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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:19:06 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Versos de Bulhão Pato + +Author: Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +Release Date: June 19, 2008 [EBook #25840] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +VERSOS + +DE + +BULHÃO PATO + + + + +LISBOA + +Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza. + +6, Rua do Thesouro Velho, 6. + +1862 + + + + +A HELENA + + + Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos + O teu saudoso valle, e lentamente + Pela elevada encosta caminhámos? + O sol do estio ardente, + Já não brilhava nos frondosos ramos + Do arvoredo virente. + + Chegára o fim do outono: a natureza, + Sem ter os mimos da estação festiva, + Nem aquelle esplendor e gentileza + Que tem na quadra estiva, + Na languida tristeza, + Na luz branda e serena + D'aquelle ameno dia, + Que immensa poesia, + E que saudade respirava, Helena! + + Subindo pelo monte, + Chegámos ao casal onde habitava + A tua protegida, + Aquella pobre anciã que se agarrava + Aos restos d'esta vida! + Assim que te avistou, ergueu a fronte + Curvada ao peso de tão longa edade, + Sorrindo nesse instante + Com tal vida, que a luz da mocidade + Parecia alegrar o seu semblante! + + Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella, + Grosseiras pelo habito constante + Do trabalho da terra, + Queimadas pelo vento sibilante, + E pelo sol da serra, + Produzia essa mão graciosa e bella, + Effeito similhante + Ao que por entre o mato + Produziria a rosa de Benguela, + A flor mais alva e de mais fino trato! + + Vinte annos tu contavas nesse dia; + A fiel servidora, + Era a primeira vez que não podia + Deixar a casa ao despontar da aurora, + E cheia de alegria + Caminhar para o valle como outr'ora, + Depôr uma lembrança em teu regaço, + E unir-te ao coração num meigo abraço! + + Tu, na força da vida, + Circundada de luz e formosura, + Foste levar á pobre desvalida + Os dons do lar paterno; + Alegrar com teu riso de ternura + Aquelle frio inverno! + + Ao ver-te com teus braços, + Nos seus braços senis entrelaçados, + A ventura nos olhos encantados, + A inspiração na fronte deslumbrante, + Afigurou-me então o pensamento + Ver um anjo descido dos espaços, + D'aspecto fulgurante, + Enviado por Deus nesse momento, + Para animar os derradeiros dias + De quem cançado do lidar constante + Abre o seio na morte ás alegrias! + + As lagrimas de gosto, + Corriam cristalinas + No rosto d'ella e no teu bello rosto! + Como orvalhos do ceo aquelles prantos, + Um brilhava na hera das ruinas, + Outro na flor de festivaes encantos, + Na rosa das campinas! + + Quando voltaste a mim illuminava + O teu semblante uma alegria infinda. + Depois quizeste ainda + Ir visitar a ermida que ficava + No apice do monte: + Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos. + No esplendido horisonte + Já declinava o sol quando chegámos. + + Era singelo, mas sublime o quadro! + Em roda o mato agreste; + No meio a pobre ermida; ao lado d'ella + Um secular cypreste, + E sobre a cruz do adro + Pendente uma capella + De algumas tristes, desbotadas flores, + Talvez emblema de profundas dores! + + Oh! como tu, suspensa + Num extasi ideal de sentimento, + Expandias o livre pensamento + Pela amplidão immensa! + Como depois descendo das alturas + Aonde te arrojára a phantazia, + Parece que a tua alma me trazia + Occulto premio de immortaes venturas! + + Tanto expressava o teu olhar profundo, + Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia + O homem neste mundo, + Jámais me trouxe a idéa + Do suppremo poder da Providencia + Com tamanha eloquencia! + + O sol quasi no termo + Com um brando reflexo, + Cingia a cruz do ermo + Em amoroso amplexo! + O rei da creação, o astro orgulhoso, + Que enche a terra de luz, + Tambem vinha prostrar-se saudoso + Aos pés da humilde cruz! + + Era solemne e santo + Naquell'hora supprema o teu aspecto! + Nos labios a oração, no rosto o pranto, + As mãos cruzadas sobre o seio inquieto, + Os olhos postos na amplidão do espaço, + E em derredor da frente + Um luminoso traço + A inundarte de luz resplandecente! + .................................. + + Branda a tarde expirou! D'aquelle dia, + E de outros dias de íntimas venturas, + De immensa poesia, + Nasceram essas paginas obscuras, + Que hoje a teus pés deponho, + Como saudoso emblema, + Do tempo em que sorrira + O nosso bello sonho! + Terias um poema, + Se tão gratas memorias + Podessem ser cantadas numa lyra + Votada a eternas glorias! + + Emfim: se um pensamento, + Se uma singela idéa onde transpire + O perfume de vivo sentimento, + Nestas folhas traçar a minha penna... + A estrophe, o canto que o leitor admire, + Seja o teu nome, Helena! + +6 de Junho de 1862. + + + + +I + +A CONVALESCENTE NO OUTONO + + + Revive teu rosto pallido + Á chamma do meu amor; + De novo com mais ardor + Pula em teu seio, querida, + O sangue, o prazer, a vida. + + O sopro que na existencia + D'esta luz nos illumina, + Não se ha de extinguir jámais; + Oh! provém da mesma essencia, + Da mesma porção divina, + Com que a mão da Providencia + Torna as almas immortais! + Firma teu braço ao meu braço, + Vem commigo respirar + Este ar vivo e salutar. + + Não sentes na luz do ceo, + E no perfume saudoso + Do bosque espesso e formoso, + Que o doce outono volveu? + As folhas que pelo chão + Crestadas dispersa o vento, + Não desprendem um lamento + Que intristece o coração!? + + E a voz d'essa ave amorosa, + Que alem na balsa murmura, + Melancolico modilho, + Não parece a voz saudosa + Da mãe que adormenta o filho + Entre os braços com ternura? + + D'aquelle pobre casal, + O fumo que vae subindo + Em ondulante espiral, + Não diz que em volta do lar + Se reune a pobre gente, + Que já de perto pressente, + O frio inverno chegar? + + Não vês que ha tanta tristeza + Na voz que se eleva a Deus + Agora da natureza! + Oh! mas como aos olhos teus, + E como ao meu coração + É grata a melancolia + D'esta languida estação! + + Toda a explendida poesia + Do ceo, da terra, e das flores, + Quando mil cansões de amores + Improvisa o rouxinol, + Alegrando o mez de maio + Desde os clarões do arreból + Até que em doce desmaio + Nas aguas se occulte o sol, + Terá, sim, tem mais frescura, + Mais vida e mais esplendor, + Mas não tem tanta ternura, + Nem respira tanto amor! + + Paremos aqui, descansa + Um momento neste abrigo; + O sopro da aragem mansa + Anda em roda a murmurar, + E um raio de sol amigo, + A teus pés se vem prostrar + ........................... + Oh! que noites de amargura! + Que horas lentas de agonia! + Que instantes naquelle dia, + Quando tu sem voz, sem gesto, + Suspensa num fio a vida... + Emfim te julguei perdida! + + Chegára a noite; uma estrella, + Uma só, não transluzia + No ceo triste e carregado; + Oppresso e desalentado, + O coração me batia. + + Pouco a pouco no horisonte + Foi rompendo a nevoa densa; + Era a vida, a luz, o dia, + Aquella alegria immensa, + Que no murmurar da fonte, + No perfume da campina, + Na brisa e na voz divina + Do amoroso rouxinol, + Seduz, arrebata, inspira, + Quando acorda a terra em canticos, + Aos raios vivos do sol! + + «Pois tudo se anima agora, + Tudo nasce com a aurora, + Tudo é vida e tudo é luz; + Só nesta face adorada, + Inerte, fria, gelada, + Nem um só clarão reluz!» + + Ouviu Deus naquelle instante + A minha supplica ardente; + Em teu lívido semblante + Vi despontar docemente + Um reflexo semelhante + Ao que o sol derrama á tarde + Sobre as nuvens do ponente. + + Prostrei-me a rogar então; + E essa estrella de bonança, + Essa casta divindade, + Risonha irmã do infortunio, + Companheira da saudade, + Que o mundo chama--Esperança-- + Senti-a no coração! + + Com aquelle sol explendido + Que rompêra a nevoa densa, + E com a alegria immensa + Do mar, da terra, e dos ceos, + Quiz de novo a Providencia + Que eu visse nos olhos teus + O mundo, a luz, a existencia! + + Agora pois, neste instante, + Agora, que lá distante, + O sino da pobre ermida + Dá signal do fim do dia, + Co' a prece da _Ave-Maria_, + Ergâ-mos, ambos querida, + Graças mil a Deus piedoso, + Por te haver tornado á vida! + +Setembro de 1854. + + + + +II + +FELIZ DE AMOR! + + + Não sabes que ao ver-te triste, + E pensativa a meu lado, + O rosto na mão firmado. + E os olhos postos no chão, + Calado, ancioso, anhelante, + Quero ler no teu semblante + A causa da dôr constante + Que te opprime o coração? + + Pois não basta o meu amor + Para te dar a ventura? + Responde: quando a luz pura + Do sol vem beijar a flor, + Não lhe accende mais a côr? + Não lhe dá mais formosura? + + Agora, quando se inflamma + Em teu peito aquella chamma, + Á qual tudo se illumina + De viva, encantada luz, + Dize: é quando, minha vida, + Pallida, triste, abatida, + A tua fronte se inclina, + E melancolica sombra, + De mal contida amargura + Nos teus olhos se traduz?! + + Certeza de que és amada + Com quanto poder na terra + Em peito de homem se encerra, + Tem-la em tua alma gravada! + Então de fundo desgosto + Porque vem nuvem pesada + Carregar teu bello rosto? + + Pois se ao vívido calor + Do sol a rosa fulgura + E redobra aroma e côr, + Não te ha de dar a ventura + A chamma do meu amor?! + +Maio de 1859. + + + + +III + +VAES PARTIR! + + + Vaes partir! cada instante que passa + Aproxima o adeus derradeiro, + Para mim neste mundo o primeiro, + Que teus olhos proferem aos meus! + Vaes partir! nessas morbidas palpebras, + Treme agora uma lagrima anciosa, + Já deslisa na face formosa, + Já teus labios me dizem adeus! + + Vaes partir! contemplar esses campos, + Que o sol vivo de abril illumina, + Ver as relvas da alegre campina + Já cobertas agora de flor. + Escutar as estrophes sentidas + Que de tarde improvisam as aves, + Recordar os instantes suaves + De outros dias de encanto, e de amor. + + Vaes partir! vaes tornar aos logares + Testemunhas de um ceo de delicias, + Que em suaves risonhas caricias, + Para nós neste mundo brilhou! + Cada flor, cada tronco viçoso, + Cada espaço de relva florída + Vae lembrar-te uma scena da vida, + Um momento feliz que passou! + + Quando for aos clarões da alvorada + O perfume das plantas mais brando, + Quando as aves voarem em bando, + E cantarem ditosas no val; + Quando as aguas correrem mais vivas, + Pelo verde declivio do monte, + Quando as rosas erguerem a fronte + Animadas de um sopro vital... + + Que saudade! ai que funda saudade + Has de ter d'esse tempo encantado, + Em que bella e feliz a meu lado + Viste as pompas da terra e dos ceos! + Quando a aurora era a pura alegria, + Uma vaga saudade o sol posto, + Quando meigo sorria teu rosto + Se eu fitava meus olhos nos teus! + + ................................. + + Vaes partir! cada instante que passa + Aproxima o adeus derradeiro, + Para mim neste mundo o primeiro + Que teus olhos proferem aos meus! + Vaes partir! nessas morbidas palpebras, + Treme agora uma lagrima anciosa, + Já deslisa na face formosa, + Já teus labios me dizem adeus! + +Abril de 1855. + + + + +IV + +A JULIA + + +(Da Paquita) + + Naquella deserta ermida, + Que alveja na serrania, + Deu signal, Julia querida, + O sino da _Ave-Maria_. + + Este som tão conhecido + Da nossa innocente infancia, + Como agora vem sentido + Trazer-me viva á lembrança, + Toda essa doce fragrancia + D'aquelle existir d'então! + + Ai! lembrança não, saudade! + Saudade Julia, tão funda... + Mas tão grata, que me innunda + De ventura o coração. + + Espera... se neste instante + Mandasse á terra o Senhor, + Anjo de meigo semblante, + E aos dias d'aquella edade + Nos tornasse o seu amor... + Oh! responde-me, querida, + Se quanto depois na vida + De bello nos ha passado, + Não devera ser trocado + Por esses dias em flor?! + + Que lá vão! lembras-te ainda? + Tu risonha doidejavas, + Por entre as moitas de flores + Como ellas fragrante e linda. + Quando o som pausado e lento + D'_Ave-Maria_ escutavas, + Então naquelle momento + Aos pés da Cruz te prostravas!... + + Que fronte de anjo era a tua + Vista ao reflexo amoroso + Dos frouxos raios da lua! + Uma tarde, ao pôr do sol, + No recosto pedregoso + Do monte nos encontrámos; + Lembras-te! essa hora bateu, + Porem nós mal a escutámos! + Os olhos, tu perturbada, + Baixavas, e no semblante + Não sei que luz te brilhava, + Eu sei que naquelle instante + O prazer me enlouqueceu. + + Oh! fatal loucura aquella! + Tinha-me ali tão perdido, + Que, sem mais ver, delirante + Nos braços te arrebatei. + + Não sei por onde vagava, + Nem quanto, nem como andei; + Só me lembra que a ventura + Ali real me fallava, + E que aos incertos lampejos + Das estrellas desmaiadas, + Impremi ardentes beijos + + Nas tuas faces rosadas! + Foi breve aquelle delirio; + Ao menos breve o julguei; + E quando, outra vez á vida + De sobressalto voltei, + Desbotada como um lyrio + Pelos vendavaes batido, + Nos meus braços te encontrei! + +Setembro de 1851 + + + + +V + +IMPROVISO + + + Porque languida essa frente + Descai, quando a tarde espira? + Porque nesse olhar dormente + Tua alma ingenua suspira? + + Porque? ai! porque? responde; + Que se amor do ceo procura, + Eil-o; em meu peito se esconde; + Vive, é teu, tens a ventura! + + Verás como então brilhante, + Seduz, toma vida, inspira, + Esse teu bello semblante, + Que apenas hoje se admira! + +Ilha da Madeira--Novembro de 1850. + + + + +VI + +A UM RETRATO + + + És tu, sim, o mesmo olhar, + A mesma ardente expressão, + Com que teus olhos sabiam, + Tão habilmente occultar + O gêlo do coração. + + Como fascina o teu ser? + Agora, que eu posso ver, + Vejo bem que não és bella. + Quem for buscar no teu rosto, + A severa correcção + Que esta palavra revela, + Tirar feição, por feição... + + Não pode achal-a, bem sei. + Oh! mas nessa viva luz, + Que teus olhos illumina, + Ha de achar, como eu achei, + O fogo que nos seduz, + A chamma que nos fascina! + + E agora vais escutar; + Agora, que a Providencia + Piedosa me quiz salvar + D'essa fatal influencia, + Vais saber como te amei! + + Não é sómente da gloria, + Das illusões, da ventura, + Que é doce narrar a historia. + Repassando na memoria + Tantas scenas de amargura, + Vendo-as saltar palpitantes + Ante meus olhos agora, + Com toda a sinistra pompa + Da vida que tinham d'antes, + Ao ver de quanto é capaz, + Não sabes?... na propria dor, + O coração se compraz! + + Medindo o padecimento + Do martyrio atroz e lento + Que me trouxe o teu amor, + S'inda aterrado contemplo, + As crenças que fui depôr + Sobre as aras d'esse templo, + A dor do arrependimento + Ha de salvar-me da culpa + Ante os olhos do Senhor. + + Ai de ti! mil vezes mais + És tu desgraçada agora! + Viveste, reinaste um'hora, + E com que imperio! jámais, + Em delirio o pensamento + Te fez julgar adorada + Como eu te adorei, jámais! + + Ninguem neste mundo ousára, + Erguer a mão para um culto + Tão santo como eu criára! + Tu foste a que, cega um dia, + Por loucura e por vaidade, + As crenças que nelle havia, + Destruiste sem piedade! + + Punida estás, bem punida, + Sabe pois que amor do ceo, + Amor como foi o meu, + Encontra-se um só na vida! + + Inda ao ver-te... porque não, + Porque t'o devo occultar?! + Este morto coração, + De novo sinto pular + Em meu peito fatigado! + + Emfim, se o destino agora, + Quer que não possa existir + Da esperança do porvir, + Deixal-o existir embora, + Da saudade do passado! + + Esse é meu como tu foste + Na illusão de tanto amor, + E tu mesma, tu, que um dia + Com semblante mudo e frio + Lhe disseste o extremo adeus, + Com quanto remorso e dor + Has de ter rogado a Deus + Perdão de tal desvario! + + E dizes tu que ao _dever_, + Sacrificaste a existencia + E sujeitaste o meu ser!!... + Pois ha dever neste mundo, + Que aos olhos da Providencia, + Possa mais alto valer + Do que aquelle amor profundo + Que tu fizeste nascer?! + ............................. + ............................. + + Quando foi? vivo o momento, + E quanto então nos cercava + Existe em meu pensamento: + Era á tarde; o firmamento, + De nuvens se carregava, + E nos fraguedos da costa + O mar soturno quebrava. + + Olhei-te, e vi nesse instante, + Assumir o teu semblante, + Aquella mesma expressão, + Que de toda a natureza + Fatal respirava então. + + Pausada, lenta, glacial, + A tua voz respondia, + A tudo que eu proferia! + E depois dos labios teus + Desprendeste um frio adeus! + + Cuidaste sacrificar + A Deus em tua loucura, + Sem ver que foste apagar + A chamma d'essa ternura + Que só elle pode dar, + E te atreveste a tentar + O poder do Creador, + Na obra da creatura! + + Ai de ti! mil vezes mais + És tu desgraçada agora! + Viveste, reinaste um'hora, + E d'esse imperio, jámais + Na terra serás senhora! + +Fevereiro de 1855. + + + + +VII + +QUIEN NO AMA, NO VIVE + + + Pois não vês que se a luz do sol nascente + Á rosa na manhã desabroxada, + Não illumina as folhas, desbotada + Fica n'aste pendente, + Sem perfume, sem vida abandonada? + + Dize: então queres tu que a formosura + Que o Senhor estampou no teu semblante, + Sem renome, sem gloria, passe obscura + No mundo em que radiante + Ostentar-se podia magestosa? + Queres vel-a abatida como a rosa + Que o sol não illumina? + + Pois o que falta a essa fronte bella? + Oh! vais sabel-o:--O amor! + Que se anime e reviva á luz divina + E verás se depois alguem ao vel-a + Lhe nega o seu fulgor! + +Ajuda 1850. + + + + +VIII + +AMANHÃ! + + + Resta um dia, mais um dia, + Algumas horas ainda + De amor, de ternura infinda! + Amanhã nos olhos teus, + Uma lagrima sentida; + Em teus labios, um _adeus_! + + O instante da despedida + Tão perto está!... Minha vida, + Crava teus olhos nos meus, + Um sorriso, um beijo ainda, + Mais um'hora de ternura, + De amor, de alegria infinda + Antes d'esse longo _adeus_! + + Adeus de tanta amargura! + Sabe Deus! oh! sabe Deus, + Quando outros dias virão, + Tão gratos ao coração! + Quando nessa face linda + Verei sorrir a ventura; + Mas agora um beijo ainda + Antes que chegue o momento + De soltar o extremo _adeus_! + + Oh! tira do pensamento, + A hora da despedida; + Mais um instante de vida, + De delicia e gloria infinda!... + + Amanhã!... ai! não te lembres + De tal dia de amargura! + Crava teus olhos nos meus; + Inda um'hora de ventura, + De amor, de alegria infinda + Sorrindo nos olhos teus: + Um beijo, mais outro ainda, + O derradeiro: oh! _adeus_! + +Abril de 1857. + + + + +ANJO CAÍDO + + + Na flor da vida, formosa, + Ingenua, casta, innocente, + Eras tu no mundo, rosa! + Quem te arrojou de repente + Para o abysmo fatal! + Viste um dia o sol de abril; + O teu seio virginal + Sorriu alegre e gentil. + + Ergueu-se aos clarões suaves + D'aquella doce alvorada + A tua face encantada. + Amaste o doce gorgeio + Que desprendiam as aves, + E no teu candido seio + Quanto amor, quanta illusão + Alegre pulava então! + + Mal haja o fatal destino, + Maldita a sinistra mão, + Que em teu calix purpurino + Derramou fera e brutal + Esse veneno fatal. + + Hoje és bella; mas teu rosto + Que outr'ora alegre sorria, + É todo melancolia! + Hoje nem sol, nem estrella, + Para ti brilha no ceo; + Mal haja quem te perdeu! + +Novembro de 1857. + + + + +X + +PIEDADE! + + + Em torno da mesma idéa, + Meu ardente pensamento + Constantemente volteia. + Que horas estas de tormento! + E póde viver-se assim? + Que força tens, coração? + Pois tudo que sinto em mim + És capaz de supportar? + Oh! basta! por compaixão + Deixa emfim de palpitar! + +Agosto de 1856. + + + + +XI + +BELLEZA E MORTE + + + Quando Deus á terra envia + Um anjo dos seus, é breve + A vida que lhe confia. + ......................... + + Como a flor branca de neve + Que ao primeiro alvor do dia + No prado desabroxou, + Assim ella veiu ao mundo, + E tão rapida passou, + Que d'este rumor profundo + Nem um som, nem um gemido + Por esse anjo foi ouvido! + Nasceu, e sorrindo amou! + + Quem ao vel-a tão ditosa + Tão feliz por ser amada, + E tão feliz por amar, + Bella, fragrante, viçosa, + Cheia de vida no olhar, + De luz na face encantada; + Quem diria que esse amor + Seria a chamma fatal, + Que a devia emfim matar!? + + Pobre florinha do val, + Da aurora ao primeiro alvor + Nasceu, e sorrindo, amou, + Mas com a tarde... expirou! + +Junho de 1857. + + + + +XII + +ORAÇÃO DA MANHÃ + + +Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho + + Vem reflorindo a aurora; + A voz do rouxinol, + Mais inspirada agora, + Sauda a luz do sol. + + A perfumada aragem + Beija no campo a flor; + Tudo sorri á imagem, + Do nosso Creador. + + No bosque as avesinhas + Soltam os hymnos seus; + No berço as criancinhas + Resam tambem a Deus. + + «Por minha mãe, por ella, + E por meu pae, Senhor! + Dai-lhes propicia estrella, + Gloria, ventura, amor! + + «Cercai de mil delicias, + A sua vida emfim, + Como elles de caricias + Me tem cercado a mim. + + «As preces da innocencia + No ceo ouvidas são; + E a minha, oh Providencia, + Parte do coração, + + «Parte ao florir da aurora, + Co'a voz do rouxinol, + Que se desprende agora + Saudando a luz do sol!» + +Junho de 1859. + + + + +XIII + +CARIDADE + + +Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca + + Como avesinhas implumes + Enjeitadas nos seus ninhos, + Deixa a sorte os pobresinhos, + Sem lar, sem pão, sem carinhos + De maternal coração. + Escutando os seus queixumes, + Compassiva a Providencia, + Volve os olhos á innocencia, + E em sua eterna clemencia + Da-lhes lar, ensino, e pão. + + Mais vivos torna os desejos + No seio da caridade, + Que á desvalida orfandade + Vai com sincera piedade + Inundar de puro amor; + Amor, que em candidos beijos, + Suavemente procura + Dar conforto na amargura, + Aos que fez a desventura, + Orfãos no berço e na dor. + + A quem busca a Providencia + Para amparar o destino, + Do que pobre e pequenino + Se encontra sem luz, sem tino, + Logo no mundo ao nascer!? + Anjos de viva clemencia, + Que onde existe o sofrimento, + Correm, voam num momento, + A dar todo o sentimento, + Que taes almas sabem ter! + + São ellas mães, são esposas, + E recordando os carinhos + Que tiveram seus filhinhos, + Não podem ver pobresinhos + Sem amor, sem lar, sem pão! + No berço desfolham rosas, + Onde espinhos só havia, + E o sol de pura alegria, + Já de affectos alumia, + Dos orfãos o coração. + + Salve pois, oh Caridade! + Que assim abres o teu seio, + Áquelle que sem esteio, + Á luz d'este mundo veiu + Para viver na afflicção. + Salve casta divindade! + Terna irmã da desventura, + Que os suspiros da amargura + Convertes á creatura + Em risos de gratidão! + +Junho de 1856. + + + + +XIV + +BELLA SEM CORAÇÃO + + + Era uma esplendida imagem + De olhos rasgados e bellos; + Negros, negros os cabellos; + Boca gentil como a rosa, + Que á luz da manhã formosa + Sorri ao sopro da aragem. + + Alta, graciosa, elegante, + Um ar de tal distincção, + Na figura e no semblante, + Que eu disse commigo ao vel-a: + «Como esta mulher é bella, + Sobre tudo na expressão + De pallidez namorada, + Que tem na face encantada! + Esta sim, por Deus o juro, + Esta ha de ter coração!» + + A estação, o sitio, a hora... + Era a hora do sol posto, + E um frouxo raio de luz + Vinha bater-lhe no rosto. + A estação o meigo outono, + Quando o prado se descora, + No bosque cessa a harmonia, + Quando tudo emfim seduz + Com vaga melancolia. + O sitio, ameno e saudoso, + Onde livre a alma podia + Dar-se inteira aos sentimentos + De paz, de amor, de poesia! + + Aproximei-me da imagem + Meiga, risonha, singela; + Soltára a voz, era bella, + Bella sim, vibrante e pura, + Mas sem aquella ternura, + Sem aquelle sentimento, + Que diz tudo num momento! + Sem tremor, sem sobresalto, + Voz que dos labios saía, + Dos labios só, que se via, + Não provir do coração; + Voz sonora, porem fria; + Bella sim, mas sem paixão. + + «Pois essa gentil figura, + Esse pallido semblante, + Essa expressão de ternura + Que todo o teu ar respira, + A luz do olhar scintillante, + Dize emfim: quanto se admira, + Quanto ao ver-te nos encanta, + Será sem alma, e sem vida?!» + + Sorrindo me respondeu: + «Aqui não ha coração!» + Mas eu vi que elle bateu + D'essa vez precipitado + Por que a sua nivea mão + Tentou comprimil-o em vão! + E no olhar enamorado, + E na voz que estremecia, + Oh! Deus! o que não dizia + A bella sem coração! + +Setembro de 1856. + + + + +XV + +PERDOASTE! + + + Anjo offendido; outra vez, + Volve teus olhos do ceo + Áquelle que te offendeu! + Vel-o abatido a teus pés, + Anjo esquece, e compassivo, + Num sorriso de perdão, + Torna a dar-lhe o coração. + A cada instante mais vivo + O remorso cresce em mim; + Perdoa, oh! perdoa, emfim! + + Offendi-te num momento + De terrivel desvario; + Era o ciume violento! + O rubor da castidade + A tua face affrontava, + E eu cego, eu perdido, ousava + Proseguir! oh! por piedade, + Por piedade, anjo do ceo, + Perdoa a quem te offendeu! + + Em breve a razão voltou, + E com ella essa anciedade + Do desgraçado que ousou + Num momento de loucura + Offender a divindade. + Nas trevas da noite escura, + Nem ao menos uma estrella, + Brilhava serena e bella! + E eu caminhava em delirio + Sem força para acabar + A vida que era um martyrio! + A tão profunda amargura + Quem me podia arrancar, + Quem, senão um teu olhar? + + Lá, nas sombras do horisonte, + Despontou por fim a luz, + A mesma que em tua fronte + Bella e placida reluz. + No peito afflicto e cançado + Senti dilatar-se então + Este oppresso coração; + O teu olhar adorado + A mim outra vez volveu, + Terno, meigo, apaixonado. + Perdoaste, anjo do ceo! + +Abril de 1857. + + + + +XVI + +TRES RETRATOS + + +(Num album) + + Como as horas passam rapidas + Nesta doce companhia! + Brilha impaciente alegria + Em tudo á roda de mim. + Nunca fui tão venturoso, + Nunca a mão da Providencia + Fez com que eu visse a existencia + Tão bella e risonha emfim. + + Esta noite, quando a lua + No horisonte resvalava, + Inspirado a saudava + Nas balsas o rouxinol. + Vem agora a primavera + Abrindo o virginio manto, + Cada dia um novo encanto + Nos traz o romper do sol. + + Como a vida assim é bella, + Nesta amena convivencia, + Com tres anjos de innocencia + De formosura, e de amor! + Dezaseis annos talvez + Não tem Julia, bem contados, + Alta, airosa, olhos rasgados, + E sorriso encantador. + + O pesinho estreito e breve + Cinturinha delicada, + A fronte um pouco inclinada, + Com seu ar sentimental. + Na ramagem das pestanas + Occulta a traidora chamma, + Que no instante em que se inflamma + Dardeja um raio mortal. + + Mas que morte tão suave! + Inda ha pouco, em certa hora, + Que essa chamma seductora + O coração me accendeu... + Se é morte esquecer a terra, + Naquelle instante morria, + Por que tudo o que sentia, + Era a ventura do ceo! + + Vel-a sorrir entre os campos, + Bella, candida, animada, + Como as flores que a alvorada + De sua luz inundou!... + Vel-a, co'as mãos impacientes, + Afastar do rosto bello, + O basto e fino cabello, + Que a aragem desalinhou! + + Vel-a depois pensativa, + Quando tibio o sol declina, + Na corrente cristalina + Os olhos negros fitar! + Vagas sombras de tristeza + Que vem toldar-lhe o semblante, + São tão bellas nesse instante, + Dizem tanto sem fallar! + + Laura, Elisa, as outras duas, + Laura, pallida e morena, + Baixa um pouco, mão pequena, + Expressivas as feições; + Os olhos claros e vivos, + No seu brilho insinuante, + Reflectem a cada instante + Milhares de sensações. + + Eliza, a timida Eliza, + Que innocente singeleza, + Que perfume, que belleza + Naquella face gentil! + Cabellos loiros cendrados, + Olhos d'esse azul escuro, + Que é semelhante ao ceo puro + De um bello dia de abril! + + As rosas da formosura + Sempre vivas no semblante, + O corpo esbelto e ondulante, + Se é permittida a expressão; + Uma tal ingenuidade, + No seu todo se revela, + Que em se olhando para ella, + Bate alegre o coração. + + Tirados daguerreotypo + Não ficavam mais exactos + De certo estes tres retratos + Que procurei desenhar; + Qual porém é mais sympathico, + Mais perfeito, deve agora + Dizel-o a amavel senhora + Do livro onde os vou deixar. + + Eu de certo não me atrevo! + Nos olhos tem Julia a chamma + Que nos sentidos derrama + Torrentes de languidez! + Laura... Eliza... mil encantos; + Emfim, não sei qual prefiro, + Não sei a que mais admiro, + Sei que adoro a todas tres! + +Setembro de 1857. + + + + +XVII + +ADEUS + + + Vai-te, oh! vai sombra mentida, + Para nunca mais volver! + Vai-te, deixa-me na vida, + Que esse teu estranho ser, + Fatal sempre me tem sido, + Fatal sempre me ha de ser. + + Qual era a traidora mão + Que para ti me impellia? + Eu desvairado não via, + Ser aquelle um fulgor vão + Que no horisonte luzia?! + Crente a vista repousava + Na luz clara, intensa, bella, + Que para a terra manava + Do seio da meiga estrella, + E que minh'alma inundava + D'aquella celeste chamma + Que a vida e razão inflamma + No ardente fogo de amor! + + Deixei-me cegar por ella; + Quanto e como então vivia + Ao grato e doce calor + D'essa que assim me perdia, + Não sei; porem sei que um dia, + Num'hora de maldição, + Não vi mais no firmamento + O seu mentido clarão. + Desvairado em tal momento + Fugi sem norte e sem tino; + Mas quem foge ao seu destino!? + + Numa d'estas noites placidas, + Em que as estrellas fulgentes, + Reflectem vívida luz, + Á flor das aguas dormentes; + Em que o rouxinol seduz, + Co'as inspiradas endeixas + Soltando sentidas queixas, + D'entre as balseiras virentes; + Quando respira no ar, + Do monte que o mato veste + Aquelle perfume agreste, + Que é tão grato de aspirar; + Quando emfim a natureza, + No seu mais pleno vigor + Ergue a Deus seu hymno eterno + De graças, de paz, de amor! + Eu na minha alma abatida, + Procurava, mas em vão, + Uma só nota do canto + Immenso da creação. + + Debalde encontrar buscava, + Naquella ardente anciedade + Em que o peito arqueja e cança, + No passado uma saudade, + No porvir uma esperança! + + Debalde a vista alongava, + Pelo ceo onde as estrellas, + Resplandeciam tão bellas! + Em meu peito arido e morto + O reflexo d'uma d'ellas + Nem sequer compenetrava! + Fatigado, exangue, absorto, + Sem luz, sem norte, e sem tino + Prosseguia o meu destino! + Quando ao chegar um instante + Em que afflicto a vista erguia, + Dei com teu bello semblante, + Pallido, triste, abatido, + Que para mim se volvia + Saudoso e compadecido. + + Oh! tão fundo sentimento + Brilhava nos olhos teus + Que ao ver-te nesse momento + Quem te não dissera um anjo + Do ceo á terra descido, + E que volve arrependido, + Outra vez aos pés de Deus! + + Lá, na extrema do horisonte + Vinha então rompendo a lua; + Melancolica a luz sua, + O teu semblante inundou; + E nunca no prado ou monte, + Aquella face formosa, + Outra tão pallida rosa + De um reflexo illuminou! + + Comtemplava-te perdido, + De esperança, amor, e gosto, + Quando teu languido rosto, + Pouco a pouco se animou; + E a tua voz docemente + Murmurando ao meu ouvido, + De novo um amor ardente + Outra vez me protestou. + + Hesitava em crer-te ainda; + Mas o pobre coração, + Quando se vê na desgraça + Encontra a crença tão linda! + A plenos tragos a taça, + D'esse philtro enganador + Ancioso esgotava então, + Sem me lembrar que no fundo, + Estava o fel da traição. + + Vai-te, adeus, pallida sombra, + Vai, porque este coração, + Por tuas mãos lacerado, + Com a tua vista se assombra, + E de ti foge aterrado! + +Janeiro de 1855. + + + + +XVIII + +A VISÃO DO BAILE + + + Foi num baile que a viste cercada + De perfumes, de luz, de harmonia, + Onde viva, impaciente alegria, + Nos semblantes andava a saltar; + E ella triste, abatida, indolente + Entre as pompas da festa encantada, + Co'a tristeza na face estampada, + E infinita saudade no olhar. + + Ai! que luz! que expressão nesses olhos + Quando instantes nos teus se cravaram! + De repente em tropel acordaram + Mil affectos no teu coração! + E debalde a seu lado quizeste + Revelar o que n'alma sentias, + As palavras, a voz eram frias + Para aquella infinita paixão. + + D'essa noite os instantes voaram, + Entre amor, entre gloria e ventura, + E no fim com que immensa ternura, + Seu olhar para ti se volveu! + É que havia chegado o momento + De deixar essa estancia inundada + Dos primeiros clarões da alvorada, + Que já vinha rompendo no ceo + + Mas depois, quando o sol d'esse dia + Desmaiava nas veigas virentes, + Quando as aves soltavam gementes + A voz doce nas balsas em flor, + Não a viste assomar á janella, + E sorrindo, mirar-te um instante? + Não brilhava naquelle semblante, + Um sublime reflexo de amor!? + + No sonoro recinto do templo + Quando as preces sinceras subiam, + Quando os hymnos sagrados se ouviam + Aspirando suaves aos ceos, + Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua, + Ante Deus, ante os olhos do mundo + Que este affecto suave e profundo, + Vem do ceo e é bemdicto de Deus!» + + Hoje pois, que na luz d'esses olhos, + Nessas fontes de amor e candura, + Encontraste na terra a ventura, + Cuidas tu em deixal-a, e partir? + Oh! não vês que é fatal o destino, + Que chegou para ti essa hora + De encontrar a mulher seductora + Que te deve encantar o porvir? + + Ai, poeta, debalde procuras + Esquecer a visão adorada; + Ai! debalde! tua alma inspirada + Outra igual neste mundo encontrou! + São irmãs, e co'a mesma ternura + Viverão abraçadas no mundo, + Num affecto sincero e profundo + A suprema vontade as juntou! + +31 de Março de 1857. + + + + +XIX + +RECEIOS + + + Ás vezes, quando a teu lado + Comparo a expressão que outr'ora + Tinha teu rosto adorado, + Á sua expressão de agora... + Não sei que tristeza vaga + Que impressão sentida e funda, + O meu coração esmaga! + Oh! mas sei que a alma se inunda + De uma subita amargura, + De uma tal angustia e dor, + Que toda a luz da ventura, + Que me vem do teu amor + Toda com ella se apaga! + Loucuras serão, delirio + D'este ardente imaginar; + Serão, sim; mas o martyrio, + Com que me sinto acabar, + Só tem poder tua mão + Para de todo o findar + Neste oppresso coração! + +Setembro de 1855. + + + + +XX + +LEMBRAS-TE? + + + Lembras-te? frouxa expirava + Aquella doce harmonia + Que em nossas almas entrava. + De uma luz tão resplendente + Teu limpido olhar brilhava, + Como a da aurora nascente, + E aurora gentil sorria, + No meigo azul de teus olhos + Para raiar entre rosas + Fragrantes e sem abrolhos. + + Quando mais tenue partiu + A cadencia saudosa, + Tua boca proferiu + Não sei que cortadas fallas, + Que o ouvido não sentiu, + Porque vieste graval-as + Com a voz do ceo no peito, + Que a ti rendido e sujeito + Anhelando t'as ouviu. + + Ao proferil-as, dormente + O teu olhar descaíra, + E em teu pallido semblante + A expressão se reflectíra + Dos affectos que agitavam + A tua alma nesse instante. + Ai! nesse instante do ceo, + Que á terra breve fugíra, + Que a elle inteiro volveu! + + No horisonte estremeciam, + Ebrias de amor as estrellas, + E teus olhos se fitavam + Na luz scintillante d'ellas; + É que no ceo procuravam + O eterno d'aquelle instante + Que na terra presentiam + Que passaria inconstante. + + O alvor da nascente aurora, + Que no horisonte assomava, + Das estrellas desmaiava + A viva luz, e inda agora, + Tenho em minh'alma, querida, + A expressão com que me olhaste + Apontando para ella! + É que essa aurora tão bella + Não brilhava mais na vida! + +Janeiro de 1849. + + + + +XXI + +POIS SER PALLIDA É DEFEITO? + + + Pois ser pallida é defeito? + E de todo o coração, + Diz, pondo a mão sobre o peito, + Que um rostosinho desfeito + Não pode inspirar paixão? + + Ora diga: a rosa é bella + Quando o sol lhe accende a cor, + É bella sim, mas ao vel-a + Desmaiar n'haste singela + Não lhe inspira mais amor? + + Viçosa, fresca, orvalhada, + De manhã é toda luz; + Mas á tarde desmaiada, + Co'a pallidez namorada, + Oh! quanto mais nos seduz! + + Está convencida vejo, + Deveras não, inda não? + Pois se é todo o seu desejo + Ser corada, dê-me um beijo, + E verá se cora ou não! + + Porque esconde o rosto lindo? + Santo Deus! descubra-o já! + Aposto que vai sentindo + Um certo rubor subindo... + Ai! como corada está! + + Neste espelho, olhe-se agora, + Veja bem que linda cor; + Quando nasce a fresca aurora, + A luz que a face lhe cora, + Não tem mais vivo fulgor. + + Sorri-se a furto, bem vejo, + Occulta o rosto na mão: + Pois vamos, agora um beijo, + Quem cumpriu o seu desejo, + Não merece, diga, não? + +Junho de 1852. + + + + +XXII + +DEVER + + + Sê bem vinda estação melancolica! + Sê bem vinda! minh'alma abatida, + No teu seio procura essa vida, + Que tão bella, e tão breve passou! + Oh! são estes os campos formosos, + É bem este o deserto mosteiro, + Onde ouvíra o adeus derradeiro + Que teu peito anhelante soltou! + + Já nas folhas do bosque frondoso + Se desbota a risonha verdura, + E co'a aragem que á tarde murmura, + Vão caindo dispersas no chão. + Já nos campos de todo cessaram, + Os modilhos da ingenua avesinha, + Que nas moitas espessas se aninha, + Presentindo a invernosa estação. + + Que saudade na luz que desmaia, + Nestes campos sem viço nem flores, + Quando á tarde os incertos fulgores + Do sol tibio resplendem no ceo! + Que saudade na aragem agreste, + Que deriva do cimo do monte, + E no azul d'este vasto horisonte, + Onde pallida a lua rompeu! + + Foi aqui nestas margens viçosas + Hoje tristes, desertas, sombrias, + Que sorriram os unicos dias, + Para mim de ventura e de amor; + Quando tu inspirada a meu lado + Caminhavas com tremulo passo, + E firmando-te alegre ao meu braço + Davas graças da vida ao Senhor. + + Era aqui, junto á cruz mutilada, + Aos extremos reflexos do dia + Quando o sino da ermida se ouvia + Dar signal da singela oração, + Que tu vinhas prostrar-te soltando + Com voz flebil a prece sentida, + Pelo bem, pelo amor, pela vida, + Dos que a sorte deixou na afflição. + + E depois nos meus olhos cravando + Os teus olhos de pranto orvalhados + Os protestos mil vezes jurados, + Vinhas mais uma vez proferir; + Nesse esforço baldado do espirito, + Que nas frases da terra procura + Expressar a celeste ventura, + Que sómente se pode sentir. + + E pensar que este ceo de delicias + Se acabou para nós na existencia! + Que não temos mais nada que a essencia + Da saudade que d'elle ficou!... + Ver que a mão de um poder sobrehumano, + Nos traz cegos do mesmo delirio, + E votarmos a vida ao martyrio, + Porque o mundo um fantasma creou!! + + Pois se Deus quiz ligar nossas almas, + Se é fatal que ellas sejam unidas, + Queres tu desprender duas vidas + Que se acharam irmãs ao nascer? + Vês que foi a suprema vontade + Que as juntou num abraço divino, + E ousas tu, desvairada e sem tino, + Separal-as á voz do _dever_! + + O _dever_?! O dever mais sagrado + E mais santo que temos no mundo, + É mantermos o affecto profundo + Que d'um sopro divino nasceu; + Attentar contra a sua existencia, + Debelar sem piedade essa vida, + Não será como ser suicida + E affrontar a vontade do ceo!? + + Sobre as aras de um templo mentido, + Num altar pelos homens creado, + Vais queimar quanto ha puro e sagrado, + Por um falso julgar da razão! + Sem pensar no teu crer insensato + Que não póde jámais ser extincto, + Este amor tão profundo que eu sinto + E tu sentes co'a mesma paixão! + .................................. + + Oh! de novo a meu lado, querida, + Volve, em quanto no ceo e na terra, + Nos agrestes perfumes da serra, + A suave estação respirar! + Volve pois, porque as veigas frondosas + Não perderam de todo a verdura, + E inda a mesma infinita ventura + Neste sitio has de agora encontrar. + +Setembro de 1856. + + + + +XXIII + + +Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez + + Bella, graciosa e timida, + Na aurora da existencia + Rosa de grata essencia + Sorrias em botão! + A luz do sol explendido + Vinha inundar-te a frente, + Suave e docemente + Beijar-te a viração! + + Como os affectos intimos + Da maternal ternura + Enchiam de ventura, + A tua vida em flor! + E como a face candida + Serena, reflectia + A magica poesia + D'ess'alma toda amor! + + Dos pensamentos lugubres, + Das ambições da terra, + Das maguas que ella encerra, + Dos crimes que contém, + Jámais a teu espirito + Chegará o som profundo, + Anjo descido ao mundo + Só para amar o bem! + + Um dia, a immensa abobada, + Azul e resplendente, + Toldou-se de repente + Ao sopro do tufão! + Era o primeiro fremito, + Nuncio da tempestade, + Que vinha sem piedade + Rosa, lançar-te ao chão. + + Ao ver abrir-se o tumulo + Sorrias sem receio, + E se a teus olhos veiu + Funda expressão de dor, + Foi quando a boca tremula + Da mãe que te perdia, + Á tua enfim se unia, + Com mais profundo amor! + + Então, como ella, pallida, + Soltando o extremo alento, + Volveste num momento + Á gloria perennal! + E logo fria, gellida, + Sem ter nem cor nem vida, + Par'ceste adormecida, + No seio maternal! + +Setembro de 1856. + + + + +XXIV + +PARISINA + + +A Pedro Jacome Corrêa + + MEU CARO AMIGO. + +A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do +Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não +fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo +a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico. + +Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja +essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. +Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais +escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle. + +Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as +obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção +deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem +tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o +pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor +primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem +menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor +particular que se encontra em todas as composições do grande poeta, +dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver +conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu +decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a +insignificancia d'esta offerta ao + + Seu do coração + +Janeiro de 1857. + + BULHÃO PATO. + + + + +PARISINA + + +Imitação + + + I + + É na hora, em que a voz bella e sentida + Do meigo rouxinol, entre a folhagem + Das balsas escondido, solta ao vento + A saudosa canção do fim do dia: + Hora solemne e grata em que os amantes + Renovam mil protestos de ternura, + De constancia e d'amor; em que o susurro + Da fresca viração vai confundir-se + Co'o murmurar da trepida corrente. + De cristalino orvalho borrifadas, + As vicejantes flores da campina + Mais vivo aroma espargem no ambiente. + Accendem-se no ceo milhões de estrellas, + É mais escuro o azul á flor das vagas, + E a verdura do bosque é mais sombria. + Entre as trevas e a luz, o firmamento + Jaz velado por languido crepusculo, + Que rapido se esvai nos frouxos raios + Da lua, despontando no horisonte. + + + II + + Mas não é para ouvir os doces carmes + Do amoroso cantor, que Parisina + Do palacio feudal ao parque desce; + Nem para contemplar a luz brilhante + Das tremulas estrellas, que divaga + Por entre as sombras que diffunde a noite. + Se procura um desvio na espessura, + Não é para aspirar o vivo aroma + Das matisadas flores; e se escuta, + Não é de certo para ouvir das aguas + O brando murmurar. Sons mais queridos + Espera o seu ouvido nesse instante. + Rangendo as folhas seccas denunciam + Que se aproxima alguem: empallidece + De susto e de prazer ao mesmo tempo. + D'entre as ramas que a brisa doidejante + De espaço a espaço agita, mansamente + Parte emfim uma voz: é voz amiga; + De subito o rubor lhe volta ás faces, + E mais livre, porém não menos forte, + Bate-lhe o coração no peito agora. + Mais um momento só é já passado, + Aos pés da bella jaz o cego amante. + + + III + + O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca, + Que lhes importa nesse doce instante? + Tudo é nada a seus olhos deslumbrados + Pelo fogo do amor; tudo se perde, + Se confunde, e se esvai nesse delirio! + Nos suspiros que vem do fundo d'alma, + Nesses mesmos, respira tal ventura, + Que, se fosse mais longa, dentro em pouco + A vida ou a razão succumbiria! + + Oh! quem sente lavrar dentro do peito + O fogo da paixão com tanto imperio, + Não pensa na desgraça, nem se lembra + Da curta duração de taes enganos! + Ai! quantas vezes despertâmos antes + De saber que não volta o mago sonho!! + + + IV + + Vão partir: vão deixar com passos lentos + O encantado logar que presenceára + O seu transporte em delirante crime. + Vão partir: e apesar dos mil protestos, + Da esperança que em breve hão de juntar-se, + Dor profunda no peito lhes comprime + Agora o coração, como se fosse + Aquella a derradeira despedida. + Parisina, cravando os olhos languidos + No firmamento azul, treme, sentindo + Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe. + Elle outra vez a cinge contra o peito; + Um suspiro, um adeus, inda outro beijo, + É forçoso partir, levando n'alma + Os amargos, crueis presentimentos, + Que de perto acompanham sempre o crime. + + + V + + Tranquillo no seu leito solitario, + Hugo repousa, e pode sem receio + Livremente soltar o pensamento. + Porém ella descança a fronte pallida + Das fadigas do amor, junto do esposo. + Sonhando, em voz sumida solta um nome, + E suppondo estreitar contra seu peito, + Agitado e febril, o terno amante, + Entre os braços comprime esse que dorme + Agora ao lado seu. Subito acorda + Á suave impressão do meigo abraço + O esposo que se julga idolatrado, + Até nos sonhos da adorada esposa! + + + VI + + Sobre o seu coração com quanto affecto + Reclina aquella fronte encantadora! + Com quanto afan procura ouvir as frases, + Que de seus labios solta entrecortadas! + Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento, + Azo, o altivo senhor, estremecêra + Como tendo escutado a voz do archanjo! + Oh! deve estremecer, porque a sentença, + A sentença fatal que os seus ouvidos + Acabam de escutar, vai despenhal-o + Para sempre no abismo da desgraça! + O nome que ella em sonhos proferíra, + Que soára tremendo como a vaga, + Quando arremeça aos concavos rochedos + A debil prancha que sustenta o naufrago, + Esse nome qual foi? O nome de Hugo; + Hugo, o filho da pobre e linda Branca, + Que o principe illudiu, e sem piedade + Depois abandonou! Hugo, seu filho, + Fructo innocente de um amor culpado! + + + VII + + Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a! + Quem podera immolar um ser tão bello?! + Oh! ninguem! Apesar do negro crime, + Da nefanda traição, faltam-lhe as forças, + Ao contemplal-a assim adormecida. + Nem a acorda sequer, mas por instantes + No seu rosto encantado crava os olhos. + Se de subito agora despertasse, + A infeliz nesse olhar sentíra a morte! + Pela fronte do principe traído, + Frio corre o suor, e á luz da lampada + Estremecem brilhando as grossas bagas. + E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias + Nesse instante fatal foram contados! + + + VIII + + Assim que o sol desponta no horisonte, + Azo corre a indagar pelos que o cercam, + E as derradeiras provas apparecem. + As aias da princeza, largo tempo + Conniventes no crime, revelaram + Quanto havia de occulto nesse drama. + Não tem que duvidar! Azo, escutando + A longa historia de tão negro crime, + Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces, + Que de profunda cholera se inflammam. + + + IX + + Na vasta sala do feudal palacio + O orgulhoso Senhor da casa d'Éste, + Sobre o purpureo throno está sentado. + Nobres, pagens, soldados o circundam, + Os olhos crava nos culpados ambos, + Ambos jovens e bellos. Duros ferros + Tem sujeitos os pulsos do mancebo, + Que fôra brutalmente desarmado + Por mercenarias mãos da nobre espada. + Na presença de um pae é d'este modo + Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?! + Porém, Hugo infeliz, nesse momento, + Tem de ouvir a sentença incontrastavel + Dos labios paternaes, prestar ouvidos + Á triste narração do seu opprobrio! + E comtudo a expressão do nobre rosto, + A distincta altivez conserva ainda! + + + X + + Pallida, sem alento e silenciosa, + Aguarda Parisina nesse instante + As palavras fataes. O seu destino + Quão rapido mudou! Ha pouco ainda, + D'aquelles olhos a celeste chamma + Pelos salões doirados espargia + A meiga seducção. Se nesses olhos + Visse alguem borbulhar uma só lagrima, + Mil cavalleiros da mais nobre estirpe, + Arrancando da espada, a vingariam! + Mas agora, infeliz! quantos a cercam, + Mal disfarçam no rosto carregado + A contida expressão do seu desprezo! + E elle, o amante adorado da sua alma, + Elle, oh Deus! que liberto por instantes, + Por instantes que fosse, a houvera salvo, + Jaz preso ao lado seu em duros ferros! + Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras + Onde outr'ora fugia a cor suave + Da terna violeta, convidando + A mil sequiosos, demorados beijos, + Se entumecem, velando a vista immovel + Das pupillas, nas quaes a dor intensa + Accumula uma lagrima apoz outra! + + + XI + + Oh! por ella tambem, nesse momento, + Derramára o infeliz amargo pranto, + Se de tantos a vista a não cercasse. + A dor que o devorava, parecia + No mais intimo d'alma adormecida; + A fronte macilenta e transtornada, + Conservava-se altiva. Por mais forte, + Mais acerbo que fosse o seu tormento, + Não quizera humilhar-se na presença + D'aquella multidão que o comtemplava. + A companheira bella de infortunio, + Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se + Das horas do passado, do seu crime, + Da vingança de um pae, do seu destino, + E sobre tudo do destino d'ella, + Não ousava lançar sobre esse rosto + A desvairada vista, receando + Que, cedendo ao remorso, revelasse + Quanto o seu coração fôra culpado. + + + XII + + Azo emfim sólta a voz: + «Ha pouco ainda, + Numa esposa e num filho resumia + Toda a minha ventura neste mundo. + A aurora dissipou tão bello sonho! + Antes do pôr do sol, nem um nem outro + Me devem pertencer. Quebrem-se embora, + As ligações mais caras da minh'alma! + Hugo! um padre te espera, e depois d'elle + A justa punição do teu peccado. + Ergue preces ao ceo antes que o lume + Das estrellas se accenda no horisonte: + Talvez te dê perdão. Mas neste mundo + Não existe logar onde possâmos + Nós ambos respirar. Adeus, não quero + Assistir ao teu ultimo momento! + Porém tu, fragil ser, ensanguentada + Terás de vêr cair essa cabeça. + Vai, traidora mulher; sobre a tua alma + Pese o remorso da desgraça d'elle! + Vai-te, adeus, e se podes, contemplando + Este exemplo fatal, ter vida ainda, + Gosa d'ella, que livre t'a concedo!» + + + XIII + + Velando a face pallida e sombria, + Onde as veias inchando palpitavam, + Como se o sangue em ondas refluisse + Do coração á fronte, Azo ficára + Callado longo tempo. Hugo, soltando + Profunda, porém firme, a voz do peito, + Roga ao pae que o escute alguns momentos. + O principe em silencio lh'o concede: + + «Tu bem sabes que a morte não receio; + Tinto em sangue mil vezes nas batalhas + Me viste ao lado teu, onde mais forte, + Mais travado e mortal, era o combate. + Então deves lembrar-te que esta espada, + Que ha pouco os teus escravos me arrancaram, + Derramára mais sangue do que em breve + Fará correr a mão do teu carrasco. + Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa? + Quite me deixas d'esse dote infame! + Presente, viva tenho na memoria + A injuria com que as faces affrontaste + De minha pobre mãe; e a vil herança + Que recebi no berço, inda me accende + O semblante de cholera e vergonha. + + «No tumulo onde agora ella repousa, + Irá juntar-se em breve o meu cadaver. + Transido o peito seu por mil desgostos, + Separada do corpo esta cabeça, + Entre os mortos dirão até que ponto + Foste amante fiel, pae carinhoso. + + «Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes + Que trocámos affronta por affronta. + A mulher a que chamas tua esposa, + Victima ingenua do teu fero orgulho, + Não te lembras que fôra largo tempo + Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a, + Contemplando o seu rosto, desejaste-a, + E para emfim provar que não podia + Pertencer-me jámais ousaste affoito, + Allegar o teu crime e a minha origem. + + «Era indigno de ser esposo d'ella! + E porque?! Por que as leis não consentiam + Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste. + E comtudo, se a mão da Providencia + Me conservasse a vida, dentro em pouco + Podéra conquistar de certo um nome + Tão nobre como o teu. Tive uma espada, + E sobeja ambição para elevar-me + Com ella aos feitos de sonhada gloria. + Bem sabes que as esporas mais brilhantes, + Nem sempre as traz aquelle que nascêra + Embalado na purpura, e que as minhas, + O corcel que montava, por mil vezes + Avante arremessaram dos mais nobres, + Mais valentes senhores, quando, lembras-te? + Carregando eu bradava: _Éste e victoria!_ + O meu crime conheço, e não procuro + Minoral-o, descança, nem tão pouco + Implorar-te alguns dias de existencia, + Rapidas horas que sem ser contadas + Passarão sobre a pedra do meu tumulo! + + «Delirio, como foi o do passado, + Não podia ser longo. A minha origem, + O meu nome, não são de mancha isentos; + Mas comtudo, apesar do teu orgulho, + Regeitar perfilhar-me!... nesta face, + Quaes olhos não verão que sou teu filho? + A minh'alma tambem de ti procede! + De ti, sim; por que tremes? de ti veiu + O indomavel vigor do meu caracter. + Não foi somente a vida que me deste, + Porém quanto podia emfim tornar-me + Em tudo igual a ti. Comtempla a obra + Do teu culpado amor! Na semelhança, + Semelhança fatal que vês no filho, + Irada te castiga a Providencia! + Est'alma não é pois a d'um bastardo, + Como a tua não soffre a tyrannia. + O passageiro sopro da existencia, + Nunca em mais o presei do que tu proprio, + Quando juntos na força do combate, + A galope os corceis, a espada em punho, + Por mil vezes nas renques do inimigo + Rompendo a ferro frio penetramos. + + «O passado acabou, e dentro em pouco + O futuro com elle irá juntar-se, + «Mas oxalá que a mão do Omnipotente + He houvesse dado a morte em taes instantes! + + «Era pouco deixar-me orfão no mundo + Do affecto maternal; ousaste ainda + Arrebatar-me a noiva! Mas que importa? + Sou teu filho, conheço-o neste instante, + E a sentença cruel que proferiste, + Posto venha de ti, não posso agora, + No fundo de minh'alma achal-a injusta. + + «No peccado nasci, morro na infamia; + Por onde começou, termine a vida. + Errando o filho, o pae tambem errára; + Num, castigas os dois. Perante os homens + Eu, quem sabe? serei o mais culpado, + Porém Deus julgará entre nós ambos.» + + + XIV + + Cruzando as mãos no peito Hugo fizera + Resoar os grilhões, e d'entre os chefes, + Que a sala do palacio povoavam, + Não houve um só, que ouvindo esse ruido + Deixasse de tremer. Depois cravaram + Sobre a fatal beldade a vista a um tempo. + + Parisina, infeliz! pallida e fria, + Immovel como estatua de alabastro, + Dissemos que assistíra á scena horrivel, + Da perdição do amante. Os olhos fixos, + Scintillantes, abertos, desvairados, + Nem sequer por instantes se volveram. + Nem uma vez as palpebras, cerrando-se, + O fito olhar velaram; mas em torno + Das pupillas azues, e resplendentes, + Sem cessar se alargava o alvo circo! + + Uma lagrima a custo conglobada, + Lentamente das palpebras saía, + Tremendo sobre a franja das pestanas: + Quem o sabe contar? nesse momento, + Os que a viam, pasmavam, não podendo + Crer que a olhos de humana creatura, + Fosse dado verter tão grossas lagrimas! + + Quiz fallar, mas a voz morreu cortada: + Comtudo no som cavo que soltára, + Nesse longo suspiro, parecia + Que vinha o coração; apoz instantes + Tentára inda outra vez, porém debalde! + Do mais fundo do peito a voz partira + Num grito, num gemido prolongado, + E depois como a pedra, como a estatua + Derrubada da base, como tudo + O que é de vida falto emfim caíra + Digno emblema do tumulo da esposa, + Do traído senhor da casa d'Éste! + Porém não da mulher que sente n'alma + O remorso do crime, e nelle segue + Pelo ardor dos desejos instigada. + + Do lethargo fatal tornára em breve, + Mas não para a razão; cada sentido + Por dor intensa fôra aniquilado. + Como das cordas do arco humedecidas + Lassas da chuva, as settas disparadas + Vão bater ao acaso, assim do cerebro + As magoadas fibras só soltavam + Desvairados, e vagos pensamentos. + + O passado, e porvir! Ermo o passado! + Nas trevas do porvir apenas via + Um sinistro clarão, de espaço a espaço, + Semelhante ao do raio quando fende + As nuvens conglobadas no horisonte, + E cai sobre um logar deserto e triste. + Gelada de terror sentia n'alma + O peso do remorso; que existiam + A vergonha, o peccado, na consciencia, + Uma voz mal distincta lh'o lembrava; + Que a morte estava ali pairando livida + Sobre alguem, nesse instante o presentia. + Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida + O sopro que seus labios respiravam? + Era o ceo, era a terra, eram os homens, + Que tinha ante seus olhos deslumbrados? + Os homens, ou demonios que a miravam + Com sinistra expressão? Eram os mesmos + Cujo olhar noutro tempo revelava + Tão suave, e profunda sympathia? + Tudo era incerto e vago no seu animo, + Receios, e esperanças insensatas; + Agora um meigo riso, logo um pranto, + E no seu desvairado pensamento, + Cuidava ser aquelle um sonho horrivel + No qual o coração se debatia. + Porém d'elle, oh! debalde procurára + Acordar a infeliz jámais na vida! + + + XV + + Na torre pardacenta do mosteiro, + Balançam lentamente agora os sinos, + E o som profundo e triste dentro d´alma, + Desperta dolorosos sentimentos. + Por aquelles que á sombra do cypreste, + Repousam para sempre, ou dentro em pouco + Terão de repousar, o canto funebre, + Que ouvis neste momento se desprende. + Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos; + Ante os olhos o cepo, ao lado um padre! + Braços nus o carrasco attento espera + Pelo instante fatal; certeiro e forte, + Deve o golpe caír. Horrivel quadro! + Mas comtudo ao redor avidamente, + A turba silenciosa se reune, + Para ver, Santo Deus! no cadafalso + Por ordem de seu pae morrer um filho! + + + XVI + + É um'hora encantada a que precede + O derradeiro adeus do sol explendido! + Na pompa de seus raios fulgurantes, + Parece escarnecer da scena horrivel + Que se aproxima de seu termo agora. + Curvado aos pés do monge, em voz sumida + Hugo profere a derradeira prece, + Prece contricta, humilde, fervorosa. + Nessa fronte inclinada e pensativa + Bate um raio de luz, porém mais vivo, + Mais brilhante reflecte sobre a lamina, + Que proxima da victima responde + Por um forte, mas lugubre, reflexo. + + Como est'hora suprema é dolorosa! + O crime fôra atroz, justo o castigo; + Mas comtudo o supplicio nesse instante + Faz gelar de terror quem o contempla! + + + XVII + + As orações extremas acabaram; + O filho ao pae traidor, o audaz amante, + Tudo emfim confessou. Rapidas tocam + As horas no seu ultimo momento. + As ondadas madeichas de cabello + Já cairam no chão. O nobre manto + Bordado pelas mãos de Parisina, + Não deve acompanhal-o á sepultura. + Tentam vendar-lhe o rosto, não consente + Esta final affronta. O seu orgulho, + Comprimido no mais intimo d'alma + Pela expressão de fria indifferença, + Acorda nesse instante, repellindo + A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos. + + «O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te, + Preso, algemado estou; co'a vista livre, + Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo + No logar do supplicio inclina a fronte. + Ao proferir esta palavra: «Fere» + Brilha o ferro no ar; silvando o golpe + Cai rapido e fatal. Rola a cabeça, + O corpo palpitante e transtornado, + Pula envolto no pó, que bebe o sangue + Saído em borbotões pelas arterias! + + Inda instantes os labios estremecem, + Nos olhos inda fulge a luz da vida; + Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, + Como deve morrer o homem culpado + Que se arrepende no momento estremo, + Elle o seu coração oppresso e triste + A Deus sómente consagrou ness'hora. + + A imagem de seu pae, da propria amante + O que eram á sua alma atribulada? + Um sentimento das paixões terrestres + Não viera turbar naquelle instante + A pura contricção do seu espirito, + A não ser quando expondo a fronte nua, + Ao cutello do algoz quiz ver a morte. + Era o unico adeus que proferira, + Ás testemunhas do cruel supplicio. + + + XVIII + + A multidão gelada e silenciosa, + Mal ousa respirar. Alguns gemidos + Cortados, mas profundos, se escutaram; + Nada mais, a não ser o som socturno + Do cutello batendo sobre o cepo. + + Nada mais? houve um som, um grito horrivel, + Estridulo, selvagem, semelhante + Ao da mãe, que de um golpe repentino + Vê cair a seus pés sem vida o filho! + O grito de quem foi, de onde partiu? + De um seio feminil, e mais terriveis + Não os solta jámais o desespero! + + + XIX + + Hugo jaz no sepulchro, e Parisina + Dissera acaso eterno adeus ao mundo, + Refugiando sua alma atribulada + No silencio da cella de um convento? + O veneno, o punhal talvez seriam + O severo castigo do seu crime? + Ou succumbira emfim nesse momento, + Em que vira brandir o duro ferro + Sobre a adorada fronte? compassiva + A mão da Providencia permittiu, + Que ao quebrar-se em seu peito confrangido + De angustia o coração, se terminasse + Tambem com elle a fragil existencia? + Não o soube ninguem. Aquella vida, + Ai! de mim! acabára neste mundo + Pela dor como a vida principia! + +Setembro de 1856. + + + + +XXV + +A VALSA + + + Venceste: sou teu, bem ves + Quão facil foi a victoria! + Cahi-te rendido aos pes. + E sem disputar a gloria. + Aos _golpes_ da tua mão + Expuz logo o coração! + + Venceste: sinto nas veias + Correr o sangue agitado: + Todo o fogo do passado + Já nos sentidos me ateias. + Submisso, humilde, sugeito + Ao teu estranho poder + Existe todo o meu ser! + + Em ti palpita o meu peito; + E a razão que me delira, + Em ti vive, em ti respira, + Com teu imperio a rendeste; + Sou teu: venceste, oh! venceste! + + Quanto tempo decorreu + Desde aquell'hora maldita? + Quanto tempo est'alma afflicta + Na angustia se debateu, + Sem que um sorriso, um olhar + A viesse consolar! + + Em vão buscava no ceo + As scintillantes estrellas; + Não via em nenhuma d'ellas + Nem formosura, nem lume, + E no prado por mais bellas + Que se ostentassem as flores, + Para mim não tinham cores, + Nem encantos, nem perfume! + .......................... + + Uma tarde, era o sol posto, + Vi-te assomar á janella; + Depois inclinar o rosto + Sobre a mão graciosa e bella, + E contemplar fascinada, + A natureza encantada. + + A aragem com brando alento + Agitava os teus cabellos, + E julguei nesse momento + Ver-te á flor dos olhos bellos + Estremecer cristalina + Uma lagrima divina! + + Sobre o cimo flexuoso + Do monte se reflectia + Ainda o clarão saudoso + Do brando expirar do dia, + Quando afogueada rompeu + A lua no azul do ceo. + + Teu seio battia inquieto, + E eu senti no coração + A chamma do antigo affecto + Rebentar como um volcão! + De repente os olhos teus + Se volveram para os meus. + Quizemos fallar, a voz + Nenhum a poude soltar; + Mas que não dissemos nós + Naquelle inspirado olhar!... + Uma só vez na existencia + O diz a muda eloquencia! + ........................ + ........................ + + Entrei no baile! a alegria + Saltava no teu semblante, + Quando a valsa delirante + Rompeu no vasto salão! + Era aquella melodia, + Que tanta vez a teu lado + Me fez batter agitado + De enthusiasmo o coração! + Ergueste a fronte animada, + E em teu rosto se trocou + A pallidez namorada + Pelo fogo da paixão! + Como o teu olhar fallou + Antes que dissesse a voz: + «Oh! tua outra vez eu sou!» + + Depois no giro veloz + Da dança vertiginosa, + Como a tua voz formosa + Sobresaltada tremia! + Como em tua alma eu vivia!... + É que nesse instante Deus + Quiz unir as nossas vidas + Por um amplexo dos ceos! + + No horisonte esmorecidas + As estrellas desmaiavam + Co'os resplendores da aurora + Que já no ceo despontavam. + Naquella encantada hora + Expirou nos labios teus + Um suspiro, e um adeus! + Um adeus, que promettia... + Mas quem pode revelar + O que nelle se dizia! + A aurora vinha a ráiar + E os clarões da manhã fria + Acaso viram jámais + Tão felizes dois mortaes? + ......................... + ......................... + + Desde então ao teu poder, + Submisso, humilde, sugeito + Existe todo o meu ser. + Em ti palpita o meu peito, + E a razão que me delira, + Em ti vive, em ti respira, + Com teu imperio a rendeste, + Sou teu: venceste, oh! venceste! + +Setembro da 1861. + + + + +XXVI + +RECORDAÇÕES + + + Como foi, e ha quanto tempo + Que esse tão feliz momento, + Da minha vida acabou?! + Não sei, que importa? Era um dia + Que o sol vivido inundava + A luxuriante campina. + Intensa, glacial frieza + O coração me gelava, + Quando subito sentira + Um raio de luz divina + Que minh'alma illuminou. + Deslumbrado em vão buscava + Ver donde essa luz partia, + A mente me delirava + Co'a ventura que sentia! + + Oh! depois vi claramente, + Que de teu rosto innocente + Partira o raio de luz, + Tão suave e tão sereno, + Como esse que nas pupillas, + Azuladas e tranquillas + Do anjo da nossa infancia + Melancolico reluz! + + Parámos naquella estancia, + Dize, lembras-te, Luiza, + Como vinha fresca a brisa, + E que suave fragrancia + Rescendia a viração? + Tu firmavas-te ao meu braço, + E eu mal respirar podia + Que não sei quê me opprimia, + Mas com que doce oppressão! + + Parava, não de cançaço, + Por que o peito mais valente, + De mais vigor não se anima, + Nem com mais força se sente + Do que eu me sentia então! + + Foi fatal aquelle instante, + Para ti fatal, embora, + Tu viveste numa hora, + Inteira toda uma vida + Do mais delirante amor; + Porque a tua alma, querida, + Quando deveras se inflamma, + Devora co'a sua chamma + O prazer até á dor! + + Duas lagrimas brilhantes + De teus olhos deslisaram, + Quando nos meus se cravaram + Formosos e scintillantes. + A expressão que eu nelles via, + Devêra ser semelhante + Á que o justo vê no dia + Do seu supremo juizo, + Nos do anjo fulgurante + Que lhe aponta o paraizo! + + Como foi que tal encanto + A fatal mão do destino + Para sempre nos quebrou!? + Da noite o sombrio manto, + O teu semblante divino + A meus olhos occultou! + + Oh! não foi nesse momento, + Porque inda no firmamento + O lampejo d'uma estrella, + As tuas pallidas faces + De um reflexo illuminou, + E inda um beijo, longo, ardente + Na tua boca innocente + A minha boca estampou! + + Oh! não foi!! Depois ainda, + Na mesma noite encantada, + Te vi fulgurante e linda, + De brancas roupas trajada, + No turbilhão delirante + Do baile veloz passar; + Inda ali tanta esperança, + Tanto amor, tanta ventura, + Veiu minh'alma inundar + Inda ouvindo aquella valsa + De enthusiasmo estremecemos, + E desvairados corremos + Ao som da doida cadencia. + Oh! que fogo nesse instante + Nos inflammava a existencia!! + Eu cingia-te anhelante + Entre meus convulsos braços, + E com teus ligeiros passos + Tu mal tocavas o chão! + Aquella doce harmonia + De instante a instante augmentava. + Oh! como então nos battia + Agitado o coração! + Augmentava, e de repente, + Como cortada torrente, + A melodia parou; + E nos meus braços, querida, + Extenuada, abatida, + Por momentos te deixou. + + A aurora vinha rompendo + Quando teus olhos aos meus, + Proferiam eloquentes + Aquelle saudoso adeus. + Ao longe o vasto Oceano, + Da brisa fresca agitado, + Ante nós bramia ufano. + Tu, volveste horrorisado + O rosto co'a vista d'elle!... + É que em breve a todo o pano, + O meu baixel correria + Sobre aquellas ondas torvas, + E de ti me apartaria! + +Janeiro de 1851. + + + + +XXVII + +SÊ FELIZ + + + Sê feliz! Hontem ainda + Contemplando o teu semblante, + Na sua innocencia infinda, + Porém triste nesse instante, + Roguei a Deus do mais fundo + Mais puro do coração, + Que uma lagrima, um desgosto, + Uma sombra de amargura, + Jámais viesse no mundo, + Turbar teu candido rosto. + + Sê feliz: toda a ambição + Que por ti minh'alma encerra + É ver-te feliz na terra! + Nada mais. O amor profundo, + O mais violento embora, + Tem sempre na vida um'hora + De egoismo, e esta affeição, + Que uma só vez na existencia + No meu peito se accendeu, + Que jámais se ha de extinguir, + Tem a pureza do ceo, + Proveiu da tua essencia! + + Se no presente ou porvir, + Alguem que te encante a vida + Existe ou tem de existir... + Não terei zelos... Unida, + Para sempre a outro affecto + Passarás junto de mim, + Embora, direi então: + «Sê feliz: toda a ambição, + Que por ti minh'alma encerra + É ver-te feliz na terra!» + + E sabes?... ao Creador + Dou graças por me haver dado + Este puro sentimento + Em vez do fogo do amor. + Ai! se um dia, no momento + De ver-te, te houvesse amado!... + Se em vez da chamma suave, + Que em meu coração se inflamma, + Se ateasse aquella chamma, + Se houvesse emfim rebentado + Aquelle fatal volcão!... + Ai! de mim! quanta amargura! + Quanta angustia o coração + Não teria já passado! + Porem assim!... não, ai! não! + Sê feliz: toda a ambição + Que por ti minh'alma encerra, + É ver-te feliz na terra! + +Maio de 1854. + + + + +XXVIII + +A FOLHA DESBOTADA + + + Volve folha desbotada, + Outra vez á mão nevada + Que do tronco te ceifou, + Volve, e dize sem receio, + Que te apertei contra o ceio, + Que o meu olhar te adorou: + + Vai discreta confidente, + Dize tudo quanto sente, + E calla o meu coração! + Vai, que a tua voz sentida, + Ha de ser por ella ouvida + Com ternura e compaixão. + + Dize que ao ver um instante + Anuviado o seu semblante, + Pensativo o seu olhar, + De sobresalto e receio, + Sinto o coração no seio + De repente a palpitar! + Que a sonhei antes de vel-a, + Como bem fadada estrella, + Mensageira do Senhor! + Que ao vel-a a voz da consciencia + Disse: É esta na existencia + A tua estrella de amor! + De amor puro, intenso, ardente, + Mas que occulto eternamente + No meu peito ficará! + Que no infortunio nascido, + Só commigo tem vivido, + E commigo morrerá! + + Ai! folhinha desbotada! + Outra vez á mão nevada + Volve de quem te ceifou! + Volve, e dize, sem receio, + Que te apertei contra o seio, + Que o meu olhar te adorou! + +Maio de 1854. + + + + +XXIX + +NUM ALBUM + + + Venham ver este retrato, + E respondam se o pintor, + Que desenhasse melhor, + O tirava mais exacto. + Eil-a! saltando da tela, + Viva, inteira, palpitante! + Pallido um pouco o semblante, + A boca graciosa e bella, + Quando o sorriso a desflora, + É como a rosa da aurora + Abrindo ao sopro de abril! + É mais! é ver num momento, + Quanto pode o pensamento + Sonhar de casto e gentil! + + O cabello ondado e fino, + Negro como a noite escura, + Cai no collo alabastrino, + E faz resair a alvura + Do rosto fascinador. + + Os olhos... oh! neste instante, + Tremo, hesito, não ha cor, + Não ha luz por mais brilhante, + Que possa emfim imitar + O reflexo scintillante + Da chamma do seu olhar! + Chamma que ás vezes traidora, + Se occulta na sombra escura, + Á espera que chegue um'hora, + Hora de morte ou ventura!, + Em que possa deslumbrar, + Com mais fogo e com mais vida, + O desvairado que ousar, + Miral-a sem recear, + Pela ver assim sumida! + + Terminou?... e eu que julgava + Cobrir-me de eterna gloria, + Quando tanto me esmerava + Na minha copia ideal! + Agora que na memoria, + (Ou antes no coração) + Tenho vivo o original, + Vejo bem que não ha mão, + Por mais que saiba pintar, + Capaz de estampar na tela + A expressão graciosa e bella + D'essa face, e d'esse olhar! + +Abril de 1859. + + + + +XXX + +ONDE SE ENCONTRA A VENTURA? + + + Onde se encontra a ventura, + Esta encantada visão, + Que tantas vezes procura, + Mas debalde, o coração? + Nas pompas da formosura? + Nos esplendores da gloria? + No poder de conquistar + A mais difficil victoria + Com o mais timido olhar? + + Oh! como então és feliz, + Porque tudo te revela, + Que não ha face mais bella, + Nem existencia tecida + De mais florído matiz! + + Porém responde, na vida, + Quando tu passas radiante + D'essa luz que emfim só Deus, + Concede a um anjo dos seus!... + Quando ouves a cada instante + Dizer com voz anhelante: + «Lá chega, lá passa, é ella, + Que é tão feliz como é bella!» + Uma sombra de amargura, + Um sentimento profundo + Não te opprime o coração + E não te diz que a ventura + Se não encontra no mundo?! + + Uma vez, sereno o ceo, + Como os teus olhos brilhava! + Airosa ante mim passava + Essa forma, esse ideal + Que não pode ser mortal! + Atravez do raro veo, + Que o semblante te encobria, + Uma lagrima descia; + Era de prazer ou dor! + Oh! de angustia parecia, + Pelo agitado tremor + Com que o peito te battia! + O mundo não sei se a via, + Porque a meu lado exclamava: + «Lá chega, lá passa, é ella, + Que é tão feliz como é bella!» + Mas quem sabe se acertava?! + Porque a ventura real + Se existe, é só no momento + Em que livre o pensamento + Se eleva ao mundo ideal! + E noss'alma a outra unida, + Foje á terra, se illumina + De um raio de luz divina, + E se esquece emfim da vida! + +Julho de 1859. + + + + +XXXI + +QUEM DIRÁ? + + + Quem dirá, vendo a expressão + Que brilha no teu olhar, + Que tu não tens coração? + Bem haja a mão tutelar, + Que á beira me suspendeu + Do abismo da perdição! + Que delirio foi o meu + Naquelles tão curtos dias + Que passei ao lado teu? + + Oh! como tu respondias + Com o silencio eloquente + Ás palavras que partiam + Do meu coração ardente! + E depois, se num momento + Os labios já não podiam + Expressar o sentimento, + O fogo do meu affecto, + Como o teu olhar inquieto + A minh'alma interrogava + E todo paixão jurava, + Que era meu o teu amor! + + Oh! que dias de ventura!... + Nos campos, abria a flor; + Por entre a tenra verdura, + Inda fraca, inda infantil, + Se escutava a voz das aves + Que saudavam abril. + E tu, como ellas, ditosa, + Ás suas notas suaves + Juntavas a voz formosa! + Ah! como eu vivia então! + Como de novo sentia + Rebentar no coração + Essa infinita alegria + Que nos desvaira a razão! + + Por quanto tempo durou + O sonho que me encantava? + Breve foi, maldicta a mão + Que d'elle me despertou. + Quando mais certo julgava + Que era emfim minha a ventura, + No momento em que acabava, + De escutar dos labios teus + Aquelle estremoso adeus! + Adeus, que nesse momento + Com a esperança sorria + E tanto me promettia!... + + Foi, oh Deus! que de repente, + Uma palavra maldicta, + Fez que eu visse claramente, + Cobrindo minh'alma afflicta + De espessa nuvem sombria! + ........................ + + Quem dirá vendo a expressão + Que brilha no teu olhar, + Que tu não tens coração + Ou tem-lo para enganar?! + +Abril de 1859. + + + + +XXXII + +UM BRINDE + + +(Improviso) + + Amigos, á formosura + Que nos cerca neste instante, + Erga-se a taça escumante + De purpurino licor. + Vivo enthusiasmo rebente + Agora de nossas almas, + Caiam palmas sobre palmas + Cada vez com mais ardor! + + Aqui floresce na horta + A viçosa laranjeira, + Corre o Champanhe e o Madeira + Que offertara nivea mão, + Aqui não chegam as garras + De tanta velha leôa + Que esfaimada por Lisboa + Se atira a tanto leão. + + Aqui livre em nosso peitos + Pula impaciente alegria, + Porque ao sol de um bello dia + Tudo vemos reflorir! + Que importa pois que os ministros + Resonem no parlamento, + E que os homens de São Bento + Nem sequer nos façam rir? + + Para nós sorri-se o mundo, + Para nós a vida é esta, + Hoje festa, amanhã festa, + Gloria, encantos, illusões! + Junto a nós temos as bellas + Mais fragrantes do que as rosas, + Longe... o mundo das preciosas, + E o mundo dos papellões! + + Eia pois! á formosura + Que me cerca neste instante + Erga-se a taça escumante + De purpurino licor. + Vivo enthusiasmo rebente + Agora de nossas almas, + Caiam palmas sobre palmas + Cada vez com mais ardor! + +Abril de 1859. + + + + +XXXIII + +AQUELLE DIA! + + + Jámais me ha de esquecer aquelle dia! + Do meigo outono a pallida folhagem + Inda os troncos do bosque revestia. + Sereno estava o ceo; doce a bafagem; + De toda a natureza + Infinita saudade respirava; + Mas por essa tristeza + Feliz o coração se dilatava! + + Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança, + D'esses dias de amor e de ventura, + De paz e de esperança, + Se anima, e vê sorrir na noite escura, + Um reflexo da estrella resplendente + Que uma vez lhe brilhou serena e pura; + Inda a sombria nevoa do presente + Se rarefaz, se esvai, e se illumina + Tudo a seus olhos de uma luz divina! + + Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia! + Nem o lento correr de tantos annos, + Nem as tardias horas que vieram + Depois cheias de amargos desenganos, + O encanto desfizeram + Da inspirada, divina poesia, + Que elle continha em si, que elle nos deu, + E nós guardmos como um dom do ceo! + + Era ermo o logar, ermo, mas bello! + Profunda a solidão! De quando em quando, + Escutava-se o cantico singelo, + Da estrangeira avesinha que buscando + O sol do nosso inverno, + A voz desfalecida ia soltando + Com saudades do _ninho seu paterno_. + + No extasi ideal do sentimento, + Tu volvias os olhos silenciosa, + Para o sereno azul do firmamento; + E da boca formosa, + Reprimir um suspiro em vão tentavas! + É que nesse momento, + Exausta a escala do prazer, anciosa + Uma nota na dor emfim buscavas! + + Nas nossas almas existia um mundo + De indefenito amor; + Do pelago profundo + Onde ruge o furor + Insano, concentrado, atroz, maldicto, + D'esta cruenta guerra + Das ambições da terra, + Nem uma maldição, um som, um grito + Nos vinha perturbar! + Era a amplidão do ceo, a solidão da serra, + Ao longe... a voz do mar! + Depois como se a mão da Providencia + Inundasse meu ser naquelle instante + Da luz de outra existencia, + Julguei ter visto a origem fulgurante, + De onde provém a chamma + D'este immortal amor que nos inflamma! + + Á ideia então da morte + Sentia-me sorrir; porque na hora, + Que nol-a desse a sorte, + Brilhava para nós serena e pura + Essa immortal aurora, + Que reluz nos umbraes da sepultura! + Iriam nossas almas, + Já livres de martirio, + Colher as flores e mimosas palmas + Que vicejam no empyreo! + + Tudo em fim acabou! a noite escura, + Envolvera em seu manto aquelle dia! + E de tanta poesia + Que resta para nós? uma saudade, + E a esperança que um dia essa ventura + Nossa outra vez será na eternidade! + +Agosto de 1858. + + + + +XXXIV + +PARA RECITAR AO PIANO + + +(Primeira) + + Era no outono quando a imagem tua + A luz da lua seductora vi. + Lembras-te ainda nessa noite Eliza, + Que doce brisa suspirava ali? + + Toda de branco, em tua fronte bella, + Rosa singela se ostentava então, + Vi-te, e perdido de te ver buscava + Se me apartava da gentil vizão! + + Era debalde; quanto mais te via, + Mais me perdia delirante amor; + Magicas fallas proferiste incerta, + Toda coberta de infantil pudor! + + Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo + Louco desejo pois fugir-te vi! + Vendo-me triste para mim voltaste, + Não me fallaste; mas eu bem senti! + + Fresca, arrobada de perfume a brisa, + Lembras-te, Eliza? suspirava então; + Tu nos meus braços reclinaste a frente, + E meigamente me disseste: Não! + +Setembro de 1852. + + + + +XXXV + + +(Segunda) + + De luz, de encanto, de alegria infinda, + Aquelle rosto seductor esplende, + Brilha a ventura em sua face linda, + E vivo fogo o seu olhar accende! + + Como a existencia para nós é bella + Entre a verdura d'esta amena estancia! + Aqui suspira a viração singela, + E esparge a rosa virginal fragrancia. + + Livres, immunes neste doce enleio, + Dos gratos dias do saudoso abril, + Ouvir das aves o infantil gorgeio, + Gosar da sombra do enredado til... + + Ella a meu lado, sobre os meus cravando, + Aquelles olhos cuja densa rama, + Agora occulta, logo vai deixando, + Brilhar o fogo da traidora chamma! + + Se entro no baile onde o prazer se agita, + Eil-a, a formosa, no veloz passar, + Louca os seus olhos nos meus olhos fita, + E mil affectos me traduz no olhar! + + De luz, de encanto, de alegria infinda, + Aquelle rosto seductor esplende; + Brilha a ventura em sua face linda, + E o ceo no fogo que esse olhar accende! + +Abril de 1854. + + + + +XXXVI + + +(Terceira) + + Lembras-te, Elisa, quando a face pallida, + Da casta lua despontou no ceo, + E d'entre a balsa suspirada, e languida, + Mavioso canto o rouxinol rompeu? + + Naquella noite em que o perfume vívido + De mato agreste rescendia no ar, + Em que as estrellas fulguravam timidas + Nas doidas ondas do ceruleo mar! + + Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me, + Com todo o fogo de infantil paixão, + Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_ + E me apertavas docemente a mão! + + E que eu perdido de ventura olhando-te + Da meiga lua ao divinal fulgor, + Teu rosto de anjo contemplava estatico, + Candida pompa de inspirado amor! + + Nesse momento fervorosa supplica + Do intimo d´alma murmuraste a Deus, + Que amor, que encanto nos teus olhos humidos, + Quando os cravastes na amplidão dos ceos! + + Depois sentada nos degraus de marmore + Sombra encantada, celestial visão, + Que meigas fallas proferiste tremula, + Que mil protestos me juraste então! + + Depois as rosas que animavam vívidas + Teu bello rosto, desmaiar eu vi + E vaga sombra de tristeza subita + Cerrar-me forte o coração senti! + +Maio de 1853. + + + + +XXXVII + +CIUMES DO PASSADO + + + Quando teu rosto adorado, + Da luz do amor se illumina, + Resplandecente a meu lado, + Não sabes por que anuviado + O meu semblante se inclina? + Por que um amargo sorriso + Pelos meus labios deslisa, + Quando teus labios, Luiza, + Me proferem anhelantes, + Tantos protestos de amor! + É que minh'alma se opprime + Á lembrança do passado, + Em que já outro a teu lado + Escutou essas palavras, + Que me repetes agora + Cada vez com mais ardor; + E que esses mordidos beijos + Que me perdem de ventura, + Dados co'a mesma ternura + Já perderam de desejos + Neste mundo outro tambem! + E tu não sabes, querida, + Os zelos que me devoram, + Á lembrança que na vida, + Já quizeste a mais alguem?! + +Janeiro de 1851. + + + + +XXXVIII + +NUM ALBUM + + +(Improviso) + + Se eu fôsse um vate inspirado, + Cantor das rosas singelas, + Ah! quantas coisas tão bellas + Tinha aqui para dizer! + Mas eu tenho horror á brisa, + Odio ao prado, odio ás estrellas, + E então aos vates das _ellas_ + Nem sequer os posso ver. + + Tu tambem, posto que a vida + Para ti sorria agora + Como sorri uma aurora + Dos puros dias de abril, + Não morres pela açucena, + Nem deliras contemplando + A lua que vai passando + _Pelos vastos ceos d'anil_. + + E inda bem que a Providencia + Te livrou de tal abysmo; + Ó terrivel romantismo, + Quando has de um dia acabar? + Eu conheço uma menina, + Bella, gentil, seductora, + Mas, meu Deus, é tão doutora + Que se não pode aturar! + + Arranja umas taes carinhas, + Toma umas taes posições, + Falla em sonhos e illusões + No seu romantico ardor!... + Pois é pena, que é bonita, + Talvez seja até formosa; + Se não fosse _preciosa_ + Era um ente encantador. + + Se lhe dizem que é feliz, + Solta um suspiro profundo, + Porque ninguem neste mundo + Até hoje a comprehendeu! + Salvo um ente idolatrado + Porém esse... oh! desventura! + Para a fria sepultura + Na flor da vida desceu! + + Emfim, se alguem lhe protesta + Que inda ha de viver tranquilla, + Ergue em extasi a pupilla + Pondo a mão no coração! + Imagina o desgraçado + Que tenha a louca mania + De ir batter comsigo um dia + Neste abysmo de paixão! + + Oh! Bem hajas tu que és bella, + Gentil, graciosa, elegante; + A alegria em teu semblante + Co'a innocencia anda a saltar: + Bem hajas tu que detestas + Todos os vates das _ellas_, + E as romanticas donzellas, + Que andam sempre a declamar! + +Janeiro de 1862. + + + + +XXXIX + +AMOR E DUVIDA + + + Quando essa pallida frente + Por momentos pensativa + Cai ás vezes de repente, + E se amortece a luz viva + Que nos teus olhos resplende, + Sinto que est'alma se accende + De um fogo, de uma paixão, + Que me desvaira a razão! + + A terrivel incerteza, + Esta duvida constante, + Desapparece um instante! + Creio em ti:--foge a tristeza + Que todo o meu ser domina; + Torno á vida, e livre aspiro + Num mundo que se illumina + Da encantada luz do amor! + Depois, se um flébil suspiro + Vem de teus labios á flor, + Oh! como então és amada! + Como tens aos pés rendida + Toda a força d'esta vida + Que por ninguem foi domada! + + Mas é só por um instante! + Volta depois a incerteza, + Quando assume o teu semblante, + Aquella glacial frieza, + Que desalenta, que opprime, + Que faz profunda tristeza, + E destroe quanto é sublime! + + Um dia no firmamento + O sol vívido brilhava, + E a aragem com brando alento + Entre as ramas suspirava! + Era ali, naquelle val, + Que parece destinado, + Para esconder na espessura + Os segredos da ventura! + + O coração agitado + Nesse instante te pulsava, + E uma tristeza mortal + O semblante te anuviava. + Allucinado buscava + A causa d'onde nascia, + Quando um gesto, uma expressão + Me disse que eu só podia + Tirar-t'a do coração! + Sem mais ver, nem mais pensar + Com que delirio a teus pés + Me viste rendido então!... + Quem podia duvidar + Vendo a ingenua timidez + Do teu inspirado olhar?! + Os labios não revelaram + O que havia em nossas vidas, + Mas as vistas confundidas + Com que eloquencia fallaram! + Chegára a noite; do ceo + Vi scintillar uma estrella; + Era brilhante, e era bella, + Mas um presagio mortal, + Um cruel presentimento + Me disse nesse momento: + Não fites os olhos nella, + Porque essa luz é fatal. + Amanhã, espesso veo + de nuveus ha de envolvel-a; + E se de novo surgir + Será para te illudir. + + E esta duvida cruel + Este constante hesitar + Quem m'o pode terminar + Quem, senão um teu olhar? + +Junho de 1859. + + + + +XL + +NUM ALBUM + + + Não vês tu como inconstante + Num instante, + Ruge o sul, e turba o ceo, + E que o mar, quedo, azulado, + Brame irado, + Sacudindo alto escarceo? + + Não tens visto na manhã, + Flor louçã, + Junto ás aguas rebentar, + E á tarde, murcha, pendida, + Já sem vida, + Sem perfume, a desfolhar? + + Pois então queres, amiga, + Que eu te diga + Que o amor não é assim? + Quando tudo empallidece, + Se emmurchece, + Se desbota, e morre emfim?! + + Essas illusões doiradas, + Encantadas, + Do primeiro albor da vida, + São como a rosa louçã, + Da manhã, + Á tarde n'haste pendida; + + São como o ceo azulado, + Que doirado + Pelo sol de ameno dia, + Se escurece de repente + Tristemente + Por uma nuvem sombria! + + E tu não queres, amiga, + Que eu te diga + Que o amor não é assim? + Quando tudo empallidece, + Se emmurchece, + Se desbota, e morre emfim?! + +Agosto de 1848. + + + + +XLI + +SE CORAS NÃO CONTO. + + + Tu queres que eu conte um sonho que tive + Não sei se acordado, não sei se a dormir? + Foi todo singelo, foi todo innocente: + Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir? + + Não córes, escuta, não fujas de mim, + Que o sonho foi sonho de casta paixão: + Já crês, não duvídas, verás como é lindo + O sonho innocente do meu coração: + + Eu via em teus labios um meigo sorriso, + Em tens olhos negros um terno mirar, + Teu seio de neve a arfar docemente, + Sentia nas faces o teu respirar. + + E tu não fallavas, mas eu entendia; + E tu não fallavas, mas eu bem ouvi! + Amor! na minh'alma a voz me dizia, + E um beijo na fronte não sei se o senti. + + Já vês que o meu sonho foi sonho innocente; + O resto eu te conto; como has de gostar! + É todo singelo, de amores somente; + Verás que ao ouvil-o não has de córar. + + Depois apertando teu corpo flexivel, + Cingindo teu collo no braço a tremer, + Ouvi uma falla, e o que ella dizia + Agora acordado não posso eu dizer. + + Não posso contar-te, só pude sentil-a; + Não posso contar-t'a senão a sonhar: + No sonho innocente, no sonho d'amores, + Do qual, duvidosa, julgavas córar. + + Não posso contar-t'a, nem sei se acordado + O que ella dizia se póde entender; + Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, + E agora acordado a não posso esquecer. + + Mas tu porque escondes a face córada? + Não tem nada o sonho que faça córar, + É todo singelo, é todo innocente; + Que importa um abraço, se é dado a sonhar? + + Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio; + Não quero offender-te a casta isenção; + Não torno a contar-te depois de acordado + O sonho innocente do meu coração. + +Janeiro de 1847. + + + + +XLII + +ANJO E VIRGEM. + + + Virgem, que era o que sentias + Quando ao vento desferias + Essas frouxas harmonias + De um incerto murmurar? + Virgem, que era o que sentias + Teu santo seio agitar? + + Achavas o mundo um ermo, + Onde ao coração enfermo + Dos horisontes sem termo + Não vinha uma aura de amor? + Achavas o mundo um ermo, + Fertil só de fel e dor? + + Ou teu suspirar sentido + Era por ver desmentido + De amor o sonho querido, + Que sonhaste, alma gentil? + Ou teu suspirar sentido + Foi dor ligeira, infantil? + + Era o teu anjo innocente + Que passára mansamente + A sorrir divinamente, + Mas que outra vez não volveu? + Era o teu anjo innocente, + Que víras subir ao ceo? + + E ficaste pensativa + Sobre esta terra captiva + D'esperança, e d'amor esquiva, + Coberta com veo de dó; + E ficaste pensativa + Ao ver-te perdida e só. + + Oh! esse tenue gemido + Do seio teu despedido, + Qual anhelito sumido + Que a morte veiu cortar, + Oh! esse tenue gemido, + Que não pudeste occultar... + + Foi longo adeus de saudade + Aos dias da tenra edade, + Que envoltos na eternidade + Ligeiros viste fugir; + Foi longo adeus de saudade + Ao teu primeiro sorrir! + + Do ceo á terra baixaste, + E quando nella te achaste, + Tristemente suspiraste + Ao ver-te perdida e só; + Do ceo á terra baixaste, + Á terra de pranto e dó. + + Virgem, virgem, mal pensavas, + Quando triste suspiravas, + E num gemido enviavas + Longo e doloroso adeus; + Virgem, virgem, mal pensavas + Que eras um anjo de Deus. + +Março de 1849. + + + + +XLIII + +A M.ME LOTTI + + +Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo +de infancia desvallida. + + Canta oh! canta alma inspirada, + Que jámais na tua vida + Tiveste a fronte cingida + Dos loiros que hoje vais ter. + Canta: os prantos da orfandade, + Á tua voz seductora, + Se vão convertendo agora + Em sorrisos de prazer! + + Oh! jámais em teus triumphos + Quando erguendo o rosto altivo, + A teus pés tinhas captivo + O poder da multidão, + Jámais sentiste no peito + Entre o rumor delirante, + Batter, como neste instante, + De enthusiasmo o coração! + + Cada nota que desprendas + Terá um eco no empyreo, + Por que as palmas do martyrio + Em rosas vais transformar. + Oh! bem haja a Providencia + Que na tua voz divina + Poz a graça que fascina, + E o condão de consolar! + + Quando no giro brilhante + Da tua crescente gloria, + Te venha um dia á memoria + Esta noite triumphal, + Pára, escuta, e docemente + Sentirás no teu ouvido, + Um murmurio agradecido + De ternura filial. + + São elles os desherdados, + Os que já sem lar paterno + Erguem preces ao Eterno, + E bençãos por teu amor; + São elles a quem um dia + Com teu inspirado canto + Tornaste em sorriso o pranto, + Em pura alegria a dor! + +1860. + + + + +XLIV + +PRIMAVERA + + + Contempla este ceo esplendido, + Ouve aquellas melodias + De tanta ingenua avesinha, + Que alegre, os serenos dias + Da primavera adivinha. + + Não vês a olaia? vaidosa! + Só por vêr que a amendoeira, + Mais cedo desabrochou, + Vermelha como uma rosa, + De repente se tornou. + + Oh! bem vinda primavera! + Ao vêr o sorriso terno + Da tua boca divina, + O prado, o monte, a campina, + Que o triste e gelado inverno + Sem piedade devastou, + Num momento se animou! + + Em teu regaço a abundancia, + Esperançosa floresce; + Á sombra de teus verdores, + Entre a suave fragrancia + De tuas variadas flores, + Contente o pobre adormece. + + E tu, minha vida, ao vêr-te + Sósinha a meu lado agora, + Nesta estação, nesta hora, + Neste encantado logar, + Á sombra d'essa verdura + Onde frouxa a luz desmaia, + Ante o mar que além suspira + Na loira areia da praia, + Não vês que a razão delira, + Que dentro do coração + Não cabe tanta ventura?! + + Falta a vida, sim, a vida, + Para esta alegria immensa, + Das nossas almas, querida! + Viva, ardente, pura, intensa, + Nesses olhos brilha a chamma + Do amor que tua alma incerra; + Alma que ao sopro de Deus + Em divino amor se inflamma, + Alma que veiu dos ceos, + E que não cabe na terra. + + Fugaz, tranzitorio, vão, + Será para nós o encanto + Que nos enche neste instante + De ventura o coração? + + Será! que importa? constante + Virá depois a saudade, + Abraçar essas memorias + De infinda felicidade; + Como ao templo aonde as glorias, + De paz, de amor, de alegria, + Se celebraram um dia, + Mas templo que ao chão tombou, + Se abraça a hera viçosa, + Reveste as pobres ruinas, + Amparando carinhosa + Esse resto que ficou! + + Uma lagrima extremece, + Vem de teus olhos á flor! + Minha vida, esquece, esquece, + Que póde haver na existencia + Momentos de acerba dor! + O sopro da Providencia, + Vivo está, vivo respira, + Neste ceo desassombrado, + Na corrente que suspira, + Neste cantico inspirado, + Que as aves soltam no val, + E d'elle provém a essencia + Do nosso amor immortal! + + Contempla o vasto horisonte + Que o sol vivido illumina; + Olha as flores da campina; + Escuta as aguas da fonte; + Respira esta aragem pura, + Embalsamada, e suave; + Ouve o cantico d'essa ave, + Que improvisa na espessura! + + Recolhe n'alma o perfume, + D'esta encantada poesia. + D'este sol, d'esta alegria, + Que em torno de nós fulgura, + E responde, minha vida, + Se a nossa alma neste instante + Póde com tanta ventura! + +Abril de 1856. + + + + +XLV + +VOLTAS + + +(Improviso) + + Entre as flores da campina + Correm uns certos rumores. + Que tu, rosa purpurina, + És a inveja das mais flores. + F. C. M. + + És rosa, bem vês; o aroma + Que do teu seio rescende, + A cor que a folha te accende, + A inveja que ao rosto assoma + De todas as outras flores, + Não t'o diz, quando no prado, + Aos primeiros resplendores + Do sol que tem despontado, + Ergues a fronte singela, + Mas ah! quão graciosa e bella?! + + O lyrio que á sombra nasce, + Quando te sente e te aspira, + Não sabes como delira!! + Não tens visto tanta vez + Naquella timida face + Redobrar a pallidez? + E o rouxinol namorado + Que, assim que a lua derrama + Seu doce clarão no val + Por entre a viçosa rama, + Desprende a voz immortal + Improvisando inspirado + O seu hymno nupcial + Á noiva que Deus lhe ha dado! + + Por quem suspira anhelante? + Por quem trémulo se inclina + Sobre a veia cristalina? + Quem procura nesse instante? + --És tu, rosa purpurina! + + És tu, sim; porém a cor + Que tinhas tão viva outr'ora, + Porque a vais perdendo agora? + Dize, oh rosa, a occulta dor + Que te faz tão tristemente + Pender a encantada frente! + + Agora entre as outras flores + Correm uns certos rumores... + Quaes são, não sei; mas ouvi + Que as mais bellas da campina + (Por quem és tão invejada) + Quando hoje chamam por ti, + Dizem--rosa namorada, + E não--rosa purpurina. + +12 de Maio de 1860. + + + + +XLVI + +LELIA + + + O POETA + + Musa: o dia rompeu chuvoso e frio, + Eu não tenho um real, nem tu tão pouco, + Que és pobre como Job; por conseguinte + Que havemos de fazer? + + A MUSA + + Ficar em casa, + Discutindo as miserias d'este mundo. + Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta, + Em que estás a pensar? + + O POETA + + Numa aventura. + + A MUSA + + Não se póde contar? + + O POETA + + De certo póde. + + A MUSA + + Nesse caso aproxima-te do lume, + Accende este charuto, e principia. + + O POETA + + Ha dois annos, um dia, ou mais exacto, + Uma noite em que a lua resvalava + No firmamento azul, em que os modilhos + Do inspirado cantor da primavera + D'entre a balseira em flor se desprendiam, + Achava-me aspirando a branda aragem + Sentado no portal de uma vivenda + Da modesta apparencia, e collocada + Num sitio encantador. Naquella noite, + De que me hei de lembrar eternamente, + Tinham vindo esperar-me de emboscada + Alguns contrabandistas do parnazo, + D'entre os quaes destacava a face lívida + De certo esguio e pesaroso vate + Que te inspira notavel sympathia. + Fugi! elles ficaram declamando + As primeiras estrophes de uma nenia! + + Vinha rompendo abril: como já disse, + Sereno estava o ceo, doce a bafagem, + E a rosa, a favorita, a bella noiva, + Por quem o rouxinol desde a alvorada + Solta a voz em prodigios de harmonia, + Corando abria o pudibundo seio + Aos doces carmes do adorado amante. + + Passado pouco tempo esta cabeça + Começára a enredar-se em mil chimeras. + De repente uma voz sonora e fresca + Chegara ao meu ouvido. Era tão simples, + Tão suave, tão meiga a melodia, + Tão infantil a voz! Voltei os olhos, + E descobri um vulto na janella. + Que figura ideal! alta, mas fragil, + Como hastesinha de um arbusto novo. + A innocencia e virtude respiravam + Naquelle rosto candido e formoso. + Numa das mãos firmada a face tímida, + E na outra a madeixa loira escura + Que vinha em pittoresco desalinho + Espargir-se nos hombros de alabastro. + + Como o cantor da selva que inspirado + Improvisava no florido bosque, + Cantava ella tambem; ave innocente, + Juntava mais um trilo ao hymno eterno, + Que aos pés de Deus a natureza erguia. + Oh! quão feliz seria quem no mundo + Alcançasse as primicias d'aquella alma! + Lembrei-me de as colher, e decidi-me + A apparecer-lhe no seguinte dia. + Com effeito assim fiz. + + Era sol posto: + Cançada de correr pela campina, + Tinha vindo sentar-se pensativa + Nos degraus de uma cruz que se elevava + No adro estreito de modesta ermida. + Chegava emfim ess'hora em que saudosa + A mente se dilata em magos sonhos; + Hora em que alma absorta em gostos intimos + Perde a consciencia do exterior da vida. + Diversas nuvemsinhas esmaltavam + Para o lado do poente o firmamento. + O bronze deu signal d'_Ave-Maria_. + Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos + Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios + A singela oração; passado instantes, + A pomba estremeceu, mas de alegria. + A viva chamma de amoroso affecto + Brilhou no puro azul d'aquelles olhos, + Quando nos meus attentos se fitaram; + E um sorriso de angelica ternura + Entreabrira os seus labios purpurinos. + Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve, + Que estremeciam apertando as minhas, + E pronunciei mansinho estas palavras: + + --«Sim, sou eu, que tu tens visto, + Tanta vez naquelles sonhos + Bellos, candidos, risonhos, + Da tua idade infantil. + És minha. Sou teu. A vida + Para nós vai ser agora + Mais alegre do que a aurora, + Mais florída do que Abril! + + Oh! que longas confidencias + Nos esperam nestes prados! + Que dias tão descuidados! + Que instantes de tanto amor! + Buscando ao crescer do dia + Entre o bosque a sombra densa, + Sentindo a alegria immensa + Do sol, do campo e da flor! + + És minha: do ceo proveiu + O poder que a ti me prende, + Mas diverso fogo accende + O teu e meu coração: + Tu no mundo és a innocencia, + Eu sou na terra a poesia; + Tu dás-me a tua alegria, + Eu dou-te a minha paixão! + + Dou-te as sombras da tristeza + Que acertam sobre teu rosto, + Como as sombras do sol posto + Na rosa agreste do val. + Recebes num meigo abraço + Meu profundo sentimento, + E dás-me o contentamento + Do teu seio virginal.»-- + + Indisivel prazer brilhou nas faces + Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas + Que ancioso proferi, e com ternura + Disse, cravando em mim seus olhos bellos: + + --«Orphã de paes, só tenho neste mundo + Apenas uma irmã; nós habitamos + Naquella casa que d'aqui se avista + Entre a verdura d'esse val ameno. + Já mil vezes em sonhos encantados + Eu ouvi tua voz, vi tua imagem. + Agora emfim és meu e para sempre. + Não é verdade? dize.»--perguntava + Com extremo, firmando-se ao meu braço. + + Os pallidos clarões do astro saudoso + Despontavam no ceo; por entre as ramas + A aragem susurrava brandamente, + E o rouxinol occulto nas balseiras + Soltava algumas rapidas volatas, + Experimentando a voz que dentro em pouco + Iria improvisar o hymno da noite. + Caminhámos ao longo da alameda + Que terminava em frente da vivenda + Onde Lelia (era este o nome d'ella) + Passára os dias da ditosa infancia. + Á entrada do portal dei de repente + Com a vista no pallido semblante + De uma bella mulher. Cumprimentei-a. + Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre. + + --«É Julia, minha irmã»--me disse Lelia. + Segundei um rasgado cumprimento, + A que ella respondeu com a gentileza + De uma senhora de elevada classe. + Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço, + E acceitei promptamente este convite, + No que fiz um chapado disparate! + + «Tibia luz, temperada para amantes,» + Illuminava uma pequena sala, + Onde o luxo e bom gosto respiravam. + Em primeiro logar é necessario + Que eu te faça um retrato a largos traços + (Como agora se diz) da encantadora + E provocante dona d'essa casa, + + Era alta, sorriso malicioso, + Boca fresca, e vermelha como a rosa, + (É velha a imagem mas é sempre boa!) + Cabello basto, fino, muito escuro, + Olhos da mesma cor, e quasi sempre + Por doce morbidez meio cerrados. + Quando porém ás vezes dardejavam + Por entre a negra sombra das pestanas + Um só raio da luz que os inflammava... + Ai d'aquelle que ousava descuidado + Mirar de leve essa traidora chamma! + + Que te direi do pé pequeno e curvo, + Que na estreita prisão de uma botinha + De setim preto estava clausurado? + Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra + A poesia da lua e das estrellas, + Do Tejo de cristal, da mansa brisa, + De tudo o mais que tenho por mil vezes, + Estafado em mau verso e peior prosa, + Para só contemplar os mil encantos, + Que tinha aquelle pé! + + E a pobre Lelia, + A meiga apparição que nos meus braços + Tinha vindo entregar-se sem receio, + Onde estava? calada e pensativa, + Contemplando o meu rosto, onde subia + O sangue accezo em ondas de desejos. + + Em presença d'aquella peccadora, + Esqueceu-me de todo o sentimento + Que me inspirára o anjo de innocencia. + Sou poeta; bem sabes que os poetas + Não são de certo os entes mais constantes! + Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo + Podera resistir? Se nesse instante + A visses no _fauteuil_ reclinada! + O vestido entre _roxo e cor de rosa_, + Apesar da invasão das _crinolines_, + Deixava perceber divinas fórmas. + No cabello uma rosa perfumada, + E no turgido seio, que ondulava + Atravez da finissima cambraia, + Viçoso ramo de singelas flores. + + Ella viu a impressão que produzira + No pobre peccador que a contemplava, + E descerrando a boca num sorriso + Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios, + E a eloquencia do olhar disse-me tudo. + + Pouco a pouco nas faces desmaiadas + Se accendêra o rubor; nos olhos negros + Scintillou por instantes uma lagrima, + «Precursora de languido deliquio». + Meiga, sonora então, como seria + A voz do archanjo que descesse á terra, + Junto a mim murmurou a voz de Lelia: + + --«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio, + Á mesma hora, de novo nos veremos; + Vou resar a oração que me ensinára, + Minha mãe quando eu era pequenina. + Vou resal-a por ti!»--Oh! por instincto; + A innocencia fugia do peccado. + Quiz seguil-a tambem, mas por encanto, + Por encanto fatal, senti-me preso + Ao supremo poder d'aquelles olhos + Que nos meus se reviam com ternura. + + De novo aquelle pé que me perdera, + Se firmou num pequeno tamborete, + E d'essa vez deixando a descuberto, + Um fragmento de perna, que faria + Morrer de desespero uma andaluza. + + Esvaeceu-se então completamente + A meus olhos o anjo da candura, + Das commoções divinas, da virtude, + E achei-me só, perdido, face a face + Ante o demonio das paixões terrestres! + Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo + De desejo e de amor fugir a vida. + + Quando a razão voltou, como o murmurio + Da fresca viração da primavera, + O sopro perfumado de seus labios + Vinha affagar-me docemente a fronte. + Os anneis do cabello ondado e negro, + Espargindo-se, avaros procuravam + Occultar-me da vista aquelle seio! + Impaciente os affasto devorando, + Num beijo, em mil, um mundo de delicias! + Oh! como então no peito me pulava + O coração vaidoso e triumphante! + + No languido quebranto que succede + Ao febril desvario dos sentidos, + Julia estava a meu lado; amortecida, + Por entre densa rama das pestanas, + Partia a luz das languidas pupillas. + Desmaiára de amor a rosa esplendida, + E voltava de novo áquella face, + A pallidez do lyrio das campinas. + + Abatida e indolente, erguêra a fronte; + Caminhámos os dois para a janella: + Os primeiros clarões da madrugada, + Vinham rompendo já no firmamento. + Chegava emfim a hora, era forçoso + Dizer adeus á seductora imagem! + + + II + + ................................... + ................................... + ................................... + Casta filha do ceo, pura innocencia, + Como o sorriso alegre de teus labios + Me torna aos dias da ditosa infancia, + E me faz existir algumas horas + No doce enlevo de passados sonhos! + + Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa, + Nas agruras da terra, eu te contemplo + Com viva compaixão! Tão facilmente + Se evapora o perfume de teu seio, + Se perde o viço de teu meigo rosto! + Caes subito no chão pallida e triste! + E porque? porque o sopro envenenado + Do mundo te crestou. Alheia ao crime, + És fulminadada pelos crimes de outros! + + Eram estes, ó musa, os pensamentos + Que vinham em tropel ao meu espirito, + Quando estava disposto a dirigir-me + Ao sitio que na vesp'ra me indicára + A ingenua irmã da tentadora Julia. + Começava a morder-me na consciencia + O remorso de haver atraiçoado + Aquelle anjo de amor e de candura. + Nisto sinto parar um trem á porta; + Olho, e vejo saltar de uma caleche, + Elegante e veloz como a gazella, + A minha irresistivel peccadora. + Quantos protestos até'li fizera, + Só com sentir-lhe a voz se evaporaram! + Corro á porta, ella sóbe, e com ternura + Aos meus tremulos braços se arremeça: + + --«Tardavas tanto!... as horas d'este dia + Não terminavam nunca!... vim buscar-te; + Perdoa se fiz mal; mas o desejo + De te ver e abraçar era tão forte... + Vamos dar um passeio pelo campo, + E depois... serás meu, e eu serei tua!»-- + + Terminado este rapido discurso, + Mas cabal, eloquente, e peremptorio, + Peguei no meu chapeo, e em continente + Descemos e partimos na caleche. + Não podes duvidar que possuia + A mais commoda amante d'este mundo. + + Quando o carro passou pelo Chiado, + Mais de vinte lunetas se assestaram + A um tempo sobre nós; e é bem provavel + Que mais de vinte bocas honradoras + Me ficassem na sombra remordendo; + Tanto melhor; é bom ser invejado. + + Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando, + Illuminava de clarões suaves + O firmamento azul; nos verdes prados + A flor estremecendo de alegria + Aos doces beijos da travessa aragem, + Como offrenda enviava ao ceo propicio + A pura essencia do virgineo seio. + + Scintillava o prazer nos olhos negros + Da mulher que apesar de peccadora + Era bella, oh! tão bella como os anjos + Que o tentador Satan despenha ao mundo! + Formosuras fataes qu'inda conservam + Na fórma o que é do ceo para illudir-nos! + + Ai de nós se encarâmos descuidados + A morbida expressão de certas frontes, + Onde a candura nos occulta o crime! + + Alva era a face da elegante Julia; + Vivo o rubor que lhe animava os labios; + Adoravel a tinta fugitiva + Que lhe tocava levemente as palpebras; + Muda a boca; no olhar toda a eloquencia! + + Entrámos na allameda. Era sol posto. + Ao chegarmos á porta, appareceu-me + Um personagem que d'ali saía, + Baixo, gordo, roliço, impertigado, + Sorriso de barão, cara opulenta, + E ar de um homem contente de si proprio. + + --«É de certo barão ou brasileiro.»-- + --«Brasileiro e barão»--disse-me Julia. + --«Visita d'esta casa ha muito tempo?»-- + --«Ha muito tempo sim»--respondeu ella + Com certa hesitação--«Não lhe fallaste?»-- + --«Felizmente escapei de tal desgraça!»-- + + Subi; cheguei á sala; ella deixou-me + Por algum tempo só junto á janella. + Sentei-me a respirar o vivo aroma + Da fresca viração da noite amena. + Mudára tudo em mim completamente: + Resfriára-se o fogo dos desejos, + E o sentimento despontava n'alma! + + Vaporosa, ideal, dentro de pouco + A meus olhos surgíra uma figura + Cuja forma gentil me arrebatava! + No purissimo azul dos olhos castos, + Tremiam, scintillando, algumas lagrimas; + O sorriso, gelado á flor dos labios, + Como gela o sorriso da virtude + Quando pára assustada ante o peccado. + Tirando a corôa de virgineas flores, + Que lhe cingia a fronte immaculada, + Olhára para mim! Oh! Deus supremo! + A expressão d'esse olhar era a do anjo + Ao contemplar um infeliz na terra! + Depois, soltando a voz, estas palavras + Com doçura e tristeza proferíra: + + --«Parto, e deixo-te no mundo! + Fujo, timida innocencia, + Ouvindo o rumor profundo + D'esta agitada existencia! + + Vi-te um dia; era na hora + Em que a briza é mais saudosa, + Em que a luz do sol descora, + E dá mais perfume a rosa! + + Est'alma toda candura, + Á tua alma se rendia; + E com que immensa ternura + Os teus protestos ouvia! + + Protestos de um coração + Que sem susto, e sem tremor, + Respondia co'a traição + Ás provas do meu amor! + + A grinalda qui'inda vês + Nesta fronte desbotada, + Vai cair-te em breve aos pés, + Mas vai cair desfolhada! + + Na minha ingenua innocencia, + Aspiro tambem ao ceo, + Como aspira a grata essencia + Da flor que no val nasceu! + + Fragil flor que em pura aurora, + Vendo o sol sorrindo, amou; + Mas d'esse amor numa hora + O vivo fogo a matou!»-- + + A voz emmudeceu. O olhar sereno + Sobre mim se cravou com mais ternura! + Era Lelia, ou seria a imagem d'ella + Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados? + Tudo era incerto e vago no meu animo, + Como é vaga a impressão d'um bello sonho! + Aureola de luz resplandecente + Veiu então inundar aquella fronte. + Reconheci emfim, oh! era Lelia, + Que desprendêra a voz, que proferíra + Com tão profundo affecto aquellas fallas! + A seus pés nesse instante allucinado + Num extasi de amor me precipito, + Repetindo anhelante estas palavras: + + --«Resurge outra vez das sombras + Da tristeza em que vivia + Est'alma, é toda alegria, + Volve á tua alma infantil. + És minha. Sou teu. A vida + Para nós vai ser agora + Mais risonha do que a aurora, + Mais florída do que abril! + + Oh! se um dia, desvairado, + Ouzei trair-te, innocente, + Como o remorço pungente + Te veiu depois vingar! + Como agora, arrependido, + O meu coração procura + Dar-te emfim quanta ventura, + Quanto amor se pode dar!»-- + + Nesse momento uma infernal risada + Me fez estremecer. Subito acordo + Da suave impressão do mago sonho, + E que vejo ante mim?! uma figura + Ironica e fatal! Era o Diabo! + Tranzido de terror em vão procuro + Meus olhos desviar d'aquelles olhos, + Cuja sinistra luz me fascinava! + Suspendendo na mão livida e fria + A mesma c'roa de virginias flores, + Que eu tinha visto na graciosa fronte + Da celeste visão que me encantára, + Disse emfim com satanica ironia: + --«Olha: é esta a grinalda immaculada, + Da tua ingenua e seductora Lelia! + Agora, aqui a tens; custou cem libras, + Não ha muito, ao rotundo brasileiro + Que viste á porta d'esta nobre casa! + Julia commigo contractára a venda. + Se vens mais cedo um'hora inda podias + Das garras do falcão salvar a pomba!»-- + + Não ouvi nada mais: tinha perdido + A consciencia da vida nesse instante! + + Quando, e como acordei d'aquelle estado, + Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos + O espirito infernal se convertêra + Na figura gentil de um bello moço + Alto, airoso, elegante, e delicado. + --«Olha bem para mim, tornou sorrindo; + Inda te inspira horror o meu aspecto? + Já vês, meu caro amigo, que o Demonio + Não é sempre tão feio como o pintam.»-- + --«_Vade retro Satan_»--disse eu, buscando + Uma pequena cruz que havia muito + Costumava trazer pendente ao peito, + E já forte de mim ia mostral-a, + Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde + A mão fallaz de Julia m'a roubára. + Puz os olhos no chão desalentados; + O remorso cruel naquelle instante + A turvada consciencia me pungia! + --«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta! + Olha em roda dos teus, encara o mundo, + Como o deve encarar quem tem bom senso. + + Eu cheguei de Paris, e tinha medo + De perder o meu tempo nesta terra; + Mas, ah! que me enganei! tenho comprado + Um par de figurões quasi de graça! + Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva, + Nunca tens um real, ó desgraçado! + Não faças versos mais; faze politica; + Improvisa um jornal; morde, abespinha, + Sem consciencia e sem dó, a honra alheia! + Hoje quiz apalpar a culta imprensa, + Famosa instituição que me tem dado + Ha tempos para cá milhares d'almas. + Entre um grupo de illustres publicistas, + Quasi todos catões, foi-me indicado + O primeiro catão dos nossos dias. + Uma palavra só fôra bastante + Para tudo explicar entre nós ambos. + Homem da situação, ou mais exacto, + Homem das situações, sabe de quanto + Se agita em torno a si nesta republica. + O que mais me espantou foi que no mundo + Podesse haver mortal tão venturoso! + Pasmam todos ao vêr o que elle come + Desde a meza do opr'ario á meza opipara, + De opulento negreiro ou potentado + De mais alto valor se acaso existe! + Póde zumbir a inveja em volta d'elle, + Morder-lhe a fama a cavilosa intriga, + Exaltado rugir o odio implacavel, + Nada d'isto consegue perturbal-o, + Nem cortar-lhe o seu acto digestivo! + É nedio, é luzidiu, é recebondo, + Como um gallo capão! Perdoa a imagem. + Crava os olhos attentos neste exemplo + De solida moral; segue as pizadas + Deste egrejeo varão, e eu te asseguro + Que has de em breve alcançar um nome illustre. + Tudo agora me corre ás maravilhas; + Nunca pensei que em terra tão pequena + Se podessem fazer tão bons negocios. + Hoje fui contratar com certa empreza + De um moderno jornal que se atirava, + Como lobo esfaimado, ao ministerio. + Era o mimo, era a flor, era o portento + Da incorrupta e briosa mocidade! + Essa, comprei-a então por attacado; + Escaparam só dois, pobres diabos, + Que nunca hão de passar da cepa torta! + Que dia tão feliz! a toda a pressa + Fui depois assistir ao desembarque + De um nobre titular, victima imbelle, + Do veneno infernal da torpe inveja. + O honrado cidadão vinha entregar-se + Nas mãos severas da imparcial justiça. + Fazia gosto vêr a comitiva + Dos invictos heroes que o circundavam. + Algum ranço burguez inda entre dentes + Se atrevêra a dizer que não passava + De um cadímo ladrão o illustre conde; + E se eu não chego a tempo, era filado + Quando saltasse ao caes por quatro guitas. + Vê tu pois quanto póde o meu imperio! + Com raras excepções, a livre imprensa + Não soltou nem sequer uma palavra! + + É tempo de voltar á bella Julia: + Esta linda mulher era beata + Da esplendida edicção que existe agora. + Encontrei-a uma vez num dia santo + De grande devoção, quando acabava + De pôr aos pés de um padre os seus peccados. + Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo, + A singela espressão d'esta innocente, + Soprou-me o fogo de infernaes desejos. + Como vês, é distincto o meu aspecto, + E apesar do terror que ao mundo inspiro, + Muitas mulheres ha que intimamente + Se agradam mais de mim que dos janotas. + Oh! que austeras virtudes nesse dia + Me caíram nas mãos! Lelia, embebida + Nas suas orações, passou, cravando + Com modestia no chão os olhos bellos. + Não fez reparo em mim; mais forte ainda, + Me ficára a vaidade remordendo. + Lembrei-me então da irmã como instrumento + Para alcançar o fim que ambicionava. + Por entre o raro veo que lhe encobria + O rosto seductor, de espaço a espaço + Se viam scintillar os olhos negros + Com mais fogo e mais luz do que as estrellas + Quando as nuvens do ceo se rarefazem. + (A imagem é vulgar, porém confessa + Que tu proprio tens feito outras peores.) + Ella olhou para mim, aproximei-me, + Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde + Perfeito accôrdo havia entre nós ambos. + Precisava ostentar-lhe á luz do mundo + O esplendido poder dos seus encantos. + Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta, + Joias, vestidos, trens apparatosos, + Quanto emfim dá realce á formosura, + Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella. + Nada d'isto porém causára effeito + No joven coração da casta Lelia. + Olhava para a irmã como assustada, + Quando a via ostentar tanta grandeza. + Por mil vezes tentei ver se podia + Aproximar-me d'ella; era impossivel. + Adivinhas porque? trazia ao peito + Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado + Pouco antes de soltar o extremo alento. + Quando na flor da vida e da innocencia + Vejo a meu lado encauta formosura, + Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo + Presa tanto como eu uma alma ingenua, + Mas é para a perder! Desculpa ao menos + Em nome da franqueza este teu servo. + + Um sacerdote ancião que alem habita, + Naquella ermida que d'aqui se avista, + Teima em não m'a deixar; tu só podias + Ajudar-me a vencer nesta batalha. + Inda ha pouco menti quando te disse + Ser tarde já para salvar a pomba. + É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias + D'aquelle coração que te idolatra. + Tudo é luz, seducção, amor, encanto, + Na voz, no olhar, na languida ternura + Da rosa virginal que tu despresas! + Anhelantes te esperam já seus labios, + O seu peito infantil por ti suspira, + No ouvido sente a voz dos teus protestos, + O subito rubor lhe affronta as faces! + Não a vês hesitar, tremer, fugir-te, + Acercar-se outra vez, sorrir a furto, + Escondendo nas mãos a fronte bella? + De novo inda luctar, mas já sem forças + Caír por fim num languido deliquio? + Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»-- + Um momento depois d'estas palavras, + Em doce consonancia extranhas vozes + De improviso romperam neste canto: + + --«Seja a breve passagem da vida + Uma serie de ardentes delirios; + Quem procura colher os martyrios + Quando existem as rosas em flor? + + Venturosos ergâmos as taças + Onde brilha o licor purpurino, + E soltemos as vozes num hymno + Consagrado aos deleites do amor! + + Vem poeta: as tristezas do mundo + Não comprimem jámais nossas almas; + Nós cercâmos de flórdais palmas + A existencia votada ao prazer! + + O que importa que a noite succeda + Aos sorrisos do astro diurno? + Para nós o seu manto nocturno + Mil delicias nos torna a trazer!»-- + + Apossou-se de mim o immundo espirito. + --«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse; + Ao teu fatal poder entrego est'alma! + Dize, dize, onde está essa que eu vejo, + Mas que procuro em vão cingir nos braços!»-- + --«Onde está? vais sabel-o, e num momento + A seus pés cairás ebrio de gosto!»-- + + Ao secreto aposento onde jazia + A virgem dos meus sonhos, me dirige + O torpe embaidor. Entro em delirio, + E ardendo em chammas de brutaes desejos, + No casto ninho onde vivia a pomba! + De repente uma luz serena e branda + Veiu alegrar as trevas da minh'alma. + Outra vez á razão volto, e que vejo! + Ante mim venerando sacerdote, + Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde + A enganadora Julia me roubára. + Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas, + E os olhos postos no sagrado emblema, + Estas doces palavras me dizia: + + --«Deixou-te o negro espirito! + Feliz de novo agora, + Sorri tua alma em extasi + Ao ver a pura aurora, + Da qual sómente é nuncia + Na terra a humilde cruz! + Só ella, eterno simbolo + De amor e de piedade, + Brilha no mundo esplendida, + E diz á humanidade: + Surge das trevas lugubres; + Ascende á etherea luz! + + Só ella quando rapida + A morte nos alcança, + Diffunde em nossos animos + O lume da esperança, + Que nos descobre a patria + Da gloria perennal! + + Perde a tristeza o tumulo; + O sepulcral cipreste, + Deixando o aspecto funebre, + De flores se reveste! + Soam divinos canticos + Em coro angelical! + + Oh! quem podéra pintar + A expressão que nesse instante + Tinha o candido semblante + Do meu anjo tutelar! + + Como a pomba da arca santa + Que um dia á terra desceu, + Vinha dizer-me: Acabaram + As tempestades do ceo! + + Deixa o mundo, antro medonho + Onde sómente fulgura + Nas curtas horas de um sonho + A branda luz da ventura! + + Verás a meu lado agora + Sorrir eternos amores, + Como sorriem as flores, + Á luz da punicia aurora!»-- + + Julguei-me nesse instante transportado + Á mansão do Senhor. Caindo em extasi, + Disse, rompendo em delicioso pranto: + + --«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem, + Jura que para sempre has de ser minha.»-- + --«Juro»--disse ella então. Nesse momento + Aproximou-se a nós o sacerdote, + Cuja fronte senil resplendecia + Co'a luz celeste que illumina o justo; + E unindo as nossas mãos, com voz solemne + A sacrosanta benção proferíra! + + * * * * * + + Aqui termina, ó musa, a minha historia. + Acordei do meu sonho, e depois d'elle + Tenho visto o demonio algumas vezes; + Não menos vezes a traidora Julia; + Porem Lelia, a gentil graciosa virgem, + A predilecta noiva da minh'alma, + Essa apenas em sonhos me apparece! + +Maio de 1862. + + + + +XLVII + +HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA + + + Desherdados no berço de heranças, + Desvalidos dos braços de mãe, + Quem nos cérca o viver de esperanças, + Nos educa, nos veste, e mantem? + + CORO + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo + Como iremos a vida encontrar? + Neste valle enredado e profundo + Quem nos ha de o caminho apontar? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Quem virá ser-nos pae na orphandade? + Consolar nossos dias de dor? + Circundar-nos depois noutra edade, + De delicias, de sonhos, de amor? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Dos thesouros de affecto que encerra + Entre vós maternal coração, + Quem vos faz a nós orphãos na terra, + Repartir d'esse affecto um quinhão? + + O bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + E esse affecto ideal que illumina + O existir de um reflexo do ceo, + Que a soffrer e que a amar nos ensina, + Quem no peito materno o accendeu? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Mas nós crêmos, sentimos, amâmos, + A Deus grande na terra e nos ceos, + E do intimo da alma exclamâmos: + Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus! + +1850. + + + + +XLVIII + +GRATIDÃO E SAUDADE + + +(Recitada no Theatro) + + De candidos sonhos, de luz, e de flores, + Cercada a existencia começa a sorrir; + Alegre o presente nos falla de amores, + De amores nos falla brilhante o porvir! + + Depois no horisonte sereno, e risonho, + Carregam-se as sombras, perturba-se a luz, + Esvae-se a ventura veloz como um sonho, + Que apenas instantes na vida reluz! + + Assim penetrando no mundo das artes, + Ao tímido lume de frouxo clarão, + Olhava, e só via por todas as partes, + A meiga esperança sorrindo em botão! + + De lyrios e rosas grinalda fragrante, + Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi; + Nos braços a aperto, convulsa, anhelante, + Aos labios a levo, na fronte a cingi! + + Foi breve este sonho de amor, e de encanto; + Acordo, e procuro debalde uma flor; + Inundam-se os olhos de angustia e de pranto, + Ao ver que só restam espinhos e dor! + + Só restam espinhos das pallidas rosas, + A quem pobre artista não ousa pedir + Os loiros frangrantes, as palmas viçosas, + Que a fronte de genio só devem cingir! + + Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura, + Não quiz que durasse tão meiga illusão, + Em paga deixou-me no peito a doçura. + De terna, suave, leal _gratidão_! + + Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, + Sincera tributa nest'hora o dever! + Embora outras palmas morressem,--a palma + De gratas memorias não póde morrer! + + Desfeitos os sonhos, fanadas as flores, + Quebrado o encanto da pura illusão, + Que resta ao artista?--espinhos e dores, + Saudades! mais nada no seu coração! + + Saudades da gloria, da luz, da ventura, + Dos magicos sonhos, presente dos ceos, + Saudades que attestam a funda amargura, + Que sente ao dizer-vos agora um adeus! + +1853. + + + + +XLIX + + +Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua +filha.[1] + + «Não sabe o que é padecer, + Quem o filhinho que adora + Não viu ainda morrer!» + (A. Garrett) + + --«Bem sei que era exilio a terra + Para ti, anjo do ceo! + Porém, filha, abandonar-me + Quando toda a minha vida + Era a luz d'um olhar teu! + Ouvir essa voz infante, + Ver a impaciente alegria + De teu candido semblante! + + «Deixar-me assim na existencia + Triste, só, desamparado, + Aquella flor de innocencia! + Que lhe fiz? tinha-a cercado + De quanto amor neste mundo + Pela mão da Providencia + A peito de homem foi dado! + Oh! que affecto tão profundo! + E tu pudeste partir? + Pois não tiveste piedade + D'esta solemne amargura, + D'esta infinita saudade? + Vi-te inda olhar-me, e sorrir, + Erguer os olhos aos ceos, + No instante de proferir, + O fatal e extremo adeus!... + ........................... + ........................... + + «Oh! volve outra vez a mim, + Desce á terra, anjo do ceo, + Vem dar-me a ventura emfim! + ........................... + ........................... + Olha: o vivo sol de Abril + Já nestes campos rompeu; + As rosas desabroxaram; + O rouxinol desprendeu + A voz em saudosos cantos; + Os sitios onde passaram + Os teus descuidados annos, + Não os vês cheios de encantos? + São estes! a mesma fonte, + Ferve alem; naquelle outeiro + O mesmo casal alveja; + As ramas do verde olmeiro, + Dão sombra á modesta igreja + Onde tu vinhas resar, + Quando o som da Ave-Maria, + N'hora meiga do sol posto, + De vaga melancolia + Toldava teu bello rosto! + Tudo o mesmo!?... esta inscripção!... + Este nome!... anjo do ceo, + Este nome, filha, é teu!! + Oh! meu Deus, por compaixão, + Na mesma pedra singela, + Juntae o meu nome ao d'ella!»-- + ............................... + ............................... + ............................... + E Deus ouviu a oração... + O mesmo tumulo encerra + Filha e pae. Na mesma lousa + Onde repousam na terra, + Uma lagrima saudosa + Vem hoje depôr tambem + A esposa, a viuva, a mãe! + +1854. + + [1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) + conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos + dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, + mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma + filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo + ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em + breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se + o cadaver do pae! + + + + +L + +CANÇÃO DOS PIRATAS + + +(Traduzido do Corsario de Byron) + + Sobre as ondas do mar azul ferrete, + Sem limites são nossos pensamentos, + E como as ondas nossas almas livres, + Por quanto alcança a doidejante briza + Cobrindo a vaga de fervente escuma + Nós temos uma patria! Eis os dominios + Onde fluctua o pavilhão que é nosso, + Sceptro a que devem humilhar-se todos! + Turbulenta e selvagem quando passa! + Da lucta ao ocio em taes alternativas + A vida para nós tem mil encantos! + Mas estes, oh! quem póde descrevel-os? + Não serás tu, escravo dos deleites, + Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente + Das alterosas vagas desmaiáras! + Não serás tu, vaidoso aristocráta, + Educado no vicio e na opulencia, + Tu que nem pódes repousar no somno, + Nem achar attractivos nos prazeres. + Oh! quem póde no mundo compr'endel-os? + A não ser o incançavel peregrino, + D'estes plainos que ficam sem vestigios; + Do qual o coração affeito aos p'rigos + Pula orgulhoso em delirante jubilo + Quando se vê sobre o revolto abismo! + Só elle présa a lucta pela lucta + E espera ancioso a hora do combate. + Quando o fraco esmorece apenas sente + No mais profundo do agitado seio + A esperança que vívida desponta + E o fogo da Coragem que se accende! + Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto + Que a nossos pés succumba o inimigo, + E comtudo mais triste que o repouso + Inda parece a morte! mas embora, + Embora, oh! póde vir! ao esperál-a + Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida; + E quando ella se acaba, pouco importa! + Caír pela doença, ou pela espada! + Haja um ente que prese inda algum resto + D'existencia senil! viva aspirando + Sobre o leito da dor um ar pesado, + Erguendo a custo a trémula cabeça! + Para nós são as relvas florescentes! + Emquanto ess'alma expira lentamente, + Foge a toda a pressão d'um salto a nossa! + Possa ainda ufanar-se esse cadaver, + Da cova estreita e do marmoreo tumulo + Que a vaidade dos seus lhe consagrára! + São raras, mas sinceras, nossas lagrimas, + Quando o oceano, abrindo-se, sepulta + No vasto seio os nossos camaradas! + Inda mesmo no meio dos banquetes + Funda tristeza nos rebenta d'alma + Quando a purpurea taça erguendo aos labios + A memoria dos nossos corôamos. + E o seu breve epithaphio é redigido, + Ao por do sol do dia da batalha, + Ao dividir as presas da victoria, + Quando a exclamam os rudes vencedores + Com a fronte anuviada de saudades: + Ai, de nós! como os bravos que morreram + Folgariam ditosos nesta hora! + +Julho de 1861. + + + + +LI + +NUM ALBUM + + +Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns +versos. + + No reverso da folha onde escrevo, + Um cantor jovenil pulsa a lyra, + E magoado, e sentido, suspira, + Com saudosas memorias d'amor! + + Na cadencia da lettra singela, + Qual murmurio de branda corrente, + Transparece sua alma innocente, + Toda vida, perfume, e calor! + + Variegado, risonho, brilhante, + Inda agora na flor da innocencia + Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia + Atravez do seu prisma gentil: + + Cuida extinctas ficções encantadas, + Crê perdido o seu sonho d'amores, + Julga vêr desbotadas as flores + Que adornavam sua harpa infantil!... + ................................ + + Ai! poeta! ai de ti! que saudade, + Que saudade tão funda e sentida + Has de ter d'esses annos da vida, + Quando os vires ao longe ficar! + + Que saudade tão funda do tempo + Em que tinhas sentido saudade, + Has de ter quando a triste orfandade + Dos affectos tua alma enluctar! + + Ouve pois joven bardo que a lyra + Pulsas hoje com tanta amargura; + De illusões, de poesia e ventura, + Enche agora teus annos em flor. + + Que são estes ephemeros sonhos, + Os que vem derramar grata essencia + Sobre a tarde da nossa existencia + Dar-lhes vida, perfume, e calor! + +Agosto de 1854. + + + + +LII + + +Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha. + + Na hora melancolica, + Do despedír do dia, + Quando se escuta o cantico, + Ou extranha melodia, + Que na deveza languido + Desprende o rouxinol; + + Quando desponta pallida + No firmamento a lua, + E que inda incerta e trémula, + No mar azul fluctua + Co'a viva cor da purpura + A frouxa luz do sol!... + + Quem passe pelo tumulo + Que encerra a virgem bella, + Quebre o silencio tetrico + A orar prece singela + Por essa que a existencia + Deixára inda em botão! + + Por ella!? ai, não! a supplica + Ao nosso Deus erguida, + Seja por quem, perdendo-a, + Perdeu parte da vida, + E que no mundo estatico + A filha busca em vão! + + Ella este val de lagrimas + Abandonou, subindo + Ao ceo que lhe era patria!... + Ella, feliz, sorrindo, + Brilha no mundo ethereo + Ao lado do Senhor! + + Por nós, oh, sombra angelica, + Implora a Deus piedade! + Anjo das azas candidas, + Consola a saudade, + D'aquelles que, adorando-te, + Te viram morta em flor! + +Outubro de 1852. + + + + +INDICE + + +A Helena + +I--A convalescente do outono + +II--Feliz de amor! + +III--Vaes partir! + +IV--A Julia + +V--Improviso + +VI--A um retrato + +VII--Quien no ama, no vive + +VIII--Amanhã + +IX--Anjo caido + +X--Piedade + +XI--Belleza e morte + +XII--Oração da manhã + +XIII--Caridade + +XIV--Bella sem coração + +XV--Perdoaste + +XVI--Tres retratos + +XVII--Adeus + +XVIII--A visão do baile + +XIX--Receios + +XX--Lembras-te? + +XXI--Pois ser pallida é defeito? + +XXII--Dever + +XXIII--Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez + +XXIV--Parisina + +XXV--A valsa + +XXVI--Recordações + +XXVII--Sê feliz + +XXVIII--A folha desbotada + +XXIX--Num album + +XXX--Onde se encontra a ventura + +XXXI--Quem dirá + +XXXII--Um brinde + +XXXIII--Aquelle dia + +XXXIV--Versos para recitar ao piano (primeira) + +XXXV-- » » » (segunda) + +XXXVI-- » » » (terceira) + +XXXVII--Ciumes do passado + +XXXVIII--Num album + +XXXIX--Amor e duvida + +XL--Num album + +XLI--Se coras não conto + +XLII--Anjo e virgem + +XLIII--A M.me Lotti + +XLIV--Primavera + +XLV--Voltas + +XLVI--Um sonho + +XLVII--Hymno da infancia desvalida + +XLVIII--Gratidão e saudade + +XLIX--Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá e de sua filha + +L--Canção dos Piratas + +LI--Num album + +LII--Á memoria da Ex.ma Sr.a D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Versos de Bulhão Pato, by +Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + +***** This file should be named 25840-8.txt or 25840-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/8/4/25840/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Versos de Bulhão Pato + +Author: Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +Release Date: June 19, 2008 [EBook #25840] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<div class="ficha_tecnica"> +<p style="font-size: 2em;">VERSOS</p> +<br> +<br> +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> +<br> +<br> +<p style="font-size: 2em;">BULHÃO PATO</p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p style="font-size: 0.8em;">LISBOA<br> +<small>TYP. DA SOCIEDADE TYPOGRAPHICA FRANCO-PORTUGUEZA.<br> +6, Rua do Thesouro Velho, 6.</small><br> +1862</p> +</div> +<div class="indice"> + + +<h1>INDICE</h1> +<ul> +<li><a href="#Poema00">A Helena</a></li> +<li><a href="#Poema01">I—A convalescente do outono</a></li> +<li><a href="#Poema02">II—Feliz de amor!</a></li> +<li><a href="#Poema03">III—Vaes partir!</a></li> +<li><a href="#Poema04">IV—A Julia</a></li> +<li><a href="#Poema05">V—Improviso</a></li> +<li><a href="#Poema06">VI—A um retrato</a></li> +<li><a href="#Poema07">VII—Quien no ama, no vive</a></li> +<li><a href="#Poema08">VIII—Amanhã</a></li> +<li><a href="#Poema09">IX—Anjo caido</a></li> +<li><a href="#Poema10">X—Piedade</a></li> +<li><a href="#Poema11">XI—Belleza e morte</a></li> +<li><a href="#Poema12">XII—Oração da +manhã</a></li> +<li><a href="#Poema13">XIII—Caridade</a></li> +<li><a href="#Poema14">XIV—Bella sem +coração</a></li> +<li><a href="#Poema15">XV—Perdoaste</a></li> +<li><a href="#Poema16">XVI—Tres retratos</a></li> +<li><a href="#Poema17">XVII—Adeus</a></li> +<li><a href="#Poema18">XVIII—A visão do baile</a></li> +<li><a href="#Poema19">XIX—Receios</a></li> +<li><a href="#Poema20">XX—Lembras-te?</a></li> +<li><a href="#Poema21">XXI—Pois ser pallida é +defeito?</a></li> +<li><a href="#Poema22">XXII—Dever</a></li> +<li><a href="#Poema23">XXIII—Á morte da +Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup> D. M. Henriqueta de Campos +Valdez</a></li> +<li><a href="#Poema24">XXIV—Parisina</a></li> +<li><a href="#Poema25">XXV—A valsa</a></li> +<li><a href= +"#Poema26">XXVI—Recordações</a></li> +<li><a href="#Poema27">XXVII—Sê feliz</a></li> +<li><a href="#Poema28">XXVIII—A folha desbotada</a></li> +<li><a href="#Poema29">XXIX—Num album</a></li> +<li><a href="#Poema30">XXX—Onde se encontra a +ventura</a></li> +<li><a href="#Poema31">XXXI—Quem dirá</a></li> +<li><a href="#Poema32">XXXII—Um brinde</a></li> +<li><a href="#Poema33">XXXIII—Aquelle dia</a></li> +<li><a href="#Poema34">XXXIV—Versos para recitar ao piano +(primeira)</a></li> +<li><a href="#Poema35">XXXV— » » » +(segunda)</a></li> +<li><a href="#Poema36">XXXVI— » » » +(terceira)</a></li> +<li><a href="#Poema37">XXXVII—Ciumes do passado</a></li> +<li><a href="#Poema38">XXXVIII—Num album</a></li> +<li><a href="#Poema39">XXXIX—Amor e duvida</a></li> +<li><a href="#Poema40">XL—Num album</a></li> +<li><a href="#Poema41">XLI—Se coras não conto</a></li> +<li><a href="#Poema42">XLII—Anjo e virgem</a></li> +<li><a href="#Poema43">XLIII—A M.<sup>me</sup> Lotti</a></li> +<li><a href="#Poema44">XLIV—Primavera</a></li> +<li><a href="#Poema45">XLV—Voltas</a></li> +<li><a href="#Poema46">XLVI—Um sonho</a></li> +<li><a href="#Poema47">XLVII—Hymno da infancia +desvalida</a></li> +<li><a href="#Poema48">XLVIII—Gratidão e +saudade</a></li> +<li><a href="#Poema49">XLIX—Diante do tumulo de Salvador +Corrêa de Sá e de sua filha</a></li> +<li><a href="#Poema50">L—Canção dos +Piratas</a></li> +<li><a href="#Poema51">LI—Num album</a></li> +<li><a href="#Poema52">LII—Á memoria da +Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup> D. Maria Gertrudes Manuel da +Cunha</a></li> +</ul> +<p style="border: dotted 1px gray; font-size: 0.7em; color: gray;">Nota do transcritor: no livro impresso o índice encontra-se no fim da obra!</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h2><a name="Poema00" id="Poema00">A HELENA</a></h2> +<p>Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos<br> +O teu saudoso valle, e lentamente<br> +Pela elevada encosta caminhámos?<br> +<span style="margin-left: 5em;">O sol do estio ardente,</span><br> +Já não brilhava nos frondosos ramos<br> +<span style="margin-left: 5em;">Do arvoredo virente.</span><br> +<br> +Chegára o fim do outono: a natureza,<br> +Sem ter os mimos da estação festiva,<br> +Nem aquelle esplendor e gentileza<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Que tem na quadra +estiva,</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Na languida tristeza,</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Na luz branda e serena</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">D'aquelle ameno dia,</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Que immensa poesia,</span><br> +E que saudade respirava, Helena!<br> +<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Subindo pelo monte,</span><br> +Chegámos ao casal onde habitava<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">A tua protegida,</span><br> +Aquella pobre anciã que se agarrava<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Aos restos d'esta +vida!</span><br> +Assim que te avistou, ergueu a fronte<br> +Curvada ao peso de tão longa edade,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Sorrindo nesse +instante</span><br> +Com tal vida, que a luz da mocidade<br> +Parecia alegrar o seu semblante!<br> +<br> +Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,<br> +Grosseiras pelo habito constante<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Do trabalho da terra,</span><br> +Queimadas pelo vento sibilante,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">E pelo sol da serra,</span><br> +Produzia essa mão graciosa e bella,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Effeito similhante</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Ao que por entre o +mato</span><br> +Produziria a rosa de Benguela,<br> +A flor mais alva e de mais fino trato!<br> +<br> +Vinte annos tu contavas nesse dia;<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">A fiel servidora,</span><br> +Era a primeira vez que não podia<br> +Deixar a casa ao despontar da aurora,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">E cheia de alegria</span><br> +Caminhar para o valle como outr'ora,<br> +Depôr uma lembrança em teu regaço,<br> +E unir-te ao coração num meigo abraço!<br> +<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Tu, na força da +vida,</span><br> +Circundada de luz e formosura,<br> +Foste levar á pobre desvalida<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Os dons do lar +paterno;</span><br> +Alegrar com teu riso de ternura<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Aquelle frio inverno!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Ao ver-te com teus +braços,</span><br> +Nos seus braços senis entrelaçados,<br> +A ventura nos olhos encantados,<br> +A inspiração na fronte deslumbrante,<br> +Afigurou-me então o pensamento<br> +Ver um anjo descido dos espaços,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">D'aspecto fulgurante,</span><br> +Enviado por Deus nesse momento,<br> +Para animar os derradeiros dias<br> +De quem cançado do lidar constante<br> +Abre o seio na morte ás alegrias!<br> +<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">As lagrimas de gosto,</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Corriam cristalinas</span><br> +No rosto d'ella e no teu bello rosto!<br> +Como orvalhos do ceo aquelles prantos,<br> +Um brilhava na hera das ruinas,<br> +Outro na flor de festivaes encantos,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Na rosa das campinas!</span><br> +<br> +Quando voltaste a mim illuminava<br> +O teu semblante uma alegria infinda.<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Depois quizeste ainda</span><br> +Ir visitar a ermida que ficava<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">No apice do monte:</span><br> +Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">No esplendido +horisonte</span><br> +Já declinava o sol quando chegámos.<br> +<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Era singelo, mas sublime o +quadro!</span><br> +<span style="margin-left: 5.5em;">Em roda o mato +agreste;</span><br> +No meio a pobre ermida; ao lado d'ella<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Um secular cypreste,</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">E sobre a cruz do adro</span><br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Pendente uma capella</span><br> +De algumas tristes, desbotadas flores,<br> +Talvez emblema de profundas dores!<br> +<br> +<span style="margin-left: 4em;">Oh! como tu, suspensa</span><br> +Num extasi ideal de sentimento,<br> +Expandias o livre pensamento<br> +<span style="margin-left: 4em;">Pela amplidão +immensa!</span><br> +Como depois descendo das alturas<br> +Aonde te arrojára a phantazia,<br> +Parece que a tua alma me trazia<br> +Occulto premio de immortaes venturas!<br> +<br> +Tanto expressava o teu olhar profundo,<br> +Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia<br> +<span style="margin-left: 4em;">O homem neste mundo,</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Jámais me trouxe a +idéa</span><br> +Do suppremo poder da Providencia<br> +<span style="margin-left: 4em;">Com tamanha eloquencia!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 4em;">O sol quasi no termo</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Com um brando reflexo,</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Cingia a cruz do ermo</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Em amoroso amplexo!</span><br> +O rei da creação, o astro orgulhoso,<br> +<span style="margin-left: 4em;">Que enche a terra de +luz,</span><br> +Tambem vinha prostrar-se saudoso<br> +<span style="margin-left: 4em;">Aos pés da humilde +cruz!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 4em;">Era solemne e santo</span><br> +Naquell'hora supprema o teu aspecto!<br> +Nos labios a oração, no rosto o pranto,<br> +As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,<br> +Os olhos postos na amplidão do espaço,<br> +<span style="margin-left: 4em;">E em derredor da frente</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Um luminoso traço</span><br> +A inundarte de luz resplandecente!<br> +..................................<br> +<br> +Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,<br> +E de outros dias de íntimas venturas,<br> +<span style="margin-left: 4em;">De immensa poesia,</span><br> +Nasceram essas paginas obscuras,<br> +<span style="margin-left: 4em;">Que hoje a teus pés +deponho,</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Como saudoso emblema,</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Do tempo em que sorrira</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">O nosso bello sonho!</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Terias um poema,</span><br> +<span style="margin-left: 4em;">Se tão gratas +memorias</span><br> +Podessem ser cantadas numa lyra<br> +<span style="margin-left: 4em;">Votada a eternas +glorias!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 4em;">Emfim: se um pensamento,</span><br> +Se uma singela idéa onde transpire<br> +O perfume de vivo sentimento,<br> +Nestas folhas traçar a minha penna...<br> +A estrophe, o canto que o leitor admire,<br> +<span style="margin-left: 4em;">Seja o teu nome, +Helena!</span><br></p> +<p class="data">6 de Junho de 1862.</p> + + +<h1><a name="Poema01" id="Poema01">I<br></a></h1> +<h2>A CONVALESCENTE NO OUTONO</h2> +<p>Revive teu rosto pallido<br> +Á chamma do meu amor;<br> +De novo com mais ardor<br> +Pula em teu seio, querida,<br> +O sangue, o prazer, a vida.<br> +<br> +O sopro que na existencia<br> +D'esta luz nos illumina,<br> +Não se ha de extinguir jámais;<br> +Oh! provém da mesma essencia,<br> +Da mesma porção divina,<br> +Com que a mão da Providencia<br> +Torna as almas immortais!<br> +Firma teu braço ao meu braço,<br> +Vem commigo respirar<br> +Este ar vivo e salutar.<br> +<br> +Não sentes na luz do ceo,<br> +E no perfume saudoso<br> +Do bosque espesso e formoso,<br> +Que o doce outono volveu?<br> +As folhas que pelo chão<br> +Crestadas dispersa o vento,<br> +Não desprendem um lamento<br> +Que intristece o coração!?<br> +<br> +E a voz d'essa ave amorosa,<br> +Que alem na balsa murmura,<br> +Melancolico modilho,<br> +Não parece a voz saudosa<br> +Da mãe que adormenta o filho<br> +Entre os braços com ternura?<br> +<br> +D'aquelle pobre casal,<br> +O fumo que vae subindo<br> +Em ondulante espiral,<br> +Não diz que em volta do lar<br> +Se reune a pobre gente,<br> +Que já de perto pressente,<br> +O frio inverno chegar?<br> +<br> +Não vês que ha tanta tristeza<br> +Na voz que se eleva a Deus<br> +Agora da natureza!<br> +Oh! mas como aos olhos teus,<br> +E como ao meu coração<br> +É grata a melancolia<br> +D'esta languida estação!<br> +<br> +Toda a explendida poesia<br> +Do ceo, da terra, e das flores,<br> +Quando mil cansões de amores<br> +Improvisa o rouxinol,<br> +Alegrando o mez de maio<br> +Desde os clarões do arreból<br> +Até que em doce desmaio<br> +Nas aguas se occulte o sol,<br> +Terá, sim, tem mais frescura,<br> +Mais vida e mais esplendor,<br> +Mas não tem tanta ternura,<br> +Nem respira tanto amor!<br> +<br> +Paremos aqui, descansa<br> +Um momento neste abrigo;<br> +O sopro da aragem mansa<br> +Anda em roda a murmurar,<br> +E um raio de sol amigo,<br> +A teus pés se vem prostrar<br> +...........................<br> +Oh! que noites de amargura!<br> +Que horas lentas de agonia!<br> +Que instantes naquelle dia,<br> +Quando tu sem voz, sem gesto,<br> +Suspensa num fio a vida...<br> +Emfim te julguei perdida!<br> +<br> +Chegára a noite; uma estrella,<br> +Uma só, não transluzia<br> +No ceo triste e carregado;<br> +Oppresso e desalentado,<br> +O coração me batia.<br> +<br> +Pouco a pouco no horisonte<br> +Foi rompendo a nevoa densa;<br> +Era a vida, a luz, o dia,<br> +Aquella alegria immensa,<br> +Que no murmurar da fonte,<br> +No perfume da campina,<br> +Na brisa e na voz divina<br> +Do amoroso rouxinol,<br> +Seduz, arrebata, inspira,<br> +Quando acorda a terra em canticos,<br> +Aos raios vivos do sol!<br> +<br> +«Pois tudo se anima agora,<br> +Tudo nasce com a aurora,<br> +Tudo é vida e tudo é luz;<br> +Só nesta face adorada,<br> +Inerte, fria, gelada,<br> +Nem um só clarão reluz!»<br> +<br> +Ouviu Deus naquelle instante<br> +A minha supplica ardente;<br> +Em teu lívido semblante<br> +Vi despontar docemente<br> +Um reflexo semelhante<br> +Ao que o sol derrama á tarde<br> +Sobre as nuvens do ponente.<br> +<br> +Prostrei-me a rogar então;<br> +E essa estrella de bonança,<br> +Essa casta divindade,<br> +Risonha irmã do infortunio,<br> +Companheira da saudade,<br> +Que o mundo chama—Esperança—<br> +Senti-a no coração!<br> +<br> +Com aquelle sol explendido<br> +Que rompêra a nevoa densa,<br> +E com a alegria immensa<br> +Do mar, da terra, e dos ceos,<br> +Quiz de novo a Providencia<br> +Que eu visse nos olhos teus<br> +O mundo, a luz, a existencia!<br> +<br> +Agora pois, neste instante,<br> +Agora, que lá distante,<br> +O sino da pobre ermida<br> +Dá signal do fim do dia,<br> +Co' a prece da <i>Ave-Maria</i>,<br> +Ergâ-mos, ambos querida,<br> +Graças mil a Deus piedoso,<br> +Por te haver tornado á vida!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1854.</p> + + +<h1><a name="Poema02" id="Poema02">II<br></a></h1> +<h2>FELIZ DE AMOR!</h2> +<p>Não sabes que ao ver-te triste,<br> +E pensativa a meu lado,<br> +O rosto na mão firmado.<br> +E os olhos postos no chão,<br> +Calado, ancioso, anhelante,<br> +Quero ler no teu semblante<br> +A causa da dôr constante<br> +Que te opprime o coração?<br> +<br> +Pois não basta o meu amor<br> +Para te dar a ventura?<br> +Responde: quando a luz pura<br> +Do sol vem beijar a flor,<br> +Não lhe accende mais a côr?<br> +Não lhe dá mais formosura?<br> +<br> +Agora, quando se inflamma<br> +Em teu peito aquella chamma,<br> +Á qual tudo se illumina<br> +De viva, encantada luz,<br> +Dize: é quando, minha vida,<br> +Pallida, triste, abatida,<br> +A tua fronte se inclina,<br> +E melancolica sombra,<br> +De mal contida amargura<br> +Nos teus olhos se traduz?!<br> +<br> +Certeza de que és amada<br> +Com quanto poder na terra<br> +Em peito de homem se encerra,<br> +Tem-la em tua alma gravada!<br> +Então de fundo desgosto<br> +Porque vem nuvem pesada<br> +Carregar teu bello rosto?<br> +<br> +Pois se ao vívido calor<br> +Do sol a rosa fulgura<br> +E redobra aroma e côr,<br> +Não te ha de dar a ventura<br> +A chamma do meu amor?!<br></p> +<p class="data">Maio de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema03" id="Poema03">III<br></a></h1> +<h2>VAES PARTIR!</h2> +<p>Vaes partir! cada instante que passa<br> +Aproxima o adeus derradeiro,<br> +Para mim neste mundo o primeiro,<br> +Que teus olhos proferem aos meus!<br> +Vaes partir! nessas morbidas palpebras,<br> +Treme agora uma lagrima anciosa,<br> +Já deslisa na face formosa,<br> +Já teus labios me dizem adeus!<br> +<br> +Vaes partir! contemplar esses campos,<br> +Que o sol vivo de abril illumina,<br> +Ver as relvas da alegre campina<br> +Já cobertas agora de flor.<br> +Escutar as estrophes sentidas<br> +Que de tarde improvisam as aves,<br> +Recordar os instantes suaves<br> +De outros dias de encanto, e de amor.<br> +<br> +Vaes partir! vaes tornar aos logares<br> +Testemunhas de um ceo de delicias,<br> +Que em suaves risonhas caricias,<br> +Para nós neste mundo brilhou!<br> +Cada flor, cada tronco viçoso,<br> +Cada espaço de relva florída<br> +Vae lembrar-te uma scena da vida,<br> +Um momento feliz que passou!<br> +<br> +Quando for aos clarões da alvorada<br> +O perfume das plantas mais brando,<br> +Quando as aves voarem em bando,<br> +E cantarem ditosas no val;<br> +Quando as aguas correrem mais vivas,<br> +Pelo verde declivio do monte,<br> +Quando as rosas erguerem a fronte<br> +Animadas de um sopro vital...<br> +<br> +Que saudade! ai que funda saudade<br> +Has de ter d'esse tempo encantado,<br> +Em que bella e feliz a meu lado<br> +Viste as pompas da terra e dos ceos!<br> +Quando a aurora era a pura alegria,<br> +Uma vaga saudade o sol posto,<br> +Quando meigo sorria teu rosto<br> +Se eu fitava meus olhos nos teus!<br> +<br> +.................................<br> +<br> +Vaes partir! cada instante que passa<br> +Aproxima o adeus derradeiro,<br> +Para mim neste mundo o primeiro<br> +Que teus olhos proferem aos meus!<br> +Vaes partir! nessas morbidas palpebras,<br> +Treme agora uma lagrima anciosa,<br> +Já deslisa na face formosa,<br> +Já teus labios me dizem adeus!<br></p> +<p class="data">Abril de 1855.</p> + + +<h1><a name="Poema04" id="Poema04">IV<br></a></h1> +<h2>A JULIA</h2> +<h3>(Da Paquita)</h3> +<p>Naquella deserta ermida,<br> +Que alveja na serrania,<br> +Deu signal, Julia querida,<br> +O sino da <i>Ave-Maria</i>.<br> +<br> +Este som tão conhecido<br> +Da nossa innocente infancia,<br> +Como agora vem sentido<br> +Trazer-me viva á lembrança,<br> +Toda essa doce fragrancia<br> +D'aquelle existir d'então!<br> +<br> +Ai! lembrança não, saudade!<br> +Saudade Julia, tão funda...<br> +Mas tão grata, que me innunda<br> +De ventura o coração.<br> +<br> +Espera... se neste instante<br> +Mandasse á terra o Senhor,<br> +Anjo de meigo semblante,<br> +E aos dias d'aquella edade<br> +Nos tornasse o seu amor...<br> +Oh! responde-me, querida,<br> +Se quanto depois na vida<br> +De bello nos ha passado,<br> +Não devera ser trocado<br> +Por esses dias em flor?!<br> +<br> +Que lá vão! lembras-te ainda?<br> +Tu risonha doidejavas,<br> +Por entre as moitas de flores<br> +Como ellas fragrante e linda.<br> +Quando o som pausado e lento<br> +D'<i>Ave-Maria</i> escutavas,<br> +Então naquelle momento<br> +Aos pés da Cruz te prostravas!...<br> +<br> +Que fronte de anjo era a tua<br> +Vista ao reflexo amoroso<br> +Dos frouxos raios da lua!<br> +Uma tarde, ao pôr do sol,<br> +No recosto pedregoso<br> +Do monte nos encontrámos;<br> +Lembras-te! essa hora bateu,<br> +Porem nós mal a escutámos!<br> +Os olhos, tu perturbada,<br> +Baixavas, e no semblante<br> +Não sei que luz te brilhava,<br> +Eu sei que naquelle instante<br> +O prazer me enlouqueceu.<br> +<br> +Oh! fatal loucura aquella!<br> +Tinha-me ali tão perdido,<br> +Que, sem mais ver, delirante<br> +Nos braços te arrebatei.<br> +<br> +Não sei por onde vagava,<br> +Nem quanto, nem como andei;<br> +Só me lembra que a ventura<br> +Ali real me fallava,<br> +E que aos incertos lampejos<br> +Das estrellas desmaiadas,<br> +Impremi ardentes beijos<br> +<br> +Nas tuas faces rosadas!<br> +Foi breve aquelle delirio;<br> +Ao menos breve o julguei;<br> +E quando, outra vez á vida<br> +De sobressalto voltei,<br> +Desbotada como um lyrio<br> +Pelos vendavaes batido,<br> +Nos meus braços te encontrei!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1851</p> + + +<h1><a name="Poema05" id="Poema05">V<br></a></h1> +<h2>IMPROVISO</h2> +<p>Porque languida essa frente<br> +Descai, quando a tarde espira?<br> +Porque nesse olhar dormente<br> +Tua alma ingenua suspira?<br> +<br> +Porque? ai! porque? responde;<br> +Que se amor do ceo procura,<br> +Eil-o; em meu peito se esconde;<br> +Vive, é teu, tens a ventura!<br> +<br> +Verás como então brilhante,<br> +Seduz, toma vida, inspira,<br> +Esse teu bello semblante,<br> +Que apenas hoje se admira!<br></p> +<p class="data">Ilha da Madeira—Novembro de 1850.</p> + + +<h1><a name="Poema06" id="Poema06">VI<br></a></h1> +<h2>A UM RETRATO</h2> +<p>És tu, sim, o mesmo olhar,<br> +A mesma ardente expressão,<br> +Com que teus olhos sabiam,<br> +Tão habilmente occultar<br> +O gêlo do coração.<br> +<br> +Como fascina o teu ser?<br> +Agora, que eu posso ver,<br> +Vejo bem que não és bella.<br> +Quem for buscar no teu rosto,<br> +A severa correcção<br> +Que esta palavra revela,<br> +Tirar feição, por feição...<br> +<br> +Não pode achal-a, bem sei.<br> +Oh! mas nessa viva luz,<br> +Que teus olhos illumina,<br> +Ha de achar, como eu achei,<br> +O fogo que nos seduz,<br> +A chamma que nos fascina!<br> +<br> +E agora vais escutar;<br> +Agora, que a Providencia<br> +Piedosa me quiz salvar<br> +D'essa fatal influencia,<br> +Vais saber como te amei!<br> +<br> +Não é sómente da gloria,<br> +Das illusões, da ventura,<br> +Que é doce narrar a historia.<br> +Repassando na memoria<br> +Tantas scenas de amargura,<br> +Vendo-as saltar palpitantes<br> +Ante meus olhos agora,<br> +Com toda a sinistra pompa<br> +Da vida que tinham d'antes,<br> +Ao ver de quanto é capaz,<br> +Não sabes?... na propria dor,<br> +O coração se compraz!<br> +<br> +Medindo o padecimento<br> +Do martyrio atroz e lento<br> +Que me trouxe o teu amor,<br> +S'inda aterrado contemplo,<br> +As crenças que fui depôr<br> +Sobre as aras d'esse templo,<br> +A dor do arrependimento<br> +Ha de salvar-me da culpa<br> +Ante os olhos do Senhor.<br> +<br> +Ai de ti! mil vezes mais<br> +És tu desgraçada agora!<br> +Viveste, reinaste um'hora,<br> +E com que imperio! jámais,<br> +Em delirio o pensamento<br> +Te fez julgar adorada<br> +Como eu te adorei, jámais!<br> +<br> +Ninguem neste mundo ousára,<br> +Erguer a mão para um culto<br> +Tão santo como eu criára!<br> +Tu foste a que, cega um dia,<br> +Por loucura e por vaidade,<br> +As crenças que nelle havia,<br> +Destruiste sem piedade!<br> +<br> +Punida estás, bem punida,<br> +Sabe pois que amor do ceo,<br> +Amor como foi o meu,<br> +Encontra-se um só na vida!<br> +<br> +Inda ao ver-te... porque não,<br> +Porque t'o devo occultar?!<br> +Este morto coração,<br> +De novo sinto pular<br> +Em meu peito fatigado!<br> +<br> +Emfim, se o destino agora,<br> +Quer que não possa existir<br> +Da esperança do porvir,<br> +Deixal-o existir embora,<br> +Da saudade do passado!<br> +<br> +Esse é meu como tu foste<br> +Na illusão de tanto amor,<br> +E tu mesma, tu, que um dia<br> +Com semblante mudo e frio<br> +Lhe disseste o extremo adeus,<br> +Com quanto remorso e dor<br> +Has de ter rogado a Deus<br> +Perdão de tal desvario!<br> +<br> +E dizes tu que ao <i>dever</i>,<br> +Sacrificaste a existencia<br> +E sujeitaste o meu ser!!...<br> +Pois ha dever neste mundo,<br> +Que aos olhos da Providencia,<br> +Possa mais alto valer<br> +Do que aquelle amor profundo<br> +Que tu fizeste nascer?!<br> +.............................<br> +.............................<br> +<br> +Quando foi? vivo o momento,<br> +E quanto então nos cercava<br> +Existe em meu pensamento:<br> +Era á tarde; o firmamento,<br> +De nuvens se carregava,<br> +E nos fraguedos da costa<br> +O mar soturno quebrava.<br> +<br> +Olhei-te, e vi nesse instante,<br> +Assumir o teu semblante,<br> +Aquella mesma expressão,<br> +Que de toda a natureza<br> +Fatal respirava então.<br> +<br> +Pausada, lenta, glacial,<br> +A tua voz respondia,<br> +A tudo que eu proferia!<br> +E depois dos labios teus<br> +Desprendeste um frio adeus!<br> +<br> +Cuidaste sacrificar<br> +A Deus em tua loucura,<br> +Sem ver que foste apagar<br> +A chamma d'essa ternura<br> +Que só elle pode dar,<br> +E te atreveste a tentar<br> +O poder do Creador,<br> +Na obra da creatura!<br> +<br> +Ai de ti! mil vezes mais<br> +És tu desgraçada agora!<br> +Viveste, reinaste um'hora,<br> +E d'esse imperio, jámais<br> +Na terra serás senhora!<br></p> +<p class="data">Fevereiro de 1855.</p> + + +<h1><a name="Poema07" id="Poema07">VII<br></a></h1> +<h2>QUIEN NO AMA, NO VIVE</h2> +<p>Pois não vês que se a luz do sol nascente<br> +Á rosa na manhã desabroxada,<br> +Não illumina as folhas, desbotada<br> +<span style="margin-left: 3em;">Fica n'aste pendente,</span><br> +Sem perfume, sem vida abandonada?<br> +<br> +Dize: então queres tu que a formosura<br> +Que o Senhor estampou no teu semblante,<br> +Sem renome, sem gloria, passe obscura<br> +<span style="margin-left: 3em;">No mundo em que radiante</span><br> +Ostentar-se podia magestosa?<br> +<span style="margin-left: 3em;">Queres vel-a abatida como a +rosa</span><br> +<span style="margin-left: 3em;">Que o sol não +illumina?</span><br> +<br> +Pois o que falta a essa fronte bella?<br> +<span style="margin-left: 3em;">Oh! vais sabel-o:—O +amor!</span><br> +Que se anime e reviva á luz divina<br> +E verás se depois alguem ao vel-a<br> +<span style="margin-left: 3em;">Lhe nega o seu +fulgor!</span><br></p> +<p class="data">Ajuda 1850.</p> + + +<h1><a name="Poema08" id="Poema08">VIII<br></a></h1> +<h2>AMANHÃ!</h2> +<p>Resta um dia, mais um dia,<br> +Algumas horas ainda<br> +De amor, de ternura infinda!<br> +Amanhã nos olhos teus,<br> +Uma lagrima sentida;<br> +Em teus labios, um <i>adeus</i>!<br> +<br> +O instante da despedida<br> +Tão perto está!... Minha vida,<br> +Crava teus olhos nos meus,<br> +Um sorriso, um beijo ainda,<br> +Mais um'hora de ternura,<br> +De amor, de alegria infinda<br> +Antes d'esse longo <i>adeus</i>!<br> +<br> +Adeus de tanta amargura!<br> +Sabe Deus! oh! sabe Deus,<br> +Quando outros dias virão,<br> +Tão gratos ao coração!<br> +Quando nessa face linda<br> +Verei sorrir a ventura;<br> +Mas agora um beijo ainda<br> +Antes que chegue o momento<br> +De soltar o extremo <i>adeus</i>!<br> +<br> +Oh! tira do pensamento,<br> +A hora da despedida;<br> +Mais um instante de vida,<br> +De delicia e gloria infinda!...<br> +<br> +Amanhã!... ai! não te lembres<br> +De tal dia de amargura!<br> +Crava teus olhos nos meus;<br> +Inda um'hora de ventura,<br> +De amor, de alegria infinda<br> +Sorrindo nos olhos teus:<br> +Um beijo, mais outro ainda,<br> +O derradeiro: oh! <i>adeus</i>!<br></p> +<p class="data">Abril de 1857.</p> + + +<h2><a name="Poema09" id="Poema09">ANJO CAÍDO</a></h2> +<p>Na flor da vida, formosa,<br> +Ingenua, casta, innocente,<br> +Eras tu no mundo, rosa!<br> +Quem te arrojou de repente<br> +Para o abysmo fatal!<br> +Viste um dia o sol de abril;<br> +O teu seio virginal<br> +Sorriu alegre e gentil.<br> +<br> +Ergueu-se aos clarões suaves<br> +D'aquella doce alvorada<br> +A tua face encantada.<br> +Amaste o doce gorgeio<br> +Que desprendiam as aves,<br> +E no teu candido seio<br> +Quanto amor, quanta illusão<br> +Alegre pulava então!<br> +<br> +Mal haja o fatal destino,<br> +Maldita a sinistra mão,<br> +Que em teu calix purpurino<br> +Derramou fera e brutal<br> +Esse veneno fatal.<br> +<br> +Hoje és bella; mas teu rosto<br> +Que outr'ora alegre sorria,<br> +É todo melancolia!<br> +Hoje nem sol, nem estrella,<br> +Para ti brilha no ceo;<br> +Mal haja quem te perdeu!<br></p> +<p class="data">Novembro de 1857.</p> + + +<h1><a name="Poema10" id="Poema10">X<br></a></h1> +<h2>PIEDADE!</h2> +<p>Em torno da mesma idéa,<br> +Meu ardente pensamento<br> +Constantemente volteia.<br> +Que horas estas de tormento!<br> +E póde viver-se assim?<br> +Que força tens, coração?<br> +Pois tudo que sinto em mim<br> +És capaz de supportar?<br> +Oh! basta! por compaixão<br> +Deixa emfim de palpitar!<br></p> +<p class="data">Agosto de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema11" id="Poema11">XI<br></a></h1> +<h2>BELLEZA E MORTE</h2> +<p>Quando Deus á terra envia<br> +Um anjo dos seus, é breve<br> +A vida que lhe confia.<br> +.........................<br> +<br> +Como a flor branca de neve<br> +Que ao primeiro alvor do dia<br> +No prado desabroxou,<br> +Assim ella veiu ao mundo,<br> +E tão rapida passou,<br> +Que d'este rumor profundo<br> +Nem um som, nem um gemido<br> +Por esse anjo foi ouvido!<br> +Nasceu, e sorrindo amou!<br> +<br> +Quem ao vel-a tão ditosa<br> +Tão feliz por ser amada,<br> +E tão feliz por amar,<br> +Bella, fragrante, viçosa,<br> +Cheia de vida no olhar,<br> +De luz na face encantada;<br> +Quem diria que esse amor<br> +Seria a chamma fatal,<br> +Que a devia emfim matar!?<br> +<br> +Pobre florinha do val,<br> +Da aurora ao primeiro alvor<br> +Nasceu, e sorrindo, amou,<br> +Mas com a tarde... expirou!<br></p> +<p class="data">Junho de 1857.</p> + + +<h1><a name="Poema12" id="Poema12">XII<br></a></h1> +<h2>ORAÇÃO DA MANHÃ</h2> +<h3>Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho</h3> +<p>Vem reflorindo a aurora;<br> +A voz do rouxinol,<br> +Mais inspirada agora,<br> +Sauda a luz do sol.<br> +<br> +A perfumada aragem<br> +Beija no campo a flor;<br> +Tudo sorri á imagem,<br> +Do nosso Creador.<br> +<br> +No bosque as avesinhas<br> +Soltam os hymnos seus;<br> +No berço as criancinhas<br> +Resam tambem a Deus.<br> +<br> +«Por minha mãe, por ella,<br> +E por meu pae, Senhor!<br> +Dai-lhes propicia estrella,<br> +Gloria, ventura, amor!<br> +<br> +«Cercai de mil delicias,<br> +A sua vida emfim,<br> +Como elles de caricias<br> +Me tem cercado a mim.<br> +<br> +«As preces da innocencia<br> +No ceo ouvidas são;<br> +E a minha, oh Providencia,<br> +Parte do coração,<br> +<br> +«Parte ao florir da aurora,<br> +Co'a voz do rouxinol,<br> +Que se desprende agora<br> +Saudando a luz do sol!»<br></p> +<p class="data">Junho de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema13" id="Poema13">XIII<br></a></h1> +<h2>CARIDADE</h2> +<h3>Á Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup> Viscondessa +d'Asseca</h3> +<p>Como avesinhas implumes<br> +Enjeitadas nos seus ninhos,<br> +Deixa a sorte os pobresinhos,<br> +Sem lar, sem pão, sem carinhos<br> +De maternal coração.<br> +Escutando os seus queixumes,<br> +Compassiva a Providencia,<br> +Volve os olhos á innocencia,<br> +E em sua eterna clemencia<br> +Da-lhes lar, ensino, e pão.<br> +<br> +Mais vivos torna os desejos<br> +No seio da caridade,<br> +Que á desvalida orfandade<br> +Vai com sincera piedade<br> +Inundar de puro amor;<br> +Amor, que em candidos beijos,<br> +Suavemente procura<br> +Dar conforto na amargura,<br> +Aos que fez a desventura,<br> +Orfãos no berço e na dor.<br> +<br> +A quem busca a Providencia<br> +Para amparar o destino,<br> +Do que pobre e pequenino<br> +Se encontra sem luz, sem tino,<br> +Logo no mundo ao nascer!?<br> +Anjos de viva clemencia,<br> +Que onde existe o sofrimento,<br> +Correm, voam num momento,<br> +A dar todo o sentimento,<br> +Que taes almas sabem ter!<br> +<br> +São ellas mães, são esposas,<br> +E recordando os carinhos<br> +Que tiveram seus filhinhos,<br> +Não podem ver pobresinhos<br> +Sem amor, sem lar, sem pão!<br> +No berço desfolham rosas,<br> +Onde espinhos só havia,<br> +E o sol de pura alegria,<br> +Já de affectos alumia,<br> +Dos orfãos o coração.<br> +<br> +Salve pois, oh Caridade!<br> +Que assim abres o teu seio,<br> +Áquelle que sem esteio,<br> +Á luz d'este mundo veiu<br> +Para viver na afflicção.<br> +Salve casta divindade!<br> +Terna irmã da desventura,<br> +Que os suspiros da amargura<br> +Convertes á creatura<br> +Em risos de gratidão!<br></p> +<p class="data">Junho de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema14" id="Poema14">XIV<br></a></h1> +<h2>BELLA SEM CORAÇÃO</h2> +<p>Era uma esplendida imagem<br> +De olhos rasgados e bellos;<br> +Negros, negros os cabellos;<br> +Boca gentil como a rosa,<br> +Que á luz da manhã formosa<br> +Sorri ao sopro da aragem.<br> +<br> +Alta, graciosa, elegante,<br> +Um ar de tal distincção,<br> +Na figura e no semblante,<br> +Que eu disse commigo ao vel-a:<br> +«Como esta mulher é bella,<br> +Sobre tudo na expressão<br> +De pallidez namorada,<br> +Que tem na face encantada!<br> +Esta sim, por Deus o juro,<br> +Esta ha de ter coração!»<br> +<br> +A estação, o sitio, a hora...<br> +Era a hora do sol posto,<br> +E um frouxo raio de luz<br> +Vinha bater-lhe no rosto.<br> +A estação o meigo outono,<br> +Quando o prado se descora,<br> +No bosque cessa a harmonia,<br> +Quando tudo emfim seduz<br> +Com vaga melancolia.<br> +O sitio, ameno e saudoso,<br> +Onde livre a alma podia<br> +Dar-se inteira aos sentimentos<br> +De paz, de amor, de poesia!<br> +<br> +Aproximei-me da imagem<br> +Meiga, risonha, singela;<br> +Soltára a voz, era bella,<br> +Bella sim, vibrante e pura,<br> +Mas sem aquella ternura,<br> +Sem aquelle sentimento,<br> +Que diz tudo num momento!<br> +Sem tremor, sem sobresalto,<br> +Voz que dos labios saía,<br> +Dos labios só, que se via,<br> +Não provir do coração;<br> +Voz sonora, porem fria;<br> +Bella sim, mas sem paixão.<br> +<br> +«Pois essa gentil figura,<br> +Esse pallido semblante,<br> +Essa expressão de ternura<br> +Que todo o teu ar respira,<br> +A luz do olhar scintillante,<br> +Dize emfim: quanto se admira,<br> +Quanto ao ver-te nos encanta,<br> +Será sem alma, e sem vida?!»<br> +<br> +Sorrindo me respondeu:<br> +«Aqui não ha coração!»<br> +Mas eu vi que elle bateu<br> +D'essa vez precipitado<br> +Por que a sua nivea mão<br> +Tentou comprimil-o em vão!<br> +E no olhar enamorado,<br> +E na voz que estremecia,<br> +Oh! Deus! o que não dizia<br> +A bella sem coração!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema15" id="Poema15">XV<br></a></h1> +<h2>PERDOASTE!</h2> +<p>Anjo offendido; outra vez,<br> +Volve teus olhos do ceo<br> +Áquelle que te offendeu!<br> +Vel-o abatido a teus pés,<br> +Anjo esquece, e compassivo,<br> +Num sorriso de perdão,<br> +Torna a dar-lhe o coração.<br> +A cada instante mais vivo<br> +O remorso cresce em mim;<br> +Perdoa, oh! perdoa, emfim!<br> +<br> +Offendi-te num momento<br> +De terrivel desvario;<br> +Era o ciume violento!<br> +O rubor da castidade<br> +A tua face affrontava,<br> +E eu cego, eu perdido, ousava<br> +Proseguir! oh! por piedade,<br> +Por piedade, anjo do ceo,<br> +Perdoa a quem te offendeu!<br> +<br> +Em breve a razão voltou,<br> +E com ella essa anciedade<br> +Do desgraçado que ousou<br> +Num momento de loucura<br> +Offender a divindade.<br> +Nas trevas da noite escura,<br> +Nem ao menos uma estrella,<br> +Brilhava serena e bella!<br> +E eu caminhava em delirio<br> +Sem força para acabar<br> +A vida que era um martyrio!<br> +A tão profunda amargura<br> +Quem me podia arrancar,<br> +Quem, senão um teu olhar?<br> +<br> +Lá, nas sombras do horisonte,<br> +Despontou por fim a luz,<br> +A mesma que em tua fronte<br> +Bella e placida reluz.<br> +No peito afflicto e cançado<br> +Senti dilatar-se então<br> +Este oppresso coração;<br> +O teu olhar adorado<br> +A mim outra vez volveu,<br> +Terno, meigo, apaixonado.<br> +Perdoaste, anjo do ceo!<br></p> +<p class="data">Abril de 1857.</p> + + +<h1><a name="Poema16" id="Poema16">XVI<br></a></h1> +<h2>TRES RETRATOS</h2> +<h3>(Num album)</h3> +<p>Como as horas passam rapidas<br> +Nesta doce companhia!<br> +Brilha impaciente alegria<br> +Em tudo á roda de mim.<br> +Nunca fui tão venturoso,<br> +Nunca a mão da Providencia<br> +Fez com que eu visse a existencia<br> +Tão bella e risonha emfim.<br> +<br> +Esta noite, quando a lua<br> +No horisonte resvalava,<br> +Inspirado a saudava<br> +Nas balsas o rouxinol.<br> +Vem agora a primavera<br> +Abrindo o virginio manto,<br> +Cada dia um novo encanto<br> +Nos traz o romper do sol.<br> +<br> +Como a vida assim é bella,<br> +Nesta amena convivencia,<br> +Com tres anjos de innocencia<br> +De formosura, e de amor!<br> +Dezaseis annos talvez<br> +Não tem Julia, bem contados,<br> +Alta, airosa, olhos rasgados,<br> +E sorriso encantador.<br> +<br> +O pesinho estreito e breve<br> +Cinturinha delicada,<br> +A fronte um pouco inclinada,<br> +Com seu ar sentimental.<br> +Na ramagem das pestanas<br> +Occulta a traidora chamma,<br> +Que no instante em que se inflamma<br> +Dardeja um raio mortal.<br> +<br> +Mas que morte tão suave!<br> +Inda ha pouco, em certa hora,<br> +Que essa chamma seductora<br> +O coração me accendeu...<br> +Se é morte esquecer a terra,<br> +Naquelle instante morria,<br> +Por que tudo o que sentia,<br> +Era a ventura do ceo!<br> +<br> +Vel-a sorrir entre os campos,<br> +Bella, candida, animada,<br> +Como as flores que a alvorada<br> +De sua luz inundou!...<br> +Vel-a, co'as mãos impacientes,<br> +Afastar do rosto bello,<br> +O basto e fino cabello,<br> +Que a aragem desalinhou!<br> +<br> +Vel-a depois pensativa,<br> +Quando tibio o sol declina,<br> +Na corrente cristalina<br> +Os olhos negros fitar!<br> +Vagas sombras de tristeza<br> +Que vem toldar-lhe o semblante,<br> +São tão bellas nesse instante,<br> +Dizem tanto sem fallar!<br> +<br> +Laura, Elisa, as outras duas,<br> +Laura, pallida e morena,<br> +Baixa um pouco, mão pequena,<br> +Expressivas as feições;<br> +Os olhos claros e vivos,<br> +No seu brilho insinuante,<br> +Reflectem a cada instante<br> +Milhares de sensações.<br> +<br> +Eliza, a timida Eliza,<br> +Que innocente singeleza,<br> +Que perfume, que belleza<br> +Naquella face gentil!<br> +Cabellos loiros cendrados,<br> +Olhos d'esse azul escuro,<br> +Que é semelhante ao ceo puro<br> +De um bello dia de abril!<br> +<br> +As rosas da formosura<br> +Sempre vivas no semblante,<br> +O corpo esbelto e ondulante,<br> +Se é permittida a expressão;<br> +Uma tal ingenuidade,<br> +No seu todo se revela,<br> +Que em se olhando para ella,<br> +Bate alegre o coração.<br> +<br> +Tirados daguerreotypo<br> +Não ficavam mais exactos<br> +De certo estes tres retratos<br> +Que procurei desenhar;<br> +Qual porém é mais sympathico,<br> +Mais perfeito, deve agora<br> +Dizel-o a amavel senhora<br> +Do livro onde os vou deixar.<br> +<br> +Eu de certo não me atrevo!<br> +Nos olhos tem Julia a chamma<br> +Que nos sentidos derrama<br> +Torrentes de languidez!<br> +Laura... Eliza... mil encantos;<br> +Emfim, não sei qual prefiro,<br> +Não sei a que mais admiro,<br> +Sei que adoro a todas tres!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1857.</p> + + +<h1><a name="Poema17" id="Poema17">XVII<br></a></h1> +<h2>ADEUS</h2> +<p>Vai-te, oh! vai sombra mentida,<br> +Para nunca mais volver!<br> +Vai-te, deixa-me na vida,<br> +Que esse teu estranho ser,<br> +Fatal sempre me tem sido,<br> +Fatal sempre me ha de ser.<br> +<br> +Qual era a traidora mão<br> +Que para ti me impellia?<br> +Eu desvairado não via,<br> +Ser aquelle um fulgor vão<br> +Que no horisonte luzia?!<br> +Crente a vista repousava<br> +Na luz clara, intensa, bella,<br> +Que para a terra manava<br> +Do seio da meiga estrella,<br> +E que minh'alma inundava<br> +D'aquella celeste chamma<br> +Que a vida e razão inflamma<br> +No ardente fogo de amor!<br> +<br> +Deixei-me cegar por ella;<br> +Quanto e como então vivia<br> +Ao grato e doce calor<br> +D'essa que assim me perdia,<br> +Não sei; porem sei que um dia,<br> +Num'hora de maldição,<br> +Não vi mais no firmamento<br> +O seu mentido clarão.<br> +Desvairado em tal momento<br> +Fugi sem norte e sem tino;<br> +Mas quem foge ao seu destino!?<br> +<br> +Numa d'estas noites placidas,<br> +Em que as estrellas fulgentes,<br> +Reflectem vívida luz,<br> +Á flor das aguas dormentes;<br> +Em que o rouxinol seduz,<br> +Co'as inspiradas endeixas<br> +Soltando sentidas queixas,<br> +D'entre as balseiras virentes;<br> +Quando respira no ar,<br> +Do monte que o mato veste<br> +Aquelle perfume agreste,<br> +Que é tão grato de aspirar;<br> +Quando emfim a natureza,<br> +No seu mais pleno vigor<br> +Ergue a Deus seu hymno eterno<br> +De graças, de paz, de amor!<br> +Eu na minha alma abatida,<br> +Procurava, mas em vão,<br> +Uma só nota do canto<br> +Immenso da creação.<br> +<br> +Debalde encontrar buscava,<br> +Naquella ardente anciedade<br> +Em que o peito arqueja e cança,<br> +No passado uma saudade,<br> +No porvir uma esperança!<br> +<br> +Debalde a vista alongava,<br> +Pelo ceo onde as estrellas,<br> +Resplandeciam tão bellas!<br> +Em meu peito arido e morto<br> +O reflexo d'uma d'ellas<br> +Nem sequer compenetrava!<br> +Fatigado, exangue, absorto,<br> +Sem luz, sem norte, e sem tino<br> +Prosseguia o meu destino!<br> +Quando ao chegar um instante<br> +Em que afflicto a vista erguia,<br> +Dei com teu bello semblante,<br> +Pallido, triste, abatido,<br> +Que para mim se volvia<br> +Saudoso e compadecido.<br> +<br> +Oh! tão fundo sentimento<br> +Brilhava nos olhos teus<br> +Que ao ver-te nesse momento<br> +Quem te não dissera um anjo<br> +Do ceo á terra descido,<br> +E que volve arrependido,<br> +Outra vez aos pés de Deus!<br> +<br> +Lá, na extrema do horisonte<br> +Vinha então rompendo a lua;<br> +Melancolica a luz sua,<br> +O teu semblante inundou;<br> +E nunca no prado ou monte,<br> +Aquella face formosa,<br> +Outra tão pallida rosa<br> +De um reflexo illuminou!<br> +<br> +Comtemplava-te perdido,<br> +De esperança, amor, e gosto,<br> +Quando teu languido rosto,<br> +Pouco a pouco se animou;<br> +E a tua voz docemente<br> +Murmurando ao meu ouvido,<br> +De novo um amor ardente<br> +Outra vez me protestou.<br> +<br> +Hesitava em crer-te ainda;<br> +Mas o pobre coração,<br> +Quando se vê na desgraça<br> +Encontra a crença tão linda!<br> +A plenos tragos a taça,<br> +D'esse philtro enganador<br> +Ancioso esgotava então,<br> +Sem me lembrar que no fundo,<br> +Estava o fel da traição.<br> +<br> +Vai-te, adeus, pallida sombra,<br> +Vai, porque este coração,<br> +Por tuas mãos lacerado,<br> +Com a tua vista se assombra,<br> +E de ti foge aterrado!<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1855.</p> + + +<h1><a name="Poema18" id="Poema18">XVIII<br></a></h1> +<h2>A VISÃO DO BAILE</h2> +<p>Foi num baile que a viste cercada<br> +De perfumes, de luz, de harmonia,<br> +Onde viva, impaciente alegria,<br> +Nos semblantes andava a saltar;<br> +E ella triste, abatida, indolente<br> +Entre as pompas da festa encantada,<br> +Co'a tristeza na face estampada,<br> +E infinita saudade no olhar.<br> +<br> +Ai! que luz! que expressão nesses olhos<br> +Quando instantes nos teus se cravaram!<br> +De repente em tropel acordaram<br> +Mil affectos no teu coração!<br> +E debalde a seu lado quizeste<br> +Revelar o que n'alma sentias,<br> +As palavras, a voz eram frias<br> +Para aquella infinita paixão.<br> +<br> +D'essa noite os instantes voaram,<br> +Entre amor, entre gloria e ventura,<br> +E no fim com que immensa ternura,<br> +Seu olhar para ti se volveu!<br> +É que havia chegado o momento<br> +De deixar essa estancia inundada<br> +Dos primeiros clarões da alvorada,<br> +Que já vinha rompendo no ceo<br> +<br> +Mas depois, quando o sol d'esse dia<br> +Desmaiava nas veigas virentes,<br> +Quando as aves soltavam gementes<br> +A voz doce nas balsas em flor,<br> +Não a viste assomar á janella,<br> +E sorrindo, mirar-te um instante?<br> +Não brilhava naquelle semblante,<br> +Um sublime reflexo de amor!?<br> +<br> +No sonoro recinto do templo<br> +Quando as preces sinceras subiam,<br> +Quando os hymnos sagrados se ouviam<br> +Aspirando suaves aos ceos,<br> +Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua,<br> +Ante Deus, ante os olhos do mundo<br> +Que este affecto suave e profundo,<br> +Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»<br> +<br> +Hoje pois, que na luz d'esses olhos,<br> +Nessas fontes de amor e candura,<br> +Encontraste na terra a ventura,<br> +Cuidas tu em deixal-a, e partir?<br> +Oh! não vês que é fatal o destino,<br> +Que chegou para ti essa hora<br> +De encontrar a mulher seductora<br> +Que te deve encantar o porvir?<br> +<br> +Ai, poeta, debalde procuras<br> +Esquecer a visão adorada;<br> +Ai! debalde! tua alma inspirada<br> +Outra igual neste mundo encontrou!<br> +São irmãs, e co'a mesma ternura<br> +Viverão abraçadas no mundo,<br> +Num affecto sincero e profundo<br> +A suprema vontade as juntou!<br></p> +<p class="data">31 de Março de 1857.</p> + + +<h1><a name="Poema19" id="Poema19">XIX<br></a></h1> +<h2>RECEIOS</h2> +<p>Ás vezes, quando a teu lado<br> +Comparo a expressão que outr'ora<br> +Tinha teu rosto adorado,<br> +Á sua expressão de agora...<br> +Não sei que tristeza vaga<br> +Que impressão sentida e funda,<br> +O meu coração esmaga!<br> +Oh! mas sei que a alma se inunda<br> +De uma subita amargura,<br> +De uma tal angustia e dor,<br> +Que toda a luz da ventura,<br> +Que me vem do teu amor<br> +Toda com ella se apaga!<br> +Loucuras serão, delirio<br> +D'este ardente imaginar;<br> +Serão, sim; mas o martyrio,<br> +Com que me sinto acabar,<br> +Só tem poder tua mão<br> +Para de todo o findar<br> +Neste oppresso coração!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1855.</p> + + +<h1><a name="Poema20" id="Poema20">XX<br></a></h1> +<h2>LEMBRAS-TE?</h2> +<p>Lembras-te? frouxa expirava<br> +Aquella doce harmonia<br> +Que em nossas almas entrava.<br> +De uma luz tão resplendente<br> +Teu limpido olhar brilhava,<br> +Como a da aurora nascente,<br> +E aurora gentil sorria,<br> +No meigo azul de teus olhos<br> +Para raiar entre rosas<br> +Fragrantes e sem abrolhos.<br> +<br> +Quando mais tenue partiu<br> +A cadencia saudosa,<br> +Tua boca proferiu<br> +Não sei que cortadas fallas,<br> +Que o ouvido não sentiu,<br> +Porque vieste graval-as<br> +Com a voz do ceo no peito,<br> +Que a ti rendido e sujeito<br> +Anhelando t'as ouviu.<br> +<br> +Ao proferil-as, dormente<br> +O teu olhar descaíra,<br> +E em teu pallido semblante<br> +A expressão se reflectíra<br> +Dos affectos que agitavam<br> +A tua alma nesse instante.<br> +Ai! nesse instante do ceo,<br> +Que á terra breve fugíra,<br> +Que a elle inteiro volveu!<br> +<br> +No horisonte estremeciam,<br> +Ebrias de amor as estrellas,<br> +E teus olhos se fitavam<br> +Na luz scintillante d'ellas;<br> +É que no ceo procuravam<br> +O eterno d'aquelle instante<br> +Que na terra presentiam<br> +Que passaria inconstante.<br> +<br> +O alvor da nascente aurora,<br> +Que no horisonte assomava,<br> +Das estrellas desmaiava<br> +A viva luz, e inda agora,<br> +Tenho em minh'alma, querida,<br> +A expressão com que me olhaste<br> +Apontando para ella!<br> +É que essa aurora tão bella<br> +Não brilhava mais na vida!<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1849.</p> + + +<h1><a name="Poema21" id="Poema21">XXI<br></a></h1> +<h2>POIS SER PALLIDA É DEFEITO?</h2> +<p>Pois ser pallida é defeito?<br> +E de todo o coração,<br> +Diz, pondo a mão sobre o peito,<br> +Que um rostosinho desfeito<br> +Não pode inspirar paixão?<br> +<br> +Ora diga: a rosa é bella<br> +Quando o sol lhe accende a cor,<br> +É bella sim, mas ao vel-a<br> +Desmaiar n'haste singela<br> +Não lhe inspira mais amor?<br> +<br> +Viçosa, fresca, orvalhada,<br> +De manhã é toda luz;<br> +Mas á tarde desmaiada,<br> +Co'a pallidez namorada,<br> +Oh! quanto mais nos seduz!<br> +<br> +Está convencida vejo,<br> +Deveras não, inda não?<br> +Pois se é todo o seu desejo<br> +Ser corada, dê-me um beijo,<br> +E verá se cora ou não!<br> +<br> +Porque esconde o rosto lindo?<br> +Santo Deus! descubra-o já!<br> +Aposto que vai sentindo<br> +Um certo rubor subindo...<br> +Ai! como corada está!<br> +<br> +Neste espelho, olhe-se agora,<br> +Veja bem que linda cor;<br> +Quando nasce a fresca aurora,<br> +A luz que a face lhe cora,<br> +Não tem mais vivo fulgor.<br> +<br> +Sorri-se a furto, bem vejo,<br> +Occulta o rosto na mão:<br> +Pois vamos, agora um beijo,<br> +Quem cumpriu o seu desejo,<br> +Não merece, diga, não?<br></p> +<p class="data">Junho de 1852.</p> + + +<h1><a name="Poema22" id="Poema22">XXII<br></a></h1> +<h2>DEVER</h2> +<p>Sê bem vinda estação melancolica!<br> +Sê bem vinda! minh'alma abatida,<br> +No teu seio procura essa vida,<br> +Que tão bella, e tão breve passou!<br> +Oh! são estes os campos formosos,<br> +É bem este o deserto mosteiro,<br> +Onde ouvíra o adeus derradeiro<br> +Que teu peito anhelante soltou!<br> +<br> +Já nas folhas do bosque frondoso<br> +Se desbota a risonha verdura,<br> +E co'a aragem que á tarde murmura,<br> +Vão caindo dispersas no chão.<br> +Já nos campos de todo cessaram,<br> +Os modilhos da ingenua avesinha,<br> +Que nas moitas espessas se aninha,<br> +Presentindo a invernosa estação.<br> +<br> +Que saudade na luz que desmaia,<br> +Nestes campos sem viço nem flores,<br> +Quando á tarde os incertos fulgores<br> +Do sol tibio resplendem no ceo!<br> +Que saudade na aragem agreste,<br> +Que deriva do cimo do monte,<br> +E no azul d'este vasto horisonte,<br> +Onde pallida a lua rompeu!<br> +<br> +Foi aqui nestas margens viçosas<br> +Hoje tristes, desertas, sombrias,<br> +Que sorriram os unicos dias,<br> +Para mim de ventura e de amor;<br> +Quando tu inspirada a meu lado<br> +Caminhavas com tremulo passo,<br> +E firmando-te alegre ao meu braço<br> +Davas graças da vida ao Senhor.<br> +<br> +Era aqui, junto á cruz mutilada,<br> +Aos extremos reflexos do dia<br> +Quando o sino da ermida se ouvia<br> +Dar signal da singela oração,<br> +Que tu vinhas prostrar-te soltando<br> +Com voz flebil a prece sentida,<br> +Pelo bem, pelo amor, pela vida,<br> +Dos que a sorte deixou na afflição.<br> +<br> +E depois nos meus olhos cravando<br> +Os teus olhos de pranto orvalhados<br> +Os protestos mil vezes jurados,<br> +Vinhas mais uma vez proferir;<br> +Nesse esforço baldado do espirito,<br> +Que nas frases da terra procura<br> +Expressar a celeste ventura,<br> +Que sómente se pode sentir.<br> +<br> +E pensar que este ceo de delicias<br> +Se acabou para nós na existencia!<br> +Que não temos mais nada que a essencia<br> +Da saudade que d'elle ficou!...<br> +Ver que a mão de um poder sobrehumano,<br> +Nos traz cegos do mesmo delirio,<br> +E votarmos a vida ao martyrio,<br> +Porque o mundo um fantasma creou!!<br> +<br> +Pois se Deus quiz ligar nossas almas,<br> +Se é fatal que ellas sejam unidas,<br> +Queres tu desprender duas vidas<br> +Que se acharam irmãs ao nascer?<br> +Vês que foi a suprema vontade<br> +Que as juntou num abraço divino,<br> +E ousas tu, desvairada e sem tino,<br> +Separal-as á voz do <i>dever</i>!<br> +<br> +O <i>dever</i>?! O dever mais sagrado<br> +E mais santo que temos no mundo,<br> +É mantermos o affecto profundo<br> +Que d'um sopro divino nasceu;<br> +Attentar contra a sua existencia,<br> +Debelar sem piedade essa vida,<br> +Não será como ser suicida<br> +E affrontar a vontade do ceo!?<br> +<br> +Sobre as aras de um templo mentido,<br> +Num altar pelos homens creado,<br> +Vais queimar quanto ha puro e sagrado,<br> +Por um falso julgar da razão!<br> +Sem pensar no teu crer insensato<br> +Que não póde jámais ser extincto,<br> +Este amor tão profundo que eu sinto<br> +E tu sentes co'a mesma paixão!<br> +..................................<br> +<br> +Oh! de novo a meu lado, querida,<br> +Volve, em quanto no ceo e na terra,<br> +Nos agrestes perfumes da serra,<br> +A suave estação respirar!<br> +Volve pois, porque as veigas frondosas<br> +Não perderam de todo a verdura,<br> +E inda a mesma infinita ventura<br> +Neste sitio has de agora encontrar.<br></p> +<p class="data">Setembro de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema23" id="Poema23">XXIII</a></h1> +<h3>Á morte da Ex.<sup>ma</sup> Sr.<sup>a</sup> D. M. +Henriqueta de Campos Valdez</h3> +<p>Bella, graciosa e timida,<br> +Na aurora da existencia<br> +Rosa de grata essencia<br> +Sorrias em botão!<br> +A luz do sol explendido<br> +Vinha inundar-te a frente,<br> +Suave e docemente<br> +Beijar-te a viração!<br> +<br> +Como os affectos intimos<br> +Da maternal ternura<br> +Enchiam de ventura,<br> +A tua vida em flor!<br> +E como a face candida<br> +Serena, reflectia<br> +A magica poesia<br> +D'ess'alma toda amor!<br> +<br> +Dos pensamentos lugubres,<br> +Das ambições da terra,<br> +Das maguas que ella encerra,<br> +Dos crimes que contém,<br> +Jámais a teu espirito<br> +Chegará o som profundo,<br> +Anjo descido ao mundo<br> +Só para amar o bem!<br> +<br> +Um dia, a immensa abobada,<br> +Azul e resplendente,<br> +Toldou-se de repente<br> +Ao sopro do tufão!<br> +Era o primeiro fremito,<br> +Nuncio da tempestade,<br> +Que vinha sem piedade<br> +Rosa, lançar-te ao chão.<br> +<br> +Ao ver abrir-se o tumulo<br> +Sorrias sem receio,<br> +E se a teus olhos veiu<br> +Funda expressão de dor,<br> +Foi quando a boca tremula<br> +Da mãe que te perdia,<br> +Á tua enfim se unia,<br> +Com mais profundo amor!<br> +<br> +Então, como ella, pallida,<br> +Soltando o extremo alento,<br> +Volveste num momento<br> +Á gloria perennal!<br> +E logo fria, gellida,<br> +Sem ter nem cor nem vida,<br> +Par'ceste adormecida,<br> +No seio maternal!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema24" id="Poema24">XXIV<br></a></h1> +<h2>PARISINA</h2> +<h3>A Pedro Jacome Corrêa</h3> +<div class="direita"><span class="small-caps">MEU CARO +AMIGO</span>.</div> +<p class="prosa">A idéa de emprehender a imitação d'este +bello romance do autor do Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra +teria ficado em meio, se não fossem os desejos que +manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo a +liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.</p> +<p class="prosa">Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto +o titulo, posto não seja essa a opinião geral, nem +talvez fosse a minha noutras circumstancias. Nesta porém, +creio que mais distante ficaria do original, quanto mais +escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.</p> +<p class="prosa">Não sei se faço perceber bem a minha idéa: +intendo que interpretar as obras do genio, é mais difficil +do que imital-as de longe. A traducção deve ser a +copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem tido +este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o +pensamento predominante da composição, e conservar +alguns toques da cor primitiva do quadro. Não sei se o +alcancei. Se numa ou noutra passagem menos infeliz da minha +tentativa o leitor sentir aquelle sabor particular que se encontra +em todas as composições do grande poeta, dar-me-hei +por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver +conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o +que eu decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo +para desculpar a insignificancia d'esta offerta ao</p> +<p class="direita">Seu do coração</p> +<p class="data">Janeiro de 1857.</p> +<p class="direita"><span class="small-caps">Bulhão +Pato</span>.</p> + + +<h2>PARISINA</h2> +<h3>Imitação</h3> +<h4>I</h4> +<p>É na hora, em que a voz bella e sentida<br> +Do meigo rouxinol, entre a folhagem<br> +Das balsas escondido, solta ao vento<br> +A saudosa canção do fim do dia:<br> +Hora solemne e grata em que os amantes<br> +Renovam mil protestos de ternura,<br> +De constancia e d'amor; em que o susurro<br> +Da fresca viração vai confundir-se<br> +Co'o murmurar da trepida corrente.<br> +De cristalino orvalho borrifadas,<br> +As vicejantes flores da campina<br> +Mais vivo aroma espargem no ambiente.<br> +Accendem-se no ceo milhões de estrellas,<br> +É mais escuro o azul á flor das vagas,<br> +E a verdura do bosque é mais sombria.<br> +Entre as trevas e a luz, o firmamento<br> +Jaz velado por languido crepusculo,<br> +Que rapido se esvai nos frouxos raios<br> +Da lua, despontando no horisonte.<br></p> +<h4>II</h4> +<p>Mas não é para ouvir os doces carmes<br> +Do amoroso cantor, que Parisina<br> +Do palacio feudal ao parque desce;<br> +Nem para contemplar a luz brilhante<br> +Das tremulas estrellas, que divaga<br> +Por entre as sombras que diffunde a noite.<br> +Se procura um desvio na espessura,<br> +Não é para aspirar o vivo aroma<br> +Das matisadas flores; e se escuta,<br> +Não é de certo para ouvir das aguas<br> +O brando murmurar. Sons mais queridos<br> +Espera o seu ouvido nesse instante.<br> +Rangendo as folhas seccas denunciam<br> +Que se aproxima alguem: empallidece<br> +De susto e de prazer ao mesmo tempo.<br> +D'entre as ramas que a brisa doidejante<br> +De espaço a espaço agita, mansamente<br> +Parte emfim uma voz: é voz amiga;<br> +De subito o rubor lhe volta ás faces,<br> +E mais livre, porém não menos forte,<br> +Bate-lhe o coração no peito agora.<br> +Mais um momento só é já passado,<br> +Aos pés da bella jaz o cego amante.<br></p> +<h4>III</h4> +<p>O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,<br> +Que lhes importa nesse doce instante?<br> +Tudo é nada a seus olhos deslumbrados<br> +Pelo fogo do amor; tudo se perde,<br> +Se confunde, e se esvai nesse delirio!<br> +Nos suspiros que vem do fundo d'alma,<br> +Nesses mesmos, respira tal ventura,<br> +Que, se fosse mais longa, dentro em pouco<br> +A vida ou a razão succumbiria!<br> +<br> +Oh! quem sente lavrar dentro do peito<br> +O fogo da paixão com tanto imperio,<br> +Não pensa na desgraça, nem se lembra<br> +Da curta duração de taes enganos!<br> +Ai! quantas vezes despertâmos antes<br> +De saber que não volta o mago sonho!!<br></p> +<h4>IV</h4> +<p>Vão partir: vão deixar com passos lentos<br> +O encantado logar que presenceára<br> +O seu transporte em delirante crime.<br> +Vão partir: e apesar dos mil protestos,<br> +Da esperança que em breve hão de juntar-se,<br> +Dor profunda no peito lhes comprime<br> +Agora o coração, como se fosse<br> +Aquella a derradeira despedida.<br> +Parisina, cravando os olhos languidos<br> +No firmamento azul, treme, sentindo<br> +Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.<br> +Elle outra vez a cinge contra o peito;<br> +Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,<br> +É forçoso partir, levando n'alma<br> +Os amargos, crueis presentimentos,<br> +Que de perto acompanham sempre o crime.<br></p> +<h4>V</h4> +<p>Tranquillo no seu leito solitario,<br> +Hugo repousa, e pode sem receio<br> +Livremente soltar o pensamento.<br> +Porém ella descança a fronte pallida<br> +Das fadigas do amor, junto do esposo.<br> +Sonhando, em voz sumida solta um nome,<br> +E suppondo estreitar contra seu peito,<br> +Agitado e febril, o terno amante,<br> +Entre os braços comprime esse que dorme<br> +Agora ao lado seu. Subito acorda<br> +Á suave impressão do meigo abraço<br> +O esposo que se julga idolatrado,<br> +Até nos sonhos da adorada esposa!<br></p> +<h4>VI</h4> +<p>Sobre o seu coração com quanto affecto<br> +Reclina aquella fronte encantadora!<br> +Com quanto afan procura ouvir as frases,<br> +Que de seus labios solta entrecortadas!<br> +Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,<br> +Azo, o altivo senhor, estremecêra<br> +Como tendo escutado a voz do archanjo!<br> +Oh! deve estremecer, porque a sentença,<br> +A sentença fatal que os seus ouvidos<br> +Acabam de escutar, vai despenhal-o<br> +Para sempre no abismo da desgraça!<br> +O nome que ella em sonhos proferíra,<br> +Que soára tremendo como a vaga,<br> +Quando arremeça aos concavos rochedos<br> +A debil prancha que sustenta o naufrago,<br> +Esse nome qual foi? O nome de Hugo;<br> +Hugo, o filho da pobre e linda Branca,<br> +Que o principe illudiu, e sem piedade<br> +Depois abandonou! Hugo, seu filho,<br> +Fructo innocente de um amor culpado!<br></p> +<h4>VII</h4> +<p>Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!<br> +Quem podera immolar um ser tão bello?!<br> +Oh! ninguem! Apesar do negro crime,<br> +Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,<br> +Ao contemplal-a assim adormecida.<br> +Nem a acorda sequer, mas por instantes<br> +No seu rosto encantado crava os olhos.<br> +Se de subito agora despertasse,<br> +A infeliz nesse olhar sentíra a morte!<br> +Pela fronte do principe traído,<br> +Frio corre o suor, e á luz da lampada<br> +Estremecem brilhando as grossas bagas.<br> +E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias<br> +Nesse instante fatal foram contados!<br></p> +<h4>VIII</h4> +<p>Assim que o sol desponta no horisonte,<br> +Azo corre a indagar pelos que o cercam,<br> +E as derradeiras provas apparecem.<br> +As aias da princeza, largo tempo<br> +Conniventes no crime, revelaram<br> +Quanto havia de occulto nesse drama.<br> +Não tem que duvidar! Azo, escutando<br> +A longa historia de tão negro crime,<br> +Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,<br> +Que de profunda cholera se inflammam.<br></p> +<h4>IX</h4> +<p>Na vasta sala do feudal palacio<br> +O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,<br> +Sobre o purpureo throno está sentado.<br> +Nobres, pagens, soldados o circundam,<br> +Os olhos crava nos culpados ambos,<br> +Ambos jovens e bellos. Duros ferros<br> +Tem sujeitos os pulsos do mancebo,<br> +Que fôra brutalmente desarmado<br> +Por mercenarias mãos da nobre espada.<br> +Na presença de um pae é d'este modo<br> +Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!<br> +Porém, Hugo infeliz, nesse momento,<br> +Tem de ouvir a sentença incontrastavel<br> +Dos labios paternaes, prestar ouvidos<br> +Á triste narração do seu opprobrio!<br> +E comtudo a expressão do nobre rosto,<br> +A distincta altivez conserva ainda!<br></p> +<h4>X</h4> +<p>Pallida, sem alento e silenciosa,<br> +Aguarda Parisina nesse instante<br> +As palavras fataes. O seu destino<br> +Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,<br> +D'aquelles olhos a celeste chamma<br> +Pelos salões doirados espargia<br> +A meiga seducção. Se nesses olhos<br> +Visse alguem borbulhar uma só lagrima,<br> +Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,<br> +Arrancando da espada, a vingariam!<br> +Mas agora, infeliz! quantos a cercam,<br> +Mal disfarçam no rosto carregado<br> +A contida expressão do seu desprezo!<br> +E elle, o amante adorado da sua alma,<br> +Elle, oh Deus! que liberto por instantes,<br> +Por instantes que fosse, a houvera salvo,<br> +Jaz preso ao lado seu em duros ferros!<br> +Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras<br> +Onde outr'ora fugia a cor suave<br> +Da terna violeta, convidando<br> +A mil sequiosos, demorados beijos,<br> +Se entumecem, velando a vista immovel<br> +Das pupillas, nas quaes a dor intensa<br> +Accumula uma lagrima apoz outra!<br></p> +<h4>XI</h4> +<p>Oh! por ella tambem, nesse momento,<br> +Derramára o infeliz amargo pranto,<br> +Se de tantos a vista a não cercasse.<br> +A dor que o devorava, parecia<br> +No mais intimo d'alma adormecida;<br> +A fronte macilenta e transtornada,<br> +Conservava-se altiva. Por mais forte,<br> +Mais acerbo que fosse o seu tormento,<br> +Não quizera humilhar-se na presença<br> +D'aquella multidão que o comtemplava.<br> +A companheira bella de infortunio,<br> +Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se<br> +Das horas do passado, do seu crime,<br> +Da vingança de um pae, do seu destino,<br> +E sobre tudo do destino d'ella,<br> +Não ousava lançar sobre esse rosto<br> +A desvairada vista, receando<br> +Que, cedendo ao remorso, revelasse<br> +Quanto o seu coração fôra culpado.<br></p> +<h4>XII</h4> +<p>Azo emfim sólta a voz:<br> +<span style="margin-left: 11em;">«Ha pouco ainda,</span><br> +Numa esposa e num filho resumia<br> +Toda a minha ventura neste mundo.<br> +A aurora dissipou tão bello sonho!<br> +Antes do pôr do sol, nem um nem outro<br> +Me devem pertencer. Quebrem-se embora,<br> +As ligações mais caras da minh'alma!<br> +Hugo! um padre te espera, e depois d'elle<br> +A justa punição do teu peccado.<br> +Ergue preces ao ceo antes que o lume<br> +Das estrellas se accenda no horisonte:<br> +Talvez te dê perdão. Mas neste mundo<br> +Não existe logar onde possâmos<br> +Nós ambos respirar. Adeus, não quero<br> +Assistir ao teu ultimo momento!<br> +Porém tu, fragil ser, ensanguentada<br> +Terás de vêr cair essa cabeça.<br> +Vai, traidora mulher; sobre a tua alma<br> +Pese o remorso da desgraça d'elle!<br> +Vai-te, adeus, e se podes, contemplando<br> +Este exemplo fatal, ter vida ainda,<br> +Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»<br></p> +<h4>XIII</h4> +<p>Velando a face pallida e sombria,<br> +Onde as veias inchando palpitavam,<br> +Como se o sangue em ondas refluisse<br> +Do coração á fronte, Azo ficára<br> +Callado longo tempo. Hugo, soltando<br> +Profunda, porém firme, a voz do peito,<br> +Roga ao pae que o escute alguns momentos.<br> +O principe em silencio lh'o concede:<br> +<br> +«Tu bem sabes que a morte não receio;<br> +Tinto em sangue mil vezes nas batalhas<br> +Me viste ao lado teu, onde mais forte,<br> +Mais travado e mortal, era o combate.<br> +Então deves lembrar-te que esta espada,<br> +Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,<br> +Derramára mais sangue do que em breve<br> +Fará correr a mão do teu carrasco.<br> +Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?<br> +Quite me deixas d'esse dote infame!<br> +Presente, viva tenho na memoria<br> +A injuria com que as faces affrontaste<br> +De minha pobre mãe; e a vil herança<br> +Que recebi no berço, inda me accende<br> +O semblante de cholera e vergonha.<br> +<br> +«No tumulo onde agora ella repousa,<br> +Irá juntar-se em breve o meu cadaver.<br> +Transido o peito seu por mil desgostos,<br> +Separada do corpo esta cabeça,<br> +Entre os mortos dirão até que ponto<br> +Foste amante fiel, pae carinhoso.<br> +<br> +«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes<br> +Que trocámos affronta por affronta.<br> +A mulher a que chamas tua esposa,<br> +Victima ingenua do teu fero orgulho,<br> +Não te lembras que fôra largo tempo<br> +Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,<br> +Contemplando o seu rosto, desejaste-a,<br> +E para emfim provar que não podia<br> +Pertencer-me jámais ousaste affoito,<br> +Allegar o teu crime e a minha origem.<br> +<br> +«Era indigno de ser esposo d'ella!<br> +E porque?! Por que as leis não consentiam<br> +Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.<br> +E comtudo, se a mão da Providencia<br> +Me conservasse a vida, dentro em pouco<br> +Podéra conquistar de certo um nome<br> +Tão nobre como o teu. Tive uma espada,<br> +E sobeja ambição para elevar-me<br> +Com ella aos feitos de sonhada gloria.<br> +Bem sabes que as esporas mais brilhantes,<br> +Nem sempre as traz aquelle que nascêra<br> +Embalado na purpura, e que as minhas,<br> +O corcel que montava, por mil vezes<br> +Avante arremessaram dos mais nobres,<br> +Mais valentes senhores, quando, lembras-te?<br> +Carregando eu bradava: <i>Éste e victoria!</i><br> +O meu crime conheço, e não procuro<br> +Minoral-o, descança, nem tão pouco<br> +Implorar-te alguns dias de existencia,<br> +Rapidas horas que sem ser contadas<br> +Passarão sobre a pedra do meu tumulo!<br> +<br> +«Delirio, como foi o do passado,<br> +Não podia ser longo. A minha origem,<br> +O meu nome, não são de mancha isentos;<br> +Mas comtudo, apesar do teu orgulho,<br> +Regeitar perfilhar-me!... nesta face,<br> +Quaes olhos não verão que sou teu filho?<br> +A minh'alma tambem de ti procede!<br> +De ti, sim; por que tremes? de ti veiu<br> +O indomavel vigor do meu caracter.<br> +Não foi somente a vida que me deste,<br> +Porém quanto podia emfim tornar-me<br> +Em tudo igual a ti. Comtempla a obra<br> +Do teu culpado amor! Na semelhança,<br> +Semelhança fatal que vês no filho,<br> +Irada te castiga a Providencia!<br> +Est'alma não é pois a d'um bastardo,<br> +Como a tua não soffre a tyrannia.<br> +O passageiro sopro da existencia,<br> +Nunca em mais o presei do que tu proprio,<br> +Quando juntos na força do combate,<br> +A galope os corceis, a espada em punho,<br> +Por mil vezes nas renques do inimigo<br> +Rompendo a ferro frio penetramos.<br> +<br> +«O passado acabou, e dentro em pouco<br> +O futuro com elle irá juntar-se,<br> +«Mas oxalá que a mão do Omnipotente<br> +He houvesse dado a morte em taes instantes!<br> +<br> +«Era pouco deixar-me orfão no mundo<br> +Do affecto maternal; ousaste ainda<br> +Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?<br> +Sou teu filho, conheço-o neste instante,<br> +E a sentença cruel que proferiste,<br> +Posto venha de ti, não posso agora,<br> +No fundo de minh'alma achal-a injusta.<br> +<br> +«No peccado nasci, morro na infamia;<br> +Por onde começou, termine a vida.<br> +Errando o filho, o pae tambem errára;<br> +Num, castigas os dois. Perante os homens<br> +Eu, quem sabe? serei o mais culpado,<br> +Porém Deus julgará entre nós +ambos.»<br></p> +<h4>XIV</h4> +<p>Cruzando as mãos no peito Hugo fizera<br> +Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,<br> +Que a sala do palacio povoavam,<br> +Não houve um só, que ouvindo esse ruido<br> +Deixasse de tremer. Depois cravaram<br> +Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.<br> +<br> +Parisina, infeliz! pallida e fria,<br> +Immovel como estatua de alabastro,<br> +Dissemos que assistíra á scena horrivel,<br> +Da perdição do amante. Os olhos fixos,<br> +Scintillantes, abertos, desvairados,<br> +Nem sequer por instantes se volveram.<br> +Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,<br> +O fito olhar velaram; mas em torno<br> +Das pupillas azues, e resplendentes,<br> +Sem cessar se alargava o alvo circo!<br> +<br> +Uma lagrima a custo conglobada,<br> +Lentamente das palpebras saía,<br> +Tremendo sobre a franja das pestanas:<br> +Quem o sabe contar? nesse momento,<br> +Os que a viam, pasmavam, não podendo<br> +Crer que a olhos de humana creatura,<br> +Fosse dado verter tão grossas lagrimas!<br> +<br> +Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:<br> +Comtudo no som cavo que soltára,<br> +Nesse longo suspiro, parecia<br> +Que vinha o coração; apoz instantes<br> +Tentára inda outra vez, porém debalde!<br> +Do mais fundo do peito a voz partira<br> +Num grito, num gemido prolongado,<br> +E depois como a pedra, como a estatua<br> +Derrubada da base, como tudo<br> +O que é de vida falto emfim caíra<br> +Digno emblema do tumulo da esposa,<br> +Do traído senhor da casa d'Éste!<br> +Porém não da mulher que sente n'alma<br> +O remorso do crime, e nelle segue<br> +Pelo ardor dos desejos instigada.<br> +<br> +Do lethargo fatal tornára em breve,<br> +Mas não para a razão; cada sentido<br> +Por dor intensa fôra aniquilado.<br> +Como das cordas do arco humedecidas<br> +Lassas da chuva, as settas disparadas<br> +Vão bater ao acaso, assim do cerebro<br> +As magoadas fibras só soltavam<br> +Desvairados, e vagos pensamentos.<br> +<br> +O passado, e porvir! Ermo o passado!<br> +Nas trevas do porvir apenas via<br> +Um sinistro clarão, de espaço a espaço,<br> +Semelhante ao do raio quando fende<br> +As nuvens conglobadas no horisonte,<br> +E cai sobre um logar deserto e triste.<br> +Gelada de terror sentia n'alma<br> +O peso do remorso; que existiam<br> +A vergonha, o peccado, na consciencia,<br> +Uma voz mal distincta lh'o lembrava;<br> +Que a morte estava ali pairando livida<br> +Sobre alguem, nesse instante o presentia.<br> +Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida<br> +O sopro que seus labios respiravam?<br> +Era o ceo, era a terra, eram os homens,<br> +Que tinha ante seus olhos deslumbrados?<br> +Os homens, ou demonios que a miravam<br> +Com sinistra expressão? Eram os mesmos<br> +Cujo olhar noutro tempo revelava<br> +Tão suave, e profunda sympathia?<br> +Tudo era incerto e vago no seu animo,<br> +Receios, e esperanças insensatas;<br> +Agora um meigo riso, logo um pranto,<br> +E no seu desvairado pensamento,<br> +Cuidava ser aquelle um sonho horrivel<br> +No qual o coração se debatia.<br> +Porém d'elle, oh! debalde procurára<br> +Acordar a infeliz jámais na vida!<br></p> +<h4>XV</h4> +<p>Na torre pardacenta do mosteiro,<br> +Balançam lentamente agora os sinos,<br> +E o som profundo e triste dentro d´alma,<br> +Desperta dolorosos sentimentos.<br> +Por aquelles que á sombra do cypreste,<br> +Repousam para sempre, ou dentro em pouco<br> +Terão de repousar, o canto funebre,<br> +Que ouvis neste momento se desprende.<br> +Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;<br> +Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!<br> +Braços nus o carrasco attento espera<br> +Pelo instante fatal; certeiro e forte,<br> +Deve o golpe caír. Horrivel quadro!<br> +Mas comtudo ao redor avidamente,<br> +A turba silenciosa se reune,<br> +Para ver, Santo Deus! no cadafalso<br> +Por ordem de seu pae morrer um filho!<br></p> +<h4>XVI</h4> +<p>É um'hora encantada a que precede<br> +O derradeiro adeus do sol explendido!<br> +Na pompa de seus raios fulgurantes,<br> +Parece escarnecer da scena horrivel<br> +Que se aproxima de seu termo agora.<br> +Curvado aos pés do monge, em voz sumida<br> +Hugo profere a derradeira prece,<br> +Prece contricta, humilde, fervorosa.<br> +Nessa fronte inclinada e pensativa<br> +Bate um raio de luz, porém mais vivo,<br> +Mais brilhante reflecte sobre a lamina,<br> +Que proxima da victima responde<br> +Por um forte, mas lugubre, reflexo.<br> +<br> +Como est'hora suprema é dolorosa!<br> +O crime fôra atroz, justo o castigo;<br> +Mas comtudo o supplicio nesse instante<br> +Faz gelar de terror quem o contempla!<br></p> +<h4>XVII</h4> +<p>As orações extremas acabaram;<br> +O filho ao pae traidor, o audaz amante,<br> +Tudo emfim confessou. Rapidas tocam<br> +As horas no seu ultimo momento.<br> +As ondadas madeichas de cabello<br> +Já cairam no chão. O nobre manto<br> +Bordado pelas mãos de Parisina,<br> +Não deve acompanhal-o á sepultura.<br> +Tentam vendar-lhe o rosto, não consente<br> +Esta final affronta. O seu orgulho,<br> +Comprimido no mais intimo d'alma<br> +Pela expressão de fria indifferença,<br> +Acorda nesse instante, repellindo<br> +A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.<br> +<br> +«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,<br> +Preso, algemado estou; co'a vista livre,<br> +Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo<br> +No logar do supplicio inclina a fronte.<br> +Ao proferir esta palavra: «Fere»<br> +Brilha o ferro no ar; silvando o golpe<br> +Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,<br> +O corpo palpitante e transtornado,<br> +Pula envolto no pó, que bebe o sangue<br> +Saído em borbotões pelas arterias!<br> +<br> +Inda instantes os labios estremecem,<br> +Nos olhos inda fulge a luz da vida;<br> +Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,<br> +Como deve morrer o homem culpado<br> +Que se arrepende no momento estremo,<br> +Elle o seu coração oppresso e triste<br> +A Deus sómente consagrou ness'hora.<br> +<br> +A imagem de seu pae, da propria amante<br> +O que eram á sua alma atribulada?<br> +Um sentimento das paixões terrestres<br> +Não viera turbar naquelle instante<br> +A pura contricção do seu espirito,<br> +A não ser quando expondo a fronte nua,<br> +Ao cutello do algoz quiz ver a morte.<br> +Era o unico adeus que proferira,<br> +Ás testemunhas do cruel supplicio.<br></p> +<h4>XVIII</h4> +<p>A multidão gelada e silenciosa,<br> +Mal ousa respirar. Alguns gemidos<br> +Cortados, mas profundos, se escutaram;<br> +Nada mais, a não ser o som socturno<br> +Do cutello batendo sobre o cepo.<br> +<br> +Nada mais? houve um som, um grito horrivel,<br> +Estridulo, selvagem, semelhante<br> +Ao da mãe, que de um golpe repentino<br> +Vê cair a seus pés sem vida o filho!<br> +O grito de quem foi, de onde partiu?<br> +De um seio feminil, e mais terriveis<br> +Não os solta jámais o desespero!<br></p> +<h4>XIX</h4> +<p>Hugo jaz no sepulchro, e Parisina<br> +Dissera acaso eterno adeus ao mundo,<br> +Refugiando sua alma atribulada<br> +No silencio da cella de um convento?<br> +O veneno, o punhal talvez seriam<br> +O severo castigo do seu crime?<br> +Ou succumbira emfim nesse momento,<br> +Em que vira brandir o duro ferro<br> +Sobre a adorada fronte? compassiva<br> +A mão da Providencia permittiu,<br> +Que ao quebrar-se em seu peito confrangido<br> +De angustia o coração, se terminasse<br> +Tambem com elle a fragil existencia?<br> +Não o soube ninguem. Aquella vida,<br> +Ai! de mim! acabára neste mundo<br> +Pela dor como a vida principia!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema25" id="Poema25">XXV<br></a></h1> +<h2>A VALSA</h2> +<p>Venceste: sou teu, bem ves<br> +Quão facil foi a victoria!<br> +Cahi-te rendido aos pes.<br> +E sem disputar a gloria.<br> +Aos <i>golpes</i> da tua mão<br> +Expuz logo o coração!<br> +<br> +Venceste: sinto nas veias<br> +Correr o sangue agitado:<br> +Todo o fogo do passado<br> +Já nos sentidos me ateias.<br> +Submisso, humilde, sugeito<br> +Ao teu estranho poder<br> +Existe todo o meu ser!<br> +<br> +Em ti palpita o meu peito;<br> +E a razão que me delira,<br> +Em ti vive, em ti respira,<br> +Com teu imperio a rendeste;<br> +Sou teu: venceste, oh! venceste!<br> +<br> +Quanto tempo decorreu<br> +Desde aquell'hora maldita?<br> +Quanto tempo est'alma afflicta<br> +Na angustia se debateu,<br> +Sem que um sorriso, um olhar<br> +A viesse consolar!<br> +<br> +Em vão buscava no ceo<br> +As scintillantes estrellas;<br> +Não via em nenhuma d'ellas<br> +Nem formosura, nem lume,<br> +E no prado por mais bellas<br> +Que se ostentassem as flores,<br> +Para mim não tinham cores,<br> +Nem encantos, nem perfume!<br> +..........................<br> +<br> +Uma tarde, era o sol posto,<br> +Vi-te assomar á janella;<br> +Depois inclinar o rosto<br> +Sobre a mão graciosa e bella,<br> +E contemplar fascinada,<br> +A natureza encantada.<br> +<br> +A aragem com brando alento<br> +Agitava os teus cabellos,<br> +E julguei nesse momento<br> +Ver-te á flor dos olhos bellos<br> +Estremecer cristalina<br> +Uma lagrima divina!<br> +<br> +Sobre o cimo flexuoso<br> +Do monte se reflectia<br> +Ainda o clarão saudoso<br> +Do brando expirar do dia,<br> +Quando afogueada rompeu<br> +A lua no azul do ceo.<br> +<br> +Teu seio battia inquieto,<br> +E eu senti no coração<br> +A chamma do antigo affecto<br> +Rebentar como um volcão!<br> +De repente os olhos teus<br> +Se volveram para os meus.<br> +Quizemos fallar, a voz<br> +Nenhum a poude soltar;<br> +Mas que não dissemos nós<br> +Naquelle inspirado olhar!...<br> +Uma só vez na existencia<br> +O diz a muda eloquencia!<br> +........................<br> +........................<br> +<br> +Entrei no baile! a alegria<br> +Saltava no teu semblante,<br> +Quando a valsa delirante<br> +Rompeu no vasto salão!<br> +Era aquella melodia,<br> +Que tanta vez a teu lado<br> +Me fez batter agitado<br> +De enthusiasmo o coração!<br> +Ergueste a fronte animada,<br> +E em teu rosto se trocou<br> +A pallidez namorada<br> +Pelo fogo da paixão!<br> +Como o teu olhar fallou<br> +Antes que dissesse a voz:<br> +«Oh! tua outra vez eu sou!»<br> +<br> +Depois no giro veloz<br> +Da dança vertiginosa,<br> +Como a tua voz formosa<br> +Sobresaltada tremia!<br> +Como em tua alma eu vivia!...<br> +É que nesse instante Deus<br> +Quiz unir as nossas vidas<br> +Por um amplexo dos ceos!<br> +<br> +No horisonte esmorecidas<br> +As estrellas desmaiavam<br> +Co'os resplendores da aurora<br> +Que já no ceo despontavam.<br> +Naquella encantada hora<br> +Expirou nos labios teus<br> +Um suspiro, e um adeus!<br> +Um adeus, que promettia...<br> +Mas quem pode revelar<br> +O que nelle se dizia!<br> +A aurora vinha a ráiar<br> +E os clarões da manhã fria<br> +Acaso viram jámais<br> +Tão felizes dois mortaes?<br> +.........................<br> +.........................<br> +<br> +Desde então ao teu poder,<br> +Submisso, humilde, sugeito<br> +Existe todo o meu ser.<br> +Em ti palpita o meu peito,<br> +E a razão que me delira,<br> +Em ti vive, em ti respira,<br> +Com teu imperio a rendeste,<br> +Sou teu: venceste, oh! venceste!<br></p> +<p class="data">Setembro da 1861.</p> + + +<h1><a name="Poema26" id="Poema26">XXVI<br></a></h1> +<h2>RECORDAÇÕES</h2> +<p>Como foi, e ha quanto tempo<br> +Que esse tão feliz momento,<br> +Da minha vida acabou?!<br> +Não sei, que importa? Era um dia<br> +Que o sol vivido inundava<br> +A luxuriante campina.<br> +Intensa, glacial frieza<br> +O coração me gelava,<br> +Quando subito sentira<br> +Um raio de luz divina<br> +Que minh'alma illuminou.<br> +Deslumbrado em vão buscava<br> +Ver donde essa luz partia,<br> +A mente me delirava<br> +Co'a ventura que sentia!<br> +<br> +Oh! depois vi claramente,<br> +Que de teu rosto innocente<br> +Partira o raio de luz,<br> +Tão suave e tão sereno,<br> +Como esse que nas pupillas,<br> +Azuladas e tranquillas<br> +Do anjo da nossa infancia<br> +Melancolico reluz!<br> +<br> +Parámos naquella estancia,<br> +Dize, lembras-te, Luiza,<br> +Como vinha fresca a brisa,<br> +E que suave fragrancia<br> +Rescendia a viração?<br> +Tu firmavas-te ao meu braço,<br> +E eu mal respirar podia<br> +Que não sei quê me opprimia,<br> +Mas com que doce oppressão!<br> +<br> +Parava, não de cançaço,<br> +Por que o peito mais valente,<br> +De mais vigor não se anima,<br> +Nem com mais força se sente<br> +Do que eu me sentia então!<br> +<br> +Foi fatal aquelle instante,<br> +Para ti fatal, embora,<br> +Tu viveste numa hora,<br> +Inteira toda uma vida<br> +Do mais delirante amor;<br> +Porque a tua alma, querida,<br> +Quando deveras se inflamma,<br> +Devora co'a sua chamma<br> +O prazer até á dor!<br> +<br> +Duas lagrimas brilhantes<br> +De teus olhos deslisaram,<br> +Quando nos meus se cravaram<br> +Formosos e scintillantes.<br> +A expressão que eu nelles via,<br> +Devêra ser semelhante<br> +Á que o justo vê no dia<br> +Do seu supremo juizo,<br> +Nos do anjo fulgurante<br> +Que lhe aponta o paraizo!<br> +<br> +Como foi que tal encanto<br> +A fatal mão do destino<br> +Para sempre nos quebrou!?<br> +Da noite o sombrio manto,<br> +O teu semblante divino<br> +A meus olhos occultou!<br> +<br> +Oh! não foi nesse momento,<br> +Porque inda no firmamento<br> +O lampejo d'uma estrella,<br> +As tuas pallidas faces<br> +De um reflexo illuminou,<br> +E inda um beijo, longo, ardente<br> +Na tua boca innocente<br> +A minha boca estampou!<br> +<br> +Oh! não foi!! Depois ainda,<br> +Na mesma noite encantada,<br> +Te vi fulgurante e linda,<br> +De brancas roupas trajada,<br> +No turbilhão delirante<br> +Do baile veloz passar;<br> +Inda ali tanta esperança,<br> +Tanto amor, tanta ventura,<br> +Veiu minh'alma inundar<br> +Inda ouvindo aquella valsa<br> +De enthusiasmo estremecemos,<br> +E desvairados corremos<br> +Ao som da doida cadencia.<br> +Oh! que fogo nesse instante<br> +Nos inflammava a existencia!!<br> +Eu cingia-te anhelante<br> +Entre meus convulsos braços,<br> +E com teus ligeiros passos<br> +Tu mal tocavas o chão!<br> +Aquella doce harmonia<br> +De instante a instante augmentava.<br> +Oh! como então nos battia<br> +Agitado o coração!<br> +Augmentava, e de repente,<br> +Como cortada torrente,<br> +A melodia parou;<br> +E nos meus braços, querida,<br> +Extenuada, abatida,<br> +Por momentos te deixou.<br> +<br> +A aurora vinha rompendo<br> +Quando teus olhos aos meus,<br> +Proferiam eloquentes<br> +Aquelle saudoso adeus.<br> +Ao longe o vasto Oceano,<br> +Da brisa fresca agitado,<br> +Ante nós bramia ufano.<br> +Tu, volveste horrorisado<br> +O rosto co'a vista d'elle!...<br> +É que em breve a todo o pano,<br> +O meu baixel correria<br> +Sobre aquellas ondas torvas,<br> +E de ti me apartaria!<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1851.</p> + + +<h1><a name="Poema27" id="Poema27">XXVII<br></a></h1> +<h2>SÊ FELIZ</h2> +<p>Sê feliz! Hontem ainda<br> +Contemplando o teu semblante,<br> +Na sua innocencia infinda,<br> +Porém triste nesse instante,<br> +Roguei a Deus do mais fundo<br> +Mais puro do coração,<br> +Que uma lagrima, um desgosto,<br> +Uma sombra de amargura,<br> +Jámais viesse no mundo,<br> +Turbar teu candido rosto.<br> +<br> +Sê feliz: toda a ambição<br> +Que por ti minh'alma encerra<br> +É ver-te feliz na terra!<br> +Nada mais. O amor profundo,<br> +O mais violento embora,<br> +Tem sempre na vida um'hora<br> +De egoismo, e esta affeição,<br> +Que uma só vez na existencia<br> +No meu peito se accendeu,<br> +Que jámais se ha de extinguir,<br> +Tem a pureza do ceo,<br> +Proveiu da tua essencia!<br> +<br> +Se no presente ou porvir,<br> +Alguem que te encante a vida<br> +Existe ou tem de existir...<br> +Não terei zelos... Unida,<br> +Para sempre a outro affecto<br> +Passarás junto de mim,<br> +Embora, direi então:<br> +«Sê feliz: toda a ambição,<br> +Que por ti minh'alma encerra<br> +É ver-te feliz na terra!»<br> +<br> +E sabes?... ao Creador<br> +Dou graças por me haver dado<br> +Este puro sentimento<br> +Em vez do fogo do amor.<br> +Ai! se um dia, no momento<br> +De ver-te, te houvesse amado!...<br> +Se em vez da chamma suave,<br> +Que em meu coração se inflamma,<br> +Se ateasse aquella chamma,<br> +Se houvesse emfim rebentado<br> +Aquelle fatal volcão!...<br> +Ai! de mim! quanta amargura!<br> +Quanta angustia o coração<br> +Não teria já passado!<br> +Porem assim!... não, ai! não!<br> +Sê feliz: toda a ambição<br> +Que por ti minh'alma encerra,<br> +É ver-te feliz na terra!<br></p> +<p class="data">Maio de 1854.</p> + + +<h1><a name="Poema28" id="Poema28">XXVIII<br></a></h1> +<h2>A FOLHA DESBOTADA</h2> +<p>Volve folha desbotada,<br> +Outra vez á mão nevada<br> +Que do tronco te ceifou,<br> +Volve, e dize sem receio,<br> +Que te apertei contra o ceio,<br> +Que o meu olhar te adorou:<br> +<br> +Vai discreta confidente,<br> +Dize tudo quanto sente,<br> +E calla o meu coração!<br> +Vai, que a tua voz sentida,<br> +Ha de ser por ella ouvida<br> +Com ternura e compaixão.<br> +<br> +Dize que ao ver um instante<br> +Anuviado o seu semblante,<br> +Pensativo o seu olhar,<br> +De sobresalto e receio,<br> +Sinto o coração no seio<br> +De repente a palpitar!<br> +Que a sonhei antes de vel-a,<br> +Como bem fadada estrella,<br> +Mensageira do Senhor!<br> +Que ao vel-a a voz da consciencia<br> +Disse: É esta na existencia<br> +A tua estrella de amor!<br> +De amor puro, intenso, ardente,<br> +Mas que occulto eternamente<br> +No meu peito ficará!<br> +Que no infortunio nascido,<br> +Só commigo tem vivido,<br> +E commigo morrerá!<br> +<br> +Ai! folhinha desbotada!<br> +Outra vez á mão nevada<br> +Volve de quem te ceifou!<br> +Volve, e dize, sem receio,<br> +Que te apertei contra o seio,<br> +Que o meu olhar te adorou!<br></p> +<p class="data">Maio de 1854.</p> + + +<h1><a name="Poema29" id="Poema29">XXIX<br></a></h1> +<h2>NUM ALBUM</h2> +<p>Venham ver este retrato,<br> +E respondam se o pintor,<br> +Que desenhasse melhor,<br> +O tirava mais exacto.<br> +Eil-a! saltando da tela,<br> +Viva, inteira, palpitante!<br> +Pallido um pouco o semblante,<br> +A boca graciosa e bella,<br> +Quando o sorriso a desflora,<br> +É como a rosa da aurora<br> +Abrindo ao sopro de abril!<br> +É mais! é ver num momento,<br> +Quanto pode o pensamento<br> +Sonhar de casto e gentil!<br> +<br> +O cabello ondado e fino,<br> +Negro como a noite escura,<br> +Cai no collo alabastrino,<br> +E faz resair a alvura<br> +Do rosto fascinador.<br> +<br> +Os olhos... oh! neste instante,<br> +Tremo, hesito, não ha cor,<br> +Não ha luz por mais brilhante,<br> +Que possa emfim imitar<br> +O reflexo scintillante<br> +Da chamma do seu olhar!<br> +Chamma que ás vezes traidora,<br> +Se occulta na sombra escura,<br> +Á espera que chegue um'hora,<br> +Hora de morte ou ventura!,<br> +Em que possa deslumbrar,<br> +Com mais fogo e com mais vida,<br> +O desvairado que ousar,<br> +Miral-a sem recear,<br> +Pela ver assim sumida!<br> +<br> +Terminou?... e eu que julgava<br> +Cobrir-me de eterna gloria,<br> +Quando tanto me esmerava<br> +Na minha copia ideal!<br> +Agora que na memoria,<br> +(Ou antes no coração)<br> +Tenho vivo o original,<br> +Vejo bem que não ha mão,<br> +Por mais que saiba pintar,<br> +Capaz de estampar na tela<br> +A expressão graciosa e bella<br> +D'essa face, e d'esse olhar!<br></p> +<p class="data">Abril de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema30" id="Poema30">XXX<br></a></h1> +<h2>ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?</h2> +<p>Onde se encontra a ventura,<br> +Esta encantada visão,<br> +Que tantas vezes procura,<br> +Mas debalde, o coração?<br> +Nas pompas da formosura?<br> +Nos esplendores da gloria?<br> +No poder de conquistar<br> +A mais difficil victoria<br> +Com o mais timido olhar?<br> +<br> +Oh! como então és feliz,<br> +Porque tudo te revela,<br> +Que não ha face mais bella,<br> +Nem existencia tecida<br> +De mais florído matiz!<br> +<br> +Porém responde, na vida,<br> +Quando tu passas radiante<br> +D'essa luz que emfim só Deus,<br> +Concede a um anjo dos seus!...<br> +Quando ouves a cada instante<br> +Dizer com voz anhelante:<br> +«Lá chega, lá passa, é ella,<br> +Que é tão feliz como é bella!»<br> +Uma sombra de amargura,<br> +Um sentimento profundo<br> +Não te opprime o coração<br> +E não te diz que a ventura<br> +Se não encontra no mundo?!<br> +<br> +Uma vez, sereno o ceo,<br> +Como os teus olhos brilhava!<br> +Airosa ante mim passava<br> +Essa forma, esse ideal<br> +Que não pode ser mortal!<br> +Atravez do raro veo,<br> +Que o semblante te encobria,<br> +Uma lagrima descia;<br> +Era de prazer ou dor!<br> +Oh! de angustia parecia,<br> +Pelo agitado tremor<br> +Com que o peito te battia!<br> +O mundo não sei se a via,<br> +Porque a meu lado exclamava:<br> +«Lá chega, lá passa, é ella,<br> +Que é tão feliz como é bella!»<br> +Mas quem sabe se acertava?!<br> +Porque a ventura real<br> +Se existe, é só no momento<br> +Em que livre o pensamento<br> +Se eleva ao mundo ideal!<br> +E noss'alma a outra unida,<br> +Foje á terra, se illumina<br> +De um raio de luz divina,<br> +E se esquece emfim da vida!<br></p> +<p class="data">Julho de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema31" id="Poema31">XXXI<br></a></h1> +<h2>QUEM DIRÁ?</h2> +<p>Quem dirá, vendo a expressão<br> +Que brilha no teu olhar,<br> +Que tu não tens coração?<br> +Bem haja a mão tutelar,<br> +Que á beira me suspendeu<br> +Do abismo da perdição!<br> +Que delirio foi o meu<br> +Naquelles tão curtos dias<br> +Que passei ao lado teu?<br> +<br> +Oh! como tu respondias<br> +Com o silencio eloquente<br> +Ás palavras que partiam<br> +Do meu coração ardente!<br> +E depois, se num momento<br> +Os labios já não podiam<br> +Expressar o sentimento,<br> +O fogo do meu affecto,<br> +Como o teu olhar inquieto<br> +A minh'alma interrogava<br> +E todo paixão jurava,<br> +Que era meu o teu amor!<br> +<br> +Oh! que dias de ventura!...<br> +Nos campos, abria a flor;<br> +Por entre a tenra verdura,<br> +Inda fraca, inda infantil,<br> +Se escutava a voz das aves<br> +Que saudavam abril.<br> +E tu, como ellas, ditosa,<br> +Ás suas notas suaves<br> +Juntavas a voz formosa!<br> +Ah! como eu vivia então!<br> +Como de novo sentia<br> +Rebentar no coração<br> +Essa infinita alegria<br> +Que nos desvaira a razão!<br> +<br> +Por quanto tempo durou<br> +O sonho que me encantava?<br> +Breve foi, maldicta a mão<br> +Que d'elle me despertou.<br> +Quando mais certo julgava<br> +Que era emfim minha a ventura,<br> +No momento em que acabava,<br> +De escutar dos labios teus<br> +Aquelle estremoso adeus!<br> +Adeus, que nesse momento<br> +Com a esperança sorria<br> +E tanto me promettia!...<br> +<br> +Foi, oh Deus! que de repente,<br> +Uma palavra maldicta,<br> +Fez que eu visse claramente,<br> +Cobrindo minh'alma afflicta<br> +De espessa nuvem sombria!<br> +........................<br> +<br> +Quem dirá vendo a expressão<br> +Que brilha no teu olhar,<br> +Que tu não tens coração<br> +Ou tem-lo para enganar?!<br></p> +<p class="data">Abril de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema32" id="Poema32">XXXII<br></a></h1> +<h2>UM BRINDE</h2> +<h3>(Improviso)</h3> +<p>Amigos, á formosura<br> +Que nos cerca neste instante,<br> +Erga-se a taça escumante<br> +De purpurino licor.<br> +Vivo enthusiasmo rebente<br> +Agora de nossas almas,<br> +Caiam palmas sobre palmas<br> +Cada vez com mais ardor!<br> +<br> +Aqui floresce na horta<br> +A viçosa laranjeira,<br> +Corre o Champanhe e o Madeira<br> +Que offertara nivea mão,<br> +Aqui não chegam as garras<br> +De tanta velha leôa<br> +Que esfaimada por Lisboa<br> +Se atira a tanto leão.<br> +<br> +Aqui livre em nosso peitos<br> +Pula impaciente alegria,<br> +Porque ao sol de um bello dia<br> +Tudo vemos reflorir!<br> +Que importa pois que os ministros<br> +Resonem no parlamento,<br> +E que os homens de São Bento<br> +Nem sequer nos façam rir?<br> +<br> +Para nós sorri-se o mundo,<br> +Para nós a vida é esta,<br> +Hoje festa, amanhã festa,<br> +Gloria, encantos, illusões!<br> +Junto a nós temos as bellas<br> +Mais fragrantes do que as rosas,<br> +Longe... o mundo das preciosas,<br> +E o mundo dos papellões!<br> +<br> +Eia pois! á formosura<br> +Que me cerca neste instante<br> +Erga-se a taça escumante<br> +De purpurino licor.<br> +Vivo enthusiasmo rebente<br> +Agora de nossas almas,<br> +Caiam palmas sobre palmas<br> +Cada vez com mais ardor!<br></p> +<p class="data">Abril de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema33" id="Poema33">XXXIII<br></a></h1> +<h2>AQUELLE DIA!</h2> +<p>Jámais me ha de esquecer aquelle dia!<br> +Do meigo outono a pallida folhagem<br> +Inda os troncos do bosque revestia.<br> +<span style="margin-left: 1em;">Sereno estava o ceo; doce a +bafagem;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De toda a natureza</span><br> +Infinita saudade respirava;<br> +<span style="margin-left: 1em;">Mas por essa tristeza</span><br> +Feliz o coração se dilatava!<br> +<br> +Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança,<br> +D'esses dias de amor e de ventura,<br> +<span style="margin-left: 1em;">De paz e de +esperança,</span><br> +Se anima, e vê sorrir na noite escura,<br> +Um reflexo da estrella resplendente<br> +Que uma vez lhe brilhou serena e pura;<br> +Inda a sombria nevoa do presente<br> +Se rarefaz, se esvai, e se illumina<br> +Tudo a seus olhos de uma luz divina!<br> +<br> +Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia!<br> +Nem o lento correr de tantos annos,<br> +Nem as tardias horas que vieram<br> +Depois cheias de amargos desenganos,<br> +<span style="margin-left: 1em;">O encanto desfizeram</span><br> +Da inspirada, divina poesia,<br> +Que elle continha em si, que elle nos deu,<br> +E nós guardmos como um dom do ceo!<br> +<br> +Era ermo o logar, ermo, mas bello!<br> +Profunda a solidão! De quando em quando,<br> +Escutava-se o cantico singelo,<br> +Da estrangeira avesinha que buscando<br> +<span style="margin-left: 1em;">O sol do nosso inverno,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">A voz desfalecida ia +soltando</span><br> +Com saudades do <i>ninho seu paterno</i>.<br> +<br> +No extasi ideal do sentimento,<br> +Tu volvias os olhos silenciosa,<br> +Para o sereno azul do firmamento;<br> +<span style="margin-left: 1em;">E da boca formosa,</span><br> +Reprimir um suspiro em vão tentavas!<br> +<span style="margin-left: 1em;">É que nesse +momento,</span><br> +Exausta a escala do prazer, anciosa<br> +Uma nota na dor emfim buscavas!<br> +<br> +Nas nossas almas existia um mundo<br> +<span style="margin-left: 1em;">De indefenito amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do pelago profundo</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Onde ruge o furor</span><br> +Insano, concentrado, atroz, maldicto,<br> +<span style="margin-left: 1em;">D'esta cruenta guerra</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Das ambições da +terra,</span><br> +Nem uma maldição, um som, um grito<br> +<span style="margin-left: 1em;">Nos vinha perturbar!</span><br> +Era a amplidão do ceo, a solidão da serra,<br> +<span style="margin-left: 1em;">Ao longe... a voz do +mar!</span><br> +Depois como se a mão da Providencia<br> +Inundasse meu ser naquelle instante<br> +<span style="margin-left: 1em;">Da luz de outra +existencia,</span><br> +Julguei ter visto a origem fulgurante,<br> +<span style="margin-left: 1em;">De onde provém a +chamma</span><br> +D'este immortal amor que nos inflamma!<br> +<br> +<span style="margin-left: 1em;">Á ideia então da +morte</span><br> +Sentia-me sorrir; porque na hora,<br> +<span style="margin-left: 1em;">Que nol-a desse a sorte,</span><br> +Brilhava para nós serena e pura<br> +<span style="margin-left: 1em;">Essa immortal aurora,</span><br> +Que reluz nos umbraes da sepultura!<br> +<span style="margin-left: 1em;">Iriam nossas almas,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Já livres de +martirio,</span><br> +Colher as flores e mimosas palmas<br> +<span style="margin-left: 1em;">Que vicejam no empyreo!</span><br> +<br> +Tudo em fim acabou! a noite escura,<br> +Envolvera em seu manto aquelle dia!<br> +<span style="margin-left: 1em;">E de tanta poesia</span><br> +Que resta para nós? uma saudade,<br> +E a esperança que um dia essa ventura<br> +Nossa outra vez será na eternidade!<br></p> +<p class="data">Agosto de 1858.</p> + + +<h1><a name="Poema34" id="Poema34">XXXIV<br></a></h1> +<h2>PARA RECITAR AO PIANO</h2> +<h3>(Primeira)</h3> +<p>Era no outono quando a imagem tua<br> +A luz da lua seductora vi.<br> +Lembras-te ainda nessa noite Eliza,<br> +Que doce brisa suspirava ali?<br> +<br> +Toda de branco, em tua fronte bella,<br> +Rosa singela se ostentava então,<br> +Vi-te, e perdido de te ver buscava<br> +Se me apartava da gentil vizão!<br> +<br> +Era debalde; quanto mais te via,<br> +Mais me perdia delirante amor;<br> +Magicas fallas proferiste incerta,<br> +Toda coberta de infantil pudor!<br> +<br> +Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo<br> +Louco desejo pois fugir-te vi!<br> +Vendo-me triste para mim voltaste,<br> +Não me fallaste; mas eu bem senti!<br> +<br> +Fresca, arrobada de perfume a brisa,<br> +Lembras-te, Eliza? suspirava então;<br> +Tu nos meus braços reclinaste a frente,<br> +E meigamente me disseste: Não!<br></p> +<p class="data">Setembro de 1852.</p> + + +<h1><a name="Poema35" id="Poema35">XXXV</a></h1> +<h3>(Segunda)</h3> +<p>De luz, de encanto, de alegria infinda,<br> +Aquelle rosto seductor esplende,<br> +Brilha a ventura em sua face linda,<br> +E vivo fogo o seu olhar accende!<br> +<br> +Como a existencia para nós é bella<br> +Entre a verdura d'esta amena estancia!<br> +Aqui suspira a viração singela,<br> +E esparge a rosa virginal fragrancia.<br> +<br> +Livres, immunes neste doce enleio,<br> +Dos gratos dias do saudoso abril,<br> +Ouvir das aves o infantil gorgeio,<br> +Gosar da sombra do enredado til...<br> +<br> +Ella a meu lado, sobre os meus cravando,<br> +Aquelles olhos cuja densa rama,<br> +Agora occulta, logo vai deixando,<br> +Brilhar o fogo da traidora chamma!<br> +<br> +Se entro no baile onde o prazer se agita,<br> +Eil-a, a formosa, no veloz passar,<br> +Louca os seus olhos nos meus olhos fita,<br> +E mil affectos me traduz no olhar!<br> +<br> +De luz, de encanto, de alegria infinda,<br> +Aquelle rosto seductor esplende;<br> +Brilha a ventura em sua face linda,<br> +E o ceo no fogo que esse olhar accende!<br></p> +<p class="data">Abril de 1854.</p> + + +<h1><a name="Poema36" id="Poema36">XXXVI</a></h1> +<h3>(Terceira)</h3> +<p>Lembras-te, Elisa, quando a face pallida,<br> +Da casta lua despontou no ceo,<br> +E d'entre a balsa suspirada, e languida,<br> +Mavioso canto o rouxinol rompeu?<br> +<br> +Naquella noite em que o perfume vívido<br> +De mato agreste rescendia no ar,<br> +Em que as estrellas fulguravam timidas<br> +Nas doidas ondas do ceruleo mar!<br> +<br> +Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me,<br> +Com todo o fogo de infantil paixão,<br> +Em voz sumida murmuravas: <i>Amo-te!</i><br> +E me apertavas docemente a mão!<br> +<br> +E que eu perdido de ventura olhando-te<br> +Da meiga lua ao divinal fulgor,<br> +Teu rosto de anjo contemplava estatico,<br> +Candida pompa de inspirado amor!<br> +<br> +Nesse momento fervorosa supplica<br> +Do intimo d´alma murmuraste a Deus,<br> +Que amor, que encanto nos teus olhos humidos,<br> +Quando os cravastes na amplidão dos ceos!<br> +<br> +Depois sentada nos degraus de marmore<br> +Sombra encantada, celestial visão,<br> +Que meigas fallas proferiste tremula,<br> +Que mil protestos me juraste então!<br> +<br> +Depois as rosas que animavam vívidas<br> +Teu bello rosto, desmaiar eu vi<br> +E vaga sombra de tristeza subita<br> +Cerrar-me forte o coração senti!<br></p> +<p class="data">Maio de 1853.</p> + + +<h1><a name="Poema37" id="Poema37">XXXVII<br></a></h1> +<h2>CIUMES DO PASSADO</h2> +<p>Quando teu rosto adorado,<br> +Da luz do amor se illumina,<br> +Resplandecente a meu lado,<br> +Não sabes por que anuviado<br> +O meu semblante se inclina?<br> +Por que um amargo sorriso<br> +Pelos meus labios deslisa,<br> +Quando teus labios, Luiza,<br> +Me proferem anhelantes,<br> +Tantos protestos de amor!<br> +É que minh'alma se opprime<br> +Á lembrança do passado,<br> +Em que já outro a teu lado<br> +Escutou essas palavras,<br> +Que me repetes agora<br> +Cada vez com mais ardor;<br> +E que esses mordidos beijos<br> +Que me perdem de ventura,<br> +Dados co'a mesma ternura<br> +Já perderam de desejos<br> +Neste mundo outro tambem!<br> +E tu não sabes, querida,<br> +Os zelos que me devoram,<br> +Á lembrança que na vida,<br> +Já quizeste a mais alguem?!<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1851.</p> + + +<h1><a name="Poema38" id="Poema38">XXXVIII<br></a></h1> +<h2>NUM ALBUM</h2> +<h3>(Improviso)</h3> +<p>Se eu fôsse um vate inspirado,<br> +Cantor das rosas singelas,<br> +Ah! quantas coisas tão bellas<br> +Tinha aqui para dizer!<br> +Mas eu tenho horror á brisa,<br> +Odio ao prado, odio ás estrellas,<br> +E então aos vates das <i>ellas</i><br> +Nem sequer os posso ver.<br> +<br> +Tu tambem, posto que a vida<br> +Para ti sorria agora<br> +Como sorri uma aurora<br> +Dos puros dias de abril,<br> +Não morres pela açucena,<br> +Nem deliras contemplando<br> +A lua que vai passando<br> +<i>Pelos vastos ceos d'anil</i>.<br> +<br> +E inda bem que a Providencia<br> +Te livrou de tal abysmo;<br> +Ó terrivel romantismo,<br> +Quando has de um dia acabar?<br> +Eu conheço uma menina,<br> +Bella, gentil, seductora,<br> +Mas, meu Deus, é tão doutora<br> +Que se não pode aturar!<br> +<br> +Arranja umas taes carinhas,<br> +Toma umas taes posições,<br> +Falla em sonhos e illusões<br> +No seu romantico ardor!...<br> +Pois é pena, que é bonita,<br> +Talvez seja até formosa;<br> +Se não fosse <i>preciosa</i><br> +Era um ente encantador.<br> +<br> +Se lhe dizem que é feliz,<br> +Solta um suspiro profundo,<br> +Porque ninguem neste mundo<br> +Até hoje a comprehendeu!<br> +Salvo um ente idolatrado<br> +Porém esse... oh! desventura!<br> +Para a fria sepultura<br> +Na flor da vida desceu!<br> +<br> +Emfim, se alguem lhe protesta<br> +Que inda ha de viver tranquilla,<br> +Ergue em extasi a pupilla<br> +Pondo a mão no coração!<br> +Imagina o desgraçado<br> +Que tenha a louca mania<br> +De ir batter comsigo um dia<br> +Neste abysmo de paixão!<br> +<br> +Oh! Bem hajas tu que és bella,<br> +Gentil, graciosa, elegante;<br> +A alegria em teu semblante<br> +Co'a innocencia anda a saltar:<br> +Bem hajas tu que detestas<br> +Todos os vates das <i>ellas</i>,<br> +E as romanticas donzellas,<br> +Que andam sempre a declamar!<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1862.</p> + + +<h1><a name="Poema39" id="Poema39">XXXIX<br></a></h1> +<h2>AMOR E DUVIDA</h2> +<p>Quando essa pallida frente<br> +Por momentos pensativa<br> +Cai ás vezes de repente,<br> +E se amortece a luz viva<br> +Que nos teus olhos resplende,<br> +Sinto que est'alma se accende<br> +De um fogo, de uma paixão,<br> +Que me desvaira a razão!<br> +<br> +A terrivel incerteza,<br> +Esta duvida constante,<br> +Desapparece um instante!<br> +Creio em ti:—foge a tristeza<br> +Que todo o meu ser domina;<br> +Torno á vida, e livre aspiro<br> +Num mundo que se illumina<br> +Da encantada luz do amor!<br> +Depois, se um flébil suspiro<br> +Vem de teus labios á flor,<br> +Oh! como então és amada!<br> +Como tens aos pés rendida<br> +Toda a força d'esta vida<br> +Que por ninguem foi domada!<br> +<br> +Mas é só por um instante!<br> +Volta depois a incerteza,<br> +Quando assume o teu semblante,<br> +Aquella glacial frieza,<br> +Que desalenta, que opprime,<br> +Que faz profunda tristeza,<br> +E destroe quanto é sublime!<br> +<br> +Um dia no firmamento<br> +O sol vívido brilhava,<br> +E a aragem com brando alento<br> +Entre as ramas suspirava!<br> +Era ali, naquelle val,<br> +Que parece destinado,<br> +Para esconder na espessura<br> +Os segredos da ventura!<br> +<br> +O coração agitado<br> +Nesse instante te pulsava,<br> +E uma tristeza mortal<br> +O semblante te anuviava.<br> +Allucinado buscava<br> +A causa d'onde nascia,<br> +Quando um gesto, uma expressão<br> +Me disse que eu só podia<br> +Tirar-t'a do coração!<br> +Sem mais ver, nem mais pensar<br> +Com que delirio a teus pés<br> +Me viste rendido então!...<br> +Quem podia duvidar<br> +Vendo a ingenua timidez<br> +Do teu inspirado olhar?!<br> +Os labios não revelaram<br> +O que havia em nossas vidas,<br> +Mas as vistas confundidas<br> +Com que eloquencia fallaram!<br> +Chegára a noite; do ceo<br> +Vi scintillar uma estrella;<br> +Era brilhante, e era bella,<br> +Mas um presagio mortal,<br> +Um cruel presentimento<br> +Me disse nesse momento:<br> +Não fites os olhos nella,<br> +Porque essa luz é fatal.<br> +Amanhã, espesso veo<br> +de nuveus ha de envolvel-a;<br> +E se de novo surgir<br> +Será para te illudir.<br> +<br> +E esta duvida cruel<br> +Este constante hesitar<br> +Quem m'o pode terminar<br> +Quem, senão um teu olhar?<br></p> +<p class="data">Junho de 1859.</p> + + +<h1><a name="Poema40" id="Poema40">XL<br></a></h1> +<h2>NUM ALBUM</h2> +<p>Não vês tu como inconstante<br> +<span style="margin-left: 4em;">Num instante,</span><br> +Ruge o sul, e turba o ceo,<br> +E que o mar, quedo, azulado,<br> +<span style="margin-left: 4em;">Brame irado,</span><br> +Sacudindo alto escarceo?<br> +<br> +Não tens visto na manhã,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Flor +louçã,</span><br> +Junto ás aguas rebentar,<br> +E á tarde, murcha, pendida,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Já sem vida,</span><br> +Sem perfume, a desfolhar?<br> +<br> +Pois então queres, amiga,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Que eu te diga</span><br> +Que o amor não é assim?<br> +Quando tudo empallidece,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Se emmurchece,</span><br> +Se desbota, e morre emfim?!<br> +<br> +Essas illusões doiradas,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Encantadas,</span><br> +Do primeiro albor da vida,<br> +São como a rosa louçã,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Da manhã,</span><br> +Á tarde n'haste pendida;<br> +<br> +São como o ceo azulado,<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Que doirado</span><br> +Pelo sol de ameno dia,<br> +Se escurece de repente<br> +<span style="margin-left: 4.5em;">Tristemente</span><br> +Por uma nuvem sombria!<br> +<br> +E tu não queres, amiga,<br> +<span style="margin-left: 5em;">Que eu te diga</span><br> +Que o amor não é assim?<br> +Quando tudo empallidece,<br> +<span style="margin-left: 5em;">Se emmurchece,</span><br> +Se desbota, e morre emfim?!<br></p> +<p class="data">Agosto de 1848.</p> + + +<h1><a name="Poema41" id="Poema41">XLI<br></a></h1> +<h2>SE CORAS NÃO CONTO.</h2> +<p>Tu queres que eu conte um sonho que tive<br> +Não sei se acordado, não sei se a dormir?<br> +Foi todo singelo, foi todo innocente:<br> +Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?<br> +<br> +Não córes, escuta, não fujas de mim,<br> +Que o sonho foi sonho de casta paixão:<br> +Já crês, não duvídas, verás como +é lindo<br> +O sonho innocente do meu coração:<br> +<br> +Eu via em teus labios um meigo sorriso,<br> +Em tens olhos negros um terno mirar,<br> +Teu seio de neve a arfar docemente,<br> +Sentia nas faces o teu respirar.<br> +<br> +E tu não fallavas, mas eu entendia;<br> +E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!<br> +Amor! na minh'alma a voz me dizia,<br> +E um beijo na fronte não sei se o senti.<br> +<br> +Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;<br> +O resto eu te conto; como has de gostar!<br> +É todo singelo, de amores somente;<br> +Verás que ao ouvil-o não has de córar.<br> +<br> +Depois apertando teu corpo flexivel,<br> +Cingindo teu collo no braço a tremer,<br> +Ouvi uma falla, e o que ella dizia<br> +Agora acordado não posso eu dizer.<br> +<br> +Não posso contar-te, só pude sentil-a;<br> +Não posso contar-t'a senão a sonhar:<br> +No sonho innocente, no sonho d'amores,<br> +Do qual, duvidosa, julgavas córar.<br> +<br> +Não posso contar-t'a, nem sei se acordado<br> +O que ella dizia se póde entender;<br> +Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,<br> +E agora acordado a não posso esquecer.<br> +<br> +Mas tu porque escondes a face córada?<br> +Não tem nada o sonho que faça córar,<br> +É todo singelo, é todo innocente;<br> +Que importa um abraço, se é dado a sonhar?<br> +<br> +Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;<br> +Não quero offender-te a casta isenção;<br> +Não torno a contar-te depois de acordado<br> +O sonho innocente do meu coração.<br></p> +<p class="data">Janeiro de 1847.</p> + + +<h1><a name="Poema42" id="Poema42">XLII<br></a></h1> +<h2>ANJO E VIRGEM.</h2> +<p>Virgem, que era o que sentias<br> +Quando ao vento desferias<br> +Essas frouxas harmonias<br> +De um incerto murmurar?<br> +Virgem, que era o que sentias<br> +Teu santo seio agitar?<br> +<br> +Achavas o mundo um ermo,<br> +Onde ao coração enfermo<br> +Dos horisontes sem termo<br> +Não vinha uma aura de amor?<br> +Achavas o mundo um ermo,<br> +Fertil só de fel e dor?<br> +<br> +Ou teu suspirar sentido<br> +Era por ver desmentido<br> +De amor o sonho querido,<br> +Que sonhaste, alma gentil?<br> +Ou teu suspirar sentido<br> +Foi dor ligeira, infantil?<br> +<br> +Era o teu anjo innocente<br> +Que passára mansamente<br> +A sorrir divinamente,<br> +Mas que outra vez não volveu?<br> +Era o teu anjo innocente,<br> +Que víras subir ao ceo?<br> +<br> +E ficaste pensativa<br> +Sobre esta terra captiva<br> +D'esperança, e d'amor esquiva,<br> +Coberta com veo de dó;<br> +E ficaste pensativa<br> +Ao ver-te perdida e só.<br> +<br> +Oh! esse tenue gemido<br> +Do seio teu despedido,<br> +Qual anhelito sumido<br> +Que a morte veiu cortar,<br> +Oh! esse tenue gemido,<br> +Que não pudeste occultar...<br> +<br> +Foi longo adeus de saudade<br> +Aos dias da tenra edade,<br> +Que envoltos na eternidade<br> +Ligeiros viste fugir;<br> +Foi longo adeus de saudade<br> +Ao teu primeiro sorrir!<br> +<br> +Do ceo á terra baixaste,<br> +E quando nella te achaste,<br> +Tristemente suspiraste<br> +Ao ver-te perdida e só;<br> +Do ceo á terra baixaste,<br> +Á terra de pranto e dó.<br> +<br> +Virgem, virgem, mal pensavas,<br> +Quando triste suspiravas,<br> +E num gemido enviavas<br> +Longo e doloroso adeus;<br> +Virgem, virgem, mal pensavas<br> +Que eras um anjo de Deus.<br></p> +<p class="data">Março de 1849.</p> + + +<h1><a name="Poema43" id="Poema43">XLIII<br></a></h1> +<h2>A M.<sup>ME</sup> LOTTI</h2> +<h3>Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um +asylo de infancia desvallida.</h3> +<p>Canta oh! canta alma inspirada,<br> +Que jámais na tua vida<br> +Tiveste a fronte cingida<br> +Dos loiros que hoje vais ter.<br> +Canta: os prantos da orfandade,<br> +Á tua voz seductora,<br> +Se vão convertendo agora<br> +Em sorrisos de prazer!<br> +<br> +Oh! jámais em teus triumphos<br> +Quando erguendo o rosto altivo,<br> +A teus pés tinhas captivo<br> +O poder da multidão,<br> +Jámais sentiste no peito<br> +Entre o rumor delirante,<br> +Batter, como neste instante,<br> +De enthusiasmo o coração!<br> +<br> +Cada nota que desprendas<br> +Terá um eco no empyreo,<br> +Por que as palmas do martyrio<br> +Em rosas vais transformar.<br> +Oh! bem haja a Providencia<br> +Que na tua voz divina<br> +Poz a graça que fascina,<br> +E o condão de consolar!<br> +<br> +Quando no giro brilhante<br> +Da tua crescente gloria,<br> +Te venha um dia á memoria<br> +Esta noite triumphal,<br> +Pára, escuta, e docemente<br> +Sentirás no teu ouvido,<br> +Um murmurio agradecido<br> +De ternura filial.<br> +<br> +São elles os desherdados,<br> +Os que já sem lar paterno<br> +Erguem preces ao Eterno,<br> +E bençãos por teu amor;<br> +São elles a quem um dia<br> +Com teu inspirado canto<br> +Tornaste em sorriso o pranto,<br> +Em pura alegria a dor!<br></p> +<p class="data">1860.</p> + + +<h1><a name="Poema44" id="Poema44">XLIV<br></a></h1> +<h2>PRIMAVERA</h2> +<p>Contempla este ceo esplendido,<br> +Ouve aquellas melodias<br> +De tanta ingenua avesinha,<br> +Que alegre, os serenos dias<br> +Da primavera adivinha.<br> +<br> +Não vês a olaia? vaidosa!<br> +Só por vêr que a amendoeira,<br> +Mais cedo desabrochou,<br> +Vermelha como uma rosa,<br> +De repente se tornou.<br> +<br> +Oh! bem vinda primavera!<br> +Ao vêr o sorriso terno<br> +Da tua boca divina,<br> +O prado, o monte, a campina,<br> +Que o triste e gelado inverno<br> +Sem piedade devastou,<br> +Num momento se animou!<br> +<br> +Em teu regaço a abundancia,<br> +Esperançosa floresce;<br> +Á sombra de teus verdores,<br> +Entre a suave fragrancia<br> +De tuas variadas flores,<br> +Contente o pobre adormece.<br> +<br> +E tu, minha vida, ao vêr-te<br> +Sósinha a meu lado agora,<br> +Nesta estação, nesta hora,<br> +Neste encantado logar,<br> +Á sombra d'essa verdura<br> +Onde frouxa a luz desmaia,<br> +Ante o mar que além suspira<br> +Na loira areia da praia,<br> +Não vês que a razão delira,<br> +Que dentro do coração<br> +Não cabe tanta ventura?!<br> +<br> +Falta a vida, sim, a vida,<br> +Para esta alegria immensa,<br> +Das nossas almas, querida!<br> +Viva, ardente, pura, intensa,<br> +Nesses olhos brilha a chamma<br> +Do amor que tua alma incerra;<br> +Alma que ao sopro de Deus<br> +Em divino amor se inflamma,<br> +Alma que veiu dos ceos,<br> +E que não cabe na terra.<br> +<br> +Fugaz, tranzitorio, vão,<br> +Será para nós o encanto<br> +Que nos enche neste instante<br> +De ventura o coração?<br> +<br> +Será! que importa? constante<br> +Virá depois a saudade,<br> +Abraçar essas memorias<br> +De infinda felicidade;<br> +Como ao templo aonde as glorias,<br> +De paz, de amor, de alegria,<br> +Se celebraram um dia,<br> +Mas templo que ao chão tombou,<br> +Se abraça a hera viçosa,<br> +Reveste as pobres ruinas,<br> +Amparando carinhosa<br> +Esse resto que ficou!<br> +<br> +Uma lagrima extremece,<br> +Vem de teus olhos á flor!<br> +Minha vida, esquece, esquece,<br> +Que póde haver na existencia<br> +Momentos de acerba dor!<br> +O sopro da Providencia,<br> +Vivo está, vivo respira,<br> +Neste ceo desassombrado,<br> +Na corrente que suspira,<br> +Neste cantico inspirado,<br> +Que as aves soltam no val,<br> +E d'elle provém a essencia<br> +Do nosso amor immortal!<br> +<br> +Contempla o vasto horisonte<br> +Que o sol vivido illumina;<br> +Olha as flores da campina;<br> +Escuta as aguas da fonte;<br> +Respira esta aragem pura,<br> +Embalsamada, e suave;<br> +Ouve o cantico d'essa ave,<br> +Que improvisa na espessura!<br> +<br> +Recolhe n'alma o perfume,<br> +D'esta encantada poesia.<br> +D'este sol, d'esta alegria,<br> +Que em torno de nós fulgura,<br> +E responde, minha vida,<br> +Se a nossa alma neste instante<br> +Póde com tanta ventura!<br></p> +<p class="data">Abril de 1856.</p> + + +<h1><a name="Poema45" id="Poema45">XLV</a><br></h1> + +<h2>VOLTAS</h2> +<h3>(Improviso)</h3> +<div class="citacao"><br> +Entre as flores da campina<br> +Correm uns certos rumores.<br> +Que tu, rosa purpurina,<br> +És a inveja das mais flores.<br> +<span style="margin-left: 9em;">F. C. M.</span><br> +</div> + +<p>És rosa, bem vês; o aroma<br> +Que do teu seio rescende,<br> +A cor que a folha te accende,<br> +A inveja que ao rosto assoma<br> +De todas as outras flores,<br> +Não t'o diz, quando no prado,<br> +Aos primeiros resplendores<br> +Do sol que tem despontado,<br> +Ergues a fronte singela,<br> +Mas ah! quão graciosa e bella?!<br> +<br> +O lyrio que á sombra nasce,<br> +Quando te sente e te aspira,<br> +Não sabes como delira!!<br> +Não tens visto tanta vez<br> +Naquella timida face<br> +Redobrar a pallidez?<br> +E o rouxinol namorado<br> +Que, assim que a lua derrama<br> +Seu doce clarão no val<br> +Por entre a viçosa rama,<br> +Desprende a voz immortal<br> +Improvisando inspirado<br> +O seu hymno nupcial<br> +Á noiva que Deus lhe ha dado!<br> +<br> +Por quem suspira anhelante?<br> +Por quem trémulo se inclina<br> +Sobre a veia cristalina?<br> +Quem procura nesse instante?<br> +—És tu, rosa purpurina!<br> +<br> +És tu, sim; porém a cor<br> +Que tinhas tão viva outr'ora,<br> +Porque a vais perdendo agora?<br> +Dize, oh rosa, a occulta dor<br> +Que te faz tão tristemente<br> +Pender a encantada frente!<br> +<br> +Agora entre as outras flores<br> +Correm uns certos rumores...<br> +Quaes são, não sei; mas ouvi<br> +Que as mais bellas da campina<br> +(Por quem és tão invejada)<br> +Quando hoje chamam por ti,<br> +Dizem—rosa namorada,<br> +E não—rosa purpurina.<br></p> +<p class="data">12 de Maio de 1860.</p> + + +<h1><a name="Poema46" id="Poema46">XLVI<br></a></h1> +<h2>LELIA</h2> + +<h4>O POETA</h4> +<p>Musa: o dia rompeu chuvoso e frio,<br> +Eu não tenho um real, nem tu tão pouco,<br> +Que és pobre como Job; por conseguinte<br> +Que havemos de fazer?<br></p> + +<h4>A MUSA</h4> +<p><span style="margin-left: 12em;">Ficar em casa,</span><br> +Discutindo as miserias d'este mundo.<br> +Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta,<br> +Em que estás a pensar?<br></p> + +<h4>O POETA</h4> +<p><span style="margin-left: 13em;">Numa aventura.</span><br> +<br></p> + +<h4>A MUSA</h4> +<p>Não se póde contar?<br></p> + +<h4>O POETA</h4> +<p><span style="margin-left: 11em;">De certo +póde.</span><br></p> + +<h4>A MUSA</h4> +<p>Nesse caso aproxima-te do lume,<br> +Accende este charuto, e principia.<br></p> + +<h4>O POETA</h4> +<p>Ha dois annos, um dia, ou mais exacto,<br> +Uma noite em que a lua resvalava<br> +No firmamento azul, em que os modilhos<br> +Do inspirado cantor da primavera<br> +D'entre a balseira em flor se desprendiam,<br> +Achava-me aspirando a branda aragem<br> +Sentado no portal de uma vivenda<br> +Da modesta apparencia, e collocada<br> +Num sitio encantador. Naquella noite,<br> +De que me hei de lembrar eternamente,<br> +Tinham vindo esperar-me de emboscada<br> +Alguns contrabandistas do parnazo,<br> +D'entre os quaes destacava a face lívida<br> +De certo esguio e pesaroso vate<br> +Que te inspira notavel sympathia.<br> +Fugi! elles ficaram declamando<br> +As primeiras estrophes de uma nenia!<br> +<br> +Vinha rompendo abril: como já disse,<br> +Sereno estava o ceo, doce a bafagem,<br> +E a rosa, a favorita, a bella noiva,<br> +Por quem o rouxinol desde a alvorada<br> +Solta a voz em prodigios de harmonia,<br> +Corando abria o pudibundo seio<br> +Aos doces carmes do adorado amante.<br> +<br> +Passado pouco tempo esta cabeça<br> +Começára a enredar-se em mil chimeras.<br> +De repente uma voz sonora e fresca<br> +Chegara ao meu ouvido. Era tão simples,<br> +Tão suave, tão meiga a melodia,<br> +Tão infantil a voz! Voltei os olhos,<br> +E descobri um vulto na janella.<br> +Que figura ideal! alta, mas fragil,<br> +Como hastesinha de um arbusto novo.<br> +A innocencia e virtude respiravam<br> +Naquelle rosto candido e formoso.<br> +Numa das mãos firmada a face tímida,<br> +E na outra a madeixa loira escura<br> +Que vinha em pittoresco desalinho<br> +Espargir-se nos hombros de alabastro.<br> +<br> +Como o cantor da selva que inspirado<br> +Improvisava no florido bosque,<br> +Cantava ella tambem; ave innocente,<br> +Juntava mais um trilo ao hymno eterno,<br> +Que aos pés de Deus a natureza erguia.<br> +Oh! quão feliz seria quem no mundo<br> +Alcançasse as primicias d'aquella alma!<br> +Lembrei-me de as colher, e decidi-me<br> +A apparecer-lhe no seguinte dia.<br> +Com effeito assim fiz.<br> +<br> +<span style="margin-left: 10.5em;">Era sol posto:</span><br> +Cançada de correr pela campina,<br> +Tinha vindo sentar-se pensativa<br> +Nos degraus de uma cruz que se elevava<br> +No adro estreito de modesta ermida.<br> +Chegava emfim ess'hora em que saudosa<br> +A mente se dilata em magos sonhos;<br> +Hora em que alma absorta em gostos intimos<br> +Perde a consciencia do exterior da vida.<br> +Diversas nuvemsinhas esmaltavam<br> +Para o lado do poente o firmamento.<br> +O bronze deu signal d'<i>Ave-Maria</i>.<br> +Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos<br> +Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios<br> +A singela oração; passado instantes,<br> +A pomba estremeceu, mas de alegria.<br> +A viva chamma de amoroso affecto<br> +Brilhou no puro azul d'aquelles olhos,<br> +Quando nos meus attentos se fitaram;<br> +E um sorriso de angelica ternura<br> +Entreabrira os seus labios purpurinos.<br> +Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve,<br> +Que estremeciam apertando as minhas,<br> +E pronunciei mansinho estas palavras:<br> +<br> +<span style="margin-left: 1em;">—«Sim, sou eu, que tu +tens visto,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Tanta vez naquelles +sonhos</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Bellos, candidos, +risonhos,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Da tua idade infantil.</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">És minha. Sou teu. A +vida</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Para nós vai ser +agora</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Mais alegre do que a +aurora,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Mais florída do que +Abril!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1em;">Oh! que longas +confidencias</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Nos esperam nestes +prados!</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Que dias tão +descuidados!</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Que instantes de tanto +amor!</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Buscando ao crescer do +dia</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Entre o bosque a sombra +densa,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Sentindo a alegria +immensa</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do sol, do campo e da +flor!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1em;">És minha: do ceo +proveiu</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">O poder que a ti me +prende,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Mas diverso fogo accende</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">O teu e meu +coração:</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Tu no mundo és a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Eu sou na terra a +poesia;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Tu dás-me a tua +alegria,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Eu dou-te a minha +paixão!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1em;">Dou-te as sombras da +tristeza</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Que acertam sobre teu +rosto,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Como as sombras do sol +posto</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Na rosa agreste do val.</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Recebes num meigo +abraço</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Meu profundo sentimento,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">E dás-me o +contentamento</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do teu seio +virginal.»—</span><br> +<br> +Indisivel prazer brilhou nas faces<br> +Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas<br> +Que ancioso proferi, e com ternura<br> +Disse, cravando em mim seus olhos bellos:<br> +<br> +—«Orphã de paes, só tenho neste mundo<br> +Apenas uma irmã; nós habitamos<br> +Naquella casa que d'aqui se avista<br> +Entre a verdura d'esse val ameno.<br> +Já mil vezes em sonhos encantados<br> +Eu ouvi tua voz, vi tua imagem.<br> +Agora emfim és meu e para sempre.<br> +Não é verdade? dize.»—perguntava<br> +Com extremo, firmando-se ao meu braço.<br> +<br> +Os pallidos clarões do astro saudoso<br> +Despontavam no ceo; por entre as ramas<br> +A aragem susurrava brandamente,<br> +E o rouxinol occulto nas balseiras<br> +Soltava algumas rapidas volatas,<br> +Experimentando a voz que dentro em pouco<br> +Iria improvisar o hymno da noite.<br> +Caminhámos ao longo da alameda<br> +Que terminava em frente da vivenda<br> +Onde Lelia (era este o nome d'ella)<br> +Passára os dias da ditosa infancia.<br> +Á entrada do portal dei de repente<br> +Com a vista no pallido semblante<br> +De uma bella mulher. Cumprimentei-a.<br> +Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.<br> +<br> +—«É Julia, minha irmã»—me +disse Lelia.<br> +Segundei um rasgado cumprimento,<br> +A que ella respondeu com a gentileza<br> +De uma senhora de elevada classe.<br> +Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço,<br> +E acceitei promptamente este convite,<br> +No que fiz um chapado disparate!<br> +<br> +«Tibia luz, temperada para amantes,»<br> +Illuminava uma pequena sala,<br> +Onde o luxo e bom gosto respiravam.<br> +Em primeiro logar é necessario<br> +Que eu te faça um retrato a largos traços<br> +(Como agora se diz) da encantadora<br> +E provocante dona d'essa casa,<br> +<br> +Era alta, sorriso malicioso,<br> +Boca fresca, e vermelha como a rosa,<br> +(É velha a imagem mas é sempre boa!)<br> +Cabello basto, fino, muito escuro,<br> +Olhos da mesma cor, e quasi sempre<br> +Por doce morbidez meio cerrados.<br> +Quando porém ás vezes dardejavam<br> +Por entre a negra sombra das pestanas<br> +Um só raio da luz que os inflammava...<br> +Ai d'aquelle que ousava descuidado<br> +Mirar de leve essa traidora chamma!<br> +<br> +Que te direi do pé pequeno e curvo,<br> +Que na estreita prisão de uma botinha<br> +De setim preto estava clausurado?<br> +Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra<br> +A poesia da lua e das estrellas,<br> +Do Tejo de cristal, da mansa brisa,<br> +De tudo o mais que tenho por mil vezes,<br> +Estafado em mau verso e peior prosa,<br> +Para só contemplar os mil encantos,<br> +Que tinha aquelle pé!<br> +<br> +<span style="margin-left: 9.5em;">E a pobre Lelia,</span><br> +A meiga apparição que nos meus braços<br> +Tinha vindo entregar-se sem receio,<br> +Onde estava? calada e pensativa,<br> +Contemplando o meu rosto, onde subia<br> +O sangue accezo em ondas de desejos.<br> +<br> +Em presença d'aquella peccadora,<br> +Esqueceu-me de todo o sentimento<br> +Que me inspirára o anjo de innocencia.<br> +Sou poeta; bem sabes que os poetas<br> +Não são de certo os entes mais constantes!<br> +Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo<br> +Podera resistir? Se nesse instante<br> +A visses no <i>fauteuil</i> reclinada!<br> +O vestido entre <i>roxo e cor de rosa</i>,<br> +Apesar da invasão das <i>crinolines</i>,<br> +Deixava perceber divinas fórmas.<br> +No cabello uma rosa perfumada,<br> +E no turgido seio, que ondulava<br> +Atravez da finissima cambraia,<br> +Viçoso ramo de singelas flores.<br> +<br> +Ella viu a impressão que produzira<br> +No pobre peccador que a contemplava,<br> +E descerrando a boca num sorriso<br> +Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios,<br> +E a eloquencia do olhar disse-me tudo.<br> +<br> +Pouco a pouco nas faces desmaiadas<br> +Se accendêra o rubor; nos olhos negros<br> +Scintillou por instantes uma lagrima,<br> +«Precursora de languido deliquio».<br> +Meiga, sonora então, como seria<br> +A voz do archanjo que descesse á terra,<br> +Junto a mim murmurou a voz de Lelia:<br> +<br> +—«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio,<br> +Á mesma hora, de novo nos veremos;<br> +Vou resar a oração que me ensinára,<br> +Minha mãe quando eu era pequenina.<br> +Vou resal-a por ti!»—Oh! por instincto;<br> +A innocencia fugia do peccado.<br> +Quiz seguil-a tambem, mas por encanto,<br> +Por encanto fatal, senti-me preso<br> +Ao supremo poder d'aquelles olhos<br> +Que nos meus se reviam com ternura.<br> +<br> +De novo aquelle pé que me perdera,<br> +Se firmou num pequeno tamborete,<br> +E d'essa vez deixando a descuberto,<br> +Um fragmento de perna, que faria<br> +Morrer de desespero uma andaluza.<br> +<br> +Esvaeceu-se então completamente<br> +A meus olhos o anjo da candura,<br> +Das commoções divinas, da virtude,<br> +E achei-me só, perdido, face a face<br> +Ante o demonio das paixões terrestres!<br> +Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo<br> +De desejo e de amor fugir a vida.<br> +<br> +Quando a razão voltou, como o murmurio<br> +Da fresca viração da primavera,<br> +O sopro perfumado de seus labios<br> +Vinha affagar-me docemente a fronte.<br> +Os anneis do cabello ondado e negro,<br> +Espargindo-se, avaros procuravam<br> +Occultar-me da vista aquelle seio!<br> +Impaciente os affasto devorando,<br> +Num beijo, em mil, um mundo de delicias!<br> +Oh! como então no peito me pulava<br> +O coração vaidoso e triumphante!<br> +<br> +No languido quebranto que succede<br> +Ao febril desvario dos sentidos,<br> +Julia estava a meu lado; amortecida,<br> +Por entre densa rama das pestanas,<br> +Partia a luz das languidas pupillas.<br> +Desmaiára de amor a rosa esplendida,<br> +E voltava de novo áquella face,<br> +A pallidez do lyrio das campinas.<br> +<br> +Abatida e indolente, erguêra a fronte;<br> +Caminhámos os dois para a janella:<br> +Os primeiros clarões da madrugada,<br> +Vinham rompendo já no firmamento.<br> +Chegava emfim a hora, era forçoso<br> +Dizer adeus á seductora imagem!<br></p> +<h4>II</h4> +<p>...................................<br> +...................................<br> +...................................<br> +Casta filha do ceo, pura innocencia,<br> +Como o sorriso alegre de teus labios<br> +Me torna aos dias da ditosa infancia,<br> +E me faz existir algumas horas<br> +No doce enlevo de passados sonhos!<br> +<br> +Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa,<br> +Nas agruras da terra, eu te contemplo<br> +Com viva compaixão! Tão facilmente<br> +Se evapora o perfume de teu seio,<br> +Se perde o viço de teu meigo rosto!<br> +Caes subito no chão pallida e triste!<br> +E porque? porque o sopro envenenado<br> +Do mundo te crestou. Alheia ao crime,<br> +És fulminadada pelos crimes de outros!<br> +<br> +Eram estes, ó musa, os pensamentos<br> +Que vinham em tropel ao meu espirito,<br> +Quando estava disposto a dirigir-me<br> +Ao sitio que na vesp'ra me indicára<br> +A ingenua irmã da tentadora Julia.<br> +Começava a morder-me na consciencia<br> +O remorso de haver atraiçoado<br> +Aquelle anjo de amor e de candura.<br> +Nisto sinto parar um trem á porta;<br> +Olho, e vejo saltar de uma caleche,<br> +Elegante e veloz como a gazella,<br> +A minha irresistivel peccadora.<br> +Quantos protestos até'li fizera,<br> +Só com sentir-lhe a voz se evaporaram!<br> +Corro á porta, ella sóbe, e com ternura<br> +Aos meus tremulos braços se arremeça:<br> +<br> +—«Tardavas tanto!... as horas d'este dia<br> +Não terminavam nunca!... vim buscar-te;<br> +Perdoa se fiz mal; mas o desejo<br> +De te ver e abraçar era tão forte...<br> +Vamos dar um passeio pelo campo,<br> +E depois... serás meu, e eu serei tua!»—<br> +<br> +Terminado este rapido discurso,<br> +Mas cabal, eloquente, e peremptorio,<br> +Peguei no meu chapeo, e em continente<br> +Descemos e partimos na caleche.<br> +Não podes duvidar que possuia<br> +A mais commoda amante d'este mundo.<br> +<br> +Quando o carro passou pelo Chiado,<br> +Mais de vinte lunetas se assestaram<br> +A um tempo sobre nós; e é bem provavel<br> +Que mais de vinte bocas honradoras<br> +Me ficassem na sombra remordendo;<br> +Tanto melhor; é bom ser invejado.<br> +<br> +Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando,<br> +Illuminava de clarões suaves<br> +O firmamento azul; nos verdes prados<br> +A flor estremecendo de alegria<br> +Aos doces beijos da travessa aragem,<br> +Como offrenda enviava ao ceo propicio<br> +A pura essencia do virgineo seio.<br> +<br> +Scintillava o prazer nos olhos negros<br> +Da mulher que apesar de peccadora<br> +Era bella, oh! tão bella como os anjos<br> +Que o tentador Satan despenha ao mundo!<br> +Formosuras fataes qu'inda conservam<br> +Na fórma o que é do ceo para illudir-nos!<br> +<br> +Ai de nós se encarâmos descuidados<br> +A morbida expressão de certas frontes,<br> +Onde a candura nos occulta o crime!<br> +<br> +Alva era a face da elegante Julia;<br> +Vivo o rubor que lhe animava os labios;<br> +Adoravel a tinta fugitiva<br> +Que lhe tocava levemente as palpebras;<br> +Muda a boca; no olhar toda a eloquencia!<br> +<br> +Entrámos na allameda. Era sol posto.<br> +Ao chegarmos á porta, appareceu-me<br> +Um personagem que d'ali saía,<br> +Baixo, gordo, roliço, impertigado,<br> +Sorriso de barão, cara opulenta,<br> +E ar de um homem contente de si proprio.<br> +<br> +—«É de certo barão ou +brasileiro.»—<br> +—«Brasileiro e barão»—disse-me +Julia.<br> +—«Visita d'esta casa ha muito tempo?»—<br> +—«Ha muito tempo sim»—respondeu ella<br> +Com certa hesitação—«Não lhe +fallaste?»—<br> +—«Felizmente escapei de tal +desgraça!»—<br> +<br> +Subi; cheguei á sala; ella deixou-me<br> +Por algum tempo só junto á janella.<br> +Sentei-me a respirar o vivo aroma<br> +Da fresca viração da noite amena.<br> +Mudára tudo em mim completamente:<br> +Resfriára-se o fogo dos desejos,<br> +E o sentimento despontava n'alma!<br> +<br> +Vaporosa, ideal, dentro de pouco<br> +A meus olhos surgíra uma figura<br> +Cuja forma gentil me arrebatava!<br> +No purissimo azul dos olhos castos,<br> +Tremiam, scintillando, algumas lagrimas;<br> +O sorriso, gelado á flor dos labios,<br> +Como gela o sorriso da virtude<br> +Quando pára assustada ante o peccado.<br> +Tirando a corôa de virgineas flores,<br> +Que lhe cingia a fronte immaculada,<br> +Olhára para mim! Oh! Deus supremo!<br> +A expressão d'esse olhar era a do anjo<br> +Ao contemplar um infeliz na terra!<br> +Depois, soltando a voz, estas palavras<br> +Com doçura e tristeza proferíra:<br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">—«Parto, e deixo-te +no mundo!</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Fujo, timida +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Ouvindo o rumor +profundo</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">D'esta agitada +existencia!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Vi-te um dia; era na +hora</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Em que a briza é mais +saudosa,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Em que a luz do sol +descora,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">E dá mais perfume a +rosa!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Est'alma toda candura,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Á tua alma se +rendia;</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">E com que immensa +ternura</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Os teus protestos +ouvia!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Protestos de um +coração</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Que sem susto, e sem +tremor,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Respondia co'a +traição</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Ás provas do meu +amor!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">A grinalda qui'inda +vês</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Nesta fronte +desbotada,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Vai cair-te em breve aos +pés,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Mas vai cair +desfolhada!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Na minha ingenua +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Aspiro tambem ao ceo,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Como aspira a grata +essencia</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Da flor que no val +nasceu!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Fragil flor que em pura +aurora,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Vendo o sol sorrindo, +amou;</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Mas d'esse amor numa +hora</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">O vivo fogo a +matou!»—</span><br> +<br> +A voz emmudeceu. O olhar sereno<br> +Sobre mim se cravou com mais ternura!<br> +Era Lelia, ou seria a imagem d'ella<br> +Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados?<br> +Tudo era incerto e vago no meu animo,<br> +Como é vaga a impressão d'um bello sonho!<br> +Aureola de luz resplandecente<br> +Veiu então inundar aquella fronte.<br> +Reconheci emfim, oh! era Lelia,<br> +Que desprendêra a voz, que proferíra<br> +Com tão profundo affecto aquellas fallas!<br> +A seus pés nesse instante allucinado<br> +Num extasi de amor me precipito,<br> +Repetindo anhelante estas palavras:<br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">—«Resurge outra vez +das sombras</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Da tristeza em que +vivia</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Est'alma, é toda +alegria,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Volve á tua alma +infantil.</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">És minha. Sou teu. A +vida</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Para nós vai ser +agora</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Mais risonha do que a +aurora,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Mais florída do que +abril!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Oh! se um dia, +desvairado,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Ouzei trair-te, +innocente,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Como o remorço +pungente</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Te veiu depois vingar!</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Como agora, +arrependido,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">O meu coração +procura</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Dar-te emfim quanta +ventura,</span><br> +<span style="margin-left: 1.5em;">Quanto amor se pode +dar!»—</span><br> +<br> +Nesse momento uma infernal risada<br> +Me fez estremecer. Subito acordo<br> +Da suave impressão do mago sonho,<br> +E que vejo ante mim?! uma figura<br> +Ironica e fatal! Era o Diabo!<br> +Tranzido de terror em vão procuro<br> +Meus olhos desviar d'aquelles olhos,<br> +Cuja sinistra luz me fascinava!<br> +Suspendendo na mão livida e fria<br> +A mesma c'roa de virginias flores,<br> +Que eu tinha visto na graciosa fronte<br> +Da celeste visão que me encantára,<br> +Disse emfim com satanica ironia:<br> +—«Olha: é esta a grinalda immaculada,<br> +Da tua ingenua e seductora Lelia!<br> +Agora, aqui a tens; custou cem libras,<br> +Não ha muito, ao rotundo brasileiro<br> +Que viste á porta d'esta nobre casa!<br> +Julia commigo contractára a venda.<br> +Se vens mais cedo um'hora inda podias<br> +Das garras do falcão salvar a pomba!»—<br> +<br> +Não ouvi nada mais: tinha perdido<br> +A consciencia da vida nesse instante!<br> +<br> +Quando, e como acordei d'aquelle estado,<br> +Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos<br> +O espirito infernal se convertêra<br> +Na figura gentil de um bello moço<br> +Alto, airoso, elegante, e delicado.<br> +—«Olha bem para mim, tornou sorrindo;<br> +Inda te inspira horror o meu aspecto?<br> +Já vês, meu caro amigo, que o Demonio<br> +Não é sempre tão feio como o +pintam.»—<br> +—«<i>Vade retro Satan</i>»—disse eu, +buscando<br> +Uma pequena cruz que havia muito<br> +Costumava trazer pendente ao peito,<br> +E já forte de mim ia mostral-a,<br> +Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde<br> +A mão fallaz de Julia m'a roubára.<br> +Puz os olhos no chão desalentados;<br> +O remorso cruel naquelle instante<br> +A turvada consciencia me pungia!<br> +—«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta!<br> +Olha em roda dos teus, encara o mundo,<br> +Como o deve encarar quem tem bom senso.<br> +<br> +Eu cheguei de Paris, e tinha medo<br> +De perder o meu tempo nesta terra;<br> +Mas, ah! que me enganei! tenho comprado<br> +Um par de figurões quasi de graça!<br> +Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva,<br> +Nunca tens um real, ó desgraçado!<br> +Não faças versos mais; faze politica;<br> +Improvisa um jornal; morde, abespinha,<br> +Sem consciencia e sem dó, a honra alheia!<br> +Hoje quiz apalpar a culta imprensa,<br> +Famosa instituição que me tem dado<br> +Ha tempos para cá milhares d'almas.<br> +Entre um grupo de illustres publicistas,<br> +Quasi todos catões, foi-me indicado<br> +O primeiro catão dos nossos dias.<br> +Uma palavra só fôra bastante<br> +Para tudo explicar entre nós ambos.<br> +Homem da situação, ou mais exacto,<br> +Homem das situações, sabe de quanto<br> +Se agita em torno a si nesta republica.<br> +O que mais me espantou foi que no mundo<br> +Podesse haver mortal tão venturoso!<br> +Pasmam todos ao vêr o que elle come<br> +Desde a meza do opr'ario á meza opipara,<br> +De opulento negreiro ou potentado<br> +De mais alto valor se acaso existe!<br> +Póde zumbir a inveja em volta d'elle,<br> +Morder-lhe a fama a cavilosa intriga,<br> +Exaltado rugir o odio implacavel,<br> +Nada d'isto consegue perturbal-o,<br> +Nem cortar-lhe o seu acto digestivo!<br> +É nedio, é luzidiu, é recebondo,<br> +Como um gallo capão! Perdoa a imagem.<br> +Crava os olhos attentos neste exemplo<br> +De solida moral; segue as pizadas<br> +Deste egrejeo varão, e eu te asseguro<br> +Que has de em breve alcançar um nome illustre.<br> +Tudo agora me corre ás maravilhas;<br> +Nunca pensei que em terra tão pequena<br> +Se podessem fazer tão bons negocios.<br> +Hoje fui contratar com certa empreza<br> +De um moderno jornal que se atirava,<br> +Como lobo esfaimado, ao ministerio.<br> +Era o mimo, era a flor, era o portento<br> +Da incorrupta e briosa mocidade!<br> +Essa, comprei-a então por attacado;<br> +Escaparam só dois, pobres diabos,<br> +Que nunca hão de passar da cepa torta!<br> +Que dia tão feliz! a toda a pressa<br> +Fui depois assistir ao desembarque<br> +De um nobre titular, victima imbelle,<br> +Do veneno infernal da torpe inveja.<br> +O honrado cidadão vinha entregar-se<br> +Nas mãos severas da imparcial justiça.<br> +Fazia gosto vêr a comitiva<br> +Dos invictos heroes que o circundavam.<br> +Algum ranço burguez inda entre dentes<br> +Se atrevêra a dizer que não passava<br> +De um cadímo ladrão o illustre conde;<br> +E se eu não chego a tempo, era filado<br> +Quando saltasse ao caes por quatro guitas.<br> +Vê tu pois quanto póde o meu imperio!<br> +Com raras excepções, a livre imprensa<br> +Não soltou nem sequer uma palavra!<br> +<br> +É tempo de voltar á bella Julia:<br> +Esta linda mulher era beata<br> +Da esplendida edicção que existe agora.<br> +Encontrei-a uma vez num dia santo<br> +De grande devoção, quando acabava<br> +De pôr aos pés de um padre os seus peccados.<br> +Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo,<br> +A singela espressão d'esta innocente,<br> +Soprou-me o fogo de infernaes desejos.<br> +Como vês, é distincto o meu aspecto,<br> +E apesar do terror que ao mundo inspiro,<br> +Muitas mulheres ha que intimamente<br> +Se agradam mais de mim que dos janotas.<br> +Oh! que austeras virtudes nesse dia<br> +Me caíram nas mãos! Lelia, embebida<br> +Nas suas orações, passou, cravando<br> +Com modestia no chão os olhos bellos.<br> +Não fez reparo em mim; mais forte ainda,<br> +Me ficára a vaidade remordendo.<br> +Lembrei-me então da irmã como instrumento<br> +Para alcançar o fim que ambicionava.<br> +Por entre o raro veo que lhe encobria<br> +O rosto seductor, de espaço a espaço<br> +Se viam scintillar os olhos negros<br> +Com mais fogo e mais luz do que as estrellas<br> +Quando as nuvens do ceo se rarefazem.<br> +(A imagem é vulgar, porém confessa<br> +Que tu proprio tens feito outras peores.)<br> +Ella olhou para mim, aproximei-me,<br> +Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde<br> +Perfeito accôrdo havia entre nós ambos.<br> +Precisava ostentar-lhe á luz do mundo<br> +O esplendido poder dos seus encantos.<br> +Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta,<br> +Joias, vestidos, trens apparatosos,<br> +Quanto emfim dá realce á formosura,<br> +Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella.<br> +Nada d'isto porém causára effeito<br> +No joven coração da casta Lelia.<br> +Olhava para a irmã como assustada,<br> +Quando a via ostentar tanta grandeza.<br> +Por mil vezes tentei ver se podia<br> +Aproximar-me d'ella; era impossivel.<br> +Adivinhas porque? trazia ao peito<br> +Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado<br> +Pouco antes de soltar o extremo alento.<br> +Quando na flor da vida e da innocencia<br> +Vejo a meu lado encauta formosura,<br> +Oh! como sou feliz!—ninguem no mundo<br> +Presa tanto como eu uma alma ingenua,<br> +Mas é para a perder! Desculpa ao menos<br> +Em nome da franqueza este teu servo.<br> +<br> +Um sacerdote ancião que alem habita,<br> +Naquella ermida que d'aqui se avista,<br> +Teima em não m'a deixar; tu só podias<br> +Ajudar-me a vencer nesta batalha.<br> +Inda ha pouco menti quando te disse<br> +Ser tarde já para salvar a pomba.<br> +É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias<br> +D'aquelle coração que te idolatra.<br> +Tudo é luz, seducção, amor, encanto,<br> +Na voz, no olhar, na languida ternura<br> +Da rosa virginal que tu despresas!<br> +Anhelantes te esperam já seus labios,<br> +O seu peito infantil por ti suspira,<br> +No ouvido sente a voz dos teus protestos,<br> +O subito rubor lhe affronta as faces!<br> +Não a vês hesitar, tremer, fugir-te,<br> +Acercar-se outra vez, sorrir a furto,<br> +Escondendo nas mãos a fronte bella?<br> +De novo inda luctar, mas já sem forças<br> +Caír por fim num languido deliquio?<br> +Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»—<br> +Um momento depois d'estas palavras,<br> +Em doce consonancia extranhas vozes<br> +De improviso romperam neste canto:<br> +<br> +—«Seja a breve passagem da vida<br> +Uma serie de ardentes delirios;<br> +Quem procura colher os martyrios<br> +Quando existem as rosas em flor?<br> +<br> +Venturosos ergâmos as taças<br> +Onde brilha o licor purpurino,<br> +E soltemos as vozes num hymno<br> +Consagrado aos deleites do amor!<br> +<br> +Vem poeta: as tristezas do mundo<br> +Não comprimem jámais nossas almas;<br> +Nós cercâmos de flórdais palmas<br> +A existencia votada ao prazer!<br> +<br> +O que importa que a noite succeda<br> +Aos sorrisos do astro diurno?<br> +Para nós o seu manto nocturno<br> +Mil delicias nos torna a trazer!»—<br> +<br> +Apossou-se de mim o immundo espirito.<br> +—«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse;<br> +Ao teu fatal poder entrego est'alma!<br> +Dize, dize, onde está essa que eu vejo,<br> +Mas que procuro em vão cingir nos +braços!»—<br> +—«Onde está? vais sabel-o, e num momento<br> +A seus pés cairás ebrio de gosto!»—<br> +<br> +Ao secreto aposento onde jazia<br> +A virgem dos meus sonhos, me dirige<br> +O torpe embaidor. Entro em delirio,<br> +E ardendo em chammas de brutaes desejos,<br> +No casto ninho onde vivia a pomba!<br> +De repente uma luz serena e branda<br> +Veiu alegrar as trevas da minh'alma.<br> +Outra vez á razão volto, e que vejo!<br> +Ante mim venerando sacerdote,<br> +Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde<br> +A enganadora Julia me roubára.<br> +Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas,<br> +E os olhos postos no sagrado emblema,<br> +Estas doces palavras me dizia:<br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">—«Deixou-te o negro +espirito!</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Feliz de novo agora,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Sorri tua alma em extasi</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Ao ver a pura aurora,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Da qual sómente é +nuncia</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Na terra a humilde cruz!</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Só ella, eterno +simbolo</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">De amor e de piedade,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Brilha no mundo +esplendida,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">E diz á +humanidade:</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Surge das trevas +lugubres;</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Ascende á etherea +luz!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Só ella quando +rapida</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">A morte nos +alcança,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Diffunde em nossos +animos</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">O lume da +esperança,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Que nos descobre a +patria</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Da gloria perennal!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Perde a tristeza o +tumulo;</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">O sepulcral cipreste,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Deixando o aspecto +funebre,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">De flores se reveste!</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Soam divinos canticos</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Em coro angelical!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Oh! quem podéra +pintar</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">A expressão que nesse +instante</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Tinha o candido +semblante</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Do meu anjo tutelar!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Como a pomba da arca +santa</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Que um dia á terra +desceu,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Vinha dizer-me: Acabaram</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">As tempestades do ceo!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Deixa o mundo, antro +medonho</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Onde sómente +fulgura</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Nas curtas horas de um +sonho</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">A branda luz da ventura!</span><br> +<br> +<span style="margin-left: 2em;">Verás a meu lado +agora</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Sorrir eternos amores,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Como sorriem as flores,</span><br> +<span style="margin-left: 2em;">Á luz da punicia +aurora!»—</span><br> +<br> +Julguei-me nesse instante transportado<br> +Á mansão do Senhor. Caindo em extasi,<br> +Disse, rompendo em delicioso pranto:<br> +<br> +—«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem,<br> +Jura que para sempre has de ser minha.»—<br> +—«Juro»—disse ella então. Nesse +momento<br> +Aproximou-se a nós o sacerdote,<br> +Cuja fronte senil resplendecia<br> +Co'a luz celeste que illumina o justo;<br> +E unindo as nossas mãos, com voz solemne<br> +A sacrosanta benção proferíra!<br> +<br></p> +<hr style="width: 20%"> +<br> +<br> +<p>Aqui termina, ó musa, a minha historia.<br> +Acordei do meu sonho, e depois d'elle<br> +Tenho visto o demonio algumas vezes;<br> +Não menos vezes a traidora Julia;<br> +Porem Lelia, a gentil graciosa virgem,<br> +A predilecta noiva da minh'alma,<br> +Essa apenas em sonhos me apparece!</p> +<p class="data">Maio de 1862.</p> + + +<h1><a name="Poema47" id="Poema47">XLVII<br></a></h1> +<h2>HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA</h2> +<p>Desherdados no berço de heranças,<br> +Desvalidos dos braços de mãe,<br> +Quem nos cérca o viver de esperanças,<br> +Nos educa, nos veste, e mantem?<br></p> + +<h4>CORO</h4> + +<p><span style="margin-left: 1em;">O Bom Deus que proteje a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De quem são nossos cantos de +amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Desherdada é sómente +a existencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do infeliz que descrê do +Senhor!</span></p> + +<p>Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo<br> +Como iremos a vida encontrar?<br> +Neste valle enredado e profundo<br> +Quem nos ha de o caminho apontar?</p> + +<p><span style="margin-left: 1em;">O Bom Deus que proteje a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De quem são nossos cantos de +amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Desherdada é sómente +a existencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do infeliz que descrê do +Senhor!</span></p> + +<p>Quem virá ser-nos pae na orphandade?<br> +Consolar nossos dias de dor?<br> +Circundar-nos depois noutra edade,<br> +De delicias, de sonhos, de amor?</p> + +<p><span style="margin-left: 1em;">O Bom Deus que proteje a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De quem são nossos cantos de +amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Desherdada é sómente +a existencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do infeliz que descrê do +Senhor!</span></p> + +<p>Dos thesouros de affecto que encerra<br> +Entre vós maternal coração,<br> +Quem vos faz a nós orphãos na terra,<br> +Repartir d'esse affecto um quinhão?</p> + +<p><span style="margin-left: 1em;">O bom Deus que proteje a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De quem são nossos cantos de +amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Desherdada é sómente +a existencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do infeliz que descrê do +Senhor!</span></p> + +<p>E esse affecto ideal que illumina<br> +O existir de um reflexo do ceo,<br> +Que a soffrer e que a amar nos ensina,<br> +Quem no peito materno o accendeu?</p> + +<p><span style="margin-left: 1em;">O Bom Deus que proteje a +innocencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">De quem são nossos cantos de +amor;</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Desherdada é sómente +a existencia,</span><br> +<span style="margin-left: 1em;">Do infeliz que descrê do +Senhor!</span></p> + +<p>Mas nós crêmos, sentimos, amâmos,<br> +A Deus grande na terra e nos ceos,<br> +E do intimo da alma exclamâmos:<br> +Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!<br></p> +<p class="data">1850.</p> + + +<h1><a name="Poema48" id="Poema48">XLVIII<br></a></h1> +<h2>GRATIDÃO E SAUDADE</h2> +<h3>(Recitada no Theatro)</h3> +<p>De candidos sonhos, de luz, e de flores,<br> +Cercada a existencia começa a sorrir;<br> +Alegre o presente nos falla de amores,<br> +De amores nos falla brilhante o porvir!<br> +<br> +Depois no horisonte sereno, e risonho,<br> +Carregam-se as sombras, perturba-se a luz,<br> +Esvae-se a ventura veloz como um sonho,<br> +Que apenas instantes na vida reluz!<br> +<br> +Assim penetrando no mundo das artes,<br> +Ao tímido lume de frouxo clarão,<br> +Olhava, e só via por todas as partes,<br> +A meiga esperança sorrindo em botão!<br> +<br> +De lyrios e rosas grinalda fragrante,<br> +Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi;<br> +Nos braços a aperto, convulsa, anhelante,<br> +Aos labios a levo, na fronte a cingi!<br> +<br> +Foi breve este sonho de amor, e de encanto;<br> +Acordo, e procuro debalde uma flor;<br> +Inundam-se os olhos de angustia e de pranto,<br> +Ao ver que só restam espinhos e dor!<br> +<br> +Só restam espinhos das pallidas rosas,<br> +A quem pobre artista não ousa pedir<br> +Os loiros frangrantes, as palmas viçosas,<br> +Que a fronte de genio só devem cingir!<br> +<br> +Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura,<br> +Não quiz que durasse tão meiga illusão,<br> +Em paga deixou-me no peito a doçura.<br> +De terna, suave, leal <i>gratidão</i>!<br> +<br> +Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma,<br> +Sincera tributa nest'hora o dever!<br> +Embora outras palmas morressem,—a palma<br> +De gratas memorias não póde morrer!<br> +<br> +Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,<br> +Quebrado o encanto da pura illusão,<br> +Que resta ao artista?—espinhos e dores,<br> +Saudades! mais nada no seu coração!<br> +<br> +Saudades da gloria, da luz, da ventura,<br> +Dos magicos sonhos, presente dos ceos,<br> +Saudades que attestam a funda amargura,<br> +Que sente ao dizer-vos agora um adeus!<br></p> +<p class="data">1853.</p> + + + +<h1><a name="Poema49" id="Poema49">XLIX</a></h1> +<h3>Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá +(Visconde d'Asseca) e de sua filha.<sup><a href= +"#nota_a" name="mnota1">1</a></sup></h3> + +<div class="citacao"><br> +«Não sabe o que é padecer,<br> +Quem o filhinho que adora<br> +Não viu ainda morrer!»<br> +<span style="margin-left: 7em;">(A. Garrett)</span><br> +</div> + +<p>—«Bem sei que era exilio a terra<br> +Para ti, anjo do ceo!<br> +Porém, filha, abandonar-me<br> +Quando toda a minha vida<br> +Era a luz d'um olhar teu!<br> +Ouvir essa voz infante,<br> +Ver a impaciente alegria<br> +De teu candido semblante!<br></p> +<p>«Deixar-me assim na existencia<br> +Triste, só, desamparado,<br> +Aquella flor de innocencia!<br> +Que lhe fiz? tinha-a cercado<br> +De quanto amor neste mundo<br> +Pela mão da Providencia<br> +A peito de homem foi dado!<br> +Oh! que affecto tão profundo!<br> +E tu pudeste partir?<br> +Pois não tiveste piedade<br> +D'esta solemne amargura,<br> +D'esta infinita saudade?<br> +Vi-te inda olhar-me, e sorrir,<br> +Erguer os olhos aos ceos,<br> +No instante de proferir,<br> +O fatal e extremo adeus!...<br> +...........................<br> +...........................<br> +<br> +«Oh! volve outra vez a mim,<br> +Desce á terra, anjo do ceo,<br> +Vem dar-me a ventura emfim!<br> +...........................<br> +...........................<br> +Olha: o vivo sol de Abril<br> +Já nestes campos rompeu;<br> +As rosas desabroxaram;<br> +O rouxinol desprendeu<br> +A voz em saudosos cantos;<br> +Os sitios onde passaram<br> +Os teus descuidados annos,<br> +Não os vês cheios de encantos?<br> +São estes! a mesma fonte,<br> +Ferve alem; naquelle outeiro<br> +O mesmo casal alveja;<br> +As ramas do verde olmeiro,<br> +Dão sombra á modesta igreja<br> +Onde tu vinhas resar,<br> +Quando o som da Ave-Maria,<br> +N'hora meiga do sol posto,<br> +De vaga melancolia<br> +Toldava teu bello rosto!<br> +Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...<br> +Este nome!... anjo do ceo,<br> +Este nome, filha, é teu!!<br> +Oh! meu Deus, por compaixão,<br> +Na mesma pedra singela,<br> +Juntae o meu nome ao d'ella!»—<br> +...............................<br> +...............................<br> +...............................<br> +E Deus ouviu a oração...<br> +O mesmo tumulo encerra<br> +Filha e pae. Na mesma lousa<br> +Onde repousam na terra,<br> +Uma lagrima saudosa<br> +Vem hoje depôr tambem<br> +A esposa, a viuva, a mãe!<br></p> +<p class="data">1854.</p> +<p class="rodape"><a href="#mnota1" name="nota_a" id="nota_a"><sup>1</sup></a> Quem tratou +de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) +conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos +dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade +bem humilde, mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia +arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas +candidas, e que subindo ao ceo levava o coração +d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito +tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae!</p> + + + +<h1><a name="Poema50" id="Poema50">L<br></a></h1> +<h2>CANÇÃO DOS PIRATAS</h2> +<h3>(Traduzido do Corsario de Byron)</h3> +<p>Sobre as ondas do mar azul ferrete,<br> +Sem limites são nossos pensamentos,<br> +E como as ondas nossas almas livres,<br> +Por quanto alcança a doidejante briza<br> +Cobrindo a vaga de fervente escuma<br> +Nós temos uma patria! Eis os dominios<br> +Onde fluctua o pavilhão que é nosso,<br> +Sceptro a que devem humilhar-se todos!<br> +Turbulenta e selvagem quando passa!<br> +Da lucta ao ocio em taes alternativas<br> +A vida para nós tem mil encantos!<br> +Mas estes, oh! quem póde descrevel-os?<br> +Não serás tu, escravo dos deleites,<br> +Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente<br> +Das alterosas vagas desmaiáras!<br> +Não serás tu, vaidoso aristocráta,<br> +Educado no vicio e na opulencia,<br> +Tu que nem pódes repousar no somno,<br> +Nem achar attractivos nos prazeres.<br> +Oh! quem póde no mundo compr'endel-os?<br> +A não ser o incançavel peregrino,<br> +D'estes plainos que ficam sem vestigios;<br> +Do qual o coração affeito aos p'rigos<br> +Pula orgulhoso em delirante jubilo<br> +Quando se vê sobre o revolto abismo!<br> +Só elle présa a lucta pela lucta<br> +E espera ancioso a hora do combate.<br> +Quando o fraco esmorece apenas sente<br> +No mais profundo do agitado seio<br> +A esperança que vívida desponta<br> +E o fogo da Coragem que se accende!<br> +Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto<br> +Que a nossos pés succumba o inimigo,<br> +E comtudo mais triste que o repouso<br> +Inda parece a morte! mas embora,<br> +Embora, oh! póde vir! ao esperál-a<br> +Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida;<br> +E quando ella se acaba, pouco importa!<br> +Caír pela doença, ou pela espada!<br> +Haja um ente que prese inda algum resto<br> +D'existencia senil! viva aspirando<br> +Sobre o leito da dor um ar pesado,<br> +Erguendo a custo a trémula cabeça!<br> +Para nós são as relvas florescentes!<br> +Emquanto ess'alma expira lentamente,<br> +Foge a toda a pressão d'um salto a nossa!<br> +Possa ainda ufanar-se esse cadaver,<br> +Da cova estreita e do marmoreo tumulo<br> +Que a vaidade dos seus lhe consagrára!<br> +São raras, mas sinceras, nossas lagrimas,<br> +Quando o oceano, abrindo-se, sepulta<br> +No vasto seio os nossos camaradas!<br> +Inda mesmo no meio dos banquetes<br> +Funda tristeza nos rebenta d'alma<br> +Quando a purpurea taça erguendo aos labios<br> +A memoria dos nossos corôamos.<br> +E o seu breve epithaphio é redigido,<br> +Ao por do sol do dia da batalha,<br> +Ao dividir as presas da victoria,<br> +Quando a exclamam os rudes vencedores<br> +Com a fronte anuviada de saudades:<br> +Ai, de nós! como os bravos que morreram<br> +Folgariam ditosos nesta hora!<br></p> +<p class="data">Julho de 1861.</p> + + +<h1><a name="Poema51" id="Poema51">LI<br></a></h1> +<h2>NUM ALBUM</h2> +<h3>Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha +escripto uns versos.</h3> +<p>No reverso da folha onde escrevo,<br> +Um cantor jovenil pulsa a lyra,<br> +E magoado, e sentido, suspira,<br> +Com saudosas memorias d'amor!<br> +<br> +Na cadencia da lettra singela,<br> +Qual murmurio de branda corrente,<br> +Transparece sua alma innocente,<br> +Toda vida, perfume, e calor!<br> +<br> +Variegado, risonho, brilhante,<br> +Inda agora na flor da innocencia<br> +Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia<br> +Atravez do seu prisma gentil:<br> +<br> +Cuida extinctas ficções encantadas,<br> +Crê perdido o seu sonho d'amores,<br> +Julga vêr desbotadas as flores<br> +Que adornavam sua harpa infantil!...<br> +................................<br> +<br> +Ai! poeta! ai de ti! que saudade,<br> +Que saudade tão funda e sentida<br> +Has de ter d'esses annos da vida,<br> +Quando os vires ao longe ficar!<br> +<br> +Que saudade tão funda do tempo<br> +Em que tinhas sentido saudade,<br> +Has de ter quando a triste orfandade<br> +Dos affectos tua alma enluctar!<br> +<br> +Ouve pois joven bardo que a lyra<br> +Pulsas hoje com tanta amargura;<br> +De illusões, de poesia e ventura,<br> +Enche agora teus annos em flor.<br> +<br> +Que são estes ephemeros sonhos,<br> +Os que vem derramar grata essencia<br> +Sobre a tarde da nossa existencia<br> +Dar-lhes vida, perfume, e calor!<br></p> +<p class="data">Agosto de 1854.</p> + + +<h1><a name="Poema52" id="Poema52">LII</a></h1> +<h3>Á memoria da Ex.<sup>ma</sup> Sr. D. Maria Gertrudes +Manuel da Cunha.</h3> +<p>Na hora melancolica,<br> +Do despedír do dia,<br> +Quando se escuta o cantico,<br> +Ou extranha melodia,<br> +Que na deveza languido<br> +Desprende o rouxinol;<br> +<br> +Quando desponta pallida<br> +No firmamento a lua,<br> +E que inda incerta e trémula,<br> +No mar azul fluctua<br> +Co'a viva cor da purpura<br> +A frouxa luz do sol!...<br> +<br> +Quem passe pelo tumulo<br> +Que encerra a virgem bella,<br> +Quebre o silencio tetrico<br> +A orar prece singela<br> +Por essa que a existencia<br> +Deixára inda em botão!<br> +<br> +Por ella!? ai, não! a supplica<br> +Ao nosso Deus erguida,<br> +Seja por quem, perdendo-a,<br> +Perdeu parte da vida,<br> +E que no mundo estatico<br> +A filha busca em vão!<br> +<br> +Ella este val de lagrimas<br> +Abandonou, subindo<br> +Ao ceo que lhe era patria!...<br> +Ella, feliz, sorrindo,<br> +Brilha no mundo ethereo<br> +Ao lado do Senhor!<br> +<br> +Por nós, oh, sombra angelica,<br> +Implora a Deus piedade!<br> +Anjo das azas candidas,<br> +Consola a saudade,<br> +D'aquelles que, adorando-te,<br> +Te viram morta em flor!<br></p> +<p class="data">Outubro de 1852.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Versos de Bulhão Pato, by +Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + +***** This file should be named 25840-h.htm or 25840-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/8/4/25840/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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