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+Project Gutenberg's Versos de Bulhão Pato, by Raymundo Antonio de Bulhão Pato
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Versos de Bulhão Pato
+
+Author: Raymundo Antonio de Bulhão Pato
+
+Release Date: June 19, 2008 [EBook #25840]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO ***
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+
+
+
+VERSOS
+
+DE
+
+BULHÃO PATO
+
+
+
+
+LISBOA
+
+Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza.
+
+6, Rua do Thesouro Velho, 6.
+
+1862
+
+
+
+
+A HELENA
+
+
+ Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos
+ O teu saudoso valle, e lentamente
+ Pela elevada encosta caminhámos?
+ O sol do estio ardente,
+ Já não brilhava nos frondosos ramos
+ Do arvoredo virente.
+
+ Chegára o fim do outono: a natureza,
+ Sem ter os mimos da estação festiva,
+ Nem aquelle esplendor e gentileza
+ Que tem na quadra estiva,
+ Na languida tristeza,
+ Na luz branda e serena
+ D'aquelle ameno dia,
+ Que immensa poesia,
+ E que saudade respirava, Helena!
+
+ Subindo pelo monte,
+ Chegámos ao casal onde habitava
+ A tua protegida,
+ Aquella pobre anciã que se agarrava
+ Aos restos d'esta vida!
+ Assim que te avistou, ergueu a fronte
+ Curvada ao peso de tão longa edade,
+ Sorrindo nesse instante
+ Com tal vida, que a luz da mocidade
+ Parecia alegrar o seu semblante!
+
+ Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,
+ Grosseiras pelo habito constante
+ Do trabalho da terra,
+ Queimadas pelo vento sibilante,
+ E pelo sol da serra,
+ Produzia essa mão graciosa e bella,
+ Effeito similhante
+ Ao que por entre o mato
+ Produziria a rosa de Benguela,
+ A flor mais alva e de mais fino trato!
+
+ Vinte annos tu contavas nesse dia;
+ A fiel servidora,
+ Era a primeira vez que não podia
+ Deixar a casa ao despontar da aurora,
+ E cheia de alegria
+ Caminhar para o valle como outr'ora,
+ Depôr uma lembrança em teu regaço,
+ E unir-te ao coração num meigo abraço!
+
+ Tu, na força da vida,
+ Circundada de luz e formosura,
+ Foste levar á pobre desvalida
+ Os dons do lar paterno;
+ Alegrar com teu riso de ternura
+ Aquelle frio inverno!
+
+ Ao ver-te com teus braços,
+ Nos seus braços senis entrelaçados,
+ A ventura nos olhos encantados,
+ A inspiração na fronte deslumbrante,
+ Afigurou-me então o pensamento
+ Ver um anjo descido dos espaços,
+ D'aspecto fulgurante,
+ Enviado por Deus nesse momento,
+ Para animar os derradeiros dias
+ De quem cançado do lidar constante
+ Abre o seio na morte ás alegrias!
+
+ As lagrimas de gosto,
+ Corriam cristalinas
+ No rosto d'ella e no teu bello rosto!
+ Como orvalhos do ceo aquelles prantos,
+ Um brilhava na hera das ruinas,
+ Outro na flor de festivaes encantos,
+ Na rosa das campinas!
+
+ Quando voltaste a mim illuminava
+ O teu semblante uma alegria infinda.
+ Depois quizeste ainda
+ Ir visitar a ermida que ficava
+ No apice do monte:
+ Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.
+ No esplendido horisonte
+ Já declinava o sol quando chegámos.
+
+ Era singelo, mas sublime o quadro!
+ Em roda o mato agreste;
+ No meio a pobre ermida; ao lado d'ella
+ Um secular cypreste,
+ E sobre a cruz do adro
+ Pendente uma capella
+ De algumas tristes, desbotadas flores,
+ Talvez emblema de profundas dores!
+
+ Oh! como tu, suspensa
+ Num extasi ideal de sentimento,
+ Expandias o livre pensamento
+ Pela amplidão immensa!
+ Como depois descendo das alturas
+ Aonde te arrojára a phantazia,
+ Parece que a tua alma me trazia
+ Occulto premio de immortaes venturas!
+
+ Tanto expressava o teu olhar profundo,
+ Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia
+ O homem neste mundo,
+ Jámais me trouxe a idéa
+ Do suppremo poder da Providencia
+ Com tamanha eloquencia!
+
+ O sol quasi no termo
+ Com um brando reflexo,
+ Cingia a cruz do ermo
+ Em amoroso amplexo!
+ O rei da creação, o astro orgulhoso,
+ Que enche a terra de luz,
+ Tambem vinha prostrar-se saudoso
+ Aos pés da humilde cruz!
+
+ Era solemne e santo
+ Naquell'hora supprema o teu aspecto!
+ Nos labios a oração, no rosto o pranto,
+ As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,
+ Os olhos postos na amplidão do espaço,
+ E em derredor da frente
+ Um luminoso traço
+ A inundarte de luz resplandecente!
+ ..................................
+
+ Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,
+ E de outros dias de íntimas venturas,
+ De immensa poesia,
+ Nasceram essas paginas obscuras,
+ Que hoje a teus pés deponho,
+ Como saudoso emblema,
+ Do tempo em que sorrira
+ O nosso bello sonho!
+ Terias um poema,
+ Se tão gratas memorias
+ Podessem ser cantadas numa lyra
+ Votada a eternas glorias!
+
+ Emfim: se um pensamento,
+ Se uma singela idéa onde transpire
+ O perfume de vivo sentimento,
+ Nestas folhas traçar a minha penna...
+ A estrophe, o canto que o leitor admire,
+ Seja o teu nome, Helena!
+
+6 de Junho de 1862.
+
+
+
+
+I
+
+A CONVALESCENTE NO OUTONO
+
+
+ Revive teu rosto pallido
+ Á chamma do meu amor;
+ De novo com mais ardor
+ Pula em teu seio, querida,
+ O sangue, o prazer, a vida.
+
+ O sopro que na existencia
+ D'esta luz nos illumina,
+ Não se ha de extinguir jámais;
+ Oh! provém da mesma essencia,
+ Da mesma porção divina,
+ Com que a mão da Providencia
+ Torna as almas immortais!
+ Firma teu braço ao meu braço,
+ Vem commigo respirar
+ Este ar vivo e salutar.
+
+ Não sentes na luz do ceo,
+ E no perfume saudoso
+ Do bosque espesso e formoso,
+ Que o doce outono volveu?
+ As folhas que pelo chão
+ Crestadas dispersa o vento,
+ Não desprendem um lamento
+ Que intristece o coração!?
+
+ E a voz d'essa ave amorosa,
+ Que alem na balsa murmura,
+ Melancolico modilho,
+ Não parece a voz saudosa
+ Da mãe que adormenta o filho
+ Entre os braços com ternura?
+
+ D'aquelle pobre casal,
+ O fumo que vae subindo
+ Em ondulante espiral,
+ Não diz que em volta do lar
+ Se reune a pobre gente,
+ Que já de perto pressente,
+ O frio inverno chegar?
+
+ Não vês que ha tanta tristeza
+ Na voz que se eleva a Deus
+ Agora da natureza!
+ Oh! mas como aos olhos teus,
+ E como ao meu coração
+ É grata a melancolia
+ D'esta languida estação!
+
+ Toda a explendida poesia
+ Do ceo, da terra, e das flores,
+ Quando mil cansões de amores
+ Improvisa o rouxinol,
+ Alegrando o mez de maio
+ Desde os clarões do arreból
+ Até que em doce desmaio
+ Nas aguas se occulte o sol,
+ Terá, sim, tem mais frescura,
+ Mais vida e mais esplendor,
+ Mas não tem tanta ternura,
+ Nem respira tanto amor!
+
+ Paremos aqui, descansa
+ Um momento neste abrigo;
+ O sopro da aragem mansa
+ Anda em roda a murmurar,
+ E um raio de sol amigo,
+ A teus pés se vem prostrar
+ ...........................
+ Oh! que noites de amargura!
+ Que horas lentas de agonia!
+ Que instantes naquelle dia,
+ Quando tu sem voz, sem gesto,
+ Suspensa num fio a vida...
+ Emfim te julguei perdida!
+
+ Chegára a noite; uma estrella,
+ Uma só, não transluzia
+ No ceo triste e carregado;
+ Oppresso e desalentado,
+ O coração me batia.
+
+ Pouco a pouco no horisonte
+ Foi rompendo a nevoa densa;
+ Era a vida, a luz, o dia,
+ Aquella alegria immensa,
+ Que no murmurar da fonte,
+ No perfume da campina,
+ Na brisa e na voz divina
+ Do amoroso rouxinol,
+ Seduz, arrebata, inspira,
+ Quando acorda a terra em canticos,
+ Aos raios vivos do sol!
+
+ «Pois tudo se anima agora,
+ Tudo nasce com a aurora,
+ Tudo é vida e tudo é luz;
+ Só nesta face adorada,
+ Inerte, fria, gelada,
+ Nem um só clarão reluz!»
+
+ Ouviu Deus naquelle instante
+ A minha supplica ardente;
+ Em teu lívido semblante
+ Vi despontar docemente
+ Um reflexo semelhante
+ Ao que o sol derrama á tarde
+ Sobre as nuvens do ponente.
+
+ Prostrei-me a rogar então;
+ E essa estrella de bonança,
+ Essa casta divindade,
+ Risonha irmã do infortunio,
+ Companheira da saudade,
+ Que o mundo chama--Esperança--
+ Senti-a no coração!
+
+ Com aquelle sol explendido
+ Que rompêra a nevoa densa,
+ E com a alegria immensa
+ Do mar, da terra, e dos ceos,
+ Quiz de novo a Providencia
+ Que eu visse nos olhos teus
+ O mundo, a luz, a existencia!
+
+ Agora pois, neste instante,
+ Agora, que lá distante,
+ O sino da pobre ermida
+ Dá signal do fim do dia,
+ Co' a prece da _Ave-Maria_,
+ Ergâ-mos, ambos querida,
+ Graças mil a Deus piedoso,
+ Por te haver tornado á vida!
+
+Setembro de 1854.
+
+
+
+
+II
+
+FELIZ DE AMOR!
+
+
+ Não sabes que ao ver-te triste,
+ E pensativa a meu lado,
+ O rosto na mão firmado.
+ E os olhos postos no chão,
+ Calado, ancioso, anhelante,
+ Quero ler no teu semblante
+ A causa da dôr constante
+ Que te opprime o coração?
+
+ Pois não basta o meu amor
+ Para te dar a ventura?
+ Responde: quando a luz pura
+ Do sol vem beijar a flor,
+ Não lhe accende mais a côr?
+ Não lhe dá mais formosura?
+
+ Agora, quando se inflamma
+ Em teu peito aquella chamma,
+ Á qual tudo se illumina
+ De viva, encantada luz,
+ Dize: é quando, minha vida,
+ Pallida, triste, abatida,
+ A tua fronte se inclina,
+ E melancolica sombra,
+ De mal contida amargura
+ Nos teus olhos se traduz?!
+
+ Certeza de que és amada
+ Com quanto poder na terra
+ Em peito de homem se encerra,
+ Tem-la em tua alma gravada!
+ Então de fundo desgosto
+ Porque vem nuvem pesada
+ Carregar teu bello rosto?
+
+ Pois se ao vívido calor
+ Do sol a rosa fulgura
+ E redobra aroma e côr,
+ Não te ha de dar a ventura
+ A chamma do meu amor?!
+
+Maio de 1859.
+
+
+
+
+III
+
+VAES PARTIR!
+
+
+ Vaes partir! cada instante que passa
+ Aproxima o adeus derradeiro,
+ Para mim neste mundo o primeiro,
+ Que teus olhos proferem aos meus!
+ Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
+ Treme agora uma lagrima anciosa,
+ Já deslisa na face formosa,
+ Já teus labios me dizem adeus!
+
+ Vaes partir! contemplar esses campos,
+ Que o sol vivo de abril illumina,
+ Ver as relvas da alegre campina
+ Já cobertas agora de flor.
+ Escutar as estrophes sentidas
+ Que de tarde improvisam as aves,
+ Recordar os instantes suaves
+ De outros dias de encanto, e de amor.
+
+ Vaes partir! vaes tornar aos logares
+ Testemunhas de um ceo de delicias,
+ Que em suaves risonhas caricias,
+ Para nós neste mundo brilhou!
+ Cada flor, cada tronco viçoso,
+ Cada espaço de relva florída
+ Vae lembrar-te uma scena da vida,
+ Um momento feliz que passou!
+
+ Quando for aos clarões da alvorada
+ O perfume das plantas mais brando,
+ Quando as aves voarem em bando,
+ E cantarem ditosas no val;
+ Quando as aguas correrem mais vivas,
+ Pelo verde declivio do monte,
+ Quando as rosas erguerem a fronte
+ Animadas de um sopro vital...
+
+ Que saudade! ai que funda saudade
+ Has de ter d'esse tempo encantado,
+ Em que bella e feliz a meu lado
+ Viste as pompas da terra e dos ceos!
+ Quando a aurora era a pura alegria,
+ Uma vaga saudade o sol posto,
+ Quando meigo sorria teu rosto
+ Se eu fitava meus olhos nos teus!
+
+ .................................
+
+ Vaes partir! cada instante que passa
+ Aproxima o adeus derradeiro,
+ Para mim neste mundo o primeiro
+ Que teus olhos proferem aos meus!
+ Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
+ Treme agora uma lagrima anciosa,
+ Já deslisa na face formosa,
+ Já teus labios me dizem adeus!
+
+Abril de 1855.
+
+
+
+
+IV
+
+A JULIA
+
+
+(Da Paquita)
+
+ Naquella deserta ermida,
+ Que alveja na serrania,
+ Deu signal, Julia querida,
+ O sino da _Ave-Maria_.
+
+ Este som tão conhecido
+ Da nossa innocente infancia,
+ Como agora vem sentido
+ Trazer-me viva á lembrança,
+ Toda essa doce fragrancia
+ D'aquelle existir d'então!
+
+ Ai! lembrança não, saudade!
+ Saudade Julia, tão funda...
+ Mas tão grata, que me innunda
+ De ventura o coração.
+
+ Espera... se neste instante
+ Mandasse á terra o Senhor,
+ Anjo de meigo semblante,
+ E aos dias d'aquella edade
+ Nos tornasse o seu amor...
+ Oh! responde-me, querida,
+ Se quanto depois na vida
+ De bello nos ha passado,
+ Não devera ser trocado
+ Por esses dias em flor?!
+
+ Que lá vão! lembras-te ainda?
+ Tu risonha doidejavas,
+ Por entre as moitas de flores
+ Como ellas fragrante e linda.
+ Quando o som pausado e lento
+ D'_Ave-Maria_ escutavas,
+ Então naquelle momento
+ Aos pés da Cruz te prostravas!...
+
+ Que fronte de anjo era a tua
+ Vista ao reflexo amoroso
+ Dos frouxos raios da lua!
+ Uma tarde, ao pôr do sol,
+ No recosto pedregoso
+ Do monte nos encontrámos;
+ Lembras-te! essa hora bateu,
+ Porem nós mal a escutámos!
+ Os olhos, tu perturbada,
+ Baixavas, e no semblante
+ Não sei que luz te brilhava,
+ Eu sei que naquelle instante
+ O prazer me enlouqueceu.
+
+ Oh! fatal loucura aquella!
+ Tinha-me ali tão perdido,
+ Que, sem mais ver, delirante
+ Nos braços te arrebatei.
+
+ Não sei por onde vagava,
+ Nem quanto, nem como andei;
+ Só me lembra que a ventura
+ Ali real me fallava,
+ E que aos incertos lampejos
+ Das estrellas desmaiadas,
+ Impremi ardentes beijos
+
+ Nas tuas faces rosadas!
+ Foi breve aquelle delirio;
+ Ao menos breve o julguei;
+ E quando, outra vez á vida
+ De sobressalto voltei,
+ Desbotada como um lyrio
+ Pelos vendavaes batido,
+ Nos meus braços te encontrei!
+
+Setembro de 1851
+
+
+
+
+V
+
+IMPROVISO
+
+
+ Porque languida essa frente
+ Descai, quando a tarde espira?
+ Porque nesse olhar dormente
+ Tua alma ingenua suspira?
+
+ Porque? ai! porque? responde;
+ Que se amor do ceo procura,
+ Eil-o; em meu peito se esconde;
+ Vive, é teu, tens a ventura!
+
+ Verás como então brilhante,
+ Seduz, toma vida, inspira,
+ Esse teu bello semblante,
+ Que apenas hoje se admira!
+
+Ilha da Madeira--Novembro de 1850.
+
+
+
+
+VI
+
+A UM RETRATO
+
+
+ És tu, sim, o mesmo olhar,
+ A mesma ardente expressão,
+ Com que teus olhos sabiam,
+ Tão habilmente occultar
+ O gêlo do coração.
+
+ Como fascina o teu ser?
+ Agora, que eu posso ver,
+ Vejo bem que não és bella.
+ Quem for buscar no teu rosto,
+ A severa correcção
+ Que esta palavra revela,
+ Tirar feição, por feição...
+
+ Não pode achal-a, bem sei.
+ Oh! mas nessa viva luz,
+ Que teus olhos illumina,
+ Ha de achar, como eu achei,
+ O fogo que nos seduz,
+ A chamma que nos fascina!
+
+ E agora vais escutar;
+ Agora, que a Providencia
+ Piedosa me quiz salvar
+ D'essa fatal influencia,
+ Vais saber como te amei!
+
+ Não é sómente da gloria,
+ Das illusões, da ventura,
+ Que é doce narrar a historia.
+ Repassando na memoria
+ Tantas scenas de amargura,
+ Vendo-as saltar palpitantes
+ Ante meus olhos agora,
+ Com toda a sinistra pompa
+ Da vida que tinham d'antes,
+ Ao ver de quanto é capaz,
+ Não sabes?... na propria dor,
+ O coração se compraz!
+
+ Medindo o padecimento
+ Do martyrio atroz e lento
+ Que me trouxe o teu amor,
+ S'inda aterrado contemplo,
+ As crenças que fui depôr
+ Sobre as aras d'esse templo,
+ A dor do arrependimento
+ Ha de salvar-me da culpa
+ Ante os olhos do Senhor.
+
+ Ai de ti! mil vezes mais
+ És tu desgraçada agora!
+ Viveste, reinaste um'hora,
+ E com que imperio! jámais,
+ Em delirio o pensamento
+ Te fez julgar adorada
+ Como eu te adorei, jámais!
+
+ Ninguem neste mundo ousára,
+ Erguer a mão para um culto
+ Tão santo como eu criára!
+ Tu foste a que, cega um dia,
+ Por loucura e por vaidade,
+ As crenças que nelle havia,
+ Destruiste sem piedade!
+
+ Punida estás, bem punida,
+ Sabe pois que amor do ceo,
+ Amor como foi o meu,
+ Encontra-se um só na vida!
+
+ Inda ao ver-te... porque não,
+ Porque t'o devo occultar?!
+ Este morto coração,
+ De novo sinto pular
+ Em meu peito fatigado!
+
+ Emfim, se o destino agora,
+ Quer que não possa existir
+ Da esperança do porvir,
+ Deixal-o existir embora,
+ Da saudade do passado!
+
+ Esse é meu como tu foste
+ Na illusão de tanto amor,
+ E tu mesma, tu, que um dia
+ Com semblante mudo e frio
+ Lhe disseste o extremo adeus,
+ Com quanto remorso e dor
+ Has de ter rogado a Deus
+ Perdão de tal desvario!
+
+ E dizes tu que ao _dever_,
+ Sacrificaste a existencia
+ E sujeitaste o meu ser!!...
+ Pois ha dever neste mundo,
+ Que aos olhos da Providencia,
+ Possa mais alto valer
+ Do que aquelle amor profundo
+ Que tu fizeste nascer?!
+ .............................
+ .............................
+
+ Quando foi? vivo o momento,
+ E quanto então nos cercava
+ Existe em meu pensamento:
+ Era á tarde; o firmamento,
+ De nuvens se carregava,
+ E nos fraguedos da costa
+ O mar soturno quebrava.
+
+ Olhei-te, e vi nesse instante,
+ Assumir o teu semblante,
+ Aquella mesma expressão,
+ Que de toda a natureza
+ Fatal respirava então.
+
+ Pausada, lenta, glacial,
+ A tua voz respondia,
+ A tudo que eu proferia!
+ E depois dos labios teus
+ Desprendeste um frio adeus!
+
+ Cuidaste sacrificar
+ A Deus em tua loucura,
+ Sem ver que foste apagar
+ A chamma d'essa ternura
+ Que só elle pode dar,
+ E te atreveste a tentar
+ O poder do Creador,
+ Na obra da creatura!
+
+ Ai de ti! mil vezes mais
+ És tu desgraçada agora!
+ Viveste, reinaste um'hora,
+ E d'esse imperio, jámais
+ Na terra serás senhora!
+
+Fevereiro de 1855.
+
+
+
+
+VII
+
+QUIEN NO AMA, NO VIVE
+
+
+ Pois não vês que se a luz do sol nascente
+ Á rosa na manhã desabroxada,
+ Não illumina as folhas, desbotada
+ Fica n'aste pendente,
+ Sem perfume, sem vida abandonada?
+
+ Dize: então queres tu que a formosura
+ Que o Senhor estampou no teu semblante,
+ Sem renome, sem gloria, passe obscura
+ No mundo em que radiante
+ Ostentar-se podia magestosa?
+ Queres vel-a abatida como a rosa
+ Que o sol não illumina?
+
+ Pois o que falta a essa fronte bella?
+ Oh! vais sabel-o:--O amor!
+ Que se anime e reviva á luz divina
+ E verás se depois alguem ao vel-a
+ Lhe nega o seu fulgor!
+
+Ajuda 1850.
+
+
+
+
+VIII
+
+AMANHÃ!
+
+
+ Resta um dia, mais um dia,
+ Algumas horas ainda
+ De amor, de ternura infinda!
+ Amanhã nos olhos teus,
+ Uma lagrima sentida;
+ Em teus labios, um _adeus_!
+
+ O instante da despedida
+ Tão perto está!... Minha vida,
+ Crava teus olhos nos meus,
+ Um sorriso, um beijo ainda,
+ Mais um'hora de ternura,
+ De amor, de alegria infinda
+ Antes d'esse longo _adeus_!
+
+ Adeus de tanta amargura!
+ Sabe Deus! oh! sabe Deus,
+ Quando outros dias virão,
+ Tão gratos ao coração!
+ Quando nessa face linda
+ Verei sorrir a ventura;
+ Mas agora um beijo ainda
+ Antes que chegue o momento
+ De soltar o extremo _adeus_!
+
+ Oh! tira do pensamento,
+ A hora da despedida;
+ Mais um instante de vida,
+ De delicia e gloria infinda!...
+
+ Amanhã!... ai! não te lembres
+ De tal dia de amargura!
+ Crava teus olhos nos meus;
+ Inda um'hora de ventura,
+ De amor, de alegria infinda
+ Sorrindo nos olhos teus:
+ Um beijo, mais outro ainda,
+ O derradeiro: oh! _adeus_!
+
+Abril de 1857.
+
+
+
+
+ANJO CAÍDO
+
+
+ Na flor da vida, formosa,
+ Ingenua, casta, innocente,
+ Eras tu no mundo, rosa!
+ Quem te arrojou de repente
+ Para o abysmo fatal!
+ Viste um dia o sol de abril;
+ O teu seio virginal
+ Sorriu alegre e gentil.
+
+ Ergueu-se aos clarões suaves
+ D'aquella doce alvorada
+ A tua face encantada.
+ Amaste o doce gorgeio
+ Que desprendiam as aves,
+ E no teu candido seio
+ Quanto amor, quanta illusão
+ Alegre pulava então!
+
+ Mal haja o fatal destino,
+ Maldita a sinistra mão,
+ Que em teu calix purpurino
+ Derramou fera e brutal
+ Esse veneno fatal.
+
+ Hoje és bella; mas teu rosto
+ Que outr'ora alegre sorria,
+ É todo melancolia!
+ Hoje nem sol, nem estrella,
+ Para ti brilha no ceo;
+ Mal haja quem te perdeu!
+
+Novembro de 1857.
+
+
+
+
+X
+
+PIEDADE!
+
+
+ Em torno da mesma idéa,
+ Meu ardente pensamento
+ Constantemente volteia.
+ Que horas estas de tormento!
+ E póde viver-se assim?
+ Que força tens, coração?
+ Pois tudo que sinto em mim
+ És capaz de supportar?
+ Oh! basta! por compaixão
+ Deixa emfim de palpitar!
+
+Agosto de 1856.
+
+
+
+
+XI
+
+BELLEZA E MORTE
+
+
+ Quando Deus á terra envia
+ Um anjo dos seus, é breve
+ A vida que lhe confia.
+ .........................
+
+ Como a flor branca de neve
+ Que ao primeiro alvor do dia
+ No prado desabroxou,
+ Assim ella veiu ao mundo,
+ E tão rapida passou,
+ Que d'este rumor profundo
+ Nem um som, nem um gemido
+ Por esse anjo foi ouvido!
+ Nasceu, e sorrindo amou!
+
+ Quem ao vel-a tão ditosa
+ Tão feliz por ser amada,
+ E tão feliz por amar,
+ Bella, fragrante, viçosa,
+ Cheia de vida no olhar,
+ De luz na face encantada;
+ Quem diria que esse amor
+ Seria a chamma fatal,
+ Que a devia emfim matar!?
+
+ Pobre florinha do val,
+ Da aurora ao primeiro alvor
+ Nasceu, e sorrindo, amou,
+ Mas com a tarde... expirou!
+
+Junho de 1857.
+
+
+
+
+XII
+
+ORAÇÃO DA MANHÃ
+
+
+Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho
+
+ Vem reflorindo a aurora;
+ A voz do rouxinol,
+ Mais inspirada agora,
+ Sauda a luz do sol.
+
+ A perfumada aragem
+ Beija no campo a flor;
+ Tudo sorri á imagem,
+ Do nosso Creador.
+
+ No bosque as avesinhas
+ Soltam os hymnos seus;
+ No berço as criancinhas
+ Resam tambem a Deus.
+
+ «Por minha mãe, por ella,
+ E por meu pae, Senhor!
+ Dai-lhes propicia estrella,
+ Gloria, ventura, amor!
+
+ «Cercai de mil delicias,
+ A sua vida emfim,
+ Como elles de caricias
+ Me tem cercado a mim.
+
+ «As preces da innocencia
+ No ceo ouvidas são;
+ E a minha, oh Providencia,
+ Parte do coração,
+
+ «Parte ao florir da aurora,
+ Co'a voz do rouxinol,
+ Que se desprende agora
+ Saudando a luz do sol!»
+
+Junho de 1859.
+
+
+
+
+XIII
+
+CARIDADE
+
+
+Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca
+
+ Como avesinhas implumes
+ Enjeitadas nos seus ninhos,
+ Deixa a sorte os pobresinhos,
+ Sem lar, sem pão, sem carinhos
+ De maternal coração.
+ Escutando os seus queixumes,
+ Compassiva a Providencia,
+ Volve os olhos á innocencia,
+ E em sua eterna clemencia
+ Da-lhes lar, ensino, e pão.
+
+ Mais vivos torna os desejos
+ No seio da caridade,
+ Que á desvalida orfandade
+ Vai com sincera piedade
+ Inundar de puro amor;
+ Amor, que em candidos beijos,
+ Suavemente procura
+ Dar conforto na amargura,
+ Aos que fez a desventura,
+ Orfãos no berço e na dor.
+
+ A quem busca a Providencia
+ Para amparar o destino,
+ Do que pobre e pequenino
+ Se encontra sem luz, sem tino,
+ Logo no mundo ao nascer!?
+ Anjos de viva clemencia,
+ Que onde existe o sofrimento,
+ Correm, voam num momento,
+ A dar todo o sentimento,
+ Que taes almas sabem ter!
+
+ São ellas mães, são esposas,
+ E recordando os carinhos
+ Que tiveram seus filhinhos,
+ Não podem ver pobresinhos
+ Sem amor, sem lar, sem pão!
+ No berço desfolham rosas,
+ Onde espinhos só havia,
+ E o sol de pura alegria,
+ Já de affectos alumia,
+ Dos orfãos o coração.
+
+ Salve pois, oh Caridade!
+ Que assim abres o teu seio,
+ Áquelle que sem esteio,
+ Á luz d'este mundo veiu
+ Para viver na afflicção.
+ Salve casta divindade!
+ Terna irmã da desventura,
+ Que os suspiros da amargura
+ Convertes á creatura
+ Em risos de gratidão!
+
+Junho de 1856.
+
+
+
+
+XIV
+
+BELLA SEM CORAÇÃO
+
+
+ Era uma esplendida imagem
+ De olhos rasgados e bellos;
+ Negros, negros os cabellos;
+ Boca gentil como a rosa,
+ Que á luz da manhã formosa
+ Sorri ao sopro da aragem.
+
+ Alta, graciosa, elegante,
+ Um ar de tal distincção,
+ Na figura e no semblante,
+ Que eu disse commigo ao vel-a:
+ «Como esta mulher é bella,
+ Sobre tudo na expressão
+ De pallidez namorada,
+ Que tem na face encantada!
+ Esta sim, por Deus o juro,
+ Esta ha de ter coração!»
+
+ A estação, o sitio, a hora...
+ Era a hora do sol posto,
+ E um frouxo raio de luz
+ Vinha bater-lhe no rosto.
+ A estação o meigo outono,
+ Quando o prado se descora,
+ No bosque cessa a harmonia,
+ Quando tudo emfim seduz
+ Com vaga melancolia.
+ O sitio, ameno e saudoso,
+ Onde livre a alma podia
+ Dar-se inteira aos sentimentos
+ De paz, de amor, de poesia!
+
+ Aproximei-me da imagem
+ Meiga, risonha, singela;
+ Soltára a voz, era bella,
+ Bella sim, vibrante e pura,
+ Mas sem aquella ternura,
+ Sem aquelle sentimento,
+ Que diz tudo num momento!
+ Sem tremor, sem sobresalto,
+ Voz que dos labios saía,
+ Dos labios só, que se via,
+ Não provir do coração;
+ Voz sonora, porem fria;
+ Bella sim, mas sem paixão.
+
+ «Pois essa gentil figura,
+ Esse pallido semblante,
+ Essa expressão de ternura
+ Que todo o teu ar respira,
+ A luz do olhar scintillante,
+ Dize emfim: quanto se admira,
+ Quanto ao ver-te nos encanta,
+ Será sem alma, e sem vida?!»
+
+ Sorrindo me respondeu:
+ «Aqui não ha coração!»
+ Mas eu vi que elle bateu
+ D'essa vez precipitado
+ Por que a sua nivea mão
+ Tentou comprimil-o em vão!
+ E no olhar enamorado,
+ E na voz que estremecia,
+ Oh! Deus! o que não dizia
+ A bella sem coração!
+
+Setembro de 1856.
+
+
+
+
+XV
+
+PERDOASTE!
+
+
+ Anjo offendido; outra vez,
+ Volve teus olhos do ceo
+ Áquelle que te offendeu!
+ Vel-o abatido a teus pés,
+ Anjo esquece, e compassivo,
+ Num sorriso de perdão,
+ Torna a dar-lhe o coração.
+ A cada instante mais vivo
+ O remorso cresce em mim;
+ Perdoa, oh! perdoa, emfim!
+
+ Offendi-te num momento
+ De terrivel desvario;
+ Era o ciume violento!
+ O rubor da castidade
+ A tua face affrontava,
+ E eu cego, eu perdido, ousava
+ Proseguir! oh! por piedade,
+ Por piedade, anjo do ceo,
+ Perdoa a quem te offendeu!
+
+ Em breve a razão voltou,
+ E com ella essa anciedade
+ Do desgraçado que ousou
+ Num momento de loucura
+ Offender a divindade.
+ Nas trevas da noite escura,
+ Nem ao menos uma estrella,
+ Brilhava serena e bella!
+ E eu caminhava em delirio
+ Sem força para acabar
+ A vida que era um martyrio!
+ A tão profunda amargura
+ Quem me podia arrancar,
+ Quem, senão um teu olhar?
+
+ Lá, nas sombras do horisonte,
+ Despontou por fim a luz,
+ A mesma que em tua fronte
+ Bella e placida reluz.
+ No peito afflicto e cançado
+ Senti dilatar-se então
+ Este oppresso coração;
+ O teu olhar adorado
+ A mim outra vez volveu,
+ Terno, meigo, apaixonado.
+ Perdoaste, anjo do ceo!
+
+Abril de 1857.
+
+
+
+
+XVI
+
+TRES RETRATOS
+
+
+(Num album)
+
+ Como as horas passam rapidas
+ Nesta doce companhia!
+ Brilha impaciente alegria
+ Em tudo á roda de mim.
+ Nunca fui tão venturoso,
+ Nunca a mão da Providencia
+ Fez com que eu visse a existencia
+ Tão bella e risonha emfim.
+
+ Esta noite, quando a lua
+ No horisonte resvalava,
+ Inspirado a saudava
+ Nas balsas o rouxinol.
+ Vem agora a primavera
+ Abrindo o virginio manto,
+ Cada dia um novo encanto
+ Nos traz o romper do sol.
+
+ Como a vida assim é bella,
+ Nesta amena convivencia,
+ Com tres anjos de innocencia
+ De formosura, e de amor!
+ Dezaseis annos talvez
+ Não tem Julia, bem contados,
+ Alta, airosa, olhos rasgados,
+ E sorriso encantador.
+
+ O pesinho estreito e breve
+ Cinturinha delicada,
+ A fronte um pouco inclinada,
+ Com seu ar sentimental.
+ Na ramagem das pestanas
+ Occulta a traidora chamma,
+ Que no instante em que se inflamma
+ Dardeja um raio mortal.
+
+ Mas que morte tão suave!
+ Inda ha pouco, em certa hora,
+ Que essa chamma seductora
+ O coração me accendeu...
+ Se é morte esquecer a terra,
+ Naquelle instante morria,
+ Por que tudo o que sentia,
+ Era a ventura do ceo!
+
+ Vel-a sorrir entre os campos,
+ Bella, candida, animada,
+ Como as flores que a alvorada
+ De sua luz inundou!...
+ Vel-a, co'as mãos impacientes,
+ Afastar do rosto bello,
+ O basto e fino cabello,
+ Que a aragem desalinhou!
+
+ Vel-a depois pensativa,
+ Quando tibio o sol declina,
+ Na corrente cristalina
+ Os olhos negros fitar!
+ Vagas sombras de tristeza
+ Que vem toldar-lhe o semblante,
+ São tão bellas nesse instante,
+ Dizem tanto sem fallar!
+
+ Laura, Elisa, as outras duas,
+ Laura, pallida e morena,
+ Baixa um pouco, mão pequena,
+ Expressivas as feições;
+ Os olhos claros e vivos,
+ No seu brilho insinuante,
+ Reflectem a cada instante
+ Milhares de sensações.
+
+ Eliza, a timida Eliza,
+ Que innocente singeleza,
+ Que perfume, que belleza
+ Naquella face gentil!
+ Cabellos loiros cendrados,
+ Olhos d'esse azul escuro,
+ Que é semelhante ao ceo puro
+ De um bello dia de abril!
+
+ As rosas da formosura
+ Sempre vivas no semblante,
+ O corpo esbelto e ondulante,
+ Se é permittida a expressão;
+ Uma tal ingenuidade,
+ No seu todo se revela,
+ Que em se olhando para ella,
+ Bate alegre o coração.
+
+ Tirados daguerreotypo
+ Não ficavam mais exactos
+ De certo estes tres retratos
+ Que procurei desenhar;
+ Qual porém é mais sympathico,
+ Mais perfeito, deve agora
+ Dizel-o a amavel senhora
+ Do livro onde os vou deixar.
+
+ Eu de certo não me atrevo!
+ Nos olhos tem Julia a chamma
+ Que nos sentidos derrama
+ Torrentes de languidez!
+ Laura... Eliza... mil encantos;
+ Emfim, não sei qual prefiro,
+ Não sei a que mais admiro,
+ Sei que adoro a todas tres!
+
+Setembro de 1857.
+
+
+
+
+XVII
+
+ADEUS
+
+
+ Vai-te, oh! vai sombra mentida,
+ Para nunca mais volver!
+ Vai-te, deixa-me na vida,
+ Que esse teu estranho ser,
+ Fatal sempre me tem sido,
+ Fatal sempre me ha de ser.
+
+ Qual era a traidora mão
+ Que para ti me impellia?
+ Eu desvairado não via,
+ Ser aquelle um fulgor vão
+ Que no horisonte luzia?!
+ Crente a vista repousava
+ Na luz clara, intensa, bella,
+ Que para a terra manava
+ Do seio da meiga estrella,
+ E que minh'alma inundava
+ D'aquella celeste chamma
+ Que a vida e razão inflamma
+ No ardente fogo de amor!
+
+ Deixei-me cegar por ella;
+ Quanto e como então vivia
+ Ao grato e doce calor
+ D'essa que assim me perdia,
+ Não sei; porem sei que um dia,
+ Num'hora de maldição,
+ Não vi mais no firmamento
+ O seu mentido clarão.
+ Desvairado em tal momento
+ Fugi sem norte e sem tino;
+ Mas quem foge ao seu destino!?
+
+ Numa d'estas noites placidas,
+ Em que as estrellas fulgentes,
+ Reflectem vívida luz,
+ Á flor das aguas dormentes;
+ Em que o rouxinol seduz,
+ Co'as inspiradas endeixas
+ Soltando sentidas queixas,
+ D'entre as balseiras virentes;
+ Quando respira no ar,
+ Do monte que o mato veste
+ Aquelle perfume agreste,
+ Que é tão grato de aspirar;
+ Quando emfim a natureza,
+ No seu mais pleno vigor
+ Ergue a Deus seu hymno eterno
+ De graças, de paz, de amor!
+ Eu na minha alma abatida,
+ Procurava, mas em vão,
+ Uma só nota do canto
+ Immenso da creação.
+
+ Debalde encontrar buscava,
+ Naquella ardente anciedade
+ Em que o peito arqueja e cança,
+ No passado uma saudade,
+ No porvir uma esperança!
+
+ Debalde a vista alongava,
+ Pelo ceo onde as estrellas,
+ Resplandeciam tão bellas!
+ Em meu peito arido e morto
+ O reflexo d'uma d'ellas
+ Nem sequer compenetrava!
+ Fatigado, exangue, absorto,
+ Sem luz, sem norte, e sem tino
+ Prosseguia o meu destino!
+ Quando ao chegar um instante
+ Em que afflicto a vista erguia,
+ Dei com teu bello semblante,
+ Pallido, triste, abatido,
+ Que para mim se volvia
+ Saudoso e compadecido.
+
+ Oh! tão fundo sentimento
+ Brilhava nos olhos teus
+ Que ao ver-te nesse momento
+ Quem te não dissera um anjo
+ Do ceo á terra descido,
+ E que volve arrependido,
+ Outra vez aos pés de Deus!
+
+ Lá, na extrema do horisonte
+ Vinha então rompendo a lua;
+ Melancolica a luz sua,
+ O teu semblante inundou;
+ E nunca no prado ou monte,
+ Aquella face formosa,
+ Outra tão pallida rosa
+ De um reflexo illuminou!
+
+ Comtemplava-te perdido,
+ De esperança, amor, e gosto,
+ Quando teu languido rosto,
+ Pouco a pouco se animou;
+ E a tua voz docemente
+ Murmurando ao meu ouvido,
+ De novo um amor ardente
+ Outra vez me protestou.
+
+ Hesitava em crer-te ainda;
+ Mas o pobre coração,
+ Quando se vê na desgraça
+ Encontra a crença tão linda!
+ A plenos tragos a taça,
+ D'esse philtro enganador
+ Ancioso esgotava então,
+ Sem me lembrar que no fundo,
+ Estava o fel da traição.
+
+ Vai-te, adeus, pallida sombra,
+ Vai, porque este coração,
+ Por tuas mãos lacerado,
+ Com a tua vista se assombra,
+ E de ti foge aterrado!
+
+Janeiro de 1855.
+
+
+
+
+XVIII
+
+A VISÃO DO BAILE
+
+
+ Foi num baile que a viste cercada
+ De perfumes, de luz, de harmonia,
+ Onde viva, impaciente alegria,
+ Nos semblantes andava a saltar;
+ E ella triste, abatida, indolente
+ Entre as pompas da festa encantada,
+ Co'a tristeza na face estampada,
+ E infinita saudade no olhar.
+
+ Ai! que luz! que expressão nesses olhos
+ Quando instantes nos teus se cravaram!
+ De repente em tropel acordaram
+ Mil affectos no teu coração!
+ E debalde a seu lado quizeste
+ Revelar o que n'alma sentias,
+ As palavras, a voz eram frias
+ Para aquella infinita paixão.
+
+ D'essa noite os instantes voaram,
+ Entre amor, entre gloria e ventura,
+ E no fim com que immensa ternura,
+ Seu olhar para ti se volveu!
+ É que havia chegado o momento
+ De deixar essa estancia inundada
+ Dos primeiros clarões da alvorada,
+ Que já vinha rompendo no ceo
+
+ Mas depois, quando o sol d'esse dia
+ Desmaiava nas veigas virentes,
+ Quando as aves soltavam gementes
+ A voz doce nas balsas em flor,
+ Não a viste assomar á janella,
+ E sorrindo, mirar-te um instante?
+ Não brilhava naquelle semblante,
+ Um sublime reflexo de amor!?
+
+ No sonoro recinto do templo
+ Quando as preces sinceras subiam,
+ Quando os hymnos sagrados se ouviam
+ Aspirando suaves aos ceos,
+ Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua,
+ Ante Deus, ante os olhos do mundo
+ Que este affecto suave e profundo,
+ Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»
+
+ Hoje pois, que na luz d'esses olhos,
+ Nessas fontes de amor e candura,
+ Encontraste na terra a ventura,
+ Cuidas tu em deixal-a, e partir?
+ Oh! não vês que é fatal o destino,
+ Que chegou para ti essa hora
+ De encontrar a mulher seductora
+ Que te deve encantar o porvir?
+
+ Ai, poeta, debalde procuras
+ Esquecer a visão adorada;
+ Ai! debalde! tua alma inspirada
+ Outra igual neste mundo encontrou!
+ São irmãs, e co'a mesma ternura
+ Viverão abraçadas no mundo,
+ Num affecto sincero e profundo
+ A suprema vontade as juntou!
+
+31 de Março de 1857.
+
+
+
+
+XIX
+
+RECEIOS
+
+
+ Ás vezes, quando a teu lado
+ Comparo a expressão que outr'ora
+ Tinha teu rosto adorado,
+ Á sua expressão de agora...
+ Não sei que tristeza vaga
+ Que impressão sentida e funda,
+ O meu coração esmaga!
+ Oh! mas sei que a alma se inunda
+ De uma subita amargura,
+ De uma tal angustia e dor,
+ Que toda a luz da ventura,
+ Que me vem do teu amor
+ Toda com ella se apaga!
+ Loucuras serão, delirio
+ D'este ardente imaginar;
+ Serão, sim; mas o martyrio,
+ Com que me sinto acabar,
+ Só tem poder tua mão
+ Para de todo o findar
+ Neste oppresso coração!
+
+Setembro de 1855.
+
+
+
+
+XX
+
+LEMBRAS-TE?
+
+
+ Lembras-te? frouxa expirava
+ Aquella doce harmonia
+ Que em nossas almas entrava.
+ De uma luz tão resplendente
+ Teu limpido olhar brilhava,
+ Como a da aurora nascente,
+ E aurora gentil sorria,
+ No meigo azul de teus olhos
+ Para raiar entre rosas
+ Fragrantes e sem abrolhos.
+
+ Quando mais tenue partiu
+ A cadencia saudosa,
+ Tua boca proferiu
+ Não sei que cortadas fallas,
+ Que o ouvido não sentiu,
+ Porque vieste graval-as
+ Com a voz do ceo no peito,
+ Que a ti rendido e sujeito
+ Anhelando t'as ouviu.
+
+ Ao proferil-as, dormente
+ O teu olhar descaíra,
+ E em teu pallido semblante
+ A expressão se reflectíra
+ Dos affectos que agitavam
+ A tua alma nesse instante.
+ Ai! nesse instante do ceo,
+ Que á terra breve fugíra,
+ Que a elle inteiro volveu!
+
+ No horisonte estremeciam,
+ Ebrias de amor as estrellas,
+ E teus olhos se fitavam
+ Na luz scintillante d'ellas;
+ É que no ceo procuravam
+ O eterno d'aquelle instante
+ Que na terra presentiam
+ Que passaria inconstante.
+
+ O alvor da nascente aurora,
+ Que no horisonte assomava,
+ Das estrellas desmaiava
+ A viva luz, e inda agora,
+ Tenho em minh'alma, querida,
+ A expressão com que me olhaste
+ Apontando para ella!
+ É que essa aurora tão bella
+ Não brilhava mais na vida!
+
+Janeiro de 1849.
+
+
+
+
+XXI
+
+POIS SER PALLIDA É DEFEITO?
+
+
+ Pois ser pallida é defeito?
+ E de todo o coração,
+ Diz, pondo a mão sobre o peito,
+ Que um rostosinho desfeito
+ Não pode inspirar paixão?
+
+ Ora diga: a rosa é bella
+ Quando o sol lhe accende a cor,
+ É bella sim, mas ao vel-a
+ Desmaiar n'haste singela
+ Não lhe inspira mais amor?
+
+ Viçosa, fresca, orvalhada,
+ De manhã é toda luz;
+ Mas á tarde desmaiada,
+ Co'a pallidez namorada,
+ Oh! quanto mais nos seduz!
+
+ Está convencida vejo,
+ Deveras não, inda não?
+ Pois se é todo o seu desejo
+ Ser corada, dê-me um beijo,
+ E verá se cora ou não!
+
+ Porque esconde o rosto lindo?
+ Santo Deus! descubra-o já!
+ Aposto que vai sentindo
+ Um certo rubor subindo...
+ Ai! como corada está!
+
+ Neste espelho, olhe-se agora,
+ Veja bem que linda cor;
+ Quando nasce a fresca aurora,
+ A luz que a face lhe cora,
+ Não tem mais vivo fulgor.
+
+ Sorri-se a furto, bem vejo,
+ Occulta o rosto na mão:
+ Pois vamos, agora um beijo,
+ Quem cumpriu o seu desejo,
+ Não merece, diga, não?
+
+Junho de 1852.
+
+
+
+
+XXII
+
+DEVER
+
+
+ Sê bem vinda estação melancolica!
+ Sê bem vinda! minh'alma abatida,
+ No teu seio procura essa vida,
+ Que tão bella, e tão breve passou!
+ Oh! são estes os campos formosos,
+ É bem este o deserto mosteiro,
+ Onde ouvíra o adeus derradeiro
+ Que teu peito anhelante soltou!
+
+ Já nas folhas do bosque frondoso
+ Se desbota a risonha verdura,
+ E co'a aragem que á tarde murmura,
+ Vão caindo dispersas no chão.
+ Já nos campos de todo cessaram,
+ Os modilhos da ingenua avesinha,
+ Que nas moitas espessas se aninha,
+ Presentindo a invernosa estação.
+
+ Que saudade na luz que desmaia,
+ Nestes campos sem viço nem flores,
+ Quando á tarde os incertos fulgores
+ Do sol tibio resplendem no ceo!
+ Que saudade na aragem agreste,
+ Que deriva do cimo do monte,
+ E no azul d'este vasto horisonte,
+ Onde pallida a lua rompeu!
+
+ Foi aqui nestas margens viçosas
+ Hoje tristes, desertas, sombrias,
+ Que sorriram os unicos dias,
+ Para mim de ventura e de amor;
+ Quando tu inspirada a meu lado
+ Caminhavas com tremulo passo,
+ E firmando-te alegre ao meu braço
+ Davas graças da vida ao Senhor.
+
+ Era aqui, junto á cruz mutilada,
+ Aos extremos reflexos do dia
+ Quando o sino da ermida se ouvia
+ Dar signal da singela oração,
+ Que tu vinhas prostrar-te soltando
+ Com voz flebil a prece sentida,
+ Pelo bem, pelo amor, pela vida,
+ Dos que a sorte deixou na afflição.
+
+ E depois nos meus olhos cravando
+ Os teus olhos de pranto orvalhados
+ Os protestos mil vezes jurados,
+ Vinhas mais uma vez proferir;
+ Nesse esforço baldado do espirito,
+ Que nas frases da terra procura
+ Expressar a celeste ventura,
+ Que sómente se pode sentir.
+
+ E pensar que este ceo de delicias
+ Se acabou para nós na existencia!
+ Que não temos mais nada que a essencia
+ Da saudade que d'elle ficou!...
+ Ver que a mão de um poder sobrehumano,
+ Nos traz cegos do mesmo delirio,
+ E votarmos a vida ao martyrio,
+ Porque o mundo um fantasma creou!!
+
+ Pois se Deus quiz ligar nossas almas,
+ Se é fatal que ellas sejam unidas,
+ Queres tu desprender duas vidas
+ Que se acharam irmãs ao nascer?
+ Vês que foi a suprema vontade
+ Que as juntou num abraço divino,
+ E ousas tu, desvairada e sem tino,
+ Separal-as á voz do _dever_!
+
+ O _dever_?! O dever mais sagrado
+ E mais santo que temos no mundo,
+ É mantermos o affecto profundo
+ Que d'um sopro divino nasceu;
+ Attentar contra a sua existencia,
+ Debelar sem piedade essa vida,
+ Não será como ser suicida
+ E affrontar a vontade do ceo!?
+
+ Sobre as aras de um templo mentido,
+ Num altar pelos homens creado,
+ Vais queimar quanto ha puro e sagrado,
+ Por um falso julgar da razão!
+ Sem pensar no teu crer insensato
+ Que não póde jámais ser extincto,
+ Este amor tão profundo que eu sinto
+ E tu sentes co'a mesma paixão!
+ ..................................
+
+ Oh! de novo a meu lado, querida,
+ Volve, em quanto no ceo e na terra,
+ Nos agrestes perfumes da serra,
+ A suave estação respirar!
+ Volve pois, porque as veigas frondosas
+ Não perderam de todo a verdura,
+ E inda a mesma infinita ventura
+ Neste sitio has de agora encontrar.
+
+Setembro de 1856.
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez
+
+ Bella, graciosa e timida,
+ Na aurora da existencia
+ Rosa de grata essencia
+ Sorrias em botão!
+ A luz do sol explendido
+ Vinha inundar-te a frente,
+ Suave e docemente
+ Beijar-te a viração!
+
+ Como os affectos intimos
+ Da maternal ternura
+ Enchiam de ventura,
+ A tua vida em flor!
+ E como a face candida
+ Serena, reflectia
+ A magica poesia
+ D'ess'alma toda amor!
+
+ Dos pensamentos lugubres,
+ Das ambições da terra,
+ Das maguas que ella encerra,
+ Dos crimes que contém,
+ Jámais a teu espirito
+ Chegará o som profundo,
+ Anjo descido ao mundo
+ Só para amar o bem!
+
+ Um dia, a immensa abobada,
+ Azul e resplendente,
+ Toldou-se de repente
+ Ao sopro do tufão!
+ Era o primeiro fremito,
+ Nuncio da tempestade,
+ Que vinha sem piedade
+ Rosa, lançar-te ao chão.
+
+ Ao ver abrir-se o tumulo
+ Sorrias sem receio,
+ E se a teus olhos veiu
+ Funda expressão de dor,
+ Foi quando a boca tremula
+ Da mãe que te perdia,
+ Á tua enfim se unia,
+ Com mais profundo amor!
+
+ Então, como ella, pallida,
+ Soltando o extremo alento,
+ Volveste num momento
+ Á gloria perennal!
+ E logo fria, gellida,
+ Sem ter nem cor nem vida,
+ Par'ceste adormecida,
+ No seio maternal!
+
+Setembro de 1856.
+
+
+
+
+XXIV
+
+PARISINA
+
+
+A Pedro Jacome Corrêa
+
+ MEU CARO AMIGO.
+
+A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do
+Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não
+fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo
+a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.
+
+Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja
+essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias.
+Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais
+escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.
+
+Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as
+obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção
+deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem
+tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o
+pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor
+primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem
+menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor
+particular que se encontra em todas as composições do grande poeta,
+dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver
+conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu
+decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a
+insignificancia d'esta offerta ao
+
+ Seu do coração
+
+Janeiro de 1857.
+
+ BULHÃO PATO.
+
+
+
+
+PARISINA
+
+
+Imitação
+
+
+ I
+
+ É na hora, em que a voz bella e sentida
+ Do meigo rouxinol, entre a folhagem
+ Das balsas escondido, solta ao vento
+ A saudosa canção do fim do dia:
+ Hora solemne e grata em que os amantes
+ Renovam mil protestos de ternura,
+ De constancia e d'amor; em que o susurro
+ Da fresca viração vai confundir-se
+ Co'o murmurar da trepida corrente.
+ De cristalino orvalho borrifadas,
+ As vicejantes flores da campina
+ Mais vivo aroma espargem no ambiente.
+ Accendem-se no ceo milhões de estrellas,
+ É mais escuro o azul á flor das vagas,
+ E a verdura do bosque é mais sombria.
+ Entre as trevas e a luz, o firmamento
+ Jaz velado por languido crepusculo,
+ Que rapido se esvai nos frouxos raios
+ Da lua, despontando no horisonte.
+
+
+ II
+
+ Mas não é para ouvir os doces carmes
+ Do amoroso cantor, que Parisina
+ Do palacio feudal ao parque desce;
+ Nem para contemplar a luz brilhante
+ Das tremulas estrellas, que divaga
+ Por entre as sombras que diffunde a noite.
+ Se procura um desvio na espessura,
+ Não é para aspirar o vivo aroma
+ Das matisadas flores; e se escuta,
+ Não é de certo para ouvir das aguas
+ O brando murmurar. Sons mais queridos
+ Espera o seu ouvido nesse instante.
+ Rangendo as folhas seccas denunciam
+ Que se aproxima alguem: empallidece
+ De susto e de prazer ao mesmo tempo.
+ D'entre as ramas que a brisa doidejante
+ De espaço a espaço agita, mansamente
+ Parte emfim uma voz: é voz amiga;
+ De subito o rubor lhe volta ás faces,
+ E mais livre, porém não menos forte,
+ Bate-lhe o coração no peito agora.
+ Mais um momento só é já passado,
+ Aos pés da bella jaz o cego amante.
+
+
+ III
+
+ O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,
+ Que lhes importa nesse doce instante?
+ Tudo é nada a seus olhos deslumbrados
+ Pelo fogo do amor; tudo se perde,
+ Se confunde, e se esvai nesse delirio!
+ Nos suspiros que vem do fundo d'alma,
+ Nesses mesmos, respira tal ventura,
+ Que, se fosse mais longa, dentro em pouco
+ A vida ou a razão succumbiria!
+
+ Oh! quem sente lavrar dentro do peito
+ O fogo da paixão com tanto imperio,
+ Não pensa na desgraça, nem se lembra
+ Da curta duração de taes enganos!
+ Ai! quantas vezes despertâmos antes
+ De saber que não volta o mago sonho!!
+
+
+ IV
+
+ Vão partir: vão deixar com passos lentos
+ O encantado logar que presenceára
+ O seu transporte em delirante crime.
+ Vão partir: e apesar dos mil protestos,
+ Da esperança que em breve hão de juntar-se,
+ Dor profunda no peito lhes comprime
+ Agora o coração, como se fosse
+ Aquella a derradeira despedida.
+ Parisina, cravando os olhos languidos
+ No firmamento azul, treme, sentindo
+ Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.
+ Elle outra vez a cinge contra o peito;
+ Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,
+ É forçoso partir, levando n'alma
+ Os amargos, crueis presentimentos,
+ Que de perto acompanham sempre o crime.
+
+
+ V
+
+ Tranquillo no seu leito solitario,
+ Hugo repousa, e pode sem receio
+ Livremente soltar o pensamento.
+ Porém ella descança a fronte pallida
+ Das fadigas do amor, junto do esposo.
+ Sonhando, em voz sumida solta um nome,
+ E suppondo estreitar contra seu peito,
+ Agitado e febril, o terno amante,
+ Entre os braços comprime esse que dorme
+ Agora ao lado seu. Subito acorda
+ Á suave impressão do meigo abraço
+ O esposo que se julga idolatrado,
+ Até nos sonhos da adorada esposa!
+
+
+ VI
+
+ Sobre o seu coração com quanto affecto
+ Reclina aquella fronte encantadora!
+ Com quanto afan procura ouvir as frases,
+ Que de seus labios solta entrecortadas!
+ Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,
+ Azo, o altivo senhor, estremecêra
+ Como tendo escutado a voz do archanjo!
+ Oh! deve estremecer, porque a sentença,
+ A sentença fatal que os seus ouvidos
+ Acabam de escutar, vai despenhal-o
+ Para sempre no abismo da desgraça!
+ O nome que ella em sonhos proferíra,
+ Que soára tremendo como a vaga,
+ Quando arremeça aos concavos rochedos
+ A debil prancha que sustenta o naufrago,
+ Esse nome qual foi? O nome de Hugo;
+ Hugo, o filho da pobre e linda Branca,
+ Que o principe illudiu, e sem piedade
+ Depois abandonou! Hugo, seu filho,
+ Fructo innocente de um amor culpado!
+
+
+ VII
+
+ Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!
+ Quem podera immolar um ser tão bello?!
+ Oh! ninguem! Apesar do negro crime,
+ Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,
+ Ao contemplal-a assim adormecida.
+ Nem a acorda sequer, mas por instantes
+ No seu rosto encantado crava os olhos.
+ Se de subito agora despertasse,
+ A infeliz nesse olhar sentíra a morte!
+ Pela fronte do principe traído,
+ Frio corre o suor, e á luz da lampada
+ Estremecem brilhando as grossas bagas.
+ E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias
+ Nesse instante fatal foram contados!
+
+
+ VIII
+
+ Assim que o sol desponta no horisonte,
+ Azo corre a indagar pelos que o cercam,
+ E as derradeiras provas apparecem.
+ As aias da princeza, largo tempo
+ Conniventes no crime, revelaram
+ Quanto havia de occulto nesse drama.
+ Não tem que duvidar! Azo, escutando
+ A longa historia de tão negro crime,
+ Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,
+ Que de profunda cholera se inflammam.
+
+
+ IX
+
+ Na vasta sala do feudal palacio
+ O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,
+ Sobre o purpureo throno está sentado.
+ Nobres, pagens, soldados o circundam,
+ Os olhos crava nos culpados ambos,
+ Ambos jovens e bellos. Duros ferros
+ Tem sujeitos os pulsos do mancebo,
+ Que fôra brutalmente desarmado
+ Por mercenarias mãos da nobre espada.
+ Na presença de um pae é d'este modo
+ Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!
+ Porém, Hugo infeliz, nesse momento,
+ Tem de ouvir a sentença incontrastavel
+ Dos labios paternaes, prestar ouvidos
+ Á triste narração do seu opprobrio!
+ E comtudo a expressão do nobre rosto,
+ A distincta altivez conserva ainda!
+
+
+ X
+
+ Pallida, sem alento e silenciosa,
+ Aguarda Parisina nesse instante
+ As palavras fataes. O seu destino
+ Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,
+ D'aquelles olhos a celeste chamma
+ Pelos salões doirados espargia
+ A meiga seducção. Se nesses olhos
+ Visse alguem borbulhar uma só lagrima,
+ Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,
+ Arrancando da espada, a vingariam!
+ Mas agora, infeliz! quantos a cercam,
+ Mal disfarçam no rosto carregado
+ A contida expressão do seu desprezo!
+ E elle, o amante adorado da sua alma,
+ Elle, oh Deus! que liberto por instantes,
+ Por instantes que fosse, a houvera salvo,
+ Jaz preso ao lado seu em duros ferros!
+ Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras
+ Onde outr'ora fugia a cor suave
+ Da terna violeta, convidando
+ A mil sequiosos, demorados beijos,
+ Se entumecem, velando a vista immovel
+ Das pupillas, nas quaes a dor intensa
+ Accumula uma lagrima apoz outra!
+
+
+ XI
+
+ Oh! por ella tambem, nesse momento,
+ Derramára o infeliz amargo pranto,
+ Se de tantos a vista a não cercasse.
+ A dor que o devorava, parecia
+ No mais intimo d'alma adormecida;
+ A fronte macilenta e transtornada,
+ Conservava-se altiva. Por mais forte,
+ Mais acerbo que fosse o seu tormento,
+ Não quizera humilhar-se na presença
+ D'aquella multidão que o comtemplava.
+ A companheira bella de infortunio,
+ Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se
+ Das horas do passado, do seu crime,
+ Da vingança de um pae, do seu destino,
+ E sobre tudo do destino d'ella,
+ Não ousava lançar sobre esse rosto
+ A desvairada vista, receando
+ Que, cedendo ao remorso, revelasse
+ Quanto o seu coração fôra culpado.
+
+
+ XII
+
+ Azo emfim sólta a voz:
+ «Ha pouco ainda,
+ Numa esposa e num filho resumia
+ Toda a minha ventura neste mundo.
+ A aurora dissipou tão bello sonho!
+ Antes do pôr do sol, nem um nem outro
+ Me devem pertencer. Quebrem-se embora,
+ As ligações mais caras da minh'alma!
+ Hugo! um padre te espera, e depois d'elle
+ A justa punição do teu peccado.
+ Ergue preces ao ceo antes que o lume
+ Das estrellas se accenda no horisonte:
+ Talvez te dê perdão. Mas neste mundo
+ Não existe logar onde possâmos
+ Nós ambos respirar. Adeus, não quero
+ Assistir ao teu ultimo momento!
+ Porém tu, fragil ser, ensanguentada
+ Terás de vêr cair essa cabeça.
+ Vai, traidora mulher; sobre a tua alma
+ Pese o remorso da desgraça d'elle!
+ Vai-te, adeus, e se podes, contemplando
+ Este exemplo fatal, ter vida ainda,
+ Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»
+
+
+ XIII
+
+ Velando a face pallida e sombria,
+ Onde as veias inchando palpitavam,
+ Como se o sangue em ondas refluisse
+ Do coração á fronte, Azo ficára
+ Callado longo tempo. Hugo, soltando
+ Profunda, porém firme, a voz do peito,
+ Roga ao pae que o escute alguns momentos.
+ O principe em silencio lh'o concede:
+
+ «Tu bem sabes que a morte não receio;
+ Tinto em sangue mil vezes nas batalhas
+ Me viste ao lado teu, onde mais forte,
+ Mais travado e mortal, era o combate.
+ Então deves lembrar-te que esta espada,
+ Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,
+ Derramára mais sangue do que em breve
+ Fará correr a mão do teu carrasco.
+ Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?
+ Quite me deixas d'esse dote infame!
+ Presente, viva tenho na memoria
+ A injuria com que as faces affrontaste
+ De minha pobre mãe; e a vil herança
+ Que recebi no berço, inda me accende
+ O semblante de cholera e vergonha.
+
+ «No tumulo onde agora ella repousa,
+ Irá juntar-se em breve o meu cadaver.
+ Transido o peito seu por mil desgostos,
+ Separada do corpo esta cabeça,
+ Entre os mortos dirão até que ponto
+ Foste amante fiel, pae carinhoso.
+
+ «Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes
+ Que trocámos affronta por affronta.
+ A mulher a que chamas tua esposa,
+ Victima ingenua do teu fero orgulho,
+ Não te lembras que fôra largo tempo
+ Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,
+ Contemplando o seu rosto, desejaste-a,
+ E para emfim provar que não podia
+ Pertencer-me jámais ousaste affoito,
+ Allegar o teu crime e a minha origem.
+
+ «Era indigno de ser esposo d'ella!
+ E porque?! Por que as leis não consentiam
+ Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.
+ E comtudo, se a mão da Providencia
+ Me conservasse a vida, dentro em pouco
+ Podéra conquistar de certo um nome
+ Tão nobre como o teu. Tive uma espada,
+ E sobeja ambição para elevar-me
+ Com ella aos feitos de sonhada gloria.
+ Bem sabes que as esporas mais brilhantes,
+ Nem sempre as traz aquelle que nascêra
+ Embalado na purpura, e que as minhas,
+ O corcel que montava, por mil vezes
+ Avante arremessaram dos mais nobres,
+ Mais valentes senhores, quando, lembras-te?
+ Carregando eu bradava: _Éste e victoria!_
+ O meu crime conheço, e não procuro
+ Minoral-o, descança, nem tão pouco
+ Implorar-te alguns dias de existencia,
+ Rapidas horas que sem ser contadas
+ Passarão sobre a pedra do meu tumulo!
+
+ «Delirio, como foi o do passado,
+ Não podia ser longo. A minha origem,
+ O meu nome, não são de mancha isentos;
+ Mas comtudo, apesar do teu orgulho,
+ Regeitar perfilhar-me!... nesta face,
+ Quaes olhos não verão que sou teu filho?
+ A minh'alma tambem de ti procede!
+ De ti, sim; por que tremes? de ti veiu
+ O indomavel vigor do meu caracter.
+ Não foi somente a vida que me deste,
+ Porém quanto podia emfim tornar-me
+ Em tudo igual a ti. Comtempla a obra
+ Do teu culpado amor! Na semelhança,
+ Semelhança fatal que vês no filho,
+ Irada te castiga a Providencia!
+ Est'alma não é pois a d'um bastardo,
+ Como a tua não soffre a tyrannia.
+ O passageiro sopro da existencia,
+ Nunca em mais o presei do que tu proprio,
+ Quando juntos na força do combate,
+ A galope os corceis, a espada em punho,
+ Por mil vezes nas renques do inimigo
+ Rompendo a ferro frio penetramos.
+
+ «O passado acabou, e dentro em pouco
+ O futuro com elle irá juntar-se,
+ «Mas oxalá que a mão do Omnipotente
+ He houvesse dado a morte em taes instantes!
+
+ «Era pouco deixar-me orfão no mundo
+ Do affecto maternal; ousaste ainda
+ Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?
+ Sou teu filho, conheço-o neste instante,
+ E a sentença cruel que proferiste,
+ Posto venha de ti, não posso agora,
+ No fundo de minh'alma achal-a injusta.
+
+ «No peccado nasci, morro na infamia;
+ Por onde começou, termine a vida.
+ Errando o filho, o pae tambem errára;
+ Num, castigas os dois. Perante os homens
+ Eu, quem sabe? serei o mais culpado,
+ Porém Deus julgará entre nós ambos.»
+
+
+ XIV
+
+ Cruzando as mãos no peito Hugo fizera
+ Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,
+ Que a sala do palacio povoavam,
+ Não houve um só, que ouvindo esse ruido
+ Deixasse de tremer. Depois cravaram
+ Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.
+
+ Parisina, infeliz! pallida e fria,
+ Immovel como estatua de alabastro,
+ Dissemos que assistíra á scena horrivel,
+ Da perdição do amante. Os olhos fixos,
+ Scintillantes, abertos, desvairados,
+ Nem sequer por instantes se volveram.
+ Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,
+ O fito olhar velaram; mas em torno
+ Das pupillas azues, e resplendentes,
+ Sem cessar se alargava o alvo circo!
+
+ Uma lagrima a custo conglobada,
+ Lentamente das palpebras saía,
+ Tremendo sobre a franja das pestanas:
+ Quem o sabe contar? nesse momento,
+ Os que a viam, pasmavam, não podendo
+ Crer que a olhos de humana creatura,
+ Fosse dado verter tão grossas lagrimas!
+
+ Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:
+ Comtudo no som cavo que soltára,
+ Nesse longo suspiro, parecia
+ Que vinha o coração; apoz instantes
+ Tentára inda outra vez, porém debalde!
+ Do mais fundo do peito a voz partira
+ Num grito, num gemido prolongado,
+ E depois como a pedra, como a estatua
+ Derrubada da base, como tudo
+ O que é de vida falto emfim caíra
+ Digno emblema do tumulo da esposa,
+ Do traído senhor da casa d'Éste!
+ Porém não da mulher que sente n'alma
+ O remorso do crime, e nelle segue
+ Pelo ardor dos desejos instigada.
+
+ Do lethargo fatal tornára em breve,
+ Mas não para a razão; cada sentido
+ Por dor intensa fôra aniquilado.
+ Como das cordas do arco humedecidas
+ Lassas da chuva, as settas disparadas
+ Vão bater ao acaso, assim do cerebro
+ As magoadas fibras só soltavam
+ Desvairados, e vagos pensamentos.
+
+ O passado, e porvir! Ermo o passado!
+ Nas trevas do porvir apenas via
+ Um sinistro clarão, de espaço a espaço,
+ Semelhante ao do raio quando fende
+ As nuvens conglobadas no horisonte,
+ E cai sobre um logar deserto e triste.
+ Gelada de terror sentia n'alma
+ O peso do remorso; que existiam
+ A vergonha, o peccado, na consciencia,
+ Uma voz mal distincta lh'o lembrava;
+ Que a morte estava ali pairando livida
+ Sobre alguem, nesse instante o presentia.
+ Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida
+ O sopro que seus labios respiravam?
+ Era o ceo, era a terra, eram os homens,
+ Que tinha ante seus olhos deslumbrados?
+ Os homens, ou demonios que a miravam
+ Com sinistra expressão? Eram os mesmos
+ Cujo olhar noutro tempo revelava
+ Tão suave, e profunda sympathia?
+ Tudo era incerto e vago no seu animo,
+ Receios, e esperanças insensatas;
+ Agora um meigo riso, logo um pranto,
+ E no seu desvairado pensamento,
+ Cuidava ser aquelle um sonho horrivel
+ No qual o coração se debatia.
+ Porém d'elle, oh! debalde procurára
+ Acordar a infeliz jámais na vida!
+
+
+ XV
+
+ Na torre pardacenta do mosteiro,
+ Balançam lentamente agora os sinos,
+ E o som profundo e triste dentro d´alma,
+ Desperta dolorosos sentimentos.
+ Por aquelles que á sombra do cypreste,
+ Repousam para sempre, ou dentro em pouco
+ Terão de repousar, o canto funebre,
+ Que ouvis neste momento se desprende.
+ Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;
+ Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!
+ Braços nus o carrasco attento espera
+ Pelo instante fatal; certeiro e forte,
+ Deve o golpe caír. Horrivel quadro!
+ Mas comtudo ao redor avidamente,
+ A turba silenciosa se reune,
+ Para ver, Santo Deus! no cadafalso
+ Por ordem de seu pae morrer um filho!
+
+
+ XVI
+
+ É um'hora encantada a que precede
+ O derradeiro adeus do sol explendido!
+ Na pompa de seus raios fulgurantes,
+ Parece escarnecer da scena horrivel
+ Que se aproxima de seu termo agora.
+ Curvado aos pés do monge, em voz sumida
+ Hugo profere a derradeira prece,
+ Prece contricta, humilde, fervorosa.
+ Nessa fronte inclinada e pensativa
+ Bate um raio de luz, porém mais vivo,
+ Mais brilhante reflecte sobre a lamina,
+ Que proxima da victima responde
+ Por um forte, mas lugubre, reflexo.
+
+ Como est'hora suprema é dolorosa!
+ O crime fôra atroz, justo o castigo;
+ Mas comtudo o supplicio nesse instante
+ Faz gelar de terror quem o contempla!
+
+
+ XVII
+
+ As orações extremas acabaram;
+ O filho ao pae traidor, o audaz amante,
+ Tudo emfim confessou. Rapidas tocam
+ As horas no seu ultimo momento.
+ As ondadas madeichas de cabello
+ Já cairam no chão. O nobre manto
+ Bordado pelas mãos de Parisina,
+ Não deve acompanhal-o á sepultura.
+ Tentam vendar-lhe o rosto, não consente
+ Esta final affronta. O seu orgulho,
+ Comprimido no mais intimo d'alma
+ Pela expressão de fria indifferença,
+ Acorda nesse instante, repellindo
+ A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.
+
+ «O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,
+ Preso, algemado estou; co'a vista livre,
+ Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo
+ No logar do supplicio inclina a fronte.
+ Ao proferir esta palavra: «Fere»
+ Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
+ Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
+ O corpo palpitante e transtornado,
+ Pula envolto no pó, que bebe o sangue
+ Saído em borbotões pelas arterias!
+
+ Inda instantes os labios estremecem,
+ Nos olhos inda fulge a luz da vida;
+ Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,
+ Como deve morrer o homem culpado
+ Que se arrepende no momento estremo,
+ Elle o seu coração oppresso e triste
+ A Deus sómente consagrou ness'hora.
+
+ A imagem de seu pae, da propria amante
+ O que eram á sua alma atribulada?
+ Um sentimento das paixões terrestres
+ Não viera turbar naquelle instante
+ A pura contricção do seu espirito,
+ A não ser quando expondo a fronte nua,
+ Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
+ Era o unico adeus que proferira,
+ Ás testemunhas do cruel supplicio.
+
+
+ XVIII
+
+ A multidão gelada e silenciosa,
+ Mal ousa respirar. Alguns gemidos
+ Cortados, mas profundos, se escutaram;
+ Nada mais, a não ser o som socturno
+ Do cutello batendo sobre o cepo.
+
+ Nada mais? houve um som, um grito horrivel,
+ Estridulo, selvagem, semelhante
+ Ao da mãe, que de um golpe repentino
+ Vê cair a seus pés sem vida o filho!
+ O grito de quem foi, de onde partiu?
+ De um seio feminil, e mais terriveis
+ Não os solta jámais o desespero!
+
+
+ XIX
+
+ Hugo jaz no sepulchro, e Parisina
+ Dissera acaso eterno adeus ao mundo,
+ Refugiando sua alma atribulada
+ No silencio da cella de um convento?
+ O veneno, o punhal talvez seriam
+ O severo castigo do seu crime?
+ Ou succumbira emfim nesse momento,
+ Em que vira brandir o duro ferro
+ Sobre a adorada fronte? compassiva
+ A mão da Providencia permittiu,
+ Que ao quebrar-se em seu peito confrangido
+ De angustia o coração, se terminasse
+ Tambem com elle a fragil existencia?
+ Não o soube ninguem. Aquella vida,
+ Ai! de mim! acabára neste mundo
+ Pela dor como a vida principia!
+
+Setembro de 1856.
+
+
+
+
+XXV
+
+A VALSA
+
+
+ Venceste: sou teu, bem ves
+ Quão facil foi a victoria!
+ Cahi-te rendido aos pes.
+ E sem disputar a gloria.
+ Aos _golpes_ da tua mão
+ Expuz logo o coração!
+
+ Venceste: sinto nas veias
+ Correr o sangue agitado:
+ Todo o fogo do passado
+ Já nos sentidos me ateias.
+ Submisso, humilde, sugeito
+ Ao teu estranho poder
+ Existe todo o meu ser!
+
+ Em ti palpita o meu peito;
+ E a razão que me delira,
+ Em ti vive, em ti respira,
+ Com teu imperio a rendeste;
+ Sou teu: venceste, oh! venceste!
+
+ Quanto tempo decorreu
+ Desde aquell'hora maldita?
+ Quanto tempo est'alma afflicta
+ Na angustia se debateu,
+ Sem que um sorriso, um olhar
+ A viesse consolar!
+
+ Em vão buscava no ceo
+ As scintillantes estrellas;
+ Não via em nenhuma d'ellas
+ Nem formosura, nem lume,
+ E no prado por mais bellas
+ Que se ostentassem as flores,
+ Para mim não tinham cores,
+ Nem encantos, nem perfume!
+ ..........................
+
+ Uma tarde, era o sol posto,
+ Vi-te assomar á janella;
+ Depois inclinar o rosto
+ Sobre a mão graciosa e bella,
+ E contemplar fascinada,
+ A natureza encantada.
+
+ A aragem com brando alento
+ Agitava os teus cabellos,
+ E julguei nesse momento
+ Ver-te á flor dos olhos bellos
+ Estremecer cristalina
+ Uma lagrima divina!
+
+ Sobre o cimo flexuoso
+ Do monte se reflectia
+ Ainda o clarão saudoso
+ Do brando expirar do dia,
+ Quando afogueada rompeu
+ A lua no azul do ceo.
+
+ Teu seio battia inquieto,
+ E eu senti no coração
+ A chamma do antigo affecto
+ Rebentar como um volcão!
+ De repente os olhos teus
+ Se volveram para os meus.
+ Quizemos fallar, a voz
+ Nenhum a poude soltar;
+ Mas que não dissemos nós
+ Naquelle inspirado olhar!...
+ Uma só vez na existencia
+ O diz a muda eloquencia!
+ ........................
+ ........................
+
+ Entrei no baile! a alegria
+ Saltava no teu semblante,
+ Quando a valsa delirante
+ Rompeu no vasto salão!
+ Era aquella melodia,
+ Que tanta vez a teu lado
+ Me fez batter agitado
+ De enthusiasmo o coração!
+ Ergueste a fronte animada,
+ E em teu rosto se trocou
+ A pallidez namorada
+ Pelo fogo da paixão!
+ Como o teu olhar fallou
+ Antes que dissesse a voz:
+ «Oh! tua outra vez eu sou!»
+
+ Depois no giro veloz
+ Da dança vertiginosa,
+ Como a tua voz formosa
+ Sobresaltada tremia!
+ Como em tua alma eu vivia!...
+ É que nesse instante Deus
+ Quiz unir as nossas vidas
+ Por um amplexo dos ceos!
+
+ No horisonte esmorecidas
+ As estrellas desmaiavam
+ Co'os resplendores da aurora
+ Que já no ceo despontavam.
+ Naquella encantada hora
+ Expirou nos labios teus
+ Um suspiro, e um adeus!
+ Um adeus, que promettia...
+ Mas quem pode revelar
+ O que nelle se dizia!
+ A aurora vinha a ráiar
+ E os clarões da manhã fria
+ Acaso viram jámais
+ Tão felizes dois mortaes?
+ .........................
+ .........................
+
+ Desde então ao teu poder,
+ Submisso, humilde, sugeito
+ Existe todo o meu ser.
+ Em ti palpita o meu peito,
+ E a razão que me delira,
+ Em ti vive, em ti respira,
+ Com teu imperio a rendeste,
+ Sou teu: venceste, oh! venceste!
+
+Setembro da 1861.
+
+
+
+
+XXVI
+
+RECORDAÇÕES
+
+
+ Como foi, e ha quanto tempo
+ Que esse tão feliz momento,
+ Da minha vida acabou?!
+ Não sei, que importa? Era um dia
+ Que o sol vivido inundava
+ A luxuriante campina.
+ Intensa, glacial frieza
+ O coração me gelava,
+ Quando subito sentira
+ Um raio de luz divina
+ Que minh'alma illuminou.
+ Deslumbrado em vão buscava
+ Ver donde essa luz partia,
+ A mente me delirava
+ Co'a ventura que sentia!
+
+ Oh! depois vi claramente,
+ Que de teu rosto innocente
+ Partira o raio de luz,
+ Tão suave e tão sereno,
+ Como esse que nas pupillas,
+ Azuladas e tranquillas
+ Do anjo da nossa infancia
+ Melancolico reluz!
+
+ Parámos naquella estancia,
+ Dize, lembras-te, Luiza,
+ Como vinha fresca a brisa,
+ E que suave fragrancia
+ Rescendia a viração?
+ Tu firmavas-te ao meu braço,
+ E eu mal respirar podia
+ Que não sei quê me opprimia,
+ Mas com que doce oppressão!
+
+ Parava, não de cançaço,
+ Por que o peito mais valente,
+ De mais vigor não se anima,
+ Nem com mais força se sente
+ Do que eu me sentia então!
+
+ Foi fatal aquelle instante,
+ Para ti fatal, embora,
+ Tu viveste numa hora,
+ Inteira toda uma vida
+ Do mais delirante amor;
+ Porque a tua alma, querida,
+ Quando deveras se inflamma,
+ Devora co'a sua chamma
+ O prazer até á dor!
+
+ Duas lagrimas brilhantes
+ De teus olhos deslisaram,
+ Quando nos meus se cravaram
+ Formosos e scintillantes.
+ A expressão que eu nelles via,
+ Devêra ser semelhante
+ Á que o justo vê no dia
+ Do seu supremo juizo,
+ Nos do anjo fulgurante
+ Que lhe aponta o paraizo!
+
+ Como foi que tal encanto
+ A fatal mão do destino
+ Para sempre nos quebrou!?
+ Da noite o sombrio manto,
+ O teu semblante divino
+ A meus olhos occultou!
+
+ Oh! não foi nesse momento,
+ Porque inda no firmamento
+ O lampejo d'uma estrella,
+ As tuas pallidas faces
+ De um reflexo illuminou,
+ E inda um beijo, longo, ardente
+ Na tua boca innocente
+ A minha boca estampou!
+
+ Oh! não foi!! Depois ainda,
+ Na mesma noite encantada,
+ Te vi fulgurante e linda,
+ De brancas roupas trajada,
+ No turbilhão delirante
+ Do baile veloz passar;
+ Inda ali tanta esperança,
+ Tanto amor, tanta ventura,
+ Veiu minh'alma inundar
+ Inda ouvindo aquella valsa
+ De enthusiasmo estremecemos,
+ E desvairados corremos
+ Ao som da doida cadencia.
+ Oh! que fogo nesse instante
+ Nos inflammava a existencia!!
+ Eu cingia-te anhelante
+ Entre meus convulsos braços,
+ E com teus ligeiros passos
+ Tu mal tocavas o chão!
+ Aquella doce harmonia
+ De instante a instante augmentava.
+ Oh! como então nos battia
+ Agitado o coração!
+ Augmentava, e de repente,
+ Como cortada torrente,
+ A melodia parou;
+ E nos meus braços, querida,
+ Extenuada, abatida,
+ Por momentos te deixou.
+
+ A aurora vinha rompendo
+ Quando teus olhos aos meus,
+ Proferiam eloquentes
+ Aquelle saudoso adeus.
+ Ao longe o vasto Oceano,
+ Da brisa fresca agitado,
+ Ante nós bramia ufano.
+ Tu, volveste horrorisado
+ O rosto co'a vista d'elle!...
+ É que em breve a todo o pano,
+ O meu baixel correria
+ Sobre aquellas ondas torvas,
+ E de ti me apartaria!
+
+Janeiro de 1851.
+
+
+
+
+XXVII
+
+SÊ FELIZ
+
+
+ Sê feliz! Hontem ainda
+ Contemplando o teu semblante,
+ Na sua innocencia infinda,
+ Porém triste nesse instante,
+ Roguei a Deus do mais fundo
+ Mais puro do coração,
+ Que uma lagrima, um desgosto,
+ Uma sombra de amargura,
+ Jámais viesse no mundo,
+ Turbar teu candido rosto.
+
+ Sê feliz: toda a ambição
+ Que por ti minh'alma encerra
+ É ver-te feliz na terra!
+ Nada mais. O amor profundo,
+ O mais violento embora,
+ Tem sempre na vida um'hora
+ De egoismo, e esta affeição,
+ Que uma só vez na existencia
+ No meu peito se accendeu,
+ Que jámais se ha de extinguir,
+ Tem a pureza do ceo,
+ Proveiu da tua essencia!
+
+ Se no presente ou porvir,
+ Alguem que te encante a vida
+ Existe ou tem de existir...
+ Não terei zelos... Unida,
+ Para sempre a outro affecto
+ Passarás junto de mim,
+ Embora, direi então:
+ «Sê feliz: toda a ambição,
+ Que por ti minh'alma encerra
+ É ver-te feliz na terra!»
+
+ E sabes?... ao Creador
+ Dou graças por me haver dado
+ Este puro sentimento
+ Em vez do fogo do amor.
+ Ai! se um dia, no momento
+ De ver-te, te houvesse amado!...
+ Se em vez da chamma suave,
+ Que em meu coração se inflamma,
+ Se ateasse aquella chamma,
+ Se houvesse emfim rebentado
+ Aquelle fatal volcão!...
+ Ai! de mim! quanta amargura!
+ Quanta angustia o coração
+ Não teria já passado!
+ Porem assim!... não, ai! não!
+ Sê feliz: toda a ambição
+ Que por ti minh'alma encerra,
+ É ver-te feliz na terra!
+
+Maio de 1854.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+A FOLHA DESBOTADA
+
+
+ Volve folha desbotada,
+ Outra vez á mão nevada
+ Que do tronco te ceifou,
+ Volve, e dize sem receio,
+ Que te apertei contra o ceio,
+ Que o meu olhar te adorou:
+
+ Vai discreta confidente,
+ Dize tudo quanto sente,
+ E calla o meu coração!
+ Vai, que a tua voz sentida,
+ Ha de ser por ella ouvida
+ Com ternura e compaixão.
+
+ Dize que ao ver um instante
+ Anuviado o seu semblante,
+ Pensativo o seu olhar,
+ De sobresalto e receio,
+ Sinto o coração no seio
+ De repente a palpitar!
+ Que a sonhei antes de vel-a,
+ Como bem fadada estrella,
+ Mensageira do Senhor!
+ Que ao vel-a a voz da consciencia
+ Disse: É esta na existencia
+ A tua estrella de amor!
+ De amor puro, intenso, ardente,
+ Mas que occulto eternamente
+ No meu peito ficará!
+ Que no infortunio nascido,
+ Só commigo tem vivido,
+ E commigo morrerá!
+
+ Ai! folhinha desbotada!
+ Outra vez á mão nevada
+ Volve de quem te ceifou!
+ Volve, e dize, sem receio,
+ Que te apertei contra o seio,
+ Que o meu olhar te adorou!
+
+Maio de 1854.
+
+
+
+
+XXIX
+
+NUM ALBUM
+
+
+ Venham ver este retrato,
+ E respondam se o pintor,
+ Que desenhasse melhor,
+ O tirava mais exacto.
+ Eil-a! saltando da tela,
+ Viva, inteira, palpitante!
+ Pallido um pouco o semblante,
+ A boca graciosa e bella,
+ Quando o sorriso a desflora,
+ É como a rosa da aurora
+ Abrindo ao sopro de abril!
+ É mais! é ver num momento,
+ Quanto pode o pensamento
+ Sonhar de casto e gentil!
+
+ O cabello ondado e fino,
+ Negro como a noite escura,
+ Cai no collo alabastrino,
+ E faz resair a alvura
+ Do rosto fascinador.
+
+ Os olhos... oh! neste instante,
+ Tremo, hesito, não ha cor,
+ Não ha luz por mais brilhante,
+ Que possa emfim imitar
+ O reflexo scintillante
+ Da chamma do seu olhar!
+ Chamma que ás vezes traidora,
+ Se occulta na sombra escura,
+ Á espera que chegue um'hora,
+ Hora de morte ou ventura!,
+ Em que possa deslumbrar,
+ Com mais fogo e com mais vida,
+ O desvairado que ousar,
+ Miral-a sem recear,
+ Pela ver assim sumida!
+
+ Terminou?... e eu que julgava
+ Cobrir-me de eterna gloria,
+ Quando tanto me esmerava
+ Na minha copia ideal!
+ Agora que na memoria,
+ (Ou antes no coração)
+ Tenho vivo o original,
+ Vejo bem que não ha mão,
+ Por mais que saiba pintar,
+ Capaz de estampar na tela
+ A expressão graciosa e bella
+ D'essa face, e d'esse olhar!
+
+Abril de 1859.
+
+
+
+
+XXX
+
+ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?
+
+
+ Onde se encontra a ventura,
+ Esta encantada visão,
+ Que tantas vezes procura,
+ Mas debalde, o coração?
+ Nas pompas da formosura?
+ Nos esplendores da gloria?
+ No poder de conquistar
+ A mais difficil victoria
+ Com o mais timido olhar?
+
+ Oh! como então és feliz,
+ Porque tudo te revela,
+ Que não ha face mais bella,
+ Nem existencia tecida
+ De mais florído matiz!
+
+ Porém responde, na vida,
+ Quando tu passas radiante
+ D'essa luz que emfim só Deus,
+ Concede a um anjo dos seus!...
+ Quando ouves a cada instante
+ Dizer com voz anhelante:
+ «Lá chega, lá passa, é ella,
+ Que é tão feliz como é bella!»
+ Uma sombra de amargura,
+ Um sentimento profundo
+ Não te opprime o coração
+ E não te diz que a ventura
+ Se não encontra no mundo?!
+
+ Uma vez, sereno o ceo,
+ Como os teus olhos brilhava!
+ Airosa ante mim passava
+ Essa forma, esse ideal
+ Que não pode ser mortal!
+ Atravez do raro veo,
+ Que o semblante te encobria,
+ Uma lagrima descia;
+ Era de prazer ou dor!
+ Oh! de angustia parecia,
+ Pelo agitado tremor
+ Com que o peito te battia!
+ O mundo não sei se a via,
+ Porque a meu lado exclamava:
+ «Lá chega, lá passa, é ella,
+ Que é tão feliz como é bella!»
+ Mas quem sabe se acertava?!
+ Porque a ventura real
+ Se existe, é só no momento
+ Em que livre o pensamento
+ Se eleva ao mundo ideal!
+ E noss'alma a outra unida,
+ Foje á terra, se illumina
+ De um raio de luz divina,
+ E se esquece emfim da vida!
+
+Julho de 1859.
+
+
+
+
+XXXI
+
+QUEM DIRÁ?
+
+
+ Quem dirá, vendo a expressão
+ Que brilha no teu olhar,
+ Que tu não tens coração?
+ Bem haja a mão tutelar,
+ Que á beira me suspendeu
+ Do abismo da perdição!
+ Que delirio foi o meu
+ Naquelles tão curtos dias
+ Que passei ao lado teu?
+
+ Oh! como tu respondias
+ Com o silencio eloquente
+ Ás palavras que partiam
+ Do meu coração ardente!
+ E depois, se num momento
+ Os labios já não podiam
+ Expressar o sentimento,
+ O fogo do meu affecto,
+ Como o teu olhar inquieto
+ A minh'alma interrogava
+ E todo paixão jurava,
+ Que era meu o teu amor!
+
+ Oh! que dias de ventura!...
+ Nos campos, abria a flor;
+ Por entre a tenra verdura,
+ Inda fraca, inda infantil,
+ Se escutava a voz das aves
+ Que saudavam abril.
+ E tu, como ellas, ditosa,
+ Ás suas notas suaves
+ Juntavas a voz formosa!
+ Ah! como eu vivia então!
+ Como de novo sentia
+ Rebentar no coração
+ Essa infinita alegria
+ Que nos desvaira a razão!
+
+ Por quanto tempo durou
+ O sonho que me encantava?
+ Breve foi, maldicta a mão
+ Que d'elle me despertou.
+ Quando mais certo julgava
+ Que era emfim minha a ventura,
+ No momento em que acabava,
+ De escutar dos labios teus
+ Aquelle estremoso adeus!
+ Adeus, que nesse momento
+ Com a esperança sorria
+ E tanto me promettia!...
+
+ Foi, oh Deus! que de repente,
+ Uma palavra maldicta,
+ Fez que eu visse claramente,
+ Cobrindo minh'alma afflicta
+ De espessa nuvem sombria!
+ ........................
+
+ Quem dirá vendo a expressão
+ Que brilha no teu olhar,
+ Que tu não tens coração
+ Ou tem-lo para enganar?!
+
+Abril de 1859.
+
+
+
+
+XXXII
+
+UM BRINDE
+
+
+(Improviso)
+
+ Amigos, á formosura
+ Que nos cerca neste instante,
+ Erga-se a taça escumante
+ De purpurino licor.
+ Vivo enthusiasmo rebente
+ Agora de nossas almas,
+ Caiam palmas sobre palmas
+ Cada vez com mais ardor!
+
+ Aqui floresce na horta
+ A viçosa laranjeira,
+ Corre o Champanhe e o Madeira
+ Que offertara nivea mão,
+ Aqui não chegam as garras
+ De tanta velha leôa
+ Que esfaimada por Lisboa
+ Se atira a tanto leão.
+
+ Aqui livre em nosso peitos
+ Pula impaciente alegria,
+ Porque ao sol de um bello dia
+ Tudo vemos reflorir!
+ Que importa pois que os ministros
+ Resonem no parlamento,
+ E que os homens de São Bento
+ Nem sequer nos façam rir?
+
+ Para nós sorri-se o mundo,
+ Para nós a vida é esta,
+ Hoje festa, amanhã festa,
+ Gloria, encantos, illusões!
+ Junto a nós temos as bellas
+ Mais fragrantes do que as rosas,
+ Longe... o mundo das preciosas,
+ E o mundo dos papellões!
+
+ Eia pois! á formosura
+ Que me cerca neste instante
+ Erga-se a taça escumante
+ De purpurino licor.
+ Vivo enthusiasmo rebente
+ Agora de nossas almas,
+ Caiam palmas sobre palmas
+ Cada vez com mais ardor!
+
+Abril de 1859.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+AQUELLE DIA!
+
+
+ Jámais me ha de esquecer aquelle dia!
+ Do meigo outono a pallida folhagem
+ Inda os troncos do bosque revestia.
+ Sereno estava o ceo; doce a bafagem;
+ De toda a natureza
+ Infinita saudade respirava;
+ Mas por essa tristeza
+ Feliz o coração se dilatava!
+
+ Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança,
+ D'esses dias de amor e de ventura,
+ De paz e de esperança,
+ Se anima, e vê sorrir na noite escura,
+ Um reflexo da estrella resplendente
+ Que uma vez lhe brilhou serena e pura;
+ Inda a sombria nevoa do presente
+ Se rarefaz, se esvai, e se illumina
+ Tudo a seus olhos de uma luz divina!
+
+ Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia!
+ Nem o lento correr de tantos annos,
+ Nem as tardias horas que vieram
+ Depois cheias de amargos desenganos,
+ O encanto desfizeram
+ Da inspirada, divina poesia,
+ Que elle continha em si, que elle nos deu,
+ E nós guardmos como um dom do ceo!
+
+ Era ermo o logar, ermo, mas bello!
+ Profunda a solidão! De quando em quando,
+ Escutava-se o cantico singelo,
+ Da estrangeira avesinha que buscando
+ O sol do nosso inverno,
+ A voz desfalecida ia soltando
+ Com saudades do _ninho seu paterno_.
+
+ No extasi ideal do sentimento,
+ Tu volvias os olhos silenciosa,
+ Para o sereno azul do firmamento;
+ E da boca formosa,
+ Reprimir um suspiro em vão tentavas!
+ É que nesse momento,
+ Exausta a escala do prazer, anciosa
+ Uma nota na dor emfim buscavas!
+
+ Nas nossas almas existia um mundo
+ De indefenito amor;
+ Do pelago profundo
+ Onde ruge o furor
+ Insano, concentrado, atroz, maldicto,
+ D'esta cruenta guerra
+ Das ambições da terra,
+ Nem uma maldição, um som, um grito
+ Nos vinha perturbar!
+ Era a amplidão do ceo, a solidão da serra,
+ Ao longe... a voz do mar!
+ Depois como se a mão da Providencia
+ Inundasse meu ser naquelle instante
+ Da luz de outra existencia,
+ Julguei ter visto a origem fulgurante,
+ De onde provém a chamma
+ D'este immortal amor que nos inflamma!
+
+ Á ideia então da morte
+ Sentia-me sorrir; porque na hora,
+ Que nol-a desse a sorte,
+ Brilhava para nós serena e pura
+ Essa immortal aurora,
+ Que reluz nos umbraes da sepultura!
+ Iriam nossas almas,
+ Já livres de martirio,
+ Colher as flores e mimosas palmas
+ Que vicejam no empyreo!
+
+ Tudo em fim acabou! a noite escura,
+ Envolvera em seu manto aquelle dia!
+ E de tanta poesia
+ Que resta para nós? uma saudade,
+ E a esperança que um dia essa ventura
+ Nossa outra vez será na eternidade!
+
+Agosto de 1858.
+
+
+
+
+XXXIV
+
+PARA RECITAR AO PIANO
+
+
+(Primeira)
+
+ Era no outono quando a imagem tua
+ A luz da lua seductora vi.
+ Lembras-te ainda nessa noite Eliza,
+ Que doce brisa suspirava ali?
+
+ Toda de branco, em tua fronte bella,
+ Rosa singela se ostentava então,
+ Vi-te, e perdido de te ver buscava
+ Se me apartava da gentil vizão!
+
+ Era debalde; quanto mais te via,
+ Mais me perdia delirante amor;
+ Magicas fallas proferiste incerta,
+ Toda coberta de infantil pudor!
+
+ Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo
+ Louco desejo pois fugir-te vi!
+ Vendo-me triste para mim voltaste,
+ Não me fallaste; mas eu bem senti!
+
+ Fresca, arrobada de perfume a brisa,
+ Lembras-te, Eliza? suspirava então;
+ Tu nos meus braços reclinaste a frente,
+ E meigamente me disseste: Não!
+
+Setembro de 1852.
+
+
+
+
+XXXV
+
+
+(Segunda)
+
+ De luz, de encanto, de alegria infinda,
+ Aquelle rosto seductor esplende,
+ Brilha a ventura em sua face linda,
+ E vivo fogo o seu olhar accende!
+
+ Como a existencia para nós é bella
+ Entre a verdura d'esta amena estancia!
+ Aqui suspira a viração singela,
+ E esparge a rosa virginal fragrancia.
+
+ Livres, immunes neste doce enleio,
+ Dos gratos dias do saudoso abril,
+ Ouvir das aves o infantil gorgeio,
+ Gosar da sombra do enredado til...
+
+ Ella a meu lado, sobre os meus cravando,
+ Aquelles olhos cuja densa rama,
+ Agora occulta, logo vai deixando,
+ Brilhar o fogo da traidora chamma!
+
+ Se entro no baile onde o prazer se agita,
+ Eil-a, a formosa, no veloz passar,
+ Louca os seus olhos nos meus olhos fita,
+ E mil affectos me traduz no olhar!
+
+ De luz, de encanto, de alegria infinda,
+ Aquelle rosto seductor esplende;
+ Brilha a ventura em sua face linda,
+ E o ceo no fogo que esse olhar accende!
+
+Abril de 1854.
+
+
+
+
+XXXVI
+
+
+(Terceira)
+
+ Lembras-te, Elisa, quando a face pallida,
+ Da casta lua despontou no ceo,
+ E d'entre a balsa suspirada, e languida,
+ Mavioso canto o rouxinol rompeu?
+
+ Naquella noite em que o perfume vívido
+ De mato agreste rescendia no ar,
+ Em que as estrellas fulguravam timidas
+ Nas doidas ondas do ceruleo mar!
+
+ Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me,
+ Com todo o fogo de infantil paixão,
+ Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_
+ E me apertavas docemente a mão!
+
+ E que eu perdido de ventura olhando-te
+ Da meiga lua ao divinal fulgor,
+ Teu rosto de anjo contemplava estatico,
+ Candida pompa de inspirado amor!
+
+ Nesse momento fervorosa supplica
+ Do intimo d´alma murmuraste a Deus,
+ Que amor, que encanto nos teus olhos humidos,
+ Quando os cravastes na amplidão dos ceos!
+
+ Depois sentada nos degraus de marmore
+ Sombra encantada, celestial visão,
+ Que meigas fallas proferiste tremula,
+ Que mil protestos me juraste então!
+
+ Depois as rosas que animavam vívidas
+ Teu bello rosto, desmaiar eu vi
+ E vaga sombra de tristeza subita
+ Cerrar-me forte o coração senti!
+
+Maio de 1853.
+
+
+
+
+XXXVII
+
+CIUMES DO PASSADO
+
+
+ Quando teu rosto adorado,
+ Da luz do amor se illumina,
+ Resplandecente a meu lado,
+ Não sabes por que anuviado
+ O meu semblante se inclina?
+ Por que um amargo sorriso
+ Pelos meus labios deslisa,
+ Quando teus labios, Luiza,
+ Me proferem anhelantes,
+ Tantos protestos de amor!
+ É que minh'alma se opprime
+ Á lembrança do passado,
+ Em que já outro a teu lado
+ Escutou essas palavras,
+ Que me repetes agora
+ Cada vez com mais ardor;
+ E que esses mordidos beijos
+ Que me perdem de ventura,
+ Dados co'a mesma ternura
+ Já perderam de desejos
+ Neste mundo outro tambem!
+ E tu não sabes, querida,
+ Os zelos que me devoram,
+ Á lembrança que na vida,
+ Já quizeste a mais alguem?!
+
+Janeiro de 1851.
+
+
+
+
+XXXVIII
+
+NUM ALBUM
+
+
+(Improviso)
+
+ Se eu fôsse um vate inspirado,
+ Cantor das rosas singelas,
+ Ah! quantas coisas tão bellas
+ Tinha aqui para dizer!
+ Mas eu tenho horror á brisa,
+ Odio ao prado, odio ás estrellas,
+ E então aos vates das _ellas_
+ Nem sequer os posso ver.
+
+ Tu tambem, posto que a vida
+ Para ti sorria agora
+ Como sorri uma aurora
+ Dos puros dias de abril,
+ Não morres pela açucena,
+ Nem deliras contemplando
+ A lua que vai passando
+ _Pelos vastos ceos d'anil_.
+
+ E inda bem que a Providencia
+ Te livrou de tal abysmo;
+ Ó terrivel romantismo,
+ Quando has de um dia acabar?
+ Eu conheço uma menina,
+ Bella, gentil, seductora,
+ Mas, meu Deus, é tão doutora
+ Que se não pode aturar!
+
+ Arranja umas taes carinhas,
+ Toma umas taes posições,
+ Falla em sonhos e illusões
+ No seu romantico ardor!...
+ Pois é pena, que é bonita,
+ Talvez seja até formosa;
+ Se não fosse _preciosa_
+ Era um ente encantador.
+
+ Se lhe dizem que é feliz,
+ Solta um suspiro profundo,
+ Porque ninguem neste mundo
+ Até hoje a comprehendeu!
+ Salvo um ente idolatrado
+ Porém esse... oh! desventura!
+ Para a fria sepultura
+ Na flor da vida desceu!
+
+ Emfim, se alguem lhe protesta
+ Que inda ha de viver tranquilla,
+ Ergue em extasi a pupilla
+ Pondo a mão no coração!
+ Imagina o desgraçado
+ Que tenha a louca mania
+ De ir batter comsigo um dia
+ Neste abysmo de paixão!
+
+ Oh! Bem hajas tu que és bella,
+ Gentil, graciosa, elegante;
+ A alegria em teu semblante
+ Co'a innocencia anda a saltar:
+ Bem hajas tu que detestas
+ Todos os vates das _ellas_,
+ E as romanticas donzellas,
+ Que andam sempre a declamar!
+
+Janeiro de 1862.
+
+
+
+
+XXXIX
+
+AMOR E DUVIDA
+
+
+ Quando essa pallida frente
+ Por momentos pensativa
+ Cai ás vezes de repente,
+ E se amortece a luz viva
+ Que nos teus olhos resplende,
+ Sinto que est'alma se accende
+ De um fogo, de uma paixão,
+ Que me desvaira a razão!
+
+ A terrivel incerteza,
+ Esta duvida constante,
+ Desapparece um instante!
+ Creio em ti:--foge a tristeza
+ Que todo o meu ser domina;
+ Torno á vida, e livre aspiro
+ Num mundo que se illumina
+ Da encantada luz do amor!
+ Depois, se um flébil suspiro
+ Vem de teus labios á flor,
+ Oh! como então és amada!
+ Como tens aos pés rendida
+ Toda a força d'esta vida
+ Que por ninguem foi domada!
+
+ Mas é só por um instante!
+ Volta depois a incerteza,
+ Quando assume o teu semblante,
+ Aquella glacial frieza,
+ Que desalenta, que opprime,
+ Que faz profunda tristeza,
+ E destroe quanto é sublime!
+
+ Um dia no firmamento
+ O sol vívido brilhava,
+ E a aragem com brando alento
+ Entre as ramas suspirava!
+ Era ali, naquelle val,
+ Que parece destinado,
+ Para esconder na espessura
+ Os segredos da ventura!
+
+ O coração agitado
+ Nesse instante te pulsava,
+ E uma tristeza mortal
+ O semblante te anuviava.
+ Allucinado buscava
+ A causa d'onde nascia,
+ Quando um gesto, uma expressão
+ Me disse que eu só podia
+ Tirar-t'a do coração!
+ Sem mais ver, nem mais pensar
+ Com que delirio a teus pés
+ Me viste rendido então!...
+ Quem podia duvidar
+ Vendo a ingenua timidez
+ Do teu inspirado olhar?!
+ Os labios não revelaram
+ O que havia em nossas vidas,
+ Mas as vistas confundidas
+ Com que eloquencia fallaram!
+ Chegára a noite; do ceo
+ Vi scintillar uma estrella;
+ Era brilhante, e era bella,
+ Mas um presagio mortal,
+ Um cruel presentimento
+ Me disse nesse momento:
+ Não fites os olhos nella,
+ Porque essa luz é fatal.
+ Amanhã, espesso veo
+ de nuveus ha de envolvel-a;
+ E se de novo surgir
+ Será para te illudir.
+
+ E esta duvida cruel
+ Este constante hesitar
+ Quem m'o pode terminar
+ Quem, senão um teu olhar?
+
+Junho de 1859.
+
+
+
+
+XL
+
+NUM ALBUM
+
+
+ Não vês tu como inconstante
+ Num instante,
+ Ruge o sul, e turba o ceo,
+ E que o mar, quedo, azulado,
+ Brame irado,
+ Sacudindo alto escarceo?
+
+ Não tens visto na manhã,
+ Flor louçã,
+ Junto ás aguas rebentar,
+ E á tarde, murcha, pendida,
+ Já sem vida,
+ Sem perfume, a desfolhar?
+
+ Pois então queres, amiga,
+ Que eu te diga
+ Que o amor não é assim?
+ Quando tudo empallidece,
+ Se emmurchece,
+ Se desbota, e morre emfim?!
+
+ Essas illusões doiradas,
+ Encantadas,
+ Do primeiro albor da vida,
+ São como a rosa louçã,
+ Da manhã,
+ Á tarde n'haste pendida;
+
+ São como o ceo azulado,
+ Que doirado
+ Pelo sol de ameno dia,
+ Se escurece de repente
+ Tristemente
+ Por uma nuvem sombria!
+
+ E tu não queres, amiga,
+ Que eu te diga
+ Que o amor não é assim?
+ Quando tudo empallidece,
+ Se emmurchece,
+ Se desbota, e morre emfim?!
+
+Agosto de 1848.
+
+
+
+
+XLI
+
+SE CORAS NÃO CONTO.
+
+
+ Tu queres que eu conte um sonho que tive
+ Não sei se acordado, não sei se a dormir?
+ Foi todo singelo, foi todo innocente:
+ Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?
+
+ Não córes, escuta, não fujas de mim,
+ Que o sonho foi sonho de casta paixão:
+ Já crês, não duvídas, verás como é lindo
+ O sonho innocente do meu coração:
+
+ Eu via em teus labios um meigo sorriso,
+ Em tens olhos negros um terno mirar,
+ Teu seio de neve a arfar docemente,
+ Sentia nas faces o teu respirar.
+
+ E tu não fallavas, mas eu entendia;
+ E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
+ Amor! na minh'alma a voz me dizia,
+ E um beijo na fronte não sei se o senti.
+
+ Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
+ O resto eu te conto; como has de gostar!
+ É todo singelo, de amores somente;
+ Verás que ao ouvil-o não has de córar.
+
+ Depois apertando teu corpo flexivel,
+ Cingindo teu collo no braço a tremer,
+ Ouvi uma falla, e o que ella dizia
+ Agora acordado não posso eu dizer.
+
+ Não posso contar-te, só pude sentil-a;
+ Não posso contar-t'a senão a sonhar:
+ No sonho innocente, no sonho d'amores,
+ Do qual, duvidosa, julgavas córar.
+
+ Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
+ O que ella dizia se póde entender;
+ Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
+ E agora acordado a não posso esquecer.
+
+ Mas tu porque escondes a face córada?
+ Não tem nada o sonho que faça córar,
+ É todo singelo, é todo innocente;
+ Que importa um abraço, se é dado a sonhar?
+
+ Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
+ Não quero offender-te a casta isenção;
+ Não torno a contar-te depois de acordado
+ O sonho innocente do meu coração.
+
+Janeiro de 1847.
+
+
+
+
+XLII
+
+ANJO E VIRGEM.
+
+
+ Virgem, que era o que sentias
+ Quando ao vento desferias
+ Essas frouxas harmonias
+ De um incerto murmurar?
+ Virgem, que era o que sentias
+ Teu santo seio agitar?
+
+ Achavas o mundo um ermo,
+ Onde ao coração enfermo
+ Dos horisontes sem termo
+ Não vinha uma aura de amor?
+ Achavas o mundo um ermo,
+ Fertil só de fel e dor?
+
+ Ou teu suspirar sentido
+ Era por ver desmentido
+ De amor o sonho querido,
+ Que sonhaste, alma gentil?
+ Ou teu suspirar sentido
+ Foi dor ligeira, infantil?
+
+ Era o teu anjo innocente
+ Que passára mansamente
+ A sorrir divinamente,
+ Mas que outra vez não volveu?
+ Era o teu anjo innocente,
+ Que víras subir ao ceo?
+
+ E ficaste pensativa
+ Sobre esta terra captiva
+ D'esperança, e d'amor esquiva,
+ Coberta com veo de dó;
+ E ficaste pensativa
+ Ao ver-te perdida e só.
+
+ Oh! esse tenue gemido
+ Do seio teu despedido,
+ Qual anhelito sumido
+ Que a morte veiu cortar,
+ Oh! esse tenue gemido,
+ Que não pudeste occultar...
+
+ Foi longo adeus de saudade
+ Aos dias da tenra edade,
+ Que envoltos na eternidade
+ Ligeiros viste fugir;
+ Foi longo adeus de saudade
+ Ao teu primeiro sorrir!
+
+ Do ceo á terra baixaste,
+ E quando nella te achaste,
+ Tristemente suspiraste
+ Ao ver-te perdida e só;
+ Do ceo á terra baixaste,
+ Á terra de pranto e dó.
+
+ Virgem, virgem, mal pensavas,
+ Quando triste suspiravas,
+ E num gemido enviavas
+ Longo e doloroso adeus;
+ Virgem, virgem, mal pensavas
+ Que eras um anjo de Deus.
+
+Março de 1849.
+
+
+
+
+XLIII
+
+A M.ME LOTTI
+
+
+Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo
+de infancia desvallida.
+
+ Canta oh! canta alma inspirada,
+ Que jámais na tua vida
+ Tiveste a fronte cingida
+ Dos loiros que hoje vais ter.
+ Canta: os prantos da orfandade,
+ Á tua voz seductora,
+ Se vão convertendo agora
+ Em sorrisos de prazer!
+
+ Oh! jámais em teus triumphos
+ Quando erguendo o rosto altivo,
+ A teus pés tinhas captivo
+ O poder da multidão,
+ Jámais sentiste no peito
+ Entre o rumor delirante,
+ Batter, como neste instante,
+ De enthusiasmo o coração!
+
+ Cada nota que desprendas
+ Terá um eco no empyreo,
+ Por que as palmas do martyrio
+ Em rosas vais transformar.
+ Oh! bem haja a Providencia
+ Que na tua voz divina
+ Poz a graça que fascina,
+ E o condão de consolar!
+
+ Quando no giro brilhante
+ Da tua crescente gloria,
+ Te venha um dia á memoria
+ Esta noite triumphal,
+ Pára, escuta, e docemente
+ Sentirás no teu ouvido,
+ Um murmurio agradecido
+ De ternura filial.
+
+ São elles os desherdados,
+ Os que já sem lar paterno
+ Erguem preces ao Eterno,
+ E bençãos por teu amor;
+ São elles a quem um dia
+ Com teu inspirado canto
+ Tornaste em sorriso o pranto,
+ Em pura alegria a dor!
+
+1860.
+
+
+
+
+XLIV
+
+PRIMAVERA
+
+
+ Contempla este ceo esplendido,
+ Ouve aquellas melodias
+ De tanta ingenua avesinha,
+ Que alegre, os serenos dias
+ Da primavera adivinha.
+
+ Não vês a olaia? vaidosa!
+ Só por vêr que a amendoeira,
+ Mais cedo desabrochou,
+ Vermelha como uma rosa,
+ De repente se tornou.
+
+ Oh! bem vinda primavera!
+ Ao vêr o sorriso terno
+ Da tua boca divina,
+ O prado, o monte, a campina,
+ Que o triste e gelado inverno
+ Sem piedade devastou,
+ Num momento se animou!
+
+ Em teu regaço a abundancia,
+ Esperançosa floresce;
+ Á sombra de teus verdores,
+ Entre a suave fragrancia
+ De tuas variadas flores,
+ Contente o pobre adormece.
+
+ E tu, minha vida, ao vêr-te
+ Sósinha a meu lado agora,
+ Nesta estação, nesta hora,
+ Neste encantado logar,
+ Á sombra d'essa verdura
+ Onde frouxa a luz desmaia,
+ Ante o mar que além suspira
+ Na loira areia da praia,
+ Não vês que a razão delira,
+ Que dentro do coração
+ Não cabe tanta ventura?!
+
+ Falta a vida, sim, a vida,
+ Para esta alegria immensa,
+ Das nossas almas, querida!
+ Viva, ardente, pura, intensa,
+ Nesses olhos brilha a chamma
+ Do amor que tua alma incerra;
+ Alma que ao sopro de Deus
+ Em divino amor se inflamma,
+ Alma que veiu dos ceos,
+ E que não cabe na terra.
+
+ Fugaz, tranzitorio, vão,
+ Será para nós o encanto
+ Que nos enche neste instante
+ De ventura o coração?
+
+ Será! que importa? constante
+ Virá depois a saudade,
+ Abraçar essas memorias
+ De infinda felicidade;
+ Como ao templo aonde as glorias,
+ De paz, de amor, de alegria,
+ Se celebraram um dia,
+ Mas templo que ao chão tombou,
+ Se abraça a hera viçosa,
+ Reveste as pobres ruinas,
+ Amparando carinhosa
+ Esse resto que ficou!
+
+ Uma lagrima extremece,
+ Vem de teus olhos á flor!
+ Minha vida, esquece, esquece,
+ Que póde haver na existencia
+ Momentos de acerba dor!
+ O sopro da Providencia,
+ Vivo está, vivo respira,
+ Neste ceo desassombrado,
+ Na corrente que suspira,
+ Neste cantico inspirado,
+ Que as aves soltam no val,
+ E d'elle provém a essencia
+ Do nosso amor immortal!
+
+ Contempla o vasto horisonte
+ Que o sol vivido illumina;
+ Olha as flores da campina;
+ Escuta as aguas da fonte;
+ Respira esta aragem pura,
+ Embalsamada, e suave;
+ Ouve o cantico d'essa ave,
+ Que improvisa na espessura!
+
+ Recolhe n'alma o perfume,
+ D'esta encantada poesia.
+ D'este sol, d'esta alegria,
+ Que em torno de nós fulgura,
+ E responde, minha vida,
+ Se a nossa alma neste instante
+ Póde com tanta ventura!
+
+Abril de 1856.
+
+
+
+
+XLV
+
+VOLTAS
+
+
+(Improviso)
+
+ Entre as flores da campina
+ Correm uns certos rumores.
+ Que tu, rosa purpurina,
+ És a inveja das mais flores.
+ F. C. M.
+
+ És rosa, bem vês; o aroma
+ Que do teu seio rescende,
+ A cor que a folha te accende,
+ A inveja que ao rosto assoma
+ De todas as outras flores,
+ Não t'o diz, quando no prado,
+ Aos primeiros resplendores
+ Do sol que tem despontado,
+ Ergues a fronte singela,
+ Mas ah! quão graciosa e bella?!
+
+ O lyrio que á sombra nasce,
+ Quando te sente e te aspira,
+ Não sabes como delira!!
+ Não tens visto tanta vez
+ Naquella timida face
+ Redobrar a pallidez?
+ E o rouxinol namorado
+ Que, assim que a lua derrama
+ Seu doce clarão no val
+ Por entre a viçosa rama,
+ Desprende a voz immortal
+ Improvisando inspirado
+ O seu hymno nupcial
+ Á noiva que Deus lhe ha dado!
+
+ Por quem suspira anhelante?
+ Por quem trémulo se inclina
+ Sobre a veia cristalina?
+ Quem procura nesse instante?
+ --És tu, rosa purpurina!
+
+ És tu, sim; porém a cor
+ Que tinhas tão viva outr'ora,
+ Porque a vais perdendo agora?
+ Dize, oh rosa, a occulta dor
+ Que te faz tão tristemente
+ Pender a encantada frente!
+
+ Agora entre as outras flores
+ Correm uns certos rumores...
+ Quaes são, não sei; mas ouvi
+ Que as mais bellas da campina
+ (Por quem és tão invejada)
+ Quando hoje chamam por ti,
+ Dizem--rosa namorada,
+ E não--rosa purpurina.
+
+12 de Maio de 1860.
+
+
+
+
+XLVI
+
+LELIA
+
+
+ O POETA
+
+ Musa: o dia rompeu chuvoso e frio,
+ Eu não tenho um real, nem tu tão pouco,
+ Que és pobre como Job; por conseguinte
+ Que havemos de fazer?
+
+ A MUSA
+
+ Ficar em casa,
+ Discutindo as miserias d'este mundo.
+ Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta,
+ Em que estás a pensar?
+
+ O POETA
+
+ Numa aventura.
+
+ A MUSA
+
+ Não se póde contar?
+
+ O POETA
+
+ De certo póde.
+
+ A MUSA
+
+ Nesse caso aproxima-te do lume,
+ Accende este charuto, e principia.
+
+ O POETA
+
+ Ha dois annos, um dia, ou mais exacto,
+ Uma noite em que a lua resvalava
+ No firmamento azul, em que os modilhos
+ Do inspirado cantor da primavera
+ D'entre a balseira em flor se desprendiam,
+ Achava-me aspirando a branda aragem
+ Sentado no portal de uma vivenda
+ Da modesta apparencia, e collocada
+ Num sitio encantador. Naquella noite,
+ De que me hei de lembrar eternamente,
+ Tinham vindo esperar-me de emboscada
+ Alguns contrabandistas do parnazo,
+ D'entre os quaes destacava a face lívida
+ De certo esguio e pesaroso vate
+ Que te inspira notavel sympathia.
+ Fugi! elles ficaram declamando
+ As primeiras estrophes de uma nenia!
+
+ Vinha rompendo abril: como já disse,
+ Sereno estava o ceo, doce a bafagem,
+ E a rosa, a favorita, a bella noiva,
+ Por quem o rouxinol desde a alvorada
+ Solta a voz em prodigios de harmonia,
+ Corando abria o pudibundo seio
+ Aos doces carmes do adorado amante.
+
+ Passado pouco tempo esta cabeça
+ Começára a enredar-se em mil chimeras.
+ De repente uma voz sonora e fresca
+ Chegara ao meu ouvido. Era tão simples,
+ Tão suave, tão meiga a melodia,
+ Tão infantil a voz! Voltei os olhos,
+ E descobri um vulto na janella.
+ Que figura ideal! alta, mas fragil,
+ Como hastesinha de um arbusto novo.
+ A innocencia e virtude respiravam
+ Naquelle rosto candido e formoso.
+ Numa das mãos firmada a face tímida,
+ E na outra a madeixa loira escura
+ Que vinha em pittoresco desalinho
+ Espargir-se nos hombros de alabastro.
+
+ Como o cantor da selva que inspirado
+ Improvisava no florido bosque,
+ Cantava ella tambem; ave innocente,
+ Juntava mais um trilo ao hymno eterno,
+ Que aos pés de Deus a natureza erguia.
+ Oh! quão feliz seria quem no mundo
+ Alcançasse as primicias d'aquella alma!
+ Lembrei-me de as colher, e decidi-me
+ A apparecer-lhe no seguinte dia.
+ Com effeito assim fiz.
+
+ Era sol posto:
+ Cançada de correr pela campina,
+ Tinha vindo sentar-se pensativa
+ Nos degraus de uma cruz que se elevava
+ No adro estreito de modesta ermida.
+ Chegava emfim ess'hora em que saudosa
+ A mente se dilata em magos sonhos;
+ Hora em que alma absorta em gostos intimos
+ Perde a consciencia do exterior da vida.
+ Diversas nuvemsinhas esmaltavam
+ Para o lado do poente o firmamento.
+ O bronze deu signal d'_Ave-Maria_.
+ Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos
+ Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios
+ A singela oração; passado instantes,
+ A pomba estremeceu, mas de alegria.
+ A viva chamma de amoroso affecto
+ Brilhou no puro azul d'aquelles olhos,
+ Quando nos meus attentos se fitaram;
+ E um sorriso de angelica ternura
+ Entreabrira os seus labios purpurinos.
+ Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve,
+ Que estremeciam apertando as minhas,
+ E pronunciei mansinho estas palavras:
+
+ --«Sim, sou eu, que tu tens visto,
+ Tanta vez naquelles sonhos
+ Bellos, candidos, risonhos,
+ Da tua idade infantil.
+ És minha. Sou teu. A vida
+ Para nós vai ser agora
+ Mais alegre do que a aurora,
+ Mais florída do que Abril!
+
+ Oh! que longas confidencias
+ Nos esperam nestes prados!
+ Que dias tão descuidados!
+ Que instantes de tanto amor!
+ Buscando ao crescer do dia
+ Entre o bosque a sombra densa,
+ Sentindo a alegria immensa
+ Do sol, do campo e da flor!
+
+ És minha: do ceo proveiu
+ O poder que a ti me prende,
+ Mas diverso fogo accende
+ O teu e meu coração:
+ Tu no mundo és a innocencia,
+ Eu sou na terra a poesia;
+ Tu dás-me a tua alegria,
+ Eu dou-te a minha paixão!
+
+ Dou-te as sombras da tristeza
+ Que acertam sobre teu rosto,
+ Como as sombras do sol posto
+ Na rosa agreste do val.
+ Recebes num meigo abraço
+ Meu profundo sentimento,
+ E dás-me o contentamento
+ Do teu seio virginal.»--
+
+ Indisivel prazer brilhou nas faces
+ Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas
+ Que ancioso proferi, e com ternura
+ Disse, cravando em mim seus olhos bellos:
+
+ --«Orphã de paes, só tenho neste mundo
+ Apenas uma irmã; nós habitamos
+ Naquella casa que d'aqui se avista
+ Entre a verdura d'esse val ameno.
+ Já mil vezes em sonhos encantados
+ Eu ouvi tua voz, vi tua imagem.
+ Agora emfim és meu e para sempre.
+ Não é verdade? dize.»--perguntava
+ Com extremo, firmando-se ao meu braço.
+
+ Os pallidos clarões do astro saudoso
+ Despontavam no ceo; por entre as ramas
+ A aragem susurrava brandamente,
+ E o rouxinol occulto nas balseiras
+ Soltava algumas rapidas volatas,
+ Experimentando a voz que dentro em pouco
+ Iria improvisar o hymno da noite.
+ Caminhámos ao longo da alameda
+ Que terminava em frente da vivenda
+ Onde Lelia (era este o nome d'ella)
+ Passára os dias da ditosa infancia.
+ Á entrada do portal dei de repente
+ Com a vista no pallido semblante
+ De uma bella mulher. Cumprimentei-a.
+ Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.
+
+ --«É Julia, minha irmã»--me disse Lelia.
+ Segundei um rasgado cumprimento,
+ A que ella respondeu com a gentileza
+ De uma senhora de elevada classe.
+ Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço,
+ E acceitei promptamente este convite,
+ No que fiz um chapado disparate!
+
+ «Tibia luz, temperada para amantes,»
+ Illuminava uma pequena sala,
+ Onde o luxo e bom gosto respiravam.
+ Em primeiro logar é necessario
+ Que eu te faça um retrato a largos traços
+ (Como agora se diz) da encantadora
+ E provocante dona d'essa casa,
+
+ Era alta, sorriso malicioso,
+ Boca fresca, e vermelha como a rosa,
+ (É velha a imagem mas é sempre boa!)
+ Cabello basto, fino, muito escuro,
+ Olhos da mesma cor, e quasi sempre
+ Por doce morbidez meio cerrados.
+ Quando porém ás vezes dardejavam
+ Por entre a negra sombra das pestanas
+ Um só raio da luz que os inflammava...
+ Ai d'aquelle que ousava descuidado
+ Mirar de leve essa traidora chamma!
+
+ Que te direi do pé pequeno e curvo,
+ Que na estreita prisão de uma botinha
+ De setim preto estava clausurado?
+ Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra
+ A poesia da lua e das estrellas,
+ Do Tejo de cristal, da mansa brisa,
+ De tudo o mais que tenho por mil vezes,
+ Estafado em mau verso e peior prosa,
+ Para só contemplar os mil encantos,
+ Que tinha aquelle pé!
+
+ E a pobre Lelia,
+ A meiga apparição que nos meus braços
+ Tinha vindo entregar-se sem receio,
+ Onde estava? calada e pensativa,
+ Contemplando o meu rosto, onde subia
+ O sangue accezo em ondas de desejos.
+
+ Em presença d'aquella peccadora,
+ Esqueceu-me de todo o sentimento
+ Que me inspirára o anjo de innocencia.
+ Sou poeta; bem sabes que os poetas
+ Não são de certo os entes mais constantes!
+ Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo
+ Podera resistir? Se nesse instante
+ A visses no _fauteuil_ reclinada!
+ O vestido entre _roxo e cor de rosa_,
+ Apesar da invasão das _crinolines_,
+ Deixava perceber divinas fórmas.
+ No cabello uma rosa perfumada,
+ E no turgido seio, que ondulava
+ Atravez da finissima cambraia,
+ Viçoso ramo de singelas flores.
+
+ Ella viu a impressão que produzira
+ No pobre peccador que a contemplava,
+ E descerrando a boca num sorriso
+ Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios,
+ E a eloquencia do olhar disse-me tudo.
+
+ Pouco a pouco nas faces desmaiadas
+ Se accendêra o rubor; nos olhos negros
+ Scintillou por instantes uma lagrima,
+ «Precursora de languido deliquio».
+ Meiga, sonora então, como seria
+ A voz do archanjo que descesse á terra,
+ Junto a mim murmurou a voz de Lelia:
+
+ --«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio,
+ Á mesma hora, de novo nos veremos;
+ Vou resar a oração que me ensinára,
+ Minha mãe quando eu era pequenina.
+ Vou resal-a por ti!»--Oh! por instincto;
+ A innocencia fugia do peccado.
+ Quiz seguil-a tambem, mas por encanto,
+ Por encanto fatal, senti-me preso
+ Ao supremo poder d'aquelles olhos
+ Que nos meus se reviam com ternura.
+
+ De novo aquelle pé que me perdera,
+ Se firmou num pequeno tamborete,
+ E d'essa vez deixando a descuberto,
+ Um fragmento de perna, que faria
+ Morrer de desespero uma andaluza.
+
+ Esvaeceu-se então completamente
+ A meus olhos o anjo da candura,
+ Das commoções divinas, da virtude,
+ E achei-me só, perdido, face a face
+ Ante o demonio das paixões terrestres!
+ Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo
+ De desejo e de amor fugir a vida.
+
+ Quando a razão voltou, como o murmurio
+ Da fresca viração da primavera,
+ O sopro perfumado de seus labios
+ Vinha affagar-me docemente a fronte.
+ Os anneis do cabello ondado e negro,
+ Espargindo-se, avaros procuravam
+ Occultar-me da vista aquelle seio!
+ Impaciente os affasto devorando,
+ Num beijo, em mil, um mundo de delicias!
+ Oh! como então no peito me pulava
+ O coração vaidoso e triumphante!
+
+ No languido quebranto que succede
+ Ao febril desvario dos sentidos,
+ Julia estava a meu lado; amortecida,
+ Por entre densa rama das pestanas,
+ Partia a luz das languidas pupillas.
+ Desmaiára de amor a rosa esplendida,
+ E voltava de novo áquella face,
+ A pallidez do lyrio das campinas.
+
+ Abatida e indolente, erguêra a fronte;
+ Caminhámos os dois para a janella:
+ Os primeiros clarões da madrugada,
+ Vinham rompendo já no firmamento.
+ Chegava emfim a hora, era forçoso
+ Dizer adeus á seductora imagem!
+
+
+ II
+
+ ...................................
+ ...................................
+ ...................................
+ Casta filha do ceo, pura innocencia,
+ Como o sorriso alegre de teus labios
+ Me torna aos dias da ditosa infancia,
+ E me faz existir algumas horas
+ No doce enlevo de passados sonhos!
+
+ Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa,
+ Nas agruras da terra, eu te contemplo
+ Com viva compaixão! Tão facilmente
+ Se evapora o perfume de teu seio,
+ Se perde o viço de teu meigo rosto!
+ Caes subito no chão pallida e triste!
+ E porque? porque o sopro envenenado
+ Do mundo te crestou. Alheia ao crime,
+ És fulminadada pelos crimes de outros!
+
+ Eram estes, ó musa, os pensamentos
+ Que vinham em tropel ao meu espirito,
+ Quando estava disposto a dirigir-me
+ Ao sitio que na vesp'ra me indicára
+ A ingenua irmã da tentadora Julia.
+ Começava a morder-me na consciencia
+ O remorso de haver atraiçoado
+ Aquelle anjo de amor e de candura.
+ Nisto sinto parar um trem á porta;
+ Olho, e vejo saltar de uma caleche,
+ Elegante e veloz como a gazella,
+ A minha irresistivel peccadora.
+ Quantos protestos até'li fizera,
+ Só com sentir-lhe a voz se evaporaram!
+ Corro á porta, ella sóbe, e com ternura
+ Aos meus tremulos braços se arremeça:
+
+ --«Tardavas tanto!... as horas d'este dia
+ Não terminavam nunca!... vim buscar-te;
+ Perdoa se fiz mal; mas o desejo
+ De te ver e abraçar era tão forte...
+ Vamos dar um passeio pelo campo,
+ E depois... serás meu, e eu serei tua!»--
+
+ Terminado este rapido discurso,
+ Mas cabal, eloquente, e peremptorio,
+ Peguei no meu chapeo, e em continente
+ Descemos e partimos na caleche.
+ Não podes duvidar que possuia
+ A mais commoda amante d'este mundo.
+
+ Quando o carro passou pelo Chiado,
+ Mais de vinte lunetas se assestaram
+ A um tempo sobre nós; e é bem provavel
+ Que mais de vinte bocas honradoras
+ Me ficassem na sombra remordendo;
+ Tanto melhor; é bom ser invejado.
+
+ Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando,
+ Illuminava de clarões suaves
+ O firmamento azul; nos verdes prados
+ A flor estremecendo de alegria
+ Aos doces beijos da travessa aragem,
+ Como offrenda enviava ao ceo propicio
+ A pura essencia do virgineo seio.
+
+ Scintillava o prazer nos olhos negros
+ Da mulher que apesar de peccadora
+ Era bella, oh! tão bella como os anjos
+ Que o tentador Satan despenha ao mundo!
+ Formosuras fataes qu'inda conservam
+ Na fórma o que é do ceo para illudir-nos!
+
+ Ai de nós se encarâmos descuidados
+ A morbida expressão de certas frontes,
+ Onde a candura nos occulta o crime!
+
+ Alva era a face da elegante Julia;
+ Vivo o rubor que lhe animava os labios;
+ Adoravel a tinta fugitiva
+ Que lhe tocava levemente as palpebras;
+ Muda a boca; no olhar toda a eloquencia!
+
+ Entrámos na allameda. Era sol posto.
+ Ao chegarmos á porta, appareceu-me
+ Um personagem que d'ali saía,
+ Baixo, gordo, roliço, impertigado,
+ Sorriso de barão, cara opulenta,
+ E ar de um homem contente de si proprio.
+
+ --«É de certo barão ou brasileiro.»--
+ --«Brasileiro e barão»--disse-me Julia.
+ --«Visita d'esta casa ha muito tempo?»--
+ --«Ha muito tempo sim»--respondeu ella
+ Com certa hesitação--«Não lhe fallaste?»--
+ --«Felizmente escapei de tal desgraça!»--
+
+ Subi; cheguei á sala; ella deixou-me
+ Por algum tempo só junto á janella.
+ Sentei-me a respirar o vivo aroma
+ Da fresca viração da noite amena.
+ Mudára tudo em mim completamente:
+ Resfriára-se o fogo dos desejos,
+ E o sentimento despontava n'alma!
+
+ Vaporosa, ideal, dentro de pouco
+ A meus olhos surgíra uma figura
+ Cuja forma gentil me arrebatava!
+ No purissimo azul dos olhos castos,
+ Tremiam, scintillando, algumas lagrimas;
+ O sorriso, gelado á flor dos labios,
+ Como gela o sorriso da virtude
+ Quando pára assustada ante o peccado.
+ Tirando a corôa de virgineas flores,
+ Que lhe cingia a fronte immaculada,
+ Olhára para mim! Oh! Deus supremo!
+ A expressão d'esse olhar era a do anjo
+ Ao contemplar um infeliz na terra!
+ Depois, soltando a voz, estas palavras
+ Com doçura e tristeza proferíra:
+
+ --«Parto, e deixo-te no mundo!
+ Fujo, timida innocencia,
+ Ouvindo o rumor profundo
+ D'esta agitada existencia!
+
+ Vi-te um dia; era na hora
+ Em que a briza é mais saudosa,
+ Em que a luz do sol descora,
+ E dá mais perfume a rosa!
+
+ Est'alma toda candura,
+ Á tua alma se rendia;
+ E com que immensa ternura
+ Os teus protestos ouvia!
+
+ Protestos de um coração
+ Que sem susto, e sem tremor,
+ Respondia co'a traição
+ Ás provas do meu amor!
+
+ A grinalda qui'inda vês
+ Nesta fronte desbotada,
+ Vai cair-te em breve aos pés,
+ Mas vai cair desfolhada!
+
+ Na minha ingenua innocencia,
+ Aspiro tambem ao ceo,
+ Como aspira a grata essencia
+ Da flor que no val nasceu!
+
+ Fragil flor que em pura aurora,
+ Vendo o sol sorrindo, amou;
+ Mas d'esse amor numa hora
+ O vivo fogo a matou!»--
+
+ A voz emmudeceu. O olhar sereno
+ Sobre mim se cravou com mais ternura!
+ Era Lelia, ou seria a imagem d'ella
+ Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados?
+ Tudo era incerto e vago no meu animo,
+ Como é vaga a impressão d'um bello sonho!
+ Aureola de luz resplandecente
+ Veiu então inundar aquella fronte.
+ Reconheci emfim, oh! era Lelia,
+ Que desprendêra a voz, que proferíra
+ Com tão profundo affecto aquellas fallas!
+ A seus pés nesse instante allucinado
+ Num extasi de amor me precipito,
+ Repetindo anhelante estas palavras:
+
+ --«Resurge outra vez das sombras
+ Da tristeza em que vivia
+ Est'alma, é toda alegria,
+ Volve á tua alma infantil.
+ És minha. Sou teu. A vida
+ Para nós vai ser agora
+ Mais risonha do que a aurora,
+ Mais florída do que abril!
+
+ Oh! se um dia, desvairado,
+ Ouzei trair-te, innocente,
+ Como o remorço pungente
+ Te veiu depois vingar!
+ Como agora, arrependido,
+ O meu coração procura
+ Dar-te emfim quanta ventura,
+ Quanto amor se pode dar!»--
+
+ Nesse momento uma infernal risada
+ Me fez estremecer. Subito acordo
+ Da suave impressão do mago sonho,
+ E que vejo ante mim?! uma figura
+ Ironica e fatal! Era o Diabo!
+ Tranzido de terror em vão procuro
+ Meus olhos desviar d'aquelles olhos,
+ Cuja sinistra luz me fascinava!
+ Suspendendo na mão livida e fria
+ A mesma c'roa de virginias flores,
+ Que eu tinha visto na graciosa fronte
+ Da celeste visão que me encantára,
+ Disse emfim com satanica ironia:
+ --«Olha: é esta a grinalda immaculada,
+ Da tua ingenua e seductora Lelia!
+ Agora, aqui a tens; custou cem libras,
+ Não ha muito, ao rotundo brasileiro
+ Que viste á porta d'esta nobre casa!
+ Julia commigo contractára a venda.
+ Se vens mais cedo um'hora inda podias
+ Das garras do falcão salvar a pomba!»--
+
+ Não ouvi nada mais: tinha perdido
+ A consciencia da vida nesse instante!
+
+ Quando, e como acordei d'aquelle estado,
+ Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos
+ O espirito infernal se convertêra
+ Na figura gentil de um bello moço
+ Alto, airoso, elegante, e delicado.
+ --«Olha bem para mim, tornou sorrindo;
+ Inda te inspira horror o meu aspecto?
+ Já vês, meu caro amigo, que o Demonio
+ Não é sempre tão feio como o pintam.»--
+ --«_Vade retro Satan_»--disse eu, buscando
+ Uma pequena cruz que havia muito
+ Costumava trazer pendente ao peito,
+ E já forte de mim ia mostral-a,
+ Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde
+ A mão fallaz de Julia m'a roubára.
+ Puz os olhos no chão desalentados;
+ O remorso cruel naquelle instante
+ A turvada consciencia me pungia!
+ --«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta!
+ Olha em roda dos teus, encara o mundo,
+ Como o deve encarar quem tem bom senso.
+
+ Eu cheguei de Paris, e tinha medo
+ De perder o meu tempo nesta terra;
+ Mas, ah! que me enganei! tenho comprado
+ Um par de figurões quasi de graça!
+ Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva,
+ Nunca tens um real, ó desgraçado!
+ Não faças versos mais; faze politica;
+ Improvisa um jornal; morde, abespinha,
+ Sem consciencia e sem dó, a honra alheia!
+ Hoje quiz apalpar a culta imprensa,
+ Famosa instituição que me tem dado
+ Ha tempos para cá milhares d'almas.
+ Entre um grupo de illustres publicistas,
+ Quasi todos catões, foi-me indicado
+ O primeiro catão dos nossos dias.
+ Uma palavra só fôra bastante
+ Para tudo explicar entre nós ambos.
+ Homem da situação, ou mais exacto,
+ Homem das situações, sabe de quanto
+ Se agita em torno a si nesta republica.
+ O que mais me espantou foi que no mundo
+ Podesse haver mortal tão venturoso!
+ Pasmam todos ao vêr o que elle come
+ Desde a meza do opr'ario á meza opipara,
+ De opulento negreiro ou potentado
+ De mais alto valor se acaso existe!
+ Póde zumbir a inveja em volta d'elle,
+ Morder-lhe a fama a cavilosa intriga,
+ Exaltado rugir o odio implacavel,
+ Nada d'isto consegue perturbal-o,
+ Nem cortar-lhe o seu acto digestivo!
+ É nedio, é luzidiu, é recebondo,
+ Como um gallo capão! Perdoa a imagem.
+ Crava os olhos attentos neste exemplo
+ De solida moral; segue as pizadas
+ Deste egrejeo varão, e eu te asseguro
+ Que has de em breve alcançar um nome illustre.
+ Tudo agora me corre ás maravilhas;
+ Nunca pensei que em terra tão pequena
+ Se podessem fazer tão bons negocios.
+ Hoje fui contratar com certa empreza
+ De um moderno jornal que se atirava,
+ Como lobo esfaimado, ao ministerio.
+ Era o mimo, era a flor, era o portento
+ Da incorrupta e briosa mocidade!
+ Essa, comprei-a então por attacado;
+ Escaparam só dois, pobres diabos,
+ Que nunca hão de passar da cepa torta!
+ Que dia tão feliz! a toda a pressa
+ Fui depois assistir ao desembarque
+ De um nobre titular, victima imbelle,
+ Do veneno infernal da torpe inveja.
+ O honrado cidadão vinha entregar-se
+ Nas mãos severas da imparcial justiça.
+ Fazia gosto vêr a comitiva
+ Dos invictos heroes que o circundavam.
+ Algum ranço burguez inda entre dentes
+ Se atrevêra a dizer que não passava
+ De um cadímo ladrão o illustre conde;
+ E se eu não chego a tempo, era filado
+ Quando saltasse ao caes por quatro guitas.
+ Vê tu pois quanto póde o meu imperio!
+ Com raras excepções, a livre imprensa
+ Não soltou nem sequer uma palavra!
+
+ É tempo de voltar á bella Julia:
+ Esta linda mulher era beata
+ Da esplendida edicção que existe agora.
+ Encontrei-a uma vez num dia santo
+ De grande devoção, quando acabava
+ De pôr aos pés de um padre os seus peccados.
+ Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo,
+ A singela espressão d'esta innocente,
+ Soprou-me o fogo de infernaes desejos.
+ Como vês, é distincto o meu aspecto,
+ E apesar do terror que ao mundo inspiro,
+ Muitas mulheres ha que intimamente
+ Se agradam mais de mim que dos janotas.
+ Oh! que austeras virtudes nesse dia
+ Me caíram nas mãos! Lelia, embebida
+ Nas suas orações, passou, cravando
+ Com modestia no chão os olhos bellos.
+ Não fez reparo em mim; mais forte ainda,
+ Me ficára a vaidade remordendo.
+ Lembrei-me então da irmã como instrumento
+ Para alcançar o fim que ambicionava.
+ Por entre o raro veo que lhe encobria
+ O rosto seductor, de espaço a espaço
+ Se viam scintillar os olhos negros
+ Com mais fogo e mais luz do que as estrellas
+ Quando as nuvens do ceo se rarefazem.
+ (A imagem é vulgar, porém confessa
+ Que tu proprio tens feito outras peores.)
+ Ella olhou para mim, aproximei-me,
+ Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde
+ Perfeito accôrdo havia entre nós ambos.
+ Precisava ostentar-lhe á luz do mundo
+ O esplendido poder dos seus encantos.
+ Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta,
+ Joias, vestidos, trens apparatosos,
+ Quanto emfim dá realce á formosura,
+ Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella.
+ Nada d'isto porém causára effeito
+ No joven coração da casta Lelia.
+ Olhava para a irmã como assustada,
+ Quando a via ostentar tanta grandeza.
+ Por mil vezes tentei ver se podia
+ Aproximar-me d'ella; era impossivel.
+ Adivinhas porque? trazia ao peito
+ Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado
+ Pouco antes de soltar o extremo alento.
+ Quando na flor da vida e da innocencia
+ Vejo a meu lado encauta formosura,
+ Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo
+ Presa tanto como eu uma alma ingenua,
+ Mas é para a perder! Desculpa ao menos
+ Em nome da franqueza este teu servo.
+
+ Um sacerdote ancião que alem habita,
+ Naquella ermida que d'aqui se avista,
+ Teima em não m'a deixar; tu só podias
+ Ajudar-me a vencer nesta batalha.
+ Inda ha pouco menti quando te disse
+ Ser tarde já para salvar a pomba.
+ É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias
+ D'aquelle coração que te idolatra.
+ Tudo é luz, seducção, amor, encanto,
+ Na voz, no olhar, na languida ternura
+ Da rosa virginal que tu despresas!
+ Anhelantes te esperam já seus labios,
+ O seu peito infantil por ti suspira,
+ No ouvido sente a voz dos teus protestos,
+ O subito rubor lhe affronta as faces!
+ Não a vês hesitar, tremer, fugir-te,
+ Acercar-se outra vez, sorrir a furto,
+ Escondendo nas mãos a fronte bella?
+ De novo inda luctar, mas já sem forças
+ Caír por fim num languido deliquio?
+ Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»--
+ Um momento depois d'estas palavras,
+ Em doce consonancia extranhas vozes
+ De improviso romperam neste canto:
+
+ --«Seja a breve passagem da vida
+ Uma serie de ardentes delirios;
+ Quem procura colher os martyrios
+ Quando existem as rosas em flor?
+
+ Venturosos ergâmos as taças
+ Onde brilha o licor purpurino,
+ E soltemos as vozes num hymno
+ Consagrado aos deleites do amor!
+
+ Vem poeta: as tristezas do mundo
+ Não comprimem jámais nossas almas;
+ Nós cercâmos de flórdais palmas
+ A existencia votada ao prazer!
+
+ O que importa que a noite succeda
+ Aos sorrisos do astro diurno?
+ Para nós o seu manto nocturno
+ Mil delicias nos torna a trazer!»--
+
+ Apossou-se de mim o immundo espirito.
+ --«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse;
+ Ao teu fatal poder entrego est'alma!
+ Dize, dize, onde está essa que eu vejo,
+ Mas que procuro em vão cingir nos braços!»--
+ --«Onde está? vais sabel-o, e num momento
+ A seus pés cairás ebrio de gosto!»--
+
+ Ao secreto aposento onde jazia
+ A virgem dos meus sonhos, me dirige
+ O torpe embaidor. Entro em delirio,
+ E ardendo em chammas de brutaes desejos,
+ No casto ninho onde vivia a pomba!
+ De repente uma luz serena e branda
+ Veiu alegrar as trevas da minh'alma.
+ Outra vez á razão volto, e que vejo!
+ Ante mim venerando sacerdote,
+ Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde
+ A enganadora Julia me roubára.
+ Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas,
+ E os olhos postos no sagrado emblema,
+ Estas doces palavras me dizia:
+
+ --«Deixou-te o negro espirito!
+ Feliz de novo agora,
+ Sorri tua alma em extasi
+ Ao ver a pura aurora,
+ Da qual sómente é nuncia
+ Na terra a humilde cruz!
+ Só ella, eterno simbolo
+ De amor e de piedade,
+ Brilha no mundo esplendida,
+ E diz á humanidade:
+ Surge das trevas lugubres;
+ Ascende á etherea luz!
+
+ Só ella quando rapida
+ A morte nos alcança,
+ Diffunde em nossos animos
+ O lume da esperança,
+ Que nos descobre a patria
+ Da gloria perennal!
+
+ Perde a tristeza o tumulo;
+ O sepulcral cipreste,
+ Deixando o aspecto funebre,
+ De flores se reveste!
+ Soam divinos canticos
+ Em coro angelical!
+
+ Oh! quem podéra pintar
+ A expressão que nesse instante
+ Tinha o candido semblante
+ Do meu anjo tutelar!
+
+ Como a pomba da arca santa
+ Que um dia á terra desceu,
+ Vinha dizer-me: Acabaram
+ As tempestades do ceo!
+
+ Deixa o mundo, antro medonho
+ Onde sómente fulgura
+ Nas curtas horas de um sonho
+ A branda luz da ventura!
+
+ Verás a meu lado agora
+ Sorrir eternos amores,
+ Como sorriem as flores,
+ Á luz da punicia aurora!»--
+
+ Julguei-me nesse instante transportado
+ Á mansão do Senhor. Caindo em extasi,
+ Disse, rompendo em delicioso pranto:
+
+ --«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem,
+ Jura que para sempre has de ser minha.»--
+ --«Juro»--disse ella então. Nesse momento
+ Aproximou-se a nós o sacerdote,
+ Cuja fronte senil resplendecia
+ Co'a luz celeste que illumina o justo;
+ E unindo as nossas mãos, com voz solemne
+ A sacrosanta benção proferíra!
+
+ * * * * *
+
+ Aqui termina, ó musa, a minha historia.
+ Acordei do meu sonho, e depois d'elle
+ Tenho visto o demonio algumas vezes;
+ Não menos vezes a traidora Julia;
+ Porem Lelia, a gentil graciosa virgem,
+ A predilecta noiva da minh'alma,
+ Essa apenas em sonhos me apparece!
+
+Maio de 1862.
+
+
+
+
+XLVII
+
+HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA
+
+
+ Desherdados no berço de heranças,
+ Desvalidos dos braços de mãe,
+ Quem nos cérca o viver de esperanças,
+ Nos educa, nos veste, e mantem?
+
+ CORO
+
+ O Bom Deus que proteje a innocencia,
+ De quem são nossos cantos de amor;
+ Desherdada é sómente a existencia,
+ Do infeliz que descrê do Senhor!
+
+ Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo
+ Como iremos a vida encontrar?
+ Neste valle enredado e profundo
+ Quem nos ha de o caminho apontar?
+
+ O Bom Deus que proteje a innocencia,
+ De quem são nossos cantos de amor;
+ Desherdada é sómente a existencia,
+ Do infeliz que descrê do Senhor!
+
+ Quem virá ser-nos pae na orphandade?
+ Consolar nossos dias de dor?
+ Circundar-nos depois noutra edade,
+ De delicias, de sonhos, de amor?
+
+ O Bom Deus que proteje a innocencia,
+ De quem são nossos cantos de amor;
+ Desherdada é sómente a existencia,
+ Do infeliz que descrê do Senhor!
+
+ Dos thesouros de affecto que encerra
+ Entre vós maternal coração,
+ Quem vos faz a nós orphãos na terra,
+ Repartir d'esse affecto um quinhão?
+
+ O bom Deus que proteje a innocencia,
+ De quem são nossos cantos de amor;
+ Desherdada é sómente a existencia,
+ Do infeliz que descrê do Senhor!
+
+ E esse affecto ideal que illumina
+ O existir de um reflexo do ceo,
+ Que a soffrer e que a amar nos ensina,
+ Quem no peito materno o accendeu?
+
+ O Bom Deus que proteje a innocencia,
+ De quem são nossos cantos de amor;
+ Desherdada é sómente a existencia,
+ Do infeliz que descrê do Senhor!
+
+ Mas nós crêmos, sentimos, amâmos,
+ A Deus grande na terra e nos ceos,
+ E do intimo da alma exclamâmos:
+ Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!
+
+1850.
+
+
+
+
+XLVIII
+
+GRATIDÃO E SAUDADE
+
+
+(Recitada no Theatro)
+
+ De candidos sonhos, de luz, e de flores,
+ Cercada a existencia começa a sorrir;
+ Alegre o presente nos falla de amores,
+ De amores nos falla brilhante o porvir!
+
+ Depois no horisonte sereno, e risonho,
+ Carregam-se as sombras, perturba-se a luz,
+ Esvae-se a ventura veloz como um sonho,
+ Que apenas instantes na vida reluz!
+
+ Assim penetrando no mundo das artes,
+ Ao tímido lume de frouxo clarão,
+ Olhava, e só via por todas as partes,
+ A meiga esperança sorrindo em botão!
+
+ De lyrios e rosas grinalda fragrante,
+ Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi;
+ Nos braços a aperto, convulsa, anhelante,
+ Aos labios a levo, na fronte a cingi!
+
+ Foi breve este sonho de amor, e de encanto;
+ Acordo, e procuro debalde uma flor;
+ Inundam-se os olhos de angustia e de pranto,
+ Ao ver que só restam espinhos e dor!
+
+ Só restam espinhos das pallidas rosas,
+ A quem pobre artista não ousa pedir
+ Os loiros frangrantes, as palmas viçosas,
+ Que a fronte de genio só devem cingir!
+
+ Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura,
+ Não quiz que durasse tão meiga illusão,
+ Em paga deixou-me no peito a doçura.
+ De terna, suave, leal _gratidão_!
+
+ Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma,
+ Sincera tributa nest'hora o dever!
+ Embora outras palmas morressem,--a palma
+ De gratas memorias não póde morrer!
+
+ Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,
+ Quebrado o encanto da pura illusão,
+ Que resta ao artista?--espinhos e dores,
+ Saudades! mais nada no seu coração!
+
+ Saudades da gloria, da luz, da ventura,
+ Dos magicos sonhos, presente dos ceos,
+ Saudades que attestam a funda amargura,
+ Que sente ao dizer-vos agora um adeus!
+
+1853.
+
+
+
+
+XLIX
+
+
+Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua
+filha.[1]
+
+ «Não sabe o que é padecer,
+ Quem o filhinho que adora
+ Não viu ainda morrer!»
+ (A. Garrett)
+
+ --«Bem sei que era exilio a terra
+ Para ti, anjo do ceo!
+ Porém, filha, abandonar-me
+ Quando toda a minha vida
+ Era a luz d'um olhar teu!
+ Ouvir essa voz infante,
+ Ver a impaciente alegria
+ De teu candido semblante!
+
+ «Deixar-me assim na existencia
+ Triste, só, desamparado,
+ Aquella flor de innocencia!
+ Que lhe fiz? tinha-a cercado
+ De quanto amor neste mundo
+ Pela mão da Providencia
+ A peito de homem foi dado!
+ Oh! que affecto tão profundo!
+ E tu pudeste partir?
+ Pois não tiveste piedade
+ D'esta solemne amargura,
+ D'esta infinita saudade?
+ Vi-te inda olhar-me, e sorrir,
+ Erguer os olhos aos ceos,
+ No instante de proferir,
+ O fatal e extremo adeus!...
+ ...........................
+ ...........................
+
+ «Oh! volve outra vez a mim,
+ Desce á terra, anjo do ceo,
+ Vem dar-me a ventura emfim!
+ ...........................
+ ...........................
+ Olha: o vivo sol de Abril
+ Já nestes campos rompeu;
+ As rosas desabroxaram;
+ O rouxinol desprendeu
+ A voz em saudosos cantos;
+ Os sitios onde passaram
+ Os teus descuidados annos,
+ Não os vês cheios de encantos?
+ São estes! a mesma fonte,
+ Ferve alem; naquelle outeiro
+ O mesmo casal alveja;
+ As ramas do verde olmeiro,
+ Dão sombra á modesta igreja
+ Onde tu vinhas resar,
+ Quando o som da Ave-Maria,
+ N'hora meiga do sol posto,
+ De vaga melancolia
+ Toldava teu bello rosto!
+ Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...
+ Este nome!... anjo do ceo,
+ Este nome, filha, é teu!!
+ Oh! meu Deus, por compaixão,
+ Na mesma pedra singela,
+ Juntae o meu nome ao d'ella!»--
+ ...............................
+ ...............................
+ ...............................
+ E Deus ouviu a oração...
+ O mesmo tumulo encerra
+ Filha e pae. Na mesma lousa
+ Onde repousam na terra,
+ Uma lagrima saudosa
+ Vem hoje depôr tambem
+ A esposa, a viuva, a mãe!
+
+1854.
+
+ [1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca)
+ conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos
+ dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde,
+ mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma
+ filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo
+ ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em
+ breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se
+ o cadaver do pae!
+
+
+
+
+L
+
+CANÇÃO DOS PIRATAS
+
+
+(Traduzido do Corsario de Byron)
+
+ Sobre as ondas do mar azul ferrete,
+ Sem limites são nossos pensamentos,
+ E como as ondas nossas almas livres,
+ Por quanto alcança a doidejante briza
+ Cobrindo a vaga de fervente escuma
+ Nós temos uma patria! Eis os dominios
+ Onde fluctua o pavilhão que é nosso,
+ Sceptro a que devem humilhar-se todos!
+ Turbulenta e selvagem quando passa!
+ Da lucta ao ocio em taes alternativas
+ A vida para nós tem mil encantos!
+ Mas estes, oh! quem póde descrevel-os?
+ Não serás tu, escravo dos deleites,
+ Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente
+ Das alterosas vagas desmaiáras!
+ Não serás tu, vaidoso aristocráta,
+ Educado no vicio e na opulencia,
+ Tu que nem pódes repousar no somno,
+ Nem achar attractivos nos prazeres.
+ Oh! quem póde no mundo compr'endel-os?
+ A não ser o incançavel peregrino,
+ D'estes plainos que ficam sem vestigios;
+ Do qual o coração affeito aos p'rigos
+ Pula orgulhoso em delirante jubilo
+ Quando se vê sobre o revolto abismo!
+ Só elle présa a lucta pela lucta
+ E espera ancioso a hora do combate.
+ Quando o fraco esmorece apenas sente
+ No mais profundo do agitado seio
+ A esperança que vívida desponta
+ E o fogo da Coragem que se accende!
+ Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto
+ Que a nossos pés succumba o inimigo,
+ E comtudo mais triste que o repouso
+ Inda parece a morte! mas embora,
+ Embora, oh! póde vir! ao esperál-a
+ Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida;
+ E quando ella se acaba, pouco importa!
+ Caír pela doença, ou pela espada!
+ Haja um ente que prese inda algum resto
+ D'existencia senil! viva aspirando
+ Sobre o leito da dor um ar pesado,
+ Erguendo a custo a trémula cabeça!
+ Para nós são as relvas florescentes!
+ Emquanto ess'alma expira lentamente,
+ Foge a toda a pressão d'um salto a nossa!
+ Possa ainda ufanar-se esse cadaver,
+ Da cova estreita e do marmoreo tumulo
+ Que a vaidade dos seus lhe consagrára!
+ São raras, mas sinceras, nossas lagrimas,
+ Quando o oceano, abrindo-se, sepulta
+ No vasto seio os nossos camaradas!
+ Inda mesmo no meio dos banquetes
+ Funda tristeza nos rebenta d'alma
+ Quando a purpurea taça erguendo aos labios
+ A memoria dos nossos corôamos.
+ E o seu breve epithaphio é redigido,
+ Ao por do sol do dia da batalha,
+ Ao dividir as presas da victoria,
+ Quando a exclamam os rudes vencedores
+ Com a fronte anuviada de saudades:
+ Ai, de nós! como os bravos que morreram
+ Folgariam ditosos nesta hora!
+
+Julho de 1861.
+
+
+
+
+LI
+
+NUM ALBUM
+
+
+Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns
+versos.
+
+ No reverso da folha onde escrevo,
+ Um cantor jovenil pulsa a lyra,
+ E magoado, e sentido, suspira,
+ Com saudosas memorias d'amor!
+
+ Na cadencia da lettra singela,
+ Qual murmurio de branda corrente,
+ Transparece sua alma innocente,
+ Toda vida, perfume, e calor!
+
+ Variegado, risonho, brilhante,
+ Inda agora na flor da innocencia
+ Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia
+ Atravez do seu prisma gentil:
+
+ Cuida extinctas ficções encantadas,
+ Crê perdido o seu sonho d'amores,
+ Julga vêr desbotadas as flores
+ Que adornavam sua harpa infantil!...
+ ................................
+
+ Ai! poeta! ai de ti! que saudade,
+ Que saudade tão funda e sentida
+ Has de ter d'esses annos da vida,
+ Quando os vires ao longe ficar!
+
+ Que saudade tão funda do tempo
+ Em que tinhas sentido saudade,
+ Has de ter quando a triste orfandade
+ Dos affectos tua alma enluctar!
+
+ Ouve pois joven bardo que a lyra
+ Pulsas hoje com tanta amargura;
+ De illusões, de poesia e ventura,
+ Enche agora teus annos em flor.
+
+ Que são estes ephemeros sonhos,
+ Os que vem derramar grata essencia
+ Sobre a tarde da nossa existencia
+ Dar-lhes vida, perfume, e calor!
+
+Agosto de 1854.
+
+
+
+
+LII
+
+
+Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.
+
+ Na hora melancolica,
+ Do despedír do dia,
+ Quando se escuta o cantico,
+ Ou extranha melodia,
+ Que na deveza languido
+ Desprende o rouxinol;
+
+ Quando desponta pallida
+ No firmamento a lua,
+ E que inda incerta e trémula,
+ No mar azul fluctua
+ Co'a viva cor da purpura
+ A frouxa luz do sol!...
+
+ Quem passe pelo tumulo
+ Que encerra a virgem bella,
+ Quebre o silencio tetrico
+ A orar prece singela
+ Por essa que a existencia
+ Deixára inda em botão!
+
+ Por ella!? ai, não! a supplica
+ Ao nosso Deus erguida,
+ Seja por quem, perdendo-a,
+ Perdeu parte da vida,
+ E que no mundo estatico
+ A filha busca em vão!
+
+ Ella este val de lagrimas
+ Abandonou, subindo
+ Ao ceo que lhe era patria!...
+ Ella, feliz, sorrindo,
+ Brilha no mundo ethereo
+ Ao lado do Senhor!
+
+ Por nós, oh, sombra angelica,
+ Implora a Deus piedade!
+ Anjo das azas candidas,
+ Consola a saudade,
+ D'aquelles que, adorando-te,
+ Te viram morta em flor!
+
+Outubro de 1852.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+A Helena
+
+I--A convalescente do outono
+
+II--Feliz de amor!
+
+III--Vaes partir!
+
+IV--A Julia
+
+V--Improviso
+
+VI--A um retrato
+
+VII--Quien no ama, no vive
+
+VIII--Amanhã
+
+IX--Anjo caido
+
+X--Piedade
+
+XI--Belleza e morte
+
+XII--Oração da manhã
+
+XIII--Caridade
+
+XIV--Bella sem coração
+
+XV--Perdoaste
+
+XVI--Tres retratos
+
+XVII--Adeus
+
+XVIII--A visão do baile
+
+XIX--Receios
+
+XX--Lembras-te?
+
+XXI--Pois ser pallida é defeito?
+
+XXII--Dever
+
+XXIII--Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez
+
+XXIV--Parisina
+
+XXV--A valsa
+
+XXVI--Recordações
+
+XXVII--Sê feliz
+
+XXVIII--A folha desbotada
+
+XXIX--Num album
+
+XXX--Onde se encontra a ventura
+
+XXXI--Quem dirá
+
+XXXII--Um brinde
+
+XXXIII--Aquelle dia
+
+XXXIV--Versos para recitar ao piano (primeira)
+
+XXXV-- » » » (segunda)
+
+XXXVI-- » » » (terceira)
+
+XXXVII--Ciumes do passado
+
+XXXVIII--Num album
+
+XXXIX--Amor e duvida
+
+XL--Num album
+
+XLI--Se coras não conto
+
+XLII--Anjo e virgem
+
+XLIII--A M.me Lotti
+
+XLIV--Primavera
+
+XLV--Voltas
+
+XLVI--Um sonho
+
+XLVII--Hymno da infancia desvalida
+
+XLVIII--Gratidão e saudade
+
+XLIX--Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá e de sua filha
+
+L--Canção dos Piratas
+
+LI--Num album
+
+LII--Á memoria da Ex.ma Sr.a D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Versos de Bulhão Pato, by
+Raymundo Antonio de Bulhão Pato
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VERSOS DE BULHÃO PATO ***
+
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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