo de +se casar com ella. + +Realisado o casamento o negociante partiu para longa viagem deixando á +mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar. + +Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado +nada. Por mais que quizesse não o podia fazer, e as irmãs jubilosas riam +e troçavam-a, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse +não deixaria de lhe castigar severamente a preguiça. + +A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho +mesmo com lagrimas, mas nada, nada obtinha. + +Um dia que estava á janella a lastimar a sua sorte passaram umas boas +fadas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em +logar de passar os dedos pelos labios, os passasse por farinha de milho. + +A fiandeira assim fez, e d'ahi por deante, com grande jubilo, não só +podia fiar quanto queria mas tambem o fio, ao contacto da farinha de +milho, transformava-se logo em rico fio de puro oiro. + + + + +CANNAS. + + +Leite de Vasconcellos, dá-nos relativamente ás cannas a seguinte lenda +colhida em Rebordinhos, Bragança: + + Havia uma vez tres irmãos. O mais novo tinha tres maçãsinhas de + ouro, e os outros, para ver se lh'as tiravam, mataram-no e + enterraram-no n'um monte. Depois nasceu na sepultura uma canna. + Certo dia passou por lá um pastor que cortou um pedaço da canna para + fazer uma flauta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, + dizia: + + Toca, toca, ó pastor, + Os meus irmãos me mataram + Por tres maçãsinhas de ouro, + E ao cabo não as levaram. + + O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e deu-lhe a flauta. + O carvoeiro começou tambem a tocar, mas a gaita dizia o mesmo. O + carvoeiro passou-a a outra pessoa, e assim ella foi andando de mão + em mão, até que chegou ao pae e á mãe do morto; a flauta dizia ainda + o mesmo. Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. + Foram lá e encontraram o cadaver com as tres maçãs de ouro. + + + + +NARCISO. + + +Narciso era um mancebo de uma formosura sem igual, formosura de que se +orgulhava em extremo. + +Um dia, debruçando-se sobre um regato, envaideceu-se tanto com a +frescura e correcção do rosto reflectido na agua que se julgou superior +em belleza a todos os sêres celestiaes. Estes, em castigo, +transformaram-o na flôr que em memoria do facto ainda hoje lhe conserva +o nome. + +Pausanias diz que Narciso se afogou pensando vêr na agua, onde o seu +rosto se reflectia, a imagem de uma irmã bem amada. + +Gubernatis crê que esta lenda representa o sol poente que contempla no +espelho do mar, onde vae desapparecer, a imagem de sua irmã a lua. + + + + +ALGODÃO. + + +Sacaibu, o primeiro homem, tinha um filho Rairu a quem profundamente +odiava. Resolvendo desfazer-se d'elle, abriu uma grande cóva na terra, +cóva que ia ter a um profundo poço natural, e collocou n'ella um porco +apenas com a cauda de fóra, e esta untada de visco, e ordenou ao filho +que lhe trouxesse o porco senão que o matava. Rairu obedeceu, mas mal +agarrou a cauda, ficou com as mãos presas e foi arrastado pelo animal +para o fundo do poço, d'onde só pôde sahir á custa de innumeras fadigas. +Chegado á terra, correu a contar ao pae que no interior do sólo existiam +muitos homens e mulheres que poderiam ir buscar e fazer d'elles escravos +que os auxiliassem nos seus trabalhos de cultura. Sacaibu então semeou +pela primeira vez o algodão, cuja semente Deus lhe déra, e com elle +teceu uma corda que lhe serviu para descer ao poço. Os primeiros homens +que tirou eram pequenos e feios, depois extrahiu outros mais formosos e +de côr differente e cada vez que descia ao poço a côr variava, até que +por ultimo tirou uns completamente brancos. Quando pretendeu depois +d'isso tornar a descer, a corda partiu e Sacaibu morreu da queda, razão +pelo que não mais appareceram homens superiores em belleza e perfeição +aos homens brancos. + + + + +CHORÃO. + + +N'outros tempos era o chorão uma magestosa arvore levantando nos ares a +bella e finissima ramagem. Orgulhoso do seu extraordinario crescimento +protestou que havia de chegar ao céo e Deus, em castigo da ousadia, +condemnou-o a não poder erguer para o céo os ramos, pois quanto mais +crescessem mais haviam de virar para o sólo. + + + + +LARANGEIRA. + + +É assaz conhecido o emprego nupcial das flores de laranjeira, como +emblema da castidade, da puresa absoluta e completa. + +Este vegetal é celebrado desde tempos immemoriaes, não só pelo aroma sem +rival das suas formosas flores, mas tambem pelos seus bellos e +deliciosos fructos. + +Gubernatis escreve o seguinte relativamente á laranjeira: + + «Nos contos populares piemonteses, o reino por excellencia, o reino + rico, maravilhoso, é o reino de _Portugal_; e no Piemonte chamam + sempre _portogallotti_ ás laranjas. Portugal é a região mais + occidental da Europa; no ceu, é tambem no extremo occidente, onde o + sol se esconde, que acreditam estar situado o reino dos + bemaventurados, o paraizo. Foi tambem no extremo occidente que + Héraclés descobriu o jardim das Hespérides com a arvore de fructos + d'oiro. Por isso assim como o Portugal, a região occidental, o + paraizo e o jardim das Hespérides são no mytho, um mesmo e unico + paix, assim tambem a laranja, o _portogallotto_ e a maçã das + Hespérides, são na linguagem mythica um unico e mesmo fructo. Os + gregos como os piemonteses, chamam ás laranjas _+portogaliá+_ os + albaneses _protokale_ e os proprios kurdos _portoghal_. + + Como explicar tal denominação? Será porque as laranjas são melhores + e mais abundantes em Portugal do que em qualquer outra parte? Não, + mas é porque foi de Portugal que a cultura da laranjeira se propagou + na Europa. + + O jesuita Le Comte, que viveu muitos annos na China, na segunda + edição das suas _Nouveaux mémoires sur l'état présent de la Chine_ + (Paris, 1697, tom. I, pag. 173), dá-nos a seguinte e curiosa + informação: «_Chamam-lhe em França laranjas da China, porque as que + vimos pela primeira vez tinham sido trazidas d'alli. A primeira e + unica laranjeira da qual dizem provieram todas, existe ainda em + Lisboa na casa do conde de S. Lourenço; é aos portuguezes que + devemos um fructo tão excellente_». + +A longa e angustiosa peregrinação da Virgem para fugir com o divino +filho aos que o queriam assassinar deu origem a grande numero de lendas, +muitas das quaes se referem aos vegetaes, pertencendo a esse numero a +que apresentamos relativa á laranjeira. + +A sagrada familia veio descançar uma tarde á sombra de uma laranjeira +guardada por um cego. A Virgem pediu ao cego uma laranja para dar ao +filho e aquelle respondeu-lhe que colhesse quantas quizesse pois todas +eram d'ella. Então a Virgem colheu tres, uma para o Christo, outra para +si e a terceira para S. José. E em paga da caridade do cego +restituiu-lhe a vista. + + + + +CARDO. + + +Os escoceses fizeram do cardo planta nacional em virtude do seguinte e +lendario facto: + +Nas cruas guerras que em tempos immemoriaes a Escocia sustentou com a +Dinamarca, uma noite, em que o exercito escocez fatigadissimo dos +combates diurnos dormia descansadamente proximo da mar, os dinamarqueses +desembarcaram e, caminhando cautelosamente, estavam prestes a +surprehendel-os quando um soldado dinamarquez, tendo inadvertidamente +calcado um cardo, picou-se tão valentemente que não pôde deixar de +soltar agudo grito, que fez acordar os escocezes e permittir-lhes que +podessem derrotar o inimigo obrigando-o a reembarcar em fuga desordenada. + + + + +MAÇÃ. + + +A maçã é um simbolo da geração e da immortalidade. + +Sapho compara a virgem á maçã a quem todos desejam emquanto está na +arvore, mas que já ninguem a quer quando cae ao sólo velha e pôdre. + +Na Sicilia, no dia de S. João, cada rapariga casadoira atira para a rua +uma maçã e fica á espreita a ver quem a apanha. Se fôr um homem é signal +de que casará dentro de um anno, sendo uma mulher só d'ahi a mais de um +anno, um padre então morrerá virgem, e se os viandantes passarem sem +fazer caso do fructo é prova evidente de que casando enviuvará. + +No Montenegro as noivas antes de entrarem para a nova casa que vão +habitar, atiram-lhe para o telhado uma maçã; se esta ficar no telhado o +casamento será abençoado com muitos filhos e se rolar vindo caír no sólo +é porque a felicidade não sorrirá á noiva nem ella terá filhos. + +A lenda da maçã colhida por Eva e comida de sociedade com Adão, e que +foi causa da perda da immortalidade, dando-lhe o conhecimento do bem e +do mal e com elle o trabalho e a fadiga, é uma lenda puramente phallica, +simbolisando a geração origem dos maximos praseres e das maiores amarguras. + +Na lenda biblica Eva colhe a maçã, mas nas lendas indianas, d'onde +claramente foi aproveitada, o fructo colhido pela primeira mulher e +compartilhado pelo primeiro homem, é um fructo rico em sementes, ora a +romã, ora a laranja, o figo e a maçã. + +Relativamente á maçã ha tambem uma lindissima lenda christã. A Virgem +Maria procurava adormecer o seu divino filho que, chorando, não lhe +queria socegar no cólo. Então a Virgem, para o entreter, dá-lhe duas +maçãs que Jesus brincando atirou aos ares, transformando-se logo uma na +lua e outra no sol que nos alumia e aquece. + + + + +FIGUEIRA DA INDIA. + + +A figueira da India (_Ficus religiosa_) é venerada na India +principalmente pelos sectarios de Buddha, não a cortando nem lhe tocando +nunca com ferro, para não offender o Deus n'ella occulto. + +Não só a arvore é adorada mas tambem o local onde alguma viveu é +considerado local sagrado. A veneração dos indios pelo _ficus +religiosa_, é devida á seguinte lenda: + +Buddha, apóz a conversão, ia sempre orar sob aquelle vegetal; a rainha, +sua esposa, despeitada por aquelle facto, mandou cortar a arvore, e +Buddha, quando o soube, sentiu tamanho desgosto que declarou que se a +arvore não tornasse a rebentar morreria de pesar. Mandou depois reunir +cem bilhas de leite e regar com elle o tronco do vegetal, donde logo +brotaram ramos, que cresceram rapidamente, attingindo a altura que hoje +téem. + + + + +MAIAS. + + +No numero 4, vol. VI, outubro de 1889 da _Revista de Guimarães_, o dr. +Abilio de Magalhães Brandão descreve-nos assim a poetica lenda das maias: + + «Houve antigamente um rei chamado Herodes que ao saber que tinha + nascido, em Belem, um menino, a que o povo, por toda a parte, + chamava o rei dos Judeus, tão furioso ficou que ordenou + immediatamente aos seus soldados que degolassem todas as creanças + menores de dous annos, que encontrassem em Belem. + + Herodes presumia que o rei dos Judeus não escaparia d'esta + carnificina,--tal era o odio de morte que votava ao menino--que os + prophetas tinham vaticinado rei de Israel. Ao anoutecer do dia 30 de + abril, cercaram os judeus os muros de Belem, mas esperaram pela + madrugada do dia 1.º de maio para começarem a dar cumprimento ás + ordens do malvado rei. Apesar de todas as providencias e cautelas, + ainda receiavam os judeus que lhes escapasse o menino e por isso se + informaram logo da sua morada--que tinha á porta um _ramo de maias_ + como signal,--mas, ao romper do sol do 1.º de maio, todas as casas + appareceram milagrosamente com os mesmos ramos á porta. + + Os judeus ficaram tão furiosos que entraram logo em todas as casas e + degolaram todos os meninos, como tinha ordenado Herodes, e só + escapou o que procuravam, porque seus paes, José e Maria, tinham + fugido com elle, ainda de noute, para o Egypto. + + Um judeu, que viu passar a mãe do menino, a cavallo n'uma + jumentinha, ainda lhe perguntou o que levava nos braços, envolto no + manto com que se cobria, ao que ella respondeo: «Levo meu filho!» + mas o judeu retorquiu: «Se o levasses não o dirias». E d'este modo, + e pelo milagre das _maias_, salvou-se milagrosamente o rei dos + judeus». + + + + +ABOBORA. + + +Os povos orientaes consideram a abobora como o imperador dos vegetaes; é +tambem para elles o emblema da saude pelo seu bello e rotundo aspecto e +da fecundidade pelo numero extraordinario de sementes que possue. + +A abobora tem dado origem a muitas lendas, e d'entre aquellas de que +temos conhecimento, aproveitamos as duas mais curiosas e principaes, de +que as restantes não são mais que incorrectas variantes. + +Houve tempo em que os lobos não eram carnivoros, mas sim se sustentavam +de fructos. Um dia uma porca, procurando alimento, encontrou uma enorme +abobora e fazendo-lhe um pequeno orificio, começou a comer-lhe o +interior. N'isto vê ao longe um corpulento lobo, e cheia de susto, pois +aquelle animal andava em guerra aberta com ella, e sempre que a +encontrava, não deixava de a mimosear com uma dentada, escondeu-se +dentro da abobora. O lobo encontrando tão bello manjar dispoz-se a +devoral-o sem mais cerimonia, mas a porca que estava escondida dentro, +cheia de susto, fez desenvolver com os excrementos que expelliu um tão +insupportavel fetido, que o lobo, julgando a abobora pôdre, fugiu a toda +a pressa e tão nauseado ficou que desde então não mais quiz os vegetaes +começando a regalar-se com a carne dos animais que podia caçar. + +A segunda lenda--lenda americana--explica assim o diluvio. + +Jaià um homem muito poderoso e forte tinha um filho unico que lhe morreu +de repente. O pae, querendo dar-lhe uma sepultura differente da de todos +os outros humanos, metteu-o dentro de uma enormissima abobora que foi +depor no cimo de elevado monte. Dias depois, cheio de saudades pelo +filho estremecido, quiz contemplal-o mais uma vez e partiu para o local +onde depozera a abobora, mas ao tocar-lhe saíram-lhe de dentro enorme +quantidade de peixes e diversos monstros marinhos. Jaià fugiu aterrado e +veio narrar o caso para a sua aldeia. Quatro irmãos gemeos quizeram +verificar o facto, e quando estavam a procurar mover a colossal abobora +a fim de lhe examinar o conteúdo, chegou Jaià tão furioso pela violação +a que ia ser sujeito o tumulo do filho que os quatro rapazes, aterrados, +deixaram rolar a abobora pelo monte abaixo, e esta, batendo de encontro +ás pedras que encontrou no caminho, fendeu-se sahindo-lhe do interior +tal quantidade d'agua que toda a terra ficou inundada. + + + + +ARROZ. + + +É o arroz symbolo da vida, da geração e da abundancia, representando por +isso nas ceremonias nupciaes da India um grande e importante papel. Lá +lançam o arroz sobre a cabeça dos nubentes, como entre nós se deitam +flores e confeitos; é um prato de arroz o primeiro alimento que os +esposos comem juntos, e é com arroz humedecido em manteiga e lançado ao +fogo que, finda a ceremonia nupcial, impetram a protecção dos deuses +para que os façam felizes e lhes dêem muitos e muitos filhos. + +Logo que uma creança nasce, collocam-a em cima de um sacco cheio de +arroz para a livrar dos maus olhados, e nenhum indiano tóca no arroz sem +antes ter feito as suas abluções. + +Para todos os sectarios de Buhdha é elle planta sagrada, destinada ás +offerendas á divindade, e a ser servida nos banquetes religiosos e nas +ceremonias funerarias. + +A sementeira do arroz é feita na India com grande ceremonial religioso, +com musicas e bençãos dos brahmanes. + +Na China, por occasião das sementeiras, os padres fazem sacrificios ao +fogo para que permitta que o anno seja fertil. Para isso andam com resas +á volta de uma fogueira, tendo nas mãos um vaso cheio de arroz e sal de +que lançam de tempos a tempos um punhado ao fogo. Aqui o fogo symbolisa +o sol, que com o seu excessivo calor póde prejudicar inteiramente a +producção do arroz que só se dá bem com um excesso de humidade, e é por +isso que lhe imploram a sua protecção, o beneficio de uma menor +intensidade dos seus raios seccadores. + +Para os arabes tambem o arroz é sagrado. Crêem que elle nasceu de uma +gotta de suor de Mahomet e que o _Kuskussú_, o querido manjar nacional +fabricado com arroz, foi revelado a Mahomet por o anjo Gabriel. Mahomet, +sempre que partia para a guerra ou tinha relações com qualquer mulher, +comia antes um pouco de _Kuskussú_. + +A mais curiosa das lendas do arroz é, porém, a lenda japoneza. + +Conta-se no paiz do sol nascente que outr'ora, o unico alimento alli +conhecido, era as raizes e as hervas. Porém um dia um bonzo viu um +minusculo e formosissimo rato entrar n'uma cavidade proxima da sua +habitação, arrastando uma pequenina espiga d'um cereal para elle +desconhecido. Querendo saber d'onde viria aquella preciosidade, seguiu o +rato, que o levou muito longe, a um paiz ignorado, onde todos os campos +estavam cobertos de arroz e onde o bonzo aprendeu a cultival-o, +introduzindo-o depois no seu paiz. + +Foi d'aqui que nasceu a adoração das populações japonezas pobres, pelo +rato, que conservam em casa mumificado, considerando-o como symbolo da +abundancia. + + + + +ZIMBRO. + + +Na Italia, assim como em França, Suissa e nos paizes do norte é o zimbro +planta obrigatoria para a ornamentação das mezas de jantar, no santo dia +do Natal. + +A causa d'este antiquissimo uso vem da seguinte lenda: + +Quando a Virgem fugia com o Filho aos crueis soldados de Herodes, esteve +um dia quasi a ser agarrada, e deveu a salvação a um zimbro que os +escondeu, cobrindo-os com os ramos, de fórma que os perseguidores +passaram proximo sem os descobrirem. A virgem abençoou então o zimbro e +disse-lhe que em recompensa do beneficio que lhe prestára, seria para +sempre querido e estimado por toda a christandade, que o associaria +annualmente á sua mais doce e sympathica festa. + + + + +NOGUEIRA. + + +A nogueira foi considerada pelos antigos como arvore sinistra e +funeraria, sob a qual se reunem as feiticeiras, especialmente na noite +de S. João, para celebrarem os seus horridos festins, ao passo que o +fructo de tão má arvore foi sempre symbolo da abundancia e da geração. + +Foi em cascas de nozes que, segundo uma lenda slava, escaparam ao +diluvio os homens que depois repovoaram o mundo. Eram cascas de nozes os +maravilhosos trens das boas fadas protectoras de nossos antepassados +que--ai de nós!--para sempre desappareceram do mundo, e eram estes +saborosos fructos os que se distribuiam outr'ora nas bodas como de feliz +e prolifico agouro para os noivos. + +Na Belgica, no dia de S. Miguel, as donzellas casadoiras abrem +cuidadosamente algumas nozes, tiram-lhe o conteudo o collam depois as +duas cascas vazias com todo o cuidado, de modo a parecerem intactas, e +deitam n'um sacco um numero egual de nozes vazias e nozes cheias. +Misturam-as bem, e depois, fechando os olhos, mettem a mão no sacco e +tiram uma noz. Se acertam tirar uma cheia é signal de que casarão dentro +de um anno, mas se acontece vir uma das vazias, então ainda téem que +esperar muito pelo anciado marido... + +Entre nós, especialmente no Porto, ha uns leves vestigios d'esta +tradição. No dia de S. Miguel é costume, na cidade invicta, comer-se +nozes com trigo, o que, dizem, dá a felicidade e a abundancia em casa. E +á gente nova, á gente solteira, temos nós ouvido repetidas vezes dizer +que «no dia de S. Miguel, nozes com regueifa sabe a casar»... + +No sul de França creem que o meio infallivel de conhecer um feiticeiro é +collocar-lhe uma noz debaixo da cadeira quando elle estiver sentado, +pois não se poderá mais erguer do logar onde estiver emquanto não +retirarem a noz. É d'aqui que os camponezes de Bolonha penduram uma noz +ao pescoço dos filhos para os livrar de maus olhados. Tem para elles a +noz o mesmo valor da nossa figa. + +Para os judeus a arvore do bem e do mal era uma nogueira, e o fructo que +Deus prohibira a Adão que comesse, uma noz. + + + + +CLEMATIS INTEGRIFOLIA. + + +Gubernatis conta-nos assim esta formosa lenda: + + «Um dos nomes populares que na Russia se dá a esta planta é + _Tziganca_ (planta dos Bohemios) ou _Zabii kruéa_ ou _Sinii + lomonos_. A proposito d'este vegetal dizem, n'aquelle paiz, que + outr'ora, quando os cossacos andavam em guerra com os tartaros, os + primeiros, n'um combate encarniçadissimo, possuiram-se de tal + terror, que começaram a debandar ante o inimigo, sem attenderem aos + chefes, que os incitavam á resistencia. O _hetman_, não os podendo + conter, desesperado, suicidou-se espetando a lança na cabeça. N'isto + desencadeou-se uma tempestade medonha que, envolvendo os cossacos + cobardes e traidores, os desfez em mil pedaços, misturando-os com a + terra dos tartaros. + + Pouco depois, do sólo, sepultura dos fugitivos, brotou a _Clematis + integrifolia_. Mas as almas dos cossacos, que não tinham descanço + por os corpos estarem sepultados na terra dos tartaros, tanto + pediram a Deus, que este mandou semear a _Clematis_ na Ukranie. E + desde então, em memoria do facto, as donzellas cossacas enfeitam-se + com grinaldas da _Tziganka_, que passou a ser uma planta nacional». + + + + +MOSTARDA. + + +Pela facilidade da multiplicação, a semente da mostarda é entre os povos +orientaes symbolo da geração. + +Tambem serve o oleo da mostarda para a descoberta das feiticeiras. Para +isto basta, segundo os Indús, encher um grande vaso de vidro com agua e +derramar-lhe dentro o oleo gotta a gotta, pronunciando no momento da +quéda de cada gotta na agua o nome de uma mulher. Se na occasião da +quéda da gotta a agua se turva e n'ella se vê apparecer uma como sombra +de mulher, aquella cujo nome coincidiu com o lançamento do oleo na agua +é, sem a menor duvida, uma grande feiticeira. + +A mais curiosa lenda, da India, relativa á mostarda, é a da fada +Bakanali, onde claramente se frisa o valor gerativo d'este vegetal. + +O deus Indra, em castigo de grave falta, transformou a fada Bakanali em +estatua de marmore, condemnando-a a permanecer assim durante doze annos +no templo de Ceylão. + +O rei d'aquelle paiz, por um dos maleficos caprichos a que amiudadas +vezes estão sujeitos os reis, arrasou o templo e reduziu todas as +estatuas a pó. Dias depois, o local onde esteve o templo, appareceu todo +coberto d'uma planta até então desconhecida. + +Quando a planta deu semente, o jardineiro do rei extrahiu d'ella um oleo +tão aromatico, que a rainha, a quem foi offerecido, quiz logo proval-o. +Mal porém o chegou aos labios, ella, que era esteril, sentiu-se +immediatamente gravida, e nove mezes depois deu á luz uma filha, que não +era mais que a fada Bakanali, novamente recuperando a sua fórma terrestre. + + + + +TILIA. + + +D'uma brilhante chronica de Emygdio de Oliveira, publicada no jornal +portuense _Diario do Commercio_, extrahimos a seguinte e deliciosa lenda +sobre a tilia: + + «O Porto é a cidade das tilias. Aposto que ainda não repararam + n'isso! Que por toda a parte, pela beira do rio, no miradouro das + Virtudes, na maior parte das ruas da cidade cresce, coberta de + pequeninas flores doiradas, a arvore encantadora da tilia? Pois é + verdade. Emquanto os senhores conselheiros municipaes se esforçam, + dia e noite, sonhando e combinando, em fazer da nossa querida terra + o foco de pestilencias, cubiçadas pelo microbio (o microbio é o + Legrand do mundo fétido), a divina providencia, singelamente, n'um + sorriso, como mulher que se entrega, sem lagrimas, sem phrases, + sublimemente, persiste em fazer do Porto uma das mais bellas cidades + da Europa, dando-lhe o mais esplendido céo azul escuro, a frescura + salina das brisas do oeste e a prodigiosa vegetação de arbustos e de + flores, de que ha memoria nas terras peninsulares. + + Ah! como são bellas as tilias portuenses! + + Pois de todas essas bellas tilias, a mais bella é a da Praça de D. + Pedro. Eu gosto das creaturas audaciosas, e--confessem! + confessem!--nascer, rebentar, estender-se para o céo, encher-se de + folhas, ramilhetar-se de pequeninas flores perfumadas, n'uma + elegante toilette _pompadour_, na Praça de D. Pedro--é o cumulo da + audacia e do protesto contra o _meio_, mesmo em face do _domus + municipalis_, que é o grande laboratorio das coisas sujas. + + Depois... eu tenho uma intima e profunda sympathia pela legenda, + pelos avatares do sentimentalismo antigo, cavalheiresco, cheio de + crendices, á João V; e é graciosa a legenda da tilia da Praça de D. + Pedro. + + Dizem os pardalitos que se acoitam alli, de noite, que aquella + arvore graciosa, tão cheia de encantamento e de aroma, nasceu na + terrivel epoca, em que os visionarios da liberdade eram fatalmente + assassinados no centro da Praça, a fradaria bebendo e fazendo toasts + pelos desventurados que, como morriam de mais alto, viam até mais + longe. + + Um d'elles era um bello rapaz, de olhar ousado e scintillante, que + tivera a audacia de chamar meretriz áquella mulher que vivera no + regio palacio, conspirando contra a patria e contra o esposo, que + era então rei de Portugal. + + Foi enforcado. N'aquella noite de outubro, uma creatura celeste, + depois de muitas allucinações e muitas lagrimas, caíu sobre o sólo, + beijando uma gotta de sangue. + + Foi n'esse mesmo logar que a primavera seguinte fez brotar, crescer, + florir aquella gentilissima tilia, que todos os annos se cobre de + lagrimas doiradas, como lagrimas de amante que se despede para outra + vida, em noites de luar. + + Ah! como eu amo as tilias». + + + + +LEITUGA. + + +A leituga foi considerada nos tempos antigos como planta nefasta, +apreciada pelo demonio, que d'ella se servia para os seus maleficios. + +Sonhar-se com leitugas, era signal certo de proximo e irremediavel +dissabôr. + +Alberto o Grande, no seu curioso livro _De secretis mulierum_ diz que a +leituga serve para conhecer, sem o menor engano, se uma mulher é ou não +virgem: _Accipe fructum lactucæ et pone ante nares ejus; si tunc est +corrupta, statim mingit_. + +Esta planta servia-se outr'ora nos jantares funerarios em memoria da +morte do filho de Myrrha; era tambem tida como causadora de impotencia. + +Adonis, mancebo d'uma proverbial e extraordinaria formosura, nasceu do +incesto de Cyniras, rei de Chypre, com sua filha Myrrha. Foi doidamente +amado por quasi todas as deusas, especialmente por Venus e Prosérpina. +Estando Adonis um dia a dormir n'um descampado, a deusa Aphrodite, que +por alli passou, fez brotar á volta d'elle, para o resguardar dos +ardores do sol, um massiço de leitugas. + +Um corpulento javali, attrahido pelas leitugas, começou a devoral-as +sofregamente, pisando e ferindo tão cruelmente o bello Adonis que elle +morreu pouco tempo depois. + +Jupiter, o rei dos deuses, condoído dos choros de Venus, deu novamente a +vida a Adonis, mas Prosérpina, rainha dos infernos, só accedeu a isto +com a condição de que elle passaria seis mezes do anno em sua companhia +e outros seis na de Venus. + +Venus, porém findos os seis mezes não o quiz restituir a Prosérpina, o +que originou grande discussão entre os deuses, e então Jupiter ordenou +que Adonis pertencesse quatro mezes a Venus, quatro a Prosérpina e +ficasse livre os restantes quatro. + + + + +OLIVEIRA. + + +A oliveira representou sempre importante papel nas crenças populares +antigas. A oliveira era o simbolo da paz e da abundancia. Foi um ramo de +oliveira que a pomba trouxe para a arca, a Noé, em signal de as aguas já +se terem afastado da terra, e a paz estar feita entre Deus e os homens. +Era com corôas feitas de ramos de oliveiras e de louro que se enfeitavam +os vencedores dos jogos olimpicos e os guerreiros victoriosos. + +Em quasi toda a Europa meridional substituem no domingo de Ramos as +folhas de palmeira por ramos de oliveira, e crêem que estes, queimados +em occasião de temporal, abrandam a furia dos elementos desencadeados e +livram do raio. Nos Abruzzos, no dia de S. Marcos, vão plantar no meio +dos campos um ramo de oliveira, na esperança de boa colheita e de os +livrar do granizo e das inundações. + +Diziam os antigos que as feiticeiras e o diabo não podiam entrar na casa +onde houvesse ramo de oliveira abençoado pelos padres. + +As leis athenienses castigavam severamente todo aquelle que fizesse mal +ás oliveiras, ou se servisse da sua madeira para o lume. + +Em Ombria e na Terra de Otranto as raparigas que querem saber se +chegarão a casar vão, no dia de Pascoella, nuas, colher um ramo de +oliveira. Chegadas a casa tiram uma folha, humedecem-a com saliva e +lançam-a ao fogo pronunciando o seguinte: + + _Si me vuo' bene, salta salticchia,_ + _Si me vuo' male stá fissa fissa._ + +Se a folha saltar tres vezes ou se voltar no fogo é signal de que hão-de +casar. Se a folha arder sem fazer o menor movimento podem perder +completamente a esperança de encontrar marido. + +Na Italia meridional as noivas, no dia do casamento, quando recolhidas +no quarto, batem levemente no marido com um ramo de oliveira em signal +de que no quarto de cama quem manda é a mulher. + +Na Grecia antiga acreditava-se que a oliveira devia o nascimento a +Minerva a deusa da sabedoria. + +Discutindo Neptuno e Minerva qual daria o nome a uma cidade fundada por +Cecrops, os deuses chamados para resolver a questão, determinaram que +seria aquelle que fizesse a mais util creação para os humanos. Neptuno +batendo na terra com o tridente, fez d'ella sahir um cavallo e Minerva, +ferindo o sólo com a lança, fez apparecer uma oliveira carregada de +fructo. Os deuses decidiram a contenda em favor de Minerva que deu á +cidade o nome de Athenas. + +Uma lenda allemã diz que a oliveira brotou da sepultura do primeiro +homem, de Adão, e que foi do tronco da oliveira que os hebreus +fabricaram a cruz em que pregaram Christo. + +Tambem ha uma lenda grega que diz que foi da oliveira e não do carvalho +que nasceu da maça de Hercules, e uma lenda hebraica narra que +procurando as arvores um rei dirigiram-se primeiro á oliveira que não +acceitou, por isso que não queria perder os seus bellos fructos +sacrificados ás canceiras da realeza, depois á vide e á figueira que por +motivo identico recusaram tambem, e por ultimo ao carvalho, que acceitou. + +O azeite, extrahido do fructo da oliveira era venerado pelos antigos. Os +athenienses esfregavam o corpo com azeite para conservar a belleza da +pelle, e os christãos fizeram d'elle o oleo santo que applicam aos +moribundos como simbolo da vida eterna. + +A oliveira era para os antigos a arvore da vida por isso que produzia o +azeite, que arde nas lampadas, conservando a luz durante a noite, a luz +a origem de toda a vida terrestre. + + + + +MYOSOTIS. + + +O myosotis (_Hieracium pilosella_) a deliciosa florsinha das margens dos +regatos, a _Nontiscordar di me_ dos italianos, a _Vergissmeinnicht_ dos +allemães, e a _Oreja de raton_ dos hespanhoes, tem sido cantada pelos +poetas de todos os tempos e apreciada por todos os povos, que lhe +dedicam particular e especial estima. + +E na verdade a bella flôr de um azul tão doce e tão suave, de uma côr de +que ella quasi que guarda o exclusivo em todo o reino vegetal, merece o +apreço em que é tida pela sua excepcional formosura, que modestamente +esconde entre a larga vegetação das margens dos regatos. + +É a flôr dos namorados, que como ella procuram a solidão, os logares +cheios de sombras e de serenidade para trocarem as suas intimas +confidencias, as suas apaixonadas caricias amorosas. + +Uma antiga ballada italiana narra da seguinte fórma o apparecimento do +myosotis no nosso globo. + +Um pobre camponez ao vêr-se atraiçoado pela noiva que o trocou por outro +mais rico e que mais lhe podia proporcionar os gosos que ambicionava, +afogou-se de pezar. + +As aguas do rio balouçaram durante dias o corpo do desditoso e as +nimphas condoídas da sorte do infeliz, tão novo e tão formoso, +imploraram para elle a protecção dos deuses. Levantou-se então enorme +temporal e as aguas arremessaram para longe de si o cadaver retido, que +ao tocar na margem, foi immediatamente metamorphoseado nas bellas flores +com que as nymphas depois constantemente se enfeitaram. + + + + +MYRTHO. + + +O myrtho foi consagrado a Venus e a Minerva. Venus, após o nascimento, +tendo-se na ilha de Chypre envergonhado da sua nudez, escondeu-se atraz +de um myrtho, adoptando-o depois em signal de reconhecimento, como +planta bem amada. + +Minerva e a nympha Myrsiné desafiaram-se um dia a vêr qual era mais +veloz na carreira. Venceu Myrsiné e Minerva despeitada, transformou-a em +myrtho, planta com que em seguida se enfeitou para constantemente +recordar o ultrage de que fôra victima. + +Na Grecia e em Roma antiga coroavam com myrtho os recem-casados, por +isso que na sua qualidade de planta dedicada a Venus, a deusa do amor, +não só tinha a virtude de fazer nascer um violento amor no coração dos +esposos mas tambem de o conservar constante por toda a vida. + +Este uso ainda está ao presente em vigor em algumas localidades da +Europa central, especialmente na Allemanha. + +Em todo o imperio romano era prohibido, sob severas penas, colocar ramos +de myrtho nos altares da _Bona Dea_, por isso que o myrtho fazia +recordar aos fieis os gosos materiaes que no logar sagrado deviam ser +completamente esquecidos. + + + + +PINHEIRO. + + +O pinheiro é simbolo da geração e da immortalidade. + +Da geração pela fórma do fructo que os antigos pensavam representar uma +parte do corpo de Atys, sacerdote de Cybele, que violando o voto de +castidade feito á deusa, mutilara-se, sendo em seguida transformado por +Cybele em pinheiro. + +Da vida eterna por causa da folhagem sempre verde, mesmo sob as maiores +neves, da solidez da madeira e por fructificar em pleno inverno. + +Na Russia enfeitam as mesas dos banquetes nupciaes com ramos de pinheiro +e no Japão os noivos bebem tres pequenas taças de _saké_ diante de um +pinheiro, que significa a fidelidade conjugal e a perpetuidade do genero +humano, a imagem de um grou simbolo tambem da fidelidade, a de uma +tartaruga como desejo de longa vida, pois os orientaes acreditam que +este chelonio vive dous mil annos, e de um grupo representando um velho +e uma velha, secularmente celebres por causa do intenso amor e da +harmonia em que vireram durante toda a longa vida. + +A resina do pinheiro é empregada desde tempos immemoriaes como o melhor +remedio para as doenças pulmonares, e dos fructos do pinheiro extrahiam +tambem os gregos e os romanos um remedio afamado para o mesmo fim. + +Os vinhos eram outr'ora conservados por meio de resina e de pinhas que +deitavam de infusão nas vasilhas onde elle era guardado. + +Ha na Roumania uma lenda que diz que morrendo de pesar dois amantes +violentamente separados pelas respectivas familias, e sendo sepultados +no mesmo cemiterio foram transformados um em pinheiro e outro em vide, +continuando a enlaçar-se ternamente mesmo depois da morte. + +O christianismo consagrou tambem o pinheiro. É a arvore empregada de +preferencia na noite de Natal, a arvore querida e amada pelos povos do +norte que a vêem verdejante e cheia de fructo na epocha em que as neves +fazem desapparecer a vegetação da superficie da terra. + +Parece que o uso do pinheiro como arvore do Natal vem da seguinte e +poetica lenda: + +Quando a sagrada familia fugia á perseguição de Herodes, apertada de +perto pela soldadesca, chegou a um descampado onde havia apenas um +pinheiro de quem a Virgem, chorosa, supplicou protecção. + +A arvore, compadecida, curvou os ramos até ao sólo e escondendo Jesus no +centro de uma larga pinha retomou a primitiva posição natural. Passado o +perigo Jesus abençoou a boa arvore, dando-lhe não só a particularidade +de vegetar em todos os terrenos e resistir a todas as intemperies, mas +tambem permittindo-lhe que em recordação da sua demorada estada na pinha +esta conservasse, para sempre, no interior o signal da divina mão que a +abençoara. + + + + +PILRITEIRO. + + +Polydoro, filho de Priamo e de Hecuba, foi morto após o cerco de Troya +por Polymnestor, ancioso de se apoderar das immensas riquezas que +Polydoro possuia. + +Depois de morto, Polydoro foi transformado em pilriteiro, e quando se +cortava algum ramo ao vegetal corria logo sangue da parte contundida em +signal do triste facto que elle simbolisava. + + + + +SERRALHA. + + +O diabo queixou-se um dia a Christo de que tendo ajudado Deus a crear o +mundo nada recebera em paga dos seus trabalhos. + +A queixa sendo achada justa, Christo deu-lhe em paga o milho e a aveia. + +O diabo partiu saltando de contente, porém no caminho, com a alegria, +esqueceu-se do nome das plantas que lhe tinham sido dadas. + +S. Pedro e S. Paulo a saberem da liberalidade de Christo lastimaram que +tivesse feito ao diabo uma tão importante dadiva. + +--Agora o que dei, está dado, não o posso tornar a tirar, disse Christo. + +--Pois bem, replicou S. Paulo, vou fazer com que o diabo fique sem os +bons vegetaes em troca de outros maus. + +E partindo a toda a pressa sahiu ao encontro do diabo. Este ia triste e +cabisbaixo procurando lembrar-se das plantas que Christo lhe déra. + +--Que tendes, perguntou S. Paulo? + +--Christo deu-me dous vegetaes e eu não me lembro quaes são. + +--Eu sei, replicou S. Paulo, um é a canna... + +--É verdade, é a canna, atalhou o diabo esfregando as mãs de contente, +mas o outro? + +--O outro é a serralha. + +--A serralha, a serralha, uivou o diabo, que fugiu sem dar os +agradecimentos a S. Paulo, que d'esta fórma conseguiu livrar do poder do +diabo dous dos mais uteis vegetaes dando-lhe em troca outros de +insignificante valor. + + + + +MANGERONA. + + +A mangerona (_Origanum majorana_ L.) é a _amarakos_ dos gregos. Os +romanos serviam-se da mangerona para tecer corôas aos recem-casados e em +Creta esta planta é ainda hoje o simbolo da honra, tendo a virtude de +afugentar das mulheres os mal intencionados seductores. + +A lenda da mangerona é uma lenda grega. Amaracus era um favorito do rei +de Chypre que este estimava immenso e a quem confiava serviços da maior +confiança e da mais alta responsabilidade. + +Um dia encarregando-o o rei de lhe trazer um precioso vaso cheio de +perfumes, Amaracus deixou-o cahir no sólo onde se fez em pedaços. + +Cheio de pesar e de susto pelo mal causado, cahiu com uma violenta +sincope e então os deuses amerciados da sua grande e irremediavel dôr +transformaram-o n'uma planta odorifera que ficou tendo o nome do +desastrado Amaracus. + + + + +LINHO. + + +Gubernatis escreve o seguinte do linho: + + «A antiguidade indiana via no céo, na alva e na aurora, uma teia + luminosa; a esposa divina, a aurora, tecia a camisa nupcial, o + vestido do esposo divino, o sol. Os deuses vestiam-se com uma veste + luminosa, d'um tecido branco ou vermelho, de prata ou de oiro. Os + padres, na terra, adoptaram o mesmo costume branco na India, no + Egypto, na Asia Menor, em Roma e nos paizes christãos, chamando-se + ainda hoje _alva_ á camisa branca dos padres e dos meninos de côro. + + O linho era de tal fórma estimado no norte que, até ao seculo XII, + na ilha de Rugen, servia de moeda. + + «_Apud Ranos_, escrevia Helmold, I, 38, 7, citado por Hehn + (_Kulturpflanzen u. Hausthiere_, Berlin, 1874) _non habetur maneta, + nec est in comparandis rebus consuetudo nummorum, sed quidquid in + foro mercari volueris, panno lineo comparabis_». + + Güldenstadt, no seculo passado, deparou ainda com uso identico no + Caucaso. Nos contos populares falla-se muitas vezes de camisas ou + vestidos tecidos com fios tão extraordinariamente finos, que podiam + ser guardadas dentro da casca de uma noz. Hérodoto e Plinio + mencionam um linho enviado da Grecia por o rei Amasis, cujo fio era + composto de 360 ou 365 fios, allusão evidente aos dias do anno. + + Na canção popular veneziana do grillo e da formiga, o grillo fia + linho e a formiga pede-lhe um fio evidentemente para continuar a + fiar, pois os dois animaes figuram na mitologia zoologica em + estações differentes. Os fios de linho são tidos como representando + os raios do sol, e segundo uma superstição popular siciliana, + attrahem-os tambem. + + Em Modica, na Sicilia, escreve o snr. Amabile, para fazer + desapparecer as dôres de cabeça produzidas pela insolação, queimam, + com acompanhamento de imprecações, estopa de linho n'um copo onde + depois se deita agua; colocam em seguida o vidro n'um prato branco e + este sobre a cabeça do doente; pretendem que, d'este modo, fazem + desapparecer da cabeça e passar para o linho toda a doença causada + pelo sol. + + No Valle Soana, no Piemonte, acreditam que vêr em sonhos, linho + mergulhado na agua é um aviso de morte por todo o anno. + + O linho é simbolo da vida, da vegetação facil e abundante. É por + isso que na Allemanha, quando uma creança cresce vagarosamente ou + lhe custa a andar, na vespera do dia de S. João, a colocam núa no + sólo, semeando-lhe linho em redor, e logo que o linho principiar a + rebentar deve a creança começar a crescer e a andar». + + + + +PLATANO. + + +O platano era particularmente venerado na Grecia, sendo consagrado ao +genio. Era sob os platanos que se reuniam os sabios gregos para +discutirem os mais transcendentes assumptos, e sob elles que +especialmente se abrigavam da chuva. + +A formosa Europa, dormia sob um platano quando foi roubada por Jupiter +metamorphoseado em touro. + +Xerxes atravessando a Lydia, apaixonou-se tanto por um corpulento +platano que o fez ornamentar de custosos collares e braceletes d'ouro. + +Na Grecia quando alguns noivos se separam trocam, em signal de +fidelidade, duas metades de uma mesma folha de platano, e quando se +tornam a encontrar apresentam-as, devendo as duas partes formar +perfeitamente a primitiva folha. Se isto se não dér é porque aquelle +cuja metade estiver defeituosa foi infiel durante a ausencia. + + + + +TREVO. + + +Diz Gubernatis que os druídas tinham o trevo em grande veneração, e que +S. Patricio para explicar o misterio da Trindade aos irlandezes se +servia de trevo, mostrando-lhes as tres folhas do vegetal n'uma mesma +haste. + +Em França, Italia, Hespanha, e mesmo entre nós, o povo estima e venera +particularmente o trevo de quatro folhas e crê que a pessoa que +encontrar uma d'estas plantas, sendo mulher, casará dentro de um anno e, +sendo homem, terá no mesmo espaço de tempo grandes felicidades. + +Aproveitamos do distincto sabio inglez, Brueyre a seguinte e deliciosa +lenda metereologica relativa ao trevo: + + «N'uma tarde de verão, uma rapariga veio mugir as vaccas mais tarde + que o costume, e as estrellas começavam a scintillar no firmamento, + quando ella terminou a tarefa. Daisy, uma vacca encantada, era a + unica que faltava para mugir, mas o cantaro estava tão cheio, que a + rapariga deixou-a sem lhe tirar o leite. + + Antes de pôr o cantaro á cabeça a rapariga cortou um punhado de + hervas differentes entre as quaes ia muito trevo, e com ellas fez + uma almofada para levar mais commodamente o cantaro. + + Porém logo que colocou a almofada na cabeça viu centenas, milhares + de pequeninos trasgos correndo de todos os lados para a vacca, que + estava deitada no sólo, e agarrarem-se-lhe ás têtas, que mugiam em + flores de trevo, sugando-as depois com delicia. As hervas que + estavam junto as têtas de Daisy cresciam a olhos vistos, cercando + por todos os lados a corpulenta vacca, e os trasgos corriam por + entre ellas, levando bem-me-queres, verdeselhas, flores de digitalis + e flores de trevo onde recolhiam o leite que corria das quatro têtas + ao mesmo tempo, como abundante chuva da primavera. Sob uma das têtas + a rapariga viu um trasgo maior que os outros, que, para se + banquetear mais á vontade, se tinha deitado de costas, ficando os + pés no ventre do animal, e com a têta agarrada nas mãos sugava + avidamente. + + Chegando a casa a rapariga narrou o que tinha visto e todos foram + concordes que ella devia, para que tal facto se desse, ter entre as + hervas que collocara na cabeça trevo de quatro folhas, o que na + verdade tinha acontecido». + + + + +CENTEIO. + + +A vida de Jesus e principalmente a sua perseguida infancia deram origem +a um grande numero de lendas de uma doce poesia cheia de belleza e de +encanto. + +Já demos conta de algumas, e as que agora apresentamos, verdadeiramente +encantadoras, são inspiradas pelo mesmo assumpto--a fuga da Virgem á +perseguição das gentes de Herodes. + +A Virgem e S. José fugindo com o filho á matança dos innocentes, passou +por um campo onde muitos lavradores estavam atarefados a semear centeio. + +Que semeaes, perguntou a mãe de Jesus? + +Pedras, responderam elles. + +Pois pedras vos nasçam; d'aqui a tres dias vinde quebral-as. + +Mais adeante encontrou novo grupo de aldeãos na mesma faina. + +Que semeaes? + +Semeamos centeio para nosso sustento. + +Pois centeio vos nasça, replicou a Virgem, d'aqui a tres dias vinde +segal-o. + +Passados tres dias estava o campo dos maus lavradores transformado em +enorme penedia e o dos que tinham sinceramente respondido ás perguntas +da Virgem, coberto de louras messes. Cheios de jubilo pelo milagre, que +reconheciam, os lavradores segavam atarefadamente o centeio, quando +chegaram os soldados de Herodes, que andavam em perseguição de Jesus, e +perguntaram aos ceifadores te tinham visto passar por alli uma mulher a +cavallo n'uma jumenta, com um menino ao colo e acompanhada de um homem +já velho. + +Passou, responderam os segadores, quando estavamos a semear o centeio +n'este campo. + +Então os soldados, imaginando que o centeio tinha crescido naturalmente, +desanimaram, e deixaram de continuar a perseguição, pelo que Jesus pôde +escapar á furia dos seus perseguidores. + + + + +SILVA E TREMOÇOS. + + +Liga-se ao mesmo facto da lenda anterior--a perseguição de Jesus pelos +soldados de Herodes--a lenda da silva e dos tremoços, lenda muito +conhecida no norte do paiz, onde a ouvimos a grande numero de pessoas. + +A Virgem acossada de perto pela soldadesca, chegou proximo de um campo +de tremoços em frutificação. Atravessando-o rapidamente, os tremoços, ao +contacto dos corpos, fizeram um grande ruido que denunciou aos +perseguidores o caminho seguido pela desolada mãe. + +No fim do campo estendia-se um enorme silvado, uma insuperavel barreira +que ia sem duvida reter os fugitivos e fazel-os cahir em poder dos judeus. + +Porém as silvas ante as lagrimas e o desespero da mãe de Deus, +desviaram-se abrindo caminho á sagrada familia, e logo que todos +passaram tornaram a unir-se entretecendo-se mais fortemente, de modo que +ao chegarem os soldados junto d'ellas, voltaram para traz e seguiram +outro caminho, acreditando que a Virgem não podéra transpor o +emmaranhado silvedo que os retinha. + +A Virgem passado o perigo abençoou as silvas a quem deu a faculdade de +vegetarem em todos os terrenos, produzirem fructos saborosos, ficarem +defendidas por agudos espinhos dos ataques de todos os inimigos, e +amaldiçoou os tremoços dando-lhes um travor semelhante ás amarguras que +elles com o seu indiscreto barulho lhe tinham causado, e condemnando-os +a nunca podêrem saciar pessoa alguma. + + + + +LOTUS. + + +O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os egypcios. + +No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que, quando o +rio trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas +regiões, a superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr. + +É por isso que os egypcios representam a creação por uma immensa +superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles +que no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um +lotus que, estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando +a tudo a luz e a vida. + +É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea. + +A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a Brahma. + +Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido sobre o +umbigo de Wishnou. + +A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa belleza +oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de +lotus. + +A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-o a +todas as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos +da sua amada que lhe realçam a belleza do rosto, _diz que sobre uma flôr +de lotus brotaram outras duas bellas flores eguaes_. + +As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da +particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões. + +Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e que é +devido a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as +partes sexuaes das mumias. + +Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era sempre +recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram +tambem o lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com +estas flores. + +Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de Athenas, +nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus. + +Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se doidamente por +Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande +heroe, atirou-se a um rio, onde morreu afogada. + +Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha, transformou-a na +brilhante flôr do lotus. + +Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que sustentou com +vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua +soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente +guardado, em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para +provar o seu poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a +uma grande fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém, +mal os restos do dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se +completamente, brotando logo do centro da fogueira uma enorme flôr de +lotus, no interior da qual foi encontrado intacto o dente de Buddha. + +Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo sendo +depois um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade +indiana. + +A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo perseguida por +Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus. + +Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda +indiana, que encontramos publicada no _Jornal de Viagens_: + + Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a + gentil Hevah, a dos olhos de esmeralda. + + Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o + senhor dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os + olhos fitos na imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino + Brahma: + + «Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores + de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos». + + Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra + com a fronte, e não se atrevia a olhar. + + E Brahma repetiu: + + «As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se + abrem na superficie esmeraldada dos lagos». + + E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava, + pudica, de rojo, ante o divino senhor dos mundos. + + Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor. + + Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e + fugiu do templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo + remanso das verdes aguas. + + Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam + n'um pé só, sobre o dorso dos grandes reptis. + + E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que + os seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os + olhos se lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a + voz de Brahma: + + «Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que + se abrem na superficie esmeraldada dos lagos». + + + + +SENSITIVA. + + +A sensitiva, a _Mimosa pudica_ dos botanicos, é uma das plantas que mais +téem sido discutidas e das que até hoje mais despertaram a attenção não +só dos homens da sciencia mas tambem de todos os profanos, pelos +curiosos movimentos das suas folhas. + +As sensitivas são dotadas de movimentos espontaneos e movimentos +provocados. + +Ao cahir da tarde os foliolos começam a pender a unirem-se uns aos +outros, dispondo-se para o somno nocturno. + +São os movimentos espontaneos. + +Este _somno_ póde ser provocado artificialmente colocando a planta na +obscuridade. A falta de luz faz com que o phenomeno acima apontado se +produza logo nas suas folhas. + +Os movimentos provocados são porém de todos os mais curiosos e os que +deram o nome e fama á planta. Basta que um pequenino insecto pouse em +qualquer dos foliolos da sensitiva, ou que se toque n'elle com um corpo +estranho, para o foliolo se comprimir immediatamente e apoz elle os +outros proximos, movimento que se propaga ás folhas de todo o ramo e até +ás de todo o vegetal, se o contacto do corpo estranho fôr violento ou +demorado. + +Estes movimentos estão em relação directa com o desenvolvimento e vigor +da planta. + +Quanto mais a planta é forte e robusta tanto mais os movimentos são +accentuados e demorados. + +Uma forte corrente d'ar, uma violenta trepidação do sólo, uma +obscuridade repentina do sol é o bastante para o apparecimento d'estes +movimentos. + +As excitações muito frequentes desorganisam porém o sistema nervoso da +sensitiva e fazem-a rapidamente morrer. + +A _Mimosa pudica_ foi conhecida dos antigos, a quem muito impressionou a +sua mobilidade. Escriptores gregos e romanos trataram repetidas vezes +d'esta interessante leguminosa, e poetas varios cantaram-a +enthusiasticamente. + +É de um d'elles que aproveitamos a lenda que segue: + +A nimpha _Mimosa_ era tão casta e tão pura que apesar de estar para +casar com o pastor Iphis nunca consentira que elle lhe tocasse com os +dedos sequer. Na vespera do dia em que devia ser para sempre unida ao +eleito do seu coração, encontrou-se por acaso com elle no centro de um +copado bosque. Iphis ao vêl-a tão seductoramente bella perdeu a cabeça, +e quiz estreitamente unil-a de encontro ao coração. Mimosa conhecendo +que não podia fugir ao doce amplexo do seu apaixonado, ficou tão tremula +e aterrada, e implorou tão desesperadamente o deus Hymineu, que, este, +compadecido, a transformou logo na planta que ainda hoje ao ser tocada +por mão profana reproduz a extrema sensibilidade da casta nimpha. + + + + +MELÃO. + + +O melão em virtude das suas numerosas sementes e por se multiplicar com +extrema facilidade, era tido pelos antigos como simbolo da geração. +Segundo uma lenda arabe vegeta no paraizo onde significa que Deus é um +só e Ali o seu propheta. Esta significação vem-lhe de n'um só todo +reunir sementes innumeraveis que vão depois reproduzil-o por toda a +eternidade. É como o propheta Ali que em si encerra toda a sabedoria e +doutrina religiosa que lhe foi inspirada por Deus, para que por toda a +eternidade a transmittisse aos miseros mortaes. + +A mais formosa lenda relativa a este saborosissimo fructo, por nós +conhecida, é a seguinte, muito popular ainda hoje na Toscana: + +Em tempos remotos, quando os reis casavam com simples pastoras, havia +n'uma pequena povoação da Toscana uma casa habitada por tres irmãs que +pobremente viviam da tecelagem. Uma tarde, passando o rei proximo da +modesta habitação, e ouvindo dentro animada conversação, quedou-se a +escutar. + +«Todo o meu desejo, dizia uma das irmãs, era casar com o padeiro do rei. +Teria ao menos pão magnifico e tanto quanto desejasse. + +«Pois eu, replicou outra, preferia antes casar com o cosinheiro. Então o +que me havia de regalar de comer bons petiscos. + +A mais nova das tres, formosa a mais não ser, disse suspirando: + +«As minhas aspirações são mais altas. Só me contentava casando com o rei +a quem havia de dar tres filhos lindos como o sol e com cabellos de oiro +e dentes de prata». + +O rei, de regresso ao palacio, fez chamar as tres irmãs, e satisfez as +aspirações de todas ellas, realisando-se em poucos dias os tres casamentos. + +As irmãs mais velhas, ao verem a fortuna e felicidade da mais nova, +encheram-se de inveja e juraram desde logo a sua perda. + +Um anno depois a rainha tinha um filho. Era uma soberba creança de +cabellos do mais puro ouro e dentes de uma alvura deslumbrante. As +irmãs, esconderam porém a creança e fizeram crêr ao rei que o que +nascera fôra um gato morto. + +No segundo anno de casada a rainha teve novo filho, tão seductor como o +primeiro. + +As irmãs disseram ao rei que o que ella dera á luz fôra apenas um +informe pedaço de pau. + +No terceiro anno nasceu terceiro rapaz, lindo como os amores, porém as +irmãs capacitaram o rei de que fôra uma serpente o que a irmã tivera. + +O rei furioso, com a cabeça perdida, fez encerrar a esposa em medonha +prisão a regimen de pão e agua. + +Obtido isto, as duas irmãs, que até então tinham tido as creanças +escondidas para o que désse e viesse, deitaram-as ao mar dentro de um +pequeno bote. + +O jardineiro do rei andando a passear na praia vê o bote fluctuando ao +sabôr das aguas e indo apanhal-o depara com as tres creanças, que +compassivamente recolhe. + +Com o tempo o pae adoptivo ensina-lhes o officio e fez d'ellas tres +notaveis jardineiros, que tinham os jardins reaes, como até então nunca +se vira. + +Uma tarde, merendavam os rapazes á sombra de uma copada arvore quando +appareceu uma andrajosa velha, que lhes pediu uma esmola. Repartiram com +ella da merenda, e, finda a refeição, a velha disse-lhe que os jardins +estavam um primor reunindo tudo quanto havia de raro, faltando-lhe só, +para serem uma maravilha, a agua que dansa, a arvore que toca e a ave +que falla. + +Os rapazes enthusiasmados, sob indicação da velha, partem á busca dos +tres prodigios. + +No caminho encontram o rei que ia á caça para se distrahir, e que +simpathisa tanto com os rapazes que se queda esquecido a conversar com +elles, abraçando-os e beijando-os ao separar-se. Mais adeante +apparece-lhes a velha que lhes indica como devem encontrar a agua que +dansa, o que elles afinal obtéem, continuando o caminho á busca da +arvore que toca. Debalde a procuraram e já iam para regressar +desanimados, quando a velha, surgindo, lhe diz onde a poderão encontrar +e que basta trazer d'ella uma folha, a qual, plantada no jardim, dará +uma arvore corpulenta, que fará ouvir doces melodias estranhas. + +Na arvore que toca acharam tambem empoleirada a ave que falla. +Recolheram jubilosos ao palacio e plantaram a folha que logo no dia +seguinte appareceu transformada em enorme arvore, que fazia a delicia +dos visitantes com as musicas divinaes, nunca até então executadas por +humana orchestra. + +O rei, ao saber do facto, correu a vêr a maravilha, e os tres rapazes, +sob indicação da velha, brindaram-o com o melhor melão dos produzidos +por um extenso meloal que cultivavam. O rei quiz servir-se logo do +fructo, e ao partil-o encontrou-o, em vez de sementes, cheio de pedras +preciosas. + +--Como póde ser dar um melão pedras preciosas? + +--E como póde ser, respondeu a ave que falla, que estava pousada na +arvore que toca, uma mulher parir um gato morto, um pedaço de madeira e +uma cobra. Estas creanças são teus filhos, e tu foste enganado pelas +tuas cunhadas, castigando a esposa innocente. + +Fez-se então a luz no espirito do rei que, arrependido, mandou soltar a +esposa, implorando-lhe humildemente perdão, e enchendo-a de mimos e +prendas riquissimas. + +Ás más cunhadas, a essas, para exemplo futuro, fel-as queimar na +principal praça publica do reino. + + + + +HERA. + + +Pela forte adherencia ás paredes e arvores com que está em contacto, é a +hera simbolo do amor concupiscente, do amor ardente, pois faz seccar a +arvore a que se une, como o delirio amoroso esmaga o coração onde uma +vez dominou. + +A semelhança da hera com a vinha, o serem ambas plantas trepadoras fez +com que os antigos acreditassem que a hera tinha a particularidade de +atenuar os effeitos do vinho. Para isso os bebedores enfeitavam-se com +corôas de hera, ornamentando tambem com ellas as estatuas e o thyrso de +Baccho. + +Antigamente usava-se á porta das tabernas ramos de hera ou de carvalho. +Os dois vegetaes tinham n'aquelles locaes, a mesma identica +significação; recordavam o amor, a voluptuosidade, a força e a alegria +que o vinho dá áquelles que o bebem. + +É a hera tambem simbolo da ambição por subir mais alto que todas as +outras plantas, aproveitando tudo o que a póde ajudar a subir, e +terminando por aniquilar e deitar por terra o que lhe serviu de apoio. + +Na Allemanha, ainda hoje, entre as classes populares existe a crença de +que quem trouxer uma corôa de hera na cabeça, tem o entendimento mais +lucido e gosa da propriedade de descobrir as feiticerias. + +Segundo a mythologia, um filho de Baccho, por nome Kisso, indo a dançar +deante do carro triumphal do pae cahiu por terra, e as rodas do vehiculo +passando-lhe por cima mataram-o. A deusa Cybele compadecida do triste +fim do infeliz moço, transformou-o em hera. + + + + +FIGUEIRA. + + +A figueira é uma das arvores que mais figura na legenda biblica. + +É com as folhas d'esta arvore que Adão e Eva, após o peccado original, +cobrem a nudez que desde então começara a envergonhal-os, e é tambem +n'esta arvore maldita que, segundo alguns auctores, Judas se enforcou +após a venda do divino Mestre! + +É antiquissimo o caracter diabolico da figueira, a arvore onde se +acoutavam os demonios e os mais horrendos e maleficos monstros. + +Os doutores mahometanos dizem que foi o figo o fructo que Deus prohibiu +que Adão e Eva comessem, por excitar os sentidos, e logo que elles +transgrediram a ordem, conheceram a nudez, cobrindo-se com as folhas da +mesma arvore que os fizera peccar. + + + + +CIPRESTE. + + +Adão, vendo-se velhissimo, com 900 annos, mas, cheio de vigor e saude, +gabou-se deante de Deus de ser forte e immortal. Deus para lhe castigar +o orgulho paralisou-lhe os membros inferiores, fez-lhe cahir os dentes e +tirou-lhe a luz dos olhos, dizendo-lhe que eram os signaes precursores +da morte. Adão não quiz acreditar na palavra do Senhor e mandou o filho +mais velho ao Paraizo buscar um fructo da arvore da vida, afim de +recuperar as forças perdidas. O filho em vez do fructo trouxe a vara com +que Adão foi expulso do Paraizo. Adão partiu-a em tres pedaços que +plantou no sólo, mas logo que as arvores nasceram Adão morreu. + +As arvores nascidas da vara plantada por Adão foram a oliveira, o cedro +e o cipreste. Desta ultima é que depois sahiu a madeira com que +fabricaram a cruz em que Christo morreu. + + + + +ALECRIM. + + +O alecrim é uma planta funeraria. Os antigos acreditavam que o aroma do +alecrim conservava os cadaveres, e sob esta crença, queimavam nas +ceremonias funebres quantidades enormes d'esta planta aromatica. + +No norte, os que acompanham os mortos á ultima morada, levam comsigo um +ramo de alecrim por ser em virtude da folhagem sempre verde simbolo da +immortalidade. + +Os romanos ornamentavam os Lares com alecrim e empregavam-o como meio de +purificação após as festas phallicas, crendo que elle tinha a +propriedade de dar uma mocidade eterna. + +Em algumas provincias de França é vulgar a crença de que as flores de +alecrim em contacto com o corpo dão a alegria e felicidade a quem as +traz. Para os cretenses é simbolo da sinceridade. + +Dizem que foi sobre elle que a Virgem Maria estendeu a seccar as +primeiras roupas que vestiu a Jesus. + +Na Andaluzia é tambem o alecrim muito estimado, pelo motivo de ter +escondido a Virgem quando com o divino filho fugia á perseguição dos +soldados de Herodes. + +Na Sicilia corre que é no alecrim que se escondem as fadas disfarçadas +em serpentes. + +É tambem originaria d'aquelle pittoresco recanto d'Italia a seguinte +lenda relativa ao alecrim: + +--Uma rainha esteril tanto contemplou os numerosos ramos e as verdes +folhas de um copado alecrim que concebeu d'elle, tendo um pequenino +alecrim, que plantou em luxuoso vaso regando-o quatro vezes ao dia com +leite. Um sobrinho da rainha, intrigado com o caso, roubou o vaso e +conservou a planta, regando-a com leite de cabra. Um dia, que estava +tocando deliciosamente flauta, viu sahir do centro do alecrim uma +formosa princesa, de quem ficou logo apaixonado. + +Obrigado, porém, a partir para a guerra, recommendou instantemente a +planta ao jardineiro do palacio, para que olhasse por ella com todo o +cuidado. As irmãs do principe encontrando a flauta foram tocar para +junto do vaso, e vendo sahir do alecrim a formosa princeza, ficaram tão +cheias de inveja que a agarraram e desapiedadamente a moeram com +pancada. A princeza desappareceu e o alecrim começou logo a murchar. O +jardineiro escondeu-se para fugir ao castigo que receava, mas indo uma +noite inexperadamente a casa, vê a mulher em colloquio intimo com um +dragão, que lhe dizia que no alecrim estava encantada uma princeza, que +morreria com a planta, se esta não fosse regada com gordura humana. + +O jardineiro, então, entra de improviso, mata o dragão e a esposa +culpada, derrete-os e com a gordura rega o alecrim. O encanto foi +desfeito e a princeza readquiriu a liberdade e a saude desposando pouco +depois o principe, a quem amava. + + + + +FETO MACHO. + + +O feto _Aspidium filix max_ representa um papel importante nas lendas +das fadas. É com o feto macho que ellas fazem os seus mais importantes +maleficios, servindo-se tambem d'esta planta para adevinhar o futuro. +Diz a lenda que o feto macho só dá flôr na noite de S. João, e que +aquelle que poder colher a flôr d'esta preciosa criptogamica tem a +particularidade de adevinhar o futuro e descobrir todos os thesouros +occultos. + +Segundo uma lenda Russiana um pastor perdeu uns bois na vespera de S. +João. Debalde os procurou, e recolhia a casa, chorando e lastimando a +sua desgraça, quando ao passar perto de um feto--era meia noute +exacta--a flôr d'este lhe cahiu dentro de um dos sapatos. Viu logo onde +estavam os bois com os quaes se encaminhou para casa. Na estrada porém +descobre um opulento thesouro, montões de joias e pedrarias que o +deixaram deslumbrado. Corre a chamar a mulher para o auxiliar no +transporte d'aquellas riquezas. A mulher vendo-lhe os sapatos todos +molhados e enlameados aconselha-o, por inspiração do demonio, a mudal-os +por outros seccos. O homem attende-a, tira os sapatos, a flôr de feto +cáe no chão e elle immediatamente esquece tudo. + + + + +MYRRHA. + + +Myrrha--conta a fabula--apaixonou-se pelo pae, o rei Cyniras, de quem +teve Adonis, avô de Priapo. + +Envergonhada porém, do repellente incesto que praticara, rogou aos +deuses que a transformassem em coisa que não fosse viva nem morta. Estes +então transformaram-a no arbusto que produz a Myrrha. + + + + +POLYPODIO. + + +Uma lenda muito espalhada na Allemanha, narra que estando uma vez a +Virgem a amamentar o seu divino filho, sentada n'umas pedras, ao +erguer-se, cahiu-lhe uma gotta de leite na rocha, gotta de que logo +nasceu o Polypodio vulgar. É em recordação d'este facto memoravel que os +allemães dão a este feto o nome de _Unser Frauenmilck_, isto é, _Leite +de Nossa Senhora_. + +Entre nós é o Polypodio conhecido pelos nomes vulgares de: _Feto +centopeia_, _Riços_, _Feto dos carvalhos_, _Feto doce_, etc. + + + + +ESPINHEIRO. + + +Quando a Virgem fugia com o filho á violenta perseguição dos seus +inimigos, chegou junto de um espesso bosque de espinheiros, que lhe +abriu passagem, fechando-se depois á chegada dos soldados romanos. + +A Virgem abençoou então os espinheiros que se compadeceram da sua dôr e, +Christo, fallando pela primeira vez, disse que em memoria d'aquelle +facto, a corôa com que o adornariam no dia do martirio, havia de ser de +espinheiro. E assim foi, pois a corôa que os judeus, para o +ridicularisar, lhe forneceram, era d'aquelle vegetal. + +Conta mais a lenda que um pisco, vendo que os espinhos do espinheiro +feriam a fronte do Salvador, veio pousar-lhe na cabeça e com o bico os +quebrou um a um. Molhando n'essa occasião o peito no sangue de Christo, +ficou a ave, para sempre, com aquella sagrada mancha, recordação eterna +do caridoso acto que praticara. + + + + +VIDEIRA. + + +É a videira uma das plantas mais celebradas pelos antigos. A sua cultura +desenvolveu-se outr'ora muito na Grecia, Persia e Asia menor. + +Era com pampanos que se enfeitavam Baccho, as Bacchantes, Silene, Rhea, +Bona Dea, as Graças, a deusa Lætitia, etc. Narra a Biblia que Noé se +dedicou cuidadosamente á sua cultura, sendo o primeiro mortal que +fabricou vinho da uva. + +Diz Santo Ambrosio, referindo-se á enorme embriaguez que a primeira +absorpção do liquido extrahido da uva produziu em Noé, que não foram +bastantes todas as aguas do diluvio para fazerem com que Noé ficasse nú, +mas que o vinho o fez ficar fóra de si, sem juizo e vergonhosamente +decomposto. + +O philosopho Anacarsis tratando da videira relata que este vegetal tem +tres varas, a primeira das quaes produz gosto, a segunda delirio e a +terceira a loucura. + +Para a mytologia a videira nasceu do sangue dos Gigantes, derramado na +terra, quando, dementados, pretenderam escalar o ceu. É por isto que o +vinho tem a propriedade de causar furor, uma enorme excitação a quem o +bebe em demazia. + +Uma lenda arabe conta que o diabo regou o primeiro pé de videira com o +sangue do macaco, do tigre e do porco. + +Por isso ao primeiro vinho bebido, o homem fica alegre, agitado, +bulhento e brincalhão como o macaco; continuando a beber a alegria +transforma-se em violentas arremetidas de tigre, para por ultimo, cahir, +roncando, no somno bestialisador do porco. + +Segundo os Persas foi uma mulher no feliz reinado de Djemschid, que, +querendo matar-se, bebeu o succo das uvas, pensando ser veneno. O somno +que elle e causou, foi porém tão agradavel que continuou depois a fazer +vinho e a bebel-o, espalhando-se em breve o uso por todo o paiz. + +O mitho hellenico sintethisa a vinha n'um companheiro e amigo de Baccho, +no pastor Staphylo. Staphylo era um pastor do rei da Grecia Oenêo, que +reparando que uma cabra do rebanho, a mais gorda e bem tratada de todas, +recolhia sempre mais tarde que as outras, e não comia nunca do alimento +fornecido ao resto do rebanho, a seguiu, indo ter a um bosque espesso, +onde a viu a comer soffregamente uvas, fructo até então completamente +desconhecido. Staphylo colheu grande porção de cachos com que brindou o +rei Oenêo o qual fez d'elles vinho. Em recordação d'este facto, deram +depois os gregos o nome de _Oinos_, ao saboroso licôr das uvas. + + + + +LOUREIRO. + + +Apollo apaixonando-se doidamente por Daphne, filha do rei Penêo, +moveu-lhe uma tão intensa perseguição, que esta, para lhe poder fugir, +conseguiu que os deuses a transformassem em loureiro. + +Apollo quiz que o loureiro lhe fosse consagrado tecendo com elle uma +corôa, que, depois, sempre trouxe comsigo; significava a referida corôa, +que se a donzella não lhe pertenceu em vida, possuia porém o vegetal em +que fôra transformada. + +Baccho, em seguida ás gloriosas victorias na India adornou-se com o +louro, e Esculapio fez o mesmo depois das maravilhosas curas que +realisou e que lhe deram fama eterna. + +Os romanos adoptaram o louro como simbolo da victoria. + + + + +INDICE. + + + ABOBORA. + ABOBOREIRA. + ACONITO. + AÇUCENA. + ALECRIM. + ALGODÃO. + AMOREIRA NEGRA. + APAMARGA. + ARROZ. + CANNAS. + CARDO. + CARVALHO. + CEDRO. + CENTEIO. + CHÁ. + CHICÓRIA. + CHORÃO. + CHRISANTHEMO. + CIPRESTE. + CLEMATIS INTEGRIFOLIA. + ESPINHEIRO. + FETO MACHO. + FIGUEIRA. + FIGUEIRA DA INDIA. + HERA. + LARANGEIRA. + LEITUGA. + LINHO. + LOTUS. + LOUREIRO. + MAÇÃ. + MAIAS. + MANGERONA. + MARMELLEIRO. + MELÃO. + MILHO. + MOSTARDA. + MYOSOTIS. + MYRRHA. + MYRTHO. + NARCISO. + NOGUEIRA. + OLIVEIRA. + PALMEIRA. + PAPOULA. + PILRITEIRO. + PINHEIRO. + PLATANO. + POLYPODIO. + RABANETE. + ROMÃ. + ROSA MUSGO. + ROSAS. + SENSITIVA. + SERRALHA. + SILVA. + TABACO. + TILIA. + TREMOÇOS. + TREVO. + TRIGO. + VIDEIRA. + ZIMBRO. + + + + +NOTA AO INDICE. + + +Os vegetaes a que se referem as lendas publicadas no presente volume, +não estão por ordem scientifica, nem mesmo alphabetica, por isso que o +livro foi impresso á medida que o auctor colleccionou as lendas que o +compõem. + +Para remediar em parte esta falta, foi o indice organizado +alphabeticamente. + + +Notas de transcrição: + +Foram corrigidos alguns erros tipográficos óbvios. + +As palavras rodeadas pelos sinais + + estão em grego no original. +Nesta versão electrónica não é possível representar os caracteres gregos +pelo que as palavras foram substituídas pela transliteração para +caracteres latinos. + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Lendas dos Vegetaes, by +Eduardo Henrique Vieira Coelho de Sequeira + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LENDAS DOS VEGETAES *** + +***** This file should be named 27412-8.txt or 27412-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/7/4/1/27412/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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