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diff --git a/26338-8.txt b/26338-8.txt new file mode 100644 index 0000000..10601a4 --- /dev/null +++ b/26338-8.txt @@ -0,0 +1,6497 @@ +The Project Gutenberg EBook of Alguns homens do meu tempo, by +Maria Amália Vaz de Carvalho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Alguns homens do meu tempo + impressões litterarias + +Author: Maria Amália Vaz de Carvalho + +Release Date: August 17, 2008 [EBook #26338] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUNS HOMENS DO MEU TEMPO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Agosto 2008) + + + + +Maria Amalia Vaz de Carvalho + +Alguns homens do meu tempo + + + + +Maria Amalia Vaz de Carvalho + +Alguns homens + +do + +meu tempo + + + + +A ILL.^ma E EX.^ma SR.^a + +D. MARIA MANOELA DE BRITO + +(Marqueza de Pomares) + + +_Minha querida Manoela_. + + +Para que um livro merecesse o teu nome inscripto na sua primeira pagina, +seria indispensavel que esse livro fosse bello na fórma e sincero na +intenção. + +O modesto volume, que venho offerecer-te, só o segundo requisito póde +ter a aspiração de realisar. + +Na nossa estreita e leal amisade de alguns annos, amizade em que tens +posto os carinhos de uma adorada irmã, eu aprendi a respeitar-te e a +amar-te como a um d'esses raros typos femininos de sincera virtude +despretenciosa, de alto pensar e de sensibilidade vibrante, que alliam +n'uma harmonia felicissima as qualidades d'um grande coração com as +faculdades d'um levantado espirito. + +Pensas e sentes; comprehendes com singular subtileza e com ampla e +ineffavel bondade, tens a curiosidade intelligente, e a sympathia larga +e fecunda, que é de todos os predicados d'um entendimento o mais +precioso e o mais raro... + +Nunca estive perto de ti que me não sentisse _melhor_; nunca ouvi a tua +voz, que não conhecesse de que fundo de sinceridade e de força moral +ella provinha... + +Perdoa-me se, pensando a teu respeito isto e mais do que isto, te faço +uma offerta de tão pouca valia. + +Muitos dos _estudos_ incompletissimos, que compõem este livro, foram +escriptos á sombra chilreada e fresca das arvores da tua senhorial +Portella--na companhia grata, carinhosa, dos dois hospitaleiros donos +d'essa vivenda pittoresca e lindissima. + +Quantas vezes ahi tenho chegado empallidecida, extenuada, doente e +triste, e quantas vezes de lá tenho voltado mais vigorosa na alma e no +corpo, trazendo no coração, como um balsamo e como um viatico, a imagem +d'essa nobre vida de caridade e de abnegação, que partilhas com o +companheiro do teu destino, e em que ambos são um suggestivo exemplo e +uma excepção inspiradora... + +Se outro valor não tivesse para ti este pobre livro, que tu amas porque +é meu, bem o sei,--teria o valor de ter sido quasi todo escripto ao pé +das grandes arvores que deram sombra aos jogos da tua infancia, e que tu +decerto desejarias que emballassem, com a musica harmoniosa e calmante +das suas ramagens murmuras, com o gorgeio alegre dos seus ninhos +primaverís, o supremo somno que dormirás mais tarde, na serena beatitude +das consciencias boas!... + + Lisboa. Dezembro 1888. + + + Maria Amalia Vaz de Carvalho. + + + + +_GONÇALVES CRESPO_ + + +As _Miniaturas_ e os _Nocturnos_ são incontestavelmente, e no dizer de +auctorisados criticos, dois livros, que pódem classificar-se entre as +perolas mais doces, mais preciosas, mais irisadas, da moderna +litteratura portugueza. Leva-me hoje um pendor irresistivel a fallar +d'esses dois livros, conhecendo que o assumpto, para mim, é a um tempo +muito attrahente e muito difficil. + +Dir-se-ha, que não póde fallar com justiça do poeta, aquella, que á sua +memoria querida está ligada por tão estreitos laços; mas por que elle +foi o companheiro da minha vida, o mestre e educador do meu espirito, o +amigo inolvidavel cuja morte deixou orphãos os meus filhos, não terei eu +direito de ajuntar a minha voz humilde ás vozes, que no paiz em que eu +nasci, e no imperio em que elle nasceu, o proclamam um dos mais +delicados poetas modernos, um dos cinzeladores mais primorosos da poesia +portugueza, um _parnasiano_ no bom sentido da palavra, quer dizer, +juntando como Coppée, mas em muito mais alto gráu do que este, a +suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, á +comprehensão clara, nitida e perfeita de todos os segredos complexos da +alma contemporanea? + +Parece-me que seriam rigorosos de mais os que tentassem coarctar-me esse +direito, e que seria demasiada docilidade da minha parte o sujeitar-me a +censores tão intransigentes e tão duros. + +De mais, não escrevo eu exclusivamente para ser lida por mulheres? E +onde está a mulher que me condemne n'este ponto? Não ha nenhuma, tenho a +certeza d'isso. + +Gonçalves Crespo não escreveu senão as _Miniaturas_ e os _Nocturnos_. +Foram os versos da sua mocidade, colligidos debaixo d'aquelle titulo, +que m'o fizeram conhecer e admirar; os _Nocturnos_ póde bem dizer-se que +foram escriptos ao meu lado. + +A obra do poeta tem pois para mim duas faces distinctas, mas para julgar +as _Miniaturas_ sinto-me por assim dizer mais independente e mais livre. + +Esse livro foi a revellação primeira, a revellação subita que eu tive +d'aquelle, que treze annos depois, quasi que dia por dia, me expirava +nos braços, pronunciando o meu nome, que a sua alma angelica, tão +depurada pelo soffrimento, tão sanctificada pela resignação, enchia de +bençãos. + +Foi em 1870 que as _Miniaturas_ viram a luz pela primeira vez, +revellando a Portugal todo e a todo Brazil, que um poeta original, +delicadissimo, correcto até á perfeição, que um artista de primeira +plana, um verdadeiro artista de raça, acabava de nascer para a +litteratura portugueza. + +Foi esse um bello periodo da curta vida do poeta, hontem desconhecido +ainda, hoje acclamado por todos os que tinham no espirito uma scentelha +de gosto, e no coração um vislumbre de sensibilidade. + +Sobre a banca de trabalho de todas as mulheres distinctas, entre o +cestinho de bordado e a jarra de violetas ou de rosas, achava-se então o +gracioso volume das _Miniaturas_, e muita voz feminina tremula de +commoção, e muita voz de artista, ebrio da belleza da fórma, repetia com +enlevo essa doce elegia adoravelmente sentida, que se chama _Alguem_, +esse poema de inconsavel e vaga tristeza, que se intitula: +_Arrependida_, e a _Noiva_, e o ramo de saudades e de lyrios entretecido +sobre o tumulo de _Modesta_ e a esplendida _Nera_, e a esculptural e +voluptuosa _Sara_, e a ineffavel e consoladora _Transfiguração_. + +Quantos aspectos do mesmo talento! quantas fórmas da mesma phantasia +seductora! quantas expansões da mesma sensibilidade fina, subtil, quasi +doentia, de requintada que era! + +Muito longe do poeta, em um palacio meio arruinado, affastada de todo o +convivio social, entre as verduras, as sombras, as caricias inspiradoras +da Natureza inculta, vivia então uma creança de alma ardente, de +sonhadora phantasia, de indomito imaginar, vizionaria juvenil, de que +hoje--taes são as modificações que o tempo faz!--existe apenas, alterado +ainda assim pelos annos e pelas agonias, o corpo envelhecido cuja mão +escreve estas linhas. + +Muitos teem contado essa historia a que a Morte veiu dar o seu tragico +remate. Para que alludir a ella aqui? E que importam ao mundo as +alegrias e as lagrimas que elle não sentiu nem chorou? + +A verdade é que hei de lembrar-me sempre, tão viva se me conserva no +espirito essa impressão dominadora, do que eu senti ao folhear pela +primeira vez as _Miniaturas_, livro de um poeta para mim inteiramente +desconhecido havia algumas horas apenas. + +Pareceu-me que era um poeta como aquelle, que eu positivamente tinha +esperado havia muito, e que elle chegára; que a minha aspiração +indefenida e vaga se tinha realisado. Mais contentamento do que +surpreza. A doçura dos que alcançam a praia que tinham desejado em +longos dias de navegação monotona. + + + _Porque tardaste tanto, ó poeta? Eu te esperava + Na minha solidão!_ + +faz elle dizer mais tarde á creança, que eu já fui, exprimindo assim, na +sua simplicidade tão artistica, o sentimento de confiante alegria que a +minha alma experimentára ao conhecel-o. + +Pois bem; esse agudo prazer da intelligencia, completamente, +absolutamente satisfeita no goso d'uma determinada obra d'arte, sinto-o +eu hoje como no primeiro dia, ao ler as _Miniaturas_. + +O talento de Gonçalves Crespo soffreu com a idade, com as mudanças que +se deram no seu destino, com a acção tão complexa e tão profunda que a +Vida exerce em todos nós, transformações importantes e progressivas; no +emtanto para mim, e para muitos dos amigos dilectos do poeta, a mais +encantadora, a mais perfumada efflorescencia do seu espirito raro, será +sempre aquelle livro juvenil. + +Muito mais pessoal que os _Nocturnos_, o volume das _Miniaturas_ lança +uma luz mysteriosa e dulcissima sobre a figura singular, um pouco +extranha, que foi Gonçalves Crespo. + +Muito ao contrario do que geralmente succede, este artista, tão nervoso +e vibratil, teve a primavera da vida nublada por todas as sombras, e o +estio, de que a morte desfolhou as ultimas rosas, illuminado por todas +as suaves e tranquillas alegrias, que a vida póde conceder áquelles que +mais ama e a quem mais cedo tenciona abandonar. + +É por isso que os _Nocturnos_ de uma belleza de fórma incomparavel, +tocados ás vezes por um largo sôpro de epopeia, não teem senão a +espaços, a musica dolente, tão enternecida e languida, tão acariciadora +das almas tristes, que se prolonga e vibra em longos echos melancolicos +nas paginas das _Miniaturas_. + +Veja-se por exemplo _Alguem_, uma das peças que mais sympathias +conquistaram ao nome do poeta: + + + Para alguem sou o lyrio entre os abrolhos, + E tenho as formas ideaes do Christo; + Para alguem sou a vida e a luz dos olhos, + E se na terra existe é porque existo! + + Esse alguem que prefere ao namorado + Cantar das aves minha rude voz, + Não és tu anjo meu, idolatrado! + Nem, meus amigos, é nenhum de vós! + + Quando alta noite me reclino e deito + Melancolico triste e fatigado, + Esse alguem abre as azas no meu leito, + E o meu somno deslisa perfumado. + + Chovam bençãos de Deus, sobre a que chora + Por mim, além dos mares! Esse alguem + É de meus dias a esplendente aurora, + És tu, dôce velhinha, ó minha mãe!... + +N'estas quatro estrophes está retratada uma alma, estão contadas as +tristezas d'um destino, que mercê de Deus se desannuviou mais tarde, mas +no qual então se condensavam todas as melancolias intimas, todas as +duvidas sombrias, todas as amargas e silenciosas agonias da isolação. + +Nem a mulher que elle ama, nos passageiros caprichos da mocidade, nem os +amigos que o cercam, lhe matam a sêde de afféctos que o devora e +tortura; a mãe, a _dôce velhinha_, essa está longe, essa chora além dos +mares, essa nem o vê, nem o acaricia, nem dissolve ao fogo dos seus +beijos os gêlos da duvida, que tão cêdo crestaram todas as flôres da +mocidade na alma de Gonçalves Crespo. + +Nunca houve ninguem mais modesto, mais inconsciente do proprio valor, +mais desconfiado de si mesmo, mais dolorosamente torturado pela ideia +das suas imperfeições reaes ou imaginarias. + +Os requintados suplicios de que esta desconfiança foi origem, +manifestam-se bem mais nas _Miniaturas_ do que no ultimo volume do +poeta; por isso n'ellas a nota pessoal é mais vibrante, a commoção, por +ser mais sincera, é mais directa e mais contagiosa. + +Como documento psychologico para auxiliar a critica do poeta e do +artista, as _Miniaturas_ são de um valor incomparavel. + + +II + +A poesia de Gonçalves Crespo tinha origens complexas que é mister +analysar, para comprehender completamente a belleza e a sinceridade +palpitante da sua obra. + +Nascido no Brazil, n'esse clima ardente e languido, no seio d'essa +natureza exhuberante, que muito mais forte do que o homem, se lhe impõe +e o subjuga fatal e irresistivelmente, Gonçalves Crespo foi +transplantado,--pobre e delicada planta friorenta e morbida,--para uma +região em que nunca se poude acclimar bem. + +D'aqui, a doçura nostalgica, a saudade soluçante, que parece evolar-se +como um aroma capitoso das suas poesias _brazileiras_, taes como a +_Sésta_, _Na Roça_, _a Canção_, _Ao meio dia_, e mais tarde nos +_Nocturnos_, as _Velhas Negras_, etc., etc. + +Nem Gonçalves Dias, nem Alvares de Azevedo, nem Casimiro de Abreu, se +deixaram assim inspirar, tão sincera e vivamente, pelas scenas +familiares da vida brazileira, cuja graça pittoresca e especial dá um +cunho inteiramente novo aos versos de Gonçalves Crespo. + +E que o poeta tinha saudade--uma saudade que lhe estava no sangue, que +era parte do seu temperamento, saudade que era um instincto contra o +qual elle luctava em vão--de todos os esplendidos aspectos com que os +seus olhos, ao abrirem-se á luz, se tinham inconscientemente embriagado. + +Um dia de agosto, tropicalmente calmoso, passado no campo, á sombra das +arvores, dava-lhe uma excitação penetrante, envolvia-o n'um banho de +sensações voluptuosas. Sem mesmo dar por isso, era a lembrança tão viva +e tão dominadôra da patria longinqua, que produzia em todo o seu sêr +este effeito anormal. + +É isto ainda que se traduz na melancolia sonhadora e vaga, d'esse +pequeno poema, em que eu já fallei, intitulado as _Velhas Negras_. + + + Conheceram tanto dono!... + Embalaram tanto somno + De tanta sinhá gentil!... + + +Pódem as tristezas mudas d'uma raça escrava ser notadas com uma +subtileza maior, com uma doçura mais ideal!... + +A simplicidade que dá estes effeitos é que é a grande arte. + +Ao longe, evocados magicamente pela voz do poeta, surgem os brutaes +senhores, para quem as tristes filhas da raça negra foram o joguete d'um +instante, a distracção d'uma hora de tedio ou de preguiça, e ellas, +inconscientes, vagamente assombradas, tendo o pasmo silencioso d'um +destino extranho, a angustia sem expressão e sem formula d'uma +esmagadora injustiça, passaram de mão em mão, cumprindo o seu cruel +fadario, e embalando de vez em quando nos braços emmagrecidos ou +vergastados pelo azorrague do feitor, uma creança loura, rosada e +_branca_ que lhes sorria, dando-lhes n'esse sorriso a indefinida +revellação de alguma cousa de superior, de caricioso, de celeste!... + +Só n'um coração de filho, e de filho saudoso, de filho amantissimo, +pódem retratar-se, tão vivamente illuminadas, pódem destacar-se com tão +magistral relevo, scenas entrevistas um dia, nas horas da imprevidente e +distrahida infancia. + +E a _Sésta_? Qual é a leitora que não ficou sabendo a _Sésta_ de cor! + + + Na rêde, que um negro moroso balança, + Qual berço de espumas, + Formosa creoula repousa e dormita, + Emquanto a mucamba nos ares agita + Um leque de plumas. + + Na rêde perpassam as tremulas sombras + Dos altos bambús; + E dorme a creoula de manso embalada, + Pendidos os braços da rêde nevada + Mimosos, e nús. + ..................................... + ..................................... + O vento que passe tranquillo, de leve, + Nas folhas do engá; + As aves que abafem seu canto sentido; + As rodas do engenho não façam ruido, + Que dorme a Sinhá. + + +Como se vê bem que este languido rythmo, a vaga suavidade d'estes +versos, parecem feitos para acompanhar o movimento cadenciado e lento da +rêde, e embalar o sonho de alguma filha gentil d'esse paiz, em que o +clima dá ao corpo as preguiças infinitas, e a natureza luxuosa e +desbordante dá ao espirito a mollesa, o cançasso fatal d'uma permanente +lucta, na qual o homem é sempre vencido pela força inconsciente das +cousas!... + +Em Gonçalves Crespo havia pois a indolencia atavica, que elle só por +extraordinario e doloroso esforço era capaz de vencer temporariamente. +Por isso, emquanto as circumstancias excepcionalmente favoraveis lhe não +amenizaram a existencia, elle viveu sempre em absoluto desaccordo com o +seu meio. + +A _lucta pela vida_, essa lei brutal das sociedades modernas, esmagava-o +a elle, filho preguiçoso dos tropicos, artista quasi feminino, pela +graça delicada e fragil do engenho, pela caprichosa subtileza da +inspiração. + +E digo muito de proposito _inspiração_, apesar da palavra andar +proscripta dos modernos codigos artisticos. + +Gonçalves Crespo trabalhava minuciosamente, como o mais esmerado +operario, a factura dos seus versos, mas necessitava d'essa influencia +qualquer, superior e extranha, que póde vir ao artista do seu mundo +intimo, ou do mundo que o rodeia, que póde ser determinada pelo estado +especial dos seus nervos, ou que póde provir de mil causas externas e +independentes da sua vontade. + + +III + +Quando elle escreveu as _Miniaturas_, dando-nos nas confidencias talvez +involuntarias da sua alma, a revellação d'um artista adoravel, duas +grandes tristezas o opprimiam, tristezas que elle, seguindo talvez sem +dar por isso, o fecundo conselho de Goethe, transformou em poesia, que +será lida emquanto se fallar e se escrever portuguez. + +Eram-lhe hostis o meio physico e a atmosphera moral em que vivia. + +Para ser grande na Arte, creio eu, que é preciso antes de tudo, ser +sincero. Nunca ninguem logrou traduzir bem as dôres que não sentiu. + +Brutalidades inconscientes do Destino tinham feito d'este moço,--de uma +organisação nervosa como a d'uma mulher, accessivel, como os organismos +mais sensiveis á influencia de todas as sympathias, gostando de agradar +aos que viviam perto d'elle, impressionavel, desconfiado, sempre prompto +a julgar-se com severidade injusta,--um estudante pessimo, um filho +familia, quasi rebelde. + +Queriam que elle, a livre phantasia graciosa e borboleteadora, +caprichosa, e facil aos cançassos rapidos e aos tedios anulladores, se +cingisse ao estudo arido e disciplinador da mathematica; que elle, +exigente, doido por tudo quanto era bello, elegante, fino e distincto, +tivesse a economia calculista e minuciosa d'um mediocre ou d'um +grosseiro. + +D'aqui, as luctas de familia, os descontentamentos do homem +intelligente, que se vê injustamente julgado porque lhe prevertem as +faculdades em vez de as aproveitarem. + +Triste, isolado, sem affectos, descontente de si que não sabia +sujeitar-se ao destino, e descontente com o destino que tão hostil lhe +estava sendo, Gonçalves Crespo surprehendeu-se um dia a vazar no molde +perfeito dos seus versos, as melancolias intraduziveis até ali, do seu +pobre coração triturado e desconhecido. + +Teixeira de Queiroz, o consciencioso analysta dos _Noivos_, o ironico +observador de _Salustio Nogueira_, o pintor pittoresco e impressionista +da _Comedia do Campo_, escreveu na terceira edição das _Miniaturas_ um +prologo admiravel, um prologo por assim dizer _vivido_, que desenha com +singular vigor e com exactidão minuciosa a physionomia litteraria e +moral de Gonçalves Crespo. + +Elle que foi um amigo da mocidade e um amigo da ultima hora, que recebeu +as primeiras expansões do poeta e quasi que o ultimo suspiro do +moribundo, comprehendeu bem e soube bem traduzir, a estranha dualidade +moral que fazia de Gonçalves Crespo o mais alegre e o mais triste dos +homens. + +Porque muitos dos amigos d'elle, hão de morrer na falsa persuasão de que +o lado menos verdadeiro do auctor das _Miniaturas_ era a tristeza funda, +a magoa docemente resignada, que nas suas poesias transluzem. Tinham-n'o +por um alegre, um doidivanas de phantasia picaresca e de imprevistas +aventuras; formavam-lhe em volta do nome, sympathico a toda a mocidade +do seu tempo de Coimbra, como depois se tornou sympathico a todas as +classes sociaes de Lisbôa, uma lenda de bohemia extravagante, de ruidosa +e turbulenta alegria. + +Poucos o conheceram; poucos viram atravez da ironia bondosa e sympathica +do seu sorriso, da bonhomia um tanto sceptica da sua palavra, vivamente +e pittorescamente original, o verdadeiro homem que elle era. + +A mocidade corrêra-lhe tão desflorida e tão triste, que nem os dez annos +de tranquilla felicidade, de paz serena e dôce, toda illuminada de +affectos intimos, lograram cicatrisar feridas que se lhe tinham rasgado +no coração. E que ha mais triste, mais desolador para as almas grandes, +do que passarem n'este deserto de homens chamado o mundo, mal julgadas, +mal comprehendidas, mal interpretadas, tendo a consciencia de que +ninguem cura das suas dôres, ou se preoccupa com os seus intimos e +irremediaveis desconsolos?... + +As cartas do auctor das _Miniaturas_, as suas cartas inimitaveis e +incomparaveis, porque não conheci nunca quem escrevesse cartas mais +perfeitas--perfeitas de graça, de simplicidade, de desleixo +artistico--revelam-n'o, preza de melancolias incuraveis e extranhas. + +Tinha preoccupações e infantilidades de artista. Nunca chegou a perceber +a seducção irresistivel que exercia nos que o approximavam; nunca +comprehendeu que tinha, como poucos, o dom da sympathia subita que se +impõe, que domina e que vence. Se lh'o diziam sorria-se, com o seu +sorriso peculiar de que todos os amigos se lembram com uma saudade +enorme, feito de malicia e de duvida, de bondade e de ironia, sorriso +que era o encanto caracteristico e mysterioso d'aquelle rosto revolto, +expressivo e extranho, que tantos affectos inspirou na terra, que ficou +gravado em tantos corações que não esquecem. + +Esta duvida de si mesmo fazia-o soffrer. Nunca se consolou de pensar de +si proprio o que ninguem mais pensava. + +Encantadora fraqueza que o torna ainda mais nosso, que faz com que nós +as mulheres todas o amêmos, porque se não envergonhou de partilhar as +nossas pequenas vaidades, as nossas imperfeiçõesinhas organicas para as +quaes o homem tem tamanho e tão altivo desdem! + + +IV + +Tristezas quasi inconscientes do exilio, nostalgias de ave friorenta, +visões vagas, indistinctas, radiosas da patria ausente; desgostos de +ordem muito particular,--e a pairar sobre tudo isto, uma impressão +dolorosa, indefenivel, que nem aos mais queridos elle confessava, mas +que ungia de tristeza ineffavel os seus versos, que punha aqui e ali uma +nota abafada e dilacerante na harmonia magistral da sua obra,--eis a +triplice inspiração, que deu uma vida intensa ao seu primeiro livro, ao +livro da sua mocidade, que tão querido lhe tornou logo o nome aos +delicados de ambos os sexos. + +As _Miniaturas_ teem já dezesete annos, o que é muito para um livro de +versos d'este seculo, que fez da rapidez o seu programma e o seu mote, +que não estaciona em cousa alguma e muito menos no modo de exprimir o +que sente. + +Pois apezar de muitos poetas contemporaneos de Gonçalves Crespo terem +passado litterariamente, a geração que principia agora, lê as +_Miniaturas_ com o mesmo enlêvo com que as leu a geração que vae +envelhecendo já. + +É que a verdadeira poesia, a que não se filia servilmente em uma +qualquer escola transitoria e ephemera, mas a que exprime do modo mais +bello e perfeito que é dado á sua epocha conhecer, os sentimentos que +formam o fundo inalteravel da alma humana, não perde nunca o imperio que +um dia exerceu, atravessa os tempos immaculada e eterna; é hoje o que +será sempre, a fascinadora que nos enfeitiça, a amiga cariciosa que nos +embala, a confidente que nos ouve, e que chora comnosco... + +Muitos teem comparado Gonçalves Crespo a Theophile Gauthier, eu por mim +declaro que acho injusta a comparação. + +Theophile Gauthier é um perfeito joalheiro, um impeccavel burilador; +cada verso d'elle é uma pedra preciosa, facetada, brilhante, +admiravelmente engastada em ouro dos mais finos quilates. + +Para dar uma forma peregrina aos metaes preciosos, para esmaltar +deliciosamente as joias mais lindamente modeladas, ninguem excede o +auctor dos _Emaux et Camèes_. Elle proprio o sabia e nunca desejou mais +nada. + +Em Gonçalves Crespo porém, havia mais do que isto. Havia uma alma +transbordante de vida, capaz de comprehender e de traduzir os mais +delicados cambiantes, as mais rapidas modalidades das outras almas. + +Que intuição que elle tinha de todas as dôres, mesmo das mais extranhas +ao espirito e ao coração d'um homem!... + +Lembram-se d'aquella perola de tristeza chamada _Arrependida_? + +_Ella_ deixára tudo para correr atraz da sua chimera e um dia desperta +perdida, irremissivelmente perdida no abysmo de infamia a que uma mão de +homem a arrastou: + + + Ella scisma ao luar! Todo o passado + A seus olhos avulta, illuminado + Pelos dubios reflexos da tristeza... + + Por uma noite assim, limpida e clara, + Sua modesta alcôva ella deixára + Por esse que ali dorme, e que a... despreza! + + +Que sobriedade de mestre! que melancolia femenina! que profunda +comprehensão d'uma dôr, que toda a emphase, toda a phrase diminuiriam +forçosamente! + +Tentar conhecer o céu do amor completo, do amor heroico, do amor feito +de sacrificios superiores e de abnegações infinitas e cahir no lodo... +Só um poeta sincero como Gonçalves Crespo saberia notar em dois traços +esta agonia silenciosa e sem termo... + +O que distingue particularmente o auctor dos _Nocturnos_ dos outros +poetas da sua indole, é a ligeireza do traço, é o vago que parece +envolver n'uma luz cerulea e dubia, n'um vapor transparente--e +comparavel ao que á tarde envolve e esbate suavemente as montanhas,--as +suas concepções mais perfeitas. + +Não é possivel que ao lêl-o a imaginação se detenha apenas na pagina do +livro e o não siga ás regiões de que elle tinha como ninguem a iniciação +e o segredo. + +Previlegiados entre todos, os poetas que fazem sonhar; os que teem na +mão a chave de oiro, do paiz azul habitado pela Chymera! + + +V + +Os _Nocturnos_ pertencem a uma phase inteiramente diversa, mais +pacificada, mais tranquilla, mais perfeita, da vida do homem e da vida +do escriptor. + +Sem ter perdido nenhuma das suas qualidades de graça delicada e mimosa, +nenhuma das subtilezas finissimas do sentimento e da expressão, nenhuma +d'aquellas notas dolentes da alma creoula, que tão singular e tão +fascinador o tornam para nós, Gonçalves Crespo attinge por vezes a +amplidão magestosa e grave, tem o largo folego heroico, que nas +_Minaturas_ ainda se não pressente. + +Na evolução progressiva do seu genio poetico, elle subiu mais um gráu. + +Nenhum segredo da forma lhe é defezo. Conquistou, venceu, domou +inteiramente a caprichosa, que já não ousa, como a Galatheia do poeta +latino, sumir-se entre os salgueiros acenando-lhe de longe. + +A _Morte de D. Quixote_, a _Resposta do Inquisidor_, as _Primeiras +lagrimas d'El-Rei_, a _Ceia de Tiberio_, prenunciam um poeta feito para +os largos commettimentos, um poeta que marcaria o seu logar n'este +seculo, com algumas d'essas obras que são a gloria d'uma raça, se a +traiçoeira morte não viesse em plena virilidade de annos, em plena +alegria de trabalho, arrancar-lhe das mãos a penna prodigiosa. + +As traducções de Henrique Heine são no volume dos _Nocturnos_ das joias +mais deliciosamente trabalhadas. + +A inspiração meridional entrelaça-se de tal modo com a melancolia +fugitiva e doce, com a ironica tristeza da musa germanica, que no dizer +de alguem, o _Intermezzo_ apparece ali como a obra d'um Heine, mais +completo, d'um Heine a quem não faltasse uma só nota na sua vasta alma +de homem! + +Poucos espiritos tambem, seriam talhados mais de molde para entenderem +Heine e dar-lhe por assim dizer uma feição nossa. + +É que a ironia que ressalta naturalmente das cousas, a ironia que não é +nem uma blasphemia nem um soluço, mas sim o reconhecimento pacifico, +tranquillo e triste das desconsoladoras verdades humanas, existe em +Gonçalves Crespo na sua forma mais exquisitamente delicada, mais +requintadamente artistica. + +Como não havia elle pois de entender aquillo que é a propria essencia do +genio do poeta allemão! + + +VI + +Já no leito, onde agonisou com divina resignação dois longos mezes, e +onde parece que o seu espirito de poeta assumiu uma forma ainda mais +idealmente melancolica, Gonçalves Crespo escreveu com a mão tremula de +doente um soneto consagrado aos annos d'uma gentil senhora, nossa +querida amiga, por quem elle tinha o mais respeitoso dos affectos, em +cuja casa hospitaleira elle encontrou sempre um acolhimento fraternal. + +Essa senhora é a Condessa de Sabugosa, mulher do amigo, talvez mais +ternamente amado por Gonçalves Crespo. + +Seria lastima conservar para sempre inedito este soneto que tem para mim +um triplo encanto. O perfume _camoeano_ que o impregna deliciosamente, a +tristeza dulcissima, que elle respira, e a melancolica circumstancia de +ser o ultimo que cahio, como uma perola solta, da lyra quasi partida do +poeta moribundo. + +Eis o soneto: + + + Na quadra azul da mocidade, a gente + Parte rindo e cantando, estrada fóra, + Gorgeia a cotovia em cada aurora, + Suspira á noite o rouxinol dolente. + + Ai! Ditoso o que parte alegremente, + O que não vio aproximar-se a hora + Em que é força volver atraz... embora + Nos arfe o seio de illusões fremente. + + Para ti ainda existe o sonho alado, + A fé robusta, e a candida alegria + Que nos chovem do céu claro e estrellado. + + Nunca sejas forçada, flôr, um dia + A erguer, chorando, o braço fatigado + Em busca da ventura fugidia... + ......................................... + ......................................... + + +A morte não consentiu que elle subisse aonde podia subir, que elle se +affirmasse como se poderia ter affirmado. No emtanto, todos os que teem +este sexto sentido divino, pelo qual, mesmo apezar dos desenganos que a +vida encerra, vale a pena em todo o caso ter vivido, hão-de ler com +intimo prazer os dois volumes do encantador poeta de _Alguem_. + +É verdade que elle não respondeu a todas as interrogações que o nosso +espirito se achou no direito de fazer-lhe, mas não respondeu porque o +tempo lhe não deixou cumprir as mil promessas que a sua mocidade nos +fizera. + +E hoje que elle partiu para o paiz mysterioso d'onde ninguem voltou, e +para onde, na tristeza ou na alegria, convergem os nossos olhares +anciosamente prescrutadores, voam as nossas saudades n'um impeto de +lagrimas, eu releio aquella soberba e indecifravel _Sara_, e pergunto a +mim mesma se debaixo da forma esculpturalmente pagã dos versos, se não +abriga um sentido occulto, um mysterioso symbolo... + +Que ardente espiritualismo, tenaz e apaixonado, na carnalidade apparente +d'esse poema! + +Quanta dôr n'aquella aspiração, sempre trahida, de encontrar uma alma, +no bello corpo insensivel que elle, como Pygmalião, quereria animar d'um +divino sopro! + +Na sua violenta sêde de perfeição, dolorosa e alanceadôra como poucas, +nunca o poeta das _Miniaturas_ e dos _Nocturnos_ teve o contentamento da +sua obra! Nunca achou que a Musa, que elle beijava, tivesse a vida, o +fogo sagrado, que n'esse beijo fecundador a sua alma anceava +communicar-lhe! + +Era um insaciavel! + +Nunca a Arte nem a vida o contentaram, a elle que teve todas as caricias +luminosas da Arte, e todos os affectos sãos que a Vida póde dar e que a +Vida só dá a rarissimos dos seus escolhidos... + +Mas não estará n'esse eterno descontentamento, n'essa aspiração +incansavel ao desconhecido, o signal mais caracteristico da sua +grandeza?... Eu creio que sim. + + + + +_RAMALHO E EÇA_ + + +I + +O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA + + +Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz acabam de apresentar ao publico +portuguez e brazileiro, ou, antes, de _consentir_ que lhe seja +apresentado por um editor intelligente, o livro da mocidade de ambos, +que ha quatorze annos teve em Lisboa um successo de curiosidade e depois +de enthusiasmo, quando foi publicado dia a dia nos folhetins do _Diario +de Noticias_. + +Foi n'essa occasião, e não no livro que depois saiu a lume, que eu li o +romance, e lembrava-me, como toda a gente, da impressão immensamente +grata, que essa obra improvisada, escripta _à la diable_, tinha +produzido em mim. + +Fui, portanto, como é natural, uma das primeiras compradoras do volume, +e, decerto, não fui, de todas as que o teem lido n'estes dias, a menos +interessada e curiosa. + +Queria saber, antes de tudo, se estava muito mudado o meu gosto +litterario, se o _romance experimental_, o _romance naturalista_, o +_documento humano_, e o estudo frio, analytico, impessoal, das miserias +d'este mundo, me tinham de todo roubado a sensibilidade e a paixão, que +a mulher tem no espirito, ainda que as não tenha em mais nada. + +Felizmente não succedeu assim! + +Eu que devoro os romances dos Goncourts, eu que admiro a força +_rembrandnesca_ de Zola, eu que me sinto fascinada deante da obra de +Flaubert, e que espero muito de Guy Maupassant, o dilecto discipulo, o +continuador convicto do grande romancista morto, que escreveu a +_Bovary_--eu posso ainda gosar intensamente um improviso qualquer da +mocidade, em que a sensibilidade e a imaginação predominem. + +Como eu gostei ainda hoje do _Mysterio da Estrada de Cintra_! + +Infelizmente, conheço-lhe os defeitos innumeros, cousa que não conhecia +ha quatorze annos; percebo bem onde os dois auctores foram beber a +inspiração de muitas d'aquellas paginas mais brilhantes; estou vendo +claramente as inverosimilhanças flagrantes, as falsidades, os +_pastiches_, e, ante a critica da minha envelhecida rasão, educada por +Taine, entendo, como entendem os auctores do romance, que o romance é +execravel! + +Tão indesculpaveis seriam os dois valentes athletas da moderna +litteratura portugueza se fizessem hoje um livro assim, como seria +lamentavel e triste que elles o não tivessem feito, quando ambos eram +moços! + +A par das imperfeições, quantas bellezas! que perolas de sentimento, de +imaginação, de fina graça, de sonhadora melancolia!... + +São falsos os personagens?! + +De accordo; são falsissimos! mas são muito sympathicos! + +Não ha nenhum de quem eu hontem, depois de ler o livro de um só folego, +me não despedisse com uma certa saudade! + +A _condessa W._ é uma condessa perfeitamente talhada n'um velho molde +romantico. + +Já não ha em parte alguma _condessas_ assim! + +No mundo real nunca ninguem as viu; no romance moderno encontra-se de +tudo, menos d'aquellas doces mulheres encantadoras e apaixonadas, +arrebatadas e elegantes. + +Paciencia. + +Eu não a queria, decerto, para minha irmã, nem para minha amiga, mas +gosto de a vêr assim de longe, na perspectiva que lhe faz o pincel +prestigioso dos dois escriptores. + +É verdade que ella não passa de uma ociosa e de uma hysterica; não tem +rasão, não tem vontade, não tem principios, não tem heroismos de +luctadora; moralmente, não vale nada aos meus olhos; artisticamente, +encanta-me! + +É uma creatura que ama, que soffre, que se mata nas duras penitençias de +um claustro mais apertado e mais duro que uma cadeia, e que nas suas +agonias impetuosas, nas suas dôres, nas suas ardentes aspirações á +felicidade impossivel, se não parece nada com as detestaveis heroinas, +inconscientes ou perversas, da moderna litteratura latina, tão +desconsoladora, tão dura, tão cruel! + +Mas valerá ella mais, por ventura, do que essas valem? perguntas-me tu, +leitora! + +Vale, sim! + +Valem mais as que amam que as que vivem na inercia indifferente do +coração! valem mais as que padecem que as que se deixam viver +tranquillas na baixesa ignobil do peccado! valem mais as que se +arrependem que as que nunca perceberam que erraram! + +Decerto, que em face das leis immutaveis do Dever, nenhuma pode ter a +absolvição social; no emtanto, ao menos esta, coitada! tem a sinceridade +da sua paixão, tem o encanto vivo, penetrante e communicativo do seu +fatal amor! + +Não discutamos, porém, a moralidade do romance; essa lá lh'a pozeram os +auctores na morte e na clausura voluntaria das duas desatinadas +heroinas. + +Discutamos simplesmente a sua belleza artistica. + +O _Mysterio da Estrada de Cintra_ tem paginas, como nunca mais os dois +homens, que as escreveram, tornaram ou tornarão a escrever. + +Penetra-as o insubstituivel, o capitoso aroma da mocidade; são sentidas, +são quentes, são tremulas de ternuras, são flammejantes de paixão! + +O conjuncto da obra, é claro que é inferior a tudo que elles tem feito +depois: ao _humour_, á fina e aguda observação, á critica mordente, á +analyse incisiva, ao estylo poderoso e vivo das _Farpas_, do _Primo +Bazilio_ e do _Crime do Padre Amaro_, e dos folhetins ultimamente +escriptos para um jornal do Brazil;--mas, apesar de tudo, ha graças e +desleixos que o artista só tem na flor inexperiente e virginal do seu +talento, e que mais tarde são compensados por meritos mais distinctos, +por qualidades superiores, pela firmeza magistral da penna, do buril, ou +do pincel, mas que nunca mais podem ser substituidos! + +Como as distinctas individualidades dos dois escriptores se destacam bem +nas paginas do romance! + +A phantasia, o magico poder do estylo de Eça de Queiroz, resaltam ao +lado da critica mais philosophica, da observação mais penetrante de +Ramalho Ortigão. + +A morte de Carmen, a caçada na India, escreveu-as Eça com a penna que +mais tarde, convertida ao realismo, contará a agonia de Luiza, a +burgueza peccadora, e as _soirées_ de Leiria, entre padres e devotas; a +carta de Rytmel á condessa, a descripção do claustro no Minho, as +reflexões da pobre amante desvairada, antes da fuga que ia roubal-a para +sempre á sociedade em que ella tinha vivido, á casta a que pertencia, +revelam já todas as qualidades do espirito observador e amante do +pittoresco, que fez de Ramalho Ortigão um dos melhores criticos de +costumes da litteratura contemporanea. + +A publicação d'este formoso romance arrancou, por uns dias a somnolenta +Lisboa ao seu indifferentismo systematico por tudo que seja questão de +lettras ou questão de arte. + +Nas salas discute-se com immenso interesse o enredo do romance, o seu +estylo, o contraste que elle faz com as publicações posteriores dos dois +grandes artistas que o firmam. + +Marcam-se as diversas _étapes_ que percorreu o espirito de ambos; e +faz-se d'este modo uma critica litteraria, bem mais facil do que a que +podia ter sido feita ha quatorze annos, quando o livro appareceu pela +primeira vez, revelando, a quem sabe conhecer estas coisas, dois +escriptores de raça. + +Os homens, como é natural, interrogam insidiosamente as senhoras a +respeito do que ellas pensam das duas heroinas do livro. + +Elles, já se vê, gostam todos muito da Carmen, um typo estranho, muito +menos real que o da Condessa, mas que, ainda assim, n'este momento em +que tanto estão attrahindo as attenções do publico as _mulheres que +matam_, tem uma certa opportunidade e uma certa verosimilhança. + +A Condessa, porém, tem a sympathia occulta das austeras e a sympathia +declarada das temerarias... + +Ninguem quereria imital-a, todas a comprehendem mais ou menos. + +É uma desequilibrada, uma doente. + +A paixão entrou na vida d'ella, como entra um pé de vento n'uma casa mal +abrigada. + +D'ahi a revolução, d'ahi o desmoronamento. + +Não nascêra para o peccado, não. + +Era fina, era delicada; tinha o amor e o desejo de todas as harmonias +moraes e sociaes; tinham-n'a educado correctamente, convencionalmente; +houve quem presumisse na vida da pobre creatura todas as hypotheses, +menos a de um sentimento real e sincero. + +Foi esse que appareceu; que surgiu fatalmente, chamado por uma serie de +circumstancias imprevistas; e como não poude ser na alma d'ella o bom +pão que alimenta, foi a cicuta que empeçonha e mata! + +É uma peccadora, bem sabemos, mas emfim é uma mulher! + +Cumpre-nos a nós fazer com que as nossas filhas sejam mulheres, sem +serem peccadoras; amem, sem que o amor as diminua e amesquinhe, antes +auxilie o desenvolvimento, são e natural, de todas as suas forças e de +todas as suas faculdades! + +Se nós nos mettessemos de boa fé n'esta empreza tão grande de pôr na +vida o romance, sem lhe pormos ao mesmo tempo o peccado?!... + +Realmente a litteratura, que é sempre o exacto reflexo das tendencias +moraes e sentimentaes de uma dada época, está accentuando cruelmente e +demasiadamente o principio de reacção, que em começo foi justo e foi +racional, contra os desmandos nebulosos do romantismo, contra a +sensibilidade, exaggerada, _lamartineana_, da nossa mocidade. + +Não seria tão bom que, depois d'estas tristes tentativas experimentaes, +que os proprios mestres vão realmente abysmando nos lodaçaes mais torpes +da palavra, do estylo e da idéa, apparecesse emfim a litteratura que +retractasse o homem--o homem complexo, o homem _ondoyant_ e _divers_, +tal como o viu Montaigne, o homem bom e mau no mesmo dia e ás vezes na +mesma hora, o homem capaz de baixezas e de heroismos, de vicios e de +abnegações insolitas, o _homem_ n'uma palavra--estranho mixto do que ha +de mais bello e do que ha de mais ignobil?! + +Não teriam então os detractores da _escola naturalista_ razão para dizer +que ella, sendo em principio tudo quanto os seus sacerdotes maximos +apregoam e proclamam de scientifico, de grande e de verdadeiro, não +passa, na pratica, da escola das feias palávras e das acções ainda mais +feias. + +O verdadeiro naturalismo seria então creado pela primeira vez, tal como +Shakespeare o presentiu no seu espirito barbaro e sublime, tal como +Balzac o realisaria se não houvesse morrido no extazi mal definido ainda +do seu descobrimento genial! + +A litteratura do nosso tempo dar-nos-hia o homem e a mulher que nenhum +outro seculo conheceu, e sobre os quaes tem reagido, de um modo estranho +e tão difficil de analysar completamente, a influencia da nossa +collossal e desequilibrada civilisação, feita de tantas duvidas, de +tantas affirmações, de tantos problemas insoluveis... + +Evitar o estudo das exaggerações morbidas, dos casos _pathologicos_, das +aberrações mentaes, das enfermidades que pertencem ao dominio da +sciencia, não seria no fim de contas o unico meio de rehabilitar a +_Arte_ da dependencia, em que ella parece querer estar, do amphitheatro +dos hospitaes, ou da enfermaria dirigida por Charcot? + +O organismo do homem moderno, na sua complexidade maravilhosa, na enorme +e labyrinthada complicação que lhe dá hoje o desenvolvimento do seu +cerebro e dos seus nervos, é realmente um estudo difficilimo, um estudo +que abrange todos os outros e que exige a analyse penetrante, fina e +subtil do physiologista, a observação larga, profunda e sympathica do +philosopho, a flexibilidade ondeante, o sopro creador do artista de +genio. + +Realisar o programma imaginado pelos mestres da arte contemporanea, é +bem menos praticavel de certo do que passar ao lado d'elle, como elles +até aqui teem feito. + +É porque lhes falleceu a coragem para essa empreza de gigantes que elles +teem convertido, a pouco e pouco, o seu _naturalismo_ n'uma especie de +romantismo ás vessas. + +Salvo excepções esplendidas, que são os milagres da moderna arte, os que +d'antes faziam anjos, fazem agora monstros! Os que se davam ao trabalho +de modelarem as suas estatuas no gello immaculado das alturas, +amassam-n'as hoje no barro viscozo dos lodaçaes. + +E a verdade onde fica?!... + +A mim parecem-me tão pouco humanas as sylphides de Lamartine, como as +femeas inconscientes de Zola. + +Entre ellas está a mulher. Porque a não procuram? porque é que a não +retratam, ou antes, porque é que a não criam? + +Esperemos que a litteratura deixe de ser uma escola d'isto ou d'aquillo, +uma reacção contra isto ou contra aquillo. Que ella seja serena como a +verdade, e será emfim humana; que elle nos pinte quaes nós somos, e +poderá então chamar-se natural. + +É muito bom estudar as _miserias da nossa rua_, na phrase pittoresca de +Eça e de Ramalho; mas, por Deus! parece-me demasiado restricto esse +ponto de vista! + +Imagine-se que os escriptores escolheram uma rua infeliz, uma rua +povoada de remendões e de vendedoras de peixe!... + +Parece-me isso um pouco o caso de alguns dos grandes romancistas +contemporaneos! + +Nunca me poderei chegar a convencer que abrir as paginas de um livro +corresponda a ir visitar um hospital; que folhear um romance me dará +conhecimentos eguaes aos que me daria a estatistica do _alcoolismo_, ou +a de outro qualquer dos grandes vicios modernos. + +A ignorancia é, de certo, minha, que sei pouquissimo, e que vou +aprendendo cada vez menos. + +Em todo o caso, obrigada ao _Mysterio da Estrada de Cintra_, que me +repousou um pouco da _má companhia_ a que os mestres me teem habituado +ultimamente. + + + + +_RAMALHO ORTIGÃO_ + + +II + +A HOLLANDA + + +Desde que eu li a _Hollanda_, e devo ao auctor a immerecida e lisonjeira +distincção de ter podido ler um dos primeiros volumes publicados--desde +que li d'um folego este livro, verdadeiramente encantador, sinto em mim +o desejo, quasi que a necessidade de fallar a respeito d'elle. + +Será que eu julgue auctorisada e util a minha apreciação? + +Não, decerto. + +O que eu tenho é o irresistivel desejo de conversar com esse numero mais +ou menos restricto de amigos desconhecidos, que todo o escriptor, por +modesto e humilde que seja, tem a certeza, de possuir, ácerca d'essa +obra superiormente bella, e que, apezar d'um tanto phantasista me parece +consoladora e sã, fortificante e boa. + +Mas, se eu sentia em mim essa vontade persistente e tenaz, porque é que +a não tenho realisado ha mais tempo? + +Simplesmente pelo motivo, porque hoje mesmo hesito em o fazer. + +Ha receios, que se não vencem senão a muito custo, tanto mais teimosos, +quanto mais prolongado foi o tempo em que os deixamos actuar sobre o +nosso espirito. + +Depois ha livros _suggestivos_, que fazem pensar; que despertam em nós +um turbilhão de idéas, de pensamentos difficeis de definir e de fixar +bem, mas que tambem nos acordam contradicções que talvez pareçam +ousadias, criticas que talvez o publico julgue pouco auctorisadas e, por +isso mesmo, imperfeitissimas. + +Estes livros seduzem-nos, captivam-nos, mas assustam-nos um pouco, como +alguma coisa de poeticamente concebido e realizado, que fica para álem +dos dominios reaes em que nos sentimos á vontade. A _Hollanda_ pertence +a este numero de trabalhos, felizes e perigosos, encantadores e um pouco +falsos. + +Parece um bom companheiro de jornada que nos arrasta, abrindo-nos a cada +instante horizontes intellectuaes só intrevistos de muito longe, +rasgando-nos amplas janellas para o claro espaço, despertando-nos, com +as suas observações quotidianas, um mundo inteiro de sensações +adormecidas, mas ao pé dos quaes uma pessoa se sente desconfiada, +temendo o demasiado prestigio, de imaginação, o optimismo excessivo do +viajante... + +E no emtanto não é como muitos julgarão, uma simples narrativa de +viagem; é uma obra de arte e de moralidade. + +E n'este momento dubio e _atormentado_ da nossa nacionalidade, momento +que uns julgam de irremediavel decadencia, outros de vigoroso +renascimento mental, este livro que nos conta com a magia incomparavel, +estranha e captivante do seu estylo, a historia d'esse pequeno povo, +muito mais pequeno do que o nosso, que á sua poderosa força de +resistencia, que á sua intemerata energia deveu o grande papel que +representa na historia da Civilisação, este livro d'uma factura tão +magistral, affigura-se-me, apezar dos seus pontos de vista, nem sempre +rigorosamente justos, uma obra eminentemente e grandiosamente +patriotica, uma fecunda lição indirecta, um appello ao que ha de mais +nobre e de mais reconditamente sagrado na alma de uma collectividade +nacional. + +É sob estes diversos aspectos que elle tem de ser julgado pela critica. + +Eu, porém, não venho julgal-o, o que seria pretenção; venho +simplesmente, como já disse, conversar a respeito da impressão luminosa +e profunda que elle deixou em mim. + +Ha muito que Ramalho Ortigão é considerado um dos melhores criticos de +costumes, um dos melhores coloristas da moderna arte; sabia-se que a sua +faculdade predominante, essa faculdade da qual, no artista, todas as +outras derivam, e na qual todas as outras se filiam, era a de _ver_ o +aspecto exterior das coisas com uma nitidez, uma precisão, uma +minudencia e ao mesmo tempo uma largueza de observação, que podem +chamar-se verdadeiramente geniaes. + +Ora _ver_ em todas as suas formas multiplas, sob todos os seus aspectos +variados, na complexidade das suas linhas, no relevo dos seus contornos, +na harmonia da sua côr, uma porção de arte ou uma porção de natureza; e +saber transmittir vigorosamente, originalmente as infinitas impressões +recebidas pelos olhos ao espirito de quem o lê,--esta faculdade tão rara +e tão estranhamente difficil, que constitue talvez um dom de +temperamento impossivel de adquirir-se pelo estudo ou pela vontade, +basta só por si para singularisar e caracterisar um artista, e é esta, +sem duvida, a grande faculdade de Ramalho. + +Nunca, porém, as suas qualidades de estylo se revellaram tão largamente, +a uma luz mais ampla, mais bella, mais intensa, do que n'este livro que +em todas as litteraturas seria justamente considerado uma obra bella, e +que hoje, na nossa, é um verdadeiro milagre. + +Na _Hollanda_ o paysagista, o pintor que fixa na tela, com realidade +triumphante, as suas impressões ainda as mais rapidas, o coração honesto +e enthusiasta, que vibra, apaixonado, ao contacto de todos os bellos, +grandes e puros ideaes humanos; o artista que se embriaga com os +espetaculos sempre novos da Natureza, revellam-se egualmente com a mesma +felicidade e com a mesma pujança dominadora. + +O humorismo tão singular, d'uma tão contagiosa e communicatica +influencia, que transparece habitualmente em todos os trabalhos de +Ramalho Ortigão, esse não faz mais do que polvilhar finamente, aqui e +acolá, com uma poeira diamantina e translucida, as paginas d'este livro, +que marca uma hora de enternecimento dôce e de viril enthusiasmo na vida +do escriptor. + +Como faz bem ao espirito desconsolado pelo espectaculo do cynismo +universal, da indifferença dissolvente, ironica e desdenhosa, esta nobre +explosão de fecunda sympathia, esta nota de commoção penetrante, que se +levanta, n'uma especie de impulso heroico, convidando á lucta, +convidando ao trabalho, convidando aos gosos austeros que dá o accordar +da consciencia, e tendo apenas a _felix culpa_ de exaggerar um pouco o +bem que viu, e talvez de carregar em demasia o mal que se presenceia +diariamente na nossa pobre patria, bem digna de melhor sorte... + +A ironia de Ramalho Ortigão, d'um relevo poderoso, d'uma subjugadora e +victoriosa alegria, todos nós a conhecemos desde muito. + +D'essa ironia, de que chispam relampagos multicores, fez elle a sua +melhor arma de combate, contra a tolice, contra o erro, contra a +vulgaridade, contra o ridiculo. + +O que nós não sabiamos porém, é que elle, que pode rir assim, podia +egualmente arrancar, pela commoção communicativa da sua palavra, em que +o enternecimento põe modulações deliciosas, lagrimas aos nossos olhos, +flores de poesia ao nosso coração. + + * * * * * + +Antes de mais nada, eu devo confessar que o meu temperamento, a minha +indole, o feitio especial da minha imaginação, me tornariam +absolutamente inapta para comprehender e admirar a nação hollandeza, +senão vista e descripta pelos olhos peninsulares e pela phantasia tão +eminentemente latina, tão colorida e illuminada, de Ramalho Ortigão. + +Se eu fosse á Hollanda, voltava de lá, estou certissima, sem ter visto +coisa nenhuma do que o illustre escriptor lá viu, a não serem, talvez, +alguns d'aquelles _primeiros aspectos_, tão adoravelmente descriptos por +elle, e em que, mais d'uma vez, a sua ironia deliciosa espreita +sorrateiramente o leitor, como a avisal-o de que é necessario, apesar de +tudo, contar sempre um bocadinho com ella, de que pode estar um pouco +adormecida, levemente anesthesiada... mas que, emfim, está muito viva, +graças a Deus, e não espera morrer tão cedo. + +Cada vez me convenço mais de que ha antagonismos de raça ineluctaveis, +visto que eu, depois de ter lido, verdadeiramente vibrante da feliz +sensação de _admirar_, n'esse prazer de intelligencia que uma bella obra +de arte nos produz, o livro de Ramalho Ortigão, me não decidi a fazer a +minha malla, a pegar nos meus dois filhos pela mão, e a ir viver para +todo o sempre na Haya ou em Amsterdam... + +Não me decidi, não; não me decido, e era capaz de apostar que Ramalho +Ortigão, apesar de ter voltado da Hollanda, como incontestavelmente +voltou, moralmente fortalecido e engrandecido intellectualmente, rico de +preciosissimas acquisições novas, que definem e accentuam largamente o +seu progresso mental, ainda assim não deixaria, por ella, o nosso céo +azul d'uma luz tão suave, o nosso clima amollecido e doce, a preguiçosa +facilidade com que a vida nos emballa n'este cantinho de terra abençoado +pela natureza, que o Oceano beija, lambe e acaricia, em cujas praias de +areia dourada elle canta o seu grandioso canto de liberdade, mas contra +o qual elle não investe em furia, obrigando o homem á eterna +resistencia, á eterna lucta, á eterna e fatigante heroicidade... + +O Oceano não foi para nós o mestre rigoroso, severo, exigente, +implacavel, que disciplinasse a nossa alma e o nosso corpo no exercicio +permanente de uma força e de uma tenacidade mais que humanas! + +Elle imprimiu á nossa imaginação, ondulante e scismadora, a mysteriosa +saudade que das suas profundezas desconhecidas se evola, com um effluvio +de sonho! + +Elle fez-nos os poetas de uma epopeia rapida, os aventureiros +inconstantes de uma phantasiosa conquista. + +Tambem a _griffe_ d'esse leão indomado pousou na nossa alma nacional, +mas que diverso o modo porque elle influiu em nós! + +Bem sei que moralmente valem mais, incomparavelmente mais, as nações e +os individuos que fazem o seu destino, que o subjugam, que o +transformam, que o modificam, que o dominam, do que aquelles que o +acceitam passivamente, n'uma inercia inutilmente contemplativa. + +Mas, sob o meu ponto de vista feminino, que de certo não é o mais +intrepido, que melhor não é deitar-se a gente ao sol, na areia luminosa, +emquanto a vaga azul, coroada de espumas brancas, vem espreguiçar-se +humilde aos nossos pés, vem lamber, vencida e cariciosa, a orla dos +nossos vestidos, do que ter dia a dia, hora a hora, momento a momento, +de disputar ao _grande inimigo_ torvo, mysterioso, sombrio, que uiva, +eternamente agonisante, a sua lamentação tragica, o sólo movediço e +traidor sobre o qual construimos o nosso lar sagrado!... + +É enorme, porém, bem o sei, a lição dada ao mundo por essa raça +athletica e fleugmatica que a natureza educou, fortificou moralmente, e +que ao mesmo tempo livrou do erro sympathico de ser imaginativa e +cogitadora como nós. + +Se ella, em vez de luctar com as temerosas ondas, se pozesse a +contemplal-as de braços cruzados; se ella, em vez de indagar +scientificamente os meios mais proficuos de vencer a permanente invasão +das aguas, e de as aproveitar na cultura especial dos seus campos, se +lembrasse apenas de fazer ao mar as odes mais soberbas e inspiradas, não +existia já decerto, ou, se existisse, não tinha nem uma só das fortes +qualidades que distinguem essa honesta, essa trabalhadora, essa robusta, +séria e pezada Hollanda! + +As nações são aquillo que as fazem as condições do seu sólo, os +phenomenos do seu clima, a sua structura geographica, o temperamento e a +origem da sua raça. + +A Natureza, hostil, ensinou a esta o calculo, a previdencia, a +tenacidade inquebrantavel, e tambem, deixem-me accrescentar, o frio e +arido egoismo nacional; a humida vaporação eterna dos seus canaes e dos +seus rios deu-lhe o amor intelligente dos _interiores_ confortaveis, +commodos e aquecidos, em que a Arte põe a sua nota soberba e luminosa, +ou a bonhomia intima e doce dos seus aspectos; a lucta continua e +ininterrupta para salvar do perigo a familia perpetuamente ameaçada, +levou-a a sentir por esta um amor mais vivo, mais profundo, mais +recatado e penetrante, ungido de protecção enternecida e de casto +embevecimento, mas tambem um d'estes amores absorventes que não deixam +logar para a sympathia universal, de que outras raças são superiormente +inspiradas! + +Todas as virtudes e energias, todas as bellas qualidades _humanas_ e +sympathicas, de que Ramalho Ortigão nos faz no seu livro a attrahente +pintura, todos os defeitos tão graves que não quiz vêr, mas que existem +n'ella, deve-os a raça neerlandeza justamente a essa tensão de vontade +que ella exerce incansavelmente desde seculos, e que tanto lhe modificou +a indole primitiva. + +E apesar de eu sentir que ella nos é superior em tanta maneira, porque é +que me não resolvi ainda a ter-lhe um bocadinho de affecto? + +Não sei! É talvez um capricho de mulher, indigno de manifestar-se á luz +do dia, _irracional_, como tanta cousa feminina; mas que eu teria +escrupulo de não confessar aqui, com intrepidez heroica. + +Não é na verdadeira Hollanda--não direi na Hollanda em _carne e osso_, +mas em agua e lodo!--que eu gostaria nunca de viajar. + +Na outra, sim. Na _Hollanda_ de Ramalho Ortigão, n'essa fulgurante e +magnifica _Hollanda_, tão deliciosamente phantasista, perco-me eu a cada +instante n'um enlevo de admiração sentida, e é das suas paginas, +coloridas como um quadro de Rembrandt, que eu tento dar, aos que as não +leram ainda, uma idéa, posto que imperfeita, remota, incompletissima. + + * * * * * + +O estylo d'este livro é uma verdadeira festa para o ouvido, e direi +mesmo para os olhos; tanto as palavras teem n'elle uma côr, um relevo, +um encanto, estranhos e indiziveis. Ha periodos que são quadros. + +Parece que o escriptor poz na sua palêta todas as côres, na sua pintura +todos os tons, toda a luz do sol no objecto que contemplou. + +Nunca a lingua portugueza adquiriu flexibilidade mais ondeante, energias +mais dominadoras, graça mais sinuosa e mobil, ondulações mais +serpentinas, rythmo mais harmonioso, poder mais intenso, vitalidade mais +estranha. + +Esta lingua, que modernamente poucos operarios teem affeiçoado para as +exigencias multiplas e caprichosissimas da Arte contemporanea, tem nas +mãos de Ramalho Ortigão umas docilidades de mulher do Oriente, uns +langores submissos de escrava creoula, uma energia mascula, uma limpidez +matinal, uma intrepidez heroica, um sabor vivo e são das coisas, que +penetra o leitor do mais requintado goso intellectual. + +Ha todas as notas n'esta orchestração soberba. + +Dir-se-hia que esta prosa tem a cadencia melodiosa, o movimento rythmico +do verso mais cinzelado e mais perfeito, do verso de Heine ou de Victor +Hugo. + +Como apropriadamente e obedientemente ella se cinge aos milhares de +assumptos que trata e revolve! Philosophia, historia, politica, +religião, costumes domesticos, costumes publicos, a Arte em todas as +suas manifestações, a Natureza em todos os seus aspectos--tudo ella +toca, tudo descreve e pinta, abraça, penetra e faz comprehender. + +É simples e é pittoresca; é grave, comica e enternecida; é apaixonada e +austera; tem a poesia meiga das coisas intimas; tem a adjectivação +opulenta das descripções pomposas; tem a riqueza decorativa e a +suavidade recolhida e casta; é transparente como uma renda de Malines ou +de Alençon; é translucida como um diamante ou como uma saphyra; é fresca +e diaphana como a neblina da madrugada; é perfumada como um cacho de +lilazes; é rendilhada como uma joia da Renascença. + +Ri, canta, chora, pinta, descreve, raciocina, fustiga; e sempre faz +pensar, acordando dentro de nós o bando das idéas mal definidas e +informes, que dormem, como pombas cançadas, no espirito de todo o ser +que pensa e que soffre. + +Eu tenho pena de não poder arrancar das paginas do volume alguns +periodos, alguns trechos de prosa que me ficaram vibrando cá dentro como +a melhor das musicas. + +O livro abre com um capitulo de historia, intitulado--_As origens_. + +Destaca-se d'elle, com uma nitidez viva de contornos, a figura poderosa +e sympathica do grande revolucionario hollandez Marnix de Sainte +Aldegonde, a quem, juntamente com Guilherme de Orange, o _Taciturno_, se +deveu a definitiva formação e a independencia da patria, o homem que á +frente da _Liga dos Maltrapilhos_ resistiu a Filippe II, e impelliu a +Hollanda no caminho da sua libertação nacional e religiosa, fazendo +d'este pequeno paiz, d'uma heroicidade séria e reflectida, uma especie +de vanguarda dos exercitos revolucionarios que conquistaram mais tarde, +com tanto sangue e tanto martyrio, a liberdade do seu governo interno e +a liberdade da sua consciencia. + +Veem depois _Os primeiros aspectos_, a que eu já me referi. A _verve_ +encantadora de Ramalho esmalta adoravelmente algumas d'estas paginas. + +Estes _primeiros aspectos_ tem coisas engraçadissimas e que não esquecem +mais. + +Lembro-me de um verdadeiro drama que podia intitular-se a _Venda de um +repolho_, passado entre uma creada de Amsterdam e um vendedor ambulante +de hortaliças, em que a phrase, o movimento e a acção comica são +incomparaveis. + +Todo o feitio de observação especial de Ramalho se revela n'este +capitulo caracteristico e _vivido_, para fallar á moda. + +Os espantos do viajante recem-chegado são tão legitimos, nós +partilhamol-os tão do intimo d'alma, que nos movem tambem, que nos +agitam, que nos fazem morrer a rir. É toda uma Hollanda _ratona_, que +surge, á flor da nossa imaginação. + +O escriptor estava-a então vendo com os olhos do seu corpo. O +sentimento, o raciocinio, a admiração despertada por uma longa serie de +virtudes,--de virtudes moraes, de virtudes civicas, de virtudes +patrioticas, de virtudes de toda a especie,--não tinha ainda irrompido +violentamente de dentro do moralista que ha em Ramalho, tornando-o cego +para todos os ridiculos, surdo para todas as notas discordantes. E os +quadros succedem-se com uma vivacidade triumphadora, e a gente segue-os +espantada do poder de realidade palpavel, que uma penna, correndo sobre +uma folha de papel, pode ás vezes attingir. + +Pouco a pouco, os olhos namoram-se da estranhesa imprevista de todos +aquelles aspectos. O artista entrega-se inteiramente á novidade, á graça +especial e desusada de que elles lhe apparecem impregnados; a +curiosidade do espirito, eminentemente observador, acorda, atrahida por +tantas revelações subitas d'um modo de vêr, de viver, de sentir, tão +diverso do que elle conhece desde a infancia; e então o pintor, +abstrahindo de comparações, de philosophias, de ideas complexas, que lhe +transtornariam a limpidez perfeita do seu apparelho optico, pega da +palêta, põe n'ella as côres mais finas, mais ideaes, mais delicadas, +d'um esbatido mais doce, d'uma suavidade mais penetrante, d'uma +fulguração mais radiosa e mais deslumbradora, e começa a pintar, á luz +do céo da Hollanda, aquosa e esmaecida, as raças, as physionomias, os +trajos, as figuras que destacam n'um meio pittoresco e caracteristico, +os grupos que passam enlaçados, essa festiva, essa apparatosa procissão +d'um povo em festa! + +Vejam, por exemplo, este fragmento d'uma pagina consagrada ás mulheres +da Frisa, que fica cantando no ouvido, como a estranha musica em que se +fundem todas as graças melodicas de uma lingua opulentissima. + +«As mulheres da Friza são de um encanto estranho. Muito altas, direitas, +serias, caminham todas--as mais humildes, as mais obscuras--com uma +magestade simples de princezas, e teem nas maneiras uma graça altiva, +casta, ondulante e fria, que lembra a origem aquatica que se lhes +attribue, como filhas de antigas sereias do Mar do Norte. Os pés +estreitos, as mãos longas e afiladas, o pescoço alto, o busto vigoroso, +o vestido preto, que todas usam, liso, cingido ao corpo, comprido, de +mangas justas e curtas, completam a expressão eminentemente +aristocratica d'estas figuras sacerdotaes de uma belleza quasi sagrada, +como a dos marmores classicos da esculptura antiga. + +«O toucado frisão de uma retrospectividade bysantina, envolvendo-lhes a +cabeça em rendas e em placas d'oiro polido, imprime-lhes uma feição +cultual, uma vaga analogia de sacrario e de altar. O tradiccional +capacete, casco d'oiro em duas peças, semelhantes na forma a uma dupla +cobertura destinada aos dois hemispherios do cerebro, cobre-lhes +inteiramente o craneo; escondendo o cabello com uma austeridade +guerreira, deixando apenas desvestido o espaço da fronte e o alto da +cabeça envolto em renda branca. Algumas d'estas physionomias de +donzellas são inteiramente insexuaes, de grandes olhos suaves, o rosto +do mais correcto oval, o nariz longo e fino, a boca cortada n'um traço +recto, innocente e calmo, sem vestigio algum do movimento e qualquer +musculo em que vibrasse a malicia, o apetite ou o desdem, bellezas de +uma serenidade gothica, não contaminadas pela nevrose dos seculos da +analyse, errantes n'uma especie de somnambulismo nostalgico e +anachronico, entre as paixões modernas, taes como os poetas +contemporaneos poderiam apenas imaginal-as, brancas e frias, coroadas de +boninas, com um livro na mão, esculpidas em alabastro e deitadas sobre +um tumulo feudal, ou de escapulario de monjas, com a cabeça aureolada +por um disco de luz, n'uma vidraçaria de cathedral entre as companheiras +de Santa Ursula.» + +Momentos antes--vejam o contraste!--Ramalho referindo-se á extravagante +meticulosidade do aceio hollandez, tinha-nos feito, com a riqueza de +vocabulario mais atroadora, uma descripção de todas as vassouras, +espanadores, utensilios de limpeza que são indispensaveis ao mais +humilde dos _ménages_, descripção que deve ficar positivamente como um +modelo do genero! + +É assombroso todo este capitulo, d'uma variedade de kaleidoscopo, ao +mesmo tempo comico e pathetico, enternecido e alegre, pittoresco e +philosophico, fazendo desfilar deante do nosso deslumbrado olhar, n'um +delicioso capricho de magica, todas as scenas, todos os quadros, todas +as visões e todas as idéas! + +Nos _Campos e Aldeias_ está na sua verdadeira especialidade o +paysagista, o pintor, o homem que sabe vêr melhor tudo o que vê. + +Eu, por exemplo, ia aos campos da Hollanda, e sahia de lá com a +impressão indefinida, confusa e tristonha, de ter visto uma enorme +planicie chata e verde,--um gigantesco prato de espinafres--sem +accidentes de terreno, sem caprichos imprevistos de scenario, com muitos +moinhos a cercarem-n'a e muitos rêgos de agua mais ou menos largos, mais +ou menos profundos a desenharem por toda ella os seus xadrezes, d'onde +se levantam, de madrugada e ao pôr do sol, humidas vaporações +insalubres. + +Ramalho Ortigão vê e faz-nos vêr, pelo encanto magico da sua penna que é +um pincel, tudo que alli viram de vago e simples, de indefinido e +penetrante, de terno e de melancolico, os grandes artistas hollandezes, +os mestres incontestados e inexcediveis de toda a moderna escola de +paisagem. + +E o seu estylo opulento pinta as metamorphoses, as variações infinitas +d'essa luz, as colorações prysmaticas d'esse ceu cheio de neblinas +transparentes, as decomposições phantasticas das nuvens, a admiravel +riqueza sintillante e tremelusente que os espelhamentos do sol põem nos +lagos tranquillos e nos lympidos canaes, as harmonias do tom, as +gradações infinitas do eterno verde, a calma doçura tranquilla,--tudo +emfim que aos seus grandes amigos sinceros e eloquentes a velha natureza +inspira, em todas as suas apparencias multiplas, em todas as suas +transfigurações multiformes. + +Ha n'este capitulo uma comparação entre a velha barca hollandeza, que +elle chama o _phantasma benigno da patria_, a aquatica alma _errante do +paiz_,--essa barca onde o hollandez navega paxorrentamente, levando +comsigo a mulher, a pequenada, o gato, o cão e os passaros--e a nossa +pittoresca e extincta falua do Tejo e do Douro, que me pareceu +verdadeiramente encantadora. + +E ainda aqui--que a Hollanda me perdoe!--eu prefiro a nossa falua, a +nossa alegre falua, que a civilisação afugentou e inutilisou, essa falua +onde tudo era pittorescamente meridional, e onde o arraes contava +historias picarescas que faziam rir os passageiros, e lhes aligeiravam +as horas de longa jornada, feita sem commodos de especie alguma, mas com +luz, mas com sol, mas com a farta alegria da natureza a envolver e a +illuminar por dentro a alma de uma pessoa. + +A mim, valha a verdade, não me seduz muito nem a barca nem a falua, a +não ser como ornato decorativo da paisagem. Mal por mal, em todo o caso, +antes a falua, por que essa ao menos é animada e palreira, jocosamente +expansiva! + +Nas _Cidades_ hollandezas, de um luxo tão intelligente, de uma riqueza +tão racionalmente distribuida, em que a arte accumula os seus thesouros, +a beneficencia as suas admiraveis instituições, a solida e bem entendida +civilisação as suas escolas, as suas universidades, os seus institutos, +os seus lyceus, as suas bibliothecas e museus, os seus jardins botanicos +e de acclimação, os seus estabelecimentos de instrucção, de sciencia, de +caridade, de commercio, de industria e de recreio, n'essas _Cidades_ em +que se condensa toda a vida intellectual da livre e laboriosa Hollanda, +a alma do escriptor, tão moderno nas suas aspirações e nos seus ideaes, +dilatou-se n'um impulso de robusta e fecundante alegria! Vê-se que elle +admira aqui, sem esforço, sem idéa reservada ou preconcebida, a enorme +expansão moral, mental, economica e artistica, d'este povo que merece um +logar de honra incontestavel entre os povos modernos da Europa, d'este +povo que, depois de crear pelo trabalho incessante, a sua riqueza +enorme, fez d'ella um elemento de civilisação, de moralisação, de +desenvolvimento nacional, de felicidade e de paz interior. + +A pintura feita pelo brilhante escriptor de todas as instituições, pela +existencia das quaes a Hollanda affirma a sua extraordinaria +superioridade, como nação educada, como nação caridosa, como nação +artistica,--é de fazer chorar de tristeza, de desalento e de inveja todo +o portuguez que tenha um bocadinho de coração. + +Comparar o que nós fazemos com o que esse povo tem feito, horrorisa! + +Mas por doer, a lição nem por isso deixa de ser proficua. + +Agradeçamos a quem nos aponta implacavelmente, serenamente, o pouco que +nós somos ante a Civilisação, ante o moderno Ideal, e o muito que +precizamos caminhar, para merecermos o nome a que ouzada e +immerecidamente aspiramos. + +Não é quem nos emballa e adormece com lisonjas banaes, tão mentirosas +quanto inuteis, que é nosso amigo, e nos presta um leal serviço. + +Ramalho Ortigão com este livro, que é um exemplo e um castigo, que é um +incentivo, que é um grito de alarme lançado em meio da nossa preguiça, +da nossa indolencia, da nossa empavezada e burgueza vaidade, fez, como +eu já disse, mais do que uma obra bella, fez uma obra boa, de que nos +cumpre aproveitar a utilidade immensa. + +No meio das paginas inteiramente consagradas pelo auctor á descripção e +á enumeração de todas as coisas feitas pela raça neerlandeza em favor do +seu proprio engrandecimento, e da sua propria illustração, paginas que +parecem escriptas por um Taine com entranhas e com alma, Ramalho +interrompe-se por momentos, e n'uma lingua idylica e harmoniosa, n'uma +lingua em que ha eccos de Shakespeare e visões de Ariosto, n'uma lingua +que parece feita de gotas de luar e de raios do sol, de aromas +indefinidos, de vagas scintillações fatuas, de vibrações de harpa eolia +occulta entre os salgueiros, faz-nos a pintura palpitante, luminosa, +musical, colorida, da _Floresta da Haya_, d'esse bosque sagrado que elle +julga proprio para abrigar, na sombra estranha e dôce da sua densa +ramaria mysteriosa, os amores profundos e tragicos, as sublimes paixões +heroicas da lenda e da historia, o somno esquecido e calmo dos grandes +deuses mortos, os divinos dialogos ardentes que os poetas puzeram na +bocca dos seus amantes immortaes. + +As _casas_ e os _individuos_ revellam-nos a delicada e fina +efflorescencia que brota naturalmente do ideal religioso, moral, +politico e artistico da raça hollandeza. Tal é o paiz, tal a familia. + +Esta é sempre o reflexo do modo de sentir e pensar collectivo; e nunca á +nação moralisada e instruida, livre, conscia e sabedora dos seus +direitos e dos seus deveres, correspondeu outra coisa que não fosse a +familia fortemente constituida, vivendo na ordem e no equilibrio dos +sentimentos e das faculdades. + +N'este ponto são bem mais felizes as nações protestantes, as raças +saxonia e germanica, do que a nossa raça latina tão profundamente eivada +da mais esterilisadora decadencia. + +É que n'essas raças não existe tão profundamente accentuado o divorcio +religioso entre o homem e a mulher; ahi, como frisantemente o faz notar +o escriptor da _Hollanda_, embora, mais tarde, no seu livro de _John +Bull_ se contradiga n'este ponto, a religião é o _facto culminante da +familia_. + +A sagrada communhão do espirito existe entre todos os membros da mesma +familia, entre todos os que se reunem, penetrados de affecto, ternamente +aconchegados em torno do mesmo lar. + +O chefe de familia tem, por assim dizer, a direcção espiritual de todos +os seus; e elles acceitam livremente essa lei religiosa que lhes foi +ensinada, d'um modo tendente a desenvolvel-os, não a amesquinhal-os e a +a entenebrecel-os para sempre. + +D'aqui provém a logica simples e sympathica de todos os seus actos e +sentimentos. O drama deixa de existir como elemento natural da nossa +alma e da nossa imaginação. O peccado não tem as mesmas excitações +sensuaes, o cumprimento do dever é alguma coisa de mais serio, de mais +sagrado e de menos complicado e contradictorio do que nos paizes +catholicos, onde o padre, orgão da lei divina, ordena em geral o +contrario do que o marido, orgão da lei social, exige e faz cumprir; +onde a alma feminina vive entre a satisfação do desejo e os ardores do +arrependimento, sempre oscillante, sempre inquieta, no eterno +desiquilibrio, e na eterna vacillação enfraquecedora entre o bem e o +mal, entre a culpa e a penitencia, entre o pequenino goso irritante de +desobedecer, e o extase soluçante do confissionario, onde tudo se lava e +se perdoa... + +Ramalho Ortigão deixa entrever tudo isto sem o accentuar demasiadamente, +limitando-se a fazer-nos entrar com elle em dois ou tres _interiores_ +que se lhe franquearam, e que elle pôde observar com a sua poderosa +faculdade critica. + +São adoraveis de bondade simples, de feliz contentamento, de paz serena +e doce, estes interiores hollandezes, e ainda aqui, perante a +superioridade da nação que estamos estudando, a nossa consciencia se +curva humilhada, e a nossa alma se penetra de salutar inveja. + +Todavia não nos deixemos ir completamente atraz do enthusiasmo, que +tenta avassallar-nos diante d'estes quadros d'uma felicidade sem +sombras, d'uma perfeição sem macula. + +As paginas do humorista hollandez Dowes Slekker, que Ramalho +cita,--talvez movido pelo remorso, que no fim de contas o punge de +admirar sempre, de admirar incondicionalmente,--as paginas em que +aquelle escriptor, mais na intimidade do seu paiz, da sua raça e do seu +meio, do que o viajante que passa impressionado simplesmente pela +seducção dos aspectos exteriores, escalpelliza duramente, e ferozmente +os ridiculos e os vicios dos seus concidadãos, essas dão-nos a certesa +consoladora ou cruel, consoante o ponto de vista em que nos collocarmos, +de que a absoluta perfeição humana não é mais que um sonho radioso em +que se entretem por momentos a nossa ambiciosa phantasia. + +Em toda a parte a burguesia enriquecida e triumphante--e onde é ella +mais triumphante e mais enriquecida que na Hollanda?!--hade ter os +mesmos vicios, o mesmo egoismo desolador, a mesma ultrajante prerogativa +de gosar, esquecida de todos os que soffrem! + +Nas _colonias_, a fóra a parte technica, util pelas informações, pelos +factos e pelos documentos de comparação que fornece aos competentes, o +que a mim me agradou como artista foi a pintura da Batavia, foi essa +invasão luxuosa e violenta da vida dos tropicos, da sua paisagem, da sua +flora e da sua fauna; do ar feito de chammas, da vegetação monstruosa, +da implacavel, soberba, subjugadora e invencivel natureza d'esses climas +de mortifero encanto! + +O ultimo capitulo da Hollanda intitula-se _A Arte_, e assim devia ser. + +E pela arte que esse paiz tem principalmente direito a viver, venerado e +querido, no espirito dos que pensam, e na alma dos que sentem. A arte é +o disco luminoso que o cerca, é o nimbo em que elle nos apparece +idealisado e engrandecido. A arte é a coroa suprema da sua realesa. + +E depois a patria de Rembrandt e de Franz Halz justifica e faz +comprehender a apotheose, o hymno de admiração enternecida que é este +livro, elle proprio uma obra de arte, muito mais do que uma obra de +critica. + +Ninguem estava no caso de apreciar e de sentir melhor a arte +hollandeza,--essa arte que teve, como nenhuma, a perfeição do detalhe na +harmonia do conjuncto, a nota exacta na comprehensão larga,--do que +Ramalho Ortigão, o escriptor que, no seu processo, realisa tão +adoravelmente a formula naturalista d'essa inspirativa e grande escola, +ante a qual os modernos se sentem ultrapassados e excedidos. + +Pontos de vista notaveis, observações finas, analyse penetrante do +assumpto, intuição maravilhosa de todos os segredos da arte--eis o +capitulo que remata soberbamente este bello livro, d'um largo folego, +d'uma ampla e serena inspiração. + +O assumpto arrastou-me. Fui mais extensa do que tencionava, e ha n'esta +critica um _não sei quê_ audacioso na contradicção que a mim propria me +espanta. + +Julgarão os leitores menos benevolos que eu me arrogo os direitos de +critica em assumptos de viagem e de arte que me são quasi extranhos. + +E, no emtanto, no silencio do paiz, em face dos que tentam levantal-o +trabalhando, ha uma desconsolação tão intima para a alma do escriptor, +que a minha voz, por obscura que seja, tem, n'esta mudez geral, uma nota +de sinceridade, uma aspiração de justiça, uma intenção de applauso, +merecedôra d'uma certa indulgencia. + +Não me arrependo de fallar, visto que se callam tantos que tinham +direito de applaudir em alto e bom som. + +Concluindo, repito o que já disse no principio do meu defeituosissimo +esboço critico. Porque será que, apezar de tanta virtude sympathica e de +tão nobre e levantado ideal, a Hollanda me impõe admiração sem me +inspirar ternura absolutamente nenhuma?! + +É porque sou meridional de mais para comprehender essa raça persistente, +fria, fleugmatica e pesada, incapaz de expansão, incapaz de altruismo +generoso, incapaz do dilettantismo intelligente, que eu tanto aprecio +nos individuos e nas nações! + +O que a elles, os bons hollandezes, lhes falta para me seduzirem, é a +_pontinha de febre_, o grão de loucura, a chamma iriada e multicor que +nós, a velha raça gasta nas exaltações e nos sobresaltos convulsos da +nevrose que nos exhauriu a seiva, conservamos ainda na velhice que nos +prostra... á sombra dos loureiros de outr'ora! + +Elles teem a virtude e a força que dão a serena placidez, nós temos a +agitação eterna e dilaceradora, á custa da qual se compram os +requintados supplicios e as delicias de uma volupia morbida. + +Nós conhecemos todos os martyrios, mas tambem todos os inebriantes gosos +que dá a Imaginação. Nós buscamos na Dôr a suprema voluptuosidade +sagrada, com que ella exalta e unge os seus dilectos, e não a trocamos +pelas calmas e tranquillas alegrias d'essa boa gente pacata, +pachorrenta, reflectida, egoista e séria, para quem a vida é um grato +dever, para quem as scismas, as contemplações, as duvidas, os terrores +phantasticos, são um accessorio inteiramente inutil, para quem o +mysterioso _alem-tumulo_, que nos irrita e nos perturba, e nos chama, e +nos allucina, e nos enche os labios de ironias blasphemas, e a alma de +anciosas e ardentes interrogações, é uma certeza firme, accentuada, +perfeitamente em regra, como um ramo de escripturação commercial?..... + +O incognoscivel, que é a enorme região sombria, onde a nossa mente +divaga attonita e deslumbrada, a elles nem os afflige, nem os preoccupa! + +São felizes, no positivismo chato das suas ideias e das suas occupações! +Nós somos os eternos mergulhadores do sonho, os eternos amantes da +Visão! São felizes, nós somos loucos! mas eu amo a loucura com +intermittencias geniaes, esta loucura com fecundos arrojos rapidos e +apaixonadas ancias de um bem desconhecido, que escala o céu como o +Prometheo do mytho hellenico, ou que se atira ao inferno, como o poeta +que resume em si toda a sombria Edade Média!... + + + + +_RAMALHO ORTIGÃO_ + + +III + +AS FARPAS + + +Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o +_primeiro volume_ da nova e augmentadissima edição das _Farpas_. + +Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou +campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de +estações thermaes ou de pequenas villas provincianas--nenhum dos +assumptos das _antigas Farpas_. Este volume é portanto inteiramente novo +para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito +d'elle. + +Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que +o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão, +saiba _vêr_ e saiba transladar para a sua prosa o _aspecto exterior_ das +cousas. + +Para descrever uma paysagem, para pintar uma _marinha_, para nos dar a +impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para +desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a +_sillouette_ d'um monumento archeologico ou o _fouillis_ encantador d'um +salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha +plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á +vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as +especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real +das cousas que elle pretende fazer-nos vêr. + +Não é um psychologo, não é um devaneador. + +É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em +que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos +de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo +humano! + +Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de +sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma +renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as +organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente +em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez +visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e +triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso +destino... + +Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que +a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas +ideiaes. + +Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista, +mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer +amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do +pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas +decorativas e espectaculosas. + +Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o +brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos +aspectos e das suas diversas formas. + +A côr e a linha--eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos +seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do +seu temperamento de artista! + +Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de +colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e +pincel--eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a +brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em +quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas +pedagogicas, sempre contrafeitas. + +Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista! +Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra +se podem escolher! + +Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o +philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das +mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as +_marinhas_, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem, +alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador. + +E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico. +Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é +quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus +livros descriptivos. + +Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das +cousas. + +A _toilette_ d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica +d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior +d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de +festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos +sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas +cousas se relacionam. + +Pelos _puffs_ exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos +esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente +apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que +já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer +demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos +artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas. + +Pela regularidade fria e systematica d'um _interior_ de burguez, que +nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se +naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e +do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a +inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e +fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente +agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo +sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações +mais puras da vida moral. + +E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os +mesmos resultados. + +É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que +sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente +um notavel moralista. + +É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que +d'elles deriva! + + * * * * * + +N'uma _advertencia_ muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão +diz que as _Farpas_, são escriptas n'um espirito de _dilettantismo_ +emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo, +a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o +escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique +um pouco ao leitor, qual o _dilettantismo_ de que Ramalho Ortigão se diz +inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas _Farpas_. + +No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de +doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus +desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é +contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade +é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos, +cada theoria apresenta tal somma de _nuances_, que se vae pouco a pouco +perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de +uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade, +obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que +julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos +modos! + +Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé +ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que +serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não +conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes! + +Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam +para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no +absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que +neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes +contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que +quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero! + +Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio, +surdos ás vozes todas que contradissessem o _á priori_ do seu sonho, +existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na +sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua +sensibilidade! + +E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que +falla Ramalho Ortigão. + +Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do +dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino _dilletante_ de quantos +se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que +definil-a com precisão. + +E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um +tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina +simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a +emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos +inteiramente a nenhuma d'ellas.» + +Dilettantismo e doutrinarismo--eis os dois polos do pensamento do homem! + +O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este +seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa +extranha faculdade--que faz uma especie de Proteo de cada entendimento, +e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se +desfaz, ora se tece a oiro e perolas, ora se destrama, phantasticamente, +substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a +verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos +olhos. + +Comprehendendo d'esta fórma o _dilettantismo_ acha-se uma faculdade +superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela +multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém, +no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade, +eminentemente subjectiva. + +O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a +lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e +mais sonoro, e em quem a _visão das cousas_ é tão violenta e tão intensa +que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada +lucidez. + + + + +_ANTHERO DE QUENTAL_ + + +I + +OS SONETOS + + +Não ha, talvez, em toda a litteratura portugueza uma individualidade +mais distincta, mais original, mais _á parte_, que a d'este homem. + +Não é simplesmente como escriptor, como litterato, como _auctor de +livros_, que Anthero de Quental tem de ser considerado. + +Para bem estudar esta figura singular, para a vêr á luz que lhe é +propria, para a comprehender sob todos os seus aspectos varios, é +indispensavel alguma coisa mais do que a faculdade critica, applicada á +litteratura, é necessaria a comprehensão profunda e clara de todas as +causas que determinam esta phase,--de certo transitoria, de certo +temporaria--de _nihilismo_ mental, em que se debatem os artistas mais +vibrateis e delicados, as almas mais sensiveis e morbidamente agitadas +d'este fim de seculo, a um tempo tragico e banal. + +Como podia eu, pois, conseguir o que imagino que só conseguiria um +critico no genero especial de Bourget, por exemplo, um critico que +recebe as influencias germanicas e as transmitte, modificadas pela sua +imaginação e pela sua rasão latinas; um critico cosmopolita e capaz de +comprehender todos os estados d'alma e todas as faculdades +caracteristicas das mais diversas raças? + +A critica tem acompanhado o movimento progressivo das sciencias, e +tem-se modificado e transfigurado ao influxo d'ellas. + +Sem fallarmos nos criticos da Allemanha, muito menos accessiveis para +nós e muito menos comprehendidos por nós, sigamos a evolução ascendente +que a critica litteraria tem tido em França, e veremos como ella se +tornou hoje uma sciencia completa, para a qual forneceram dados, +elementos, observações e experiencias todos os ramos do saber humano, +cada dia mais amplo. + +Que longe nós estamos d'aquella boa critica, modesta e facil, em que a +obra de arte era simplesmente julgada segundo as regras formuladas por +Aristoteles, em que o livro, o drama, o poema se consideraram perfeitos +ou defeituosos, conforme se cingiam aos preceitos da rhetorica e da +poetica consagradas, ou se afastavam indevidamente d'elles! + +Diderot teve no seculo XVIII, a maravilhosa intuição do que poderia vir +a ser a critica; essa intuição, vaga ainda, illumina, todavia, de luz +inesperada as suas formosas improvisações, os seus devaneios +scintillantes de _verve_ sobre a arte do seu tempo. + +Villemain, mais tarde, afastando-se de todos os que pretendiam +arrogar-se em face do escriptor os direitos de bons criticos, e que não +conseguiam ser mais do que rhetoricos importunos, relaciona pela +primeira vez as litteraturas com os outros productos sociaes d'uma dada +epoca; faz perceber as reciprocas influencias, que actuam em raças +diversas e transformam lentamente uma civilisação determinada; mostra +claramente, no seu estylo de erudito ainda subjugado pelos moldes +classicos, o extraordinario poder com que as lettras imperam na +politica, e a politica nas lettras, e o modo indirecto, mas poderoso, +pelo qual a arte se torna um elemento de revolução, e da revolução surge +e se levanta uma nova arte; revela, emfim, a força que as idéas teem +sobre a acção, e a ineluctavel energia com que a acção limita ou +modifica o imperio das idéas... + +Sainte Beuve, adoptando muitos dos pontos de vista de Villemain, +accrescenta-lhes tudo que póde tornar este methodo mais vivo, mais +luminoso, mais humano, tudo o que póde dar movimento e graça ao corpo um +tanto inteiriçado e hirto do eloquente professor do _Curso de +litteratura_. + +A critica de Sainte Beuve é uma creação! Na obra d'arte vê a época em +que ella surge e o homem que a produziu. A anedocta elucidativa, o +commentario suggestivo, o estudo minucioso do caracter do escriptor, o +meio em que elle se moveu, a influencia directa, ou indirecta, que esse +meio exerceu em todas as circumstancias caracteristicas da sua vida e no +seu modo particular de encarar as coisas e os homens,--tudo concorre +para esclarecer o critico eminente, a tudo dá relevo e côr o seu estylo +fino, flexivel, todo em cambiantes, todo em linhas flexuosas, que +penetra o assumpto, que o segue nos seus meandros mais caprichosos, nos +seus labyrinthos mais emmaranhados, que se cinge a elle nas suas +ondulações mais particulares, que o illumina de todos os lados e por +todas as formas; malleavel, sagaz, levemente sceptico, inimigo sempre do +absoluto de todas as doutrinas, do dogmatismo de todas as formulas. + +O grande critico da nossa raça n'este seculo é com toda a certeza Sainte +Beuve. Os que vieram depois d'elle, deram a formula mathematica, +precisa, da doutrina que elle praticára e descobrira com uma ligeireza, +uma elegancia, um gosto nunca mais realisados. + +Taine acceitando a herança de Sainte Beuve, foi alem do que elle era, um +naturalista que levou para os estudos d'arte o seu forte methodo +scientifico, que verifica, prova, experimenta e conclue depois. A isso +deve o ser considerado e com justiça o mestre da nossa geração. Taine +póde ter discipulos, Sainte Beuve podia ter apenas admiradores. A +litteratura aos olhos de Taine é, como tudo o mais, um producto fatal da +raça, do meio, do momento, modificado n'este ou n'aquelle sentido, mas +modificado apenas, pelo temperamento particular do artista. + +A ordem, o equilibrio, a harmonia que existe em toda a natureza, +achou-as elle na esphera do pensamento humano, n'esse grande mundo da +arte que falsamente nos parecia caprichoso, cahotico, arbitrario, sem +leis que o dominassem, sem causas a que estivesse fatalmente +subordinado. + +Comprehende-se bem como este ponto de vista--que outros tinham achado, +mas que elle formulou scientificamente--revolucionasse a noção da +critica, e lhe desse, ao mesmo tempo, harmonia, amplitude e grandeza. + +D'este modo vê-se bem que em cada livro que lêmos, em cada obra por meio +da qual um forte temperamento de artista, ou um grande cerebro de +pensador se nos manifesta, está como que indicada a gradação successiva +de todas as civilisações que, justapondo-se umas ás outras e +desdobrando-se umas das outras, produziram o momento historico, a phase +sentimental ou intellectual de que esse livro é involuntariamente echo, +repercussão e reflexo. + +A lei que liga estreitamente entre si todos os phenomenos da Vida, que +explica o encadeamento fatal de todas as manifesções do pensamento, +ninguem a formulou com mais lucidez e mais clareza do que Taine. Cada +escriptor é o que não póde deixar de ser, dada a hora em que a sua obra +se produziu, dados os elementos sociaes que concorreram para a +elaboração d'ella, dadas as qualidades fundamentaes e irreductiveis da +raça a que elle pertence, dada a organisação particular, que, em virtude +de todas estas leis e de outras leis egualmente ineluctaveis, elle +recebeu da natureza. + +Shakspeare, por exemplo, esse colosso que nós julgámos por muito tempo a +creação espontanea e maravilhosa, que um _decreto nominativo_ do Eterno +fizera surgir n'uma idade semi-barbara, apparece, na obra de Taine, +naturalmente, no logar que lhe é proprio e que lhe estava +necessariamente destinado, de um modo que nada tem de surprehendente ou +de imprevisto. Todo o movimento politico, litterario, social da +Renascença ingleza vem rematar harmoniosamente em Shakspeare, sem +esforço, sem salto inexplicado, sem arbitrariedade do Destino, sem que +no espirito do leitor, que estuda o quadro complexo e +extraordinariamente poderoso da vida intellectual da Inglaterra, este +grande nome, universalmente acclamado, produza o espanto, a sensação do +imprevisto, o abalo e o sobresalto de uma apparição sobrehumana! + +Vista a evolução do pensamento a esta luz viva e fecundante, como tudo +se explica e harmonisa, como tudo se ordena magnificamente, como os +effeitos derivam naturalmente das suas causas superiores, como é bella +essa admiravel ascensão das trevas para a luz, do cahos para a suprema +harmonia! + +Entre todos os obreiros maravilhosos que em França a critica moderna tem +tido ao seu serviço, nenhum, porém, existiu nunca que melhor podesse +explicar, illuminar, tornar accessivel a todos a obra de Anthero do +Quental, como esse a que me referi ha pouco: o auctor, aos meus olhos +adoravel, dos _Ensaios de Psychologia Contemporanea_. + +Em Bourget sente-se, como em Anthero, visivelmente e fortemente, a +influencia da Allemanha. Discipulo de Schopenhauer, foi elle--talvez +inconscientemente seduzido--quem tornou Schopenhauer intelligivel á +França, e popular ou, pelo menos, conhecidissimo em França. Mas o +_pessimismo_, que no philosopho de Francfort é doutrina, foi Bourget +encontral-o como _sentimento_ em muitos dos artistas mais delicados e +mais queridos do nosso tempo, n'aquelles de quem uma geração inteira +bebe a inspiração e acceita o ideal. + +Bourget desceu ao fundo da alma contemporanea e achou lá, ora visivel +como um jazigo a descoberto, ora occulta como um filão inexplorado, esta +dolorosa aspiração ao _não ser_ em que virão, talvez, cruelmente e +anti-naturalmente, a abortar todos os sonhos radiosos e extranhamente +grandes que a humanidade concebeu, que a sciencia tem tratado tenazmente +de realisar, e que a arte devia ter a gloriosa, sublime e util missão de +traduzir!... + +Seria pois Bourget quem melhor do que ninguem faria comprehender até aos +mais profanos, e aos menos dados ás sublimes abstracções do espirito, o +livro eminentemente moderno, e extranhamente doloroso e contradictorio +de Anthero do Quental. A lingua em que nós escrevemos e fallamos não a +conhecem porém lá fora, e este livro que em toda a parte seria criticado +e discutido como um symptoma mental, caractetistico do nosso tempo, fica +sem echo, a não ser entre alguns delicados d'entre nós, a quem estas +questões interessam a titulo de curiosidade litteraria. + + +II + +A mim, se me faltam, como já disse, muitos dos predicados exigidos para +analysar e estudar a obra, tão profundamente pessoal, do auctor dos +_sonetos_, não me falta comtudo, para lhe comprehender a alma agitada e +sacudida por tantas idéas que se combatem entre si, produzindo uma +tragica lucta interior, o que n'este caso supre vantajosamente a +sciencia e a critica: refiro-me á minha alma de mulher, contradictoria +tambem, tambem fluctuante, e que não foi corrigida nem mutilada pela +necessidade fatal da acção, pela despotica lei social que impelle o +homem a pronunciar-se n'um sentido definido, a caminhar para um fim +determinado, a _comprometter_, por assim dizer, as suas opiniões e as +suas crenças, dando-lhes uma forma precisa e limitada, encerrando-as +n'uma esphera positiva e restricta. + +N'este ponto Anthero de Quental guardou, a par das qualidades poderosas +e creadoras de um espirito viril, a plena independencia mental que é +talvez a maior felicidade da mulher, quando a mulher--o que é raro--a +sabe aproveitar no enriquecimento, na ampliação e na cultura do seu +mundo interior. + +Está portanto ahi o ponto delicado e subtil em que nos encontramos. + +O livro dos _Sonetos_, que para mim vale muitissimo como obra de arte e +de poesia, vale principalmente como documento psychologico, como +_notação_ sincera, espontanea, feita dia a dia, de sensações +requintadas, como confissão d'uma alma que,--nas suas dôres imaginarias +ou reaes, nas suas ardentes aspirações d'um espiritualismo doloroso, nas +suas duvidas desnorteadoras diante de todos os problemas insoluveis da +Vida, no seu desejo dilacerante d'um absoluto impossivel, nas suas +anciosas interrogações em face do incognoscivel eterno, nos seus gritos +melodiosos de apaixonada tristeza e de amargura revoltada--condensa, +representa, synthetisa em si o estado sentimental de todo um mundo, o +mundo a que nós pertencemos. + +O vago mal-estar que fez chorar tão docemente Lamartine, e que sacudiu +violenta e dolorosamente os nervos de Musset, definiu-se nos seus +symptomas, revelou-se aspera e positivamente nos seus mais accentuados +caracteres. + +Nós não ignoramos o mal de que soffremos e porque soffremos. + +Não foi impunemente, e sem que um medonho e forte abalo se produzisse +nos espiritos e nas consciencias, que a sciencia, implacavel e +tranquilla, despovoou os ceus, destruiu na nossa alma, ambiciosa e +soffredora, o sonho da triumphante immortalidade, fez do mundo, que +julgavamos centro e eixo do Universo este humilde grão de areia que hoje +gravita subordinado e dependente nas amplidões infinitas do espaço; não +foi sem dilacerar as fibras mais intimas do nosso orgulho que a +biologia, arrancando aos abysmos do tempo o segredo da primeira +scentelha da Vida que animou este planeta, nos demonstrou o que nós +eramos no fim de contas, nós que nos julgavamos os filhos dilectos do +Creador! + +Se a sciencia exulta, se os seus apostolos continuam tranquillos e +convencidos a trabalhar para a completa libertação d'esse escravo +d'outras eras, que é o triumphador maximo de hoje, se o progresso +caminha, se a civilisação se requinta, se a materialidade do goso +attingiu quasi os limites do ideal, quantos corações, em compensação de +tanta grandeza, não ficariam esmagados e desfeitos em sangue sob as +rodas de fogo d'esse carro de triumpho, que leva a humanidade, cega de +orgulho, á conquista da sua apotheose final!... + +A extraordinaria revolução scientifica e social, que faz do nosso seculo +uma quadra sem precedentes na historia, se trouxe a tantos a felicidade, +a libertação, a victoria, se deu ás massas o goso de regalias ignoradas, +se nivelou as castas, se diminuiu a miseria, se combateu muitos males +visiveis, muitas injustiças flagrantes, se teve, emfim, nos seus +aspectos geraes e nas suas linhas grandiosas, resultados soberbos, que +ninguem contesta e que todos aproveitam, não podia comtudo, deixar de +repercutir-se de um modo violento e profundo, dilacerante ás vezes, +outras vezes entontecedor, em certas almas impressionaveis, em certos +espiritos delicados, em certas organisações doentiamente accessiveis!... + +Que importa, dirão, se a felicidade do maior numero exige o sacrificio +desses poucos! + +Sim, não importa que elles soffram; o que não obsta a que, ainda mesmo +aos mais fortes, inspirem a mais irresistivel sympathia esses corações +ardentes, essas almas visionarias, que a sêde invencivel da sciencia +leva a beberem do seu amargo licôr, e que em vez de acharem n'elle a +robustez, a certeza fortificante, a saude mental, cáem prostrados por +uma dolorosa ebriedade,--iniciados que dariam tudo para ignorar, +curiosos e complicados espiritos que anceiam debalde por se salvarem +pela simplicidade e pela innocencia, a cujo seio nunca mais, _nunca +mais_, poderão retroceder... + + +III + +É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da +sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir +implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos, +mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e +magnificamente n'estes _Sonetos_ que, para o _grosso publico_, hão de +parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas +locubrações de um allucinado e de um nevrotico. + +Oh! felizes dos _simples_, porque elles não conhecem esta dôr +dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta +curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os +recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não +voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos, +empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar, +sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as +ambições banaes e limitadas d'este mundo. + +E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem, +Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada +á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado--goso contradictorio e +extranho!--o austero orgulho dos que sabem!... + + + Razão, velha de olhar agudo e frio + E de halito mortal, mais do que a peste! + Pelo beijo de gello que me deste, + Fada negra, bemdita sejas tu! + + Bemdita sejas tu pela agonia + E o lucto funeral d'aquella hora + Em que eu vi baquear quanto se adora, + Vi de que noite é feita a luz do dia! + + Pelo pranto e as torturas bemfazejas + Do desengano... pela paz austera + D'um morto coração que nada espera + Nem deseja tambem... bemdita sejas!... + + +Muitos perguntam,--e, no seu ponto de vista racional e practico, +perguntam com razão--a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono +de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão +estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta, +chamado Anthero de Quental. + +Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade +portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu, +sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse +tempo. + +Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional _coterie_ +litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e +sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra +as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em +meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo +academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam! + +Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se +proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella +imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel +exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as +novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente +ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e +produzido a grande evolução naturalista agora triumphante. + +Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe +destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o +maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é +dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de _porta-estandarte_ de +uma Idéa civilisadora e grande! + +Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista +infatigavel? + +A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os +espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo. + + +IV + +Para mim--e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha +afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o +amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que +servem de prefacio aos magnificos versos do poeta--para mim o que +prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de +que os seus ultimos _sonetos_ são a mais completa expressão, foi +justamente o _excesso do pensamento_, o abuso da analyse, a que elle se +entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida +do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua +energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que +baste á envergadura das suas ambições. + +Pensou _de mais_, quiz conhecer e sondar e penetrar _de mais_ as +theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes, +phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que +existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia. + +São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este +combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a +alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente. + +Mas a nós homens não é dado achar a Verdade! + +Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi +contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás +mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam +como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que +estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por +tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por +tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela +inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as +quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,--elle, o pensador +sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista +incorrigivel que o mysterioso _au delá_ captiva e chama, apezar da +negação feroz dos racionalistas e da indifferença systematica do +positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o +unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía, +seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de +uma especie de _bhudismo_ mental que nos seus versos se reflecte ás +vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!... + + * * * * * + +Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que +tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma +d'este poeta, que _viveu_ a sua poesia antes de a ter feito!... + +Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle +aspirava é que não era a _de toda a gente_, e por isso a procurou de +balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas +grandes _botas de sete leguas_ á conquista d'esse _Velo de ouro_, que se +chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar +absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos +desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!... + +E é a historia d'essa viagem terrivel que estes _sonetos_ nos contam; +por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma +esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem! + +Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu estes +versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas +do livro, por esse espaço fóra... + + + Porque a noite é a imagem da Verdade + Que está além das coisas transitorias, + Das paixões e das formas illusorias, + Onde sómente ha dôr e falsidade... + + Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, + De que és symbolo tu? do eterno engano, + Que envolve o mundo e o coração humano, + Em rede de mil malhas mysteriosa! + + Symbolo, sim, da universal traição + D'uma promessa sempre renovada + E sempre e eternamente perjurada, + Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão... + .................................... + .................................... + De que são feitos os mais bellos dias? + De combates, de queixas, de terrores! + De que são feitos? De illusões, de dôres, + De miserias, de magoas, e agonias! + + O sol, inexoravel semeador. + Sem jamais se cançar, percorre o espaço, + E em borbotões lhe jorram do regaço + As sementes innumeras da Dôr! + + Oh! como cresce sob a luz ardente + A seara maldita! Como freme + Sob os ventos da vida, e como geme + N'um sussurro monotono e plangente! + + + * * * * * + +Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da +vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!... + +Se a vida é isto--e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos +_Sonetos_,--para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar +eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme +rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo +onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com +elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo _nihilismo_ +em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está +claramente indicado... + +Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente +espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra +de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para +o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma +comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a +vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a +resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a +cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades, +toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade, +todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa +alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os +braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a +esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação. + +Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a +verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão +_vivido_ nem um _estado de alma_ que a minha alma não comprehenda e não +justifique. + +E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de +emoções cambiantes! + +É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges +primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um +metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um +espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e +todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer +retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso +sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias +philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma +sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas +pelos profanos da sciencia, e pelos _diletantti_ do pensamento?... + +É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que +passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina +argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em +delicados e artisticos florões. + +Mas--e é este o supremo merecimento d'este livro--é tudo isto +sinceramente, espontaneamente, sem _pose_, sem artificio, sem estudo +previo! + + * * * * * + +Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de +imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona, +é um cerebro que vibra, é um _sincero_ que põe toda a potencia das +faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr! + +Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final +de todo o esforço humano? + + + Em vão luctamos! Como nevoa baça + A incerteza das cousas nos envolve; + Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve + Nas suas proprias rêdes se embaraça. + + O pensamento que mil planos traça, + É vapor que se esvae, e se dissolve, + E a vontade ambiciosa que resolve + Como onda entre rochedos se espedaça. + + Filhos do amor, nossa alma é como um hymno + Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, + Prece e clamor d'um pressentir divino... + + Mas n'um deserto só, arido e fundo, + Echoam nossas vozes que o Destino + Paira mudo e impassivel sobre o mundo! + + +Contradictorio? sim; mas verdadeiro! + +Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem +sempre. + +Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas _sérias e +graves_ que fazem a _opinião publica_, quer dizer, que criam esse +absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua +immobilidade estupida e na sua monotonia secular... + + +V + +É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a +indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a +physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de +Quental. + +De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para +aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas +contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras! + +Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu +dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente +hostis?! + +O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no +fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe +querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do +templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o +holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim +como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção +dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como +uma maré de perdição... + +Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos +cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de +sentir!... + +Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,--que desgraçado +não será o que a todos experimente! + +Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica: + + + Ouve tu, meu cançado coração, + O que te diz a voz da Natureza + --«Mais te valera, nú e sem defeza, + Ter nascido em asperrima soidão! + + Ter gemido, ainda infante, sobre o chão + Frio e cruel da mais cruel deveza, + Do que embalar-te a Fada da Belleza + Como embalou, no berço da Illusão! + + Mais valera á tua alma visionaria, + Silenciosa e triste, ter passado + Por entre o mundo hostil e a turba varia. + + (Sem ver uma só flôr das mil que amaste) + Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado + Os sonhos ideaes que tu sonhaste!... + + + * * * * * + +Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos +fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar, +de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os +sectarios do velho Bhuda indico chamaram o _nirvana_! + +O _nirvana_ é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e +que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do _não-ser_. + +Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes +secular do antigo sabio: + +«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é +sensivel.» + +«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se +tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e +sem aconselhar aos outros a acção.» + +«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração +benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por +elles temido. _Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á +esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana_,» + +Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é +attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade. + +«O mundo é uma illusão immensa.» + +Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos +ao que é illusorio e passageiro. Não _esperemos_, e, n'esse +_renunciamento_ absoluto (principio da moral bhudica, e fim da +philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a +extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento +de nós mesmos e da Vida universal. + +N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que +adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna, +acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e +de cançasso. + + + Envolve-te em ti mesma, oh alma triste! + Talvez sem esperança haja ventura! + + +E n'outro soneto: + + + Na floresta dos sonhos, dia a dia, + Se interna meu dorido pensamento, + Nas regiões do vago esquecimento + Me conduz, passo a passo, a phantasia. + + Atravesso no escuro a nevoa fria + D'um mundo extranho, que povôa o vento, + E meu queixoso e incerto sentimento + Só das visões da noite se confia. + + Que mysticos desejos me enlouquecem? + Do _Nirvana_ os abysmos apparecem + A meus olhos, na muda immensidade. + + N'esta viagem pelo ermo espaço + Só busco o teu encontro e o teu abraço, + Morte! irmã do Amor e da Verdade! + + +Ó poeta,--eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da +physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não +posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração +pretende affundar-se! + +O _bhudismo_ comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas, +e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza, +devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos! + +Comprehende-se o _bhudismo_ no tempo em que a fatalidade das coisas +subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que +chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta +sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor! + +Mas imagine-se por um momento o _bhudismo_ triumphante, alastrando pelo +mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e +vago! + +O que seria hoje o mundo?!... + +Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á +covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a +Natureza hostil e inviolada ainda! + +Elle resistiu! + +E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada +carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o +passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora +asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o +mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre, +trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo, +immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando +intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as +entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros +cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e +tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no +ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia +tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu +algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades +libertadoras de amanhã! + +E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais +dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates! + +Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas +decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais +amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia +sagrada de mais direitos! + +E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando +escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições +sublimes: + + + Conquista pois sósinho o teu futuro, + Já que os celestes guias te hão deixado + Sobre uma terra ignota abandonado, + Homem = proscripto rei = mendigo escuro! + + Se não tens que esperar do ceu (tão puro, + Mas tão cruel!), e o coração maguado + Sentes já de illusões desenganado, + Das illusões do antigo amor perjuro: + + Ergue-te então na magestade estoica + D'uma vontade solitaria e altiva, + N'um esforço supremo de alma heroica + + Faze um templo dos muros da cadeia + Prendendo a immensidade eterna e viva + No circulo de luz da tua Idea! + + +Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que +se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle +não é mais que um estado transitorio da alma contemporanea, um dos +symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou +menos hoje estamos--ainda mal!--todos contaminados! + + +VI + +Chegando ao termo d'este trabalho percebo que ha n'elle, além dos mil +defeitos que outros lhe notarão, uma lacuna enorme que eu propria +reconheço. + +Tentando explicar o pensador, eu não tenho dado ao poeta o merecido +relevo que elle tem; quero dizer, o pensamento d'estes _sonetos_ tem-me +ás vezes feito esquecer a belleza singular da sua forma artistica! +Parece que o soneto, pelos moldes precisos e rigorosos em que se vaza, +seria o menos proprio dos generos de poesia para fixar, em formosa +esculptura, as abstracções metaphysicas em que o genio de Anthero do +Quental se compraz principalmente. + +Porque este poeta não é como H. Heine, apezar de tantas similhanças que +os aproximam, apesar de serem a negação e a duxida as muzas principaes +da sua inspiração, e de ambos representarem, sob uma fórma de grande +arte, este periodo de transição entre as velhas crenças e as novas +convicções do espirito, que a analyse paciente e complicada está +elaborando ainda. O poeta allemão tem a impressão directa das coisas, e +é n'ellas, e não nas idéas, que elle distingue a linha comica, a +contradicção irreductivel, a impassibilidade perfeita diante das velhas +theorias que decahem e agonisam; Anthero do Quental eleva essas dôres á +abstracção suprema do seu espirito, a uma especie de metaphysica +imaginosa e vaga, que pareceria impossivel a um temperamento peninsular +aquecido pelo nosso sol, vivificado pelo nosso clima, cingido no +circulo, impressionador e ardente, dos seus horisontes de ouro e de +fogo. A sua poesia é como o reflexo fluctuante, caprichoso e indeciso, +das contradicções, das amarguras, das tristezas e dos sonhos do nosso +tempo; ella canta a dôr de toda uma geração que a si propria se estuda, +sonda e interroga, e sendo profundamente pessoal, como é, repercute-se e +vibra todavia em muitas almas egualmente angustiadas e vacillantes. + +Não tendo, pois, antecedentes da mesma especie, foi-lhe necessario +crear, dentro da velha fórma consagrada, uma forma nova; e d'esta +difficuldade sahiu-se admiravelmente Anthero de Quental. Os seus sonetos +trazem a marca do auctor; não se confundem com nenhuns outros. Muitas +vezes tem de sacrificar a melodia do verso á extensão e ao vigor do +pensamento; n'esse caso não hesita, e o pensador vence n'elle o poeta. + +De todos os poetas que eu conheço ha um que Anthero me lembra muitas +vezes. É Sully Prudhomme. Mas devo accrescentar que a individualidade +accentuada de Anthero escapa incolume a toda a comparação e a todo o +confronto. + +Já ouvi, não me recordo n'este momento a quem, que o livro dos _Sonetos_ +lembra tambem em muitos pontos o _Diario_ de Amiel. É que realmente +estas duas obras, diversissimas entre si, filiam-se na mesma necessidade +inteiramente moderna que o homem sente de auscultar-se, de conhecer-se, +e de fazer a si proprio innumeras perguntas. + +A antiguidade não tinha este prurido de penetração psychologica; por +isso a antiguidade foi feliz, radiosa, activa e sã. + +Comtudo, dado o nosso gosto pronunciado para este genero de estudos, +ainda bem que Anthero escreve, e que Amiel escreveu. Se o primeiro não +tivesse cantado muitos dos seus adoraveis e extranhos sonetos, se o +segundo não tivesse _notado_, momento a momento, os cambiantes de uma +alma tão extraordinariamente e tão morbidamente complicada, +perder-se-hiam documentos inapreciaveis para o estudo completo da alma +contemporanea. + +Amiel, que, emquanto viveu, foi obscuro e desconhecido, e que, morto, +inspirou a muitos dos mais subtis moralistas modernos, taes como Renan, +Caro, Bourget, etc., estudos minuciosos e delicados, soffria, como +Anthero, de um excesso de _vida interior_, origem de desiquilibrios +dolorosos. A solidão, em que Anthero vive e em que viveu Amiel, aggrava +este estado, fazendo-o degenerar, de riqueza fecunda e rara, que pode +ser, na perigosa doença que a _élite_ do nosso tempo soffre com raras +excepções: o enfraquecimento progressivo nos orgãos que determinam a +acção e predispõem para o combate. + +Para este mal, o remedio efficaz e supremo seria o contacto de outros +espiritos, o attricto com outras intelligencias hostis ou apenas +finamente e subtilmente criticas, porque se a convivencia com os homens +nos faz perder a independencia absoluta do espirito, ou a originalidade +profunda dos que não vão na corrente da opinião geral, nem tão pouco +navegam contra ella--o que é ainda um modo de a considerar--é claro que, +em compensação, ella nos torna mais aguerridos para a lucta, mais +tenazes nos nossos propositos e mais vivos nas nossas ambições. + +Tanto Amiel como Anthero encarnam, pois, com extranha intensidade essa +doença que se traduz pelas hesitações do querer, e pelas fluctuações +permanentes do pensar. Para ambos a vida perdeu as linhas reaes, fixas e +positivas, com que ella apparece ao espirito pratico das raças latinas, +tornando-se no que é para os espiritos, ethnologicamente ou moralmente +germanicos, para Carlyle ou para Goethe, para Shopenhauer ou para +Shakspeare, um não sei que de indeterminado e de fluctuante, um sonho +que apparece confuso, nebuloso e phantastico, sempre prestes a +decompôr-se em transformações successivas, sempre em via de +desmanchar-se e de refazer-se em condições novas. + +A Allemanha tem a palavra propria que exprime esta concepção das coisas; +nós não a temos, de tal modo ella repugna ao espirito da nossa raça! + +Mas Anthero de Quental longe de ter adoptado a linguagem semi-barbara á +força de requintada, com que Amiel pretendeu naturalisar latinas +abstracções puramente e genuinamente germanicas, é pelo contrario um +escriptor de raça, um escriptor de primeira ordem, dando ao seu sonho, +vago como é, o molde nitido e magistral d'uma linguagem riquissima, e +sabendo em certas horas ser um prosador de largo folego, um critico +sagacissimo e cheio de penetração genial. + +Bastariam para provar esta asserção, os seus dois magnificos opusculos: +_Considerações sobre a historia da litteratura portugueza e causas da +decadencia dos povos peninsulares_. + +Pena é que um espirito tão extraordinariamente dotado não enriqueça a +litteratura nacional com alguns livros de critica e de historia, que, +tão bem como os melhores, elle poderia escrever. + +Emquanto Anthero aspira infatigavelmente a alguma coisa de muito +superior ao que a vida póde dar, Amiel escreve n'uma das paginas do seu +_Diario_ este pensamento caracteristico: + +«_Il n'y a de repos pour l'esprit que dans l'absolu, pour le sentiment +que dans le divin; Rien de fini n'est vrai, n'est interéssant, n'est +digne de me fixer!..._» + +Amiel n'uma hora de lucidez rara, n'uma d'estas horas em que o +visionario mais intransigente vê em clarão rapido o _nada_, das chymeras +a que immolou a sua vida, traça estas palavras, que são uma revelação e +que são um arrependimento: + +_Le resumé: Nada! Rien!... Et pour dernière misére, ce n'est pas une vie +usée en faveur de quelque être adoré ni sacrifié à une future +espérance..._ + +Do mesmo modo Anthero escreve este _soneto_, que é como a suprema +condemnação do seu funesto _credo_, que é como a lagrima que se +desprende da pupilla cançada de contemplar inutilmente as profundezas +insondaveis do _eterno abysmo_... + + + Empunhasse eu a espada dos valentes; + Impellisse-me a acção, embriagado, + Por esses campos onde a Morte e o Fado + Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes! + + Respirariam meus pulmões contentes + O ar de fogo do circo ensanguentado, + Ou caíra raivoso, amortalhado + Na fulva luz dos gladios reluzentes! + + _Já não viria dissipar-se a aurora + De meus inuteis annos, sem uma hora + Viver mais do que sonhos e a anciedade!_ + + _Já não veria em minhas mãos piedosas + Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas + D'esta pallida e esteril mocidade!_ + + + * * * * * + +Não foi esteril, não, a vida de quem produziu este livro, que ficará na +litteratura portugueza occupando um logar _á parte_, nosso pela lingua, +bella, harmoniosa e rica, em que está escripto, e d'outra raça bem +diversa da nossa, pelo perfume exotico de que está impregnado. + +N'este momento de cosmopolitismo litterario, em que a arte é uma Babel +onde as raças e as linguas se confundem, este livro marca um momento, e +como tal é precioso para os que pensam e para os que estudam. + +Reflecte-se n'elle, além do que deixo dito, uma alma angelica, uma +d'estas almas raras, que não podem deixar de soffrer muito n'um mundo +para que não são feitas. + +Eu deixei de proposito, inviolado pela minha critica, porventura +audaciosa, o que ha de mais profundamente subjectivo, de mais intimo e +de mais sagrado no volume adoravel de Anthero de Quental. + +Muitas vezes as lagrimas me romperam irresistivelmente dos olhos, ao ver +n'elle, deliciosamente reflectida, a aspiração, sempre incomprehendida, +a um amor que o consolasse e redimisse! Pensar é perigoso. Melhor é +sentir. Anthero pensou de mais. + +Eis o motivo porque não encontra a consolação unica a que a sua alma +aspira anciosamente e inutilmente. + +Sejamos bons e dôces para a Vida! Ella tem horas sinistras, bem sei; +ella tem a Duvida; ella tem a Dôr e tem o Silencio eterno a todas as +interrogações anciosas da nossa razão e da nossa consciencia; mas de que +doçura infinita ella nos não enche o coração! mas com que lagrimas +abençoadas ella não apaga as sêdes ideaes da nossa alma cubiçosa! Como +no mytho pagão, toquemos a Terra, quer dizer, retemperemos o nosso +organismo cançado nas primitivas alegrias da simplicidade, da +innocencia, e do amor! Não renunciemos a nenhuma das ineffaveis riquezas +de que a Vida é depositaria fiel, e acharemos, n'este retrocesso á +Natureza amiga e boa, a paz que os artificiaes _nirvanas_ d'este seculo +nos não podem dar! + + * * * * * + +Concluo este estudo, que eu fiz com o maximo amor que o artista, por +humilde que seja, póde pôr no seu trabalho, e no qual apenas a +sinceridade suppre tantos predicados que me faltam, pedindo a Oliveira +Martins desculpa da minha ousadia. + +Melhor do que ninguem, elle fallou do seu amigo; melhor do que ninguem, +elle o explicou aos que o não conheciam, tocando com recolhimento e com +fervor quasi religioso n'esta alma, que é para tantos um enygma +indecifravel, e dando luz a tantos pontos indecisos d'este temperamento +artistico, extranho e singular. + +Depois de ter inspirado aquelle sentido prefacio, com que o notavel +historiador enriqueceu o seu livro, que necessidade tinha o poeta dos +_sonetos_ de que uma alma, que o não conhece senão atravez d'elles, +viesse fallar ao publico da sua complexa individualidade? + +No prologo de O. Martins ha mais do que o seu talento; ha tambem o seu +coração de amigo, e é isso o que, aos meus olhos, lhe augmenta +enormemente o valor. + +Se houve audacia na minha apreciação, que m'a perdoem, pois, o poeta e o +seu critico. Eu não quiz mais do que fazer ver o livro extraordinario +dos _Sonetos_ de Anthero á luz da minha impressão pessoal. Não tive +outro intento, nem desejo outra recompensa além do prazer intimo e +profundo que senti escrevendo estas palavras sinceras, depois de ter +lido o livro adoravel que tão espontaneamente m'as inspirou. + + + + +_ANTONIO CANDIDO_ + + +I + +Uma vocação irresistivel, uma d'estas vocações a que tem por força de +obedecer-se, sob pena da mais tremenda mutilação intellectual, fez de +Antonio Candido _um orador_. + +Os escriptores fazem-se, os oradores nascem! Antonio Candido nasceu +orador. + +N'este ponto é elle absolutamente irresponsavel do seu destino. + +Poucos haverá que em Portugal não saibam as circumstancias singulares +que o subjugaram e venceram tragicamente, dando-lhe, n'este nosso meio +muito uniforme e muito incolor, uma individualidade extranha, um toque +de romanesco, que ainda mesmo nos oradores politicos destaca e assenta +bem. + +A vontade respeitada e querida de alguem, que elle muito amou, impoz-lhe +um genero de vida com o qual o seu espirito, a sua educação, a sua +comprehensão das cousas, o iam brevemente tornar incompativel. + +Moço, ingenuo, inexperiente, elle subordinou n'uma hora de +inconsciencia, de abatimento mental, toda a felicidade do seu destino +futuro a essa vontade que respeitava sobre todas. Mais tarde, +comprehendeu que as responsabilidades gravissimas que tinha acceitado, +na sua imprudencia de moço, importavam nada mais e nada menos do que a +abdicação da propria consciencia. Viu então que não podia occupar com +sinceridade--isto é, com dignidade, porque é indigno tudo que não é +sincero--a tribuna a que o tinham feito subir, e desceu d'ella sem +hesitação e sem covardia. + +Fez mal, diz o mundo; e não ha ninguem que o não tenha ouvido dizer +muitas vezes, com aquella despreoccupada ousadia com que dizem tudo os +que não acreditam em cousa alguma. + +Fez mal. _Il est avec le ciel des accommodements_; e a sociedade actual, +como em summa todas as sociedades extra-civilisadas, não exige heroismos +nem abnegações sobre-humanas. + +Ella só quer o respeito apparente das convenções estabelecidas; no mais, +acha regular que se sophismem os preceitos, que se illudam e transgridam +hypocritamente as leis. O que exige apenas e não se dirá que exige +muito--é que se acceitem as posiçoes definidas, e que se finja acatar +todas as tyrannias sociaes que a tradição consagra. + +Que fizesse mal ou bem não me pertence a mim julgar aqui. O caso é que o +fez, e que o fez com tamanha dignidade, com uma reserva tão silenciosa, +com um desdem dos bens positivos e das utilidades praticas tão +intellectualmente aristocrata, que ninguem ousou atacar de frente este +acto d'uma vontade, esta determinação d'uma consciencia! + +Os que privam de perto com Antonio Candido sabem que elle amou muito +essa tribuna, onde a sua palavra deixou vestigios de graça incomparavel +e de soberbo vigor. + +Amou-a muito, e nunca a ella se refere sem o respeito enternecido e a +vaga saudade dos que viram dissipar-se um sonho querido. + +Mas ficar onde a Fé o não prendia teria sido uma transigencia covarde +com a hypocrisia mundana. + +Só espiritos amesquinhados pela comprehensão d'uma falsa moral o +poderiam applaudir. Antonio Candido não teve essa transigencia. Antepoz +a todas as considerações de facil e util egoismo o seu culto sincero +pela verdade, a sua noção grave e austera do Dever. + +Com a sua intelligencia malleavel, penetrante, capaz de vêr justo e de +vêr fundo, percebeu, de certo, antes de tomar a resolução definitiva de +romper com o passado, as difficuldades extremas que a vida ia ter para +elle. Não hesitou, porém, certo de que na sinceridade ingenua do seu +coração, na pureza do seu caracter, n'aquella isenção desdenhosa que é a +melhor salvaguarda do homem superior, n'este tempo sem crenças +absolutas, elle encontraria sempre um guia seguro para as complicações +de ordens diversas, que tivessem de surgir diante dos seus passos. + + +II + +Outra tribuna, a tribuna politica, se lhe abriu então ampla e rasgada! + +Quem não advinha hoje as tristezas que a consciencia austera d'este +homem terá sentido ao apalpar a inanidade vã das chymeras que sonhou +antes de entrar n'este novo mundo!... + +Porque, os que julgando amesquinhal-o e diminuil-o, lhe chamam _poeta_, +sómente se enganam na intenção com que o fazem. Se é ser poeta não poder +viver sem um ideal de justiça, de belleza, de bondade que sobredoire +ainda as concepções mais vulgares, que espiritualise ainda as realidades +mais praticas; se é ser poeta ter sempre a impulsal-o, a commovel-o, o +sonho de _melhor_, a aspiração indefinida a alguma cousa que ainda não +foi realisada no mundo, mas por amor da qual o mundo tem caminhado sem +parar; se é ser poeta ter a comprehensão, perfeita e sympathica, de +todos os sonhos adoraveis com que se entretem eternamente a phantasia +d'esta velha creança incorrigivel chamada, a Humanidade--Antonio Candido +é poeta como os que mais o são. + +Lembro-me de o ter ouvido, ha bastantes annos, fallar com enthusiasmo na +vida nova que encetára,--resignado já ao tragico _abortamento_ do seu +destino de homem;--lembro-me de o ter applaudido quando, diante de mim e +d'alguns amigos sinceros, dos quaes um já desappareceu da terra, elle +desenrolláva com a palavra flexivel e deslumbradora, colorida e +vibrante, em que a eloquencia é tão natural que chega mesmo a ser +involuntaria, os planos sociaes que o consolavam de tanta cousa perdida +para sempre, ou para sempre inacessivel... + +É provavel que hoje Antonio Candido já não sonhe; mas acredita ainda +decerto que a evolução necessaria das sociedades tende constantemente a +melhorar os seus instinctos, a esclarecer a sua consciencia, a diminuir +n'ellas a somma do mal e da iniquidade, a desenvolver mais e mais no seu +espirito a ambição d'um alto destino... E a sua philosophia, a que elle +ás vezes se refere sorrindo, e ácerca da qual os seus amigos gracejam +benevolamente, não se perturba nem se ensombra, porque o meio que o +cerca n'este momento parece comprazer-se em contradizer todas as suas +formulas, em desmentir todas as suas conclusões... + +De feito elle tem visto que, na lucta que as ambições pessoaes travam na +scena politica, o vencedor paga o seu doloroso, o seu humilhante +triumpho, com os thesouros insubstituiveis da integridade e da +delicadeza moral. Elle tem tido, hora a hora, a prova irrefutavel e +desconsoladora de que a _habilidade_ vence o genio, de que a astucia +vence a virtude, de que os meios tortuosos vencem os impulsos dignos e +as aspirações sinceras. + +A historia moderna em Portugal tem sido, sem duvida, um ensinamento +fecundo e triste para esta intelligencia tão penetrante na analyse das +cousas, como intuitiva e superiormente sagaz na sua concepção +synthetica. + +Porque é que n'esse caso não deserta elle o exercito sem ideal, +onde--errando mais uma vez o caminho da vida--elle se alistou na ingenua +confiança do seu optimismo juvenil? + +Por muitas razões, umas claras e simples, outras mais complicadas, umas +originadas, simplesmente pelo seu proprio destino, outras que derivam +naturalmente da especie de determinismo historico, que principalmente o +inspira ainda nas crises de mais desolação interior, ainda nas luctas +mais dolorosas da sua sensibilidade um pouco feminina, quasi morbida... + +Como Renan, um dos seus amigos ideaes, o mystico e bondoso coração com o +qual o seu tem tantos pontos de contacto--elle acceita resignado, com o +benevolo desdem das almas fortes, a dura lei que, fazendo tão grande e +tão sublime a Humanidade, fez ao mesmo tempo tão frageis e tão +imperfeitos os individuos, a complicação inextricavel, apparente, que +existe em tudo que nos cerca, e que faz com que, muita vez, as mais +contrarias soluções do mesmo problema moral sejam igualmente justas, +igualmente legitimas diante do olhar da Critica; a certeza melancolica +de que os males e as miserias que nos circumdam e nos fazem tanta vez +perder de vista o ceu azul, o amplo espaço luminoso e puro, não são +feitas pela vontade dos homens, são simplesmente modificadas por ella +n'um ou n'outro ponto secundario. Elle sabe que só a vagarosa evolução +dos tempos pode exercer a acção que antigamente se attribuia ao capricho +ou á influencia immediata de homens providenciaes. + +D'aqui a sua tolerancia, a sua resignação austera e triste, e a +expressão melancolica da sua palavra, em que não ha revoltas inuteis nem +injustiças escusadas, mas sim a tragica acceitação de leis ineluctaveis +e crudelissimas. + +Cada epocha que passa não faz mais do que servir, intelligentemente ou +cegamente, conscia da sua missão historica ou ignorante d'ella, a +corrente das idéas, dos factos, dos phenomenos que o periodo anterior +tinha necessariamente preparado. + +Caminhantes forçados d'uma estrada enorme, cujo principio se perde em +sombras incognosciveis, cujo fim nenhum olhar descortina ou sondará +jamais, nós seguimol-a, resistentes ou doceis, confiantes ou resignados, +scepticos ou cheios de fé, egoistas ou desinteressados, parando nas +_etapes_ marcadas, perdendo-nos momentaneamente nas charnecas aridas, ou +nos atalhos floridos e risonhos, mas voltando, apoz o retrocesso rapido, +ao longo caminho que necessariamente temos de seguir, como o astro segue +a sua trajectoria, como a Vida segue a sua evolução. + +De resto, aos que perguntarem a Antonio Candido o motivo porque elle, +sem ambições pessoaes de especie alguma e com poucas illusões a respeito +todas as cousas, ou antes julgando todas as cousas uma illusão mais ou +menos radiosa, se conserva ainda assim no seu posto de politico +militante, elle responde com um bello trecho d'um dos mais bellos +discursos que este orador tem pronunciado, o discurso consagrado á +memoria de Braamcamp. + +«O desfavor com que a _acção politica_ é considerada por muitos +espiritos superiores, no velho e no novo mundo, tem da sua parte, é +forçoso confessal-o, bastantes apparencias de razão. + +Pela sua influencia immediata e complexa, e pela enorme comprehensão dos +interesses que move, este genero de acção é o mais vasto, o mais +attrahente de quantos podem sollicitar um homem de intelligencia e de +vontade; mas como estadio de exhibição moral e como processo de educação +publica mostra-se a esta hora, na America e na Europa Occidental, +adverso a muitos interesses da dignidade civica, da justiça +distributiva, da logica que deve haver nos factos, e do prestigio que as +pessoas devem conservar. Tem uma base intellectualmente falsa: a +philosophia naturalista do seculo XVIII! Tem um principio inane e +contradictorio: a soberania popular. Tem um processo que não +qualifico... por uma delicada circumstancia de logar e de tempo: o +suffragio universalisado! Tem um limite para as elevações pessoaes, que +difficilmente varia: a mediocridade. Tem uma litteratura propria, quasi +sempre sem ideal e sem verdade: o jornalismo e a oratoria parlamentar. +Tem uma liturgia sem pompa e sem pensamento: a das ficções +constitucionaes. + +A grande revolução, de que promana e deve dactar-se toda a moderna +historia, assumiu, como se sabe, as formas d'um drama grandioso, enorme. + +«Emquanto este drama desenrollou nos Estados latinos as suas scenas +formidaveis foi sublime de paixão, de força e de movimento. O theatro +grego, em que intervinham deuses, não é mais maravilhoso do que este em +que representaram povos! + +«Mas a commoção publica, como estado violento, não podia ser perduravel; +a ebullição dos espiritos, consumidora quando é prolongada, não poude +deixar de diminuir; recahiram nas condições normaes da vida os homens e +as nações que se tinham exaltado até ao heroismo e até ao martyrio; e +viu-se então que a superficie moral do mundo ficára com o aspecto +devastado, arrefecido, melancolico, d'uma floresta que o incendio +consumisse, e de que os velhos troncos em cinza tivessem apenas servido +para fecundar rasteiras vegetações uniformes, de pouco vigor e sem vulto +definido ainda... + +«A França, onde a immensa combustão principiara, ainda se reenflammou +uma vez contra a senil e caduca _Restauração_ e teve, durante alguns +annos, uma prolongação artificial de vida politica na tribuna illustre +de Guizot, Royer Collard e Thiers, e na imprensa convicta e apaixonada +de Armand Carrel e de P. L. Courier; mas formado e desfeito o sonho de +1848, caiu, sossobrou, veio, pouco a pouco, a volver-se no que está, no +que é hoje... A Italia depois de Cavour e de Garibaldi, a Hespanha +depois de Espartero e de Mendizábal, Portugal depois de Mousinho da +Silveira e de Saldanha,--grandes nomes que marcam a estatura de velhos +povos,--voltaram fundamentalmente ao que eram d'antes, porque ha, meus +senhores, uma tyrannia que as espadas não cortam, e um despotismo que a +penna do legislador não fere de morte; a tyrannia das raças, e o +despotismo da historia! + +«N'este estado de cousas, _superior aos antecedentes porque sempre é um +ponto vencido na serie do progresso humano_, mas repousado, egoista, +apenas assignalado por um mais intenso fervilhar de vida vegetativa e +intellectual, sem accidentes revolucionarios, salvo quando a questão +politica trava na questão nacional, como em Italia antes da occupação de +Roma, na França depois de 1870 e na Inglaterra actualmente; n'este +estado de cousas, pouco propicio ás germinações do heroismo, e ás +ostentações da grande força, porque os _obstaculos sociaes deslocaram-se +do mundo para a consciencia_ e o poder publico desvigorisou-se, +enfraqueceu nas multiplas divisões que o fraccionaram: n'este estado de +cousas, que em compensação de tanta inferioridade é pacifico, é +evolutivo, é felizmente desassombrado de terrores divinos e humanos--_ha +um largo espaço para uma boa intelligencia que queira applicar-se, para +uma energica vontade, que queira desenvolver-se, para um caracter +honesto e digno que a vida publica tente com as suas glorias e os seus +sacrificios, com os seus ruidosos triumphos e as suas tremendas +ingratidões_!» + +Citei todo este largo trecho, em que vão sublinhadas por mim algumas +passagens mais significativas, porque, formosissimo, como forma, +admiravel com synthese historica, elle vem de molde para definir as +idéas que Antonio Candido tem ácerca da politica moderna, e os motivos +que actuaram n'elle para continuar na vida publica que adoptou. + + * * * * * + +Como quer que seja e sem me alongar, indiscretamente, em considerações +que prendem no que ha de mais delicado e mysterioso n'uma consciencia de +homem, o que é verdade é que Antonio Candido é hoje a suprema +representação da arte oratoria no mundo politico e litterario d'este +paiz. + +Não é que no parlamento portuguez não brilhem talentos muito +notaveis,--nas nossas assembléas meriodinaes sabe-se que não é o talento +que falta--muitos fallam bem, argumentam bem, discutem bem. + +Ha tribunos enflammados, ha luctadores politicos, a que nenhum segredo +da estrategia parlamentar é vedado, mas orador, apezar de tudo é só +elle. + +Todos, em qualquer dos campos partidarios em que militem, o reconhecem +unanimemente. Observação feita muito de passagem--o partido opposto +áquelle em que Antonio Candido está, reconhece-o muito mais +ostentivamente do que o seu proprio partido, injusto muitas vezes, +ingrato quasi sempre para este homem que tanto o illustra. + +O orador, é o mais privilegiado e o mais raro entre todos os artistas, e +tambem--como que para contrabalançar a influencia directa e poderosa que +só elle consegue exercer, como que para amargar e diminuir a sensação +voluptuosa de força e de imperio absoluto, que só elle experimenta em +certas horas de triumpho moral, quando a sua palavra fremente e +indignada passa, curvando os espiritos, como a ventania passa, curvando +as grandes arvores--o seu poder é de todos o mais passageiro, a sua +força é de todas a mais ephemera, o brilho do seu nome é de todos o que +mais rapido se apaga... + +Quem é que hoje póde reconstituir pelo pensamento a commoção profunda +que electrisou as almas de 89, quando a palavra de Mirabeau trovejava do +alto da tribuna as suas apostrophes sublimes?... Quem fixou no papel os +rugidos leoninos, os gritos titanicos de Danton? Quem, lendo os +discursos de Savonarola, o inspirado dominicano florentino, comprehende +o movimento desordenado e febril, com que elle agitou em convulsões de +arrependimento e de lagrimas as almas italianas de seu tempo?... + +Levaram o segredo de todas estas maravilhas aquelles que as ouviram e +que as não poderam communicar a ninguem! + +Na arte de orador, na _sublime arte potente e deslumbradora_, como lhe +chama, no discurso já citado, aquelle que tanto lhe deve e tanto a ama +synthetisam-se n'um relampago fugitivo, todas as mais bellas irradiações +das outras artes! + +A esculptura empresta-lhe a elegancia e a magestade das suas attitudes, +a flexibilidade viril dos seus gestos, a graça malleavel e movimentada +dos seus aspectos; a musica dá-lhe as notas graves ou dôces, apaixonadas +ou severas, vibrantes ou meigas, sonoras, ou melancolicamente +esmorecidas da sua voz; a poezia dá-lhe o encanto alado indefinivel, +subjugador das suas imagens; a litteratura o requinte subtil da sua +fórma, a belleza penetrante dos seus conceitos, a seducção _ondeante e +diversa_ das suas expressões; a philosophia, a amplidão dos seus +horisontes, uma comprehensão da vida soberanamente inspiradora, uma +envergadura de azas potente e larga bastante para que elle possa +levantar-se ás amplidões sem fim do Pensamento, ás deslumbrantes vizões +do Ideal... + +Faz-se de todas estas cousas maravilhosas e divinas a eloquencia dos +grandes oradores, mas faz-se de mais alguma cousa que sobredoira tudo +isto, e sem a qual tudo isto seria artificial como a representação d'um +actor de genio! E essa outra cousa, insubstituivel e sagrada, é a +sinceridade ingenua do caracter, é a bondade humana e communicativa do +coração! + +E é isto, que além de tudo o mais Antonio Candido tem como ninguem. É +isto que, acima de tudo, o torna sympathico e querido. + +A nota de probidade virginal, de susceptivel e melindrosa pureza de +alma, que o distingue, e acaso, no meio actual da nossa politica o +singularisa, punha-a Oliveira Martins em evidencia, ha tempo, no formoso +_perfil parlamentar_ que consagrou a Antonio Candido. + +«Quando Antonio Candido falla, diz elle, vê-se um caracter atravez de +uma obra de arte.» + +E accrescenta lucidamente. «Pela sua mente impressionavel passam as +ideas do seu tempo como os raios do sol pela placa sensivel do +photographo, e as imagens fixam-se com a mesma nitidez e a mesma +fidelidade. Pela sua alma ingenua passam, como por philtro, as ondas da +corrente dos factos e ahi se depuram para surgirem depois transparentes +e crystallinas. E factos e idéas, animadas e allumiadas pela sua +imaginação creadora, borbulham-lhe dos labios no caudal de uma palavra +incomparavel de atticismo, de colorido, de propriedade, que são as +qualidades artisticas do orador, combinado com um gesto e uma voz que +não mente, quando exprime a energia mascula, a convicção ingenua, a +indignação fremente, ou a caridade pura, que são as qualidades moraes do +homem!» + + * * * * * + +Para provar quanto é rara a reunião de faculdades que constituem este +aristocrata do pensamento, esse maestro da palavra que se chama +_orador_,--no sentido amplo e complexo, no sentido artistico que eu aqui +dou á palavra--basta vêr-se que Portugal que tem tido sempre uma +florescencia notavel de bellos talentos... desaproveitados, só teve no +passado um orador chamado José Estevão, como só tem no presente um +orador chamado Antonio Candido. + +E a geração de José Estevão foi: Garrett, foi Castilho, foi Rebello da +Silva, foi Herculano, foi Rodrigo da Fonseca, foi Fontes, foi Sampaio, +assim como a geração de Antonio Candido é composta de tantos nomes +illustres, que estão no pensamento e na memoria de todos, e que tanto na +politica como em todas as outras manifestações da actividade +intellectual tem dado de si soberbas provas. + +Antonio Candido, porem, foi mais infeliz que o seu glorioso antecessor, +porque em quanto esse achou o meio perfeitamente adquado ás suas bellas +qualidades de tribuno impetuoso, enflammado, um tanto declamatorio como +o seu tempo; emquanto esse podia vibrar ainda intensamente ao nome, +então virginal, poetico, mysterioso, de _Liberdade_,--este, na fria +quadra evolutiva que atravessamos, n'este periodo, que se chama positivo +mas ao qual se deveria chamar sceptico, não encontra, fóra de si, nada +que o estimule, nada que o anime, nada que responda ao sonho altissimo +que a sua imaginação sonhára, antes de ter penetrado nos meandros +complicados d'este moderno constitucionalismo, tecido de ficções +transparentes, n'este mesquinho periodo politico, que é o triumpho da +mediocridade, que é a tortura do genio, e a condemnação das fortes +individualidades!... + +Dessem a Antonio Candido os soberbos assumptos, que Emilio Castellar tem +tido na sua brilhante e revolta existencia de agitador e de tribuno; +dessem-lhe a vizão radiosa e juvenil da Democracia e da Liberdade, que +deslumbrou na aurora da sua vida publica, esse bello Atheniense chamado +José Estevão; dessem-lhe o theatro collossal em que representou esse +titan de cabeça convulsionada e febril que foi Mirabeau;--e veriam se +não era egual a qualquer d'esses, sem comtudo se parecer com nenhum +d'elles, o homem que póde, ainda hoje, em Portugal, n'este momento de +victorioso mercantilismo e de arranjos e combinações deprimentes, +fulminar de admiração um auditorio de burocratas, fazer tremer de +enthusiasmo uma assembleia de homens de negocios!... + +É que o orador, infeliz em tudo como eu ha pouco dizia, alem de todas as +singulares faculdades individuaes que necessita de possuir, para exercer +e desenvolver o pleno vigor do seu genio, precisa tambem de que o tempo +em que vive,--pela grandeza das suas luctas, pelo contraste das suas +agitações, pela desordenada corrente dos seus desejos, pelo combate +tumultuoso das suas paixões civicas, pelo interesse dramatico dos seus +acontecimentos,--corresponda aos ideaes generosos que lhe illuminam a +consciencia, e á fibra guerreira que palpita e freme na alma de todo o +luctador, quer seja da Ideia quer seja da Acção! + +Sempre uma quadra epica da vida dos povos antigos ou modernos, foi +representada e contida na palavra d'um orador. E appareceria esse orador +se as circumstancias o não houvessem por assim dizer, determinado e +creado? Talvez que não! + +Pois a superioridade extraordinaria de Antonio Candido, e talvez a maior +causa da tristeza que transparece em tudo que elle diz, a fatalidade +mais insanavel do seu destino, é ter apparecido n'uma epocha em que +segundo elle proprio disse _a hora das grandes paixões politicas passou +no mundo_! + +As circumstancias não o favorecem; a transformação por que está passando +a politica portugueza, e infelizmente toda a politica europeia, não o +inspira nem impulsiona; e no emtanto, apezar de todas as más +influencias, que parecem tender em toda a parte a paralysar o caracter e +o talento, é tal a pureza crystallina da sua consciencia, é tal a +illuminação fulgurante da sua palavra, que elle consegue crear para si, +um logar á parte, indisputavel, aristocraticamente reservado, em que +saboreia as delicias requintadas da sua isolação e do seu altivo +desinteresse. + +Sem ter transposto para sempre o circulo acanhado da politica +partidaria, sem ter sahido definitivamente da jaula estreita do nosso +constitucionalismo nacional, Antonio Candido, consegue em admiraveis +_sortidas_ de que todos se lembram, dizer verdades profundas ao paiz que +teima em não querer ouvil-as. Na sessão de 87 a tantos respeitos +desoladora, n'essa sessão em que passaram sem debate leis d'uma grande +importancia economica e d'um alcance politico altissimo, e em que se +consumiram dias e dias discutindo os mais inuteis e ociosos pequenos +assumptos pessoaes, as questiunculas de interesse mais restricto e mais +acanhado, a palavra de Antonio Candido deixou, todavia, um rasto de +inolvidavel e luminosa critica. + +Vio-se ali um parlamentar julgando o parlamento; um filho da Revolução +dizer á Revolução as verdades tristissimas que estão na consciencia de +todos! Criticando a moderna comprehensão que temos da Liberdade, o +orador, não teve a irreverencia que insulta, mas teve a razão austera e +firme que adverte, a lucida comprehensão que vê longe e que vê justo, e +que de leis inluctaveis sabe tirar as duras e ineluctaveis conclusões! + +Já estamos longe do tempo em que se acreditava no empyrismo de receitas +particulares, e na vinda de Messias privilegiados e salvadores. + +É inutil accusar este ou aquelle individuo de males, cujo segredo e cuja +origem só acha, quem investigue o espirito da nossa raça, o modo porque +n'ella actuaram as inesperadas transformações que soffreu, a corrente +historica dos acontecimentos, as mil influencias complexas, os mil +factores diversos que nos fizeram... o que hoje sômos! + +Diante dos acontecimentos que desdobram sob o nosso olhar a sua trama +variada ou uniforme, é porem, nosso costume incorrigivel, accusar-mos +não só os homens, mas ainda certos e determinados nomes de homens! + +Não percebemos ainda que uma sociedade, que um paiz, possam na sua +qualidade de organismos vivos, estar sujeitos ás mesmas condições de +germinação, desenvolvimento, degeneração e morte, a que está sujeita a +Vida Universal em qualquer das suas infinitas manifestações. + +Revoltamo-nos contra o que não pudémos evitar! Attribuimos á +preversidade insolita dos individuos o que é puramente o resultado de +leis historicas incombativeis! D'aqui a nossa colera insensata, e +contraproducente! + +Podem os homens modificar as condições moraes d'uma sociedade, não podem +obstar a que a vida d'ella siga o curso fatal que segue tudo que vive na +terra, e que na terra tem de morrer. + +N'este ponto, Antonio Candido educado por Comte e por Littré tem uma +vantagem incontestavel sobre quasi todos os seus contemporaneos +portuguezes. Nenhum, que eu saiba, se embebeu mais profundamente das +lições do grande philosopho positivista, nenhum vê de mais alto e com +uma imparcialidade mais bella e mais fecundante para o espirito, a +evolução necessaria das leis sociologicas a que todas as civilisações +estão subordinadas. Mas extranho contraste! Este positivista de +educação, é um idealista incorrigivel, por temperamento. + +Apezar d'isso ou talvez por isso mesmo nunca o ouvirão accusar um homem +dos acontecimentos de que pela maior parte das vezes esse homem não foi +senão o vizivel instrumento; nunca o ouvirão accusar o presente de não +ter sabido perpetuar as virtudes e as crenças do passado. + +Se tem saudades das bellas cousas extinctas, se tem pena de não ter +vindo ao mundo n'outra quadra, em que o mundo ia n'um ponto mais +pittoresco ou mais interessante, mais illuminado ou mais espiritualista +do seu caminhar indefinido, se sente a nostalgia dos bellos ideaes hoje +desfeitos, nem por isso deixa de reconhecer que toda a vontade +individual é impotente para guardar na alma da Humanidade, pensamentos +que se vão fatalmente dissipando, phantasias que a experiencia repelle, +sonhos de que infelizmente se acordou, radiosas chymeras que se esvairam +com a hora infantil em que tinham visto a luz... + + * * * * * + +Como orador e como artista, Antonio Candido não pertence á raça +impetuosa e enflammada de Castellar ou de José Estevão. + +Educado, como já disse, pelos processos da sciencia positiva, tão +disciplinadora e tão methodica; não se deixando nunca possuir pelo seu +assumpto, antes possuindo-o, subjugando-o, vencendo-o, torcendo-o a +todas as magicas flexibilidades da forma mais correcta e mais +superiormente bella; desprezando os artificios d'uma rhetorica +envelhecida e inane; sem nunca se deixar ir atraz das seducções um tanto +serodias da pompa e da exhuberancia oratorias; possuindo uma razão clara +e lucida, um poder de critica muito notavel, elle é justamente o orador +moderno tal como os auditorios d'hoje teem o direito de exigir... + +O orador que impressiona mas que persuade, que tem o brilho e a côr, a +illuminação e o prestigio, mas que tem tambem o facto, o documento, a +demonstracção scientifica, a comprehensão positiva das cousas. + +Essa eloquencia que tão poucos teem sabido comprehender, essa eloquencia +que os ignorantes desdenham, e que os mediocres teem em pouca conta, +encontrou na critica indigena as interpretações mais diversas e mais +extraordinarias. + +Precedido d'uma celebridade cujas exigencias elle soube completamente +realisar, Antonio Candido, apparecendo em S. Bento fez um d'aquelles +seus discursos magistraes em que as bellas e largas syntheses brilham +como constellações, n'um fundo azul de arte pura e de belleza a um tempo +moderna e classica. + +Foi então que o jornalismo portuguez o sagrou _rouxinol_. As appellações +mais vulgares, que ficaram desde esse dia como cauda obrigatoria ao seu +nome, foram as de: _orador maviosissimo_, _harmonioso tenor_, _voz +eloquente e suave_, etc. etc. Cantor dos bosques sagrados de S. +Bento--eis a sua posição social e artistica, perante a critica do seu +paiz. + +«--Mas eu não sou tal rouxinol! Eu nunca na minha vida +cantei!--exclamava elle em vão com um gesto de suplice resistencia. Eu +não tenho a pezar-me na consciencia nem um trilo nem uma volata. + +--É rouxinol--respondeu severa e cathedratica a critica portugueza. É +rouxinol, e rouxinol hade ficar!... + +Foi uma hora amargurada esta, na vida do orador. Resignou-se então por +algum tempo, para ver se o despediam d'entre o bando dos _alados +cantores_, a fazer politica de pequenos interesses, e de pequenos +assumptos. + +Defendeu eleições, atacou dictaduras; foi vehemente e apaixonado no +ataque ás personalidades eminentes; teve ironias mordentes e cruas, teve +energias inesperadas; foi o orador politico, opportunista, habil, +argumentador e arguto, que é necessario ser-se pelos modos, para +arrancar de sobre os hombros as azas um pouco humilhantes de rouxinol. + +Ás vezes no meio d'estes discursos de argumentação _terra a terra_, a +sua imaginação opulenta e d'um brilhantismo extranho e raro, tinha uma +fuga subita pelas largos espaços estrellados d'onde andava foragida, mas +dos quaes se sentia eternamente nostalgica... + +Outras vezes a sua faculdade critica tão educada e tão fina, d'uma +subtileza de comprehensão tão viva e requintada, atirava para o meio do +auditorio--sempre seduzido, senão sempre inteiramente capaz de o +perceber--com uma d'aquellas interpetrações geniaes, um d'aquelles +_aperçus_ soberbos, que só pertencem aos que meditam e estudam os mais +arduos e complexos problemas da vida social. + +Foi por essa occasião que alguns noticiaristas principiaram +surrateiramente a chamar-lhe _aguia_. Nunca se soube bem qual a razão +d'aquella mudança. Já que elle estava, no emtanto, adstricto aos +dominios da ornithologia, antes aguia do que rouxinol,--pensou decerto +Antonio Candido. + +E aguia e rouxinol lhe ficaram alternativamente chamando os seus amigos +e os seus adversarios. + +Foi talvez para escapar a esta importuna classificação, que elle +ultimamente, queimando os seus navios, sacrificando denodadamente +qualquer ambição politica que ainda porventura se acoitasse no mais +intimo e secreto do seu alto espirito, fez ouvir em S. Bento uma palavra +de verdade suprema e tambem de suprema condemnação de toda a politica +interna d'este malfadado paiz. + +De todos os lados da imprensa levantou-se um brado que, condemnando a +doutrina, glorificava o orador. Esqueceram-se, n'essa tardia accusação, +de que em S. Bento a camara inteira o applaudira vertiginosamente, +porque era a verdade quem punha na sua palavra a indignação fremente, a +paixão intensa e viva, a melancolia immensa, inconsolavel, feita de +ironia e de razão... + +Accusaram-n'o porque, fugindo á banalidade e á falsidade historica de +que todos ali são mais ou menos reus, elle não attribuia a ausencia de +costumes politicos, a falseação do systema representativo, a exagerada +elasticidade das ficções constitucionaes a violação sempre impune, de +todas as suas praxes, as mil imperfeições do nosso machinismo +governativo á vontade do sr. Fulano ao ministerio do sr. Cicrano, aos +maus conselhos do sr. X e ao systema de corrupção do sr. J. + +Era isto que elles estavam costumados a ouvir; era a continuação d'isto +que elles reclamavam. Mas Antonio Candido é que lh'o não fez. É uma +desforra brilhante e inolvidavel este discurso! É uma desforra das mil +vezes em que o orador teve de pôr a sua palavra, não ao serviço d'uma +causa má, mas ao serviço d'uma questão pequena ou d'um assumpto +inferior. + +Com a impaciencia, longo tempo soffreada, d'uma consciencia honesta, que +vê continuamente, em torno de si, falseada a verdade dos factos, +desfigurada a noção das coisas deslocados os assumptos, confundidas as +mais claras e simples questões,--elle fez a largos traços a nossa +historia constitucional, e provou, uma vez por todas, com o brilho e o +atticismo da sua palavra sem rival, que isto que nós chamamos +_decadencia do systema parlamentar_, não é mais do que uma justa e +inevitavel consequencia de factos, de que esta geração não tem a culpa +nem a responsabilidade, e de que ella tem fatalmente de ser a victima e +o joguete. + +É bello de verdade e de eloquencia impressionadora todo este trecho do +seu ultimo discurso politico, que desenha, com rapida vivacidade, o modo +porque o constitucionalismo foi improvisadamente implantado entre nós, e +os obstaculos que para o seu pleno e vigoroso desenvolvimento encontrou +na nossa educação tradicional, na nossa indole herdada de fidalgos +preguiçosos, nos nossos costumes seculares, na nossa pobreza, na nossa +ignorancia, nos defeitos irreductiveis de raça que tão adversos nos +tornam por ora e, talvez para sempre, á ficção chamada systema +representativo. + +Taine no 2.^o volume do seu trabalho sobre as _origens da França +contemporanea_ escreveu este trecho, que os nossos politicos deviam +meditar um pouco, antes de se entregarem á desabalada gritaria contra os +governos que se teem succedido, sempre perpetrando os mesmos erros, e +sempre conseguindo resultados iguaes: + +«Se ha n'este mundo cousa que seja difficil de elaborar-se, é uma +constituição, sobretudo uma constituição completa. Substituir os velhos +quadros, dentro dos quaes vivia uma nação, por quadros differentes, +apropriados e duradoiros; applicar um molde de cem mil compartimentos á +vida de uns poucos de milhões de homens; construil-o tão +harmoniosamente, adaptal-o com tamanha habilidade e tamanha +opportunidade, com uma tão exacta apreciação das necessidades d'esses +homens e das suas faculdades, que elles entrem dentro d'elle de seu +mutuo proprio, para ahi se moverem sem atrictos asperos; e que +immediatamente a sua acção improvisada tenha a facilidade d'uma velha +rotina--eis uma empreza que é positivamente prodigiosa, e provavelmente +muito superior ás forças do espirito humano...» + +Foi isto que nós tentamos fazer, e é do abortamento d'esta empreza +impossivel, que se originam e que resultam todas as nossas desgraças, +todas as provações dolorosas que temos atravessado, todas as amargas +desillusões que a nossa alma nacional tem soffrido e que tão abatida e +descrente a fizeram desde muito... + +E foi isto que o orador fez sentir, com a clareza e a nitidez da sua +palavra privilegiada, na assemblea representativa e no paiz inteiro. + +Parece impossivel que este modo de levantar a discussão, de illuminar os +phenomenos sociologicos, de fazer a critica ampla e elevada da nossa +vida publica, produzisse um effeito de _indignação patriotica_ na +imprensa d'este paiz. + +E o grande pensador foi finalmente demittido do seu posto de rouxinol +honorario da camara dos deputados! + +Se Antonio Candido, faltando á verdade da sua intelligencia e á verdade +da sua consciencia, tivesse declamado pomposamente sobre a _decadencia +politica_ dos nossos dias, attribuindo-a aos manejos machiavelicos do +sr. Fontes, que Deus haja,--uns applaudiriam enthusiasticamente, outros, +invertendo o caso, lançariam a responsabilidade d'essa decadencia ás +locubrações mysteriosamente preversas do sr. José Luciano que Deus +conserve, mas ninguem alcunharia de anti-patriotica a inspiração honrada +e nobre d'esse discurso, tão bello pela arte com que foi dicto, como foi +grande pela sincera verdade com que foi pensado. + + * * * * * + +Visto que o orador é o homem, fallemos do homem. + +Quem vê Antonio Candido n'uma sala, quem conversa com elle, quem o +observa, caprichoso, desigual, expontaneo, mais triste do que alegre, +ora silencioso e esquivo como uma creança amuada, ora vibrante, +apaixonado, inquieto, defendendo ou atacando uma these artistica ou um +problema de moral,--perceberá logo que esse homem, apesar de não ser o +que nas salas se chama _um conversador_, tem o dom da palavra +maravilhoso e raro, que a poucos é concedido; mas não saberá, ainda +assim, advinhar n'elle o portentoso orador que as nossas assembléas +politicas conhecem e acclamam. + +É que Antonio Candido, que, como todos os artistas sinceros, sente tudo +o que diz, e em quem, antes de sêrem verbo incomparavel, as ideias são +sangue das veias, vibração dos nervos, cellulas do +cerebro,--transfigura-se d'um modo indizivel, logo que, entre elle e o +seu auditorio, se estabelece aquella corrente magnetica, que faz com que +centenas de homens vibrem á voz d'um só homem, que faz com que a +sensibilidade d'um homem se exalte se exacerbe d'um modo violento, +doloroso quasi com a commoção de todos. + +O olhar, que a contemplação das cousas da vida e a vizão interior, +desalentada e triste, tem apagado e como que vellado mysteriosamente, +accende-se então em scentelhas chammejantes, ou fulgura como luz fixa, +penetradora, intensa e viva; a cabeça, admiravelmente modelada, levanta +se n'uma attitude de orgulho infinito; o gesto faz-se, ora largo, +soberbo, magestoso, ora incisivo, ironico, sublinhando com extranho +vigor os tons diversissimos do discurso; na voz poderosa, d'uma gamma +opulentissima, vibram-lhe magnificamente todas as cordas que, diante +d'um auditorio um tanto sceptico, póde fazer vibrar um artista +intelligente--a ironia tempera n'ella a indignação, uma graça dolente e +melancolica, attenua-lhe e como que lhe subtiliza artisticamente a +tristeza. A sua dicção correcta até ao atticismo possue todos os +segredos da moderna comprehensão da arte. A palavra sahe-lhe colorida +por todos os cambiantes d'um sentir sincero e profundo, as intenções +teem uma graça penetrante, uma fina malicia, benevola e indulgente, de +quem conhece o mundo e os homens, de quem tem para a Vida, incompleta +como é sempre, miseravel como é tantas vezes,--uma larga tolerancia, +feita de sympathia e de bondade... + +E a pairar sobre tudo isto, dando a tudo isto um toque de irresistivel +sinceridade--tornando uma creação de moral cada manifestação eloquente +de arte--aquella tristeza que elle exprime tanta vez em traços leves, +discretos e subtis: a tristeza que sentem os grandes pensadores, ao +verem que é, no fim de contas, tão estreita e tão limitada a esphera da +sua acção, que é tão inefficaz o poder isolado da sua vontade, que é +inutil e vão todo o esforço com que elles queiram combater a corrente +impetuosa que passa, a qual os mediocres continuam, com louvavel +modestia, a imaginar determinada, guiada por elles... + + * * * * * + +Alem dos seus discursos parlamentares, que já davam um bom volume e que, +segundo ouvi, serão breve publicados, Antonio Candido tem feito algumas +conferencias litterarias de subido merito, que no tribuno revelam o +pensador, no orador o litterato delicadissimo, o artista vibrante, +superiormente cultivado, a fina sensibilidade em que os mais differentes +estados se repercutem vivamente. + +Estas conferencias são superiores aos _discursos_, porque os assumptos +escolhidos pelo orador põem mais á vontade o seu espirito, dão mais +espaço á sua imaginação, dão ensejo ao seu genio de manifestar-se em +mais liberdade. + +D'entre ellas destaca-se, pela belleza litteraria, a que foi pronunciada +no Porto, quando Victor Hugo morreu. + +Nem na patria do grande sonhador da _Légende des Siécles_, em que já +tinham morrido quasi todos os companheiros idolatras do poeta, se +encontrou, n'aquella occasião, uma voz que melhor e mais lucidamente +soubesse, em traços tão rapidos, com eloquencia tão maravilhosa e tão +adequada á grande gloria que se celebrava, julgar o o homem e o +escriptor, aquilatar o valor e a especie da sua obra, fazer valer a +exhuberancia extraordinaria d'aquella organisação, pôr em relêvo a força +creadora do gigante adormecido!... + +Era para este genero de conferencias,--muito moderno, muito no gosto do +nosso tempo, que póde elevar-se á cathegoria d'uma arte perfeita,--para +este genero, a que Renan tem dado o prestigio da sua perfeição +atheniense de estylo, a graça ondeante e melancolica do seu pensamento +de celta, que eu quizera vêr voltado o espirito de Antonio Candido. + +É que elle tem perfeitamente a especie de talento e de imaginação que +este trabalho requer. Desdenhoso e desattento para o contorno das cousas +exteriores; não se dando demasiadamente ao espectaculo mais ou menos +pittoresco da Natureza vizivel; adversario da comprehensão egoista da +_arte pela arte_; tendo por audaciosas hypotheses inverificaveis os +sonhos transcendentaes da methaphysica;--são principalmente as +preoccupações da ordem moral que o interessam, são as vizões e as +contemplações da consciencia que o absorvem, com exclusão de todos os +interesses e de todas as actividades praticas. + +Cada grande espirito escolhe para esphera da sua acção e da sua +influencia aquella em que melhor se aclima o seu temperamento especial. + +Uns, os philosophos, concentram-se na especulação desinteressada, sem se +preoccuparem sequer das consequencias terriveis, destructivas, +assolladoras muitas vezes, que possam resultar das suas premissas +audaciosas. Indifferentes a tudo que não seja a logica do seu systema, +seguem-n'a até ás extremas conclusões, sem curarem do mal ou do bem que +possam produzir na humanidade. + +Quando Spinoza o _bemaventurado_, como, lhe chamavam os que o conheciam +de perto, doente e pobre no canto isolado da sua obscura casa, negava ao +Deus pessoal a possibilidade de existir, á Natureza um fim e um +principio, ao homem a noção do mal e do bem, e o livre arbitrio--minando +assim as bases fundamentaes em que assenta a segurança e a moralisação +das sociedades, pensava elle, porventura, que da applicação pratica das +suas ideias podiam provir os cataclysmos moraes mais terriveis, a +subversão de todos os principios existentes, o cahos de todas as leis e +de todos os dogmas? + +A lembrança de que, das descobertas da astronomia e da physica, proviria +para o homem uma comprehensão do seu destino inteiramente diversa da que +elle tinha até ali, uma concepção do Universo contraria em tudo á que +elle formára, passou alguma vez pelo espirito de Galileo, de Copernico, +ou de Newton? + +E o artista que adora e procura no mundo a belleza como elle a imagina, +a reproducção real d'um typo que elle sonhou, distingue acaso a belleza, +que é pura e sã, d'aquella que é preversa e corruptora? Não. Para elle a +belleza existe por si só, é só ella que o exalta e encanta, é só ella +que lhe dá a sensação unica, voluptuosa e divina, por amor da qual, aos +seus olhos, a vida tem um sentido e tem um fim! + +O psychologo, como o artista e como o philosopho, não se preoccupa +absolutamente nada com o resultado nem com a applicação das suas +observações e das suas sondagens. + +O seu desejo de penetrar os escaninhos mais secretos, mais escusos, mais +tenebrosos do coração humano, tem em si mesmo o seu limite, o seu fim e +a sua razão. + +O que o interessa é o funccionar da machina cerebral, a germinação e o +desenvolver do pensamento, o jogo e a combinação das paixões; são os +estados variaveis e complicados da consciencia, as inextricaveis e +confusas vegetações da Ideia e do instincto, o impeto irreductivel dos +sentidos, a engrenagem complexa do organismo humano. É-lhe absolutamente +indifferente que haja paixões peccaminosas ou sentimentos legitimos, +ideias preversas ou ideias sãs, instinctos criminosos ou instinctos +bons. + +Essa ordem de considerações fica alem dos limites que a si proprio +traçou. Não tem indignações nem desprezos, não tem admirações nem +alegrias. Tem simplesmente a curiosidade attenta do chimico, em presença +do qual dois productos se combinam ou se repellem, do naturalista que +encontrou a lei pela qual se explica um phenomeno da materia. + +Ha porem outra ordem de espiritos, que teem, como o philosopho, uma +concepção particular do Universo e da Vida; que teem, como o artista, o +amor do bello; que teem, como o psychologo, a curiosa penetração do +homem interior,--mas que, de cada facto veem a consequencia, de cada lei +veem a applicação, de cada aspecto bello das cousas veem a influencia. +Julgam, estudam, absolvem ou condemnam, impõem condições á belleza, +regras immutaveis á consciencia, preceitos sagrados á Vida Humana e á +vida social. Não lhes basta o interesse dramatico, a magnifica +florescencia da Paixão, a vitalidade intensa do instincto, o jogo +admiravel das energias physicas ou mentaes. De tudo isto se preoccupam, +tudo isto estudam e analysam, mas com o fim de pôr o equilibrio e a +harmonia n'estas forças indomitas, que, entregues a si mesmas se +aniquillariam mutuamente, sem uma lei suprema que as subordinasse! + +O espirito de Antonio Candido pertence ao genero d'estes espiritos em +que predominam as preoccupações de ordem moral. + +Os asperos deveres e as amargas tristezas de todos os dias; os nossos +sentimentos mais intimos; as nossas mais irrepremiveis paixões; as +incertezas, as agonias do espirito alanceado por tantas contradicções e +tantas duvidas, e que, em nenhuma solução, das que offerece a +philosophia ou a crença religiosa, encontrou ainda o repouso desejado; e +lucta interior travada entre o mysticismo--innato ou herdado no homem--e +o racionalismo victorioso mas cruel, cujas ondas veem, dia e noite, +bater impetuosas contra a fortaleza mal segura, em que elle abrigou os +seus deuses foragidos; os combates da consciencia e da vontade, do +instincto e da razão; todo este mundo enorme, que cada um de nós traz +dentro de si, para sua tortura e seu orgulho;--eis em summa o que attrae +irresistivelmente este espirito contemplativo, no qual a educação +moderna não poude nunca vencer de todo a nostalgia, talvez inconsciente, +d'outras eras de simplicidade e de fé, em que a vida era mais facil, em +que o dogmatismo religioso se impunha sem esforço á consciencia +individual e a conservava mais tranquilla, mais ignorante e mais... +feliz! + +O seu sonho--bello e radioso sonho, talvez nunca realisado--seria a +pacificação da alma moderna, tão desordenada, inquieta e dolorida n'este +momento, de que, todos mais ou menos, sentimos em nós a repercussão +dilacerante! + +Elle não é dos indifferentes, que assistem impassiveis e frios a estas +angustias enternecedôras do espirito contemporaneo, ou dos que trabalham +para propagar, em torno de si, o desinteresse absoluto das cousas +invisiveis, das cousas ideiaes... + +Achar uma solução pacificadora para este estado de crise latente, +reconciliar as aspirações irreductiveis da nossa alma, que são o seu +mais precioso e imperecivel thesouro, com as imposições da philosophia +d'este seculo, que se tem insinuado até nos espiritos que a ignoram, +pela indirecta e invizivel influencia que opera na litteratura, na arte, +no theatro, em todas as manifestações que _democratizam_ e vulgarisam a +Ideia--tal seria a ambição suprema d'este pensador, em quem a _vida +interna_ é tão exigente e intensa, tão desenvolvida e tão profunda. + +Em varias conferencias feitas em Lisboa, em Coimbra e no Porto, Antonio +Candido tem tocado em todos estes pontos delicados e melindrosos da +consciencia moderna. + +Em nenhuma, porem, os tocou mais magistralmente do que no discurso +pronunciado em 12 de abril de 1888, no theatro de S. Carlos, e n'um +saráu promovido pela imprensa lisbonense em favor das victimas do Porto. + +Tenho ainda no ouvido, as palavras d'aquelle protesto heroico contra o +pessimismo doutrina, d'aquelle hymno entoado ás Alegrias e ás Virtudes +da vida, por esse melancolico, por esse vencido da felicidade, cuja voz +musical parecia embebida em lagrimas, quando pintou as bellas e radiosas +cousas que a Humanidade tem feito e que lhe conquistaram o direito +indeclinavel de amar a existencia, que a par de tantas tristezas tem +tantos risos, que a par de tanta covardia tem tão sublimes heroismos, +que a par de tantas paixões cruas e de tão mortiferas angustias tem +graças de tão ineffavel virtude, e voluptuosidades de encanto +incomparavel. Que desinteressada homenagem prestada a essa Vida, que +trahiu para elle as suas promessas todas, que nem das chymeras, que a +constituem e compõem, quiz fazer a chymera suprema que o illudisse e +fizesse feliz!... + +Se realmente Antonio Candido versando estas questões de interesse +maximo, tratando estes problemas de tão complexa e vital importancia, +podia fazer um serviço grande á alma portugueza, porque é que elle se +não consagrou principalmente a esta alta e moralisadora tarefa social? +Porque não falla, elle que o sabe tão bem, aos que teem sêde de uma +palavra de vida; aos que não julgam grosseiramente que é só de pão que +vive o homem d'hoje. + +E não é! Não o calumniemos, ao pobre homem d'hoje, tão mal pintado pela +litteratura decadente d'este tempo. Nunca, no meio do mais asqueroso +mercantilismo, houve mais violentas aspirações idealistas! Nunca, no +meio de mais desenfreadas ambições pessoaes, houve uma ancia mais +apaixonada e mais dolorosa de alguma cousa grande, indefinida e +immortal! + +Eu sei que essa tarefa de orador e do escriptor moralista faria sorrir +ironicamente a turba multa soez dos triumphadores do dia, e que ella não +daria vantagens praticas de especie alguma ao que lhe acceitasse as +responsabilidades e os trabalhos. + +Mas sei tambem que o pensador illustre, desinteressado, altivo e +desdenhoso, bastante superior para cahir no desagrado pleno d'essa cousa +niveladôra e immoral chamada _o sufragio universal_, poderia, +renunciando ao preço mesquinho com que o mundo sabe pagar aos que o +servem, guardar no coração, como um thesouro immaculado a consciencia de +haver semeado o bem, de haver lançado a luz d'uma palavra sincera nos +mil labyrintos tenebrosos em que a alma agonisante de hoje se perde e se +debate desnorteada, de haver fallado emfim, aos homens, d'aquellas +bellas e sublimes cousas, cuja posse, sonhada só que seja, nos consola +de todo o mal, de toda a tristeza de viver!.. + +Se a verdade não é privelegio exclusivo de ninguem, aquelles que possuem +uma das parcellas sagradas d'esse bem devem repartir d'elle com os seus +irmãos indigentes! Contar as delicias da Abnegação, os triumphos do +Sacrificio, a graça ineffavel da Virtude, não será possuil-os por +momentos, não será evocar nas almas o desejo sublime de os alcançar +tambem? Socegar a consciencia dos que duvidam dizendo-lhe que a Duvida é +o mais seguro meio de attingir a Verdade, de que é preferivel mil vezes +a agonia que os dilacera á quietação, á estagnada immobilidade dos +indifferentes, não será levar um pouco de tranquilidade a tantas almas +que padecem?.. Justificar as ousadias do pensamento moderno, pela sua +ancia tão meritoria de sciencia e de luz, não será apresentar sob um +aspecto misericordioso e justo tanto esforço que a ignorancia condemna, +tanto arrojo que a intolerancia maldiz? Oh! como é largo este campo, e +que beneficio não seria desbraval-o, e fazer com que na sua terra +esteril as arvores desabrochassem, crescessem, se enchessem de fructos e +de flores, dessem sombra, e abrigo aos que procurassem cançados a sua +rama protectora! + +Ninguem poderia, melhor de que o orador em quem todos os prestigios da +Palavra se alliam a todos os calmos esplendores do Pensamento, fazer uma +realidade d'esta esperança que a tantos se affigurará talvez chymerica e +pueril, mas que eu, pobre mulher, ignorante e sonhadora, me não +arrependo de haver formulado aqui. + + * * * * * + + + + +_TEIXEIRA DE QUEIROZ_ + +(BENTO MORENO) + + +Com quanto seja avultada a bagagem litteraria d'este escriptor, +comquanto seja admiravel a sua actividade intellectual, n'um meio tão +hostil a todos os trabalhos de imaginação ou de arte, a verdade é que +Bento Moreno não é, e creio que nunca será, um romancista popular. + +É restricto o publico que o conhece e admira, e por isso mesmo, mais +rigoroso é ainda o dever da critica, perante este ostracismo injusto a +que é votado um talento bem nosso, bem portuguez, e d'uma probidade +litteraria, presentemente rara em toda a parte, quanto mais entre nós. + +Hoje o escriptor portuguez, para ser lido e conhecido, precisa de +banalisar-se primeiro no jornalismo de todos os dias. O nosso publico +tem apenas a paxorra necessaria para ler as gazetas. Uma _élite_ ha, +pouco numerosa ainda assim, que compra a ultima _novidade_ parisiense na +livraria da moda, mas isto de ter em cada dia uma ou mais horas +destinadas a essa grande e purificadôra cultura do espirito, chamada a +leitura, é cousa que realmente não conhecem as nossas mulheres e muito +menos os nossos homens. + +Os romancistas modernos, capitaneados por Flaubert e por Zola, professam +o mais profundo e altivo desdem para com o publico feminino. Fazem mal, +e por duas razões: + +Primeiramente porque a imaginação e a sensibilidade da mulher são +muitissimo mais promptas e accessiveis que as do homem para este genero +de leitura, e depois porque a verdade dura, mas positiva é esta: só as +mulheres e os homens extremamente moços, isto é, ainda um pouco +_mulheres_, teem paciencia tempo e gosto de lêr romances. + +Passado esse primeiro periodo da vida em que o sentimento impera sobre a +razão, em que a phantasia é mais forte que o raciocinio, _em que as +questões do coração_ são _as grandes questões_ que sobrelevam a todas, +qual é o homem que lê romances, e se enthusiasma por esses _creadores +d'almas_, chamados romancistas? + +Talvez que os artistas os leiam, mas em cada dois mil espiritos praticos +póde talvez encontrar-se um espirito de artista. Não é o bastante para +constituir um publico, e sem publico como é que o escriptor póde +passar?... + +São portanto as mulheres e os moços que restam ao romancista. É sobre +esses que elle tem de actuar, é esses que elle interessa e emociona, +educa ou perverte, ammollece ou tonifica, agita ou faz pensar. + +As nossas mulheres leêm pouco. Falta de tempo, falta de habito, falta de +cultura litteraria, falta de gosto ingenito?... Não sei, nem é realmente +este o momento de o investigar. D'aqui provem portanto o escassissimo +mercado dos nossos livros. É o Brazil que ainda assim se encarrega de +lêr o que os nossos escriptores publicam e no Brazil tem Bento Moreno +uma popularidade muito maior do que chegou a alcançar aqui. + + * * * * * + +Foi com um volume de _Contos_ que Bento Moreno, haverá quatorze annos se +estreou na litteratura portugueza. Os que lêram este primeiro volume da +_Comedia do Campo_, e os que podiam ter n'este ponto opinião que valesse +a pena de attender-se, perceberam no artista que se estreiava faculdades +singulares, que davam á sua penna um cunho inconfundivel. _Não se +parecer com ninguem_ é a condição indeclinavel, indispensavel do +escriptor de raça. + +Bento Moreno appareceu logo com um estylo seu. + +Era duro esse estylo; não tinha as malleabilidades, as ductilidades e as +graças que se assignalam sympathicamente ao instincto do leitor; havia +n'elle um não sei quê de primitivo, de ingenuo, de _não cultivado_, que +o tornava talvez ainda defeituoso e tosco, mas as qualidades poderosas +do observador e o sentimento vivo e profundo do _pittoresco_ +revellavam-se já n'este livro d'um modo surprehendente. A alma primitiva +e rude do minhoto, a paysagem deliciosamente verde, e singelamente +idyllica do Minho, retratavam-se ali, n'aquelle primeiro livro, em +traços admiraveis de verdade e de encanto. Observar e sentir, não serão +estas as duas faculdades principaes de todo o artista? + +O theatro era talvez monotono e um pouco trivial na sua verdura sem +quebras, na sua paysagem sem accidentes e sem relevo accentuado; os +personagens não tinham nem o vigor brutal, e o monstruoso aspecto +inquietador dos camponezes de Zola, nem a manha, e a velhacaria quasi +grandiosas dos camponios de Balzac; mas scenario e figuras eram bem +nossas, e não havia nas paginas d'esse livro, como de resto continuou a +não haver nas obras de Bento Moreno, reminiscencias litterarias, echos +de vozes já ouvidas, copia ou imitação de processos extrangeiros, +_pastiches_ de creações alheias! + +Seguiram-se, com intervallos desiguaes, a esse primeiro volume de contos +minhotos d'um sabor tão vivamente original, _sentant le terroir_, na +phrase franceza para a qual não encontro n'este instante equivalente, +muitos outros de varios generos, que accusavam cada vez mais o progresso +do estylista e a indole especial do escriptor. + +São esses livros o _Amor Divino_, o _Antonio Fogueira_, os _Noivos_, o +_Grande homem_, o _Sallustio Nogueira_, e os _Novos Contos_. + +D'esta bibliographia variada e extensa o que eu prefiro, são os _Novos +Contos_, o _Amor Divino_, e o _Antonio Fogueira_. + +Desde que a critica hoje não é mais, no dizer de Anatole France, _que as +aventuras do espirito de cada critico atravez dos livros que este lê_, +porque não confessarei que em Bento Moreno prefiro o contista ao +romancista? + +É que o _Amor Divino_, os _Novos Contos_ e o _Antonio Fogueira_, pintam +deliciosamente e naturalistamente scenas da vida minhota, quadros da +paysagem minhota, traços, condições peculiares, sentimentos e impressões +da alma minhota. + +Desdenhando inteiramente o successo facil e o applauso condicional d'um +publico pouco litterario, Bento Moreno continuou a seguir, com enlêvos +de artista, o precioso filão que descobrira. + +Elle, de resto, não fez senão recordar-se bem, e traduzir--pondo a _nota +justa_ nas suas formosas interpretações artisticas,--as scenas que vira +e que presenceára na infancia, inconsciente da graça nativa que d'ellas +se evola como um perfume acre e sadio! + +Este escriptor, que o publico não tem favorecido com excessiva attenção, +é comtudo um dos homens mais doidos pela sua arte, que eu tenho +conhecido na minha já não curta existencia. + +A fortuna, que ninguem mais do que elle merecia, pol-o desde longos +annos ao abrigo d'esta necessidade ferrea, que nos traz a tantos de nós, +curvados sobre a banca do trabalho, exhaurindo sobre ella a nossa força, +a nossa seiva intellectual, a nossa saude, a nossa alegria, a nossa vida +emfim. + +Mas que lhe importava a elle esse secundario accessorio? + +O trabalho litterario é o grande e o mais profundo amor da sua alma, tão +nobremente povoada de affectos santos. + +Debaixo do seu sorriso de sceptico, sob a sua palavra um pouco mordaz +sem nunca ser maledicente, um pouco acre, sem nunca ser cruel, +esconde-se um d'estes corações d'ouro, uma d'estas organisações d'uma +sensibilidade exquisita e dolorosa, excessivamente impressionavel, +aberta ás proprias dôres, e o que é mais, ás dôres d'aquelles que ama! +Esta sensibilidade fez d'elle, irremediavelmente, o artista condemnado +ás gestações dolorosas da ideia, aos improbos combates da fórma, ás +tristezas invenciveis dos longos periodos de desalento, ás luctas sempre +renascentes da creação artistica, laboriosa e terrivelmente fatigante +para o cerebro. + + * * * * * + +Nos _Contos_ de Bento Moreno ha duas figuras, que ressaltam +principalmente, com uma vida intensa, com uma realidade violenta. São o +_abbade_ e o _brazileiro_, as duas entidades importantissimas na +paysagem risonha e na farta vida tão singela da nossa verde provincia. + +Foram Camillo e Bento Moreno os que comprehenderam e puzeram em poderoso +relêvo estas duas figuras caracteristicas e tão nacionaes! Em Camillo, a +linguagem d'uma riqueza incomparavelmente superior, a intensidade e a +vivacidade comica da expressão, que o tornam rival, muita vez +triumphante, dos maiores _humoristas_ do mundo, imprimem nas suas +creações a perfeição e o cunho soberbo das duradoiras obras, que nenhuma +revolução do gosto póde destruir. + +Bento Moreno, com muito menos belleza na execução plastica da sua obra, +com muitas mais imperfeições de processo, dá uma realidade mais viva, um +cunho mais sincero ao personagem. Camillo faz o typo; elle desenha a +physionomia muito individual, muito caracteristica da figura evocada, de +modo a não deixar que se esqueça mais, ou que se confunda com qualquer +outra. + +As concepções diversas, que os dois teem da Arte percebem-se claramente +nas differenças fundamentaes do modo de a executar. Mas o _abbade_ é tão +palpavel e real nos _Contos_ de Bento Moreno, como nas paginas +scintillantes de _humor_ do grande romancista, e o _brazileiro_ tem +talvez mais verdade, visto atravez da lente microscopica de Teixeira de +Queiroz, analysado com a paciencia de naturalista que distingue este +observador, do que pintado a _fresco_ em largas pinceladas d'um +immorredoiro sabor comico, pelo engenho extraordinario de Camillo +Castello Branco. + +Percebe-se _à priori_ que o genero em que mais se deleita e em que mais +excellentemente se manifesta a imaginação e a observação de Bento +Moreno, não favorece n'elle o estudo das complicações psychologicas e +dos requintes sentimentaes, que tanto no gosto estão dos leitores +contemporaneos. + +São almas simples as que elle melhor analysa e disseca. Uma pequena +ambição, uma vaidade pueril, um sonho de primitiva singeleza, uma paixão +rude e instinctiva; bastam para encher estas vidas ingenuas que o +artista se entretem em pôr a nú. Mesmo o drama, quando apparece como no +_Antonio Fogueira_, é um drama sem complicações extranhas, sem +contradições, sem complexidade, sem mysterios de indecifravel +profundeza. + +Ou selvagens, ou pueris, ou violentas ou ingenuas, estas almas sentem +impetuosamente, n'uma explosão de instinctos irreductiveis e ardentes; +ou vegetam n'uma doçura inconsciente de planta que medra ao sol, bebendo +a luz sem saber que a bebe, amando sem ter a impressão de que ama! + +O estylo de Bento Moreno que principiou por sêr duro e inflexivel, como +se não houvesse meio de o fazer obedecer docilmente á vontade e aos +caprichos do escriptor, e que pouco a pouco se foi transformando e +aperfeiçoando, ammolleceu-se n'este ultimo livro--_Os Novos Contos_--em +notas d'uma melancolia discreta, e d'uma sensibilidade suavemente +vellada, e ha _Contos_ d'elle como a _A minha morte_, o _Nosso Senhor +Jesus Christo_, o _Cego de Guardiam_, que dão uma nova phase d'este +talento progressivo, e perfectivel como os talentos de bôa raça. + + * * * * * + +_O Amor Divino_ (pathologia d'uma Santa) foi talvez um dos melhores +assumptos, que Bento Moreno encontrou no seu caminho de observador e +analysta scientifico das doenças e manias do _animal humano_. + +A influencia do _missionario_ na alma rude, ingenua e candida da mulher +do povo das nossas provincias do Norte, é, como todos sabem, +poderosissima. + +Quando as _missões_ passam pelas aldeas de Portugal, que ainda estão sob +a influencia d'esse meio paganismo, que ellas julgam religião catholica, +o que succede ahi de perturbador e de desordenado, chega a parecer +inverosimil e phantastico. + +As raparigas deixam cahir, cortadas aos pés, as longas tranças nem +sempre excessivamente cuidadas dos seus cabellos escuros e bastos; as +mulheres abandonam pela egreja a casa onde o marido e os filhos ficam +entregues á mais deploravel incuria! Ouvem-se pelas ruas e pelas +azinhagas de carvalheiras, em que a vinha de enforcado pendura os +pampanos verde-claros, brados afflictivos de peccadôras arrependidas que +se lamentam; ha restituições de objectos roubados, denuncias de crimes +esquecidos, bulhas medonhas entre os paes e as filhas os maridos e as +mulheres; as _beatas_ arrepellam-se por quererem, todas á uma, ser a +favorita do sr. missionario que mais virtude apparenta; e nos campos +tranquillos e nas aldeias monotonas, que a ausencia completa do aceio +feminino torna sempre tão tristemente contradictorias com a paysagem +circumdante, luminosa, farta e festiva, tamanho movimento, tamanho +bulicio, tamanhas luctas se desenvolvem, que chegam a fazer, de cada +passagem de missionarios uma revolução memoravel. + +Como em todos os movimentos sinceros da alma popular ha n'este muito +oiro e muita escoria, muita cousa boa e muita cousa má. + +A inconsciencia animal, em que vive o nosso camponez, é violentamente +sacudida pela prédica, sempre adquada ao seu rude auditorio, do +missionario que vem espalhar pelo povo a _palavra de Deus_. E, +certamente levar uma pouca de luz a cerebros rudimentares, tão +profundamente submersos nas trevas d'uma ignorancia absoluta e d'uma +inconsciencia moral verdadeiramente lamentavel, poderia considerar-se +uma obra santa, se os missionarios se limitassem a fazer penetrar no +duro cerebro dos seus ouvintes algumas noções de moral, de religião e de +tolerancia mutua. + +É porem exactamente o contrario que succede, ou antes, succede o que é +mais pernicioso que tudo! + +Dirigindo-se de preferencia ás mulheres, d'uma impressionabilidade mais +dolorosa e mais vibratil, d'uma fraqueza organica mais accessivel a +qualquer influencia profunda, o que elles fazem é exacerbar-lhes +perigosamente a sensibilidade, latente em todo o organismo feminino, e +precipital-as n'uma ordem de ideias e de sensações morbidas, que por +tenebrosas e desconhecidas, são infinitamente perturbadôras para as +infelizes... + +Pintando como peccado mortal a florescencia do rude instincto +irreductivel, e da innocente e expansiva natureza; condemnando como um +crime horrendo o exercicio das faculdades naturaes a todo o organismo +humano; fazendo a descripção medonha e phantastica do inferno, que +espera todos os que tiverem a desgraça de faltar aos preceitos da Egreja +mais orthodoxa, e da Moral mais austera; accentuando com traços +realistas, e com violentas côres brutaes, feitas para fallar ao +instincto da multidão ignorante, esse Inferno em que os supplicios são +comprehensiveis pelo materialismo grosseiro e pelas imagens physicas +d'uma revoltante energia;--os missionarios levam a desordem, o +desiquilibrio a todas as que os ouvem, e a loucura ás imaginações mais +exaltadas, e aos organismos mais fracos. + +Quantas raparigas do povo enlouquecem ao ouvil-os!... Quantas, fugindo +para o convento ou fazendo-se irmãs de caridade procuram, na lida +esmagadora ou na clausura estreita aggravada pelos cilicios e pelos +jejuns, o perdão de imaginarios peccados e de phantasticas culpas!... + +Pois o _Amor Divino_ é isto que pinta dramaticamente, com verdade, com +animação, com muita diversidade de typos e de figuras reaes, e bem +tocadas. + +O _Amor Divino_ é a acção exercida pela palavra candente e inflammada +d'um missionario, no espirito, no coração, na vida interior, d'uma +robusta e alegre minhota, risonha, sensual, fortemente retemperada por +aquelle bello sol luxuriante e quente para as sãs alegrias da vida e da +maternidade feliz! + +O missionario transfigura-a, e pouco a pouco, por uma gradação +escrupulosamente notada, leva a pobre moça á exaltação, ao hysterismo, +ao delirio, ao mysticismo das vizionarias e das stygmatisadas, á morte +emfim, acompanhada de torturas e de hallucinações pavorosas!... + +Se á belleza d'esta concepção, se á intuição delicada de tantos segredos +intimos da organisação feminina, se ao vigor transcendente do assumpto, +correspondesse n'este livro--um dos melhores de Bento Moreno--a +impeccavel pureza d'uma fórma burilada e perfeita, este volume ficaria +como uma preciosidade litteraria incomparavel! + +Raras vezes um assumpto tão verdadeiro, tão rico de aspectos diversos, +tão suggestivo, se offerece ao estudo d'um observador no genero especial +de Bento Moreno! + +Tem defeitos o livro? Tem. Mas é um dos melhores, dos mais exactos, dos +mais bem feitos que devemos á penna de Teixeira de Queiroz, e é um +_documento_ soberbo de verdade, e de vigor naturalista. + + * * * * * + +O _Antonio Fogueira_, é outro dos meus estudos favoritos. Que bellas +paginas de paysagem, que notação exacta no estudo d'esse typo tão +caracteristico e tão popular de _feirante_, amando os bons cavallos, o +bom vinho, as robustas e alegres cachopas, vivendo com a inconsciencia +vegetativa d'um bello e forte bruto, que nenhuma lei _flexibilisou_, em +que nenhum principio moral actua, cujo duro craneo não abriga uma ideia, +mas em cujo temperamento vegetam--no luxo enorme, na floração purpurea, +no regorgitamento sensual da seiva mais opulenta,--os instinctos do +selvagem, do animal bravio independente e feroz. + +Tanto o _Amor Divino_ como o _Antonio Fogueira_, tanto o primeiro volume +como o ultimo dos contos soltos, não poderiam ter sido escriptos, +pensados, sentidos, senão em Portugal, senão na provincia em que teem a +sua origem e a sua raiz vigorosa e tenaz. Este merito é enorme n'uma +litteratura como a nossa, em que muitos dos melhores livros de costumes +ou de analyse psychologica parecem traduzidos do francez! + +Eis provavelmente o defeito que as nossas delicadas leitoras lhes +encontram. Que lhes importa a ellas, no fim de contas, o que pensa um +cerebro plebeu de abbade minhoto, ou de homem do campo robusto, +indisciplinavel e brigão? + +Que lhes importa o aspecto extranho que assumem, o mysticismo e a +exaltação devota, na organisação robusta e brutal de uma pobre e +ignorante mulher do campo? + +Não é assim que pensam os cardeaes e os prelados, graciosamente +affaveis, classicamente eruditos, risonhamente paternaes, delicados +casuistas de consciencia, finos argumentadores theologicos e ao mesmo +tempo conversadores adoravelmente indulgentes, a quem ellas, as gentis +catholicas do _mundo_, beijam o annel encontrando-os nas salas mais +_selected_, ante os quaes ellas se ajoelham rendidas, nas cerimonias +patheticas e magestosas, austeras e tão impressionadôras do culto, que +praticam e professam devotamente. + +Não é assim que procedem os _dandys_ que ellas conhecem e admiram; nem é +assim que a paixão dos divinos mysterios, que o extase das insondaveis +beatitudes, as aspirações mysticas e a exaltação sagrada se manifestam +nas deliciosas e pallidas mulheres, que ellas tractam de perto, e das +quaes algumas se refugiam de vez em quando, do mundo que as trahiu e +desenganou, sob o habito austero das _vizitandinas_, ou sob a grande +touca branca de azas soltas das irmãs de S. Vicente de Paula. + +Eu propria, mais amiga dos estudos em que a alma moderna, _atormentada_, +saciada, desformizada por uma cultura excessiva, sonhadora de amarguras +e de volupias ineditas, traduz as suas dôres peculiares, as suas doenças +complicadas e extranhas, eu propria inacessivel ás vezes á sã e robusta +influencia da mãe natureza, me penitenceio aqui do crime de que accuso +as leitoras. + +E no entanto a critica não deve assim proceder, para ser lucida e justa. +A sua obrigação é collocar-se nos mais diversos pontos de vista, e +explicar e comprehender as mais diversas tendencias. + +Acceite, sem condições de especie alguma, o ponto de partida do +escriptor, o que ella tem de verificar é se a obra correspondeu á +concepção embryonaria, e traduziu bem a sua ideia inicial. + +As mais oppostas manifestações de arte são igualmente legitimas perante +o critico, os temperamentos mais contrarios obedecem á lei superior que +os justifica, explicando-os, e perante a qual, quem só procura a verdade +e só a verdade investiga, tem de curvar-se com respeito sincero. + + * * * * * + +Não me parece que na sua _Comedia burgueza_, Teixeira de Queiroz fosse +tão feliz como na _Comedia do Campo_. + +O estylo tem sempre progredido, a _maneira_ do escriptor, á proporção +que elle avança na vida, vae-se tornando ao mesmo tempo mais flexivel, +mais firme e mais sinuosa. + +Comtudo é fóra de duvida que o seu instrumento de analyse presta-se +menos ao estudo do meio burguez, mais complicado e mais réles, do que se +presta á observação larga e feliz dos costumes campestres, e das simples +almas plebeias e incorruptas, mesmo até na violencia ou no crime. + +Os _Noivos_ são talvez uma pintura exacta. Exacta de mais! Não a +sobredoira um raio de luz ideal. N'esse casal burguez profundamente +antipathico e inesthetico, o marido é mediocre, pobre, mesquinho de +comprehensão e de sentimento, incapaz de nos interessar pela sua figura +incolor e em que nenhuma paixão cravou a garra leonina, em que nenhuma +força desenvolve e manifesta energias latentes. + +A mulher é mal educada, é rélesmente ambiciosa, coquette sem graça, +amiga do luxo sem intuição artistica do seu valor, sensual sem +impetuosidades de femea robusta e indisciplinavel. O meio em que elles +se movem corresponde, pelo seu acanhado ambito, aos personagens, que +longe de reagirem contra elle se lhe subordinam ás leis corruptôras. + +É esta uma pintura real da pequena burguezia das grandes cidades? Não +creio que o seja. Mas é um recanto d'essa classe, que toca d'um lado no +povo inculto, que por outro se relaciona com uma cathegoria social mais +rica, mais educada e mais ambiciosa; tendo os vicios d'uma e d'outra +classe, sem ter nenhuma das qualidades solidas e grandes que no bem, +distinguem e caracterisam qualquer das duas. + +Essa classe dubia que tem do povo a grosseria do instincto e que tem da +burguezia a ancia de _parecer_, o amor do luxo apparente e barato, a +ambição de elevar-se socialmente, o respeito das cousas officiaes, das +pessoas e superioridades consagradas, está aqui realmente apanhada, em +muitas das culpas flagrantes que a assignalam e a tornam tão +profundamente antipathica para o artista! Vê-se que Bento Moreno +empregou n'este estudo o mesmo escrupulo de naturalista, a mesma +indifferença de observador e de colleccionador, ao qual o sapo e a +andorinha, a rosa ou o cardo, a borboleta multicôr ou a viscosa lagarta, +interessam igualmente, e igualmente sollicitam e prendem! + +Foi o mundo politico que no _Grande homem_ e no _Sallustio Nogueira_, +Teixeira de Queiroz tentou estudar de mais perto. + +São simples tentativas no genero estes trabalhos. Em ambos se manifestam +as qualidades e os defeitos do escriptor. Mas o estylo tem sem duvida um +grande progresso. Faltam os dados para a observação positiva; os factos +não tem aquelle _carimbo_ de verdade tão indispensavel ao romancista da +nova escola; o _documento humano_ nem sempre é authentico e +incontestado. Tudo isto porem virá com o tempo, e essas acquisições +secundarias dependem do esforço e do poder de vontade empregados pelo +escriptor. + + * * * * * + +Concluindo repetirei o que já disse. A impopularidade de Bento Moreno é +inteiramente injustificavel. + +Não falta a este escriptor a graça natural nem o colorido pittoresco e +vivo, nem a sensibilidade mais vibrante e mais enternecida! + +Elle comprehende a natureza como poucos; é genuinamente portuguez no +modo de sentir, e de traduzir a impressão que lhe é suggerida pelo +espectaculo do mundo; e no seu talento impressionavel e delicado, ha uma +flôr de sinceridade, de honestidade e de nobreza ingenua que me encanta! + +No mundo actual em que triumpha o materialismo, o mercantilismo, o amor +do ganho, elle adora com tocante desinteresse a Arte, que nem sempre o +tem recompensado dos seus extremos, o trabalho que prosegue infatigavel, +sempre em busca do melhor, sempre aspirando ao ponto mais alto e á +comprehensão mais ampla do seu assumpto, sempre perseguindo aquella +verdade relativa que é dado a cada homem possuir ou sonhar... + +Cada novo livro tem revellado n'elle um progresso ou de estylo, ou de +sentimento e de observação. Espirito eminentemente progressivo, Bento +Moreno não nos deu ainda a medida completa do seu valor. + +Atravez de todos os seus livros--marcos milliarios d'uma marcha +ascencional--elle tem caminhado para alguma cousa de definitivo e de +completo, que se está elaborando talvez inconscientemente no cerebro +fecundo do notavel contista, e que hade surgir, enriquecida de todos os +dons variados e preciosos que elle tem ido lentamente, gradualmente +adquirindo e manifestando em cada novo volume publicado. + +Entre o auctor do primeiro volume da _Comedia do Campo_ e o auctor dos +_Novos Contos_, que extraordinaria differença, mas que progresso logico +e natural! + +Muitas das qualidades que só appareceram ali em germen apenas, +fructificaram já; muitas estão na primeira flôr, e muitas não +conseguiram ainda sahir do estado embryonario em que pela primeira vez +appareceram. Mas o tempo que produz o seu effeito n'alguma d'ellas, ha +de exercer nas outras a mesma acção embora mais tardia, e cada novo +livro de Bento Moreno confirmará, estou certa, este diagnostico da +critica. + +Felizes os espiritos progressivos porque elles são os que triumpham do +tempo, felizes os escriptores que em cada obra affirmam uma nova +qualidade, porque n'elles o talento é uma ascenção laboriosa embora, mas +feliz e consoladôra para a luz e para o ideal! + + + + +SEGUNDA PARTE + + + + +_Octave Feuillet_ + +UNE MORTE + +O CASAMENTO E A EDUCAÇÃO + + +I + +Visto que é da França que nos vem o santo e a senha, olhemos para a +França, onde litterariamente se discutem sempre questões geraes, que a +todos interessam. + +N'este momento, e como que em protesto á obra naturalista e á escola que +a produz--escola de que Zola está dando a formula no seu ultimo livro: +_L'oeuvre_--Octave Feuillet, o velho romantico, acaba de publicar, na +_Revista dos Dois Mundos_, um estudo intitulado: a _Morta_. + +A _Morta_ é uma especie de pamphleto, escripto na adoravel maneira, um +pouco falsa, do elegante romancista contra a invasão crescente e +victoriosa das ideias modernas. + +Ora o que os velhos de todos os tempos, de todas as raças, de todas as +civilisações chamam _ideias modernas_, combate-se sim, mas não se vence. + +A evolução permanente, a lenta transformação fatal das ideias humanas, +está fóra da acção exercida pela vontade individual. + +Cada geração traz o seu contingente á formação d'esse inventario enorme, +que é feito de todas as riquezas do pensamento e de todas as acquisições +progressivas da Sciencia, e ninguem tem no seu poder regeitar ou +acceitar um facto que é de si inevitavel. + +As ideias modernas triumpham sempre, e é por isso mesmo que a humanidade +não pára, e caminha incansavelmente á procura do que julga _melhor_. + +Imagina enganar-se? + +Muito embora! + +Retrocede, mas não pára. + +E, n'esses momentos de retrocesso os velhos, que assistem a um +espectaculo diverso d'aquelle a que assistiram moços, continuam a chamar +_ideias modernas_ ao que mais propriamente se chamaria _ideias +renovadas_. + +O _naturalismo_ exigente, exagerado ou brutal, tal como elle hoje tenta +estabelecer-se na arte e nos costumes, será uma invenção moderna? + +Decerto que não! + +Na Grecia encontramol-o soberbo, triumphante, constituindo só por si a +religião, a lei, a moral, a civilisação completa, harmoniosa e feliz, +que é ainda o modelo para o qual todos os olhos se levantam embevecidos +e saudosos. + +Na derrocada final do mundo romano, achamol-o como um facto +irresistivel, como uma manifestação inconsciente de força, na onda +germanica que invade o imperio caduco, e vem refundir physiologica e +moralmente a raça cuja actividade especulativa, levada aos requintes +extremos, se tornara na mais rapida e fatal das decadencias. + +Mais tarde, ao sair das trevas gothicas, o que foi o mundo, senão o +mesmo que hoje está sendo com menos pompa decorativa, com menos vigor +physico e moral, com menos vivo sentimento do pittoresco? + +A ideal exaltação de que o _romantismo de 1830_ fez escola, seria +porventura, n'aquella quadra, uma _ideia moderna_? + +O que foram as epochas de cavallaria, ao mesmo tempo mystica e sensual, +o que foi a quadra das _côrtes de amor_, dos trovadores e dos pagens, +dos cultos platonicos levados até ao exagero ridiculo, dos enthusiasmos +apaixonados e symbolicos pela mulher, senão a traducção na litteratura e +nos costumes do mesmo estado mental, menos requintado, menos perfeito, +menos contradictorio, menos complexo, menos _civilisado_ emfim? + +Já nada ha moderno sob a face dos ceus! + +_Nous sommes revenus de tout_, mas depois de tudo havermos +experimentado!... + +Como quer que seja, Octave Feuillet fez um romance, combatendo as ideias +modernas, e poz n'esse romance, delicioso em todo o caso, todas as suas +qualidades e todos os seus defeitos de escriptor. + +Entendamo-nos: + +Octave Feuillet não é um escriptor profundo, é um escriptor elegante. +Pinta com uma seducção de pincel muito sua, pinta de _chic_, na phrase +de _atelier_, uma certa especie particular da sociedade franceza. + +A aristocracia refinada, devota e monarchica, adora Feuillet, a quem no +fim de contas não deve muito, porque se quasi todas as suas mulheres são +encantadoras de graça e distincção, n'ellas a virtude é, raramente, um +principio inabalavel; em quanto que a fraqueza é na maior parte das +vezes um requinte delicioso. + +A gente gosta de ler Feuillet, como gosta de estar n'um salão elegante. + +Conversa-se ali bem, no tom discreto e _nuancé_ das conversações +aristocraticas; respira-se um aroma de feno, ou de tilia, que tem +suavidade sem produzir entontecimentos; as reticencias, subtilmente +accrescentadas á phrase, dão a esta um sabor vivo e penetrante, sem +todavia melindrarem de leve as conveniencias mais correctamente +exigentes; as intenções finissimas sublinham o dialogo, a graça da +observação substitue-se á profundeza dolorosa da analyse. + +A paixão nunca ali soltou o seu uivo estridulo e dilacerante. Ama-se, +como se faz tudo o mais... correctamente. + +O homem é, primeiro que tudo, _gentleman_; a mulher é, antes de mais +nada, senhora! + +As paginas de Feuillet poderiam ler-se á vontade n'um d'estes adoraveis +salões convencionaes, que todo o artista aprecia, mas no qual elle não +aprenderia nunca a conhecer a rude naturesa brutal, a que tem exigencias +fataes, a que tem gritos de paixão impetuosa, a que, pelo amor robusto e +sagrado da verdade, atira por terra todas as hypocrisias, todas as +convenções, todos os veus, todos os sophismas que a mascaram, que a +desformisam, que a falseiam, que fazem d'ella uma coisa immoral e cahida +no desagrado das familias. + +Feuillet é pois genuinamente, o romancista para a ordem de pessoas acima +descriptas, o romancista distincto na mundana accepção da phrase. + +São deploraveis os seus imitadores, como são detestaveis na burguezia os +salões que tentam imitar a inimitavel graça aristocratica dos outros. + +Sob este ponto de vista, um pouco restricto, é que o escriptor tem de +ser julgado. + +Consideral-o um observador profundo, um psycologico completo, um +moralista convencido, é pol-o inteiramente fóra da esphera que lhe é +propria. + +Com tudo, tal é o desejo que toda a gente professa de fazer +positivamente aquillo para que não tem o minimo geito, que Feuillet teve +sempre a tentação de versar e discutir problemas moraes e problemas +phylosophicos da mais alta importancia. + +Na _Histoire de Sybille_, elle já pintou, delicadamente, finamente, com +uma subtilesa de mão encantadora, o conflito que póde dar-se na moderna +sociedade entre a mulher educada dentro do ideal catholico mais +orthodoxo, e o homem nascido e creado no meio sceptico e indifferente +que nos envolve. + +Respondeu a este livro--que desejava ser uma these philosophica, e, que +foi apenas, felizmente para o auctor, uma novella encantadora,--a +_Mademoiselle de La Quintinie_, de George Sand, e lembro-me d'esse +volume como d'um dos mais aridos e mais seccantes da grande escriptora. + +É que a _these_ feita _romance_ é quasi sempre pretenciosamente +enfadonha. + +Agora, é ainda um livro d'esta ordem, o ultimo livro do auctor do _Conde +de Camors_. + +Duas questões de uma só vez tenta elle tratar no seu livro. O problema +terrivel do casamento, e o problema não menos perturbante, não menos +difficil, da moderna educação da mulher. + +Vejamos o enredo do livro: + +Bernardo de Vaudricourt, um moço pariziense da primeira nobreza, da +primeira roda e de primeira educação, apaixona-se por uma menina de +eguaes condições de posição, nobreza e fortuna. + +Elle, porem, inteiramente contaminado pelas ideias do mundo em que tem +vivido, é uma completa imagem do scepticismo contemporaneo. + +Já se vê que não tem tido tempo de sondar o que ha, no fundo das +questões que regeita. + +E sceptico como... toda a gente. Nem melhor nem peior, nem mais nem +menos. + +A controversia philosophica ou religiosa nunca lhe levou nem uma hora +dos dias occupados em montar a cavallo, em caçar, em valsar, em seduzir +as mulheres dos seus amigos intimos, em jogar no seu _club_, e em encher +de brilhantes o peito das actrizes em voga. Que querem! É sceptico por +dever de sociedade. + +Qual é o homem do _sport_ que se atreveria a confessar-se crente nos +dias que vão correndo? + +Sciencia não a tem, já se vê, mas visto que não sabe quasi nada, entende +mais commodo não acreditar no que não sabe. + +Como gentil homem que é, tem o que na sua raça, no seu meio, se chama o +culto da honra. + +A _honra_ é a coisa mais indefinivel e mais elastica que ha n'este +mundo. + +Dentro dos seus limites cabem tantas e tão boas coisas, que não vale +realmente a pena a quem se respeita, ultrapassal-os e excedel-os! + +Aliette de Courteheuse, a noiva, é um anjo de puresa, mas é tambem um +anjo de piedade orthodoxa. Educaram-n'a dentro do codigo genuinamente +catholico; ás crenças que a familia lhe communicou pela educação, reune +uma exaltada comprehensão dos deveres e da vida, e um certo desdem +aristocratico pela actualidade tão banal e tão cheia de contrasensos, +tão feita de transigencias e de covardias. + +O amor porém, vence os obstaculos moraes que separam estes dois +caracteres tão contrarios, e Bernardo casa-se com Aliette de +Courteheuse. + +A parte mais estudada do romance é aquella em que Feuillet conta, +analysa, descreve e sublinha subtilmente todos os conflictos inevitaveis +que d'esta união vão resultar. + +Porque Aliette não é uma d'estas catholicas, que harmonisam o baile com +os officios, a confissão com as desordens de uma vida _à outrance_, o +mundanismo requintado, com as praticas mais estreitas. + +Não! + +Esta é uma crente, uma alma que identificou a sua religião e o seu +dever, e fez dos dois estreitamente entrelaçados a lei suprema da sua +existencia inteira. Esta não é das que pegam no seu _catholicismo_, como +quem pega no seu livro de missa: unicamente para os levar á egreja. + +Tudo que ella pensa, tudo que ella sente, tudo que ella pratica, se +subordina ao alto principio a que submetteu a sua vida. + +No museu de pintura, no theatro, nas salas elegantes onde a vida moderna +ostenta as pompas viciosas do seu goso, no interior da familia, ao pé +dos indifferentes e ao pé do seu marido Aliette é sempre +impeccavelmente, a bella e escrupulosa creatura, que para se respeitar a +si propria, precisa de não transigir com os sophismas e as contradicções +dos outros, que para não descer aos seus olhos, precisa de não afastar +os passos que dá do ideal que concebeu! + +Realise-se esta hypothese figurada pelo primoroso romancista,--a mulher +profundamente e sinceramente religiosa ao pé do marido indifferente para +umas coisas, incredulo para outras, sempre divorciado moralmente da +mulher amada,--e ter-se-ha esse obscuro inferno da vida domestica tantas +vezes apontado, tantas vezes combatido por mim. + +O casamento tem só uma base moral, séria e inviolavel; é a uniformidade +de vistas entre marido e mulher a respeito das questões fundamentaes da +vida. + +A felicidade, sem essa base, é uma chymera irrealisavel, e eis o motivo +porque em cem casamentos desgraçados, ha um que o não seja. + + +II + +A vida dos dois heroes do livro é portanto, dilacerada obscuramente por +dissenções intimas, que ambos elles, por mais vontade que tenham de +facilitarem reciprocamente a felicidade commum, não podem evitar que se +levantem a cada passo. + +Conclusão tremenda do auctor, indicada apenas, mas clara para todos os +olhos: a mulher piedosa não pode, dado o modo de ver do homem moderno, +achar a paz da consciencia, achar a harmonia das coisas na vida +conjugal. + +Surge, porém, em scena, a mulher educada segundo o que Feuillet quer +imaginar o ideal moderno,--a mulher que lê Darwin, que applica na +existencia as theorias do grande sabio inglez, que conhece as sciencias +naturaes e que fortaleceu o seu espirito na formidavel negação que +d'ellas resulta como um effeito fatal,--e Feuillet reune n'ella todas as +monstruosidades, todos os crimes, desde a abdicação voluntaria da honra +até ao assassinio. + +Perto da propriedade rural, para onde Bernardo de Vaudricourt consente +em retirar-se com a mulher, depois d'esta ir quasi que morrendo de dôr +na vida de dissipação parisiense que ao principio é obrigada a seguir, +vive um medico retirado da clinica, um chimico notavel, que fez da +sobrinha e pupilla uma discipula dilecta da sua philosophia +materialista, uma companheira dos seus trabalhos scientificos, uma +ajudante das suas experiencias chimicas e physiologicas. + +Sabina, a sobrinha do doutor, é, segundo Feuillet parece pensar, a +mulher moderna, tal qual vae ser, creada pela educação que a França está +dando ás suas filhas. + +Pois Sabina envenena Aliette para casar com Bernardo; consegue casar com +este, depois de ter feito morrer de degosto o tutor e tio, e a breve +trecho é infiel ao marido, com o primeiro que lhe apparece diante dos +olhos, e responde muito serena a quem ousa interrogal-a, que fazendo +tudo isto, e muito mais ainda, se é possivel fazer-se mais, ella segue +simplesmente até ás suas consequencias logicas as doutrinas com que lhe +embeberam o espirito infantil. + +Quando o doutor Tallevaut descobre o horrivel crime commettido pela sua +adorada sobrinha e lh'o lança em rosto antes da apoplexia que o fulmina, +ella responde-lhe que é apenas sua humilde discipula. + +--«Minha discipula, miseravel! exclama o desgraçado. Pois eu ensinei-te +alguma vez principios diversos d'aquelles que eu proprio praticava? Pois +eu dei-te, pela minha palavra ou pelo meu exemplo, outras lições que não +fossem de rectidão, de justiça, de humanidade e de honra?... + +--«Realmente o meu tio surprehende-me immenso. Como é que um espirito +tão lucido poude deixar de perceber, que eu podia tirar das suas +doutrinas e dos nossos estudos communs, consequencias e ensinamentos +diversos d'aquelles que o seu espirito tirava? A arvore da Sciencia, não +produz em todos os terrenos os mesmos fructos?... Fallou-me de rectidão, +de justiça, de humanidade e de honra?... Espanta-se que as mesmas +theorias que lhe inspiraram essas virtudes m'as não houvessem inspirado +a mim?... E com tudo a rasão d'isto é bem simples... Sabe tão bem como +eu, que essas suppostas virtudes, são na realidade facultativas... pois +que não passam de instinctos... de verdadeiros preconceitos que a +natureza nos impõe... por que necessita d'elles para a conservação e +progresso da sua obra... Gosta de submetter-se a esses instinctos... eu +não gosto... eis a unica differença que nos separa. + +«--Mas eu não te disse e não repeti mil vezes, desgraçada, que o dever, +a honra, a propria felicidade consistiam na submissão a essas leis +naturaes, a essas leis divinas?! + +--Disse-m'o, «e assim o julga, bem sei... Eu, pela minha parte, creio o +contrario. Creio que o dever, que a honra d'uma creatura humana consiste +em revoltar-se contra essas servidões, em sacudir essas cadeias com que +a natureza... ou Deus, como quizer, nos prende, nos opprime, para nos +fazer cooperar, contra a nossa propria vontade, n'um fim desconhecido... +n'uma obra a que somos estranhos... Ah! de certo. O meu tio disse-me e +repetiu-me mil vezes que era para si não sómente um dever, mas até uma +alegria, o poder contribuir humildemente pelos seus trabalhos e pelas +suas virtudes para não sei que obra divina, para não sei que fim +superior e mysterioso, que é como o alvo supremo, a que o universo se +encaminha... + +Mas que quer? esses prazeres deixam-me a mim perfeitamente insensivel; +não tenho o minimo desejo de levar a vida a constranger-me, a privar-me, +a soffrer, para preparar, a não sei que futura humanidade, um estado de +felicidade e de perfeição, do qual nada gosarei, festas a que não posso +assistir, paraizos, emfim, onde não entrarei nunca!... +...................................................................... + +E depois de continuar n'este tom meia hora, amontoando paradoxos, +argumentos falsissimos, dos quaes a sciencia humana nunca, que eu saiba, +se serviu, acrescenta: + +«Um crime foi o que eu perpetrei?... Mas isto de crime não passa d'uma +palavra, bem sabe. + +«O que é o bem? O que é o mal? O que é verdadeiro e o que é falso? + +«Na realidade o codigo da moral humana não passa hoje d'uma pagina em +branco, na qual cada um escreve o que quer, segundo a sua intelligencia +e o seu temperamento. + +«Já não ha senão cathecismos individuaes... O meu é aquelle que me foi +pregado pelo exemplo da propria Natureza: ella elimina com egoismo +impassivel tudo que a incommoda; ella supprime tudo que lhe é obstaculo; +ella esmaga o fraco, para dar logar ao forte... e creia que não é de +hoje que esta doutrina é acceite pelos espiritos livres e superiores. Em +todos os tempos se disse: os bons vão-se embora cedo! Não, não são os +bons que se vão embora, são os fracos, e não fazem mais que o seu dever. +Quando a gente lhes presta n'este sentido um pequeno auxilio, imita +apenas o exemplo do creador! Leia o seu Darwin; leia o seu Darwin, meu +tio!» + +O pobre do tio responde a esta bella tirada caindo varado por uma +congestão; e Sabina d'ahi a pouco tempo, casada já com Bernardo, +responde ao marido, que a accusa de faltar aos deveres mais elementares +da mulher, pelo mesmo modo emphatico e pedantesco, e com os mesmos +argumentos falseados, desformisados pela vontade do escriptor. + +Por tanto a ignorancia de Feuillet a respeito de Darwin, ou a sua má fé +litteraria, é evidente na intenção d'esta obra. + +Eu não conheço profundamente a doutrina do naturalista inglez; mas +conheço-a bastante para poder affirmar que nem essa doutrina é uma +philosophia, nem Octave Feuillet tem d'ella a comprehensão mais +elementar. + +Darwin, dos seus estudos analyticos e das suas observações e +experiencias, deduziu algumas leis com applicação restrictamente +biologica, e que só por um aventuroso esforço de analogia se podem +applicar á sociologia e á historia. + +A selecção natural, a luta pela vida no mundo organico não passaram +ainda de hypotheses, segundo o rigoroso criterio da philosophia +positiva; mas, quando chegassem a converter-se em leis perfeitamente +liquidadas, haveria entre o dominio d'essas leis e os factos superiores +do pensamento, a mesma distancia scientifica que vae de quaesquer +theorias geneseticas do mundo até quaesquer systemas de embryogenia +animal. + +Resta-nos, por tanto, a convicção de que o auctor procedeu de má fé. + +As applicações da doutrina de Darwin aos factos sociaes, feitas pelos +mais illustres dos seus discipulos, por Spencer por exemplo, estão +penetradas de um espirito moral austero e digno, a que faltará talvez +uma base scientifica, mas a que não faltam de certo a elevação e a +belleza. Feuillet, por conseguinte, é tão exacto, é tão verdadeiro, é +tão honesto na sua obra como seria qualquer livre pensador que, para +combater a moral catholica, a mostrasse exemplificada na devassidão de +Alexandre Borgia, no instincto sanguinariamente devoto de Carlos IX, no +fervor assassino de Torquemada, no fanatismo criminoso dos que acenderam +as fogueiras da inquisição, dos que vibraram o punhal da S. Barthelemy, +dos que bem disseram as dragonadas de Nantes, dos que organisaram a +matança dos Algibenses, dos que teriam perdido a Egreja, se a Egreja não +tivesse a salval-a na historia, e ainda na actualidade, a sua missão +civilisadora pela disciplina, pela arte, pela politica, pela unidade, +pela sciencia, e, sobretudo, e principalmente, por ter mantido sempre, +acima do interesse dos individuos e do egoismo das nações, o principio +da humanidade, que antes d'ella o mundo não conhecera. + +Aquelles todos comprehenderam tão bem o catholicismo, como a heroina de +Feuillet comprehendeu o alcance moral, pequeno ou grande, que pode +extrair-se da doutrina darwiniana. + +Já se vê que o que pode concluir-se do livro de Octave Feuillet é +realmente desconsolador até á desolação mais intima e mais profunda. + +A piedosa e doce mulher christã, collocada em plena sociedade elegante +do seculo XIX, tem que fugir, por que principia a perder pé, e tem medo +de naufragar. Entre ella e seu marido nunca chega a realisar-se a união +intellectual, a invejavel identificação de duas almas, sem a qual o +casamento é apenas a attracção dos dois sexos, legalisada perante Deus e +perante o mundo. + +A vida intima que todos sonham tão penetrada de luz beatifica, tão +unida, tão ardentemente vivida por dois espozos moços, intelligentes, +namorados, torna-se para qualquer d'elles um lento e obscuro supplicio +que os punge, e que, por mutua caridade, elles tentam disfarçar. + +A mulher, desligada do ideal catholico, é o monstro que mata, que +atraiçoa, que morde a mão que a alimentou, que precipita na deshonra e +na inconsolavel dôr o marido que a estremeceu?... Que ha então a +fazer?... Que alvitre proporá o auctor de _une morte_?... Eu por mim +humildemente declaro que não concordo com o que elle diz, que não +acceito, as suas aterradoras conclusões. + + +III + +É fóra de duvida que hoje a questão religiosa, existente em toda a +parte, aqui revelada, ali occulta, é uma das causas determinantes do +horrivel mal-estar que tortura o nosso tempo e principalissimamente a +nossa raça, mas não se conclua da enorme importancia d'essa questão que +a mulher,--fatalmente educada n'este meio cada vez mais materialista, +mais negativo, mais incredulo em tudo que seja sobrenatural e alem do +humano,--se transforme no perigoso monstro phantasiado por Feuillet. + +Que culpa teem as pobres creaturas, educadas agora, das ideas que pairam +sobre todos nós, que nos penetram insensivelmente, que nos roubam ao +influxo mystico do catholicismo, que, mau grado nosso, substituem pela +duvida dolorosa, pela curiosidade analytica, pela ancia penetrante de +saber, os enthusiasmos fervidos, as crenças pueris e simples da nossa +mocidade. + +Não são os homens que nos teem ensinado a duvidar do que elles duvidam? +não são elles que nos teem perturbado, agitado, com a sua duvida e +incerteza? e sobretudo desnorteado com a leviandade cynica da sua +negação? E terão elles tambem culpa por ventura de que os descobrimentos +extraordinarios e imprevistos da sciencia, de que o alargamento continuo +e progressivo do pensamento, de que as lições irresistivelmente +verdadeiras da natureza, desvendada emfim, depois de tantos seculos de +mysterio, lançassem por terra, de envolta com a tradição desmentida, +tantos dos alicerces em que elles haviam construido o edificio da sua +crença?! + +Sim, o catholicismo sendo o codigo mais completo que a humanidade +elaborou ainda, tinha soluções para todas as crizes do nosso destino, +podia dar-nos a paz, podia satisfazer as mais irrequietas ambições da +nossa alma. Mas esse catholicismo, contra o qual o enorme oceano chamado +humanidade deixou durante vinte seculos bater a onda tremenda das suas +duvidas--foi por ventura a nossa geração que o fez em ruinas?! + +Se a tibieza da fé, se a incredulidade no mysterio, se o desdem pelo +sobrenatural são factos, dolorozos muito embora, se assim o querem, mas +factos positivamente adquiridos, se a ancia da verdade, impondo-se ao +homem, lhe deu na duvida a sua gloria maxima e tambem a sua maxima +tortura, se a nenhum de nós, filhos d'este seculo, e vergados ao pezo +terrivel e tragico d'essa herança titanica de tantos seculos de +investigação e de angustia, nos é dado fugir á excruciante agonia da +nossa eterna e audaciosa interrogação, se nós fômos os eleitos da +Historia para esta tragedia que consiste em agonisar junto ao tumulo +d'um Deus, digam-me: não será tempo de fazer uma tentativa suprema, que +pacifique emfim a nossa consciencia desnorteada e vacillante?... + +Pois se fora do catholicismo não podem subsistir as grandes leis moraes, +de cujo austero cumprimento depende a nossa felicidade e a nossa intima +paz, assim se lançam ás gemonias tantas almas sinceras, tantas almas +inquietas, tantas almas sedentas de verdade e de justiça, que não +acharam na Egreja a solução aos graves e complexos problemas da vida?... + +Porque, emfim, o catholicismo não é uma convicção raciocinada, é uma fé +subjugadora. Ha muitos espiritos, que, achando a organisação catholica a +mais elevada expressão de força intelligente, que, achando a disciplina +catholica o mais frizante exemplo da vontade applicada á moral, sentem +com tudo que, para serem catholicos, lhes falta simplesmente... tudo! + +Tudo, quer dizer a fé na origem divina d'essa religião que os +enthusiasma, que os apaixona, considerada como resultante de uma serie +de leis historicas e puramente humanas. A nossa crença, ou a nossa +duvida, estão em nós; mas dependem acaso de nós? + +Não, mil vezes não! + +Os estados da nossa consciencia proveem do ambiente moral que temos +respirado desde o berço e de uma serie de causas existentes já antes de +nós existirmos, e cujos effeitos herdámos involuntaria, +inconscientemente. + +Se a nossa vontade entra como elemento importante na obra complexa do +nosso destino, ella é apenas um elemento, subordinado a centenas de +outros, que nós não podemos sujeitar, nem prever sequer. + +Assim como o sangue que nos corre nas veias vem eivado, ou fortalecido +já, de maculas ou de qualidades hereditarias, o nosso espirito traz +impresso o cunho de mil influencias anteriores á propria formação +d'elle. Ninguem se esquiva ás idéas do seu tempo; e tão impossivel seria +Voltaire em plena Edade Media, como S. Francisco de Assiz em pleno +seculo XIX. + +Portanto, tudo o que se diga hoje, para provar que a mulher é +absolutamente obrigada a ter a fé de santa Theresa, não passa d'um +entretenimento de rhetorica, sem a minima seriedade, e sem o minimo +pezo. + +Eu, já se vê, que ponho aqui completamente de parte aquella porção +distincta e particular da sociedade do meu tempo, para a qual a religião +é um luxo, requintado, feito de pequeninos apuros frivolos, um ritual de +praticas estereis, sem pensamento, sem alma, sem significação moral, um +preceito de alta educação mystico-elegante, um formulario ôcco, uma +lampada artisticamente cinzelada, sim, mas já sem oleo perfumado e sem +luz fecunda e clara! Mas se, alem d'essas praticantes, que sabem a letra +do Evangelho e que não sabem ou não querem saber a preciosa essencia do +seu espirito, se alem d'essas zelosas, que contradizem e desmentem a +cada passo a doutrina que acceitam, ha ainda hoje creaturas simples, +piedosas, absolutamente crentes, que teem a fé _do carvoeiro_, como guia +da propria existencia, que, aquellas que não podem imital-as lançam para +ellas um olhar de admiração, de inveja sem fel, e lhes digam ingenua e +simplesmente!--Abençoadas sejaes vós, ó doces e queridas irmãs, que +nunca tereis de hesitar nos desfiladeiros e nos algares, nas asperas +charnecas e nas rudes montanhas d'esta vida! Abençoadas sejaes vós, que +pudesteis fechar os ouvidos ao clamor confuzo das gerações atormentadas +e não ouvir o que dizia, no murmurio vago das noites mysteriozas, a voz +de tantos ardentes corações, pedindo á Natureza um raio de luz, um raio +de verdade, a pacificação suprema ás torturas, sempre renascentes, da +Duvida! Abençoadas sejaes vós, que para cada pergunta da vossa +consciencia, tendes a resposta prompta do vosso codigo divino! + +E depois da rapida e ephemera passagem, que é para vós a vida, tendes, +para matar todas as sedes, a Eterna fonte sempre limpida; para compensar +de todas as abnegações terrestres, a celeste recompensa, sempre +renovada; para satisfazer todas as ambições ainda as mais +incontentaveis, a ineffavel beatitude sempre luminoza e sempre azul! + +São essas as felizes, as privilegiadas, as raras. + +Mas não são essas que precisam das lagrimas da minha piedade, nem dos +conselhos da minha razão. + +As que n'este momento de transição terrivel, eu supponho bem dignas de +piedade, aquellas para quem eu desejava ver formulado um codigo de moral +positiva, feito de todas as acquisições da experiencia, são as que não +teem uma fé solida a dirigil-as na vida. + +A moral preciza de tornar-se independente de qualquer religião, para +ser, ao lado d'ella ou sem ella, o principio dominante a que sujeitamos +todos os arrojos do nosso pensamento, todos os impetos desordenados da +nossa paixão. Porque é fatal que o individuo tenha de sacrificar-se pela +collectividade, e que a vontade de cada homem se subordine á utilidade e +ao bem de todos. + +A moral positiva, disem os seus adversarios, funda-se pura e +exclusivamente no interesse. É triste eu bem sei, que é triste, esta +conclusão humilhante a que temos de chegar; mas qual é a lei que se nos +impôe e que nós acceitamos, que não tenha por fundamento mais ou menos +disfarçado o nosso proprio interesse? A felicidade no ceu ou a +felicidade na terra, eis os unicos motores que dirigem este hybrido ser, +meio animal e meio anjo, que se chama homem. + +N'este momento, pois, o ponto interessante e capital a discutir vem a +ser este: Dos resultados já liquidados de todas as sciencias +particulares poderá sommar-se um capital de conhecimentos positivos, +capaz só por si de constituir a moral social? + +Se a resposta feita pelos observadores, pelos moralistas, pelos +philosophos, fôr affirmativa, que elles tratem de formular esse codigo, +visto que a humanidade, eterna tutellada, abomina a independencia da sua +propria razão, e preciza de ter escripta, e reduzida a preceitos +dogmaticos, cada uma das leis a que tem de subordinar o seu destino. + +Se a resposta, por emquanto, for negativa, trabalhe-se no sentido de +augmentar as riquezas já coordenadas, e tracte-se de chegar cedo á +conclusão pacificadora, pela qual todos nós anceiamos. + +Acreditemos, para nossa consolação e para nosso descanço, que ha em nós, +independentemente de qualquer principio extranho, embora superior, a +aspiração permanente ao que é bom, ao que é bello, puro e harmonioso. + +Muita vez, é claro, a paixão desvaira a mulher, mas a mulher religiosa +nem sempre escapa a esses desvairamentos, visto que a Historia os aponta +nos seculos do mais exaltado ascetismo. Não queiramos particularisar +tanto o sentimento da moralidade, que esta não possa viver senão ao +abrigo de qualquer templo. + +É um mau serviço que fazemos, pois que não nos é dado a nós, nem a +ninguem, obstar a que o ideal religioso vá pouco a pouco cedendo o passo +á invasão triumphante, embora desconsoladora, da sciencia positiva e +experimental. + + * * * * * + +Escrevendo o que ahi fica, eu não tomo o partido contra as tendencias da +minha epocha, nem a favor d'ellas. Sou o relator imparcial do +espectaculo a que assisto. Não ha porém, a meu ver, tragedia mais +dolorosa do que esta de que o meu tempo é o theatro. + +E sinto no fundo desconsolado e escuro da minha alma de mulher, aquella +ineffavel tristeza dilaceradora que Virgilio sentiu, quando, pelas +florestas do seu Lacio, ouviu passar a voz lamentosa e inolvidavel, que +annunciava ás gentes a morte do velho Pan! + +Desgraçadas as gerações que são fatalmente condemnadas a assistirem ao +desmoronar de um mundo. + + + + +_OS IRMÃOS GONCOURT_ + + +I + +Um dos defeitos, ou, se preferem, uma das virtudes do nosso tempo é a +_curiosidade_. + +Somos curiosos de tudo; descemos ás minuciosidades mais microscopicas, e +subimos ás mais altas generalisações. Nada eguala o cuidado attento com +que reunimos os documentos dispersos, que devem conduzir-nos á +acquisição de uma verdade qualquer, senão o poder de synthese com que +sabemos, do encadeamento de todos os phenomenos, tirar a lei que os +explica, relaciona e domina. + +Em cada ramo do pensamento humano se revella, por todos os modos, a +nossa insaciavel e inquieta curiosidade. + +A litteratura está, como todas as mais manifestações da actividade +physica ou mental do homem, subordinada a esta tendencia tão moderna do +nosso espirito. Os livros hoje interessam-nos principalmente, por nos +revellarem o machinismo interno de quem os escreveu, e atravez d'elle o +homem, com as suas contradicções e desordens mentaes, com os seus +desequilibrios, fraquezas, vicios e virtudes. + +A critica tornou-se uma especie de romance historico, muito mais +interessante que os romances da imaginação. + +Para conhecermos os homens, e d'entre os homens o escriptor,--quer +dizer, aquelle que mais deve ter condensado em si todas as energias +intellectuaes do seu seculo--pegamos nos seus livros e analysamos +miudamente, scientificamente, anatomicamente essas creações vivas que +elle nos legou. + +Cada livro é um orgão ainda palpitante do corpo que estamos dissecando. + +Não nos contentamos, porém, com o livro, desde logo destinado pelo seu +auctor a ser lido e interpretado pelo publico. + +Queremos, exigimos, muito mais. As cartas, os diarios posthumos, as +confidencias involuntarias, pelas quaes a alma se manifesta +irresistivelmente, nas suas particularidades, nas suas idyosincrasias, +eis o que hoje nos satisfaz. + +É extraordinaria a indiscricção com que temos ido rebuscar todos os +documentos do passado, para encontrarmos n'elles a alma occulta, a vida +mysteriosa e latente. + +N'esse ponto, temos tido como instrumento maravilhoso de investigação e +de critica, o nosso proprio scepticismo, o nosso _dilletantismo_ tão +moderno, pelo qual nos é facil penetrar em todas as epochas, +comprehender todas as civilisações e assimilar todas as idéas, ainda as +mais oppostas e as mais extremas. + +O passado, porém, já nos não basta. O homem do passado não é o homem +d'hoje. O seculo XVII não pensa como o seculo XVIII, do mesmo modo, +porque o nosso seculo não pensa como qualquer dos dois. + +A alma contemporanea é bem mais complexa. Dizem que o cerebro moderno +tem mais circonvoluções. Pudera! Se elle tem por força muitas mais +idéas. Tem todas as que tinham os seus antecessores, e mais aquellas de +que fez a acquisição por seu esforço proprio. + +E depois _sabe muito_, sabe de mais, este endemoninhado seculo! Não ha +coisa que não fôsse desenterrar para sobrecarregar mais e mais a memoria +e a consciencia. + +Os que estão acima do nivel vulgar, os que por sua desgraça, pensam, +julgam e criticam, são todos mais ou menos _hystericos_. Ha uns +requintes doentios, uma etherisação morbida, um excesso de actividade +cerebral no homem da nossa geração, que fôram inteiramente desconhecidos +n'outras epocas mais equilibradas e mais sadias. O systema nervoso +desconjunta-se-lhes á força de o terem em continua e dolorosa vibração. +D'aqui as oscillações e os desequilibrios fataes de todo o mechanismo +interno. + +Penetrarmos o _porquê_ d'essas aberrações, que nos surprehendem e +desorientam nos que são grandes pela imaginação e pelo talento, eis um +dos nossos eternos e justificaveis apetites. + +É esse que nos leva a devorarmos tudo que são autobiographias, memorias, +correspondencias, indiscricções litterarias, sejam de que genero fôrem. +As cartas de Julio de Goncourt, o _Diario_ dos dois irmãos, ultimamente +publicado por Edmond de Goncourt, fôram, portanto, e estão sendo, +objecto da maior curiosidade da parte dos _gourmets_ litterarios de toda +a Europa, e não sei se da America tambem. + +Os dois Goncourt, por muito tempo desconhecidos e _negados_, são hoje, +finalmente, considerados como os continuadores do pensamento de Balzac, +sob uma fórma litteraria, mais artistica, mais requintada, mais +_tourmentée_ que a do grande romancista da _Cousine Bette_. + +N'este exercito, cujos generaes se chamam Flaubert, Zola, Daudet,--são +os Goncourt que vão na vanguarda, desbastando a grande floresta, em que +Balzac foi o primeiro a penetrar, com as suas passadas de gigante e a +força herculea do seu machado de explorador. + +Esta geração começa a perceber quanto deve a Balzac; e é realmente +honroso para ella, pagar emfim a divida que os contemporaneos d'esse +escriptor assombroso, tão grande como Shakespeare, deixaram de solver! + +Se os Goncourt são os precursores da escola chamada _naturalista_, e +cuja paternidade se attribue injustamente a Flaubert, é fóra de duvida +que elles, o proprio Flaubert, Zola, Daudet, e alguns discipulos +d'estes, são apenas os filhos espirituaes de Balzac. + +Elles são incontestaveis e distinctos artistas; elle era o Genio. + +Cada um d'elles tem a sua accentuada individualidade propria. Um, a +analyse impessoal, outro a amplificação e a força brutal e desregrada; +este a sensibilidade feminina quasi doentia; aquelle a fina intuição +psychologica, a _visão interior_ n'um grau de lucidez estranho. + +Todos, porém, procedem do Mestre. + +O seu largo sôpro creador penetra-os e inspira-os a todos. Nenhum +d'elles teria a magistral perfeição technica da fórma e a comprehensão +ampla do assumpto que tractam, na altura em que a possuem, se o auctor +da _Eugenie Grandet_, do _Pêre Goriot_, e de tantas obras immortaes lhes +não tivesse ensinado o caminho a seguir. + +Os Goncourt, todavia, sendo os primeiros que se filiaram, sob uma fórma +diversa, na escola iniciada pelo genial creador da _Comedia Humana_, nem +por isso são os mais conhecidos e os mais apreciados. Só uma limitada +_élite_ intellectual seguiu com profundo interesse o trabalho d'estes +irmãos gemeos em litteratura. + +Duas qualidades predominantes os distinguem. A finura subtil e delicada +da analyse e a linguagem que á força de _trabalhada_ adquiriu uma +fluidez, uma flexibilidade, uma sinuosidade ondeante, uma transparencia +crystalina, uns tons, uns cambiantes, umas côres que a tornam apta para +_notar_ e traduzir a impressão mais fugitiva, ou mais rara, o traço mais +leve, a sensação mais incoercivel, a sombra mais impalpavel do +pensamento, ou do sentimento humano. + +Por estas duas qualidades se percebe já que os Goncourt não poderão +nunca ser uns escriptores populares. Só os delicados se comprazem +n'estas subtilezas da idéa e da fórma. + +O que n'elles porém avulta a todos os olhos, é este phenomeno raro de +identificação, que fez de ambos _um_ só, sem que possa de modo algum +descriminar-se a parte em que qualquer d'elles concorreu para o trabalho +commum. + +Edmond de Goncourt, quando perdeu o irmão mais novo, que estremecia como +uma porção da propria vida, como um membro do seu corpo, ou uma parcella +indivisivel da sua alma, ficou por largo tempo emmudecido, no lethargo +que succede aos grandes abalos da sensibilidade. + +Sahiu d'esse estado, porém, e escreveu entre outros livros, muito +inferiores em todo o caso aos que tinham sido collaborados por Julio, um +estranho livro, que é necessario lêr attentamente, para que se possa +penetrar até certo ponto no segredo da maravilhosa união intellectual, +que fazia um só escriptor dos dois escriptores mais requintados e mais +vibrantes da moderna litteratura franceza. + +Chama-se _Les frères Zenganno_ este livro que, á parte a linguagem, não +tem a meu vêr outro merito positivo que não seja a revelação ou antes a +critica d'esse phenomeno psychico-litterario de que acima fallámos. + +_Les frères Zenganno_ são dois clowns, que trabalham sempre juntos, +conseguindo, por um milagre de gymnastica, harmonisar e identificar os +movimentos communs. + +Percebe-se aqui a allusão ao trabalho litterario em que os dois +escriptores consumiram a existencia. + +Entremeiados, porém, na obra, um pouco extravagante e levemente +phantastica, ha capitulos que são uma confidencia completa, e que mais +do que tudo que eu podesse dizer, explicam o caso phenomenal que tanto +interesse merece aos observadores, aos criticos e mesmo aos simples +profanos da arte. + +Oiçamos por exemplo este trecho: + +«Os dois irmãos não tinham um pelo outro um simples affecto fraternal. +Não. Estavam mutuamente ligados por laços mysteriosos, por affinidades +psychicas, e isto apesar de serem de idades muito diversas e de +caracteres diametralmente oppostos. Os seus primeiros movimentos +instinctivos eram identicamente os mesmos. Experimentavam sympathias ou +antipathias egualmente subitas, e quando iam a qualquer parte, sahiam do +sitio onde haviam estado, tendo a respeito das pessoas que tinham visto +uma opinião inteiramente similhante. Não só os individuos mas tambem as +cousas, com o _porquê_ irraciocinado do seu encanto ou do seu aspecto +desagradavel, lhes fallavam do mesmo modo a ambos. Emfim, as idéas, +essas creações do cerebro, cujo nascimento é d'uma phantasia tão livre, +e que tanta vez nos espantam pelo «não sei como» do seu apparecimento, +as idéas, de ordinario tão pouco simultaneas e tão pouco parallelas nas +uniões de coração entre homem e mulher, até as idéas nasciam commum aos +dois irmãos, que não raro, depois de uma pausa silenciosa se voltavam um +para o outro para se dizerem a mesma coisa, sem que achassem explicação +ao singular acaso que fazia encontrar nas suas boccas, duas phrases que +formavam apenas uma só. Assim moralmente _acolchetados_ um ao outro, os +dois irmãos precisavam de confundir constantemente os seus dias e os +seus serões, separavam-se sempre a custo, e cada um d'elles +experimentava na ausencia do outro, o sentimento estranho, indefinivel +de alguma coisa de incompleto e de mutilado. + +«Quando um tinha sahido por algumas horas parecia que o que sahia levava +para fóra o poder de attenção do irmão que ficára em casa, e que não +podia fazer mais nada senão fumar até á volta do ausente. + +«E se a hora annunciada para o regresso passava, o cerebro do que estava +á espera, enchia-se de desastres, de catastrophes, de accidentes +medonhos, de preoccupações estupidamente sinistras, que o faziam correr +continuamente do quarto á porta da rua. De modo que só forçadamente os +separavam; que um, nunca acceitava o convite que o outro não devesse +partilhar; e que, relembrando todos os annos da sua existencia commum, +elles só recordavam terem passado vinte e quatro horas completas, um +longe do outro. + +«É necessario, porém, accrescentar que, entre os dois irmãos, este +estreitamento de fraternidade fôra feito por alguma coisa de mais +poderoso ainda que tudo isto. O trabalho de ambos achava-se tanto e tão +bem confundido, os seus exercicios de tal modo identificados, e tudo que +elles faziam unidos, parecia pertencer tão pouco a qualquer dos dois em +particular, que os applausos eram sempre dirigidos á associação e que +nunca o par tinha sido separado na censura ou no elogio. Era d'este modo +que estes dois seres tinham chegado ao ponto de constituirem _um_--e +caso raro, quasi unico nas amisades humanas--de não terem senão _um_ +amor proprio, _uma_ vaidade, _um_ orgulho que o publico feria ou +acariciava ao mesmo tempo em ambos.» + +Foi trabalhando d'este modo, tão subtilmente descripto pelo ultimo que +ficou, ferido e inconsolavel para sempre, que elles, fazendo da +physiologia o novo instrumento do romance contemporaneo, e levando para +os estudos delicadamente cinzelados da Historia o mesmo escrupulo de +analyse e a mesma finura extraordinaria de processo, pintaram, desde +_Maria Antoinette_ a adoravel, sympathica, leviana e altiva rainha, até +_Germinia Lacerteux_ a pobre e humilde creada, victima inconsciente e +fatal de um temperamento de hysterica; desde as deliciosas e corruptas +amantes de Luiz XV, até á doce e graciosa _Renée Mauperrin_; desde as +endemoninhadas cortezãs do seculo XVIII, até á austera e pensadora +madame Gervaisais; conseguindo, ao par d'isto, pôr tanta da vibrante +personalidade de ambos em toda a sua obra, que a gente reconhece-os em +Charles Demailly, o homem de lettras, victima da sua propria delicadeza +organica, e em dezenas de figuras, eminentemente modernas, que +atravessam as suas paginas impressionadoras e tão intensas de vida. + +Ninguem exprimiu com uma penetração mais intima do que elles, a +_nevrose_ contemporanea com todos os seus simptomas de depravação ou +desequilibrio moral; a melancholia dos espiritos, exhaustos pelos +excessos de actividade mental; as baixas miserias da experiencia +quotidiana, tão cheia de catastrophes interiores e de angustias +dilaceradoras e invisiveis. + +Mas tambem ninguem, como elles, resuscitou, em mais garrida e rendilhada +moldura, esse mundo galante, artistico, enfeitado, risonho, frivolo, +vicioso e triumphante, que principia na orgia da Regencia e acaba na +orgia da Revolução. + + +II + +Depois de Balzac, ou antes d'elle, talvez, o espirito que maior +influencia exerceu no destino dos dois irmãos, foi Gavarni, o insigne +caricaturista, o desenhador admiravel, a quem mais tarde elles erigiram, +n'um livro de grande arte, um monumento de admiração reconhecida e terna +e de critica verdadeiramente magistral. + +Ainda os dois escriptores estavam como que encerrados na perfumada +guarda-roupa d'esse seculo dezoito, que amaram tanto, resurgindo, com o +seu poder de evocadores, as interessantes figuras d'aquelle mundo +extincto, d'onde nós vimos todos, e que, tão diverso e tão distante é de +nós, quando um acontecimento fortuito os fez travar relações com o +artista, que mais profundamente _sentiu_ e amou o tempo em que viveu. + +Gavarni não comprehendia nem amava o passado. Como Balsac, cujas obras +illustrou, o que elle amava, o que lhe prendia a attenção, o que lhe +embebia amorosamente o olhar investigador, eram os typos que a cada +instante acotovellava pelas ruas. + +Os Goncourt fallando em Coriolis, o pintor da _Manette Salomon_, +descrevem d'este modo _saisissant_ o artista que se compenetra +apaixonadamente dos espectaculos do seu tempo. Este pintor sente o que +sentia Gavarni; o que os dois escriptores sentiram tambem mais tarde; e +é d'este modo especial de encararem a arte que toda a obra d'elles +deriva naturalmente. + +«Vagueiava de um lado a outro de Paris, estudando os typos salientes; +tentando apanhar na passagem, n'essa multidão enorme de transeuntes, a +physionomia moderna; observando os novos signaes da belleza d'um tempo, +d'uma epoca, d'uma humanidade; o caracter que se imprime como uma dedada +de artista n'esses rostos agitados, febris, o caracter que marca e +designa para a Arte; o aspecto exterior dos pensamentos, das paixões, +dos interesses, dos vicios, das doenças, das energias d'uma grande +capital. A sua curiosidade penetrava essas physionomias de civilisados, +que levam o pensamento para tão longe do vago sorrir dormente dos +Egyneos, da divina placidez grega; esses rostos devastados pelas idéas, +pelas sensações, por todas as acquisicões da actividade moral do homem, +extenuados pela complexidade das preoccupações, atormentados pela +aspereza das carreiras, pelo trabalho insano, pela difficuldade e agrura +do viver. + +«E interrogava a expressão das pessoas atarefadas, que passam a correr +pelo meio da rua, lembrando formigas n'um formigueiro, com um pacote +debaixo do braço, ou um embrulho na algibeira, homens de miseria, que +passeiam a sua fóme, em frente do balcão dos cambistas; physicos de +larapio, escondendo a maldade do instincto, sob a femenilidade d'uma +cabeça de imperatriz romana; figuras estranhas de inventores +incomprehendidos, que vão ao acaso, monologando pelos passeios, com +gestos inconscientes de actor. + +«Estudava aquella belleza singular e espirituosa, a indefinivel belleza +da mulher de Paris. Seguia as apparições imprevistas; as caritas +irregulares e radiantes; as pequeninas creaturas estranhas, que +desabrocham, como flôres, d'entre as pedras da calçada e que, de +repente, desapparecem,--com o seu arzinho de costureiras, que vão +amanhecer cortezãs--por uma porta humilde e escura, por uma escada +ingreme e repugnante. E tentava analysar o encanto d'essas magras +raparigas, que teem nas fontes como que o reflexo do candieiro da +officina, pallidas das noites perdidas á costura, e como que vagamente +torturadas pela nostalgia da preguiça e do luxo. Ás vezes debaixo d'uma +touquinha muito pobre, dava subitamente, com uma graça requintada, uma +expressão rara, um ar de suavidade martyrisada, de melancholia virginal, +que a vida dos grandes centros, o refinamento das civilisações, o fim +dos sangues empobrecidos parecem fazer cahir sobre o rosto das +costureirinhas miseraveis. Uma vez levou na memoria, para um estudo que +principiou no dia seguinte, o rosto da filha d'uma parteira, uma pobre +pequenita lymphatica, tão mansinha, tão definhada, tão branca, com os +olhos tão cheios de ceu, sob a sombra das pestanas, que fazia scismar +n'um anjo doentinho. + +«No seu intimo, n'aquella agitação dos seus passeios, havia um mal estar +terrivel e indefinido, a inquietação que se apossa do homem abandonado +pela religião da sua mocidade. Sentia-se n'esse momento critico, n'essa +hora da vida d'um artista em que elle sente morrer dentro de si a +primeira consciencia da sua arte; instante de duvida, de tortura +contradictoria, de anciedade, em que, incerto a respeito de proprio +futuro, hesitante entre os habitos de seu talento e a vocação da sua +personalidade, _elle sente agitar-se e estremecer dentro de si o +presentimento de outras fórmas e d'outras visões, o começo de novos +modos de sentir, de vêr, e de querer!..._ + +O trabalho interior que, por este modo incisivo e brilhante, os dois +Goncourt, aqui descrevem, fez-se n'elles, sob a influencia de Gavarni. + +É mais raro do que parece este dom especial, que nos torna, por assim +dizer, physicamente sensiveis ás fórmas, ás linhas, ao relevo e ás côres +do que nos tem cercado desde a infancia.... + +Parece que o nosso tempo é aquelle que nós devemos saber pintar melhor. + +Nem sempre. + +Na arte, o mais difficil é traduzir as coisas simples, as coisas reaes, +sem nos afastarmos da exactidão, e sem cahirmos na banalidade. + +Pintar por exemplo o aspecto de uma rua; um grupo de gente do povo que +conversa e gesticula; uma senhora que passa, bem vestida, discreta, +envolvida muito prosaicamente no seu chaile de cachemira, distincta, +fina e natural; pôr em attitudes expressivas e _reaes_ duas porteiras +que tagarellam; esboçar com rapidez frisante um _decavé_ da Bolsa ou de +_baccarat_ que vae andando cabisbaixo, lugubre e banal; desenhar a dois +traços um _dandy_ de charuto na bocca e ar _spleenetico_; dar emfim o +tom vivo, o destaque poderoso e ao mesmo tempo a nota exacta e +verdadeira áquillo em que nós, nem reparamos já, á força de o termos +visto milhares de vezes, eis um milagre que só realisam artistas +consummados e organisações muito especialmente dotadas. + +É muito mais facil ser phantasista do que ser verdadeiro, descrever a +largos traços o pôr do sol por detraz de uma cordilheira gigantesca, do +que pintar uma paisagem doce, simples, vulgar, que apenas se distinga +pela doçura da luz, pela graça enternecedora e humilde da expressão. + +A verdade de todos os dias parece impôr-se a todos nós, sentimol-a, +vêmol-a, ella penetra-os por assim dizer: pois apezar d'isso tudo, +tentemos traduzil-a artisticamente, e veremos depois que esforço, que +condensação de vida intellectual, essa pequena coisa tão grande exige de +nós! + +Pois é positivamente, repetimos, esse dom possuido em alto grau pelo +grande pintor de costumes do seculo XIX chamado Gavarni, que elle soube +communicar aos dois irmãos Goncourt. + +Os que duvidarem que leiam a lancinante, a dolorosa historia tão +mesquinha e tão tragica, tão humilde e tão desoladora da creada +_Germinia_; que leiam aquelle terrivel estudo chamado Charles Demailly, +em que Julio de Goncourt como que advinha e prophetiza as torturas da +sua vida de escriptor, e a agonia longa e martyrisante da sua morte de +artista ambicioso e incontentado. + +Muitas das cartas de Julio são dirigidas a Gavarni. Ha outras a +Flaubert, a Paulo de Saint Victor, a Theofilo Gauthier, a Saint Beuve, á +princeza Mathilde, a Zola, etc., etc. + +Todas ellas explicam, esclarecem, commentam, illuminam, dia a dia, o +trabalho constante que os dois irmãos proseguiram, até á morte do mais +novo, atravez de todas as hostilidades da critica, da indifferença do +_grosso publico_, do desdem de muitos, da ironia incredula, ou do pasmo +ingenuo de quasi todos. + +O amor da litteratura, este amor que nós, em Portugal, só por ouvirmos +fallar d'elle, conhecemos incompletamente, amor que absorve, que +encanta, que allucina e que mata por fim--como matou Flaubert, como +matou Julio de Goncourt, como matou Balsac, como é muito provavel que +mate brevemente Daudet--o amor da litteratura respira-se n'estas cartas +com um perfume subtil que as embalsama, e que as impregna +admiravelmente. + +Póde mesmo affirmar-se que este amor é o maior que domina a vida dos +dois irmãos, e que os faz vêr a vida nos livros e atravez dos livros. + +E a cada obra bem feita, que sentido e sincero applauso! que vibrar de +phrases sonoras traduzindo a admiração, o goso agudo da intelligencia +satisfeita! + +O estylo, isto que a nós nos parece apenas o instrumento mais ou menos +perfeito de que a idéa se serve, e que a outros parece toda a arte, +dá-lhes a elles, quando é cinzelado com o primor a que aspiram, prazeres +comparaveis aos que nós, os que não commungamos n'essa religião da +fórma, temos diante de um grandioso espectaculo da Natureza ou diante de +uma sublime acção do homem. + +«Ha no seu livro, diz Julio de Goncourt n'uma carta a Michelet, phrases +feitas de luz, paginas inteiras de sol, epithetos que se respiram, idéas +que fremem e palpitam sobre a haste das palavras!!» + +Qual de nós tem esta viva impressão intellectual, tão delicada e +subtilmente expressa aqui, ante a musica mais ou menos bella de um livro +de prosa? E, no entanto, são incompletos todos os artistas da palavra +que a não sentem. A palavra é _tudo_ para o escriptor, visto que é o +unico meio que elle tem de traduzir as variadissimas, as infinitas +modificações do espirito humano. Os dois Goncourt fizeram do estylo uma +sciencia, a mais complexa e requintada das sciencias. Comprehenderam e +muito bem, que todos os doentios symptomas, todos os phenomenos +pathologicos da alma moderna, todos os effeitos multiplos, inteiramente +ineditos que na Vida produz a comprehensão morbida que nós temos da +Vida, precisavam tambem de uma formula nova que os exprimisse. + +Para as doenças recentes que o excesso da civilisação, o _détraquement_ +nervoso, as diversas aberrações cerebraes nos teem trazido, precisava-se +de uma technologia ainda não sabida até hoje. A elles foi-lhes +necessario encontrarem a arte de _notar os sentimentos indiscriptiveis_; +de traduzir as imperceptiveis vibrações da alma; as mutações rapidas da +sensibilidade; as delicadezas doentias de uma geração estragada pelo +excesso da vida nervosa e cerebral. Julio de Goncourt conseguiu, pois, á +custa de um trabalho mental exagerado e exclusivo que lhe custou a vida, +dar á lingua franceza a subtileza, o nervosismo, a intensidade +harmonica, a rapidez e a variedade de cambiantes que ella não tinha. + +O estylo d'elle, ou antes o estylo dos dois irmãos, tem musicas e tons +esbatidos, e perfumes agonisantes, e fremitos voluptuosos, e sobresaltos +hystericos. Para lêr e apreciar a obra dos Goncourt é necessario ter +como elles, os nervos vibrantes, o cerebro excitado, e a sensibilidade +estranhamente irritavel. + +Escrevendo a Zola, a respeito da morte de seu querido irmão, Edmond de +Goncourt, dizia: + +«A meu vêr, elle morreu do trabalho, morreu sobretudo da elaboração da +fórma, da cinzeladura da phrase, do lavôr do estylo. + +«Estou-o vendo ainda, pegar dos trechos que tinhamos escripto em commum, +e que, ao principio, nos tinham satisfeito, e trabalhar n'elles horas e +horas, tardes inteiras, com uma obstinação quasi colerica, mudando aqui +um epitheto, pondo n'uma phrase o rythmo que lhe faltava, emendando uma +expressão, fatigando, gastando o cerebro á procura d'essa perfeição tão +difficil, ás vezes impossivel, á lingua franceza, na traducção das +coisas e dos sentimentos modernos. Depois d'essa tarefa enorme, cahia +para cima d'um sophá, moido pelo cançasso, e alli ficava um longo espaço +de tempo, silencioso, a fumar.» + +Balzac, que teve como nenhum dos discipulos que vieram depois d'elle, a +larga, a profunda, a milagrosa intuição dos sentimentos que agitaram, +moveram, convulsionaram, subjugaram o seu tempo; Balsac, que pintou os +_frescos_ collossaes e as deliciosas miniaturas, que soube fazer viver +as suas eternas figuras, criminosas, sublimes e depravadas, cheias de +odio ou cheias de amor, illuminadas pela chamma de todas as paixões, +queimadas pela fornalha rubra de todas as cubiças insalubres, e que, não +contente de personalisar, á grande maneira de Shakspeare, a Avareza, a +Sensualidade, a Paternidade ludibriada e dolorida, a Amisade viril, os +sentimentos fundamentaes do homem emfim, soube ainda penetrar nos +refolhos mais reconditos da alma feminina, e colher ahi a fragil, a doce +flor da melancholia, as tristezas silenciosas do amor trahido, as +saudades, cuja raiz suga as forças todas de um coração solitario; +Balsac, que foi muito maior que todos os modernos pelo pensamento +proprio e pela vida dos seus personagens, não soube vencer, nem subjugar +como elles as tyramnias da Fórma. + +Foi tambem n'esta lucta titanica de que sahia, deitando um vapor denso e +quente de todos os póros do seu corpo athletico, que elle consumiu e +gastou a existencia. + +A morte surprehendeu-o quando, no seu ultimo livro, a _Cousine Bette_, +elle tinha emfim alcançado uma victoria decisiva e tinha quasi achado a +formula, que o podesse contentar. + +A verdade é esta: ha escriptores para a maioria do publico. Esses não +teem mais do que traduzir os sentimentos communs a toda a humanidade. Ha +escriptores para os delicados, para os doentes d'essa terrivel nevrose +cerebral que hoje martyrisa os pensadores, os artistas, os +investigadores incontentaveis da verdade. Esses hão de ler com prazer +agudo, quasi doloroso, os livros de Julio e Edmundo de Goncourt. De +resto, não ha, entre os modernos, livros que mais vivamente ponham a nú +a personalidade de quem os escreveu. Ha paginas inteiras que são +confidencias mentaes. Ha estudos que foram feitos depois d'estas longas +meditações em que a alma se revela nas suas minimas particularidades, +nos seus mais intimos e dolorosos segredos! + +Por isso se explica que, nas suas _Idéas e Sensações_, elles escrevessem +esta observação que, applicada aos dois artistas de que tratamos, é +d'uma verdade tão intensa e palpitante. + +«Para as delicadezas, para as requintadas melancholias d'uma obra, para +as phantasias raras e deliciosas que se executam na corda vibrante da +alma ou do coração, não será necessario, indispensavel mesmo, uma +pontinha de doença no artista? + +E, como Henrique Heine, não terá cada um d'esses escriptores de ser como +que o Christo da sua obra, o crucificado physico da sua fé?...» + +Os Goncourt foram isto, e é por esse motivo que os que soffrem se sentem +um pouco irmãos d'esses artistas de tão morbida e delicada tristeza! + + + + +_GEORGES SAND_ + +Á LUZ DA SUA CORRESPONDENCIA + + +O nosso tempo tem, e com muita razão, um verdadeiro enthusiasmo, pelo +genero especial de litteratura constituido pelas _correspondencias_, +pelas _memorias_, pelas notas e observações colhidas dia a dia, por +estas confissões involuntarias, sem fito feito, que mais que nenhum +outro trabalho intellectual nos desnudam o segredo da psychologia +humana. + +Muitas _correspondencias_, que n'estes ultimos tempos teem visto a luz, +mais serviriam para _diminuir_ os seus auctores de que para os +engrandecer no espirito da posteridade. Em compensação outras ha, que +vieram mostrar a uma luz bem mais favoravel, bem mais doce, aquelles que +o mundo julgava com a sua proverbial e incuravel injustiça. + +A este numero pertence a Correspondencia de Georges Sand. + +Quando eu, sugeita como todas as mulheres aos desfallecimentos da alma, +ás subitas e inexplicaveis tristezas, succumbo ao peso da Vida, tão +hostil aos que pensam, tão dura e cruel aos que sentem muito, e pego em +um d'esses volumes em que uma alma enorme de mulher conta dia a dia a +historia do seu pensamento, sinto-me como que milagrosamente +reconfortada. + +A leitora n'este ponto pára um pouco surpreza e um pouco triste, não é +verdade? E pergunta-me espantada:--Pois quê?!... Tem esta opinião a +respeito de Georges Sand? + +Seria longo e seria melindroso entrar a este respeito em minuciosas +explicações. + +Diante d'esse genio assombroso que para o mundo se chama Georges Sand, +eu não indago as fraquezas que macularam tristemente uma parte da vida +intima da mulher que tinha por nome de familia Aurora Dudevant. + +Na sua Correspondencia, escolhida por mãos piedosas, expurgada de todas +as recordações impuras d'um passado, que a grande mulher expiou +nobremente e longamente, não ha um reflexo, senão muito longiquo e +apagado, das luctas tremendas, das tragicas luctas que se deram n'esse +espirito revoltado e extraordinario. + +Porei portanto de parte considerações de uma ordem extranha ao assumpto +que trato, ao vir transplantar para aqui as notas que a leitura da +Correspondencia de Georges Sand me arrancou irresistivelmente. + +E de resto, que pode haver de mais interessante para um espirito de +mulher, obscuro e humilde embora, do que as confidencias d'uma mulher de +genio? E se pensarmos que o _genio_ não é mais que o maravilhoso poder +da condensação concedido a um cerebro humano, a faculdade de synthetisar +em si as impressões e as sensações de muitos, e de formular com +eloquencia e verdade, para todos comprehensiveis, as paixões e os +sentimentos da multidão anonyma,--comprehenderemos, ao penetrar na vida +interior d'esses seres privilegiados, que nada do que os faz sentir, +palpitar e soffrer, nos é extranho a nós. + +Sentimos, talvez em gráu menos intenso, tudo que elles sentiram; o que +nos falta é a palavra inspirada e verdadeira com que o possamos +exprimir. + +É sob este ponto de vista, particular, que as cartas de Georges Sand nos +interessam tão vivamente. + +Lacrimosas e repassadas de angustia, palpitantes de indignação e de +revolta, resignadas e entristecidas depois, como que envoltas na +pacificação melancolica do crepusculo da vida, e tendo a serena +magestade e as linhas ondulantes e suaves das paizagens outoniças, +respira-se n'ellas a verdade, a espontaneidade mais sincera, a mais +natural despretenção. + +Ser sublime, sem nunca deixar de ser simples; aspirar continuamente aos +mais altos pincaros do pensamento, attingil-os muita e muita vez, e não +ter nunca a consciencia da propria grandeza, a vertigem da propria +elevação, antes conservar-se, atravez de tudo, humilde, ignorante do seu +valor e como que impregnada de um vago aroma de _bonhomia_ rural--eis o +encanto mais singular d'esta mulher singularissima. + +Nenhuma, entre as que deixaram na historia do espirito humano um rastro +luminoso, lhe é superior; emquanto que ella, na complexidade da sua +opulenta organisação, tem de todas um traço caracteristico. + +Ha n'ella, como em _Madame Rolland_, o amor enthusiastico da liberdade, +a paixão robusta da justiça, o sentimento ardente e viril da democracia; +no emtanto, mais feminil que _Madame Rolland_, ella teria lagrimas e +gritos de piedade, e accentos de enternecida eloquencia, para salvar das +garras do algoz a bella cabeça patricia de Maria Antonietta. + +Tem, como a Sevigné, a ternura maternal senão absorvente e exclusiva, +pelo menos penetrante de carinho, e cheia de engenhosas e subtis +delicadezas. + +Como a Stael, adora as letras, devora-a a curiosidade de todos os +segredos da intelligencia, professa a altivez intransigente e +desdenhosa, em face das tyrannias brutaes. + +Advoga continuamente, como Madame de Recamier, a causa dos vencidos, +concilia os odios, pacifica as divergencias, implora com incansavel +constancia a favor de todas as victimas e embebe-se na doce utopia de um +mundo, onde todos se amassem e se abraçassem, e tivessem, como premio +supremo da lucta de tantas gerações de martyres, a fraternidade, a paz +universal. + +Como Georges Elliott, a grande romancista ingleza, tão _humana_ e tão +natural, ella estuda de preferencia os simples, os humildes, os +obscuros, e encontra n'essas organisações rudes e inconscientes os mais +reconditos thesouros de bondade e de amor. + +Porem o que a especialisa e distingue d'entre todas, o que lhe dá o +cunho d'uma superioridade incontestavel, o que a faz do nosso tempo, e +lhe conquista as sympathias da nossa geração,--é a sua viva e fecunda +comprehensão da Natureza em todos os seus aspectos, e o seu tão sincero +e tão moderno naturalismo em face das paixões irreprimiveis da +humanidade ou das bellezas santas e pacificadoras da terra. + +Paizagista adoravel, nunca nos dá em termos technicos, e de uma precisão +de botanico ou de geologo, a descripção minuciosa do que vê. + +É incontestavelmente melhor o seu processo artistico, em que peze aos +sectarios fanaticos da escola descriptiva. + +O que ella nos dá, com uma riqueza de linguagem em que nenhum mestre a +excede, com uma poesia penetrante e evocadora que só póde comparar-se á +de Michelet, é a robusta, a sádia, a profunda, a deliciosa impressão que +recebe dos mil variados aspectos da natureza physica. + +Nos seus livros respira-se o aroma resinoso dos pinheiraes alpestres; a +frescura dos regatos sombrios onde a pervinca humedece o azul dos seus +olhos pequeninos, e avelluda o verde escuro da sua folhagem lustrosa; a +melancolica doçura das florestas gorgeiadas de rouxinoes; o idyllio +suave das campinas humildes; o cheiro do feno e dos trigaes floridos; a +acre respiração que sahe dos flancos da terra humida, dilacerados pelo +ferro da charrua... + +Ha nas paginas d'ella a estridula alegria victoriosa das auroras +escarlates; a languidez voluptuosa e electrica do meio dia abrasado, +quando uma sêde infinita contorce em espasmos de febre tudo que respira +e vive; a tristeza, dilacerante e intensa como um adeus, da hora do +crepusculo; a immensa paz cariciosa, protectora e calmante, das +silenciosas noites!... + +Quem melhor de que este coração tão eminentemente feminino sentiu e +communicou aos que a leram, as delicias de que a terra, a nossa eterna +Amiga, é tão prodiga, para os que entendem as harmonias ora vibrantes +ora enlanguecidamente morbidas, ora de uma intensidade perturbadora, da +sua orchestra colossal? + +Se mais nada lhe devessemos alem d'esta iniciação sagrada, era enorme +ainda assim a divida contrahida por todos nós com a nossa grande e +gloriosa irmã. + +Mas devemos-lhe mais alguma cousa, e ha n'esse _alguma cousa_ um vasto +alcance moral. Devemos-lhe a alta licção que ella nos deu, trabalhando +sempre, trabalhando sem um dia de afrouxamento ou de cançasso, perdoando +aos que a encheram de injurias e de insultos, sem uma só tentativa de +retaliação ou de vingança, sem um grito de raiva, sem uma interjeição de +furor. A qualidade predominante d'este caracter, fraco ás vezes, +vacillante no seu caminho, e de uma indecisão devida ás influencias que +actuaram na sua juventude desamparada de toda a luz moral, é apezar de +tudo, é atravez de todos os erros que lhe sombrearam para sempre a +memoria, a mais completa bondade, desartificiosa e simples. Bondade +immensa, bondade inextinguivel, que mais d'uma vez a transviou, mas que +teve a força triumphante de a rehabilitar; bondade a que se devem as +suas culpas, gravissimas é certo, mas tambem as suas raras virtudes, e +entre ellas os thesouros, os mananciaes inexgotaveis da sua evangelica, +ardente e apaixonada caridade. + +Oh! a caridade! a doce virtude que a todas sobreleva, e cuja limpida +corrente, nascida no humilde presepe de Bethlem, o mundo tem tentado em +vão enlodar e corromper!... Flôr, que desabrocha luminosa e perfumada na +alma dos que são bons, que os consola de tudo, até da ignominia a que os +homens ás vezes os condemnam, e que tem,--como certos seixos côr de +purpura que se apanham á beira do oceano, e que o oceano tem polido no +eterno fluxo e refluxo das suas ondas tumultuosas,--o dom mysterioso de +extinguir e apagar todas as maculas... + +É possivel que a leitora condemne agora como um crime de lesa-moral, +como uma contradicção inexplicavel e extranha, o meu enthusiasmo +_confessado_ por essa mulher, que foi um genio, mas que foi tambem uma +enorme peccadora. + +Eu peço-lhe porem que, antes de pronunciar a implacavel sentença que +condemna a escriptora inimitavel, leia algumas das cartas adoraveis que +ella escreveu, e com as quaes remiu, litterariamente, muitos dos +peccados que não tracto aqui de conhecer nem de indagar. + +O nosso tempo, grande em tudo, é grande principalmente pela tolerancia, +pela equidade, pela bondosa indulgencia que o homem lhe merece. + +Longe de vêr n'elle o criminoso irremissivel dos tempos da sombria +escholastica, a victima fatalmente condemnada pelo peccado original ás +chammas do inferno, ou ás chammas da fogueira, o monstro que se havia de +deixar mutilar ou se havia de deixar perder, para quem a natureza e as +suas forças indomadas eram outras tentações demoniacas, e que só podia +ter perdão sob a condição barbara de ser anti-humano,--o nosso seculo, +conhecedor de todos os segredos defezos aos seculos que o antecederam, +só vê no homem o criminoso, quando lhe é de todo impossivel vêr n'elle o +doente ou o vencido pela fatalidade das cousas. + +Os seus grandes pensadores, herdeiros n'este ponto, de antepassados +gloriosos que foram como que os prophetas da nova era, e que se chamaram +Voltaire e Diderot, ensinam-lhe a não condemnar o reu, sem primeiramente +o terem ouvido. Exigem mais ainda, para depois sentenciarem. + +Exigem que se conheçam as influencias atavicas a que elle obedeceu, o +meio em que se formou o seu caracter e se desenvolveu a sua educação, as +circumstancias especiaes que na vida o rodearam, o conflicto que o +destino estabeleceu entre as fatalidades que o arrastaram e o dever que +se lhe impunha. + + +II + +Não venho contar aqui, é claro, a vida de Georges Sand, que de resto, é +sufficientemente conhecida. Não venho advogar a causa das suas paixões +irregulares, que ella chorou com lagrimas de sangue, e que eu, pela +admiração infinita que a grande mulher me inspira, quizera, á custa d'um +sacrificio immenso, poder apagar da memoria de todos que a amaram. +Era-me tão doce, poder levantar-lhe um altar no meu espirito, sem as +dolorosas restricções que a sua desvairada mocidade me impõe!.. + +Eu queria vêr n'ella apenas os ultimos trinta annos da sua vida, +illuminados pelo mais grandioso talento que ainda ardeu em cerebro +feminino. + +Não posso!.. + +Para que ella fosse a sublime desenganada, cuja palavra era uma lição, +cujo conselho era um dogma, cujo sorriso doce e triste era feito de +experiencias amargas e de decepções crudelissimas, era indispensavel que +ella tivesse percorrido a Via Dolorosa, ferindo-se em todos os silvedos, +precipitando-se em todos os barrancos, dilacerando os pés em todas as +urzes da estrada!.. + +Lembremo-nos comtudo que Georges Sand, filha d'uma ligação irregular e +portanto condemnada pela sociedade e pela familia; eternamente combatida +entre dois poderes igualmente funestos--o primeiro, a avó _voltaireana_ +e sem crenças, o segundo a mãe, plebeia, leviana, inteiramente +ignorante,--só poude sahir d'esta situação difficil, dolorosa, causadora +de eternos conflictos, pela porta d'um casamento desigualissimo, um +casamento que fatalmente a predestinava á desgraça. + +Esse casamento fez d'ella--natureza superior, bella e robusta +organisação artistica, espirito cultivado e grande--a quasi escrava de +uma especie de bruto, sempre ebrio, incuravelmente grosseiro, de gostos +baixos, de costumes iguaes aos gostos. + +Nada d'isso a desculpa, bem sei. Eu não quero, nem devo desculpal-a. Sei +que este virtuoso e sabio mundo impõe a cada mulher a facil obrigação de +ser heroica, julgando-a muito feliz por lhe merecer depois um pouco de +consideração banal, ou um grão de louvor condescendente!.. + +Mas a esta mulher em particular, dada a educação que ella tivera e o +meio em que viveu por tanto tempo, quem podia dar-lhe forças para levar +ao cabo a sua missão de sacrificio? Não tinha uns braços de mãe que a +amparassem; um exemplo santo que a fizesse preferir a tudo o +incompensado, o obscuro, o aspero dever! Não havia ao pé d'ella uns +labios immaculados que a beijassem e lhe dissessem: + +--Tem delicias austeras, tem voluptuosidades verdadeiramente dignas das +que são grandes, o cumprimento do dever, por mais duro que elle seja. +Vaes procurar a felicidade ás paixões ephemeras, que na ebriedade da sua +febre romantica te pintaram os artistas e os poetas, cuja obra tem sido +o alimento de tua vida interior? Olha que elles todos mentem! O que de +lá trarás, do paiz das chymeras azues e das miragens enganosas, é uma +sêde de ideal ainda mais ardente, é o tedio da vida ainda mais profundo +e mais penetrante; é uma chaga aberta que só em longos annos de +renunciamento e de velhice tu poderás sarar, mas cuja cicatriz, +eternamente asquerosa, desformizará, para sempre, a formosura ideal do +teu genio sublime!--» + +Mas ai! ella era moça, tinha a sofrega curiosidade da vida; tinha lido +os poetas da paixão; tinha-se contaminado d'aquella febre sensual, que +se exhala, como um miasma putrido, dos livros ardentes de Rousseau. O +periodo, de resto, era de delirio ardente. Gosar, eis o motte d'essa +geração de desequilibrados, nascida d'um beijo entre duas batalhas +sangrentas. + +Quando ella voltou das suas primeiras excursões ao paiz maldicto onde se +respira a _malaria_ dos desejos insalubres, que immensa dôr inconsolavel +se evola, como um aroma de morte, das suas tristes cartas! + +«O meu coração envelheceu vinte annos! Já nada na terra me sorri! Para +mim já não póde haver nem paixões profundas, nem vivas alegrias. Tudo +está dito! Dobrei o cabo. Cheguei ao porto, não como esses nababos que +regressam em redes de sêda, ao tecto de cedro dos seus palacios, mas +como os pobres pilotos, que esmagados pelo cançasso, queimados pelo sol, +deitam a ancora, para não exporem mais ao mar a chalupa avariada. Não +têem de que viver em terra, e demais a terra aborrece-os. Tiveram +antigamente uma bella vida, tiveram riquezas, aventuras, combates e +amores. Talvez lhes fosse grato recomeçar... mas como se a embarcação +está desmantellada e a carregação perdida?..» + +Desesperada, na hora dos remorsos supremos, que os orgulhosos nem a si +confessam, sentindo porventura essa dôr incomportavel, que deve ser o +tedio de si propria, é a morte que ella chama com lamentos de uma +incomparavel e poderosa melancolia. + +E voltando depois, d'essa viagem que ficou celebre no mundo das letras, +pelos formosos livros que produziu, pelos versos divinos que inspirou, +voltando a _Nohant_, ao ninho humilde onde segundo ella propria diz, não +póde viver mas onde a morte lhe será mais doce, murmura meigamente: + +«Vim dizer adeus ao meu paiz, ás memorias da meninice e da mocidade, +porque decerto comprehendes que a _vida me é odiosa e impossivel_ e que +é forçoso, absolutamente forçoso que eu morra.» + +Oh! quem me dera poder citar largamente, d'essas cartas que resumem uma +vida, e uma vida cheia, accidentada, agitada por todas as paixões que +fazem pulsar febrilmente um coração de mulher, quem me dera poder citar +todos os trechos adoraveis, que me arrancaram lagrimas!.. + +Sonhadora, que nenhum desengano conseguiu acordar; vizionaria, que +nenhuma realidade chama á terra; ave enamorada, a que nenhuma queda +parte as azas de enorme envergadura, ella vae sempre, pedindo ás +amarguras dilacerantes de uma chymera impossivel, consôlo para as dôres +sem nome que outra chymera lhe deixara... + +Pisam-n'a? abandonam-n'a? Enganam-n'a? Que importa! + +A vida prometteu-lhe a felicidade, e ella vôa, sem cançar nunca, atraz +da sombra errante que lhe foge! + +Allumiada, a intermittencias rapidas, pela cruel faculdade critica que é +a sua superioridade e o seu martyrio, ella despenha por suas proprias +mãos do pedestal marmoreo o idolo que as suas proprias mãos ali tinham +erguido. + +Que importa? Porque se enganára uma vez não é licito esperar que se +engane eternamente. + +A bella figura immaculada, que a sua phantasia imaginou, ha de vir; não +tarda ahi; é mister que ella tenha todo o seu coração vivo e juvenil, +para lh'o entregar, renascido das proprias cinzas. + +E levantando-se mais vigorosa apoz o desfallecimento de todo o seu ser, +e resurgindo mais apaixonada e mais crente da completa derrocada de +todas as paixões e de todas as crenças, ella caminha insaciada e +insaciavel, peccadora inconsciente, somnambula da paixão, ambiciosa +sempre trahida d'essa chymera eterna que se chama amor feliz! + +Mas em meio da carreira vertiginosa e febril ha duas forças que a +chamam, ha dois poderes secretos que a redimem e a salvam. + +A maternidade e o trabalho. + +Então no seu horisonte nublado e tempestuoso ergue-se, a principio +indecisa e dubia, depois purpurea, victoriosa, flamejante, a luz pura +que vae illuminar a vida d'esse grande espirito transviado e +enlouquecido. + +Os homens pagaram-lhe, com insultos, o amor que, na sua fragilidade, +ella lhes teve, mas o filho extremecido, preferindo o appellido glorioso +que o genio de sua mãe lhe conquistara ao nome herdado de seu pae, +deu-lhe n'este acto de adoração intensa e delicada a desforra de todas +as humilhações, a victoria de todas as derrotas. + +Mais tarde, no outomno tão purpureado de tons opulentos, da sua vida de +trabalhadora intrepida, ella sabe com a palavra convencida e grave dos +que soffreram, luctaram e venceram, incutir coragem aos que fraquejam, +ensinar o caminho do bom e do justo aos que vacillam na escolha da sua +estrada, dar animo, incentivo e applauso aos artistas, que succumbem ao +desalento d'uma hora infecunda, ser ella propria um exemplo de força +viril e de femenil ternura. + +Os seis volumes da correspondencia de Georges Sand são como que a +ascensão d'um espirito para a região luminosa da bondade, da justiça e +do amor! Á proporção que a vida lhe declina--a pacificação, a doçura e a +paz vêem descendo sobre o seu agitado espirito, até fazerem d'elle um +exemplo de força e caridade, de resignação e de tolerancia. + +«Quanto mais vivo, diz ella n'uma das suas cartas, mais profundamente me +prostro diante da Bondade, porque vejo que é ella o beneficio de que o +Senhor é mais avaro. Onde a intelligencia não existe, chama-se bondade +ao que é simplesmente inepcia. Onde não existe a força, julgam bondade +ao que é apenas apathia. Onde a força e a luz intellectual se encontram, +é raro que se encontre tambem a bondade, pois que a experiencia e a +observação produziram a desconfiança e o odio! As almas votadas aos mais +nobres principios são tambem muitas vezes as mais acres e as mais rudes, +porque as decepções as adoeceram para sempre. A gente estima-as e +admira-as ainda, mas já não póde amal-as. _Ter sido desgraçado sem +deixar de ser intelligente e bom, faz suppôr uma bem poderosa +organisação, e são estas as que eu mais procuro e mais amo._ + +N'um periodo caracteristico d'uma carta a Lammenais diz assim, com +entristecida e commovedora franqueza: + +«Mestre, ha n'este mundo atalhos pelos quaes os seus pés nunca passaram, +abysmos onde o meu olhar mergulhou. Viveu com os anjos e eu tenho vivido +com os homens e com as mulheres; sei como se padece, sei como se pecca, +sei a immensa necessidade que existe d'uma regra, que torne possivel a +virtude. Confie em mim, creia que ninguem a procura com mais desejo de +encontral-a, com mais respeito pela virtude e com menos personalidade; +porque eu não tentaria jámais palliar as minhas culpas passadas, e a +idade já me permitte o encarar com placidez as tempestades, que palpitam +e morrem no meu longinquo horisonte.» + +A um dos queridos amigos da mocidade, tão piedosamente conservados até á +velhice, ella escreve um dia, n'uma d'estas horas em que a verdade nos +acode irresistivelmente aos bicos da penna, n'uma explosão de +sinceridade cheia de lagrimas? + +«Oh! como eu soffri n'esta vida, meu pobre irmão!.. E tu, sentes-te +agora mais tranquillo?.. + +«Eu, por mim, tive um terrivel duello comigo mesma, um combate +gigantesco com o meu ideal. Que ferida, que dilacerada, que ás vezes me +senti!.. Agora vegeto docemente, placidamente. Pareço a mim mesma um +cypreste que viça em cima d'um cadaver. Meu Deus! meu Deus! quantas +lagrimas eu não contive! quantas queixas não suffoquei! quantas dôres +sem consôlo eu guardei para mim só!..» + +E n'outra carta, como que tirando a suprema conclusão dos sacrificios +interiores, que se impoz pelo amor do bem, escreve d'este modo: + +«Desde que sinto pezar por sobre mim a mão da velhice, experimento uma +paz, uma esperança, uma confiança em Deus, que eu não tinha nas +commoções da mocidade. Acho que Deus é tão bom, tão bom, por nos +envelhecer, por nos acalmar, por destruir em nós o egoismo, tão aspero +em quanto se é moço!.. E queixamos-nos de perder alguma cousa, quando a +verdade é que alcançamos tanto, que as nossas ideias se ampliam e se +tornam mais justas, e o nosso coração se faz mais vasto e mais doce, e a +nossa consciencia victoriosa emfim, póde olhar para o caminho já +percorrido e dizer: «Cumpri a minha tarefa, está perto a hora da +recompensa!» + +Comprehende-se que, em seis volumes, ha centenas de paginas que eu +citaria com prazer, e que justificam amplamente o enthusiasmo, que +n'este rapido artigo se revella. As cartas em que Georges Sand deixa +transparecer, com divina eloquencia, o seu patriotismo de vizionaria, a +sua caridade inexgotavel e ardente, a sua doce tolerancia para as +fraquezas humanas, o seu genio simples e bom, feito de sinceridade e de +ternura... + +A indole porem d'estes estudos não comporta tamanhas delongas, e na +impossibilidade de citar tudo, quasi que acho preferivel não citar nada. +A tentação todavia arrasta-me ainda a transcrever para aqui, ao acaso, +mais alguns trechos caracteristicos: + +Quando a França parece querer suicidar-se nos excessos selvaticos da +Communa, quando todos se curvam desalentados ao pezo da mesma dôr +impotente, ella, a valente mulher, exclama cheia de fé:--«Sinto me +fluctuar ao acaso sobre as vagas, mas buscando a terra, porque sei que a +terra existe, e que tudo lá vae dar fatalmente. + +«A verdade, o bem não são mentiras; basta que a gente os sinta viver +dentro de si propria, para ter a certeza firme de que elles existem no +coração da humanidade.» + +E quando Flaubert, nas suas explosões de epileptico, lhe mandava em +cartas que tambem estão publicadas, mas que são incontestavelmente +inferiores ás cartas d'ella, os seu lamentos pueris ácerca dos males +imaginarios que o torturam, Georges Sand, a martyr de tantas agonias, em +vez de rir-se desdenhosamente d'essa velha creança, que, a tanto talento +juntava tão extraordinarias fraquezas, tracta, pelo contrario, de +combater o soffrimento que a sua alma intrepida nem concebe, e +explica-lhe d'este modo o ideal da sua velhice. + +--«Amar sempre, sacrificar-se continuamente, não reassumir a posse de si +proprio senão quando o sacrificio já não seja necessario áquelle a quem +se consagra, e sacrificar-se ainda, na esperança de servir a unica cousa +verdadeira que ha n'este mundo--o amor! + +«Não fallo aqui da paixão pessoal, fallo do amor da raça humana, do +sentir que cada ser amplia até aos outros seres! Esse ideal de justiça, +de que tu me fallas, nunca o poude comprehender separado do amor, visto +que a primeira lei, para que uma sociedade natural subsista é a que faz +com que os membros que a compõem se sirvam mutuamente e mutuamente se +amem. Chama-se nos animaes instincto este concurso de todos para o mesmo +fim; nos homens, porem, deve chamar-se amor; quem se subtrahe ao amor +subtrahe-se á verdade e á justiça. + +«Lamento a humanidade; quereria vêl-a boa porque não posso separar-me +d'ella; porque _ella_ é _eu_; porque o mal que ella se faz a si me fere +o coração; porque a sua vergonha me faz corar; porque os seus crimes +dilaceram as minhas entranhas; porque não posso comprehender o paraizo +na terra ou no céo para mim sósinha.» + +E como o grande escriptor de madame Bovary, na sua eterna lucta contra o +que elle chama a _bêtise humaine_, continúa a expandir-se em +manifestações colericas que irritam quem lhe lê as cartas, Georges Sand, +sempre serena e doce, sempre maternal, responde-lhe: + +«Quanto mais desgraçado és, mais eu te quero! + +«Como te apoquentas, como te affliges com a vida!.. Porque, no fim de +contas, é da vida que te queixas. Ella nunca foi melhor em tempo algum, +para ninguem! A gente _sente-a_ mais ou menos, comprehende-a mais ou +menos, soffre por causa d'ella mais ou menos, e quanto mais adiantado +está em relação á epocha em que vive, mais tem de padecer em resultado +d'essa desharmonia. + +«Passamos como sombras sobre um fundo enublado que o sol apenas rompe em +raros instantes, e chamamos incessantemente por esse eterno sol que não +póde allumiar-nos. Está em nosso poder affugentar as nuvens...» + +«Tens demasiado amor pela litteratura; ella ha de matar-te sem que tu +consigas matar a _tolice humana_. Pobre tolice humana! Eu não a detesto +como tu. Pelo contrario! Olho para ella com olhos maternaes, porque a +considero uma infancia, e toda a infancia é sagrada para mim! Que odio +que lhe votaste! que enorme guerra lhe fazes! Tens intelligencia e +sciencia de mais; esqueces-te de que ha alguma cousa superior á arte, e +essa cousa chama-se sabedoria, da qual a arte no seu apogeu é apenas a +expressão simples. + +A sabedoria comprehende tudo: o bello, o verdadeiro, o bom, e por +conseguinte o enthusiasmo que d'elles derivam. É ella que nos ensina a +vêr fóra de nós, alguma cousa de mais elevado que o que está em nós, e a +assimilal-o pouco a pouco pela contemplação e pela admiração. Mas eu nem +sequer conseguirei fazer-te comprehender bem o modo pelo qual encaro e +percebo a _felicidade_, quer dizer a acceitação da vida tal qual ella +é.» + +Quem não sentirá sympathia por estas palavras de fé, de pacificação e de +conforto! De quantas dôres superiormente supportadas, de quantos erros +expiados d'um modo sublime, se compõe esta serenidade augusta que dá a +velhice de Sand uma grave e encantadora magestade. + +E ao par d'estas graves lições de alta moralidade, d'estas lições que +reconciliam com a vida o espirito mais dolorido, mais inquieto e mais +revoltado, encontram-se aqui e ali phrases encantadoras d'uma graça +femenil deliciosa e fina. «Quando eu tiver exgotado a minha taça de +amargura, hei de então levantar-me. Sou mulher, tenho ternura, tenho +piedade, e tenho impetos de colera. Não terei nunca a serenidade d'um +erudito ou d'um sabio!.. «Os fortes são aquelles que não amam! Não serás +nunca um _forte_ e ainda bem!» + +«Sou ainda, senão necessaria, pelo menos extremamente util a todos os +meus, e emquanto houver em mim um sopro da vida, hei de pensar, +trabalhar, soffrer por elles!» ... «Já não tenho tempo de pensar em mim, +de scismar em cousas desanimadoras, de desesperar da especie humana, de +olhar para as minhas proprias dôres e para as minhas alegrias passadas e +de chamar a morte. Olha, se a gente fosse egoista era o caso de a vêr +chegar com alegria; é tão commodo dormir para sempre, ou accordar para +uma vida melhor! Mas para quem tiver ainda de trabalhar, a morte não +deve chegar antes da hora em que o extenuamento completo nos possa abrir +as portas da liberdade.» ... «Não sejas fraco! então?! Devemos o exemplo +da nossa força moral a todos que nos cercam e podem ouvir-nos! E eu?! +Julgas que eu não tenho tambem necessidade de auxilio e de amparo, na +minha longa tarefa ainda por concluir? + +«Pois não tens amor a ninguem, nem sequer á tua velha amiga, que sempre +canta, e chora muitas vezes, mas que se esconde para chorar, como os +gatos se escondem para morrer?.. » + +Estas cartas a Flaubert são todas d'uma graça maternal, d'um encanto +affectuoso que conforta e fortifica. Depois de se terem lido, a gente +sente-se envergonhada de succumbir a meio do caminho, de se lamentar +egoista e puerilmente, porque a vida é triste e incompleta, e cheia de +aspirações e de esforços vãos! + +Para Georges Sand a vida, dura e inhospita como lhe foi, a vida que +segundo ella propria confessa _lui a manqué de parole_ muitas vezes, +muitas vezes a fez sangrar por todos os póros da sua carne, muitas vezes +a dilacerou e abateu, nunca logrou prostral-a. + +Tinha--dom raro e milagroso que constitue a unica superioridade d'este +mundo--tinha a faculdade da _eterna renovação_ que a natureza empresta a +raros eleitos seus. + +_Mon coeur mille fois brisé et toujours heureux de vivre_--dizia ella +aos setenta annos, definindo, d'este modo profundo e brilhante, o seu +coração de valente e de luctadora, tão energico e tão meigo, e dando-nos +assim o segredo de seu genio cheio de contrastes, illuminado por todos +os esplendores, obscurecido por todas as sombras, opulento e suave, +risonho e melancholico, impetuoso e terno, bom sobretudo, bom como a +grande natureza sua inspiradora e sua mãe, sua confidente na mocidade +agitada, sua amiga na serena velhice. + +Confidencias d'um apaixonado coração de mulher, que teve na amisade os +ardores e os extremos que outros, nem nos amores sabem ter; +despretenciosas lições de arte, de litteratura e de bom senso; conselhos +d'uma delicadeza penetrante, d'uma alteza de pensamento maravilhoso; +descripções formosissimas; palavras de caridade e de conforto; doces +expansões de amor materno; profissões eloquentes, e singelas ao mesmo +tempo, de tolerancia, de benevolencia universal, de religiosidade +profunda e intima, quasi que instructiva, de amor da humanidade elevado +ás sagradas proporções d'um culto;--eis o que nos dão essas cartas +soberbas, superiores talvez pela significação e pela verdade a toda a +obra da prodigiosa romancista. + + * * * * * + +Será a vida de Georges Sand um exemplo a apontar-se? É claro que não, e +que ninguem, d'este rapido esboço critico, póde deprehender tal absurdo. +O genio, porem, tem attenuantes excepcionaes para os seus excepcionaes +desvarios. + +E se a obra da grande escriptora nos deixa ás vezes entristecidos e +descontentes, se a sua mocidade nos desola como uma pagina lamentavel da +vida dos grandes entendimentos, as suas cartas reconciliam-nos com ella, +e são os seis volumes das suas cartas que eu recommendo a todos os que +me lerem. + + + + +INDICE + + + + Pag. + +Gonçalves Crespo 1 +Ramalho e Eça 37 +Ramalho Ortigão 53 +Anthero de Quental 107 +Antonio Candido 165 +Teixeira de Queiroz 225 +Octave Feuillet 257 +Os irmãos Goncourt 292 +Georges Sand 325 + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 2| rigorosas | rigorosos | + |#pág. 102| Ortigão gão | Ortigão | + |#pág. 105| phantasticamenre | phantasticamente | + |#pág. 132| indifrença | indifferença | + |#pág. 134| vibracao | vibração | + |#pág. 139| dolorosa, | dolorosa | + |#pág. 150| carateriscos | carateristicos | + |#pág. 150| concontaminados | contaminados | + |#pág. 151| no Quental | do Quental | + |#pág. 154| e _Diario_ | o _Diario_ | + |#pág. 156| apapparece | apparece | + |#pág. 163| enenriqueceu | enriqueceu | + |#pág. 175| iguorante | ignorante | + |#pág. 182| muitos notaveis | muito notaveis | + |#pág. 188| imaginção | imaginação | + |#pág. 196| displinadora | disciplinadora | + |#pág. 197| demonstrucção | demonstracção | + |#pág. 202| ou ou | ou | + |#pág. 205| que orador | que o orador | + |#pág. 213| livro arbitrio | livre arbitrio | + |#pág. 248| e | é | + |#pág. 250| positita | positiva | + |#pág. 278| acima do do | acima do | + |#pág. 280| accceito | acceito | + |#pág. 295| E extraordinaria | É extraordinaria | + |#pág. 315| chamado chamado | chamado | + |#pág. 328| mararavilhoso | maravilhoso | + |#pág. 330| pelos menos | pelo menos | + +----------+---------------------+----------------------+ + +Foram mantidas as variações de nomes próprios. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Alguns homens do meu tempo, by +Maria Amália Vaz de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALGUNS HOMENS DO MEU TEMPO *** + +***** This file should be named 26338-8.txt or 26338-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/6/3/3/26338/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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