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diff --git a/25840-8.txt b/25840-8.txt new file mode 100644 index 0000000..09802c6 --- /dev/null +++ b/25840-8.txt @@ -0,0 +1,5590 @@ +Project Gutenberg's Versos de Bulhão Pato, by Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Versos de Bulhão Pato + +Author: Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +Release Date: June 19, 2008 [EBook #25840] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +VERSOS + +DE + +BULHÃO PATO + + + + +LISBOA + +Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza. + +6, Rua do Thesouro Velho, 6. + +1862 + + + + +A HELENA + + + Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos + O teu saudoso valle, e lentamente + Pela elevada encosta caminhámos? + O sol do estio ardente, + Já não brilhava nos frondosos ramos + Do arvoredo virente. + + Chegára o fim do outono: a natureza, + Sem ter os mimos da estação festiva, + Nem aquelle esplendor e gentileza + Que tem na quadra estiva, + Na languida tristeza, + Na luz branda e serena + D'aquelle ameno dia, + Que immensa poesia, + E que saudade respirava, Helena! + + Subindo pelo monte, + Chegámos ao casal onde habitava + A tua protegida, + Aquella pobre anciã que se agarrava + Aos restos d'esta vida! + Assim que te avistou, ergueu a fronte + Curvada ao peso de tão longa edade, + Sorrindo nesse instante + Com tal vida, que a luz da mocidade + Parecia alegrar o seu semblante! + + Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella, + Grosseiras pelo habito constante + Do trabalho da terra, + Queimadas pelo vento sibilante, + E pelo sol da serra, + Produzia essa mão graciosa e bella, + Effeito similhante + Ao que por entre o mato + Produziria a rosa de Benguela, + A flor mais alva e de mais fino trato! + + Vinte annos tu contavas nesse dia; + A fiel servidora, + Era a primeira vez que não podia + Deixar a casa ao despontar da aurora, + E cheia de alegria + Caminhar para o valle como outr'ora, + Depôr uma lembrança em teu regaço, + E unir-te ao coração num meigo abraço! + + Tu, na força da vida, + Circundada de luz e formosura, + Foste levar á pobre desvalida + Os dons do lar paterno; + Alegrar com teu riso de ternura + Aquelle frio inverno! + + Ao ver-te com teus braços, + Nos seus braços senis entrelaçados, + A ventura nos olhos encantados, + A inspiração na fronte deslumbrante, + Afigurou-me então o pensamento + Ver um anjo descido dos espaços, + D'aspecto fulgurante, + Enviado por Deus nesse momento, + Para animar os derradeiros dias + De quem cançado do lidar constante + Abre o seio na morte ás alegrias! + + As lagrimas de gosto, + Corriam cristalinas + No rosto d'ella e no teu bello rosto! + Como orvalhos do ceo aquelles prantos, + Um brilhava na hera das ruinas, + Outro na flor de festivaes encantos, + Na rosa das campinas! + + Quando voltaste a mim illuminava + O teu semblante uma alegria infinda. + Depois quizeste ainda + Ir visitar a ermida que ficava + No apice do monte: + Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos. + No esplendido horisonte + Já declinava o sol quando chegámos. + + Era singelo, mas sublime o quadro! + Em roda o mato agreste; + No meio a pobre ermida; ao lado d'ella + Um secular cypreste, + E sobre a cruz do adro + Pendente uma capella + De algumas tristes, desbotadas flores, + Talvez emblema de profundas dores! + + Oh! como tu, suspensa + Num extasi ideal de sentimento, + Expandias o livre pensamento + Pela amplidão immensa! + Como depois descendo das alturas + Aonde te arrojára a phantazia, + Parece que a tua alma me trazia + Occulto premio de immortaes venturas! + + Tanto expressava o teu olhar profundo, + Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia + O homem neste mundo, + Jámais me trouxe a idéa + Do suppremo poder da Providencia + Com tamanha eloquencia! + + O sol quasi no termo + Com um brando reflexo, + Cingia a cruz do ermo + Em amoroso amplexo! + O rei da creação, o astro orgulhoso, + Que enche a terra de luz, + Tambem vinha prostrar-se saudoso + Aos pés da humilde cruz! + + Era solemne e santo + Naquell'hora supprema o teu aspecto! + Nos labios a oração, no rosto o pranto, + As mãos cruzadas sobre o seio inquieto, + Os olhos postos na amplidão do espaço, + E em derredor da frente + Um luminoso traço + A inundarte de luz resplandecente! + .................................. + + Branda a tarde expirou! D'aquelle dia, + E de outros dias de íntimas venturas, + De immensa poesia, + Nasceram essas paginas obscuras, + Que hoje a teus pés deponho, + Como saudoso emblema, + Do tempo em que sorrira + O nosso bello sonho! + Terias um poema, + Se tão gratas memorias + Podessem ser cantadas numa lyra + Votada a eternas glorias! + + Emfim: se um pensamento, + Se uma singela idéa onde transpire + O perfume de vivo sentimento, + Nestas folhas traçar a minha penna... + A estrophe, o canto que o leitor admire, + Seja o teu nome, Helena! + +6 de Junho de 1862. + + + + +I + +A CONVALESCENTE NO OUTONO + + + Revive teu rosto pallido + Á chamma do meu amor; + De novo com mais ardor + Pula em teu seio, querida, + O sangue, o prazer, a vida. + + O sopro que na existencia + D'esta luz nos illumina, + Não se ha de extinguir jámais; + Oh! provém da mesma essencia, + Da mesma porção divina, + Com que a mão da Providencia + Torna as almas immortais! + Firma teu braço ao meu braço, + Vem commigo respirar + Este ar vivo e salutar. + + Não sentes na luz do ceo, + E no perfume saudoso + Do bosque espesso e formoso, + Que o doce outono volveu? + As folhas que pelo chão + Crestadas dispersa o vento, + Não desprendem um lamento + Que intristece o coração!? + + E a voz d'essa ave amorosa, + Que alem na balsa murmura, + Melancolico modilho, + Não parece a voz saudosa + Da mãe que adormenta o filho + Entre os braços com ternura? + + D'aquelle pobre casal, + O fumo que vae subindo + Em ondulante espiral, + Não diz que em volta do lar + Se reune a pobre gente, + Que já de perto pressente, + O frio inverno chegar? + + Não vês que ha tanta tristeza + Na voz que se eleva a Deus + Agora da natureza! + Oh! mas como aos olhos teus, + E como ao meu coração + É grata a melancolia + D'esta languida estação! + + Toda a explendida poesia + Do ceo, da terra, e das flores, + Quando mil cansões de amores + Improvisa o rouxinol, + Alegrando o mez de maio + Desde os clarões do arreból + Até que em doce desmaio + Nas aguas se occulte o sol, + Terá, sim, tem mais frescura, + Mais vida e mais esplendor, + Mas não tem tanta ternura, + Nem respira tanto amor! + + Paremos aqui, descansa + Um momento neste abrigo; + O sopro da aragem mansa + Anda em roda a murmurar, + E um raio de sol amigo, + A teus pés se vem prostrar + ........................... + Oh! que noites de amargura! + Que horas lentas de agonia! + Que instantes naquelle dia, + Quando tu sem voz, sem gesto, + Suspensa num fio a vida... + Emfim te julguei perdida! + + Chegára a noite; uma estrella, + Uma só, não transluzia + No ceo triste e carregado; + Oppresso e desalentado, + O coração me batia. + + Pouco a pouco no horisonte + Foi rompendo a nevoa densa; + Era a vida, a luz, o dia, + Aquella alegria immensa, + Que no murmurar da fonte, + No perfume da campina, + Na brisa e na voz divina + Do amoroso rouxinol, + Seduz, arrebata, inspira, + Quando acorda a terra em canticos, + Aos raios vivos do sol! + + «Pois tudo se anima agora, + Tudo nasce com a aurora, + Tudo é vida e tudo é luz; + Só nesta face adorada, + Inerte, fria, gelada, + Nem um só clarão reluz!» + + Ouviu Deus naquelle instante + A minha supplica ardente; + Em teu lívido semblante + Vi despontar docemente + Um reflexo semelhante + Ao que o sol derrama á tarde + Sobre as nuvens do ponente. + + Prostrei-me a rogar então; + E essa estrella de bonança, + Essa casta divindade, + Risonha irmã do infortunio, + Companheira da saudade, + Que o mundo chama--Esperança-- + Senti-a no coração! + + Com aquelle sol explendido + Que rompêra a nevoa densa, + E com a alegria immensa + Do mar, da terra, e dos ceos, + Quiz de novo a Providencia + Que eu visse nos olhos teus + O mundo, a luz, a existencia! + + Agora pois, neste instante, + Agora, que lá distante, + O sino da pobre ermida + Dá signal do fim do dia, + Co' a prece da _Ave-Maria_, + Ergâ-mos, ambos querida, + Graças mil a Deus piedoso, + Por te haver tornado á vida! + +Setembro de 1854. + + + + +II + +FELIZ DE AMOR! + + + Não sabes que ao ver-te triste, + E pensativa a meu lado, + O rosto na mão firmado. + E os olhos postos no chão, + Calado, ancioso, anhelante, + Quero ler no teu semblante + A causa da dôr constante + Que te opprime o coração? + + Pois não basta o meu amor + Para te dar a ventura? + Responde: quando a luz pura + Do sol vem beijar a flor, + Não lhe accende mais a côr? + Não lhe dá mais formosura? + + Agora, quando se inflamma + Em teu peito aquella chamma, + Á qual tudo se illumina + De viva, encantada luz, + Dize: é quando, minha vida, + Pallida, triste, abatida, + A tua fronte se inclina, + E melancolica sombra, + De mal contida amargura + Nos teus olhos se traduz?! + + Certeza de que és amada + Com quanto poder na terra + Em peito de homem se encerra, + Tem-la em tua alma gravada! + Então de fundo desgosto + Porque vem nuvem pesada + Carregar teu bello rosto? + + Pois se ao vívido calor + Do sol a rosa fulgura + E redobra aroma e côr, + Não te ha de dar a ventura + A chamma do meu amor?! + +Maio de 1859. + + + + +III + +VAES PARTIR! + + + Vaes partir! cada instante que passa + Aproxima o adeus derradeiro, + Para mim neste mundo o primeiro, + Que teus olhos proferem aos meus! + Vaes partir! nessas morbidas palpebras, + Treme agora uma lagrima anciosa, + Já deslisa na face formosa, + Já teus labios me dizem adeus! + + Vaes partir! contemplar esses campos, + Que o sol vivo de abril illumina, + Ver as relvas da alegre campina + Já cobertas agora de flor. + Escutar as estrophes sentidas + Que de tarde improvisam as aves, + Recordar os instantes suaves + De outros dias de encanto, e de amor. + + Vaes partir! vaes tornar aos logares + Testemunhas de um ceo de delicias, + Que em suaves risonhas caricias, + Para nós neste mundo brilhou! + Cada flor, cada tronco viçoso, + Cada espaço de relva florída + Vae lembrar-te uma scena da vida, + Um momento feliz que passou! + + Quando for aos clarões da alvorada + O perfume das plantas mais brando, + Quando as aves voarem em bando, + E cantarem ditosas no val; + Quando as aguas correrem mais vivas, + Pelo verde declivio do monte, + Quando as rosas erguerem a fronte + Animadas de um sopro vital... + + Que saudade! ai que funda saudade + Has de ter d'esse tempo encantado, + Em que bella e feliz a meu lado + Viste as pompas da terra e dos ceos! + Quando a aurora era a pura alegria, + Uma vaga saudade o sol posto, + Quando meigo sorria teu rosto + Se eu fitava meus olhos nos teus! + + ................................. + + Vaes partir! cada instante que passa + Aproxima o adeus derradeiro, + Para mim neste mundo o primeiro + Que teus olhos proferem aos meus! + Vaes partir! nessas morbidas palpebras, + Treme agora uma lagrima anciosa, + Já deslisa na face formosa, + Já teus labios me dizem adeus! + +Abril de 1855. + + + + +IV + +A JULIA + + +(Da Paquita) + + Naquella deserta ermida, + Que alveja na serrania, + Deu signal, Julia querida, + O sino da _Ave-Maria_. + + Este som tão conhecido + Da nossa innocente infancia, + Como agora vem sentido + Trazer-me viva á lembrança, + Toda essa doce fragrancia + D'aquelle existir d'então! + + Ai! lembrança não, saudade! + Saudade Julia, tão funda... + Mas tão grata, que me innunda + De ventura o coração. + + Espera... se neste instante + Mandasse á terra o Senhor, + Anjo de meigo semblante, + E aos dias d'aquella edade + Nos tornasse o seu amor... + Oh! responde-me, querida, + Se quanto depois na vida + De bello nos ha passado, + Não devera ser trocado + Por esses dias em flor?! + + Que lá vão! lembras-te ainda? + Tu risonha doidejavas, + Por entre as moitas de flores + Como ellas fragrante e linda. + Quando o som pausado e lento + D'_Ave-Maria_ escutavas, + Então naquelle momento + Aos pés da Cruz te prostravas!... + + Que fronte de anjo era a tua + Vista ao reflexo amoroso + Dos frouxos raios da lua! + Uma tarde, ao pôr do sol, + No recosto pedregoso + Do monte nos encontrámos; + Lembras-te! essa hora bateu, + Porem nós mal a escutámos! + Os olhos, tu perturbada, + Baixavas, e no semblante + Não sei que luz te brilhava, + Eu sei que naquelle instante + O prazer me enlouqueceu. + + Oh! fatal loucura aquella! + Tinha-me ali tão perdido, + Que, sem mais ver, delirante + Nos braços te arrebatei. + + Não sei por onde vagava, + Nem quanto, nem como andei; + Só me lembra que a ventura + Ali real me fallava, + E que aos incertos lampejos + Das estrellas desmaiadas, + Impremi ardentes beijos + + Nas tuas faces rosadas! + Foi breve aquelle delirio; + Ao menos breve o julguei; + E quando, outra vez á vida + De sobressalto voltei, + Desbotada como um lyrio + Pelos vendavaes batido, + Nos meus braços te encontrei! + +Setembro de 1851 + + + + +V + +IMPROVISO + + + Porque languida essa frente + Descai, quando a tarde espira? + Porque nesse olhar dormente + Tua alma ingenua suspira? + + Porque? ai! porque? responde; + Que se amor do ceo procura, + Eil-o; em meu peito se esconde; + Vive, é teu, tens a ventura! + + Verás como então brilhante, + Seduz, toma vida, inspira, + Esse teu bello semblante, + Que apenas hoje se admira! + +Ilha da Madeira--Novembro de 1850. + + + + +VI + +A UM RETRATO + + + És tu, sim, o mesmo olhar, + A mesma ardente expressão, + Com que teus olhos sabiam, + Tão habilmente occultar + O gêlo do coração. + + Como fascina o teu ser? + Agora, que eu posso ver, + Vejo bem que não és bella. + Quem for buscar no teu rosto, + A severa correcção + Que esta palavra revela, + Tirar feição, por feição... + + Não pode achal-a, bem sei. + Oh! mas nessa viva luz, + Que teus olhos illumina, + Ha de achar, como eu achei, + O fogo que nos seduz, + A chamma que nos fascina! + + E agora vais escutar; + Agora, que a Providencia + Piedosa me quiz salvar + D'essa fatal influencia, + Vais saber como te amei! + + Não é sómente da gloria, + Das illusões, da ventura, + Que é doce narrar a historia. + Repassando na memoria + Tantas scenas de amargura, + Vendo-as saltar palpitantes + Ante meus olhos agora, + Com toda a sinistra pompa + Da vida que tinham d'antes, + Ao ver de quanto é capaz, + Não sabes?... na propria dor, + O coração se compraz! + + Medindo o padecimento + Do martyrio atroz e lento + Que me trouxe o teu amor, + S'inda aterrado contemplo, + As crenças que fui depôr + Sobre as aras d'esse templo, + A dor do arrependimento + Ha de salvar-me da culpa + Ante os olhos do Senhor. + + Ai de ti! mil vezes mais + És tu desgraçada agora! + Viveste, reinaste um'hora, + E com que imperio! jámais, + Em delirio o pensamento + Te fez julgar adorada + Como eu te adorei, jámais! + + Ninguem neste mundo ousára, + Erguer a mão para um culto + Tão santo como eu criára! + Tu foste a que, cega um dia, + Por loucura e por vaidade, + As crenças que nelle havia, + Destruiste sem piedade! + + Punida estás, bem punida, + Sabe pois que amor do ceo, + Amor como foi o meu, + Encontra-se um só na vida! + + Inda ao ver-te... porque não, + Porque t'o devo occultar?! + Este morto coração, + De novo sinto pular + Em meu peito fatigado! + + Emfim, se o destino agora, + Quer que não possa existir + Da esperança do porvir, + Deixal-o existir embora, + Da saudade do passado! + + Esse é meu como tu foste + Na illusão de tanto amor, + E tu mesma, tu, que um dia + Com semblante mudo e frio + Lhe disseste o extremo adeus, + Com quanto remorso e dor + Has de ter rogado a Deus + Perdão de tal desvario! + + E dizes tu que ao _dever_, + Sacrificaste a existencia + E sujeitaste o meu ser!!... + Pois ha dever neste mundo, + Que aos olhos da Providencia, + Possa mais alto valer + Do que aquelle amor profundo + Que tu fizeste nascer?! + ............................. + ............................. + + Quando foi? vivo o momento, + E quanto então nos cercava + Existe em meu pensamento: + Era á tarde; o firmamento, + De nuvens se carregava, + E nos fraguedos da costa + O mar soturno quebrava. + + Olhei-te, e vi nesse instante, + Assumir o teu semblante, + Aquella mesma expressão, + Que de toda a natureza + Fatal respirava então. + + Pausada, lenta, glacial, + A tua voz respondia, + A tudo que eu proferia! + E depois dos labios teus + Desprendeste um frio adeus! + + Cuidaste sacrificar + A Deus em tua loucura, + Sem ver que foste apagar + A chamma d'essa ternura + Que só elle pode dar, + E te atreveste a tentar + O poder do Creador, + Na obra da creatura! + + Ai de ti! mil vezes mais + És tu desgraçada agora! + Viveste, reinaste um'hora, + E d'esse imperio, jámais + Na terra serás senhora! + +Fevereiro de 1855. + + + + +VII + +QUIEN NO AMA, NO VIVE + + + Pois não vês que se a luz do sol nascente + Á rosa na manhã desabroxada, + Não illumina as folhas, desbotada + Fica n'aste pendente, + Sem perfume, sem vida abandonada? + + Dize: então queres tu que a formosura + Que o Senhor estampou no teu semblante, + Sem renome, sem gloria, passe obscura + No mundo em que radiante + Ostentar-se podia magestosa? + Queres vel-a abatida como a rosa + Que o sol não illumina? + + Pois o que falta a essa fronte bella? + Oh! vais sabel-o:--O amor! + Que se anime e reviva á luz divina + E verás se depois alguem ao vel-a + Lhe nega o seu fulgor! + +Ajuda 1850. + + + + +VIII + +AMANHÃ! + + + Resta um dia, mais um dia, + Algumas horas ainda + De amor, de ternura infinda! + Amanhã nos olhos teus, + Uma lagrima sentida; + Em teus labios, um _adeus_! + + O instante da despedida + Tão perto está!... Minha vida, + Crava teus olhos nos meus, + Um sorriso, um beijo ainda, + Mais um'hora de ternura, + De amor, de alegria infinda + Antes d'esse longo _adeus_! + + Adeus de tanta amargura! + Sabe Deus! oh! sabe Deus, + Quando outros dias virão, + Tão gratos ao coração! + Quando nessa face linda + Verei sorrir a ventura; + Mas agora um beijo ainda + Antes que chegue o momento + De soltar o extremo _adeus_! + + Oh! tira do pensamento, + A hora da despedida; + Mais um instante de vida, + De delicia e gloria infinda!... + + Amanhã!... ai! não te lembres + De tal dia de amargura! + Crava teus olhos nos meus; + Inda um'hora de ventura, + De amor, de alegria infinda + Sorrindo nos olhos teus: + Um beijo, mais outro ainda, + O derradeiro: oh! _adeus_! + +Abril de 1857. + + + + +ANJO CAÍDO + + + Na flor da vida, formosa, + Ingenua, casta, innocente, + Eras tu no mundo, rosa! + Quem te arrojou de repente + Para o abysmo fatal! + Viste um dia o sol de abril; + O teu seio virginal + Sorriu alegre e gentil. + + Ergueu-se aos clarões suaves + D'aquella doce alvorada + A tua face encantada. + Amaste o doce gorgeio + Que desprendiam as aves, + E no teu candido seio + Quanto amor, quanta illusão + Alegre pulava então! + + Mal haja o fatal destino, + Maldita a sinistra mão, + Que em teu calix purpurino + Derramou fera e brutal + Esse veneno fatal. + + Hoje és bella; mas teu rosto + Que outr'ora alegre sorria, + É todo melancolia! + Hoje nem sol, nem estrella, + Para ti brilha no ceo; + Mal haja quem te perdeu! + +Novembro de 1857. + + + + +X + +PIEDADE! + + + Em torno da mesma idéa, + Meu ardente pensamento + Constantemente volteia. + Que horas estas de tormento! + E póde viver-se assim? + Que força tens, coração? + Pois tudo que sinto em mim + És capaz de supportar? + Oh! basta! por compaixão + Deixa emfim de palpitar! + +Agosto de 1856. + + + + +XI + +BELLEZA E MORTE + + + Quando Deus á terra envia + Um anjo dos seus, é breve + A vida que lhe confia. + ......................... + + Como a flor branca de neve + Que ao primeiro alvor do dia + No prado desabroxou, + Assim ella veiu ao mundo, + E tão rapida passou, + Que d'este rumor profundo + Nem um som, nem um gemido + Por esse anjo foi ouvido! + Nasceu, e sorrindo amou! + + Quem ao vel-a tão ditosa + Tão feliz por ser amada, + E tão feliz por amar, + Bella, fragrante, viçosa, + Cheia de vida no olhar, + De luz na face encantada; + Quem diria que esse amor + Seria a chamma fatal, + Que a devia emfim matar!? + + Pobre florinha do val, + Da aurora ao primeiro alvor + Nasceu, e sorrindo, amou, + Mas com a tarde... expirou! + +Junho de 1857. + + + + +XII + +ORAÇÃO DA MANHÃ + + +Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho + + Vem reflorindo a aurora; + A voz do rouxinol, + Mais inspirada agora, + Sauda a luz do sol. + + A perfumada aragem + Beija no campo a flor; + Tudo sorri á imagem, + Do nosso Creador. + + No bosque as avesinhas + Soltam os hymnos seus; + No berço as criancinhas + Resam tambem a Deus. + + «Por minha mãe, por ella, + E por meu pae, Senhor! + Dai-lhes propicia estrella, + Gloria, ventura, amor! + + «Cercai de mil delicias, + A sua vida emfim, + Como elles de caricias + Me tem cercado a mim. + + «As preces da innocencia + No ceo ouvidas são; + E a minha, oh Providencia, + Parte do coração, + + «Parte ao florir da aurora, + Co'a voz do rouxinol, + Que se desprende agora + Saudando a luz do sol!» + +Junho de 1859. + + + + +XIII + +CARIDADE + + +Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca + + Como avesinhas implumes + Enjeitadas nos seus ninhos, + Deixa a sorte os pobresinhos, + Sem lar, sem pão, sem carinhos + De maternal coração. + Escutando os seus queixumes, + Compassiva a Providencia, + Volve os olhos á innocencia, + E em sua eterna clemencia + Da-lhes lar, ensino, e pão. + + Mais vivos torna os desejos + No seio da caridade, + Que á desvalida orfandade + Vai com sincera piedade + Inundar de puro amor; + Amor, que em candidos beijos, + Suavemente procura + Dar conforto na amargura, + Aos que fez a desventura, + Orfãos no berço e na dor. + + A quem busca a Providencia + Para amparar o destino, + Do que pobre e pequenino + Se encontra sem luz, sem tino, + Logo no mundo ao nascer!? + Anjos de viva clemencia, + Que onde existe o sofrimento, + Correm, voam num momento, + A dar todo o sentimento, + Que taes almas sabem ter! + + São ellas mães, são esposas, + E recordando os carinhos + Que tiveram seus filhinhos, + Não podem ver pobresinhos + Sem amor, sem lar, sem pão! + No berço desfolham rosas, + Onde espinhos só havia, + E o sol de pura alegria, + Já de affectos alumia, + Dos orfãos o coração. + + Salve pois, oh Caridade! + Que assim abres o teu seio, + Áquelle que sem esteio, + Á luz d'este mundo veiu + Para viver na afflicção. + Salve casta divindade! + Terna irmã da desventura, + Que os suspiros da amargura + Convertes á creatura + Em risos de gratidão! + +Junho de 1856. + + + + +XIV + +BELLA SEM CORAÇÃO + + + Era uma esplendida imagem + De olhos rasgados e bellos; + Negros, negros os cabellos; + Boca gentil como a rosa, + Que á luz da manhã formosa + Sorri ao sopro da aragem. + + Alta, graciosa, elegante, + Um ar de tal distincção, + Na figura e no semblante, + Que eu disse commigo ao vel-a: + «Como esta mulher é bella, + Sobre tudo na expressão + De pallidez namorada, + Que tem na face encantada! + Esta sim, por Deus o juro, + Esta ha de ter coração!» + + A estação, o sitio, a hora... + Era a hora do sol posto, + E um frouxo raio de luz + Vinha bater-lhe no rosto. + A estação o meigo outono, + Quando o prado se descora, + No bosque cessa a harmonia, + Quando tudo emfim seduz + Com vaga melancolia. + O sitio, ameno e saudoso, + Onde livre a alma podia + Dar-se inteira aos sentimentos + De paz, de amor, de poesia! + + Aproximei-me da imagem + Meiga, risonha, singela; + Soltára a voz, era bella, + Bella sim, vibrante e pura, + Mas sem aquella ternura, + Sem aquelle sentimento, + Que diz tudo num momento! + Sem tremor, sem sobresalto, + Voz que dos labios saía, + Dos labios só, que se via, + Não provir do coração; + Voz sonora, porem fria; + Bella sim, mas sem paixão. + + «Pois essa gentil figura, + Esse pallido semblante, + Essa expressão de ternura + Que todo o teu ar respira, + A luz do olhar scintillante, + Dize emfim: quanto se admira, + Quanto ao ver-te nos encanta, + Será sem alma, e sem vida?!» + + Sorrindo me respondeu: + «Aqui não ha coração!» + Mas eu vi que elle bateu + D'essa vez precipitado + Por que a sua nivea mão + Tentou comprimil-o em vão! + E no olhar enamorado, + E na voz que estremecia, + Oh! Deus! o que não dizia + A bella sem coração! + +Setembro de 1856. + + + + +XV + +PERDOASTE! + + + Anjo offendido; outra vez, + Volve teus olhos do ceo + Áquelle que te offendeu! + Vel-o abatido a teus pés, + Anjo esquece, e compassivo, + Num sorriso de perdão, + Torna a dar-lhe o coração. + A cada instante mais vivo + O remorso cresce em mim; + Perdoa, oh! perdoa, emfim! + + Offendi-te num momento + De terrivel desvario; + Era o ciume violento! + O rubor da castidade + A tua face affrontava, + E eu cego, eu perdido, ousava + Proseguir! oh! por piedade, + Por piedade, anjo do ceo, + Perdoa a quem te offendeu! + + Em breve a razão voltou, + E com ella essa anciedade + Do desgraçado que ousou + Num momento de loucura + Offender a divindade. + Nas trevas da noite escura, + Nem ao menos uma estrella, + Brilhava serena e bella! + E eu caminhava em delirio + Sem força para acabar + A vida que era um martyrio! + A tão profunda amargura + Quem me podia arrancar, + Quem, senão um teu olhar? + + Lá, nas sombras do horisonte, + Despontou por fim a luz, + A mesma que em tua fronte + Bella e placida reluz. + No peito afflicto e cançado + Senti dilatar-se então + Este oppresso coração; + O teu olhar adorado + A mim outra vez volveu, + Terno, meigo, apaixonado. + Perdoaste, anjo do ceo! + +Abril de 1857. + + + + +XVI + +TRES RETRATOS + + +(Num album) + + Como as horas passam rapidas + Nesta doce companhia! + Brilha impaciente alegria + Em tudo á roda de mim. + Nunca fui tão venturoso, + Nunca a mão da Providencia + Fez com que eu visse a existencia + Tão bella e risonha emfim. + + Esta noite, quando a lua + No horisonte resvalava, + Inspirado a saudava + Nas balsas o rouxinol. + Vem agora a primavera + Abrindo o virginio manto, + Cada dia um novo encanto + Nos traz o romper do sol. + + Como a vida assim é bella, + Nesta amena convivencia, + Com tres anjos de innocencia + De formosura, e de amor! + Dezaseis annos talvez + Não tem Julia, bem contados, + Alta, airosa, olhos rasgados, + E sorriso encantador. + + O pesinho estreito e breve + Cinturinha delicada, + A fronte um pouco inclinada, + Com seu ar sentimental. + Na ramagem das pestanas + Occulta a traidora chamma, + Que no instante em que se inflamma + Dardeja um raio mortal. + + Mas que morte tão suave! + Inda ha pouco, em certa hora, + Que essa chamma seductora + O coração me accendeu... + Se é morte esquecer a terra, + Naquelle instante morria, + Por que tudo o que sentia, + Era a ventura do ceo! + + Vel-a sorrir entre os campos, + Bella, candida, animada, + Como as flores que a alvorada + De sua luz inundou!... + Vel-a, co'as mãos impacientes, + Afastar do rosto bello, + O basto e fino cabello, + Que a aragem desalinhou! + + Vel-a depois pensativa, + Quando tibio o sol declina, + Na corrente cristalina + Os olhos negros fitar! + Vagas sombras de tristeza + Que vem toldar-lhe o semblante, + São tão bellas nesse instante, + Dizem tanto sem fallar! + + Laura, Elisa, as outras duas, + Laura, pallida e morena, + Baixa um pouco, mão pequena, + Expressivas as feições; + Os olhos claros e vivos, + No seu brilho insinuante, + Reflectem a cada instante + Milhares de sensações. + + Eliza, a timida Eliza, + Que innocente singeleza, + Que perfume, que belleza + Naquella face gentil! + Cabellos loiros cendrados, + Olhos d'esse azul escuro, + Que é semelhante ao ceo puro + De um bello dia de abril! + + As rosas da formosura + Sempre vivas no semblante, + O corpo esbelto e ondulante, + Se é permittida a expressão; + Uma tal ingenuidade, + No seu todo se revela, + Que em se olhando para ella, + Bate alegre o coração. + + Tirados daguerreotypo + Não ficavam mais exactos + De certo estes tres retratos + Que procurei desenhar; + Qual porém é mais sympathico, + Mais perfeito, deve agora + Dizel-o a amavel senhora + Do livro onde os vou deixar. + + Eu de certo não me atrevo! + Nos olhos tem Julia a chamma + Que nos sentidos derrama + Torrentes de languidez! + Laura... Eliza... mil encantos; + Emfim, não sei qual prefiro, + Não sei a que mais admiro, + Sei que adoro a todas tres! + +Setembro de 1857. + + + + +XVII + +ADEUS + + + Vai-te, oh! vai sombra mentida, + Para nunca mais volver! + Vai-te, deixa-me na vida, + Que esse teu estranho ser, + Fatal sempre me tem sido, + Fatal sempre me ha de ser. + + Qual era a traidora mão + Que para ti me impellia? + Eu desvairado não via, + Ser aquelle um fulgor vão + Que no horisonte luzia?! + Crente a vista repousava + Na luz clara, intensa, bella, + Que para a terra manava + Do seio da meiga estrella, + E que minh'alma inundava + D'aquella celeste chamma + Que a vida e razão inflamma + No ardente fogo de amor! + + Deixei-me cegar por ella; + Quanto e como então vivia + Ao grato e doce calor + D'essa que assim me perdia, + Não sei; porem sei que um dia, + Num'hora de maldição, + Não vi mais no firmamento + O seu mentido clarão. + Desvairado em tal momento + Fugi sem norte e sem tino; + Mas quem foge ao seu destino!? + + Numa d'estas noites placidas, + Em que as estrellas fulgentes, + Reflectem vívida luz, + Á flor das aguas dormentes; + Em que o rouxinol seduz, + Co'as inspiradas endeixas + Soltando sentidas queixas, + D'entre as balseiras virentes; + Quando respira no ar, + Do monte que o mato veste + Aquelle perfume agreste, + Que é tão grato de aspirar; + Quando emfim a natureza, + No seu mais pleno vigor + Ergue a Deus seu hymno eterno + De graças, de paz, de amor! + Eu na minha alma abatida, + Procurava, mas em vão, + Uma só nota do canto + Immenso da creação. + + Debalde encontrar buscava, + Naquella ardente anciedade + Em que o peito arqueja e cança, + No passado uma saudade, + No porvir uma esperança! + + Debalde a vista alongava, + Pelo ceo onde as estrellas, + Resplandeciam tão bellas! + Em meu peito arido e morto + O reflexo d'uma d'ellas + Nem sequer compenetrava! + Fatigado, exangue, absorto, + Sem luz, sem norte, e sem tino + Prosseguia o meu destino! + Quando ao chegar um instante + Em que afflicto a vista erguia, + Dei com teu bello semblante, + Pallido, triste, abatido, + Que para mim se volvia + Saudoso e compadecido. + + Oh! tão fundo sentimento + Brilhava nos olhos teus + Que ao ver-te nesse momento + Quem te não dissera um anjo + Do ceo á terra descido, + E que volve arrependido, + Outra vez aos pés de Deus! + + Lá, na extrema do horisonte + Vinha então rompendo a lua; + Melancolica a luz sua, + O teu semblante inundou; + E nunca no prado ou monte, + Aquella face formosa, + Outra tão pallida rosa + De um reflexo illuminou! + + Comtemplava-te perdido, + De esperança, amor, e gosto, + Quando teu languido rosto, + Pouco a pouco se animou; + E a tua voz docemente + Murmurando ao meu ouvido, + De novo um amor ardente + Outra vez me protestou. + + Hesitava em crer-te ainda; + Mas o pobre coração, + Quando se vê na desgraça + Encontra a crença tão linda! + A plenos tragos a taça, + D'esse philtro enganador + Ancioso esgotava então, + Sem me lembrar que no fundo, + Estava o fel da traição. + + Vai-te, adeus, pallida sombra, + Vai, porque este coração, + Por tuas mãos lacerado, + Com a tua vista se assombra, + E de ti foge aterrado! + +Janeiro de 1855. + + + + +XVIII + +A VISÃO DO BAILE + + + Foi num baile que a viste cercada + De perfumes, de luz, de harmonia, + Onde viva, impaciente alegria, + Nos semblantes andava a saltar; + E ella triste, abatida, indolente + Entre as pompas da festa encantada, + Co'a tristeza na face estampada, + E infinita saudade no olhar. + + Ai! que luz! que expressão nesses olhos + Quando instantes nos teus se cravaram! + De repente em tropel acordaram + Mil affectos no teu coração! + E debalde a seu lado quizeste + Revelar o que n'alma sentias, + As palavras, a voz eram frias + Para aquella infinita paixão. + + D'essa noite os instantes voaram, + Entre amor, entre gloria e ventura, + E no fim com que immensa ternura, + Seu olhar para ti se volveu! + É que havia chegado o momento + De deixar essa estancia inundada + Dos primeiros clarões da alvorada, + Que já vinha rompendo no ceo + + Mas depois, quando o sol d'esse dia + Desmaiava nas veigas virentes, + Quando as aves soltavam gementes + A voz doce nas balsas em flor, + Não a viste assomar á janella, + E sorrindo, mirar-te um instante? + Não brilhava naquelle semblante, + Um sublime reflexo de amor!? + + No sonoro recinto do templo + Quando as preces sinceras subiam, + Quando os hymnos sagrados se ouviam + Aspirando suaves aos ceos, + Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua, + Ante Deus, ante os olhos do mundo + Que este affecto suave e profundo, + Vem do ceo e é bemdicto de Deus!» + + Hoje pois, que na luz d'esses olhos, + Nessas fontes de amor e candura, + Encontraste na terra a ventura, + Cuidas tu em deixal-a, e partir? + Oh! não vês que é fatal o destino, + Que chegou para ti essa hora + De encontrar a mulher seductora + Que te deve encantar o porvir? + + Ai, poeta, debalde procuras + Esquecer a visão adorada; + Ai! debalde! tua alma inspirada + Outra igual neste mundo encontrou! + São irmãs, e co'a mesma ternura + Viverão abraçadas no mundo, + Num affecto sincero e profundo + A suprema vontade as juntou! + +31 de Março de 1857. + + + + +XIX + +RECEIOS + + + Ás vezes, quando a teu lado + Comparo a expressão que outr'ora + Tinha teu rosto adorado, + Á sua expressão de agora... + Não sei que tristeza vaga + Que impressão sentida e funda, + O meu coração esmaga! + Oh! mas sei que a alma se inunda + De uma subita amargura, + De uma tal angustia e dor, + Que toda a luz da ventura, + Que me vem do teu amor + Toda com ella se apaga! + Loucuras serão, delirio + D'este ardente imaginar; + Serão, sim; mas o martyrio, + Com que me sinto acabar, + Só tem poder tua mão + Para de todo o findar + Neste oppresso coração! + +Setembro de 1855. + + + + +XX + +LEMBRAS-TE? + + + Lembras-te? frouxa expirava + Aquella doce harmonia + Que em nossas almas entrava. + De uma luz tão resplendente + Teu limpido olhar brilhava, + Como a da aurora nascente, + E aurora gentil sorria, + No meigo azul de teus olhos + Para raiar entre rosas + Fragrantes e sem abrolhos. + + Quando mais tenue partiu + A cadencia saudosa, + Tua boca proferiu + Não sei que cortadas fallas, + Que o ouvido não sentiu, + Porque vieste graval-as + Com a voz do ceo no peito, + Que a ti rendido e sujeito + Anhelando t'as ouviu. + + Ao proferil-as, dormente + O teu olhar descaíra, + E em teu pallido semblante + A expressão se reflectíra + Dos affectos que agitavam + A tua alma nesse instante. + Ai! nesse instante do ceo, + Que á terra breve fugíra, + Que a elle inteiro volveu! + + No horisonte estremeciam, + Ebrias de amor as estrellas, + E teus olhos se fitavam + Na luz scintillante d'ellas; + É que no ceo procuravam + O eterno d'aquelle instante + Que na terra presentiam + Que passaria inconstante. + + O alvor da nascente aurora, + Que no horisonte assomava, + Das estrellas desmaiava + A viva luz, e inda agora, + Tenho em minh'alma, querida, + A expressão com que me olhaste + Apontando para ella! + É que essa aurora tão bella + Não brilhava mais na vida! + +Janeiro de 1849. + + + + +XXI + +POIS SER PALLIDA É DEFEITO? + + + Pois ser pallida é defeito? + E de todo o coração, + Diz, pondo a mão sobre o peito, + Que um rostosinho desfeito + Não pode inspirar paixão? + + Ora diga: a rosa é bella + Quando o sol lhe accende a cor, + É bella sim, mas ao vel-a + Desmaiar n'haste singela + Não lhe inspira mais amor? + + Viçosa, fresca, orvalhada, + De manhã é toda luz; + Mas á tarde desmaiada, + Co'a pallidez namorada, + Oh! quanto mais nos seduz! + + Está convencida vejo, + Deveras não, inda não? + Pois se é todo o seu desejo + Ser corada, dê-me um beijo, + E verá se cora ou não! + + Porque esconde o rosto lindo? + Santo Deus! descubra-o já! + Aposto que vai sentindo + Um certo rubor subindo... + Ai! como corada está! + + Neste espelho, olhe-se agora, + Veja bem que linda cor; + Quando nasce a fresca aurora, + A luz que a face lhe cora, + Não tem mais vivo fulgor. + + Sorri-se a furto, bem vejo, + Occulta o rosto na mão: + Pois vamos, agora um beijo, + Quem cumpriu o seu desejo, + Não merece, diga, não? + +Junho de 1852. + + + + +XXII + +DEVER + + + Sê bem vinda estação melancolica! + Sê bem vinda! minh'alma abatida, + No teu seio procura essa vida, + Que tão bella, e tão breve passou! + Oh! são estes os campos formosos, + É bem este o deserto mosteiro, + Onde ouvíra o adeus derradeiro + Que teu peito anhelante soltou! + + Já nas folhas do bosque frondoso + Se desbota a risonha verdura, + E co'a aragem que á tarde murmura, + Vão caindo dispersas no chão. + Já nos campos de todo cessaram, + Os modilhos da ingenua avesinha, + Que nas moitas espessas se aninha, + Presentindo a invernosa estação. + + Que saudade na luz que desmaia, + Nestes campos sem viço nem flores, + Quando á tarde os incertos fulgores + Do sol tibio resplendem no ceo! + Que saudade na aragem agreste, + Que deriva do cimo do monte, + E no azul d'este vasto horisonte, + Onde pallida a lua rompeu! + + Foi aqui nestas margens viçosas + Hoje tristes, desertas, sombrias, + Que sorriram os unicos dias, + Para mim de ventura e de amor; + Quando tu inspirada a meu lado + Caminhavas com tremulo passo, + E firmando-te alegre ao meu braço + Davas graças da vida ao Senhor. + + Era aqui, junto á cruz mutilada, + Aos extremos reflexos do dia + Quando o sino da ermida se ouvia + Dar signal da singela oração, + Que tu vinhas prostrar-te soltando + Com voz flebil a prece sentida, + Pelo bem, pelo amor, pela vida, + Dos que a sorte deixou na afflição. + + E depois nos meus olhos cravando + Os teus olhos de pranto orvalhados + Os protestos mil vezes jurados, + Vinhas mais uma vez proferir; + Nesse esforço baldado do espirito, + Que nas frases da terra procura + Expressar a celeste ventura, + Que sómente se pode sentir. + + E pensar que este ceo de delicias + Se acabou para nós na existencia! + Que não temos mais nada que a essencia + Da saudade que d'elle ficou!... + Ver que a mão de um poder sobrehumano, + Nos traz cegos do mesmo delirio, + E votarmos a vida ao martyrio, + Porque o mundo um fantasma creou!! + + Pois se Deus quiz ligar nossas almas, + Se é fatal que ellas sejam unidas, + Queres tu desprender duas vidas + Que se acharam irmãs ao nascer? + Vês que foi a suprema vontade + Que as juntou num abraço divino, + E ousas tu, desvairada e sem tino, + Separal-as á voz do _dever_! + + O _dever_?! O dever mais sagrado + E mais santo que temos no mundo, + É mantermos o affecto profundo + Que d'um sopro divino nasceu; + Attentar contra a sua existencia, + Debelar sem piedade essa vida, + Não será como ser suicida + E affrontar a vontade do ceo!? + + Sobre as aras de um templo mentido, + Num altar pelos homens creado, + Vais queimar quanto ha puro e sagrado, + Por um falso julgar da razão! + Sem pensar no teu crer insensato + Que não póde jámais ser extincto, + Este amor tão profundo que eu sinto + E tu sentes co'a mesma paixão! + .................................. + + Oh! de novo a meu lado, querida, + Volve, em quanto no ceo e na terra, + Nos agrestes perfumes da serra, + A suave estação respirar! + Volve pois, porque as veigas frondosas + Não perderam de todo a verdura, + E inda a mesma infinita ventura + Neste sitio has de agora encontrar. + +Setembro de 1856. + + + + +XXIII + + +Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez + + Bella, graciosa e timida, + Na aurora da existencia + Rosa de grata essencia + Sorrias em botão! + A luz do sol explendido + Vinha inundar-te a frente, + Suave e docemente + Beijar-te a viração! + + Como os affectos intimos + Da maternal ternura + Enchiam de ventura, + A tua vida em flor! + E como a face candida + Serena, reflectia + A magica poesia + D'ess'alma toda amor! + + Dos pensamentos lugubres, + Das ambições da terra, + Das maguas que ella encerra, + Dos crimes que contém, + Jámais a teu espirito + Chegará o som profundo, + Anjo descido ao mundo + Só para amar o bem! + + Um dia, a immensa abobada, + Azul e resplendente, + Toldou-se de repente + Ao sopro do tufão! + Era o primeiro fremito, + Nuncio da tempestade, + Que vinha sem piedade + Rosa, lançar-te ao chão. + + Ao ver abrir-se o tumulo + Sorrias sem receio, + E se a teus olhos veiu + Funda expressão de dor, + Foi quando a boca tremula + Da mãe que te perdia, + Á tua enfim se unia, + Com mais profundo amor! + + Então, como ella, pallida, + Soltando o extremo alento, + Volveste num momento + Á gloria perennal! + E logo fria, gellida, + Sem ter nem cor nem vida, + Par'ceste adormecida, + No seio maternal! + +Setembro de 1856. + + + + +XXIV + +PARISINA + + +A Pedro Jacome Corrêa + + MEU CARO AMIGO. + +A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do +Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não +fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo +a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico. + +Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja +essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. +Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais +escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle. + +Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as +obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção +deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem +tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o +pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor +primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem +menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor +particular que se encontra em todas as composições do grande poeta, +dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver +conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu +decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a +insignificancia d'esta offerta ao + + Seu do coração + +Janeiro de 1857. + + BULHÃO PATO. + + + + +PARISINA + + +Imitação + + + I + + É na hora, em que a voz bella e sentida + Do meigo rouxinol, entre a folhagem + Das balsas escondido, solta ao vento + A saudosa canção do fim do dia: + Hora solemne e grata em que os amantes + Renovam mil protestos de ternura, + De constancia e d'amor; em que o susurro + Da fresca viração vai confundir-se + Co'o murmurar da trepida corrente. + De cristalino orvalho borrifadas, + As vicejantes flores da campina + Mais vivo aroma espargem no ambiente. + Accendem-se no ceo milhões de estrellas, + É mais escuro o azul á flor das vagas, + E a verdura do bosque é mais sombria. + Entre as trevas e a luz, o firmamento + Jaz velado por languido crepusculo, + Que rapido se esvai nos frouxos raios + Da lua, despontando no horisonte. + + + II + + Mas não é para ouvir os doces carmes + Do amoroso cantor, que Parisina + Do palacio feudal ao parque desce; + Nem para contemplar a luz brilhante + Das tremulas estrellas, que divaga + Por entre as sombras que diffunde a noite. + Se procura um desvio na espessura, + Não é para aspirar o vivo aroma + Das matisadas flores; e se escuta, + Não é de certo para ouvir das aguas + O brando murmurar. Sons mais queridos + Espera o seu ouvido nesse instante. + Rangendo as folhas seccas denunciam + Que se aproxima alguem: empallidece + De susto e de prazer ao mesmo tempo. + D'entre as ramas que a brisa doidejante + De espaço a espaço agita, mansamente + Parte emfim uma voz: é voz amiga; + De subito o rubor lhe volta ás faces, + E mais livre, porém não menos forte, + Bate-lhe o coração no peito agora. + Mais um momento só é já passado, + Aos pés da bella jaz o cego amante. + + + III + + O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca, + Que lhes importa nesse doce instante? + Tudo é nada a seus olhos deslumbrados + Pelo fogo do amor; tudo se perde, + Se confunde, e se esvai nesse delirio! + Nos suspiros que vem do fundo d'alma, + Nesses mesmos, respira tal ventura, + Que, se fosse mais longa, dentro em pouco + A vida ou a razão succumbiria! + + Oh! quem sente lavrar dentro do peito + O fogo da paixão com tanto imperio, + Não pensa na desgraça, nem se lembra + Da curta duração de taes enganos! + Ai! quantas vezes despertâmos antes + De saber que não volta o mago sonho!! + + + IV + + Vão partir: vão deixar com passos lentos + O encantado logar que presenceára + O seu transporte em delirante crime. + Vão partir: e apesar dos mil protestos, + Da esperança que em breve hão de juntar-se, + Dor profunda no peito lhes comprime + Agora o coração, como se fosse + Aquella a derradeira despedida. + Parisina, cravando os olhos languidos + No firmamento azul, treme, sentindo + Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe. + Elle outra vez a cinge contra o peito; + Um suspiro, um adeus, inda outro beijo, + É forçoso partir, levando n'alma + Os amargos, crueis presentimentos, + Que de perto acompanham sempre o crime. + + + V + + Tranquillo no seu leito solitario, + Hugo repousa, e pode sem receio + Livremente soltar o pensamento. + Porém ella descança a fronte pallida + Das fadigas do amor, junto do esposo. + Sonhando, em voz sumida solta um nome, + E suppondo estreitar contra seu peito, + Agitado e febril, o terno amante, + Entre os braços comprime esse que dorme + Agora ao lado seu. Subito acorda + Á suave impressão do meigo abraço + O esposo que se julga idolatrado, + Até nos sonhos da adorada esposa! + + + VI + + Sobre o seu coração com quanto affecto + Reclina aquella fronte encantadora! + Com quanto afan procura ouvir as frases, + Que de seus labios solta entrecortadas! + Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento, + Azo, o altivo senhor, estremecêra + Como tendo escutado a voz do archanjo! + Oh! deve estremecer, porque a sentença, + A sentença fatal que os seus ouvidos + Acabam de escutar, vai despenhal-o + Para sempre no abismo da desgraça! + O nome que ella em sonhos proferíra, + Que soára tremendo como a vaga, + Quando arremeça aos concavos rochedos + A debil prancha que sustenta o naufrago, + Esse nome qual foi? O nome de Hugo; + Hugo, o filho da pobre e linda Branca, + Que o principe illudiu, e sem piedade + Depois abandonou! Hugo, seu filho, + Fructo innocente de um amor culpado! + + + VII + + Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a! + Quem podera immolar um ser tão bello?! + Oh! ninguem! Apesar do negro crime, + Da nefanda traição, faltam-lhe as forças, + Ao contemplal-a assim adormecida. + Nem a acorda sequer, mas por instantes + No seu rosto encantado crava os olhos. + Se de subito agora despertasse, + A infeliz nesse olhar sentíra a morte! + Pela fronte do principe traído, + Frio corre o suor, e á luz da lampada + Estremecem brilhando as grossas bagas. + E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias + Nesse instante fatal foram contados! + + + VIII + + Assim que o sol desponta no horisonte, + Azo corre a indagar pelos que o cercam, + E as derradeiras provas apparecem. + As aias da princeza, largo tempo + Conniventes no crime, revelaram + Quanto havia de occulto nesse drama. + Não tem que duvidar! Azo, escutando + A longa historia de tão negro crime, + Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces, + Que de profunda cholera se inflammam. + + + IX + + Na vasta sala do feudal palacio + O orgulhoso Senhor da casa d'Éste, + Sobre o purpureo throno está sentado. + Nobres, pagens, soldados o circundam, + Os olhos crava nos culpados ambos, + Ambos jovens e bellos. Duros ferros + Tem sujeitos os pulsos do mancebo, + Que fôra brutalmente desarmado + Por mercenarias mãos da nobre espada. + Na presença de um pae é d'este modo + Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?! + Porém, Hugo infeliz, nesse momento, + Tem de ouvir a sentença incontrastavel + Dos labios paternaes, prestar ouvidos + Á triste narração do seu opprobrio! + E comtudo a expressão do nobre rosto, + A distincta altivez conserva ainda! + + + X + + Pallida, sem alento e silenciosa, + Aguarda Parisina nesse instante + As palavras fataes. O seu destino + Quão rapido mudou! Ha pouco ainda, + D'aquelles olhos a celeste chamma + Pelos salões doirados espargia + A meiga seducção. Se nesses olhos + Visse alguem borbulhar uma só lagrima, + Mil cavalleiros da mais nobre estirpe, + Arrancando da espada, a vingariam! + Mas agora, infeliz! quantos a cercam, + Mal disfarçam no rosto carregado + A contida expressão do seu desprezo! + E elle, o amante adorado da sua alma, + Elle, oh Deus! que liberto por instantes, + Por instantes que fosse, a houvera salvo, + Jaz preso ao lado seu em duros ferros! + Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras + Onde outr'ora fugia a cor suave + Da terna violeta, convidando + A mil sequiosos, demorados beijos, + Se entumecem, velando a vista immovel + Das pupillas, nas quaes a dor intensa + Accumula uma lagrima apoz outra! + + + XI + + Oh! por ella tambem, nesse momento, + Derramára o infeliz amargo pranto, + Se de tantos a vista a não cercasse. + A dor que o devorava, parecia + No mais intimo d'alma adormecida; + A fronte macilenta e transtornada, + Conservava-se altiva. Por mais forte, + Mais acerbo que fosse o seu tormento, + Não quizera humilhar-se na presença + D'aquella multidão que o comtemplava. + A companheira bella de infortunio, + Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se + Das horas do passado, do seu crime, + Da vingança de um pae, do seu destino, + E sobre tudo do destino d'ella, + Não ousava lançar sobre esse rosto + A desvairada vista, receando + Que, cedendo ao remorso, revelasse + Quanto o seu coração fôra culpado. + + + XII + + Azo emfim sólta a voz: + «Ha pouco ainda, + Numa esposa e num filho resumia + Toda a minha ventura neste mundo. + A aurora dissipou tão bello sonho! + Antes do pôr do sol, nem um nem outro + Me devem pertencer. Quebrem-se embora, + As ligações mais caras da minh'alma! + Hugo! um padre te espera, e depois d'elle + A justa punição do teu peccado. + Ergue preces ao ceo antes que o lume + Das estrellas se accenda no horisonte: + Talvez te dê perdão. Mas neste mundo + Não existe logar onde possâmos + Nós ambos respirar. Adeus, não quero + Assistir ao teu ultimo momento! + Porém tu, fragil ser, ensanguentada + Terás de vêr cair essa cabeça. + Vai, traidora mulher; sobre a tua alma + Pese o remorso da desgraça d'elle! + Vai-te, adeus, e se podes, contemplando + Este exemplo fatal, ter vida ainda, + Gosa d'ella, que livre t'a concedo!» + + + XIII + + Velando a face pallida e sombria, + Onde as veias inchando palpitavam, + Como se o sangue em ondas refluisse + Do coração á fronte, Azo ficára + Callado longo tempo. Hugo, soltando + Profunda, porém firme, a voz do peito, + Roga ao pae que o escute alguns momentos. + O principe em silencio lh'o concede: + + «Tu bem sabes que a morte não receio; + Tinto em sangue mil vezes nas batalhas + Me viste ao lado teu, onde mais forte, + Mais travado e mortal, era o combate. + Então deves lembrar-te que esta espada, + Que ha pouco os teus escravos me arrancaram, + Derramára mais sangue do que em breve + Fará correr a mão do teu carrasco. + Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa? + Quite me deixas d'esse dote infame! + Presente, viva tenho na memoria + A injuria com que as faces affrontaste + De minha pobre mãe; e a vil herança + Que recebi no berço, inda me accende + O semblante de cholera e vergonha. + + «No tumulo onde agora ella repousa, + Irá juntar-se em breve o meu cadaver. + Transido o peito seu por mil desgostos, + Separada do corpo esta cabeça, + Entre os mortos dirão até que ponto + Foste amante fiel, pae carinhoso. + + «Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes + Que trocámos affronta por affronta. + A mulher a que chamas tua esposa, + Victima ingenua do teu fero orgulho, + Não te lembras que fôra largo tempo + Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a, + Contemplando o seu rosto, desejaste-a, + E para emfim provar que não podia + Pertencer-me jámais ousaste affoito, + Allegar o teu crime e a minha origem. + + «Era indigno de ser esposo d'ella! + E porque?! Por que as leis não consentiam + Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste. + E comtudo, se a mão da Providencia + Me conservasse a vida, dentro em pouco + Podéra conquistar de certo um nome + Tão nobre como o teu. Tive uma espada, + E sobeja ambição para elevar-me + Com ella aos feitos de sonhada gloria. + Bem sabes que as esporas mais brilhantes, + Nem sempre as traz aquelle que nascêra + Embalado na purpura, e que as minhas, + O corcel que montava, por mil vezes + Avante arremessaram dos mais nobres, + Mais valentes senhores, quando, lembras-te? + Carregando eu bradava: _Éste e victoria!_ + O meu crime conheço, e não procuro + Minoral-o, descança, nem tão pouco + Implorar-te alguns dias de existencia, + Rapidas horas que sem ser contadas + Passarão sobre a pedra do meu tumulo! + + «Delirio, como foi o do passado, + Não podia ser longo. A minha origem, + O meu nome, não são de mancha isentos; + Mas comtudo, apesar do teu orgulho, + Regeitar perfilhar-me!... nesta face, + Quaes olhos não verão que sou teu filho? + A minh'alma tambem de ti procede! + De ti, sim; por que tremes? de ti veiu + O indomavel vigor do meu caracter. + Não foi somente a vida que me deste, + Porém quanto podia emfim tornar-me + Em tudo igual a ti. Comtempla a obra + Do teu culpado amor! Na semelhança, + Semelhança fatal que vês no filho, + Irada te castiga a Providencia! + Est'alma não é pois a d'um bastardo, + Como a tua não soffre a tyrannia. + O passageiro sopro da existencia, + Nunca em mais o presei do que tu proprio, + Quando juntos na força do combate, + A galope os corceis, a espada em punho, + Por mil vezes nas renques do inimigo + Rompendo a ferro frio penetramos. + + «O passado acabou, e dentro em pouco + O futuro com elle irá juntar-se, + «Mas oxalá que a mão do Omnipotente + He houvesse dado a morte em taes instantes! + + «Era pouco deixar-me orfão no mundo + Do affecto maternal; ousaste ainda + Arrebatar-me a noiva! Mas que importa? + Sou teu filho, conheço-o neste instante, + E a sentença cruel que proferiste, + Posto venha de ti, não posso agora, + No fundo de minh'alma achal-a injusta. + + «No peccado nasci, morro na infamia; + Por onde começou, termine a vida. + Errando o filho, o pae tambem errára; + Num, castigas os dois. Perante os homens + Eu, quem sabe? serei o mais culpado, + Porém Deus julgará entre nós ambos.» + + + XIV + + Cruzando as mãos no peito Hugo fizera + Resoar os grilhões, e d'entre os chefes, + Que a sala do palacio povoavam, + Não houve um só, que ouvindo esse ruido + Deixasse de tremer. Depois cravaram + Sobre a fatal beldade a vista a um tempo. + + Parisina, infeliz! pallida e fria, + Immovel como estatua de alabastro, + Dissemos que assistíra á scena horrivel, + Da perdição do amante. Os olhos fixos, + Scintillantes, abertos, desvairados, + Nem sequer por instantes se volveram. + Nem uma vez as palpebras, cerrando-se, + O fito olhar velaram; mas em torno + Das pupillas azues, e resplendentes, + Sem cessar se alargava o alvo circo! + + Uma lagrima a custo conglobada, + Lentamente das palpebras saía, + Tremendo sobre a franja das pestanas: + Quem o sabe contar? nesse momento, + Os que a viam, pasmavam, não podendo + Crer que a olhos de humana creatura, + Fosse dado verter tão grossas lagrimas! + + Quiz fallar, mas a voz morreu cortada: + Comtudo no som cavo que soltára, + Nesse longo suspiro, parecia + Que vinha o coração; apoz instantes + Tentára inda outra vez, porém debalde! + Do mais fundo do peito a voz partira + Num grito, num gemido prolongado, + E depois como a pedra, como a estatua + Derrubada da base, como tudo + O que é de vida falto emfim caíra + Digno emblema do tumulo da esposa, + Do traído senhor da casa d'Éste! + Porém não da mulher que sente n'alma + O remorso do crime, e nelle segue + Pelo ardor dos desejos instigada. + + Do lethargo fatal tornára em breve, + Mas não para a razão; cada sentido + Por dor intensa fôra aniquilado. + Como das cordas do arco humedecidas + Lassas da chuva, as settas disparadas + Vão bater ao acaso, assim do cerebro + As magoadas fibras só soltavam + Desvairados, e vagos pensamentos. + + O passado, e porvir! Ermo o passado! + Nas trevas do porvir apenas via + Um sinistro clarão, de espaço a espaço, + Semelhante ao do raio quando fende + As nuvens conglobadas no horisonte, + E cai sobre um logar deserto e triste. + Gelada de terror sentia n'alma + O peso do remorso; que existiam + A vergonha, o peccado, na consciencia, + Uma voz mal distincta lh'o lembrava; + Que a morte estava ali pairando livida + Sobre alguem, nesse instante o presentia. + Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida + O sopro que seus labios respiravam? + Era o ceo, era a terra, eram os homens, + Que tinha ante seus olhos deslumbrados? + Os homens, ou demonios que a miravam + Com sinistra expressão? Eram os mesmos + Cujo olhar noutro tempo revelava + Tão suave, e profunda sympathia? + Tudo era incerto e vago no seu animo, + Receios, e esperanças insensatas; + Agora um meigo riso, logo um pranto, + E no seu desvairado pensamento, + Cuidava ser aquelle um sonho horrivel + No qual o coração se debatia. + Porém d'elle, oh! debalde procurára + Acordar a infeliz jámais na vida! + + + XV + + Na torre pardacenta do mosteiro, + Balançam lentamente agora os sinos, + E o som profundo e triste dentro d´alma, + Desperta dolorosos sentimentos. + Por aquelles que á sombra do cypreste, + Repousam para sempre, ou dentro em pouco + Terão de repousar, o canto funebre, + Que ouvis neste momento se desprende. + Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos; + Ante os olhos o cepo, ao lado um padre! + Braços nus o carrasco attento espera + Pelo instante fatal; certeiro e forte, + Deve o golpe caír. Horrivel quadro! + Mas comtudo ao redor avidamente, + A turba silenciosa se reune, + Para ver, Santo Deus! no cadafalso + Por ordem de seu pae morrer um filho! + + + XVI + + É um'hora encantada a que precede + O derradeiro adeus do sol explendido! + Na pompa de seus raios fulgurantes, + Parece escarnecer da scena horrivel + Que se aproxima de seu termo agora. + Curvado aos pés do monge, em voz sumida + Hugo profere a derradeira prece, + Prece contricta, humilde, fervorosa. + Nessa fronte inclinada e pensativa + Bate um raio de luz, porém mais vivo, + Mais brilhante reflecte sobre a lamina, + Que proxima da victima responde + Por um forte, mas lugubre, reflexo. + + Como est'hora suprema é dolorosa! + O crime fôra atroz, justo o castigo; + Mas comtudo o supplicio nesse instante + Faz gelar de terror quem o contempla! + + + XVII + + As orações extremas acabaram; + O filho ao pae traidor, o audaz amante, + Tudo emfim confessou. Rapidas tocam + As horas no seu ultimo momento. + As ondadas madeichas de cabello + Já cairam no chão. O nobre manto + Bordado pelas mãos de Parisina, + Não deve acompanhal-o á sepultura. + Tentam vendar-lhe o rosto, não consente + Esta final affronta. O seu orgulho, + Comprimido no mais intimo d'alma + Pela expressão de fria indifferença, + Acorda nesse instante, repellindo + A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos. + + «O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te, + Preso, algemado estou; co'a vista livre, + Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo + No logar do supplicio inclina a fronte. + Ao proferir esta palavra: «Fere» + Brilha o ferro no ar; silvando o golpe + Cai rapido e fatal. Rola a cabeça, + O corpo palpitante e transtornado, + Pula envolto no pó, que bebe o sangue + Saído em borbotões pelas arterias! + + Inda instantes os labios estremecem, + Nos olhos inda fulge a luz da vida; + Tudo emfim acabou! Morto sem pompas, + Como deve morrer o homem culpado + Que se arrepende no momento estremo, + Elle o seu coração oppresso e triste + A Deus sómente consagrou ness'hora. + + A imagem de seu pae, da propria amante + O que eram á sua alma atribulada? + Um sentimento das paixões terrestres + Não viera turbar naquelle instante + A pura contricção do seu espirito, + A não ser quando expondo a fronte nua, + Ao cutello do algoz quiz ver a morte. + Era o unico adeus que proferira, + Ás testemunhas do cruel supplicio. + + + XVIII + + A multidão gelada e silenciosa, + Mal ousa respirar. Alguns gemidos + Cortados, mas profundos, se escutaram; + Nada mais, a não ser o som socturno + Do cutello batendo sobre o cepo. + + Nada mais? houve um som, um grito horrivel, + Estridulo, selvagem, semelhante + Ao da mãe, que de um golpe repentino + Vê cair a seus pés sem vida o filho! + O grito de quem foi, de onde partiu? + De um seio feminil, e mais terriveis + Não os solta jámais o desespero! + + + XIX + + Hugo jaz no sepulchro, e Parisina + Dissera acaso eterno adeus ao mundo, + Refugiando sua alma atribulada + No silencio da cella de um convento? + O veneno, o punhal talvez seriam + O severo castigo do seu crime? + Ou succumbira emfim nesse momento, + Em que vira brandir o duro ferro + Sobre a adorada fronte? compassiva + A mão da Providencia permittiu, + Que ao quebrar-se em seu peito confrangido + De angustia o coração, se terminasse + Tambem com elle a fragil existencia? + Não o soube ninguem. Aquella vida, + Ai! de mim! acabára neste mundo + Pela dor como a vida principia! + +Setembro de 1856. + + + + +XXV + +A VALSA + + + Venceste: sou teu, bem ves + Quão facil foi a victoria! + Cahi-te rendido aos pes. + E sem disputar a gloria. + Aos _golpes_ da tua mão + Expuz logo o coração! + + Venceste: sinto nas veias + Correr o sangue agitado: + Todo o fogo do passado + Já nos sentidos me ateias. + Submisso, humilde, sugeito + Ao teu estranho poder + Existe todo o meu ser! + + Em ti palpita o meu peito; + E a razão que me delira, + Em ti vive, em ti respira, + Com teu imperio a rendeste; + Sou teu: venceste, oh! venceste! + + Quanto tempo decorreu + Desde aquell'hora maldita? + Quanto tempo est'alma afflicta + Na angustia se debateu, + Sem que um sorriso, um olhar + A viesse consolar! + + Em vão buscava no ceo + As scintillantes estrellas; + Não via em nenhuma d'ellas + Nem formosura, nem lume, + E no prado por mais bellas + Que se ostentassem as flores, + Para mim não tinham cores, + Nem encantos, nem perfume! + .......................... + + Uma tarde, era o sol posto, + Vi-te assomar á janella; + Depois inclinar o rosto + Sobre a mão graciosa e bella, + E contemplar fascinada, + A natureza encantada. + + A aragem com brando alento + Agitava os teus cabellos, + E julguei nesse momento + Ver-te á flor dos olhos bellos + Estremecer cristalina + Uma lagrima divina! + + Sobre o cimo flexuoso + Do monte se reflectia + Ainda o clarão saudoso + Do brando expirar do dia, + Quando afogueada rompeu + A lua no azul do ceo. + + Teu seio battia inquieto, + E eu senti no coração + A chamma do antigo affecto + Rebentar como um volcão! + De repente os olhos teus + Se volveram para os meus. + Quizemos fallar, a voz + Nenhum a poude soltar; + Mas que não dissemos nós + Naquelle inspirado olhar!... + Uma só vez na existencia + O diz a muda eloquencia! + ........................ + ........................ + + Entrei no baile! a alegria + Saltava no teu semblante, + Quando a valsa delirante + Rompeu no vasto salão! + Era aquella melodia, + Que tanta vez a teu lado + Me fez batter agitado + De enthusiasmo o coração! + Ergueste a fronte animada, + E em teu rosto se trocou + A pallidez namorada + Pelo fogo da paixão! + Como o teu olhar fallou + Antes que dissesse a voz: + «Oh! tua outra vez eu sou!» + + Depois no giro veloz + Da dança vertiginosa, + Como a tua voz formosa + Sobresaltada tremia! + Como em tua alma eu vivia!... + É que nesse instante Deus + Quiz unir as nossas vidas + Por um amplexo dos ceos! + + No horisonte esmorecidas + As estrellas desmaiavam + Co'os resplendores da aurora + Que já no ceo despontavam. + Naquella encantada hora + Expirou nos labios teus + Um suspiro, e um adeus! + Um adeus, que promettia... + Mas quem pode revelar + O que nelle se dizia! + A aurora vinha a ráiar + E os clarões da manhã fria + Acaso viram jámais + Tão felizes dois mortaes? + ......................... + ......................... + + Desde então ao teu poder, + Submisso, humilde, sugeito + Existe todo o meu ser. + Em ti palpita o meu peito, + E a razão que me delira, + Em ti vive, em ti respira, + Com teu imperio a rendeste, + Sou teu: venceste, oh! venceste! + +Setembro da 1861. + + + + +XXVI + +RECORDAÇÕES + + + Como foi, e ha quanto tempo + Que esse tão feliz momento, + Da minha vida acabou?! + Não sei, que importa? Era um dia + Que o sol vivido inundava + A luxuriante campina. + Intensa, glacial frieza + O coração me gelava, + Quando subito sentira + Um raio de luz divina + Que minh'alma illuminou. + Deslumbrado em vão buscava + Ver donde essa luz partia, + A mente me delirava + Co'a ventura que sentia! + + Oh! depois vi claramente, + Que de teu rosto innocente + Partira o raio de luz, + Tão suave e tão sereno, + Como esse que nas pupillas, + Azuladas e tranquillas + Do anjo da nossa infancia + Melancolico reluz! + + Parámos naquella estancia, + Dize, lembras-te, Luiza, + Como vinha fresca a brisa, + E que suave fragrancia + Rescendia a viração? + Tu firmavas-te ao meu braço, + E eu mal respirar podia + Que não sei quê me opprimia, + Mas com que doce oppressão! + + Parava, não de cançaço, + Por que o peito mais valente, + De mais vigor não se anima, + Nem com mais força se sente + Do que eu me sentia então! + + Foi fatal aquelle instante, + Para ti fatal, embora, + Tu viveste numa hora, + Inteira toda uma vida + Do mais delirante amor; + Porque a tua alma, querida, + Quando deveras se inflamma, + Devora co'a sua chamma + O prazer até á dor! + + Duas lagrimas brilhantes + De teus olhos deslisaram, + Quando nos meus se cravaram + Formosos e scintillantes. + A expressão que eu nelles via, + Devêra ser semelhante + Á que o justo vê no dia + Do seu supremo juizo, + Nos do anjo fulgurante + Que lhe aponta o paraizo! + + Como foi que tal encanto + A fatal mão do destino + Para sempre nos quebrou!? + Da noite o sombrio manto, + O teu semblante divino + A meus olhos occultou! + + Oh! não foi nesse momento, + Porque inda no firmamento + O lampejo d'uma estrella, + As tuas pallidas faces + De um reflexo illuminou, + E inda um beijo, longo, ardente + Na tua boca innocente + A minha boca estampou! + + Oh! não foi!! Depois ainda, + Na mesma noite encantada, + Te vi fulgurante e linda, + De brancas roupas trajada, + No turbilhão delirante + Do baile veloz passar; + Inda ali tanta esperança, + Tanto amor, tanta ventura, + Veiu minh'alma inundar + Inda ouvindo aquella valsa + De enthusiasmo estremecemos, + E desvairados corremos + Ao som da doida cadencia. + Oh! que fogo nesse instante + Nos inflammava a existencia!! + Eu cingia-te anhelante + Entre meus convulsos braços, + E com teus ligeiros passos + Tu mal tocavas o chão! + Aquella doce harmonia + De instante a instante augmentava. + Oh! como então nos battia + Agitado o coração! + Augmentava, e de repente, + Como cortada torrente, + A melodia parou; + E nos meus braços, querida, + Extenuada, abatida, + Por momentos te deixou. + + A aurora vinha rompendo + Quando teus olhos aos meus, + Proferiam eloquentes + Aquelle saudoso adeus. + Ao longe o vasto Oceano, + Da brisa fresca agitado, + Ante nós bramia ufano. + Tu, volveste horrorisado + O rosto co'a vista d'elle!... + É que em breve a todo o pano, + O meu baixel correria + Sobre aquellas ondas torvas, + E de ti me apartaria! + +Janeiro de 1851. + + + + +XXVII + +SÊ FELIZ + + + Sê feliz! Hontem ainda + Contemplando o teu semblante, + Na sua innocencia infinda, + Porém triste nesse instante, + Roguei a Deus do mais fundo + Mais puro do coração, + Que uma lagrima, um desgosto, + Uma sombra de amargura, + Jámais viesse no mundo, + Turbar teu candido rosto. + + Sê feliz: toda a ambição + Que por ti minh'alma encerra + É ver-te feliz na terra! + Nada mais. O amor profundo, + O mais violento embora, + Tem sempre na vida um'hora + De egoismo, e esta affeição, + Que uma só vez na existencia + No meu peito se accendeu, + Que jámais se ha de extinguir, + Tem a pureza do ceo, + Proveiu da tua essencia! + + Se no presente ou porvir, + Alguem que te encante a vida + Existe ou tem de existir... + Não terei zelos... Unida, + Para sempre a outro affecto + Passarás junto de mim, + Embora, direi então: + «Sê feliz: toda a ambição, + Que por ti minh'alma encerra + É ver-te feliz na terra!» + + E sabes?... ao Creador + Dou graças por me haver dado + Este puro sentimento + Em vez do fogo do amor. + Ai! se um dia, no momento + De ver-te, te houvesse amado!... + Se em vez da chamma suave, + Que em meu coração se inflamma, + Se ateasse aquella chamma, + Se houvesse emfim rebentado + Aquelle fatal volcão!... + Ai! de mim! quanta amargura! + Quanta angustia o coração + Não teria já passado! + Porem assim!... não, ai! não! + Sê feliz: toda a ambição + Que por ti minh'alma encerra, + É ver-te feliz na terra! + +Maio de 1854. + + + + +XXVIII + +A FOLHA DESBOTADA + + + Volve folha desbotada, + Outra vez á mão nevada + Que do tronco te ceifou, + Volve, e dize sem receio, + Que te apertei contra o ceio, + Que o meu olhar te adorou: + + Vai discreta confidente, + Dize tudo quanto sente, + E calla o meu coração! + Vai, que a tua voz sentida, + Ha de ser por ella ouvida + Com ternura e compaixão. + + Dize que ao ver um instante + Anuviado o seu semblante, + Pensativo o seu olhar, + De sobresalto e receio, + Sinto o coração no seio + De repente a palpitar! + Que a sonhei antes de vel-a, + Como bem fadada estrella, + Mensageira do Senhor! + Que ao vel-a a voz da consciencia + Disse: É esta na existencia + A tua estrella de amor! + De amor puro, intenso, ardente, + Mas que occulto eternamente + No meu peito ficará! + Que no infortunio nascido, + Só commigo tem vivido, + E commigo morrerá! + + Ai! folhinha desbotada! + Outra vez á mão nevada + Volve de quem te ceifou! + Volve, e dize, sem receio, + Que te apertei contra o seio, + Que o meu olhar te adorou! + +Maio de 1854. + + + + +XXIX + +NUM ALBUM + + + Venham ver este retrato, + E respondam se o pintor, + Que desenhasse melhor, + O tirava mais exacto. + Eil-a! saltando da tela, + Viva, inteira, palpitante! + Pallido um pouco o semblante, + A boca graciosa e bella, + Quando o sorriso a desflora, + É como a rosa da aurora + Abrindo ao sopro de abril! + É mais! é ver num momento, + Quanto pode o pensamento + Sonhar de casto e gentil! + + O cabello ondado e fino, + Negro como a noite escura, + Cai no collo alabastrino, + E faz resair a alvura + Do rosto fascinador. + + Os olhos... oh! neste instante, + Tremo, hesito, não ha cor, + Não ha luz por mais brilhante, + Que possa emfim imitar + O reflexo scintillante + Da chamma do seu olhar! + Chamma que ás vezes traidora, + Se occulta na sombra escura, + Á espera que chegue um'hora, + Hora de morte ou ventura!, + Em que possa deslumbrar, + Com mais fogo e com mais vida, + O desvairado que ousar, + Miral-a sem recear, + Pela ver assim sumida! + + Terminou?... e eu que julgava + Cobrir-me de eterna gloria, + Quando tanto me esmerava + Na minha copia ideal! + Agora que na memoria, + (Ou antes no coração) + Tenho vivo o original, + Vejo bem que não ha mão, + Por mais que saiba pintar, + Capaz de estampar na tela + A expressão graciosa e bella + D'essa face, e d'esse olhar! + +Abril de 1859. + + + + +XXX + +ONDE SE ENCONTRA A VENTURA? + + + Onde se encontra a ventura, + Esta encantada visão, + Que tantas vezes procura, + Mas debalde, o coração? + Nas pompas da formosura? + Nos esplendores da gloria? + No poder de conquistar + A mais difficil victoria + Com o mais timido olhar? + + Oh! como então és feliz, + Porque tudo te revela, + Que não ha face mais bella, + Nem existencia tecida + De mais florído matiz! + + Porém responde, na vida, + Quando tu passas radiante + D'essa luz que emfim só Deus, + Concede a um anjo dos seus!... + Quando ouves a cada instante + Dizer com voz anhelante: + «Lá chega, lá passa, é ella, + Que é tão feliz como é bella!» + Uma sombra de amargura, + Um sentimento profundo + Não te opprime o coração + E não te diz que a ventura + Se não encontra no mundo?! + + Uma vez, sereno o ceo, + Como os teus olhos brilhava! + Airosa ante mim passava + Essa forma, esse ideal + Que não pode ser mortal! + Atravez do raro veo, + Que o semblante te encobria, + Uma lagrima descia; + Era de prazer ou dor! + Oh! de angustia parecia, + Pelo agitado tremor + Com que o peito te battia! + O mundo não sei se a via, + Porque a meu lado exclamava: + «Lá chega, lá passa, é ella, + Que é tão feliz como é bella!» + Mas quem sabe se acertava?! + Porque a ventura real + Se existe, é só no momento + Em que livre o pensamento + Se eleva ao mundo ideal! + E noss'alma a outra unida, + Foje á terra, se illumina + De um raio de luz divina, + E se esquece emfim da vida! + +Julho de 1859. + + + + +XXXI + +QUEM DIRÁ? + + + Quem dirá, vendo a expressão + Que brilha no teu olhar, + Que tu não tens coração? + Bem haja a mão tutelar, + Que á beira me suspendeu + Do abismo da perdição! + Que delirio foi o meu + Naquelles tão curtos dias + Que passei ao lado teu? + + Oh! como tu respondias + Com o silencio eloquente + Ás palavras que partiam + Do meu coração ardente! + E depois, se num momento + Os labios já não podiam + Expressar o sentimento, + O fogo do meu affecto, + Como o teu olhar inquieto + A minh'alma interrogava + E todo paixão jurava, + Que era meu o teu amor! + + Oh! que dias de ventura!... + Nos campos, abria a flor; + Por entre a tenra verdura, + Inda fraca, inda infantil, + Se escutava a voz das aves + Que saudavam abril. + E tu, como ellas, ditosa, + Ás suas notas suaves + Juntavas a voz formosa! + Ah! como eu vivia então! + Como de novo sentia + Rebentar no coração + Essa infinita alegria + Que nos desvaira a razão! + + Por quanto tempo durou + O sonho que me encantava? + Breve foi, maldicta a mão + Que d'elle me despertou. + Quando mais certo julgava + Que era emfim minha a ventura, + No momento em que acabava, + De escutar dos labios teus + Aquelle estremoso adeus! + Adeus, que nesse momento + Com a esperança sorria + E tanto me promettia!... + + Foi, oh Deus! que de repente, + Uma palavra maldicta, + Fez que eu visse claramente, + Cobrindo minh'alma afflicta + De espessa nuvem sombria! + ........................ + + Quem dirá vendo a expressão + Que brilha no teu olhar, + Que tu não tens coração + Ou tem-lo para enganar?! + +Abril de 1859. + + + + +XXXII + +UM BRINDE + + +(Improviso) + + Amigos, á formosura + Que nos cerca neste instante, + Erga-se a taça escumante + De purpurino licor. + Vivo enthusiasmo rebente + Agora de nossas almas, + Caiam palmas sobre palmas + Cada vez com mais ardor! + + Aqui floresce na horta + A viçosa laranjeira, + Corre o Champanhe e o Madeira + Que offertara nivea mão, + Aqui não chegam as garras + De tanta velha leôa + Que esfaimada por Lisboa + Se atira a tanto leão. + + Aqui livre em nosso peitos + Pula impaciente alegria, + Porque ao sol de um bello dia + Tudo vemos reflorir! + Que importa pois que os ministros + Resonem no parlamento, + E que os homens de São Bento + Nem sequer nos façam rir? + + Para nós sorri-se o mundo, + Para nós a vida é esta, + Hoje festa, amanhã festa, + Gloria, encantos, illusões! + Junto a nós temos as bellas + Mais fragrantes do que as rosas, + Longe... o mundo das preciosas, + E o mundo dos papellões! + + Eia pois! á formosura + Que me cerca neste instante + Erga-se a taça escumante + De purpurino licor. + Vivo enthusiasmo rebente + Agora de nossas almas, + Caiam palmas sobre palmas + Cada vez com mais ardor! + +Abril de 1859. + + + + +XXXIII + +AQUELLE DIA! + + + Jámais me ha de esquecer aquelle dia! + Do meigo outono a pallida folhagem + Inda os troncos do bosque revestia. + Sereno estava o ceo; doce a bafagem; + De toda a natureza + Infinita saudade respirava; + Mas por essa tristeza + Feliz o coração se dilatava! + + Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança, + D'esses dias de amor e de ventura, + De paz e de esperança, + Se anima, e vê sorrir na noite escura, + Um reflexo da estrella resplendente + Que uma vez lhe brilhou serena e pura; + Inda a sombria nevoa do presente + Se rarefaz, se esvai, e se illumina + Tudo a seus olhos de uma luz divina! + + Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia! + Nem o lento correr de tantos annos, + Nem as tardias horas que vieram + Depois cheias de amargos desenganos, + O encanto desfizeram + Da inspirada, divina poesia, + Que elle continha em si, que elle nos deu, + E nós guardmos como um dom do ceo! + + Era ermo o logar, ermo, mas bello! + Profunda a solidão! De quando em quando, + Escutava-se o cantico singelo, + Da estrangeira avesinha que buscando + O sol do nosso inverno, + A voz desfalecida ia soltando + Com saudades do _ninho seu paterno_. + + No extasi ideal do sentimento, + Tu volvias os olhos silenciosa, + Para o sereno azul do firmamento; + E da boca formosa, + Reprimir um suspiro em vão tentavas! + É que nesse momento, + Exausta a escala do prazer, anciosa + Uma nota na dor emfim buscavas! + + Nas nossas almas existia um mundo + De indefenito amor; + Do pelago profundo + Onde ruge o furor + Insano, concentrado, atroz, maldicto, + D'esta cruenta guerra + Das ambições da terra, + Nem uma maldição, um som, um grito + Nos vinha perturbar! + Era a amplidão do ceo, a solidão da serra, + Ao longe... a voz do mar! + Depois como se a mão da Providencia + Inundasse meu ser naquelle instante + Da luz de outra existencia, + Julguei ter visto a origem fulgurante, + De onde provém a chamma + D'este immortal amor que nos inflamma! + + Á ideia então da morte + Sentia-me sorrir; porque na hora, + Que nol-a desse a sorte, + Brilhava para nós serena e pura + Essa immortal aurora, + Que reluz nos umbraes da sepultura! + Iriam nossas almas, + Já livres de martirio, + Colher as flores e mimosas palmas + Que vicejam no empyreo! + + Tudo em fim acabou! a noite escura, + Envolvera em seu manto aquelle dia! + E de tanta poesia + Que resta para nós? uma saudade, + E a esperança que um dia essa ventura + Nossa outra vez será na eternidade! + +Agosto de 1858. + + + + +XXXIV + +PARA RECITAR AO PIANO + + +(Primeira) + + Era no outono quando a imagem tua + A luz da lua seductora vi. + Lembras-te ainda nessa noite Eliza, + Que doce brisa suspirava ali? + + Toda de branco, em tua fronte bella, + Rosa singela se ostentava então, + Vi-te, e perdido de te ver buscava + Se me apartava da gentil vizão! + + Era debalde; quanto mais te via, + Mais me perdia delirante amor; + Magicas fallas proferiste incerta, + Toda coberta de infantil pudor! + + Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo + Louco desejo pois fugir-te vi! + Vendo-me triste para mim voltaste, + Não me fallaste; mas eu bem senti! + + Fresca, arrobada de perfume a brisa, + Lembras-te, Eliza? suspirava então; + Tu nos meus braços reclinaste a frente, + E meigamente me disseste: Não! + +Setembro de 1852. + + + + +XXXV + + +(Segunda) + + De luz, de encanto, de alegria infinda, + Aquelle rosto seductor esplende, + Brilha a ventura em sua face linda, + E vivo fogo o seu olhar accende! + + Como a existencia para nós é bella + Entre a verdura d'esta amena estancia! + Aqui suspira a viração singela, + E esparge a rosa virginal fragrancia. + + Livres, immunes neste doce enleio, + Dos gratos dias do saudoso abril, + Ouvir das aves o infantil gorgeio, + Gosar da sombra do enredado til... + + Ella a meu lado, sobre os meus cravando, + Aquelles olhos cuja densa rama, + Agora occulta, logo vai deixando, + Brilhar o fogo da traidora chamma! + + Se entro no baile onde o prazer se agita, + Eil-a, a formosa, no veloz passar, + Louca os seus olhos nos meus olhos fita, + E mil affectos me traduz no olhar! + + De luz, de encanto, de alegria infinda, + Aquelle rosto seductor esplende; + Brilha a ventura em sua face linda, + E o ceo no fogo que esse olhar accende! + +Abril de 1854. + + + + +XXXVI + + +(Terceira) + + Lembras-te, Elisa, quando a face pallida, + Da casta lua despontou no ceo, + E d'entre a balsa suspirada, e languida, + Mavioso canto o rouxinol rompeu? + + Naquella noite em que o perfume vívido + De mato agreste rescendia no ar, + Em que as estrellas fulguravam timidas + Nas doidas ondas do ceruleo mar! + + Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me, + Com todo o fogo de infantil paixão, + Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_ + E me apertavas docemente a mão! + + E que eu perdido de ventura olhando-te + Da meiga lua ao divinal fulgor, + Teu rosto de anjo contemplava estatico, + Candida pompa de inspirado amor! + + Nesse momento fervorosa supplica + Do intimo d´alma murmuraste a Deus, + Que amor, que encanto nos teus olhos humidos, + Quando os cravastes na amplidão dos ceos! + + Depois sentada nos degraus de marmore + Sombra encantada, celestial visão, + Que meigas fallas proferiste tremula, + Que mil protestos me juraste então! + + Depois as rosas que animavam vívidas + Teu bello rosto, desmaiar eu vi + E vaga sombra de tristeza subita + Cerrar-me forte o coração senti! + +Maio de 1853. + + + + +XXXVII + +CIUMES DO PASSADO + + + Quando teu rosto adorado, + Da luz do amor se illumina, + Resplandecente a meu lado, + Não sabes por que anuviado + O meu semblante se inclina? + Por que um amargo sorriso + Pelos meus labios deslisa, + Quando teus labios, Luiza, + Me proferem anhelantes, + Tantos protestos de amor! + É que minh'alma se opprime + Á lembrança do passado, + Em que já outro a teu lado + Escutou essas palavras, + Que me repetes agora + Cada vez com mais ardor; + E que esses mordidos beijos + Que me perdem de ventura, + Dados co'a mesma ternura + Já perderam de desejos + Neste mundo outro tambem! + E tu não sabes, querida, + Os zelos que me devoram, + Á lembrança que na vida, + Já quizeste a mais alguem?! + +Janeiro de 1851. + + + + +XXXVIII + +NUM ALBUM + + +(Improviso) + + Se eu fôsse um vate inspirado, + Cantor das rosas singelas, + Ah! quantas coisas tão bellas + Tinha aqui para dizer! + Mas eu tenho horror á brisa, + Odio ao prado, odio ás estrellas, + E então aos vates das _ellas_ + Nem sequer os posso ver. + + Tu tambem, posto que a vida + Para ti sorria agora + Como sorri uma aurora + Dos puros dias de abril, + Não morres pela açucena, + Nem deliras contemplando + A lua que vai passando + _Pelos vastos ceos d'anil_. + + E inda bem que a Providencia + Te livrou de tal abysmo; + Ó terrivel romantismo, + Quando has de um dia acabar? + Eu conheço uma menina, + Bella, gentil, seductora, + Mas, meu Deus, é tão doutora + Que se não pode aturar! + + Arranja umas taes carinhas, + Toma umas taes posições, + Falla em sonhos e illusões + No seu romantico ardor!... + Pois é pena, que é bonita, + Talvez seja até formosa; + Se não fosse _preciosa_ + Era um ente encantador. + + Se lhe dizem que é feliz, + Solta um suspiro profundo, + Porque ninguem neste mundo + Até hoje a comprehendeu! + Salvo um ente idolatrado + Porém esse... oh! desventura! + Para a fria sepultura + Na flor da vida desceu! + + Emfim, se alguem lhe protesta + Que inda ha de viver tranquilla, + Ergue em extasi a pupilla + Pondo a mão no coração! + Imagina o desgraçado + Que tenha a louca mania + De ir batter comsigo um dia + Neste abysmo de paixão! + + Oh! Bem hajas tu que és bella, + Gentil, graciosa, elegante; + A alegria em teu semblante + Co'a innocencia anda a saltar: + Bem hajas tu que detestas + Todos os vates das _ellas_, + E as romanticas donzellas, + Que andam sempre a declamar! + +Janeiro de 1862. + + + + +XXXIX + +AMOR E DUVIDA + + + Quando essa pallida frente + Por momentos pensativa + Cai ás vezes de repente, + E se amortece a luz viva + Que nos teus olhos resplende, + Sinto que est'alma se accende + De um fogo, de uma paixão, + Que me desvaira a razão! + + A terrivel incerteza, + Esta duvida constante, + Desapparece um instante! + Creio em ti:--foge a tristeza + Que todo o meu ser domina; + Torno á vida, e livre aspiro + Num mundo que se illumina + Da encantada luz do amor! + Depois, se um flébil suspiro + Vem de teus labios á flor, + Oh! como então és amada! + Como tens aos pés rendida + Toda a força d'esta vida + Que por ninguem foi domada! + + Mas é só por um instante! + Volta depois a incerteza, + Quando assume o teu semblante, + Aquella glacial frieza, + Que desalenta, que opprime, + Que faz profunda tristeza, + E destroe quanto é sublime! + + Um dia no firmamento + O sol vívido brilhava, + E a aragem com brando alento + Entre as ramas suspirava! + Era ali, naquelle val, + Que parece destinado, + Para esconder na espessura + Os segredos da ventura! + + O coração agitado + Nesse instante te pulsava, + E uma tristeza mortal + O semblante te anuviava. + Allucinado buscava + A causa d'onde nascia, + Quando um gesto, uma expressão + Me disse que eu só podia + Tirar-t'a do coração! + Sem mais ver, nem mais pensar + Com que delirio a teus pés + Me viste rendido então!... + Quem podia duvidar + Vendo a ingenua timidez + Do teu inspirado olhar?! + Os labios não revelaram + O que havia em nossas vidas, + Mas as vistas confundidas + Com que eloquencia fallaram! + Chegára a noite; do ceo + Vi scintillar uma estrella; + Era brilhante, e era bella, + Mas um presagio mortal, + Um cruel presentimento + Me disse nesse momento: + Não fites os olhos nella, + Porque essa luz é fatal. + Amanhã, espesso veo + de nuveus ha de envolvel-a; + E se de novo surgir + Será para te illudir. + + E esta duvida cruel + Este constante hesitar + Quem m'o pode terminar + Quem, senão um teu olhar? + +Junho de 1859. + + + + +XL + +NUM ALBUM + + + Não vês tu como inconstante + Num instante, + Ruge o sul, e turba o ceo, + E que o mar, quedo, azulado, + Brame irado, + Sacudindo alto escarceo? + + Não tens visto na manhã, + Flor louçã, + Junto ás aguas rebentar, + E á tarde, murcha, pendida, + Já sem vida, + Sem perfume, a desfolhar? + + Pois então queres, amiga, + Que eu te diga + Que o amor não é assim? + Quando tudo empallidece, + Se emmurchece, + Se desbota, e morre emfim?! + + Essas illusões doiradas, + Encantadas, + Do primeiro albor da vida, + São como a rosa louçã, + Da manhã, + Á tarde n'haste pendida; + + São como o ceo azulado, + Que doirado + Pelo sol de ameno dia, + Se escurece de repente + Tristemente + Por uma nuvem sombria! + + E tu não queres, amiga, + Que eu te diga + Que o amor não é assim? + Quando tudo empallidece, + Se emmurchece, + Se desbota, e morre emfim?! + +Agosto de 1848. + + + + +XLI + +SE CORAS NÃO CONTO. + + + Tu queres que eu conte um sonho que tive + Não sei se acordado, não sei se a dormir? + Foi todo singelo, foi todo innocente: + Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir? + + Não córes, escuta, não fujas de mim, + Que o sonho foi sonho de casta paixão: + Já crês, não duvídas, verás como é lindo + O sonho innocente do meu coração: + + Eu via em teus labios um meigo sorriso, + Em tens olhos negros um terno mirar, + Teu seio de neve a arfar docemente, + Sentia nas faces o teu respirar. + + E tu não fallavas, mas eu entendia; + E tu não fallavas, mas eu bem ouvi! + Amor! na minh'alma a voz me dizia, + E um beijo na fronte não sei se o senti. + + Já vês que o meu sonho foi sonho innocente; + O resto eu te conto; como has de gostar! + É todo singelo, de amores somente; + Verás que ao ouvil-o não has de córar. + + Depois apertando teu corpo flexivel, + Cingindo teu collo no braço a tremer, + Ouvi uma falla, e o que ella dizia + Agora acordado não posso eu dizer. + + Não posso contar-te, só pude sentil-a; + Não posso contar-t'a senão a sonhar: + No sonho innocente, no sonho d'amores, + Do qual, duvidosa, julgavas córar. + + Não posso contar-t'a, nem sei se acordado + O que ella dizia se póde entender; + Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, + E agora acordado a não posso esquecer. + + Mas tu porque escondes a face córada? + Não tem nada o sonho que faça córar, + É todo singelo, é todo innocente; + Que importa um abraço, se é dado a sonhar? + + Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio; + Não quero offender-te a casta isenção; + Não torno a contar-te depois de acordado + O sonho innocente do meu coração. + +Janeiro de 1847. + + + + +XLII + +ANJO E VIRGEM. + + + Virgem, que era o que sentias + Quando ao vento desferias + Essas frouxas harmonias + De um incerto murmurar? + Virgem, que era o que sentias + Teu santo seio agitar? + + Achavas o mundo um ermo, + Onde ao coração enfermo + Dos horisontes sem termo + Não vinha uma aura de amor? + Achavas o mundo um ermo, + Fertil só de fel e dor? + + Ou teu suspirar sentido + Era por ver desmentido + De amor o sonho querido, + Que sonhaste, alma gentil? + Ou teu suspirar sentido + Foi dor ligeira, infantil? + + Era o teu anjo innocente + Que passára mansamente + A sorrir divinamente, + Mas que outra vez não volveu? + Era o teu anjo innocente, + Que víras subir ao ceo? + + E ficaste pensativa + Sobre esta terra captiva + D'esperança, e d'amor esquiva, + Coberta com veo de dó; + E ficaste pensativa + Ao ver-te perdida e só. + + Oh! esse tenue gemido + Do seio teu despedido, + Qual anhelito sumido + Que a morte veiu cortar, + Oh! esse tenue gemido, + Que não pudeste occultar... + + Foi longo adeus de saudade + Aos dias da tenra edade, + Que envoltos na eternidade + Ligeiros viste fugir; + Foi longo adeus de saudade + Ao teu primeiro sorrir! + + Do ceo á terra baixaste, + E quando nella te achaste, + Tristemente suspiraste + Ao ver-te perdida e só; + Do ceo á terra baixaste, + Á terra de pranto e dó. + + Virgem, virgem, mal pensavas, + Quando triste suspiravas, + E num gemido enviavas + Longo e doloroso adeus; + Virgem, virgem, mal pensavas + Que eras um anjo de Deus. + +Março de 1849. + + + + +XLIII + +A M.ME LOTTI + + +Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo +de infancia desvallida. + + Canta oh! canta alma inspirada, + Que jámais na tua vida + Tiveste a fronte cingida + Dos loiros que hoje vais ter. + Canta: os prantos da orfandade, + Á tua voz seductora, + Se vão convertendo agora + Em sorrisos de prazer! + + Oh! jámais em teus triumphos + Quando erguendo o rosto altivo, + A teus pés tinhas captivo + O poder da multidão, + Jámais sentiste no peito + Entre o rumor delirante, + Batter, como neste instante, + De enthusiasmo o coração! + + Cada nota que desprendas + Terá um eco no empyreo, + Por que as palmas do martyrio + Em rosas vais transformar. + Oh! bem haja a Providencia + Que na tua voz divina + Poz a graça que fascina, + E o condão de consolar! + + Quando no giro brilhante + Da tua crescente gloria, + Te venha um dia á memoria + Esta noite triumphal, + Pára, escuta, e docemente + Sentirás no teu ouvido, + Um murmurio agradecido + De ternura filial. + + São elles os desherdados, + Os que já sem lar paterno + Erguem preces ao Eterno, + E bençãos por teu amor; + São elles a quem um dia + Com teu inspirado canto + Tornaste em sorriso o pranto, + Em pura alegria a dor! + +1860. + + + + +XLIV + +PRIMAVERA + + + Contempla este ceo esplendido, + Ouve aquellas melodias + De tanta ingenua avesinha, + Que alegre, os serenos dias + Da primavera adivinha. + + Não vês a olaia? vaidosa! + Só por vêr que a amendoeira, + Mais cedo desabrochou, + Vermelha como uma rosa, + De repente se tornou. + + Oh! bem vinda primavera! + Ao vêr o sorriso terno + Da tua boca divina, + O prado, o monte, a campina, + Que o triste e gelado inverno + Sem piedade devastou, + Num momento se animou! + + Em teu regaço a abundancia, + Esperançosa floresce; + Á sombra de teus verdores, + Entre a suave fragrancia + De tuas variadas flores, + Contente o pobre adormece. + + E tu, minha vida, ao vêr-te + Sósinha a meu lado agora, + Nesta estação, nesta hora, + Neste encantado logar, + Á sombra d'essa verdura + Onde frouxa a luz desmaia, + Ante o mar que além suspira + Na loira areia da praia, + Não vês que a razão delira, + Que dentro do coração + Não cabe tanta ventura?! + + Falta a vida, sim, a vida, + Para esta alegria immensa, + Das nossas almas, querida! + Viva, ardente, pura, intensa, + Nesses olhos brilha a chamma + Do amor que tua alma incerra; + Alma que ao sopro de Deus + Em divino amor se inflamma, + Alma que veiu dos ceos, + E que não cabe na terra. + + Fugaz, tranzitorio, vão, + Será para nós o encanto + Que nos enche neste instante + De ventura o coração? + + Será! que importa? constante + Virá depois a saudade, + Abraçar essas memorias + De infinda felicidade; + Como ao templo aonde as glorias, + De paz, de amor, de alegria, + Se celebraram um dia, + Mas templo que ao chão tombou, + Se abraça a hera viçosa, + Reveste as pobres ruinas, + Amparando carinhosa + Esse resto que ficou! + + Uma lagrima extremece, + Vem de teus olhos á flor! + Minha vida, esquece, esquece, + Que póde haver na existencia + Momentos de acerba dor! + O sopro da Providencia, + Vivo está, vivo respira, + Neste ceo desassombrado, + Na corrente que suspira, + Neste cantico inspirado, + Que as aves soltam no val, + E d'elle provém a essencia + Do nosso amor immortal! + + Contempla o vasto horisonte + Que o sol vivido illumina; + Olha as flores da campina; + Escuta as aguas da fonte; + Respira esta aragem pura, + Embalsamada, e suave; + Ouve o cantico d'essa ave, + Que improvisa na espessura! + + Recolhe n'alma o perfume, + D'esta encantada poesia. + D'este sol, d'esta alegria, + Que em torno de nós fulgura, + E responde, minha vida, + Se a nossa alma neste instante + Póde com tanta ventura! + +Abril de 1856. + + + + +XLV + +VOLTAS + + +(Improviso) + + Entre as flores da campina + Correm uns certos rumores. + Que tu, rosa purpurina, + És a inveja das mais flores. + F. C. M. + + És rosa, bem vês; o aroma + Que do teu seio rescende, + A cor que a folha te accende, + A inveja que ao rosto assoma + De todas as outras flores, + Não t'o diz, quando no prado, + Aos primeiros resplendores + Do sol que tem despontado, + Ergues a fronte singela, + Mas ah! quão graciosa e bella?! + + O lyrio que á sombra nasce, + Quando te sente e te aspira, + Não sabes como delira!! + Não tens visto tanta vez + Naquella timida face + Redobrar a pallidez? + E o rouxinol namorado + Que, assim que a lua derrama + Seu doce clarão no val + Por entre a viçosa rama, + Desprende a voz immortal + Improvisando inspirado + O seu hymno nupcial + Á noiva que Deus lhe ha dado! + + Por quem suspira anhelante? + Por quem trémulo se inclina + Sobre a veia cristalina? + Quem procura nesse instante? + --És tu, rosa purpurina! + + És tu, sim; porém a cor + Que tinhas tão viva outr'ora, + Porque a vais perdendo agora? + Dize, oh rosa, a occulta dor + Que te faz tão tristemente + Pender a encantada frente! + + Agora entre as outras flores + Correm uns certos rumores... + Quaes são, não sei; mas ouvi + Que as mais bellas da campina + (Por quem és tão invejada) + Quando hoje chamam por ti, + Dizem--rosa namorada, + E não--rosa purpurina. + +12 de Maio de 1860. + + + + +XLVI + +LELIA + + + O POETA + + Musa: o dia rompeu chuvoso e frio, + Eu não tenho um real, nem tu tão pouco, + Que és pobre como Job; por conseguinte + Que havemos de fazer? + + A MUSA + + Ficar em casa, + Discutindo as miserias d'este mundo. + Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta, + Em que estás a pensar? + + O POETA + + Numa aventura. + + A MUSA + + Não se póde contar? + + O POETA + + De certo póde. + + A MUSA + + Nesse caso aproxima-te do lume, + Accende este charuto, e principia. + + O POETA + + Ha dois annos, um dia, ou mais exacto, + Uma noite em que a lua resvalava + No firmamento azul, em que os modilhos + Do inspirado cantor da primavera + D'entre a balseira em flor se desprendiam, + Achava-me aspirando a branda aragem + Sentado no portal de uma vivenda + Da modesta apparencia, e collocada + Num sitio encantador. Naquella noite, + De que me hei de lembrar eternamente, + Tinham vindo esperar-me de emboscada + Alguns contrabandistas do parnazo, + D'entre os quaes destacava a face lívida + De certo esguio e pesaroso vate + Que te inspira notavel sympathia. + Fugi! elles ficaram declamando + As primeiras estrophes de uma nenia! + + Vinha rompendo abril: como já disse, + Sereno estava o ceo, doce a bafagem, + E a rosa, a favorita, a bella noiva, + Por quem o rouxinol desde a alvorada + Solta a voz em prodigios de harmonia, + Corando abria o pudibundo seio + Aos doces carmes do adorado amante. + + Passado pouco tempo esta cabeça + Começára a enredar-se em mil chimeras. + De repente uma voz sonora e fresca + Chegara ao meu ouvido. Era tão simples, + Tão suave, tão meiga a melodia, + Tão infantil a voz! Voltei os olhos, + E descobri um vulto na janella. + Que figura ideal! alta, mas fragil, + Como hastesinha de um arbusto novo. + A innocencia e virtude respiravam + Naquelle rosto candido e formoso. + Numa das mãos firmada a face tímida, + E na outra a madeixa loira escura + Que vinha em pittoresco desalinho + Espargir-se nos hombros de alabastro. + + Como o cantor da selva que inspirado + Improvisava no florido bosque, + Cantava ella tambem; ave innocente, + Juntava mais um trilo ao hymno eterno, + Que aos pés de Deus a natureza erguia. + Oh! quão feliz seria quem no mundo + Alcançasse as primicias d'aquella alma! + Lembrei-me de as colher, e decidi-me + A apparecer-lhe no seguinte dia. + Com effeito assim fiz. + + Era sol posto: + Cançada de correr pela campina, + Tinha vindo sentar-se pensativa + Nos degraus de uma cruz que se elevava + No adro estreito de modesta ermida. + Chegava emfim ess'hora em que saudosa + A mente se dilata em magos sonhos; + Hora em que alma absorta em gostos intimos + Perde a consciencia do exterior da vida. + Diversas nuvemsinhas esmaltavam + Para o lado do poente o firmamento. + O bronze deu signal d'_Ave-Maria_. + Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos + Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios + A singela oração; passado instantes, + A pomba estremeceu, mas de alegria. + A viva chamma de amoroso affecto + Brilhou no puro azul d'aquelles olhos, + Quando nos meus attentos se fitaram; + E um sorriso de angelica ternura + Entreabrira os seus labios purpurinos. + Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve, + Que estremeciam apertando as minhas, + E pronunciei mansinho estas palavras: + + --«Sim, sou eu, que tu tens visto, + Tanta vez naquelles sonhos + Bellos, candidos, risonhos, + Da tua idade infantil. + És minha. Sou teu. A vida + Para nós vai ser agora + Mais alegre do que a aurora, + Mais florída do que Abril! + + Oh! que longas confidencias + Nos esperam nestes prados! + Que dias tão descuidados! + Que instantes de tanto amor! + Buscando ao crescer do dia + Entre o bosque a sombra densa, + Sentindo a alegria immensa + Do sol, do campo e da flor! + + És minha: do ceo proveiu + O poder que a ti me prende, + Mas diverso fogo accende + O teu e meu coração: + Tu no mundo és a innocencia, + Eu sou na terra a poesia; + Tu dás-me a tua alegria, + Eu dou-te a minha paixão! + + Dou-te as sombras da tristeza + Que acertam sobre teu rosto, + Como as sombras do sol posto + Na rosa agreste do val. + Recebes num meigo abraço + Meu profundo sentimento, + E dás-me o contentamento + Do teu seio virginal.»-- + + Indisivel prazer brilhou nas faces + Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas + Que ancioso proferi, e com ternura + Disse, cravando em mim seus olhos bellos: + + --«Orphã de paes, só tenho neste mundo + Apenas uma irmã; nós habitamos + Naquella casa que d'aqui se avista + Entre a verdura d'esse val ameno. + Já mil vezes em sonhos encantados + Eu ouvi tua voz, vi tua imagem. + Agora emfim és meu e para sempre. + Não é verdade? dize.»--perguntava + Com extremo, firmando-se ao meu braço. + + Os pallidos clarões do astro saudoso + Despontavam no ceo; por entre as ramas + A aragem susurrava brandamente, + E o rouxinol occulto nas balseiras + Soltava algumas rapidas volatas, + Experimentando a voz que dentro em pouco + Iria improvisar o hymno da noite. + Caminhámos ao longo da alameda + Que terminava em frente da vivenda + Onde Lelia (era este o nome d'ella) + Passára os dias da ditosa infancia. + Á entrada do portal dei de repente + Com a vista no pallido semblante + De uma bella mulher. Cumprimentei-a. + Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre. + + --«É Julia, minha irmã»--me disse Lelia. + Segundei um rasgado cumprimento, + A que ella respondeu com a gentileza + De uma senhora de elevada classe. + Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço, + E acceitei promptamente este convite, + No que fiz um chapado disparate! + + «Tibia luz, temperada para amantes,» + Illuminava uma pequena sala, + Onde o luxo e bom gosto respiravam. + Em primeiro logar é necessario + Que eu te faça um retrato a largos traços + (Como agora se diz) da encantadora + E provocante dona d'essa casa, + + Era alta, sorriso malicioso, + Boca fresca, e vermelha como a rosa, + (É velha a imagem mas é sempre boa!) + Cabello basto, fino, muito escuro, + Olhos da mesma cor, e quasi sempre + Por doce morbidez meio cerrados. + Quando porém ás vezes dardejavam + Por entre a negra sombra das pestanas + Um só raio da luz que os inflammava... + Ai d'aquelle que ousava descuidado + Mirar de leve essa traidora chamma! + + Que te direi do pé pequeno e curvo, + Que na estreita prisão de uma botinha + De setim preto estava clausurado? + Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra + A poesia da lua e das estrellas, + Do Tejo de cristal, da mansa brisa, + De tudo o mais que tenho por mil vezes, + Estafado em mau verso e peior prosa, + Para só contemplar os mil encantos, + Que tinha aquelle pé! + + E a pobre Lelia, + A meiga apparição que nos meus braços + Tinha vindo entregar-se sem receio, + Onde estava? calada e pensativa, + Contemplando o meu rosto, onde subia + O sangue accezo em ondas de desejos. + + Em presença d'aquella peccadora, + Esqueceu-me de todo o sentimento + Que me inspirára o anjo de innocencia. + Sou poeta; bem sabes que os poetas + Não são de certo os entes mais constantes! + Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo + Podera resistir? Se nesse instante + A visses no _fauteuil_ reclinada! + O vestido entre _roxo e cor de rosa_, + Apesar da invasão das _crinolines_, + Deixava perceber divinas fórmas. + No cabello uma rosa perfumada, + E no turgido seio, que ondulava + Atravez da finissima cambraia, + Viçoso ramo de singelas flores. + + Ella viu a impressão que produzira + No pobre peccador que a contemplava, + E descerrando a boca num sorriso + Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios, + E a eloquencia do olhar disse-me tudo. + + Pouco a pouco nas faces desmaiadas + Se accendêra o rubor; nos olhos negros + Scintillou por instantes uma lagrima, + «Precursora de languido deliquio». + Meiga, sonora então, como seria + A voz do archanjo que descesse á terra, + Junto a mim murmurou a voz de Lelia: + + --«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio, + Á mesma hora, de novo nos veremos; + Vou resar a oração que me ensinára, + Minha mãe quando eu era pequenina. + Vou resal-a por ti!»--Oh! por instincto; + A innocencia fugia do peccado. + Quiz seguil-a tambem, mas por encanto, + Por encanto fatal, senti-me preso + Ao supremo poder d'aquelles olhos + Que nos meus se reviam com ternura. + + De novo aquelle pé que me perdera, + Se firmou num pequeno tamborete, + E d'essa vez deixando a descuberto, + Um fragmento de perna, que faria + Morrer de desespero uma andaluza. + + Esvaeceu-se então completamente + A meus olhos o anjo da candura, + Das commoções divinas, da virtude, + E achei-me só, perdido, face a face + Ante o demonio das paixões terrestres! + Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo + De desejo e de amor fugir a vida. + + Quando a razão voltou, como o murmurio + Da fresca viração da primavera, + O sopro perfumado de seus labios + Vinha affagar-me docemente a fronte. + Os anneis do cabello ondado e negro, + Espargindo-se, avaros procuravam + Occultar-me da vista aquelle seio! + Impaciente os affasto devorando, + Num beijo, em mil, um mundo de delicias! + Oh! como então no peito me pulava + O coração vaidoso e triumphante! + + No languido quebranto que succede + Ao febril desvario dos sentidos, + Julia estava a meu lado; amortecida, + Por entre densa rama das pestanas, + Partia a luz das languidas pupillas. + Desmaiára de amor a rosa esplendida, + E voltava de novo áquella face, + A pallidez do lyrio das campinas. + + Abatida e indolente, erguêra a fronte; + Caminhámos os dois para a janella: + Os primeiros clarões da madrugada, + Vinham rompendo já no firmamento. + Chegava emfim a hora, era forçoso + Dizer adeus á seductora imagem! + + + II + + ................................... + ................................... + ................................... + Casta filha do ceo, pura innocencia, + Como o sorriso alegre de teus labios + Me torna aos dias da ditosa infancia, + E me faz existir algumas horas + No doce enlevo de passados sonhos! + + Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa, + Nas agruras da terra, eu te contemplo + Com viva compaixão! Tão facilmente + Se evapora o perfume de teu seio, + Se perde o viço de teu meigo rosto! + Caes subito no chão pallida e triste! + E porque? porque o sopro envenenado + Do mundo te crestou. Alheia ao crime, + És fulminadada pelos crimes de outros! + + Eram estes, ó musa, os pensamentos + Que vinham em tropel ao meu espirito, + Quando estava disposto a dirigir-me + Ao sitio que na vesp'ra me indicára + A ingenua irmã da tentadora Julia. + Começava a morder-me na consciencia + O remorso de haver atraiçoado + Aquelle anjo de amor e de candura. + Nisto sinto parar um trem á porta; + Olho, e vejo saltar de uma caleche, + Elegante e veloz como a gazella, + A minha irresistivel peccadora. + Quantos protestos até'li fizera, + Só com sentir-lhe a voz se evaporaram! + Corro á porta, ella sóbe, e com ternura + Aos meus tremulos braços se arremeça: + + --«Tardavas tanto!... as horas d'este dia + Não terminavam nunca!... vim buscar-te; + Perdoa se fiz mal; mas o desejo + De te ver e abraçar era tão forte... + Vamos dar um passeio pelo campo, + E depois... serás meu, e eu serei tua!»-- + + Terminado este rapido discurso, + Mas cabal, eloquente, e peremptorio, + Peguei no meu chapeo, e em continente + Descemos e partimos na caleche. + Não podes duvidar que possuia + A mais commoda amante d'este mundo. + + Quando o carro passou pelo Chiado, + Mais de vinte lunetas se assestaram + A um tempo sobre nós; e é bem provavel + Que mais de vinte bocas honradoras + Me ficassem na sombra remordendo; + Tanto melhor; é bom ser invejado. + + Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando, + Illuminava de clarões suaves + O firmamento azul; nos verdes prados + A flor estremecendo de alegria + Aos doces beijos da travessa aragem, + Como offrenda enviava ao ceo propicio + A pura essencia do virgineo seio. + + Scintillava o prazer nos olhos negros + Da mulher que apesar de peccadora + Era bella, oh! tão bella como os anjos + Que o tentador Satan despenha ao mundo! + Formosuras fataes qu'inda conservam + Na fórma o que é do ceo para illudir-nos! + + Ai de nós se encarâmos descuidados + A morbida expressão de certas frontes, + Onde a candura nos occulta o crime! + + Alva era a face da elegante Julia; + Vivo o rubor que lhe animava os labios; + Adoravel a tinta fugitiva + Que lhe tocava levemente as palpebras; + Muda a boca; no olhar toda a eloquencia! + + Entrámos na allameda. Era sol posto. + Ao chegarmos á porta, appareceu-me + Um personagem que d'ali saía, + Baixo, gordo, roliço, impertigado, + Sorriso de barão, cara opulenta, + E ar de um homem contente de si proprio. + + --«É de certo barão ou brasileiro.»-- + --«Brasileiro e barão»--disse-me Julia. + --«Visita d'esta casa ha muito tempo?»-- + --«Ha muito tempo sim»--respondeu ella + Com certa hesitação--«Não lhe fallaste?»-- + --«Felizmente escapei de tal desgraça!»-- + + Subi; cheguei á sala; ella deixou-me + Por algum tempo só junto á janella. + Sentei-me a respirar o vivo aroma + Da fresca viração da noite amena. + Mudára tudo em mim completamente: + Resfriára-se o fogo dos desejos, + E o sentimento despontava n'alma! + + Vaporosa, ideal, dentro de pouco + A meus olhos surgíra uma figura + Cuja forma gentil me arrebatava! + No purissimo azul dos olhos castos, + Tremiam, scintillando, algumas lagrimas; + O sorriso, gelado á flor dos labios, + Como gela o sorriso da virtude + Quando pára assustada ante o peccado. + Tirando a corôa de virgineas flores, + Que lhe cingia a fronte immaculada, + Olhára para mim! Oh! Deus supremo! + A expressão d'esse olhar era a do anjo + Ao contemplar um infeliz na terra! + Depois, soltando a voz, estas palavras + Com doçura e tristeza proferíra: + + --«Parto, e deixo-te no mundo! + Fujo, timida innocencia, + Ouvindo o rumor profundo + D'esta agitada existencia! + + Vi-te um dia; era na hora + Em que a briza é mais saudosa, + Em que a luz do sol descora, + E dá mais perfume a rosa! + + Est'alma toda candura, + Á tua alma se rendia; + E com que immensa ternura + Os teus protestos ouvia! + + Protestos de um coração + Que sem susto, e sem tremor, + Respondia co'a traição + Ás provas do meu amor! + + A grinalda qui'inda vês + Nesta fronte desbotada, + Vai cair-te em breve aos pés, + Mas vai cair desfolhada! + + Na minha ingenua innocencia, + Aspiro tambem ao ceo, + Como aspira a grata essencia + Da flor que no val nasceu! + + Fragil flor que em pura aurora, + Vendo o sol sorrindo, amou; + Mas d'esse amor numa hora + O vivo fogo a matou!»-- + + A voz emmudeceu. O olhar sereno + Sobre mim se cravou com mais ternura! + Era Lelia, ou seria a imagem d'ella + Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados? + Tudo era incerto e vago no meu animo, + Como é vaga a impressão d'um bello sonho! + Aureola de luz resplandecente + Veiu então inundar aquella fronte. + Reconheci emfim, oh! era Lelia, + Que desprendêra a voz, que proferíra + Com tão profundo affecto aquellas fallas! + A seus pés nesse instante allucinado + Num extasi de amor me precipito, + Repetindo anhelante estas palavras: + + --«Resurge outra vez das sombras + Da tristeza em que vivia + Est'alma, é toda alegria, + Volve á tua alma infantil. + És minha. Sou teu. A vida + Para nós vai ser agora + Mais risonha do que a aurora, + Mais florída do que abril! + + Oh! se um dia, desvairado, + Ouzei trair-te, innocente, + Como o remorço pungente + Te veiu depois vingar! + Como agora, arrependido, + O meu coração procura + Dar-te emfim quanta ventura, + Quanto amor se pode dar!»-- + + Nesse momento uma infernal risada + Me fez estremecer. Subito acordo + Da suave impressão do mago sonho, + E que vejo ante mim?! uma figura + Ironica e fatal! Era o Diabo! + Tranzido de terror em vão procuro + Meus olhos desviar d'aquelles olhos, + Cuja sinistra luz me fascinava! + Suspendendo na mão livida e fria + A mesma c'roa de virginias flores, + Que eu tinha visto na graciosa fronte + Da celeste visão que me encantára, + Disse emfim com satanica ironia: + --«Olha: é esta a grinalda immaculada, + Da tua ingenua e seductora Lelia! + Agora, aqui a tens; custou cem libras, + Não ha muito, ao rotundo brasileiro + Que viste á porta d'esta nobre casa! + Julia commigo contractára a venda. + Se vens mais cedo um'hora inda podias + Das garras do falcão salvar a pomba!»-- + + Não ouvi nada mais: tinha perdido + A consciencia da vida nesse instante! + + Quando, e como acordei d'aquelle estado, + Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos + O espirito infernal se convertêra + Na figura gentil de um bello moço + Alto, airoso, elegante, e delicado. + --«Olha bem para mim, tornou sorrindo; + Inda te inspira horror o meu aspecto? + Já vês, meu caro amigo, que o Demonio + Não é sempre tão feio como o pintam.»-- + --«_Vade retro Satan_»--disse eu, buscando + Uma pequena cruz que havia muito + Costumava trazer pendente ao peito, + E já forte de mim ia mostral-a, + Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde + A mão fallaz de Julia m'a roubára. + Puz os olhos no chão desalentados; + O remorso cruel naquelle instante + A turvada consciencia me pungia! + --«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta! + Olha em roda dos teus, encara o mundo, + Como o deve encarar quem tem bom senso. + + Eu cheguei de Paris, e tinha medo + De perder o meu tempo nesta terra; + Mas, ah! que me enganei! tenho comprado + Um par de figurões quasi de graça! + Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva, + Nunca tens um real, ó desgraçado! + Não faças versos mais; faze politica; + Improvisa um jornal; morde, abespinha, + Sem consciencia e sem dó, a honra alheia! + Hoje quiz apalpar a culta imprensa, + Famosa instituição que me tem dado + Ha tempos para cá milhares d'almas. + Entre um grupo de illustres publicistas, + Quasi todos catões, foi-me indicado + O primeiro catão dos nossos dias. + Uma palavra só fôra bastante + Para tudo explicar entre nós ambos. + Homem da situação, ou mais exacto, + Homem das situações, sabe de quanto + Se agita em torno a si nesta republica. + O que mais me espantou foi que no mundo + Podesse haver mortal tão venturoso! + Pasmam todos ao vêr o que elle come + Desde a meza do opr'ario á meza opipara, + De opulento negreiro ou potentado + De mais alto valor se acaso existe! + Póde zumbir a inveja em volta d'elle, + Morder-lhe a fama a cavilosa intriga, + Exaltado rugir o odio implacavel, + Nada d'isto consegue perturbal-o, + Nem cortar-lhe o seu acto digestivo! + É nedio, é luzidiu, é recebondo, + Como um gallo capão! Perdoa a imagem. + Crava os olhos attentos neste exemplo + De solida moral; segue as pizadas + Deste egrejeo varão, e eu te asseguro + Que has de em breve alcançar um nome illustre. + Tudo agora me corre ás maravilhas; + Nunca pensei que em terra tão pequena + Se podessem fazer tão bons negocios. + Hoje fui contratar com certa empreza + De um moderno jornal que se atirava, + Como lobo esfaimado, ao ministerio. + Era o mimo, era a flor, era o portento + Da incorrupta e briosa mocidade! + Essa, comprei-a então por attacado; + Escaparam só dois, pobres diabos, + Que nunca hão de passar da cepa torta! + Que dia tão feliz! a toda a pressa + Fui depois assistir ao desembarque + De um nobre titular, victima imbelle, + Do veneno infernal da torpe inveja. + O honrado cidadão vinha entregar-se + Nas mãos severas da imparcial justiça. + Fazia gosto vêr a comitiva + Dos invictos heroes que o circundavam. + Algum ranço burguez inda entre dentes + Se atrevêra a dizer que não passava + De um cadímo ladrão o illustre conde; + E se eu não chego a tempo, era filado + Quando saltasse ao caes por quatro guitas. + Vê tu pois quanto póde o meu imperio! + Com raras excepções, a livre imprensa + Não soltou nem sequer uma palavra! + + É tempo de voltar á bella Julia: + Esta linda mulher era beata + Da esplendida edicção que existe agora. + Encontrei-a uma vez num dia santo + De grande devoção, quando acabava + De pôr aos pés de um padre os seus peccados. + Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo, + A singela espressão d'esta innocente, + Soprou-me o fogo de infernaes desejos. + Como vês, é distincto o meu aspecto, + E apesar do terror que ao mundo inspiro, + Muitas mulheres ha que intimamente + Se agradam mais de mim que dos janotas. + Oh! que austeras virtudes nesse dia + Me caíram nas mãos! Lelia, embebida + Nas suas orações, passou, cravando + Com modestia no chão os olhos bellos. + Não fez reparo em mim; mais forte ainda, + Me ficára a vaidade remordendo. + Lembrei-me então da irmã como instrumento + Para alcançar o fim que ambicionava. + Por entre o raro veo que lhe encobria + O rosto seductor, de espaço a espaço + Se viam scintillar os olhos negros + Com mais fogo e mais luz do que as estrellas + Quando as nuvens do ceo se rarefazem. + (A imagem é vulgar, porém confessa + Que tu proprio tens feito outras peores.) + Ella olhou para mim, aproximei-me, + Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde + Perfeito accôrdo havia entre nós ambos. + Precisava ostentar-lhe á luz do mundo + O esplendido poder dos seus encantos. + Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta, + Joias, vestidos, trens apparatosos, + Quanto emfim dá realce á formosura, + Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella. + Nada d'isto porém causára effeito + No joven coração da casta Lelia. + Olhava para a irmã como assustada, + Quando a via ostentar tanta grandeza. + Por mil vezes tentei ver se podia + Aproximar-me d'ella; era impossivel. + Adivinhas porque? trazia ao peito + Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado + Pouco antes de soltar o extremo alento. + Quando na flor da vida e da innocencia + Vejo a meu lado encauta formosura, + Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo + Presa tanto como eu uma alma ingenua, + Mas é para a perder! Desculpa ao menos + Em nome da franqueza este teu servo. + + Um sacerdote ancião que alem habita, + Naquella ermida que d'aqui se avista, + Teima em não m'a deixar; tu só podias + Ajudar-me a vencer nesta batalha. + Inda ha pouco menti quando te disse + Ser tarde já para salvar a pomba. + É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias + D'aquelle coração que te idolatra. + Tudo é luz, seducção, amor, encanto, + Na voz, no olhar, na languida ternura + Da rosa virginal que tu despresas! + Anhelantes te esperam já seus labios, + O seu peito infantil por ti suspira, + No ouvido sente a voz dos teus protestos, + O subito rubor lhe affronta as faces! + Não a vês hesitar, tremer, fugir-te, + Acercar-se outra vez, sorrir a furto, + Escondendo nas mãos a fronte bella? + De novo inda luctar, mas já sem forças + Caír por fim num languido deliquio? + Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»-- + Um momento depois d'estas palavras, + Em doce consonancia extranhas vozes + De improviso romperam neste canto: + + --«Seja a breve passagem da vida + Uma serie de ardentes delirios; + Quem procura colher os martyrios + Quando existem as rosas em flor? + + Venturosos ergâmos as taças + Onde brilha o licor purpurino, + E soltemos as vozes num hymno + Consagrado aos deleites do amor! + + Vem poeta: as tristezas do mundo + Não comprimem jámais nossas almas; + Nós cercâmos de flórdais palmas + A existencia votada ao prazer! + + O que importa que a noite succeda + Aos sorrisos do astro diurno? + Para nós o seu manto nocturno + Mil delicias nos torna a trazer!»-- + + Apossou-se de mim o immundo espirito. + --«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse; + Ao teu fatal poder entrego est'alma! + Dize, dize, onde está essa que eu vejo, + Mas que procuro em vão cingir nos braços!»-- + --«Onde está? vais sabel-o, e num momento + A seus pés cairás ebrio de gosto!»-- + + Ao secreto aposento onde jazia + A virgem dos meus sonhos, me dirige + O torpe embaidor. Entro em delirio, + E ardendo em chammas de brutaes desejos, + No casto ninho onde vivia a pomba! + De repente uma luz serena e branda + Veiu alegrar as trevas da minh'alma. + Outra vez á razão volto, e que vejo! + Ante mim venerando sacerdote, + Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde + A enganadora Julia me roubára. + Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas, + E os olhos postos no sagrado emblema, + Estas doces palavras me dizia: + + --«Deixou-te o negro espirito! + Feliz de novo agora, + Sorri tua alma em extasi + Ao ver a pura aurora, + Da qual sómente é nuncia + Na terra a humilde cruz! + Só ella, eterno simbolo + De amor e de piedade, + Brilha no mundo esplendida, + E diz á humanidade: + Surge das trevas lugubres; + Ascende á etherea luz! + + Só ella quando rapida + A morte nos alcança, + Diffunde em nossos animos + O lume da esperança, + Que nos descobre a patria + Da gloria perennal! + + Perde a tristeza o tumulo; + O sepulcral cipreste, + Deixando o aspecto funebre, + De flores se reveste! + Soam divinos canticos + Em coro angelical! + + Oh! quem podéra pintar + A expressão que nesse instante + Tinha o candido semblante + Do meu anjo tutelar! + + Como a pomba da arca santa + Que um dia á terra desceu, + Vinha dizer-me: Acabaram + As tempestades do ceo! + + Deixa o mundo, antro medonho + Onde sómente fulgura + Nas curtas horas de um sonho + A branda luz da ventura! + + Verás a meu lado agora + Sorrir eternos amores, + Como sorriem as flores, + Á luz da punicia aurora!»-- + + Julguei-me nesse instante transportado + Á mansão do Senhor. Caindo em extasi, + Disse, rompendo em delicioso pranto: + + --«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem, + Jura que para sempre has de ser minha.»-- + --«Juro»--disse ella então. Nesse momento + Aproximou-se a nós o sacerdote, + Cuja fronte senil resplendecia + Co'a luz celeste que illumina o justo; + E unindo as nossas mãos, com voz solemne + A sacrosanta benção proferíra! + + * * * * * + + Aqui termina, ó musa, a minha historia. + Acordei do meu sonho, e depois d'elle + Tenho visto o demonio algumas vezes; + Não menos vezes a traidora Julia; + Porem Lelia, a gentil graciosa virgem, + A predilecta noiva da minh'alma, + Essa apenas em sonhos me apparece! + +Maio de 1862. + + + + +XLVII + +HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA + + + Desherdados no berço de heranças, + Desvalidos dos braços de mãe, + Quem nos cérca o viver de esperanças, + Nos educa, nos veste, e mantem? + + CORO + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo + Como iremos a vida encontrar? + Neste valle enredado e profundo + Quem nos ha de o caminho apontar? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Quem virá ser-nos pae na orphandade? + Consolar nossos dias de dor? + Circundar-nos depois noutra edade, + De delicias, de sonhos, de amor? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Dos thesouros de affecto que encerra + Entre vós maternal coração, + Quem vos faz a nós orphãos na terra, + Repartir d'esse affecto um quinhão? + + O bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + E esse affecto ideal que illumina + O existir de um reflexo do ceo, + Que a soffrer e que a amar nos ensina, + Quem no peito materno o accendeu? + + O Bom Deus que proteje a innocencia, + De quem são nossos cantos de amor; + Desherdada é sómente a existencia, + Do infeliz que descrê do Senhor! + + Mas nós crêmos, sentimos, amâmos, + A Deus grande na terra e nos ceos, + E do intimo da alma exclamâmos: + Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus! + +1850. + + + + +XLVIII + +GRATIDÃO E SAUDADE + + +(Recitada no Theatro) + + De candidos sonhos, de luz, e de flores, + Cercada a existencia começa a sorrir; + Alegre o presente nos falla de amores, + De amores nos falla brilhante o porvir! + + Depois no horisonte sereno, e risonho, + Carregam-se as sombras, perturba-se a luz, + Esvae-se a ventura veloz como um sonho, + Que apenas instantes na vida reluz! + + Assim penetrando no mundo das artes, + Ao tímido lume de frouxo clarão, + Olhava, e só via por todas as partes, + A meiga esperança sorrindo em botão! + + De lyrios e rosas grinalda fragrante, + Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi; + Nos braços a aperto, convulsa, anhelante, + Aos labios a levo, na fronte a cingi! + + Foi breve este sonho de amor, e de encanto; + Acordo, e procuro debalde uma flor; + Inundam-se os olhos de angustia e de pranto, + Ao ver que só restam espinhos e dor! + + Só restam espinhos das pallidas rosas, + A quem pobre artista não ousa pedir + Os loiros frangrantes, as palmas viçosas, + Que a fronte de genio só devem cingir! + + Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura, + Não quiz que durasse tão meiga illusão, + Em paga deixou-me no peito a doçura. + De terna, suave, leal _gratidão_! + + Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, + Sincera tributa nest'hora o dever! + Embora outras palmas morressem,--a palma + De gratas memorias não póde morrer! + + Desfeitos os sonhos, fanadas as flores, + Quebrado o encanto da pura illusão, + Que resta ao artista?--espinhos e dores, + Saudades! mais nada no seu coração! + + Saudades da gloria, da luz, da ventura, + Dos magicos sonhos, presente dos ceos, + Saudades que attestam a funda amargura, + Que sente ao dizer-vos agora um adeus! + +1853. + + + + +XLIX + + +Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua +filha.[1] + + «Não sabe o que é padecer, + Quem o filhinho que adora + Não viu ainda morrer!» + (A. Garrett) + + --«Bem sei que era exilio a terra + Para ti, anjo do ceo! + Porém, filha, abandonar-me + Quando toda a minha vida + Era a luz d'um olhar teu! + Ouvir essa voz infante, + Ver a impaciente alegria + De teu candido semblante! + + «Deixar-me assim na existencia + Triste, só, desamparado, + Aquella flor de innocencia! + Que lhe fiz? tinha-a cercado + De quanto amor neste mundo + Pela mão da Providencia + A peito de homem foi dado! + Oh! que affecto tão profundo! + E tu pudeste partir? + Pois não tiveste piedade + D'esta solemne amargura, + D'esta infinita saudade? + Vi-te inda olhar-me, e sorrir, + Erguer os olhos aos ceos, + No instante de proferir, + O fatal e extremo adeus!... + ........................... + ........................... + + «Oh! volve outra vez a mim, + Desce á terra, anjo do ceo, + Vem dar-me a ventura emfim! + ........................... + ........................... + Olha: o vivo sol de Abril + Já nestes campos rompeu; + As rosas desabroxaram; + O rouxinol desprendeu + A voz em saudosos cantos; + Os sitios onde passaram + Os teus descuidados annos, + Não os vês cheios de encantos? + São estes! a mesma fonte, + Ferve alem; naquelle outeiro + O mesmo casal alveja; + As ramas do verde olmeiro, + Dão sombra á modesta igreja + Onde tu vinhas resar, + Quando o som da Ave-Maria, + N'hora meiga do sol posto, + De vaga melancolia + Toldava teu bello rosto! + Tudo o mesmo!?... esta inscripção!... + Este nome!... anjo do ceo, + Este nome, filha, é teu!! + Oh! meu Deus, por compaixão, + Na mesma pedra singela, + Juntae o meu nome ao d'ella!»-- + ............................... + ............................... + ............................... + E Deus ouviu a oração... + O mesmo tumulo encerra + Filha e pae. Na mesma lousa + Onde repousam na terra, + Uma lagrima saudosa + Vem hoje depôr tambem + A esposa, a viuva, a mãe! + +1854. + + [1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) + conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos + dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, + mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma + filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo + ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em + breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se + o cadaver do pae! + + + + +L + +CANÇÃO DOS PIRATAS + + +(Traduzido do Corsario de Byron) + + Sobre as ondas do mar azul ferrete, + Sem limites são nossos pensamentos, + E como as ondas nossas almas livres, + Por quanto alcança a doidejante briza + Cobrindo a vaga de fervente escuma + Nós temos uma patria! Eis os dominios + Onde fluctua o pavilhão que é nosso, + Sceptro a que devem humilhar-se todos! + Turbulenta e selvagem quando passa! + Da lucta ao ocio em taes alternativas + A vida para nós tem mil encantos! + Mas estes, oh! quem póde descrevel-os? + Não serás tu, escravo dos deleites, + Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente + Das alterosas vagas desmaiáras! + Não serás tu, vaidoso aristocráta, + Educado no vicio e na opulencia, + Tu que nem pódes repousar no somno, + Nem achar attractivos nos prazeres. + Oh! quem póde no mundo compr'endel-os? + A não ser o incançavel peregrino, + D'estes plainos que ficam sem vestigios; + Do qual o coração affeito aos p'rigos + Pula orgulhoso em delirante jubilo + Quando se vê sobre o revolto abismo! + Só elle présa a lucta pela lucta + E espera ancioso a hora do combate. + Quando o fraco esmorece apenas sente + No mais profundo do agitado seio + A esperança que vívida desponta + E o fogo da Coragem que se accende! + Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto + Que a nossos pés succumba o inimigo, + E comtudo mais triste que o repouso + Inda parece a morte! mas embora, + Embora, oh! póde vir! ao esperál-a + Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida; + E quando ella se acaba, pouco importa! + Caír pela doença, ou pela espada! + Haja um ente que prese inda algum resto + D'existencia senil! viva aspirando + Sobre o leito da dor um ar pesado, + Erguendo a custo a trémula cabeça! + Para nós são as relvas florescentes! + Emquanto ess'alma expira lentamente, + Foge a toda a pressão d'um salto a nossa! + Possa ainda ufanar-se esse cadaver, + Da cova estreita e do marmoreo tumulo + Que a vaidade dos seus lhe consagrára! + São raras, mas sinceras, nossas lagrimas, + Quando o oceano, abrindo-se, sepulta + No vasto seio os nossos camaradas! + Inda mesmo no meio dos banquetes + Funda tristeza nos rebenta d'alma + Quando a purpurea taça erguendo aos labios + A memoria dos nossos corôamos. + E o seu breve epithaphio é redigido, + Ao por do sol do dia da batalha, + Ao dividir as presas da victoria, + Quando a exclamam os rudes vencedores + Com a fronte anuviada de saudades: + Ai, de nós! como os bravos que morreram + Folgariam ditosos nesta hora! + +Julho de 1861. + + + + +LI + +NUM ALBUM + + +Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns +versos. + + No reverso da folha onde escrevo, + Um cantor jovenil pulsa a lyra, + E magoado, e sentido, suspira, + Com saudosas memorias d'amor! + + Na cadencia da lettra singela, + Qual murmurio de branda corrente, + Transparece sua alma innocente, + Toda vida, perfume, e calor! + + Variegado, risonho, brilhante, + Inda agora na flor da innocencia + Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia + Atravez do seu prisma gentil: + + Cuida extinctas ficções encantadas, + Crê perdido o seu sonho d'amores, + Julga vêr desbotadas as flores + Que adornavam sua harpa infantil!... + ................................ + + Ai! poeta! ai de ti! que saudade, + Que saudade tão funda e sentida + Has de ter d'esses annos da vida, + Quando os vires ao longe ficar! + + Que saudade tão funda do tempo + Em que tinhas sentido saudade, + Has de ter quando a triste orfandade + Dos affectos tua alma enluctar! + + Ouve pois joven bardo que a lyra + Pulsas hoje com tanta amargura; + De illusões, de poesia e ventura, + Enche agora teus annos em flor. + + Que são estes ephemeros sonhos, + Os que vem derramar grata essencia + Sobre a tarde da nossa existencia + Dar-lhes vida, perfume, e calor! + +Agosto de 1854. + + + + +LII + + +Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha. + + Na hora melancolica, + Do despedír do dia, + Quando se escuta o cantico, + Ou extranha melodia, + Que na deveza languido + Desprende o rouxinol; + + Quando desponta pallida + No firmamento a lua, + E que inda incerta e trémula, + No mar azul fluctua + Co'a viva cor da purpura + A frouxa luz do sol!... + + Quem passe pelo tumulo + Que encerra a virgem bella, + Quebre o silencio tetrico + A orar prece singela + Por essa que a existencia + Deixára inda em botão! + + Por ella!? ai, não! a supplica + Ao nosso Deus erguida, + Seja por quem, perdendo-a, + Perdeu parte da vida, + E que no mundo estatico + A filha busca em vão! + + Ella este val de lagrimas + Abandonou, subindo + Ao ceo que lhe era patria!... + Ella, feliz, sorrindo, + Brilha no mundo ethereo + Ao lado do Senhor! + + Por nós, oh, sombra angelica, + Implora a Deus piedade! + Anjo das azas candidas, + Consola a saudade, + D'aquelles que, adorando-te, + Te viram morta em flor! + +Outubro de 1852. + + + + +INDICE + + +A Helena + +I--A convalescente do outono + +II--Feliz de amor! + +III--Vaes partir! + +IV--A Julia + +V--Improviso + +VI--A um retrato + +VII--Quien no ama, no vive + +VIII--Amanhã + +IX--Anjo caido + +X--Piedade + +XI--Belleza e morte + +XII--Oração da manhã + +XIII--Caridade + +XIV--Bella sem coração + +XV--Perdoaste + +XVI--Tres retratos + +XVII--Adeus + +XVIII--A visão do baile + +XIX--Receios + +XX--Lembras-te? + +XXI--Pois ser pallida é defeito? + +XXII--Dever + +XXIII--Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez + +XXIV--Parisina + +XXV--A valsa + +XXVI--Recordações + +XXVII--Sê feliz + +XXVIII--A folha desbotada + +XXIX--Num album + +XXX--Onde se encontra a ventura + +XXXI--Quem dirá + +XXXII--Um brinde + +XXXIII--Aquelle dia + +XXXIV--Versos para recitar ao piano (primeira) + +XXXV-- » » » (segunda) + +XXXVI-- » » » (terceira) + +XXXVII--Ciumes do passado + +XXXVIII--Num album + +XXXIX--Amor e duvida + +XL--Num album + +XLI--Se coras não conto + +XLII--Anjo e virgem + +XLIII--A M.me Lotti + +XLIV--Primavera + +XLV--Voltas + +XLVI--Um sonho + +XLVII--Hymno da infancia desvalida + +XLVIII--Gratidão e saudade + +XLIX--Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá e de sua filha + +L--Canção dos Piratas + +LI--Num album + +LII--Á memoria da Ex.ma Sr.a D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Versos de Bulhão Pato, by +Raymundo Antonio de Bulhão Pato + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO *** + +***** This file should be named 25840-8.txt or 25840-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/5/8/4/25840/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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