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+The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
+António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os Filhos do Padre Anselmo
+
+Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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+
+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Fev. 2008)
+
+
+
+
+SÁ D'ALBERGARIA
+
+
+OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+
+ROMANCE
+
+
+PORTO
+LIVRARIA CHARDRON
+DE
+*Lello & Irmão, Editores*
+
+1904
+
+
+
+
+Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica
+
+178, rua de D. Pedro, 184
+
+
+
+
+OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+
+
+
+
+I
+
+Os irmãos da mão negra
+
+
+O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze
+badaladas da meia noite.
+
+O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes
+rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos
+casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
+recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
+
+Era em fins do outono.
+
+As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima,
+despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e
+sussurrante protesto de espoliadas.
+
+Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria,
+encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça
+do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella
+noite agreste e frigidissima.
+
+Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio
+da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da
+illuminação publica, consultou o seu relogio.
+
+--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.
+
+E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.
+
+Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um
+rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não
+obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem
+encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
+
+Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do
+lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em
+frente d'elle.
+
+--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.
+
+--Sou.
+
+--Entra depressa, que a noite está agreste!
+
+E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a
+entrada.
+
+O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola
+fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da
+Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
+
+Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.
+
+Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28
+a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu
+joven companheiro:
+
+--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a
+maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de
+consentir que te vende os olhos.
+
+--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
+
+--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu
+não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.
+
+--Pois bem, seja!
+
+O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e
+vendou com elle os olhos do companheiro.
+
+--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda
+sem que para isso recebas ordem...
+
+--Dou. Mas se o fizesse?
+
+--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
+
+--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes!
+
+--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos
+ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos
+a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.
+
+--É justo.
+
+--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar
+e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por
+isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas
+não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.
+
+--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.
+
+--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a
+gente...
+
+--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de
+Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar
+são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?
+
+--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á
+risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as
+prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as
+differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos
+somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
+
+--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da
+mulher que amo?
+
+--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos
+poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto
+é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher
+que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que
+toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus
+irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a
+força, o poderio, a importancia.
+
+O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo,
+entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.
+
+--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação
+vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais
+competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo,
+poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a
+venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
+
+--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu
+caracter!--protestou o mancebo.
+
+O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta
+quinta murada.
+
+Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.
+
+--Chegámos!--disse elle.
+
+Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que
+se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.
+
+--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção?
+
+--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro.
+
+--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um
+serviço bem montado!
+
+Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de
+ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram
+seguindo em silencio.
+
+--Já estamos em casa!--disse Paulo.
+
+--Porque?--perguntou o outro.
+
+--Sinto-o pela differença de temperatura.
+
+--Ainda não... Vamos entrar agora...
+
+E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e
+prolongado.
+
+Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um
+pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.
+
+--Pódes tirar a venda--disse Jorge.
+
+O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se
+sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta
+de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.
+
+Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre
+quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um
+passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que
+seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um
+olhar de glacial indifferença para a caveira.
+
+--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte!
+
+Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa
+resoar na sala:
+
+--Medita!--disse aquella voz.
+
+O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.
+
+Não viu pessoa alguma.
+
+Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não
+descobriu a porta por onde tinha entrado.
+
+Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o
+poderia fazer, por não encontrar sahida.
+
+Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
+
+--Medita!--tornou a voz a repetir.
+
+Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre
+o peito e ficou encarando fito a caveira.
+
+N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.
+
+Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da
+_Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel
+força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham
+de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado.
+Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores
+perigos com animo sereno e tranquillo.
+
+--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz
+de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
+é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.
+
+E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no
+funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:
+
+--Detem-te! O que ias fazer?
+
+--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.
+
+--Com que fim?
+
+--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.
+
+--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?
+
+--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...
+
+--E depois?
+
+--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.
+
+--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e
+impuros?
+
+--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.
+
+--Materialmente, disseste?
+
+--Disse.
+
+--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que
+tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo
+do Nada?
+
+--Não.
+
+--Explica-te.
+
+--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de
+toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.
+
+--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?
+
+--De um meu irmão.
+
+--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante?
+Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será
+d'um plebeu?
+
+--Ignoro.
+
+--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
+
+--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito
+dos vivos.
+
+--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no
+mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?
+
+--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a
+quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um
+litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
+assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te
+recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus
+livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
+na humanidade emfim.
+
+--Tens religião?
+
+--Tenho.
+
+--Qual?
+
+--A do Bem.
+
+--A que vieste?
+
+--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.
+
+--Sabes o sacrificio a que isso obriga?
+
+--A todos os sacrificios me sujeito.
+
+--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva
+ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição
+para seres admittido entre nós.
+
+--Acceito-a.
+
+--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais
+irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa
+Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
+familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.
+
+--Obedecerei.
+
+--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço.
+O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso
+derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma
+vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
+
+--Sem a menor hesitação.
+
+--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser
+quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr
+a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um
+logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por
+toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
+vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus
+passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás
+aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes
+reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um
+escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti;
+o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de
+emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes,
+da nossa Associação. Terás força para tanto?
+
+--Terei--respondeu firmemente o mancebo.
+
+--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena
+conta a propria vida.
+
+--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
+
+--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é
+iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e
+apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever
+de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu
+coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas
+terás que obedecer.
+
+--Experimentem.
+
+--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil,
+outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te
+sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
+vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde
+vieste.
+
+--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam.
+Quero ser dos vossos.
+
+--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á
+_prova_!--ordenou a voz.
+
+Paulo estendeu a mão sobre a caveira:
+
+--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou
+prompto a submetter-me á prova que me for imposta!
+
+Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no
+hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente
+vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
+aguazis do Santo Officio.
+
+Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em
+seguida disse:
+
+--_Á prova!_
+
+Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em
+frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
+
+--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.
+
+--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo.
+
+--D'onde vindes?
+
+--Da Ala negra.
+
+--Que trazeis?
+
+--Um novo braço.
+
+--Que busca elle?
+
+--A mão.
+
+--Quem vos guia?
+
+--S. Miguel.
+
+A porta abriu-se.
+
+--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o
+rosto coberto pelo capuz.
+
+Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de
+paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro
+por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto.
+
+Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma
+immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente
+occulto sob o capuz do habito.
+
+Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando
+punhaes e espadas, em panoplia.
+
+Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno,
+assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes.
+Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma
+figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e
+immovel.
+
+O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo
+pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito,
+movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e
+ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.
+
+--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que
+era sem duvida o chefe da seita.
+
+--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que
+pretende entrar na _ala_ como combatente.
+
+--Fiaes d'elle?
+
+--D'elle fio, senhor!
+
+--S. Miguel vos proteja!
+
+--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á
+parede, em fila com os seus companheiros.
+
+Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.
+
+--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.
+
+--Combater.
+
+--Que armas trazeis?
+
+--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo.
+
+--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do
+Bem e da Justiça. Que vos falta?
+
+--A força da _Mão-negra_.
+
+--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe
+sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem
+os timidos nem os cobardes.
+
+--Não o sou.
+
+--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?
+
+--Estou prompto!
+
+--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides
+emprehender.
+
+--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.
+
+--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a
+vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração,
+o objectivo da existencia.
+
+--Tudo sacrificarei aos meus irmãos.
+
+--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer
+antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil
+precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
+Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é
+impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma
+força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
+
+--Irei e hei-de chegar.
+
+--Pois bem, vinde!
+
+Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da
+parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:
+
+--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao
+fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as
+feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que
+S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem.
+
+O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma
+escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha
+ousadia.
+
+A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.
+
+Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o
+subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente,
+erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle
+em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme
+represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia
+inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.
+
+O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas,
+nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo,
+disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
+
+Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente,
+tornando mais densa a treva do corredor.
+
+Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma
+enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que
+obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso
+subterraneo transformado n'um lago.
+
+A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas
+pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas
+vinham açoitar o rosto de Paulo.
+
+Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem
+perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na
+abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.
+
+Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer,
+avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande
+assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
+com ella o ruido pavoroso da corrente.
+
+A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito,
+quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e
+vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.
+
+Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava
+debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.
+
+Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um
+segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse
+a menor contusão.
+
+Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções
+soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido
+terrivel lhe despertou a attenção.
+
+Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois
+enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma
+ameaça a guella hiante.
+
+Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.
+
+Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo
+pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou,
+avançando para as féras:
+
+--Antes morrer que recuar!
+
+Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta,
+levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.
+
+A porta abriu-se.
+
+--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo,
+recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.
+
+Paulo entrou.
+
+--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal.
+N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é
+preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.
+
+Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou
+espantado, soltando um grito terrivel:
+
+--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.
+
+É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil
+figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos
+amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
+morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do
+que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o
+pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_!
+
+--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na
+voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por
+nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se
+recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás
+restituido á liberdade.
+
+No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em
+desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não
+desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que
+tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude,
+todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como
+nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir
+aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!
+
+E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal
+sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia,
+tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!
+
+Era horrivel!
+
+--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os
+mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua
+cobardia!
+
+Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo
+apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso
+interlocutor, disse, rangendo os dentes:
+
+--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para
+resgatar a vida d'aquella mulher?
+
+--Nada!
+
+--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle
+pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
+horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas
+libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu
+bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo
+alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!
+
+--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá
+libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes
+retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
+
+--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera
+terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que
+lucta!
+
+--Vence-o!
+
+--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas
+vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu
+vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para
+isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos
+sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de
+um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me
+mandaes anniquilar com aquella existencia!
+
+--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?
+
+--Pois bem, fico!... para partir com ella!
+
+Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao
+pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.
+
+--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a
+mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!
+
+Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou
+do peito da victima, que não soltou um gemido.
+
+O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse
+serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que
+se conservavam mudos e immoveis:
+
+--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo
+como se mata e como se morre!
+
+E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço
+e cravou o punhal no coração.
+
+A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o
+ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma
+homicida.
+
+Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e
+desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a
+apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de
+encontro ao corpo.
+
+--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem
+comprehender.--Estamos nós representando uma farça?
+
+--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a
+prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós
+todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto
+valor!
+
+Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_
+de Paulo, continuou:
+
+--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a
+sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.
+
+O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a
+acreditar o que ouvia.
+
+--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da
+acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
+_Mão-negra_...
+
+--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.
+
+--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem
+de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
+crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam
+indignos de pertencerem á nossa Associação.
+
+--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum
+dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.
+
+--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu
+caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e
+auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
+em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a
+tua admissão. Queres prestar juramento?
+
+--Sim!
+
+--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!
+
+Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do
+mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.
+
+--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso
+animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins
+reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora
+representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos
+irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos
+como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_.
+
+Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé
+e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram
+silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.
+
+--Irmão Golias!--disse o chefe.
+
+--Eis-me, senhor!
+
+--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
+
+--Do fundo da minha alma.
+
+--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
+
+O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo
+na mão uma salva de prata coberta por um crepe.
+
+O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena
+deveras surprehendente.
+
+De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com
+embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures
+em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
+transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que
+assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.
+
+Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_,
+e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam
+luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que
+apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.
+
+Ao mesmo tempo uma voz resoou:
+
+--Está aberto o templo!
+
+Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira
+multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e
+na dextra um punhal.
+
+Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_,
+abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como
+já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
+desembainhados.
+
+Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o
+ruido dos passos.
+
+Então o chefe, erguendo a voz, disse:
+
+--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão
+negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação?
+Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da
+tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os
+sentimentos do teu coração?
+
+Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
+
+--Juro!
+
+Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na
+mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:
+
+--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de
+_Mão-negra_!
+
+Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam,
+deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
+
+--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos
+vossos olhos!
+
+O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o
+estranho quadro que se apresentava á sua vista.
+
+Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os
+rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os
+florêtes apontados ao novo irmão.
+
+Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou
+surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.
+
+O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.
+
+O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na
+testa.
+
+--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle.
+
+A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.
+
+Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do
+throno, dizendo:
+
+--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno
+d'elles.
+
+Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um
+abraçál-o e beijál-o na testa.
+
+--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime
+capitulo. Está encerrado o _templo_.
+
+As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes
+portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse
+dizer que caminho levavam.
+
+
+
+
+II
+
+Amôr e esperança
+
+
+Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os
+havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se
+apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de
+iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
+
+Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo
+Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem
+que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua
+proxima da de Cedofeita.
+
+Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra,
+pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.
+
+O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa
+apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim
+gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.
+
+Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da
+perdiz.
+
+Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas
+do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz
+feminina disse, tremula e quasi sumida:
+
+--Como vens tarde, meu amigo!
+
+--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que
+depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada.
+Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de
+estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a
+procurar-te, Beatriz.
+
+--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh!
+se soubesses como estou afflicta!
+
+--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
+
+--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da
+grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!
+
+--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o
+moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu
+choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
+
+Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento,
+occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.
+
+--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!
+
+O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta
+pancada no peito.
+
+--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?
+
+--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres
+vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais
+intimos amigos de meu pae...
+
+--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço.
+
+--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz.
+
+--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente
+estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.
+
+--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa,
+apresentado por um amigo de meu pae...
+
+--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle?
+Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
+amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem
+entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever
+occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram
+indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia
+subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração
+não repelliria um semelhante enlace.
+
+--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que
+pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra
+dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa
+sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós
+quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que
+me surprehende!
+
+--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento
+em que tu nem sequer tinhas pensado?
+
+--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha
+obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são
+ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua
+vontade é a unica que predomina...
+
+--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de
+sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.
+
+--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido
+de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu
+destino ao de um homem que elle julga digno de mim.
+
+--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma
+voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.
+
+--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar
+outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao
+peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de
+me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é
+feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas
+palavras! Não te mereço isso...
+
+As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um
+rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como
+é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
+pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.
+
+--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez
+de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
+desculpal-o?
+
+--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.
+
+--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o
+que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que
+respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?
+
+Beatriz pareceu hesitar na resposta.
+
+--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que
+devo fazer...
+
+--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que
+compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle
+que te responda e te diga a resolução que deves tomar...
+
+--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu
+desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te
+amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por
+mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...
+
+--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe
+a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de
+indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
+
+--Oh! não, não, Paulo!
+
+--N'esse caso, o que receias?
+
+--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a
+cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma
+distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...
+
+--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar,
+submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...
+
+Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de
+18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito,
+não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações
+offensivas da mulher que adorava.
+
+--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens
+em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
+piedade!
+
+--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra
+coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de
+torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações
+nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve
+ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?
+
+--Eu...
+
+--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste
+e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...
+
+--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi
+como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro
+pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo
+fazer...
+
+--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz;
+tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre.
+Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar
+comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu
+pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido
+revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar
+no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo,
+porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se
+apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da
+firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me
+resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de
+homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho.
+Paciencia!
+
+--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de
+uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu
+amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.
+
+E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:
+
+--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues
+sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o
+conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do
+seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis
+tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a
+sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me
+escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei
+de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e
+conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
+que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo;
+que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver
+e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto
+quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o
+nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
+o meu amôr me dá direito...
+
+--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se
+sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de
+todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se,
+soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos
+inspirou tão fervoroso culto!
+
+--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem
+sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração
+e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
+circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias
+que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu
+não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?
+
+--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso
+quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção.
+
+--É que tu não conheces meu pae!
+
+--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma
+violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um
+pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por
+simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.
+
+--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero
+d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr,
+jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua
+Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.
+
+--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na
+lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos,
+contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como
+_irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos.
+Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda
+desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
+contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os
+brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco
+n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do
+teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança
+em mim, que havemos de vencer».
+
+O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras
+pareceu transmittir novo alento á joven.
+
+--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas
+palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada
+mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na
+constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este
+sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de
+uma sorte cruel e adversa!
+
+Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim,
+despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.
+
+O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte
+romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.
+
+Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das
+heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança
+ao lance ingenuamente sentimental.
+
+Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não
+tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens
+com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do
+nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.
+
+Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de
+um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e
+ingenua leitora das novellas de Camillo?
+
+Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir
+na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a
+declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza
+e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em
+assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que,
+como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
+soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras
+balbuciações do seu amoroso coração de creança.
+
+Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras,
+correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta
+linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella
+exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.
+
+Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa
+saber ao leitor inimigo de divagações.
+
+Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a
+grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que
+foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que
+retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em
+grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.
+
+O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e
+matriculara-se no primeiro anno da Academia.
+
+O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de
+lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.
+
+Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma
+familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a
+exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas
+quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.
+
+Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o
+hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno
+interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
+com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão
+saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula,
+que tinha no seu coração o primeiro logar.
+
+Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo
+não pôde dormir.
+
+Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto
+escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu
+mysterioso que encobria o seu nascimento.
+
+No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e
+sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:
+
+--Diga-me, padre: quem é meu pae?
+
+O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no
+mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por
+alguns momentos.
+
+--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.
+
+--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber
+d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir...
+respondeu o mancebo com firmeza.
+
+O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a
+olhal-o fixamente.
+
+--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir
+no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem
+deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados
+pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim:
+serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou
+ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino
+que lhe está traçado.
+
+--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito,
+creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus
+progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida
+que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições
+da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu
+pae?
+
+--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do
+sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso
+não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te
+apresentas.
+
+--Mas não tinha nome esse homem?
+
+--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.
+
+--Nem o nome de minha mãe?
+
+--Nem o nome de tua mãe.
+
+--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?
+
+--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te
+chamasses.
+
+--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda
+vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram,
+porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
+
+--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de
+seus paes.
+
+--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas
+pergunto.
+
+--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se
+fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
+que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que
+por emquanto deves ignorar?
+
+O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:
+
+--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha
+as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem
+reflectir na minha estranha situação...
+
+--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a
+não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
+confiança.
+
+--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo
+estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou
+se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são
+filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com
+saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha
+familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são
+entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a
+menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse
+mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção
+que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e
+alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a
+esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos,
+reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero
+respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço
+bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais
+tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que
+póde fazer falta a outro desgraçado como eu!
+
+--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito
+novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem
+permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos
+meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
+
+--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu
+devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o
+mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.
+
+--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a
+quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de
+applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que
+mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a
+enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me
+deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande
+desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na
+sociedade.
+
+Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e
+doçura, impressionaram-n'o profundamente.
+
+--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda
+a vida o nome de meus paes?
+
+--E de que te valeria o sabel-o?
+
+--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me
+interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar
+envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me
+admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus
+paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação
+de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil
+e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!
+
+Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda
+amoravel e observou-lhe:
+
+--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu
+Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos
+seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma
+arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos
+seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus
+avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
+pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações
+da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha
+muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se
+desmoronou...
+
+--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o
+mancebo.
+
+--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado,
+Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das
+faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com
+que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso
+dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados
+avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois,
+por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te
+preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças
+para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.
+
+O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
+
+--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que
+direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam
+a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo
+receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?
+
+--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a
+palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos
+que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos
+meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que
+recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma
+divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo
+dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te
+um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto,
+meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre
+Filippe--tens ido visitar madre Paula?
+
+--Ha mais de quinze dias que a não vejo.
+
+--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua
+visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas
+provas de carinhoso affecto te tem dado?
+
+--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer
+nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim
+desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir
+tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não
+sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella
+existencia para mim tão cara!
+
+--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo?
+Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de
+estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o
+teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á
+tua confiança... Ou não?
+
+--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que
+lhe parecerão talvez pueris...
+
+--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os
+primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos!
+quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.
+
+--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz,
+e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
+do Dante.
+
+--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva
+uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...
+
+--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na
+historia dos soffrimentos humanos...
+
+O padre encarou-o gravemente.
+
+--Fallas serio, Paulo?
+
+--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a
+historia do meu nascimento.
+
+--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do
+enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres
+são curiosas por indole...
+
+--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a
+menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo
+saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
+
+--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?
+
+--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com
+direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a
+alliança de um homem de origem... desconhecida.
+
+--Foi essa menina quem t'o disse?
+
+--Disse-m'o a minha propria razão.
+
+--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.
+
+--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e
+justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que
+lhe devo.
+
+--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca
+antes de tudo fazer-te digno do seu amor.
+
+--Já o sou.
+
+--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social
+alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando
+souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para
+proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem
+direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de
+que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na
+sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E
+comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma
+certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um
+palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil
+juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas
+cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...
+
+O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe,
+que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.
+
+--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma
+coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na
+tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
+honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a
+ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não
+és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te
+não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.
+
+--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo,
+dando largas ao desespero que lhe ia na alma.
+
+--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
+
+--Não sabe.
+
+--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de
+qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece
+vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o
+seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o
+coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma
+distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes,
+recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que
+para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia
+pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por
+ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e
+com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de
+vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás
+nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja
+contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e
+inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz...
+Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas
+suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que
+precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no
+accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o
+padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais
+auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia
+do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós
+outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo,
+escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.
+
+--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá
+aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem
+as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu
+espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso
+engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que
+amo!
+
+--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras,
+Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu
+bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente
+nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante.
+D'isso pódes estar certo.
+
+--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de
+vossa reverendissima--que são tambem os meus.
+
+--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas
+nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição
+distincta na sociedade quem não quer.
+
+Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe
+incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca
+resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das
+nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.
+
+
+
+
+III
+
+Pae e filha
+
+
+Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de
+realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor
+acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o
+sombrio progenitor da encantadora menina.
+
+Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as
+relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e
+entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter
+de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos
+olhos.
+
+Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária
+do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe
+são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo
+cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga
+cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a
+palavra--Hypothecas.
+
+--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão
+direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e
+franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para
+facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas
+pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente
+apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas
+bem estão... O peor são as outras...
+
+Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de
+mau humor.
+
+--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os
+papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno
+um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão
+para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as
+propriedades pelo preço da louvação...
+
+Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de
+Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar
+em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por
+ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma
+comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á
+physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais
+remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.
+
+Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si,
+dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e
+sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe
+ensombrava o barbudo rosto.
+
+Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo
+contentamento e exclamou:
+
+--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!
+
+--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo
+porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho
+outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e
+não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar,
+amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.
+
+--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o
+juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as
+escripturas que tinha diante de si.
+
+--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia
+tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?
+
+--Você o dirá, amigo Belchior.
+
+--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!
+
+--Sim?
+
+--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos
+a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
+
+--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu
+mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna,
+e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que
+elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa
+vir a compromettel-os?
+
+--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido
+estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem
+finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas
+não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda
+hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de
+feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto
+melhor...
+
+--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus,
+indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um
+dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
+meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a
+ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!
+
+--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha
+dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca;
+mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com
+emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha
+mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
+adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é
+dos meus constituintes...
+
+--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá
+que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas
+desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo
+se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de
+costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
+Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e
+loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra
+cá!
+
+--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da
+lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!
+
+--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que
+elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito
+melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.
+
+--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador,
+formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra
+o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais
+pessoas de familia.
+
+O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
+
+--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.
+
+--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva
+tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres
+da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao
+marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega
+a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de
+requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso,
+poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
+Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle
+continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?
+
+--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou
+enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor?
+
+O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:
+
+--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que
+fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião
+de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á
+porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se
+lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.
+
+--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella
+acceitasse por marido este rapaz...
+
+--E ella, o que respondeu?
+
+--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem
+pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
+
+--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?
+
+--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja
+consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...
+
+--Bem! Mas supponha que ella recusa...?
+
+--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que
+este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura,
+capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?
+
+--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.
+
+--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha
+casa, alguem tenha vontade differente da minha.
+
+--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o
+meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas
+n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...
+
+--Por que?
+
+--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado,
+não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...
+
+--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?
+
+--Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça
+andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o
+fazer que ella obedeça á sua vontade...
+
+--Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa
+n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o
+sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea
+solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu
+admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!
+
+--As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou
+o outro.
+
+--As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam
+respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...
+
+--E se se desse?
+
+--Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?
+
+--Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um
+sorriso mysterioso.
+
+--Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga
+n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
+egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus,
+assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em
+divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!
+
+--Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e
+que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas
+levam-se com prudencia...
+
+--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha
+filha...
+
+--Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.
+
+--Você falla serio?
+
+--Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua
+filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a
+rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.
+
+Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.
+
+--Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me
+áquella desavergonhada e racho-a!
+
+--Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que
+convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo
+que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve
+possivel...
+
+--Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?
+
+--É um estudantito... um rapaselho.
+
+--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos.
+
+O procurador soltou uma gargalhada.
+
+--Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos
+pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando
+apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a
+deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro
+tão cedo...
+
+O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar
+attenção ás palavras do procurador.
+
+--Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava
+elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das
+sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma
+innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que
+eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
+os menores movimentos, tenha dado por isso!
+
+--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir...
+Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
+isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa
+para saber como ha de proceder...
+
+--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a
+de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
+cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de
+servir, que seja criada de servir em tudo!
+
+--Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na
+conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
+e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices
+e disparates que não lembram a ninguem!
+
+--É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o
+Custodio--Esta filha veio para meu castigo!
+
+--Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para
+ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por
+bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr
+a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio.
+Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E
+depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso;
+já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da
+herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é
+melhor...
+
+--Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem
+arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que
+eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu
+fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma
+bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em
+quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou,
+levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era
+um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na
+terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me
+deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa,
+e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se
+matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas
+gazetas...
+
+--Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...
+
+--Foi ha dezoito annos...
+
+--Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
+
+--Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas
+letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João
+Ignacio...
+
+--Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com
+tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado
+por um padre...
+
+--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de
+santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
+mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos
+contos!
+
+--Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não
+levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes
+muito avultados.
+
+--Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para
+cá--explicou o Custodio.
+
+--Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher,
+ainda caiu em casar segunda vez.
+
+--Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei,
+como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira.
+Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá
+arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...
+
+--Ah! então Beatriz...
+
+--Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e
+ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada
+enganou-me!
+
+--Enganou-o... quem?
+
+--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta
+contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco
+passava de vinte!
+
+--Está feito!
+
+--Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado
+como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha
+arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir
+de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e
+agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a
+quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a
+minha herdeira.
+
+--Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas
+tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça,
+pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde
+levar...
+
+--Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem
+quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado.
+
+--As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta
+pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso
+desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em
+casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar
+com o Eugenio de Mello...
+
+--Fortuna... para ella!
+
+--E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo
+sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não
+lhe vem a administração do casal parar ás unhas?
+
+--Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo...
+
+--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...
+
+--Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o
+Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.
+
+--Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E
+os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem
+se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se
+habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma
+garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella,
+bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi
+sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer
+portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer
+um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo
+de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa
+pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o
+golpe de misericordia... Percebe-me agora?
+
+O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle
+a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase
+pittorêsca do procurador.
+
+--Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de
+estrella e bêta e pé calçado!
+
+--Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no
+mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem
+fino...
+
+--Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes...
+Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não
+me tinha deixado roubar!
+
+--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle
+nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o
+procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
+atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã
+mas vão tosquiados!
+
+O Custodio suspirou:
+
+--Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não
+conhecer a você!
+
+--Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem
+remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de
+arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça
+quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...
+
+--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão
+obedecer-me e fazer o que eu disser!
+
+--Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de
+custar-lhe a resolvêl-a...
+
+--Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...
+
+O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos
+produzidos pelos dedos maioral e pollegar.
+
+--Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima!
+Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
+ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!
+
+--Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de
+a domesticar...
+
+--Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o
+procurador.
+
+--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos...
+Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...
+
+--E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de
+alferes...
+
+--Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...
+
+--Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á
+espera.
+
+Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.
+
+--Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo
+na mão os dedos do Belchior.
+
+--Sim, amanhã...
+
+E dirigiu-se para a porta.
+
+--Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?
+
+--Não tem duvida... Disponha você a pequena.
+
+Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou
+a filha.
+
+Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e
+submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de
+dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se
+deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos
+castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma
+distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave
+perfume de innocencia e bondade que respirava.
+
+Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o
+coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.
+
+--Aqui estou, meu pae--disse ella.
+
+O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o
+semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a
+sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:
+
+--Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?
+
+--Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida.
+
+--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?
+
+--Não, meu pae...
+
+--Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando
+rapidamente d'aspecto.--E porque?
+
+--Porque não me sinto ainda com disposição para casar...
+
+--Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está
+á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
+disposição vem depois...
+
+--Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse
+a menor sympathia...
+
+--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu
+desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as
+sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os
+vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma
+grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e
+ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser
+sympathico?
+
+--Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer
+Beatriz.
+
+Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr.
+Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos
+annos contra as mulheres.
+
+--Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a
+filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?
+
+A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e
+incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o
+horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.
+
+--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as
+mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não
+posso!
+
+--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de
+ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!
+
+Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
+
+--Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este
+casamento que o meu coração não póde acceitar!
+
+--Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é
+aqui chamado!
+
+A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto
+pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos,
+fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.
+
+--Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim,
+se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.
+
+Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
+
+--Cale-se!--não me falte ao respeito!
+
+--Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.
+
+Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra
+educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo
+a historia do seu nascimento.
+
+Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande
+severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no
+coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma
+filha obediente e submissa, como ella era.
+
+Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que
+a mãe se lhe finara.
+
+A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade,
+sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva,
+porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
+
+Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que
+era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões
+grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.
+
+Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o
+destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um
+parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
+mundo e da propria victima.
+
+A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha,
+tornara-se desde este momento odiosa.
+
+Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no
+fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela
+memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.
+
+O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe
+dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a
+revolta começa o respeito acaba.
+
+Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a
+mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o
+grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma
+de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o
+coração.
+
+--Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este
+casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.
+
+--Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena.
+
+--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou
+seu pae?
+
+--Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como
+escrava.
+
+--Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem
+fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
+póde dar-lhe respeito na sociedade?
+
+--O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem
+quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.
+
+--Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?
+
+--A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.
+
+O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria
+estrangulal-a. Mas conteve-se.
+
+--Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o
+que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe
+ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei
+para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.
+
+--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não
+necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por
+marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso
+recusar-me-hei.
+
+--Veremos!
+
+O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.
+
+-- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê
+que não é minha filha!
+
+Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a
+suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um
+violento desespero.
+
+--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com
+prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até
+o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia
+casar com quem eu quizesse...
+
+De repente parou como ferido por ideia subita.
+
+--E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado...
+Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o
+nosso fim.
+
+Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
+
+A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:
+
+--O pae deseja alguma coisa?
+
+--Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes
+com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...
+
+O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não
+respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si,
+fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:
+
+--Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu
+amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
+na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito
+longe.
+
+--Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?
+
+--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...
+
+--Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos
+postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração
+não póde acceitar... É isto desobediencia?
+
+--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio,
+afflicto, simulando uma enorme contrariedade.
+
+--Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu
+pae?!
+
+--Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento,
+filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
+de morte contra mim!
+
+Beatriz empallideceu.
+
+--Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella.
+
+--Eu te explico, minha filha...
+
+E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o
+lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e
+proseguiu:
+
+--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui
+mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do
+muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz,
+mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha
+horrorosa situação...
+
+Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam
+estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na
+attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
+interessa.
+
+--Ouves, Beatriz?
+
+--Ouço, meu pae.
+
+--Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um
+suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar,
+exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas,
+ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!
+
+Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr
+ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:
+
+--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se
+afflige?
+
+--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços
+e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre...
+estou arruinado e só tu me pódes salvar!
+
+--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?
+
+--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus
+negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos
+importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este
+Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar,
+é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me
+importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos
+creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico,
+possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha...
+Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu
+consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á
+miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está
+n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para
+o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.
+
+E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder,
+o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:
+
+--Então, Beatriz, o que dizes?
+
+A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:
+
+--Digo que é uma grande desgraça, meu pae...
+
+--Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos
+o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.
+
+--Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem
+nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...
+
+--Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres
+dizer?
+
+--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma
+grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria
+mais...
+
+--Porque, minha filha?
+
+--Porque eu não o amo.
+
+--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo
+tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um
+marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os
+mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.
+
+--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.
+
+--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
+
+--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a
+nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares,
+e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade,
+viveremos remediados e livres de maiores privações...
+
+--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel
+de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente
+petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê
+que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!
+
+--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que
+preço fôr...
+
+--Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!
+
+--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um
+affecto que eu não posso sentir por elle!
+
+--Historias! Affecto não é coisa que se coma!
+
+E recahindo nas lamentações primitivas:
+
+--Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima
+miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a
+minha desgraça!
+
+Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
+
+Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um
+homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel,
+afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
+d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como
+que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.
+
+O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se
+lamuriava, dizia comsigo:
+
+--Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!
+
+Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
+
+--E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae
+não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?
+
+--Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores
+e ficarmos sem nada!
+
+--Mas haviamos de viver...
+
+--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente.
+
+--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...
+
+D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão
+habitual.
+
+--Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua
+pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram
+miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
+nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a
+abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com
+isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso
+de teres causado a morte de teu pae!
+
+Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a
+pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não
+sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido
+e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe
+que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.
+
+--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero
+que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os
+horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de
+mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa
+traz comsigo!
+
+--Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir
+aos golpes da adversidade.
+
+--Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me
+terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho
+pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os
+credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti!
+Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!
+
+Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel,
+perguntou:
+
+--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de
+teu pae!...
+
+A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e
+supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar
+abertamente.
+
+--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã.
+
+O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar
+a victoria.
+
+--Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao
+Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por
+aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um
+casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao
+teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a
+acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por
+ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não
+sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o
+sei!...
+
+Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não
+chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:
+
+--Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
+
+E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:
+
+--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!
+
+--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela
+commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem
+que eu falle primeiro com esse rapaz!
+
+--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.
+
+--Com esse... sr. Eugenio.
+
+--Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim,
+filha!
+
+--Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a
+declaração de que me quer por mulher.
+
+--E casarás?
+
+--Casarei, se não houver outro remedio.
+
+O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.
+
+--Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae!
+Vou mandar avisar o Belchior.
+
+E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.
+
+
+
+
+IV
+
+Dois patifes
+
+
+O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira,
+conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente
+vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que
+frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No
+rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou
+vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a
+mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida
+tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.
+
+Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila
+constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e
+petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma
+expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado,
+mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.
+
+Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.
+
+Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos
+conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.
+
+--O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha,
+além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o
+chapéo!
+
+--Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_.
+Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?
+
+--Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso...
+Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem.
+Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve
+ter para mais de setenta contos.
+
+--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está
+ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer
+estes dez annnos mais chegados...
+
+--E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da
+mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas
+assim que o casamento se fizer...
+
+--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me
+fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.
+
+--Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador
+sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem
+mais querem!
+
+--Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas
+são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...
+
+--É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe
+encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?
+
+--Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...
+
+--Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.
+
+--Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos.
+Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte
+contos, não é isso?
+
+--Perfeitamente.
+
+--Você quanto leva de commissão?
+
+--Trinta por cento, por sermos amigos.
+
+--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre
+vinte contos, são seis contos de réis...
+
+--Muito justos.
+
+--E venho eu a ficar só com quatorze!...
+
+--E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens,
+parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é
+dinheiro...
+
+--Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos
+encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e
+de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me
+para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?
+
+O procurador fez uma carêta.
+
+--Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se
+acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.
+
+--O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer
+acreditar...
+
+--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do
+velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me
+lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir
+a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo
+é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!
+
+--Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a
+minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á
+perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar,
+logo que saibam que tenho por onde pague...
+
+--Mas você póde arranjar uma coisa.
+
+--O que é?
+
+--Faça uma concordata com elles antes de casar...
+
+--Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são
+privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o
+estroina.
+
+--Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos
+depois se elles lhe pedem alguma coisa.
+
+O Mello pareceu meditar.
+
+--Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse
+com dois, a coisa ainda não iria muito longe...
+
+--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar
+tudo por inteiro.
+
+--Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu
+hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para
+liquidar de prompto antes de casar?.
+
+--Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá
+arranjarei isso da melhor maneira...
+
+--Abona você o dinheiro?
+
+--Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e
+depois nós cá nos entenderemos.
+
+--Pois bem, arranje lá isso.
+
+--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir...
+
+--Diga lá.
+
+--O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe
+essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava
+a filha...
+
+--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
+
+--A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse
+que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza
+immensa?
+
+--Disse e ha.
+
+--Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão
+das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...
+
+--Para que?
+
+--Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um
+importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque
+não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.
+
+O bohemio soltou uma gargalhada.
+
+--Você é o diabo, Belchior!--disse elle.
+
+--E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de
+reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos
+e de muito credito...
+
+--Como?
+
+--Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que
+se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia.
+Comprehende?
+
+--Não comprehendo muito bem...
+
+--Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e
+você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer
+_provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por
+mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier
+recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de
+me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?
+
+--Agora, percebo!
+
+--Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando
+nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos
+nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em
+que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?
+
+--Em Borba.
+
+--Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá
+está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a
+certidão.
+
+--Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao
+Custodio?
+
+--Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o
+deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois
+fallaremos...
+
+--E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do
+que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio.
+
+--Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...
+
+--E escolhem sempre o peor...
+
+--É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o
+procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!
+
+--Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!
+
+Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
+
+--Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a
+precisar de dinheiro.
+
+--Já?
+
+--Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de
+provincia, tem sorvedouros terriveis!
+
+--Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.
+
+--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil
+réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
+
+--Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de
+primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer
+fóra...
+
+--Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas
+não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não
+sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.
+
+--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres
+da noiva estão espatifados...
+
+--Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?
+
+--Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de
+defuncto...
+
+--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos
+convier...
+
+--Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso
+indescriptivel de cynismo.
+
+--Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando
+intencionalmente a palavra _nós_.
+
+--Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou
+sem dinheiro...
+
+--Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico
+proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em
+tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com
+os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo,
+mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_
+teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além
+d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não
+ficam baratos...
+
+--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior,
+indignado.
+
+--Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da
+grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de
+_povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de
+cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico
+proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_
+que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa,
+e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a
+gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos,
+nem sequer bolota para comer como elles...
+
+--Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos.
+
+--Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que
+você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu
+amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este
+negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o
+socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_,
+porque eu preciso de mostrar quem sou.
+
+--Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o
+procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.
+
+O Mello riu com vontade.
+
+--Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse
+elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá
+buscar o dinheiro.
+
+O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do
+escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com
+um livro na mão.
+
+--Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse.
+
+--Quanto?
+
+--Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?
+
+--Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!
+
+--É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.
+
+--Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura.
+
+--E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não
+fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou
+eu!
+
+--Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as
+industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.
+
+--O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior
+gracejando.
+
+O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o
+dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.
+
+--Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle
+que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.
+
+--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!
+
+--Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo,
+quando lhe parece, faz das suas...
+
+--Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!
+
+--Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não
+é tamanha como parece...
+
+Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior,
+rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.
+
+--Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha
+dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de
+acabar mal este patife!
+
+
+
+
+V
+
+Madre Paula
+
+
+Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella
+espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_
+certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não
+conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.
+
+Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de
+velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha
+não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
+
+A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do
+seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom
+humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e
+constante director espiritual.
+
+Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona,
+escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece,
+traz novidades importantes a communicar-lhe.
+
+A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter
+familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois
+corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis
+da mais solida confiança.
+
+--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a
+beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do
+filho da irmã Dorothêa...
+
+--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e
+conta-me: como está elle?
+
+--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a
+um pouco transtornada...
+
+--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel
+interesse--Notaste n'elle qualquer alteração?
+
+--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos
+e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem
+é meu pae?!»
+
+--Elle fez-te essa pergunta?
+
+--E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que
+razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.
+
+--Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante
+coisa?
+
+--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre
+que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos
+suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo
+quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os
+paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos
+inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes
+que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o
+fez.
+
+--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa
+creança?
+
+--Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de
+me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu
+nascimento; e foi isso o que fiz.
+
+--Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?
+
+--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o
+quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario
+n'aquella alma juvenil...
+
+--E indagaste?
+
+--Indaguei e soube.
+
+--O que é, pois?
+
+--O nosso Paulo ama!
+
+--Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!
+
+--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a
+considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os
+prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...
+
+--Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves
+prejuizos de futuro ao nosso protegido...
+
+--Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma
+d'ellas...
+
+--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve
+censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
+affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as
+attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa
+paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir
+perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o
+segredo do seu nascimento...
+
+--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre
+Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de
+Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber
+quem são ou quem fôram seus paes...
+
+Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.
+
+--Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educação
+livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos
+imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a
+aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe
+indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel
+desvario de Paulo.
+
+--Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas
+amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A
+educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito,
+e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o
+caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de
+uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir
+individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo
+assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o
+producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu
+espirito. Não é mais um homem são--bom ou mau--é um hypocrita; isto é,
+um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra,
+tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a
+disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz
+ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela
+liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons
+fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de
+extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.
+
+--Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a
+indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com
+certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que
+arrecear-se.
+
+--É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível
+que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram
+cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais
+tornámos a vêr!
+
+--É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito
+d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até
+hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã
+Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!
+
+--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações
+jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo
+adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos
+compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois,
+de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da
+Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a
+irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de
+que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas
+grandezas...
+
+--Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a
+estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma
+amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!
+
+--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor
+inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o
+padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe
+impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...
+
+--Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse
+homem, que tão profundamente detestava agora!
+
+--Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o
+joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no
+convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?
+
+--Ella propria m'o confessou.
+
+--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e
+a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e
+resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na
+santa vinha do Senhor.
+
+--Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o
+padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou
+comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas
+horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella
+cruelmente engeitou...
+
+--Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem
+podemos obtel-as d'ella...
+
+--Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu
+de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial
+e inconstante nos meus affectos?
+
+--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz
+justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era
+ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar
+penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça,
+succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala
+commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes
+com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...
+
+--Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!
+
+--Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.
+
+--E agora?
+
+--Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os
+mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes
+prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha
+velhice. Bemdita sejas!
+
+E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo
+extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.
+
+Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com
+os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:
+
+--Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o
+meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me
+faltasses, morria!
+
+--Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei
+universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos
+novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós,
+minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo
+do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?
+
+--Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir
+esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos
+abysmos da desgraça irremediavel.
+
+--O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia,
+talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir
+no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da
+experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A
+ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar
+pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz,
+ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.
+
+--Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e
+ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle
+ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma
+d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias
+sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos
+meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.
+
+O padre Filippe sorriu.
+
+--Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu
+elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os
+segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão
+séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na
+adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e
+conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.
+
+--Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe--disse ainda madre Paula--Não
+posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande
+desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas
+apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu,
+talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse
+processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a
+intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz
+poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma
+violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida,
+immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.
+
+--Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa
+situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o
+coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos
+da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos
+males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos
+nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a
+nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o
+bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
+dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade
+acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.
+
+Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.
+
+A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.
+
+--É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!--murmurou
+ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este
+homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da
+hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr
+e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!
+
+
+
+
+VI
+
+Á hora da morte
+
+
+Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram
+violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.
+
+O padre Filippe não se tinha ainda deitado.
+
+Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula
+passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer
+annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da
+nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais
+persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a
+violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel,
+o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em
+que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta
+estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar
+do frio cortante da noite.
+
+--É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias
+missa aos Grillos?--perguntou ella.
+
+--É aqui. O que deseja?
+
+--É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre
+de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer
+confessar; e eu venho cá vêr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de
+confissão...
+
+--Onde móra essa mulher?
+
+--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois
+passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um
+instante!...
+
+--Espere ahi, que eu desço já.
+
+Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto,
+pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.
+
+--Vamos lá!--disse elle.
+
+Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta
+distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar
+o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a
+tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.
+
+--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Está a pobresinha a appellidar por
+um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem
+se confessar, e não havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a
+vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvição_!
+
+--Não tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote.
+
+--Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem
+filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou
+por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a
+gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter
+quem lhe chegasse uma sêde _d'auga_!
+
+--Coitada!--lamentou o padre Filippe.
+
+--Mas que!--tornou a mulher--a gente _támem sêmos probes_... _támem_
+temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem
+nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita
+necessidade...
+
+--Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?
+
+--No _isprital_, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não
+curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe _dezia_: «Ó
+sr.^a Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a
+_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas?» Mas ella: «que não, e que não»,
+nem queria que lhe fallassem n'isso!
+
+Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da
+rua escancarada.
+
+A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando
+ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares
+superiores, gritou:
+
+--Ó sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre!
+
+No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a
+arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz
+d'uma candeia de petroleo.
+
+--É vocemecê, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz lá do alto.
+
+--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que não vá este senhor
+cahir...
+
+A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava
+familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.
+
+E voltando-se para o padre Filippe:
+
+--É melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e
+partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais _facel_
+do que aleijar-se...
+
+O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua
+cuidadosa guia lhe aconselhava.
+
+Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada,
+e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de
+coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
+ascenção.
+
+Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de
+cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula
+parou offegante e cançado.
+
+--É cá muito em cima!--disse elle.
+
+--E as escadas são ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a
+velha.--Eu _támem_, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico
+que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!
+
+--Onde está a doente?--interrogou por fim o padre Filippe.
+
+--Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a _espedir_,
+coitadinha! Já desde _honte_ que não lhe foi nada á bocca, e não faz
+senão pedir _auga_... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O
+que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o
+confessor!
+
+--E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?
+
+--Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas
+como a gente _semos probes_, fez á de conta que não era pressa e inda
+_inté_ agora cá não appareceu...
+
+--É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma
+pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos
+lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...
+
+A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e
+suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo
+encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino
+representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de
+todas as miserias.
+
+Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de
+honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o
+orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos,
+hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se
+presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades.
+Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade
+de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da
+civilisação do seu paiz!
+
+Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria,
+sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma
+ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e
+honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se
+fazer respeitar!
+
+Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal,
+percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas
+de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das
+fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!
+
+E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas
+e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio
+Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem
+tanta!--e dez reis de sabão bastavam!
+
+É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias,
+uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á
+imprensa periodica dos nossos dias.
+
+Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas
+salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por
+elles se guiam e norteiam,--quando se não desnorteiam--não poderiam, com
+um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a
+propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base
+primaria de toda a hygiene social e moral?
+
+Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha
+acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e
+profundo auctor de originaes opusculos?
+
+Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro
+remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal
+cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao
+humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma
+mumia, enterrada sob um montão de farrapos.
+
+É a sr.^a Maria do Carmo.
+
+Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em
+que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi
+extincta:
+
+--Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.^a me ouça de confissão!
+
+O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia
+de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e
+magro da pobre creatura.
+
+--Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?
+
+--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e
+eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de...
+peccados que não sei se Deus m'os perdorá!--balbuciou a enferma, com voz
+entrecortada e de cada vez mais debil.
+
+--Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o
+padre Filippe--e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e
+contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o
+divino perdão!
+
+Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e,
+fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a
+sós com a enferma, continuou:
+
+--Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde
+ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se
+accusa?
+
+A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do
+inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:
+
+--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa
+e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque
+desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e
+havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha
+pobreza...
+
+--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino
+amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e
+confiança...
+
+--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria
+conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus
+amigos...
+
+--É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...
+
+--Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E
+até quando via certas beatas fingidas--Deus me perdôe!--a fazerem da
+casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na
+consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse
+commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para
+ellas terem vergonha!
+
+O padre Filippe sorriu indulgente:
+
+--E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos
+olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus?
+Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do
+Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não
+façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa
+da reputação d'aquelles que peccaram...
+
+--Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada
+um pouco pelo prazer da confissão--Isso até os meus santos padres
+confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse
+de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser
+enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...
+
+O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e
+perguntou:
+
+--De que é então que se accusa, minha irmã?
+
+--Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que
+fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa
+religião...
+
+--Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus
+semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do
+Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão
+impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada
+tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no
+tribunal divino com a alma limpa de macula.
+
+Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir,
+quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com
+indizivel accento de pavôr:
+
+--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me!
+Ouça-me que eu quero... confessar-me!...
+
+--Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura
+de Deus?
+
+--Como v. s.^a ainda me não perguntou nada...
+
+--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua
+consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta
+commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome
+de quem eu a estou escutando...
+
+A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:
+
+--É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era
+filha... de um padre e d'uma mulher casada...
+
+--E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher
+casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?
+
+--Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a
+elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um
+santo...
+
+--Só Deus sabe quem é santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao
+ouvir fallar no padre Anselmo.
+
+--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu
+tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe
+devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o
+sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...
+
+--Que nome tinha essa creança?--perguntou o padre Filippe, agora
+interessado na estranha narrativa da velha.
+
+--Chamava-se Hilario, meu senhor...
+
+--Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico--disse o padre Filippe.
+
+--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?--perguntou a velha.
+
+--Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas,
+na Covilhã...
+
+--É esse mesmo! É esse mesmo!--bradou a velha--E onde está agora?
+
+--Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que
+talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa
+religiosa do estrangeiro...
+
+--Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!
+
+--Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse
+obscuro sacerdote?...
+
+--O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...
+
+E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:
+
+--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario,
+coitadinho!
+
+E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.
+
+--Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum
+attentado como suppõe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote
+não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte
+é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do
+fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que
+leio todos os dias.
+
+--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou
+afflictivamente Maria do Carmo.
+
+--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a
+doente.
+
+--Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei
+com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...
+
+--Julgará que vocemecê já não é viva...
+
+--Não... não!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!...
+
+O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha
+beata, perguntou:
+
+--Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha
+pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...
+
+--Foi... foi...
+
+--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?
+
+--Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...
+
+--Quem?
+
+--O padre Anselmo!
+
+--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto.
+
+--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a mãe do meu
+Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito
+testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles
+ao filho...
+
+--E entregou-os?
+
+A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.
+
+--Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a
+um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou
+tudo, tudo!
+
+O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da
+velha.
+
+--Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho
+d'elle?
+
+--Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo
+a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos
+juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D.
+Carlota e... envenenou-a!
+
+Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela
+recordação d'aquelle crime.
+
+--Como o soube?--interrogou o padre Filippe.
+
+--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do
+chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto...
+Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que
+a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio
+a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo
+tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do
+marido...
+
+--E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?
+
+--Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...
+
+--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?
+
+--Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia
+ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu
+digo que elle o foi matar!...
+
+A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:
+
+--Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da
+justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu
+que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...
+
+--E quem era esse João Ignacio?
+
+--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...
+
+--Sabe se elle ainda vive?
+
+--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos...
+Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...
+
+--Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta
+da creança?
+
+--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre
+Anselmo a _trouve_ p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa
+enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
+muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao
+pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só
+depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse
+que era filho d'ella...
+
+--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?
+
+--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a
+deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude
+entregar...
+
+Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.
+
+--É por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem
+contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu
+Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...
+
+Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do
+travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das
+mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz
+estrangulada pelo esforço:
+
+--Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das
+esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse...
+Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se
+elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...
+
+--Não tem filhos, vocemecê?--perguntou o padre Filippe, acceitando com
+repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.
+
+--Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de
+mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu
+Hilario... coitadinho!
+
+--Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o
+padre Hilario talvez não precise?
+
+--Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a
+vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha
+alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna!
+São tres centos de libras... Tres centos!
+
+--Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida--aquietou o padre
+Filippe.
+
+--Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a
+sua absolvição... para que Deus me perdôe!
+
+O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.
+
+--E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não
+lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas
+envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...--murmurou ainda a velha,
+deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia
+ultima.
+
+O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos
+labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do
+lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.
+
+Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o
+aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.
+
+--Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me
+parte, porque o enterro fica por minha conta.
+
+--Sim, meu senhor!--disse a velha--Não seria bom dar-lhe ao menos a
+Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?
+
+--É tarde--respondeu o padre Filippe--Quando cá chegasse esse ultimo
+soccorro espiritual, encontraria um cadaver.
+
+--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--Não _sêmos_ nada n'este mundo!
+
+--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou
+philosophicamente o sacerdote--Vocemecê faria uma obra de caridade, indo
+assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...
+
+--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha.
+
+Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem
+viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:
+
+--E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até
+ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?
+
+--Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?
+
+E tirando da mão da outra a candeia:
+
+--Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ ó
+sr. padre...
+
+A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:
+
+--Estes _carólas_ do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura,
+põem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as
+massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
+ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto
+ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e
+tanto se lhe dá que a _probesinha_ de Christo vá p'ró céo como que vá
+p'ró inferno!
+
+O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da
+terrivel escada com as costellas direitas.
+
+--V. s.^a quer que o vá acompanhar _inté_ casa?--offereceu a mulher.
+
+--Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir
+nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre
+creatura. Boa noute!
+
+--Vá v. s.^a na graça de Deus, meu senhor!
+
+
+
+
+VII
+
+Tres miseraveis
+
+
+Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu
+a procurar o seu amigo Belchior.
+
+O agiota ia radiante de satisfação.
+
+--Beatriz--disse elle ao procurador--está no caminho!
+
+--No caminho de quê?
+
+--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.
+
+--Sério?
+
+--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me
+fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas
+depois...
+
+--Conseguiu intimidal-a?
+
+--Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com
+as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
+me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á
+egreja dizer o _sim_!...
+
+--É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as
+mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um
+lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!
+
+--Mas consegui eu que ella voltasse...
+
+--Como?
+
+--Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas
+eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que
+se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella,
+porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não
+chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou
+casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar
+com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!
+
+--E afinal?
+
+--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não,
+poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o
+noivo...
+
+--Com o Eugenio de Mello?
+
+--Pois então com quem? Quem é o noivo?
+
+--O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...
+
+--Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.
+
+--Que diabo lhe quererá ella?--commentou o procurador.
+
+--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor,
+que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa
+senão com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as
+raparigas gostam de ouvir aos namorados.
+
+O Belchior pôz-se a rir.
+
+--Vá lá a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro,
+capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe
+cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles não teria mais
+vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de lá o _homem da
+massa_ e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres,
+mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...
+
+--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de
+que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me
+lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora
+elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle
+d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam,
+e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!
+
+--Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?
+
+--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...
+
+--Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...
+
+--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca
+piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe
+finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá
+remedio senão dizer que sim.
+
+--Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo,
+porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar
+um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos
+rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o
+que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro!
+
+--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento até é uma
+providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella,
+por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...
+
+O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.
+
+--Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos
+haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico
+em peores lençoes...
+
+--Porque?
+
+--Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe
+moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra
+mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de
+proposito para lhe apanharem a fortuna...
+
+--E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma
+acção bôa... que importa lá que elle grite?
+
+--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me
+metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como é
+maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este
+casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...
+
+--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.
+
+--Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma
+acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será
+fóra de razão que a pratique bôa para mim...
+
+--Mas o que é então que você quer dizer com isso?--tornou o Custodio
+desconfiado.
+
+--Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para
+cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso
+uma pequena commissão...
+
+--Uma commissão! Mas que commissão quer você?
+
+O Belchior sorriu:
+
+--Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os
+outros só a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do
+rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...
+
+--Dez por cento! Você está doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo
+uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para
+nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!
+
+--É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que
+está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis,
+o que é? É barro!
+
+--Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!--barafustou o
+Custodio.
+
+O Belchior teve um sorriso desdenhoso.
+
+--Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não
+casará senão com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso
+caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da
+pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o
+noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no
+negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros...
+Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o
+principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de
+noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo
+que se pague...
+
+--Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho
+de graça!--prorompeu o Custodio.--Mas é preciso ter consciencia... é
+preciso que você não queira a melhor parte para si...
+
+--A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?
+
+--Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a
+choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer
+entrar na ordem, acha você que não é nada!
+
+--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que
+é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me
+lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa
+nada, não?!
+
+--Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de
+casa, fica-lhe barato...
+
+--Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem
+m'as tira!--berrou o procurador.--Homem, é preciso que você veja que
+isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem
+ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas...
+não me serve!
+
+E n'um repellão:
+
+--Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a
+pequena com quem quizer.
+
+O Custodio amaciou um pouco.
+
+--Ora venha cá...--disse elle.--Você sempre tem um demonio d'um genio!
+
+--Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!--contestou o
+Belchior.--Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a
+fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro
+n'isto por ser seu amigo...
+
+--Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é
+que eu esperava que você fosse mais rasoavel...
+
+O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.
+
+--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Póde-se ser mais rasoavel do que isto?
+Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro
+noventa contos de reis comprados a troco de nove?!
+
+--Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e
+elle é que continua sendo senhor d'elle...
+
+--Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas
+se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a
+pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para
+a pequena.
+
+Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O
+Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já
+posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.
+
+--Homem!--disse elle--a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você
+quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica
+a coisa reduzida a seis por cento...
+
+--Sete tenho eu quem me dê!--volveu o procurador.--E é porque eu não
+quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim
+aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de
+ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um
+passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma
+viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se
+valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...
+
+--Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu
+amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.
+
+--Ora até que, emfim, chegou-se á razão!--disse o procurador, como quem
+se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que você não deixava fugir o
+bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não
+gosto d'abusar com os amigos...
+
+--Vamos lá!--suspirou o Custodio.--Para amigos, você carregou um
+bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto
+com a palavra atrás.
+
+--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do
+contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos
+noivos irem para a egreja...
+
+--O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o
+Custodio de Jesus muito admirado.
+
+--Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua
+casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na
+meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu
+ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como
+queria você?
+
+--Isso não podia ser depois do casamento realisado?
+
+--Póde, acceitando-me você letras...
+
+--Você sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de
+effectuar um bello negocio.--Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o
+dinheiro e está a conta arrumada.
+
+--Antes dos noivos partirem para a egreja...
+
+--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.
+
+--Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não
+faltar.
+
+O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir
+Eugenio.
+
+N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro
+da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda
+do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre
+acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo
+mesmo pensamento de interesse commum.
+
+O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D.
+Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas
+que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar
+o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado
+n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma
+visita.
+
+O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D.
+Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D.
+Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.
+
+Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta,
+detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e
+despesas.
+
+Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as
+filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as
+pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está
+bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.
+
+Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas,
+preparou-se para as receber.
+
+A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha
+conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria
+desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se
+ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante
+que veio á sala.
+
+Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito
+correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares
+superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e
+attencioso em extremo para com as damas.
+
+Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que
+preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem;
+emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
+acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de
+Portugal.
+
+Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:
+
+--Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.^a D. Rufininha, dê-nos
+um bocadinho de piano.
+
+Rufininha era a filha mais velha do general.
+
+--É verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella
+canção
+
+ _Murmura, rio, murmura!_
+
+que é tão bonita.
+
+A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar,
+começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se
+sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.
+
+Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram
+desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia
+ser tão avara do seu thesouro.
+
+E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do
+piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.
+
+Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a
+pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção
+dos circumstantes.
+
+Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do
+Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este
+dialogo:
+
+--Dá-me licença, sr.^a D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?
+
+--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem
+poder reprimir um movimento de terror instinctivo.
+
+--Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo...
+Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu
+rosto?
+
+--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?
+
+--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar,
+interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez
+póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo
+ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver
+feliz da sua felicidade...
+
+Beatriz baixou os olhos.
+
+--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de
+que já ouvi fallar meu pae...
+
+--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e
+dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no
+peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e
+obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse
+interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a.
+Fiz mal?
+
+--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim...
+
+--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da
+minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o
+proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a
+não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos
+consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do
+auctor dos seus dias?
+
+--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no
+emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...
+
+--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da
+bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo
+que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.
+
+--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto
+que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr.
+Eugenio de Mello.
+
+--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo
+julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu
+coração?
+
+--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e
+franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois
+de me escutar, ainda persistir no seu proposito...
+
+--Consentirá em ser minha esposa?
+
+--É possivel.
+
+--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio
+pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do
+meu amôr!
+
+--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente
+Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão
+que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas
+que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu
+exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe
+que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a
+necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em
+questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente
+auctorisada por elle.
+
+--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a
+esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo
+sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.
+
+Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.
+
+--Amanhã!--disse ella.
+
+Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e
+Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D.
+Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.
+
+Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da
+retirada.
+
+A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.
+
+Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:
+
+--E então?
+
+--Então... nada!
+
+--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão
+por ella?
+
+--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para
+outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me
+quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a
+dizer-me...
+
+--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as
+lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de
+amar até á morte...
+
+--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer...
+Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim...
+Que quererá dizer-me?
+
+--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim
+que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar
+da ponte abaixo--disse rindo o procurador.
+
+--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella
+quer...
+
+--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da
+sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a
+dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!
+
+--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho
+outra coisa...
+
+--O que?
+
+--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente
+confessar-m'a antes de casar...
+
+--Pois você suppõe?...
+
+--Não sei... Mulheres são mulheres...
+
+--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o
+procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.
+
+--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer
+cá são os vinte contos...
+
+--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_
+completa!--accrescentou o Belchior.
+
+--Nem mais nem menos!
+
+Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do
+Custodio.
+
+O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de
+negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.
+
+Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o
+mancebo.
+
+--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente,
+indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por
+alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de
+mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá
+guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...
+
+--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem
+essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as
+suas palavras como um inestimavel thesouro!
+
+--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e
+lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o
+desejo de me tomar para sua esposa...
+
+--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor
+do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v.
+ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor
+abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha,
+que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão
+generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração
+apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo
+com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me
+moveram.
+
+--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e
+avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara,
+franca e leal da minha situação...
+
+--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a
+minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais
+ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!
+
+--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse
+Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas
+irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...
+
+Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.
+
+--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da
+joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
+santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que
+haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua
+belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil
+figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita
+o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar
+constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe
+dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha
+existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é
+livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera
+expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz,
+passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar,
+de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de
+simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na
+mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!
+
+--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me
+prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos
+sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no
+outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente
+sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa
+existencia, o nosso destino...
+
+--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa
+declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me
+pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me
+transmittiu ácerca do nosso enlace...
+
+--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com
+altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões
+de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de
+declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae
+insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito
+de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma
+sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com
+a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou
+nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com
+franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise
+é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento
+para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a
+sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança
+de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os
+miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter
+causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus
+desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com
+v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe:
+Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a
+outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a
+vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor,
+acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe?
+
+Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada
+pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada
+dignidade dos seus sentimentos.
+
+--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo
+com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.
+
+--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma
+união em taes circumstancias.
+
+--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim?
+
+--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando
+absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule
+reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.
+
+--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria
+eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só
+uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra
+de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura
+na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na
+reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?!
+Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida!
+
+--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas
+pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto
+para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços
+emprevistos, uma viagem longa, demorada...
+
+--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar,
+de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos
+logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a
+respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada
+eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha
+retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor
+sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse
+feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor
+correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não
+lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!
+
+Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura
+tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido
+demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.
+
+--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio
+de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja
+sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre
+banido da sua lembrança...
+
+--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o
+ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o
+bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para
+querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e
+perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo,
+agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu
+coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu
+casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz,
+mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me
+prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu
+coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem
+esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á
+pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo
+que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um
+homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja
+perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem
+póde dar!
+
+A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por
+uma commoção indescriptivel.
+
+--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de
+indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz
+com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos
+temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V.
+ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo
+outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia
+consentir em conceder-lhe a mão de esposa?
+
+--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e
+de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!
+
+--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na
+vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.
+
+Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.
+
+--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar
+seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não
+conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu
+acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto
+amor que lhe consagro.
+
+Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma
+d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre
+dois sêres.
+
+--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de
+meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae
+o informará da minha resolução.
+
+Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da
+sala com altiva serenidade.
+
+--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas
+que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu
+te porei macia que nem velludo!...
+
+No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem
+o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.
+
+Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes
+cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.
+
+--Então?--perguntaram ao mesmo tempo.
+
+--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.
+
+--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.
+
+--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em
+cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o
+meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o
+casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a
+querer para esposa...
+
+--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de
+tudo.
+
+--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você
+amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...
+
+--E ella?--interrogou o Custodio.
+
+--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria
+resposta definitiva...
+
+--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do
+usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a
+representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena
+d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...
+
+--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz
+foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar,
+a fingir que me mato... E ella ha de ir!...
+
+
+
+
+VIII
+
+Entre irmãos
+
+
+Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante
+saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a
+esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe
+permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.
+
+Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um
+mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em
+terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
+perguntasse o nome de seus paes.
+
+O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto,
+buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre
+Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem
+devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que
+não podia responder.
+
+Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que,
+se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse
+homem não era seu pae.
+
+O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos
+do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse
+dever dar-lhe.
+
+Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do
+seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre
+Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.
+
+Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o
+mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_.
+
+--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe
+elle.
+
+--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos
+achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta
+em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como
+verdadeiros irmãos.
+
+--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal
+prestarás attenção ao que vou dizer-te.
+
+--Falla.
+
+--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o
+meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!
+
+--Já m'o disseste.
+
+--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento
+affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario
+que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e
+que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu,
+simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a
+mão da filha...
+
+--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de
+haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?
+
+--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz
+com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.
+
+--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?
+
+--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega
+mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace
+e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio
+comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe
+inffligir...
+
+--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se
+chama esse _amavel_ progenitor?
+
+--Custodio de Jesus....
+
+--Mora?
+
+--Na rua do Principe.
+
+--E o outro?
+
+--Qual outro?
+
+--O teu pretendido rival?
+
+--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.
+
+--Eugenio de de Mello... É do Porto?
+
+--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.
+
+--Já _entrado_ na edade, não?
+
+--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.
+
+--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A
+mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...
+
+--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.
+
+Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.
+
+--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios
+com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos
+depois o que convem fazer...
+
+--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...
+
+--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz
+não será maltratada pelo pae...
+
+--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos
+braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós
+não deve haver segredos...
+
+--Falla, meu irmão!
+
+Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.
+
+--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de
+ninguem.
+
+--Porque?
+
+--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou,
+ignoro quem sou!
+
+Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o
+segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula
+como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias
+se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a
+protecção e amparo.
+
+--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me
+encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um
+momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu
+fazel-o não sabendo o nome de meus paes?
+
+--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do
+mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
+mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com
+semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se
+sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica
+princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um
+rico burguez chamado Custodio de Jesus!
+
+--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas,
+pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não
+constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da
+origem honesta do nosso nascimento...
+
+--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais
+responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir.
+Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria
+em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou
+filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só
+póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes
+inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.
+
+--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens
+a comprehendessem assim!
+
+--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de
+luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos
+seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir
+a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse
+lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a
+conquista.
+
+Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o
+mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.
+
+Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta
+apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...
+
+É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se
+confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado
+nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos
+Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.
+
+Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada.
+Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.
+
+Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de
+Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a
+impellisse.
+
+Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa,
+penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das
+escadas até ao primeiro andar.
+
+Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o
+lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:
+
+--_Licet?_
+
+--Entrae!--disse de dentro uma voz.
+
+Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma
+ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava
+sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba
+grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca
+biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se
+encontrava na sua presença.
+
+Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras
+e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o
+soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia
+para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de
+estudo, sabedor e profundo.
+
+Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de
+livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não
+pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.
+
+--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse
+elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a
+sciencia, Mestre!
+
+O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e
+respondeu grave e pausado:
+
+--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé
+inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a
+Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé
+que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca
+que vá pouzar-lhe no pára-raios.
+
+Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao
+recem-chegado:
+
+--Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa
+demora...
+
+--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de
+que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.
+
+--Um caso novo! O que temos, pois?
+
+--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende
+fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_.
+
+--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a
+cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito
+alto que elles estejam collocados. De que se trata?
+
+--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...
+
+--Ah! O que lhe succede?
+
+--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O
+pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um
+herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.
+
+--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
+
+--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e
+nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os
+sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma
+posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.
+
+--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que
+precisa?
+
+--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente
+o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a
+sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
+
+--Está na mão d'ella. Que recuse.
+
+--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o
+que Paulo pretende evitar.
+
+--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae
+d'essa menina?
+
+--Custodio de Jesus?
+
+--E o pretendido noivo?
+
+--Eugenio de Mello.
+
+--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens;
+conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram
+a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
+
+--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o
+contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.
+
+--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos
+os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas
+as informações, procederemos como fôr de justiça.
+
+Jorge inclinou-se.
+
+--Temos ainda mais--disse elle.
+
+--O quê?
+
+--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu
+nascimento...
+
+--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram,
+que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?
+
+--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do
+pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia
+correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma
+freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as
+despezas da sua educação scientifica.
+
+--Conhece elle esses protectores?
+
+--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!
+
+--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus
+proprios paes?
+
+--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa
+o appellido Noronha...
+
+--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos
+verdes com um leve tremôr na voz.
+
+--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.
+
+O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os
+braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso
+em profunda reflexão.
+
+Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham
+despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e
+reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o
+tremor da voz:
+
+--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira
+origem d'esse rapaz.
+
+Depois accrescentou:
+
+--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes
+mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu
+amigo.
+
+Jorge levantou-se.
+
+--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á
+hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido
+obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de
+Eugenio de Mello.
+
+--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos
+deliberar em capitulo o que convirá fazer.
+
+Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado
+para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.
+
+Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa,
+encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em
+profundo scismar.
+
+--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque
+extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia
+d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_?
+
+Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por
+fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.
+
+Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume
+encadernado a preto, que abriu e começou folheando.
+
+As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o
+mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe
+os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
+pensamento negro.
+
+Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha
+uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um
+tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
+n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém,
+que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente;
+retomando o papel a sua brancura immaculada.
+
+É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.
+
+Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os
+guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as
+perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina
+superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle
+occulta no seio?
+
+
+
+
+IX
+
+Amores faceis
+
+
+Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de
+Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando
+o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
+
+O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio
+parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em
+que se notava decencia e bom gosto.
+
+Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a
+porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao
+corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever
+chamar a attenção do dono ou dona da casa.
+
+Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor
+abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher,
+trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.
+
+--És tu, Eugenio?
+
+--Sou eu, minha querida!
+
+O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava,
+acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o
+fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
+longamente nos labios.
+
+--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á
+roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella
+havia surgido.
+
+--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na
+maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!
+
+--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te
+quer, que tanto te adora?!
+
+--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas
+talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz
+quando te vê, quando te tem a seu lado!
+
+A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre
+um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e
+lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos
+labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e
+voluptuoso que o primeiro.
+
+--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia
+receio e esperança, supplica e perdão.
+
+--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...
+
+--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te
+perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com
+outra para nunca mais!
+
+Eugenio ria.
+
+--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou
+tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras
+me estime senão tu?
+
+--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama
+loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de
+affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as
+necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não
+faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus
+desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
+ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!
+
+--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu
+seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
+
+E interrompeu-se suspirando.
+
+--Se quê? Anda, acaba!
+
+--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não
+consentir que outro partilhasse os teus affectos...
+
+--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo,
+Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle
+me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu
+amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o
+meu despreso por elle!
+
+--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o
+correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu
+quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a
+cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas,
+puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!
+
+Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma
+attitude de heroe de melodrama.
+
+Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas,
+em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:
+
+--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes
+que elle é velho... não póde durar muito... E como promette
+contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
+
+--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir
+de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de
+desespero!
+
+--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me
+falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e
+receias que um velho dure mais que tu?!
+
+--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um
+vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte...
+Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel
+n'este mundo só existe na paz da sepultura!
+
+--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!
+
+--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia,
+que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro,
+habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que
+minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso...
+o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas
+minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que
+nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
+
+--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.
+
+--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar?
+Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não
+fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
+
+--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.
+
+Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo
+suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:
+
+--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o
+dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos,
+todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
+todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem
+limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses
+falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses
+miseraveis!
+
+O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes
+violentas uns amigos que nunca teve.
+
+--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua
+Leonor.
+
+--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz,
+nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil
+reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como
+empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se
+não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz
+e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter
+commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe
+valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro,
+porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como
+a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz,
+lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
+abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
+
+--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar
+ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa
+veneração.
+
+O bohemio continuou:
+
+--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que
+nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes
+depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena
+d'elle!
+
+--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais
+por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.
+
+--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é
+claro que não pode pagar...
+
+--Não deixou nada?
+
+--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria
+obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu
+detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de
+casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da
+familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre
+mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais
+enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...
+
+--Cruel pae!
+
+--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem
+sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste
+espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...
+
+--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!
+
+--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas
+amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de
+quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e
+que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais
+que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe
+que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta
+occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que
+não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel
+solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu
+não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
+canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de
+opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em
+consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para
+amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa
+tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a
+guela ignobil!
+
+Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias
+todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a
+levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.
+
+--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um
+homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e
+depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
+
+--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em
+fazer tolices...
+
+--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter
+soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que
+injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr
+offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os
+trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi
+tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que
+tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»
+
+--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a
+apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha,
+quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos
+mil reis tel-os-has amanhã.
+
+--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos
+fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim...
+Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo
+consentir em que te sacrifiques mais...
+
+--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina
+mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha
+maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e
+feliz!
+
+--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a
+ardentemente nos braços com amoroso impulso.
+
+Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que
+esta scena extraordinaria requer.
+
+Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e
+sujos amores.
+
+Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho
+commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida
+da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos,
+a preço de tres tostões por dia.
+
+O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga,
+começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu
+envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se
+ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua
+mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel
+matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.
+
+Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em
+varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se
+abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do
+generoso commendador.
+
+Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal
+com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza
+da sua figura gentilissima.
+
+O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que
+passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do
+berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre
+origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava
+nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.
+
+Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido
+pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura
+em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.
+
+Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á
+roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de
+reis em uma das nossas praias mais concorridas.
+
+O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e
+intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital
+e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh
+supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que
+os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle
+raras vezes possuia, porque era pobre.
+
+Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são
+tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro
+adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que
+maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo
+recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.
+
+Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além
+d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo
+que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
+facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como
+as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara
+desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
+rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão
+diminuir-lh'os.
+
+Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia
+apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez
+horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.
+
+Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo,
+futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida
+externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae
+protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer
+sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma
+prima com quem pretendiam casal-o.
+
+Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço
+que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma
+prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu
+coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das
+despezas a que occorria o amante numero um.
+
+Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite,
+depois das dez. De dia, a toda a hora.
+
+Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era
+prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas,
+não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.
+
+Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria
+os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo
+indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem
+sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um
+coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.
+
+--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e
+orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo,
+porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não
+ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos
+dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos
+lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha
+vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o
+inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!
+
+--É porque não a amas...
+
+--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder
+para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
+dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!
+
+--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica
+para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor
+figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!
+
+--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje
+desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de
+pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de
+trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e
+então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á
+Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que
+se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?
+
+--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem
+estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do
+mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!
+
+--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a
+com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...
+
+E suspirando com tristeza:
+
+--Para isso bastava só que morresse meu pae!
+
+--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.
+
+--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás
+vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!
+
+O velhaco tinha razão.
+
+Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde
+abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo,
+botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas
+immediações da travessa dos Fieis de Deus.
+
+Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para
+o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.
+
+Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho
+pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que
+desde criança se habituára a pensar que o não tivera.
+
+No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos
+mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas
+para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não
+só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e
+abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.
+
+O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem
+notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se
+repetiam.
+
+No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio
+n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor
+objecção.
+
+Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu
+_anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.
+
+--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e
+lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!
+
+--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora
+tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante
+de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.
+
+Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu
+destino.
+
+Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.
+
+--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova
+estopada?
+
+--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado
+de tecer os pausinhos...
+
+--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me
+entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a
+tomar andadura regular.
+
+--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o
+procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem,
+emquanto o Custodio não esticar o pernil...
+
+--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta
+difficuldade?
+
+--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é
+preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.
+
+--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para
+uma ceia?
+
+--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?
+
+--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_,
+amigo Belchior!
+
+--Para seu bem.
+
+--E para seu...
+
+--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para
+mim.
+
+O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio
+de Jesus.
+
+--E então?--interrogaram os dois.
+
+--Então, sabem o que ella me disse?
+
+--O que foi?
+
+--Adivinhem!
+
+--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com
+seiscentos diabos! Sim ou não?
+
+--Pois bem--não!
+
+--Hein?!--fizeram os dois espantados.
+
+--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.
+
+--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o
+procurador.
+
+--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me
+declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez
+mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas
+dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se
+encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos
+puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...
+
+--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.
+
+--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim,
+porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia
+dizer que ia dar um tiro na cabeça...
+
+--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio.
+
+--Esperar, a ver o que sae d'aqui...
+
+--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz,
+e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas
+ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior
+furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse
+modo que nós conseguiremos nada.
+
+--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.
+
+--Que ideia é?
+
+--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao
+tal rapaselho que a namora...
+
+--Você viu?
+
+--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu
+desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que
+disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e
+elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades
+financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...
+
+--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa
+temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis,
+quanto mais uns poucos de contos.
+
+--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus
+crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu
+torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.
+
+--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr.
+Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer
+ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas
+meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...
+
+--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente
+apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os
+sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
+Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar
+generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir
+a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?
+
+--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo:
+pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento
+para a pequena casar.
+
+--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de
+mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...
+
+--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter
+questões por causa da partilha...
+
+Os tres desataram a rir.
+
+--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça
+se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque
+d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!
+
+--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não
+apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma
+relação dos crédores e apresental-a á rapariga...
+
+--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão
+um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle
+que venha entender-se comigo...
+
+--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de
+que o tal menino dispõe...
+
+--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se
+arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça
+fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então
+ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro
+na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.
+
+--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé,
+a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer
+que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o
+procurador.
+
+--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim,
+e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento,
+que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.
+
+--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me
+encarregarei de resolver a questão.
+
+O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que
+sahisse.
+
+O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava
+irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos
+dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.
+
+Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da
+escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de
+Borba; apresentou-lh'a, dizendo:
+
+--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o
+nariz!
+
+O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de
+Mello á Fazenda Nacional.
+
+--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos
+de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!
+
+--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos
+quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?
+
+--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que
+saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não
+deixo perder.
+
+--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.
+
+--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você
+verá como a coisa se arranja...
+
+Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar
+a conta do seu debito para apresentar á filha.
+
+
+
+
+X
+
+Para os grandes males...
+
+
+Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices
+em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o
+pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de
+as solver.
+
+Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre
+Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de
+esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma
+noite fallar com Beatriz.
+
+A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as
+instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio,
+pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das
+suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de
+recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso
+salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.
+
+Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para
+retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma
+entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e
+franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de
+inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.
+
+--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.
+
+--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais
+apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de
+que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe
+impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.
+
+--E tu?...
+
+--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no
+meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com
+que me ameaçou.
+
+--E se não encontrares esse meio?
+
+--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro
+homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.
+
+O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas
+palavras.
+
+--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma
+d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á
+ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace
+de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o
+nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
+de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre,
+não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella
+pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
+de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho
+amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para
+remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
+sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não
+estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae
+uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da
+responsabilidade d'ellas.
+
+--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida,
+quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.
+
+--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa
+quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e
+conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha
+unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que
+asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu,
+um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás
+aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não
+prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.
+
+--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno
+do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.
+
+Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de
+uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava
+terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.
+
+O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de
+pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em
+remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na
+usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos
+seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha,
+em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos
+os seus actos.
+
+Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o
+que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a
+tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim,
+apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.
+
+O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do
+procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o
+dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o
+casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a
+grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz,
+desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a
+acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.
+
+Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta
+corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a
+favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do
+crédor e com vencimento em curto praso.
+
+Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o
+casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e
+a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e
+deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma,
+exigindo immediato embolso.
+
+Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e,
+apresentando-lhe o papel, disse:
+
+--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por
+elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio
+unico da nossa salvação!
+
+--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a
+vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos,
+conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.
+
+--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr.
+Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento
+com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama
+loucamente...
+
+--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu
+consentisse em me vender a elle por dinheiro...
+
+--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da
+egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.
+
+--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma
+venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o
+repudia...
+
+--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de
+hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago
+não está mal...
+
+--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...
+
+--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as
+comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta
+de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a
+miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita
+festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.
+
+O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria
+gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a
+horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
+espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como
+unico recurso que se lhe offerecia.
+
+Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe
+relancear a vista.
+
+--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia
+salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr.
+Eugenio de Mello.
+
+--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...
+
+E depois de um curto instante de silencio:
+
+--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos.
+Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior,
+coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá
+embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não
+acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas
+malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil
+arrazaram-me!--suspirou por fim.
+
+--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.
+
+--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual
+sente o seu mal...
+
+--E Deus o de todos.
+
+--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o
+remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente
+nada...
+
+--Será o que Deus quizer.
+
+O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis
+esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.
+
+Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da
+vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:
+
+--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem
+fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá
+da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer
+um tal desgosto...
+
+--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...
+
+N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos,
+conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com
+Paulo.
+
+Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu
+conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da
+janella gradeada com o mancebo.
+
+--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de
+ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de
+contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
+rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.
+
+E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.
+
+D'ahi a pouco, ressonava.
+
+
+Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:
+
+--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do
+homem que ha-de ser teu sogro.
+
+--Então?--interrogou o mancebo.
+
+--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um
+usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de
+deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras
+implacaveis.
+
+Paulo encarou o amigo:
+
+--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.
+
+--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a
+vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga
+das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim
+que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem
+contos de reis.
+
+--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador
+Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?
+
+--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife.
+Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa
+série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio
+de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para
+se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio
+entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
+humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão
+combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a
+quem pretendem casar com a tua namorada.
+
+--E elle quem é?
+
+--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos
+sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se
+sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas
+suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o
+seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.
+
+--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...
+
+--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o
+casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe
+offerece.
+
+--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o
+que precisamos agora é provas d'essa infamia.
+
+--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a
+certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro
+d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder
+apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde
+recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não
+pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle
+houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...
+
+--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da
+filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...
+
+--E nós cá estamos!
+
+--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a
+violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...
+
+Jorge poz-se a rir.
+
+--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o
+procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu
+procedimento, se não fôr correcto.
+
+Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações
+obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se
+encontrava o sr. Custodio de Jesus.
+
+--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o
+mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de
+um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...
+
+--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.
+
+--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de
+reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois,
+receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.
+
+--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce
+sobre meu pae um tal ascendente?
+
+--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?
+
+--Foi o Belchior.
+
+--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia
+Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu
+pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a
+pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae
+emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes
+casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto,
+qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado
+da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse
+material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar
+invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças
+de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo.
+Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
+por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe
+apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e
+ouve o que elle te diz.
+
+--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio
+rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de
+descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade
+paternal!
+
+--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e
+não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei
+de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
+circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto,
+e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te
+admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de
+teu pae?...
+
+--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos
+commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns
+carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
+casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de
+negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha
+mão e eu recusei...
+
+--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro
+de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente
+representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições,
+teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao
+procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.
+
+--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu
+não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe
+abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...
+
+Paulo reflectiu por alguns instantes.
+
+--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no
+que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos
+achaes...
+
+--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...
+
+--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que
+se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te
+apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de
+estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.
+
+--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...
+
+--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta
+definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae
+a mudar de resolução.
+
+--Oxalá que assim seja!
+
+O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha,
+ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado
+problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz
+viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no
+dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre
+menina, perguntou-lhe com fingido carinho:
+
+--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?
+
+--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.
+
+--E o que resolves?
+
+--Por emquanto, nada.
+
+--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é
+possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta
+questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao
+que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te
+apresentei?
+
+Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:
+
+--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.
+
+--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta
+contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.
+
+--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.
+
+--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr
+a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na
+escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar
+a vida...
+
+--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.
+
+--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com
+palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns
+poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.
+
+--Alguma coisa temos já adiantado...
+
+--O que?
+
+--A resolução em que estou de salvar meu pae...
+
+--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha
+filha?
+
+--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.
+
+--Pois olha que não tens outro recurso, crê!
+
+--Veremos.
+
+--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?
+
+--Talvez.
+
+--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das
+pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os
+amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes
+fallamos em dinheiro,--emigram!
+
+Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e
+serena:
+
+--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no
+peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela
+pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos
+lances mais desesperados da nossa vida...
+
+--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é
+bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo
+e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A
+Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para
+esposa...
+
+--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento
+que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe
+pensar reflectidamente sobre o caso...
+
+--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor,
+comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que
+estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que
+é, como sabes, nosso crêdor...
+
+--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir
+maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...
+
+--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no
+teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam
+logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!
+
+--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale
+que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento
+me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de
+me decidir...
+
+--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a
+questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia...
+Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria
+morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu
+que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver
+determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade...
+Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu
+não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!
+
+--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço
+quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas
+não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus
+ha de valer-nos...
+
+--Tens essa fé, Beatriz?
+
+--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio
+não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?
+
+--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E
+has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente
+apaixonado por ti.
+
+--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...
+
+--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de
+vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de
+difficuldades: casar e deixar de tolices...
+
+Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o
+seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado
+casamento que sonhava para a filha.
+
+--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se
+desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão
+de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se
+resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se
+quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes
+dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria
+que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!
+
+E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.
+
+Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!
+
+
+
+
+XI
+
+João Lazaro
+
+
+Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois
+de jantar.
+
+Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava,
+ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para
+matar tempo.
+
+N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes,
+porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis
+nas folhas em branco.
+
+Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no
+hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:
+
+--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?
+
+Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.
+
+--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços
+para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!
+
+Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.
+
+--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao
+Porto!
+
+--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e
+tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á
+casa torna...
+
+--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...
+
+--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de
+esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.
+
+--Quando chegaste?
+
+--Hoje de manhã.
+
+--Que tempo te demoras?
+
+--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante,
+e não posso calcular o tempo que isso me levará...
+
+--Não tencionas fixar residencia no Porto?
+
+--Não. Isto é pequeno demais para mim...
+
+--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente.
+
+--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no
+Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como
+não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com
+ella...
+
+Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do
+charuto caro, com affectação, e exclamou:
+
+--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha
+receber as ordens?...
+
+Jorge bateu as palmas, chamando o criado.
+
+--O que tomas?--perguntou ao amigo.
+
+--Vou tomar cerveja.
+
+--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.
+
+Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de
+João Lazaro, e perguntou:
+
+--Ingleza?
+
+--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro.
+
+E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a
+ordem:
+
+--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!
+
+--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...
+
+--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar
+torvo.
+
+--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o
+amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és
+brazileiro...
+
+--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase.
+
+E accrescentou:
+
+--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha
+mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão
+pequeno como este?...
+
+--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão
+pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu
+seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua
+patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal
+politico?
+
+--Já te disse: sou portuguez pelo coração...
+
+--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão
+_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...
+
+A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio
+de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle
+familiarmente:
+
+--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite,
+porque temos ceia de rapazes em tua honra...
+
+--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para
+amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e
+não sei se de dia ficarão concluidos...
+
+--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é
+uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento
+feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar
+de ser gentil para com as damas.
+
+--Está bem: irei.
+
+E voltando-so para Jorge:
+
+--Não se conhecem?
+
+--Não tenho essa honra--disse Jorge.
+
+João Lazaro então apresentou:
+
+--O meu amigo Eugenio do Mello...
+
+E para este:
+
+--O meu amigo Jorge de Gusmão.
+
+Os dois cortejaram-se.
+
+--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.
+
+--Igualmente--disse o outro.
+
+E apertaram-se as mãos.
+
+--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse
+Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo
+d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da
+noite.
+
+--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto,
+associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de
+tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e
+inaddiaveis--respondeu Jorge.
+
+--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer
+em o vêr lá...
+
+Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.
+
+O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:
+
+--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui
+encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal
+perante a rapaziada.
+
+Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o
+rival de Paulo, perguntou:
+
+--Quem é este rapaz?
+
+O outro sorriu desdenhosamente.
+
+--Um aventureiro!--respondeu.
+
+--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...
+
+--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico
+tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar
+com a gente da mais baixa especie.
+
+--Mas este rapaz é...?
+
+--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na
+confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não
+podemos fazer.
+
+--E vive d'isso?
+
+--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.
+
+--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e
+passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...
+
+--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte
+que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo,
+gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa
+de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia...
+Conheces?
+
+--Conheço o commendador Garcia perfeitamente.
+
+--E a loura?
+
+--Poderei tel-a visto, mas não estou certo.
+
+--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso.
+
+--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo
+isso?
+
+--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas.
+Conta-me tudo.
+
+--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma
+rica herdeira...
+
+--Elle!?
+
+--Elle, sim!
+
+--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?
+
+--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva
+suppõe-n'o um rapaz riquissimo...
+
+--É boa! E não me disse nada! Que grande patife!
+
+--Pois é verdade.
+
+--Tens bem a certeza?
+
+--Conheço a noiva...
+
+--Ella quem é?
+
+--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...
+
+--Não conheço.
+
+--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves
+conhecer...
+
+--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do
+tempo em que vivi no Porto.
+
+--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que
+ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações
+podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
+que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois
+combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...
+
+--É bonita essa pequena?
+
+--Creio que sim.
+
+--Crês?
+
+--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella
+informações que a dão como uma belleza indiscutivel.
+
+--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um
+_escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais
+capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de
+Mello?
+
+--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.
+
+--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da
+cilada em que o querem fazer cahir.
+
+--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz.
+Póde ser que a fortuna o regenere.
+
+--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está
+bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de
+varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo
+caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro
+levando vida do principe e bellamente relacionado...
+
+--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se
+diz, está para breve...
+
+--Os jornaes já deram noticia?
+
+--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle
+não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os
+planos...
+
+--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos
+seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir.
+Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com
+o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente...
+Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para
+isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu
+estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella
+couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu
+caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de
+quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem
+espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!
+
+--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial
+para escolherem o peor.
+
+--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada
+que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te
+afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza
+de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna
+estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser
+distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para
+ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela
+materia contra o espirito!
+
+O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo
+da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos
+de suprema elegancia n'um salão aristocratico.
+
+Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:
+
+--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...
+
+--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do
+carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas
+essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque
+se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar
+sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela
+aristocracia.
+
+--Sacrificas o amor á politica...
+
+--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde
+affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...
+
+--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar
+a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o
+que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez
+reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos
+obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder
+especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem
+criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito
+disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal...
+Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
+cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem
+porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido
+valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso,
+seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.
+
+--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente.
+
+--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento
+para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio
+de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_
+como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de
+receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.
+
+--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
+
+--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos,
+porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço
+cabalmente.
+
+--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade
+para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça
+n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei
+misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão
+proseguir no caminho mau em que me lancei?
+
+--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das
+velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com
+papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada,
+porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um
+verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de
+principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria
+a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes
+sustentar o prestigio da causa...
+
+--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres!
+Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque
+quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais
+fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil
+reis!
+
+--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu
+caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.
+
+--Eu?
+
+--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não
+custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos
+tambem ás vezes ganham juizo...
+
+--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se
+deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu
+nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
+
+--E o que vens tu fazer ao Porto?
+
+--Venho arranjar dinheiro...
+
+--Para quem?
+
+--Para mim.
+
+--E suppões que t'o dêem?
+
+--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...
+
+--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?
+
+--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...
+
+--Bem; anda lá!
+
+João Lazaro levantou-se.
+
+--E tu, sempre o mesmo?
+
+--O mesmo sempre.
+
+--És um homem singular!
+
+--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente
+o livro mais curioso e mais difficil de lêr.
+
+--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua
+fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos
+vencem.
+
+--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!
+
+João Lazaro consultou o relogio.
+
+--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?
+
+--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma
+hora da tarde.
+
+--Irei dizer-te adeus.
+
+--Pois sim.
+
+Apertaram-se as mãos e despediram-se.
+
+João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de
+despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.
+
+Já na rua, ia murmurando:
+
+--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um
+capitalista!
+
+Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao
+cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.
+
+--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo
+cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por
+entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo
+consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em
+fortuna e em posição social.
+
+João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco,
+minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor
+profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por
+esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de
+posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.
+
+A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um
+capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro
+dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de
+maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era
+filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos,
+nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no
+cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.
+
+De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de
+preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e
+chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão
+ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.
+
+Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de
+apreciar melhor em capitulos subsequentes.
+
+Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo
+que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações
+com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica
+historia.
+
+
+
+
+XII
+
+Velhos conhecimentos
+
+
+Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da
+casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já
+conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá
+se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.
+
+Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as
+suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria
+e de festa.
+
+É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado
+e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de
+cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
+encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver
+tornava ainda mais profunda.
+
+Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha
+criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas
+quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta
+propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.
+
+Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes
+que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da
+casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava
+com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do
+santo sacrificio.
+
+O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na
+_Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como
+amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
+doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca
+de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação
+brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.
+
+Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na
+capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do
+esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as
+no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
+
+Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como
+tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam,
+reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e
+alli se demorava de junho a setembro.
+
+Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava
+nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á
+tristeza succediam o ruido e a alegria.
+
+Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias,
+havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na
+casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
+campo.
+
+E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto,
+acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.
+
+--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como
+isso te fazia bem.
+
+--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi
+feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na
+saudade dos que me fôram queridos.
+
+--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não
+é verdade?
+
+--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a
+unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes
+que perdi.
+
+No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital,
+sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao
+silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um
+linitivo ás amarguras do seu espirito.
+
+Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós
+vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.
+
+Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao
+saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.
+
+Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e
+sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a
+gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas
+composições mais em voga.
+
+A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites
+claras do estio.
+
+Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias,
+apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel
+concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
+symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro
+pôde ainda devassar.
+
+Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães,
+attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas
+continuando as conversações em que estavam entretidos.
+
+--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o
+palacete que foi de Norberto de Noronha.
+
+--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde
+vae?
+
+--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á
+Mathilde, á minha criada de quarto.
+
+--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande
+fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.
+
+--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra
+substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta,
+prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem
+economico... tem dispendido.
+
+--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com
+uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões
+para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse
+no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
+
+--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo,
+o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em
+dez annos.
+
+Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.
+
+--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de
+Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a
+reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se
+limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado
+bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
+de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe
+attribue.
+
+--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e
+não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde
+que chegou...
+
+--A todo o mundo!?
+
+--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do
+Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um
+painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que
+faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que
+tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que
+não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma
+contos de reis...
+
+--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo.
+
+--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou
+ainda Gustavo.
+
+--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem
+protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios,
+tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda
+a gente e d'onde se tira e não se põe...
+
+--Bem sei! Em todo o caso...
+
+--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes
+soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda
+aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle
+não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente
+sem nada.
+
+--Pobre homem! Tenho pena.
+
+--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr
+pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá
+conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
+isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A
+ultima não lhe ficou por menos de dez contos...
+
+--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
+
+--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo
+estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou
+de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a
+offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser
+titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para
+elle...
+
+--Que miseria!--disse Gustavo enojado.
+
+--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem
+dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem:
+um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...
+
+--Deve ser horrivel!
+
+--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...
+
+--E quanto quer elle agora pela casa?
+
+--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas
+as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam
+o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem
+feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se
+apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...
+
+N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da
+casa de Gustavo.
+
+--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo
+claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.
+
+--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio
+até cá para se distrahir um pouco?
+
+Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando
+Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:
+
+--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz
+que deseja fallar ao sr. doutor....
+
+--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de
+doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da
+jurisprudencia, esse estranho recemchegado?
+
+--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
+
+--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?
+
+--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas...
+
+--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
+
+E voltando-se para os hospedes:
+
+--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum
+amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me
+procure... Eu volto já.
+
+Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido
+visitante.
+
+Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos,
+estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios
+brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma
+vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo
+escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres
+claras.
+
+Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma
+expansão de velha amizade, dizendo:
+
+--Já me não conheces, não é assim, Gustavo?
+
+--Julio! Pois és tu?
+
+--Sou eu, meu amigo!
+
+E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos
+braços o seu amigo e companheiro de infancia.
+
+--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não
+tenho tido noticias tuas!
+
+--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...
+
+--Singularissima ausencia!
+
+--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções
+do imprevisto, porque precisava de esquecer...
+
+--E esqueceste, afinal? Ainda bem!
+
+--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda
+agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e
+d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo
+de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e
+onde tudo me hade ainda fallar d'ella!
+
+Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a
+suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam
+desgraçadamente transtornadas.
+
+Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:
+
+--Julgas-me doido, não é verdade?
+
+--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de
+Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens
+e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
+
+--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida,
+uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
+é porque sinceramente não a amou.
+
+--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?
+
+--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para
+Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que
+a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas.
+Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra
+que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma
+esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...
+
+--E como pudeste esperar tanto tempo?
+
+--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi,
+pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os
+jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as
+egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os
+collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que
+talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de
+se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha,
+percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam
+permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
+investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com
+toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui
+á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a,
+e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela
+familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado,
+velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal,
+convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã
+Dorotheia_, já não existe!
+
+--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda
+compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua
+existencia!
+
+--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas
+tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra
+mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me
+sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que
+doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que
+se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.
+
+--Comprar a casa de Norberto de Noronha!
+
+--Sim.
+
+--Com que fim? O que pretendes fazer?
+
+--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...
+
+--Mas vens só, não tens familia?
+
+--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram,
+constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas
+recordações!
+
+--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como
+sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia
+emquanto me demorar por estes sitios.
+
+--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua
+interferencia n'este negocio.
+
+--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus
+amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta
+triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos,
+que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha
+irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr,
+porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella
+com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua
+ingratidão... Vem!
+
+Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com
+grande curiosidade.
+
+A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos
+circumstantes.
+
+Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o
+elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga
+e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres
+da educação.
+
+Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a
+relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva,
+scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o
+secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.
+
+--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos
+condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que
+regressa á casa de seus paes!
+
+--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que
+desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa
+velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um
+canto onde possa morrer descançado.
+
+--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens
+ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
+saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida
+inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que
+reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam
+a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer
+homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha
+experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem
+ter cumprido a minha missão...
+
+--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te
+faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os
+filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de
+affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos,
+das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a
+velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos
+no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu,
+abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que
+tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão
+a morte redemptora dos grandes desgraçados?
+
+--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom
+de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um
+homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas
+estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém,
+cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que
+pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a
+aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso
+ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu
+estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...»
+Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um
+genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado
+muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na
+esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco,
+toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma
+mulher que passa dos quarenta.
+
+--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido
+os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma
+paixão confessada.
+
+--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito
+gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de
+amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era
+um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês!
+Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que
+casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
+
+E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete,
+e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca
+das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o
+rotundo abdomen.
+
+Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo
+commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em
+casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
+
+--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de
+oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades
+nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do
+regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua
+provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela
+sua prolongada ausencia!
+
+E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
+
+--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho,
+pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se
+celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu
+não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de
+quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e
+gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
+
+Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo
+alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido
+viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do
+mundo, como o _infante D. Pedro_.
+
+O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão
+que havia de proceder aos festejos.
+
+Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de
+mais um dia de grossa pandega.
+
+--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que
+conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria
+me mortifica!
+
+--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que
+só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má
+lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser
+clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte,
+agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
+
+--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a
+fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e
+eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de
+tristezas!
+
+--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te
+esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que
+ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde
+occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias
+do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo
+que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra
+d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma
+d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
+bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles
+não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
+
+No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio,
+dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
+
+O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos
+no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão
+preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
+
+Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no
+horisonte um vago olhar de tristeza.
+
+Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e
+n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e
+quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia,
+era outra vez obrigado a expatriar-se.
+
+Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
+
+--Bons dias!
+
+O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
+
+--Muito bons dias!
+
+--É o proprietario d'esta casa?
+
+--Um seu criado!
+
+--Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
+
+--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
+
+E chamando pelo criado:
+
+--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.
+
+O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em
+fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio
+escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e
+obedecer.
+
+Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este
+dialogo:
+
+--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim?
+
+--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra
+tornar no Brazil...
+
+--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui
+morreu, o sr. Norberto de Noronha...
+
+--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas
+informações que dão-me d'elle, hein!
+
+--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?
+
+--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que
+lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a
+queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella,
+já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto,
+dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender
+este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a
+comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas
+como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por
+lá...
+
+--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa
+senhora que comprou esta casa?
+
+--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava
+ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal
+João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei
+só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras
+propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a
+familia de Norberto, já vejo...
+
+--Conheci. A casa soffreu modificações?
+
+--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e
+pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo
+jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
+
+O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de
+que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo
+estado em que o fidalgo a deixára.
+
+Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a
+Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos,
+commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
+que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a
+filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem
+morria.
+
+Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de
+explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar.
+Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira
+a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de
+Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara,
+achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
+
+--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui
+encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr
+ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
+
+--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.
+
+--Com mobilia ou sem ella?
+
+--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
+
+--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e
+concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar
+ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
+
+--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos
+lhe darei por ella.
+
+O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria
+regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e
+reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois
+contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria
+embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a
+somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
+
+--Quer assim?--interrogou Julio.
+
+--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho
+vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle
+ágora...
+
+--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em
+o adquirir por menos do seu justo valor.
+
+--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda
+cortezia.
+
+--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade
+d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho.
+Quando quizer, faremos a escriptura!
+
+--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é
+hospede d'elle, já vejo...
+
+--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo
+dar-lhe de signal.
+
+--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se
+conhecem pelas palavras, já viu?
+
+--Como queira.
+
+--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no
+tabellião fazer a escriptura, hein!
+
+--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de
+vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
+
+--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não
+ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre
+elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião...
+
+Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
+
+--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que
+chegou.
+
+--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar
+um negocio d'essa ordem?
+
+--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a
+compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha
+uma realisação legal.
+
+--Por quanto a compraste?
+
+--Por doze contos, tal como está.
+
+--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
+
+Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario
+da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
+
+O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a
+sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa
+alheia.
+
+Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio
+comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos
+proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos
+para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova
+propriedade.
+
+Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente
+guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo
+de Gustavo de Magalhães.
+
+--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os
+absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto
+tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o
+emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada,
+presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do
+espirito humano.
+
+--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de
+faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento
+systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
+enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob
+a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de
+diversos e oppostos costumes...
+
+--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal
+succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
+
+--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o
+juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos
+amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado.
+Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de
+sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação
+dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos
+grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e
+dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs,
+prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz
+aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que
+seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres
+faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de
+regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que
+este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como
+é o de uma esposa por seu marido?...
+
+--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia
+fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na
+vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa
+alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a
+convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da
+esposa!
+
+Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam
+acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro,
+com a D. Graciana.
+
+--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o
+diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios
+maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e
+faço ideia do petisco que ha-de ser...
+
+--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua
+voz de assobio.
+
+--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem
+tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que
+pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida
+d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos
+que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só
+agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos
+a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força
+fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata
+e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
+risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a
+nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um
+homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha
+soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle
+distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande
+prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por
+caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta,
+achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma
+verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
+
+--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha
+vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a
+um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas,
+sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que
+sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o
+caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão
+simples...
+
+--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o
+vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se
+distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue
+ao divertimento...
+
+--Agora não!--tornou o commendador.
+
+--Por falta de pisco?--perguntou o medico.
+
+--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente...
+Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com
+passaros em casa.
+
+A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta
+ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as
+attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
+
+A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães
+e travava-se entre os dois este dialogo:
+
+--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de
+Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de
+Norberto de Noronha.
+
+--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
+
+--Na intenção de a habitar?
+
+--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da
+minha vida.
+
+--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia
+de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão
+retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe
+n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
+
+--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
+
+--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem
+recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos
+felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui
+passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi
+desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de
+Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem
+luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
+
+--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente
+desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um
+prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais
+soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais
+lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que
+hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
+espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito
+annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na
+mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos
+fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla
+dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então
+proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle
+infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o
+meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho
+soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me
+julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos
+dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de
+felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
+
+--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse
+tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave
+candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira
+de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os
+primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei
+como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura.
+Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes,
+antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
+deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma
+religiosa pontualidade!
+
+--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?
+
+--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu
+a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria
+ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
+
+--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um
+taberneiro da Serra do Carvalho...
+
+--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de
+que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio,
+suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado
+em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia
+anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um
+sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no
+processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e
+condemnado a galés por toda a vida.
+
+--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o
+agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle
+esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha
+muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser
+até que já tenha morrido...
+
+--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por
+aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de
+Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
+
+--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o
+assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não
+foi estranho o raptor de Helena...
+
+--O padre Anselmo?
+
+--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?
+
+--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi
+com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que
+conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
+casa paterna?
+
+--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena?
+
+--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a
+d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu
+lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que
+cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me
+preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios,
+breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me!
+O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um
+momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
+os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a
+accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque,
+apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão
+Gustavo, julgo-a irresponsavel.
+
+--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?
+
+--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso
+assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e
+cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé
+e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
+
+--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
+
+--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
+
+--E Helena amava o primo?
+
+--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas
+vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse
+indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até
+que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella
+me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com
+elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não
+succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum
+rapaz a quem quizesse mais...»
+
+--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a
+abraçar a vida religiosa....
+
+--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha
+para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse.
+Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e
+seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa,
+fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.
+
+Os dois calaram-se por instantes.
+
+--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido
+immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?
+
+--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...
+
+--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que
+experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse
+conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me
+eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que
+sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
+Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi
+esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu,
+onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me
+hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma
+recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para
+logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um
+meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!
+
+--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma
+paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido
+apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!
+
+--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...
+
+--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais
+ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?
+
+--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o
+permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento
+para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é
+porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.
+
+Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas
+entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella
+a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
+todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir
+para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias
+d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos
+mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel
+ouvir sequer fallar d'ella.
+
+--Conclue portanto que Helena...
+
+--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...
+
+--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida
+religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu
+pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia
+de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra
+vontade que não fosse a sua.
+
+--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a
+parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais
+achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me
+leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua
+evasão.
+
+--Seria possivel?
+
+--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.
+
+--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a
+professar?
+
+--Sei muito bem.
+
+--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as
+exigissem?
+
+--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do
+destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem
+tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez
+dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era
+uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos
+os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima
+hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo...
+Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a
+morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve
+tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para
+sempre á familia e á sociedade.
+
+--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!
+
+--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha
+creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e
+a desgraça comsigo.
+
+--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem
+conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que
+eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!
+
+--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D.
+Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce
+lenitivo de me fallar de Helena...
+
+--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas
+n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e
+soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer
+que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D.
+Aurelia com um fundo suspiro.
+
+A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do
+commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das
+festas em honra de Julio.
+
+Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois
+entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:
+
+--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?
+
+--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito
+fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para
+se distrahir.
+
+Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou
+nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.
+
+Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
+
+
+
+
+XIII
+
+Denuncia
+
+
+João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os
+amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.
+
+O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta
+demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos
+lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto
+o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma
+honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
+no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:
+
+--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para
+terem a honra de se sentarem ao meu lado!
+
+--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o
+ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus
+talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a
+vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és
+alvo...
+
+--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão
+de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos
+incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja
+arroz cosido em vez de miolos?
+
+--Talvez tenhas razão, talvez...
+
+--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se
+não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura
+do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a
+generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os.
+Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de
+immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro,
+querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu,
+quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com
+admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se
+aproximarem de mim.
+
+O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se
+que não dissesse:
+
+--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são
+elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com
+franqueza?
+
+--Dize lá.
+
+--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o
+idiota és tu!
+
+João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo
+com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:
+
+--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na
+apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e
+animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente,
+vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito
+para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos.
+Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os
+amigos me darem de cear...
+
+--Para que então?
+
+--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação
+publica...
+
+--Já lhes expuzeste o teu plano?
+
+--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para
+se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que
+tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de
+duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu
+digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra
+grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A
+gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha,
+é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o
+plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa
+de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para
+me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me
+sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de
+grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas
+vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão
+de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora
+ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para
+quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e,
+sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
+rodeiam!...
+
+--Bom! Mas, a final, o que queres tu?
+
+--Dinheiro!
+
+--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente
+o que todos querem...
+
+--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes
+volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta
+mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de
+dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a
+face do paiz.
+
+--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...
+
+--Quaes circumstancias?
+
+--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma
+somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...
+
+--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que
+depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes,
+ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se
+pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.
+
+--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do
+teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o
+realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em
+acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento
+não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...
+
+--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é
+só para mim, o bem é para todos.
+
+--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as
+sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos
+amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...
+
+--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.
+
+--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o
+impõe, o que havemos de fazer?
+
+--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha
+dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.
+
+--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas
+considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me
+revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como
+queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas?
+Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá
+difficuldade em a conseguir.
+
+--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?
+
+--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma
+força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um
+casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.
+
+João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
+
+--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale
+bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos
+os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que
+não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente
+que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens
+capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de
+egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de
+soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
+_Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a
+pedir João Branco e Pita Beserra!
+
+Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os
+cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos
+quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam
+o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João
+Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.
+
+--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é
+d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...
+
+E consultando o relogio:
+
+--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não
+estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia,
+porque á noite talvez retire para Lisboa.
+
+--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?
+
+--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...
+
+--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde
+ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...
+
+--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu
+proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o
+meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o
+favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui
+estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso
+para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos
+abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem
+consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por
+mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!
+
+Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.
+
+--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro
+despedindo-se.
+
+--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido
+que me não merece.
+
+--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde
+arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...
+
+--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas,
+se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se,
+porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples
+devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses
+bilhostres.
+
+Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu
+a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.
+
+--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.
+
+Pelo caminho, ia monologando:
+
+--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que
+vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim,
+á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes
+apanhar dinheiro para ir até Hespanha.
+
+E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica
+reminiscencia da tanga:
+
+--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!
+
+Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com
+Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.
+
+--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto
+para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas
+damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te
+conhecer.
+
+O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e,
+respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:
+
+--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a
+esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma
+reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
+que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia,
+insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não
+protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder
+aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os
+velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os
+acompanham.
+
+Seguiram-se as apresentações:
+
+--Senhorita Lola...
+
+--Senhorita Dolores...
+
+--Senhorita Consuelo...
+
+O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a
+cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.
+
+Abancaram á mesa e principiou o festim.
+
+A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que
+havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa
+espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de
+recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois
+de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.
+
+A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.
+
+--Um moço de fretes com esta carta para a menina...
+
+A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador,
+usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se
+achava a sós com Leonor.
+
+--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o
+sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma
+declaração?
+
+--O portador não esperou _reposta_.
+
+--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que
+entregou a carta.
+
+E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
+
+--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel
+vulgar em que a missiva vinha escripta.
+
+--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios
+d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com
+bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério,
+homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu
+dinheiro e é bastante...
+
+Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma
+agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente
+pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:
+
+--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!
+
+--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de
+curiosidade.
+
+--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio
+vae casar.
+
+--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos
+de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha
+que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal
+cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_!
+
+Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha
+comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:
+
+«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser
+agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir
+em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
+muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito
+breve.
+
+«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado,
+discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o
+procedimento de Eugenio.
+
+«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que
+já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma
+menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
+libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da
+sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio,
+receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro,
+escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda
+pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria
+provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a
+receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do
+commendador Garcia.
+
+«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente
+atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto,
+afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente
+enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.
+
+«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da
+veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará
+amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do
+meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa
+_Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa
+apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.
+
+«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»
+
+Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha
+confidente, exclamando:
+
+--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!
+
+--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do
+demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir
+pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos,
+tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma
+carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe
+désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns
+soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse
+attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero
+dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei!
+
+--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da
+curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de
+Eugenio.
+
+--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a
+menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr.
+Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!
+
+--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse
+outro namoro?
+
+--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como
+isto!
+
+E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.
+
+--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na
+sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto
+o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?
+
+--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora
+p'ró oitro, menina...
+
+--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma
+tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar
+assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando
+um golpe de morte ao meu coração!
+
+E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.
+
+A velha apaziguava:
+
+--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,..
+
+--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não
+póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me
+esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma
+coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus!
+que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim,
+rompendo em soluços.
+
+--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto
+sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja
+tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração
+ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_
+dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se
+devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se
+arranja nada...
+
+--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de
+desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem
+se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a
+perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a
+gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu
+alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo
+unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar
+todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha
+posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades,
+aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando
+casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu
+socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos
+seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam
+capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a
+ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta
+affronta!
+
+No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um
+peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade
+irritada, o odio, o ciume, emfim.
+
+A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de
+prudencia ou de banal consolação.
+
+De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a
+suspirar, murmurando em voz lamurienta:
+
+--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do
+Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!
+
+Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla,
+pareceu tomar uma resolução.
+
+--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma
+palavra ao sr. Eugenio.
+
+--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para
+nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que
+nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e
+começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...
+
+--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem
+que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...
+
+--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina
+fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle
+se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem
+tem...
+
+--É justamente isso o que eu quero.
+
+--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_...
+Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma
+coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra
+amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão
+muitas _invejidades_!...
+
+--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar...
+Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra
+o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a
+primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...
+
+--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não
+desconfiar...
+
+--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?
+
+--Ora essa! A'gora esqueço!...
+
+--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...
+
+--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa,
+não tem senão chamar...
+
+Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a
+alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar
+as horas com a rapidez de minutos.
+
+Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro
+horas da manhã, no quarto da amante.
+
+Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da
+ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes,
+recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.
+
+Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer,
+tranquilla.
+
+--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia
+prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui,
+anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!
+
+Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:
+
+--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada...
+Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...
+
+--Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?
+
+--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres
+de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...
+
+--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te
+agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr
+quando eu chegava, e deu-te esse resultado!
+
+--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais
+tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...
+
+--Mas estás melhor, não é verdade?
+
+--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena
+de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...
+
+--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu
+sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria
+immediatamente.
+
+--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto
+passa.
+
+A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor
+occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.
+
+O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da
+formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte
+lhe notou nas feições.
+
+Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais
+ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio
+teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
+transporte de ternura infinita que lhe disse:
+
+--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a
+companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente,
+sinto-me melhor...
+
+--Não, eu venho cêdo...
+
+--A que hora?
+
+--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé,
+filhinha...
+
+--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres,
+servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...
+
+--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho
+á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?
+
+--Pois sim.
+
+Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.
+
+Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia,
+Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao
+piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo
+correspondente lhe havia indicado.
+
+Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe
+escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais
+que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia
+e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no
+espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel
+desejo de conhecer toda a verdade.
+
+Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da
+rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma
+ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um
+chapéo de feltro.
+
+A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada
+ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella,
+para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
+
+Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o
+denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa
+curiosidade.
+
+O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e,
+parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e
+disse, inclinando-se em garboso cumprimento:
+
+--Não esperava que fosse eu, não é verdade?
+
+--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições
+de João Lazaro.
+
+--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio
+galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido
+d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma
+vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e
+acrisolou com a ausencia.
+
+--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de
+impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de
+estima que aqui veio...
+
+--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de
+Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe
+quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem
+recebeu...
+
+--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os
+factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses
+factos para explicar o seu procedimento...
+
+--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas
+perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem
+censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em
+favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira,
+porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente;
+e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
+são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora
+com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe
+declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e
+quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma...
+Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a
+mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e
+mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui
+preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel
+para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora
+Leonor sabêl-o...
+
+--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!
+
+--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso
+ironico.
+
+Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel
+desespêro:
+
+--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se
+chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa
+Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me
+haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de
+intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são
+gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu
+coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem
+subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...
+
+--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo.
+
+--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.
+
+E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os
+labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um
+pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.
+
+--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel
+galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não
+mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que
+a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a
+mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?
+
+--O que quer dizer?
+
+--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto,
+mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é
+preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato
+coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!
+
+Leonor encarou-o com altiva dignidade:
+
+--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?
+
+--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que
+sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me
+tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro
+do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da
+negra perfidia de Eugenio!
+
+Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente,
+como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim,
+respondeu:
+
+--O meu coração, por emquanto, não está livre.
+
+--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como
+merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado
+recanto do seu peito, Leonor?
+
+--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e
+estima sincera.
+
+--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova
+mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!
+
+A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe
+ficava proximo.
+
+--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me
+prometteu.
+
+--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo
+amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a
+nada obrigam...
+
+--O que deseja então?
+
+--Que me prometta, que me jure duas coisas...
+
+--Dirá.
+
+--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás
+minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da
+infidelidade de Eugenio.
+
+--Prometto.
+
+--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza
+completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de
+felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
+que, n'esta casa, occupava Eugenio...
+
+A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que
+mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração
+de mulher ciumenta.
+
+--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou.
+
+--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que
+póde ficar sabendo desde já.
+
+--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!
+
+--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais
+leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...
+
+--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para
+se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a
+brincadeira!
+
+--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso
+cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade,
+submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas
+estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados
+e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue
+frio, para procedermos com acerto e prudencia.
+
+--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é
+apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me
+vae fazer.
+
+--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta
+que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a
+verdade.
+
+--Como se chama essa menina?
+
+--Beatriz.
+
+--Onde mora?
+
+--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.
+
+--Diz então que o casamento está projectado para breve?
+
+--Digo.
+
+--N'esse caso, essa menina ama-o?
+
+--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a
+recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a
+ama, pois que pediu a sua mão.
+
+--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
+
+--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o
+seu segredo...
+
+--Como o soube então?
+
+--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!
+
+--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se
+divertir á custa alheia?
+
+--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais
+particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio
+pedir-me informações a seu respeito.
+
+--O que lhe disse?
+
+--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que
+Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.
+
+--Mas é forçoso impedir esse casamento!
+
+--Talvez não seja impossivel.
+
+--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?
+
+--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço
+amigos intimos seus. O que deseja d'elle?
+
+--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender
+que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...
+
+--Está doida! E o commendador Garcia?
+
+--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não
+case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se
+achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação
+indescriptivel.
+
+--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a
+mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso
+que cumpra o que prometteu.
+
+--Pois sim... Diga então o que devo fazer...
+
+--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.
+
+--Como?
+
+--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...
+
+--Merece...
+
+--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de
+Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do
+que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este
+mundo.
+
+--E obtida a certeza?
+
+--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar.
+Faz isto?
+
+--Faço.
+
+--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.
+
+--Não suspeitará.
+
+--E eu voltarei a informál-a.
+
+--Quando?
+
+--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
+
+--E até lá nada devo dizer nem fazer?
+
+--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do
+Custodio de Jesus.
+
+--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com
+o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma
+informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente!
+Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...
+
+--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.
+
+--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás
+circumstancias?
+
+--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva
+gravidade.
+
+E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:
+
+--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os
+seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha
+transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto.
+E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo
+na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu
+lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e
+a attender-me...
+
+--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os
+meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio,
+remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os
+seus torpes intentos!
+
+--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um
+escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á
+senhora...
+
+--Só a mim, diz?
+
+--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em
+casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do
+commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino»,
+essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante
+para impedir o casamento?
+
+Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:
+
+--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de
+Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada
+affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade;
+pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que
+sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
+toma a sério.
+
+A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe
+de colera, n'uma indignação suprema.
+
+--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E
+porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso
+sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada
+a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a
+felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o
+direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o
+terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus
+juramentos?
+
+João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só
+instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe
+brincava nos labios.
+
+--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A
+sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está
+precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe
+rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela
+qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu
+favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a
+razão, que ninguem attende.
+
+--Ha de pelo menos attendel-a elle!
+
+João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
+
+--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se
+ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle
+esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se.
+Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe
+assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma
+alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de
+uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.
+
+--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que
+é!--bradou Leonor completamente dementada.
+
+--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de
+impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca
+poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
+loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo
+cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e
+a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher
+despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim,
+minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este
+escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por
+muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos
+impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê,
+Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o
+commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este
+seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de
+prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem
+n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está
+fallando.
+
+--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura,
+estorcendo as mãos em desespero.
+
+--Ter prudencia e esperar.
+
+--Ter prudencia! Esperar... o que e como?
+
+--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois
+tenha prudencia e vingue-se, Leonor...
+
+--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu
+hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?
+
+--Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com
+provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar.
+Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma
+alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu
+ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha
+a...
+
+--A que?
+
+--A realisar grandes emprezas que premedito...
+
+Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
+
+--E que emprezas são essas?
+
+--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos
+auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos.
+Posso contar com a senhora?
+
+A loura hesitou. Por fim respondeu:
+
+--Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou,
+pelo menos, a vingar-me d'elle.
+
+--Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
+
+--Está bem!--disse a loura estendendo-lhe a mão--póde contar comigo.
+
+João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e
+dispoz-se a sahir.
+
+--Ámanhã voltarei á mesma hora--disse elle á sahida.--E o signal
+convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
+
+--Espere!--reflectiu a loura--Se ás vezes, por qualquer motivo, não me
+fôr possivel recebel-o...
+
+--Claro está que não dá o signal.
+
+--Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...
+
+--Toque então a marcha da _Cadiz_.
+
+--Está bem.
+
+--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que não venha no
+dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria
+Rusticana_. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias
+depois.
+
+--Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...
+
+--Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
+
+--Até amanhã.
+
+O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um
+beijo, e sahiu.
+
+
+
+
+XIV
+
+Miseravel!
+
+
+João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge.
+Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo
+de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o
+serviço domestico.
+
+--Venho fazer-te a promettida visita--disse João Lazaro ao amigo que
+estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.
+
+--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta
+e indicando-lhe uma cadeira.
+
+--Sempre a trabalhar!--disse João Lazaro com um sorriso de
+curiosidade.--Em que diabo te occupas agora?
+
+--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é
+a minha paixão...
+
+--Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...
+
+--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...
+
+--Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?
+
+--Eu!
+
+--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade.
+Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um
+trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias
+brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?
+
+--Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os
+da tua côr.
+
+--Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me
+fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a
+collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não
+impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias
+politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me
+por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se
+perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me
+secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não
+comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau
+a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!
+
+--Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear
+publico...--disse Jorge rindo.--Mas não, meu caro, eu não estou
+resolvido a collaborar em jornaes...
+
+--Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a
+sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.
+
+--Mas eu não pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--Não
+tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por
+nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu
+gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta
+violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida,
+actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica.
+Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?
+
+--Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...
+
+--Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste
+bom acolhimento por parte dos teus amigos...
+
+João Lazaro fez uma carêta de despeito.
+
+--Uns pulhas, os taes meus amigos!
+
+--O que! Acaso não estás contente com elles?
+
+--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és
+meu amigo...
+
+--Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias
+que me fazes.
+
+--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por
+um partido de verdadeiros bilhostres!
+
+--Ai, já?!
+
+--Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um
+escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas,
+acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas,
+fazia-o sem a mais leve hesitação.
+
+--Não pódes... isso com certeza não pódes--tornou Jorge.
+
+--Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes
+imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem,
+e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!
+
+--Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?
+
+--São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada...
+Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas
+enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome,
+unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...
+
+--És modesto, João!--interrompeu Jorge rindo.
+
+--Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias.
+A verdade é esta...
+
+--Tens razão. _Inter amicus non est gerigonça_, dizia-se no meu tempo.
+Continua.
+
+--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de
+um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me
+livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados
+de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos
+amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque
+elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro
+está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o
+triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para
+lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?
+
+--Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...--disse Jorge com sarcasmo.
+
+--É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o _sangue_ pela
+patria?
+
+--É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...
+
+--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio
+de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria,
+porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o
+salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!
+
+--Mas, afinal, de que tens tu vivido?
+
+--D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres,
+persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples
+vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas
+agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes
+sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento
+do seu partido!
+
+--O mundo está cheio de ingratos, meu caro!
+
+--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á
+ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em
+vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e
+perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou
+um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?
+
+--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro
+João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
+exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que
+não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a
+sangrias repetidas...
+
+--É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças...
+Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é
+justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
+
+--Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os
+factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro
+auxiliado és tu...
+
+--Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu
+quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não
+teria difficuldades...
+
+Jorge sorriu.
+
+--Isso tambem eu creio--disse elle.
+
+--E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á
+sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...
+
+--Queres dizer, se não continuarem a corresponder...
+
+--Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os
+interesses d'elles do que os meus...
+
+Houve um silencio de alguns minutos.
+
+--É verdade, ainda te dás com o Avioso?--perguntou o Lazaro.
+
+--Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
+
+--Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e
+intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.
+
+--É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de
+ser politico.
+
+--Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
+
+--Quando quizeres, estou ao teu dispôr.
+
+--Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr
+preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...
+
+--Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...
+
+--Bem; havemos de fallar.
+
+N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do
+aventureiro, e disse comsigo:
+
+--Temos o chefe mudado em espião...
+
+João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma
+fumaça:
+
+--A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores...
+Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o
+Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
+
+--É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?
+
+--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio,
+nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.
+
+--É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...
+
+--Mas tu disseste-me que sim...
+
+--Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro.
+Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam
+de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae
+adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...
+
+--Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!
+
+--Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa
+particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem
+difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo
+ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.
+
+--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do
+Eugenio?
+
+--Não sei... talvez indagasse.
+
+--Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por
+força grande embrulhada.
+
+--Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que,
+não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de
+rapaz rico...
+
+--Á custa do commendador Garcia...
+
+--Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher
+n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...
+
+--Não é, mas o commendador dispende muito com ella.
+
+--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha
+dissipação...
+
+--Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.
+
+--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de
+receita, tu bem o sabes...
+
+--Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...
+
+--Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive,
+dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do
+procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...
+
+--A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o
+capitalista...--aventurou João Lazaro.
+
+--Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.
+
+--Hei de averiguar!--tornou o João Lazaro.
+
+--Que interesse tens tu em o saber?
+
+--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu
+semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece
+rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e
+que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de
+posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
+amigo e offerece ceias?...
+
+--E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que
+ficas conhecendo...
+
+--Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não
+tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje,
+para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...
+
+--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me
+lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua
+canalhice...
+
+--Nada, nada, menino!--protestou João Lazaro--Quem o inimigo poupa nas
+mãos lhe morre...
+
+--Elle, porém, não é teu inimigo...
+
+--Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o
+homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...
+
+--Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como
+procederás com aquelles a quem odeias?...
+
+--Queres ver? Olha!
+
+João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.
+
+--Tenho aqui--disse elle--uma relação dos meus inimigos--a quem hei-de
+um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que
+só estão os nomes dos individuos _premiados_... Vê!
+
+Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.
+
+--Para que é isto?--perguntou Jorge.
+
+--Para que? São _crédores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de
+ser uma _liquidação_ completa!
+
+E fez um gesto de quem aperta um laço.
+
+--Serias capaz d'isso, João?--disse Jorge n'um tom sombrio.
+
+--Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr...
+Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminação_ como nunca viste.
+
+--Não darás...
+
+--Porque?
+
+--Porque se a _festa_ se preparar, eu já sei que, para evitar o
+espectaculo de uma semelhante _illuminação_, tenho de te procurar e
+metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.
+
+--Tu!
+
+--Eu.
+
+--Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.
+
+--Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar
+sempre prevenido...
+
+João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.
+
+--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da
+tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...
+
+--E a gracejar confeccionaste esta lista...
+
+--Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de
+vingança--aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...
+
+Jorge sorriu com despreso:
+
+--Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não
+tencionas realisar...--disse elle.
+
+--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o João Lazaro.
+
+--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus
+dias... Queres um conselho, João?
+
+--Dize lá?...
+
+--Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes
+dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a
+leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.
+
+--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de
+mera brincadeira da minha parte!--disse João Lazaro, verdadeiramente
+compromettido.
+
+--É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam
+d'uma invenção absurda e idiota.
+
+Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
+
+--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de
+realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes
+figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em
+que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..
+
+Jorge encarou-o.
+
+--Vaes então mudar de campo de acção politica?--perguntou.
+
+--Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me
+entendo com semelhante canalha!
+
+--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a
+realisação do teu decantado plano, o que farás?
+
+--Ao dinheiro? Gasto-o.
+
+--E ao plano?
+
+--O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique
+e mais elle...
+
+Jorge riu-se.
+
+--É então ainda uma mystificação que projectas?
+
+--Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os
+principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei
+que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que
+é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro
+que me derem...
+
+--E se não conseguires que te dêem coisa alguma?
+
+--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, não me
+recusarão o que os meus correligionarios me negam...
+
+--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em
+boas relações com o Avioso?
+
+--Foi.
+
+--Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.
+
+--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
+
+--Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do
+Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.
+
+--Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...
+
+--Dize lá!
+
+--Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar
+suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires.
+Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo.
+Acceitas?
+
+--Está combinado. Acceito.
+
+--Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...
+
+--Já sei. Quanto?
+
+--Por uma vez só?
+
+--Não. Por mez.
+
+--Diabo! Eu não sou um espião vulgar...
+
+--O que é bom paga-se bem. Quanto?
+
+--Duzentos mil reis será muito?
+
+--Não sou eu que hei-de dizel-o...
+
+--Pois quem?
+
+--Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...
+
+--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei
+serviço que valerá muito mais.
+
+--Têl-os-has.
+
+--Mas--observou João Lazaro com uma certa hesitação--ha ainda uma
+coisa...
+
+--Dize.
+
+--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso
+protelar por mais tempo.
+
+--Bem sei, precisas de um adiantamento...
+
+--É isso.
+
+--Quanto calculas que te seja preciso?
+
+--N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande
+auxilio.
+
+--Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem
+sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...
+
+--Comprehendo.
+
+--Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a
+maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.
+
+--Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas
+reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?
+
+--Basta.
+
+--Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não
+forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.
+
+--Está bem.
+
+--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
+
+--Fallo.
+
+--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não
+transpire por modo algum.
+
+--A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que,
+inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.
+
+--É precisamente isso.
+
+--Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem
+guardar.
+
+João Lazaro accendeu outro charuto.
+
+--Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!
+
+Jorge sorriu.
+
+--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...
+
+--É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não
+acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.
+
+--E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande
+desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem
+não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro.
+A proposito: sempre partes breve para Lisboa?
+
+--Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para
+Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.
+
+--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de
+relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?
+
+--Estou resolvido a tratar d'isso.
+
+--Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis,
+occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão
+representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?
+
+--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta
+como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta
+casar-se.
+
+--Sabe? Quem lh'o disse?
+
+--Eu. Tu não me pediste segredo.
+
+--Nem me interessa que ella o não saiba.
+
+--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores
+com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e
+chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está
+ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as
+minhas ordens.
+
+--Eu já sabia isso.
+
+João Lazaro encarou o amigo com espanto.
+
+--Já?!--perguntou.
+
+--Já.
+
+--Como o soubeste?
+
+--Eu sei tudo.
+
+--Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares
+espionar.
+
+--Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber
+a tua conducta.
+
+--Ah! sim...--fez João Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz
+não tinha caracter politico--e não acho correcto que me espionem e me
+sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me
+perseguem quando eu conspiro...
+
+--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello
+não realise o casamento com a filha do capitalista?
+
+João Lazaro fez uma carêta.
+
+--Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só
+castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia
+ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo
+que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me
+e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.
+
+--Se Eugenio casar...
+
+--Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o
+amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas
+relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior
+amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...
+
+--E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser
+admittido ao logar vago...
+
+--Justo!
+
+--É curiosa essa aventura!
+
+--É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
+
+--Será, mas entendo que deves proceder com cautela...
+
+--Porque?
+
+--Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel
+n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?
+
+--Dize.
+
+--Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me
+consultares primeiro. Valeu?
+
+--Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente
+precisado de dinheiro...
+
+--Não me esqueço.
+
+O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.
+
+--Adeus--disse elle--Amanhã procuro-te.
+
+--Pois sim. Adeus.
+
+Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle
+transpôr a porta da sala, murmurou:
+
+--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
+
+
+
+
+XV
+
+Conluio infame
+
+
+No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da
+casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.
+
+--A coisa é esta:--dizia o procurador--com pannos quentes não se faz
+nada.
+
+--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio,
+triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de
+pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha
+auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não
+deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e
+agora é tarde para tomar outro caminho...
+
+--Qual outro caminho?
+
+--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da
+auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido
+até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a
+crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu
+hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a
+façam entrar na ordem?
+
+--Mas não é preciso nada d'isso, homem!
+
+--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja
+nada e acha que não é preciso empregar a força?
+
+--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae
+cruel...
+
+--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de
+gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
+Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!
+
+--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar
+muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...
+
+--Mas que força é essa então?
+
+--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força
+das circumstancias?
+
+--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as
+nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim
+consegui convencêl-a.
+
+--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.
+
+--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.
+
+--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a
+largal-a a ella...
+
+--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite
+quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de
+tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a
+obriguem a acceitar este casamento...
+
+--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...
+
+--Não?
+
+--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o
+caso é outro...
+
+--Mas então diga lá.
+
+O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:
+
+--A questão é você querer...
+
+--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!
+
+--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...
+
+--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é
+isso?
+
+--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...
+
+--Hein! O que? Rapta-se?
+
+--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas
+de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...
+
+--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não
+percebi bem?...
+
+--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você
+com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por
+lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais
+longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...
+
+--Sim... E depois?
+
+--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá,
+agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o
+galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é
+tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...
+
+--O resto... Mas qual resto?
+
+--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o
+casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio
+senão acceitar por marido o homem que a raptou...
+
+--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...
+
+--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com
+esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que
+não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...
+
+--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?
+
+--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella
+desacreditada, só se elle não tiver vergonha.
+
+--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não...
+isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa
+o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e
+andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D.
+Carlota.
+
+--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para
+obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada,
+uma vez que o raptor a receba por mulher?
+
+O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que
+ruminando o plano do seu amigo Belchior.
+
+--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso
+era um escandalo de seiscentos diabos!
+
+--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que
+convinha...
+
+--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio
+escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não
+tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em
+escandalos?
+
+--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era
+escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a
+cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que
+convinha...
+
+--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.
+
+--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois
+d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem,
+senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em
+alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora,
+não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella
+desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da
+_praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?
+
+--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e
+estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher,
+senão debaixo de certas condições?
+
+--Quaes condições?
+
+--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que
+se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a
+coberto...
+
+--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior.
+
+--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga
+perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle
+impuzer... Nada, isso não é bom plano.
+
+--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não
+vejo outro meio...
+
+--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com
+ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao
+namoro, isso desse bom resultado.
+
+--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com
+quem se não póde tratar nada a sério...
+
+--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio
+coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle
+ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que
+eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...
+
+--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você
+conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus
+interesses como se fossem meus...
+
+--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se
+fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos
+fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que
+promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...
+
+--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter
+comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado,
+cumpre com toda a certeza.
+
+--E se não cumprir?
+
+--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao
+contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir
+por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a
+justiça...
+
+--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso
+velhaco.
+
+--O que lucrava?
+
+--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres
+pela maroteira feita a mim?
+
+--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o
+caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?
+
+--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.
+
+--Então, se comprehende, que mais quer?
+
+--E você compromette-se a fazel-o cumprir?
+
+--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle
+e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo
+que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso
+salvar as apparencias...
+
+--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.
+
+--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a
+proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que
+ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja
+encontrado com ella.
+
+--Justo!--disse o Custodio.
+
+--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que
+elle terá de se haver... Está bem assim?
+
+--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante.
+
+--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...
+
+--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se
+faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.
+
+
+
+
+XVI
+
+O rapto
+
+
+Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz,
+que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as
+acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada
+por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo
+prazer.
+
+O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito
+cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança
+de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez
+lhe puzesse a saude em risco.
+
+--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me
+afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo
+campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!
+
+--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente
+e não vamos...
+
+--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...
+
+--Mas se é um caso de força maior...
+
+--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem
+supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto
+custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...
+
+A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam
+açodadamente, gritando:
+
+--Então vamos?
+
+--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena
+tambem já está preparada, acho eu...
+
+A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz
+n'uma grande alegria:
+
+--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?
+
+--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas
+coisas que mandei preparar...
+
+--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que
+chega para um regimento!...
+
+--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são
+horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...
+
+Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias
+aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.
+
+A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações
+de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.
+
+A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.
+
+Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos
+caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo,
+dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro
+pelos dois homens.
+
+O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu
+o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para
+a cidade.
+
+--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha,
+amigo Custodio?
+
+--A distancia, realmente, não é grande...
+
+--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres
+desce-se bem...
+
+--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de
+Belchior.
+
+--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é
+muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos
+cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...
+
+Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia
+para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que
+não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.
+
+O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o
+assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador,
+esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras
+familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore
+frondosissima, começaram a cabecear com somno.
+
+Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.
+
+Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um
+aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.
+
+Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse
+possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão
+horroroso.
+
+Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas
+noites que não apparecia a fallar-lhe.
+
+Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o
+deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse
+ella, porque elle voltaria com boas novas.
+
+--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o
+mancebo intentava.
+
+--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e
+tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu
+procedimento.
+
+Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios,
+quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não
+communicasse, impressionou-a.
+
+E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem
+amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais
+aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas
+intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o
+soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe
+pelo menos antipathicas.
+
+Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma
+grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com
+grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um
+ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia
+que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.
+
+A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio
+pela fresca.
+
+--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de
+Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.
+
+--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de
+Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava
+interessado.
+
+E voltando-se para as senhoras:
+
+--Andem lá adiante...
+
+Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.
+
+As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e
+muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns
+numeros mais populares de uma revista em voga.
+
+--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não
+ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao
+campo!
+
+--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto
+passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?
+
+--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de
+ignoto receio.
+
+O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia,
+paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo
+argumentos sem tom nem som.
+
+Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que
+queriam encontrar-se no momento do assalto.
+
+--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe
+estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva
+á pequena.
+
+Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram
+de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.
+
+Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas
+levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois
+homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve
+resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do
+carro, que partiu em carreira desabrida.
+
+--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e
+perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir
+o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande
+afflicção.
+
+Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito
+açodados, perguntando:
+
+--O que é? O que aconteceu?
+
+--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram
+com ella dentro d'aquelle trem!
+
+E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.
+
+--E ella não gritou?--disse o procurador.
+
+--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a
+pobresinha não se tornou a ouvir!
+
+--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior.
+
+--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.
+
+O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos
+á cabeça, não fazia senão gritar:
+
+--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a
+minha filha!
+
+--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de
+noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia
+e apresentemos-lhe a queixa...
+
+--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.
+
+--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?
+
+-- Sim... foi elle...
+
+--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não
+queria... raptou-a!
+
+E em tom mais baixo:
+
+--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente,
+que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja
+outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.
+
+--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto
+não é coisa que se faça a um pae!
+
+--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a
+maior consternação.--Ainda não estou em mim!
+
+--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos
+mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a
+mim!
+
+--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso
+escarninho.
+
+--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira,
+e elles eram dois...
+
+--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só
+uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que
+lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com
+o regedor para perseguir os fugitivos!
+
+Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao
+largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois
+das nove horas da noite.
+
+Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e
+contaram-lhe o succedido.
+
+--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario.
+
+--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e
+afinal perdemol-os de vista...
+
+--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?
+
+--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer,
+deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no
+Porto e que se chama Eugenio de Mello.
+
+--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr
+se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração.
+Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.
+
+E preparando-se para tomar nota n'um papel:
+
+--Os seus nomes, fazem favor?
+
+O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e
+cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.
+
+--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse
+o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr.
+administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias
+precisas...
+
+--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha
+roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.
+
+--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento
+ou penitenciaria!
+
+--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.
+
+--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos
+direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...
+
+--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os
+fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos,
+póde muito bem fazel-os capturar...
+
+--O que vale é que nós conhecemos o raptor...
+
+--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem
+photographias, ainda melhor...
+
+--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é
+conhecido.
+
+--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas
+não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr.
+administrador dará as ordens.
+
+Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de
+empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu
+sahir.
+
+--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua.
+
+Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.
+
+--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na
+policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...
+
+--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!
+
+--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro
+remedio senão casar com o Eugenio...
+
+--Sim... isso é verdade.
+
+--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os
+jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos
+convinha...
+
+--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque
+já hoje não vão á policia...
+
+--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar
+arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de
+casar, quer queira, quer não!
+
+Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi
+feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia
+dos dois mascarados que a raptaram.
+
+Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz
+quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e
+atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a
+commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.
+
+Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos
+mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada
+de ternura, pegando-lhe na mão:
+
+--Beatriz!
+
+Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.
+
+--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e
+delicada.
+
+O mesmo silencio e a mesma immobilidade.
+
+Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto,
+poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a
+filha do Custodio não respirava.
+
+--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.
+
+--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada,
+assustou-se e desmaiou.
+
+--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.
+
+--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae
+em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.
+
+E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e
+afflicto:
+
+--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio,
+que até nos favorece o bom exito da empreza.
+
+--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.
+
+--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e
+tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos
+foram os proprios que nos auxiliaram?...
+
+--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras
+adiante...
+
+--Já esperavam o lance, os patifes!
+
+--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem
+que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam
+assignalado...
+
+--Era para Villar do Paraiso, pois não era?
+
+--Era.
+
+O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do
+taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.
+
+--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.
+
+--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.
+
+Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que
+alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até
+que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um
+largo portão de ferro.
+
+--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.
+
+E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.
+
+Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo,
+seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de
+uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos
+campos que a circumdavam.
+
+Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz,
+ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.
+
+Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um
+reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez
+aspirar a Beatriz um frasco de saes.
+
+Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e
+retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em
+Beatriz, sem preferir palavra.
+
+Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e
+circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.
+
+--Paulo! És tu?--disse ella.
+
+--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe
+na mão e beijou-lh'a com transporte.
+
+--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é
+isto? Como me encontro eu aqui?
+
+--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de
+um enorme perigo...
+
+--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu
+Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas
+como pudeste tu saber?
+
+--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o
+procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te
+estava armada e em que te queriam fazer cahir...
+
+--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.
+
+--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da
+desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os
+raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.
+
+--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram
+dentro do carro...
+
+--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que
+foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se
+realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a
+esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr,
+estás ao lado do escolhido do teu coração!...
+
+Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto
+d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.
+
+--E esta senhora--disse ella--quem é?
+
+Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á
+pergunta:
+
+--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha
+filha.
+
+--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á
+religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.
+
+Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:
+
+--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não
+pertence e a que de forma alguma tenho direito...
+
+--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na
+infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem
+tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de
+uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar
+junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?
+
+--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.
+
+--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz
+que não é minha mãe e chama-me seu filho!
+
+Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:
+
+--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para
+comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no
+meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á
+funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...
+
+--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a
+conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem
+a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão
+pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e
+soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por
+ella indifferença.
+
+--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me
+mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre
+incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos
+paes?
+
+--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem
+os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas
+as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como
+quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de
+respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me
+abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração,
+minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida
+que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo
+tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a
+protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois,
+minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a
+estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus
+paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me
+abandonaram?
+
+E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta
+scena:
+
+--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da
+crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento
+te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o
+mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens
+fallado com tão viva saudade?
+
+Beatriz corou e disse:
+
+--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao
+mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel
+compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem
+uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce
+affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e
+bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me
+dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora,
+nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia...
+inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem
+que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos,
+gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um
+escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse
+mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar
+que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para
+meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não
+buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava
+no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal,
+este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade
+de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia
+n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus
+a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao
+receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque
+é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e
+o meu coração ficava frio e indifferente.
+
+Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de
+sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.
+
+--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não
+sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não
+sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...
+
+--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu
+genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu
+não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E
+ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua
+velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por
+elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os
+sentimentos do meu coração.
+
+E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.
+
+--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á
+obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de
+consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o
+homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um
+pae!
+
+--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz.
+
+Madre Paula interveio:
+
+--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas
+a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as
+proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.
+
+E dirigindo-se a Beatriz:
+
+--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e
+amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem
+praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
+liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do
+seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui
+se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder
+livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao
+escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia
+segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?
+
+--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente
+agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!
+
+--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na
+minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
+correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois,
+que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e
+ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a
+honra e a reputação dos meus queridos filhos.
+
+Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil
+abbadessa.
+
+Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal,
+disse para Beatriz, levantando-a nos braços:
+
+--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve
+refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+
+--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a
+estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.
+
+
+
+
+XVII
+
+Quem semeia ventos...
+
+
+O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao
+commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de
+Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.
+
+O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos
+declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.
+
+A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio,
+esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos
+acontecimentos.
+
+--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida
+dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a
+fazer-se...
+
+--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da
+quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem
+em bôa occasião.
+
+--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao
+fundo...
+
+Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.
+
+Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um
+bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o
+procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para,
+saber que novidade tinha havido.
+
+--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e
+quer que eu lhe diga a novidade que houve!
+
+--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?
+
+--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o
+por algum portador de confiança, depois do rapto.
+
+--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...
+
+--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella
+para Villar do Paraiso como haviamos combinado?
+
+--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...
+
+--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta
+e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido...
+Nada, aqui houve tolice do rapaz...
+
+Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o
+Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que
+levava o negocio do casamento a bom caminho.
+
+No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio
+entrou:
+
+--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a
+convencer a pequena!
+
+--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.
+
+--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?
+
+--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...
+
+--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a
+Beatriz?
+
+--Eu?!
+
+--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!
+
+--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...
+
+--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava
+gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas
+brincadeiras!
+
+--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me
+um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia
+effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois
+d'isto, fosse raptar a pequena?
+
+--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você,
+quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!
+
+E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira
+grossa:
+
+--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar...
+Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se
+deixe enganar!
+
+O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio
+zombeteiro, meio ameaçador:
+
+--Você está doido, amigo Belchior?
+
+--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É
+preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de
+cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!
+
+--O que quer você dizer com isso, Belchior?
+
+--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei,
+com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos
+combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o
+Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a
+chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De
+você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde
+cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere
+mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer
+fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o
+compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso
+muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você
+lhe pareça o contrario!...
+
+O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio
+comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.
+
+--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar
+o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a
+dizer...
+
+--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o
+fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que
+o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu
+estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á
+pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não
+se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o
+contrario, que eu não o acredito.
+
+--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio,
+verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.
+
+--Não foi! Então quem foi?
+
+--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não
+entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a
+dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...
+
+--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?
+
+--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde,
+conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem,
+que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha
+a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o
+passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe
+explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr.
+Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não
+regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria
+você que eu fosse raptar a pequena?
+
+O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.
+
+Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos
+de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do
+bohemio.
+
+--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a
+rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada
+viram, e ninguem podia ter sido senão você...
+
+--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez
+o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?
+
+--Essa agora! Então não sabe que o foi?
+
+--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você
+indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...
+
+--Dos prejuizos... Que prejuizos?
+
+O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:
+
+--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois,
+entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me
+arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união
+mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a
+soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...
+
+--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o
+ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e
+negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu
+não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe
+dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E
+de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli,
+e o preto no branco falla como gente!
+
+E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.
+
+--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no
+branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente
+que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!
+
+--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o
+procurador n'um gesto de ameaça.
+
+--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu
+malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.
+
+--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra!
+ponha-se lá fóra!
+
+O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido
+de medo, foi recuando até á parede.
+
+Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa
+sobre o hombro, disse:
+
+--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu
+não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe
+digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar
+a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha
+empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso
+perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe
+mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os
+tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena.
+Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque
+não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não
+sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!
+
+O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se
+apressado a casa de Custodio.
+
+Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face
+de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae
+de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos
+haviam combinado dar-lhe.
+
+--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega
+uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o
+que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise...
+Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!
+
+Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no
+momento mesmo em que este se preparava para sahir.
+
+--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.
+
+--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera
+tempo de serenar e recobrar o sangue frio.
+
+--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos
+de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que
+fizemos hontem ao regedor e á policia...
+
+--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe
+com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo
+que elle não possa negar ainda que queira...
+
+--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.
+
+--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o
+diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso
+que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.
+
+--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio
+desconfiado.
+
+--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de
+duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava
+por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar.
+Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...
+
+--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe...
+
+O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda
+nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado
+com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame
+negocio.
+
+--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais
+dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está
+enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder
+tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!
+
+E voltando-se para o Custodio de Jesus:
+
+--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci,
+porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha
+mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de
+dizer comnosco... não nos póde contradizer...
+
+--Ágora contradigo! N'essa não caio eu...
+
+--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou
+casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...
+
+--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o
+Custodio de cada vez mais apprehensivo.
+
+--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro
+morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...
+
+--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.
+
+Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram
+para Villa Nova.
+
+
+
+
+XVIII
+
+Revelação
+
+
+O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos
+ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras
+e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro
+da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o
+estranho legado.
+
+Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas
+vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame
+do mysterioso manuscripto.
+
+A confissão da velha, porém, impressionara-o.
+
+Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera
+madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo.
+O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe
+revelára nos ultimos momentos.
+
+Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o
+padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção
+que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo.
+Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o
+abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a
+differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães
+no coração do padre Anselmo.
+
+Todavia, madre Paula suppunha a _Irmã Dorothêa_ vivendo em paiz
+estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado
+ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a
+principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo,
+deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais
+não quizeram saber?
+
+Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu,
+reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez
+viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.
+
+Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela
+conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre
+Paula, na casa das Sereias.
+
+--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da
+abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo?
+
+--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade.
+
+--É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para
+mim e creio que tambem para ti...
+
+--Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É
+ainda vivo?
+
+--Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não
+soube dizer-me se elle ainda vivia.
+
+--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?
+
+--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...
+
+--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes
+procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.
+
+--Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de
+confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer
+revelações importantes.
+
+Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de
+que ella o fizera depositario.
+
+--E o manuscripto o que diz?
+
+--O manuscripto--replicou o padre--é uma sentida e commovente narrativa
+feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
+nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova
+ainda, a ligaram ao padre Anselmo...
+
+--É singular!
+
+--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o
+filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo
+arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
+educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do
+nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões
+do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de
+Jesus...
+
+--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada.
+
+--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta
+esse nome?
+
+--É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a
+namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira
+primitivamente em Braga.
+
+--É extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que
+Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?
+
+--Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja...
+irmã de Paulo.
+
+--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor
+suspeita do que se trata.
+
+Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.
+
+--Chamava-se D. Carlota--disse--a mãe do padre Hilario?
+
+--Chamava.
+
+--É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no
+manuscripto que te veio ás mãos?
+
+--É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o
+padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes
+passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia
+para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica
+aspiração.
+
+--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz é filha de D.
+Carlota...
+
+--Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento
+d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do
+impedimento dirimente.
+
+--E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?
+
+--Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos
+os outros meios ao nosso alcance.
+
+--Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual
+vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima
+arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão
+fundas raizes.
+
+--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de
+suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a
+vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho
+extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente,
+devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde
+muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
+se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.
+
+--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.
+
+--O que não convem--recommendou o padre Filipe--é que Paulo tenha
+conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter
+do mais intimo segredo...
+
+--Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.
+
+N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias
+do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era
+Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu
+estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.
+
+--Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel--disse
+madre Paula.
+
+--Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma
+alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da
+vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...
+
+--Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...
+
+--Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui
+tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é
+lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas
+igrejas...
+
+--Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha
+muito tempo.
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama
+Beatriz, tem o nome de D. Carlota...
+
+--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...
+
+Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.
+
+--Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lépida a
+cuscuvilheira.
+
+--Então, o que soube?
+
+--O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto
+ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotécas_ e pelos modos leva
+coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...
+
+--E a familia?
+
+--A familia é só elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de
+cão_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho é um dia de
+juizo!
+
+--E a mulher? Elle não é casado?
+
+--Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava
+em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda
+chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e
+fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...
+
+--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?
+
+--Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...
+
+--Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.^a D.
+Anna?...
+
+--É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito...
+E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não
+a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar
+carregada de peccados!
+
+--Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da
+segunda mulher do Custodio de Jesus?
+
+--Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella
+santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que
+estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque
+quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu
+_préscurador_ chamado o _snr. Mélchior_, que é lá todo da casa do
+Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas
+coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque
+agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do
+namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um
+estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com
+oitro, que diz que é pôdre de rico.
+
+--Está bem!--disse madre Paula.
+
+--Veja lá a senhora as _desgracias_ que vão por esse mundo, tudo causado
+pela falta de religião e temor de Deus!...
+
+--Está bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--Vá na
+graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este
+serviço...
+
+Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:
+
+--Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da
+D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo
+matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que
+o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...
+
+O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:
+
+--As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude
+obter...
+
+--Ah! tambem indagaste?
+
+--Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...
+
+--Qual é?
+
+--É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo
+padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo
+menos uma idade que regula por esse tempo...
+
+--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?
+
+--Morreu.
+
+--Como o sabes?
+
+--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.
+
+--De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?
+
+--Não.
+
+--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem
+foi sua mãe?
+
+--Decerto.
+
+--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda
+horrorisada a bella abbadessa.
+
+--O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos
+outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso
+e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á
+sua desmedida ambição...
+
+--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?
+
+--Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua
+carreira de crimes...
+
+--Não terias meio de indagar se ella ainda vive?
+
+--Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como
+poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada.
+Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos
+sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como
+se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos
+que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o
+ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer
+ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos
+que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a
+pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que
+Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se
+livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e
+que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.
+
+O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade,
+sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre
+Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de
+alegria.
+
+--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre
+coração!--disse ella commovida.
+
+--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua
+attitude grave--é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um
+casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este
+proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que
+vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.
+
+--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu
+consentimento...
+
+--Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos
+amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um
+homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo
+que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez
+mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...
+
+Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz
+de Paulo:
+
+--Dá licença, minha mãe?
+
+--Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao
+seu encontro.
+
+O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe
+dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:
+
+--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de
+os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!
+
+--Tu dirás, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e
+se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr
+de nós...
+
+Paulo principiou dizendo:
+
+--O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de
+que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha
+felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu
+filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no
+coração logar para outro affecto igual...
+
+--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doçura a bondosa abbadessa.
+
+--O caso é este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho
+fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a
+cumplicidade de seu proprio pae!
+
+--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula.
+
+--A verdade, minha mãe!
+
+O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o
+com attenção.
+
+--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel
+para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior
+censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...
+
+--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho é que venho
+pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.
+
+--Falla!--disse o padre Filippe.
+
+O mancebo prosegniu:
+
+--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente
+envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal
+Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu,
+de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem
+sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria
+filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que
+se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide
+recebel-a por esposa.
+
+--Isso é impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--Não ha um
+pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força
+victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja
+vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas
+a acceitar invenções de tal ordem!
+
+--Não, minha mãe!--volveu Paulo--O que lhe digo é absolutamente certo e
+vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de
+Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura
+foi quem o declarou diante de mim.
+
+--É o que eu digo! gracejo de rapazes.
+
+--Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes
+circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto
+está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo
+que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado.
+
+--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?
+
+--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.
+
+--O que tencionas então fazer?--perguntou o padre Filippe.
+
+--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha
+n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle
+preparadas, para lh'a raptar eu.
+
+--Tu?!
+
+--E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher,
+heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira
+impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e
+tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae
+passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu
+logar. Falta-me apenas uma coisa.
+
+--O que é?--interrogou madre Paula.
+
+--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de
+Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita,
+antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.
+
+O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.
+
+Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem
+devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no
+pensamento dos dois:
+
+--«Não parece filho do padre Anselmo!»
+
+--Desejas então...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.
+
+--Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne
+receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella
+seja forçada a conservar-se occulta...
+
+--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito
+grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa
+casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por
+qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais,
+não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?
+
+--É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não
+duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja
+deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...
+
+O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto
+silencio, resolveu-se afinal a intervir.
+
+--Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem--disse elle. Paulo
+deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto
+justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva,
+porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a
+julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula
+deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira
+caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é
+o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se
+a trouxer para aqui...
+
+--É justamente esse o inconveniente que já apontei--interrompeu a
+abbadessa.
+
+O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:
+
+--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse
+inconveniente...
+
+--Qual?
+
+--Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi,
+madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e
+conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de
+Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre
+Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e
+resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam
+legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha
+amiga?--concluiu interrogando a abbadessa.
+
+--As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis
+indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.
+
+Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.
+
+--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos
+olhos.
+
+--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando
+furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de
+procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe
+adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados--concluiu--Sou um
+pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso
+dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está
+á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.
+
+--Oh, meu pae!
+
+--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que
+certamente esta habituada...
+
+--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge.
+
+--Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o
+direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem
+os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres.
+Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.
+
+--Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na
+aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem
+mais familia e onde nada falta.
+
+--Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves
+acceitar.
+
+--Já acceitei, meu pae!
+
+O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu
+com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do
+aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior,
+por maneira tão original como inesperada.
+
+Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce
+convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e
+os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se
+empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu
+verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e
+interessantes episodios se estão dando.
+
+
+
+
+XIX
+
+Um velho amigo
+
+
+Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a
+casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova
+propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que
+se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.
+
+Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de
+Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e
+poesias, como estava combinado muito tempo antes.
+
+O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou
+como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a
+_glorificação_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual
+tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias
+affectuosas.
+
+No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva
+em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem
+servir n'um banquete de cerimonia.
+
+O caso, porém, não era esse.
+
+Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os
+risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de
+tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.
+
+Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza,
+o lucto eterno do seu coração.
+
+Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em
+que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus
+desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.
+
+Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não
+se offenderam.
+
+--É um excentrico--dizia o juiz--Não ha que vêr, é um excentrico...
+
+--É um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o
+medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã.
+E talvez esteja ahi a sua salvação.
+
+--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um
+de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro
+atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis.
+O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande
+tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.
+
+Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias
+ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de
+amigos.
+
+Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma
+taciturnidade de espirito aterradora.
+
+Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez
+fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em
+recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa
+entrevista.
+
+Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua
+disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado
+agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a
+monologar as suas recordações e os seus desgostos.
+
+Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a
+estrada.
+
+Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de
+Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos
+felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido
+para as suas meditações ao ar livre.
+
+De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de
+Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.
+
+Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo
+um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito,
+pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a
+imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.
+
+--O que deseja?--interrogou Julio.
+
+--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o
+pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.
+
+Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou
+estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.
+
+Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua
+vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma
+pergunta.
+
+--Você é d'estes sitios?
+
+--Não, meu senhor... Eu sou de Braga.
+
+--De Braga?!
+
+--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...
+
+--Vem então de muito longe?
+
+--Venho, meu senhor!
+
+--Espere ahi.
+
+Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.
+
+--Entre!--disse elle.
+
+O pobre entrou.
+
+--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio.
+
+--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.
+
+--Ha que tempo sahiu da sua terra?
+
+--Ha muitos annos, meu senhor...
+
+--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_?
+
+--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo...
+E eu _támem_ era muito amigo d'elle!
+
+--Ah! você então era amigo do _Tomba_?
+
+--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle
+eramos como a unha e a carne...
+
+--E o que foi feito d'elle? Não sabe?
+
+--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...
+
+Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.
+
+--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou
+Julio a meia voz.
+
+O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como
+se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:
+
+--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois
+não é?
+
+--Sou.
+
+--Cá me queria a mim parecer!
+
+E batendo na testa desesperado:
+
+--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão
+a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava
+agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o
+_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está
+que é uma bisarria!
+
+--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!
+
+--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que,
+graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda
+as pernas me levam p'r'a onde eu quero.
+
+Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia
+talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer
+minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da
+habitação.
+
+--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar...
+
+--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre
+de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve
+inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!
+
+Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e
+disse-lhe:
+
+--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...
+
+--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...
+
+--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.
+
+Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume,
+honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.
+
+Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado
+aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da
+casa.
+
+--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem
+vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso!
+
+--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de
+D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de
+Noronha?
+
+--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado.
+
+--Nada! Não sei nada.
+
+--Pois já tudo isso lá vae!
+
+--Tudo?
+
+--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber
+as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho
+_arretirou_ p'ra Braga.
+
+--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do
+Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.
+
+--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e
+não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá
+deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu
+taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido
+falsa com o sr. Julinho...
+
+--Comigo!--exclamou Julio admirado.
+
+--Pois _antão_ não sabia?
+
+--Eu não sabia de nada...
+
+--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!...
+Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver
+se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a
+D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo...
+E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe
+desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras,
+_assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra
+casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...
+
+--Isso é extraordinario!--disse Julio.
+
+--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como
+o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi
+verdade, porque quem se _cia alhos come_...
+
+--Mestre _Tomba_, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você
+está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!
+
+--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou
+n'aquelle tempo...
+
+--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os
+calumniadores?
+
+--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que
+vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos
+diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava
+mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam
+mais para os queixos do _Tomba_!
+
+E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento
+do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira
+escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira
+que o guardava quasi á vista.
+
+--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi
+uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio
+da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a
+saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr.
+Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle...
+Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o
+enterrei!
+
+--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?
+
+--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr.
+Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da
+sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra
+nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_
+estava lá mettida com vossa _incellencia_...
+
+--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais
+espantado.
+
+--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se
+_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se
+fosse hoje tudo quanto ella dezia...
+
+--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo
+convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta,
+pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!
+
+--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe
+queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes,
+começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e
+esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão
+n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá
+e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe
+tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada!
+Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me
+passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que
+eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que
+deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...»
+Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas
+como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas
+não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em
+si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o
+levou seicentos diabos!
+
+Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_.
+
+--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas
+a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de
+Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o
+padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?
+
+--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?
+
+--Diga lá, mestre.
+
+--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu
+carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou
+escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz!
+Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes
+que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito
+bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que
+estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de
+contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!
+
+Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras
+do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma
+infame mystificação.
+
+--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois
+que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta
+escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?
+
+--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver
+verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz
+de fazer a outra...
+
+Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava
+recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o
+solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára
+aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo
+o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e
+suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao
+mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?
+
+Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a
+procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a
+deixara.
+
+--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo?
+Tornou a ter noticias d'elle?
+
+--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a
+pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se
+como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!
+
+--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?
+
+--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras
+a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em
+nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o
+patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em
+Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi
+o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou
+a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras
+e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava
+_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle
+ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que
+ninguem soube mais d'elle!
+
+Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e
+procurava o fio mysterioso que devia explical-os.
+
+--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?
+
+--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma
+brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha
+um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de
+seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella
+p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_
+a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!
+
+--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de
+Helena de Noronha?
+
+--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr.
+Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a
+minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem
+dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a
+oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da
+_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do
+diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me
+tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia...
+estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr.
+Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me
+uma libra d'esmola!
+
+--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a
+Helena de Noronha?
+
+--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta
+de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo
+Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual
+como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem
+co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de
+Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho
+tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...
+
+--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma
+incumbencia que eu desejo fazer-lhe?
+
+--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?!
+
+--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou
+no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre
+Paula...
+
+--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este
+nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o
+_Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na
+freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer
+tijolo!
+
+--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de
+perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o
+pessoas que nunca lhe fallaram?...
+
+--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a
+policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no
+_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos
+ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...
+
+--Pois não leve o santo...
+
+--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o
+não estraguem, que é o meu ganha-pão...
+
+--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem
+cá lhe bulirá n'elle...
+
+--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá?
+
+--O mais depressa que possa...
+
+--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o
+que quer que lhe diga?
+
+--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.
+
+--E se lá não estiver?
+
+--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.
+
+--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o
+_Tomba_ radiante.
+
+E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.
+
+
+
+
+XX
+
+Alma negra
+
+
+Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia,
+apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas
+mãos de João Lazaro.
+
+O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito
+desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á
+endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição
+insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de
+histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns
+accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
+encarquilhado protector.
+
+Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico,
+consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_,
+que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo,
+porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem
+posse do corpo é que custam mais a debellar.
+
+Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella
+não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por
+algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a
+fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o
+com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar
+com aquella vida que não podia continuar assim.
+
+--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te
+alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha
+filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os
+teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu
+sem ti não podia viver...
+
+E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente,
+a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a
+sua vida, senão a de ser commendador.
+
+A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de
+luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era
+o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a
+inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado
+quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
+batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:
+
+--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada
+vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer
+desfazer, endosse-me a letra...
+
+Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada
+dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia
+prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que
+mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com
+outro.
+
+Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella
+mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais
+dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao
+amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais
+depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e
+extraordinaria mulher.
+
+E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e
+constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices
+que nenhuma outra saberia fazer-lhe.
+
+Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a
+negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido
+amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente
+do infeliz commendador.
+
+E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_!
+
+Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a.
+Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do
+medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.
+
+N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a
+suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava
+doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.
+
+A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir,
+deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe
+fallar em medicos.
+
+Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe
+prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.
+
+Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com
+impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.
+
+Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no
+tapete, pôz se a mordiscar as unhas.
+
+--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me
+revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me
+dizer?
+
+Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de
+Eugenio?
+
+N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e
+appareceu a figura de João Lazaro.
+
+Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em
+que vinha embuçado.
+
+--Tardei, não é verdade?--disse elle.
+
+--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se
+para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?
+
+--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o
+auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...
+
+--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que
+era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não
+tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.
+
+João Lazaro sorriu.
+
+--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem
+todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a
+cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que
+arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é
+concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu.
+N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não
+poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se
+homisiar...
+
+--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o
+que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que
+partiu...
+
+--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.
+
+--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...
+
+--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...
+
+--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura
+irritada.
+
+--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas
+como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime
+de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber
+que elle diligenciava casar-se com Beatriz...
+
+--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte
+de Eugenio...
+
+--Porque?
+
+--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse
+enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um
+pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a
+necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão
+açodado em perseguição do raptor da filha.
+
+João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.
+
+--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio
+esteja muito longe da verdade...
+
+--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com
+impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o
+que hei-de pensar!
+
+--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que
+venho fazer.
+
+Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com
+abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o
+dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o
+accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos
+n'elle:
+
+--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o
+casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e
+isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio
+a conhecer que eu a informára da verdade.
+
+--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou
+Leonor.
+
+--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias,
+porque eu ainda não me esqueci...
+
+E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:
+
+--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque
+tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém,
+influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de
+agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha
+a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe
+disseram as suas informações?
+
+--É.
+
+--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se
+recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si
+jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
+nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o
+recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance
+era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto
+que se effectuou como se havia projectado...
+
+--Por Eugenio?
+
+--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se
+combinou comigo.
+
+--Mas é isso o que Eugenio nega...
+
+--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que
+não admitte duvidas.
+
+--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o
+que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais
+depressa realisaria o casamento?
+
+--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A
+rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue
+mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as
+dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas
+enormes á conta d'este casamento...
+
+--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a
+Eugenio?...
+
+--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos
+de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario
+do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de
+terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem
+dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os
+charutos...
+
+--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.
+
+--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto
+desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
+lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil
+desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis
+nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo
+esse dinheiro...
+
+--Tanto, não...
+
+--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que
+devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia
+combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida
+e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do
+rapto...
+
+--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais
+aturdida.
+
+--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a
+augmentar o dote da filha...
+
+--Mas isso é uma infamia!
+
+--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a
+senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil
+raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o
+dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais
+mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...
+
+--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor
+com os olhos chammejantes de colera.
+
+--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado
+em confidencia pelo proprio Belchior.
+
+--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão
+ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde
+elle se encontra...
+
+--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e
+está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende
+ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
+pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o
+reembolsar logo depois do casamento.
+
+--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.
+
+--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem
+pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura
+e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada,
+emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu
+natural desenlance na egreja da freguezia.
+
+--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes
+d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame
+perfidia!
+
+--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente.
+
+--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.
+
+--E depois?
+
+--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.
+
+João Lazaro soltou uma gargalhada.
+
+--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem
+duvidas?
+
+Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.
+
+--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou.
+
+--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em
+casar?
+
+--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...
+
+--E casa-se com ella por amor.
+
+--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o
+casamento...
+
+--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje
+o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da
+formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo,
+pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle
+impuzer.
+
+Leonor bateu o pé furiosa.
+
+--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á
+gente!--disse ella.
+
+--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa
+é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu
+conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto
+de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.
+
+Houve uns momentos de silencio.
+
+--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa
+rapariga?--perguntou por fim.
+
+--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em
+expedientes para se esquivar á perseguição da policia...
+
+--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?
+
+--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com
+desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero,
+julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?
+
+--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor
+indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...
+
+--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa,
+senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade
+de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...
+
+--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente
+prevenida...
+
+--Elle ainda não casou...
+
+--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe
+mil protestos, mil juras de amor!
+
+--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez.
+
+--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um
+despedaçamento do coração.
+
+--Bem! E o que quer a senhora?
+
+Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de
+colera:
+
+--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!
+
+--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de
+Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um
+momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que
+ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de
+vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de
+desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...
+
+--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro,
+que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança
+que me satisfaz, a vingança que eu sonho!
+
+João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:
+
+--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?
+
+A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em
+cheio uma bofetada na face.
+
+--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula
+de colera.
+
+--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um
+insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se
+encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia
+á vingança ruidosa contra Eugenio...
+
+--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_
+da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de
+tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!
+
+--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos
+seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de
+uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas
+palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio
+de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como
+poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o
+casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do
+commendador Garcia?
+
+--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir
+quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?
+
+--Punir, disse?
+
+--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria
+mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou
+com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se
+Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de
+outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo
+cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu,
+ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras
+da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não!
+Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o
+por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que
+se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto
+de ficar viuva...
+
+João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e
+calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de
+uma ameaça realisavel.
+
+--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de
+excitação nada podemos fazer...
+
+--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero
+unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...
+
+--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e
+obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e
+conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por
+coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe
+desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?
+
+--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um
+estremecimento nervoso.
+
+--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?
+
+--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!
+
+--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves
+responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro.
+
+--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me
+ludibriou, porque me trahiu!»
+
+--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo
+o rigor da lei...
+
+--Embora! Mas eu ficarei vingada.
+
+--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua
+sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras
+criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão
+avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e
+aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz
+supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua
+partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros
+condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e
+ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o
+miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e
+nos affectos do seu coração?
+
+--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a
+rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á
+mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me
+humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a
+prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo
+e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!
+
+--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e
+persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo...
+
+--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça
+em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!
+
+--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma
+publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem
+por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida
+rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem
+provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem,
+chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada
+para a punir.
+
+--Não entendo!--disse Leonor.
+
+--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de
+modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria
+assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á
+justiça?
+
+--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no
+peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o
+_amor que mata_.
+
+--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança
+que deseja?
+
+--Como poderia eu recompensal-o?
+
+--Amar-me-hia?
+
+--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material
+cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz
+amar-me comprehende assim o amôr?
+
+--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está
+dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada,
+pertencer-me-hia?
+
+--Em espirito, não. Materialmente, sim.
+
+--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados
+que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o
+corpo...
+
+--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor.
+
+--Diga.
+
+--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro
+permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a
+minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem
+quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia
+ás minhas complacentes attenções...
+
+--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de
+chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.
+
+--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o
+senhor onde está Eugenio?
+
+--Talvez...
+
+--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um
+assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha
+tranquillidade...
+
+--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...
+
+--Seja! Onde está Eugenio?
+
+--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero
+bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...
+
+--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?
+
+--Nunca é tarde para a vingança.
+
+--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar
+vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!
+
+--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a
+pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.
+
+--Como o sabe?
+
+--Disse-m'o elle.
+
+--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...
+
+
+
+
+XXI
+
+Tal vida, tal fim
+
+
+Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio
+iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a
+fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.
+
+No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o
+aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave,
+traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar
+as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e
+de que tudo lá dentro estava em silencio.
+
+Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução,
+encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas,
+voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo
+afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar
+d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros,
+na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando
+com rancôr profundo:
+
+--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima,
+roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a
+trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então
+quanto custa ludibriar uma mulher como eu!
+
+E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em
+desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.
+
+Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre
+escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme
+excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da
+aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições
+transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel.
+Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os
+affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a
+tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança
+seria terrivel!
+
+Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.
+
+Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer
+as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os
+arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.
+
+Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto
+de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.
+
+Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:
+
+--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e
+recommendou que a não acordassem.
+
+--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do
+modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.
+
+--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me
+esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.
+
+Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho
+atrevimento, a que não estava habituado.
+
+--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se
+tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?
+
+--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo
+na mesma.
+
+--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra.
+Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a
+precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?
+
+--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta
+inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não
+póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se
+embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim
+como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi
+dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz
+muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!
+
+--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta
+da rua e se fechou no quarto, por dentro?
+
+--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem
+_estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a
+senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.
+
+O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e
+aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:
+
+--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?
+
+--Quem ha de estar? Está a senhora...
+
+--Só?
+
+--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_,
+não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais
+ninguem....
+
+--Parece-lhe? Não tem a certeza...
+
+--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á
+hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi
+embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha,
+que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam
+aqui estas rodilhices...
+
+--Rodilhices de quem?
+
+--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu
+respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera!
+Outra qualquer faria o mesmo.
+
+Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra
+noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes
+diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso
+tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.
+
+--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle.
+
+--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda
+ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho
+de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é
+uma coisa por demais!
+
+O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio
+comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a
+gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.
+
+--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse
+elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de
+pêtas.
+
+--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de
+incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá
+ella deitar a mão...
+
+E depois n'um tom de reprehensão amigavel:
+
+--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a
+senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as
+outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha!
+Quem se fia n'elles está perdida.
+
+--Pois você tambem acredita, Marianna?
+
+--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito
+e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando
+alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.
+
+--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?
+
+--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade...
+O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que
+ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra
+amor de quem agora andam estas _questães_...
+
+E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de
+prudencia:
+
+--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é
+capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver
+mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes
+co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é
+uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não
+lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei...
+E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o
+_encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella
+querer.
+
+--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau
+humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.
+
+E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.
+
+Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura
+appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.
+
+Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um
+amplexo carinhoso.
+
+A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:
+
+--Tu por cá! Que novidade é essa?
+
+--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio
+com artificial commoção.
+
+Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando
+a Eugenio que a imitasse.
+
+--O que é então que desejas?--perguntou.
+
+--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou
+dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver
+no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...
+
+--E d'ahi?
+
+--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o
+pensamento de te deixar...
+
+A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.
+
+--Faço ideia!--disse ella friamente.
+
+O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante,
+proseguiu:
+
+--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes
+não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para
+que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti!
+Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim
+provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia
+que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o
+custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!
+
+--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um
+aggressivo sorriso de sarcasmo.
+
+O bohemio encarou-a espantado.
+
+--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou
+elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.
+
+--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá
+escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que
+affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por
+força a mulher que por bem não quiz amal-o?!
+
+Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e
+de odio mal reprimido.
+
+Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume,
+e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece
+querido:
+
+--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido
+sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que
+não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na
+injustiça que me fazes...
+
+--Injustiça?!
+
+--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a
+gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo,
+que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da
+partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura
+escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!
+
+Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez
+mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,
+continuou:
+
+--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha.
+Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de
+um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua
+honra e do seu bom nome...
+
+--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um
+olhar que o gelou.
+
+--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio,
+desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as
+invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira
+como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E
+eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem
+o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a
+esta hora sabedor das nossas relações?
+
+--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de
+salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me
+illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de
+calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua
+causa, não lh'o consinto!
+
+--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem
+feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!
+
+E encolhendo os hombros com desprezo.
+
+--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de
+direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe
+tirou.
+
+Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o
+capote.
+
+Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o
+effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.
+
+--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.
+
+Leonor avançou para elle:
+
+--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente
+para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem
+sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça
+lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo
+para essas distracções...
+
+O bohemio retrocedeu.
+
+--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não
+viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é
+sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam
+e atraiçôam os que dizem que amam...
+
+--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça
+favor!
+
+--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso
+unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o
+coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim
+importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o
+prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas
+para as horas negras da desgraça.
+
+Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o
+para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.
+
+--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais
+uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?
+
+--Vinha despedir-me da mulher que amava e...
+
+--E...?
+
+--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas
+isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...
+
+--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio
+cá? Vamos! explique-se! O que desejava?
+
+O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os
+conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto,
+sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.
+
+--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?
+
+--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor
+suppõe...
+
+Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor,
+tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.
+
+--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de
+affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me
+lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou
+elle.
+
+--O que desejas de mim? Dize!
+
+--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro,
+está tudo na tua mão!
+
+--Como? O que posso eu fazer?
+
+--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na
+cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha
+e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não
+posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer,
+emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome...
+Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me
+recusam...
+
+Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da
+perfidia do amante.
+
+João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração,
+arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.
+
+Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura
+sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da
+vingança.
+
+--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que
+precisas?
+
+--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente
+sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto
+eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...
+
+Leonor sorriu e disse:
+
+--E se eu fosse comtigo?
+
+O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.
+
+--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?
+
+--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.
+
+Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura
+ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia
+para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr
+das suas joias e pouco mais.
+
+Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador
+Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda
+ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um
+encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.
+
+Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz
+onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o
+genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande
+exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.
+
+Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal
+passo, respondeu:
+
+--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia
+n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu
+egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a
+romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os
+primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois
+de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por
+mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro
+e do teu bem estar o que um tal passo importa!
+
+O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é
+que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao
+desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe
+fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.
+
+--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem
+sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque,
+indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me
+trocaste, vil!
+
+--Leonor!
+
+--Não tentes negar! Sei tudo, canalha!
+
+--Leonor! Juro-te...
+
+--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda
+expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de
+mulheres!...
+
+E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado
+a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á
+fronte direita e disparou.
+
+O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.
+
+Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada,
+a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando
+por soccorro em brados afflictivos.
+
+A primeira que acudiu foi a velha Marianna.
+
+--Meu Deus! o que foi, senhora?
+
+--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá
+depressa!
+
+E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura
+debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro
+lancinantissimo.
+
+O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da
+sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que
+iam passando.
+
+Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu
+tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações,
+participando o caso para o commissariado.
+
+
+
+
+XXII
+
+Mysterio
+
+
+Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula,
+passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e
+verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os
+personagens d'esta singela narrativa.
+
+Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural
+desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos
+passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem
+ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia
+das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.
+
+D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um
+ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua
+criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de
+Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha
+sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia
+algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do
+rendimento de sua casa.
+
+Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar
+pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa
+do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa
+mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial
+contrahido entre os dois.
+
+Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de
+Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que
+une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes
+desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel
+fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.
+
+Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando
+podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena
+de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia
+menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a
+comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o
+marido e com o filho, prematuramente mortos.
+
+Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_
+e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a
+existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a
+_irmã Dorotheia_.
+
+--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia
+elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa
+sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida,
+pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que
+com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo
+assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do
+estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da
+sua passagem?
+
+--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de
+Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar
+frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã
+Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e
+assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a
+identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não
+terá succedido o mesmo?
+
+--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse,
+Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer
+das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações.
+Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á
+custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores
+e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e
+auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.
+
+D. Aurelia sorriu tristemente.
+
+--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o
+senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade
+absolutamente conhecida?
+
+--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do
+meu segredo?
+
+--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D.
+Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia
+na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que
+elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr.
+Julio para encontrar Helena...
+
+--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias
+d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou
+certo, esta minha funesta previsão...
+
+--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?
+
+Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.
+
+--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de
+sacrificar os ultimos dias da minha vida!
+
+Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã
+de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de
+seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das
+pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho
+da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de
+Norberto de Noronha.
+
+Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e
+affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra
+de consolação para todas as amarguras.
+
+Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando
+Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os
+tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre
+os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo
+n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.
+
+D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava
+na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a
+noticiar.
+
+--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu
+eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha...
+
+--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse
+amavelmente D. Aurelia.
+
+--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho
+de Thayde contando-me um caso extraordinario...
+
+--Sim?
+
+--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites
+na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no
+chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as
+longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres
+do dia, some-se e ninguem mais a vê!
+
+--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos
+invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá
+crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta
+d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o
+caminho que toma e o destino que leva?
+
+--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se
+atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida
+e que já vae formando lenda.
+
+--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse
+Julio.
+
+--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com
+um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta
+de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra
+de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se
+supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a
+precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias
+volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda
+até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.
+
+--Mas o que julgam elles que seja?
+
+--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de
+Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que
+eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto
+apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas
+para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em
+corpo e alma para o inferno...
+
+--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.
+
+--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos
+olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural,
+então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na
+solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas
+culpas.
+
+Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande
+curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que
+aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel,
+como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas
+noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação
+intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças
+perdidas.
+
+--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal
+modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma
+alanceada de remorsos?
+
+--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de
+afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento
+volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os
+cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo
+em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma
+força humana póde dar-nos.
+
+--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente
+viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na
+oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não
+pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a
+existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e
+apavora a propria creatura que os commetteu...
+
+--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que,
+a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma
+desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de
+suas culpas...
+
+--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido
+muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante
+modo.
+
+--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça
+dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos
+em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa
+compaixão...
+
+Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do
+sacerdote.
+
+--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de
+erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de
+crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa
+pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de
+sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não
+commetteram...
+
+--Tudo póde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinião, toda a penitencia
+significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de
+uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo
+diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no
+crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo
+ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a
+solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo
+contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos,
+em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir...
+derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera
+de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a
+mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde,
+creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da
+aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.
+
+--O que é estranho--ponderou Julio--é que ninguem até agora se lembrasse
+de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo
+isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não
+irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse
+sentido?
+
+--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a
+recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso...
+Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros,
+morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para
+lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do
+outro mundo..
+
+--O que me parece--opinou D. Aurelia--é que tudo isso não passa de uma
+grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo
+depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre
+Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta
+gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa,
+aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...
+
+--Sim, é certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D.
+Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe
+perdôe!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...
+
+--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave
+recriminação--pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura
+para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e
+que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence
+julgar...
+
+--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que
+devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do
+sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez
+impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não
+seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,
+qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da
+morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...
+
+--Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas
+injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas
+pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O
+sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os
+peores aquelles que o povo aponta como maus...
+
+--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo é a voz de Deus--argumentou o
+padre Manoel, repetindo o proloquio latino.
+
+--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes
+é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa
+reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com
+apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e
+repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma
+de castigo infligido aos mortos!
+
+O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:
+
+--Isto já vem assim do principio do mundo...
+
+--E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me
+parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que
+vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever
+e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em
+Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um
+exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto
+investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.
+
+--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora
+do Porto!--observou D. Aurelia, espantada.
+
+--E porque não?--respondeu Julio--Conheço o caminho e o meu cavallo é
+seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.
+
+--É uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as
+nossas estradas são mal frequentadas de noite...
+
+--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz
+muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo
+do Papa Assucar...
+
+--A mysteriosa apparição--tornou o padre Manoel--póde mesmo não ser mais
+do que o pretexto para uma cilada.
+
+--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--Não ha nada menos provavel... Quem
+poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse
+com o que se passa de noite na Senhora do Porto?
+
+--Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a.
+Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para
+outros--aconselhou prudentemente o padre.
+
+Julio sorriu desdenhoso.
+
+--Seja como fôr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se é
+um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror
+no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á
+vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo
+com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz,
+uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio
+para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da
+piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.
+
+E consultando o relogio d'algibeira:
+
+--São 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite não
+estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em
+minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.
+
+--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite está
+tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.
+
+--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre
+batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a
+quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas
+desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para
+tudo.
+
+E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.
+
+
+
+
+XXIII
+
+Allucinação
+
+
+No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da
+extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura
+de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o
+interrogarem.
+
+O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em
+febre.
+
+Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para
+elles, exclamando:
+
+--É horrivel, meus amigos, é horrivel!
+
+--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto.
+
+--Vi... vi!...
+
+--E então?
+
+--Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...
+
+--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com
+elles...
+
+--Não... não!--contradisse o doente com vehemencia--Não se trata de
+malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente
+desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e
+phantastico, impossivel de reconhecer...
+
+Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem
+significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da
+integridade mental do seu interlocutor.
+
+Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma
+grande agitação, proseguiu:
+
+--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei
+Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal
+desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu
+fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no
+extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o
+cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver
+engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte
+onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal
+poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de
+mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não
+illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo
+deserto...
+
+--Não viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel.
+
+--Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse
+retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã,
+para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de
+Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma
+phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes
+invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta
+principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.
+
+--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--não pôde
+deixar de exclamar a irmã de Gustavo.--Se não estava ninguem no local,
+como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um
+temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe
+a saude?
+
+--Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não
+sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um
+mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu
+dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora
+passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva
+da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me
+encostava.
+
+--Então sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante.
+
+--Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a
+semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e
+n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!
+
+--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.
+
+--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e
+dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha
+ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta
+do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no
+degrau da egreja:--«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha
+supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti
+esta miseravel creatura!»--
+
+Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...
+
+--É singular!--disse D. Aurelia.
+
+--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel.
+
+--Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do
+sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo
+dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel
+como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu
+coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella
+dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz
+creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe
+como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que
+fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que
+devia ser aquella mesma: «Helena!»--bradei-lhe--«Helena!»--e
+desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome,
+a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida
+e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a
+incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se.
+Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu
+nome, porém tudo foi baldado!
+
+--Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?--aventurou-se
+a dizer D. Aurelia.
+
+--Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração
+reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga
+herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa
+Senhora do Porto!
+
+--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria
+ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a
+tratava era por força uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia.
+
+--De noite todos os gatos são pardos--philosophou plebeiamente o padre
+Manoel--Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da
+estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava
+para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar.
+Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante
+que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou
+com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era
+rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver
+e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe
+mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho--pum! pum!
+pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti
+esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito
+admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na
+estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito
+disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro...
+Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que
+o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
+que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu
+tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada,
+cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas
+extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de
+dia, á luz do sol...
+
+--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras
+irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faça-me a fineza de
+acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito
+o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim
+a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o está agora
+e tinha o entendimento tão claro como v. s.^a o póde ter--logo de manhã,
+em jejum, quando vae para o altar dizer missa.
+
+O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso
+e apressou-se a dizer:
+
+--Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr.
+Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que
+diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite
+favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra
+pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão
+podia dar-se...
+
+Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.
+
+--Tambem não affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convicção
+intima, profunda, de que não é outra.
+
+--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia.
+
+--Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em
+todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar
+com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se
+escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa
+caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar
+muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.
+
+--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por
+v. ex.^a, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a
+sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá
+com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.^a
+acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...
+
+--Sim, é certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever
+que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
+possivel para pôr termo áquelle soffrimento.
+
+--Tenciona, pois, voltar lá esta noite?
+
+--Tenciono.
+
+--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.
+
+--Porque?
+
+--Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não
+quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto
+do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe
+chamou pelo nome...
+
+--O que devo fazer então?
+
+--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e
+tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o
+paradeiro.
+
+--É o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre
+Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de
+excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde
+alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de
+mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...
+
+--Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem
+afugental-a d'aquelle sitio.
+
+--A recommendação é inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D.
+Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa
+creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr
+a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a
+penitente voltou ao templo.
+
+Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente,
+recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a
+informal-o do que tivesse occorrido.
+
+Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:
+
+--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de
+ouvir?
+
+--Parece-me--respondeu a irmã de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem
+razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.
+
+--E v. ex.^a acredita que elle visse lá alguem?
+
+--Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a
+confirmação dos boatos de que v. s.^a se fez echo?
+
+--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como
+extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre
+elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a
+alma da D. Rita de Briteiros.
+
+--Mas v. s.^a não crê nas almas do outro mundo; e certamente não
+recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de
+verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em
+corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem
+dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração
+e á penitencia!...
+
+--Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e
+pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em
+semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma
+allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v.
+ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre?
+Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais
+acertado parecia-me chamar o medico...
+
+--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel
+que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito
+capaz de não o receber e de se offender comnosco...
+
+--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou
+e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da
+doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de
+beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico
+das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que
+não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre
+homem, se já tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que
+viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de
+todo...
+
+D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve
+bastante força em si para responder apenas:
+
+--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda
+não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
+de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se
+agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim
+succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que
+devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha
+penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre
+Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
+não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo
+medico.
+
+--O que quer então v. ex.^a que se faça?
+
+--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua
+confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente
+Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...
+
+O padre Manoel encolheu os hombros:
+
+--Pois v. ex.^a julga...?
+
+--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como
+creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas
+que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem
+affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer
+quanto possivel este mysterio.
+
+--Está bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que
+é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a
+Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até
+não restar duvida de que não apparece lá viva alma...
+
+--Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella,
+para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa
+penitente se afaste d'estes sitios.
+
+--Fique v. ex.^a descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e
+tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal
+creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e
+estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará
+muito tempo que não saibamos tudo.
+
+O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites
+seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar
+que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos
+que corriam entre os aldeãos de Thayde.
+
+O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os
+baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente
+e dizia:
+
+--São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei
+o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um
+gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até
+que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu
+sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha
+qualquer propensão para visionario...
+
+D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.
+
+--É certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma
+paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não
+creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as
+faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria
+a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um
+allucinado...
+
+--Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece
+as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v.
+ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi
+os milagres de Santo Antonio...
+
+--Mas acredita n'elles!...
+
+--Acredito, que é o meu dever...
+
+--Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo
+sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam...
+Note v. s.^a que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o
+ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar
+Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta
+simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um
+templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto
+não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...
+
+--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio
+de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo
+reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos
+casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha
+senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me
+contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é
+nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa
+que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na
+Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem
+ter visto?
+
+--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real
+o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração
+pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada
+e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...
+
+--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
+
+--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a
+mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo
+trabalho que lhe está incumbido.
+
+--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como
+estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples
+razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que
+se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de
+o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se
+vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das
+lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...
+
+
+
+
+XXIV
+
+Estranho encontro
+
+
+D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando
+nas palavras do sacerdote.
+
+--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo
+affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma
+allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez
+uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel
+Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até
+que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.
+
+Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.
+
+Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser
+senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que
+facilitava a chamada.
+
+--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá
+vêr quem é...
+
+D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
+
+--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a
+urgencia.
+
+--Que qualidade de homem é?
+
+--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.
+
+--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?
+
+--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo,
+mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que
+deseja dar só uma palavrinha á senhora.
+
+--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum
+mal intencionado.
+
+--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para
+pedir abrigo por esta noite...
+
+--Bem; vejamos o que elle quer.
+
+Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_.
+
+D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o
+logo.
+
+--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_?
+
+--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a
+esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser...
+
+--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e
+gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça?
+
+--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não
+acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar
+o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
+_assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de
+_catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta
+obra de caridade...
+
+--Mas de que se trata, mestre? Falle.
+
+--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei
+alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!
+
+--Uma mulher!?
+
+--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a
+força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e
+estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia
+uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo
+estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa
+viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de
+cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e
+alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com
+pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma
+mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_
+de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de
+pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem
+grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que
+deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que
+mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está
+doente...
+
+D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que
+o sapateiro terminasse.
+
+Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.
+
+--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola
+e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por
+casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se
+demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!
+
+Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos
+decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em
+soccorro da infeliz creatura.
+
+Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia,
+conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o
+sapateiro encontrára abandonada no caminho.
+
+A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão,
+acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam,
+deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma
+cama preparada.
+
+A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento,
+julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da
+propria D. Aurelia.
+
+--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já
+vejo que não é v. ex.^a. E antes assim.
+
+--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros.
+Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo,
+na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
+
+--Onde está ella?
+
+--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.
+
+--Vamos vêl-a.
+
+E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.
+
+A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.
+
+Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos
+rotos e sujos da terra da estrada.
+
+Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas
+brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa
+que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa
+educação.
+
+O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.
+
+Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os
+vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.
+
+Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa
+similhava um cadaver.
+
+Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o
+rosto triste.
+
+D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de
+ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á
+porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe
+assimilhasse.
+
+--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios.
+
+--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias
+proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.
+
+--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava
+de auscultar a doente.
+
+--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma
+careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria
+esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não
+amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o
+tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos
+grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará
+apenas recorrer á cosinha...
+
+--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.
+
+--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a
+criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
+doente.
+
+--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...
+
+--Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma
+fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos
+restituir-lhe os sentidos.
+
+D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a
+infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.
+
+Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha
+voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa
+alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e
+que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.
+
+O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D.
+Aurelia voltar no dia seguinte.
+
+--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a
+que temos de submettel-a.
+
+--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?
+
+--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande
+esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas
+limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar
+mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem
+necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa
+noite.
+
+--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que
+não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a
+minha casa...
+
+--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave
+sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.
+
+--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos
+que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!
+
+--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os
+hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha
+gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
+
+E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_
+enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.
+
+--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da
+noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de
+o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das
+pneumonias!
+
+No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas
+apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.
+
+A febre consummia-a. Delirava.
+
+Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma
+confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.
+
+O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante,
+prohibindo que dessem de comer á enferma.
+
+--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia.
+
+--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de
+gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que
+o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.
+
+--É então grave o estado d'essa infeliz?
+
+--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de
+nos vêr a contas com uma pneumonia...
+
+--Pobre mulher!
+
+--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella
+ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.
+
+--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá
+recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?
+
+--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a
+soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente
+evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre
+acarretam...
+
+--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha
+casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.
+
+--Faça-se a sua vontade, minha senhora.
+
+D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a
+enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.
+
+--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe
+façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e
+façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam
+pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.
+
+Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo
+diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.
+
+--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter
+muito cuidado com a alimentação.
+
+--Tel-o-hemos.
+
+Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que,
+oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.
+
+Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o
+João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.
+
+--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso
+Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre
+homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a
+caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que
+dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado
+foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos
+de dias...
+
+--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
+
+--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve
+hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é
+que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito
+melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.
+
+--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.
+
+--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um
+homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa
+d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!
+
+--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem
+direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem
+qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...
+
+--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que
+v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca
+vistas e apreciadas em remendão portuguez.
+
+--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho
+natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
+povo, e nada mais.
+
+O padre fez uma carêta significativa.
+
+--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito
+natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo
+que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o
+acolhimento de que este se póde gabar...
+
+--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em
+minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da
+estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os
+recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...
+
+--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem
+beira... Ha tantas por esse mundo!
+
+--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que,
+em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.
+
+A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.
+
+--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...
+
+--O que tem? Peorou?
+
+--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me
+onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...
+
+--O que lhe respondeu?
+
+--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas
+amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas
+ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu
+disse-lh'o.
+
+--E então?
+
+--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...
+
+--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já
+vêl-a...
+
+E voltando-se para o padre Manoel:
+
+--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que
+lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o
+seu soccorro espiritual...
+
+--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre
+Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz
+que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem
+confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida
+quer fazer-lhe revelações intimas...
+
+--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão
+escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...
+
+--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae
+confiar-lhe.
+
+--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...
+
+--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua
+confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v.
+ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais
+auctorisado mestre de casos...
+
+--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D.
+Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa.
+Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa
+do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
+
+--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.
+
+D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida
+fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.
+
+A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe
+permittia analysar as feições da enferma.
+
+--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e
+carinhosa.
+
+--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente
+com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa.
+Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não
+era estranho.
+
+Voltou-se para a criada e disse-lhe:
+
+--Deixe-nos sós--ordenou.
+
+--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.
+
+--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os
+olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?
+
+--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco
+aquella janella e attentar no meu rosto...
+
+D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder
+reconhecel-a.
+
+--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre
+lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me
+reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!
+
+E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e
+abafado.
+
+Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem
+levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel
+alvoroço de espanto:
+
+--Helena de Noronha! serás tu?!
+
+--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem
+receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!
+
+Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que
+estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de
+beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.
+
+--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus
+que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade
+sincera de sempre.
+
+--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que
+me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
+miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar
+bemdito, da tua santa caridade!...
+
+--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é
+tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
+os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão
+digna.
+
+--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te...
+Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não
+desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos
+crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...
+
+D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu
+carinho.
+
+--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é
+muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento
+far-se-ha breve e por completo.
+
+Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.
+
+--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso
+que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este
+misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o
+reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que
+alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das
+minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima
+de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.
+
+--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D.
+Aurelia.
+
+--Era! Como soubeste que eu estava alli?
+
+--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que
+não possuia a intima certeza...
+
+--Esse alguem era...?
+
+--Julio de Montarroyo...
+
+A enferma soltou um grito.
+
+--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma
+allucinação dos meus sentidos?
+
+--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na
+Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que
+ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente
+eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou
+antes, adivinhou-te nas trevas da noite...
+
+--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e
+quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa
+prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito
+tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a
+d'elle...
+
+--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.
+
+--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde
+não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?
+
+--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado
+de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e
+desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi
+feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos
+sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella,
+mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi
+toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É
+impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com
+saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e
+feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de
+que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia
+que os separa».
+
+Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o
+coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.
+
+D. Aurelia proseguiu:
+
+--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu
+pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo
+lentamente, ralado de dôr e de saudade...
+
+--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha
+angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.
+
+--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo
+confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que
+fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a
+encontrar-te.
+
+--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos
+supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este
+mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me
+encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me
+morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!
+
+A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de
+lagrimas.
+
+--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que
+a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de
+Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas
+conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto,
+sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por
+febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda
+encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem
+á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao
+sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia
+regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que
+o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão
+nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar
+tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a
+felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria
+os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de
+fazer?
+
+--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga!
+Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um
+genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a
+parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de
+crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha
+ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e
+nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem
+que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das
+minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam
+uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O
+maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com
+o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal...
+corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na
+sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca
+espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em
+mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh!
+salva-me! salva-me!
+
+E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se
+convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem
+sentidos...
+
+Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico,
+a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe
+dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em
+deliquio.
+
+O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de
+extrema fraqueza.
+
+--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle.
+
+Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra
+violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.
+
+A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na
+mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se
+das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança,
+matava-a.
+
+A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que
+havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante
+e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.
+
+Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua
+desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe
+implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro
+e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?
+
+Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle
+coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava
+de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza
+jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando
+já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua
+corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado
+por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a
+parte?
+
+Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher,
+leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de
+sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e
+deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua
+innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um
+jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que
+as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada
+sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara
+aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.
+
+Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão
+n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia
+manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
+pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo.
+Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o
+dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do
+criminoso.
+
+Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de
+tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este
+mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse
+seguida da condemnação eterna para a sua alma.
+
+As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas
+e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava
+havia já dezeseis annos.
+
+Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.
+
+--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes
+em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a
+esmola da tua compaixão.
+
+--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a
+atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua
+companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a
+consolação de te poder chamar minha irmã.
+
+--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua
+bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal
+evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o
+arrependimento de tantos crimes...
+
+--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que
+ha de ainda conceder-te dias venturosos.
+
+--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?
+
+--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.
+
+--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do
+Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre
+Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...
+
+--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.
+
+--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.
+
+--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto
+informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou
+desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.
+
+--E esse homem viu-a, fallou-lhe?
+
+--Fallou.
+
+--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?
+
+--Porque não!?
+
+Fez-se um instante de silencio.
+
+--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?
+
+--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.
+
+--Não o digas a ninguem, por ora.
+
+--Socega. Cumprirei a tua vontade.
+
+Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que
+fechou em seguida n'um _enveloppe_.
+
+--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D.
+Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.
+
+O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.
+
+
+
+
+XXV
+
+Pobre Helena!
+
+
+Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o
+acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu
+estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do
+quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas
+conversas com quem quer que fosse.
+
+Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula
+era viva e podia ser encontrada no Porto.
+
+--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?
+
+--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás
+Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei,
+que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem
+parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga
+benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.
+
+--Fallou-lhe de Helena de Noronha?
+
+--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia
+e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa
+_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...
+
+--Ah!
+
+--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito bô agrado, mas a
+respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não
+precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o
+filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me
+armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que
+me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella
+tivesse um migalho de cortezia commigo...
+
+Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do
+sapateiro escandalizado.
+
+--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão
+abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.
+
+--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?
+
+--Sim... unicamente para fallar com ella...
+
+--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu
+levo-lh'a?
+
+--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...
+
+--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem
+notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...
+
+--Não, não... É preciso ir eu...
+
+O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:
+
+--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer
+_minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa
+_incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as
+paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo
+e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...
+
+--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que
+póde ser-me preciso de um momento para o outro...
+
+--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_...
+
+E sahindo dos aposentos do doente:
+
+--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia,
+está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz
+assim!...
+
+De repente bateu na testa, exclamando:
+
+--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!
+
+Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:
+
+--Dá licença, snr. Julinho?
+
+--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se
+achava sentado.
+
+--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é
+raça de patife de que ninguem me soube dar relações...
+
+--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no
+Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.
+
+--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de
+_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que
+eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a
+meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de
+pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.
+
+--É natural--respondeu Julio.
+
+O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á
+descoberta.
+
+--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_,
+n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas
+_galhetas_, não podia...
+
+Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o
+doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse
+obedecido.
+
+É que notára no enfermo um novo accesso de febre.
+
+Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.
+
+--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!...
+
+Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo
+ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D.
+Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o
+incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não
+pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.
+
+--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.
+
+--Porque? Vae fallar com ella?
+
+--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D.
+Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava
+qualquer recado para Madre Paula.
+
+Julio ficou pensativo.
+
+--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar
+com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me.
+Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a
+dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um
+serviço a prestar-lhe...
+
+E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a
+cabeça sobre o peito.
+
+O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua
+natural expansibilidade, exclamou:
+
+--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao
+oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer
+ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos,
+e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...
+
+E concluindo:
+
+--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a
+vir por ahi arriba, assim como coisa minha?
+
+--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu
+Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do
+sapateiro.
+
+--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como
+coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se
+sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de
+grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de
+conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.
+
+--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não
+pode fazer-se...
+
+--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê...
+
+O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os
+esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.
+
+--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe
+a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que
+ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do
+pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha
+está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde
+escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem
+umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a
+vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra
+Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me
+enganei no caminho e passe por lá muito bem...
+
+E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua
+lembrança não produzisse resultado.
+
+--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de
+coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula,
+senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá
+trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que
+elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette
+em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!
+
+Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta
+da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.
+
+A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares;
+e que não era esperada ainda por aquelles dias...
+
+Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a
+madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:
+
+--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está
+aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.
+
+O criado foi e voltou pouco depois.
+
+Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O
+sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande
+profusão de zumbaias.
+
+--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou?
+Passou bem?
+
+--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.
+
+--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de
+Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta
+cartinha...
+
+E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com
+grande surpresa leu:
+
+
+ «_Minha querida Paula_:
+
+
+«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se
+chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da
+tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa,
+antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te
+e que só tu poderás receber.
+
+Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens
+immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da
+
+ Tua
+ _Helena_.»
+
+
+--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta
+os olhos turvos de lagrimas.
+
+E voltando-se para o sapateiro:
+
+--Onde está ella?--perguntou.
+
+--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli
+adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o
+seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa
+carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi
+p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E
+_díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que
+lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo,
+que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá,
+que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa
+religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá...
+Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe
+dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a
+madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...»
+
+--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas
+temos comboio?
+
+--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora
+madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_
+a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando
+forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...
+
+--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...
+
+--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que
+não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao
+lembrar-se da cilada do Sardão.
+
+--Porque? Vocemecê jantou?
+
+--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não
+tenho... já estou desafeito...
+
+--O que! está desafeito de comer!?
+
+--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de
+jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...
+
+Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de
+receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro
+recusando a refeição que se lhe offerecia.
+
+--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de
+esperar que eu me aprompte para a partida...
+
+--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá
+amor d'isso, não seja a duvida.
+
+--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.
+
+Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava
+o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge
+de Gusmão.
+
+--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de
+me conceder alguns minutos de attenção em particular?
+
+--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.
+
+Paulo e Jorge levantaram-se.
+
+--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube
+por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+
+--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás
+desculpa da minha impertinencia...
+
+Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe,
+exclamou:
+
+--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda!
+
+--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.
+
+--Lê!
+
+E apresentou-lhe a carta de Helena.
+
+O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:
+
+--É a letra d'ella!
+
+--É, não ha duvida... Minha pobre Helena!
+
+--E o que tencionas fazer?
+
+--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero
+pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...
+
+O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural,
+respondeu sem hesitar:
+
+--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres
+partir?
+
+--Hoje mesmo.
+
+--Porém, Beatriz?...
+
+--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é,
+como sabes, austera e de são conselho.
+
+--Pois sim.
+
+--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto,
+a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como
+ella propria o diz...
+
+--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de
+vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...
+
+Madre Paula sorriu.
+
+--E porque não ha de vir?
+
+--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e
+não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...
+
+--Dizes bem.
+
+--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu
+até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?
+
+
+
+
+XXVI
+
+Um amigo dos diabos
+
+
+Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente
+disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_,
+tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães,
+por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de
+Campo.
+
+O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a
+superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o
+conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua
+astucia.
+
+A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em
+quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém,
+em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do
+secerdote.
+
+--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o
+sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o,
+porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer
+fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe
+metter juizo á força na cachola...
+
+Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador.
+Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações
+pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades
+e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle
+_támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das
+partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de
+tudo dava relação exacta e minuciosa.
+
+Quando chegaram a Guimarães, o _Tomba_ perguntou se queriam descançar um
+pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho.
+
+--É muito longe d'aqui lá?--? perguntou o padre Filippe.
+
+--É alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos
+lá em tres horas.
+
+--Então é melhor que partamos já.
+
+O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com
+recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.
+
+Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.
+
+O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o
+seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
+menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus
+companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.
+
+O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala,
+pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi
+sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas,
+entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:
+
+--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasiões_, e o _Tomba_,
+com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no
+inferno! Cá está ella!
+
+--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo.
+
+--A madre Paula, com seiscentos livros de missa!
+
+Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle
+tivesse endoidecido.
+
+--Mas está onde, mestre?--perguntou.
+
+--Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um
+padréca, mas não tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui?
+
+--Você falla serio, mestre Tomba?
+
+--Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa _incellencia_ me diga a
+mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por
+lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar
+primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e não me
+quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra,
+sr. Julinho?
+
+--Está bem, mestre...--tornou Julio--Não vale a pena zangar. Eu vou
+immediatamente cumprimentar essa senhora...
+
+--Olhe lá, ó sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia
+já a transpôr a porta do quarto--eu enganei-a!
+
+--Enganou-a?
+
+--Disse-lhe que estava cá a _irmã Dorotheia_, muito doente e que lhe
+mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje
+lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...
+
+--Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se
+Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?
+
+--Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou
+_honte_ á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão
+ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...
+
+--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.
+
+E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e
+o seu companheiro.
+
+Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com
+curiosidade.
+
+--V. ex.^a certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito
+annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais
+austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse
+Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que
+saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.
+
+--Está v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula
+recobrando a serenidade--Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira
+satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar
+aqui.
+
+--A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do
+vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, não podia esperar a subida
+honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
+visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de
+caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa
+excellencia sabem comprehender e praticar.
+
+Madre Paula escutava-o sem o comprehender.
+
+Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.
+
+--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua
+visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias.
+Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
+que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.
+
+No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da
+subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o
+primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que
+ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta,
+outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irmã
+Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha.
+
+--Helena!--bradou madre Paula--Onde está ella? Peço-lhe que me conduza
+sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri
+immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de
+fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...
+
+Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.
+
+--V. ex.^a não sabe onde está Helena de Noronha?--perguntou elle.
+
+--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde
+me disseram que estava.
+
+--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a?
+
+--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos
+conduziu.
+
+E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de
+que o _Tomba_ fôra portador.
+
+--É a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria
+extrema--Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está
+ella?--perguntou por sua vez tambem.
+
+--Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?--interrogou ainda madre
+Paula, tomada de estranha surpreza.
+
+--Não, minha senhora--volveu Julio--e até eu ignoro como e de que
+maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho
+noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu
+estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de
+encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
+indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de
+morrer.
+
+E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe
+succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já
+lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.
+
+--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o
+meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama
+no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo
+procural-a no mundo dos espiritos...
+
+--O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle
+portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a
+escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e
+surprehendida.
+
+--Tem v. ex.^a rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle
+explicará...
+
+Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu
+á porta da sala:
+
+--Diga ao mestre _Tomba_ que venha cá.
+
+Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem
+está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira
+responsabilidade dos seus actos.
+
+--O sr. Julinho, chamou?
+
+--Chamei, mestre. Venha cá...
+
+--Prompto!
+
+E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar
+firme.
+
+--Então como é isto?--ia Julio a dizer.
+
+Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.
+
+--Então como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que
+aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre
+viessem á _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos
+os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e
+que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _atão_ disse comigo:
+«Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima
+madre que é a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que está a dar a alma a
+Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é
+um ar que lhe dá... Ponto é que ella me _acuardite_... Vamos a vêr se as
+bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr.
+Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso, é o
+mesmo... Se quer ó menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima
+vontade a vossa _incellencia_... Agora já póde morrer descançado.
+
+--Mas venha cá, _Tomba_, como arranjou você a carta de Helena de
+Noronha?
+
+O sapateiro arregalou os olhos:
+
+--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta não é d'ella!
+
+--Como não é d'ella?
+
+--Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a
+todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a
+respeito d'ella!
+
+--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemecê...
+
+--Isso é oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas são papeis...
+Essa carta não é da sr.^a _D. Helenia_.
+
+--Não é!--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como
+arranjou você esta carta?
+
+--São d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado.
+
+--Se esta carta não é escripta por Helena--tornou Julio de
+Montarroyo--então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre
+dirá quem foi...
+
+--E a carta o que diz, ó sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande
+interesse.
+
+--Pois você não o sabe, mestre?
+
+--Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá
+dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a
+minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri
+para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?
+
+Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais
+surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta,
+resolveu-se a esclarecel-o.
+
+--Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre
+Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...
+
+--Ella diz que está doente?
+
+--Diz que está a morrer...
+
+O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:
+
+--Quer vossa _incellencia_ vêr que é ella!?--exclamou--Pois não é oitra
+coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem
+o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!
+
+--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio.
+
+--A doente que está em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui
+eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por
+albarda...
+
+E depois, n'um movimento de duvida:
+
+--Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?
+
+--Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede
+a madre Paula que venha vêl-a...
+
+--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para
+me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
+trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo
+que me carregue e mais a minha esperteza!
+
+--Mas venha cá, mestre _Tomba_... explique-nos que doente é essa de que
+está fallando... Eu não sei nada!
+
+--Pois se vossa _incellencia_ tem estado ás portas da morte, vae hoje,
+vae amanhã, e todos me _deziam_ que não lhe dissesse nada nem lhe
+_trouvesse_ novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela
+cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir
+contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a _tramoia_...
+Antão lá vae!
+
+O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando
+regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que
+fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
+encontrava.
+
+--E atão agora está tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi
+que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.^a madre, mas sem
+me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi
+escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _atão_ a coisa está bem clara: a
+doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!
+
+Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.
+
+--Ah! meu Deus!--exclamou--até que emfim a encontro!
+
+E voltando-se para madre Paula:
+
+--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á
+casa onde ella se encontra.
+
+Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo,
+acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia.
+
+A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco
+surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:
+
+--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa
+superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de
+Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a...
+
+E indicando o padre Fillipe:
+
+--E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que
+teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua
+amiga.
+
+D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura
+ao _Tomba_ que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que
+tinha feito asneira.
+
+--É verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de
+Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr.
+Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a
+primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de
+vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem
+fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio
+de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial
+recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse
+causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua
+existencia.
+
+--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doença era não ter noticias
+de Helena!
+
+--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D.
+Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta
+que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...
+
+--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella
+verá v. ex.^a que Helena reclama a minha presença...
+
+E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um
+gesto.
+
+--Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra...
+Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.^a do melindroso estado de
+saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta
+póde matal-a...
+
+--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio.
+
+--Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v.
+ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me
+parecia bem poupar-lhe por emquanto...
+
+--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de
+Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a
+enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...
+
+Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:
+
+--A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os
+miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!
+
+--Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse
+extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em
+pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção
+que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.^a não imagina o estado em que
+a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a
+reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se
+tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella
+fosse.
+
+--Pobre Helena!--exclamou madre Paula.
+
+--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispôr a nossa
+doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera,
+convem prevenil-a com cuidado...
+
+--Sim... sim!...--concordou madre Paula.
+
+D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:
+
+--Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu
+coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro
+d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.^a
+mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de
+apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.
+
+E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em
+silencio, proseguiu:
+
+--Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr
+para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso
+dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem
+dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.
+
+Fez uma ligeira mesura e sahiu.
+
+D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a
+indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.
+
+
+
+
+XXVII
+
+Duas amigas
+
+
+No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite
+socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma
+senhora que devia vir do Porto.
+
+--Não sei, minha senhora--respondeu a creada que estava já
+prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao
+portão...
+
+--Oh! vá saber sem demora--pediu Helena--e se fôr a pessoa que eu
+espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais
+depressa possivel...
+
+A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona
+da casa.
+
+--Veio?--perguntou-lhe Helena.
+
+--Dá-me alviçaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque,
+contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!
+
+Helena levantou-se a meio no leito.
+
+--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!
+
+Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto
+no aposento, dizendo:
+
+--Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga
+está aqui!
+
+--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço
+de indizivel contentamento.
+
+Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio
+apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.
+
+D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na
+mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.
+
+Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:
+
+--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que
+attendeste o meu pedido!
+
+--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens
+lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil
+modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de
+ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...
+
+--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia
+terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou
+emprehender...
+
+--O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra
+vez?--perguntou madre Paula admirada.
+
+--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou
+emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que
+viesses...
+
+--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza é essa? A vida
+chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma
+mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente
+bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos,
+oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua
+vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.
+
+Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na
+approximação do seu fim.
+
+--Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--Não parece
+que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...
+
+--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste
+impunemente á acção do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um
+pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...
+
+D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas
+amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar,
+interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que
+ordenar serviços domesticos da maior urgencia.
+
+--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem
+tu és...
+
+--Não é preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--já nos conhecemos
+desde hontem á noite...
+
+--Sim--confirmou madre Paula--já devo a esta senhora a mais amavel e
+gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu
+convento...
+
+--Pois tu já cá estás desde hontem?--perguntou Helena admirada.
+
+--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre
+Filipe, de quem certamente ainda te recordas...
+
+--Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo
+d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?
+
+--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes
+virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como
+acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude
+como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...
+
+Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e
+perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:
+
+--E o padre Anselmo?
+
+--Matei-o!
+
+--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando?
+
+--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa
+conventual da Covilhã...
+
+--É extraordinario! E como pudeste...?
+
+--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de
+toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher
+que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
+inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o
+castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...
+
+--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?
+
+--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo
+do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida
+Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que
+abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente
+condemnei á morte!
+
+Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao
+recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao
+jesuita que a perdera.
+
+Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo
+acreditar no que ouvia.
+
+Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de
+pensamentos.
+
+--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que
+lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o
+executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era
+preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...
+
+--Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?
+
+--Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a
+verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão.
+Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou
+no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava
+á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa
+hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi
+justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a
+maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!
+
+E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no
+convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar
+aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
+prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como,
+acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando
+elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido
+surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez
+cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra...
+Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde,
+todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de
+sangue, que teve a sua acção no medonho _in-pace_ da Covilhã.
+
+Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a
+suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse
+phantasiando uma vingança que não realisára.
+
+--E o padre Hilario?--perguntou por fim.
+
+--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu
+foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.
+
+--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o
+torturava?
+
+--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração
+o odio por mim...
+
+A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de
+Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:
+
+--Trahiste o teu novo amante?...
+
+--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o
+instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o
+para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario
+amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca
+n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha
+vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...
+
+--Como?
+
+--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não
+levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente
+caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.
+
+Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e
+mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não
+pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso
+crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela
+paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu
+por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a
+vêr...
+
+--De modo que...
+
+--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter
+sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.
+
+Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não
+atinava com palavras que dissesse.
+
+Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella
+recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade
+perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de
+tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais
+poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.
+
+--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida
+Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro!
+Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a
+acredital-o...
+
+--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois
+acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a
+ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da
+minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e
+perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao
+maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e
+sobre os meus?
+
+--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...
+
+--O que é que te surprehende, pois?
+
+--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o
+teu plano...
+
+--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria
+Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para
+junto de mim...
+
+--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a
+Companhia.
+
+--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não
+sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes
+dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo
+mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo,
+minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de
+meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos
+do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á
+dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura,
+minha amiga!...
+
+--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se
+tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...
+
+--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia
+ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame
+instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre
+Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.
+
+--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres
+sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e
+que pelo teu amor se fez parricida?
+
+--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos...
+Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..
+
+--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em
+nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é
+honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...
+
+--Fallas de...?
+
+--De teu filho, Helena de Noronha!
+
+--Elle vive ainda?
+
+--Vive e é um bello e gentil rapaz...
+
+--Padre tambem?
+
+--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a
+si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o
+padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
+longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos
+victimou.
+
+--Não te conhece então?
+
+--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz
+honra aos nobres sentimentos da sua alma.
+
+--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?
+
+--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de
+Noronha.
+
+--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.
+
+--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim
+de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.
+
+--Oh! nunca... nunca!
+
+--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende
+ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna
+á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos,
+jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo,
+esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao
+amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E
+quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde
+caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho
+innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença
+e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha
+amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres
+qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo,
+reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso
+homem que foi teu pae.
+
+--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem
+na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?
+
+--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula.
+
+--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de
+pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso
+amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos
+negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga,
+no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...
+
+Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:
+
+--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe
+confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de
+seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe
+não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana...
+Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que
+tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo
+para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não...
+não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada
+com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!
+
+--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te
+proponho não é bem isso que tu suppões...
+
+--O que me propões então?
+
+--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas
+certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse
+encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do
+padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado
+as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma
+tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande
+consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e
+feliz da minha maternidade.
+
+--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de
+monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?
+
+--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho
+que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu
+leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...
+
+--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser
+dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe
+legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...
+
+--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o
+sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento
+do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce,
+tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um
+coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos!
+não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos
+secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de
+dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e
+fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.
+
+Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e
+não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias...
+Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho,
+Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça
+viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre
+pae.
+
+Helena guardou silencio.
+
+--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos...
+e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse
+rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo
+tencionas demorar-te aqui, minha amiga?
+
+--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...
+
+Helena teve um sorriso estranho.
+
+--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra
+significação não escapou a madre Paula.
+
+A freira atalhou:
+
+--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,
+conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos
+prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no
+isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo
+de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua
+existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
+teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte,
+justamente porque a vida te offereceria encantos.
+
+--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de
+primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,
+sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,
+minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas
+illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha
+mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e
+socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola
+da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma
+ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de
+que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de
+minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de
+miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do
+corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo,
+conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o
+infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel
+de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me
+abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
+bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no
+teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos
+teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...
+
+--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu
+sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de
+aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi
+nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...
+Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei
+pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta
+eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração
+deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que
+tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não
+amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para
+aquelle que te perdeu...
+
+--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a
+mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse
+já indigna da estima de um homem de bem.
+
+--Fallas de Julio de Montarroyo?
+
+--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e
+fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!
+
+--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?
+
+--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo
+e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente
+insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de
+Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha
+nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
+Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,
+minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha
+de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...
+
+Calou-se offegante e exhausta.
+
+--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter
+trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a
+trouxe...
+
+--Uma grande riqueza, dizes?
+
+--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma
+noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa
+alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
+cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu
+correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar
+para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa
+justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao
+_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de
+rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
+tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive
+a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E
+essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o
+amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho
+parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas
+que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas
+porque o seu thesouro ninguem o descobriria...
+
+Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de
+Helena...
+
+--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos
+momentos...--disse ella.
+
+--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou
+bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o
+olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais
+sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli...
+manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o
+producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o
+inferno confunda!
+
+--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do
+pae?
+
+--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado
+pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não
+fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida...
+Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas
+horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca
+mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso...
+Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve
+ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de
+lá...
+
+--E viverá ainda?
+
+--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o
+remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,
+mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas
+tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes
+pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.
+
+--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez
+mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e
+fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.
+
+Disse e saiu deixando a doente em repouso.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+Coração morto
+
+
+Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,
+consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.
+
+O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia,
+foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.
+
+Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.
+
+O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a
+amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam
+gozar na plenitude da ventura que sonharam.
+
+No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles.
+Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e
+andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara
+exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no
+convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
+incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas
+companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os
+olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
+louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na
+sua retina de allucinada.
+
+E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos
+dezoito annos decorridos.
+
+Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha
+destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles
+rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia
+crudelissima.
+
+Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se
+encararam, quasi sem se reconhecerem.
+
+Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda
+que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a
+reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.
+
+--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?
+
+--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a
+vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria
+dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa...
+Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está
+presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é
+assim?
+
+Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e,
+levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:
+
+--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua
+imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração
+unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a
+encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que
+lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
+procura.
+
+--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos
+olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal
+que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,
+Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais
+amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me
+e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro
+gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu
+pobre coração de mulher...
+
+--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a
+chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu
+pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!
+
+--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em
+semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam
+ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora
+em rosto a minha recusa!
+
+--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em
+dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...
+
+--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o
+luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.
+
+Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos
+labios respeitosamente exclamando:
+
+--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos
+tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para
+a felicidade...
+
+--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e
+misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse
+viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta
+confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo...
+amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á
+beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a
+sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...
+
+--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu
+pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem
+as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas
+em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por
+Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e
+da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha
+desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!
+
+--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em
+Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não
+tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em
+Paris.
+
+--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e
+convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse
+noticias suas?
+
+--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.
+
+--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura
+a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não
+foi realmente para Paris?
+
+--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me
+perdeu!
+
+--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como
+verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!
+
+--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!
+
+--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações,
+aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa
+fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas
+religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia,
+á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce
+as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da
+sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a
+encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto
+a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava
+presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante
+pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem
+resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não
+podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos
+cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de
+seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a
+minha unica aspiração n'este mundo.
+
+Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes
+de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.
+
+--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz
+Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu
+pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de
+affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de
+mais ventura! .......................................................
+.......................................................
+
+Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que
+mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a
+narrativa de Julio.
+
+Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por
+aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da
+loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio
+arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:
+
+--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em
+expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me
+concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!
+
+E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:
+
+--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em
+que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá
+nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque
+Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria
+monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um
+martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento
+absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não
+póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho
+de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que
+eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê,
+recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga,
+comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu
+crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um
+ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu
+assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca
+de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de
+outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na
+condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e
+resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de
+uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e
+os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha
+duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!
+
+Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo
+violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.
+
+Julio de Montarroyo tentou socegal-a.
+
+--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que
+esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu
+lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não
+desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que
+virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão
+tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que
+Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na
+ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na
+companhia d'aquelles a quem mais queremos?
+
+Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a
+estas palavras.
+
+Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma
+um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.
+
+--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,
+quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a
+encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua
+casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de
+ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só
+que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu
+sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no
+mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois
+no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...
+
+--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu
+amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo
+abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar
+no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...
+
+--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo
+pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a
+vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.
+
+--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a
+nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a
+confiou?
+
+--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo
+que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me
+condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que
+me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!
+
+--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui,
+deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o
+calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a
+vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...
+
+Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e,
+extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas
+lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.
+
+
+
+
+XXIX
+
+Confidencias
+
+
+Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós
+ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já
+uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre
+Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de
+Paulo dava o tractamento de _Mestre_.
+
+O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca
+de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece
+ser o seu discipulo querido.
+
+--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?
+
+--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de
+Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do
+desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro,
+persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella
+recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,
+inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento
+que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.
+
+--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a
+suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.
+
+--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a
+sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu
+indicio compromettedor.
+
+--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?
+
+--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico
+bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças
+que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente
+preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar
+este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria
+jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.
+
+--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada
+com a eliminação d'aquella existencia...
+
+--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,
+partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre
+Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a
+pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.
+
+--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos
+occulos, frazindo o sobr'olho.
+
+--Partiu.
+
+--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula
+n'esse logar?
+
+--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que
+tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos
+annos, e que se encontrava perigosamente enferma...
+
+O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma
+explicação para este facto.
+
+--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é
+extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe
+fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva
+importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...
+
+--Tambem me quiz parecer isso.
+
+--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho
+chamamento ha de saber-se...
+
+--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...
+
+--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de
+si madre Paula.
+
+--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda
+a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre
+bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber
+com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a
+prodigiosa importancia que conquistou.
+
+O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os
+olhos no seu interlocutor e disse:
+
+--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um
+instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr
+alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa
+mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a
+vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder
+de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou
+destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se
+exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os
+seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser
+observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra,
+e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar
+conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria
+divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_
+dispõe».
+
+--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre,
+poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de
+modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses
+communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um
+espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a
+cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.
+
+O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um
+tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:
+
+--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está
+reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é
+realmente grandiosa.
+
+--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para
+tamanha empreza.
+
+--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes,
+eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa
+Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo
+depois da minha morte.
+
+--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.
+
+--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo
+tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem
+d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que
+eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na
+vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia
+deixar de pensar em ti como meu continuador...
+
+--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.
+
+--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o
+unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és,
+portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e
+brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão
+Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo
+poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.
+
+--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo,
+essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo
+pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?
+
+O Mestre sorriu.
+
+--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has
+n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e
+consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha
+aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir
+desassombradamente o caminho que encetei.
+
+Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a
+preto e com fechos de metal.
+
+--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer,
+basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro,
+aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e
+te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este
+homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces.
+Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem
+toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu
+filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de
+compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos
+nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal
+feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.
+
+Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente
+commovido.
+
+--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de
+ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a
+perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver
+morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico
+Mestre.
+
+Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns
+instantes.
+
+Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz
+áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que,
+consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,
+dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e
+terriveis associações secretas dos nossos dias.
+
+--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era
+indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de
+partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas
+como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á
+ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever
+é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações
+precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito,
+assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo.
+
+
+
+
+XXX
+
+Mãe
+
+
+Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto
+de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua
+companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o
+aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto
+ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.
+
+No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de
+Helena e disse-lhe sorrindo:
+
+--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da
+tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?
+
+--O que queres dizer?
+
+--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te
+abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua
+mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...
+
+--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de
+terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da
+minha deshonra?
+
+--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu
+sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão
+perto de sua mãe...
+
+--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa
+angustia!
+
+--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua
+vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror
+experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E
+comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te
+restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada
+te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença
+te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de
+ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e
+apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como
+uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...
+
+Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma
+acquiescencia.
+
+As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a
+doente nada tinha a oppôr-lhes.
+
+--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem
+mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...
+
+--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a
+religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos
+impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse
+de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua
+infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...
+
+--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço.
+
+Paulo foi introduzido no quarto da doente.
+
+O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se
+do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação
+tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito
+de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os
+esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.
+
+--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a
+Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e
+santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a
+vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque,
+em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados
+direitos... de filho.
+
+--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e
+estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga
+Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr
+que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...
+
+--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas
+palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e
+tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via
+de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o
+meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á
+saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um
+louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a
+encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação
+se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz
+bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria
+minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um
+pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita
+vida... Antes assim!
+
+--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...
+
+--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a
+hesitação de Helena.
+
+--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de
+perguntar.
+
+--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem
+porquê...
+
+--Naturalmente, appellido de seus paes...
+
+--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram
+Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou
+podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me
+alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...
+
+--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o
+sobresalto--Conhece-a?
+
+Paulo indicou rindo madre Paula:
+
+--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora
+que v. ex.^a tem por amiga?
+
+Madre Paula interveio:
+
+--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não
+obstante saber que não é a mim que deve a existencia...
+
+--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que
+carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e
+santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se
+para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a
+existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão
+independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se
+julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não
+envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com
+aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros
+paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.
+
+--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou
+Helena com os olhos fitos nos do filho.
+
+--Não os odeio, minha senhora, lamento-os.
+
+--Por natural instincto do coração talvez...
+
+--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte
+de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram
+no crime ou na cobardia.
+
+--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde
+saber se elles fôram cobardes ou criminosos?
+
+--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no
+mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me
+negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me
+não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu
+nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção
+reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem
+de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua
+situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me
+_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida
+resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois
+desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser
+para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser
+dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e
+ao cumprimento dos seus deveres.
+
+--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito
+que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de
+cada vez mais sumida.
+
+--Não, minha senhora--replicou Paulo serenamente--não os repudiaria, que
+não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas
+se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se
+tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a
+minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram
+paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe.
+
+Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção
+facil de explicar.
+
+--Tem razão--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos
+forçassem sua mãe a...
+
+--A não ser minha mãe?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim
+cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento
+conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha mãe teve
+motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e
+compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que
+justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella.
+De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe
+de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia
+apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.
+
+--Quem sabe?--observou madre Paula--Não admittiste ha pouco a hypothese
+de que possam soffrer ou arrepender-se?
+
+--No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque
+tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos
+com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a
+mim? O facto é, minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para
+Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou
+feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.
+
+--Deve muito á Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha
+tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...
+
+--É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a
+mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...
+
+--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou,
+docemente reprehensiva, madre Paula--É muito avançar, quando nada sabes
+a esse respeito, Paulo!
+
+O mancebo sorriu.
+
+--Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente
+d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica
+que me illucide ácerca do meu nascimento.
+
+E voltando-se para Helena:
+
+--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos
+carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela
+grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros,
+nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem,
+tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de
+penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que
+amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o
+nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os
+conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á
+sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de
+um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o
+segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias,
+quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o
+abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.^a
+d'esta opinião, minha senhora?
+
+--De certo--murmurou Helena com voz tremula.
+
+--Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem
+quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de
+revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles
+procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder.
+D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar
+para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se
+forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou
+completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a
+estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama
+que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um
+extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por
+apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!
+
+Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella
+alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.
+
+Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude
+despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos
+gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se
+extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de
+compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara.
+
+--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um coração dotado
+de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque
+nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para
+com aquelles que o offenderam ou aggravaram...
+
+O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a
+madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que
+se passava na alma da sua amiga.
+
+--Paulo é um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um
+olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a
+sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque é justo não
+esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo
+todos os extremos e disvellos de um pae.
+
+O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da
+sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e
+reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas
+horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de
+todo familiarisada com o filho.
+
+Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o
+espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a
+sós com Helena, perguntou-lhe:
+
+--E então?
+
+--Então, minha querida Paula--exclamou a enferma--é bem meu filho, é bem
+o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está!
+
+--Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo
+na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não
+será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques
+ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de
+tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te
+rodeiam?
+
+Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de
+felicidade.
+
+--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na
+companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me
+conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois
+que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada!
+
+--Porque?
+
+--Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora
+todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho:
+«Sou tua mãe!»
+
+
+
+
+XXXI
+
+O homem dos oculos verdes
+
+
+Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na
+casa de D. Aurelia.
+
+Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de
+salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de
+modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes
+reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços
+de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á
+infeliz victima do padre Anselmo.
+
+A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios,
+sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel
+cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada
+de dôres physicas e moraes.
+
+Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão
+cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver
+ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.
+
+Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a
+recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções
+fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.
+
+O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era
+amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que
+tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva.
+
+Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo,
+quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo
+para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza
+pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.
+
+Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.
+
+Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos
+calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma
+sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que,
+ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura.
+
+Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da
+longa jornada.
+
+D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a
+recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si
+aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo.
+
+--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa
+suavidade--peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a
+fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas
+a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v.
+ex.^a não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir.
+
+--Não conheço a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com
+simplicidade--mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir,
+rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.
+
+O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:
+
+--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser
+assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só
+deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente
+n'esta casa...
+
+D. Aurelia fitou-o perplexa.
+
+--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a
+gente ignora...
+
+O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.
+
+--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos.
+Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia
+que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para
+bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena
+permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a
+certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente
+achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a
+sepultura um segredo que me não pertence...
+
+--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha?
+
+--É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso
+ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção.
+
+--A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente...
+
+--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.
+
+--O medico recommendou que lhe evitassemos commoções violentas...
+
+--Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor
+commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não
+conheço a ella.
+
+--Mas o objecto da sua visita...
+
+--Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o
+desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e
+mais natural d'este mundo.
+
+--Quem devo, pois, annunciar á minha amiga?
+
+--Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se
+v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro
+pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse
+para ella.
+
+D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava
+conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e
+convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da
+provincia.
+
+Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos
+physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve
+completamente restabelecida.
+
+Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos
+de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que
+elles fossem casados.
+
+--Elle não saberá nunca que sou sua mãe--dizia ella--e eu poderei vêl-o
+e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
+quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que
+elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado,
+d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito,
+que tanto fiz soffrer!
+
+Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena
+estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida.
+
+--Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por
+melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia
+indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o
+futuro, relativamente feliz, será teu.
+
+D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a
+rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.
+
+Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito,
+disse-lhe sorrindo:
+
+--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...
+
+--Quem?--interrogou Helena.
+
+--Um desconhecido que pretende fallar-te...
+
+--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto.
+
+--Sim. Um desconhecido para mim e para ti.
+
+--O que quer elle?
+
+--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...
+
+--A mim?!
+
+--A ti.
+
+--Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço?
+
+--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na
+vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o
+incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te
+encontrasse ou tivesse noticias tuas...
+
+--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo.
+
+--Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem.
+
+--Como sabe esse homem que eu estou aqui?
+
+--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços
+para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga
+minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito.
+Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade
+para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...
+
+--Queres, pois, que o receba?
+
+--Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...
+
+--Pois bem; faça-se a tua vontade...
+
+--A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és
+tu...
+
+--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer
+revelações!...
+
+--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem
+segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir
+aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para
+ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo
+em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te,
+encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos
+diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a
+fortuna, quando tu menos a esperas?
+
+Helena sorriu incredula.
+
+--Não creio--disse ella--mas seja o que fôr, desde que se trata de um
+segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.
+
+D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem
+dos oculos.
+
+Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o
+reconheceu.
+
+O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que
+D. Aurelia se retirasse.
+
+--Fica!--pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para
+a sua amiga.
+
+--Perdão!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a é
+tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem.
+
+--Não tenho segredos para a minha amiga...
+
+--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a
+ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que
+nos não pertencem. V. ex.^a não tem o direito de tornar publico um
+segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua
+familia...
+
+Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos
+tremula e confundida.
+
+--Este cavalheiro tem razão--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala
+proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.
+
+E sahiu.
+
+Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e
+disse-lhe em voz soturna:
+
+--Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu
+cumplice!
+
+Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no
+homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato
+do padre Anselmo.
+
+--Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da
+paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos
+ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te
+baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim.
+Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto
+Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um
+assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo
+isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames
+outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo
+não será mais venturoso comtigo do que eu.
+
+--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse
+nome?
+
+--Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de
+Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha.
+Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos,
+rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti,
+quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o
+meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por
+saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na
+tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te
+que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que
+não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
+áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto
+a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou
+preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará
+alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos
+na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para
+morrer.
+
+--Mate-me! mate-me!--soluçou Helena, pondo as mãos.
+
+Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que
+abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:
+
+--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido
+o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este
+beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa.
+Vamos! aqui tens a morte.
+
+E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou
+o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.
+
+--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me
+ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
+em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse
+eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!
+
+--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruçando-se no
+leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro
+feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do
+tumulo!
+
+Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito
+amor:
+
+--Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta
+vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas
+eternas! Lá nos havemos de encontrar.
+
+Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem
+deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a
+alma.
+
+Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as
+pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente,
+como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.
+
+Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou
+suspeitar-lhe a verdadeira causa.
+
+Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver
+e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver
+tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu
+um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da
+mulher que tanto amara!
+
+
+
+
+Conclusão
+
+
+Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe,
+regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram
+chamar Paulo de Noronha.
+
+--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de
+ferro quadrado--eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma
+fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que
+hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão
+n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o
+teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do
+nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular
+com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace.
+
+Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre
+Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.
+
+--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro?
+
+--De teus paes--respondeu madre Paula.
+
+--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperança de
+que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.
+
+--Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome.
+Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e
+justa.
+
+Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a
+Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:
+
+--Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa
+de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz
+que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.
+
+--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os
+crimes do pae!--replicou madre Paula.
+
+No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr.
+Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a
+noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
+da _Irmã Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_
+e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.
+
+E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador
+Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor,
+que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
+para Lisboa em companhia de João Lazaro.
+
+Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mão Negra_, nunca mais
+Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na
+direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e
+poderosa de todas as suas irmãs.
+
+FIM
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+ PAG.
+
+I--Os irmãos da mão negra 5
+
+II--Amor e esperança 23
+
+III--Pae e filha 43
+
+IV--Dois patifes 69
+
+V--Madre Paula 78
+
+VI--Á hora da morte 87
+
+VII--Tres miseraveis 103
+
+VIII--Entre irmãos 124
+
+IX--Amores faceis 135
+
+X--Para os grandes males 153
+
+XI--João Lazaro 168
+
+XII--Velhos conhecimentos 181
+
+XIII--Denuncia 211
+
+XIV--Miseravel! 239
+
+XV--Conluio infame 255
+
+XVI--O rapto 262
+
+XVII--Quem semeia ventos 280
+
+XVIII--Revelação 289
+
+XIX--Um velho amigo 304
+
+XX--Alma negra 317
+
+XXI--Tal vida, tal fim 333
+
+XXII--Mysterio 346
+
+XXIII--Allucinação 357
+
+XXIV--Extranho encontro 369
+
+XXV--Pobre Helena 389
+
+XXVI--Um amigo dos diabos 399
+
+XXVII--Duas amigas 411
+
+XXVIII--Coração morto 427
+
+XXIX--Confidencias 436
+
+XXX--Mãe 442
+
+XXXI--O homem dos oculos verdes 452
+
+Conclusão 461
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 8| ter fôr | te for |
+ |#pág. 17| a aquella | aquella |
+ |#pág. 18| danda-nos | dando-nos |
+ |#pág. 23| algum temdo | algum tempo |
+ |#pág. 24| pancado | pancada |
+ |#pág. 25| com | como |
+ |#pág. 35| Na primeiro | No primeiro |
+ |#pág. 43| pupilllo | pupillo |
+ |#pág. 70| mefica | me fica |
+ |#pág. 98| ella | elle |
+ |#pág. 99| pabre | padre |
+ |#pág. 109| palava | palavra |
+ |#pág. 111| famila | familia |
+ |#pág. 112| devo ou | devo eu |
+ |#pág. 127| circumstancios | circumstancias |
+ |#pág. 140| continou | continuou |
+ |#pág. 162| aprsentou | apresentou |
+ |#pág. 164| auctoridado | auctoridade |
+ |#pág. 169| importaacia | importancia |
+ |#pág. 190| as as minhas | as minhas |
+ |#pág. 194| muduram | mudaram |
+ |#pág. 201| tembem | tambem |
+ |#pág. 202| risonha | risonhas |
+ |#pág. 223| dinheiro | o dinheiro |
+ |#pág. 226| trasnporte | transporte |
+ |#pág. 235| respendeu | respondeu |
+ |#pág. 258| dm | em |
+ |#pág. 260| mutio | muito |
+ |#pág. 263| prepada | preparada |
+ |#pág. 263| seguiramos | seguiram os |
+ |#pág. 267| pergunou | perguntou |
+ |#pág. 271| as sentidos | os sentidos |
+ |#pág. 288| ciosa | coisa |
+ |#pág. 310| o gente | a gente |
+ |#pág. 311| semelhanle | semelhante |
+ |#pág. 311| qne | que |
+ |#pág. 315| esssas | essas |
+ |#pág. 317| a molestias | as molestias |
+ |#pág. 333| pelo colera | pela colera |
+ |#pág. 344| Lenor | Leonor |
+ |#pág. 350| desconhcida | desconhecida |
+ |#pág. 357| horrrivel | horrivel |
+ |#pág. 357| algnma | alguma |
+ |#pág. 365| pssou | passou |
+ |#pág. 366| ssforços | esforços |
+ |#pág. 430| Juliod e | Julio de |
+ |#pág. 442| fiho | filho |
+ |#pág. 450| setas | estas |
+ |#pág. 450| o reprimendas | e reprimendas |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam
+reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico,
+substituindo os dois pontos horizontais por três.
+
+Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter
+de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e
+Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.
+
+Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no
+original capítulo XIV da página 211), uma vez que houve um erro
+confirmado com a ordem correcta do índice.
+
+Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde
+faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas.
+
+Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e
+vice-versa.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
+António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
+
+***** This file should be named 24625-8.txt or 24625-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/6/2/24625/
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+creating derivative works based on this work or any other Project
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
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+
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+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
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+that
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+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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